Matrimônio Sob Ameaça
Annette Broadrick
Título Original: But not for me (2002)
Título em espanhol: Matrimonio bajo amenaza
Casal Principal: Brad Phillips e Rachel Wood
Gênero: Contemporâneo
Capítulo 1
ONDE estará? Brad Phillips pendurou o telefone bruscamente. Não tinha obtido resposta em casa de Rachel Wood. Só tinha ouvido a alegre gravação de sua secretária
eletrônica, convidando-o a deixar seu nome e seu número de telefone. Mas Rachel já sabia seu nome e seu número de telefone. Brad era seu chefe, e ela deveria estar
trabalhando há horas.
Impaciente e um tanto nervoso por sua ausência, Brad empurrou a cadeira do escritório, levantou-se e começou a passear pelo escritório. Rachel trabalhava para
ele há oito anos e nunca deixou de avisar se ia chegar tarde.
"Mas onde ela está?" Brad olhou seu relógio. Quando ele chegava ao trabalho pela manhã, por volta das sete e meia, Rachel já estava em seu posto, trabalhando
com esforço. O qual significava que já chegava com mais de duas horas de atraso.
A única possibilidade que lhe ocorria, e só a idéia lhe dava medo, era que tivesse sofrido um acidente no caminho do escritório e estivesse caída inconsciente
em algum lugar, sem poder chamá-lo. Essa manhã, Brad já tinha levantado duas vezes o telefone para chamar os hospitais da área metropolitana de Dallas, Texas, para
saber se Rachel tinha ingressado em urgência em algum deles. Ao final, tinha conseguido convencer-se de que fazer aquelas chamadas era inútil, pelo menos no momento.
A razão lhe dizia que era muito cedo para deixar-se levar pelo pânico. Sem dúvida havia uma razão perfeitamente lógica para que Rachel não se pusesse em contato
com ele. Mas, por desgraça, não lhe ocorria nenhuma.
Seguiu caminhando de um lado a outro, perguntando-se quanto tempo tinha que esperar para poder dar parte à polícia do desaparecimento de uma pessoa. Certamente
mais de duas horas, o qual significava que não podia fazer nada, salvo esperar. Mas esperar não era precisamente sua atividade favorita. Ou sua inatividade favorita,
melhor dizendo. Desde que nunca tivesse considerado a paciência uma virtude. A paciência lhe parecia uma completa perda de tempo.
Soou o interfone e Brad se precipitou sobre a mesa.
-Sim?
Janelle, sua secretaria, disse:
- Queria te recordar que as dez tem uma reunião com o Arthur Simmons.
- Obrigado - respondeu ele.
Saiu da escrivaninha e se aproximou da janela. Justo o que necessitava, pensou, sentindo-se ainda mais irritado e nervoso: uma reunião com o Arthur Simmons
sem a Rachel como mediadora.
Simmons era um gênio dos números e da estratégia financeira. Tinha economizado ao Brad muitíssimo dinheiro desde que dirigia o departamento de contabilidade
de Construções Phillips. Brad se considerava afortunado por contar com ele. Entretanto, temia reunir-se com ele. Simmons era sem dúvida um dos homens mais aborrecidos
que tinha conhecido em toda sua vida, e Rachel lhe servia como via de escape nas reuniões com o contador. Ela sabia quando estava farto de escutar a lengalenga monótona
e exasperante do Simmons, e tinha o dom de pôr fim às reuniões sem ofender a ninguém. Se Rachel não aparecia nos quinze minutos seguintes, Brad teria que enfrentar
só às intermináveis explicações de seu chefe de contabilidade a respeito dos últimos balanços do departamento. As cifras eram essenciais, e Brad seria o último em
negar sua importância, mas preferia lhes jogar uma olhada por sua conta a ter que aguentar que alguém as explicasse com infinita minuciosidade.
Talvez fosse a atitude do Simmons o que o irritava tanto. Arthur provinha de uma rica e aristocrática família do Este. Durante as entrevistas que precederam
a sua incorporação à empresa, tinha deixado bem claro que, em que pese a sua riqueza, sentia-se chamado a compartilhar sua experiência e seus conhecimentos com o
resto da humanidade. Em opinião do Arthur, o resto da humanidade parecia resumir-se em Construções Phillips, mas a Brad dava igual, com tal de que seguisse economizando
grandes somas de dinheiro à companhia.
Embora fossem mais ou menos da mesma idade, Brad e Simmons não podiam ser mais distintos. Brad tinha subido pelo caminho difícil. Era um menino da rua que ao
final tinha levantado uma construtora multimilionária com pouco mais que seu suor, suas mãos nuas e a coragem de um homem que acreditava em seu potencial. Era provável
que Simmons, em troca, não tivesse derramado uma gota de suor trabalhando em todos os dias de sua vida. Não. Simmons tinha estudado nos melhores colégios privados
e se graduou com excelentes qualificações em uma prestigiosa universidade do Este.
Entretanto, Brad não o invejava. A diferença de origens só sublinhava o fato de que não tinham nada em comum, salvo o objetivo de aumentar os benefícios da
companhia. Do ponto de vista do Brad, ele era uma pessoa fisicamente forte. Simmons, em troca, era um adoentado e um burocrata. Suas mãos perfeitamente cuidadas
deixavam claro que o mais pesado que tinha levantado era um lápis.
Agitado, Brad se separou da janela e passou a mão pelo cabelo. Necessitava de sua insubstituível assistente, e a necessitava já. Obrigou-se a retornar à mesa,
ouvindo quase a voz de Rachel lhe dizendo que relaxasse e se armasse de paciência. Deixou-se cair na cadeira dando um suspiro. A voz de Rachel ressonava frequentemente
em sua cabeça. Imaginava que ela o tinha adotado como uma espécie de obra social.
Nunca esqueceria o dia que a contratou. Naquele momento, não sabia que aquela seria a decisão mais acertada de sua vida. Então tinha vinte e cinco anos e dirigia
com carinho uma companhia emergente, trabalhando muitas horas e dormindo quase todas as noites no barracão da obra que estivesse construindo nesse momento. Dispunha
de uma equipe de operários, mas não tinha a ninguém que soubesse cuidar da papelada. Nem sequer ele sabia como fazê-lo. Tinham-lhe concedido um contrato para a construção
de um teatro no norte de Dallas, o encargo mais importante de sua carreira. Mas quando a euforia se dissolveu, Brad compreendeu que não podia seguir dirigindo a
empresa do seu apartamento e do barraco da obra. Necessitava um escritório de verdade... Com empregados de escritório de verdade. A idéia lhe resultou aterradora.
Ter um escritório significava contratar, pelo menos, a uma recepcionista, uma secretária e um contador. O problema era que não podia permitir-se contratar a tanta
gente. Naquele momento, ao menos. Mas tinha o pressentimento de que, quando acabasse de construir o teatro, choveriam trabalhos. Sabia que oferecia obras de qualidade.
Tinha trabalhado com esforço para edificar sua reputação de homem honesto, íntegro e transparente. Sim, choveriam trabalhos, mas até então teria que trabalhar com
um orçamento irrisório. Confrontando a realidade de sua situação, pôs um anúncio para contratar uma recepcionista, com a esperança de que quem solicitasse o posto
pudesse fazer algo mais que responder ao telefone.
Seu primeiro passo foi alugar um escritório. Negociou o preço com o proprietário lhe oferecendo fazer reparações no edifício sempre que fosse necessário, e
reformou o escritório trabalhando pelas noites e nos fins de semana. Quando inseriu o anúncio de oferta de emprego no jornal, o escritório era ainda um desastre,
de modo que teve que procurar um lugar onde fazer as entrevistas. Ao final, escolheu uma cafeteria perto da obra.
No primeiro dia que publicou o anúncio, seu telefone não deixou de soar. Brad estava encantado. Sem dúvida encontraria a alguém qualificado em questão de dias.
Uma semana depois não estava tão encantado. Aí então, já sabia que tinha sérios problemas. Ou a candidata ao posto pedia muito dinheiro ou parecia não saber como
atender as chamadas nem tomar as mensagens. À terceira semana, estava desesperado.
E então chamou Rachel Wood.
- Construções Phillips - gritou ele, para fazer-se ouvir por cima do ruído ensurdecedor da obra.
Com uma voz fria e refinada, ela disse:
- O senhor Phillips, por favor.
Céus, sua voz soava tão profissional que a Brad pareceu a assistente administrativa de um conselheiro delegado.
- Sou eu - disse sorrindo. E começou a fantasiar sobre o aspecto que teria aquela mulher de voz musical e, entretanto, levemente áspera.
- Tenho entendido que está procurando uma recepcionista. Ainda está livre o posto?
Brad, que estava recostado em sua cadeira lendo uns informes, esteve a ponto de cair por ouvir suas palavras. Tentando manter o equilíbrio, apoiou os pés firmemente
no chão e disse:
- Eh... Sim. O posto está livre se lhe interessar.
Ela deixou escapar um leve suspiro que ao Brad pareceu de alívio. Mas quando voltou a falar parecia perfeitamente tranquila.
- Quando poderíamos fixar uma data para a entrevista?
Brad esteve em um triz de lhe dizer que o trabalho já era dela se quisesse, mas conseguiu refrear-se. Possivelmente aquilo fora um mal-entendido, mas ao menos
queria vê-la em pessoa para satisfazer sua curiosidade. Com uma recepcionista como aquela, seu escritório pareceria imediatamente um negócio florescente, estável
e de confiança. Já começava a lamentar não ter suficiente dinheiro para contratá-la.
Olhou seu relógio.
- É muito tarde para que venha hoje? - perguntou, e conteve o fôlego.
- Absolutamente. Se for tão amável de me dizer sua direção e uma hora que lhe seja boa, ali estarei.
Aí vinha a parte complicada.
- Bom, a verdade é que meu escritório não estará pronto até a semana que vem, mas há uma cafeteria, perto da obra em que estamos trabalhando, em que poderíamos
nos encontrar, se lhe parecer bem. Digamos... Por volta das cinco?
- Perfeito - respondeu ela com uma cortesia que ao Brad pareceu atrativa e tranquilizadora.
Deu-lhe a direção e as indicações para chegar. Depois de desligar, ficou sentado olhando a parede. "Não te emocione", advertiu-se. "Quando souber quão pequena
é a empresa, toda a papelada que há e o irrisório do salário por-se-á a rir em sua cara."
Brad procurou concentrar-se nos informes antes de voltar para trabalho com a equipe. À medida que passava o dia, olhava de vez em quando o relógio para assegurar-se
de que não chegaria tarde à entrevista.
Quando entrou na cafeteria, e apesar de ter se limpado, sua roupa, uns jeans gastos, uma camisa com as mangas cortadas e umas botas de trabalho cobertas de
pó e gesso, evidenciavam o que era: um trabalhador da construção. Sim, era o chefe, mas também era consciente de que suas maneiras eram muito toscas para alternar
com a clientela que esperava atrair.
Percorreu com o olhar o pequeno café, dando-se conta muito tarde de que tinha se esquecido de perguntar a Rachel Wood como era. Passou a mão pela cara, franzindo
o cenho. De acordo. Teria que proceder por eliminação. Quantas mulheres sós havia ali? Por desgraça, ao menos cinco. Alguma delas o olhava? Baixou a cabeça e olhou
as botas, envergonhado. Todas o estavam olhando, e duas delas com cara de lobas.
Uma intensa sensação de alívio o embargou ao ouvir às suas costas uma voz conhecida que dizia:
- Desculpe, é você o senhor Phillips?
Brad deu a volta e se encontrou com o frio olhar verde de uma jovem muito atrativa, vestida com um traje alfaiate da cor de seus olhos. Tinha o cabelo castanho
escuro, recolhido para trás em um coque, e sua cara era ovalada. O cocuruto de sua cabeça chegava ao nível do queixo do Brad.
- Você deve ser a senhorita Wood - respondeu ele, aliviado.
Ela assentiu sorrindo.
- Sentei-me ao fundo para que possamos falar com mais tranquilidade.
Brad estava tão embebido escutando sua voz que mal entendeu o que dizia. Em pessoa, parecia ainda mais educada que por telefone. Rachel Wood era uma dama no
sentido clássico. Brad ficou um tanto intimidado por sua beleza, seu aprumo e sua refinada educação. Desejou ter tido tempo de passar por seu apartamento para trocar-se,
mas já era muito tarde.
Brad lhe indicou que o precedesse e imediatamente pôde desfrutar de uma panorâmica de suas costas reta, seu passo seguro e sua esbelta figura, que o elegante
traje quase ocultava por inteiro.
Sentaram-se frente a frente. A garçonete apareceu em seguida.
- Olá, Brad - disse lhe lançando o sorriso sedutor que sempre lhe dedicava.
- Olá, Mitzi, me traga só uma xícara de café, por favor.
Mitzi olhou ao Rachel e assinalou a xícara que tinha diante.
- Quer outro café?
- Não, obrigada.
Quando a garçonete partiu, Brad olhou a Rachel perguntando-se por onde começar. Tinha entrevistado a dúzias de mulheres, mas esse dia se sentia como um tímido
adolescente em sua primeira entrevista. Ou como se fosse ele a quem iriam entrevistar.
- Devo lhe dizer, para começar, que tenho muito pouca experiência como empregada de escritório - disse ela como se confessasse um crime.
- O anúncio não pedia experiência, mas não quero enganá-lo.
- Que acha de aprender? - perguntou ele, sorrindo.
Rachel estava mais nervosa que ele, embora procurasse dissimulá-lo. Brad relaxou um pouco, recostou-se na cadeira e desfrutou da vista. "Que mulher tão bonita.
Muito acima de suas possibilidades", disse-se.
Ela assentiu rapidamente.
- Me diga o que quer que faça e o farei.
Mitzi voltou com o café. Brad inclinou a cabeça sem apartar os olhos de Rachel.
- Obrigada - murmurou.
- Sabe algo sobre o negócio da construção?
- Não, senhor.
Ele sentiu um calafrio.
- Eh, que não sou tão velho. Não precisa me chamar de "senhor" - notou que Rachel tremia a mão que tinha junto apoiada à xícara de café. Sim, estava nervosa.
Por ele? Pela entrevista? Tentando que se relaxasse, Brad lhe descreveu a companhia.
- Fundei minha própria empresa faz algo mais de três anos. Trabalho na construção desde que tive idade para me pôr um cinturão de ferramentas. Mas não sei nada
de faturas, nem de tabelas, nem de toda essa papelada que exige o escritório de arrecadação de impostos.
Ela tomou a xícara e bebeu delicadamente antes de dizer:
- Conforme acredito, o anúncio pedia uma recepcionista - disse com um leve tom de pergunta.
- Sim, porque quando abrir o escritório necessitarei de alguém que responda ao telefone. Não quero nem pensar nos trabalhos que perco por não revisar a secretária
eletrônica de minha casa mais frequentemente. Meto-me em um projeto e me esqueço de todo o resto, mas sei que não posso seguir assim ou perderei a boa sorte que
tenho.
- Sim, compreendo - disse ela lentamente. Fez uma pausa, como se procurasse as palavras adequadas. Por fim disse:
- A respeito do salário... - começou, mas se deteve quando ele agitou a mão, como se o salário fosse uma questão sem importância.
Sabia que aquela era a parte mais complicada. Perderia a assim que lhe dissesse qual era o salário. Tinha que convencê-la de que aquele emprego oferecia grandes
possibilidades de ascensão. Seu pai, um artista da fraude, tinha lhe dado inumeráveis exemplos de como convencer ao maior pintor de que o mundo era de cor de rosa.
- O certo é - disse com o que esperava que fosse um sorriso seguro - que tenho mais encargos dos que posso assumir, e isso que trabalho quase as vinte e quatro
horas do dia. Os trabalhos estão aí, entende? Mas de momento disponho de escassa liquidez. Se estiver disposta a trabalhar para mim, podemos estabelecer um salário
inicial com a promessa de que a soma aumentará regularmente à medida que cresça a empresa - embora ela não se movesse Brad teve a impressão de que se encolhia na
cadeira. Suspirou.
- Quanto esperava ganhar? - perguntou, quase contendo o fôlego.
- Não sei com cerpelea. Acabei a universidade em maio. Preciso encontrar trabalho.
- Minha mãe tem certos problemas de saúde e não pode trabalhar. Sacrificou uma vida cômoda para assegurar-se de que meu irmão, minha irmã e eu recebêssemos
uma boa educação. Não quero que se preocupe com o dinheiro. Já tem feito suficiente - parecia tranquila, mas a expressão dolorosa de seus olhos deixava entrever
suas emoções.
- Quer dizer que nunca trabalhou? - perguntou ele, esfregando a bochecha e dando-se conta de que deveria haver-se barbeado.
Ela esboçou um sorriso amargo.
- OH, sim trabalhei, senhor Phillips. Mas não em um escritório. Comecei a cuidar de meninos aos treze anos, trabalhei limpando mesas quando estava no instituto
e como garçonete na universidade. Assim sim, trabalhei antes - acrescentou brandamente.
Brad disfarçou para que não lhe notasse o assombro. Se lhe tivessem pedido que adivinhasse, haveria dito que Rachel Wood tinha nascido com uma colher de prata
na boca e que nunca tinha tido que mover um dedo para trabalhar.
- A que universidade foi? - perguntou, cheio de curiosidade.
- À Universidade Metodista do Sul. Queria estar perto de casa e por sorte me concederam uma bolsa que me permitiu fazê-lo.
- Então me tira muitas vantagens. Eu tive uma educação bem precária. Ia à escola noturna e trabalhava durante o dia - assim que deixou de falar, surpreendeu-lhe
lhe haver falado de suas origens. Ele nunca falava de seu passado. Seria como arrojar pedras sobre seu próprio telhado. Apressou-se a acrescentar.
- O que estudou?
Ela sorriu uma vez mais.
- Parecer-lhe-á estranho, tendo em conta que solicito um posto de recepcionista, mas estudei Ciências Empresariais: contabilidade, direito financeiro, direção
de empresas...
Seguiu lhe fazendo a lista das disciplinas que tinha cursado das que ele não sabia nada. Brad teve que beliscar-se para assegurar-se de que não estava sonhando.
Quando Rachel acabou, disse:
- Farei um trato com você.
- Adiante.
- Se trabalhar para mim a partir de segunda-feira que vem, poderá decidir seu salário. Revise os livros de contabilidade. Cobrará você o que quiser depois de
descontar os gastos. O que lhe parece?
- Não pode falar a sério - a desaprovação gelou suas palavras. Ao Brad não surpreendeu. Sua reação demonstrava que tinha escolhido à candidata perfeita para
o posto.
- Necessito a alguém com seus conhecimentos - disse para tentar convencê-la de que não era um farsante.
- Pensa aproveitar-se de mim?
Ela o olhou com recriminação.
- Certamente que não.
- Então não vejo qual é o problema.
- Nunca tinha ouvido tal coisa - pela primeira vez, olhou-o com receio.
Ele sorriu.
- Sim, sei o que está pensando, mas não, não me drogo e, além de uma cerveja de vez em quando, tampouco bebo.
- Como adivinhou o que estava pensando? - perguntou assombrada.
- Tem uma cara muito expressiva - respondeu ele, sem deixar de sorrir.
- Assim... Pensará? Posso levá-la ao escritório. Ainda faltam muitas coisas por fazer, mas lhe prometo que na segunda-feira terá um lugar onde trabalhar - fez
uma pausa, rezando para que aceitasse.
- De acordo - aceitou ela enfim, um tanto indecisa.
- Estupendo - disse ele ficando em pé imediatamente.
- A levo em meu carro?
Ela se levantou mais devagar e com muita mais elegância.
- É mais fácil que o eu siga no meu não crê?
Ele sorriu.
- Claro. Como preferir - deixou uma gorjeta na mesa, pagou os cafés e a acompanhou fora do local.
- Onde está seu carro? - lhe assinalou um carro barato muito velho, e também muito bem cuidado.
- O meu está aí - disse Brad, assinalando sua caminhonete desconjuntada, cuja pintura descolorida dissimulava eficazmente o pó.
Depois de acompanhá-la ao carro, aproximou-se de sua caminhonete e entrou. Esperou até que ela deu a partida e logo arrancou. Dirigiu-se a uma parte antiga
da cidade e estacionou no estacionamento de um edifício de tijolo vermelho dos anos trinta. Algum dia teria seu próprio edifício, ou um grande escritório em algum
prestigioso arranha-céu. Ficou junto à caminhonete e esperou que a senhorita Wood estacionasse a seu lado. Havia três vagas de estacionamento marcadas com sinais
que diziam Reservado Construções Phillips. Aquela era a prova física de que tinha subido no mundo empresarial. Com a ajuda da senhorita Wood, ninguém poderia deter
o crescimento de sua empresa. Naturalmente, aquele futuro não se refletia ainda em seus livros de contas, mas ele sabia que o dinheiro chegaria a torrentes nos anos
seguintes.
Tomaram o elevador e subiram até o terceiro andar sem dirigir a palavra. O escritório estava no piso superior, do que se divisava uma agradável panorâmica do
centro de Dallas.
Brad percorreu o corredor até o fundo e abriu uma porta com uma janela de vidro translúcido. Fazendo uma ligeira inclinação de cabeça, deu um passo atrás e
lhe indicou que passasse. Ela entrou no escritório recém-reformado e imediatamente se deteve.
- Veja... Não esperava que fosse tão grande.
Ele encolheu de ombros.
- Bom, pensei que, como vou estar aqui algum tempo, era preferível alugar todo o local enquanto ainda estivesse disponível. Além disso, terei que pôr salas
para os inspetores de obra, quando os tiver, e eu também necessitarei uma sala, igual a você. E tem que haver espaço para a recepcionista e...
Ela deu a volta e o olhou com as sobrancelhas arqueadas.
- Pensava que eu ia ser a recepcionista.
Ele assentiu.
- Sim, claro, a princípio. Mas, conforme vejo eu, algum dia será minha assistente administrativa e terá sua própria secretária. Se é que quer investir seu tempo
e sua energia neste trabalho, claro.
Ela se aproximou de uma das janelas e olhou fora. Os dois homens da equipe do Brad que estavam acabando a reforma tinham deixado as ferramentas largadas por
toda parte, acreditando que ninguém veria aquele relaxamento. Brad estava tão acostumado à desordem da obra que até esse momento não tinha reparado nele. Ao ver
o local através dos olhos de Rachel, entendeu porque ela não se mostrou tão impressionada como esperava.
Rachel se separou da janela e olhou o local elevando levemente as sobrancelhas.
- Está seguro de que estará acabado até segunda-feira? Fica menos de uma semana.
- Isso não é problema. Acabaremos um par de habitações agora e deixaremos o resto como armazém. Como meus clientes nunca vêm ao escritório, não há razão para
pô-la elegante.
Ela assentiu pensativa, e seguiu inspecionando o escritório. Brad aguardou, não queria pressioná-la. Tinha-lhe feito a melhor oferta que podia fazer. A decisão
cabia a ela, mas desejava poder lhe mostrar de alguma forma sua visão do futuro da companhia. Não podia lhe oferecer garantias, certamente, mas sabia que o trabalho
duro produzia resultados assombrosos.
Brad a observou enquanto ela dava voltas pelo local. Sem virar-se, Rachel perguntou:
- Suponho que haverá móveis.
Ele pôs-se a rir.
- Trarão na segunda-feira. São de segunda mão, mas estão em muito bom estado.
Ela continuou passeando até que viu tudo. Logo se aproximou dele e lhe perguntou:
- A que hora quer que venha na segunda-feira?
Ele lançou um suspiro de alívio ao compreender que aquilo ia pelo bom caminho.
Após, Rachel e ele formavam uma equipe. Levavam oito anos trabalhando cotovelo com cotovelo, com eficácia e sem desacordo de nenhum tipo. Brad tinha a impressão
de que isso se devia mais à diplomacia de Rachel que a suas habilidades comunicativas. Depois de conhecê-la melhor, descobriu que era tão conservadora e bem educada
como lhe tinha parecido durante a entrevista. E, além disso, tinha uma sólida ética de trabalho, coisa que ele apreciava enormemente.
Rachel levava anos sem faltar um dia ao trabalho, face às ondas de calor abrasador, as trombas de água e as tormentas de temporal de neve e chuva que estalavam
de vez em quando no inverno. De modo que... Onde se tinha metido?
Brad não queria nem pensar o que ocorreria se Rachel não estivesse ali para ajudá-lo a dirigir a companhia. Ela se encarregava de todos os assuntos administrativos,
lhe deixando as mãos livres para fazer o que melhor lhe dava: construir edifícios comerciais.
Quando Rachel levava já três anos trabalhando na empresa, contrataram a mais gente, incluindo o Janelle. Pouco depois, o departamento de contabilidade necessitou
um chefe e Brad contratou ao Arthur Simmons. E, ao final, Rich Harmon se converteu em diretor administrativo.
Rachel não deixava de assombrá-lo. Frequentemente acompanhava-o aos jantares de negócios. Raramente falava; os clientes pensavam que estava ali em qualidade
de enfeite. Aquela crença dava ao Brad certa vantagem sobre eles, porque Rachel tinha um dom: era um gênio interpretando as expressões, a linguagem corporal e tudo
o que se dava por sentado, mas que não dizia em voz alta. Logo lhe contava a impressão que lhe tinha produzido a pessoa e lhe explicava como lhes oferecer o que
queriam da melhor maneira possível. Juntos preparavam a apresentação dos projetos, utilizando os dados que ela recolhia. Ao cabo de um par de anos, Rachel se tinha
convertido mais em uma sócia que em uma mera assistente. Brad lhe tinha devotado mais de uma vez fazê-la sócia da empresa, mas ela sempre se negava a discutir aquela
questão.
Sua relação atual inquietava ao Brad, não só porque Rachel não queria ser sócia da empresa, como merecia, mas sim pela atração que sentia por ela. Desagradava-lhe
a idéia de estar aproveitando-se dela. Rachel era sua igual nos negócios, mas ambos sabiam que, socialmente, Brad não estava a sua altura.
Nunca lhe tinha demonstrado a atração que sentia por ela desde o dia que a conheceu. O medo que Rachel deixasse a empresa se lhe sugerisse que saíssem juntos
lhe impedia de fazer ou disser algo que a ofendesse.
Umas semanas atrás tinham jantado juntos para celebrar outro êxito de Construções Phillips: seu primeiro trabalho fora do Estado. O projeto não só era fora
do Texas; tampouco se tratava de um edifício comercial. Um de seus clientes tinha pedido ao Brad que construísse uma residência do verão para sua mulher e para ele
nas montanhas, perto do Asheville, na Carolina do Norte.
Brad desprezou os maus augúrios do Cari Jackson, o supervisor chefe e diretor de projetos da empresa. Cari lhe havia dito que construir uma casa era muito diferente
a construir um edifício comercial. Para começar, o chefe de obra tinha que ver-se com a esposa do cliente, a qual podia resultar uma verdadeira aporrinhação. Brad
riu e lhe disse que tinha experiência de sobra para confrontar aquela situação. Ao Cari não fez nenhuma graça, mas aceitou o trabalho, como Brad esperava. Cari foi
convidado ao jantar de celebração, mas declinou o convite alegando que a hora das celebrações chegaria quando tivessem acabado o projeto.
Brad e Rachel não o viam do mesmo modo. Estavam entusiasmados pensando que se abriam novos mercados para a empresa. Passaram todo o jantar recordando os anos
que levavam trabalhando juntos e contando anedotas. Ele se sentia alegre e tranquilo, como lhe ocorria sempre que estava com Rachel.
Rachel Wood era sua melhor amiga. Em realidade, era sua única amiga. Brad não tinha tempo para dedicar-se à vida social. Sentia-se a vontade com Rachel. E,
além disso, confiava nela. E confiava em muito pouca gente...
Onde se teria metido Rachel essa manhã?
O som do interfone interrompeu seus pensamentos. Brad piscou, perguntando-se quanto tempo levava sonhando acordado.
- Sim? - perguntou. E soube exatamente quanto tempo tinha passado desligado em suas reflexões quando Janelle disse:
- O senhor Simmons está aqui.
- Obrigado - disse, conseguindo não lhe grunhir na orelha.
- Diga que espere.
Brad se ergueu na cadeira e se preparou para outra reunião insuportavelmente aborrecida e tediosa.
Simmons entrou no escritório sigilosamente e fechou a porta atrás dele. Olhou a seu redor.
- Não ia estar presente a senhorita Wood? - perguntou, sem incomodar-se em ocultar a contrariedade que lhe produzia a ideia de ter que ver-se a sós com o Brad.
- Atrasou-se por alguma razão - respondeu este com aspereza.
- Mas estou seguro de que poderemos revisar os informes sem sua ajuda.
Simmons se sentou em uma das cadeiras de couro que havia frente ao escritório do Brad. Pôs um montão de pastas diante dele e subiu os óculos de arreios metálicos
sobre a ponte do nariz, pelo que voltaram a deslizar-se ao cabo de um momento até recuperar sua posição original. Pigarreou cuidadosamente.
- Esperava que a senhorita Wood pudesse... - começou antes que Brad o interrompesse.
- Eu também, mas a senhorita Wood não está aqui. Assim comecemos de uma vez.
Simmons deu um resmungo e Brad amaldiçoou para seus adentros. "Rachel pensou, será melhor que tenha uma boa razão para me deixar só com Arthur". Se não, pagar-me-á
isso.
Quarenta e cinco minutos depois, justo quando os olhos do Brad tinham começado a girar para sua nuca, suas preces se viram recompensadas. Rachel abriu a porta
do escritório tão impecavelmente vestida como sempre e com sua maleta na mão. Parecia a personificação da mulher de negócios moderna.
A Brad deu vontade de jogar-se a seus pés e de lhe pedir que não voltasse a abandoná-lo nunca mais. Mas, depois de comprovar que estava a salvo, sentiu que
um princípio de irritação penetrava em sua consciência. Não podia ter chamado? Se não pensava chegar na hora de sempre, não podia avisá-lo?
Olhou-a aos olhos e compreendeu que, fosse o que fosse o que a tinha atrasado, não era nada bom. Rachel nunca lhe tinha parecido tão frágil. Tinha o mesmo olhar
angustiado que o dia que soube que sua mãe padecia de uma enfermidade terminal. Que demônios lhe teria ocorrido?
Rachel se aproximou do escritório e se sentou elegantemente junto ao Arthur.
- Lamento o atraso - disse tranquilamente.
- E ai como foi? - perguntou, enquanto folheava o montão de papéis que Simmons tinha deixado frente a sua cadeira ao princípio da reunião.
Quando finalmente acabou a reunião, ao Brad doía a mandíbula de tanto apertá-la. Rachel acompanhou ao Arthur até a porta, disse-lhe umas palavras amáveis e
sorriu ao escutar sua resposta quase inaudível. Logo fechou a porta e se voltou para o Brad.
- Sinto ter chegado tão tarde e não te haver avisado - retornou a sua cadeira e se sentou antes de continuar.
- Preciso tomar uma licença, Brad. Se não te vier bem, naturalmente entenderei que queira me substituir.
Capítulo 2
Brad a olhou, aturdido. Menos mal que estava sentado. Se não, teria desmaiado.
Rachel acabava de verbalizar seu medo mais enraizado, só que ele não sabia até esse momento. A constrição que sentia no peito lhe dificultava a respiração.
Perguntou-se se ia lhe dar um ataque ao coração.
Ela permanecia sentada, esperando que dissesse algo. Mas a mente lhe tinha ficado em branco. Rachel queria tomar uma licença? Sabendo que ele mal podia passar
uma manhã sem ela?
Então o entendeu. Estava brincando!
- De acordo - disse com um sorriso.
- O que passa? E que quer outro aumento? Se for assim, já o tem.
Rachel se inclinou para diante.
- Sei que tudo isto é muito repentino, Brad, e lamento que minha ausência te cause algum inconveniente. Depois de considerar seriamente todas minhas opções,
acredito que o melhor para todos é que vá por algum tempo.
Não estava brincando.
Brad tragou saliva, tentando refrear-se para não saltar por cima da mesa e estrangulá-la. Rachel tinha presenciado seus arrebatamentos de fúria ao longo dos
anos, mas nunca tinham sido dirigidos contra ela. Sentiu-se desolado ante a idéia de que pudesse partir tão facilmente de uma empresa que tinha ajudado a construir.
- Posso fazer algo para que troque de idéia ou já tomaste uma decisão? - perguntou docilmente. Só suas mãos crispadas sobre a mesa demonstravam sua agitação.
Mas ela não pareceu notá-lo.
Rachel suspirou e olhou para a janela um momento antes de voltar-se para ele.
- Não quis te incomodar com tudo isto - disse finalmente.
- Muito tarde. Já me incomodaste. Agora, me diga Rachel, que demônios te passa?
Ela se recostou na cadeira e lhe lançou um olhar penetrante.
- Serviria de algo que te dissesse que se trata de algo pessoal e que não tem nada que ver com a empresa?
- Alegra-me sabê-lo. Mas agora me diga o que acontece.
- Você vai tornar isso difícil, verdade? - disse ela franzindo o cenho.
Ele se inclinou para diante.
- Não sabe o difícil que lhe vou pôr isso se neste preciso momento não começa a me explicar o que passa - pronunciou cada palavra vocalizando com cuidado.
Rachel se ergueu e apoiou as mãos unidas sobre a mesa.
- Faz umas semanas, encontrei uma nota anônima na fechadura de meu apartamento. Era a primeira vez que me passava uma coisa assim.
- O que dizia a nota?
- Não o recordo exatamente. Assinava-a "seu admirador secreto". Ao princípio, as notas não me preocuparam...
- As notas? É que recebeu mais de uma?
Ela assentiu.
- "Cada semana, mais ou menos, e diziam coisas como: "Me alegro tanto de te conhecer"..." Quero passar mais tempo contigo...", essa classe de coisas. À medida
que passava o tempo se fizeram mais... Mais... Pessoais - se ruborizou.
- O que as escrevia dizia que queria me abraçar, me beijar... Eh...
Brad se deu conta de que se sentia incômoda lhe falando daquele assunto.
- Eu atirava as notas assim que as via. Tentava não me preocupar porque sabia que não podia fazer nada. E isso é justamente o que me há dito a polícia.
Brad ficou gelado.
- A polícia?
- Sim. Isso é o que tenho feito esta manhã: fui à polícia.
A Brad não gostava do que estava ouvindo. Rachel tinha estado recebendo anônimos que a tinham obrigado a ir à polícia e não lhe havia dito nada. Perguntava-se
por que. Seriamente não o considerava mais que seu chefe?
- O que ocorreu para que fosse à polícia?
Ela mordeu o lábio e Brad se deu conta de que estava tremendo.
- Ontem à noite cheguei tarde a casa e fui direto à cama. Esta manhã tomei banho e me vesti, como sempre. Quando me aproximei da cômoda a recolher uns brincos,
vi que em cima havia uma nota dobrada. Não sei quanto tempo levava ali.
Impressionado, Brad esteve a ponto de saltar da cadeira, mas sabia que devia refrear-se até que lhe contasse todos os detalhes.
- A princípio, pensei que era de minha criada, que tinha estado em casa no dia anterior. Mas geralmente me deixa as mensagens junto ao telefone da cozinha.
Quando a abri, vi que a assinava "seu admirador secreto" - enquanto falava, Rachel ficou olhando as mãos. Nesse momento levantou o olhar para ele. Parecia aterrorizada.
Tentou manter a calma ao falar.
- Quem quer que seja, esteve em meu apartamento ontem, ou inclusive ontem à noite. Chamei imediatamente a minha criada, mas me disse que não tinha visto ninguém.
Como disse à polícia, acredito que quem quer que tenha escrito essa nota, teve que pô-la aí enquanto eu dormia.
Tampou os olhos um momento e logo continuou.
- Entrou em pânico quando vi a nota. Por um momento, imaginei inclusive que esse tipo seguia ali, escondido no armário, mas logo recordei que o teria visto
ao me vestir. Quão único sabia era que tinha que sair do apartamento. Assim que fui à polícia.
- E lhe disseram que não podiam fazer nada?
- Mais ou menos. Depois de esperar mais de uma hora para falar com alguém, contei o que acontecia ao homem que me atendeu. Escutou-me, fez umas perguntas e
redigiu um relatório. Dei-lhe a nota que tinha encontrado em cima da cômoda, que era a única que conservava. Perguntou-me se tinha terminado recentemente com algum
noivo que tivesse chave de minha casa. Disse-lhe que não, é obvio. E ele me disse que, embora a nota sugerisse que alguém tinha entrado ilegalmente em meu apartamento,
não tinham suficiente pessoal para encarregar-se dessa classe de denúncias. Ao final, sugeriu-me que partisse da cidade uma temporada.
- Por isso quer uma licença?
Ela assentiu.
- Não acredito que possa passar em minha casa nenhuma noite mais sabendo que alguém pode entrar sem eu sabê-lo. Pensei que poderia tomar um descanso e decidir
o que faço. Não é que eu não goste de trabalhar aqui, mas até que encontre uma solução a este assunto, não acredito que possa ser muito útil à empresa.
Essa vez foi ao Brad a quem lhe entrou o pânico. Não ia consentir que Rachel partisse Deus sabia onde. Viveria angustiado por ela. E se aquele tipo a seguia?
Pensando atropeladamente, disse:
- Entendo sua preocupação, Rachel - começou.
- Acredito que se nos sentarmos e analisamos o que passou, poderemos... - o interfone os interrompeu.
Sem incomodar-se em ocultar sua irritação, Brad apertou o botão e grunhiu.
- Sim?
- Sinto interromper - disse Janelle.
- Tenho ao Cari na linha três. Diz que precisa falar contigo. O que lhe digo?
- Me passe a chamada - disse Brad com resignação. Levantou o telefone e disse:
- Olá, Cari, como vai?
- Desta vez estou disposto a apresentar a demissão, Brad. Já estou farto!
Brad olhou a Rachel.
- Parece que hoje todos tiveram a mesma ideia. O que acontece?
- A mulher do Thomas Crossland se apresentou na obra faz duas semanas e decidiu fiscalizar pessoalmente a construção de sua casa. Deixou-me bem claro que não
está contente com nosso trabalho. Hoje me disse que queria reunir-se imediatamente contigo, na obra, entende? Para que lhe explique por que não se tomam em conta
suas sugestões.
- Onde está Thomas?
- E eu o que sei. Escondeu-se em alguma parte até que a casa esteja terminada. Olhe, sei que está muito iludido com este projeto, mas lhe digo isso a partir
de agora mesmo: se conseguimos acabar a obra sem que nos demandem, poderemos nos dar por satisfeitos.
Cari trabalhava com ele desde o começo, e Brad sabia que devia lhe fazer caso. Se dizia que a situação era séria, tinha que acreditá-lo. Percebendo sua irritação,
Brad utilizou um tom deliberadamente ligeiro ao responder:
- Tão mal estão as coisas?
- Pior que mal - respondeu Cari.
- Quando pode vir?
Brad não tinha afastado os olhos de Rachel durante a conversação. Seu cérebro trabalhava a toda máquina. Talvez aquilo lhe viesse bem. Não queria perder a Rachel,
nem sequer uns dias, e muito menos semanas ou meses. Revisou mentalmente seus compromissos e se deu conta de que nada tinha saído segundo seus planos desde essa
manhã, ao chegar ao escritório, tinha descoberto que Rachel não estava em seu posto. Olhou sua agenda e disse ao Cari:
- Acredito que posso estar no Asheville por volta das cinco.
Cari soltou um suspiro de alívio.
- Estupendo. Irei te pegar no aeroporto. Estamos a uns quarenta quilômetros do Asheville. Contar-te-ei os detalhes pelo caminho.
- De acordo. Ah, Cari...
- Sim? - Cari parecia muito mais tranquilo.
- Tome o resto do dia livre. Ordens do chefe.
A gargalhada do Cari ressonou em toda a sala. Rachel sorriu.
- Não faz falta que me diga isso duas vezes. Veremo-nos por volta das cinco - disse, e desligou.
Brad cortou a conexão e marcou outro número. Quando respondeu uma voz, disse:
- Steve, quando pode ter o avião preparado?
Steve Parsons, o piloto do jato da companhia, respondeu sem vacilar:
- Dentro de uma hora. Aonde vamos?
- Ao Asheville, Carolina do Norte. Rachel e eu comeremos algo rápido e lhe veremos no hangar - pendurou sem olhá-la e aguardou. Não teve que esperar muito tempo.
- Não posso ir a Carolina do Norte contigo, Brad. Tenho que fazer as malas para partir da cidade o antes possível. Acreditava que lhe tinha deixado isso claro.
Brad sorriu e estendeu os braços, espreguiçando-se.
- É que não o vê? Isso é exatamente o que vais fazer. Acredito que Cari deu com a solução perfeita sem dar-se conta. Pode partir da cidade e seguir trabalhando
ao mesmo tempo.
Ao ver a expressão zangada de Rachel, esteve a ponto de tornar a rir. Já se sentia melhor. Tinha ganhado algum tempo até que lhe ocorresse outra solução.
- Ir a Carolina do Norte é só um acerto temporário, Brad - disse ela, como se tentasse raciocinar com um menino obstinado.
Ele assentiu, sentindo-se melhor à medida que pesava seu plano improvisado.
- É obvio que é temporário, mas a viagem nos dará tempo para encontrar outra solução - respondeu ele, utilizando o mesmo tom que ela.
- Já pensei em todas as opções - começava a irritar-se.
- E o melhor é que tome uma licença.
- Como sabe? Possivelmente me ocorra algo distinto. O que pode perder?
Ela sacudiu a cabeça.
- Só seria adiar o inevitável, Brad, e você sabe.
- Me faça caso, quer? - levantou-se e rodeou o escritório.
- Vamos comer algo antes de ir ao aeroporto.
- Não posso ir contigo assim, tão de repente. Necessito roupa e...
- Ali pode comprar tudo o que necessite. Vamos - recolheu sua maleta, no que sempre levava uma camisa limpa, roupa interior e meias três - quartos e, deixando-se
levar por um impulso, agarrou-a da mão para levantá-la da cadeira. Aquele contato inesperado os surpreendeu a ambos.
Desde o dia que a contratou, Brad tinha evitado cuidadosamente qualquer contato físico com Rachel. Sabia que o mais sensato era manter-se a uma distância prudente
dela.
Rachel se levantou e imediatamente apartou a mão, deixando claro que não estava de acordo com aquela solução.
- Isto não é boa idéia, sabe? - disse com obstinação.
- Ao contrário - respondeu ele sorrindo.
- Estou convencido de que é uma idéia brilhante. Venha, vamos comer algo. Estou morto de fome.
Rachel o seguiu fora do escritório, sem dúvida com a intenção de seguir rebatendo seus argumentos, pensou Brad. Ele se deteve frente à mesa de sua secretária.
- Janelle, cancela todos os compromissos que tínhamos esta semana - olhou seu relógio e fez uma careta.
- Certamente Rich já foi comer.
Rich Harmon tinha assumido a onerosa tarefa de dirigir o escritório cinco anos atrás. Tinha uma habilidade pasmosa para fazer que tudo funcionasse brandamente.
Mas, dado que Rachel e Brad nunca se ausentavam ao mesmo tempo, Brad nunca tinha tido que confiar nele para que levasse as rédeas do negócio. Aquela era uma oportunidade
excelente para ver que tal assumia essa responsabilidade.
- Por favor, lhe mande uma mensagem e lhe diga que vamos da cidade uns dias e que se ocupe de tudo. Se precisar ficar em contato comigo, que me chame o celular.
Assegure-te de lhe dar o número. Se passar algo que não se sinta qualificado para resolver, lhe diga que me chame imediatamente - Janelle anotou as instruções sem
perder uma palavra.
Janelle Andrews também levava cinco anos na empresa. A seus quarenta e cinco anos, era uma espécie de turbina humana: encarregava-se da papelada de Rachel e
do Brad sem mostrar-se nunca irritada nem estressada. Brad apreciava que não fosse fofoqueira, que mantivera a confidencialidade de seu trabalho e que possuísse
um aspecto agradável.
Janelle revisou rapidamente a agenda e lhe recordou as entrevistas que ia cancelar. Brad lhe sugeriu que voltasse às fixar para a semana seguinte.
- Lhes diga que surgiu um imprevisto e que tive que sair da cidade - concluiu.
Ela sorriu e disse:
- Que tenham boa viagem.
Rachel e ele percorreram o corredor que levava a espaçosa recepção. Melinda, a jovem recepcionista, sorriu-lhes. Brad fez uma inclinação de cabeça e se dirigiu
à entrada, em cujas portas de cristal se lia Construções Phillips.
Enquanto esperavam o elevador, baixavam à garagem e se dirigiam a seu esportivo, Brad foi revisando mentalmente o que Rachel lhe havia dito. Às vezes, a insistência
de Rachel em mostrar-se autossuficiente o tirava do sério. Mas, por outra parte, isso era o que a fazia tão boa em seu trabalho.
Ela rompeu o silêncio quando chegaram ao carro.
- Tudo isto é desnecessário, sabe? - disse mostrando-se algo mais reconciliada com a idéia da viagem. Olhou-o fixamente enquanto lhe abria a porta do lado do
passageiro. Deslizou-se dentro do carro com mais elegância que a maioria das mulheres que Brad conhecia. Mas, claro, Rachel sempre estava envolta em um ar de refinamento.
Durante os anos que levava trabalhando para ele, tinha conseguido polir algumas das grosserias do Brad, evitando com isso que este se sentisse desajeitado e
se envergonhasse de sua falta de sofisticação.
Brad se sentou depois do volante, fechou a porta do carro e acendeu o motor, que começou a ronronar como um gato bem alimentado. Sorriu. Antes de comprar o
esportivo, só tinha tido caminhonetes, o mais prático para o negócio. Durante anos, apesar de saber que podia comprar qualquer carro que desejasse muito, seguiu
conduzindo caminhonetes de carga... Até que, três meses atrás, viu em uma vitrine aquele brinquedinho, e as linhas aerodinâmicas e a potência do Porsche deram ao
traste com o utilitarismo das caminhonetes. Não tinha má consciência por isso. Duvidava que a tivesse nunca. Aquele carro era a prova evidente de que tinha alcançado
o êxito. Êxito que consistia em ter deixado atrás sua vida anterior. O passado já não o atormentava porque demonstrou a si mesmo que não era um perdedor. Seu novo
Porsche lhe recordava que era um vencedor cada vez que o via.
Rachel se forçou a recostar-se no assento do avião. Fechou os olhos, temendo já o momento paralisante em que o jato abandonaria a Mãe Terra e se lançaria rudemente
ao ar, desafiando as leis da gravidade.
Não gostava de voar. Em realidade, detestava voar, e normalmente as engenhava para evitá-lo. Mas com o Brad não valia discutir.
De todos os modos, ele não sabia que lhe dava medo voar. Rachel nunca o havia dito. Ao fim e ao cabo, para que lhe falar daquela debilidade? Em algum momento,
durante os anos que levavam trabalhando juntos, Brad tinha chegado à conclusão de que Rachel era descendente direta do Wonder Woman, a heroína de gibi: parecia acreditar
que, fosse o que fosse o que lhe pedisse, fá-lo-ia com toda facilidade. Mas se equivocava. E, entretanto, por alguma razão, ela se tinha esforçado com diligencia
em manter intacta aquela ilusão.
Até esse dia. Nesse momento, só desejava encolher-se em algum lugar e passar um ano dormindo. Aferrou-se aos braços do assento quando o avião avançou pela pista
a toda velocidade e saltou ao céu. Pediu ao céu que não a deixasse fazer o ridículo ficando histérica. Não queria passar toda a viagem até a Carolina do Norte fazendo
vexames.
Até com os olhos fechados, deu-se conta de que Brad desabotoava o cinto de segurança e se levantava do assento contiguo ao dele. O jato continha um escritório
perfeitamente equipado, de modo que seu chefe podia manter-se à corrente de tudo o que acontecia na empresa, lá onde estivesse.
Rachel manteve os olhos fechados e procurou concentrar-se nos ruídos do avião. Possivelmente, se se mantivesse alerta, saberia se se desprendia uma asa ou algo
assim, e poderia avisar ao Steve rapidamente.
Confiava em que Brad aplacasse a senhora Crossland. Estava entusiasmado desde que Thomas Crossland lhe tinha pedido que construísse sua casa de férias nas montanhas.
Cari não tinha motivos para preocupar-se. Brad possuía um dom: era capaz de convencer a qualquer de que sua maneira de trabalhar era a melhor. O fato de que ela
estivesse ali, no avião, demonstrava seus dotes de persuasão. Dote que tinha utilizado com êxito em outras ocasiões.
Anos antes, tinha-a convencido de que, se o ajudasse a levantar a empresa de seus sonhos, não só obteria riqueza, mas também uma enorme dose de satisfação.
Que mulher normal, com sangue nas veias, não se teria apaixonado por ele? Naturalmente, Rachel nunca lhe tinha revelado seus sentimentos. Isso não somente teria
jogado ao sua carreira, mas sim também teria posto em fuga a Brad Phillips.
Esteve a ponto de sorrir ao pensar nisso, mas não queria que Brad se desse conta de que não estava dormindo. Se não, empenhar-se-ia em seguir falando de seu
plano. E Rachel não se sentia com ânimos de manter outro assalto com ele sobre aquele tema.
Jamais falava de sua vida privada com o Brad. Um de seus métodos para evitar entrar em temas tortuosos era responder às ocasionais perguntas do Brad, lhe perguntando
a sua vez por sua vida social. Em todos aqueles anos, ele sempre se mostrou muito aberto na hora de lhe contar com quem saía ou deixava de sair. Rachel não sabia
o que era pior: se imaginar Brad com todas aquelas mulheres ou lhe ouvir falar disso. Rachel tinha formado uma ideia bastante precisa de sua vida amorosa. Brad não
possuía nem um ápice de romantismo, o qual era uma lástima, sendo como era um desses homens com o que toda mulher fantasiaria.
O trabalho na construção tinha moldado as fibras e os sólidos músculos de sua figura alta e fornida. Tinha adquirido o que parecia um bronzeado permanente,
resultado de anos de trabalho ao ar livre. Rachel não sabia como conseguia manter aquela aparência tão atrativa agora que passava grande parte do dia no escritório,
mas não cabia dúvida de que um corpo robusto palpitava sob seus custosos trajes a medida.
Como estava acostumado a dizer sucintamente uma de suas amigas, se Rachel não se apaixonou por ele depois de trabalhar tantos anos a seu lado, alguém teria
que haver tomado o pulso para assegurar-se de que estava viva. Brad sempre atraía a atenção das mulheres, casadas ou solteiras, mas a admiração que despertava não
parecia lhe interessar. Não podia dizer-se que fosse bonito em um sentido clássico, pois seu rosto possuía uma dureza quase excessiva. Entretanto, Rachel não conseguia
entender que fosse tão alheio a sua capacidade de seduzir a qualquer mulher que lhe desejasse muito. Tendo conhecido a outros homens que utilizavam seus dotes de
sedução para aproveitar-se de mulheres que podiam lhes oferecer contatos empresariais, Rachel sabia que, nesse sentido, Brad era um homem excepcional. Nunca utilizava
seu atrativo sexual como arma de manipulação.
Sabia que às vezes saía com filhas de grandes empresários de Dallas, não porque ele o dissesse expressamente, mas sim porque frequentemente aparecia nas fotografias
das páginas de sociedade dos jornais locais. Rachel sabia quando tinha deixado de sair com alguma daquelas mulheres pelo montão de mensagens que recebia lhe suplicando
uma chamada.
Recordava uma noite, mais ou menos um ano depois de começar a trabalhar para ele. Ficaram trabalhando até tarde no escritório. Como sempre, Brad a convidou
para jantar. Depois de comer, surpreendeu-a lhe falando de um par de mulheres com as que tinha saído, o qual ofereceu ao Rachel uma nova versão de seus complicados
processos mentais. Estavam tomando café quando, em um estranho estalo de curiosidade, lhe perguntou:
- Notei que Caroline Windsor te chamou com frequência nos últimos dias. Há algum problema em sua relação?
Ele deu um resmungo, e Rachel desejou haver mordido a língua.
- O problema é que ela acredita que temos uma relação - respondeu ele com chateio. Deve ter percebido a surpresa de Rachel para ouvir seu comentário, porque
acrescentou:
- Verá que Caroline sempre obtém o que quer e o que seu pai pode comprar, ou seja, muitíssimas coisas, dado o saldo bancário de Cárter Windsor. Apresentava-se
cada vez que seu pai e eu nos reuníamos para planejar sua última fusão empresarial, e ficava a comer conosco, sugerindo com escassa sutileza que estava livre para
jantar.
Tomou um gole de café e Rachel esperou que continuasse sua história, porque lhe parecia boa. Não havia muitos nomes, ou nenhum que ela conhecesse que não se
sentissem adulados pelo fato de ser objeto dos cuidados da senhorita Windsor, cuidados que sem dúvida lhes dariam a ocasião de intimar com a família de Cárter Windsor.
Rachel manteve a vista fixa no café, pois não queria que Brad notasse que seus comentários tinham despertado uma curiosidade sem dúvida mórbida a respeito de
sua vida amorosa.
- Não pretendo me desculpar por meu comportamento - disse ele depois de uma larga pausa.
- Caroline é atraente, inteligente e divertida. Mas às vezes resulta um tanto exigente. Não gosta que trabalhe tantas horas, porque está acostumada a ter sempre
um acompanhante ao seu dispor. Quando lhe expliquei que era muito livre de buscar outro, já que eu não podia estar à altura de suas exigências, pôs-se a chorar e
disse coisas das que sei que se arrepende. Compreendi que, dado que parecia acreditar que íamos comprometer-nos, devia sair de sua vida imediatamente. E isso fiz
- seu tom firme indicava que tinha tomado uma resolução.
- Mas não estou seguro de que ela me acredita.
- Por isso chama tanto? - perguntou Rachel com um leve sorriso. Ele encolheu de ombros.
- Suponho. Terá descoberto que eu não ia seguir-lhe o jogo quando se negou a ficar ao telefone as vezes que encontrei tempo para chamá-la. Suponho que queria
me pôr ciumento - sorriu a contra gosto.
- Mas isso não funciona comigo.
- Então imagino que não procura um compromisso a longo prazo, não? - perguntou ela em tom ligeiro.
- Já tenho um - respondeu ele, recostando-se comodamente na macia poltrona do restaurante.
Rachel procurou dissimular seu estupor. Não sabia de nenhuma mulher que tivesse saído mais de um par de meses com o Brad desde que trabalhava para ele.
- Entendo - disse.
- A conheço?
Ele sorriu.
- Não se trata de uma mulher, mas sim da empresa, Rachel. Pensava que você o entenderia melhor que ninguém.
- Ah - disse ela, sentindo-se profundamente aliviada porque não se referisse a outra mulher, o qual era uma estupidez por sua parte. O que ela tinha com isso?
- Compreendi faz muito tempo - prosseguiu ele - que as relações amorosas nunca funcionam a longo prazo. Além disso, exigem muito tempo e energia. Quase todas
as mulheres que conheço procuram um marido ou um pai para seus futuros filhos. Como eu não penso ser nenhuma coisa nem outra, jamais estou com uma mulher mais de
uns poucos meses.
Enquanto o avião punha rumo ao este, Rachel recordou cada palavra que Brad havia dito aquela noite. Naquele momento se sentiu em certo modo aliviada por não
ter que presenciar algum dia como se casava seu chefe com uma formosa noiva. Entretanto, suas palavras lhe fizeram perguntar-se por que estava tão seguro de que
nunca se casaria. Uns anos antes tinha tido ocasião de captar um pouco de seu passado, passado que ele guardava cuidadosamente. Um dia que ele estava de viagem,
Janelle lhe tinha passado uma de suas chamadas.
- Sou Rachel Wood, a ajudante do senhor Phillips - disse.
- Posso ajudá-lo em algo?
- Não, a menos que por acaso esteja sentada nos joelhos do Brad. Quero falar com meu filho e penso fazê-lo. Assim passe-me ele agora mesmo.
Brad nunca falava de sua família. Por alguma razão, Rachel sempre tinha tido a impressão de que seus pais estavam mortos. Mas, obviamente, equivocava-se.
- Sinto muito, senhor Phillips - disse amavelmente.
- Brad está de viagem. Não voltará até finais desta semana. Quer que lhe dê algum recado de sua parte?
Ouviu um nítido grunhido de chateio antes que o homem dissesse:
- Sim, por que não lhe diz uma coisa? Pergunte-lhe por que nunca me devolve as chamadas. Pergunte-lhe por que fez como se eu fosse transparente a semana passada,
quando saía de uma dessas festas de presunção no hotel Marriott. E lhe pergunte por que se nega a ver-me, esquecendo por completo os esforços que fiz durante anos
para tirá-lo adiante. Rachel respondeu em tom vacilante:
- Sim, senhor Phillips, dar-lhe-ei sua mensagem.
- E lhe diga que espero ter notícias delas assim que retorne à cidade.
- Fá-lo-ei - disse ela brandamente.
- Ah, e para que se inteire: não me chamo Phillips. Meu nome é Harold Freeland - pendurou o telefone bruscamente e Rachel deu um suspiro, assombrada.
Anotou cuidadosamente tudo o que o homem lhe havia dito e pôs a nota no meio da mesa do Brad para que a visse assim que retornasse. A primeira vez que entrou
em seu escritório depois de sua volta, viu que a mensagem datilografada estava no cesto de papéis, feito uma bola. Nenhum dos dois mencionou a chamada nem a nota.
Rachel nunca se acreditou com direito a lhe perguntar por seus pais, e Brad, certamente, não parecia inclinado a lhe dar explicações.
Tinha-o criado seu pai? O que lhe tinha acontecido a sua mãe? Tinha a relação de seus pais algo que ver com o rechaço que sentia para o matrimônio? Quem sabia.
Aquela chamada foi à única oportunidade que teve Rachel de vislumbrar seu passado. Tinha a impressão de que entenderia melhor ao Brad se este lhe falasse de
sua infância, mas nunca parecia disposto a fazê-lo.
Por outro lado, mostrou-se extremamente afetuoso quando à mãe de Rachel lhe diagnosticaram uma enfermidade mortal. Disse-lhe que ficasse em casa para cuidar
de sua mãe e seguiu lhe pagando o salário apesar dos protestos de Rachel. Além disso, fez-se responsável pelos gastos médicos que o seguro de sua mãe não cobria.
Rachel ficou destroçada porque não pôde ficar com sua mãe mais que umas poucas semanas antes que esta sucumbisse à enfermidade. Ela se encarregou dos trâmites do
enterro, o qual era lógico, pois seu irmão, a família deste e sua irmã, que era solteira, viviam na Califórnia. Ela era a única que tinha permanecido com sua mãe
até o final.
Tinha perdido a sua mãe quatro anos atrás e ainda sentia falta dela. Havia custado muito acostumar-se a sua ausência. E Brad lhe tinha dado todo seu apoio.
De modo que tinha coração, embora não quisesse que se corresse a voz. Isso podia arruinar sua reputação de homem de negócios duro e implacável.
- Rachel?
Ela se incorporou, sobressaltada, e abriu os olhos.
- Sim? - disse com voz crispada.
Ele sorriu.
- Nós não vamos cair assim relaxe se for possível.
Ela franziu o cenho.
- Do que está falando?
- Não sei por que, mas acabo de me dar conta de que te dá medo voar.
Quem ia dizer que sua capacidade de observação acertaria em algo assim, havendo tantas coisas que lhe aconteciam inadvertidas, pensou Rachel, irritada.
- Não sei de onde tiraste essa ideia - respondeu com toda a dignidade que pôde reunir.
Ele elevou uma sobrancelha com fingida surpresa.
- Não me diga - disse, divertido.
- Quando subimos, aferrou aos braços da poltrona com tanta força que deixaste as marcas das unhas no couro.
Ela olhou rapidamente os braços da poltrona para assegurar-se de que não tinha feito tal coisa, mas para ouvir a risada do Brad compreendeu que se traiu.
- Não voo muito frequentemente - admitiu, tentando conservar seu aprumo, que parecia dissolver-se rapidamente.
- Sim, isso já sei. E também sei que esteve a ponto de te revelar quando subimos ao avião.
- Isso é porque não há nenhuma razão para que eu faça esta viagem - respondeu ela ficando à defensiva.
- Me ocorrem umas quantas a bote logo, mas este não é momento para discuti-las.
Rachel olhou a seu redor e voltou a aferrar-se aos braços da poltrona.
- Por quê? - perguntou.
Brad lhe lançou seu sorriso meio de lado, aquele sorriso que fazia que Rachel derretesse o coração por muito zangada que estivesse com ele, e disse:
- O comandante diz que aterrissaremos dentro de meia hora, mais ou menos. Pensei que gostaria de saber.
Ela assentiu e se levantou.
- Obrigada - disse, envolvendo-se de dignidade como se de um manto protetor se tratasse.
- Vou refrescar-me um pouco - foi ao banheiro e fechou a porta firmemente atrás dela antes de olhar-se ao espelho.
Seu reflexo não resultava tranquilizador. Por alguma razão, sua pele tinha adquirido uma cor biliosa.
Lavou o rosto e as mãos e esfregou as bochechas para ver se recuperavam sua cor. Às vezes, as agudas observações do Brad a pilhavam com o guarda baixa. Já que
ia passar com ele os dias seguintes, devia cuidar de cada expressão e cada palavra. Brad não devia adivinhar o que se escondia sob sua fachada de profissional.
Depois de secar o rosto, escovar o cabelo e passar batom, Rachel retornou a seu lugar. Brad já estava sentado no banco do lado. Assim que ela grampeou o cinturão,
pegou-lhe a mão direita com firmeza e disse:
- Te tranquilize, Rachel. Não permitirei que te passe nada.
Rachel não sabia se se referia a seu misterioso admirador ou a aquele voo interminável, mas não lhe importava. Suas palavras chegavam muito tarde. Algo lhe
tinha ocorrido, algo sobre o que Brad Phillips não tinha controle algum. Tinha o coração de Rachel em suas mãos, embora ele não soubesse.
Capítulo 3
RACHEL manteve os olhos fechados com força e seguiu apertando a mão do Brad durante a aterrissagem. Já não lhe importava mostrar seu medo. Delatou-se durante
aquele voo, e não havia retorno.
Assim que o avião se deteve no hangar, Brad disse:
- Já pode abrir os olhos - quando os abriu, ele a estava observando com um sorriso zombador.
- Não passa nada, Rachel. Estamos sãos e salvos e necessito que me devolva a mão para tirar o cinto de segurança.
Rachel se sentiu envergonhada. Apartou a mão e desabotoou torpemente o cinturão. Ele se levantou e lhe estendeu a mão.
- Pronta? - perguntou com o que ao Rachel pareceu um regozijo desconjurado.
- Tudo isto te parece muito divertido, não? - perguntou sem aceitar sua mão e levantando-se o tempo que deslizava a correia da bolsa sobre o ombro.
- Tem que reconhecer que muito poucas vezes te vejo sem essa fachada de eficácia e formalidade que leva posta como uma couraça. Ao menos, deixa que desfrute
do espetáculo uns minutos.
Ela recolheu sua maleta, passou ao lado do Brad e se dirigiu à porta que o piloto já tinha aberto.
- Me deixe em paz - resmungou, zangada, e lançou ao piloto um sorriso para que visse que não estava zangada com ele.
Quando ia baixando a escada, viu o Cari apoiado contra um Jipe último modelo. Saudou-o com a mão, sentindo uma sensação de alívio que sabia desproporcionada
para a ocasião, mas não ia ficar a analisar aquilo nesse momento.
Tinha tido um mau dia. A ridícula insistência do Brad em protegê-la só tinha acrescentado seu nervosismo. Mas ao menos teria ao Cari para apoiá-la, se durante
a viagem precisava distanciar-se do Brad.
Cari tinha uns cinquenta e cinco anos e uma cabeça bastante dura e coberta de fios brancos. Era arisco, tenaz e extremamente eficiente. E era todo coração.
Rachel nunca esqueceria sua cara resplandecente quando, no ano anterior, levou ao escritório as fotos de sua primeira neta, uma menina recém-nascida.
Quando seus pés tocaram o sólido chão de asfalto, Rachel lançou um profundo suspiro de alívio e se aproximou do Cari sem olhar se Brad ia atrás dela. Quando
chegou junto ao Jipe, o capataz se incorporou e lhe deu um rápido abraço.
- Me alegro de ver-te, Cari - disse ela.
Ele jogou a cabeça para trás e a olhou fixamente.
- Está um pouco murcha, querida. O que te tem feito o chefe esta vez? - perguntou, preocupado.
Brad disse desde algum lugar a costas de Rachel:
- Obriguei-a a subir em um avião, conforme parece. Não sei como fez todos estes anos para me ocultar que lhe dá medo voar - os dois homens se deram a mão.
Ao subir ao Jipe, Cari disse:
- Tenho que admitir que me surpreendeu saber que Rachel viria. Pensei que no mínimoo te dava medo enfrentar sozinho à senhora Crossland.
Rachel agradeceu ir sentada justo detrás do Brad. Assim podia sorrir sem medo que seu chefe a visse. Olhou à frente e viu os olhos do Cari no espelho retrovisor.
Este lhe fez uma piscada antes de devolver sua atenção à estrada.
- Rachel precisava sair da cidade uns dias - disse Brad despreocupadamente.
- Estávamos falando disso quando chamou. Pensei que assim mataríamos dois pássaros de um tiro.
Cari a olhou novamente pelo retrovisor.
- E por que tinha que sair da cidade? É que aconteceu algo desde que fui?
Ela sacudiu ligeiramente a cabeça e disse:
- Ah, não, nada. Só queria tomar umas férias - lhe lançou um sorriso tranquilizador e piscou assombrada, ao ver que Cari punha-se a rir a gargalhadas, como
se recordasse uma brincadeira privada.
- Bom isso certamente explica o pânico do Brad - disse Cari ao cabo de um momento.
- Rachel, acaso não sabe que a empresa se paralisaria se não tivéssemos a ti para mediar com o chefe?
Brad girou a cabeça para o Cari, oferecendo a Rachel uma vista de seu perfil. Sua robusta mandíbula pareceu ainda mais pronunciada quando disse:
- Pois você não parece ter problemas para tratar comigo sem a ajuda de Rachel.
Cari seguiu olhando a estrada que levava a auto-estrada.
- Bom, sim, mas em meu caso é porque, se me despedisse, sempre poderia me aposentar.
Brad soltou um bufado.
- Isso nem você acredita. Já te estou vendo metido em sua casa, jogando com sua neta todo o santo dia. Ao cabo de uma semana, subir-te-ia pelas paredes de aborrecimento.
Cari pôs-se a rir novamente.
- Pode ser que tenha razão. Mas não saberei até que o prove - logo, em um tom mais sério, perguntou.
- Quer que te ponha à corrente as queixas da senhora Crossland?
Brad sacudiu a cabeça.
- Não, espera até que nos tenhamos instalado. Há lugar para nós no chalé que alugou?
Cari assentiu.
- Claro. Há três quartos e três banheiros. A casa está na saia de uma colina bastante alta que dá sobre um campo de golfe. No piso de cima está o dormitório
principal; no do meio, a sala-de-jantar e a cozinha; e no de baixo há outros dois dormitórios. As vistas são fantásticas. Não levará muito tempo tirar minhas coisas
do quarto principal.
- Tolice. Não quero que te mova de seu quarto. Não ficaremos muito tempo, assim não faz falta que te incomode. Estou seguro de que as outras habitações nos
servirão.
Cari lançou outro olhar pelo espelho retrovisor, elevando as sobrancelhas ligeiramente. Rachel sorriu e assentiu com a cabeça. Assim Cari dizia por ela, pensou
divertida. Francamente, não lhe importava que quarto lhe dessem para dormir. Apesar de que ainda era cedo, estava desejando dar por terminado o dia e procurar o
doce esquecimento do sonho.
- Conforme parece encontraste uma casa estupenda - disse Brad olhando a paisagem rural que atravessavam.
- É o melhor deste projeto, ao menos de momento. Sabe que a casa dá sobre o lago Lure? Hão-me dito que nessa zona se rodaram vários filmes.
Rachel se inclinou para diante.
- Seriamente? Quais?
- Só lembro-me de dois: Dirty Dancing e O último moicano. Acredito que aos aldeãos gosta de dizer isso aos turistas, que no verão vêm em manada - ao cabo de
um momento, Cari acrescentou.
- Lastimo que eu não goste do golfe. Esta semana poderia ter baixado ao campo a me desafogar lhe dando ao pau. Teria sido fantástico imaginar que golpeava
a cara da senhora Crossland em cada bola.
Brad se recostou em seu assento, rindo.
- Vá, Cari, começo a pensar que você não gosta da esposa de nosso cliente.
- É uma intrometida insuportável. A verdade é que estaríamos muito bem sem ela. Além disso, é difícil encontrar bons operários nestas montanhas, assim que a
última coisa que preciso é que a senhora Crossland os espante com seus comentários afiados e suas críticas de esnobe sobre como devem fazer seu trabalho.
- E tiveste problemas com os operários? - perguntou Brad, incorporando-se.
- O melhor carpinteiro que tinha um tipo realmente bom, despediu-se esta manhã, justo antes que te chamasse, dizendo que não pensava trabalhar nem um minuto
mais se essa mulher insistia em apresentar-se na obra todos os dias. E outros diziam o mesmo entre dentes. Por isso te chamei.
- Está bem. Ocupar-me-ei disso. Sabe ela que estou aqui?
- Não. Procuro não falar muito com ela. Assim me custa menos me refrear. Essa mulher não tem nem idéia da paciência que demonstrei desde que apareceu por aqui.
Os homens guardaram silêncio assim que Cari saiu da auto-estrada interestadual e tomou uma sinuosa estrada de mão dupla que a Rachel fez pensar em outros tempos:
tempos em que as pessoas relaxavam depois de um dia de trabalho, alheia por completo ao termo "stress". Possivelmente Brad não se enganou ao insistir em que o acompanhasse.
Possivelmente decidisse passar uma temporada na Carolina do Norte quando ele retornasse ao Texas.
Rachel se recostou em seu assento e fechou os olhos, sentindo-se relaxada pela primeira vez desde várias horas. A voz do Cari despertou algum tempo depois,
quando lhe ouviu dizer:
- Mas que demônios que tem feito a Rachel, Brad? Quer matá-la a de tanto trabalhar?
Ela se incorporou e olhou a seu redor. Já não se moviam. O Jipe estava parado em um estacionamento enorme, rodeado de chalés. A vista era espetacular. As colinas
distantes e o retalho de lago que se divisava ao longe pareciam o cenário de um filme.
Brad lhe estendeu a mão para ajudá-la a descer do carro.
-Minha mãe - exclamou Rachel, admirada.
- Por que nunca tinha ouvido falar deste lugar?
Cari sorriu.
- É o maior segredo guardado do Estado. Todos os que descobrem este lugar temem que outros também o descubram e se mudem para cá também.
Brad se espreguiçou e perguntou:
- Qual é seu chalé?
Cari assinalou com a cabeça o edifício que tinham em frente.
- Esse daí - fez uma pausa e olhou dentro do Jipe.
- Esquecestes as malas no avião? - perguntou, dando-se conta de que só levavam algumas maletas.
- Não - disse Brad, dirigindo-se para o chalé.
- Pensei que poderíamos comprar o que necessitássemos aqui.
Cari se voltou para Rachel.
- Está de brincadeira?
- Por desgraça, não.
- Oxalá me houvesse isso dito antes de sair do Asheville. O centro comercial mais próximo está a uns trinta quilômetros daqui.
Ela suspirou.
- Não sei se poderei chegar esta noite. Estou realmente esgotada.
- Espero não ferir seus sentimentos, mas tem uma péssima aparência - viu que Brad punha-se a andar pelo caminho que levava a porta da casa.
- Será melhor que lhe abra antes que comece a me pedir a chave a gritos. Vamos talvez possa te deixar um pouco de roupa até que façamos compras amanhã.
Se não tivesse estado tão cansada, Rachel teria rido ao ouvir que Cari, que media mais de metro oitenta e pesava uns cem quilos, pretendia lhe deixar sua roupa.
- Não se preocupe - disse finalmente, aproximando-se com ele à porta.
- Com uma camiseta me viro por esta noite.
Cari e ela se uniram ao Brad diante da porta. Cari abriu e entraram os três. O primeira coisa que Rachel viu foram dois lances de escadas: um levava para baixo;
o outro, para cima.
Cari os guiou pelas escadas de subida, que desembocavam em duas habitações divididas por uma enorme chaminé de pedra. Eram a sala-de-jantar e a cozinha. Ambas
tinham ao fundo grandes trilhos que davam a uma terraço com corrimão.
- Não está mau, Cari - disse Brad, deixando escapar um assobio.
- Admiro seu bom gosto.
- Só escolhi este lugar porque está a dez minutos da obra.
Rachel olhou a seu redor com interesse.
A casa estava completamente mobiliada, incluindo utensílios de cozinha. O tapete de cor vermelha escura tinha um aspecto senhorial. Havia televisão e vídeo.
Todas as comodidades de um lar pensou. Cari deu a volta e apontou para cima.
- Eu durmo acima. A vista é fantástica, como podem imaginar.
Brad e Rachel retornaram docilmente à escada que levava ao segundo piso. O dormitório do piso superior era do tamanho das outras duas habitações juntas, salvo
porque tinha um pequeno patamar no alto da escada.
- Há também uma terraço menor aí fora - disse Cari.
Rachel desceu ao piso inferior. A cada lado do corredor havia uma porta fechada. Abriu uma e olhou dentro. Viu um dormitório com as mesmas vistas sobre as colinas
e o lago. Deu a volta e abriu a outra porta, depois da qual havia um dormitório idêntico.
Não sabia que quarto preferiria Brad, mas decidiu não preocupar-se com isso. Entrou na da esquerda, fechou a porta e se apoiou nela, aliviada. Sacudiu a cabeça
e se separou da porta. Com a bolsa ainda pendurada no ombro, entrou no espaçoso banheiro, que tinha uma ducha separada da banheira, de tipo jacuzzi.
Pôs a bolsa sobre a pia e a esvaziou. Recolheu a nécessaire em que levava a escova de dente e a pasta que tinha comprado no aeroporto. Por sorte, sempre levava
na bolsa creme hidratante, uma pequena escova, um pente e uns artigos de maquiagem. Com aquilo se arrumaria pelas horas seguintes.
Tinha o traje muito amarrotado, pensou olhando-se a contra gosto no espelho. Não teria demorado mais que uns minutos em recolher umas coisas de sua casa, se
Brad não tivesse tido tanta pressa.
Mas, claro, ele não tinha problema. No avião lhe havia dito que sempre levava uma muda na pasta. Às vezes, Brad podia resultar irritante. Por que demônios a
tinha trazido a Carolina do Norte? Ela não tinha que visitar a obra, nem reunir-se com os clientes.
Bom, enfim, nada disso importava agora. Ali estava. Teria que tirar o maior partido possível à situação.
Despiu-se e dobrou cuidadosamente sua roupa antes de abrir o grifo da ducha. Depois de ajustar a temperatura, tirou os grampos e se meteu sob o jorro.
Não recordava ter desfrutado tanto a tanto tempo, pensou deixando que a água corresse por seu corpo. A imobiliária que alugava a casa se ocupou de abastecer
o banho com sabão e pequenos potes de xampu e aparelho de ar condicionado.
Rachel desembrulhou o sabão e esfregou minuciosamente o corpo. Depois, ensaboou o cabelo com xampu. Quando sentiu que começavam a lhe formigar as pernas, fechou
o grifo e saiu da ducha, apoiando os pés no tapete.
Uma macia toalha estava pendurada em um cabide próximo. Secou rapidamente o cabelo com a toalha e logo procedeu a secar o corpo. Só então viu que, suspenso
de um gancho atrás da porta, havia um penhoar. Perguntou-se se Cari o teria deixado ali, mas ao aproximar-se viu o logotipo da urbanização bordado no bolso do peito.
Sem vacilar, desprendeu-o e se envolveu no tecido suave e grosso, deslizando os braços dentro das mangas.
Retornou ao dormitório, fechou as cortinas e se meteu na cama. Fechou os olhos, suspirando, e adormeceu.
Brad permanecia junto à porta da sala de estar, com as mãos nos bolsos, contemplando a paisagem. O sol tinha desaparecido depois de um ravina ao oeste da casa.
Uma bruma azulada cobria o campo de golfe que se estendia mais abaixo.
Ele não sabia jogar golfe, o qual, supunha, tinha escassa importância. De todos os modos, embora soubesse jogar, não tinha tempo para praticá-lo.
Ouviu um ruído e, ao voltar-se, viu Cari depois da barra da cozinha, fazendo café.
- Boa idéia - disse Brad aproximando-se de um dos tamboretes que havia junto à barra.
- Pensei que te cairia bem um café antes que te conte o que passa por aqui - respondeu Cari.
- Sinto te haver deixado sozinho com a senhora Crossland. Tinha muitas coisas na cabeça e, para cúmulo, esta manhã Rachel disse assim prévio aviso, que ia tirar
uma licença. Ainda estava tentando assimilar a notícia quando me chamou. Espero que, enquanto estejamos aqui, nos ocorra alguma alternativa menos drástica.
Cari manteve a vista fixa no café que estava depositando no filtro da cafeteira antes de voltar-se para Brad. Cruzou os robustos braços sobre o peito igualmente
robusto e se apoiou sobre a pia.
- Sei que para ti seria uma grande perda que Rachel decidisse partir. Espero que te ocorra alguma idéia para evitá-lo.
- Eu também o espero. Bom, me fale da senhora Crossland - disse Brad, concentrando-se nos problemas imediatos.
- Viu-a alguma vez?
Brad esfregou o queixo, pensativo, antes de responder.
- Não, acredito que não. Só me reuni com seu marido.
- Nesse caso, resultar-te-á difícil entender o que passa - disse Cari sacudindo a cabeça.
- Pois me explique isso.
- A senhora Crossland é a segunda mulher do Thomas Crossland, ou isso acredito nisso. Tenho a impressão de que seu marido é muito mais velho que ela.
- Thomas deve ter mais ou menos sua idade - disse Brad.
- Quantos anos tem ela?
- É difícil sabê-lo. Viu como uma animadora de rodeio, com camisetinhas que logo que cobrem seus impressionantes peitos, calças muito curtas que parecem pintadas
à mão e sandálias de salto alto completamente inadequadas para andar por uma obra.
- Começo a fazer uma ideia - resmungou Brad, prevendo uma dor de cabeça em mais de um sentido.
- Tem o cabelo comprido e loiro, provavelmente tingido, e o leva penteado de tal forma que parece que acaba de levantar-se da cama.
Cari tirou um par de xícaras de um armário, serviu o café recém feito e ofereceu uma das xícaras ao Brad.
- Vá, Cari, parece que só te falta tomar as medidas. Sua mulher sabe algo disto?
- Pois claro que sabe. Chamo a Joyce todas as noites para me queixar e lhe perguntar o que acontece pela cabeça desta mulher. Nunca tinha conhecido a uma como
ela.
Brad sorriu.
- Então tem sorte. Eu as encontro em todas as festas às que vou desde que montei o negócio - bebeu um gole do fragrante café.
- Por curiosidade, o que te diz Joyce?
Cari pôs-se a rir.
- Que, pelo que conto, é uma espécie de mulher troféu. Procurou um marido que lhe consente todos os caprichos. Juro-te que se comporta como uma menina mimada.
Inspeciona cada coisa que fazemos e nunca se dá por satisfeita - tomou um comprido gole de café antes de deixar a xícara sobre a pia.
- Te asseguro que já não a aguento. Se não conseguir que se mantenha afastada da obra, seguirei o exemplo do carpinteiro e buscarei outro emprego.
- Tão mal estão as coisas? - perguntou Brad brandamente.
- Pior - afirmou Cari.
- A semana passada, Joyce teve que me convencer para que não fizesse a bagagem e largasse daqui.
- Diga ao Joyce que ela merece uma bonificação.
- Que ela merece uma bonificação? Por quê?
- Por manter a cabeça fria quando você a perde, para começar.
Cari tomou sua xícara e rodeou a barra para sentar-se em um tamborete. Apoiou os braços sobre a pia e sujeitou a xícara ante sua boca com ambas as mãos.
- Chamá-la-ei agora mesmo, de acordo? - Disse Brad.
- Tem seu número?
Cari procurou em seu bolso sem dizer nada e tirou um cartão de visita. Pertencia ao Thomas Crossland e nele estavam impressos seus números de telefone de Dallas.
Brad deu a volta e viu um número escrito a mão por uma mão de mulher. Sem mover do lugar, tomou o telefone que pendurava da parede e marcou o número. Responderam
à segunda chamada. Uma voz baixa e ronronando respondeu:
-Olá?
- Senhora Crossland?
-Sim.
- Sou Brad Phillips, senhora Crossland. Tenho entendido que...
Não pôde continuar, porque imediatamente ela disse:
- Graças a Deus que chamou. Estava me voltando louca, tentando que alguém com um pouco de inteligência me escutasse. Esses homens estão estragando minha casa...
Estão-na estragando por completo. Os operários se negam a escutar o que digo. Não tive mais remédio que pedir que me pusessem em contato com você.
Brad olhou seu relógio.
-Já jantou senhora Crossland?
Um silêncio surpreso vibrou através da linha.
- Bom, a verdade é que não, mas não sei que tem que ver isso com esta confusão.
Brad fixou os olhos no Cari enquanto dizia:
- Pensei que poderíamos falar do assunto enquanto jantamos, se lhe parecer bem - aguardou.
- O que? Quer dizer que está aqui, na Carolina do Norte? Acreditava que me chamava de Dallas.
- Não. Estou aqui.
- Bom - fez uma pausa, como se procurasse as palavras.
- Estupendo. Mas Tommy não está comigo. Está na Europa, fazendo Deus sabe o que... Sem dúvida ganhando mais dinheiro de que poderá gastar em toda sua vida.
Não deixo de lhe dizer que não faz falta que trabalhe tanto. Está na flor da vida. Deveria relaxar e desfrutar dos frutos de seu trabalho, não lhe parece?
"Ou pode", pensou Brad, "que finalmente tenha decidido pôr um oceano no meio entre ele e sua formosa mulherzinha". Olhou seu relógio.
- Se me der o endereço de seu hotel, passarei a recolhê-la dentro de uma hora.
Ela deixou escapar uma risadinha nervosa.
- Bom, se insistir. Mas não estou em um hotel. Não havia nenhum perto da obra, assim aluguei uma casa - lhe deu o endereço, que ele anotou com cuidado, confiando
em que Cari soubesse lhe indicar o caminho.
- Até daqui a pouco - disse, enquanto ela seguia falando dos problemas que tinha que confrontar. Mas, antes que pudesse acrescentar algo mais, pendurou.
- Ufa, o que fala essa mulher - disse, fazendo gestos ao Cari.
- Sabe onde é esse lugar?
Cari as leu e assentiu.
- Está a uns quinze quilômetros, por esta mesma estrada. Não acredito que te custe encontrá-lo.
Brad acabou o café.
- Preferiria ficar aqui esta noite, contigo e com... - baixou a voz- Rachel - olhou a seu redor.
- Onde se colocou, por certo?
- Faz um momento ouvi uma das duchas de baixo. Certamente terá ido deitar.
- Já? Mas se não são nem oito.
- Pelo que me disse, passou um dia exaustivo. Deve estar muito cansada.
Brad ficou pensando um momento.
- Sim. Contar-te-ei o que aconteceu quando voltar do jantar - se levantou.
- Ah, importa-te que leve seu Jipe?
Cari lhe lançou as chaves.
- Está a sua disposição, chefe. Use o tempo que necessite.
Brad desceu as escadas pensando no tom que tinha utilizado Cari. Estava claro que a senhora Crossland e ele tinham se desentendido desde o começo. Brad nunca
tinha visto Cari tão zangado. Não gostaria de reunir-se com ela essa noite, mas queria arrumar o assunto o quanto antes possível. Cari era um empregado muito bom
para perdê-lo de qualquer jeito.
Brad tinha desenvolvido consumadas habilidades de negociador desde que estava no negócio. O que podia custar convencer a aquela mulher de que tudo estava sob
controle?
Deteve-se o pé da escada e olhou as portas fechadas. Perguntou-se que quarto teria escolhido Rachel. Se se tinha deitado, não queria incomodá-la. Mas, por outro
lado, tampouco queria entrar sem prévio aviso. Finalmente, chamou brandamente a uma das portas. Não houve resposta.
Certamente Rachel estava na outra. Brad abriu a porta e entrou no quarto em penumbra. Dirigiu-se ao banheiro sem incomodar-se em acender a luz. Queria tomar
uma ducha antes do jantar. Abriu a porta e imediatamente compreendeu que se equivocou de quarto.
O suave aroma de xampu e sabão perfumava ainda o ar do banheiro. Não era preciso acender a luz para dar-se conta de que aquela era o quarto de Rachel.
Retrocedeu sigilosamente e deu a volta, olhando para a cama. Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, viu Rachel coberta com as mantas até o queixo, seu
pálido rosto rodeado por um arbusto de cabelo brandamente encaracolado.
Parecia tão vulnerável ali deitada... Brad sabia que devia ir ao outro quarto. Mas, em vez de fazê-lo, seguiu olhando-a. Por alguma razão, parecia menor que
de costume. Não é que fosse uma mulher grande, mas ao Brad sempre parecia que sua presença resultava imponente. Nesse momento, entretanto, parecia uma menina inocente
dormindo.
Saiu do quarto e fechou a porta brandamente atrás dele. Quem ia dizer a ele que uma mulher lhe pareceria inocente? Sempre tinha acreditado que até as recém-nascidas
fossem equipadas com todas as armas da manipulação e engano.
Sua mãe lhe tinha ensinado uma amarga lição a respeito do que uma mulher podia fazer ao coração de um homem. Sim, a sua mãe podiam chamá-la muitas coisas sem
cair na maledicência ou a calúnia, mas para ele tinha sido uma professora: tinha lhe ensinado muito cedo a não confiar nas mulheres, fosse qual fosse sua idade e
a relação que tivessem com ele.
Aquela lição ele não tinha esquecido. Entretanto, Rachel lhe tinha demonstrado que era diferente das outras mulheres. Era honesta e digna de confiança. Possuía
integridade. Tinha-o convencido de que ao menos havia uma mulher no mundo diferente da que lhe tinha dado a vida.
Brad cruzou o corredor, entrou no outro quarto e acendeu a luz. O dormitório parecia idêntico ao da Rachel. Entrou no banheiro para tomar uma ducha rápida.
Quanto antes se reunisse com a senhora Crossland e acalmasse a Cari, antes poderia se livrar daquela tarefa.
Capítulo 4
Brad encontrou sem contratempos a casa alugada da senhora Crossland. Estava um pouco separada da estrada, ao final de um sinuoso caminho flanqueado de árvores
majestosas. Uma galeria de aspecto confortável rodeava a casa por sua parte dianteira e por ambos os lados. A luz da galeria brilhava com força, iluminando umas
quantas cadeiras e um sofá informal cheio de almofadas e almofadões de cores.
Não estava mau, pensou Brad enquanto subia os degraus que levavam a porta principal. Tocou a campainha e aguardou. Viu a sombra da mulher através do vidro polido
da sólida porta de carvalho, mas apesar da descrição do Cari, a figura que abriu a porta o deixou impressionado.
A senhora Crossland devia ter vinte e tantos anos e parecia saída das páginas centrais de uma revista para homens. Ao Cari lhe tinha esquecido mencionar que
era assombrosamente bela. Brad imaginou que, descalça, devia medir um metro setenta e cinco. Com os saltos de agulha que levava essa noite, era quase tão alta como
ele. Recolheu o cabelo loiro platino em uma espécie de coque alto, deixando soltos alguns cachos que lhe caíam ao redor das orelhas e o pescoço. Brad não sabia como
o tinha feito, mas ia maquiada tão magistralmente que sua pele parecia lisa como a de uma menina. Entretanto, seus grandes olhos azuis escuros não eram os de uma
menina. Aqueles olhos pareciam apregoar a sensualidade de sua proprietária.
Seu vestido estava confeccionado com um tecido brilhante que Brad não reconheceu, mas que sem dúvida era muito caro. A cor champanha da malha acentuava o profundo
bronzeado de sua pele. O vestido era, entretanto, surpreendentemente pudico tendo em conta o que Cari lhe tinha contado sobre a provocadora indumentária que aquela
mulher vestia para ir à obra. Tinha um decote alto e mangas largas, embora a malha elástica conseguisse chamar a atenção sobre seus grandes seios, sua breve cintura
e seus voluptuosos quadris. A saia reta acabava nos joelhos, deixando entrever umas pernas largas e esbeltas.
Estendeu-lhe a mão.
- Você deve ser Bradley Phillips - disse em voz baixa e íntima.
- Meu marido não me havia dito que era tão jovem, para ser o dono de uma empresa tão grande - o regozijo ressoava em sua voz rouca.
- Não sabe quanto lhe agradeço que tenha encontrado um espaço em sua apertada agenda para reunir-se comigo - assinalou para o interior da casa.
- Quer passar e tomar um drinque antes do jantar?
Ao Brad resultava difícil apartar os olhos dela. Aquela mulher era uma tentação para qualquer homem com um pingo de sangue nas veias. Cari devia estar partindo-se
de risada as suas costas.
Brad sorriu amavelmente.
- Fiz uma reserva. Acredito que os restaurantes daqui fecham antes que em Dallas. Possivelmente deveríamos ir já.
Ela tirou o lábio inferior em uma careta provocadora, como se a tivessem privado de algo mais que de uma taça antes do jantar.
- Bom, se insiste - disse, dando a volta para recolher uma bolsa de noite de cetim. Olhou sedutoramente para trás e acrescentou:
- Tomaremos esse drinque depois do jantar, quando voltarmos.
Brad não estava prestando atenção a suas palavras, porque tinha os olhos fixos em seus ombros nus, em suas largas costas nuas e na leve curva de seu traseiro
que deixava entrever o vestido antes de ocultar pudororadamente o resto de seu corpo. Brad respirou fundo.
- Eh, sim, claro - disse distraidamente.
Entretanto, não tinha intenção de entrar naquela casa nem nesse momento nem nunca. O olhar daquela mulher transmitia uma mensagem muito clara, da mesma forma
sua roupa. Se algum homem cruzava aquela soleira, encontrar-se-ia de repente rodeado pela senhora Crossland como se esta fosse uma sinuosa serpente disposta a engolir
a sua presa. E Brad tinha a clara impressão de que já estava em seu ponto de bote.
Acompanhou-a ao Jipe e lhe abriu a porta do passageiro. Ela apoiou delicadamente a mão sobre a dele, como se necessitasse ajuda. A aquela distância, Brad notou
o aroma provocador de seu perfume. "Céu santo" pensou, "esta mulher é um perigo para a tranquilidade de qualquer homem". Resultava fácil entender que Thomas Crossland
pudesse considerá-la um troféu.
De repente, Brad sentiu compaixão por seu cliente. Se a senhora Crossland atuava assim com ele, como se comportaria com outros homens? A energia sexual que
irradiava o fazia sentir-se ligeiramente enjoado.
Recordou-se que a senhora Crossland já lhe tinha causado muitos inconvenientes e que por sua culpa certamente atrasaria o final da obra. Quando se sentou depois
do volante, a cabeça lhe tinha clareado um pouco. Concentrou-se no motivo daquela reunião e em sua necessidade de apaziguar a aquela mulher sem aceitar os custos
extra que suas sugestões supunham e que seu marido talvez se negasse a pagar.
Arrancou e deu a volta pelo caminho. Ela apoiou ligeiramente a mão, cujas unhas tinha pintadas de cinza, sobre a manga de sua camiseta.
- Me alegro muito de conhecê-lo fim. Thomas sempre está cantando seus louvores. Tenho entendido que construiu vários de seus projetos, não é assim?
- Sim - Brad conduziu o carro para a estrada de duplo sentido e se dirigiu ao clube privado reservado aos inquilinos dos chalés da urbanização.
- Disse-me que lhe custou muito convencer que construísse nossa residência de verão aqui, na Carolina.
- Sempre trabalho no Texas.
A cálida risada de lhe acariciou os sentidos.
- Então somos muito afortunados por havê-lo persuadido para que fizesse uma exceção em nosso caso.
Ele manteve a boca fechada, apesar de que lhe ocorreram várias respostas. Recordou-se que Thomas Crossland era um bom cliente. Não havia razão para inimizar-se
com ele ofendendo a sua mulher.
Quando estacionaram frente ao restaurante, ela disse:
- Huey, que maravilha. Tinha muitas vontade de vir a este lugar, mas a verdade é que não tive tempo. Parece que leu o pensamento.
Se sua linguagem corporal, seu tom de voz e seu traje não proclamassem sua disponibilidade de maneira tão terminante, Brad poderia ter pensado que, em efeito,
podia lhe ler o pensamento. Pelos olhares que lhe lançava com frequência, adivinhava que o que rondava sua cabeça para depois do jantar provavelmente ia contra as
leis de mais de um Estado.
Era já muito tarde, mas Brad desejou ter esperado até o dia seguinte para encontrar-se com a senhora Crossland. A presença de Rachel teria enfatizado o caráter
profissional daquele encontro.
Entraram em um salão aprazível e pouco iluminado. O local parecia estar cheio. Assim que Brad deu seu nome ao maitre, foram conduzidos a uma mesa para dois
de onde sem dúvida se contemplava uma vista encantadora. Por desgraça, àquela hora estava muito escuro para apreciar a paisagem. Brad sorriu e inclinou a cabeça
olhando ao homem em sinal de agradecimento.
Uma vez sentados, enquanto estudava a carta, de repente, sentiu-se esgotado. Invejava a Rachel, que dormia confortavelmente no chalé. Deveria ter seguido seu
exemplo. Olhou a sua convidada e perguntou:
- Decidiu já o que vai tomar senhora Crossland?
Sorriu-lhe: um sorriso lento e íntimo que parecia mais apropriada para um encontro em um quarto.
- Por favor, ninguém me chama senhora Crossland. Esse título pertence à mãe do Tommy. Meu nome é Katherine, mas lhe rogo que me chame Kat. Espero que, dado
que Tommy o chama Brad, permitir-me-á o mesmo privilégio.
Sua voz se converteu em um suave ronrono. O corpo de Brad respondeu a aquela voz, mas sua mente e suas emoções seguiram observando a cena com frieza. Era assim
como se oferecia aquela mulher? Através da sedução?
Uma vez mais, agradeceu a seus pais a antecipada e dolorosa lição que lhe tinham ensinado a respeito das mulheres.
- Sentir-me-ia mais a gosto chamando-a Katherine - respondeu amavelmente.
Ela enrugou o nariz e encolheu de ombros ligeiramente.
- Bom, eu naturalmente desejo que se sinta a gosto... - deu à palavra uma ênfase particularmente sedutor - em todos os sentidos.
Brad se perguntou se o estava provocando para ver como reagia. Se assim era, o bom Tommy se inteiraria de qualquer conduta pouco profissional por sua parte
antes que acabasse a noite. Katherine desfrutava provocando aos homens que cruzavam em seu caminho. Estava claro que lhe divertiam as olhadas de esguelha que lhe
lançavam os homens das outras mesas.
Brad logo conseguiu que seu indisciplinado corpo o obedecesse. Era certo que, como havia dito ao Cari, conhecia muitas mulheres semelhantes à Katherine Crosland.
Sabia que devia atuar com suma prudência se não queria perder ao Thomas como cliente. Era evidente que a Katherine não importava que, do resultado de sua conduta,
produzisse uma ruptura entre eles. Uma vez encarou aquele fato, se as olhadas e o comportamento da senhora Crossland deixariam que lhe afetasse.
Ela passou vários minutos relendo a lista das entradas, mas ao fim Brad conseguiu que escolhesse um. Um sério garçom se aproximou para tomar nota. Quando partiu,
Brad disse:
- Por que não me conta o que é o que lhe preocupa em relação à obra?
Vários comensais próximos giraram a cabeça para ouvir a risada estridente daquela mulher.
- O principal problema é que Tommy e eu não nos pomos de acordo sobre como deve ser uma residência de verão. Ele queria algo rústico e informal, diferente da
nossa casa de Dallas. É obvio, eu lhe disse que, vivamos onde vivamos, temos que manter certos níveis de conforto. Pensava que estávamos de acordo nisso, mas uma
vez aqui, e depois de ver a obra, dei-me conta de que quero modificar algumas das idéias, um tanto rançosas, de meu marido. E a verdade é que não entendo por que
seus homens se empenham em não seguir minhas indicações.
Brad procurou em sua cabeça algo diplomático para lhe dizer. Sua dor de cabeça tinha aumentado à medida que transcorria aquele encontro de pesadelo.
- Senhora Crossland... - ela levantou a mão e ele se corrigiu.
- Katherine, conforme me disse o chefe de obra, as mudanças que sugere suporiam um aumento de vários milhares de dólares sobre o pressuposto que aprovou seu
marido. Não podemos fazer essas mudanças sem que Tom o autorize por escrito.
- Nem sequer se eu lhes dou permissão?
- Nem sequer assim. Entretanto, se disser ao Tom que fique em contato comigo, podemos discutir suas sugestões e seguir adiante com a obra.
Ela sacudiu a cabeça com chateio.
- Tudo isto é absurdo. Temos dinheiro de sobra para pagar qualquer mudança que queira fazer no projeto original.
Ele assentiu.
- É obvio que sim. Mas, se tivesse sugerido essas mudanças ao arquiteto quando fez os planos, agora não haveria nenhum problema para pô-los em prática.
Ela ficou olhando-o uns segundos, antes de falar:
- Não vai me fazer este favor, verdade? Vai seguir as suas normas e não vai fazer caso do que lhe diga.
- E se nos vemos amanhã na obra e pensamos o que podemos fazer sem nos passar muito do pressuposto? O que lhe parece?
O garçom lhes levou os pratos, e Brad ficou olhando fixamente o seu, desejando haver-se conformado com um sandwich. A dor de cabeça fazia que aquela deliciosa
comida lhe parecesse desagradável. Enquanto jantavam conversaram de outras questões.
Katherine aguardou até que lhes serviram o café para responder a sua pergunta anterior.
- Obrigada por me haver escutado, ao menos. Às vezes, sinto-me como se fosse invisível. Tom faz o que deseja sem ter em conta minha opinião - lhe sorriu.
- É casado, Brad? - perguntou.
Aquela era uma pergunta carregada. Brad tentou encontrar uma resposta conveniente, e começava a se desesperar quando de repente pensou em Rachel, que ao fim
e ao cabo tinha viajado até a Carolina do Norte por motivos de trabalho. Decididamente, necessitava-a como amortecedor naquele trabalho em particular.
- Não exatamente - respondeu, confiando em que ela adivinhasse toda classe de segundas intenções atrás de suas palavras. Talvez assim deixasse correr o tema.
Mas não teve tanta sorte.
- O que quer dizer? - perguntou ela, com voz ligeiramente crispada.
" E agora o que?" Não queria lhe mentir. Ele nunca mentia. Tinha acabado tão farto de enganos e mentiras durante sua infância, que para ele a verdade era coisa
sagrada.
Mas qual era a verdade a respeito de sua relação com Rachel?
- Há alguém muito especial para mim. Não poderia passar sem ela - o qual era certo, pensou.
- Já vejo - respondeu Katherine, pensativa.
- Eu adoraria conhecê-la alguma vez.
- Isso é fácil. Amanhã a levarei a obra e a apresentarei.
- Ah - disse ela fracamente.
- Viaja com você?
- Às vezes - respondeu ele, o qual também era certo.
O garçom voltou a aparecer e deixou discretamente a conta junto ao cotovelo do Brad. Este pôs imediatamente um cartão de crédito dentro da carteira. Estava
ansioso para que acabasse aquele encontro.
Katherine permaneceu em silencio durante o trajeto para sua casa. Quando chegaram, Brad a ajudou a sair do carro e a acompanhou até a porta. Ela abriu e girou
para ele.
- Não vai passar a tomar um drinque, verdade? - perguntou, resignada.
-Não.
- Espero que sua amiga não se zangue porque jantamos juntos - disse, mas seu tom transmitia justamente o contrário.
Brad sorriu.
- Ela sabe que se tratava de uma reunião de negócios. Teria a trazido comigo, mas preferiu ficar descansando.
Katherine o olhou em silêncio, como se tentasse memorizar seu rosto.
- É uma mulher muito afortunada - disse finalmente, com suavidade, e logo deu a volta e entrou, fechando a porta a suas costas.
"Acabou", pensou Brad, sentindo-se incômodo. Havia lhe dito a verdade, mas tinha dado a entender muitas coisas que não eram certas. Talvez porque tinha permitido
que seus desejos guiassem sua imaginação.
Retornou ao chalé muito cansado. Após entrar, deu-se conta de que Cari lhe tinha deixado uma luz acesa no piso de cima. Subiu os degraus que levavam a zona
da sala-de-jantar e, ao olhar para a cozinha, deteve-se, assombrado.
Rachel estava frente ao fogão, cozinhando algo. Parecia mais miúda que de costume. Talvez fosse porque Brad tinha passado as horas anteriores com uma mulher
do tamanho de uma amazona, ou porque Rachel estava descalça e levava um penhoar que ficava grande. O cabelo comprido lhe caía ao redor dos ombros e pelas costas.
Pareceu ouvi-lo entrar, porque olhou despreocupadamente a seu redor e disse:
- Tem fome? - Ele sacudiu a cabeça.
- Pois eu estou faminta. Despertei com o ruído de minhas próprias tripas, assim subi a fazer uma omelete. Também fiz café. Quer um pouco?
Quando tinha entrado no chalé, Brad só desejava ir à cama. Entretanto, o café recém feito cheirava muito bem para recusar uma xícara.
- Sim. Embora não acredito que nem toda a cafeína do mundo possa me manter acordado muito tempo.
Ela o olhou de cima abaixo, notando sem dúvida que já tinha alterado sua aparência. Desabotoou os dois botões superiores da camisa e tirou a gravata assim que
deixou Katherine Crosland em sua casa. Tinha entrado no chalé com o paletó pendurado no ombro. Atirou-o sobre o respaldo de uma cadeira e se sentou à barra da cozinha,
enrolando as mangas da camisa.
Rachel encheu de café duas xícaras e as pôs sobre a barra.
- Que tal foi o jantar? Conseguiu apaziguá-la? - perguntou, colocando a omelete fumegante em um prato.
Ele a viu rodear a barra e sentar-se a seu lado. Passou as mãos pelo rosto, perguntando-se o que responderia. A pergunta era bastante direta; a resposta, muito
mais complicada. Decidiu que estava muito cansado para ser diplomático.
- Escutei suas queixas, expliquei-lhe os termos do contrato que assinou seu marido e ficamos de nos ver amanhã, na obra - disse sinceramente.
- O único problema foi convencê-la de que não me interessava ficar em sua casa depois do jantar.
Rachel ficou com o garfo pendurado e olhou ao Brad fixamente.
- Quer dizer que se insinuou?
A Brad sua incredulidade fez graça.
- Bom, poderia te dizer que a maioria das mulheres reagem assim quando as levo a jantar... - seu bufado de indignação era a resposta que Brad esperava.
Relaxou e tomou sua xícara antes de acrescentar:
- Mas a verdade é que não acredito que à senhora Crossland lhe importasse quem fosse eu, desde que lhe seguisse no jogo.
- Vá, vá - disse Rachel baixando a cabeça, e comeu rapidamente o pedaço de omelete que tinha na ponta do garfo.
- Não te incomode em dissimular a risada. Suponho que também me faria muita graça se não fosse porque por sua culpa tive que partir do Texas, descuidando assuntos
mais importantes.
- E o que é o que lhe preocupa tanto?
- Da obra? Não me contou os detalhes. Quão único parecia lhe importar era saber se tinha conseguido me excitar.
- E o conseguiu?
Os olhos de Rachel brilharam, divertidos, e Brad se surpreendeu olhando-a com todo o desejo que não havia sentido estando com Katherine Crossland. Sacudiu rapidamente
a cabeça. Céus estava mais cansado do que acreditava. Devia ter alguma conexão cerebral solta quando disse a Katherine que tinha certos compromissos com Rachel que
não romperia por nada do mundo.
- Adiante, ri - disse.
- Que manhã tocará a ti.
- O que quer dizer?
- Não sei de onde tirou a idéia, mas a senhora Crossland está convencida de que você e eu estamos comprometidos. Eu não fiz nada para tirá-la de seu engano,
é obvio. Disse-lhe que manhã te levaria a obra e lhes apresentaria. Vai explicar-me as mudanças que quer fazer para que lhe diga se podemos fazê-los sem o consentimento
escrito de seu marido.
Rachel se concentrou na parte que ele tinha tentado fazer passar de roldão.
- Assim não sabe de onde tirou essa idéia, em? - repetiu arqueando as sobrancelhas.
- Bom, de acordo, a verdade é que me estou escondendo detrás de ti. Pode me demandar se quiser.
Ela sorriu.
- Devia estar realmente desesperado. Me recorde que manhã compre algo provocador.
Brad não precisava vê-la com algo provocador. Nesse momento, a última coisa precisava era fantasiar com sua assistente. A situação já era bastante precária.
Aquela era a primeira vez que compartilhavam casa; a primeira vez que a via em penhoar, descalça e com o cabelo solto.
- Acredito que nunca te tinha visto com o cabelo solto.
Ela piscou, surpreendida.
- Claro, sempre prendo o cabelo para ir trabalhar.
Ele viu a si mesmo estender a mão.
- Tem um cabelo precioso - murmurou, passando ligeiramente a mão por sua nuca antes de deslizar seus dedos ao redor de um comprido friso.
Ela o olhou com incredulidade.
- Quantas taças bebeste?
Ele apartou a mão.
- Sinto muito. Não sei no que estava pensando - suspirou sentindo-se muito fatigado.
- Perdoa - elevou a xícara e a apurou.
- Vou dormir - a olhou.
Envolta naquele enorme penhoar, parecia uma formosa menina vestida com a roupa de um adulto.
- Amanhã a primeira hora iremos às compras à cidade. Poderíamos ter parado antes de sair do Asheville, mas esqueci por completo dizer ao Cari. Parece que esta
noite não faço mais que te pedir desculpas. Rachel se deslizou elegantemente do tamborete e o olhou fixamente.
- Brad, está bem?
Seu tom preocupado tocou algo muito profundo no interior do Brad, algo cuja existência ignorava até esse momento. Franziu o cenho, incômodo por causa da sensação
de debilidade que se deu conta dele repentinamente.
- Sim, claro. E não, não bebi nada. É só que estou cansado, nada mais. Falaremos amanhã - se dirigiu às escadas que levavam às habitações do piso inferior.
-Brad?
Ele deu a volta a contra gosto.
-O que?
- Voltaremos para Dallas amanhã?
Ele olhou a escada como se procurasse a resposta na trama do tapete.
- Espero que sim, Rachel. Tudo depende de como vá à reunião com a senhora Crosland. Se não for amanhã, iremos na sexta-feira, mais tardar. Se não resolver o
assunto amanhã mesmo, por-me-ei em contato com o Tom para averiguar o que quer que faça.
- Crê que Cari sabia o que ocorreria quando te encontrasse com ela?
Ele sacudiu a cabeça com chateio,
- Não tenho nem idéia - continuou baixando as escadas e acrescentou.
- Até amanhã, Rachel.
Brad tinha a sensação de que devia escapar antes que dissesse ou fizesse algo completamente desconjurado. O que se passava? Uma mulher muito bela tinha usado
seus consideráveis encantos para seduzi-lo e ele tinha escapado sem jogar sequer um olhar atrás. Entretanto, ao ver Rachel sem maquiagem, descalça e vestida com
um penhoar que ficava grande, havia sentido tal arrebatamento de desejo que ainda tremia por medo de que ela se desse conta.
Entrou em seu quarto e fechou a porta. Só precisava dormir a perna solta. Despiu-se, molesto porque ainda estava excitado por seu inesperado encontro com Rachel.
Não podia complicar sua vida obcecando-se com uma mulher. Obcecar-se com Rachel só podia conduzi-lo ao mais completo desastre.
Rachel comeu a omelete e tomou outra xícara de café antes de sair da cozinha. Quando saiu desta, viu de soslaio algo branco que pendurava de uma das cadeiras
da sala-de-jantar. Aproximou-se e descobriu que Cari tinha deixado ali uma camiseta para dormir.
Sorrindo, apagou as luzes e voltou para seu quarto. Vestiu a camiseta e, ao olhar-se no espelho, esteve a ponto de tornar a rir. O objeto chegava aos joelhos,
mas dormiria mais a gosto com ela que com o grosso penhoar.
Estendeu-se na cama e fechou os olhos. Em lugar de dormir, repassou o que Brad lhe tinha contado sobre seu jantar.
Ele parecia molesto porque a senhora Crossland cruzou a linha que separava os negócios da vida pessoal. Mas como iria agir? A senhora Crossland não só era a
esposa de um de seus melhores clientes; também lhe recordava o que ele se empenhava em esquecer: que era de carne e osso, como o resto dos mortais.
Rachel nunca o tinha visto de um humor tão estranho. Devia estar escandalizado se tinha dado a entender que estavam comprometidos. Possivelmente era a única
desculpa que lhe tinha ocorrido para não envergonhar à senhora Crossland. Sem dúvida, esta aceitaria que estivesse comprometido com outra mulher, mas se sentiria
ferida e furiosa se a rechaçava por puro desinteresse.
O que mais lhe surpreendia era que Brad lhe tivesse acariciado o cabelo. Nunca antes a havia tocado de forma tão íntima. Essa noite, havia se sentido extremamente
vulnerável em sua presença, inclusive antes que a tocasse, pois não esquecia que não levava nada sob o penhoar. Tinha subido à cozinha acreditando que Cari e Brad
estavam na cama, e se sobressaltou para ouvir as chaves do Brad na porta. Era muito tarde para correr a se vestir ou arrumar o cabelo, assim confrontou a situação
com a maior calma possível.
O fato de que ele estivesse preocupado pela entrevista com a senhora Crossland a ajudou a relaxar. Pensou que Brad tinha a cabeça posta em outras coisas e que
não se fixaria em sua indumentária. Mas ele deu a perceber com sua teoria e com sua tranquilidade ao fazer aquele comentário sobre seu cabelo.
No dia seguinte tudo iria melhor, disse-se. Quando vestisse roupa limpa, sentir-se-ia mais cômoda naquela situação. O fato de compartilhar casa os tinha arrojado
a uma nova dinâmica para a que nenhum dos dois estava preparado.
Com um pouco de sorte, ao dia seguinte Brad faria reluzir seus dotes de prestidigitador e aplacaria a todo mundo, de forma que a obra seguisse o curso previsto.
Assim poderiam retornar a Dallas na sexta-feira, a mais demorar, o qual significava que Rachel só teria que aguentar ali dois dias mais. Depois, Brad e ela voltariam
a assumir seus papéis de costume.
O único problema preocupante que tinha nesse momento era o que fazer com o intruso que tinha irrompido em sua casa e em sua vida. O tempo que tinha passado
afastada de sua rotina habitual a tinha ajudado a considerar o assunto com certa distância, mas não tinha diminuído o medo que sentia ao pensar no desconhecido que
a acossava.
Em vez de partir da cidade, talvez devesse encontrar um lugar mais seguro onde viver. Com o generoso salário que lhe pagava Brad, podia permitir-se viver onde
desejasse muito. Possivelmente essa fosse à solução: mudar-se de casa e seguir como se nada tivesse passado.
Dormiu sentindo que sua vida logo voltaria para seu rumo.
À manhã seguinte, Rachel despertou na hora de costume, mas como estava na Carolina do Norte, onde regia a hora do Este, pareceu-lhe que se levantava uma hora
mais tarde. Depois de tomar uma ducha rápida, vestiu-se, recolheu o cabelo e se maquiou com o pouco que levava na bolsa.
Ouviu falar Cari ao Brad assim que chegou ao primeiro patamar da escada. O delicioso aroma do café recém feito a fez subir a toda pressa os últimos degraus.
Os homens a viram assim que dobrou a esquina da cozinha, e a saudaram com suas vozes graves de recém levantados.
Rachel não estava acostumada a ver homens tomando o café da manhã com o cabelo revolto e a cara sem barbear, e a situação lhe pareceu excessivamente íntima.
Mas não podia fazer nada a respeito.
Respondeu a suas saudações com uma inclinação de cabeça e um breve sorriso antes de aproximar-se da cafeteira. Sem voltar-se para eles, disse:
- A que hora terá que estar na obra?
Foi Brad quem respondeu.
- O primeiro é o primeiro. Teremos que esperar até que abram as lojas para ir ao centro comercial que mencionou Cari. Sugiro que compremos roupa informal, porque
passaremos quase todo o dia na obra. Parece-te bem?
Ela deu a volta e o olhou inclinando-se sobre a bancada. Brad não parecia ter dormido bem, o qual era uma desgraça para todos eles. Rachel tinha tido que suportá-lo
outras vezes quando não dormia bem, e mal tinha conseguido sobreviver a seu mau humor.
- Parece-me muito bem. Graças a esta viagem tão inesperada aprendi que sempre devo ter uma mala no escritório, no caso de alguma emergência - bebeu um gole
de café antes de acrescentar:
- Sobretudo, tendo um chefe tão imprevisível.
Brad não se deu por vencido, mas Cari pôs-se a rir. Brad ficou olhando fixamente seu café, com a cabeça encurvada. Rachel não sabia por que, mas sentia um desejo
irrefreável de lhe tirar o mau humor. Seu chefe precisava animar-se um pouco.
Pôs a xícara sobre a bancada e se inclinou para eles apoiando-se sobre os antebraços.
- É duro ser tão irresistível, Eh, chefe? Cari lhe lançou um olhar penetrante antes de voltar-se para o Brad.
- Perdi algo? Brad sacudiu a cabeça.
- Não, o que vai. Ontem à noite, quando cheguei, estava um pouco irritado e falei com Rachel - a olhou com os olhos entrecerrados.
- Esperava que tivesse esquecido.
- Nem sonhe - respondeu ela. Olhou ao Cari e lhe piscou um olho.
- Parece que a senhora Crossland pretendia algo mais que falar da casa com o Brad - bateu as pestanas olhando ao Brad.
- Não me faz nenhuma graça - replicou este friamente quando Cari pôs-se a rir.
- Eh, venha, chefe - disse Cari.
- Tome-o com filosofia. Essa mulher nos deu dor de cabeça a todos os que trabalhamos na obra. É justo que agora toque a ti.
Brad se levantou e apurou sua xícara de café.
- Saiamos daqui. Já suportei todas as graçinhas que posso digerir a estas horas da manhã.
- Está bem - disse Cari.
- Eu tenho que ir à obra a ver como vão as coisas. Como é caminho à cidade, podem me deixar ali. Não acredito que tenham problemas para encontrar o centro comercial.
- A que hora temos que nos encontrar com a senhora Crossland? - perguntou Rachel. Não havia razão para seguir picando a um tigre com um espinho cravado na garra.
- Não marcamos nenhuma hora em concreto - Brad olhou ao Cari.
- A que hora está acostumada aparecer?
- Nunca antes de meio-dia. Pelo menos podemos trabalhar toda a manhã sem interrupções.
Quando os homens acabaram de barbear-se e de arrumar-se, os três montaram no Jipe do Cari. Rachel se sentou no assento de trás e permaneceu em silêncio. Ao
chegar à obra, Cari e Brad saíram a jogar uma olhada.
- Fez um grande trabalho, com ou sem interferências.
- Obrigado. Você mantenha à senhora Crossland afastada daqui e te asseguro renunciarei à bonificação deste ano.
O primeiro sorriso do dia apareceu na cara do Brad.
- Não acredito que seja necessário que te sacrifique até esse ponto, mas verei o que posso fazer.
Brad retornou ao carro, escutou as indicações do Cari e Rachel e eles seguiram caminho.
Dirigiram-se ao centro comercial, e ambos guardaram silêncio. Rachel tinha estado sozinha com o Brad em infinidade de ocasiões ao longo dos anos, mas esse dia
notava que havia algo diferente. Brad irradiava uma tensão que não chegava a entender. Estaria preocupado pela senhora Crossland, talvez? Rachel o tinha visto preocupado
por assuntos de negócios outras vezes, mas nunca até esse ponto. O que outra coisa podia lhe acontecer? Perguntar-lhe não tinha sentido. Brad lhe havia dito o que
queria que soubesse, assim era absurdo esbanjar saliva.
O centro comercial estava junto à auto-estrada, à entrada da cidade.
- Foi fácil encontrá-lo - comentou ela.
Ele emitiu uma resposta ininteligível que se parecia muito ao grunhido de um selvagem. Quando estacionaram, conduziu-a a umas lojas de departamentos que formavam
parte de uma cadeia nacional.
- Por que não compramos algo aqui mesmo? - perguntou ele bruscamente.
- Guarda as faturas para que a empresa lhe reembolse isso.
- Não - respondeu ela.
- O que compre será para mim e não tem nada que ver com a empresa.
- Fui eu quem te disse que não fizesse a mala, que aqui poderia comprar o que necessitasse.
- Sim, e isso é o que penso fazer - disse ela com firmeza.
Ele a olhou fixamente enquanto entravam na loja.
- Alguma vez lhe hão dito que pode ser muito teimosa?
- Pois não, acredito que não - ela olhou seu relógio.
- Onde e a que hora quer que nos encontremos?
- Dentro de uma hora, aqui, na entrada principal. Terá tempo suficiente?
- De sobra - respondeu ela com firmeza, e subiu à escada rolante, que a deixou no segundo piso, onde se encontrava a seção de roupa para mulher.
Olhou rapidamente os expositores circulares perguntando-se o que compraria. Brad havia sugerido algo informal, mas ela nunca levava roupa informal. Bom, quase
nunca. Tinha o armário cheio de trajes, blusas e sapatos práticos, todas em cores apagadas.
Soube exatamente o que compraria assim que viu aquela saia longa. Encontrou uma blusa que combinava com ela e um traje de jaqueta do verão a muito bom preço,
e foi ao provador trocar-se.
Contente com suas compras vestiu a saia e a blusa e meteu em uma bolsa o traje novo e o que acabava de tirar. Logo se dirigiu ao departamento de calçado. Uma
vez ali, decidiu atirar a casa pela janela comprando um par de sandálias. Sem salto. Com algumas tiras para prendê-las aos pés. Adorou as sandálias que combinavam
com seu novo traje. Estava desejando ver a cara que de Brad quando a visse.
À hora justa, Rachel percorreu o corredor que levava a entrada principal. Tinha tido tempo de comprar uns artigos de asseio e uma camisola que estava escrita
a frase O dia não começa até que eu o diga.
Brad já estava ali, sustentando uma bolsa com o logotipo das lojas de departamentos. Levava postos umas calças chinesas e uma camiseta azul marinho de manga
curta. Rachel tentou dissimular sua impressão. Não era apropriado que a assistente administrativa do Brad começasse a babar porque seu chefe tivesse recuperado sua
aparência de operário da construção. Sem o discreto paletó, seus braços musculosos e seu amplo peito destacavam mais. Além disso, as calça apertavam a seu traseiro.
Rachel suspirou. Podia olhar, recordou-se, mas não tocar.
- Preparado para partir? - perguntou brandamente a suas costas. Ele estava olhando pela porta de vidro e deu bruscamente à volta ao ouvir sua voz. Sua reação
foi exatamente a que Rachel esperava. Seus olhos aumentaram e logo congelaram, e ao fim sua cara ficou completamente inexpressiva. Apertou a mandíbula, sem dúvida
para não fazer nenhum comentário a respeito de seu traje, e disse:
- Sim. Vamos.
O caminho de volta ao carro foi toda uma aventura para Rachel, pois teve que lutar o tempo todo com a saia para que a brisa que se levantou enquanto estavam
na loja não a subisse até a cabeça.
O tecido da saia tinha um estampado de cores parecidas com os das pedras preciosas: vermelho rubi, verde esmeralda, amarelo topázio e azul safira. Rachel tinha
escolhido uma blusa sem mangas, combinando com o verde da saia.
O penteado que fazia para ir trabalhar não combinava com aquele traje informal, de modo que tinha escovado a cabeleira para trás e a tinha recolhido com alguns
pentes de prender cabelos de adorno que tinha encontrado na loja. Como toque final, tinha comprado um batom vermelho brilhante e uma sombra de olhos que acentuava
o verde de seus olhos.
Sentia-se virtualmente descalça com as sandálias. Em realidade, sentia-se uma mulher nova. Começava a pensar que a roupa que levava habitualmente era muito
conservadora. Aquele podia ser o primeiro passo para romper com sua monótona existência. Esse dia se sentia como uma cigana.
Durante o trajeto de volta à obra voltaram a guardar silêncio. Brad parecia preocupado. Rachel, por sua parte, concentrou-se na paisagem e admirou a frondosa
vegetação enquanto cantarolava entre dentes. Assim que saiu do Jipe, ao chegar à obra, Cari lançou um assobio que ressonou a muitos metros de distância. Outros operários
voltaram a cabeça enquanto o chefe de obra se aproximava de recebê-los.
- Vá, Rachel, está muito bonita com essa roupa. Deveria te pôr cores vivas mais frequentemente. Não crê, Brad?
Este lançou a Rachel um breve olhar.
- Suponho que sim. Sabe algo da senhora Crossland?
Os dois homens puseram-se a andar para o edifício em construção.
"E agora o que?", perguntou-se Rachel. Sua parte não começaria até que aparecesse a senhora Crossland. Como tinha tempo de sobra, decidiu explorar a casa. Cruzou
o pátio dianteiro, evitando cuidadosamente os montões de escombros pulverizados aqui e lá. Deteve-se no degrau superior do alpendre e deu a volta. Ao contemplar
a paisagem, sentiu que lhe formava um nó na garganta. Que formosa vista aguardava quem decidisse deter-se ali e olhar para o vale que se estendia ante ela, ao que
serviam de cortina de fundo as suaves colinas. Rachel tragou saliva e, por um instante, perguntou-se como seria viver em um lugar como aquele em vez de em uma grande
cidade.
De repente ouviu a voz Brad a suas costas.
- Sabe? Com essa roupa o único que te falta é uma rosa entre os dentes.
Ela deu a volta e o olhou.
- Boa ideia. Irei ver se encontro uma - se aproximou da porta, que estava aberta.
Brad a agarrou pelo braço e a deteve, dizendo:
- Não quero que vá a nenhuma parte sem mim enquanto estejamos aqui.
Parecia falar muito a sério. Devia ter acontecido algo que Rachel se perdeu.
- Por quê? O que acontece?
Ele apertou a mandíbula um par de vezes antes de dizer:
- Se se vestiu assim para chamar a atenção, conseguiu com acréscimo. Não há nem um só operário que tenha podido concentrar-se em seu trabalho desde que chegou.
Não quero ter que despedir de alguém por ultrapassar-se contigo - a olhou fixamente; parecia ainda mais alto, devido a que ela levava sapatos sem salto.
- Parece que tem dezoito anos, com essa roupa. Ninguém diria que é uma respeitável mulher de negócios.
A Rachel lhe ocorreram várias respostas um tanto azeda, tais como que foi ele quem tinha sugeriu que comprassem roupa informal e quem tinha insistido em que
não se detivesse para fazer a mala antes de tomar o avião. Pensou, mas mordeu a língua. Assim era como tinha conseguido permanecer a seu lado tanto tempo.
- Lamento que minha roupa te cause problemas. Tenho outro traje no carro. Onde posso me trocar?
Ele se separou dela, como se de repente se desse conta de que a estava sujeitando do braço. Ficou a contemplar a paisagem em lugar de olhá-la. Rachel aguardou.
Quando Brad se girou para ela, tinha os olhos empanados por uma emoção que ela não entendeu.
- Não faz falta que te troque. Olhe, estou de um humor de cães, mas sei que não posso descontá-lo contigo, assim... Peço-te desculpas. É que me surpreendeu
ver-te assim vestida, isso é tudo. Não estava preparado para... Mas, claro, isso não é teu problema - olhou aos operários que trabalhavam na obra e baixou a voz.
- Entretanto, sobre os homens dizia a sério. É melhor que pensem que é a filha do Cari. Assim lhe tratarão com respeito. Ou isso espero, ao menos.
- Quero jogar uma olhada à casa. Tem tempo de me acompanhar?
Ele sorriu, mas Rachel compreendeu que seu sorriso era fingido.
- Claro. Eu também tenho que me familiarizar com a casa antes que chegue a senhora Crossland.
Sem dizer uma palavra, Rachel se voltou para a casa. Cruzou a soleira sem rematar e ao entrar no vestíbulo, deteve-se para tirar os óculos de sol. Uma escada
curva, encostada à parede, levava ao segundo piso. Rachel já imaginava o abajur de cristal austríaco que penduraria do teto, no centro do saguão. Não pôde evitar
perguntar-se quantos meses ao ano passariam os Crossland em sua segunda casa.
Os operários a saudaram quando cruzou as habitações do piso baixo. Brad a seguiu a certa distância. Rachel estava molesta pela conversação que acabavam de manter.
Ele estava zangado com ela, embora o negasse. Mas por quê? Porque se tinha burlado um pouco dele a custa da senhora Crossland? Brad sabia rir de uma brincadeira,
embora fosse as suas custas. Sobretudo, quando era as suas custas. Rachel se perguntava que limite invisível tinha cruzado sem dar-se conta.
Depois de jogar uma olhada à espaçosa cozinha, subiu ao segundo piso pelas escadas da parte de trás. Ao chegar ao alto, olhou a seu redor para orientar-se e
descobriu que estava em meio de um amplo corredor. Uma de suas alas levava a escada principal, de modo que tomou o sentido contrário. Ao final do corredor havia
um espaçoso quarto que em algum momento ficaria fechada por grandes portas duplas. Cruzou a soleira e viu o esboço do que seria o dormitório principal.
Aquilo era viver, decidiu. Em cima do que supôs era o lugar que ocuparia a cama havia uma enorme clarabóia. Aproximou-se daquele lado do quarto e deu a volta,
impressionada de novo pela vista. A parede do outro lado seria em sua maior parte de vidro quando estivesse acabada. Dali se via a ladeira da colina, que baixava
até um arroio distante.
Brad a tinha seguido escada acima. Talvez sentisse que Rachel estava mais segura com ele. Ela nunca o tinha visto de um humor tão estranho, e não sabia como
dirigir-se a ele. Seguiu explorando o resto da estadia, desejando que o dia acabasse para que a viagem de volta chegasse quanto antes.
Entrou em um quarto que havia junto ao dormitório principal e que parecia destinado a servir de closet ao senhor e a senhora da casa. Mas o melhor era o banheiro,
pensou sorrindo. Naquela banheira cabiam pelo menos seis pessoas. A ducha, fechada por biombos de vidro, era igualmente enorme.
Essa casa pertencia a um casal sem filhos, o qual lhe pareceu muito triste. O lugar pedia a gritos uma família, e uma família numerosa, além disso.
Ao retornar ao quarto principal, viu surpreendida que houvesse uma mulher no centro da estadia. Aquela devia ser a famosa senhora Crossland.
A noite anterior, Brad tinha esquecido lhe mencionar que era assombrosamente bonita ou que o seria se não fosse pela expressão carrancuda que crispava seu rosto.
Rachel sorriu, mas a mulher lhe lançou um olhar receoso.
- Deve perguntar-se quem sou e que faço explorando sua casa desta maneira - disse amavelmente.
- Conhece-me? - perguntou Katherine, sem deixar de enrugar o cenho.
Rachel assentiu.
- Suponho que é você a senhora Crossland, verdade?
- Ah! Você deve ser a filha do Cari - respondeu Katherine com evidente alívio.
- Estava procurando o Brad e pensei que talvez estivesse aqui em cima - acrescentou.
Deu a volta e se aproximou da porta do corredor, só para voltar-se com certa brutalidade quando Rachel pôs-se a rir e disse:
- Não, não sou a filha do Cari. Mas...
A suave voz de barítono do Brad a interrompeu.
- Em realidade, veio comigo - disse lentamente, aparecendo na soleira.
Katherine se voltou muito devagar para olhá-lo.
- Então esta deve ser a mulher da que me falou ontem à noite. Mas não me disse que é apenas uma menina.
Rachel preferiu não responder a aquele comentário. Olhou ao Brad e sorriu. "A bola está em seu campo, chefe. A ver o que faz com ela."
A risada do Brad soou tão sexy que a surpreendeu.
- Bom Rachel não é tão jovem como parece... - aproximou-se dela e lhe segurou o braço pelos ombros. Lançou-lhe desde sua altura um olhar ardente e acrescentou:
- Verdade, querida?
Rachel sentiu um desejo quase irresistível de apartar-se de seu corpo e de seu olhar penetrante. Ele pareceu sentir que se esticava e se preparava para apartar-se,
porque a apertou tranquilamente contra seu flanco, como se aquilo fosse o mais natural do mundo. Rachel sabia que queria que Katherine acreditasse que eram casal,
mas não esperava que se mostrasse tão carinhoso com ela. Ouviu um ruído junto à porta e viu que Cari estava ali, olhando-os com expressão divertida. Disse ao Brad:
- Vê? Já te disse que não tinha ido muito longe - antes de acrescentar, dirigindo-se ao Katherine.
- Não suporta perder Rachel de vista, sabe?
Ao ver o brilho de seus olhos, Rachel compreendeu que Cari tinha decidido unir-se à farsa. Parecia desfrutar com isso. Nesse caso, ela, também podia desfrutar.
Relaxou-se contra o flanco do Brad e lançou seu melhor sorriso a Katherine, que não parecia muito contente. De fato, estava a ponto de estalar.
Brad disse:
- Obrigado por vir, Katherine. Por que não me diz o que quer trocar?
Rachel se ergueu lentamente, como se lhe custasse apartar-se do Brad.
- Esperar-te-ei no carro - disse.
Pensando que tinha feito seu papel bastante bem, deu um passo para a porta, mas Brad a agarrou pelo pulso e a fez girar brandamente.
- Irei assim que possa - disse com uma voz rouca que a Rachel pareceu ligeiramente exagerada, embora isso não foi nada em comparação com seu seguinte movimento.
Brad lhe deu um suave beijo na boca, ao tempo que a sujeitava firmemente pela nuca.
Rachel sabia que aquele beijo não significava nada. O que era um beijo, ao fim e ao cabo? Uma simples amostra de afeto, nada mais. Se estivesse mais tranquila,
o teria aceitado como tal. Mas os lábios do Brad permaneceram sobre os seus um pouco mais do estritamente necessário, e Rachel se esqueceu de que aquele beijo era
fingido. Sem prestar atenção aos sinais frenéticos que lançava seu cérebro lhe dizendo que saísse dali imediatamente, ficou nas pontas dos pés e lhe devolveu o beijo,
deslizando as mãos ao redor de seu pescoço com toda naturalidade. Ao menos, teria a oportunidade de comparar o fato fascinante de estar em seus braços com as fantasias
que tinha ido acumulando com o passar dos anos. E desfrutou daquele instante.
Cari pigarreou, em um evidente intento por dissimular a risada. Ao ouvi-lo, Rachel saiu bruscamente da bruma que a envolvia e olhou ao Brad fixamente, horrorizada
pelo que acabava de fazer. Os olhos de seu chefe se escureceram até voltarem-se quase negros; sua expressão era inconfundível. Apertou a mandíbula e, em voz muito
baixa para que outros não o ouvissem, murmurou:
- Não te farei esperar muito tempo - e deslizou a mão por sua nuca de novo, massageando os músculos tensos e os nervos atados.
- Há coisas que temos que falar. A sós.
Capítulo 5
RACHEL baixou correndo as escadas, agarrando-se ao corrimão provisório, pois não sabia se suas pernas a sustentariam. O que tinha passado? Algo alarmante, algo
maravilhoso, algo que transformava sua relação profissional em Deus sabia o que.
Deteve-se quando chegou ao alpendre e respirou fundo várias vezes, confiando em acalmar-se antes de baixar os degraus que conduziam ao pátio dianteiro. Procurou
chegar ao Jipe sem dar um tropeção, empenhada em que os operários que pudessem vê-la não pensassem que lhe acontecia algo estranho, apesar de que nos últimos minutos
seu universo tinha girado sobre seu eixo e se tornou do reverso.
Brad Phillips a tinha beijado. Saiu completamente de seu papel. Aquele beijo a tinha pilhado completamente despreparada, igual a sua própria reação.
Não sabia se poderia voltar a olhá-lo à cara depois de havê-lo beijado daquela forma, como uma mulher faminta de amor.
Chegou ao Jipe e se deixou cair no assento dianteiro, dando graças ao céu porque Brad estacionou a sombra de uma árvore, de modo que a temperatura no interior
do veículo era fresca apesar do calor abafadiço do meio-dia. Fechou os olhos e desejou que a tragasse a terra.
O que a fazia tremer era a lembrança do olhar ardente do Brad. Sabia que devia tomar as rédeas de suas emoções de alguma forma, antes que seu chefe e Cari retornassem
ao carro. Abriu os olhos e esticou os ombros resolutamente. "Confronta a situação", disse-se. "Pensa neste assunto como em um problema que terá que resolver."
Antes de tudo, devia ao Brad uma desculpa. Ensaiou umas quantas em sua cabeça. "Lamento te haver agarrado e te haver beijado assim." Não, essa não servia. Além
disso, era mentira. Sentia-se envergonhada por haver-se arrojado a seu pescoço; e humilhada por ter traído o que secretamente sentia por ele. Sim. Mas não o lamentava.
Levava muitos anos perguntando-se como seria beijar ao Brad. Bom, pois já o tinha averiguado... Diante de uma cliente e de um empregado da empresa. "Sinto me haver
aproveitado da situação." Isso se aproximava mais à verdade. Brad a tinha beijado para dar maior veracidade a sua atuação diante da senhora Crossland. Certamente
tinha pensado que os atos eram mais expressivos que as palavras. Se assim era, seu comportamento sem dúvida teria declarado mais do que devia a respeito do que sentia
por ele.
Lamentou que não estivessem em Dallas. Ali poderia haver-se refugiado em seu apartamento até recuperar a calma. Mas em seguida recordou que isso tampouco lhe
serviria de nada. Tinha decidido deixar seu apartamento, temporariamente ao menos, porque já não se sentia segura nele.
De momento, não havia nenhum lugar onde se sentisse a salvo. De repente, teve saudades dos sábios conselhos de sua mãe como lhe ocorria frequentemente após
a morte desta. Fechou os olhos e tratou de recordar o que lhe havia dito sua mãe sobre sua relação com o Brad. Em sua cabeça começaram a formar as palavras. Como
se sua mãe estivesse sentada a seu lado no Jipe, Rachel a ouviu dizer:
- Rachel querida, sei que se sente atraída por seu novo chefe, mas deve recordar que é muito arriscado iniciar uma relação com um colega de trabalho.
"Tem toda razão, mamãe."
- É um homem muito atrativo, Rachel. Lembra a seu pai em muitos sentidos.
Aquela comparação lhe tinha parecido acertada, mas Rachel havia dito muitas vezes ao longo dos anos que ela não tinha a valentia e a resolução suficientes para
tomar a drástica decisão de trocar de vida que sua mãe tinha tomado sendo muito jovem. Jillian, sua mãe tinha renunciado a uma vida cômoda e a todo contato com sua
família para casar-se com o Christopher Wood, o homem ao que amava.
Rachel tinha vagas lembranças de seu pai. A casa familiar estava repleta de fotografias dele. Sempre lhe tinha encantado escutar as histórias que sua mãe contava
sobre seu pai. Embora Jillian se entristecesse ao descobrir quão séria era sua enfermidade, também havia dito a Rachel que assim, ao menos, voltaria a reunir-se
com seu marido. Christopher tinha sido um homem muito bonito e, igual a Brad, feito a si mesmo. O verão que Jillian o conheceu, Christopher trabalhava de jardineiro
para pagar os estudos na universidade. Ela tinha terminado seu primeiro curso em uma prestigiosa universidade do Este e tinha voltado para casa para passar as férias
do verão. Christopher era três anos mais velho que ela, mas como cada ano tinha que trabalhar vários meses para pagar a universidade, quando se conheceram, só tinha
completado cinco semestres da carreira. A Jillian gostava de contar a seus filhos como se conheceram: como o viu trabalhando no jardim de sua mãe uma manhã do verão;
como reluzia seu peito nu e moreno, cheio de suor; com que graça se movia seu corpo fibroso e atlético; como soube que aquele era o homem com o que queria passar
o resto de sua vida sem sequer ter falado com ele. Dizia que de repente tinha sentido uma espécie de revelação, como se uma voz interior, muito profunda, dissesse-lhe:
"Aí está Jillian". "Aí tem ao homem que te dará o amor que sempre desejaste". "Vá conhecê-lo". "Não o lamentará". Jillian procedia de uma família privilegiada. Christopher
nunca falava da sua. Aquele verão tratou-a como se fosse de cristal e nunca a tocava; apenas se atrevia a lhe dirigir a palavra. Enquanto ele trabalhava, ela tagarelava
sobre a universidade, sobre seus amigos e suas compras, mas não lhe dizia que tinha deixado de aceitar convites de outros meninos. Não queria ver ninguém mais, explicava
Jillian a seus filhos. Seu coração já tinha dono. Uma semana antes do dia previsto para sua volta à universidade, Christopher e Jillian escaparam. Jillian confiava
em que, uma vez que seus pais assumissem suas bodas com um homem tão alheio a seu círculo social, a perdoariam e aceitariam a seu marido. Mas se equivocara.
Rachel nunca tinha conhecido a seus avós. Sua mãe respondia com evasivas quando seus filhos lhe perguntavam por eles, dizendo que aquilo não tinha importância.
O que importava era a família que seu marido e ela tinham criado. Rachel frequentemente se perguntava como teriam sido suas vidas se não tivesse morrido seu pai
em um acidente em uma plataforma petrolífera dez anos depois de suas bodas. Christopher aceitou aquele trabalho porque pagavam bem e tinha três filhos pequenos que
alimentar. Trabalhava duas semanas seguidas e passava outras duas em casa. Rachel recordava a alegria de sua mãe cada vez que Christopher voltava para casa. Aquelas
eram suas lembranças mais queridas. Tinha cinco anos quando seu pai morreu. A companhia petroleira lhes pagou uma generosa indenização, e sua mãe só quis utilizá-la
para pagar a educação de seus filhos. Insistia em que isso era o que teria querido seu pai, porque Julián e ele nunca puderam acabar seus estudos.
Julián se via e desejava que chegasse o fim do mês, mas os meninos nunca passaram privações. Além disso, receberam de sua mãe uma esmerada educação a respeito
de como deviam comportar-se no mundo. Um presente de valor incalculável.
Rachel viu sua mãe recolher os fragmentos de sua vida rompida e seguir adiante, sem fazer nenhum esforço por contatar com sua família. Às vezes, perguntava-se
se seus avós se teriam informado da morte de seu pai. Em longo prazo, sua ausência não lhes tinha causado nenhuma carência. Julián enchia suas necessidades, tanto
material como emocionalmente.
Por mais que tivesse escutado a história de amor de seus pais durante sua infância, Rachel nunca se acreditou capaz de mandar tudo ao lixo e desafiar a sua
família para casar-se com um homem ao que conhecia fazia somente umas semanas. Até que, oito anos atrás, tinha visto o Brad Phillips na porta de um pequeno café,
suarento, cansado e cheio de pó e gesso, disposto a entrevistá-la para seu primeiro emprego. Naquele obscuro momento de revelação, compreendeu plenamente a sua mãe
pela primeira vez em sua vida. "Recorda meu carinho", havia-lhe dito Jillian uma vez quando começou a trabalhar para o Brad, "que este é seu primeiro emprego. É
importante que o faça bem. Seus futuros chefes se dirigirão a essa empresa para pedir referências. Não é conveniente que se apaixone por seu chefe".
"É muito tarde para isso, mamãe", tinha querido lhe dizer. Já era muito tarde quando Brad a levou a conhecer o escritório ainda por terminar e lhe explicou
que teria que fazer o trabalho de três pessoas, embora o salário logo que alcançava para uma.
Tivesse podido buscar outro emprego, mas a ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. Decidiu seguir os conselhos de sua mãe e não embarcar em uma relação sentimental
com o Brad. Sabia que, ao aceitar o trabalho, ao menos poderia vê-lo cada dia. Só aspirava ajudar aquele homem tenaz e solitário a alcançar seu sonho. E o tinha
obtido.
Tinha aceitado tempo atrás que, algum dia, Brad se casaria com uma daquelas mulheres da alta sociedade com as que saía. Mas, para falar a verdade, ela tampouco
ficou em casa, chorando por um sonho que não podia cumprir. Tinha saído com homens de vez em quando. Entretanto, as exigências de seu trabalho lhe proporcionavam
a desculpa perfeita para não implicar-se em uma relação continuada. Sabia que nenhum homem podia ocupar o lugar do Brad em seu coração. Quase todos deixavam de chamá-la
quando ela anulava um encontro ou dois com o pretexto de que tinham surgido complicações inesperadas no trabalho.
O fato de pensar no Brad a devolveu bruscamente à realidade. De repente, compreendeu que acabava de complicar vida ao lhe desvelar inequivocamente o que sentia
por ele.
"Sei mamãe, sei. Levei-me como uma idiota. Mas o que faço agora? Apresentar minha demissão e fugir às montanhas? Fingir que não aconteceu nada? "Rir como se
tudo tivesse sido uma brincadeira"?"
Ouviu passos e olhou rapidamente a seu redor. Cari se aproximava do Jipe. Rachel deixou escapar um leve suspiro de alívio ao ver que não era Brad. Necessitava
um pouco mais de tempo.
Cari se deteve um lado do Jipe.
- Está bem? - perguntou olhando-a fixamente.
Rachel sabia que estava tinta de vergonha.
- Claro. Por quê?
- Vi que tinha os olhos fechados e pensei que talvez te encontrasse mal. Com este calor...
Ela esteve a ponto de rir, porque em efeito o calor a fazia sentir-se mal. Mas não o calor ao que se referia Cari.
- Estou bem, seriamente - disse com voz tranquilizadora.
Cari se apoiou contra o Jipe.
- Enfim, acredito que nosso periquito de ouro conseguiu convencer à senhora Crossland... Ao menos de momento.
- Sentir-se-á aliviado - disse ela.
Suas tribulações a tinham feito esquecer-se dos Crossland.
- Ótima atuação fizeram lá dentro. Estiveram fantásticos, de verdade. Quando foi, a senhora Crossland ficou rígida como um pau.
Rachel assentiu com a cabeça, incapaz de responder.
Cari pôs-se a rir.
- Seriamente, deveria ter visto o Brad quando você saiu. Comportou-se como um apaixonado embevecido. Estava tão distraído que não podia nem concentrar-se na
conversação. Não sabe quanto me custou conter a risada.
Rachel pigarreou.
- Sabe quanto demorará?
Como se tivesse ouvido a pergunta, Brad apareceu na porta principal da casa. Baixou os degraus de dois em dois e se aproximou do Jipe a grandes passos.
- Sinto ter demorado tanto - disse ao chegar.
- Não sei quanto tempo durará, mas por agora a senhora Crossland aceitou não aparecer pela obra mais que uma vez à semana. Em troca, disse-lhe que tentaria
convencer a seu marido para que aceite as mudanças que propõe.
Cari assentiu.
- Estupendo.
- A senhora Crossland está sozinha e aborrecida. Uma combinação mortal para uma mulher com muito dinheiro e muito tempo em suas mãos. Sugeri-lhe que vá a Europa
com seu marido. Não sei se seguirá meu conselho, mas espero que pelo menos te deixe em paz - disse ao Cari.
- Se não, me chame imediatamente.
- Demos graças ao Senhor e entoemos o aleluia - disse Cari.
- Nosso mago particular tornou a fazer um prodígio.
Brad olhou seu relógio e logo meteu as mãos nos bolsos traseiros da calça.
- Importa-te que leve o carro um momento? - perguntou sem deixar de olhar ao Cari.
- Tenho que fazer algumas chamadas, e os papéis que preciso estão na casa.
- Claro leve lhe respondeu Cari alegremente.
- Quando voltarão para Dallas?
- Decidi-lo-ei depois de fazer algumas chamadas.
Rachel o olhou, surpreendida. O que teria que decidir? Brad já lhe havia dito que iriam pela manhã, mesmo que o problema não se resolvesse. Com os olhos fixos
no Cari, Brad acrescentou:
- Voltarei a te recolher antes que acabe a jornada.
Cari sacudiu a cabeça.
- Não te incomode. Irei com algum dos meninos. Agora que tiramos de cima o problema, pode ser que saia a tomar umas cervejas e a jogar umas partidas de bilhar.
Vou celebrar o sucesso.
Rachel compreendeu de repente que, se Cari não chegasse logo a casa, Brad e ela passariam sozinhos no chalé as horas seguintes.
"Ai, mamãe, me salve de mim mesma."
Brad montou no Jipe como se Rachel não existisse. Sabia que isso era uma descortesia indesculpável, mas também sabia que não se atreveria a olhá-la até que
conseguisse tomar as rédeas de suas emoções. Fazia uma hora que se beijaram e ainda tinha o pulso acelerado. Se a olhava, começaria a reviver aquele momento... E
a perguntar-se sobre a evidente reação química que se produziu entre eles.
Fizeram em silêncio quase todo o caminho de volta. Já tinham tomado o desvio de entrada à urbanização quando Brad disse:
- Tem fome?
- Não muita.
- Acredito que Cari tem a cozinha bem sortida. Suponho que encontraremos algo que comer, a não ser que queira que paremos no restaurante.
- Não, vamos ao chalé - Rachel falou com sua voz de menina aplicada, signo inequívoco de que estava zangada.
Mas como não ia estar? Brad levava anos andando nas pontas dos pés a seu redor, tentando ocultar a atração que sentia por ela, sem confrontar o fato de que
gostava mais de Rachel que de qualquer outra mulher. O que faria em relação à atração mútua que o beijo tinha causado?
Ao longo dos anos, Rachel lhe tinha contado histórias de sua vida familiar, da morte prematura de seu pai e de como sua mãe tinha assumido o papel de ambos
os progenitores. Não tinha feito falta que lhe dissesse que era sua mãe quem a tinha ensinado a comportar-se como uma autêntica dama.
Rachel não tinha confusões amorosas. Brad estava seguro disso, embora ignorasse a razão. Sim. Rachel era uma dama no verdadeiro sentido da palavra. Comportava-se
em todo momento com uma elegância que o fazia sentir-se envergonhado de si mesmo.
Entretanto, Brad não podia ignorar o que tinha passado entre eles essa manhã. Tinha percebido o desejo de Rachel, sua ânsia, sua paixão... E tinha estado a
ponto de deixar-se levar por um repentino arrebatamento.
Não deixava de pensar no canalha que lhe escrevia notas anônimas. E lhe tinham ocorrido várias idéias. Possivelmente Rachel não estivesse de acordo com nenhuma
delas, mas queria contar-lhe enquanto ainda pudessem estar a sós.
Cari parecia haver-se dado conta de tudo. Por isso ia deixá-los a sós essa noite.
Chegaram à porta do chalé e saíram do carro sem dizer uma palavra. Brad abriu a porta da casa e indicou a Rachel que entrasse. Uma vez dentro, ela pareceu duvidar
entre baixar a seu quarto e subir à sala de estar. Brad assinalou a escada de subida.
- Há certos assuntos que quero discutir contigo.
Ela adotou imediatamente o papel de sua assistente, papel que executava à perfeição.
- Certamente - disse.
- Trarei minha maleta - começou a baixar as escadas.
- Não te fará falta - disse ele e, sem esperá-la, subiu os degraus de três pernadas. Quando esteve na cozinha, tirou uma jarra de chá da geladeira. Depois de
encher de gelo dois copos, serviu o chá e entrou na sala de estar, onde Rachel esperava de pé, olhando-o como se aguardasse instruções.
Brad lhe entregou um copo e lhe indicou que se sentasse em uma confortável poltrona. Ela sentou. Ele, por sua parte, acomodou-se em uma poltrona idêntica, a
seu lado. Assim podia estar perto dela, mas não o bastante para tocá-la. Além disso, podia lhe ver o rosto e observar sua reação ante o que ia propor-lhe.
Rachel bebeu um comprido gole de chá e suspirou, satisfeita.
- Necessitava-o. Tinha muita sede - deu outro gole, e Brad fez o mesmo.
Quando voltou a olhá-la, ela tinha deixado o copo sobre a mesinha que havia entre os dois e tinha juntado as mãos sobre o regaço. Tinha uma expressão serena,
como quase sempre. Havia tornado a adotar sua fachada profissional. Mas não era isso o que Brad queria.
- Tenho um par de ideias que eu gostaria que tomasse em consideração - ligeiras rugas se formaram entre as sobrancelhas de Rachel, que permaneceu em silêncio,
aguardando.
- Esta é uma delas - continuou ele.
- Estou de acordo em que não deve voltar para seu apartamento. Quem sabe o que fará esse tipo a próxima vez... Faz bem em não tomar este assunto à ligeira -
ela se recostou na poltrona com expressão de surpresa.
Sim, não se esperava que aquela conversação, aquela reunião, girasse em torno dela. Brad se inclinou para diante, sujeitava o copo entre as mãos e apoiava os
cotovelos sobre os joelhos.
- Minha ideia consiste é que mude a minha casa - ela o olhou como se tivesse começado a falar em chinês.
- Tenho bastante espaço, seriamente. Você viu minha casa. É muito grande para uma só pessoa. E, além disso, é muito segura. Está rodeada por uma grade de ferro
forjado e as portas são eletrônicas - a olhou um momento antes de fixar de novo a vista no copo.
Ela não disse nada. Limitou-se a olhá-lo inexpressivamente.
- Ali estará a salvo - acrescentou ele, confiando em que sua voz soasse razoável e lógica.
Esperou, aliviado que ela não rechaçasse sua sugestão imediatamente. Rachel estava acostumada a pesar com calma as propostas que lhe faziam, as contemplando
de todos os ângulos. Finalmente, disse com voz inexpressiva:
- Tê-lo-á pensado bem, suponho.
Atuava como se todos os dias lhe pedissem que se fosse viver com alguém, enquanto que Brad tinha as mãos úmidas, e não pelo copo de gelo que sujeitava entre
as mãos. Ele assentiu, e acrescentou:
- Sim, dei muitas voltas desde que me contou dos anônimos.
- Seria uma solução temporária, Brad. Agradeço o oferecimento, mas não vejo aonde...
- Eu não hei dito que fosse temporário. Ela ficou rígida.
- Não falará a sério? Não posso viver contigo para sempre.
- Por que não?
- Que por que não?!
Pela primeira vez desde que tinha chegado, pareceu agitada.
- Porque não funcionaria, por isso. Passamos quase todo o dia juntos. Os dois precisamos desconectar ao final do dia.
Ele assentiu.
- Isso não é nenhum problema. Deveríamos falar de coisas mais importantes.
Rachel ficou calada. Passou um minuto antes que voltasse a falar.
- Como quais? - perguntou um pouco ofegante.
Ele elevou os olhos e lhe permitiu ver quanto a desejava.
- Como onde dormirá, por exemplo - respondeu brandamente.
Viu que Rachel tentava digerir o que insinuava seu comentário.
- Está dizendo o que acredito que está dizendo? - perguntou ela finalmente.
Ele deixou o copo sobre a mesa e passou a mão úmida pelo cabelo antes de dizer:
- Somos duas pessoas solteiras e sãs, Rachel. Não há razão para que não possamos viver juntos, dormir juntos e trabalhar juntos.
Parecia tão ansioso como se sentia?
- Me ocorre uma - respondeu ela atrás de outra larga pausa.
- Qual?
- Que esse não é o modo em que quero viver. Até o momento, consegui conduzir minha vida de modo que posso me olhar ao espelho pelas manhãs sem me envergonhar
de mim mesma. Não vejo razão para trocar agora.
Brad contava com aquela reação.
- Também tenho uma solução para isso - disse.
- Ah, pois estou desejando ouvi-la - apoiou a cabeça contra o respaldo da poltrona e fechou os olhos.
- Qual é?
- Podemos nos casar.
Ela elevou a cabeça e o olhou atônita. Certamente esperava que ele sorrisse, que lhe tirasse ferro à situação, que lhe dissesse que era só uma brincadeira.
Mas Brad não riu. Nunca tinha falado mais a sério em toda sua vida. Assim aguardou.
A voz de Rachel soou vacilante.
- Quantas vezes, durante os anos que faz que nos conhecemos, há-me dito com toda convicção que o matrimônio não é para ti?
Ele torceu a boca.
- Digamos que não sei muito do tema.
- Não é só isso e você sabe. Tiveste muitas oportunidades de te casar desde que te conheço.
- Sim, mas verá... Tenho um problema. Não confio em muita gente. Não, espera, me deixe que lhe esclareça isso. Não confio em ninguém salvo em ti.
- OH, Brad... - disse ela, comovida.
- Olhe - acrescentou ele rapidamente, - você é minha melhor amiga. Conhece-me melhor que ninguém. Naturalmente, sei que esse não é um bom argumento para casar-se,
mas ao menos sabemos que não haverá surpresas.
- Fala a sério, verdade? - perguntou ela lentamente, esquadrinhando sua cara.
A Brad não gostou da ternura de sua voz. Nem sua compaixão. Queria ajudá-la, não que se compadecesse dele.
Brad sabia o que queria. Queria que Rachel Wood vivesse com ele. Queria-a em sua cama. Queria que ela fosse a última pessoa que visse pelas noites e a primeira
pelas manhãs. Queria abraçá-la, lhe ensinar a lhe fazer amor a um homem. A fazer amor com ele.
- Ouvi você dizer mais de uma vez que o amor não existe.
-Sim. E o que?
- De modo que o que sugere é que nos casemos para satisfazer nossas necessidades físicas, mas sem nos envolver sentimentalmente. É isso?
Ele encolheu de ombros.
- Eu te respeito, Rachel. Você sabe. E depois do que aconteceu hoje, não acredito que te caiba dúvida de que mal posso manter as mãos separadas de ti. Acredito
que é melhor que nos casemos a me arriscar a que me denuncie por perseguição sexual no trabalho.
Brad sentiu que lhe suava a testa, mas decidiu não secar para que Rachel não se desse conta disso. Ela assentiu.
- Ah, sim, já entendo a lógica de sua argumentação.
Ele suspirou sentindo que tirava um peso de cima.
- Assim... Estamos de acordo? - perguntou.
- Não, Brad. Não posso me casar contigo, mas agradeço seu amável oferecimento - se inclinou para diante como se fosse levantar-se.
- Do que está falando? Não se trata de amabilidade! Digo-o a sério. Quero me casar contigo, mas não vou dizer uma fileira de palavras altissonantes que não
significam nada. O que tem que mau nisso? - como Rachel se moveu para diante, os joelhos de ambos se tocaram. Brad estremeceu até os ossos ao notar o calor de seu
contato. Tirou-a da mão e disse:
- Não me cabe nenhuma dúvida de que seremos tão compatíveis na cama como o somos fora dela.
Tirou-a da outra mão e, atirando dela, sentou-a em seu regaço. Antes que Rachel pudesse dizer nada, beijou-a. Sabia que aquilo o complicaria todo, mas precisava
fazê-lo. Não podia permitir que se separasse dele. Devia convencê-la de que seu matrimônio funcionaria.
Rachel se moveu como se quisesse soltar-se. Ele seguiu beijando-a com uma ânsia acumulada durante anos. Deixou de lutar por manter o controle assim que lhe
respondeu, abrindo a boca ligeiramente enquanto lhe rodeava o pescoço com os braços. "Deseja-me", pensou triunfalmente. Ao menos, não o negava.
Brad se deixou levar pelas sensações que o embargavam. Percebia o tênue aroma de seu perfume, sentia a suavidade aveludada da pele de Rachel sob sua mão curtida,
ouviu a respiração agitada de quando lhe desabotoou os botões da blusa e deixou ao descoberto seus cheios presos no soutien. Baixou a cabeça e provou a pele que
aparecia por cima do soutien, introduzindo a língua embaixo dele até que tocou a ponta do mamilo ereto. Rachel deixou escapar um gemido e, estremecendo-se, rendeu-se.
Brad sorriu. Tudo sairia bem.
Rachel o ajudou a tirar a blusa. Brad se deteve e olhou suas bochechas acesas e seus lábios levemente inchados. Nunca havia sentido aquela necessidade de proteger
a alguém.
Desabotoou-lhe o prendedor e o jogou no chão, recreando-se ao fim na contemplação de sua beleza. Elevou-a ligeiramente sobre seus joelhos para lhe beijar os
seios, ao tempo que lhe acariciava as costas nuas. Procurou sua boca de novo, saboreando-a, desejando mais.
Subiu-lhe a saia até as coxas e esfregou a palma da mão sobre seus cachos cheios de seda. Estava úmida e preparada para recebê-lo. Tocou-a ligeiramente, deslizando
os dedos sob a malha muito fina. Ela se esfregou contra sua mão, deixando escapar leves gemidos sob seus lábios.
Precisava levá-la ao piso abaixo, à cama. Queria lhe demonstrar quanto a desejava. Queria arrastá-la a um clímax avassalador, fazê-la gritar seu nome enquanto
se afundava profundamente em seu interior.
As palavras que lhe havia dito ressonavam em sua cabeça: Rachel queria respeitar-se a si mesma. Queria poder olhar-se ao espelho cada manhã.
Que demônio estava fazendo? Rachel merecia algo melhor que aquilo. Era uma dama e merecia seu respeito, embora não pudesse lhe oferecer seu amor.
Resmungando uma maldição, retirou a mão e lhe baixou a saia. Abraçou-a com força, não querendo separar-se dela ainda. Rachel ficou entre seus braços, com as
mãos crispadas sobre suas costas e o corpo estremecido de desejo.
Brad se sentia rasteiro, um sentimento completamente novo para ele. Não podia tratar a Rachel com semelhante ligeireza. Não. Rachel era sua melhor amiga. Sua
única amiga. Não podia seduzi-la. Odiaria a si mesmo, se o fizesse.
Beijou-a e a acariciou brandamente, aplacando o fogo que ardia entre eles. Não roubaria sua inocência. Sentia vergonha por ter considerado, embora tivesse sido
momentaneamente, que podia utilizar a sedução para convencê-la de que se casasse com ele. Deslizou as mãos por seus ombros e suas costas, tentando pensar em algo
menos na mulher que tinha entre os braços. Quando ao fim deixou de beijá-la, ela tinha os olhos fechados. Sua boca parecia levemente torcida; suas bochechas, arranhadas
pela barba do Brad.
Deveria ter se barbeado. Deveria ter feito muitas coisas antes de dar aquele passo. Rachel tinha razões de sobra para odiá-lo pelo que lhe tinha feito. Mas
Brad confiava em que soubesse perdoá-lo.
- Me perdoe - murmurou.
Ela abriu os olhos lentamente e lhe sorriu. Aquele leve sorriso se converteu imediatamente em uma risada de prazer sensual. Brad sentiu vontade de tomá-la de
novo entre seus braços, de leva-la à cama e esquecer-se das consequências.
- Te perdoar por quê? - perguntou ela com voz rouca e indolente.
- Por me ultrapassar. Não quero te seduzir para te convencer de que te case comigo.
- Que cavalheiresco de sua parte - se mofou ela, deslizando a palma da mão por sua bochecha áspera.
- Acredito que estou fazendo tudo errado. Deveria te haver levado a jantar. E te haver dado um anel...
- Não dizia que toda essa rotina te incomoda?
Ele a olhou inquisitivamente. Não parecia zangada. Em realidade, parecia que ia ficar a ronronar em qualquer momento. Brad temeu ficar em ridículo se não a
levantava de seus joelhos. Imediatamente.
Fê-la levantar-se e ficou em pé, mas não pôde dissimular sua ereção. Ela pareceu fascinada ao ver o estado no que se encontrava.
- Em seguida volto - resmungou ele, passando a seu lado. E quando fechou a porta de seu dormitório, começou a despir-se. Meteu-se no chuveiro e abriu ao máximo
o grifo de água fria da ducha.
Que comportamento tão ridículo, pensou enquanto se metia debaixo do jorro gelado. Nunca tinha tido que tomar uma ducha fria para aplacar seu ardor sexual. Por
quê? Porque nunca se deteve no meio do ato sexual, por isso. O que lhe passava?
Rachel era uma mulher adulta, e parecia disposta a dar o passo seguinte. Por que não tinha tomado o que lhe oferecia? Se houvesse feito, não sentiria tanto
dor como sentia nesse momento. Ainda tentava protegê-la? Tinha graça. Nunca em sua vida havia sentido a necessidade de proteger a alguém.
Passou o que lhe pareceram horas sob o jorro de água fria, obrigando-se a deixar a mente em branco e concentrando-se em aplacar os desejos de seu corpo. Tinha
sido um idiota ao pensar que Rachel aceitaria casar-se com ele. Ela procedia de uma boa família. Ele não sabia nada da família de seus pais, mas tendo em conta as
vivencias de sua infância, Rachel certamente não iria querer que sua futura família se poluísse com os genes de um esfarrapado.
E tinha razão, pensou, fechando o grifo. É obvio que sim. Secou-se com a toalha. Era uma idéia absurda. Isso era o que passava quando se pensava com outras
partes do corpo, e não com o cérebro: que um se metia em um rio.
Vestir-se-ia e lhe pediria desculpas. Possivelmente Rachel tivesse razão, a fim de contas. Não lhes viria mal passar algum tempo separados. Não havia razão
para pensar que não podia viver sem ela. Claro que podia. E o faria desde esse preciso momento.
Decidiu barbear-se, recordando que tinha arranhado com sua barba a delicada pele de Rachel. Levá-la-ia a jantar em algum lugar buliçoso e pouco romântico. A
um lugar com muita luz. Salvou-se pelos cabelos, teria que reconhecê-lo. Toda essa rotina de amor era para outros. "Mas não para mim."
Vestiu-se rapidamente. Passou uma última vez o pente pelo cabelo e cruzou a quarto, sentindo-se em pleno domínio de suas emoções pela primeira vez desde horas.
Mas ao abrir a porta, deteve-se de repente. Rachel estava ali, com a mão ao alto, pronta para bater na porta.
- Ai! - exclamou ela, e riu brandamente.
- Quase te dou no peito.
- Não importa. Eh olhe Rachel, sei que passei que a raia e o lamento. Prometo-te que...
Pôs-lhe os dedos sobre os lábios e disse:
- Vinha te dizer que, se sua oferta seguir em pé, acredito que é boa idéia que nos casemos.
Por que não pegava um taco de beisebol de beisebol e golpeava com ele na cabeça? Se o fizesse não o teria deixado mais surpreso.
- Nos casar? Quer te casar comigo?
O sorriso de Rachel era tão doce como a de um anjo.
- Acredito que sim, senhor Phillips, acredito que sim.
Capítulo 6
Ao Brad surpreendia que não estivesse zangada. Tinha pensado que estaria furiosa porque se aproveitou de sua inocência excitando-a sem lhe oferecer uma culminação
sexual satisfatória. Seguiu olhando-a e disse:
- Não crê que deveria pensar isso uns dias?
Sentia-se como um idiota por argumentar contra sua própria sugestão, em um esforço por comportar-se bem com Rachel. Casar-se com ela era o que mais desejava.
Assim por que não fechava a boca?
- Naturalmente, se fosse uma proposição autêntica, tomaria mais tempo para pensar nisso, mas dadas as circunstâncias... - sua voz se desvaneceu.
- Enfim, se formos falar do assunto, seria melhor que o fizessem fora do dormitório.
Brad a agarrou pela mão e a levou escada acima, à sala de estar. Assim que chegaram ao alto da escada, soltou-lhe a mão.
Sabia que seu comportamento era ridículo, mas o mero feito de estar a uns passos dela o turvava. Aproximou-se da porta trilho de vidro e a abriu de par em par.
Necessitava ar fresco. Uma brisa vespertina penetrou na sala. Brad assinalou com a cabeça as cadeiras do terraço.
- Por que não nos sentamos aqui fora? - perguntou, saindo ao terraço.
Ela o seguiu e se sentou frente a ele. Sua colorida saia se agitava com a brisa e lhe recordava os tesouros ocultos que não podia tocar. Brad pigarreou e disse:
- Bom, do que estava falando? Minha proposição é tão autêntica como a que mais.
Ela sorriu.
- Possivelmente. O que pretendia dizer é que, dado que não nos casaríamos pelas razões habituais, não faz falta pensarmos muito. Não quero voltar para meu apartamento
mais que para fazer a mudança. Como bem dizia, em sua casa há espaço de sobra para os dois.
- Parece-me que tiveste uma idéia muito sensata e razoável.
Brad experimentou uma profunda sensação de alívio. Seus músculos se relaxaram e se recostou na cadeira lançando um suspiro. Logo, franziu o cenho. Um momento.
Rachel falava do assunto como se fosse um contrato comercial, com aquele tom profissional, diáfano e preciso.
Brad a observou em silêncio. Parecia relaxada, apoiada comodamente na espreguiçadeira, como se desfrutasse placidamente da tarde, da vista e, possivelmente,
da companhia. Não tinha aspecto de executiva com sua blusa e sua saia de cores. Entretanto, sua expressão era idêntica a que estava acostumada a mostrar no escritório:
aprazível e serena. Seu encontro sexual não a tinha afetado absolutamente?
Claro que sim, disse-se com impaciência. Rachel se tinha excitado tanto como ele. E, entretanto, não mostrava sinais de frustração. Havia algo injusto em tudo
aquilo. Sabia Rachel o difícil que lhe tinha resultado apartar-se dela, tanto física como emocionalmente? Estava claro que não.
De repente se sentiu desanimado, mas Rachel não pareceu notá-lo.
- Suponho que teremos que decidir quando e como nos casaremos - disse, pensativa.
- Quer convidar a algum familiar à bodas?
- Não.
- Nesse caso, não vejo razão para celebrações; ou você sim? Minha família entenderá perfeitamente quando lhes explicar por que nos casamos.
Ele mordeu o lábio inferior antes de falar.
- Não pensei muito nas formalidades que suporta umas bodas. Só pensava nos resultados.
- Não me surpreende Brad. Você sempre pensa nos resultados - se o resultado era levar Rachel à cama e retê-la ali uns quantos dias, ou inclusive semanas, decididamente
estava de acordo com aquela asseveração.
- Pensemos onde. No Texas terá que esperar três dias para casar-se depois de tirar a licença matrimonial. Não sei como será aqui, na Carolina do Norte. Como
trouxe o notebook, posso olhar na Internet. Se não houver período de espera, poderíamos nos casar amanhã mesmo e retornar imediatamente a Dallas. O que prefere fazer
você?
Rachel fazia que tudo aquilo parecesse uma reunião de negócios. Brad se incorporou bruscamente. E o que? Perguntou-se. A ele que mais lhe dava? Certamente,
não queria uma cerimônia sentimental em que jurassem amor e devoção eterna. Rachel o conhecia bem. Podia desentender do assunto e deixar que ela se ocupasse de todos
os detalhes.
- Dá-me igual. Se formos nos casar, façamo-lo quanto antes - disse.
Ela balançou as pernas sobre o lateral da espreguiçadeira.
- Olharei o que nos convém mais - retornou ao interior da casa.
Brad seguiu contemplando a paisagem. As bodas lhe interessavam menos que a lua de mel. Naturalmente, não teriam uma autêntica lua de mel. Deviam voltar para
o escritório, o trabalho se acumulava. Não sabia se era bom sinal que não o tivessem chamado do escritório nas últimas vinte e quatro horas. Possivelmente fosse
melhor que chamasse ele, para comprovar se tudo ia bem.
Entrou na casa. Rachel já estava enganchada ao telefone. Brad baixou as escadas, entrou em seu quarto e tomou seu telefone móvel. Marcou um número gravado e
aguardou a que Janelle respondesse.
- Olá, Brad - disse a secretária alegremente.
- Que tal vão as coisas?
- Acredito que já está tudo resolvido. Ao menos, acredito que Cari poderá acabar o trabalho sem necessidade de internamento psiquiátrico, Que tal por aí?
- Bem. Houve muitas chamadas, mas nenhuma emergência. Hei dito a todo mundo que podia te localizar se se tratasse de algo urgente, mas me hão dito que esperariam
a que voltasse.
- Bem - ficou pensando um momento.
- Janelle, alguma vez tirei férias?
- Férias? - repetiu a secretária, como se não soubesse se o tinha ouvido bem.
-Sim.
- Não, ao menos desde que eu estou aqui; mas, claro, disso faz só cinco anos.
- Tomo nota. Você crê que o escritório sumiria no caos se tomasse uns dias livres?
Ela respondeu, rindo:
- Acredito que poderíamos arrumar isso bastante bem sem ti, Brad. Rachel sempre se encarrega de tudo quando suas viagens se alargam mais do previsto.
- Sim - disse ele franzindo o cenho.
- Rachel sempre está ao estorvo.
- É que pensa ir de férias? A verdade é que te viria muito bem te relaxar um pouco e descansar.
- Ah, sim? Você crê? E quando voltar serei outro homem? Crê que poderá te acostumar?
- Bom, o certo é que duvido que possa te manter afastado do escritório mais de um par de dias. Não imagino vagabundeando em uma praia perdida.
Ele pôs-se a rir.
- Não sabia que era tão previsível.
- Rachel segue contigo?
- Claro. Foi de grande ajuda.
- Tenho um par de mensagens para ela. Uma é de sua irmã, que chamou para perguntar por que não respondia ao telefone. Disse-lhe que estava fora da cidade e
me ofereci a lhe dar o número dai, mas disse que esperaria a que a chamasse quando voltasse.
- Dar-lhe-ei a mensagem. Passe-me o Rich. Manteremo-nos em contato. Já sabe onde me encontrar.
- Claro. Espera, vou passar para ele. Depois de uma série de assobios e estalos, o chefe de administração ficou ao telefone.
- Aqui Rich Harmon.
- Sou Brad. Que tal vai tudo?
Rich lhe resumiu o que tinha passado no escritório durante sua ausência e lhe explicou como tinha conseguido fazer-se com a situação. Brad ficou impressionado.
Rich parecia dirigir-se à perfeição em suas novas responsabilidades. Possivelmente, depois de tudo, não passaria nada se se ia com o Rachel uns dias.
Quando Rich acabou, Brad disse:
- Sairemos amanhã pela manhã, não sei a que hora. Estarei no escritório no meio da tarde, como muito. Se houver algo que queira que olhe antes da segunda-feira,
deixe isso em cima da mesa.
Pendurou e voltou a subir as escadas. Rachel levantou o olhar, que tinha fixo na tela do computador.
- Olhe, isto é o que encontrei. Se quisermos nos casar na Carolina do Norte, não há período de espera. Teremos que tirar a licença em um tribunal. Podemos fazê-lo
amanhã pela manhã. Com um pouco de sorte, haverá alguém que possa nos casar antes que nos partamos. O que te parece?
Ao Brad fez um nó no estômago. Aquilo era exatamente o que queria. Aquele encolhimento das tripas se devia sem dúvida às lições que tinha recebido durante sua
infância a respeito das mulheres.
Mas aquilo era distinto. Se seu pai conhecesse alguma vez a Rachel, Deus não o permitisse, descobriria que sua teoria estava equivocada. Nem todas as mulheres
eram tão más como seu pai as pintava. Naturalmente, Rachel confundiria por completo a seu pai. Era muito honesta para que Harold Freeland a entendesse. Seu pai sempre
jurou que não havia mulher honesta.
Rachel veria através do Harold como se este fosse transparente. Em outra época, Harold tinha ganhado muito dinheiro utilizando seu encanto e sua lábia. Mas
a Rachel não poderia extorqui-la. Ela veria imediatamente a farsa que se ocultava sob sua fachada de grande senhor.
Às vezes, Brad sonhava que vivia ainda com seu pai e que o seguia de cidade em cidade, fugindo da polícia ou do xerife.
- Brad?
Ah, sim. Rachel lhe tinha feito uma pergunta, não? Sobre suas bodas.
- Perdoa, estava pensando em outra coisa. Acredito que tem razão. O melhor é que nos casemos aqui e voltemos para Dallas amanhã mesmo. O que se necessita para
tirar a licença?
- Só a carteira de motorista.
Ele assentiu. Bem. Sua assistente havia tornado a encarregar-se de todos os detalhes.
- Onde está o tribunal?
- No Asheville, assim não teremos que nos desviar do caminho - olhou seu relógio.
- Não sei você, mas eu estou morta de fome. Não gostaria de tomar nosso último jantar antes do cumprimento da sentença? - brincou.
Ele apertou a mandíbula.
- Isso é o que pensa de nossas bodas?
- Não, absolutamente - respondeu ela com ligeireza.
- Só estava brincando. Leva toda a tarde muito sério - se apoiou contra um dos tamboretes da cozinha.
- Olhe se tiver trocado de idéia, entendê-lo-ei perfeitamente. Tenho outras opções. Pensava ir à casa de minha irmã uma temporada.
Quando se cansar de mim, poderia ir onde meu irmão, que tem uma casa muito grande no campo e que...
- Ouça, não há razão para que ponha à defensiva. Se quiser ir visitar sua irmã, não me importa. Merece tomar umas férias... O qual me recorda que Janelle me
há dito que sua irmã te chamou esta manhã.
- Não sente saudades. Deixei-lhe uma mensagem na secretária eletrônica, antes de saber que viríamos aqui, lhe dizendo que talvez fosse visitá-la.
- Prefere ir visitá-la a te casar comigo?
- É que são coisas incompatíveis? - ela sorriu.
- Sabe Brad? Começa a parecer um noivo ansioso. Se não te conhecesse, pensaria que...
- Conhece-me o bastante bem para saber que sempre mantenho minha palavra. Fiz-te uma proposição. Aceitou-a. Pela manhã diremos ao Cari que nos leve a tribunal
do Asheville. Depois tomaremos um táxi até o aeroporto. Agora, vamos jantar.
Essa noite, quando por fim se meteu na cama, Rachel tremia de cansaço. Durante o jantar, Brad lhe havia dito algo que era uma das mulheres mais honestas que
conhecia. Não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça.
Fechou os olhos, angustiada, pensando em quão desonesta tinha sido com ele. Ao princípio, tinha pensado que sua proposição de matrimônio era um insulto. Brad
expor as bodas como um assunto de simples conveniência. Se se casava com ele, sua rotina não se veria perturbada; em troca, se tomasse uma licença, seu chefe teria
que procurar a alguém que a substituísse no escritório.
Logo, Brad a tinha beijado com tanta paixão que ela se derreteu como uma vela de cera junto a uma fogueira. Nunca tinha permitido a um homem tais intimidades
e, entretanto, não se havia sentido violentada nem sobressaltada por suas carícias. Ao contrário, tinha descoberto uma nova faceta de seu ser.
Sabia que não teria detido o curso natural do mais delicioso encontro amoroso que pudesse imaginar. E não esperava que fosse ele quem o detivesse, quando era
evidente que estava tão excitado como ela.
Só ao ver que Brad se separava dela, tinha compreendido que aquele homem, que proclamava a voz em grito que não sabia o que era o amor e que em várias ocasiões
tinha afirmado que nunca se casaria, estava a ponto de desmentir ambas as asseverações. Queria casar-se com ela para protegê-la de um perseguidor, mas se tinha afastado
dela para protegê-la de si mesmo.
Rachel pensou nas lembranças que tinha entesourado do Brad ao longo dos anos. Tinha começado sendo seu chefe e, ao final, converteu-se em seu amigo. Em grau
menor, converteu-se em seu confidente, e ela no dele.
Poucos matrimônios começavam com fundamentos tão sólidos. Rachel tinha compreendido que Brad tomava a sério sua proposição ao ver como reagia quando lhe disse
que estava de acordo em casar-se com ele. Ao princípio, mostrou-se aterrorizado, mas logo tinha apertado a mandíbula e tinha mantido sua palavra.
Pobrezinho. Estava morto de medo por ter que enfrentar aquela situação de intimidade, pela possibilidade de voltar-se vulnerável, de compartilhar sua vida com
outra pessoa. E apesar de tudo, tinha mantido sua oferta em pé. Estava decidido a fazer quanto estivesse em sua mão para protegê-la.
Brad era um homem de palavra. Um homem íntegro. Rachel o queria, certamente. O perigo consistia em que ele se desse conta. Se queria ver o pânico refletido
no rosto de um homem, quão único tinha que fazer era lhe declarar seus sentimentos.
De algum jeito tinha que engenhar-lhe para fingir que não dava importância ao assunto, que aquilo era perfeitamente normal. Não sabia se seria tão boa atriz,
mas sabia que devia tentá-lo.
Queria que seu matrimônio durasse, não tinham falado de um acordo temporário. Trabalhavam a gosto juntos. E seu pequeno encontro daquela tarde sugeria que também
eram compatíveis na cama. Tinham bons alicerces sobre os que construir sua união. Rachel devia expor-se seu matrimônio como uma obra de larga duração e armar-se
de paciência, confiando em que possivelmente, algum dia, Brad confiaria nela o suficiente para baixar a guarda. Saberia quando tinha chegado esse dia porque ele
se mostraria disposto a lhe falar de sua vida anterior. Por mais que Brad insistisse em que seu passado carecia de importância, Rachel sabia que não era assim. O
passado seguia influindo em sua vida e nas decisões que tomava. Ou o tinha feito até esse dia, quando, ao lhe pedir que se casasse com ele, tinha quebrado aquela
pauta.
Rachel sabia que, algum dia, Brad descobriria por si mesmo que suas velhas crenças tinham limitado e constrangido suas possibilidades de encontrar a verdadeira
felicidade.
Capítulo 7
Brad renunciou finalmente a dormir e apartou o lençol. Levava quase toda a noite dando voltas na cama. As três da madrugada tinha olhado o relógio cada meia
hora, impaciente para que amanhecesse de uma vez.
Agora que o céu começava a clarear, preparar-se-ia para a viagem de volta. Não queria pensar em seus planos até que subisse ao avião. Comprometeu-se com Rachel.
E manteria seu compromisso.
Negava-se a olhar além das bodas. Rachel estava longe de ser uma estranha. Não havia razão para acreditar que trocaria de personalidade ao converter-se em sua
esposa.
"Minha esposa." Sempre tinha acreditado que não chegaria a utilizar essas palavras em toda sua vida. Desde menino lhe espantava a idéia de ficar apanhado por
uma mulher, mas tinha a sensação de que, em seu caso, era ele quem tinha estendido a armadilha. Assim por que sentia que traiu a si mesmo?
Meteu-se na ducha e deixou que a água quente relaxasse seus músculos. Vestiria o paletó e a gravata que levava na maleta. Queria mostrar a Rachel o maior respeito.
Entretanto, não estava seguro de que casar-se com ela fosse precisamente uma amostra de respeito. Rachel merecia um marido que a quisesse e que lhe desse uma
família. Ele era incapaz de um e contrário ao outro. Sabia que seu acordo não era justo, vê-la-ia na empresa e pelas noites iria a casa com ele.
Teria-a em sua cama cada noite. Seu corpo respondeu imediatamente a aquele pensamento, e isso o irritou. Fechou o grifo, secou-se e se vestiu procurando não
pensar no dia que tinha por diante.
- Não acredito que a senhora Crossland volte a te dar problemas - disse ao Cari quando foram no Jipe, de caminho ao Asheville.
- Foi uma autêntica genialidade por sua parte convencê-la de que se fosse com seu marido - respondeu Cari.
Rachel ia sentada justo detrás dele. Brad não podia vê-la, mas estava seguro de que Cari se comunicava com ela através do retrovisor. Deu-lhe vontade de dar
a volta e olhá-la, mas não lhe ocorreu nenhuma razão lógica para fazê-lo.
Rachel tinha levantado cedo e tinha aparecido na cozinha vestida com seu traje, uma blusa nova e seus sapatos de escritório., pouco depois de que Brad se servisse
sua primeira xícara de café. Parecia tranquila e descansada.
Brad esperava que contasse seus planos ao Cari, mas não o tinha feito. Ele, por sua parte, tinha pensado dizer-lhe assim que o visse, mas por alguma razão não
lhe tinha ocorrido como tirar o tema a colação. Não queria que se armasse um alvoroço. E Rachel parecia sentir o mesmo, pois não tinha dado amostras de que esse
dia fosse distinto a qualquer outro.
Brad tinha pensado que, quando fossem de caminho ao Asheville, sentir-se-ia mais depravado, mas se tinha equivocado. A voz de seu pai ressoava em sua cabeça,
apregoando machucando-o o seu desprezo para o matrimônio e tudo o que implicava. Brad tinha crescido escutando seus comentários depreciativos e frequentemente grosseiros
a respeito da instituição matrimonial. "Quem quer viver em uma instituição?", era um dos ditos favoritos do Harold.
Brad se recordou pela enésima vez que suas bodas não eram mais que um acordo formal. Mas o certo era que nem sequer ele acreditava. Se era um simples acordo
formal, por que não deixava de pensar em quão formosa estava Rachel com os seios nus e expostos a seu olhar; em sua boca, que tão bem se amoldava a dele e no plácido
e complacente que se mostrou em seus braços? E o que era mais chocante, por que após se encontrava em um estado de semi excitação?
Rachel lhe deu um tapinha no ombro. Ele voltou a cabeça.
- Cari te perguntou três vezes se pensa chamar o senhor Crossland - lhe gritou ao ouvido.
Brad olhou ao Cari, que tinha os olhos fixos na estrada.
- Ah, sinto muito. Acredito que tinha a cabeça posta em Dallas.
Brad passou o resto da viagem ao Asheville falando de alguns das mudanças que propunha a senhora Crossland e de quanto lhes custariam. A conversação lhe resultou
tranquilizadora até que, ao aproximar-se da cidade, compreendeu que não podia seguir pospondo o momento de dizer ao Cari aonde se dirigiam. Pigarreou duas vezes
antes de dizer:
- Não vamos diretamente ao aeroporto, Cari - lhe deu a direção do tribunal.
- Sabe... Eh... Onde fica?
Cari ficou pensando um momento.
- Acredito que está perto do tribunal.
- E sabe onde está o tribunal?
- Sim - respondeu Cari.
- Pois nos deixe ali. Parece-me que nos vem bastante bem - respondeu Brad sentindo-se como se o tivessem anestesiado.
Os três guardaram silêncio até que Cari deteve o carro em uma zona proibida frente à porta do tribunal.
- Querem que os espere?
Brad saiu e ajudou ao Rachel a descer do carro.
- Não precisa. Tomaremos um táxi para ir ao aeroporto.
Cari lhe fez uma rápida saudação militar.
- Obrigado por vir a me resgatar, chefe. Manteremo-nos em contato.
Brad esperou até que Cari sumiu no denso tráfico matutino antes de voltar-se para o tribunal.
- Fá-lo frequentemente, sabe? - disse Rachel brandamente.
Brad a olhou com o cenho franzido perguntando-se o que quereria dizer.
- Fazer o que?
- Resgatar às pessoas.
- Não vim resgatar ao Cari - disse ele ficando à defensiva.
- Quão único pretendia era salvar o trabalho. Se fiz esta viagem, foi estritamente por questão de negócios.
- Ah - disse ela.
- E te casar comigo também é um assunto de negócios, não?
Ele ficou olhando-a uns segundos antes de responder:
- Se sente ofendida?
Ela sorriu. Seus olhos brilharam alegremente, embora Brad não entendesse que demônio o fazia tanta graça.
- Absolutamente - disse Rachel com calma.
- Em realidade, prefiro-o assim.
Brad tentou dissimular um suspiro de alívio e, tomando-a pelo cotovelo, conduziu-a escada acima. Uma vez no interior do escritório da funcionária deu a volta,
para ouvir que Rachel dava os nomes completos de seus pais, Brad compreendeu que não tinha prestado atenção à informação que se exigia para cumprimentar a licença
matrimonial.
Apertou os dentes e aguardou seu turno. Quando a mulher lhe perguntou o nome de seus pais, respondeu com voz crispada, evitando olhar a Rachel. Assim que lhes
entregaram a licença, perguntou a funcionária onde podiam encontrar um juiz que os casasse.
Seguiram as indicações daquela mulher risonha, o eco de felicitações ressoando a suas costas, e por fim encontraram o escritório do juiz de paz. Brad lhe explicou
que estavam de passagem no Estado e que queriam casar-se o quanto antes possível. Ou por seu nervosismo, pois as mãos lhe suavam e tinha a mandíbula tensa, ou pela
calma do Rachel, o caso é que o juiz pareceu acreditar que realmente desejavam casar-se.
Ao Brad surpreendeu descobrir que as formalidades de umas bodas eram muito singelas. O juiz se apressou a declará-los marido e mulher e lhe urgiu a beijar à
noiva. Brad se inclinou e beijou fugazmente a Rachel antes de dar as graças ao juiz e de lhe pagar seus honorários. Assim que saíram do escritório, tirou da mão
a Rachel e percorreu o corredor a toda pressa, ansioso por sair daquele edifício que parecia mofar-se dele.
Uma vez fora, deteve-se no alto da escada e olhou a seu redor.
- Pensava que haveria algum táxi por aqui perto.
- Possivelmente deveríamos chamar um - sugeriu Rachel.
Brad tirou do bolso o telefone móvel. Chamou informação Telefônica, pediu o número de um teletaxi, marcou e pediu que os levassem ao aeroporto. Enquanto esperavam
que chegasse o táxi, ficou a passear de um lado a outro. Quando passou junto a Rachel pela terceira vez, esta lhe perguntou:
- Passa-te algo?
Sua voz parecia tão normal, tão como sempre, com aquele leve acento de escola privada que tinha herdado de sua mãe... Brad se deteve frente a ela e meteu as
mãos nos bolsos da calça.
- Tenho feito tudo errado - disse, irritado, sentindo um idiota.
- Você merece algo melhor. Podia te haver trazido um anel, ou ter planejado uma festa ou algo assim - moveu a mão vagamente, sabendo que suas palavras soavam
ridículas.
Ela sorriu com aquele sorriso sereno que, invariavelmente, o fazia relaxar-se.
- Não há pressa para comprar um anel ou celebrar uma festa. Temos tempo, Brad. Não se preocupe.
- A verdade é que não sei como vou explicar tudo isto na empresa. Suponho que teremos que anunciá-lo assim que cheguemos, não crê?
- Por quê?
- Bom, eu... Eh... Porque se inteirarão cedo ou tarde.
- Pois quanto mais tarde, melhor. Procuremos manter separada a vida privada do trabalho, se for possível. Até que nos acostumemos a viver juntos, não vejo razão
para dizer a ninguém. Mas, naturalmente, essa é só minha opinião.
Que maneira tão sensata e lógica de contemplar uma situação em que ele se sentia completamente perdido. Brad compreendeu de repente que podia deixar que as
coisas seguissem seu curso e que não havia necessidade de tomar um montão de decisões precipitadas a respeito de uma situação que, ao menos para ele, era potencialmente
um campo de minas.
Um táxi se deteve junto à calçada. Brad suspirou, aliviado, pelo fato de que sua vida se movesse para diante uma vez mais, embora fosse só para ir ao aeroporto.
Ajudou Rachel a subir ao táxi e só então recordou que não gostava de voar. Entretanto, essa manhã Rachel não tinha dado amostras de que lhe preocupasse o vôo de
volta a Dallas.
Pensando bem, Rachel refreava suas emoções quase todo o tempo. Brad ainda não se explicava por que tinha aceitado sua proposição matrimonial. Talvez temesse
ficar em seu apartamento mais do que demonstrava. Se não, por que tinha querido tomar uma licença assim, tão de repente?
Brad a segurou pela mão e lhe lançou um sorriso tranquilizador. Ela o olhou um tanto surpreendida, certamente porque ele se manteve a distância toda a manhã.
Pois já podia acostumar-se a seu contato, pensou Brad. Embora nunca tivesse sido muito dado ao contato físico, salvo nos casos óbvios, com Rachel se sentia de outro
modo. Com ela, o problema era que mal podia ter as mãos quietas.
O taxista os levou a zona privada do aeroporto, onde os esperavam o jato e Steve Parsons, o piloto. Depois de pagar ao condutor, Brad recolheu a pequena bolsa
que Rachel tinha comprado para levar sua roupa nova. Deixando-se levar pela tentação, passou-lhe o braço pela cintura e se dirigiu para o avião, ajustando seus passos
aos dela, mais curtos.
- Bom dia, chefe - disse Steve sorrindo.
- Comprovei o prognóstico do tempo. Teremos uma boa viagem de volta.
- Bem - respondeu Brad, que sentia o calor do corpo de Rachel a seu lado. Separou-se dela a contra gosto para que subisse a escada, e se deteve um momento enquanto
Steve o informava do estado do avião, depois do qual ambos subiram. Uma vez dentro, Steve se preparou para a decolagem.
Rachel já se sentou e estava olhando fixamente pelo guichê quando Brad se aproximou. Ele sentou e, depois de grampear o cinto de segurança, agarrou-a pela mão.
Notou que tinha a palma úmida e fria. Rachel seguiu olhando pelo guichê. Brad se perguntou o que podia fazer para ajudá-la a relaxar. Sabia que era melhor não mofar-se
de seus medos e procurou pensar em outra coisa para distraí-la.
Depois de uma decolagem sem contratempos, o avião subiu até alcançar sua altitude de vôo. Durante a decolagem, Rachel tinha mantido uma mão entre as do Brad,
mas com a outra se aferrava ao braço do assento com tal força que os nódulos lhe haviam posto brancos. Vá. Sim que tinha medo. Brad se perguntou se queria que lhe
sujeitasse a mão. Ela não deixava transparecer nada, nem em um sentido nem em outro. Brad se deu conta de que se perguntava muitas coisas a respeito dela agora que
já não era só sua assistente. Desconhecia muitos aspectos da pessoa que tinha trabalhado a seu lado durante os últimos oito anos: sua comida favorita, sua cor, a
música que preferia o lugar ao que ia de férias... "Confronta-o, Phillips, casaste-te com uma mulher a que realmente não conhece." O olhar ardiloso e descrente de
seu pai apareceu em sua cabeça. Brad espantou aquela imagem e deixou que seus pensamentos vagassem sem tentar dirigi-los.
Quando o avião se estabilizou e apagou a luz que indicava que deviam manter grampeado o cinto de segurança, Brad elevou o braço do assento que separava as poltronas,
desabotoou primeiro seu cinturão e logo o de Rachel e a sentou sobre seus joelhos sem prévio aviso. Ela deixou escapar um gemido e se agarrou a seus ombros, assombrada.
- O que está fazendo? - perguntou um tanto ofegante.
Ele sorriu, notando de repente uma sensação de liberdade que nunca antes tinha tido.
- Abraçando a minha mulher. Importa-te? - ela seguiu olhando-o aos olhos como se procurasse algo. Ao cabo de um momento, sorriu e se apoiou relaxadamente contra
seu peito.
- Está cômoda? - perguntou Brad ao ver que não dizia nada.
- Sim - murmurou ela, e pôs a cabeça sobre seu ombro.
Brad tentou pensar em algo que dizer e que não tivesse que ver com o escritório, mas não lhe ocorreu nada. Falar nunca lhe tinha dado bem, mas lhe parecia que,
achando-se nas primeiras horas de seu matrimônio, aquele era o momento oportuno para as confidências. Podia lhe fazer algumas perguntas, supunha, mas possivelmente
isso a pusesse nervosa. De repente, deu-se conta de que em realidade conhecia dela as coisas verdadeiramente importantes, e saber qual era sua comida favorita, ou
sua cor, ou a música que escutava deixou de lhe parecer premente. Não havia razão para que se inquietasse pelas coisas que ainda ignorava de Rachel.
Em troca, Rachel sem dúvida se inquietaria se alguma vez se inteirava de seu passado por terceiras pessoas. Havia pouca gente que conhecesse sua vida, mas,
no caso de, Brad decidiu não arriscar-se. Rachel era já sua esposa, para bem ou para mal, e talvez sentisse que naquele trato ela levou a pior parte, assim era preferível
contar-lhe tudo antes.
- Alguma vez te falei que meu pai? - perguntou abraçando-a. Podia sentir o fresco aroma de seu xampu e a tênue fragrância de seu perfume. Apoiou a cabeça contra
a dela, sentindo-se reconfortado por sua presença.
Houve um silêncio atrás de sua pergunta, um comprido silencio. Estaria Rachel muito assustada pelo vôo para responder? Brad não queria seguir falando se ela
preferia calar. Possivelmente fosse melhor assim, de todos os modos.
- Não - respondeu ela finalmente com a voz um tanto rouca, - nunca me falaste que seu pai - não se moveu, salvo para deslizar os braços ao redor da cintura
do Brad.
Este fechou os olhos e imediatamente as imagens do passado se deslizaram por sua cabeça como as cenas de um filme mudo.
- Meu pai era um estelionatário. Era capaz de vender a lua ao mais esperto, lhe garantindo que ficaria rico se a subdividia e vendia as parcelas. A maioria
das pessoas que tragavam seus contos eram, naturalmente, gente de espírito mesquinho, ou de outro modo, não teria tido tanto êxito como teve. É muito difícil fraudar
a uma pessoa honrada, sabe? Uma pessoa honrada sempre desconfia quando lhe oferecem fazê-lo rico da noite para o dia. Normalmente, descobre o engano em seguida,
porque sabe que o dinheiro fácil está acostumado a ser suspeito. Meu pai tinha talento para descobrir a quem esperava o ouro e o mouro em troca de nada. As pessoas
que caiam em seus contos acabavam entregando algo em troca de nada, pois meu pai conseguia lhes deixar sem um centavo e escapar da cidade a toda pressa.
Rachel não se moveu desde que ele começou a falar. Quando Brad se deteve, aguardando que lhe fizesse as perguntas que sem dúvida lhe rondavam pela cabeça, ela
o abraçou com mais força, mas não disse nada, Brad a apertou firmemente, desfrutando do contato de suas curvas suaves. Apesar da amarga história que estava contando,
excitou-se ao notar o roçar de seus quadris.
- Harold, meu pai, nunca perdia ocasião de me recordar que não havia nada melhor que comer grátis, e que, quando algo parecia muito bom para ser certo, normalmente
o era. Bombardeava-me com conselhos à medida que eu crescia. Para ouvi-lo falar de nossa vida, qualquer um podia pensar que éramos as pessoas mais afortunadas do
mundo. Jogar raízes era para gente pequena que não sabia aproveitar as oportunidades que oferecia a vida. Conforme dizia, tinha o mundo na palma da mão e jogava
com ele a seu desejo. Nunca falava das vezes nas que as coisas não saíam como as tinha planejado - Rachel lhe acariciou a nuca com um movimento suave que relaxou
sua tensão. Uf, sim. Podia voltar-se viciado em suas carícias. Fez uma pausa para recordar por onde ia.
- Entretanto, devo lhe agradecer que nunca me abandonou. Ter-lhe-ia sido fácil fazê-lo. Mais de uma vez escapamos pelos cabelos do comprido braço da lei, porque
eu dificultava nossa fuga, mas mesmo assim seguiu me arrastando ao longo e largo do país. A minha queridíssima mãe me abandonou no motel que vivia Harold quando
eu logo que tinha quatro anos, e nunca voltei a saber dela. Tinha estado procurando a meu pai desde que nasci, explicou-me Harold anos depois, para me tampar a boca
porque eu não fazia mais que lhe perguntar por minha misteriosa mãe. Conforme dizia, quando eu tinha umas poucas semanas de vida, ela tentou me fazer passar por
filho de um tipo com que saía, mas o tipo insistiu em fazer uma prova de paternidade e tirou o chapéu ao bolo. Assim minha mãe foi em busca do Harold. Foi um milagre
que ele ficasse pelos arredores de Chicago tanto tempo. Ao parecer, meu pai não teve tanta sorte como o outro tipo. Depois de fazer a prova de paternidade, viu-se
obrigado a fazer-se responsável por mim. Conforme me explicou quando eu era um adolescente, sentiu muito medo ao saber que era pai. Confrontou o assunto como estava
acostumado a confrontar as situações desagradáveis: desapareceu assim que lhe deram os resultados da prova de paternidade. Mas um desgraçado dia, ou noite, melhor
dizendo, em algum lugar da Geórgia rural, a mulher que deu a luz o encontrou por fim. Ao parecer, tinha alguns contatos que a puseram sobre sua pista. Meu pai me
disse que chamou a sua porta às quatro da manhã, tirando-o de um pesado sono, certamente induzido pelo álcool. Quando chegou à porta dando tropicões e a abriu, ela
me meteu no quarto junto com uma bolsa de papel que continha todas minhas posses terrestres, deu meia volta e se foi sem dizer uma palavra.
Brad sentiu que os lábios do Rachel se moviam brandamente sobre seu pescoço. Fez-lhe um nó na garganta ao compreender que o estava beijando. Aguardou a que
desaparecesse o nó para continuar. Nunca antes tinha contado aquela história. Dava-lhe muita vergonha. Mas ao começar, surpreendeu-lhe descobrir que relatá-la não
era tão doloroso como esperava.
- Meu pai me contou que passei dias inteiros chorando e chiando, pedindo para ver minha mãe. Nunca pude entender por que chorei por ela. Talvez me desse medo
estar com um perfeito desconhecido. Meu pai poderia me haver deixado no asilo mais próximo, mas pelas razões que fossem não o fez. Levou-me com ele, dizia que lhe
serviria de coberta. As mulheres sentiam debilidade por aquele homem bonito, de sorriso deslumbrante, que levava um menino pequeno pendurado da mão. Quando eu tinha
dez anos, ensinou-me a muito fina arte de roubar carteiras. Sempre ria disso. Dizia que eu era o melhor ladrão de carteira que tinha visto. E eu gostava que o dissesse.
Ao menos, acreditava ser bom em algo. Mudávamo-nos tão frequentemente que nunca conseguia ficar em uma escola muito tempo. A maioria das vezes, meu pai nem sequer
se incomodava em me matricular, a menos que algum policial me visse com ele e lhe pedisse explicações de por que não estava em aula. Mostrou-se encantado quando
tive estatura suficiente para fingir que já tinha terminado o colégio. Eu era alto para minha idade, e isso lhe veio muito bem. Vestia-me com sua roupa: camisas
e trajes muito caros que lhe tinham dado diversas mulheres ao longo dos anos. Acostumei-me a sair de uma cidade em plena noite, montado em um dos muitos carros que
teve se tivesse sorte. Se não, tomávamos o ônibus. Lembro uma vez que a polícia nos estava esperando quando nos aproximamos do apartamento de um só quarto que meu
pai tinha alugado. Tivemos sorte; não nos viram, mas nos vimos obrigados a partir deixando atrás tudo o que possuíamos. Lembro que me zanguei, mas ele me prometeu
que recuperaria tudo e que ao final as coisas melhorariam. E assim foi durante um tempo, mas nunca durava muito. E essa, querida senhora, é a história do passado
turvo de seu flamejante marido.
Rachel se apartou um pouco para olhá-lo.
- Onde está agora seu pai?
Ele encolheu de ombros.
- Não tenho nem idéia. Apareceu em Dallas faz uns anos. Acredito que inclusive falou com ele. Não lhe devolvi as chamadas e suponho que ao final se rendeu.
Apesar de que me criou, não tenho desejos de voltar a vê-lo. Eu devia ter quinze anos, mais ou menos, quando partimos do Texas repentinamente, rumo à Califórnia.
De madrugada, o ônibus fez uma parada no Tucson. Entramos no terminal e ele me deixou sozinho um momento para ir à busca de uma nova vítima. Eu levava meses esperando
uma oportunidade como essa e tinha economizado algum dinheiro. Comprei um bilhete de volta ao Texas e me escondi até que o ônibus saiu da estação. Não sei quando
descobriu meu pai que eu não estava no ônibus com destino a Los Angeles. Deve ter pensado que tinha subido antes que ele e que me tinha jogado em um dos assentos
vazios do fundo para dormir um momento. Não há forma de saber.
- Alguma vez tornaste a vê-lo? - perguntou ela.
- Não. Retornei a Dallas porque tínhamos estado ali várias vezes e eu gostava da cidade. Além disso, no inverno faz muito menos frio que em Chicago, o qual
me veio muito bem, porque durante algum tempo vivi na rua. Com minhas habilidades, não foi difícil conseguir dinheiro para sobreviver.
"E o maior golpe de sorte que tive se produziu no dia, uns seis meses depois, em que tentei roubar a carteira ao Casey Bishop. Foi uma temeridade de minha parte,
dado o tamanho daquele homem. Casey me agarrou pelo braço e insistiu em me levar a casa de meus pais. Ao princípio, não acreditou que estivesse sozinho, e sua incredulidade
me ofendeu profundamente. Odiava que tomassem por mentiroso quando dizia a verdade. Em qualquer caso, suponho que ao final o convenci, porque insistiu em que me
fosse com ele a sua casa, o qual, naturalmente, despertou em mim toda classe de suspeitas. Não sei por que aceitei. Não foi porque confiasse nele. Eu não confiava
em ninguém. Talvez fosse porque era um homem extremamente forte. Ou possivelmente porque eu tinha um mau dia. Fosse qual fosse a razão, o caso é que fui com ele.
Casey vivia em um espaçoso apartamento no norte de Dallas. Sua mulher tinha morrido no ano anterior e vivia sozinho. De caminho a sua casa disse que era empreiteiro
de obras, e que sempre andava procurando peões. Perguntou-me se estava interessado em ganhar a vida honestamente ou se preferia seguir vivendo na rua. Conduzia uma
caminhonete último modelo, e lembrança que pensei o que aconteceria se lhe dava um murro por ter feito aquele estúpido comentário.
O caso é que Casey acabou me dando trabalho e ocupando-se de mim. Buscou-me um pequeno apartamento. Insistiu em que tirasse o bacharelado e em que fosse à universidade
pelas noites. Não entendia que para mim era muito difícil me matricular em qualquer parte. De fato, durante várias semanas não pôde me dar alta na segurança social
porque eu em realidade não tinha sobrenome. Harold usava tantos que nunca me matriculava na escola duas vezes com o mesmo nome. Inventou uma história lacrimogênea
a respeito de que tinha enviuvado recentemente e de que meu expediente escolar estava a caminho. Normalmente, partíamos da cidade antes que a escola exigisse a documentação.
Quando Casey insistiu em me contratar, decidi lhe contar meu problema. Não entrei em detalhes, é obvio, não queria aborrecê-lo com minha patética história. Além
disso, sabia que não acreditaria e não queria passar outra vez por aquela humilhação. Só lhe disse que não tinha sobrenomes legais nem número de segurança social.
Em realidade, naquele momento nem sequer sabia onde se encontrava minha certidão de nascimento. Casey me levou a um advogado que preencheu certos papéis e me fez
comparecer ante um juiz, o qual legalizou o sobrenome que eu mesmo tinha escolhido. Conservei meu nome de batismo porque estava acostumado a ele, e adotei o sobrenome
Phillips porque eu gostava de como soava. Parecia-me novo e sem mancha. E prometi a mim mesmo conservá-lo assim.
De repente, Brad se sentiu esgotado, como se acabasse de realizar um grande esforço físico. Beijou Rachel na testa e acrescentou:
- E essa é a história de minha vida, embora certamente tivesse preferido que não lhe contasse - tentou pôr isso um tom ligeiro, mas não o obteve de tudo. Esperava
uma resposta igualmente ligeira, mas Rachel disse:
- Alguma vez procurou a sua mãe?
Ele soprou com ironia.
- Brinca? Embora tivesse querido fazê-lo, não tinha suficiente informação para dar com ela. O advogado contratou a um detetive para localizar minha certidão
de nascimento, a fim de que me dessem um número de segurança social. Contei-lhe o que sabia: que minha mãe se chamava Mary Ellen, mas desconhecia seu sobrenome.
Meu pai nunca se incomodou em me falar dela. Calculei mais ou menos sua idade porque uma vez, estando bêbado, Harold me contou os poucos dados que tinha dela. Eu
sabia que tinha nascido em um hospital do condado de Chicago um sete de julho. Sabia também o ano de meu nascimento, o nome de batismo de meu pai e que meus pais
nunca se casaram. Com esses poucos dados, o investigador localizou minha certidão de nascimento. Nela figurava o nome da Mary Ellen Ogden. O pai figurava como "desconhecido",
o qual, pensando-o bem, tem graça, porque nunca soube o verdadeiro nome de meu pai.
- Assim Casey foi seu mentor, em certo modo.
- Poderia dizer-se assim. Eu sentia admiração por ele. Era um homem honesto e íntegro, algo no que eu não acreditava até que o conheci. Converteu-se em um exemplo
para mim. Estar-lhe-ei eternamente agradecido por não ter abandonado a sua sorte a aquele menino briguento e soberbo que tentou lhe roubar a carteira.
- Onde está agora?
- Casey? - Brad sorriu.
- Se aposentou faz alguns anos. Em realidade, foi sua aposentadoria o que me impulsionou a fundar minha própria empresa. Ele se assegurou de que seus sócios
e seus contatos me conhecessem e soubessem que podiam confiar em mim. Durante os dois ou três primeiros anos, o negócio não teria saído sem sua ajuda.
- Onde vive?
- Transladou-se a Florida, converteu-se em um fanático da pesca e se apaixonou pelos veleiros. A última vez que falei com ele, estava pensando em dar a volta
ao mundo em navio - pôs-se a rir ao imaginar Casey visitando ilhas cheias de belas e sensuais mulheres. Ao Casey gostava das mulheres. O problema era que sua mulher
tinha sido seu verdadeiro amor, e nunca havia tornado a pensar em casar-se.
Rachel se inclinou um pouco mais sobre ele e o beijou na boca. Brad recordou quanto desejava lhe fazer o amor. Depois de tantos anos trabalhando juntos sem
a interferência da tensão sexual, logo que podia acreditar que sua assistente sortisse sobre ele um efeito físico tão imediato. Rachel o beijou com ternura, algo
que nunca tinha feito mulher alguma. Ao Brad custou grande trabalho não lhe arrancar a roupa e lhe ensinar quanto tinha aprendido sobre como satisfazer a uma mulher.
Isso podia esperar, pensou. Não queria atuar como um bárbaro, disse.
De repente, surgiu em sua cabeça uma idéia inesperada. Arregalou os olhos e a olhou com fixidez assim que ela se incorporou.
- Beijaste-me por compaixão? - perguntou, até sabendo que estava sendo muito brusco.
Rachel pareceu surpreendida e, depois de uma breve pausa, como se recuperasse o fôlego, pôs-se a rir. Suas gargalhadas ressoaram em toda a cabine do avião.
Cada vez que começava a acalmar-se, olhava-o e de novo se convulsionava de risada.
- Está rindo de mim? - perguntou Brad quando ela por fim pareceu acalmar-se.
Rachel assentiu enquanto tampava a boca com a mão para reprimir outra gargalhada.
- Eu adoraria ver a expressão das muitas mulheres com as que estiveste ao longo de sua vida se lhes fizesse essa pergunta. Querido, não sei como lhe dizer isso,
mas há muitíssimas razões pelas que uma mulher sentiria vontade de te beijar, mas a compaixão não é uma delas.
Brad a olhou, surpreso. Tinha-o chamado "querido". Algumas mulheres lhe tinham dedicado apelidos melosos, que frequentemente lhe faziam chiar os dentes, mas
Rachel nunca o tinha chamado mais que Brad.
Sorriu e a apertou contra si. Rachel não parecia escandalizada por sua história. Talvez a tivesse oculto durante muito tempo. Falar de seu passado pareceu liberá-lo
de um lastro muito pesado. Já não importava o que tinha sido e feito antes. O que importava era o homem que tinha chegado a ser.
Fechou os olhos, exalou um suspiro de cansaço e, experimentando uma profunda sensação de bem-estar, dormiu.
O som do timbre que lhes recordava que se grampeassem os cinturões despertou Rachel algum tempo depois. Logo não podia acreditar que ficou cochilando em um
avião. Elevou a cabeça e olhou Brad, que parecia profundamente adormecido. Não a surpreendeu. Essa manhã, ao vê-lo recém levantado, tinha-lhe dado a impressão de
que não tinha pegado olho em toda a noite.
Rachel se levantou de seus joelhos e se acomodou em seu assento. Depois de grampear o cinturão, estendeu os braços e grampeou Brad ao seu com cuidado de não
despertá-lo. Aproveitou a ocasião para olhá-lo. Nunca o tinha visto dormir. Dormindo parecia muito mais jovem. As rugas que tinha ao redor dos olhos e entre as sobrancelhas
tinham desaparecido. Sua boca parecia relaxada e extremamente desejável.
Beijá-lo por compaixão, nada menos. Rachel sorriu ante a idéia, mas seu sorriso se desvaneceu em seguida. Como podia alguém escutar a história de sua infância
e não sentir compaixão por aquele menino e raiva pelo mau trato que tinha sofrido? Brad não tinha tido infância, isso estava claro. Rachel também compreendia melhor
por que desconfiava das mulheres. Como podia uma mulher abandonar o seu filho daquele modo?
Era uma sorte que não soubesse como contatar com a Mary Ellen Ogden. Se não, iria procurá-la e lhe diria algumas coisas bem fortes. Rachel não recordava haver
sentido aquele instinto de amparo por ninguém antes.
Aquilo era ridículo e sabia. Brad Phillips era um dos homens mais fortes e independentes que conhecia. Estava claro que não necessitava que ninguém o protegesse.
Como tinha conseguido sobreviver a semelhante infância?, perguntava-se. E não só sobreviver, a não ser desenvolver uma ética tão sólida. Certamente, não o tinha
aprendido em casa. De fato, estava claro que nunca tinha tido um lar.
Não era de se espantar que comprasse a enorme casa onde vivia. Achava-se situada em uma vizinhança aprazível, formado por imóveis fechadas. Sem dúvida Brad
necessitava um lugar para voltar quando o dia se acabava. O que Rachel parecia triste era que vivesse sozinho naquela mansão.
Mas já não, pensou. Brad Phillips nunca voltaria a estar sozinho se dela dependia.
Capítulo 8
Brad despertou quando o avião descia para o aeroporto. Abriu os olhos e se espreguiçou antes de recordar que Rachel estava junto a ele. Rachel..., sua mulher.
Rachel..., a que tinha medo de voar.
Olhou-a rapidamente. Tinha os olhos fechados, mas não se aferrava aos braços do assento, mas sim tinha as mãos placidamente apoiadas sobre o regaço. Brad se
perguntou se estaria dormindo. Não recordava quando se levantou de seus joelhos, mas sim ter experimentado uma sensação de perda durante o sono. Tinha sentido falta
de sentir-se abraçado por ela, apertá-la com força. Nunca havia sentido tal necessidade de estar com alguém, e isso o inquietava.
As rodas chiaram ao tocar o asfalto da pista de aterrissagem. Brad desabotoou o cinturão e ficou a recolher suas coisas antes inclusive de que o avião se detivesse
no hangar. Precisava fazer algo para acalmar seu desassossego. Pela extremidade do olho, viu que Rachel se levantava e olhava a seu redor, como se saísse de um profundo
estado de torpor. Sorriu ao posar o olhar sobre ele, e Brad sentiu como se uma enorme mão se fechasse sobre seu coração e o espremesse.
- Está preparada? - perguntou a Rachel bruscamente, ao mesmo tempo em que Steve entrava na cabine. Ela não respondeu. Limitou-se a esperar a seu lado a que
Steve abrisse a porta. O piloto se fez a um lado e deixou que Rachel e Brad saíssem primeiro. Uma vez na pista, os homens se estreitaram as mãos e Brad pôs-se a
andar para seu carro, com a mente concentrada no trabalho, o que em certo modo o tranquilizava. Não notou que Rachel se esforçava por seguir seu passo.
Os negócios eram um terreno conhecido, no que se sentia a gosto. Pensar na companhia sempre tinha o efeito de tranquilizá-lo. De repente, sentiu ânsias de chegar
ao escritório e de retomar sua vida de costume, e procurou não pensar na confissão que tinha feito a Rachel.
De caminho ao escritório, tentou confeccionar mentalmente uma lista das coisas que tinha que fazer, começando por reunir-se com o chefe de administração. Quando
se detiveram ante um semáforo, deu-se conta de que nenhum dos dois tinha falado desde que se desceram do avião. Olhou a Rachel, perguntando-se no que estaria pensando.
- Está bem? - perguntou-lhe.
Ela girou a cabeça e piscou.
- Sim, só um pouco aturdida. Sinto haver ficado adormecida em cima de ti. Acredito que suas pernas ficaram intumescidas com tanto peso.
- Pois isso não impediu que ficasse adormecido eu também - a seguir, Brad tirou alguns assuntos de trabalho pendentes, dos quais falaram durante o resto do
trajeto.
Brad tinha entrado na recepção da empresa em infinidade de ocasiões, mas esse dia todo lhe pareceu diferente. Assombrado, deteve-se e jogou uma olhada a seu
redor. As cores pareciam mais vivas, ou algo assim... Teriam pintado as paredes recentemente? Sacudiu a cabeça. O que lhe estava passando?
Melinda, a recepcionista, levantou o olhar e lhe lançou um sorriso descarado.
- Bem-vindo senhor Phillips. Senhorita Wood.
Brad se deteve ante o mostrador e disse:
- Poderia avisar ao Rich Harmon de que tornamos? Diga-lhe que quero vê-lo assim que lhe seja possível.
- Claro - disse ela, elevando o telefone.
Ao atravessar o corredor, Brad se cruzou com vários empregados que o saudaram com uma cordialidade em que nunca antes tinha reparado. Teriam sido sempre assim
amáveis? Não se tinha produzido nenhuma mudança que justificasse sua nova perspectiva, isso era certo. Talvez se devesse à pressão do ar no interior do avião. Anotou
mentalmente que devia dizer ao Steve que a revisasse.
Rachel e ele chegaram à zona dos escritórios da direção. Brad abriu a porta e se apartou para deixar passar a Rachel. Janelle levantou o olhar da tela do computador
e sorriu.
- Olá, meninos - disse, elevando dois grandes montões de mensagens telefônicas.
- Isto lhes manterá ocupados o resto do dia, pelo menos.
Brad assentiu e entrou em seu escritório revisando as mensagens. Quando olhou a seu redor, deu-se conta de que Rachel não tinha entrado atrás dele. Colocou-se
em seu próprio escritório. Talvez fosse melhor assim. Adiantariam o dobro de trabalho se passavam umas quantas horas separados.
Ao chegar ao escritório, Brad só pensava estar um par de horas trabalhando. Mas tinham acontecido quatro quando por fim se levantou da mesa. Aproximou-se da
porta que conectava seu escritório com o de Rachel e a abriu brandamente. Ela estava falando por telefone, mas o viu assim que apareceu à porta. Lançou-lhe um sorriso
fugaz e lhe fez gestos de que entrasse. Brad se deslizou em uma das cadeiras que havia em frente de sua escrivaninha e ficou olhando-a. Aquela era a mulher a que
tão bem conhecia, a mulher com a que se sentia a gosto, a que conhecia seu caráter, seus estalos de mau humor e sua impaciência. Rachel sabia tudo sobre sua pessoa
e, entretanto, tinha aceitado casar-se com ele. Brad se perguntava por que. Não era por sua fascinante personalidade, disso estava seguro.
Escutou distraidamente enquanto ela falava com um cliente um tanto suscetível, sem que sua voz mostrasse sinais de irritação ou impaciência. Quando pendurou,
olhou-o inquisitivamente, arqueando as sobrancelhas.
- Estava me perguntando se há algo aí...
Brad indicou os montões de arquivos que havia sobre a mesa- que não possa esperar até a segunda-feira.
Ela esfregou a testa com expressão de cansaço e olhou os papéis que tinha em cima da mesa.
- Sinceramente, acho que não - respondeu com um suspiro.
- Suponho que você tem que enfrentar a tudo isto cada vez que te ausenta uns dias.
- Normalmente, não - disse ele sorrindo.
- Sabe, tenho uma magnífica assistente que se encarrega de quase tudo quando eu não estou, assim quando volto encontro tudo em ordem. Às vezes até me sinto
supérfluo neste escritório.
Ela pôs-se a rir.
- Sim, é. Sinto muito, mas não acredito.
Ele elevou os braços por cima da cabeça e se espreguiçou. Depois de mover a cabeça lentamente em círculos para relaxar a tensão que sentia no pescoço, olhou
Rachel e disse:
- Queria te fazer uma sugestão.
Ela se inclinou para diante, juntando as mãos sobre a mesa.
- Adiante.
- Sugiro que vamos a casa, olhemos o que há no congelador para fazer o jantar e passemos uma quantas horas de relax. O que te parece?
Ela se ruborizou brandamente, pensando no que Brad não havia dito.
- Você é o chefe - respondeu ficando ainda mais vermelha.
- Não necessariamente, ao menos em nosso matrimônio. Em minha opinião, somos como sócios. Temos os mesmos direitos de voto.
Ela se levantou e se estirou.
- Então, voto para irmos antes que volte a chamar algum cliente pesado.
- Com quem estava falando?
Rachel o disse, lhe resumindo a conversação enquanto tirava sua bolsa da gaveta superior do escritório. Ao incorporar-se, disse:
- Acredito que consegui convencê-lo. Ao menos, isso espero.
Brad se aproximou da porta que levava a escritório do Janelle e a abriu. Quando saíram, disse à secretária, quase sem deter-se:
- Vamos a casa. Até segunda-feira.
A Janelle pareceu surpreendê-la que partissem juntos, coisa que nunca ocorria. Bom, pois teria que acostumar-se, pensou Brad.
Esperou até que estivessem no elevador, a sós, para abraçar Rachel. Beijou-a apaixonadamente até que chegaram ao piso do estacionamento subterrâneo.
- Obrigado - disse.
De algum modo, sentia-se mais ligeiro.
- O necessitava - a porta do elevador se abriu.
Saíram e Brad a levou do braço para seu carro.
- Voto que vamos diretamente a casa.
Esteve a ponto de tornar a rir ao ver a expressão de seu rosto. Rachel tinha deixado de ser sua assistente. O beijo parecia lhe haver recordado que era um recém
casado a que esperava sua noite de bodas. Ao Brad fez graça que tentasse manter uma atitude despreocupada. Ela olhou seu relógio.
- Eu pensava passar primeiro por meu apartamento para recolher um pouco de roupa.
- Esta noite não necessitará nada, não crê? Amanhã iremos a seu apartamento e te ajudarei a empacotar as coisas. Ela se deteve e escrutinou pensativamente seu
rosto, como se o visse pela primeira vez. Aquele olhar penetrante pôs ao Brad um pouco nervoso. Não estava acostumado a que o olhasse assim. E não sabia o que fazer.
A resposta de Rachel o pegou por surpresa. Ela esboçou um lento e íntimo sorriso e disse:
- Decididamente, tem muita lábia - e o beijou no canto da boca.
- Me convenceste.
Ele pôs-se a rir enquanto se aproximavam do carro. Estava lhe sujeitando a porta quando outro carro estacionou junto ao dele. Brad levantou o olhar e viu que
era o carro do Arthur, o chefe de contabilidade. Mas estava de tão bom humor que nem sequer Arthur podia lhe amargurar esse momento.
- Olá, Arthur. Que tal vão as coisas? - perguntou-lhe, ao tempo que fechava a porta do passageiro e rodeava o carro.
Arthur saiu do dele e o olhou fixamente por cima do teto do veículo. Subiu os óculos sobre a ponte do nariz e disse:
- Eh, tudo vai perfeitamente, acredito - inclinou a cabeça olhando a Rachel.
- Olá, senhorita Wood.
- Olá, Arthur. Alegro-me de ver-te.
Brad se deslizou em seu assento enquanto Arthur se dirigia ao elevador. Rachel pôs-se a rir e disse:
- É a primeira vez que te vejo falar com o Arthur sem chiar os dentes.
- Não sinta saudades. Hoje, nem sequer Arthur pode me amargurar o dia - tirou o carro da parte detrás e se dirigiu à saída.
Rachel observou suas habilidosas mãos, que sujeitavam com ligeireza o volante forrado de couro. Sempre tinha admirado suas mãos. Eram mãos curtidas, de trabalhador,
apesar de que fazia já vários anos que não trabalhava à intempérie. Esse pensamento a levou a outro.
- Como conseguiu aprender algo na escola se sempre estava se mudando de um lugar a outro? - perguntou.
- Por curiosidade, suponho. Lembro que estava cheio de perguntas. Além disso, eu gostava muito de ir a escola. A rotina da que outros meninos se queixavam me
parecia reconfortante. Como sabia que nunca ficava muito tempo em um mesmo lugar, esforçava-me por me pôr ao nível dos outros guris e por aprender tudo o que podia.
E quando não ia à escola, procurava a biblioteca municipal do lugar onde estivéssemos e ia ler ali sempre que podia. Meu pai quase nunca me perguntava aonde ia.
E se lhe dizia que tinha estado na biblioteca, punha-se a rir. Mais tarde me dava conta de que acreditava que lhe mentia para lhe ocultar minhas verdadeiras atividades.
Nunca compreendeu que eu não dizia mentiras. Era uma promessa que me tinha feito mesmo depois de ter escutado todas as fanfarronadas que contava meu pai. Não queria
ser como ele. E compreendi que a educação era o único modo de escapar a aquele destino.
- Pois seu plano funcionou, obviamente.
- Suponho que sim.
Rachel compreendeu por seu tom lento que não queria seguir falando de seu passado. Ainda a assombrava que lhe tivesse contado tantas coisas. Devia respeitar
os limites que ele marcava no que a sua infância se referia. Não queria que se arrependesse de ter acreditado nela.
Quando chegaram a sua rua, Brad torceu pelo caminho que levava a casa e marcou uma série de números em um painel eletrônico encostado ao guarda-sol de seu lado
do carro. Quando as portas do imóvel se abriram, Rachel se incorporou e olhou a seu redor. Tinha estado ali em outra ocasião, uma vez que Brad esteve doente com
gripe e teve que ficar na cama por ordem do médico. Uma manhã, ele chamou o escritório e lhe pediu que lhe levasse certas pastas. Rachel foi a sua casa, provida
com as pastas. Durante aquela breve visita, tinha visto o vestíbulo e a sala de estar da casa, e se encontrou com um Brad resmungão e desgrenhado, com barba de três
dias. Levava um penhoar que deixava entrever seu largo peito nu e, sem dúvida, tinha febre. Parecia encontrar-se muito mal, mas Rachel tinha decidido não lhe sugerir
que contratasse a uma enfermeira para que cuidasse dele até que se recuperasse. Tinha lhe entregue os arquivos e partiu. Agora, ia viver ali. Que coisa tão estranha.
Brad seguiu o caminho, rodeou a casa e se dirigiu a uma garagem com três praças de estacionamento. Uma das portas subiu conforme se aproximavam. Quando estiveram
dentro da garagem, Brad saiu do carro e se aproximou para abrir a porta a Rachel.
Ela não sabia por que de repente estava tão nervosa. Até esse instante, tinha conseguido manter a calma procurando esquecer-se de que aquele era o dia de suas
bodas, por mais impessoal que tivesse sido a cerimônia.
- Vamos, tenho justo o que necessita para te relaxar - disse ele tomando sua mão.
Seu sorriso infantil tomou por surpresa. Nunca tinha visto o Brad tão alegre.
Rachel sabia que tinha a mão úmida, em que pese a que secou o suor esfregando-lhe contra a saia antes de dar-lhe ao Brad. Seguiu-o através da porta que comunicava
a garagem com um espaçoso espaço no que havia uma máquina de lavar roupa e uma secadora, uma geladeira alta e uma série de armários que cobriam duas das paredes.
Antes que tivesse oportunidade de olhar mais atentamente a área, Brad abriu a porta que dava acesso à cozinha. Deteve-se um momento para que Rachel a visse.
- É muito bonita, Brad - disse ela, assombrada.
- Você gosta? Alegro-me. A criada vem de segunda-feira à sexta-feira. Faz a comida e a deixa no frigorífico. Quão único tenho que fazer é esquentá-la no microondas
- atirou dela brandamente.
- Logo olharei o que deixou hoje. Mas antes...
Deixou que suas palavras se desvanecessem enquanto seguiam atravessando cômodo detrás cômodo, até que chegaram ao vestíbulo que Rachel conhecia. Brad a conduziu
por um corredor que parecia estender-se interminavelmente até que chegaram ante umas portas de madeira belamente lavradas. Quando Brad as abriu, Rachel não que acreditou
o que viram seus olhos. Aquele quarto era obviamente o dormitório principal da casa, mas seu tamanho a deixou sem fôlego. Ali podia treinar uma equipe de basquete,
pensou olhando a seu redor.
Os móveis maciços tinham um ar masculino. Uma fileira de janelas ocupava quase por inteiro a parede do fundo. Rachel quase não notou que Brad a soltava da mão
e se separava dela. Estava absorta olhando através das janelas. Aproximou-se da do meio e descobriu um dos jardins mais belos e melhor cuidados que tinha visto nunca.
Os arbustos e as flores estavam dispostos de tal maneira que semelhavam um jardim senhorial inglês. Um par de atalhos seguia o contorno de uma ladeira que levava
a um denso arvoredo, ao fundo do imóvel.
- Deve ter um exército de jardineiros para que tudo esteja tão são e florescente... - disse voltando-se para o quarto. Mas o encontrou vazio.
Onde se tinha metido Brad? Não tinha ouvido fechar-se nenhuma porta.
Prestou atenção e identificou um som que levava algum tempo ouvindo sem dar-se conta: em um quarto contiguo ouvia correr a água. Rachel seguiu o som até uma
porta entreaberta. Empurrou-a ligeiramente, avançou e de repente se encontrou em um banheiro tão grande como o dormitório de seu apartamento. Grifos dourados enchiam
de água fumegante uma banheira enorme, rodeada de espelhos por três de seus lados. Rachel piscou, surpreendida, ao ver que Brad, que despojando do paletó e da gravata,
estava comprovando a temperatura da água. Ele se ergueu e se girou para ela.
- Há dito algo? - perguntou.
- Eh, sim, só estava... Eh... comentando o bonito que é seu jardim... Brad pode-se saber o que está fazendo?
- Lhe preparando o banho, minha formosa dama. Pensei que te ajudaria a relaxar antes do jantar - lhe assinalou uma prateleira de cristal cheio de frascos de
sais de banho.
- Ponha na água o que queira. Esses sais me trouxe isso Sarah, a criada. Diz que esse cilindro da aromaterapia funciona de verdade - se aproximou dela, que
tinha ficado na porta, e lhe deu um rápido beijo na testa.
- Desfruta do banho enquanto eu preparo o jantar - se apartou a um lado e saiu apressadamente do banheiro.
As grossas toalhas eram do mesmo verde suave que a macia almofada. Rachel via sua imagem refletida ali onde olhava. Os espelhos faziam que aquele banheiro parecesse
maior do que era. Sentou-se no assento de penteadeira e tirou os sapatos e as meias. Depois de despojar-se do blazer, desabotoou a blusa e deixou ambos os objetos
sobre a bancada de mármore, a seu lado. Tirou rapidamente o resto da roupa e se aproximou da sólida banheira. Escolheu um frasco de sais de banho com aroma de lavanda
e pulverizou seu conteúdo pela superfície da água antes de fechar os grifos. Sentou-se na borda da banheira e passou as pernas por cima. Colocou cautelosamente os
pés na água e viu que seu reflexo lhe sorria. A temperatura era perfeita. Deslizou-se rapidamente na água, que a cobriu até os ombros. Nunca tinha visto uma banheira
tão grande e profunda. Sentiu um prazer culpado por encontrar-se ali, sabendo que Brad estava tão cansado como ela.
Não era de sentir se admirar que Brad voltasse para o escritório relaxado e carregado de energia depois de passar o fim de semana em casa. Qualquer um poderia
recarregar as pilhas naquele ambiente.
Lançando um suspiro de satisfação, fechou os olhos e deixou que sua mente vagasse à deriva. Aquilo era justo o que necessitava, embora não tivesse reconhecido
a si mesmo. Decididamente, Brad sabia como tratar a uma mulher.
Deve ter dormido, porque o seguinte que soube foi que a água se agitava a seu redor. Abriu os olhos lentamente e de repente se sentou muito rígida, ao ver que
Brad se metia na água. Como estava frente a ela, pôde ver seu corpo musculoso e bem formado, completamente nu.
- Perdoa, não queria te assustar - disse ele com expressão inocente.
Tentando manter a calma, Rachel esperou uns segundos, com a esperança de que os batimentos do coração de seu coração aquietassem, antes de responder:
- Devo ter dormido.
- Também me aconteceu uma ou duas vezes.
O quarto se escureceu. A luz indireta que Brad tinha acendido ao retornar dava um suave fulgor ao teto e deixava o resto da estadia em penumbra.
- Não se pode negar que sabe como fazer que uma mulher se sinta a gosto - disse Rachel.
O leve sorriso do Brad se desvaneceu.
- Você é a única mulher que viu esta parte da casa, à exceção de Sarah, que por sua idade poderia ser minha avó - a observou um momento antes de perguntar.
- Acaso acredita que cada vez que saía com uma mulher a trazia aqui?
- Não, não estava pensando em nada em concreto. Além disso, não quero que me faça uma lista das mulheres com as que saíste durante todos estes anos.
"Não me faz falta", disse-se para seus adentros. "Conheço o nome de todas e cada uma delas."
Brad se deslizou até seu lado e disse:
- Quer que te esfregue as costas?
"Acalme-te", disse-se Rachel. "Só porque Brad é o único nome ao que viu nu, não há razão para ficar paralisada se se aproxima um pouco." Não era aquilo a realização
das fantasias que tinha albergado secretamente desde que o conhecia? Nem sequer em sonhos teria imaginado uma cena como aquela.
Sem esperar sua resposta, Brad lhe passou os braços ao redor da cintura e a colocou brandamente entre suas pernas, de costas a ele. Rachel reprimiu um gemido,
temendo ficar em ridículo. De repente, entendeu o término "sobrecarga sensorial".
Brad tomou uma esponja e uma pastilha de sabão e começou a lhe esfregar lentamente as costas do pescoço à cintura. Não fez nenhum esforço por ocultar sua ereção,
o qual provocou que o sangue de Rachel fervesse e corresse a toda velocidade por suas veias. Aproximou-se um pouco mais a ele e lhe pareceu ouvir que ao Brad saía
um gemido do mais fundo do peito. Depois de lhe esfregar as costas com diligência, ele deslizou os braços por seus lados e lhe cobriu os seios com as mãos. Rachel
se recostou contra seu peito, repousando a cabeça sobre seu ombro. Podia sentir seu fôlego no pescoço, ou eram seus lábios acariciando-a? Inclinou a cabeça e Brad
passou a língua pela linha que discorria entre sua orelha e seu ombro. Rachel estremeceu de prazer. Colocou as mãos na água, as apoiando sobre as coxas peludas de
Brad. Este se esticou e ela sorriu ao notar sua reação. Brad lhe lambeu lentamente o pescoço.
Rachel tinha fechado os olhos. Ao abri-los, viu Brad abraçando-a. Suas imagens refletidas se multiplicavam nos espelhos que rodeavam a banheira. Rachel observou
a cara do Brad, o qual parecia desfrutar enormemente de suas carícias. Ela seguiu explorando seu corpo com as palmas das mãos, as passando desde seus joelhos até
seus quadris, e essa vez ouviu com nitidez o profundo gemido que escapou de seu peito.
Aquele era Brad, disse-se. Uma semana antes, ela nem sequer podia imaginar que se encontraria em uma situação tão íntima com ele. Desejava saborear cada momento...,
mas também queria fazer mais coisas. Seu corpo palpitava e tremia à medida que ele jogava com seus seios, elevando-os nas palmas das mãos, esfregando os mamilos
com os polegares e riscando ligeiros círculos sobre eles até que ficaram eretos.
Separou-se dele porque precisava recuperar o fôlego. Brad baixou as mãos até sua cintura. Com uma facilidade e uma fortaleza que a surpreendeu, deu-lhe a volta
para que o olhasse de frente. Rachel passou as pernas flexionadas por cima de suas coxas. Ofereceu-lhe um sorriso sedutor e pôs as mãos a ambos os lados de seu pescoço.
- Está cômoda? - sussurrou.
Antes que ela conseguisse recuperar a fala, Brad passou a língua por seus lábios fechados. Incapaz de resistir a suas carícias, Rachel abriu a boca. E então
deixou de pensar. Só podia sentir... E sentia coisas que nunca antes tinha experimentado. O ardor dos lábios e da língua do Brad a acendia, e o fazia desejar mais.
Aproximou-se mais a ele, apertando os seios contra seu peito e lhe devolvendo o beijo com muito mais entusiasmo que habilidade. A ele não pareceu importar.
Quando seus lábios por fim se separaram, a respiração agitada de ambos ressoava no banheiro. Brad apertou os quadris de Rachel contra seu corpo, lhe recordando
seu estado de excitação. Quando a tocou entre as pernas, com um suave movimento para frente e para trás, Rachel se moveu para baixo, fazendo que a penetrasse com
os dedos. Ah, sim, o alívio que lhe produziu o ter dentro de si a encheu de felicidade. Brad moveu os dedos e ela começou a mover-se acima e abaixo rapidamente,
lhe indicando que necessitava mais. Ele a beijou brandamente nos lábios e nas bochechas.
- Tenho que te perguntar algo - lhe sussurrou finalmente ao ouvido.
Ela se sentia ébria incapaz de concentrar-se em mais de uma coisa de cada vez. Nesse momento, sua mente estava fixa nos ágeis movimentos dos dedos do Brad.
"Por favor, não pares", pensou. "Diga o que diga, por favor..., não... Pare."
- Mmm? - conseguiu dizer.
- Estiveste alguma vez com um homem?
A pergunta não tinha sentido. Por que lhe perguntava por outros homens naquele momento, quando estavam...?
Rachel abriu os olhos e o olhou inquisitivamente.
- Por que o pergunta?
- Porque não quero te fazer dano. Se for sua primeira vez, preciso sabê-lo. Agora mesmo - respirava agitadamente, como se lhe doesse algo.
- E se te dissesse que alguma vez estive com um homem, importar-te-ia? Pensava que era evidente que não sei o que fazer...
Ele deslizou os braços abaixo dela e a elevou com firmeza sobre seu corpo, fazendo que a água se agitasse em repentinas ondas.
- Não se preocupe por isso, carinho, porque eu sim sei.
Capítulo 9
Brad a tomou em seus braços e saiu da banheira. Detendo-se junto a uns dos toalheiros, disse:
- Agarra uma toalha, por favor. Rachel se aferrou a seu pescoço com um braço e com o outro agarrou uma toalha grande e a apertou contra seu corpo. Quando chegaram
à cama, Brad a depositou sobre os lençóis. Em algum momento, enquanto ela estava na banheira, tinha tirado a colcha e retirado o lençol. Brad apoiou o joelho a um
lado da cama, tomou a toalha e começou secá-la da maneira mais sensual possível. Estendeu-lhe os braços, convidando-o a deitar-se a seu lado, mas Brad evitou suas
mãos e a fez deitar de barriga para baixo. Rachel recebeu outra lição sobre o poder das carícias antes que Brad se incorporasse e se secasse rapidamente. Quando
se estendeu a seu lado, Rachel sentiu vontade de agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo. "Deixa de me atormentar", desejava lhe dizer, mas não podia pensar com suficiente
clareza.
Brad se deitou de lado e se esfregou contra ela. Rachel se tranquilizou um pouco ao ver que estava tão excitado como ela. Também estava atormentando a si mesmo.
Rachel não entendia a razão, mas era consciente de que não sabia quase nada do ato amoroso. Conhecia a parte mecânica, certamente, mas isso não bastava para explicar
as emoções que Brad despertava em seu interior.
Ele a beijou brandamente na testa e nos olhos fechados. Beijou cada um de suas pálpebras antes de transladar-se a sua boca. Rachel se rendeu a sua ternura,
lhe deixando que marcasse o ritmo das carícias. Brad explorou seu corpo com boca e mãos, acariciando sua pele enquanto lhe lambia o pescoço. Colocou-se sobre ela,
com os joelhos entre as suas pernas. Antes que Rachel pudesse tomar fôlego, inclinou-se sobre ela e tomou um de seus mamilos entre os dentes. Rachel se arqueou sobre
a cama. Dos seios, Brad começou a baixar seguindo o eixo de seu corpo, riscando um caminho de beijos, lambendo lentamente seu ventre antes de continuar para baixo.
Rachel se esticou quando seus lábios alcançaram o arbusto de cachos que coroava suas coxas. Estendeu os braços, procurando os do Brad, tentando detê-lo, desejando
que a liberasse da terrível tensão que se apropriou dela. Brad começou a fazer os mesmos movimentos que tinha feito antes, mas com a língua.
- Não! - gritou ela, tentando fechar as pernas. Mas Brad estava entre suas coxas.
- Chiii - murmurou ele pondo a mão sobre seu ventre e massageando-o brandamente ao tempo que seguia atormentando-a. Rachel pensou que não podia aguentar mais.
Ia explodir, e seria por culpa do Brad. Se se detivesse...
Rachel gritou ao sentir que a liberação sacudia seu corpo. Algo em seu interior estalou em milhares de partículas, liberando um prazer arrebatador que se prolongou
em ondas sucessivas. Brad se separou dela um momento e, abrindo um pacote de plástico que havia sobre a mesinha de noite, cobriu-se rapidamente antes de penetrá-la.
Rachel se esticou automaticamente ao notar aquela sensação desconhecida. Ele se deteve, e Rachel se forçou a relaxar. "É Brad. Ele nunca me faria mal." Passou os
braços ao redor de seu pescoço e elevou os quadris, animando-o a continuar. Aferrou-se a ele para lhe expressar seu amor, esperando mais sem saber exatamente o que
procurava.
Brad se moveu lentamente, oscilando sobre ela. Mas, em lugar de aplacar a tensão de Rachel, seus movimentos só serviram para acrescentá-la. Ela estendeu os
braços, buscando-o, e o apertou com força pelos ombros. Brad tinha a pele úmida, como se não se tivesse secado. O ritmo de seu movimento oscilatório aumentou até
que Rachel o sentiu palpitar profundamente dentro de seu corpo. Incapaz de controlar-se, rodeou-lhe a cintura com as pernas, e Brad deixou escapar um leve murmúrio
de aprovação. Elevou-a pelos quadris, deixando que caísse de costas contra os travesseiros enquanto aumentava o ritmo de suas investidas, afundando-se em seu interior
até que Rachel gritou de novo. Dessa vez, Brad se uniu a ela: seu corpo se convulsionou no interior de Rachel, cujos músculos pareciam palpitar ao redor de seu membro.
Brad se deixou cair a um lado, com cuidado para não esmagá-la. Embora, de todos os modos, nesse momento ela não o teria notado. Estava muito concentrada tentando
recuperar o fôlego. Ouvia a áspera respiração do Brad junto a seu ouvido. Apoiou a mão sobre seu seio e se perguntou se seria são que um coração palpitasse tão às
pressas. Mas ao Brad aquilo não parecia lhe preocupar. De repente, saltou da cama e entrou no banheiro. Rachel se perguntou se devia vestir-se. Tinham que jantar.
Possivelmente depois do jantar poderiam...
Brad retornou à cama e interrompeu seus pensamentos. Tomou em seus braços e a estreitou contra si com uma paixão que despertou de novo o ardor de Rachel. Esta
ficou deitada a seu lado, absolutamente satisfeita. Por sua mente cruzavam os mais estranhos pensamentos. Como era possível que ninguém se incomodou em lhe falar
daquela experiência catártica?, perguntou-se. "Agora compreendo por que as mulheres que saíam com o Brad se negavam a aceitar que sua relação tivesse acabado." O
que acabava de compartilhar com ele era decididamente aditivo. E ela já estava viciada.
Procurou aquietar sua respiração. Acreditou que Brad tivesse dormido, mas de repente falou com voz ligeiramente enrouquecida.
- Tenho-te feito mal?
Ela abriu os olhos.
- Mal? - repetiu, desejando compreender por que fazia aquela pergunta. Os homens eram criaturas estranhas. Brad se moveu e apoiou a mão sobre seu ventre.
- Fui muito brusco?
- Eh, não. Não, claro que não. Absolutamente.
Ele deslizou um braço sob sua cabeça e a atraiu para si. Rachel o olhou com preocupação.
- E eu? Hei-te... Feito mal?
Brad pôs-se a rir.
- Não, carinho, nada disso - a beijou lentamente nos lábios.
- Não tinha nem idéia de que fosse assim - reconheceu ela.
- Perdi o controle. Que experiência tão deliciosa.
Ele permaneceu em silêncio vários minutos. Quando ao fim falou, Rachel não o entendeu de todo:
- Eu tampouco sabia que podia ser assim - disse.
O que queria dizer? perguntou-se ela. Sabia muito bem que Brad tinha mais experiência que a maioria dos homens. Ou, ao menos, isso acreditava ela. Se não, como
podia estar tão versado na arte de agradar a uma mulher? Enfim, não ia fazer mais perguntas absurdas. Manteria os olhos abertos e aprenderia sobre ele o mais rápido
que pudesse.
Passaram vários minutos antes que Rachel reunisse o valor necessário para imitar alguns dos movimentos que Brad tinha posto em prática com ela. Começou por
lhe beijar um dos mamilos. Brad tinha mantido os olhos fechados até esse momento, mas de repente os abriu, surpreso, e conteve a respiração. Entretanto, não apartou
Rachel. De modo que esta seguiu imitando seus movimentos. Alegrou-lhe ver que não tivesse só aberto seus olhos: outras partes de sua anatomia também começaram a
despertar à vida.
Brad seguiu contendo o fôlego enquanto Rachel beijava seu corpo. "Está bem", pensou ela. "Tentaremo-lo." Deslizou a boca sobre ele, mas Brad se incorporou de
repente. Rachel se separou dele.
- Sinto muito. Seriamente, sinto-o muito. Não queria te fazer dano.
Brad a atraiu para si e a apertou com força.
- Não, não é isso. É só que agora estou um pouco sensível. Eu... Eh... Acredito que talvez deveríamos ir comer algo. Tenho a sensação de que esta noite necessitarei
de muita energia.
Ao dia seguinte, ao abrir os olhos, Brad encontrou o quarto cheio de sol. Essa noite tinha se esquecido de fechar as cortinas. Contemplou a Rachel, deitada
a seu lado. Olhou o relógio e viu que era quase meio-dia. Não estranhou, tendo em conta que não dormiram até o amanhecer. Sorriu ao pensar em como tinham ocupado
as horas anteriores.
Essa noite tinha descoberto a uma Rachel completamente nova. Nunca teria sonhado que abaixo daquela aparência formal se escondia uma luxuriosa sereia. Quem
o teria imaginado?
Rachel era uma amante entusiasta. Brad não sabia se poderia fazer que se levantasse da cama. Mas não importava. Tinham todo o fim de semana para organizar sua
nova vida juntos,
Em qualquer caso, Rachel tinha que avisar com trinta dias de antecipação de que deixava seu apartamento, assim não havia pressa. Iriam a sua casa a qualquer
hora e recolheria sua roupa. Fariam o resto da mudança em qualquer momento das semanas seguintes.
Brad ficou de lado, olhou-a e a estreitou entre seus braços. Ela murmurou um pouco parecido a: "agora não, por favor". O qual era uma sorte, pensou ele, lhe
apartando o cabelo do rosto. Durante as últimas dezoito horas tinha feito verdadeiros milagres. Não estava seguro de poder manter esse ritmo sem deixar a vida no
empenho.
Antes de dormir, pensou: "Mas que maravilha".
Na segunda-feira pela manhã, Brad e Rachel chegaram ao escritório na hora de costume, antes dos outros empregados, e se foram a seus escritórios para enfrentarem
à papelada acumulada durante na semana anterior.
A Rachel custou grande esforço concentrar-se nos dados e as cifras dos diversos informes que tinha sobre a mesa. Não deixava de pensar no fim de semana anterior.
Ainda tinha que beliscar-se para comprovar que aquilo não era um sonho. Não podia acreditar que fosse tão feliz, e que Brad parecesse tão a gosto a seu lado.
Por alguma razão, sua atitude parecia divertir ao Brad. Cada vez que o olhava, estava-a observando com um sorriso nos lábios. E quando lhe perguntava o que passava,
ele respondia:
- Nada, formosa dama, nada.
Rachel tinha tirado seu carro da garagem do escritório, onde o tinha deixado na semana anterior. Agora estava guardado na garagem do Brad. Não havia razão para
levar os dois carros ao escritório.
Estar com o Brad lhe produzia uma sensação de segurança tão maravilhosamente liberadora que mal podia acreditar que fosse real. No dia anterior tinham ficado
um par de horas em seu apartamento. Ela tinha recolhido sua roupa e suas coisas de higiene, mas tinha deixado o resto de seus pertences ali, de momento. O resto
do fim de semana tinha passado em um suspiro, entre apaixonados jogos amorosos. Rachel tinha descoberto novas e fascinantes formas de prazer, e sua própria audácia
não deixava de impressioná-la. Uma vez, enquanto comiam, havia sentido a repentina, frenética necessidade de despir-se e lançar-se sobre o Brad. Também tinha descoberto
como era despertar pela manhã e ver que seu marido lhe estava fazendo o amor lenta e docemente, arrastando-a a um repentino clímax antes que pudesse espreguiçar-se
sequer. Seus jogos amorosos eram excitantes, divertidos, surpreendentes e intensamente satisfatórios.
Rachel suspirou. E isso porque só tinham casado há três dias.
Obrigou-se a concentrar-se e, ao final, conseguiu retomar o ritmo rotineiro de seu trabalho.
À medida que passava a semana, foram produzindo-se pequenas mudanças naquela rotina. Começaram a comer juntos todos os dias, o qual fez que Janelle os olhasse
com estranheza.
Quando estavam no escritório, Rachel procurava não olhar ao Brad aos olhos. Preferia mantê-los fixos em suas notas. Tinha descoberto que, quando estava com
ele, mal podia refrear-se. Até na quinta-feira pela manhã, pensava que só acontecia com ela. Mas esse dia, depois de discutir um problema que deviam resolver imediatamente,
Brad saiu de seu escritório completamente excitado. Rachel nunca o olhava aos olhos, certo, mas não tinha inconveniente em olhar o resto de seu corpo. Às vezes,
fantasiava subindo escancarada sobre seu regaço enquanto ele falava por telefone, ou tombando-o sobre a mesa de reuniões e lhe fazendo amor. Se alguém tivesse tido
acesso a seus pensamentos mais lascivos, haver-se-ia sentido profundamente envergonhada. Converteu-se em uma autêntica viciada no Brad.
Duas semanas mais tarde, Brad saiu cedo de casa para ir ao aeroporto. Tinha que fiscalizar uma obra ao sudeste do Texas, mas lhe prometeu voltar para casa à
primeira hora da noite. Seu beijo de despedida produziu uma rápida escalada, e ambos saíram de casa um pouco mais tarde que o que planejavam. Essa manhã, Rachel
se sentou ante sua mesa tendo saudades da presença do Brad ao outro lado da porta. Disse-se que frequentemente tinham acontecido dias inteiros separados. Mas isso
tinha sido antes... Antes que lhe ensinasse a satisfazer seu desejo.
Essa segunda-feira pela manhã, o telefone soou por volta das onze e meia, e Rachel o desprendeu com um sorriso nos lábios. Certamente era Brad, que a chamava
para lhe dizer olá. Mas, no caso de não ser, respondeu em tom profissional:
- Rachel Wood.
- O que te parece se comermos juntos?
Aquela voz de homem, que não se parecia em nada a do Brad, tomou por surpresa. Mas em seguida reconheceu ao Rich Harmon, o chefe de administração.
- Olá, Rich. Passa algo?
Houve um breve silêncio antes que ele dissesse:
- Passa, mas preferiria discuti-lo fora do escritório. Iremos ao delicatessen, compraremos algo e comeremos no parque.
- Pode me dizer do que se trata?
- Preferia esperar, se não te importar.
Ela encolheu de ombros e disse: - Veremo-nos no vestíbulo ao meio-dia, então.
- Até mais tarde - disse ele, e pendurou. Rachel se perguntou o que queria falar Rich com ela. Quase sempre tratava com o Brad sobre assuntos de trabalho. Talvez
tivesse acontecido algo e não queria esperar até que voltasse Brad.
Quando chegou à área de recepção, Rich já estava esperando-a. Tinha estado falando com a recepcionista e se incorporou assim que viu entrar Rachel.
- Pronta? - perguntou com um leve sorriso.
- Sim - respondeu ela, dirigindo-se para a porta.
Entraram no elevador cheio de gente. Rich tinha um caráter amável e extrovertido. Parecia sentir-se a gosto com todo mundo. Esse dia, entretanto, estava muito
sério. Fosse o que fosse o que ocorria, devia ser grave.
Rachel aguardou até que, depois de comprar uns sanduíches e uns refrescos, sentaram-se em um banco do parque. Então disse:
- Bom o que ocorre?
Rich desembrulhou lentamente seu sanduíche antes de responder.
- Circula um rumor um tanto estranho pelo escritório, e pensei que devia sabê-lo.
Rachel tragou saliva e deu um rápido gole a sua bebida.
- Sempre circulam rumores pelo escritório, Rich. Já sabe.
- Sim, já. Mas este é diferente.
- Então diga a todo mundo que Brad não pensa vender a empresa.
Rich não respondeu a seu intento de brincar, de modo que Rachel seguiu comendo seu sandwich. Quando acabou, bebeu até a última gota de refresco que havia no
copo de plástico. Então Rich disse:
- Os rumores são sobre ti, Rachel.
O gelo do copo caiu para diante, saindo do copo e derramando-se sobre o blazer e a blusa do Rachel. Esta se engasgou e começou a tossir. Rich lhe deu uma forte
palmada nas costas e perguntou:
- Está bem? Posso fazer algo?
Ela sacudiu a cabeça e continuou tossindo. Rich lhe deu sua bebida sem dizer nada e ela a aceitou, agradecida, e bebeu até que relaxou a garganta o suficiente
para poder respirar. Logo, devolveu-lhe a bebida.
- Obrigada. Devia haver um osso em meu refresco - brincou, confiando em que Rich não adivinhasse que eram suas palavras o que a tinha feito engasgar-se.
- Está bem - disse ao fim, ajeitando os ombros e assegurando-se de que não ficavam restos de gelo na blusa e no blazer.
- O que dizem esses rumores sobre mim? Rich pigarreou.
- Sabe que te admiro e te respeito muitíssimo, Rachel. Não posso negar que me senti atraído por ti assim que entrei na empresa. Disse-te o que sentia por ti
e te aporrinhei para que saísse comigo. Você foi muito amável comigo, e eu entendi perfeitamente por que não queria que nos víssemos fora do trabalho. Os romances
de escritório podem resultar muito complicados. Tinha razão - Rachel morria por lhe perguntar: "Aonde vai parar?", mas se conteve.
- Assim... - continuou Rich ao cabo de um momento - quando ouvi os rumores fiz o possível por desmenti-los. Mas acabo de me inteirar de que certos empregados
afirmam que podem demonstrá-los.
- Que rumores, Rich? Ainda não sei do que está falando.
- Dizem que Brad e você têm uma aventura - disse ele precipitadamente.
- E dizem que começou quando foram a Carolina do Norte, faz uma par de semanas, e que desde que voltaram, vai no carro do Brad todos os dias. Algum espírito
empreendedor decidiu lhes seguir para ver se Brad te deixava em seu apartamento. Mas não foi assim. Foram diretamente a sua casa.
A Rachel desgostava pensar que se falava dela as suas costas, apesar de que sabia que rumores parecidos circulavam pelo escritório quase desde que tinham empregados.
Mas aquele rumor era distinto. Rachel sabia. E também sabia que era ela quem tinha animado ao Brad a que mantivesse suas bodas em segredo. Queria que ele se habituasse
a sua nova vida antes de lhe sugerir que reconhecessem publicamente sua relação.
Rich se girou no banco e a olhou. Tinha uma expressão angustiada. Possivelmente lhe desse medo falar francamente com ela. Ou talvez esperasse que Rachel se
sentisse culpada por ter quebrado suas próprias normas a respeito das relações amorosas entre colegas de trabalho. Fosse o que fosse o que esperava, sem dúvida ficou
defraudado quando ela disse:
- Obrigada por me dizer isso Rich. Eu gosto de estar à corrente do que se diz no escritório. Nunca é agradável ser a fofoca de todo o mundo.
- Crê que não sei? Às vezes ouvi por acaso intrigas sobre mim que me puseram os cabelos de ponta. Se me tivesse deitado com a metade das mulheres que dizem,
a estas alturas estaria no livro Guinness dos recordes.
Ela sorriu e, recolhendo os restos da comida, levantou-se.
- Tenho que voltar para o escritório. Obrigada por me convidar a comer.
Ele se levantou e a olhou fixamente, com expressão triste.
- Foi um prazer, Rachel. Oxalá pudesse fazer algo mais por ti.
Quando retornaram ao escritório, ambos foram rindo de um comentário que tinham ouvido no elevador. Rachel se despediu do Rich e retornou a seu escritório
Rachel decidiu surpreender ao Brad tendo o jantar preparado quando voltasse para casa. Não sabia a que hora apareceria. Tinha-a chamado antes de tomar o avião
para lhe dizer que, como chegaria a Dallas na hora de mais tráfico, não o esperasse a nenhuma hora em concreto. Parecia contente, e lhe tinha deixado claro que sentia
tanta saudade dela como ela a ele.
Rachel cantarolava enquanto cozinhava, pensando em sua relação. Dava-se conta de que Brad se mostrava cada vez mais aberto com ela. E tinha chegado a entender
por que ele levava tantos anos tentando proteger-se. Brad não tinha conhecido a muita gente em que pudesse confiar. Se Casey Bishop não o tivesse tirado das ruas,
certamente teria acabado no cárcere. Ou, ao menos, teria uma longa ficha policial. Mas, em lugar disso, tinha tido êxito e tirado adiante sua empresa. Tinha aprendido
o que se esperava dele em sociedade, como vestir-se e como ocultar sua impaciência... Quase todo o tempo.
Rachel ouviu a porta da garagem enquanto colocava a salada na geladeira. O jantar estava esquentando no forno. Brad chegava bem a tempo.
Rachel fechou a geladeira e deu a volta justo quando ele abria a porta da cozinha. Ao vê-la, soltou a maleta e se aproximou dela dando três largas pernadas.
- Bem-vindo a ca... Brad! Mas o que faz? - exclamou ela. Brad a tomou em braços e atravessou a casa até chegar ao dormitório. Não se deteve até que estiveram
na cama. Tiraram a roupa apressadamente, rindo e abraçando-se em um arrebatamento de desejo. Depois de alcançar o clímax, Brad seguiu abraçando-a e beijando-a, passando
as mãos por seu corpo como se quisesse assegurar-se de que tudo seguia em seu lugar. Um momento depois, Rachel disse:
- O jantar está preparado. Tem fome?
Ele pôs-se a rir e se sentou.
- Muitíssima, mas acredito que será melhor deixá-lo para depois do jantar.
Vestiram os penhoares e retornaram à cozinha. Enquanto ela punha a comida na mesa, Brad lhe contou como tinha passado o dia. Rachel lhe falou de alguns problemas
que tinha tido no trabalho e logo se encontraram falando dos assuntos da empresa.
Mais tarde, depois de tomar banho, quando se preparavam para ir à cama, Rachel disse:
- Brad sei que te disse que de momento não fazia falta que contássemos das bodas, mas já aconteceram três semanas. Crê que deveríamos dizer ao pessoal da empresa?
Ele se estirou na cama e a atraiu para si. Rachel descansou a cabeça sobre seu ombro e passou uma perna sobre suas coxas.
- Estive pensando nisso - respondeu jogando com seu cabelo.
- A verdade é que tenho a impressão de que por minha culpa não teve umas autênticas bodas. Pergunto-me se não deveríamos fazê-lo bem..., pela Igreja se você
quiser. Poderíamos convidar a sua família, aos empregados e a quem você queira.
Ela elevou a cabeça e o olhou, surpreendida. Nem em um milhão de anos teria esperado semelhante sugestão do homem que a tinha contratado oito anos atrás. Entretanto,
sabia que algo tinha mudado nele, e confiava em que essas mudanças se devessem a ela.
Rachel nunca comentava nada sobre seu acordo para que não se sentisse incômodo. Brad tomava cuidadosas precauções cada vez que faziam amor, razão pela qual
ela supunha que não desejava ter filhos. Isso também podia entendê-lo. Com o tempo, talvez Brad se acostumasse à idéia de trazer filhos ao mundo, filhos aos que
amaria e protegeria. Rachel tinha descoberto que possuía um enorme caudal de amor, embora ele não soubesse ainda. Mas, de momento, não queria que se sentisse pressionado.
Por isso tampouco lhe dizia que o queria. Brad tinha deixado claros seus sentimentos para ela. Rachel não precisava lhe dizer nada, mas, às vezes, quando estava
especialmente encantador, tinha que morder a língua para não lhe declarar o que sentia.
- Eh, dormiu?
Deu-lhe um beijo no seio.
- Acredito que teve você uma boa idéia, senhor Phillips. Para quando acredita que deveríamos fixar as bodas?
Ele se deitou de lado e se esfregou contra ela, lhe deixando claro que não gostaria de seguir falando. Deslizou a mão entre suas coxas e começou a tocá-la.
- Mmm... Depende. Talvez no final do ano. Antes quero te tirar por aí e te apresentar a toda a gente que conheço.
- Pensava que já conhecia quase todo mundo - disse ela, contendo o fôlego quando ele fez um movimento particularmente audaz.
- Certamente, mas agora é minha mulher. A princípios de dezembro se celebra um jantar benéfico. Quero que me acompanhe e que todo mundo saiba que é minha esposa.
Crê que poderíamos organizar as bodas para então?
Ela grunhiu incapaz de concentrar-se naquelas palavras enquanto ele despertava uma maré de prazer em seu corpo.
- Encarregar-me-ei disso a primeira hora da manhã, chefe.
As últimas palavras coerentes do Brad soaram algo pouco parecido a:
- Faça-o, formosa dama.
Capítulo 10
OS DIAS seguintes passaram em um suspiro. Rachel seguiu trabalhando e assistindo a reuniões e, ao mesmo tempo, tentou organizar os sempre complicados preparativos
de umas bodas.
Brad esteve quase quatro dias sem aparecer pelo escritório. Não se ausentou da cidade, mas passou quase toda a semana inspecionando obras, reunindo-se com clientes
e administrando novos projetos. Na sexta-feira, entretanto, ficou no escritório. Essa manhã, disse a Rachel que pensava passar todo o fim de semana na cama. Ela
o olhou de cima abaixo e perguntou:
- Crê que poderá aguentar? Ele insistiu em lhe fazer uma demonstração de sua capacidade de resistência antes de ir trabalhar. Rachel nunca tinha sido tão feliz.
Sentia-se profundamente aliviada, porque seu matrimônio parecia ter liberado ao Brad do passado. Mas, por desgraça, não tinha nenhuma amiga íntima com a que pudesse
compartilhar sua alegria. De vez em quando jogava com a idéia de contar a sua irmã seus planos de bodas, mas ao final sempre decidia esperar até que tivessem fixado
a data da cerimônia.
Rachel olhou seu relógio. Brad tinha várias reuniões previstas no escritório. As nove, ao ir à sala de reuniões, havia lhe dito que esperava terminar à hora
do almoço. Já era tarde, mas Rachel não sentiu falta. Brad odiava as reuniões longas, mas às vezes não podia evitar.
Meia hora depois, quando soou o telefone, Rachel respondeu com um sorriso, pensando que seria Brad.
- Rachel Wood - disse.
- O interfone não funciona - disse Janelle.
- Por isso te chamo.
- Não importa. O que ocorre?
- Tenho uma mensagem do Brad.
- Ah, sim?
- Chamou faz um momento. Disse-me o do interfone e me pediu que avisasse para que venha repará-lo e que te dissesse que lhe tinha surgido um imprevisto e que
não podia comer contigo.
Desiludida, Rachel disse:
- Obrigada por me dizer isso.
- Quer que te traga algo?
- Sim, estupendo. O de sempre, obrigada.
Rachel pendurou e olhou fixamente o telefone. A reunião devia ter posto ao Brad de um humor de cães se nem sequer se incomodou em chamá-la. Confiava em que
estivesse de melhor ânimo quando fossem para casa, essa tarde.
Depois do almoço, Rachel perdeu a noção do tempo até que Janelle bateu na porta e disse:
- Vou já. Importa-te fechar quando partir?
Rachel olhou o relógio e lhe surpreendeu descobrir que eram quase as seis.
- Claro - se espreguiçou, dando-se conta de repente de que levava muito tempo absorta no trabalho.
- A que hora voltou Brad?
Janelle sacudiu a cabeça e disse:
- Não tornou ainda.
Rachel tentou dissimular sua preocupação.
- Ah, bom, não importa. Mostrar-lhe-ei estas cifras na segunda-feira.
Janelle lhe fez uma ligeira saudação com a mão e fechou a porta. Assim que ouviu que a porta exterior se fechava, Rachel se levantou de um salto e abriu a porta
que separava seu escritório do de Brad. A luz estava apagada. Que estranho. Brad sempre a informava de suas idas e vindas. Rachel tentou procurar uma razão que explicasse
sua conduta, mas não lhe ocorreu nenhuma. Brad levava consigo o celular. Por que não a teria chamado?
Rachel desprendeu o telefone da mesa do Brad e marcou o número de seu celular. Ao cabo de uns instantes, sua voz gravada lhe pediu que deixasse seu número de
telefone ou sua mensagem. Rachel pendurou sem dizer nada. Era a primeira vez que Brad desconectava o telefone, ao menos que ela soubesse. Começou a preocupar-se.
Retornou a seu escritório e colocou suas pastas no arquivo. Recolheu sua bolsa e saiu da sala, apagando a luz ao sair. Fechou a porta com chave e seguiu pelo
corredor. Todo mundo partia as cinco, assim não estranhou encontrar-se sozinha. Entrou no elevador e pulsou mecanicamente o botão do piso do estacionamento. Só ao
sair e ver a vaga do Brad vazia compreendeu que a tinha deixado plantada, sem meio de ir a casa e sem sequer tido o cuidado de avisá-la. Não sabia se estava mais
preocupada com que lhe tivesse ocorrido algo ou mais zangada porque a tivesse plantado. Mas, em qualquer caso, seria melhor que tivesse uma boa razão para haver
partido.
Retornou ao elevador e subiu ao vestíbulo do edifício. O guarda de segurança já estava em seu posto.
- Boa tarde, senhorita Wood - disse com um sorriso.
- Olá, Sam - olhou para fora, no caso de Brad a estar esperando na calçada, mas não viu nem rastro dele.
- Poderia chamar um táxi, por favor?
- Claro.
- Sam elevou o telefone e, ao cabo de uns minutos, disse.
- Vem de caminho.
Quanto mais esperava Rachel, mais nervosa ficava. Possivelmente a lua de mel se acabou, ao menos pelo que ao Brad respeitava. O fato era que, por alguma razão
que Rachel não chegava a entender, o senhor Phillips parecia haver-se esquecido de sua esposa. Aquilo era tão impróprio dele que Rachel não deixava de perguntar-se
o que teria motivado seu comportamento.
O táxi se deteve ante a porta. Rachel saiu do edifício e subiu ao veículo. Deu ao taxista a direção do Brad, recostou-se no assento e procurou não impacientar-se
pelos pensamentos.
Possivelmente as linhas telefônicas estivessem paralisadas. Talvez Brad tivesse tentado chamá-la, mas não tinha conseguido comunicar com ela. Quando chegasse
a casa, certamente encontraria uma mensagem esperando-a. Procurou aferrar-se a aquela ideia para tranquilizar-se.
Ao fim entraram na aprazível rua do Brad.
- É a quarta casa à esquerda - disse.
- Pode me deixar frente à porta.
Depois de pagar ao taxista, Rachel se aproximou do painel de segurança da porta e marcou um número. Assim que a porta se abriu, caminhou apressadamente para
a casa. A vegetação ocultava o edifício pelo lado da estrada, circunstância que ela tinha apreciado sem reparar no comprido que era o sinuoso caminho que levava
a entrada. Quando dobrou a última curva, viu o carro do Brad estacionado ante a porta.
Algo ia mal. Por que Brad tinha retornado a casa em lugar de voltar para o escritório? Alarmada, fez o resto do caminho correndo e chegou sem fôlego à porta
principal. Naturalmente, estava fechada com chave. Procurou as chaves na bolsa e, tremendo, colocou uma na fechadura. Assim que conseguiu abrir, entrou precipitadamente
no vestíbulo e fechou atrás dela.
- Brad? - chamou.
Não obteve resposta.
Possivelmente estivesse no jardim detrás... Ou dormindo. Ou possivelmente tomando um banho. Rachel não sabia onde olhar primeiro. Obrigando-se a respirar fundo
para acalmar-se, dirigiu-se ao dormitório. De caminho olhou por acaso para a quarto que havia junto ao vestíbulo, quarto que Brad tinha convertido em seu escritório.
Deteve-se, sentindo um calafrio. Dali podia ver o cocuruto do Brad por cima do respaldo de sua poltrona. Estava olhando para o jardim.
- Brad? - Perguntou brandamente.
- Está bem?
Ele não respondeu. Talvez estivesse dormindo. Rachel se aproximou sigilosamente e rodeou a mesa para lhe ver o rosto. Viu seu perfil antes que ele girasse lentamente
a cabeça e a olhasse. Rachel deu um salto ao notar seu olhar de desprezo, desprezo dirigido contra ela. Estremeceu-se. Nunca tinha visto aquela expressão no rosto
do Brad. Por que de repente a olhava com aquela repulsa?
Ele apartou lentamente a cadeira e se girou para a escrivaninha. Só então viu Rachel a garrafa de uísque que havia sobre a mesa. Brad tinha um copo na mão.
Sem separar dela seu frio olhar, elevou o copo e tomou a bebida. Logo, agarrou a garrafa.
Rachel começou a tremer. Seu mundo se desmoronou de repente, e não entendia a razão. Voltou a rodear a mesa e se deixou cair em uma cadeira, frente a mesa.
- Brad, o que passou? O que acontece? Tiveste más notícias?
Brad estava concentrado servindo um copo de uísque. Rachel ficou paralisada ao compreender que aquela não era a primeira taça que tomava. O coração começou
a lhe pulsar com mais força. Brad não bebia. Podia tomar um coquetel em uma festa, mas nunca bebia em casa.
- Más notícias? - repetiu ele lentamente, pronunciando cada palavra como se a saboreasse. Pareceu pesar sua pergunta cuidadosamente antes de assentir.
- Suponho que poderia dizer-se assim - disse, e fixou de novo seu olhar nela.
Sem dar-se conta, Rachel se recostou na cadeira ao perceber a raiva que emanava dele. Nunca tinha temido ao Brad, nem sequer quando passava pelo escritório
dando vozes porque algum empreiteiro ou algum fornecedor não cumpria com seu trabalho. Entretanto, nunca o tinha visto naquele estado. Sentiu angústia ao perceber
sua raiva fria. Não conseguia entender o que tinha ocorrido. Juntou as mãos com força sobre o regaço e perguntou:
- Quer falar disso?
Ele observou o copo e o único cubo de gelo que parecia flutuar no líquido cor topázio. Quando elevou a cabeça e voltou a olhá-la, toda expressão se apagou de
sua cara. Seu olhar era impenetrável.
- Suponho que é necessário, sim - tomou um gole de uísque e apoiou a cabeça contra o respaldo da poltrona. Elevou o copo como se quisesse brindar, fazendo uma
careta zombadora, e disse.
- Você primeiro.
Rachel não entendia nada. Sua angústia e sua frustração se incrementaram.
- Eu? Não te entendo, Brad. O que tenho que ver com isso?
Ele sacudiu a cabeça, pondo uma careta sarcástica.
- Que o que tem que ver você, diz? Boa pergunta, mas não esperava menos de ti. É uma mulher, a fim de contas. Suponho que não pode evitá-lo. Uma filha da Eva,
como diria meu pai. As mulheres vivem instaladas na mentira todos os dias de sua vida, se fingindo carinhosas, compassivas e amáveis. Sobretudo, amáveis - bebeu
outro gole de uísque.
- Me enganaste, sim. Fui um estúpido por acreditar que era distinta às demais - fez como se brindasse por ela outra vez.
- Um engano da minha parte - acrescentou.
- Mas não voltará a ocorrer.
- Não te entendo, Brad - disse ela sentindo-se como se estivesse em meio de um pesadelo, incapaz de compreender do que estava falando. Filha da Eva? Céu santo,
quanto tempo levava ali se embebedando a sós? A garrafa estava meio vazia. Devia havê-la comprado esse mesmo dia, o qual significava que já estava ébrio.
- Claro que não me entende - disse ele.
- Sozinho sou um pobre diabo, um ingênuo que aceita tudo o que lhe diz. Em todos estes anos não me dava conta de que foi uma sedutora, de que estava jogando
comigo - se inclinou para diante; tinha os olhos avermelhados.
- Diga-Me, Rachel, existiam seriamente esses anônimos que tão oportunamente usou como desculpa para que fôssemos a Carolina do Norte, ou inventou isso tudo
para fingir que te dava medo ficar em casa? Embora, de todos os modos, já não importa, não crê? Porque o engano funcionou à perfeição. Sabia como reagiria quando
me dissesse que pensava partir, não é certo? Sabia que valorizava seu trabalho e que não queria te perder. Pois bem, minha querida senhora, lhe devo conceder isso.
Enganou-me sem nenhum esforço e, como o típico idiota, nem sequer te vi vir.
Rachel o olhou, aturdida. Seu desprezo lhe partia o coração.
- O que crê que tenho feito? - conseguiu murmurar finalmente, tremendo.
- O que acredito que tem feito? - repetiu ele, zombador.
- Está bem, dir-lhe-ei isso. Inventou essa história sabendo que eu faria todo o possível por evitar que partisse. Pode inclusive que te surpreendeu que te pedisse
que te casasse comigo. É compreensível. Até me surpreendeu. Mas, naturalmente, decidiu aproveitar esse inesperado golpe de sorte, verdade?
Brad se recostou na poltrona uma vez mais e sacudiu a cabeça cansativamente.
- Pois bem, já me cansei desse jogo, entende? - suspirou.
Parecia derrotado. Fosse o que fosse o que ocorria, tinha-o deixado destroçado. Rachel se dava conta. Mas o que tinha ocorrido? Ele baixou a voz.
- Não sei o que queria de mim. Se era dinheiro, podia me haver pedido um aumento. Se o que procurava era me humilhar, conseguiste-o com acréscimo - girou a
cadeira para a janela para que Rachel não pudesse lhe ver a cara, mas seguiu cuspindo aquelas palavras dolorosas e enfurecidas.
- Acreditava que me tinha em suas mãos, Eh?
- Isso pensa? - perguntou ela fracamente.
- E o que crê que esperava conseguir com isso? - sentia tanta dor que se perguntava se lhe teriam arrancado o coração do peito.
- Ainda não sei - resmungou ele.
- Não, claro - Rachel se levantou e se aproximou da janela.
Ficou olhando o jardim, igual a ele. Perguntava-se o que via Brad, ou se estava tão furioso que só via um véu vermelho.
- Posso te perguntar como descobriu meu... meu engano?
Ele bebeu outro gole de uísque e seguiu olhando pela janela.
- Não fiz nenhum esforço por me inteirar. Só ouvi de passada um rumor no escritório. Isso às vezes resulta divertido. Mas não sempre.
Ela o olhou atônita.
- Insinuas que tudo isto se deve a que te chegou o rumor de que estamos atados? Sinto não te haver advertido, mas francamente, Brad, não imaginava que pudesse
te comportar assim. Se não quer que as pessoas saibam que estamos casados, me diga que cancele nossos planos de bodas, de acordo? Todo este melodrama é desnecessário.
Aquele repentino estalo de raiva lhe sentou bem, deu-lhe renovadas forças. Nunca teria imaginado que reconhecer publicamente seu matrimônio fosse tão traumático
para o Brad.
Este não a olhou. Apurou a taça e disse:
- É muito mais que isso, Rachel. Não só te casaste comigo mediante enganos, mas sim também começaste a te deitar com o Rich Harmon. Devo reconhecê-lo. É boa.
Muito, muito boa.
Aquilo não podia estar acontecendo, pensou Rachel. Brad se tinha posto assim por um rumor?, porque alguém a tinha visto almoçando com o Rich no parque? Sacudiu
a cabeça. Sabia que ao Brad custava confiar nas mulheres, mas aquilo era muito absurdo. Ficou muito rígida e disse:
- De onde tiraste essa idéia, tendo em conta que passamos juntos noventa por cento do tempo?
Ele baixou a cabeça e começou a resmungar como se falasse consigo mesmo.
- Estive tão concentrado em tirar adiante a companhia que não tive tempo de polir minhas maneiras. Arrumado a que Harmon sabe como entreter a uma mulher.
Outra quebra de onda de raiva pareceu apoderar-se dele; apartou a cadeira e se levantou, olhando-a fixamente.
- Quando me pensava contar isso Ou acreditava que me podia seguir ocultando isso.
Enojada, Rachel cruzou os braços.
- Nunca saí com o Rich Harmon e, certamente, não me deitei com ele. Comemos juntos na segunda-feira passada. Pela primeira vez, devo acrescentar. Decidimos
ir comer ao parque, o qual sem dúvida despertou toda classe de comentários entre o pessoal fofoqueiro da empresa. Não sabia que tinha o costume de emprestar ouvidos
as intrigas do escritório. Ao menos, poderia me haver perguntado, em vez de acreditar nos rumores e me acusar de mentir e de ser uma adúltera.
Brad se sentou de novo na poltrona. Parecia um juiz escutando a alegação por escrito do acusado antes de anunciar seu veredito de culpabilidade.
- Por que foste comer com o Rich Harmon?
- Eu gostaria de assinalar, senhor - respondeu ela sarcasticamente - que há uma grande diferença entre comer com o Rich e deitar-se com ele, embora você não
pareça ter reparado nisso - fez uma pausa.
Respirou fundo e acrescentou com os dentes apertados.
- Rich e eu fomos comer juntos porque tínhamos que falar de um assunto.
- E tão importante era esse assunto que não podiam discuti-lo no escritório?
- Não, senhor Phillips, não podíamos.
Ele serviu outro uísque antes de dizer:
- Só por curiosidade, que classe de assunto era esse que Rich teve que te passar o braço por cima?
- O braço! - ela o olhou com incredulidade até que recordou que, ao engasgar-se com o gelo, Rich lhe tinha dado um tapinha nas costas. Esperava Brad que ficasse
ali e se defendesse daquelas calúnias?, que o convencesse de sua inocência? Era assim como concebia o matrimônio? Sentindo-se aturdida, Rachel disse:
- Não há nada de mau em que seu chefe de administração e sua assistente saiam a comer juntos para falar de assuntos de trabalho. Mas, em qualidade de esposa,
nego-me a dar confiança a suas acusações respondendo a suas perguntas - o olhou com desprezo.
- Uma vez disse que confiava em mim. É esta sua idéia da confiança? A minha não, certamente, e não penso viver sob um véu de suspeita. Está claro que me confunde
com outra pessoa, porque eu não minto apesar do que ensinou seu pai. E tampouco finjo sentimentos que não tenho. O único segredo que te ocultei durante todos estes
anos é que me apaixonei por ti no dia que comecei a trabalhar na empresa. Então não o considerei uma mentira, e agora tampouco. Para mim, era só um modo de me proteger
- deu a volta e se aproximou da porta. Antes de sair do quarto, deteve-se e disse:
- Possivelmente deveria ter recordado o conselho de minha mãe: "nunca perca o tempo discutindo com um bêbado" - lhe lançou um olhar cheio de desagrado.
- Já perdi suficiente tempo. Se me permite, tenho que fazer a mala.
Não começou a chorar até que fechou com chave a porta do quarto que compartilhavam. Entrou no closet e tirou suas malas de debaixo de uma estante. Recolheu
alguns montões de roupa e os jogou sobre a cama. Logo esvaziou sistematicamente todas as suas gavetas, dobrou a roupa e a guardou nas malas. Meteu em uma bolsa suas
coisas de higiene. Procurou manter a mente em branco enquanto acabava de fazer a bagagem. Tinha que sair daquela casa antes de derrubar-se por completo.
Quando acabou de empacotar suas coisas, tirou as três malas da casa e se dirigiu diretamente à garagem. O que não tinha podido meter nas malas, tinha atirado
ao lixo. Não queria que ficasse nada seu naquela casa. Uma vez na garagem, carregou o porta-malas do carro, abriu a porta e saiu cuidadosamente pela parte atrás.
"Graças a Deus que ainda tenho meu apartamento", pensou enquanto se dirigia para a porta exterior, que se abriu automaticamente. Então recordou que já tinha avisado
a seu caseiro de que deixava o apartamento. Só tinha dois dias para decidir o que faria a seguir.
Possivelmente guardasse suas coisas em um guarda-móveis e partisse para Califórnia a passar uma temporada com sua família. Ali poderia avaliar sua vida e expor-se
o que queria fazer. Menos mal que tinha a seus irmãos. Eles a consolariam e inventariam distrações para seu coração dolorido.
De repente, lhe ocorreu uma idéia. Brad nunca tinha conhecido o luxo de contar com uma família que o apoiasse. "Não comece a sentir lástima por ele!", disse-se,
desgostada. Se alguém merecia compaixão, era ela. Seu matrimônio de conto de fadas acabava de explodir na cara. O Príncipe Azul se converteu da noite para o dia
em um dragão que arrojava fogo pelas narinas. De onde tinha tirado a idéia de que o enganava?, é que não tinha nenhuma pingo de confiança em todo seu corpo? Nem
sequer se tinha incomodado em desmentir o rumor. Não, Brad Phillips não fazia essas coisas. Simplesmente, tinha chegado à conclusão mais absurda possível. Ah, sim,
claro, ela o enganava. O fato de que passassem grande parte do dia fazendo amor parecia ter escapado a sua curta memória. Quando demônio ia estar com outro homem?
Brad estava louco, pura e simplesmente. Rachel agradeceu por haver descoberto ao princípio de seu matrimônio. Assim poderia esquecê-lo mais depressa.
Quando chegou, estava tão furiosa que sua cabeça jogava fumaça. Depois de estacionar, colocou a bagagem no elevador e pulsou o botão de seu andar. Assim que
o elevador se deteve, arrastou as malas pelo corredor, abriu a porta e colocou a pesada bagagem no interior de seu apartamento. Depois de fechar cuidadosamente a
porta, foi à cozinha e pôs a ferver água para fazer um chá. Dali passou ao dormitório e pôs lençóis limpos na cama. O apartamento cheirava a fechado. Fazia três
semanas que não vivia ali.
Livrou-se por milagre, pensou de repente. Seu anjo da guarda tinha intervindo antes que perdesse mais tempo e energia organizando suas bodas com um misógino
teimoso que podia citar os asquerosos ditos de seu pai quando convinha a seus propósitos.
Começou a chorar outra vez, mas limpou o rosto rapidamente. E pensar que tinha acreditado que seu amor trocaria a vida e as opiniões do Brad... No que tinha
acreditado? Devia estar louca.
Depois de fazer a cama, retornou à porta principal, recolheu a bagagem e a levou ao dormitório.
"Sorte que manhã é sábado. Assim poderei passar o resto do fim de semana empacotando as coisas para a mudança."
O bule assobiou e Rachel retornou à cozinha e preparou o chá. De repente, sentia-se cheia de energia. E tinha vontade de fazer picadinho ao Brad.
No sábado, enquanto jazia na cama, Brad desejava morrer. E quanto antes, a ser possível.
Não recordava haver-se sentido tão mal em toda sua vida. O álcool nunca lhe tinha sentado bem. E sua tolerância não tinha melhorado com a idade.
Passou quase toda a noite vomitando. Nesses momentos estava estendido na cama, com um travesseiro sobre a cabeça, tentando impedir que a luz tocasse seus olhos
inchados e doloridos. Não tinha fechado as cortinas antes de meter-se na cama, e estava pagando as consequências daquele esquecimento. Doía-lhe tanto a cabeça que
mal podia pensar. Mas não era isso o que tinha pretendido no dia anterior, ao embebedar-se até perder o sentido? Ou talvez o que procurava era ficar em ridículo.
Pois bem, devia sentir-se orgulhoso de si mesmo: tinha conseguido ambas as coisas.
Essa noite, cada vez que se levantou para vomitar, fragmentos de sua discussão com Rachel cruzavam sua cabeça, Mas então não tinha modo de saber se realmente
lhe havia dito todas as coisas que acreditava recordar, ou se só as tinha pensado. Já estava quase seguro de que as havia dito.
De repente se sobressaltou ao recordar a Rachel de pé, ante ele. Parecia furiosa, apesar de seu tom tranquilo. O que lhe havia dito?
Brad grunhiu. Não sabia se queria recordá-lo. Tampouco recordava quando se deu conta de que Rachel não estava na cama, a seu lado. Devia estar realmente zangada
se tinha ido dormir em um dos quartos de hóspedes.
Enfim, talvez fosse melhor assim. Não queria que ninguém o visse naquele estado. Mal recordava da tarde anterior, e da noite, salvo pelo fato de que era consciente
de que se encontrava mal, estava totalmente em branco. O que sim recordava com claridade era a conversa que tinha ouvido por acaso no escritório.
Tinha ido ao escritório do Arthur em busca de um relatório. Ao encontrar o escritório vazio, decidiu lhe deixar uma nota sobre a mesa. Como nunca se aproximava
daquela parte do escritório, não reconheceu as vozes de um homem e uma mulher que falavam no corredor. Seguiu escrevendo a nota para o Arthur, mas, ao mesmo tempo,
começou a prestar atenção à conversação.
A mulher havia dito:
- Não a viu na segunda-feira no parque com o Rich? Estavam manuseando um ao outro. Rich a rodeou com o braço e lhe levou um copo à boca, como se estivesse inválida
ou algo assim.
O homem tinha respondido:
- Perguntou-me o que esperava conseguir agora essa dissimulada da senhorita Wood esquentando a cama ao Rich. Sabe se foi viver com o chefe?
Brad se tinha incorporado ao cair na conta de que estavam falando de Rachel. Rachel e Rich Harmon. Que demônios significava aquilo?
- Não me diga! - Tinha exclamado a mulher.
- Como te inteiraste?
O homem pôs-se a rir.
- Sabe todo mundo. Por que crê que o chefe levou-a em sua última viagem? Deve ser uma fera na cama.
- Bom - tinha respondido a mulher com desdém, - a única que sei é que, como a estava tocando Rich, juraria que viu a cor de seus lençóis mais de uma vez. Logo
que podia acreditar o que viam meus olhos. Justo aí, no parque, diante de todo mundo. Que descaramento!
Brad tinha ficado paralisado. O homem e a mulher se afastaram pelo corredor, sem dar-se conta de que acabavam de destroçar sua vida.
Agora, entretanto, a estupidez de sua reação o enchia de perplexidade. Mas naquele momento, não tinha duvidado nem por um segundo que o que tinha ouvido era
certo. Sempre tinha acreditado que Rachel era muito boa para ele, sempre tinha temido não poder retê-la a seu lado. Recordou haver-se perguntado quanto tempo levaria
Harmon perseguindo Rachel. Rich tinha certa reputação de Don Juan e Rachel carecia de experiência. Harmon devia haver-se aproveitado disso.
Ou isso tinha pensado ele absurdamente naquele momento.
Quando se tinha detido no escritório do Arthur, ia de caminho ao escritório de Rachel para convidá-la a almoçar. Mas, depois de ouvir a conversa, pôs-se tão
furioso que não quis vê-la. Chamou Janelle, cancelou suas entrevistas dessa tarde e partiu do escritório. A partir desse momento, suas lembranças eram muito imprecisas.
Recordava vagamente ter parado em uma delicatessen para comprar uma garrafa de uísque. Por que uísque?, perguntou-se. Se nunca tinha gostado...
Quão seguinte recordava era estar sentado no escritório de sua casa olhando ao jardim e pensando. Remoendo-se melhor dizendo. Recordava haver-se perguntado
por que tinha acreditado que Rachel era diferente às demais mulheres. Em muitas ocasiões durante sua infância tinha visto seu pai seduzir a mulheres casadas. Sabia
que era muito fácil.
"Mas Rachel não é assim!", gritou sua mente. Rachel não. Rachel o queria.
De onde tinha tirado aquela idéia? Rachel o queria..., o havia dito ela mesma, não? Acreditava recordar que sim. Entretanto, não tinha parecido muito contente
ao dizê-lo.
Brad tentou incorporar-se e imediatamente se arrependeu. Fechou os olhos, aferrando-se ao travesseiro, e desejou morrer naquele mesmo momento. Abraçar o travesseiro
o tranquilizava. A capa conservava o tênue perfume de Rachel.
Obrigou-se a abrir os olhos e olhou a porta aberta do closet, recordando que no dia anterior tinha gritado. Tinha gritado a Rachel? Céu santo esperava que não.
Seus olhos se concentraram lentamente no interior do closet... O closet do Rachel. O closet vazio de Rachel.
De repente, incorporou-se, sobressaltado.
- Rachel? - gritou com voz rouca. Aguardou, mas não ouviu nada.
Por que tinha tirado Rachel sua roupa do closet? O que lhe havia dito para que o fizesse?
Brad se sentou a um lado da cama e segurou a cabeça para que não lhe caísse rodando de cima dos ombros. Que demônios lhe havia dito?
Tinha-a acusado de ter uma aventura com o Harmon; isso tinha feito. Não sabia se devia rir ou chorar. Rachel? Sua Rachel? Que idéia tão absurda...
Entretanto tinha acreditado, não? Claro que sim. Por isso tinha comprado a garrafa de uísque e se foi à casa a afogar suas penas em álcool. A idéia de que outro
homem a abraçasse, embora fosse em um parque público, punha-o doente.
Mas essa parte era certa, não? Rachel lhe havia dito algo de que tinha comido com o Rich no parque. Que estranho, não?
Não podia pensar, e o estômago vazio lhe doía. Ficou em pé e conseguiu aproximar-se da janela para fechar as cortinas. "Que alívio", pensou.
Devia encontrar a Rachel e lhe pedir desculpas por seu comportamento. Ela tinha todo o direito a estar furiosa. Muito furiosa. Teria que humilhar-se ante ela,
para o qual estava preparado, mas seria melhor que primeiro se asseasse um pouco. Acabava de descobrir que tinha dormido com a roupa posta.
Conseguiu chegar ao banheiro sem tropeçar. Despiu-se, meteu-se na ducha e deixou que o jorro de água lhe golpeasse a cabeça. Das duas uma: ou se afogava ou
se limpava. Dava-lhe igual. Secou-se e vestiu um par de jeans gastos e uma camisa com as mangas cortadas. Sentindo-se quase humano outra vez, saiu em busca de Rachel.
Mas não a encontrou por nenhuma parte. Caminhando com muito cuidado para manter o equilíbrio e fazendo o menor ruído possível para não piorar sua enxaqueca,
voltou para seu dormitório. O armário de Rachel estava vazio. Também faltavam suas coisas de higiene. Abriu um par de gavetas e os encontrou vazios.
Rachel o tinha abandonado.
Tinha que fazer algo. Não podia permitir que se fosse sem lhe explicar seu comportamento. Mas tinha as idéias emaranhadas e seguia lhe doendo à cabeça.
O primeiro era o primeiro. Foi à cozinha e preparou um café bem carregado. À terceira xícara, seu cérebro começou a funcionar. E então a alma caiu aos pés.
Seriamente havia dito todas aquelas coisas a Rachel? Sim, claro que sim. Tinha esperado que ela ficasse e escutasse seus desvarios? Claro que não.
E agora... Que fazia?, perguntou-se. E se Rachel se negava a voltar com ele? Não conseguia imaginar a vida sem ela. Só estavam casados a três semanas, mas Rachel
formava parte de sua vida fazia muito tempo. Uma parte necessária. Tão necessária como o ar que respirava ou a comida com que se alimentava.
Por que não tinha confrontado aquela realidade até esse momento? De menino, tinha-lhe sido negado tudo o que desejava ou acreditava necessitar. O que tinha
ocorrido com seus sonhos de juventude? Naquele tempo seu desejo mais secreto era formar parte de uma autêntica família, uma família com um marido e uma esposa, com
filhos e filhas aos que amar e proteger. Desejava pertencer a alguém. Pertencer a algum lugar.
Que o quisessem.
Rachel lhe tinha dado um sentido de lar. A empresa tinha feito o papel de seu filho. Brad tinha assumido o papel de pai indo às obras cada dia enquanto Rachel
ficava em casa; ou, em seu caso, no escritório. Ela mantinha a ordem e se assegurava de que tudo funcionasse como devia. Ele trabalhava para levar a casa um salário.
Ela se ocupava do resto.
Levava anos casado com o Rachel e não se deu conta. Levava anos apaixonado pela Rachel e não se precaveu disso até esse momento. Deus santo, o que tinha feito?
Tinha arrojado acusações indescritíveis. Aterrorizado ante a idéia de perdê-la, havia dito e feito tudo o que estava em sua mão para afugentá-la de seu lado. E tinha
conseguido; isso era evidente. Agora se perguntava como sobreviveria sem ela.
Bebeu o resto do café e pôs um pouco de pão na torradeira. Devia fazer algo para livrar-se da intoxicação etílica.
Para quando acabou de comer seu magro café da manhã, já sabia o que devia fazer. Devia encontrar Rachel. Em seguida. Antes que se casassem, ela planejava partir
da cidade. Possivelmente tivesse decidido seguir adiante com seus planos. Se era assim, talvez já tivesse deixado seu apartamento. Brad olhou seu relógio e grunhiu.
Eram quase três. Não sabia a que hora teria partido Rachel da casa. E se já tivesse saído da cidade?
Tinha que encontrá-la... Embora tivesse que segui-la até Califórnia.
Rachel estava em cima de uma cadeira, tirando os adornos de Natal do porta-malas do armário. Não tinha parado desde que se levantou. A noite anterior mal tinha
podido conciliar o sonho. E quando tinha conseguido adormecer, tinha tido terríveis pesadelos. Pela manhã, ao levantar-se da cama, estava exausta.
Após tinha feito muitíssimas coisas. Quase todo o equipamento da cozinha estavam já empacotados. Tinha saído cedo e conseguido algumas caixas em um supermercado
próximo. Tinha procurado nas páginas amarelas direções de guarda-móveis e o número de uma empresa de mudanças.
Apesar de como se sentia, seguia funcionando a toda máquina. Superaria tudo aquilo; não lhe cabia dúvida de que sobreviveria. O que de vez em quando a fazia
chorar era dar-se conta de que aquelas últimas semanas tinham sido só uma miragem. Seriamente tinha pensado uns dias antes que podia ter filhos com o Brad? Como
tinha podido estar tão cega?
Desceu da cadeira e tirou as caixas do dormitório. Este começava a parecer-se com um armazém. Mal se via a cama entre tantos pacotes.
Sobressaltou-se ao ouvir o timbre. Não esperava visita. Quem sabia que estava ali? Estremeceu. Possivelmente o homem que a acossava. Ou possivelmente o tinha
inventado como lhe havia dito Brad. Talvez estivesse tão transtornada que imaginou os anônimos com o propósito de chamar a atenção. Ao fim e ao cabo, ninguém parecia
tomá-la a sério.
O timbre soou outra vez e Rachel se perguntou se finalmente teria cruzado a linha da loucura. Em vez de especular sobre quem podia ser, o melhor seria que abrisse
a porta e o averiguasse.
- Já vou - disse abrindo passo entre as caixas. Deteve o olhar pelo olho-mágico.
Ao ver quem estava ao outro lado da porta, soprou. Tirou o ferrolho e abriu:
- Que surpresa. Passa.
Capítulo 11
Arthur Simmons sorriu docilmente.
- Sinto me apresentar assim em sua casa. Espero que não te importe - disse, e subiu com nervosismo os óculos sobre a ponte do nariz.
Ao ver seu olhar de estranheza, Rachel recordou que tinha os olhos tão inchados que pareciam apenas duas ranhuras. Se Arthur lhe perguntava, dir-lhe-ia que
tinha alergia e procuraria trocar de tema.
A verdade era que se alegrava de vê-lo. Sua presença a distrairia dos pensamentos que giravam em sua cabeça como os eixos de uma roda. Estendeu-lhe a mão.
- Não me importa absolutamente, Arthur. Por favor, passa e me faça companhia um momento, se é que pode suportar toda esta desordem.
Arthur lhe deu a mão e entrou no apartamento.
- Quer tomar algo? Café, chá...?, um refresco?
- Eh, não quero te causar moléstias. De verdade. Só queria te falar de um assunto e pensei que seria melhor fazê-lo fora do escritório.
Soltou-lhe a mão e fechou a porta, lhe indicando que entrasse na sala de estar. Deu-lhe vontade de fazer uma careta de chateio, mas não se atreveu se por acaso
ele a surpreendia. Não havia razão para ferir seus sentimentos. Rachel não duvidava de que queria lhe falar dos rumores que circulavam pelo escritório. Mas já não
lhe importavam os rumores. Era seu coração quebrado o que lhe preocupava.
- Não é moléstia - entrou na pequena cozinha e o olhou por cima da barra.
- Sente-se enquanto te sirvo algo - abriu a porta de um armário e sorriu.
- Tenho alguns potes de refresco.
Ele se aproximou de uma cadeira e se sentou obedientemente, sem deixar de sorrir.
- Um refresco de uva estaria bem, obrigado.
Ela assentiu.
- Acredito que eu também tomarei um - encheu rapidamente dois copos com gelo e serviu as bebidas. Retornou à sala de estar, deu-lhe um copo e se sentou na borda
do sofá.
- Do que queria me falar? - perguntou ao cabo de um momento, ao ver que Arthur parecia perdido em seus pensamentos.
Ele piscou e a olhou com estupor antes de compreender o que havia dito. Então ficou muito vermelho.
- Sei que não é meu assunto - disse.
- Mas, verá, conheço-te faz cinco anos e sinto uma grande admiração por ti. Não só como pessoa, mas sim como profissional - sua boca se curvou em um sorriso.
- Te estou especialmente agradecido por me haver protegido da cólera do Brad todos estes anos.
- Sabia? - perguntou ela, surpreendida.
- Posso não ser muito simpático, Rachel, mas não sou estúpido.
- Sou perfeitamente consciente disso, Arthur.
- A verdade é que admiro ao Brad pelo que tem feito com a empresa. Durante estes anos tomou decisões muito inteligentes que lhe reportaram muito dinheiro e
que seguirão fazendo-o no futuro.
Rachel estava assombrada. Por que queria lhe falar do Brad? Arthur deixou com nervosismo seu copo sobre uma mesinha que havia junto a sua cadeira, pigarreou
e disse.
- Entretanto, confesso que estou bastante preocupado pelas decisões pessoais que tomou ultimamente - ela fez ameaça de responder, mas Arthur levantou a mão
para detê-la.
- Não me interprete mal. A tenacidade e a agressividade de seu caráter lhe permitiram superar muitos obstáculos. Entretanto, temo que essas qualidades não resultam
tão admiráveis quando as dirige contra as pessoas que o rodeia.
Ela aguardou até que esteve segura de que tinha ouvido. Quando Arthur guardou silêncio, disse:
- Arthur, pode que Brad não seja capaz de lhe dizer isso à cara, mas te considera uma parte fundamental da companhia, um autêntico mago dos números. Economizaste,
a ele e à empresa, uma considerável quantidade de dinheiro. Sei que ao Brad não lhe dá muito bem demonstrar sua gratidão - sorriu a contra gosto.
- Por isso é tão generoso com as bonificações. É a única forma que tem de expressar seu agradecimento - mal podia acreditar que estivesse defendendo ao Brad.
Arthur a olhou com evidente confusão.
- Mas, Rachel, eu não estava falando de mim.
Ela pareceu confundida.
-Ah, não?
- Claro que não. É você que me preocupa.
Rachel sacudiu a cabeça rapidamente para tentar esclarecer-se. Devia haver perdido algo durante a conversa, embora teria jurado que tinha escutado tudo com
suma atenção.
- Temo que tenha que me explicar o que quer dizer, Arthur. Não entendo onde quer parar.
Ele esfregou a testa com nervosismo. Quando levantou o olhar para ela, disse:
- Oxalá pudesse reduzir o que tento te dizer a uma equação matemática. Assim não teria problemas para me fazer entender - tomou seu copo e bebeu um pouco de
refresco antes de voltar a deixá-lo sobre a mesa.
- Está bem - continuou.
- Deixa que tente explicar-lhe de outra maneira. Não, espera. Primeiro, me permita que te faça uma pergunta. Conhece bem ao Brad Phillips?
A dor de cabeça que Rachel tinha desde que se levantou estava piorando. Entre a falta de sonho, o fato de que seu matrimônio tivesse explodido na cara e o ódio
do Arthur, estava claro que aquele não era seu dia.
- Conheci o Brad faz quase oito anos, pouco depois de que fundasse a empresa. Acreditava que sabia.
Arthur moveu a mão com impaciência.
- Sei quanto tempo leva trabalhando para ele, mas o conhece bem?
Boa pergunta. Evidentemente, não tão bem como tinha acreditado.
- Arthur - disse tentando conservar a paciência, - por que não me diz claramente o que lhe preocupa?
Ele se recostou na cadeira e respirou fundo.
- Faz umas semanas, descobri acidentalmente que mantém uma relação amorosa com ele - parecia mais enfastiado que preocupado.
- E...? - perguntou ela, esperando que se explicasse. Não era difícil de entender porque Brad perdia a paciência com aquele homem. Teria que ter a paciência
de um santo para aguentar suas sinuosas explicações.
- Bom, a verdade é que quando, depois de me entrevistar, Brad me ofereceu trabalhar na empresa, fiz umas quantas averiguações sobre seu passado - tragou saliva
e ajustou os óculos.
- Você fez o que?
- Não sei como são as coisas aqui, no Texas, mas no Este nós gostamos de saber para quem trabalhamos. Não queria aceitar o emprego e descobrir mais tarde que
o negócio era uma cobertura para encobrir atividades ilegais. No Texas há muito tráfico de drogas e de pessoas e também de... - moveu a mão no ar- de outras coisas.
Não queria ver-me comprometido em assuntos turvos.
- Ah. Já vejo. Bom, entendo que estivesse preocupado... Sendo do Este e tudo isso...
Ele suspirou, aliviado.
- Obrigado por ser tão pormenorizada. Não encontrei nada ilegal a respeito da companhia, mas ao revisar os antecedentes do Brad descobri que não é quem diz
ser.
- Ah, não? E quem é então?
Uma expressão de asco cruzou a cara do Arthur.
- Não queria te desgostar, mas acredito que, para seu próprio bem, é melhor que saiba a verdade sobre esse homem.
Ao Rachel não deixava de admirar a forma em que funcionava a mente daquele indivíduo.
- Entendo - disse finalmente, sem saber o que outra coisa dizer.
- Seu verdadeiro nome é Bradley J. Ogden, mas lamento dizer que utilizou diversos outros.
- Então... Não se chama Phillips? - perguntou, admirada por aquela fascinante conversação.
- Bom... Suponho que agora sim. Phillips é seu nome legal. O trocou, sabe?, o qual resulta por si só bastante suspeito, não te parece?
- Hum - respondeu ela, fingindo-se pensativa.
- O pior de tudo é que seu pai tem um comprido histórico delitivo, embora lhe condenassem muito poucas vezes. Até o ano passado, quando por fim as autoridades
conseguiram colocá-lo entre grades.
Rachel enrugou o cenho.
- Que interessante - disse, perguntando-se se Brad iria querer saber onde estava seu pai, ou se lhe importaria.
- Mas me diga uma coisa, tudo isto lhe preocupa pelo fato de que eu mantenha uma relação amorosa com o Brad?
Ele baixou os olhos e olhou as mãos, que tinha unidas entre os joelhos.
- Não quero que lhe façam mal, Rachel. Pode que Brad não o faça de propósito, mas muito temo que, se te empenhar em seguir com essa relação acabará te prejudicando
de alguma forma.
Lástima que não lhe tivesse dado aquele conselho uma semana antes pensou ela. Mas, claro, uma semana antes ela ainda fantasiava com seu matrimônio, seu marido,
sua futura família e sua vida de conto de fadas.
Deixando-se levar por um impulso, estirou o braço e lhe deu um tapinha nas mãos.
- É muito amável ao preocupar-se por mim.
Suas palavras não pareceram tranquilizá-lo.
- Não, não o sou. Não se trata de amabilidade absolutamente! - Arthur apartou as mãos, ficou muito rígido e acrescentou.
- Estou apaixonado por ti desde que comecei a trabalhar na empresa, Rachel. Acredito que foi amor a primeira vista. Você representa tudo o que algum dia chegaria
a sentir o mesmo por mim, mas ao ver que não respondia a minhas notas, compreendi que quão único estava fazendo era me pôr em ridículo.
Rachel ficou sem fôlego e o olhou com estupor.
- O que está dizendo exatamente, Arthur? De que notas falas?
A cor do semblante do Arthur passou do branco ao vermelho e, logo, de novo ao branco. Tinha a testa úmida de suor.
- Pensei que te pareceria romântico receber notas de um admirador secreto. Acreditava que descobriria em seguida que eram minhas. Mas não foi assim.
Rachel ficou em pé de um salto e o olhou, horrorizada.
- Arthur, está-me dizendo que o perseguidor foi você? Ai, Meu deus! Não tinha nem idéia.
Ele pareceu ofendido.
- Eu não sou nenhum perseguidor, Rachel. Quão único fiz foi escrever umas notas te dizendo que gostava de você.
- Mas entrou em meu apartamento!
- Só uma vez. Juro-lhe isso. Tinha decidido deixar isso para me assegurar de que a recebia, mas quando cheguei, a porta estava entreaberta. A senhora da limpeza
estava no banheiro, escutando a rádio. Sei que foi uma estupidez de minha parte, mas queria te fazer uma surpresa. Assim deixei a nota em cima da cômoda para que
a senhora da limpeza não a atirasse acidentalmente ao cesto de papéis.
- E o que conseguiu foi me dar um susto de morte! Arthur dá-te conta do que tem feito?
Ele piscou assombrado.
- O que? A que te refere?
- Fui à polícia pensando que um pervertido tinha entrado em meu apartamento. Inclusive fui a Carolina do Norte porque...deteve-se, compreendendo ao fim as consequências
das ações do Arthur. Deixou-se cair no sofá e o olhou com renovado pavor, levando as mãos à boca. Ele voltou a empalidecer. Seus olhos pareciam ter redobrado de
tamanho quando a olhou, apavorado.
- Fez tudo isso por minha culpa? Por minhas notas? Os falatórios começaram quando voltaram da Carolina do Norte. Acaso foi por minha culpa?
- Fui porque estava assustada Arthur - disse ela lentamente.
- Suas notas eram cada vez mais explícitas, se por acaso não o recorda.
Ele voltou a ficar vermelho. Desviou o olhar um momento antes de voltar a fixá-lo nela, mas procurou não olhá-la aos olhos.
- Sei que não me dou muito bem as palavras, sempre foi assim, mas queria que soubesse o que sentia e quanto desejava...
- Nós dois sabemos o que desejava Arthur. Suas notas deixavam bastante claro.
- Mas não pretendia te assustar! Não queria que pensasse que sou um mequetrefe que não sabe como é a vida.
Ela recostou a cabeça contra o sofá.
- Queria que te considerasse sofisticado - disse cansada, compreendendo tudo.
Ele assentiu resolutamente.
- Exato. Rachel sinto tanto te haver assustado... Pensei que te daria conta de que as notas eram minhas.
Rachel sentiu vontade de gritar. Desejou espernear, chiar e insultá-lo com palavras que Arthur Simmons nunca tinha escutado. Mas em lugar de fazê-lo, limitou-se
a dizer:
- Assinar "seu admirador secreto" não dava muitas pistas, Arthur.
Ele pareceu envergonhado. Rachel viu que lhe empanavam os olhos, mas nesse momento não era capaz de sentir compaixão por ele. Por sua culpa tinha aceitado casar-se
com o Brad Phillips, empreendendo assim um caminho cheio de dor, tristeza e sofrimento.
Ficou ali sentada, olhando-o com rancor. Arthur a olhou aos olhos com uma agitação nervosa que parecia raiar ao pânico. Acreditaria que ia agredi-lo? A verdade
era que, se sua mãe não a tivesse educado como a uma dama, poderia lhe haver pegado.
Fechou os olhos para tentar apagá-lo de seus pensamentos, mas seu cérebro seguiu bombardeando-a com toda classe de idéias. Uma delas fez que abrisse os olhos
de repente.
- Não veio para me contar dessas notas. Veio me falar do sórdido passado do Brad. Por que? - perguntou.
- Pensava que estava claro. Quero-te. Desejo o melhor para ti. Não teria elegido ao Brad Phillips para ti, mas o certo é que não sou muito objetivo, sou o primeiro
em admiti-lo. Estava convencido de que eu podia te fazer feliz. Agora me dou conta de que me enganava. De todos os modos, pensei que talvez, durante a viagem a Carolina,
havia te sentido superada por sua agressividade e tinha acabado cedendo a seus desejos - elevou a voz ligeiramente.
- Consentiu que se difundisse todas essas intrigas sobre ti no escritório e nenhuma só vez saiu em sua defesa. Deve-te muito para permitir que te converta na
fofoca da empresa.
Rachel fechou os olhos outra vez.
- Ele não se inteirou dos rumores até ontem, Arthur.
- Ah. Então, talvez ainda não seja muito tarde para que faça o correto.
- E o que é o correto, segundo você?
- Casar-se contigo, é obvio.
- É obvio - murmurou ela.
- Por que não me terá ocorrido?
Arthur se levantou, e Rachel fez outro tanto.
- Lamento muitíssimo te haver assustado. Poderá me perdoar?
Aquele homem estava transtornado, isso era evidente. Rachel o olhou com desespero. Era consciente de que tinha tomado certas decisões sem ter todos os dados
em seu poder. Acolheu-se ao porto seguro do Brad, convencida de que sabia exatamente o que necessitava ele e como dar-lhe.
Olhou os olhos amáveis e tristes do Arthur, e viu que estava realmente arrependido. Por fim, deu um passo adiante e lhe pôs as mãos sobre os ombros.
- Perdôo-te, Arthur, mas te sugiro que não volte a escrever anônimos. E te aconselho que não fale com ninguém do passado do Brad.
- Certamente que não! Eu não vou por aí divulgando segredos, Rachel. Você sabe. Nunca contei a ninguém o que sei do Brad. O certo é que acredito que conseguiu
redimir-se. Olhe onde está agora.
Que mais interessava a ela tudo aquilo? Brad a tinha despedido de seu posto de esposa e de assistente. E se não o tinha feito ainda, já podia fazê-lo. Se acreditava
que ia continuar trabalhando para ele depois das coisas que lhe havia dito, estava muito equivocado.
Concentrou-se no homem que tinha frente a sim.
- Então, que tudo isto fique entre nós, de acordo?
Ele assentiu solenemente.
- Não mereço seu perdão, mas obrigado, de todos os modos - Arthur olhou a seu redor com nervosismo.
- Devo ir. Deixarei que siga com o que estava fazendo, seja o que for - disse.
Antes que retrocedesse, Rachel jogou os braços ao pescoço e o abraçou com firmeza. Ele pareceu não saber o que fazer com as mãos, mas ao fim as deixou pendurado
sobre suas costas.
Assim os encontrou Brad quando entrou no apartamento.
Capítulo 12
Arthur se separou de Rachel como se tivesse recebido uma descarga elétrica. Ela, por sua parte, permaneceu onde estava. Tinha esquecido que tinha dado ao Brad
uma chave do apartamento.
Acreditou que ele ia lançar-lhe outra fileira de acusações. Mas, ao menos, essa vez teria parte de razão. Se não tivesse estado tão aturdida pelas revelações
do Arthur e a cena do dia anterior, lhe teria feito graça que seu ciumento marido a descobrisse em braços de outro homem.
Brad apresentava um aspecto horrível. Tinha os olhos inchados e avermelhados, o cabelo revolto e a cara sem barbear. Ficou em meio do quarto e olhou as caixas
que havia por toda parte antes de fixar os olhos no Arthur. Sua presença pareceu desconcertá-lo.
- Eh... Olá, Arthur. Sinto ter irrompido assim - disse, lançando a Rachel um rápido olhar antes de dirigir-se de novo ao Arthur.
- Suponho que não esperava que Rachel tivesse companhia.
Tinha adotado um tom de desculpa, o qual os surpreendeu a ambos. Arthur começou a balbuciar imediatamente.
- Eh, sou eu quem deve desculpar-se - sorriu com nervosismo.
- Por me apresentar assim, tão de repente. Estou seguro de que os dois estão muito ocupados - tinha começado a retroceder para a porta com cada palavra, até
que topou com ela ao acabar a frase.
- Assim... Eh... Acredito que será melhor que vá - acrescentou fracamente.
- E... Isto... Veremo-nos na segunda-feira.
Abriu a porta bruscamente e saiu quase correndo do apartamento. O ruído da porta ao fechar-se encheu o silêncio que deixou sua partida. Rachel não estava preparada
para enfrentar ao Brad. Estava muito zangada, muito doída, muito triste para falar com ele nesse momento.
Brad não se moveu da marcha do Arthur. Seu rosto parecia empalidecer por momentos. Rachel lhe assinalou a cadeira que Arthur tinha deixado livre e disse:
- Sente-se, não vá cair. Far-te-ei um pouco de café.
Brad se sentou. Rachel entrou na cozinha, pensando que tinha feito bem em não empacotar a cafeteira e o café. Concentrou-se em medir o café e a água.
Não era justo, pensou. Brad lhe tinha quebrado o coração, tinha pisoteado seus sentimentos... e para cúmulo, tinha a desfaçatez de apresentar-se em sua casa
com o aspecto de um animal extraviado. Um animal extraviado e receoso, mas adorável de todos os modos.
O problema era que o conhecia muito bem. Com os anos, tinha chegado a conhecer seus distintos estados de ânimo, cada uma de suas expressões, e às vezes quase
lhe parecia que podia lhe ler o pensamento. Por isso a tinham surpreendido tanto suas espantosas acusações do dia anterior. Nunca antes o tinha visto naquele estado.
E, certamente, não queria voltar a presenciar uma cena semelhante.
Sabia que se sentia envergonhado por seu comportamento e que estava arrependido. Mas ela não podia fingir que não tinha passado nada.
Entretanto, não sabia o que fazer. Era a primeira vez em sua longa relação que Brad voltava contra ela sua cólera e sua desconfiança. Por mais arrependido que
estivesse Rachel não queria ter que voltar a confrontar outra cena como aquela no futuro.
Encheu um copo de água, tirou um frasco de aspirinas e lhe estendeu ambas as coisas. Brad tinha a cabeça apoiada no respaldo da cadeira e os olhos fechados.
Abriu-os quando Rachel pôs o copo de água e o frasco de pastilhas sobre a mesa, a seu lado.
- Obrigado - murmurou, tomando o frasco.
Rachel deu a volta sem olhá-lo aos olhos. Recolheu seu copo de refresco e o levou a caminho da cozinha. Então recordou: já tinha empacotado a baixela. Teve
que abrir três caixas antes de encontrar a que continha as xícaras de café. Serviu o café bem carregado em uma e a levou a sala de estar. Brad se levantou e tomou
a xícara. Rachel deu a volta e cruzou a sala para sentar-se em uma das cadeiras de madeira da cozinha.
Brad se sentou de novo e provou o café fumegante. Ao cabo de um momento, olhou a Rachel e falou.
- Obrigado por não me jogar a patadas.
- A que vieste?
Ele fez ameaça de falar, mas se deteve. Tomou outro gole de café e começou a dizer algo... E de novo se deteve. Por fim, encolheu de ombros e disse:
- Queria impedir que fosse.
- Não tenho escolha. Devo deixar o apartamento antes da segunda-feira - apartou o olhar dele. Nunca o tinha visto tão derrotado.
- O que pensa fazer? - perguntou ele brandamente.
- Ainda não sei.
Guardaram silêncio enquanto Brad bebia o café. Quando sua xícara estava vazia, colocou-a cuidadosamente sobre a mesa e, elevando os olhos, cravou seu intenso
olhar nos de Rachel.
- O que fiz ontem... O que falei... Tudo isso... É imperdoável - passou a mão pela boca.
- Sei que atuei como um louco. Pus-me completamente em ridículo - seus olhos se escureceram.
- Não sei como te dizer quanto o sinto.
A Rachel não lhe ocorreu o que responder. Estava segura de que dizia a verdade.
O silêncio voltou a estender-se entre eles. Brad se levantou e se aproximou da janela, com as mãos nos bolsos. Rachel se perguntou se saberia como marcava aquela
postura a forma de seus glúteos. De costas para ela, Brad disse:
- Não recordo quase nada do que passou ontem. Felizmente. Porque o pouco que lembro me põe doente: as coisas que te disse..., a forma em que te falei... A ti,
nada menos.
- Disse o que acreditava que era certo.
- Não - disse ele, sacudindo a cabeça lentamente.
- Disse o que temo que seja certo.
- Já vejo. Crê que tenho uma aventura com o Rich Harmon - disse ela em tom indiferente, tentando sobrepor-se à opressão que sentia no peito e às lágrimas que
teimavam por emergir.
Ele deu a volta e tirou as mãos dos bolsos. Agarrou-se ao gancho da janela para manter o equilíbrio.
- Não - disse apertando os dentes.
- Não acredito que tenha uma aventura com o Harmon... Nem com nenhum outro.
- Então não entendo o que aconteceu ontem - conseguiu dizer ela.
Brad se recostou contra a parede como se necessitasse de apoio, e a observou. Rachel sabia o que via: uma mulher pálida, sem maquiagem, com o cabelo recolhido
em um coque, vestida com uma camiseta poeirenta e uns jeans descoloridos.
- Alguma vez te perguntaste por que, em todos estes anos, alguma vez demonstrei um interesse pessoal para ti?, por que alguma vez te pedi que saíssemos?, por
que alguma vez flertei contigo?
Ela pensou um momento. Tinha estado tão ocupada ocultando seus sentimentos para ele que, em realidade, não se tinha dado conta.
- Se alguma vez senti falta - disse finalmente, - foi só um pensamento passageiro. Trabalhava muitas horas. Não tinha tempo para fazer vida social.
- Refiro a quando saía do trabalho.
- Suponho que pensei que se devia a que sabia que os amores de escritório estão fadados ao fracasso.
Brad sorriu pela primeira vez desde que tinha chegado.
- Devia-se a que é a classe de mulher que não só conhece o significado de uma expressão como "estar fadados ao fracasso", mas sim, além disso, sabe utilizá-la
em uma frase.
Ela franziu o cenho. Tinha conseguido desconcertá-la.
- O dia que te conheci, compreendi que não pertencíamos ao mesmo mundo. Você foi culta, educada, provinha de um nível social que eu só podia contemplar de longe.
Foi uma dessas damas clássicas, destinadas a casar-se com alguém igualmente culto e educado que se movesse nos círculos da alta sociedade. Nunca me permiti jogar
com a idéia de que pudesse pensar em mim como em algo mais que seu tosco e grosseiro chefe.
Rachel o olhou assombrada;
- Você merecia a alguém muito melhor que eu; sabia quando te contratei. Sabia quando me aproveitei de seus medos para te convencer de que te casasse comigo;
mas o fiz de todos os modos - se separou da parede e voltou a sentar.
- Uma das coisas que me lembro de ontem é que disse que não confiava em ti - se inclinou para diante, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
- Não é certo. O que pensei quando ouvi que Harmon e você tinham estado comendo no parque foi que ao fim te tinha dado conta de que ao te casar comigo tinha
cometido um terrível engano. Confrontemo-lo. Rich Harmon é muito mais de seu estilo que eu.
Rachel não sabia se devia rir ou chorar. Como era possível que pensasse aquelas coisas? Em todos esses anos, não se tinha dado conta da pobre opinião que Brad
tinha de si mesmo. Sua mente voou arduamente em todas as direções, revisando tudo o que lhe havia dito no dia anterior através desse novo filtro.
- Deixei que o medo de lhe perder se apoderasse de mim. Pedir-te-ia que me perdoasse, mas sei que não mereço seu perdão. Não te mereço, porque nem sequer me
tinha dado conta de que levava oito anos apaixonado por ti. Diga-me o que quer, Rachel. Se quiser o divórcio, não me oporei. Se crer que não pode seguir trabalhando
para mim, também o entenderei.
Assim era isso. Brad tinha ido pedir perdão e a lhe oferecer a liberdade, se a queria. Rachel deixou que as lágrimas rodassem por suas bochechas.
- Não quero o divórcio. Quero te matar por ser tão estúpido. Quero te dar uma patada no traseiro. Mas não, não quero pôr fim a nosso matrimônio.
Ele se levantou da cadeira e se ajoelhou a seu lado.
- Se me perdoa - disse tomando a sua mão enquanto com a outra lhe enxugava uma lágrima, - prometo-te que o de ontem não voltará a ocorrer. Prometo não duvidar
nunca de ti, nem suspeitar de ti, nem te pedir explicações ou me negar a te escutar - lhe quebrou a voz.
- Se me perdoar serei o melhor marido que possa ser.
Ela sorriu através das lágrimas.
- Isso está muito bem. Se seguir assim, converter-te-á em um santo.
- Significa isso que me perdoa?
Ela se levantou e atirou dele para que ficasse em pé.
- Se te disser que sim, irá a casa e dormirá um momento? Tem um aspecto horrível.
Ele deslizou os braços ao redor de sua cintura.
- Só se vier comigo. Tenho descoberto que eu não gosto de dormir sem ti.
Ela olhou a quarto e logo a ele.
- De acordo. De todos os modos, o apartamento tem que estar vazio antes da segunda-feira.
Ele a conduziu para a porta, agarrando-a firmemente pela cintura.
- E o estará, embora para isso tenha que trazer uma equipe - abriu a porta e, quando estiveram no corredor, voltou-se para ela e disse.
- O que estava fazendo Arthur aqui, se não te importar que lhe pergunte isso?
Ela pôs-se a rir e o agarrou pela mão. Enquanto se dirigiam para o elevador, disse:
- Nunca teria imaginado ao Arthur no papel do Cupido, mas espera saber o que me contou.
Epílogo
Nove anos depois
Mamãe? - a pequena Casie, de oito anos, que devia seu nome ao "avô" Casey, estava ajudando Rachel a limpar a cozinha depois do almoço do domingo.
- O que, céu? - perguntou Rachel distraidamente enquanto limpava a bancada.
- Como se conheceram papai e você?
- Ouviste essa historia centenas de vezes, Casie. Papai me contratou pouco depois de que eu saí da universidade.
- Não digo isso. O que quero saber é por que te casou com ele depois de levar tanto tempo trabalhando para ele.
Rachel pôs em marcha a lava-louça e apertou contra o flanco a sua filha, a qual se parecia com seu pai, embora tivesse os olhos e o cabelo castanho de sua mãe.
- Essa é uma boa pergunta. Acredito que seu pai poderá respondê-la. Vem, vamos ver.
Rachel sabia onde encontrar ao Brad: convexo na cama, vendo um jogo de futebol na televisão. Tinha utilizado a desculpa de que tinha que deitar-se com os meninos
porque era o único modo de que Brandon, de cinco anos, e o pequeno Benjamin, de dois, fizessem a sesta sem armar confusão.
Brad tinha subido ao Cari, ao Rich Harmon e a um par de chefes de obra, de modo que passava muito menos tempo no escritório. Rachel atuava como consultora da
empresa e seguia ajudando-o a tratar com alguns dos clientes mais difíceis, mas raramente ia ao escritório.
Casie e ela entraram no dormitório. Como cabia esperar, os meninos estavam profundamente adormecidos, enrolados a ambos os lados do Brad. Casie subiu impetuosamente
à cama. Brad levou o dedo aos lábios e assinalou a seus irmãos. A menina assentiu com a cabeça, mas estava muito impaciente para esperar. Sussurrando, disse:
- Mamãe me disse que me conte por que decidiram se casar.
Brad tinha estado olhando a sua filha com adoração indulgente, uma expressão que punha frequentemente quando estava com seus pequenos. Rachel viu que seus olhos
se apertavam ligeiramente para ouvir a pergunta da menina.
- Mamãe te há dito que me pergunte isso, Eh? - disse brandamente, mas lançou a Rachel um olhar significativo.
Casie assentiu.
- Estive olhando as fotos das bodas. Pareciam muito felizes juntos. Assim que me perguntava por que esperaram tanto tempo para casar, se se queriam tanto.
- Hum - disse ele.
- Boa pergunta. Naquele tempo eu tinha tanto trabalho que apenas me dava conta do que acontecia ao meu redor. Então, um dia, sua mãe e eu tivemos que fazer
uma viagem de negócios e tomamos um avião.
- Mas se a mamãe dá medo voar...! - disse quase entreabrindo os olhos.
- Tem razão. Assim, enquanto íamos no avião, mamãe se assustou muito, jogou os braços ao meu pescoço e ficou a gritar como uma louca - pôs voz de falsete:
- "Me salve, por favor, me salve". Então foi quando a vi de verdade pela primeira vez, com olhos do coração, não só com os olhos do rosto. E pensei: "meu deus,
que formosa é. Onde estiveste todo este tempo?". Decidi que a salvaria de tudo o que lhe dava medo e que a manteria sempre a meu lado. E isso fiz. Assim, já vê,
assim é como sua mãe e eu decidimos casar - seus olhos transbordavam alegria quando, olhando a Rachel, perguntou-lhe.
- Não é assim, formosa dama?
- É você quem está contando a história, não eu - respondeu ela, tentando conter a risada.
- Assim que a salvou, e mamãe vestiu seu precioso vestido de noiva e você, seu traje, e tiveram umas bodas muita, muito bonita - Casie assinalou com a cabeça
a fotografia das bodas que havia sobre uma mesinha.
- Sim, assim é. Salvei-a como o príncipe de um de seus contos de fadas.
Casie se deitou na cama e lançou um profundo suspiro.
- E foram felizes e comeram perdizes - disse com satisfação.
Os olhos do Brad lançaram uma mensagem apaixonada a Rachel, lhe advertindo que, essa noite, as pagaria por havê-lo metido naquele retiro.
- Sim, minha menina, assim é: fomos felizes e comemos perdizes.
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Adoro Romances em Ebooks apresenta...
Annette Broadrick - Matrimônio sob ameaça
(But not for me)
Sem deixar-se distrair por coisas sem importância como o amor, Brad Phillips
tinha conseguido deixar de ser um moço sem dinheiro e converteu-se em um
milionário viciado no trabalho. Sua ajudante, Rachel Wood, sempre tinha
acreditado nele e o tinha apoiado desde o começo. Mas depois de oito anos
de relação estritamente profissional, Rachel nem sequer se atrevia a sonhar
que pudesse haver algo mais entre eles.
Então... Por que quando ela acreditou estar em perigo Brad se apressou a lhe
oferecer o refúgio de sua casa, e de seus braços, convertendo-a em sua
esposa? A ameaça de que Rachel pudesse desaparecer de seu lado tinha feito
que a visse como uma mulher... E que inclusive começasse a acreditar.
Título Original: But not for me (2002)
Título em espanhol: Matrimonio bajo amenaza
Casal Principal: Brad Phillips e Rachel Wood
Gênero: Contemporâneo
O ARE agradece de coração o trabalho de todas as revisoras e formatadoras.
Abraços meninas.
***
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habituado".
Sérgio Pinto da Cunha
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