segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

magia de mulher - Maris Soule

Magia De Mulher.
Maris Soule.
© 1999 Maris Soule.
Capítulo 1.
Tyler Corwin sabia que Robin Leach não mostraria essa casa no programa "Estilo de Vida dos Ricos e Famosos". Os degraus de cimento estavam partidos nos bordos, o
alpendre de madeira estalava ao ser pisado e a porta de rede estava descaída, exibindo um
a fenda de três centímetros na parte superior que permitia, contrariando a sua função, a passagem de moscas que esvoaçavam à volta da sua cabeça. Através da porta
de rede pôde ver uma mulher de origem hispânica de meia idade, medindo quase tanto de la
rgura como de altura, que se dirigia na sua direcção. Deteve-se do outro lado da porta, sem fazer qualquer esforço para a abrir.
- Procuro Shaunna Lighfeather - disse. - Chamo-me Tyler Corwin. Telefonei antes. Ela está à minha espera.
Com um grunhido, a mulher deu meia volta e proferiu algumas palavras ao voltar para a cozinha.
- Está a mudar de roupa. Disse para a esperar na cozinha.
Entendeu que podia entrar e abriu a porta. As dobradiças rangeram e assim que entrou sentiu o cheiro a estrume e o som de uma canção country. Espalhadas pelo chão
à sua esquerda, estavam vários pares de botas de vaqueiro. À sua direita, sobre um tanqu
e de roupa, calças de ganga sujas e uma camisa de algodão manchada.
Franziu o nariz e soltou um risinho quando a porta de rede contra os mosquitos se fechou nas suas costas. Não havia dúvida de que a atmosfera era muito diferente
dos corredores e gabinetes limpos da firma de
contabilidade Smith e Fischer. O trajecto de quinze quilómetros de Bakersfield tinha-o transportado para outro mundo, um mundo que ainda há seis meses nem sabia
que existia.
Ao entrar na cozinha, a mulher hispânica indicou-lhe uma mesa de formica coberta com jornais e revistas de cavalos. Considerando um convite para se sentar, afastou
uma cadeira. O plástico do assento estava coberto por fita-cola em dois sítios.
- Café? - perguntou a mulher.
- Não, obrigado - respondeu com um sorriso educado.
- Não demora - voltou a grunhir a mulher. Sem dizer uma palavra, abandonou a cozinha com a saia de algodão oscilando ao movimento das suas largas ancas.
A casa de madeira estendia-se de acordo com o estilo dos ranchos que imitavam os construídos depois da Segunda Grande Guerra; não havia dúvida, não escondia os anos
que tinha. O papel da parede estava sujo, o linóleo gasto e com gretas, a torneira pin
gava. Pelo que vira até então, o dinheiro não parecia abundar naquele estábulo. Pensou que isso jogava a seu favor. Se a proprietária precisava de dinheiro, poderia
convencê-la a aceitar outro cavalo... inclusivamente um como Magic.
- Senhor Corwin?
O som rouco do seu nome fê-lo virar a cabeça. O seu olhar pousou sobre uma mulher com cerca de trinta anos que o obrigou a respirar fundo.
Alta e esbelta, estava à porta da cozinha com as pernas um pouco separadas, as mãos nas ancas e o queixo erguido. As calças de ganga não lhe ficavam muito justas
e a camisa bege de homem tinha as mangas subidas até aos cotovelos. Tinha os botões de ci
ma abertos, deixando um V que atraiu o olhar dele para o seu peito e, ainda que não pudesse qualificá-la de exuberante, deixava ver uma divisão entre os seios bem
definida. Perguntou-se
se teria soutien e aquele pensamento surpreendeu-o. Sentiu igualmente que o coração começara a bater mais fortemente, o que constituiu outra surpresa. Não era um
homem que se deixasse excitar facilmente por uma mulher.
Atribuiu aquela sua reacção ao aspecto assombroso da mulher. A pele era dourada, reflectindo tanto longas horas passadas ao sol como uma herança de nativa americana.
Talvez para exibir essa ascendência, na espessa mata de cabelo castanho que cobria os
seus ombros havia uma fina trança que terminava com duas penas. Mas foram os olhos que captaram a sua atenção acima de tudo. Embora pensasse que poderiam ser castanhos,
na sua mente a cor que melhor os definia era o azul topázio.
- Senhora Lighfeather? - levantou-se para a cumprimentar. Com o movimento, a cadeira caiu e a sua estrutura metálica ressoou contra o linóleo.
- Trata-me por Shaunna - entrou com um sorriso na cozinha. - Desculpa ter-te feito esperar. Um potro que estou a treinar atirou-me para um monte de estrume, pelo
que decidi que seria melhor para ambos mudar de roupa.
Tratá-la-ia pelo que ela quisesse, precisava da sua ajuda... mas não esperara que ela fosse tão jovem... ou bela. Apanhou a cadeira apressadamente.
- Sou Tyler Corwin, a pessoa com quem falaste por telefone. Trata-me por Tyler. Agradeço que tenhas arranjado tempo para me receberes.
- Não me deste grande alternativa - sorriu e deteve-se a um metro dele, suficientemente perto para que Tyler sentisse o aroma a sabonete. Não se limitara a mudar
de roupa.
Estendeu a mão direita e ele apertou-lha, sentindo firmeza na mão dela. Não o surpreendeu, já que tinha aspecto de ser uma mulher segura e forte, embora pudesse
perceber que o toque da palma da sua mão era muito diferente do das mulheres com quem trabalhava no escritório. Apertar a mão de Shaunna em nada se parecia com apertar
a mão de Alice Fischer, com quem saía há quase um ano.
Tinha a certeza de que os calos da palma da mão de Shaunna eram devidos ao trabalho duro que executava, coisa que Alice nem devia saber o que era. Alice tinha nascido
em berço de ouro e ainda agora, no seu lugar de organizadora de eventos, um ausculta
dor de telefone era o mais pesado que as suas mãos erguiam. Afirmava sempre que a sua força residia na mente.
O que surpreendeu Tyler foi o impulso que teve de segurar na mão de Shaunna, captar um pouco da força que sentia emanar dela. De repente, soltou-a e esfregou as
palmas das mãos.
- Senta-te - indicou a cadeira que ele acabava de levantar do chão. - Café? - Tyler voltou a recusar e ela sorriu. - Talvez seja uma decisão sábia. O café de Maria
é forte. E à tarde é mortal - sentou-se à sua frente. Fala-me desse cavalo de que me fa
laste ao telefone. É da tua filha?
- É. Na verdade penso que oficialmente ainda pertence ao Departamento da Direcção Territorial. É um potro selvagem.
- Ao telefone disseste que o tinhas há um ano. Não vais ser proprietário dele em breve?
-A... acho que sim.
- Já entraste em contacto com eles? - sorriu perante a sua hesitação. - Pediste o título de propriedade?
-Eu... quer dizer...
Shaunna observou que Tyler Corwin se mexia na cadeira. Quando lhe telefonara, dissera que a iria ver quando saísse do escritório, pelo que não se admirara ao vê-lo
de fato. Ficava-lhe bem e as riscas finas desenhavam uns ombros bem feitos. A camisa br
anca e a gravata
vermelha e azul eram conservadoras. Explicara-lhe que era contabilista. Interrogou-se se seria honesto. Precisava de alguém que lhe fizesse a escrita, mas não pensava
cometer o mesmo erro que cometera no passado. Ele voltou a mexer-se.
- Há um pequeno problema - repôs por fim.
- Que tipo de problema? - sempre que alguém dizia que havia um "pequeno problema", sabia que nada tinha de "pequeno".
- O cavalo é... quero dizer... - hesitou. Talvez devesse explicar-te algumas coisas.
Olhou-a nos olhos e Shaunna praticamente viu o seu reflexo nesses lagos azuis. Embora o classificasse como atraente, decidiu que os olhos eram a melhor característica
dele. E talvez também o cabelo. Era de um louro do tom da areia, espesso e com um bo
m corte. Esse tipo de cabelo pedia para ser acariciado, convidava a ser tocado.
- Explica-te - instou ela, decidida a manter a mente no cavalo e não no cabelo.
- Bem, como te disse ao telefone, Lanie teve um acidente há seis meses, e...
- A Lanie é a tua filha? - parecia-lhe que esse era o nome que mencionara antes.
A interrupção pareceu apanhá-lo com a guarda baixa, e gaguejou antes de continuar.
- Sim... Teve um acidente de carro com a mãe e o padrasto. Foi por culpa de um condutor ébrio. O tipo foi de encontro ao carro deles. A mãe de Lanie, a minha ex-mulher,
e o padrasto da pequena morreram de imediato. A Lanie ia no banco de trás. Durante
algum tempo pensámos que não sobreviveria, esteve internada no hospital um mês. Desde então, tem vindo a recuperar física e mentalmente.
Shaunna fez um gesto com a cabeça indicando que compreendia. Uma perda daquela natureza seria traumática para uma criança.
- Disseste que durante esse tempo alojaste o cavalo numa cavalariça.
- Sim fez um movimento com a cabeça. Era a única coisa que podia fazer. Não percebo nada de cavalos, excepto o que tenho estado a aprender nos últimos tempos. Nem
sequer sabia que Lanie tinha um, só soube quando os meus antigos vizinhos foram ao hospi
tal e me contaram. Ninguém alimentava o animal e o bem-estar dele preocupava-os. Foram eles que me sugeriram que o alojasse nalgum sítio até decidir o que fazer
com ele.
- Parece razoável. E o lugar que escolheste é onde ele se encontra agora?
- É - fez uma careta. - É uma cavalariça no outro extremo de Bakersfield. Está lá há cinco meses e meio. Pensei que cuidassem bem dele, por isso a única coisa que
faço é pagar as contas no final do mês. Não tinha tempo para o ver, com as visitas ao ho
spital e o meu trabalho.
- Mas agora já o viste - fora isso que ele lhe comentara por telefone.
- Sim. Na semana passada. A Lanie e eu fomos visitar a cavalariça. O médico da miúda considerou que seria uma boa ideia passar algum tempo com o seu cavalo, que
a ajudaria a enfrentar tudo o que tinha acontecido. A Lanie ficou muito alterada ao vê-lo
e eu fiquei pasmado. Está num estado terrível.
- Por terrível queres dizer...
- Sujo. Muito sujo - o tom de Tyler demonstrava desgosto; sacudiu a cabeça. - Explicaram-me que estava sempre a sair de onde o tinham metido e, por isso, meteram-no
numa box. Parecia mais uma tumba. Acho que não saiu dali durante meses e que nunca foi
limpa. Era horrível. E o cheiro... - engelhou o nariz. - Nem acreditei no estado do animal quando o vi.
Se o cavalo estava onde Shaunna achava que estava,
acreditava nas palavras de Tyler. Escolhera o sítio na lista telefónica e, ingenuamente, pensara que os proprietários da cavalariça cumpriam o que prometiam. Assim
deveria ter sido. Mas o problema é que nem todos os tratadores eram iguais.
- Dizes que não deixaram sair o animal da cavalariça durante meses?
- É o que eu acho. Pelo aspecto e pelo cheiro, esteve sempre lá fechado.
- Consegue andar? - sabia que alguns cavalos maltratados não conseguiam.
- Consegue - replicou, levantando-se em seguida e dirigindo-se à janela que dava para uns picadeiros. Olhou para fora e Shaunna ouviu-o suspirar antes de se virar.
- O cavalo consegue fazer mais coisas do que andar. Assim que abrimos a porta ele lanço
u-se sobre a Lanie. Tentou atacá-la.
- Atacar? - Shaunna abanou a cabeça. - Acho que tens um problema - e não era "pequeno". - Quantos anos disseste que tem a tua filha? Dez?
-Sim.
- Uma menina tão pequena não deveria ter um cavalo assim. Precisa de um animal calmo, seguro.
- Eu sei. E quero desfazer-me dele, mas Lanie insiste em que ele não era assim antes do acidente... antes de ir para aquela cavalariça. Dizia que a mãe mandava uma
pessoa lá a casa para o exercitar. Antes do acidente, a Lanie montava-o sempre e ele mo
strava-se dócil e seguro. Como te disse - continuou -, sem ter em conta como era antes e considerando como é agora, penso que deveríamos desfazer-nos dele. Vendê-lo
ou enviá-lo para onde veio. O problema é que o médico de Lanie acha que é importante p
ara ela ter o seu cavalo agora. Afirma que como foi a mãe que lho comprou, desfazer-se dele agora afectaria negativamente a recuperação da menina; que precisa dele
tanto emocional
como fisicamente. Por isso, por um lado e pelo bem da minha filha, necessitamos ficar com o animal. Mas por outro lado, é demasiado indómito para ficarmos com ele.
Não sei o que fazer. Sei que não podemos deixá-lo onde está, mas para que alguém possa
lidar com ele é preciso domá-lo.
Ou seja, telefonaste-me com a esperança de que o aceite e o dome? - Shaunna sorriu.
Tyler estudou-a uns segundos, depois voltou a sentar-se.
- Devo reconhecer que és mais jovem do que esperava, mas desde que fomos ver o cavalo tenho indagado por aí e todas as pessoas com quem falei me disseram que és
a melhor tratadora de cavalos da região... do estado da Califórnia. Que és capaz de verdad
eiros milagres com eles - ela tentou protestar, mas ele prosseguiu.
- Dizem que tens um dom... que o que fazes é pura magia. A Lanie baptizou o cavalo de Magic, e acho que o desgraçado precisa mesmo de magia.
- Pelo que me contaste, diria que necessita e de muita.
- E onde está não a recebe - afirmou Tyler. - Receio que se o deixarmos lá será pior. No dia a seguir à minha visita e à de Lanie, regressei à cavalariça e falei
com a proprietária. Ela acha que a melhor forma de lidar com o cavalo é fazê-lo passar fo
me até estar tão fraco que não ofereça resistência. Pelo aspecto do cavalo, tem sido isso o que tem estado a fazer - moveu a cabeça. Mas chega. Não farei um animal
passar fome nem ser sujeito a maus tratos, por muito selvagem que seja. Disse-lhe para,
a partir de agora, se certificar de que o Magic recebe a ração inteira e que daqui a uma semana o vou buscar - suspirou e sorriu com tristeza. - Então, aceita-lo?
Pelo que Tyler lhe contara, Shaunna não estava certa de que sabia exactamente onde estava o animal.
tinham-lhe chegado aos ouvidos dezenas de histórias horríveis sobre aquela cavalariça. Na sua opinião, o lugar devia ser encerrado e os donos presos, a pão e água.
Mereciam receber o mesmo tratamento a que submetiam os animais.
Admirava o desejo de Tyler de tirar o cavalo daquela má situação, gostava da firmeza da sua voz e admirava a sua obstinada determinação de a convencer para que o
recebesse nessa tarde, mesmo quando o informara que estaria ocupada. Talvez não soubesse
muito sobre cavalos, mas era evidente que era uma pessoa que se preocupava com os animais. Apesar de isso se reduzir ao problema que se lhe deparava.
- Como disse por telefone, não tenho lugares na cavalariça, e vai ser assim nos próximos dois meses.
- Não posso deixá-lo onde está - disse sem afastar o olhar dela.
- Há outros estábulos em Bakersfield.
- E achas que poderiam tomar conta de um cavalo como este? Poderiam domá-lo ao ponto de Lanie poder conviver com ele? Os últimos seis meses foram muito duros para
ela - continuou. - Primeiro, a perda da mãe e do padrasto, depois o internamento num hos
pital durante um mês e, por último, ter de vir viver comigo... praticamente um estranho. A Lanie... baixou o olhar para o linóleo. Shaunna viu como ele puxava o
cabelo. Voltou a levantar o olhar. - A Lanie está neste momento muito zangada e não nos da
mos muito bem. O médico diz que é a sua reacção perante a dor e, como eu sou a pessoa que ela tem mais próxima, sou o alvo. Não quero ter de lhe dizer que tive de
deixar o cavalo naquele sítio.
- Não, provavelmente não seria uma boa ideia concordou ela. - Se o fizeres, há uma grande probabilidade de que se converta em comida para cães - o que ela não gostava
que acontecesse com nenhum cavalo.
Sentia que entendia a ira da menina. Estando divorciados, não seria invulgar que a mãe transformasse, aos olhos da menina, o ex-marido no mau da fíta. A mãe de Shaunna
falara mal frequentes vezes do seu pai, tanto quando estava em casa como quando est
e foi embora. Em geral, as crianças dirigiam a sua zanga contra o progenitor que abandonava o lar.
No seu caso pessoal, ficara zangada com os dois. Contra a mãe por esta ser a pessoa que era e contra o pai, por a ter abandonado. Talvez não tivesse morrido, mas
era como se isso tivesse acontecido. Desde que fora embora, nunca mais voltara a saber na
da dele. Nenhum postal pelo seu aniversário, no Natal. Nada.
- Pagarei a mais - disse Tyler.
- Se te ajudar - desterrou as lembranças do passado, e não estou a dizer que o vá fazer, não será por dinheiro.
- Uns dinheiros adicionais ajudam sempre - olhou para as facturas por pagar que estavam sobre a mesa.
Era provável, embora desconhecesse a situação exacta das suas finanças. Sabia que ganharia mais se não passasse a vida a resgatar animais que outras pessoas abandonavam.
Cavalos, cães, gatos. Pelo menos se aceitasse o cavalo de Tyler não seria de graç
a.
- Acho que és a única esperança do Magic - acrescentou ele, e o tom suave da sua voz chegou até Shaunna como uma oferta de dinheiro jamais chegaria.
- Terei de ver o cavalo - salientou. -Alguns não têm ajuda possível.
- Só te peço que tentes o sorriso de Tyler alargou-se.
- Se puderes, faz com que a Lanie lhe possa tocar.
- Disseste que o médico afirmou que o cavalo a ajudará tanto emocional como fisicamente. Como está ela de saúde? Pode trabalhar com o cavalo?
- Pode. Coxeia ligeiramente e não recuperou todas as forças, mas o médico acha que montar ajudá-la-á a reforçar os músculos.
- Pelo que me disseste, não poderá montá-lo nos próximos tempos. Mas espero que o veja todos os dias, especialmente no início.
- Se é isso que é preciso, aqui estará. Só te peço que não a faças correr qualquer perigo.
- Quero ver o cavalo e conhecer a tua filha antes de tomar uma decisão.
- Queres conhecer a Lanie? - Shaunna notou um olhar de pânico na expressão dele e teve a impressão de que havia alguma coisa que ele não lhe contara. Ergueu as sobrancelhas
e ele acedeu de imediato. - Está bem. Diz-me quando, e aqui estaremos.
- O que achas se for no sábado? Às dez?
- Óptimo.
Tyler saiu dali com sentimentos opostos. Sabia que assim que Shaunna visse o cavalo de Lanie o mudaria para os seus estábulos. Se o que tinha ouvido dizer sobre
ela era verdade, não iria permitir que o animal passasse mais dois minutos que fossem no e
stado a que estava confinado.
O que o preocupava era apresentar-lhe Lanie. Sabia como se portava a filha com Alice e com ele. O médico comentava que o seu comportamento era a forma que a menina
tinha de pôr o pai à prova.
A batalha era constante e, por vezes, interrogava-se se valia a pena. Lanie estava tão zangada que nada do que ele fazia parecia ajudar.
Mas não podia render-se. Ainda se lembrava dela quando era bebé, como sorria quando lhe pegava ao colo e ela estendia as suas mãozinhas pequenas e gorduchinhas.
Ela amava-o naquela altura. De alguma maneira, teria de encontrar uma forma de atravessar
aquele muro que Lanie e o destino tinham erguido.
Interrogou-se se deveria ter contado a Shaunna toda a
história da fílha. Talvez isso a ajudasse a entender tudo.
Mas nem sequer o revelara a Alice. Só os pais dele sabiam e o médico da pequena. Parecia melhor assim.
De alguma forma, conseguia ultrapassar a ira de Lanie. E talvez o médico tivesse razão. Talvez o cavalo ajudasse; talvez Shaunna Lighfeather ajudasse. Sorriu ao
pensar em Shaunna. Sentira atracção por ela, o que o surpreendeu. Não é que não fosse atra
ente. Com as maçãs do rosto bem desenhadas, o seu tom de pele e os seus olhos invulgares, era uma mulher muito atraente, de uma forma natural. Apelativa. Sexy. Abanou
a cabeça enquanto voltava para Bakersfield. Pensava em disparates. Uma coisa que des
cobrira nos seus trinta e quatro anos era que a atracção física não era suficiente. E pelo que ouvira e vira de Shaunna, sabia que se tratava de uma mulher que não
se encaixava no seu estilo de vida. De forma alguma. Era evidente que não se tratava de
uma empresária. Empilhar facturas sobre a mesa da cozinha não era uma boa prática profissional, e quando lhe mostrou os estábulos depois de aceitar ver o Magic,
Tyler ficou impressionado e consternado ao mesmo tempo. Pela positiva, embora os estábulo
s não escondessem a idade que tinham, tudo estava muito limpo, em bom estado e ordenado. Nenhuma das cavalariças era pequena, escura e horrenda e pela altura do
gradeamento nenhum cavalo, por mais selvagem que fosse, poderia fugir. {
E fora verdadeira ao dizer-lhe que não tinha cavalariças vazias. Ao explicar-lhe que metade dos animais era sua, sendo na sua maioria cavalos abandonados que recolhera,
começou a compreender por que razão tantas facturas na cozinha estavam vencidas e
por que lhe perguntara se conhecia um bom contabilista, que fosse honesto. As suas decisões pareciam norteadas pelas emoções e não pelo senso comercial. Não, não
era uma boa empresária. Embora para o seu ego tivesse sido agradável perceber que ela o a
chara atraente. Pelo menos os seus gestos levaram-no a pensar isso. Era a única explicação que encontrara para explicar o que acontecera quando ela, por acidente,
embateu nele ao virar-se e o seu traseiro tocou nas suas ancas.
Ficou agitada e afastou-se como se tivesse tocado num ferro em brasa. Também corou. Achou o comportamento dela atraente. Há muito tempo que não via uma mulher corar.
Atraente, mas sem importância. Afinal, o que tinham eles em comum? Ela adorava animais e tinha animais por todo o lado: cães, gatos, cavalos e vacas. Tinha até uma
cria de um pássaro que tinha caído de um ninho. Tyler nunca tivera um animal, à excepçã
o do cão que vivera em sua casa enquanto vivera com a mãe de Lanie.
Ele tinha uma grande colecção de CDs de música clássica. Shaunna ouvia música country. Ouvia-a na rádio, cujo som
se podia ouvir na casa e nos estábulos. E imaginava-a num jantar de negócios. Provavelmente atordoaria os clientes com a sua franqueza. Ele ficara encabulado quando
ela falara da castração de um cavalo jovem. E acima de tudo ficou sobressaltado com os
gestos dela. Não deixara nada à imaginação. Sentiu inclusivamente vontade de lhe fechar os joelhos.
Não, não tinham nada em comum.
À excepção, talvez, de um pouco de química.
Sorriu e entrou na auto-estrada. Talvez Shaunna se tivesse apercebido disso. Talvez por isso lhe falara da castração do potro, como advertência. Bem, não precisava
de se preocupar. Não pensava começar nada. Podia esquecer a química. Há anos que o fazi
a.
- Aceita unicamente o cavalo - disse em voz baixa.
- E a Lanie - acrescentou.
***
Capítulo 2.

Tyler e a filha chegaram às dez em ponto na manhã de sábado. Shaunna observou-os a sair do carro. Ele: ia vestido de maneira menos formal do que da primeira vez
que o vira, com calças caqui, uma camisa castanha e sapatos desportivos da mesma cor. Pare
cia saído de uma revista masculina, e imaginou como ficaria a sua roupa depois de trabalhar uma hora com cavalos.
A filha ia vestida de forma mais apropriada: calças e camisa de ganga e botas. Tinha as pernas tão altas como um potro, era pálida e magra, e o seu cabelo castanho-avermelhado
não tinha brilho. De certa forma, Lanie lembrava o potro selvagem de que ir
iam falar. Os dois revelavam efeitos de um trauma.
A pequena coxeou ligeiramente ao dirigir-se a Shaunna, e esta pôde ver que a menina tinha uma cicatriz na testa, que desaparecia na irregular separação das tranças.
Ficou intrigada por se parecer tão pouco ao pai. Ambos tinham olhos azuis, é verdade, mas o contorno dos rostos era diferente, bem como a cor do cabelo e toda a
estrutura do corpo.
Outras coisas despertaram ainda a sua curiosidade. Pai e filha mantinham alguma distância entre eles, não se tocavam nem se olhavam. Os dois contemplavam-na a ela,
cada um com uma expressão diferente.
A de Lanie era defensiva... quase de desafio. Mantinha as costas direitas, o queixo erguido e os olhos semi-cerrados.
A menina julgava e avaliava os seus méritos. Parecia pronta para a batalha.
A expressão de Tyler era diferente. Revelava preocupação. Suplicava-lhe, em silêncio, embora Shaunna achasse que ele não tinha consciência disso. Se ela fosse uma
pessoa menos escrupulosa, essa circunstância tinha-lhe dado uma vantagem. Estava desespe
rado por receber ajuda.
Depois de ter ido ver o cavalo selvagem, percebia-o bem.
- Bom dia - cumprimentou quando os dois se aproximaram.
- Bom dia - respondeu Tyler. A filha não disse nada, embora tivesse semicerrado os olhos um pouco mais. Deteve-se a poucos passos de Shaunna e olhou para a menina.
- Lanie, esta é a Shaunna Lighfeather, a tratadora de cavalos de que te falei.
- Prazer em conhecer-te, Lanie - estendeu a mão.
- Não quero que o Magic fique aqui - Lanie ignorou a mão e olhou para Tyler. - Quero que fique comigo.
- Já te expliquei - olhou para Shaunna com uma expressão de desculpa. - Não podemos guardar um cavalo onde vivemos.
- Mas onde vivia a minha mãe tínhamos um - argumentou Lanie.
- Isso era diferente. A tua mãe vivia fora da cidade. A minha casa é na cidade e a polícia não permite a presença de cavalos.
- Por que não posso ir viver onde vivia?
A voz da criança era tensa, e Shaunna percebeu que estava quase a chorar. Tyler tentou acalmá-la.
- Querida, já falámos disso. Essa casa foi vendida.
- Não sou a tua querida - atirou Lanie. - Não devias tê-la vendido. Podia viver ali sozinha e cuidar do Magic
- dirigiu a sua atenção para Shaunna. - O Magic nunca devia ter sido levado para esse estábulo.
- Não, é verdade - concordou ela.
Por momentos, Lanie observou-a surpreendida pela sua resposta. Depois a criança olhou em redor, detendo o seu olhar no picadeiro redondo, nas zonas cercadas para
exercício, nos estábulos, nas cavalariças e na casa. Quando voltou a contemplar Shaunna,
fê-lo com uma atitude claramente arrogante.
- Este sítio é uma porcaria.
- Vinham a calhar umas obras - concordou Shaunna.
- Tens uns duzentos mil dólares que me emprestes?
A menina semicerrou de novo os olhos e levantou o queixo; Shaunna soube que não tinha adoptado a abordagem correcta. Trabalhar com cavalos era muito mais fácil.
Lanie informava-a de que não era feliz com a sua actual situação. O problema estava na dif
iculdade em recuperar o passado. Experimentou outra abordagem.
- Pelo que percebo tinhas um lugar bonito para ter o Magic.
- Ele era feliz lá.
Na sua linguagem corporal dizia "Eu era feliz lá". Shaunna olhou para Tyler.
- Se a tua filha não quer que o cavalo fique aqui, não vai resultar.
- Não posso deixá-lo onde está.
- Tornou-se mau - interveio Lanie. - Nunca tinha acontecido. Gostava de mim - olhou com olhos acusadores para o pai. - Tu puseste-o lá.
- Não sabia - disse Tyler, olhando depois para Shaunna e repetiu o pedido de desculpas. - Nunca teria consentido se soubesse o que iriam fazer com ele.
Não podia culpá-lo. Reconhecera que nada sabia de cavalos.
- Viste-o? - perguntou Tyler.
Sim, e, pelos vistos, ficara boquiaberta. Baixou o olhar para Lanie.
- O que pensaste quando o viste?
- Fiquei doente.
- Eu também - admitiu Shaunna. - Por isso trouxe-o para aqui.
- Está aqui? - os olhos da menina iluminaram-se pela primeira vez. O Magic está aqui? voltou a olhar à sua volta e a luz desapareceu dos seus olhos ao franzir o
nariz. - Nesta pocilga?
- Ali - Shaunna ignorou o insulto e com um sinal de cabeça indicou o estábulo grande. - A última cavalariça à direita - e acrescentou, quando a menina se dirigiu
nessa direcção, - ainda está inquieto. Não entres na cavalariça. Fala só com ele do lado
de fora.
- É o meu cavalo e farei o que quiser replicou Lanie.
- Mesmo que com isso o percas para sempre? a menina deteve-se e observou-a. - Se entrares e o Magic te fizer mal, o teu pai é obrigado a telefonar para o Departamento
da Direcção Territorial para que o levem. No estado em que está agora, terão de o sa
crificar. Não é isso que queres, pois não?
- O Magic não me faria mal - insistiu Lanie, mas Shaunna pôde ver que não estava muito convencida. Soube ainda que se Lanie amasse o cavalo, agiria correctamente.
A menina deu meia volta e começou a andar até ao estábulo.
Shaunna olhou para Tyler e este abanou a cabeça.
- Desculpa - disse. - Receava que fosse assim. Está tão revoltada com tudo.
- Então é muito parecida com o cavalo. Acho melhor irmos atrás dela.
- Vamos - Tyler queria ver outra vez o animal e não tinha a certeza de que Lanie ficasse do lado de fora da cavalariça.
- Espero que não te importes por o ter trazido sem te dizer nada a esse respeito - comentou enquanto caminhavam juntos. - Não podia deixá-lo onde estava.
Custa a acreditar que tenhas conseguido. Da última vez que o vi parecia pronto a atacar e a comer vivos todos os seres humanos.
Não foi fácil, mas conseguimos.
- Há dois dias disseste-me que não tinhas um sítio para ele.
- Transferi um dos meus cavalos - encolheu os ombros. - Em breve ficará bem.
Os dois pararam à entrada do estábulo. De onde estava, Tyler podia ver Lanie, que já chegara à cavalariça e, para seu alívio, estava de pé sobre uma caixa no exterior.
- Isto só funciona se ela cooperar - indicou Shaunna em voz baixa. - Se vai ser o cavalo dela, terá de voltar a confiar nela. O animal não sabe o que aconteceu,
ignora que Lanie teve um acidente e que ficou ferida. Apenas sabe que o levaram de um luga
r onde recebia carinho e bons tratos para o inferno. Foi traumático para ele terem-no capturado em estado selvagem. Agora teve duas experiências semelhantes: tiraram-no
de um sítio onde era feliz. Aprendeu a desconfiar dos homens, e recuperar a sua co
nfiança não vai ser fácil. Lanie tem de compreender isso.
- Falarei com ela - indicou Tyler, embora não soubesse se isso ajudaria.
Entraram no largo passeio de cimento. Estavam franqueados por cavalariças e pelo cheiro a cavalos, insecticida, defecação recente e couro. A única luz era a que
entrava pelas portas abertas em cada extremo e pelas janelas das cavalariças. Ele viu que
no tecto estavam colocados ventiladores e luzes fluorescentes, ainda que apagadas nesse momento. Ao aproximar-se da última cavalariça ouviram a voz de Lanie.
- Magic! O que te fizeram? - não parava de o repetir, e Tyler sentiu o coração apertado.
Ela tinha razão. Ele era o responsável por ter levado
o cavalo para aquele estábulo. Sentiu a mão de Shaunna no seu braço, um contacto ligeiro e tranquilizador.
- Não sabias - sussurrou; Tyler olhou-a.
Era quase da sua estatura e nesse momento trazia o cabelo preso numa só trança que lhe caía entre as omoplatas. Trazia também uma pena no cabelo, só uma, e na fraca
luz do estábulo a sua pele parecia mais escura.
Pensara nela com frequência desde a última vez que a vira. De certa forma, a sua imagem não desaparecera da sua mente. Imagens que o excitavam, como o contacto com
a sua mão e o som da sua voz grave, que faziam o seu coração disparar.
- Olha! Aqui não está melhor. Este lugar não é melhor do que o outro acusou Lanie, e a atenção de Tyler regressou à sua filha.
- As coisas podem parecer iguais - indicou Shaunna com voz calma e apaziguadora ao aproximar-se de Lanie. - Mas aqui está melhor. É preciso tempo.
Tyler também se aproximou para dar uma vista de olhos e o que viu deixou-o doente.
O cavalo estava encostado à parede do fundo, olhando-os com uma expressão selvagem. Podia ver as suas costelas como uma lembrança da solução da proprietária do outro
estábulo para lidar com cavalos problemáticos. O que outrora fora uma bela pelagem ca
stanha dourada, era agora uma coisa áspera, suja e de um tom avermelhado apagado; nalgumas partes faltava-lhe pêlo e noutras, de tão sujo que estava de estrume,
o pêlo formava nós endurecidos. A marca no seu pescoço, que o identificava como cavalo sel
vagem, mal se distinguia debaixo da sujidade, e a sua crina e a cauda negras eram uma madeixa revolta. A falta de limpeza tinha transformado a estrela branca que
exibia na frente e as manchas brancas das patas dianteiras eram agora acastanhadas e o ch
eiro era desagradável mesmo à distância.
- Ontem a única coisa que fizemos foi transportá-lo
para aqui e instalá-lo na cavalariça explicou! Shaunna, mais para Lanie do que para ele. - Hoje quero que se habitue aos cheiros e sons da sua nova residência, amanhã
abriremos a porta para que possa sair - assinalou a parte esquerda da cavalariça, on
de havia uma porta. - Todas as minhas cavalariças têm acesso directo a um picadeiro. Achei que esta cavalariça era a melhor para ele, foi construída para reprodutores.
Deve poder com ele.
- Foi castrado - disse Lanie, olhando-a como se ela fosse estúpida.
- Sei que foi castrado. E também é um cavalo selvagem, que são muito mais astutos que os que nascem em cativeiro. Até decidir que não somos o inimigo, vamos precisar
de alguma coisa resistente onde possa estar. Caso contrário, terás de procurar o teu
cavalo em todo Bakersfield.
- Na nossa casa nunca tentou fugir - desafiou a menina.
- Isso foi nessa altura, isto é agora - Shaunna não perdeu a paciência. - No outro estábulo descobriu que podia sair, por isso meteram-no numa cavalariça o tempo
todo. Devemos mostrar-lhe que não pode fugir.
- Quero tocar-lhe, acariciá-lo - Lanie meteu a mão entre as grades da cavalariça. - Vem cá, Magic.
- Eu não faria isso - advertiu Shaunna.
- É o meu cavalo - olhou-a com olhos faiscantes. Com a palma da mão bateu na parede da cavalariça para chamar a atenção do animal. - Magic, vem cá.
O cavalo aproximou-se.
De uma investida saltou sobre Lanie, mostrando os dentes e virando as orelhas para trás. O relincho de ira do animal fez com que Tyler sentisse um calafrio, e automaticamente
agarrou na filha para a afastar do perigo. Os dois aterraram no chão de cime
nto, a pequena em cima dele. Ficou sem respiração.
- Destruíste-o! - gritou ela, levantando-se. - Destruíram-no todos vocês!
Olhou para Tyler com ódio nos olhos, depois deu meia volta e saiu a correr do estábulo para a zona de estacionamento. Shaunna observou Tyler levantar-se e limpar
as calças caqui. Viu o pó na parte posterior das calças, mas não disse nada. Queria saber
qual seria a sua reacção.
Ele suspirou e abanou a cabeça enquanto contemplava a filha a sair da cavalariça. Depois encarou-a.
- Bem, até aí chega a ajuda do cavalo para estabelecermos uma relação. De todas as formas, acho que nos está a separar mais - acrescentou com amargura.
- Ela está muito zangada - disse Shaunna.
- A quem o dizes. Age como se eu tivesse a culpa da morte da mãe e do padrasto. Não sei o que fazer. O médico diz que precisa de tempo, mas isso é o que tenho ouvido
nos últimos seis meses, e a situação não melhorou - voltou a suspirar. - É melhor ir
atrás dela.
- No que é que te meteste? - disse para si própria e em voz baixa Shaunna ao ver como Tyler seguia a filha. Depois olhou para o cavalo.
Magic regressara à parede posterior e olhava com olhos cautos. Com o tempo, talvez pudesse ajudar o animal. Não tinha certezas quanto a Tyler e a Lanie.
Antes de ir embora, Tyler estabeleceu um acordo com Shaunna. Como estavam nas férias de Verão e não tinham de se preocupar com a escola, todos os dias nas duas semanas
seguintes, Lanie passaria algum tempo no estábulo a trabalhar na recuperação da rel
ação com Magic. Alguém iria levá-la e ele iria buscá-la depois de sair do trabalho. Não só passaria tempo com o seu cavalo como desempenharia ainda as tarefas que
Shaunna lhe mandasse, para além de ter aulas de montar.
Na segunda-feira Lanie chegou à uma hora da tarde. Shaunna esperava que a menina estivesse contente. Mas deparou-se com uma resistência teimosa. Nem ver o seu cavalo
na cavalariça a ajudou a mudar de atitude.! Quando o animal não respondeu ao chamado
de Lanie,] esta atribuiu a culpa a Shaunna. Tentou explicar-lhe a forma de pensar de Magic, mas a menina não estava preparada para ouvir.
Shaunna deu consigo a tentar perceber tanto a mente da menina como a do cavalo, mas na sexta-feira estava disposta a desistir. O animal adaptava-se bem, embora fosse
evidente que não confiava em ninguém e podia ainda revelar-se bastante perigoso. Já L
anie não reagia da mesma forma. Não importava o que ela dissesse, a menina estava sempre zangada. Shaunna sabia que podia aguentar... afinal, crescera com a constante
acusação de incompetência da parte do seu pai e com as zangas da mãe, mas quando Lan
ie começou a praguejar e decidiu descarregar a sua ira sobre outro potro da cavalariça, Shaunna chegou à conclusão de que as coisas tinham ido longe demais. Pediu
ao capataz que tomasse conta de tudo e levou a menina ao trabalho do pai.
Tyler estava no seu gabinete a ler a nova legislação e tentava encontrar a forma de a aplicar aos seus clientes. Quando o telefone tocou, pegou no auscultador com
um gesto automático.
- Está aqui uma mulher que quer vê-lo - anunciou Eve, a recepcionista da empresa. - Vem com a sua filha e...
Antes de Eve terminar, a porta abriu-se de repente e Lanie irrompeu no escritório.
- Disse que não posso estar ao pé do Magic - gritou a menina. - Que nem sequer posso voltar a pisar na sua propriedade. Quero que saibas que não me importo. É uma
abusadora, é o que ela é!
Tyler olhou-a enquanto ela se aproximava da sua secretária, depois observou Shaunna, que a seguia. Mais adiante, estava Eve, a quem ele fez um gesto com a cabeça,
pedindo-lhe que fechasse a porta. A recepcionista obedeceu com descrição enquanto Lanie
prosseguia o seu discurso.
- Olha para mim! - gritou. - Trata-me como se eu fosse uma porcaria! - Tyler olhou-a. Tinha as calças de ganga e as botas sujas. Até no rosto e no cabelo tinha terra.
E alguma coisa lhe dizia que não era só terra. O cheiro no seu escritório era penetr
ante. - Sou escrava dela - anunciou com dramatismo. - É isso o que planeias fazer comigo? Vais transformar-me numa escrava?
Tyler não sabia o que pensar. A condição física de Lanie indicava que alguma coisa ia mal. Embora tivesse chegado a casa suja nos últimos quatro dias, alguma coisa
indiciava que desta vez as coisas tinham corrido mal.
- Quanto a ela... - continuou a criança, apontando com um dedo para Shaunna, - não está a ajudar o Magic. Não faz nada com ele, deixa apenas que ele ande naquele
picadeiro. Nem o deixa entrar na sua cavalariça, só para comer. E sabes o que me obriga a
fazer? A limpar a cavalariça. Tenho de apanhar a merda dele.
Sublinhou a palavra, e Tyler deu um pulo, perguntando-se se a sua voz seria perceptível fora do seu gabinete. Contemplou Shaunna, à espera de uma explicação, mas
quando o seu olhar pousou no claro e firme olhar, ela apenas concordou. E Lanie ainda nem
tinha terminado.
- Só sabe dar-me ordens. Faz isto. Faz aquilo. Não faças isto. Não faças aquilo. Devo conhecer o meu cavalo, mas quando vou ter tempo para isso? Mantém-me tão ocupada
fazendo outras coisas que não me sobra tempo para o conhecer.
- Diz - dirigiu-se agora a Shaunna, - é verdade?
Espero que cumpra as regras da cavalariça, e espero que faça o que lhe digo quando lhe mando - respondeu calmamente. - E acho que tem mais uma coisa para te contar.
Voltou a olhar para a filha. Ela encarou-o com o olhar colérico. - O que importa o que
possa contar-te? Vais tomar o lado dela, não vais? Devia ter calculado. Não significo] nada para ti. Estás-te a... Empregou uma palavra começada por "c" e nesse
preciso momento a porta abriu-se. O seu patrão, Gordon Fischer, com a cara corada, seguid
o pela sua sobrinha, Alice. Os dois pareciam sobressaltados.
Assim que entraram, Gordon e Alice estudaram a sala, com expressões quase idênticas assim que pousaram a vista sobre Lanie e Shaunna. Tio e sobrinha franziram o
sobrolho.
- O que se passa aqui? - inquiriu Gordon, falando primeiro. - Toda a gente pode ouvir a vossa discussão. E a linguagem...
Tyler sabia que o seu patrão não gostava daquela cena. Era da opinião que uma empresa de contabilidade devia transmitir uma imagem de eficiência calma e de valores
tradicionais. No escritório não tinha discussões familiares nem palavrões.
Alice permaneceu em silêncio, mas notou como olhava para Shaunna. O contraste entre as duas mulheres era mais evidente do que ele imaginara. Alice tinha um fato
vermelho e sapatos de salto alto, o cabelo louro preso com precisão e a maquilhagem, impec
ável. Já Shaunna trazia botas velhas, calças de ganga manchadas, uma camisa de algodão desbotada com uma grande mancha à frente e nenhuma maquilhagem.
Embora Lanie tivesse visto Gordon uma vez quando Tyler lhe mostrou o escritório, e conhecia Alice por esta
a ter visitado no hospital e depois em casa, pensou que era melhor apresentar Shaunna.
- Gordon, Alice, gostaria de vos apresentar...
- Estupendo! - Lanie não o deixou terminar. -Agora vais ser educado, como sempre que a Alice está presente - olhou para esta enquanto falava.
- Lanie... - disse Tyler, com a esperança de que a menina percebesse a mensagem.
A filha olhou-o com um olhar furioso e proferiu uma série de palavras que fariam corar um menino de rua. Depois saiu, chocando com as duas pessoas que se interpuseram
no seu caminho.
- Jamais... - começou Alice, voltando a olhar para a menina de dez anos.
- De facto - comentou Gordon.
- Desculpem - disse Shaunna, - não devia ter vindo incomodar-te no teu trabalho. Vou levá-la a casa - dirigiu-se para a porta e ao passar junto de Alice e de Gordon
cumprimentou-os com um gesto de cabeça.
Tyler viu-a sair e estava demasiado estonteado com tudo que nada lhe disse.
***
Capítulo 3.

Alice olhou para Tyler.
- Quem é essa mulher?
- Shaunna - respondeu, sem saber se também deveria ir atrás da filha. - Shaunna Lighfeather. É a pessoa que vai reabilitar o cavalo de Lanie.
- E o que faziam ela e a tua filha aqui no escritório?
- inquiriu friamente Gordon, numa clara atitude de desaprovação.
- Houve um problema no estábulo - Tyler olhou para os dois. - Não chegaram a explicar-me o que se passou exactamente.
- A mulher tinha um cheiro como se tivesse estado a remexer em estrume - Alice engelhou o nariz. - E a tua filha também. - Descobri que trabalhar com cavalos deixa
um certo cheiro - não havia muito mais a dizer sobre o assunto. - Todos os dias ponho a
roupa de Lanie a lavar assim que a despe.
- Vais ter de fazer alguma coisa sobre a linguagem dessa criança - disse Gordon movendo a cabeça. - Não podemos permitir esse tipo de vocabulário aqui.
- Eu sei - voltou a questionar-se se deveria ir atrás da filha.
- Bem... - Gordon olhou para a sobrinha, depois para Tyler. - Vou deixá-los a sós. Mas certifica-te de que isto não volta a repetir-se, Tyler. Perturba todas as
pessoas na empresa.
- Falarei com Lanie - observou o patrão a sair da
sua sala, sem ter a certeza de gostar de receber uma reprimenda como se fosse um menino mal comportado.
Quando Gordon saiu e fechou a porta, Alice aproximou-se da sua secretária.
- É muito atraente... de uma forma um tanto ou quanto comum.
Tyler reconhecia uma atitude perigosa quando estava diante de uma. Não havia uma resposta segura, pelo que decidiu mentir.
-Acho que se pode dizer que é atraente. Embora não tenha prestado muita atenção sob esse prisma. Preocupei-me mais se ia trabalhar com o cavalo de Lanie.
- É a dona do estábulo onde tens o cavalo de Lanie?
- É. Ou melhor, acho que é - ainda não sabia onde Alice queria chegar.
- É um estábulo grande?
- Nem por isso. Acho que tem uns quarenta cavalos. Talvez menos. Não é nada atraente - não era o sítio onde Alice teria o seu cavalo, caso o tivesse.
Ela observou-o durante um longo momento, depois olhou para a porta, como se a imagem de Shaunna tivesse lá ficado gravada.
- Disseste que o seu apelido era Lighfeather? O que é, navajo ou alguma coisa do estilo?
- Na verdade não sei. Alguém me disse que tem uma costela índia.
- É casada? -Não.
O silêncio de Alice foi penetrante e, de repente, Tyler compreendeu que ela estava com ciúmes. Achou isso interessante. Embora saíssem juntos há quase um ano, tivera
sempre a impressão de que ela o mantinha à distância. Era incompreensível. Estava con
sciente de que estava muito acima dele na escala social. E embora gostasse da sua companhia, quase todos os acontecimentos a que assistiam juntos estavam relacionados
com o trabalho. Ele não
procurava amor e romance. Tinha abandonado essa ideia anos atrás. Ainda nem sequer tinham dormido juntos.
Naquela altura da sua vida, concentrava-se unicamente na sua carreira, e, sem dúvida, Alice ajudara-o nesse campo.
Foi a pedido dela que apresentara o seu currículo na empresa do tio dela. E tinha de reconhecer que o apoiara quando soubera o que acontecera a Lanie. Permanecera
muitas horas no hospital com ele, ao lado do leito da menina, e convencera o tio a dar-l
he tempo livre para que ele pudesse passá-lo ao lado da filha. Ainda agora lhe oferecia sugestões sobre como lidar com a menina.
- Pareces saber muito sobre essa tal Shaunna - disse por fím, Alice com um tom frio.
- Apenas o que averiguei quando procurava alguém que pudesse trabalhar o cavalo de Lanie. Não queria mudá-lo de uma situação má para outra situação má. Segundo as
pessoas com quem falei, Shaunna é a melhor tratadora de cavalos da região, talvez até de
todo o país.
Reinou outro momento de silêncio, durante o qual ela não desviou o olhar dele, enquanto passava um dedo pelas unhas pintadas.
- Acho louvável a preocupação que demonstra pela Lanie e pelo cavalo, mas lembra-te de que não gosto de cavalos. Espero que não me peças que te acompanhe a esse
estábulo.
- Nem me passaria semelhante ideia pela cabeça podia imaginar a reacção dela se visse o estábulo e a casa de Shaunna. O apartamento de Alice localizava-se na melhor
parte da cidade; com efeito, o seu pai era proprietário de quase todos os edifícios de
ssa zona, além de ter poços de petróleo e outras terras. A sua casa, que Tyler visitara em várias ocasiões, era uma espécie de palácio. Alice olhou-o e sorriu.
- Apenas queria certificar-me de que estávamos entendidos. Jantamos esta noite? Podias passar pela minha
casa depois do jantar. Gostaria de falar contigo sobre uma coisa. É uma espécie de proposta.
Passado o momento de tensão, voltava a ser quente e aberta, mas Tyler sabia que o jantar estava absolutamente fora de questão.
- Receio não poder. Tenho de saber o que se passou hoje. De facto... - levantou-se -... acho que será melhor ir ver se Shaunna conseguiu apanhar a Lanie.
Shaunna não a tinha conseguido alcançar logo, apenas ao fim de andar um quarteirão. Não sabia onde a menina julgava que ia, mas caminhava com decisão, o defeito
no andar pouco perceptível. Quando a alcançou, adoptou o ritmo da menina.
- Vai-te embora - Lanie não abrandou o passo nem olhou para ela.
- Não posso.
Então deteve-se. Quando levantou o rosto, Shaunna viu as lágrimas que escorriam por ele. Teve vontade de a abraçar, mas sabia que Lanie apenas ofereceria resistência.
Ficou parada, esperando a resposta da criança.
- Odeio-te - disse.
- Eu não.
- Odeio toda a gente. -Isso eu já vi.
- Quero montar o Magic.
- Não podes. Ainda não - viu que mordia o lábio inferior, tentando segurar as lágrimas.
- Nunca deixarás que o monte - afirmou com voz trémula.
- Não depende de mim, mas do Magic. Temos de lhe dar tempo para decidir se deseja ser montado. Devemos deixar que saiba que pode confiar em nós.
- O Magic confiava em mim. Era doce e carinhoso antes do acidente. Vocês é que o estragaram.
- Não me incluas nesse "vocês". Eu não lhe fiz mal. Tu é que não me mostraste que não te faz mal. Olha o que se passou hoje. Mesmo ao lado da cavalariça do Magic,
envolveste-te numa briga com o Bobby. - Disse que o meu cavalo era feio. - E tinhas de o
empurrar para cima do monte de estrume? - Ele também me empurrou. - E isso aprova o teu comportamento? - Lanie olhou-a cheia de cólera e com a respiração entrecortada.!
- O que acontece se o Magic não fizer aquilo que tu queres? Empurra-lo? Castiga-lo? - viu que a sugestão deixava a menina surpreendida.
- Eu não faria mal ao Magic.
- Como posso ter a certeza?
- Porque gosto dele.
Falar é fácil - lembrou-se quantas vezes o seu pai lhe dissera que gostava dela. Mas quando ela fazia alguma coisa de que não gostava, como ter uma má nota num teste
da escola, batia-lhe.
- Falo a sério - insistiu Lanie.
- Se gostas dele, então terás de tratar dele. Vais dar-lhe tempo para que se habitue ao seu novo meio, a ver-te ao pé dele. Sempre que entrares na sua cavalariça
deixas o teu cheiro. Quero que ele associe esse cheiro a coisas boas. Uma cavalariça limp
a. Comida. Água fresca. Quero que te veja com outros cavalos. E quero que o observes... como age e reage. Quero saber se tens a paciência que é necessária. Caso
contrário, esquece. Não quero ajudar esse cavalo para que tu depois o abandones e lhe faça
s mal.
- Não lhe farei mal - gritou, em tom de desafio, já sem lágrimas. - Gosto dele.
- Agora completámos o círculo. Dizes que gostas dele. Eu não vi nada disso. Vamos - indicou a direcção onde estava estacionada a sua furgoneta. - Vou levar-te a
casa. Pensa no que falámos. Se estás disposta a fazer o
que te pedir, volta amanhã. Se não, diz ao teu pai que procure outro sítio para o Magic.
- Não és justa - Lanie não se mexeu.
- Então o que achas que devia fazer?
- Devias deixar-me falar mais tempo com o Magic disse a menina, por fim.
- Muito bem. Vou fazer isso - por que não? Verificara que Lanie tinha conhecimentos básicos sobre cavalos. E Magic já estava suficientemente calmo para reagir à
menina. - Já estás pronta para ir para casa? começou a caminhar em direcção à camioneta e
esperou que a menina a seguisse.
- E acho que devia levar-lhe cenouras - comentou a pequena caminhando atrás dela. - Sempre gostou de cenouras. Costumava levar-lhe uma sempre que o ia ver.
- Está bem - Shaunna não era partidária de alimentar os animais à mão, mas se Magic estava habituado a receber delicadezas de Lanie, talvez gostasse. - Mas não tentes
dar-lhe tu agora. Até termos a certeza de que se lembra de ti, não quero correr o ri
sco de que te arranque uma mão.
- Não o fará - Shaunna deteve-se e apenas a olhou com as sobrancelhas arqueadas. - Muito bem - aceitou Lanie, incapaz de encará-la. - Não lhe darei. Por enquanto.
Mas um dia vou fazê-lo.
- Um dia.
Tyler deteve-se na entrada do edifício. Mais adiante divisou Shaunna e Lanie. A tratadora abriu a porta de uma furgoneta velha e olhou para a sua filha. Durante
um instante a menina não se mexeu, mas rapidamente deu a volta pela frente do veículo.
Decidiu não intervir. Shaunna parecia estar a dominar a situação. Disse que a levaria a casa. Ia telefonar à vizinha e pedir-lhe-ia que olhasse pela filha até ele
chegar.
Até lá talvez lhe ocorresse uma ideia sobre como lidar com a situação.
Shaunna soltou um suspiro de alívio quando Lanie colocou o cinto de segurança no assento do passageiro - Quando te deram o Magic, como era ele? - perguntou como
por acaso. - O que fazias com ele? Enquanto se dirigiam para a zona de Bakersfield onde Ty
ler e a filha viviam, esta descreveu como ela e a mãe tinham escolhido Magic de entre todos os potros dados para adopção, como o tinham levado para o estábulo que
havia atrás da casa delas e como a mãe contratara uma pessoa para o domar. Shaunna abano
u a cabeça quando a menina lhe contou como o homem o atara a um poste para lhe bater e como lhe atara uma pata traseira para não dar coices quando o arrearam. -
Eu não domo dessa forma - disse quando a menina acabou o seu relato. - Quero que o animal
coopere, não quero que se submeta.
- A minha mãe disse... - começou a dizer Lanie.
- Não falemos da tua mãe - interrompeu ela, - mas de mim... de mim, de Magic e de ti - travou em frente à morada que Tyler lhe dera ao assinar os papéis para o alojamento
do animal. - Vives aqui?
- A minha mãe domou o Magic da forma correcta insistiu Lanie com expressão fria depois de olhar para a casa.
- A tua mãe provavelmente domou o Magic da maneira que conhecia. Muitos cavalos foram domados dessa forma. Mas há muitos treinadores que não a consideram correcta
nem acreditam em obrigar o animal à submissão. Eu sou uma delas. Não os consideramos est
úpidos nem o inimigo. Achamos que um cavalo será companheiro do dono se este permitir... e se entender o que o cavalo lhe quer dizer.
- A minha mãe domou o cavalo da forma correcta repetiu em tom de desafio.
Shaunna abanou a cabeça, sem saber o que fazer para que a menina a entendesse sem a irritar ainda mais.
- Não sei o que a tua mãe fez nem o que te ensinou. Apenas sei que não acho bem castigar um cavalo quando ele comete um erro. Se o treinares desse modo, talvez te
obedeça, mas na verdade não trabalha contigo, e nunca saberás quando se rebelará. Tens d
e jogar sempre à defesa com ele. Da forma como eu faço, o cavalo faz o que quer porque é ele que escolhe.
- A minha mãe sabia mais de cavalos do que tu alguma vez chegarás a saber.
Desejou saber como eliminar a ira da criança. Lembrou-se de si própria quando era adolescente, depois de fugir de casa. Ficara enfurecida, pronta para conquistar
o mundo. O que Lanie tinha não era nada comparado com o que ela sentira. Fora Betsy Helma
n quem encontrara paciência para erradicar essa cólera.
- À tua mãe não está cá - disse com suavidade, consciente de que as palavras doíam. - E o Magic necessita de ajuda. Depende de ti. Tu é que tens de decidir o que
fazer. Pensa nele esta noite. Se não queres fazer à minha maneira, pede ao teu pai que pr
ocure outra pessoa para trabalhar com o Magic.
- Pois sim - bufou desgostosa a menina. - Como se se importasse comigo.
- Importa-se, sim sabia que era verdade. Viu-o antes de entrar para a furgoneta, de pé na entrada do edifício onde trabalhava. Importava-se ao ponto de deixar que
Lanie solucionasse a situação. Isso agradou-lhe. Lanie praguejou e ela arqueou as sobran
celhas. Outra coisa. Não permito que ninguém diga asneiras nos meus estábulos. Não quero voltar a ouvir-te - Lanie voltou a praguejar e Shaunna apontou-lhe a porta
da furgoneta. São horas de ires para casa. Pensa no que te disse. És
uma rapariga inteligente. Muito inteligente. Sei que tomarás a decisão acertada. Lanie começou a praguejar de novo, abriu a porta e saiu. Atirou com a porta e subiu
pela entrada dos carros para casa. Shaunna viu uma mulher sair da casa do lado e dirig
ir-se para a de Tyler. Lanie voltou-se para ela e praguejou de novo. Shaunna abanou a cabeça e arrancou. O barulho do tubo de escape lembrou-a de que necessitava
de ir com o carro à oficina. Mas precisava de calcular se tinha dinheiro no banco, e aí r
esidia o problema. Punha-se o sol quando Tyler entrou no pátio do estábulo. Demorara mais do que previra em deixar Lanie. No estacionamento estavam três veículos.
Deixou o seu ao lado de um monovolume.
A sua vizinha concordara em tomar conta da criança enquanto ele ia falar com Shaunna. Ouvira a versão de Lanie da história, amplamente adornada de palavrões. Nesse
momento, queria conhecer a versão de Shaunna.
Foi primeiro a casa. Depois de bater duas vezes, Maria abriu a porta e apontou-lhe os estábulos. Dois cães vieram juntar-se-lhe no caminho, suplicando a sua atenção
sem ladrar. Antes de chegar ao primeiro estábulo, viu um cavalo e um cavaleiro numa da
s zonas de exercício e decidiu ir até lá. Sabia que Shaunna dava aulas de equitação ao entardecer.
Havia três zonas de equitação atrás dos estábulos; um picadeiro pequeno, um campo rectangular e outro picadeiro de tamanho bastante razoável. O cavalo e o cavaleiro
que tinha visto antes estavam agora no maior e assim que os viu, vislumbrou Shaunna. D
eteve-se onde estava, para a observar sem que ela notasse a sua presença.
Desde a primeira vez que a vira tivera consciência da graciosidade dos seus movimentos. Ao vê-la montar,
ficou admirado. Não era uma amazona; formava parte de um todo com o animal. Sentava-se erguida na sela e movia-se em uníssono com cada movimento do cavalo.
O animal virou para a direita, depois para a esquerda e as suas patas traseiras quase não se moviam. Tyler abanou a cabeça com incredulidade ao aperceber-se de que
o cavalo não estava selado. O único sinal de algum mecanismo de controlo era uma corda
que estava pendurada no pescoço do animal, mas ela não lhe tocava.
O animal começou a corrida, deteve-se logo a seguir, levantando uma poeirada atrás de si. Voltou a virar à esquerda, à direita.
Não sabia como, mas Shaunna comunicava com o cavalo. Recordou-se das histórias que ouviu quando averiguava sobre uma pessoa que pudesse ocupar-se de Magic. Quando
ouviam a sua história, todos os proprietários de estábulos o informavam que a pessoa de
que necessitava era Shaunna Lighfeather. Quase com pavor reverencial, disseram-lhe que falava com os cavalos e que eles a entendiam.
Tyler começava a acreditar que era verdade.
- Mãos ao ar - soou uma voz atrás de si.
Tyler virou-se e viu um menino de cerca de seis anos. Empunhava uma pistola de água.
- Jeffrey Arnold Prescott! - chamou com severidade uma mulher da porta do estábulo.
O menino olhou para o estábulo. Tyler também. Em direcção a eles aproximava-se uma mulher de trinta e POUCOS anos, vestida com roupa de lavoura. Estendeu a mão ao
aproximar-se.
- O que te disse sobre esta pistola, Jeffrey? Dá-ma.
- Não ia disparar - a criança escondeu a arma nas costas.
- Dá-ma - repetiu a mãe com firmeza. Durante uns instantes, Tyler não acreditou que a criança obedecesse, mas tirou a mão e agarrou na pistola para que a mulher
a segurasse. A mulher abanou a cabeça na sua direcção e depois olhou para Tyler. - Desculpe.
- Tudo bem - depois do que acontecera nesse dia, ser refém de uma criança de seis anos parecia o mais adequado. - Começo a descobrir que as crianças nem sempre obedecem.
- A quem o diz voltou a abanar a cabeça e estendeu a mão. - Desculpe, sou Chris Prescott. Acho que já o vi algumas vezes. Tem uma filha, não é? Lana ou qualquer
coisa assim?
- Lanie - corrigiu e apertou-lhe a mão. Chamo-me Tyler Corwin.
- Prazer em conhecê-lo, Tyler. É uma pena o que aconteceu com o vosso cavalo, mas não se preocupe. Shaunna vai recuperá-lo. É capaz de fazer o que quiser com um
cavalo - olhou para além dele. - Não é verdade, Shaunna?
- Logo veremos - respondeu esta.
Tyler voltou-se e viu que ela tinha saído do picadeiro e estava montada a um metro dele.
- Eu e o Jeffrey vamos andando - disse Chris. - São horas de ir dormir. Deixei o Flash a pastar.
- Como foi a noite passada? - perguntou Shaunna, sacudindo com uma das mãos uma mosca que tinha pousado no pescoço do seu cavalo.
- Muito bem. Experimentei o truque que me ensinaste para mudar de direcção e funcionou. Começa a aprender.
- A mim também me correu bem - disse Jeffrey olhando para Shaunna.
- Sim? Ainda bem - sem esforço, levantou uma perna por cima do lombo do animal e deixou-se deslizar até ao chão. Só então segurou na corda que o cavalo tinha ao
pescoço.
- Até amanhã - repetiu a criança, saindo com a mãe. Shaunna contemplou-os por instantes, depois olhou
para Tyler e sorriu.
- Estava à tua espera.
***
Capítulo 4.

- Pensei em vir cá ouvir a tua versão da história disse Tyler.
- Parece-me justo - Shaunna passou uma mão pelo pescoço do animal. - O Tchi tem calor. Importas-te se caminharmos à volta do picadeiro enquanto falamos?
- Por mim, tudo bem - respondeu, depois de olhar para o picadeiro cheio de pó, para os seus sapatos e para as suas calças.
- Vais ter de começar a andar de botas por aqui qualquer coisa que não o deixasse tão atraente. Não esperara sentir o coração dar um pulo quando o vira falar com
Chris e o filho desta. Precisou de uma boa dose de autocontrole para agir com naturalidad
e enquanto caminhavam juntos em direcção ao picadeiro.
O cavalo seguiu-a, tal como ela sabia que o animal faria. Não tinha a certeza era se Tyler o faria. Estaria zangado? Iria dizer-lhe que não pensava deixar o Magic
muito mais tempo ali? Os cavalos eram muito mais transparentes do que as pessoas; além d
e que não lhe interferiam nas hormonas.
- O que te contou a Lanie? - perguntou, esperando qualquer coisa da menina.
- Que lhe disseste que o Magic tinha de ir embora.
- Não foi exactamente isso que eu disse - embora fosse o melhor... pelo menos para seu próprio bem. Disse-lhe que dependia dela. Se ficar, tem de seguir as minhas
regras. Se não for capaz de o fazer, tem de ir embora.
Tyler ia à sua esquerda; encontrava-se tão proximo! que pôde ouvi-lo respirar fundo e soltar o ar devagar, Não sabia como ia responder, pelo que permaneceu em silêncio,
com a mente entre a consciência que tinha da sua presença e a preocupação pela fil
ha e pelo cavalo. - Deste-lhe uma lição - disse ele por fim, - mas o cavalo não tem outro sítio para onde ir. Antes de vir cá pela primeira vez, falei com muitos
donos de estábulos. Ninguém quis ficar com ele. Não da forma como ele se encontra. Todos
me disseram que devia falar contigo. Se o Magic sair daqui será para ir para o Departamento da Divisão Territorial. E daí, muito provavelmente, para o sacrifício.
- A Lanie compreende as consequências se não deixar cá o cavalo?
Eu disse-lhe - abanou a cabeça. - Não sei. Está tão zangada que não sei se é capaz de pensar.
- Como era ela antes do acidente, antes da morte da mãe e do padrasto?
- Antes do acidente? - repetiu ele, permanecendo depois em silêncio.
A linguagem corporal de Tyler mostrou-lhe que a pergunta o tinha incomodado. Não insistiu. Começava a descobrir que ele era um homem que pensava antes de falar.
Isso agradava-lhe. E também sabia ouvir, o que era uma qualidade rara.
Para ser sincero - respondeu, não sei como era. Antes do acidente não tinha contacto com ela. Até à noite em que a polícia me telefonou para me dizer que a minha
ex-mulher tinha morrido e que Lanie estava no hospital lutando contra a morte, não a via
desde os seis meses de idade.
- Não viste a tua filha durante nove anos? - estupefacta, Shaunna parou, e o cavalo imitou-a; não era a resposta que esperara.
Olhou-a, depois fixou o olhar na sua frente.
- Houve circunstâncias atenuantes.
O Tchi empurrou-lhe o ombro, e ela lembrou-se que devia continuar a andar. Deu uma palmadinha no animal e começou a andar de novo.
- Que tipo de circunstâncias atenuantes? A tua ex-mulher tinha alguma ordem de restrição contra ti ou alguma coisa do género?
- Não, nada disso. Se assim fosse, não me teriam dado a guarda de Lanie.
- Por outras palavras, divorciaste-te e desapareceste da vida da tua filha. Como pudeste fazer isso?
- Como te disse, houve circunstâncias atenuantes. A Lanie... - ergueu o olhar para o céu, depois voltou a encará-la. - Desculpa. Não... não me apetece falar disso.
- Não podes falar? Abandonas a tua filha e não podes falar disso? Meu Deus, como são os homens nunca os entenderia.
- A única coisa que posso dizer é que a minha decisão de me afastar de Lanie nada teve a ver com alguma coisa que eu cometi. A verdade é que nesses seis meses em
que eu e a Bárbara decidimos separar-nos eu adorei esse pequeno bebé. Foi... foi uma cois
a que aconteceu, uma coisa que devo encarar pessoalmente.
Apostava que sim. E Lanie também. Não lhe estranhava que Lanie estivesse zangada. Shaunna conhecia bem essa sensação. Mas como já não era possível mudar as coisas,
decidiu concentrar-se no problema actual.
- Então, basicamente não sabes nada de Lanie, além do que descobriste a partir do acidente. É assim?
-É.
- E os avós maternos?
- Morreram. E os pais de George vivem na Carolina do Sul e é raro verem-na. Acho que têm problemas de saúde.
- E a tua ex-mulher não teve mais filhos?
- Não. Não sei porquê. Ou seja, não sei se não queriam
ou se não podiam ter mais. Quanto ao divórcio, foi definitivo, praticamente cortei todo o contacto com a Bárbara.
E com a filha. Independentemente de quais pudessem ter sido as circunstâncias, Shaunna tinha dificuldade em assimilar aquela realidade.
Simpatizava com Tyler. Não, não era exactamente verdade. Achara que simpatizava com ele, mas ao saber que abandonara a filha, mudou de opinião acerca dele. Apenas
restava convencer o seu corpo de que não o achava atraente. Não queria que a sua pressão
sanguínea subisse. Não queria que ele a excitasse. Mas isso era o que acontecia. E isso irritava-a.
Pensava pertencerem ao passado esses dias em que o sorriso ou o contacto de um homem a podiam excitar. Ninguém despertara nela um estímulo sexual durante muito tempo.
O que ela achava óptimo. Para quê sujeitar o coração a uma situação da qual poderia
sair magoada? Essa era a sua filosofia.
Nos seus vinte e oito anos de vida tinha sido abandonada três vezes: pelo pai, depois por Dale e, por último, por esse contabilista que considerara seu amigo. Quatro,
se contasse com o modo como a mãe a tinha tratado. E cinco, se considerasse um aband
ono a morte de Betsy. Para ela, só uma tonta deixaria que a voltassem a abandonar. E Tyler acabava de provar-lhe que era capaz de deixar alguém de quem gostava.
Voltou a parar. Nessa ocasião, notou que o pescoço de Tchi estava fresco.
- Vou levá-lo para o estábulo - disse a Tyler, e dirigiu-se para a cavalariça. - Vem. Ainda temos de decidir um plano de acção para a Lanie.
Tyler concordou. Desejou poder contar-lhe mais sobre Lanie, explicar-lhe as circunstâncias que o tinham levado a afastar-se do bebé que tinha amado. Em retrospectiva,
tinha sido um erro, mas na altura a decisão
parecia ser a correcta. Falar disso agora, em especial quase com uma desconhecida, só poria em perigo a relação, apesar de ser tão ténue, que mantinha com Lanie.
Observou-a a caminhar à frente do cavalo. O peculiar era que, apesar de a conhecer há pouco tempo, não a considerava uma estranha. Desejava a sua compreensão, a
sua aprovação, o que fazia com que se sentisse incomodado.
- Provavelmente não devia ter levado a Lanie ao teu escritório - olhou-o. - Se soubesse como ia reagir, não o teria feito, mas achei que devíamos tratar do assunto
de imediato. Espero não te ter causado nenhum problema. Imagino que era o teu patrão o
homem que entrou no teu gabinete. Ou os teus patrões.
- Um patrão e a sobrinha do patrão.
Shaunna deteve-se a meio do corredor da estrebaria e tirou a corda ao animal.
- A sobrinha do patrão... - repetiu com um sorriso. A Lanie falou dela.
- Tenho a certeza que não em termos simpáticos. Acho que não gosta de Alice.
- Neste momento, parece que a tua filha não gosta de ninguém. O que sente a Alice por ela?
- Acha que sou demasiado permissivo com ela, que devia impor-lhe mais disciplina.
Shaunna tirou a sela do cavalo e, ao fazê-lo, deu um passo atrás. Parecia pesada, e Tyler achou que devia fazer alguma coisa para a ajudar. Aproximou-se e estendeu
os braços para a ajudar.
Os seus dedos tocaram-se. Ligeiramente, e apenas por segundos.
Ela ficou imóvel e olhou-o nos olhos, e ele soube que devia ter deixado as mãos onde estavam. Nesse contacto, nesse segundo... houve alguma coisa entre eles. Foi
como descobrir que se tem o bilhete de lotaria
premiado. Como andar pelo ar. Uma sensação estimulante. E devastadora.
Atordoado, ele afastou as mãos e recuou. Ela nada disse, mas nos seus olhos Tyler viu a mesma confusão e desejo que ele próprio experimentara. Shaunna continuou
a tratar da sela, como se nada se tivesse passado, mas os dois sabiam que alguma coisa tin
ha acontecido. Racional ou não, havia uma atracção entre ambos.
Não o olhou enquanto limpava o suor do animal. Nem sequer o fez quando voltou a falar.
- É muito bonita. Refiro-me à sobrinha do teu patrão a sua voz suou mais rouca do que de costume, hesitante.
- Ela disse o mesmo de ti.
- A brincar.
- Não lembrava-se claramente dos comentários de Alice. - Disse que és muito atraente de uma forma comum - e concordava, em especial naquele momento.
- Pois - e dedicou-se de novo ao cavalo. - Com comum devia querer referir-se à terra. Tanto o teu patrão como ela olharam-me como se eu fosse uma porcaria.
- Foi por causa do cheiro a cavalo - defendeu-os. Era bastante forte.
- Sim - não pareceu convencida. Deixou a esponja no balde e deu outra palmada ao animal, e depois começou de novo a andar. Tyler apercebeu-se de que saía da cavalariça
e achou melhor segui-la. - Falando de cheiros - prosseguiu no exterior, - a Lanie c
ontou-te o que aconteceu?
- Disse que um rapaz a empurrou para cima de um monte de estrume.
- Disse porquê?
- Disse que era provocador.
Shaunna abriu a porta que dava para uma cavalariça e deu ao cavalo uma palmada carinhosa nos quadris. Sem a olhar, o animal trotou em direcção à comida. Voltou a
fechar a porta e olhou para Tyler.
- O Bobby tem mais ou menos a idade de Lanie. É um chato e não tem sensibilidade, mas não é provocador. Chamou feio ao cavalo dela e ela saltou logo em cima dele,
empurrando-o para o monte de estrume que tinha tirado da cavalariça do Magic. O Bobby de
pois pregou-lhe uma rasteira e ela também caiu, por isso é que cheirava tão mal.
- Tu viste? - a história não encaixava com a de Lanie.
- Vi. Foi nesse momento que decidi intervir e foi quando ela decidiu começar a dizer palavrões. Nesse momento achei que devias ser chamado a intervir.
- Não aprendeu essa linguagem comigo - não tinha o hábito de dizer asneiras. Aliás, algumas das palavras que ouvia por vezes a Lanie não as ouvia desde que estivera
na marinha. - Até me perguntei onde terá ela aprendido essas palavras. A Bárbara não d
izia asneiras quando éramos casados. Também não deve ter aprendido com o George nem com os colegas de escola.
- Ao ver a tua expressão quando começou a dizer os palavrões no teu escritório, percebi que não aprendeu contigo. Há quanto tempo os diz?
- Há umas semanas. Parece piorar de dia para dia.
- Talvez porque sabe que não gostas - voltou para o estábulo. Tenho de apagar algumas luzes, depois acabo. Queres entrar em casa e tomar uma limonada ou um chá gelado?
- É uma óptima ideia.
Na realidade, um copo soava melhor. Começava a descobrir que enfrentar uma menina de dez anos podia levar um homem à bebida. E o mesmo acontecia com as emoções que
Shaunna lhe despertava, embora não pensasse em recorrer ao álcool em busca de respostas
.
- Vai pôr-te à prova - disse, caminhando ao seu lado.
- Tal como o Magic nos porá à prova quando começarmos a trabalhar com ele. Aconteceram coisas que não
entendem, e estão em meios novos para eles. Querem conhecer os seus limites, saber o que acontecerá se fizeram alguma coisa - deitou um olhar rápido ao estábulo
para ver se havia alguma coisa fora do sítio. Tranquilizou-se ao ouvir unicamente o som do
s cavalos a comer nas suas cavalariças. Apagou a luz e dirigiu-se para casa. Tyler acompanhou-a em silêncio. Nessa ocasião, isso perturbou-a. Esperava uma resposta
ao seu comentário sobre Lanie, quer a favor quer contra. Quando, por fim, não pôde cont
er-se mais, olhou para ele, que a observava, com um sorriso quente como uma manhã de Verão e demasiado sensual. Ela desviou rapidamente o seu olhar para a frente.
De novo voltou a ter uma sensação estranha e não desejada no estômago.
- O quê? - perguntou, desejando saber quando perdia o controlo das suas emoções.
- A que te referes com "quê"?
Shaunna sabia que ele se ria da sua reacção e agradeceu por estarem às escuras. Ainda assim receou que ele a visse corar. Não era ela. Em geral, não corava, não
se agitava e não ligava nenhuma aos homens.
Salvo na estrebaria, quando a sua mão roçou na dele. Algumas pessoas chamavam a isso reacção química, o que ela achava irritante. Desde que o conhecera, ele confundia
as suas emoções. Devia parar.
- Para onde estás a olhar? - perguntou perante o implacável ardor dos seus olhos.
- Para ti respondeu com suavidade. - Gosto da forma como pensas. Colocas as coisas em perspectiva.
Shaunna não teve qualquer dúvida de que devia pôr as suas reacções em perspectiva. "Mantém a mente na Lanie", disse para consigo própria. "Não penses no Tyler. Pensa
na filha dele". A filha que ele tinha abandonado durante tantos anos.
- Ela precisa da tua ajuda - disse, consciente de um leve tremor na voz.
- E como a posso ajudar? - inquiriu ele. - Essa é a questão.
Shaunna abriu a porta de rede e fez-lhe sinal para que entrasse primeiro. Ela tirou as botas no quarto das botas e armazém de uma forma geral, e depois seguiu-o
até à cozinha e acendeu a luz. Com um gesto indicou a cadeira que podia usar, dirigindo-se
depois à sala. Maria ressonava levemente, sentada na cadeira de balouço. A televisão estava ligada, mas decidiu não a acordar. Ela própria podia dar uma vista de
olhos no frigorífico. Na parte de cima encontrou um jarro, cheirou-o e olhou para Tyler.
- Limonada está bem?
- Óptimo.
Voltava a olhá-la com aqueles olhos quentes. Não queria saber o que pensava. Não queria começar a afogar-se naqueles oceanos azuis. Iniciou um tema que sabia que
a deixaria com os pés bem assentes no chão.
- A Lanie disse-me que há já algum tempo que sais com a Alice.
- Mais ou menos um ano.
- Então é sério - esperava que fosse; assim eliminaria todos os seus problemas, já que jamais, jamais, sairia com o homem de outra mulher.
- Acho que depende da definição que dês a sério. Não saí com ninguém durante esse tempo e gosto dela, mas até hoje teria dito que somos apenas amigos. Hoje apercebi-me
de que tem ciúmes de ti.
- Ciúmes de mim? tirou dois copos do armário. Essa é para rir.
- Porquê? És uma mulher muito atraente. E não negues que sabes disso. Alguma vez na vida deves ter-te olhado ao espelho.
- E vi um nariz muito largo, uma cara demasiado quadrada e olhos de uma cor esquisita.
- Olhos belos - pela forma como a olhava, quase
acreditou. Quase. - E o que me contas de ti? Alguém sério na tua vida?
- Não. Gerir esta estrebaria consome todo o meu tempo e energia. Às vezes não sei se a Betsy foi amável em me deixar este sítio - acabou de servir a limonada e tirou
gelo. - Betsy? (
- Betsy Helman... a primeira proprietária deste lugar. Uma mulher maravilhosa - pousou um copo à" frente dele e o outro no outro extremo da mesa... o mais longe
possível. Precisava de distância e de espaço. - A Betsy ensinou-me tudo o que sei sobre ca
valos... e acerca da vida. Uma coisa que sempre repetia é que a vida está cheia de escolhas... e de consequências. Lanie está perante uma escolha, Tyler. Deves explicar-lhe
exactamente o que acontecerá a Magic se ela não seguir as minhas regras. A dec
isão tem de ser dela, mas deves estar disposto a continuar a vida se ela decidir não mudar de linguagem nem acatar as minhas ordens. O cavalo deverá ir embora daqui.
- Vais obrigar-me a devolvê-lo? - pareceu surpreendido com a sugestão.
A resposta devia ser sim, mas sacrificar Magic para dar uma lição a Lanie parecia demasiado cruel. O cavalo não tinha culpa do que acontecera. Não podia condená-lo
por a humanidade não ter sido amável com ele.
- Não, espero que não o devolvas - suspirou. Nesse caso, um de nós terá de ter uma ideia.
Tyler inclinou-se na cadeira, sem saber como explicar a sensação de felicidade que bulia no seu interior. Talvez se devesse a que não tinha desejado pensar que o
cavalo acabaria os seus dias transformado em alimento para cães. Ou talvez fosse porque a
resposta de Shaunna lhe provara que era uma pessoa carinhosa. Sorriu.
- Tens coração de manteiga.
- Não tenho. O que acontece...
- Tens coração de manteiga - repetiu ele. - Por isso é que tens tantos cavalos, cães e gatos. Preocupas-te com eles. Preocupas-te com o Magic, e também com a Lanie
- e mesmo não sendo rentável para o negócio, ele gostou disso. - É agradável.
- Sim, muito agradável - suspirou e observou o monte de facturas, tocando com a ponta do dedo na primeira delas. - O agradável seria estes fornecedores deixarem
de me enviar facturas.
Tyler viu que o seu copo estava ao lado das facturas. Estendeu o braço para lhe pegar, quando alguns papéis resvalaram e caíram ao chão. Fizeram barulho e ela olhou
nessa direcção. Apenas olhou. Mas isso foi suficiente para que, em vez de fechar a mão
e segurar no copo a mão batesse no seu bordo.
Tudo aconteceu antes de ele poder mexer-se. Numa questão de segundos, o copo virou-se a limonada entornou-se sobre a mesa. O copo rodou até à ponta da mesa. Ambos
tentaram pará-lo, mas nenhum foi suficientemente rápido. Com estrépito, bateu no linóleo
e fez-se em cacos.
- Raios! - exclamou ela; chegou a cadeira para trás e levantou-se.
- Não te mexas - ordenou Tyler, lembrando-se que estava descalça. - Há vidros por todo o lado.
Shaunna moveu-se, mas para se ajoelhar e poder apanhar os fragmentos mais próximos da cadeira e dos seus pés.
- A Maria está na sala. Estava a dormir quando fui espreitar. Se tu...
- Não é preciso acordá-la - olhou à volta da cozinha.
- Tens uma vassoura?
- Há uma e uma pá naquele armário - apontou para uma porta estreita à esquerda.
Encontrou-as, ao lado da esfregona. Com movimentos rápidos apanhou os vidros e secou a limonada do linóleo,
embora o chão ainda estivesse pegajoso ao andar descalça.
Quando terminou, Shaunna voltara a sentar-se. Abanou a cabeça quando ele voltou para a mesa.
- Foi cá um daqueles dias.
- Como te entendo - nas últimas horas fora repreendido pelo patrão, metera-se noutra guerra com Lanie e não conseguia compreender por que o fascinava uma mulher
tão diferente dele. - Vamos, tira essas meias molhadas. Estão empapadas de limonada.
Ela desviou o olhar para os seus pés como se se tivesse esquecido por completo das meias, e inclinou-se para as descalçar. De repente a sua cabeça estava perto da
de Tyler e a boca a escassos centímetros da sua. A seguir, ele não soube explicar o que
aconteceu.
Antes de ter consciência de si, enlaçou a nuca dela e atraiu-a até si. Nesse momento nem pensava no que estava a fazer. Simplesmente reagiu e pousou os lábios nos
de Shaunna.
Beijara tantas mulheres nos seus trinta e quatro anos de vida que não esperava nada de especial. Há muito tempo que decidira que os beijos eram apenas beijos. Alguns
húmidos, outros duros. Lábios que se tocavam. Uma expressão física de um impulso horm
onal. Nada mais.
Nesse instante apercebeu-se de que tinha andado enganado. E quanto! Havia beijos, e beijos. Uns atingem-nos como um murro no estômago, fazem explodir a cabeça e
atingem todo o corpo até contrair os dedos dos pés e a sensibilidade fica à flor da pele.
Beijos que levam uma pessoa a fazer coisas que jamais imaginou que pudesse fazer.
Nem sequer teve consciência de que se tinha erguido, levantando Shaunna. Em nenhum momento perdeu o contacto da sua boca; apenas perdeu o contacto com a realidade.
E quando a juntou ao seu corpo, ficou
surpreendido pela forma como os dois encaixavam bem um no outro.
Tinha o corpo duro. Dolorosamente duro. E não entendia. Durante um ano tinha saído com uma das mulheres mais ricas e bonitas de Bakersfield, e nem uma vez tinha
saído da linha, nem sequer se sentira tentado a ultrapassar os limites impostos por Alice.
Controlo era o seu lema. O controlo ajudara-o a passar pelo divórcio com Bárbara, permitira-lhe afastar-se de Lanie. O controlo trazia ordem à sua vida.
Tinha perdido o controlo.
***
Capítulo 5.

Shaunna sabia que devia parar de beijar Tyler Corwin, devia parar de passar os seus dedos pelo pescoço dele, sentindo a sua textura vibrante. E fá-lo-ia assim que
acabassem as maravilhosas sensações que trespassavam todo o seu corpo e fosse capaz de p
ensar.
No mais profundo do seu ser, sabia que beijá-lo era uma loucura. Estava errado. Não queria envolver-se com nenhum homem. Beijar levava a problemas, agitava as emoções
que deveriam estar adormecidas.
O problema era que beijar Tyler era óptimo. Fazia correr o sangue e despertava os seus centros nervosos. Fazia-a esquecer-se de tudo, menos da sensação das suas
mãos.
E essas mãos estavam em toda a parte, no seu cabelo, acariciando os seus ombros e as costas, juntando as suas ancas com as dele. Não deixava dúvidas a reacção dele
ao beijá-la. Do mesmo modo tinha a certeza de que Tyler podia sentir como os seus mamil
os tinham endurecido. Por isso, puxava a sua camisa, subindo-a. Os mamilos ansiavam o seu contacto, bem como outra parte do seu corpo, mais abaixo.
Era uma loucura. Ali estava ela, beijando um homem na sua cozinha e pensando em fazer amor com ele. Não era o seu estilo. Nem sequer se lembrava da última vez em
que estivera com um homem. Fazer amor não era uma coisa que se fizesse de ânimo leve. Req
ueria estar apaixonada e nunca mais pensara em apaixonar-se.
- Não - disse, surpreendida pela forma como a sua voz lhe soou débil e indecisa.
Ela não era débil nem indecisa. Sabia quem era, de onde vinha e para onde queria ir. Conhecia os seus pontos fortes e as suas debilidades. E não queria envolver-se
com um homem que tinha abandonado a filha.
- Não - repetiu com mais força desta vez. Colocou as mãos contra o peito dele e afastou-o.
Ele largou a camisa dela e olhou-a. Shaunna viu desejo nos olhos dele. Sabia que dependia dela. Se cedesse, ambos perderiam o controlo.
- Não - disse uma vez mais e respirou fundo.
Não tinha medo. De algum modo, sabia que ele não ultrapassaria os limites. O que lhe custava era estabelecer esses limites. A razão exigia uma coisa e o seu corpo
suplicava outra. Ao contemplar o seu rosto soube em que momento ele recuperou a razão. F
echou os olhos e soltou-a. Quando voltou a olhá-la, a culpa substituía o desejo.
- Dês... desculpa - começou. - Normalmente... Não devia ter... Tu... - indicou a cadeira. - E eu... - com um gesto da mão indicou o chão, e ela compreendeu.
- Aconteceu. Esquece - nada mais havia a dizer. Tinham-se aproximado, e esse fora o erro. A química existira desde o princípio. Ignorá-la não conseguira eliminá-la.
Embora ela soubesse que não iam esquecer o que acontecera, teriam, se queriam trabalhar juntos para ajudar Lanie e Magic, de fingir que não existia qualquer atracção
nem desejo físico entre ambos. Era o melhor para todos.
Pelo menos, foi isso que disse a si própria.
Recuou para poder mexer-se sem receio de chocar com ele, depois descalçou as meias com movimentos rápidos.
- Acho que é melhor ir-me embora - comentou Tyler, recuando também. - Fa... falarei com a Lanie de manhã. Como é sábado, não trabalho. Digo-lhe que escolhas
tem de fazer e terá de acreditar que o Magic terá de ir embora se ela não melhorar a sua atitude, mas deixarei que seja ela a decidir. Apareceremos pela manhã ou
então telefono-te.
Shaunna concordou. A única coisa que podia fazer para já era deixar Lanie decidir.
- Diz-lhe que falaste comigo esta noite e que me convenceste a deixá-la montar amanhã. Ia mesmo deixá-la montar, mas talvez seja melhor pensar que foste tu quem
conseguiu isso. Diz-lhe que será num dos cavalos da estrebaria para eu poder ver como é qu
e ela monta.
- Acho bem. Vou fazer de bonzinho.
- E eu de má. Por que não? Desde que funcione.
No sábado de manhã Shaunna deu as lições habituais, com cavaleiros que iam dos seis anos até aos sessenta, com caloiros e especialistas. Tentou não pensar em Tyler
nem em Lanie, mas cada carro que estacionava obrigava-a a olhar na sua direcção. Cada v
ez que o telefone tocava, sobressaltava-se, esperando ouvir Maria ou Todd, o seu capataz, pronunciar o seu nome.
Tyler não telefonou e era quase meio dia quando pai e filha chegaram. Shaunna suspirou de alívio ao ver a pequena sentada a seu lado. Ao sair do carro, obrigou-se
a concentrar-se nos alunos que davam voltas no campo intermédio; no entanto, viu que Lan
ie se dirigia à cavalariça de Magic com um molho de cenouras na mão. Esperou que Tyler a vigiasse bem.
Nos últimos sete dias Magic tinha acalmado muito, em especial depois de ter passado pelas fases de prova e descobrimento de que não podia sair do picadeiro e que
não iam fechá-lo mais de umas horas na cavalariça. Shaunna comprazia-se com o seu progres
so, mas não sabia como reagiria perante cenouras numa mão. O
cavalo tinha aprendido que as mãos seguravam paus e chicotes. As mãos significavam dor, e não prazer.
Assim que pôde, deu a aula por terminada.
- Refresquem os cavalos e digam-lhes que fizeram um bom trabalho - disse aos alunos.
Assim que verificou que os animais relaxavam o pescoço e todo o corpo em geral, soube que tudo estava bem. Podia deixá-los, pelo menos durante um bocado, para ir
ver Lanie.
Tyler viu Shaunna dirigir-se para eles. Nesse instante lembrou-se da noite anterior. Como ela era suave quando estava nos seus braços. Que quente e viva! A lembrança
incendiou-lhe o corpo, provocando uma reacção imediata que não desejava. Toda a noite
tentara entender o que acontecera na cozinha de Shaunna. Não fazia sentido. Se era para se excitar, por que não se excitava com Alice? Porquê escolher alguém tão
diferente se já saía com uma mulher? Que loucura se tinha apoderado dele naquela cozinha
? Não desejava um caos emocional. Era um homem de débito e crédito, ordenado. Nada fora do seu sítio.
Olhou para Lanie. Há cinco minutos que segurava numa cenoura tentando que Magic a comesse. Mas o animal olhava-a com suspeita no meio da cavalariça. Com expressão
desafiadora, Lanie olhou para Shaunna.
- Não quer vir.
- Mas observa-te, escuta-te. Isso é bom. Olha como as orelhas estão viradas para ti.
- Mas não se aproxima mais - a menina franziu o sobrolho. - Foi até ali e parou.
- Pelo menos não saltou sobre ti nem tentou atacar-te. É o mais próximo que esteve de alguém por sua livre vontade.
- A sério? - Lanie voltou a olhar para Shaunna.
- A sério. Eu não consegui que se aproximasse tanto de mim.
- Gosta de mim - disse a menina. - Por isso aproximou-se mais.
- Está a lembrar-se - indicou Shaunna. - Tens de lhe dar tempo - indicou-lhe a cenoura na mão de Lanie. Deixa-a dentro da cavalariça e vai-te embora. Vamos todos.
Terá oportunidade de se aproximar e cheirá-la. Acho que a comerá e quando voltares, apos
to que se vai aproximar mais. Se continuares a tentar, o mais provável é que se aproxime de ti, porque se lembrará que és simpática com ele. É só preciso tempo.
Lanie contemplou a cenoura na sua mão e depois observou o cavalo. Por fim, deixou-a no chão e afastou-se.
- O Tyler disse-me que eu podia montar hoje.
Ele viu que ela ainda não lhe chamava "papá" ou "pai" e que falara em tom de desafio, esperando que Shaunna descordasse. Viu que ela sorria.
- Convenceu-me de que eras capaz de fazê-lo, por isso vamos experimentar. Ocupa-te da cavalariça e da água do Magic; assim que acabar a aula de equitação, vou selar
o Bangs. Podes montá-lo na minha aula da uma hora.
Tyler estava junto à cerca olhando os cinco cavalos com os seus cavaleiros dar voltas ao picadeiro, com Shaunna no centro. Congratulava-se pelo facto de Lanie poder
montar. A menina até sorriu quando Shaunna a elogiou por saber manejar bem as rédeas,
mostrando aos outros quatro como ela não puxava a boca do animal. Aquela mulher devia ter ido para psicóloga. Quanto mais olhava para Shaunna, mais cativante a achava.
Podia não ser uma boa empresária, mas sabia, sem dúvida, lidar com cavalos. Era um
contraste total com Alice, que tinha um ataque se uma unha se partia e
reconhecia que gastava demasiado dinheiro em roupa. Numa ocasião dissera-lhe que, para estar bem, devia comprar o melhor. Mas Shaunna era natural e nada pretensiosa.
Desviou o olhar quando se apercebeu que o seu corpo voltava a reagir.
Para ser sincero, a situação era ridícula. Nada tinha em comum com ela, à parte de ela ser a instrutora de equitação de Lanie e constituir a esperança da sobrevivência
de Magic. Ele não entendia nada de cavalos, e era evidente que ela desconhecia tudo
sobre contabilidade.
Fazia-o perder o controlo, e isso não lhe agradava.
Respirou fundo e tentou esvaziar a mente. O engraçado era que a única coisa que gostava na Alice era a forma sensata de encarar a vida. Não fazia nada por impulso.
Mantinha o controlo. Respirou fundo.
Controlar aquele beijo da noite anterior fora impossível. Não tinha pensado, tinha agido... e depois reagido. Em segundos, sentiu-se dominado pelo fogo. Mas este
queimava e deixava cicatrizes. Bárbara já o tinha queimado. Tinha-a amado, e pensara que
o sentimento era recíproco. Mas em breve descobriu a verdade.
Nunca mais voltaria a brincar com o fogo. Não iria permitir que se apaixonasse de novo. Resistira à chama e manteria Shaunna à distância. Era capaz.
Shaunna estava muito satisfeita com a forma como Lanie montava. A menina possuía um equilíbrio natural e era amável com a boca do animal. Frequentemente, os cavaleiros
jovens tentavam usar as rédeas para manter o seu equilíbrio, e o resultado era um p
uxão constante exercido sobre o focinho do animal. Bangs estava habituado a isso e tinha resistido a muitos puxões de cavaleiros novos. Teve a certeza de que estava
a gostar daquele passeio naquela manhã muito mais do que de outros passeios anteriores
.
Nesse momento Lanie alterou-se.
- Não - gritou a menina, e puxou as rédeas com força, desviando o cavalo para a esquerda.
- O que se passa? - perguntou Shaunna.
- Mexe-se muito.
- Está a enxotar uma mosca.
- Mas eu não gosto.
- Achas que devia sacudir-te a boca de um lado para o outro sempre que fazes uma coisa de que eu não gosto?
- Fazes isso bastantes vezes - Lanie parou o cavalo a meio do picadeiro e desmontou, olhando-a com olhos furiosos. - Quero montar o Magic. Não quero montar os teus
estúpidos cavalos com muita gente estúpida à volta - olhou mal-humorada para os outros
quatro cavaleiros, mas, que Shaunna se tivesse apercebido, não tinha dito asneiras. - Vou-me embora daqui - afastou-se do cavalo.
- Se acabaste de montar, óptimo - disse Shaunna com firmeza, sem se mover de onde se encontrava. Mas não vais embora sem tratares do cavalo. E não te atrevas a maltratá-lo.
- Não tenho de o fazer - a pequena deteve-se e deu meia volta.
- Não tens de fazer nada, mas há consequências esperava que Lanie recebesse a mensagem.
Durante uns instantes, a menina guardou silêncio, depois voltou para junto do animal e pegou nas rédeas. Conduziu-o com meiguice.
Tyler abriu a porta sem afastar a vista de Shaunna. Esta fez um gesto de consentimento, aceitando que ela saísse. Era melhor ter Lanie fora do picadeiro do que obrigá-la
a ficar. Também permitia que Tyler pudesse falar com ela e, com sorte, convencê-l
a de que a sua atitude estava errada.
Enquanto contemplava pai e filha a regressarem à
cavalariça com Bangs, interrogou-se se alguma vez conseguiriam chegar à criança. A birra de Lanie fora inesperada e sem motivos. Era como se de repente se apercebesse
que estava a ser amável e tivesse de fazer alguma coisa contrária a isso.
- O que queres que façamos? - perguntou um dos cavaleiros, chamando a atenção de Shaunna para a aula.
- Oitos - indicou, e deu uma palmada no cavalo. Quero ver se conseguem aproximar-se muito de mim.
- Quero ir para casa - disse Lanie.
- Não temos de fazer alguma coisa com ele? - Tyler olhou para o cavalo que a filha montara, sem saber ao certo o que fazer.
- O cavalo é dela. Ela que se encarregue dele.
- Mas tu é que o montaste. Eu quero montar o Magic.
- Lanie, já falámos sobre isso - dirigiu o olhar para a cavalariça de Magic. - Nem sequer consegues que se aproxime de ti. Como vais montá-lo?
- Odeias-me, não odeias? Sou apenas um peso para ti. Todos me odeiam.
- Lanie - viu as lágrimas nos olhos dela e ajoelhou-se, abraçando-a. - Não te odeio, e não és um peso. Amo-te.
- Não me amas - soltou-se. - Tens é de cuidar de mim.
- Isso não é verdade.
- Ai, sim? A Alice disse que eu era uma incontinência.
- Disse o quê? - não fazia a mais mínima ideia do que lhe poderia ter dito Alice, mas duvidava que tivesse alguma coisa a ver com incontinência.
- Uma incontinência. Sabes o que é, um problema. Uma coisa que se mete nos teus planos. Disse-o uma
£
vez quando foi lá a casa. E é verdade, não é? Antes não tinhas uma filha, e agora tens.
- É verdade que antes não te tinha e agora tenho-te, mas não és uma "inconveniência", e não cuido de ti por ser minha obrigação. Faço-o porque esse é o meu desejo,
porque me preocupo contigo e porque te amo.
Durante um momento, Lanie não disse nada, apenas o olhou, e ele pensou que talvez tivesse conseguido atravessar as suas barreiras. Depois ela olhou-o com ira.
- É por isso que queres mandar-me para uma escola privada?
- Quem te disse que eu queria fazer isso?
- A Alice. E tu fazes tudo o que ela diz.
- Não sabia que nos tinhas ouvido falar desse assunto - levantou-se e limpou o pó das calças. - Lanie, apenas pensámos na ideia. A Alice acha que uma escola privada
pode ajudar-te a recuperar o que perdeste no ano passado. Já sabes que ela foi ver uma
.
- Ta-ra-ri - fez uma careta.
- Disse que lá também aprenderias boas maneiras. E talvez tenha razão.
Estás a ver? Vais mandar-me para longe.
Olhando-a, tão beligerante, perguntou-se se poderia fazer alguma coisa para mudar definitivamente a situação.
Segundo a filosofia de Shaunna, o que era preciso era dar a Lanie a hipótese de escolher. Estava disposto a experimentar.
- Acho que a decisão de ir ou não para uma escola privada deve ser tua.
- Minha? - contemplou-o com cautela. - Deixavas-me decidir se quero ir ou não?
- Deixava. A Alice comentou que era uma escola muito boa e que poderias vir a casa nos fins-de-semana. Antes do final do Verão, vamos levar-te lá para que a conheças.
Se decidires que queres ir, óptimo. Se decidires que não queres ir, também é óptimo
- podia viver com
qualquer uma das decisões que ela tomasse. Era uma rapariga esperta. Não importava para que escola fosse, pois rapidamente recuperaria os estudos perdidos, tinha
a certeza.
- A sério que não me obrigarás a ir se disser que não quero?
- A sério não pareceu completamente convencida, mas notou que a expressão dos olhos se esbatera. Considerou que era um passo em frente e preferiu mudar de tema.
E agora, por que não me mostras como se tira a sela e as rédeas a um cavalo? Depois vamos
ver se o Magic se aproxima mais da cenoura.
Embora Shaunna se mantivesse afastada, estava consciente do que Lanie e Tyler tinham feito naquela tarde. Observou como a pequena conseguira que Magic se aproximasse
um pouco mais. No entanto, o cavalo não atravessou toda a distância até à cancela; ap
enas depois de Lanie deixar a cenoura na cavalariça e se ter afastado é que o fez.
Tyler ficou com a filha e Shaunna utilizou-o como um meio para que a menina realizasse algumas tarefas.
- Mostra ao teu pai como se limpa uma sela - disse, detendo-se antes de levar três cavalos a passear. - Essa precisa de uma limpeza. Há ali sabão para couro e nas
cavalariças há óleo, e trapos e produtos para limpar metais.
Saiu, em seguida, com os animais. Ao regressar, viu pai e filha sentados um pouco mais além da entrada da estrebaria, próximos da cavalariça de Magic, ocupados em
limpar as rédeas e a sela de Lanie. Travou o andamento do cavalo e observou-os sem se ap
roximar demasiado.
Embora tivesse jurado tirar os homens da sua vida, tinha de reconhecer que, às vezes, pensava no casamento,
em ter filhos e contemplá-los com o pai. Aquela era uma dessas ocasiões.
Embora soubesse que Tyler não encaixaria no quadro. Não se parecia em nada a um criador de gado. No estábulo, todo classe e sofisticação, ele chamava a tenção como
uma borbulha na ponta do nariz. Todavia, encaixava na sua forma de contabilista. Nessa
área era ela a fracassada. Era tão evidente. Tyler e ela eram tão opostos como o dia da noite.
Por isso não entendia por que o achava tão atraente. Pensara no beijo toda a noite. Deitada na cama, deu voltas e reviravoltas e a sua mente não parava de pensar
no que acontecera, perguntando-se até onde teriam chegado se não tivessem parado.
Desejara ter feito amor com ele, o que constituiu uma autêntica surpresa. Não é que não gostasse de homens nem tivesse esse tipo de necessidade, simplesmente pensara
que os tinha controlado.
Esquece! - disse para consigo mesma.
- O que disseste? - perguntou um dos cavaleiros que ia com ela; de repente, Shaunna lembrou-se que não estava sozinha.
- Nada. Só que... - procurou uma resposta. - Tenho de telefonar ao veterinário para castrar esse garanhão. Não posso esquecer-me.
Dois dos cavaleiros avançaram com as suas montadas. Chris Prescott, a mãe de Jeffrey, ficou. Como frequentemente ficava até mais tarde para conversar, Shaunna não
achou estranho. E a conversa começou com absoluta normalidade.
- Quando lhe telefonares - disse -, diz-lhe que preciso que veja a dentadura do Mischief. Não pára de abanar a cabeça quando o Jeffrey o monta; pode ter um problema
na boca - depois olhou directamente para Tyler e Lanie e baixou a voz. - Não há dúvida
de que é atraente. Imagino que seja casado.
- Não, é divorciado, mas a sua ex-mulher morreu há uns meses - olhou para Chris, inquieta pelo ciúme que a assolava. - Porquê? Interessa-te?
- Estás a brincar? - a outra riu. - Vi como olha para ti. E como tu olhas para ele. Não gosto de perder o meu tempo. Além disso, se fores inteligente, ficarás com
ele.
Shaunna sabia que não era inteligente. Caso contrário, diria a Chris que estava enganada, negaria qualquer interesse em Tyler. Mas permaneceu em silêncio.
Estava no picadeiro pequeno a trabalhar com o jovem garanhão quando ouviu passos e levantou a vista. Era Tyler.
- Vamos embora - anunciou. - A Lanie já está no carro.
- Como correu? - inquiriu ela, saindo da cavalariça e colocando-se na porta para que o cavalo não pudesse sair.
- Acho que bastante bem. Pelo menos, hoje falámos. Na maior parte do tempo sobre cavalos, mas falámos sorriu. Está convencida de que não sei nada, e tem razão. Quer
voltar amanhã com algumas cenouras.
- Por mim, tudo bem, desde que não as dê à mão. Não quero que perca um dedo.
- Também gostaria de voltar a montar. Disse-me que se vai portar bem.
- Então vamos dar-lhe outra oportunidade. Acho que amanhã vai fazer calor. Diz-lhe que venha de manhã cedo ou ao fim da tarde. Não quero que os cavalos saiam na
hora do calor.
- Às oito e meia tenho uma partida de golfe - fez uma careta. - E à noite devemos reunir-nos com os meus pais.
- Se quiseres, trá-la de manhã antes do golfe.
- Está bem - concordou, depois de um momento de hesitação. - Acho que é o que vou fazer.
Shauna pensou que ele iria embora nesse momento. Mas ficou ali de pé, olhando-a. Rezou para que ele não mencionasse o beijo da véspera. Não queria falar disso. Por
fim, ele sorriu incomodado.
- Bem, acho... - percorreu-a com o olhar e Shaunna soube que se lembrava, tal como ela. Lentamente, abanou a cabeça. - Até amanhã, então - acrescentou ele e deu
meia volta.
Viu-o sair da cavalariça e suspirou. Há muito tempo que não se sentia daquela maneira, ansiosa e confusa. Pensava que tinha aprendido a ignorar o desejo físico.
Nos últimos anos bastara-lhe manter-se ocupada nos estábulos. Não lhe importou não ter tem
po para um encontro. Para quê preocupar-se se não estava interessada numa relação? Não era masoquista.
Ouviu o cavalo mexer-se atrás dela e voltou-se para o ver. Mas não tão depressa como devia. Viu a boca aberta antes de se fechar sobre o seu braço e sentiu os dentes
apertar como uma prensa. A dor foi imediata, o grito que soltou foi aterrador. O anim
al soltou-a e recuou. Sabia que o tinha assustado, mas não se importou. Agarrou o braço abaixo do ombro e sentiu a humidade e o calor do sangue que lhe empapava
a camisa. Observou o garanhão jovem com olhos cintilantes.
Tu... - grunhiu. - Tens encontro marcado com o veterinário.
Sabia que a culpa não era do animal. Era um macho jovem que fazia o que os jovens garanhões fazem para chamar a atenção. Era uma das razões pela qual os castrava.
O erro fora dela, ao pensar num homem em vez de prestar atenção ao que estava a fazer.
Tinha sido chamada à terra, que bem precisava.
***
Capítulo 6.

Shaunna tirou os comprimidos para os dois cavalos com artrite com mais esforço do que o habitual, colocando-os em seguida nos recipientes onde costumava guardar
os medicamentos de cada animal. A rigidez e a dor do braço direito entorpeciam-lhe os movi
mentos e voltou a censurar-se por não ter prestado mais atenção ao garanhão na noite anterior. Estava mesmo a precisar de um braço ao peito e de uma factura de hospital!
Ou um homem que a distraísse.
Cada minuto que passou nas urgências, num total de cento e sessenta e oito, censurara-se pelo seu recente comportamento para com Tyler. Convencera-a a aceitar um
cavalo para o qual não tinha nem espaço nem tempo, permitira que a distraísse e, como con
sequência, quebrou um copo e sujou o chão da cozinha, e deixara que a beijasse... confundindo a sua mente.
Não tinha tempo para isso.
- Trouxe a Lanie e quilo e meio de cenouras.
O som da voz de Tyler, justamente quando estava a pensar nele, sobressaltou-a. Sem pensar, abriu a mão com o frasco de comprimidos, que começou a deslizar. Tentou
agarrá-lo, mas a dor que sentiu no braço direito deteve-a. Com um gemido, viu o frasco d
e plástico bater no chão, derramando o seu conteúdo por todos os sítios.
- Desculpa - disse Tyler na porta. - Não queria assustar-te.
"Assustar" não era o termo para descrever o que lhe provocava, mas não tinha intenção de o reconhecer.
- Não me assustaste. Acontece... - achou que era melhor não explicar por que deixara o frasco escorregar e, com movimentos desajeitados, ajoelhou-se para apanhar
os comprimidos. - Deves achar que sou uma desastrada. Pelo menos desta vez não parti nada
.
Tyler entrou e ajoelhou-se ao lado dela, ajudando-a.
- Estavas tão concentrada que devia ter imaginado que não me tinhas ouvido.
Shaunna olhou-o pelo canto do olho e perguntou-se o que diria ele se soubesse que a sua surdez temporária se devia ao facto de pensar nele. Esperou que não notasse
a venda grossa debaixo da manga direita. Também não queria explicar-lhe aquele acidente
.
A Lanie estava ansiosa por chegar. Como não vi ninguém, decidi procurar-te e certificar-me de que não tinhas ido embora introduziu alguns comprimidos no frasco.
Shaunna moveu-se para a sua esquerda como medida de protecção para o braço estropiado. Esqueceu o recipiente de alimentação ao seu lado. Bateu-lhe com o braço direito.
Ao de leve, mal lhe tocando. Mas sentiu uma dor aguda e penetrante e gemeu automati
camente.
- O que tens? - Tyler olhou-a com o sobrolho franzido.
- Apenas um pequeno acidente obrigou-se a sorrir. Ele arqueou as sobrancelhas. - Ontem o garanhão mordeu-me o braço.
- Aquele com que estavas quando me fui embora?
- Sim. Foi uma estupidez virar-lhe as costas. Um dos motivos por que está aqui é precisamente porque morde.
- Foi sério? - olhou para o braço dela.
Tive de levar doze pontos e tenho nódoas negras. Tem mau aspecto, mas não foi nada.
- É tudo ligadura? - esta estendia-se desde o ombro até quase ao cotovelo. Voltou a olhá-la num gesto preocupado.
- Não devias estar a trabalhar. Vai com calma e deixa o teu braço descansar.
Claro - riu. E quem vai alimentar os cavalos e dar-lhes os medicamentos? Quem vai dar as aulas programadas para esta manhã?
- Tens um capataz, não tens? Ele que lhes dê de comer. E podes cancelar as aulas. É domingo. Um dia de descanso. Eu levo a Lanie a casa.
Agradecia a sua preocupação, mas era evidente que não compreendia a sua situação.
- Tyler, não posso cancelar as aulas. É assim que eu ganho dinheiro. E tens razão, hoje é domingo. É o dia de folga do capataz.
- Então, eu ajudo-te - tirou-lhe o frasco de comprimidos da mão e começou a apanhar com afinco os que tinham caído no chão.
- Vais ajudar-me com todas as tarefas? estudou a roupa dele. Como sempre, ia demasiado bem vestido para o estábulo. - Com essa roupa?
Ele deteve-se e baixou a vista pela sua camisa branca de golfe e para as calças e sapatos castanhos, e depois continuou a apanhar comprimidos.
- Bem, lá terei de me sujar um pouco.
- A continuares assim, vais ficar a dever uma fortuna à lavandaria apoiou a mão boa na sua. - Eu estou bem, Tyler. Só um pouco incapacitada. Já estive pior. Poderei
fazer tudo, embora mais devagar. Vai jogar golfe.
- Não posso jogar golfe e deixar-te desta maneira abanou a cabeça.
- Podes sim - gostava que se preocupasse, mas a sua sugestão era um disparate. Seria mais um estorvo do que uma ajuda, e não queria tê-lo todo o dia pelos estábulos.
Talvez fosse bom para Lanie, mas não para ela. Só o facto de estar com ele numa divis
ão deixava-a tão nervosa como o garanhão. - Não sabes nada de cavalos.
Levaria todo o tempo a explicar-te coisas. Talvez os meus alunos me ajudem.
- A Lanie pode mostrar-me o que devo fazer - olhou na direcção da cavalariça do Magic.
- Corrige-me se estiver enganada, Tyler, mas fiquei com a impressão de que esta manhã não ias ao clube de golfe apenas para reservar o campo. Tinhas um jogo programado,
não tinhas? Há gente à tua espera.
- E depois? - encolheu os ombros após uma leve hesitação. - Os encontros de golfe podem desmarcar-se.
- Mas porquê decepcionar outras pessoas? Não é que não agradeça a tua oferta, mas preferiria não ficar parada. Acredita, se precisasse realmente da tua ajuda, tê-la-ia
pedido.
- Tens a certeza? - estudou-a.
Tinha a certeza... até descobrir por que reagia daquela forma na sua presença, preferia que houvesse uma distância entre ambos.
- Dá-me esses comprimidos, despede-te da Lanie e vai-te embora - ordenou, voltou a estender a mão na direcção do frasco.
Ele não lho deu. Pousou a vista nos seus lábios e Shaunna sentiu um nó no estômago. As lembranças do beijo trocado entre ambos inundou-a e sentiu que deveria ter
resistido. Tyler Corwin era o tipo de homem de que falavam as canções country e western.
Se a deixasse, partia-lhe o coração. Deixá-la-ia. Acontecia sempre assim: os homens que amava acabavam sempre por a deixar.
- Vai-te embora - repetiu. - E quando te despedires da Lanie, se conseguires convencê-la a ajudar-me enquanto os outros não chegam, seria óptimo.
- Vai ajudar-te - afirmou com convicção, e depois suspirou e, no final, entregou-lhe o frasco. - Está bem, vou-me embora, mas regressarei assim que o jogo acabar.
Se nessa altura precisares da minha ajuda...
- Eu peço-ta. Obrigada.
Ele deu um passo atrás e deteve-se, resistindo à ideia de se ir embora.
- A Lanie porta-se muito melhor. Ter passado o dia de ontem com ela parece que ajudou - sorriu com um gesto tentador. - Acho que foi alguma coisa que disse, mas
não faço a mínima ideia do que possa ter sido.
-Talvez, ou talvez precisasse de saber que gostas dela.
- Acho que é isso - continuava a olhá-la; Shaunna obrigou-se a não revelar qualquer reacção. Passado um momento, ele concordou. - Vou despedir-me da Lanie.
Shaunna descobriu que Lanie era de uma grande ajuda. E Tyler tinha razão; a sua atitude tinha melhorado bastante.
- O Magic aproximou-se mais - disse, enquanto a ajudava a recolher os cavalos depois das aulas da manhã. - Muito mais do que ontem.
- Gosta das cenouras, não é?
- Sempre gostou. A minha mãe dizia que eram um prato requintado para os cavalos.
Pela forma como Lanie a olhava, Shaunna percebeu que esperava a sua reacção.
- São boas - disse com cautela. - Desde que tenhas cuidado com a forma como as dás. E são muito melhor do que açúcar.
- Isso era o que a minha mãe também dizia. Acho que nunca lhas deram. Refiro-me ao outro sítio. Nem o escovaram. Tem mer... - calou-se e olhou para Shaunna.
- Tem porcaria por todo o corpo - concluiu.
Shaunna apreciou o esforço de Lanie para não dizer asneiras, mas não disse nada e manteve a conversa centrada em Magic.
- Passou um mau bocado. Não sabia o que te acontecera e de repente encontrou-se num lugar horrível. Tem de aprender a confiar em ti.
- As pessoas são muito parecidas com os cavalos, não são?
- Referes-te a aprender em quem se deve confiar? a percepção da criança surpreendeu Shaunna.
- Não - Lanie baixou a vista. - Quero dizer que sei como o Magic se sente. Eu tenho dificuldade em entender o que aconteceu... que a minha mamã morreu, íamos no
carro e de repente ouvi-a gritar e depois... levantou a cabeça com lágrimas nos olhos. - T
enho saudades dela... e do George.
- Lanie... - não sabia como a menina iria reagir, mas não se importou. Com o braço bom, abraçou-a. - Também foi muito duro para ti, não foi? - Esperava que a menina
se afastasse, mas colocou os braços à volta da sua cintura e sentiu que soltava um pro
fundo suspiro.
- Gostava que aquele homem não tivesse chocado connosco. Gostava que a mamã e o papá não estivessem mortos.
- Claro que sim - continuou a abraçá-la. - Mas lembra-te sempre que a tua mamã e o teu papá te amavam muito, e sei que ele também te ama.
- E se... - Lanie afastou-se um pouco, olhando-a com uns olhos demasiado sérios para uma menina de dez anos. - E se ele se sentir obrigado a tomar conta de mim?
E se só se mostra simpático porque a lei o obriga a tomar conta de mim?
- Não, não é simpático contigo porque tem de ser - não tinha qualquer dúvida a esse respeito. - A diferença nota-se. A minha mãe teve de cuidar de mim depois de
o meu pai nos abandonar. Caso contrário, não receberia dinheiro do Estado. Mas não me amav
a e deu-mo a entender.
- O que fez? - perguntou Lanie com uma expressão preocupada.
- Bem... - Shaunna lembrava-se bem. - Não me tocava, só quando era absolutamente necessário, e criticava sempre tudo. Nunca ia aos acontecimentos escolares.
E nunca me deu um presente. Nem sequer no Natal. Dizia que tinha obrigação de me alimentar, vestir e dar-me um tecto. E juro que foi só isso que fez.
- Que má. Muito, muito má - Lanie franziu o nariz.
- Como uma bruxa má - Shaunna sorriu. Não era esse o termo que escolhera para a mãe. - Já não vives com ela, pois não? - a pequena olhou em direcção à casa.
- Não. Fugi com dezasseis anos assim que disse aquelas palavras apercebeu-se que não eram as palavras indicadas para dizer a uma menina atribulada. Tentou corrigir
o seu erro. - Mas fugir não solucionou os meus problemas. Só os piorou.
- Eu pensei em fugir reconheceu Lanie. Mas não sabia para onde.
- Eu também não - sorriu com tristeza, recordando.
- Pensei que encontraria o meu pai. Não é que fosse um grande pai. Tu tens um muito, muito melhor. O teu estava ao teu lado quando precisaste dele. O meu não queria
que o encontrasse.
- Só está por obrigação.
- Não - afirmou, mas perguntou-se se a menina não teria razão. Nesse caso, no entanto, desempenhava muito bem o seu dever. - Ama-te a sério, Lanie. Sei-o por coisas
que disse. E vê só o tempo que passou aqui contigo ontem. Não o teria feito se não gos
tasse de ti.
Sim - a pequena sorriu. - Realmente não sabe nada de cavalos, pois não?
Não. Por isso vais ter de o ensinar. Lanie concordou e depois abraçou Shaunna.
- Gosto de ti.
Assombrada, ela devolveu-lhe o abraço.
- E eu de ti.
Na terça-feira, 4 de Julho, Tyler estava no seu escritório quando Alice bateu à porta e entrou.
- Estás ocupado? - perguntou.
- Não - afastou para um dos lados os papéis que tinha à sua frente. Como sempre, Alice estava arrebatadora.
- Bem - fechou a porta. Sentou-se num dos cadeirões de couro que estavam à frente da secretária, cruzou as pernas e apoiou os cotovelos nos braços do cadeirão.
- Acho que precisamos de falar.
A seriedade que viu no rosto dela fê-lo sentir-se incomodado e escolheu as palavras com cuidado.
- Sobre o quê?
- Nós... o nosso futuro - esboçou um sorriso. Sobre marcar a data do casamento.
- Uma data para o casamento? - não era esse o tema que julgava que ela suscitaria.
- Tenho pensado muito nisso, Tyler - descruzou as pernas e inclinou-se um pouco para a frente. - Na verdade, decidi-me há quinze dias e pensei que pudéssemos falar
do tema num jantar à luz de velas e com música romântica. Mas como ultimamente vejo que
andas muito ocupado com a tua filha e esse seu cavalo, cheguei à conclusão de que vir aqui seria o melhor.
Alice ia directa à questão. Não era uma pessoa que acreditasse em exibições abertas de emoção. Dissera-lho a primeira vez que saíram juntos, e ele achara óptimo.
Aprendera a desconfiar das palavras e dos gestos de amor. Podiam ser sempre um fingimento
.
No entanto, a proposta de casamento apanhou-o de surpresa. Não sabia muito bem o que dizer. Mas dava a impressão de que não precisava de falar.
- Tyler, eu e tu saímos há quase um ano. A primeira vez que te vi achei-te interessante. És inteligente, relativamente atraente, física e mentalmente são e já demonstraste
que podes vir a ser um bom pai. Eu sou filha única, estou na melhor altura da m
inha vida para dar à luz e sou solteira. A minha família tem fortuna há várias
gerações, e um destes dias vou herdar tudo. Pelo menos, o que o Estado não levar. O problema é que ao ser filha única, e como o tio Gordon e a tia Emily não têm
filhos, depois de mim não haverá mais herdeiros a quem legar esse dinheiro. O que signific
a que tenho uma obrigação. Devo dar um ou mais herdeiros à família Fischer. E não encaro esta obrigação de ânimo leve. Basicamente, nos dois últimos anos tenho procurado
um companheiro potencial. E até onde posso perceber, tu és perfeito.
Tyler estudou-a. Não havia dúvida de que ia directa à questão.
Eu serei perfeito? pela forma como ela se ergueu na cadeira soube que a perturbara com a sua pergunta. E a sua brusca resposta confirmou-o.
- Sabes ao que me refiro.
- O que acho que queres dizer é que queres que casemos para eu te fazer um filho e, dessa forma, dar um herdeiro para a fortuna familiar.
- Fazes parecer que é tudo para meu benefício. Também tu os terás, Tyler. Agora tens uma filha para cuidar e manifestaste alguma preocupação com as amas que contrataste.
Pretendo deixar de trabalhar assim que engravidar. Ficarei em casa para cuidar ta
nto da Lanie como do bebé.
- Continuo a pensar que estamos a falar de um serviço de reprodução.
- Não sejas parvo. Se apenas quisesse isso, teria recorrido a um centro de inseminação artificial. Ou teria sido mãe solteira. Acho que as crianças precisam de um
pai e de uma mãe, devem ser criados de uma forma natural.
Perguntou-se se um casamento de conveniência devia ser considerado uma coisa natural, mas não disse nada. E concordava que as crianças deviam ter um pai e uma mãe.
Nas últimas semanas descobrira a vantagem de discutir os problemas com uma mulher. Shau
nna
propiciava-lhe pistas novas sobre a forma de pensar de Lanie.
Era uma pena não dispor de mais pistas sobre a forma de pensar de Alice. Talvez então estivesse mais preparado para a actual conversa.
- Vamos estabelecer, naturalmente, um acordo pré-nupcial - prosseguiu ela. - Em caso de separação... tu não terás qualquer direito sobre o dinheiro dos Fischer.
Mas enquanto permanecermos casados, receberás uma pensão anual. Mais do que suficiente par
a comprares roupa e os carros que talvez queiras para os acontecimentos sociais a que devemos assistir.
- Agora parece que me vais manter - a ideia não lhe agradava.
- Manter, não. Claro que não. Parto do princípio que continuarás a trabalhar na Smith e Fischer. Serás quem supervisionará as minhas acções e os meus assuntos financeiros.
Com a minha aprovação, é claro.
- Claro - dava-lhe a impressão que ela verificaria cada número das suas contas. - Pareces ter tudo planeado.
- Tentei pensar em tudo - voltou a adiantar-se. - Vê as coisas desta maneira, Tyler. Talvez eu e tu não estejamos loucamente apaixonados, mas isso até pode jogar
a nosso favor. Ambos tivemos experiências passadas que nos fizeram ficar de pé atrás em r
elação ao amor. Tu e a tua ex-mulher. Eu com todos esses pretendentes que apenas queriam o meu dinheiro. Também disseste que te preocupavas com a Lanie, em deixá-la
com estranhos tantas vezes e em como lidarás com ela quando for adolescente. O que est
ou a oferecer-te é um acordo que beneficia ambos. Eu quero ter um filho. Tu precisas de uma mãe para a tua filha. Damo-nos bem. Temos interesses em comum. Acho que
seria uma excelente fusão.
Fusão - repetiu e sorriu.
- Está bem... acordo - levantou-se com elegância e olhou para o relógio de pulso. - Daqui a meia hora tenho
um encontro no outro extremo da cidade, e não sei quanto tempo me demorarei. Por que não te telefono esta noite?
- Esperas que te dê uma resposta nessa altura?
- Não - sorriu e dirigiu-se para a porta. - Mas espero que tenhas pensado no assunto.
Saiu e Tyler ficou onde estava, aturdido.
Bateram à porta. Antes de poder responder, a porta abriu-se e Gordon Fischer entrou. Fechou a porta atrás de si e aproximou-se da secretária de Tyler. Sorria.
- Acabei de passar pela Alice. Como sempre, estava com pressa, mas informou-me de que falaram do vosso casamento.
- O tema surgiu há pouco - não sabia bem como responder.
- Maravilhoso - disse Gordon, feliz; depois apertou a mão de Tyler. - Parabéns.
- Ainda não decidi nada, Gordon. Para ser sincero, a ideia apanhou-me desprevenido, e não sei se o momento é adequado. Há a Lanie... o cavalo...
- E essa mulher? - soltou a mão e franziu o sobrolho.
- A Shaunna? - admirou-se por Gordon a ter introduzido na conversa. Nunca falara nela no trabalho, e Gordon só a vira uma vez.
- Ou lá como se chama. No outro dia, a Alice disse que pareces distante desde que a conheceste.
- Foi só há duas semanas - e não teve consciência de ter agido de forma diferente em relação a Alice. Embora nas duas últimas semanas tivesse tido pouco tempo para
isso.
O elemento temporal não é importante continuou o outro, estudando-o com expressão séria. - É uma mulher atraente. Foi evidente quando a vi aqui no teu escritório.
Talvez seja boa na cama, mas de certeza que nada fará pela tua carreira ou pelo teu níve
l social, se percebes a que me refiro.
Tyler recebeu a mensagem. Gordon queria dizer que ele estava perante uma escolha. Bom sexo ou uma ascensão na carreira profissional e a aceitação da classe alta
de Bakersfield. Alice garantir-lhe-ia as duas coisas.
Abanou a cabeça.
- Gordon, isto é ridículo. A mulher trabalha com a Lanie e com o cavalo, é tudo. Não durmo com ela. Por amor de Deus, não tenho nada em comum com essa mulher. Absolutamente
nada.
- Desde que estejas consciente disso - olhou para a porta fechada. A Alice e tu fariam um belo par. Quando sugeriu que te entrevistasse para este trabalho sabia
que tinha intenções sérias contigo.
O comentário de Gordon incomodou Tyler. Alice insistira em que apresentasse o seu currículo, mas julgava que lhe tinham dado o cargo por mérito próprio. Considerava-se
um excelente contabilista, tinha-se licenciado com quadro de honra e no seu último
emprego tinha sido muito elogiado. Começava a questionar-se que papel teria Alice desempenhado na obtenção do seu novo cargo.
- Vou dizer-te uma coisa - continuou Gordon com um sorriso. - Eu e a minha mulher vamos jantar com o meu irmão e a minha cunhada de sexta-feira a oito dias. Porque
não vens com a Alice? Vamos ao clube de campo. Reuniremos toda a família.
Tyler percebeu que seria a ocasião ideal para anunciar um compromisso, e sabia que era isso o que Gordon dava a entender. Hesitou, considerando as suas opções, mas
o outro não lhe deu alternativa.
- Esperamos por vocês - afirmou, saindo depois do escritório. - Vou deixar-te trabalhar.
Três horas mais tarde, Tyler soube que se encontrava numa encruzilhada.
- Vão fazer um churrasco no estábulo - disse Lanie entusiasmada enquanto a levava a casa. - De sexta-feira a oito dias. Shaunna chama-lhe a sua reunião estival.
Percorreremos os caminhos a cavalo, tu podes ir de carroça com os outros pais que não sabe
m montar. Acendem uma fogueira, vai haver música e todos vão lá estar.
De sexta a oito dias - repetiu devagar.
- Sim. Eu disse à Shaunna que vamos levar gelatina. A mamã ensinou-me a fazer gelatina. Por isso tu não tens de fazer nada. Não vai ser divertido?
Querida... - não sabia como havia de lho dizer. Não tenho a certeza de poder ir.
- Por que não?
- Nessa noite... - viu o brilho a desvanecer-se do olhar de Lanie e odiou o que lhe ia dizer, - terei de ir a um jantar.
- Mas vão todas as pessoas - insistiu com os olhos cheios de lágrimas. - Será muito, muito melhor do que qualquer jantar de velhos.
- É provável, mas trata-se de... um jantar de negócios.
- Com a Alice? - perguntou num tom de desdém.
Sim. E com os pais e os tios dela. O tio dela é o meu patrão, lembras-te?
- Vais casar com a Alice, não vais? - olhou-o fixamente.
-Eu...
- Sim, eu sei - não o deixou acabar. - E quando casares, não vais querer que eu fique por perto.
- Isso não é verdade - afirmou ao entrar na garagem. Desligou o motor e voltou-se no assento para a encarar.
- Vou ter-te sempre por perto.
- Pois sim. Nem sequer queres ir ao churrasco comigo - o lábio inferior tremia-lhe.
- Lanie? - perguntou com gentileza.
- A Shaunna disse que não ir aos sítios é uma forma de saber quando um pai não gosta de nós - abriu a porta e saiu do carro.
- Lanie, querida... - seguiu-a. - Amo-te. Acontece que...
- Não sou a tua querida - disparou ela, depois parou à porta de casa, com os braços cruzados e sem olhar para ele.
Tyler abriu a porta, percebendo que estava a perder o que tinha ganho na semana anterior.
- Temos de falar - disse.
- Vais casar com a Alice ou não? - insistiu ela.
Não sei. Estou a pensar. Talvez não seja má ideia pelo menos era disso que estava a tentar convencer-se.
Lanie abanou a cabeça e entrou em casa. Foi directamente para o seu quarto, e ele seguiu-a, procurando uma forma de explicar a uma criança de dez anos que casar-se
com Alice seria bom para os dois.
Ao chegar ao quarto, viu-a deitada sobre a cama com a cabeça enterrada na almofada e rodeada pelos seus bonecos de pelúcia. Notou que a fotografia da mãe da menina,
que geralmente estava na mesinha de cabeceira, estava na mão direita de Lanie. E ouviu
-a soluçar.
- Lanie... - disse baixinho, sem saber se o ouviria. Ela levantou a cabeça e olhou-o; Tyler desejou que Shaunna estivesse ali para lhe dizer o que devia fazer em
seguida.
***
Capítulo 7.

- Essa festa é assim tão importante para ti? - perguntou ele.
- É um churrasco - respondeu sem vontade.
Tyler sabia que ele é que seria assado no clube de campo de Gordon Fischer se fosse à festa da Shaunna em vez de jantar com os Fischer e anunciar o seu compromisso
com Alice. A mensagem de Gordon dessa tarde tinha sido bem clara.
- Tenho de ir - insistiu Lanie, sem desviar o olhar.
- Tens? - sorriu. Parecia que toda a gente tinha uma agenda a cumprir.
- Se quiseres, podes dizer à Alice que vá contigo.
Acho que sim - embora soubesse qual seria a reacção dela. Também ela tinha deixado bem claro o que pensava de cavalos e estábulos.
No entanto, o facto de a menina o ter sugerido já era um progresso.
Então, vais? - sentou-se com expressão de esperança. - Vais comigo ao churrasco?
- Vou pensar - desejava que fosse uma decisão fácil.
- Vai ser divertido. A sério - colocou de novo a fotografia da mãe na mesa de cabeceira e aproximou-se dele. - Muito mais divertido do que um jantar de negócios.
Tyler sorriu. Lanie era persistente como a mãe. E talvez tivesse razão. Tinha dúvidas de que o jantar com a família de Alice fosse divertido. E não gostara que Gordon
desse como certo que ele aceitaria.
Ora bem, Gordon Fischer estava enganado. Se o churrasco era importante para Lanie, iria, e Alice teria de compreender. Tinha feito progressos na relação com a filha,
não queria deitar tudo a perder agora.
- Bem, se o churrasco vai ser muito mais divertido, acho que já decidi - revolveu o cabelo da menina. - E agora podemos pensar em ir jantar?
- Podemos - desaparecidas as lágrimas, Lanie sorriu e saiu a correr até à cozinha.
Ele seguiu-a com um passo mais lento. Quando Alice telefonasse nessa noite, explicar-lhe-ia a situação. Inclusivamente convidá-la-ia para o churrasco, tal como sugerira
a filha. Se estava interessada em falar de casamento, pois bem, falariam.
Na noite do churrasco o tempo estava magnífico. Uma ligeira brisa evitava que os insectos incomodassem muito e tornava a temperatura agradável; depois de uma hora
a montar, quase todos estavam prontos para regressar às cavalariças e jantar. O sol ia a
caminho da linha do horizonte quando Shaunna fez um sinal para que todos parassem. Os que iam a cavalo deixaram que os animais esticassem o pescoço, enquanto Tyler
e os outros que seguiam na carroça se sentiram aliviados por poder descansar de tanto
solavanco.
Quase todos os que tinham um cavalo na estrebaria estavam presentes no passeio estival e no churrasco. Shaunna tinha-se certificado de que todos estivessem divertidos.
Nesse momento, ia de um grupo a outro dizendo alguma coisa. Depois dirigiu-se à carroça.
- Como está tudo? - perguntou em geral, mas olhando para ele.
Muito bem. Fantástico - ouviu responder os outros. Tyler simplesmente fez um gesto com a cabeça.
Não fazia sentido queixar-se das dores que já tinha no traseiro.
- Vamos fazer os cavalos galopar um pouco, mas vocês ficam aqui. Os cavaleiros com menos prática ficam convosco. Depois vamos escová-los e provar o chili da Maria.
Shaunna virou o cavalo e regressou para junto dos cavaleiros. Com ela, galopar parecia uma coisa tão fácil.
Comum. Era como Alice a descrevera. Tyler tinha de concordar em que era natural e muito atraente, quer fosse a cavalgar quer fosse a andar em direcção dos estábulos.
Talvez os opostos se atraíssem. Não tinha a certeza, mas sabia que pouco tinham em co
mum e, ainda assim, achava-a atraente. E excitante.
Abanou a cabeça. Não devia acalentar esses pensamentos. Dissera a Alice que tinha de assistir ao churrasco para bem de Lanie. Era disso que devia lembrar-se. Tinha
ido pela filha... não para ter fantasias com Shaunna.
Também informara Alice de que não queria tomar uma decisão precipitada. Talvez isso se devesse ao facto de ser contabilista, mas traçara uma coluna com aspectos
positivos e outra com aspectos negativos, e a positiva ganhou. Primeiro, casar-se com Alic
e facultava-lhe uma companhia feminina para Lanie. Uma figura materna. O que era negativo era o facto de Lanie não querer, no momento, falar com Alice. Mas tinha
a certeza de que isso mudaria com o passar do tempo.
Seria também uma companhia feminina para ele. Seria uma adulta com quem poderia falar e trocar ideias. Uma companheira para o sexo. Não via nada de negativo nisso.
Terceiro, casar com ela ajudaria a sua carreira profissional. Ao telefone quase lhe prometera uma vice-presidência na empresa do tio.
Não sabia se isso era positivo ou negativo. Embora lhe agradasse a ideia de ser vice-presidente, gostava de conquistar o lugar que ocupava. No fundo, sempre sonhara
em fundar a sua própria empresa de contabilidade. Se se casasse com Alice, esse sonho
ficaria de lado.
Por último, casando-se encontraria uma segurança emocional. Não seria um casamento assente no amor, mas ele não queria amor. O amor fazia correr o perigo de ser
ferido. Torná-lo-ia uma pessoa vulnerável. Já conhecia isso. Nesse momento, desejava um ac
ordo que fosse satisfatório e seguro.
Já passava das oito quando Shaunna se afastou da fogueira para observar os outros. O que restava das costeletas e do chili era um montão de ossos e umas quantas
taças vazias. O jantar foi completado com saladas e sobremesas que alguns tinham trazido.
Até os cães e os gatos estavam demasiado cheios para se mexerem.
Todd, o capataz, levara a guitarra e começara a tocar depois do jantar. Judy, a adolescente que alojava o seu cavalo no estábulo e estava louca por ele, sentou-se
aos seus pés a cantar com todos os que se tinham unido ao coro. A noite desenrolava-se t
al como Shaunna esperara.
O seu olhar pousou em Tyler.
Provavelmente era a única pessoa do grupo que não tinha cavalo, embora ainda visse esperanças nele. Ainda desejava condená-lo por ter abandonado a filha em pequena,
mas não conseguia. Era um mistério o facto de não ter feito nada para ver Lanie durant
e todo esse tempo, mas sabia que ele já não podia deixar a filha agora. Ao vê-lo sentado no chão junto à menina, com as calças de ganga tão novas que quase estalavam
quando se mexia, teve de sorrir. Pelo menos vestira algo apropriado. Começava a apren
der.
Ele olhou na sua direcção e Shaunna sentiu uma tontura instantânea. Não gostava das sensações que a assolavam sempre que Tyler a contemplava. Lembrava-se de quando
tinha vinte e dois anos e estava caída por Dale, um dos clientes de Betsy Helman, tal c
omo acontecia agora com Judy e Todd. Shaunna recordava-se bem como tinha sido tonta e como ficou sentida quando Dale fora embora. Não queria voltar a sentir o mesmo.
Não queria ser vulnerável.
Baixou o olhar para o chão e empurrou um pequeno tronco com o pé. Maldita atracção sexual. Não pensava deixar que aquela sensação a dominasse. Podia não ser a pessoa
mais esperta do mundo, mas não era parva.
Ouviu pegadas e levantou o olhar. Tyler tinha deixado Lanie e dirigia-se na sua direcção. Ao aproximar-se, Shaunna sentiu um impulso de fugir. Não queria que ele
soubesse que a deixava nervosa. E o que tinha de mal se as pernas lhe tremessem? Apoiou-s
e no gradeamento.
- Bonita festa - pôs-se a seu lado. - Acho que há muito tempo não me divertia tanto.
A Lanie parece estar a gostar muito - Shaunna queria desviar a conversa deles. Falar da menina seria mais seguro.
- Estou contente por me ter deixado convencer por ela.
- Disse-me que tinhas de ir a outro sítio. Uma reunião de negócios ou qualquer coisa assim.
- Qualquer coisa assim.
Ela sentia a energia da presença dele. Percorria-a, pondo-a nervosa.
- Acho que na próxima semana já poderemos começar a trabalhar com o Magic. Está a adaptar-se muito bem, aproxima-se dela quando o chama e vem comer as cenouras da
sua mão. E a Lanie tem-me observado a trabalhar com outros cavalos. Acho que percebe o q
ue faço.
- Diz que falas com eles.
- Não falo com eles - abanou a cabeça e olhou-o. Ouço-os. Estudo o que me dizem.
- E o que te contam eles? - esboçou um sorriso maravilhoso e sensual.
- Dizem-me... - voltou a afastar os olhos após ler o seu olhar. A atracção que ela sentia não era exclusivo seu. - Dizem-me - começou de novo - se estão tristes
ou assustados. - Nesse momento, era ela quem estava assustada pelo sentimento que Tyler lh
e despertava. Dizem-me se estão prontos para me ouvirem.
- Então falas com eles.
- Bem, acho que se pode dizer que sim - riu nervosamente. - Em termos básicos, digo-lhes que não sou uma ameaça para eles, que podem confiar em mim.
E podem?
- Podem. Não lhes faço mal. Consigo que façam o que quero deixando que pensem que é também o que eles querem. Se acham que correr longe de mim seria bom, deixo-os
correr. E quando decidem que devem parar, permito que parem. Deixo-os escolher.
- A vida parece ser feita de escolhas - suspirou. Shaunna olhou-o. Contemplava a filha, que falava
com Patti, uma menina da sua idade. Já tinha notado que entre as duas tinha nascido uma amizade.
Parecem dar-se muito bem.
Durante uns instantes, ele parecia não ter entendido as suas palavras.
- Sim, tens razão. E necessita de amigos da sua idade. Necessita de uma companhia feminina.
Acho que vêm ter connosco - observou que Lanie e Patti vinham na sua direcção. Pela forma como riam e davam cotoveladas uma à outra, percebeu que tramavam alguma
coisa.
- A Patti quer que eu passe a noite na casa dela - informou Lanie a Tyler. - Posso, por favor?
- Esta noite? - hesitou.
- Por favor? - suplicou a menina. - Os pais dela concordam. Disseram que ela podia convidar-me. Podes perguntar-lhes - apontou para os pais.de Patti e Tyler olhou
na sua direcção. Ambos fizeram um gesto afirmativo.
- E a tua roupa? Não trouxeste camisa de dormir... nem escova de dentes.
- Pode vestir uma das minhas camisas de noite, senhor Corwin - interveio Patti. - E o meu pai é dentista. Temos sempre escovas de dentes extra.
- Por favor? - insistiu Lanie.
Tyler pensou; depois sorriu e acariciou a cabeça de Lanie.
- Claro, por que não? - olhou para Shaunna. - Acho que é melhor saber onde vivem. Até logo.
Saiu seguido das duas meninas. Ela olhou-o. A forma descontraída como tinha aceite o pedido de Lanie tinha-a comovido. Esforçava-se muito para ser um bom pai. Era
adorável.
Não que pensasse apaixonar-se por ele, é claro.
As estrelas surgiram no firmamento e na fogueira apenas restavam brasas quando todos regressaram a suas casas. Maria tinha ido deitar-se. Só Shaunna permanecia sentada
num banco junto ao fogo. Noites como aquela faziam-na sentir que pertencia a uma fa
mília.
As luzes de um carro atraíram a sua atenção. Viu que o veículo entrava na zona de estacionamento. Só quando as luzes do carro se apagaram e os cães foram saudar
o condutor é que Shaunna reconheceu Tyler. Dirigiu-se para a casa, mas Shaunna chamou-o.
- Estou aqui.
- Deixei cá o blusão - disse ao aproximar-se. - Decidi que era melhor vir buscá-lo.
- Oh! - levantou um blusão que um dos convidados lhe tinha entregue. - É este?
E.
- Devia ter imaginado - soltou um risinho. Parece novo.
- E é. O que estás a fazer? - aproximou-se do banco e pegou no blusão. Não parecia ter pressa de ir embora.
- Estou a apreciar a noite - avivou o lume moribundo com um pau. - Divertiste-te esta noite?
- Muito - sentou-se ao seu lado. - E a Lanie também. Organizas estas reuniões com frequência?
- Tento fazê-lo duas vezes ao ano. Uma no Verão e outra no Outono sorriu, recordando. - Era como a Betsy fazia. Para ela, as pessoas que deixavam aqui os seus cavalos
eram da família, e acho que para mim é... calou-se. Não fazia sentido explicar os se
us motivos. Sentia-se melancólica, e ele não devia estar interessado em conhecer a sua necessidade de ter uma família. Não iria entender.
- E achas que para ti é...? - perguntou Tyler apanhando um pau para avivar o fogo.
- Uma tradição - isso era suficiente.
- Iniciada pela Betsy - olhou-a. - Ela era a proprietária do estábulo?
- Era. Quase tudo o que sei de cavalos foi ela quem mo ensinou.
- Nesse caso, devia ser uma mulher fantástica.
- E foi.
Permaneceram em silêncio durante alguns instantes, remexendo nas brasas. Shaunna tinha consciência de cada movimento dele, da sua respiração. Procurou um tema de
conversa.
- Que tipo de reunião de negócios tinhas esta noite? Ele emitiu um risinho, que ela achou estranho. Notou que a fitava. Sorriu.
- Devia ser uma reunião para anunciar o meu compromisso
com Alice Fischer. Mas não pude fazê-lo, não depois do que disseste a Lanie.
- E que lhe disse eu? - não se lembrou de nada que pudesse ter dito e que o impedisse de se comprometer com Alice. Nem sequer sabia que estava comprometido. Se o
soubesse, talvez agora aquela notícia não se tivesse assemelhado a um murro no estômago.
- Disseste que se um pai não acompanha um filho significa que não o ama.
- Eu não disse isso - começou a explicar, mas depois lembrou-se. - Apenas lhe disse que a minha mãe nunca me acompanhou nas festas da escola. Que nunca fez nada
em conjunto comigo. Falámos de como saber se o nosso pai gosta ou não de nós. Não pensei q
ue o interpretasse de forma tão literal. Desculpa se estraguei a tua festa de noivado.
- Não era uma festa, apenas um jantar familiar - encolheu os ombros.
- Então significa que a tua amizade com Alice é mais profunda do que tu imaginavas? - sabia que não podia deixar-se entristecer por isso. Devia sentir-se feliz por
ele. - Os meus parabéns!
- Sim, bem... - atirou o pau para a fogueira e olhou-a. - Na verdade não estamos comprometidos. Estou a pensar no assunto.
- A pensar?
- Eu e a Alice falámos dessa possibilidade - deteve-se antes de perguntar bruscamente: - Alguma vez estiveste apaixonada, Shaunna?
A pergunta surpreendeu-a, e por breves instantes não soube o que responder. Depois decidiu ser sincera.
- Houve uma vez em que julguei que sim. Foi um engano. Estava apaixonada pela ideia de estar apaixonada. E ele também não me amava. Apenas pensei que sim.
- O mesmo aconteceu comigo. Com a mãe da Lanie.
Não continuou, e o silêncio envolveu Shaunna. Um silêncio incómodo de coisas por dizer. Por fim, não resistiu mais.
- E depois?
- Foi tudo. Como disseste, o amor é um engano. As relações precisam de uma base mais sólida.
- O que pretendes dizer-me é que não estás apaixonado pela Alice?
- Digamos que considero o casamento de um ponto de vista mais lógico. Casar-me com a Alice oferece-me, sem dúvida, vantagens. Devo ter em consideração o bem-estar
da Lanie.
- E achas que casar-te com ela é do interesse de Lanie?
- É o que estou a tentar decidir.
Sabia que devia ficar afastada dos assuntos de Tyler, mas de acordo com o que Lanie comentara, não achava que o casamento dele com Alice fosse uma boa decisão.
- Tu e a Lanie parecem dar-se muito melhor.
- Melhor, sim, mas às vezes não sei o que hei-de dizer-lhe. Quando era bebé, apenas tinha de fazer umas caretas e comunicávamos. Agora... A Lanie contou-me que o
teu pai te abandonou quando eras muito pequena.
- Não era assim tão pequena. Tinha quase nove anos quando foi embora.
- Não o viste desde então?
- Não. Costumava dizer-me que quando um índio não quer ser encontrado, ninguém é capaz de dar com ele. Acho que tinha razão. Procurei-o na minha adolescência, mas
nunca o encontrei. Como era só meio índio, talvez um dia o encontre.
- E se o encontrasses, que lhe dirias?
- Perguntava-lhe por que me deixou, porque nunca lhe perdoei.
- E se te dissesse que te deixou por julgar que isso era o melhor para ti, o que dirias?
- Que estava enganado. Foi por isso que deixaste a Lanie, Tyler? Por que nunca entraste em contacto com ela? - a dor que viu no rosto dele comoveu-lhe o coração.
Apoiou uma mão no seu braço. Pelo menos agora estás com ela. Não voltes a deixá-la.
Ele apoiou a mão sobre a dela e apertou-lhe um pouco os dedos.
- Se eu fosse teu pai - sussurrou, - dir-te-ia que tinha sido um parvo em deixar-te, que és perfeita.
Shaunna sabia que, se fosse perfeita, não acalentaria os pensamentos que lhe passavam naquele momento pela cabeça.
***
Capítulo 8.

Ao olhar para Tyler nos olhos, Shaunna teve a certeza de que tinha perdido a cabeça. Toda a noite a dizer a si própria que ele não lhe interessava, além de ele lhe
ter contado que estava comprometido, e o contacto da sua mão fazia com que o seu coraçã
o saltasse como se estivesse num rodeio.
- Acho que é melhor entrar - disse e tentou levantar-se. - Está a fazer-se tarde.
- Fica - ele apertou mais a mão dela, detendo-a. Por favor.
Nenhum homem a excitara tanto desde a sua paixão por Dale. Naquela altura fora uma idiota e, agora com Tyler, o seu comportamento não era muito melhor. Um olhar
dele era suficiente para lhe confundir os pensamentos. Um sorriso, e ela sentia tonturas.
Sempre que vinha à estrebaria, sentia-se nervosa e pronta para ficar como uma menina boba.
Mas desta vez não pensava permitir que isso acontecesse.
- Tyler, acabas de dizer-me que vais casar-te. Nem sequer devias estar aqui - soltou a mão e afastou-se para a outra extremidade do banco. Talvez não fosse preciso
ir embora, mas precisava de espaço. Muito espaço.
- O que tem ir casar-me com vir aqui buscar o blusão? - olhou-a e fez uma careta.
- Sabes o que quero dizer - por instantes pensou que ele fosse negar a tensão sexual existente entre
ambos. Pior ainda, que lhe dissesse que era imaginação sua.
Mas Tyler respirou fundo e cravou o olhar nas brasas da fogueira.
- Tens razão. O blusão podia ter esperado até amanhã. Vim com a esperança de que ainda estivesses levantada. Reinava demasiado silêncio em casa sem a Lanie, e comecei
a pensar como me tinha divertido esta noite e como foi óptima, e a seguir apenas sou
be que entrei no carro e vinha para aqui.
Ela nada disse, mas o seu coração sentiu-se feliz por ele ter voltado para a ver. Embora, dadas as circunstâncias, isso não tivesse qualquer importância.
- Embora considere um elogio, posso perguntar-te por que não foste ver a tua futura esposa se te sentes sozinho?
- Ir ver a Alice? - riu com ironia. - Não recebe ninguém depois das nove e meia. Nem antes de se maquilhar de manhã. Tem uns costumes bastante arraigados.
- E vieste aqui.
- Sim... vim aqui. Mas se estás acordada por minha causa... ou se te incomodo, vou-me embora. Acho que...
- encolheu os ombros e desviou o olhar. - Acho que queria falar contigo.
- Fala se quiseres.
- Obrigado - o seu sorriso mostrou alívio. - Acho que não queria que a noite acabasse. Diverti-me, a sério. Recordou-me os dias na universidade, quando eu e a Bárbara
saíamos juntos. Costumávamos ir a todas as festas depois dos jogos de futebol. Cantá
vamos. Também éramos como uma espécie de família grande e feliz.
Shaunna ficou assombrada com a parecença dos seus sentimentos.
- Formam um bom grupo. Tu e a tua ex-mulher andaram juntos na universidade?
- Conhecemo-nos no último ano. Saímos juntos assim que acabámos a licenciatura. Naquele primeiro Verão nunca nos separámos, depois arranjei trabalho, ela também,
e tivemos menos tempo para estar juntos. No entanto, durante quase três anos pensei que t
udo estava bem, especialmente quando nasceu a Lanie. Depois descobri que era tudo uma ilusão.
- E foste-te embora. O meu pai deixou um bilhete dizendo que estava farto e que isso seria a última coisa que saberíamos dele.
- Não foi assim exactamente. A Bárbara disse-me claramente que não queria saber nada de mim. Tinha outros planos. Depois disso... bem, fiquei um bocado maluco. Precisei
de algum tempo para me recuperar. Decidi alistar-me na marinha e servir o meu país
. Depois concentrei-me na minha carreira profissional.
- E agora a tua filha está a viver contigo e vais casar-te outra vez. Parece que regressaste para o mundo dos vivos.
- Sim.
- É uma pena que a Alice não tenha podido estar contigo e com a Lanie esta noite.
- Convidámo-la - o sorriso desapareceu do seu rosto. - Sabia que recusaria. Os cavalos e os churrascos não são coisas que lhe agradem. O clube de campo e os restaurantes
elegantes são mais do seu agrado. Seda e mármore, não lona e pinheiros. Viste-a n
aquela tarde no meu escritório. Está habituada a lidar com presidentes de empresas importantes. A sua família é dona de terras e de poços de petróleo, e ela é filha
única. Saltitar numa carroça de feno não iria agradar-lhe muito.
- Até parece que vais casar-te com o dinheiro.
- Muito dinheiro, não tenhas dúvidas. Mais do que eu alguma vez ganharei. E reconheço que não me oponho à ideia. Sou muito parecido com a Alice. Gosto das coisas
boas. Até fiquei surpreendido por me ter divertido
tanto esta noite. No entanto, amanhã talvez amaldiçoe as nódoas negras feitas pela carroça.
- Acho que a Lanie agradeceu a tua presença aqui olhou à volta da zona das cavalariças e deteve-o olhar na casa. - Se a Alice tivesse vindo, acho que não gostaria
deste lugar. Não é propriamente idóneo para a alta sociedade.
- Conquista-nos aos poucos - disse-o com tanta suavidade que Shaunna o fitou. Observava-a, com um sorriso demasiado quente e terno que se tornava incómodo.
- Já te apercebeste de que a Lanie não gosta muito da Alice? afastou a vista em seguida.
- Eu sei. Mas até há pouco tempo a Lanie não se entusiasmava com ninguém, por isso espero que a sua atitude mude com o tempo. Para ser sincero, até à semana passada
não pensava casar-me com ninguém. Nos últimos meses estive muito ocupado a tentar reso
lver as coisas com Lanie. Foi a Alice que sugeriu. E parece ser lógico. Não sei o que fazer com uma filha. Tive irmãos, não tive irmãs. Com a Lanie, passo a vida
sem saber o que dizer ou fazer. Só penso que se agora as coisas são difíceis, quando for
adolescente serão bem piores.
- Espero que percebas que as mulheres não são seres omniscientes... e têm de aprender a ser boas mães. A minha provou essa teoria. E acho que ages muito bem com
a tua filha. Só precisa de algum tempo para se adaptar a ti e aceitar a morte da mãe.
- Eu sei - concordou. - E tu foste uma grande ajuda, Shaunna. Quero que o saibas.
Ela permaneceu em silêncio e Tyler olhou-a. Na escuridão, mal discernia os seus traços. Apenas o suspiro que exalou deu sinal dos seus sentimentos.
- Tem cuidado, Tyler - sussurrou. - Gosto da tua filha. Detestava saber que alguém lhe faria mal.
- Eu também - voltou a tocá-la. Apenas a mão no braço. Precisava do contacto, precisava que ela entendesse
- Tu ajudaste, e muito. Nas últimas semanas registaram-se grandes progressos com a Lanie. Agora fala comigo e acho que se deve a ti.
- Não fiz nada de especial.
Não era preciso. Ela era especial. Tyler não conseguia explicar de que maneira. Mas sentia-o.
- Os cavalos falam contigo, e as pessoas também.
- Apenas se quiserem.
E ele queria. O mais louco de tudo era que queria contar-lhe mais, dizer-lhe como ela o confundia e perguntar-lhe por que razão o seu pensamento era perturbado sempre
que estava ao seu lado. Quisera beijá-la antes, como naquele momento... o que não er
a o melhor gesto para um homem que pensava casar-se.
- É melhor ir-me embora - levantou-se. - É tarde. Demasiado tarde para que me estejas a ouvir delirar.
- Não me importei - mas ela também se levantou, mantendo uma certa distância entre eles.
Tyler inclinou-se e pegou no blusão que estava no banco. Depois endireitou-se e ficou à sua frente.
- Vemo-nos por aí. Está bem?
Shaunna só falou quando ele começou a afastar-se. Depois falou nas costas dele:
- Tyler, faças tu o que fizeres, não cometas um erro.
- Não o farei - respondeu, mas sabia que já o tinha cometido. Nunca devia ter voltado naquela noite.
- Tens de vir - foi o que lhe disse Lanie naquela manhã. - Esta tarde a Shaunna vai colocar uma sela e montar o Magic e, se se portar bem, eu talvez também o monte.
Disse que se querias ver, devias ir por volta das três.
Viu as horas no tablier do carro. Faltavam cinco minutos para as três. Chegaria mesmo a tempo.
Estacionou no pátio do estábulo. Começava a reconhecer
os veículos que estacionavam ali com regularidade. A furgoneta velha era de Shaunna. A camioneta vermelha era da Maria, que, tinha descoberto, vivera ali trinta
dos seus quarenta e nove anos de idade. A camioneta verde era de Chris Prescott, e um auto
móvel cinzento de quatro portas pertencia à mãe de Bobby Hunt. O infame Bobby, inimigo de morte de Lanie.
Todas as noites, Tyler ouvia histórias sobre esse "idiota e estúpido Bobby", que estava sempre no estábulo e gozava com Lanie e dizia que o seu cavalo era feio.
Mas no churrasco Tyler percebera que Lanie também o provocava.
Quando encontrou a filha, esta estava de pé no exterior do picadeiro redondo. Bobby também lá se encontrava. Assim que viu o pai, voltou-se para o rapaz.
- Vês? Disse-te que vinha.
- E depois? O teu cavalo continua mal cheiroso.
- Não é verdade.
Ficou contente por ter roubado umas horas do seu trabalho, apesar do comentário de Gordon de que necessitava pôr ordem nas suas prioridades. Ao ver que Bobby fazia
uma careta a Lanie, soube que as suas prioridades estavam em ordem. Para ele, era impor
tante estar ali naquela tarde.
Lanie ficou perto dele, embora não tivesse deixado de fazer caretas a Bobby. Tyler observou-os um bocado e depois olhou em volta. Magic já estava no picadeiro, mas
não se via Shaunna em parte nenhuma.
- Está a preparar tudo respondeu Lanie à pergunta que ele formulara.
- Muito bem - observou o cavalo uns momentos. Tem bom aspecto.
Magic mudara drasticamente durante as cinco semanas que estivera com Shaunna. Uma ração completa começava a cobrir as suas costelas com carne e as escovadelas sistemáticas
de Lanie, assim que o cavalo
permitiu que lhe tocassem, tinham eliminado a sujidade, devolvendo o lustre à sua pelagem. Embora ainda não estivesse em condições perfeitas, parecia muito mais
são e em forma.
- Prontos?
Ao ouvir a voz de Shaunna voltou-se na sua direcção. Trazia uma sela e rédeas e, sob o braço, uma manta e um chicote. Como de costume, o seu coração começou a bater
mais forte assim que a viu. Começava a habituar-se a essa reacção. Embora não gostasse
.
Ela largou tudo excepto o chicote à entrada do picadeiro. Tyler fez um gesto com a cabeça quando Shaunna o olhou. Tinha evitado falar com ela desde a noite do churrasco.
Parecia mais seguro ir buscar Lanie e sair em seguida. Shaunna fazia-o pensar em
coisas descabidas e, naquele mesmo momento, ao vê-la, pensara que Alice tinha razão. Shaunna era atraente e desejável, principalmente pela forma como as calças se
ajustavam às ancas e pela forma que a camisa adquirira sobre o seu peito quando pegara n
a sela.
Shaunna observava Magic enquanto falava com Lanie.
- Sabe que vai acontecer alguma coisa. Olha como não pára de mexer as patas e como movimenta as orelhas. Acho que vamos aproveitar esse medo um bocado até reconhecer
que quer falar. Enquanto trabalho com ele, explicarei o que faço e o que tu deves esp
erar. Depois de o montar um bocado, se achar que é seguro, montas tu.
- Dantes era seguro - indicou Lanie. - Podia fazer o que quisesse com ele.
- E nas últimas cinco semanas fizeste muito, começa a lembrar-se do que a tua mãe e tu lhe ensinaram - voltou a olhar para Tyler. - Ainda bem que vieste.
Não ia perdê-lo.
Shaunna abriu a porta e entrou no picadeiro,
fechando depois a porta atrás de si, segurando no chicote com a mão direita. Magic olhava, afastando-se dela, nervoso.
- Sabemos que tem medo do chicote - explicou Shaunna para que todos, em especial Lanie, pudessem ouvi-la. - Sabemos que o castigaram no outro estábulo. Disseste-me,
Lanie, que o homem que a tua mãe contratou para o domar também usava um chicote - mant
eve o seu baixo, junto à perna. - Quero comprovar se o facto de eu ter um o enfurece, e que veja que o chicote, em si mesmo, não é mau, que não o vou castigar. Caso
contrário, um dia estás a montá-lo e, se vir um chicote em algum lado, vai espantar-se
.
Deteve-se no meio do picadeiro de frente para o cavalo. Este observava-a... e ao chicote também. Shaunna ergueu-o um pouco para que pudesse vê-lo bem; o animal virou
as orelhas para trás. Bufou e mexeu-se, e ela estalou-o no ar. Os olhos de Magic abri
ram-se muito, mas, em vez de se lançar sobre Shaunna, assustou-se e afastou-se dela dando voltas ao picadeiro.
Shaunna virava-se para estar sempre de frente para o animal, com o chicote bem visível. O animal continuou a galopar em círculos enquanto Shaunna falava com calma
aos que estavam fora do picadeiro.
- Isto está bem. Fugiu em vez de atacar. Agora vamos centrar-nos nos seus instintos. Os cavalos são basicamente preguiçosos e em breve vai cansar-se e compreenderá
que ninguém o magoou, por isso diminuirá a velocidade. Mas não quero que pare, não pára
já. Este é o primeiro passo para lhe ensinar o impulso para a frente. Além disso, quero que entenda que o chicote não o vai magoar e que continuar é uma perda de
energia.
Tyler notou que o cavalo estugava o passo; viu que ela então fazia estalar o chicote sem tocar no animal. Magic iniciou outra corrida frenética. Shaunna repetiu-o
várias vezes, obrigando o cavalo a inverter a direcção
duas vezes. Tyler começou a ver a beleza de um picadeiro redondo. O cavalo podia correr o que quisesse, mas encontrava-se sempre à mesma distância do tratador.
Começa a cansar-se explicou Shaunna. - Quer falar da situação. Observem como vai mover a orelha mais perto de mim e como o seu olhar vai ficar mais suave. Assim.
Diz-me que está cansado de tanto correr, e como não o magoei, se tenho alguma coisa a diz
er, vai ouvir-me. Depois baixará a cabeça e vai aproximá-la do chão.
Tyler verificou que ele fez tudo o que ela dissera. Magic observava-a sem essa expressão assustada nos olhos.
- Quando começar a mexer a boca e a lamber os lábios anunciou Shaunna, - estará pronto. Terá compreendido - Magic deitou a língua de fora e Shaunna sorriu. - Muito
bem. Agora vou deixar de ser uma ameaça - virou-lhe as costas, sem sequer o olhar e Mag
ic ficou paralisado, olhando-a.
Shaunna afastou-se dele e Tyler conteve a respiração. Cinco semanas atrás tinha visto Magic tentar atacar Lanie. Parecia incrível que nesse momento ela lhe virasse
as costas.
Magic hesitou, depois começou a segui-la como um cachorro. Shaunna sorriu a Lanie.
- Está a dizer-me "Espera, não me deixes". Como já não represento uma ameaça, o seu instinto de animal gregário indica-lhe que deve ficar comigo.
Quando ela se deteve, o cavalo imitou-a. Ao dar mais uns passos, ele seguiu-a, aproximando-se mais de cada vez. Por último, ao deter-se novamente, Magic aproximou-se
e com o focinho empurrou-lhe o ombro. Ela virou-se para o olhar. O animal não fugiu e
deixou que ela lhe tocasse; Shaunna acariciou-lhe primeiro o pescoço, depois o lombo.
Quando passou o chicote pelo corpo do animal, usando-o para o coçar, Magic apenas o cheirou. Tyler estava assombrado. Depois pôs-lhe a manta, e depois a sela. Lentamente,
apresentou cada objecto a Magic, permitindo que as cheirasse para depois o esfre
gar com eles e, no final, colocar-lhas sobre o lombo. O animal aceitou bem as rédeas e o freio. Depois de selado, Shaunna fê-lo correr outra vez à volta do picadeiro,
repetindo o processo anterior. Mas foram apenas precisas duas voltas para Magic dobr
ar a orelha na sua direcção, baixar a cabeça e começar a mordiscar o freio. Quando Shaunna se acomodou sobre a sela, sem que Magic mexesse sequer o rabo, Tyler olhou
o relógio. Tinha levado meia hora. O cavalo selvagem que passara fome, que tinha sido
maltratado e que se tinha convertido no animal que nenhum estábulo quisera aceitar, estava sossegado e calmo à espera que Shaunna lhe dissesse o que queria.
Sabia que testemunhara um acto de magia.
Shaunna percorreu o picadeiro a passo, depois a trote. Embora segurasse nas rédeas, não exercia pressão sobre o freio. Não era importante a direcção que seguisse
o animal. Nesse momento, a única coisa que ela desejava era que o animal recuperasse a co
nfiança, dar-lhe a entender que ser montado não era uma coisa impossível.
O modo como Magic respondia satisfez Shaunna, que não viu motivos para que Lanie não o montasse. Depois de se ter mostrado paciente com o seu cavalo, merecia uma
recompensa. Guiou o animal com a perna e conduziu-o até à porta.
- Queres montá-lo? - perguntou a Lanie.
- Quero - os olhos da pequena iluminaram-se e ela correu até à porta, desvanecido quase por completo qualquer sinal da deficiência física que lhe afectava o andar.
Shaunna começou a desmontar. Foi quando Jeffrey
Prescott se fez notar. A criança de seis anos apareceu a correr pelo outro extremo do picadeiro atrás do cão terrier da mãe de Bobby Hunt, sem deixar de fazer rodar
uma corda no ar e gritar.
Magic contraiu os músculos das costas e Shaunna soube o que ia acontecer mesmo antes de acontecer. Mostrara ao cavalo que o chicote não representava qualquer perigo,
mas ver e ouvir Jeffrey perseguir o cão foi interpretado pelo animal como algo perigo
so.
Tentou voltar a acomodar-se na sela, mas era demasiado tarde. De um salto, Magic afastou-se da porta e do menino. Se ela estivesse sentada na sela, poderia tê-lo
voltado com alguma facilidade. Mas tal como estava, desequilibrou-se e, como um saco de b
atatas, foi atirada para um dos lados.
Para Tyler tudo aconteceu demasiado depressa. Ouvira o menino, mas quando olhou na sua direcção pelo canto do olho, também vira Magic novamente com uma expressão
de medo. O cavalo girou e levantou as patas dianteiras, e Shaunna fora disparada para o c
hão.
Viu que batera com a cabeça num poste da cerca... na verdade, ouviu o som. Sentiu um nó de medo no estômago. Uma coisa era uma queda directa no chão, que podia provocar
uma fractura ou hematomas, outra coisa era uma lesão na cabeça. Esta podia ser des
astrosa. Fatal. Fora fatal para a mãe de Lanie e a ferida que a menina sofrera na cabeça quase lhe provocara a morte.
Durante um instante, apenas pôde contemplar a forma inerte de Shaunna no chão. Depois sentiu a adrenalina e começou a correr, praguejando quando a porta não se abriu
de imediato. Assim que entrou, lançou-se sobre Shaunna. Ajoelhou-se a seu lado e toco
u-lhe no braço, receoso do que pudesse encontrar.
- Shaunna? - viu que ofegava e soube que estava viva. Virou depois um pouco a cabeça para o ver, e o leve sorriso que esboçou indicou-lhe que o reconhecia.
Ele sentiu alívio e preocupação. Sabia o suficiente de primeiros socorros para saber que devia estabilizar-lhe o pescoço e a coluna. - Não te mexas. Fica quieta.
- Estou... estou bem - ignorou a sua ordem e mexeu-se. Rodou até ficar de lado e sentou-se.
Precisas de te deitar - tentou detê-la. - Podes ter partido alguma coisa.
- Acho que bati com a cabeça - virou-se devagar e esfregou a nuca, depois tocou na fronte.
- Sim, contra o poste do gradeamento - contemplou o ponto onde ela esfregava; começava a formar-se um "galo". - Talvez tenhas uma contusão.
Ela voltou a girar a cabeça com cuidado. Depois dirigiu a vista para o outro lado do picadeiro. Tyler seguiu o olhar dela e viu Lanie com Magic. A menina acariciava
o pescoço do cavalo e falava com ele. Perto dela estava Bobby.
- Está bem? - perguntou Shaunna a Lanie, e ao falar fez uma careta.
-Apenas assustado - informou a pequena. -Tu estás bem?
Um pouco amachucada, mas hei-de sobreviver. Não pares de lhe dizer que está tudo bem - agarrou o braço de Tyler. - Ajuda-me a levantar.
- Não. Deves ficar deitada - não sabia como dizê-lo de forma mais clara; era como se falasse para as paredes. Shaunna estava já a levantar-se.
Por isso ajudou-a, amparando-a com um braço à volta da sua cintura ao ver que cambaleava. Ela olhou-o com olhos meio tontos.
- Devemos tirar-lhe a sela e as rédeas e levá-lo para a cavalariça.
- A Lanie pode fazer isso? Onde está o teu capataz?
- olhou em volta à procura de Todd.
- Diz ao Bobby que o vá buscar e certifica-te de que Jeffrey pára de agitar essa corda. O Magic não estava
preparado para isso voltou a esfregar o pescoço e a cabeça. - Eu não estava preparada para isso - chamou Lanie. - Trá-lo até aqui - a menina obedeceu e Shaunna falou
ao cavalo, acariciando-o. Depois dirigiu-se outra vez a Lanie. Leva-o para a cavalari
ça. Tiramos-lhe as rédeas lá. Acho que não é boa ideia que o montes hoje.
Tyler viu que a filha estava decepcionada, mas concordou e puxou um pouco as rédeas de Magic.
- Vamos, rapaz. São horas de sair daqui.
Shaunna caminhou até ao estábulo, mas deteve-se. Olhou-o e Tyler sabia que alguma coisa não estava bem. A cor desapareceu da sua face e os olhos adquiriram uma expressão
perdida. Apercebeu-se então de que desmaiava à sua frente. Estendeu os braços e
Segurou-a antes de que se estatelasse no chão.
***
Capítulo 9.

Às sete e meia dessa tarde, Shaunna encontrava-se na sua cama, com almofadas nas costas e um saco de gelo sobre o lado esquerdo da cabeça. Passara três horas e meia
nas urgências, tinha uma incessante dor de cabeça e uma sensação horrível de que ia fi
car na falência quando chegassem as contas do hospital. Mas não podia queixar-se, não com Maria e Lanie em frente à sua cama com uma expressão preocupada, e Tyler
sentado a seu lado, segurando-lhe na mão como se ela fosse desmaiar se a largasse.
- Estou bem - disse-lhes, com receio de que ficassem ali toda a noite. - Vi estrelas durante uns instantes, mas estou bem. Como está o Magic?
Está bem - respondeu Lanie. Lamenta ter-te deitado ao chão. Foi sem querer. Assustou-se com a corda.
- Não o culpo - sabia que Lanie precisava de ouvir aquelas palavras. - Nem ao Jeffrey - embora tivesse que falar com Chris. O menino poderia causar um grave acidente
se não fosse mais vigiado.
- O Bobby deu um grande susto ao Jeffrey - informou Lanie, soltando um risinho. - Não voltará a agitar nenhuma corda à frente do Magic.
Shaunna interrogou-se o que teria ele feito. Seria melhor falar também com a mãe de Bobby. Voltou a cabeça devagar e com cuidado e olhou para Tyler.
- Devia agradecer-te por me teres levado ao hospital e por teres ficado comigo.
- Apesar de todos os teus protestos, não foi? sorriu.
- Sabia que não era nada sério - embora tivesse gostado de o ouvir da boca de um médico e agradeceu o facto de Tyler a ter acompanhado.
Estávamos todos preocupados - comentou Maria com uma pronúncia mais acentuada do que o habitual, o que acontecia quando ficava nervosa. - Estás mesmo bem?
- Estou bem - repetiu Shaunna. - Tenho dores de cabeça, só isso.
- Tem uma contusão - corrigiu Tyler. - É preciso ver como está de quatro em quatro horas durante a noite. Como está escrito nessa folha que lhe dei. De certeza que
não se importa de fazer isso?
- Não há problema - Maria olhou Shaunna com o sobrolho franzido. - Mas fica na cama, como disse o médico.
- E as coisas que tenho para fazer? - embora Todd cuidasse do estábulo grande, o pequeno era da sua responsabilidade, e via sempre o estado dos cavalos ao fim do
dia.
Maria passou um braço gorducho pelos ombros de Lanie, atraindo a menina, tal como fizera quando Shaunna chegou ao estábulo doze anos atrás.
- A Lanie e eu ajudaremos o Todd a alimentar e medicar os animais. Está combinado. Venho mais tarde para ver como estás. Agora vamos preparar o jantar, correcto?
- olhou a menina e esta concordou e devolveu o sorriso.
- Correcto - depois olhou para o pai. - Podemos ficar para o jantar?
- Acho bem - apertou a mão de Shaunna. - Raramente tenho a oportunidade de saborear uma comidinha caseira sem ter sido preparada por mim.
- Tu não saias da cama - disse Maria a Shaunna. -
Descansa - indicou Tyler com um gesto de cabeça. Fala com ele enquanto eu e a Lanie tomamos conta de tudo.
Ao ver as duas a sair do quarto, sentiu que lhe tinham tirado todo o peso de cima. Mas não sabia se queria falar com Tyler, e isso não se devia unicamente à dor
de cabeça. Sentia-se irritada com ele.
Dissera-lhe que não precisava de ir ao hospital. Talvez ele tivesse um bom seguro médico, mas ela não. Sim, tinha ficado com tonturas e tinha desmaiado. Mas isso
não era grande coisa. Não demorou a recuperar os sentidos. Não precisava de um médico par
a lhe dizer que ia ficar com um galo na cabeça e que devia tomar duas aspirinas e que telefonasse de manhã, caso se sentisse pior.
- Bom, devia deixar-te descansar um pouco - disse Tyler, mas não largou a mão dela nem deu qualquer sinal de ir embora.
Shaunna viu preocupação no seu rosto e soube que não podia continuar zangada com ele.
- Estou bem - repetiu mais uma vez.
- Tens uma contusão.
- Uma ligeira contusão. Foi o que o médico diagnosticou. Ligeira.
- Perdeste os sentidos.
- Devo ter-me mexido muito depressa. Foi só isso e ficou como uma tonta... embora tivesse achado comovedor ter acordado nos braços dele enquanto a levava para casa.
Para contabilista, Tyler Corwin estava em muito boa forma física.
Sorriu. Era muito atraente e prestável. E se não parasse de a olhar daquela maneira, ia começar a dizer-lhe que era maravilhoso, que se sentira muito bem nos seus
braços e que adorara quando ele gritou no hospital para que a socorressem.
- O que tem tanta graça? - perguntou ele e inclinou a cabeça.
- Parece que ao teu lado sou propensa a acidentes.
- Espero que tenhas um bom seguro.
- Oxalá tivesse o sorriso desapareceu do seu rosto.
- Não tens?
- Para os estábulos, sim. Tenho o melhor seguro de responsabilidade civil que existe. É a minha obrigação. E um seguro óptimo para quem ficar ferido nas minhas instalações.
Mas para diminuir as despesas, cortei no meu seguro médico.
- Quanto?
- Não sei. Os números exactos escapam-me - como sempre. - Dois mil dólares, acho eu. Mais ou menos.
Ele reclinou-se na cadeira, sem lhe largar a mão.
- Ou seja, apenas dispões de seguro para questões de saúde mais graves, e estas facturas de urgências terás de as pagar do teu bolso.
- Cá me hei-de arranjar - não tinha outro remédio.
- Foi o Magic que te colocou nesta situação. Eu trato das facturas.
- Não - franziu o sobrolho e soltou a mão. - Um treinador sabe que aceitar um cavalo problemático é arriscado. Que raio, os cavaleiros correm riscos sempre que montam.
Sabia que o Magic era assustadiço. Devia ter-me preparado melhor, estar pronta para
o que pudesse acontecer. Não posso deixar que pagues. Faz parte do meu negócio.
- Vou pagar - sorriu. - E não poderás deter-me. Espero até que a factura se venha juntar às outras que tens na cozinha, depois tiro-a e nunca perceberás que desapareceu.
- Não tens graça nenhuma.
- Já pensaste alguma vez em deixar este negócio? olhou o seu braço direito, onde a dentada do cavalo deixara uma cicatriz e o saco de gelo na cabeça. - Não pareces
ganhar muito dinheiro e corres riscos.
- Deixar de trabalhar com cavalos? E fazer o quê,
Tyler? Trabalhar num restaurante de comida rápida? Num escritório? É impossível para mim.
- Não é impossível. As pessoas mudam de profissão a toda a hora. Já ouvi dizer que os trabalhadores têm em média dezoito trabalhos diferentes na sua vida.
- Óptimo, mas eu não sou o trabalhador médio. Não gosto de números. O que para ti é fácil, para mim não é. E não penso sair daqui. Nunca. Este lugar foi-me confiado,
e vou cuidar dele.
Tyler ficou surpreendido ao ver lágrimas nos olhos dela. Vira-a sentir dores e nunca derramara uma lágrima. Nesse momento, e apenas por lhe dizer que mudasse de
emprego, começou a chorar.
- Desculpa. Não devia ter feito nenhum comentário. Tenho a certeza de que sentes que tens obrigações aqui.
- Não, não é uma obrigação, Tyler. É uma prenda. Não entendes. Tinha dezasseis anos quando vim para aqui. Tinha fugido de casa e pedido boleia na estrada e passei,
a pé, do Arizona para a Califórnia. Sobrevivia do que tirava dos caixotes de lixo e dor
mia onde podia quando encontrei este lugar. Embora não acredite que tenha vindo cá parar por casualidade. Acho que um guia divino me conduziu até cá. Quem sabe como
podia ter acabado se não fosse a Betsy. Acho que ela sabia que eu fugira de casa assim
que pus um pé nesta propriedade. Fingi estar interessada em aprender a montar, mas acho que não consegui enganá-la. Regressei ao anoitecer. Pensei em roubar o que
encontrasse na caixa onde a vi guardar o dinheiro dos alunos, e seguir o meu caminho an
tes que alguém desse por isso. Mas as coisas não se passaram assim.
- Apanhou-te a roubar?
- "Encontrar" é uma palavra mais adequada. Não estava nos meus planos que nessa noite a Betsy estivesse a cuidar de um cavalo doente. Descobriu-me a mexer no dinheiro,
disse-me para ficar com ele, se
precisasse, e depois convidou-me a comer alguma coisa. Antes de terminarmos, oferecera-me um trabalho e um lugar para ficar. E eu aceitei. Não fez perguntas, esperou
que eu estivesse preparada para lhe contar o que acontecera - baixou o olhar para o c
obertor. - Ela dormia aqui. A sua cama. Tratou-me como uma filha. Deu-me tudo o que eu jamais tivera. Amor e aceitação.
- E a tua mãe? Não te procurou?
- Raios, não - riu com amargura. - A minha mãe não se importou que eu fosse embora. Quando a Betsy soube a minha idade e o que eu tinha feito, telefonou à minha
mãe. Esta ficou muito contente em dar autorização para eu ficar aqui... desde que ficasse
em segredo e pudesse dizer que eu dependia dela até fazer os dezoito anos.
- Foi assim que esta casa se converteu no teu lar e tens vivido aqui desde então?
Ela concordou lentamente.
- E quando a Betsy morreu, há treze anos, os estábulos e a propriedade passaram a ser meus.
- Deixou-tos?
- Deixou. Tudo o que se relacionava com os cavalos, incluindo as poucas cabeças que criámos, passou a ser meu - apontou para a cozinha. - E a Maria, enquanto for
viva, pode ficar aqui. A Betsy deixou-lhe o carro, algumas acções e dinheiro. Além do que
já deixara para a educação da filha.
- Meu Deus, essa mulher tratou-vos como se fossem da família.
- Porque o éramos. A Maria, como eu, também fugiu. A Betsy encontrou-a quando tinha dezanove anos, grávida e ilegal no país. Acolheu-a, deu-lhe um lar, ajudou-a
a obter a nacionalidade e a criar a filha. Não conheceste a Ana. É amorosa. Agora está na
universidade e tudo lhe corre bem.
- Quantos anos tinha a Betsy quando morreu?
- Setenta e três. Tinha sessenta e quatro quando a conheci. Nunca se casou, nunca teve uma família própria. O único irmão que teve morreu com vinte anos. Não tinham
mais parentes. Mas afirmava que era mais feliz do que a maioria das pessoas. Acabou po
r escolher a própria família. Era o seu estilo. Andava por aí à procura de criaturas perdidas ou abandonadas... cães, gatos, cavalos, pessoas. Quem tivesse problemas.
Os deficientes.
- Tradição que tu segues, não é? - começava a entender.
- Sim, acho que sim - voltou a encará-lo. - Tyler, talvez tenhas razão ao dizer que este negócio não é o mais seguro, e não é, sei que não farei fortuna aqui, em
especial se continuar a aceitar cavalos que outros recusaram. Mas não posso permitir que
acabem no matadouro, e ocupar-me de cavalos é uma coisa que sei fazer. Se achas estranho que goste deste trabalho, também posso dizer-te que ser contabilista e trabalhar
com números me parece estranho. Aliás, aterrador.
- Sim, mas os números não mordem. Não te atiram pelo ar.
- Mas o Magic não o fez esboçou um sorriso envergonhado. - Virou-se e eu caí.
- Shaunna... - tocou-lhe na face com a ponta dos dedos. - Se ao menos... - viu que humedecia os lábios, e lembrou-se que ela dissera que quando o Magic fizesse isso
era sinal de que estava disposto a comunicar. Ele sabia o que queria comunicar. Espera
va entender o que Shaunna estava a querer comunicar. Sentou-se na borda da cama. O colchão cedeu sob o seu peso e ele aproximou-se. - Hoje assustaste-me - sussurrou,
sabendo que o assustava sempre. - Pensei que te tivesse acontecido alguma coisa horrí
vel.
- Tyler? - pronunciou o nome hesitando, e ele soube o que ela lhe pedia.
Não respondeu porque desconhecia a resposta. Só sabia que queria beijá-la, estivesse errado ou certo.
Com suavidade, pousou os lábios nos seus. Ela não mexeu nem a boca nem o corpo. Nem sequer deu a impressão de respirar; afastou-se um pouco e contemplou-a.
Shaunna olhava-o com os olhos abertos e luminosos. Tinha os lábios um pouco separados, e Tyler pensou que fosse falar, mas sorriu e esticou o braço, colocando a
mão atrás do pescoço para o aproximar dela.
Nesse momento foi ele quem viu estrelas. Soube que o seu mundo estava virado do avesso. Ouviu o seu próprio suspiro. Ou talvez fosse o dela. Sentiu que a língua
brincava com os lábios dela. Húmida e hesitante, a sua própria língua saiu em desafio. A c
uriosidade viu-se confrontada com o conhecimento.
Shaunna não era tímida nem hesitante. Meteu os dedos por entre os cabelos dele e colou-o a ela, depois passou as mãos pelos braços masculinos. Tinha as unhas curtas
e enquanto provocava a sua pele, o seu corpo recebeu mensagens. Tinha aberto a caixa d
e Pandora, e nesse momento todas as emoções escaparam. O desejo misturou-se com algo parecido ao amor. Disse para consigo que não podia ser amor. Essa emoção estava
proibida. Não podia admiti-la.
Com cuidado com o hematoma que tinha na cabeça, passou um dedo pela face. Uma lágrima deixara um rasto húmido. Secou-o, depois deixou a mão descer até ao ombro.
Mal continha os impulsos que sentia no seu interior. Sentiu-se ligeiramente aliviado quand
o ela fez uma pressão no peito dele e os separou. Chegou-se para trás à espera de uma palavra ou um sinal. Estava certo de que ela sabia que desejava fazer amor.
Não é que fosse tentar que isso acontecesse. Não nesse dia. Acabava de a trazer da sala d
e urgências do hospital, além de que Maria e Lanie estavam na cozinha.
Shaunna fechou os olhos e Tyler observou o rápido subir e baixar do seu peito ao respirar.
- Isto não é o que o médico receitou - disse ele com a voz rouca pela emoção.
- Talvez não - repetiu ela e abriu os olhos; uma expressão de preocupação substituiu o sorriso lânguido que momentos antes existira nos seus lábios. Provavelmente
é uma coisa que não devemos fazer.
- Talvez - mas ele sabia que desejava voltar a beijá-la, queria fazê-lo toda a vida.
- O que me dizes da Alice? - Shaunna respirou fundo.
Foi como se o tivesse esbofeteado com o saco de gelo. Esquecera Alice por completo, bem como Bárbara e o que esta lhe fizera.
Cravou o olhar na parede atrás dela e tentou recuperar o controlo. "O que tem a Alice?", repetiu.
Alice era como ele. Com ela mantinha o controlo. Entendiam-se mutuamente. Ambos tinham objectivos. Ambições. Não deixavam que as suas emoções os dominassem.
Por outro lado, Shaunna aceitava riscos, interessava-se muito mais pelas pessoas e pelos cavalos do que em ganhar dinheiro. Envolvia-se emocionalmente. Exprimia
de forma aberta os seus sentimentos.
Bem, as emoções eram perigosas, deixavam uma pessoa vulnerável. Quando uma pessoa se preocupa com as outras pode sair magoada.
O seu silêncio foi muito eloquente para Shaunna.
- Compreendo - deixou que as mãos caíssem dos braços dele. - Podes dar-me um copo de água, por favor? Tenho muita sede.
Duvidava que ela entendesse, mas não podia explicar-lho, e necessitava de distância e de tempo para pensar. Levantou-se. Não deveria tê-la beijado, não deveria ter
cedido aos seus impulsos. O melhor era ir-se embora.
- Vou buscar-te um copo de água e ver como está o jantar - disse e saiu do quarto.
Embora Alice lhe tivesse feito a proposta de casamento no início de Julho, não voltaram a falar do assunto. Primeiro, devido ao churrasco; fora ele quem pedira tempo
para pensar sobre o assunto. Depois Alice teve problemas com uma conferência. Não tiv
era tempo para falar, nem para o ver, e Tyler tirara da cabeça a ideia do casamento. A sua principal preocupação era a sua relação com Lanie.
No entanto, nesse momento, soube que tinha de tomar uma decisão. Não podia beijar Shaunna e pensar em fazer amor com ela e ponderar a hipótese de casar com outra
mulher. Talvez Shaunna não fosse a mulher ideal para ele, mas deixar Alice eternamente à
espera também não estava correcto.
Na manhã seguinte tentou telefonar-lhe. A gravação da sua voz no atendedor de chamadas informou-o que não estava em casa, pelo que deixou recado pedindo-lhe que
lhe ligasse quando pudesse, dizendo que precisava de falar com ela.
Não lhe telefonou até Gordon Fischer entrar no escritório de Tyler e pedir-lhe que almoçassem juntos num restaurante mexicano situado a um quarteirão da empresa.
- Quero a tua opinião sobre o sistema de contabilidade que estamos a pensar comprar - informou Gordon.
- Será um prazer - sentiu-se lisonjeado por ter sido incluído na decisão. Levantou-se e vestiu o casaco.
Foram a pé até ao restaurante e o calor, em vez do software, dominou a conversa. Para surpresa de Tyler, quando chegaram, Alice esperava-os no restaurante.
- Tentei falar contigo esta manhã.
- Não recebi a tua mensagem - ela sorriu, - mas eu também queria ver-te. Acho que as grandes mentes
pensam da mesma forma. Senta-te - indicou a cadeira a seu lado. - Tio Gordon.
Quando o empregado de mesa registou o pedido das bebidas, Gordon falou:
- E então, Alice, decidiste a data do casamento?
- Data do casamento? - Tyler quase se engasgou e sabia que ia ser uma situação embaraçosa. Queria ter falado a sós com Alice, explicar-lhe os seus sentimentos e
preocupações. Olhou-a.
Ela sorriu-lhe com calidez e colocou a sua mão sobre a dele.
- Estivemos os dois tão ocupados, querido, que não quis pressionar-te, mas temos de marcar uma data.
-Alice, tentei telefonar-te...
- Pelo que a minha esposa diz - interrompeu Gordon, - são precisos meses para planear a festa de casamento. Pelo menos uma que seja decente - observou a sobrinha.
- A tua tia diz que vai ajudar no que puder.
- Isso é óptimo, tio Gordon - Alice largou a mão de Tyler e tirou um bloco da carteira. - Tirei algumas notas, ideias sobre o tema.
- Alice, precisamos de falar primeiro - indicou Tyler com a esperança de a deter.
O seu esforço foi inútil. Alice continuou como se tudo estivesse decidido. Não importava que ele não tivesse dito que ia casar com ela. Decidira as cores, a música,
inclusive o número de convidados. Sempre a organizadora eficiente: redigira uma lista.
Por fim, fez uma pausa e olhou-o.
- Acho que Maio será um mês perfeito. Não achas, Tyler?
- Alice, o telefonema desta manhã - começou, determinado a não permitir que voltassem a interrompê-lo era para te dizer que decidi não me casar.
- O que queres dizer com isso? - perguntou Gordon, elevando um pouco a voz.
Tyler viu o olhar reprovador do seu patrão.
- Quero dizer que acho a sua sobrinha uma mulher maravilhosa... - olhou para Alice. - Sabes que és. E qualquer homem ficaria orgulhoso de ser teu marido. Mas não
acho que o casamento seja o mais adequado para a Lanie neste momento... nem para mim.
- Estás a dizer-me que não vais casar-te comigo? Alice parecia desnorteada.
- Queria dizer-to em privado - claro que não num restaurante e à frente do tio. - Mas...
- Talvez devesses compreender as consequências dessa decisão - interveio Gordon, sem qualquer rasto de cordialidade no seu semblante. - A Alice considera que, como
seu marido, serias a pessoa perfeita para organizar as suas finanças. No entanto, se pe
nsas que casar-te com a minha sobrinha vai contra os teus interesses, então não poderemos confiar em ti para dirigires o seu património. E se tenho de contratar
outra pessoa para isso... - fez uma pausa e esboçou um sorriso forçado. - Bem, temos uma q
uota limitada de contabilistas na firma. Alguém terá de sair.
- O que está a dizer é que se não me casar com a Alice estou despedido?
- Despedido? - Gordon abanou a cabeça. - Não. Mas acho que podes entender a economia da questão sem deixar de sorrir, deu uma palmadinha no braço de Tyler. - Por
que não tiras o resto da tarde para ti, filho? Pensa nisso. És um bom rapaz - olhou para
Alice. - A minha sobrinha gosta de ti.
O primeiro impulso de Tyler foi dizer a Gordon que se esquecesse do trabalho, que se demitia. Mas conteve-se. Um ano antes teria podido fazê-lo; estar sem emprego
não lhe teria importado. Era um bom contabilista. Muito bom. Conseguiria outro trabalho.
Poderia constituir a sua própria empresa.
O problema é que nesse momento tinha de pensar na
Lanie. A falta de trabalho implicava não ter seguro médico, e com a Lanie prestes a montar o Magic, o seguro era imprescindível. Via com que frequência Shaunna se
magoava. A perda de emprego significaria um corte nas despesas, e tinha de pensar nas de
spesas de alojamento e treino do Magic.
Significaria igualmente um afastamento entre ele e Lanie, justamente quando começavam a sentir-se uma família, na qual, de certa forma, chegara a incluir Shaunna
Lighfeather.
Não, não podia dar-se ao luxo de dizer nada precipitadamente.
- Vou pensar, Gordon - afirmou e levantou-se. Fez um gesto de cabeça a Alice. - Depois falamos.
***
Capítulo 10.

Tyler não se dirigiu directamente para o seu carro. Caminhou durante uma hora, contemplando as montras sem nada ver. Gordon pedira-lhe que meditasse, e era isso
que faria. Pensou no seu passado e no seu futuro. Durante quase um ano tinha trabalhado pa
ra a Smith e Fischer. Fizera-o com afinco, formando uma boa carteira de clientes e pensara que fora rentável para a empresa. Mas parecia que a sua capacidade residia
na sua capacidade para produzir um herdeiro.
Gordon deixara-o claro. Se se casasse com Alice teria trabalho. Se não, iria para a rua. Não seria de imediato, mas Tyler sabia como as coisas se passariam.
Se não fosse por Lanie, teria respondido nesse mesmo instante a Gordon. E nem sequer consideraria a proposta de Alice. Mas devia pensar na filha.
Quando entrou no carro, não tinha qualquer destino na cabeça. Durante uns quilómetros apenas conduziu. Não reconheceu a direcção que tomava até se aperceber de que
se encontrava a meio caminho dos estábulos de Shaunna.
Eram quase duas da tarde quando Tyler entrou no estacionamento. Sabia que Lanie ainda não estava pronta para se ir embora. Já percebera que podia estar horas a fio
no estábulo sem nunca estar pronta para se ir embora. Decidiu que faria uma visita. Pod
ia, assim, ver como estava Shaunna.
Pela primeira vez desde que abandonara o restaurante teve consciência da temperatura. Atirou o casaco e a gravata para o assento traseiro do carro, arregaçou as
mangas da camisa e desabotoou os botões de cima. Fez festinhas nas cabeças dos cachorros que o cumprimentaram e dirigiu-se à casa. Imaginou que Shaunna começasse
a trabalhar com calma depois do acidente.
-Tyler! Por aqui!
O som da voz de Shaunna vinha dos picadeiros de treino. Surpreendido, girou nessa direcção e viu-a de pé no de maiores dimensões. Estava apoiada na cerca, com o
cabelo apanhado numa só trança e com um chapéu de cowboy sobre a cabeça para se proteger d
o sol. Agitou uma mão para o cumprimentar.
Não esperara vê-la levantada, muito menos fora de casa, e perturbou-o a contracção que sentiu entre as pernas. Nunca entenderia como podia ser tão tentadora com
uma t-shirt, calças de ganga e botas. A roupa revelava pouco, mas não impedia que a sua im
aginação tivesse asas.
- A Lanie está aqui - apontou para o picadeiro.
Viu-a nesse momento. Montava o Magic, situada entre dois cavalos, montados por Patti e Bobby. Os três animais trotavam. Quando Lanie chegou ao extremo mais afastado,
viu-o e agitou a mão.
- Estou a montá-lo - anunciou.
- Estou a ver - com passo rápido uniu-se a Shaunna em frente à cerca. - É seguro montá-lo? - lembrou-se como o cavalo se tinha portado na véspera.
- Estive com ele um bom bocado no picadeiro redondo, depois montei-o meia hora. Portou-se bem, por isso não vi qualquer motivo para que ela não o montasse - sorriu.
- E o Jeffrey não anda por aqui.
- Montaste-o? - olhou-a fixamente. - O médico disse que devias ir com calma durante um ou dois dias inclinou-se um pouco para poder ver-lhe a fronte debaixo do chapéu.
Ainda que já não tão pronunciada como no dia anterior, a nódoa negra mostrava uma p
ele roxa pouco atraente.
- Sim, tenho um galo - voltou-se para o picadeiro. Mas mesmo assim devo cumprir o meu trabalho. Olha a tua filha, Tyler. Este é um grande passo para ela. Vê como
foi meiga para o Magic, a paciência que mostrou. Repara como fala com ele, acalmando-o.
Shaunna ignorava a sua preocupação, e sabia que não fazia sentido discutir com ela. Seguiu a sua sugestão e observou Lanie. Sorria como nunca a vira sorrir antes.
- Nem posso acreditar que é o mesmo cavalo que trouxemos para cá há menos de dois meses - ou a mesma menina, poderia ter acrescentado.
- Fez muitos progressos - voltou a encará-lo. - Hoje a Lanie perguntou-me se pode exibi-lo este Verão. Não sei o que pensas a esse respeito, mas se o Magic continuar
a melhorar, acho que poderá fazê-lo.
- Exibi-lo? Referes-te a uma exibição de cavalos?
- Haverá uma mostra daqui a duas semanas. O Bobby e a Patti vão participar. Não espero que Lanie ganhe nada, mas será uma boa experiência para ela.
- Acho que não haverá qualquer problema - respondeu ele, e depois lembrou-se do motivo por que não estava a trabalhar. Talvez nessa altura estivesse sem emprego.
- Falamos de muito dinheiro?
- Não. É uma mostra pequena. Quase todos amadores. A inscrição é barata e pode ser paga no próprio dia - riu entre dentes. - O Bobby não vai gostar nada. Andou a
elogiar o seu cavalo, dizendo que é o melhor, e acho que o júri não vai estar de acordo c
om ele. A propósito, o que fazes aqui tão cedo? Tiraste o dia de folga, foi?
- Tenho a tarde livre. Para pensar.
- Pensar? E sobre o que é que deves pensar?
- No meu futuro.
- É um tema muito profundo. Tomaste alguma decisão sobre o teu futuro?
- Ainda não - pensou que o melhor era explicar-lhe.
- O meu patrão convidou-me hoje para almoçar. Disse que queria falar sobre um novo programa informático que ia comprar para a empresa. Mas a Alice também estava
no restaurante e a reunião era para falarmos de nós, do casamento.
- Compreendo.
Shaunna desviou o olhar e Tyler viu que ela contraía o maxilar antes de voltar a olhá-lo. Sabia que não entendia. Como podia ela entender se ele ainda não o entendia?
- Pensava que eu e a Alice já estávamos nos preparativos. Parece que ela já começou a fazer planos para o casamento. Quando disse que achava que o casamento não
era o melhor para Lanie, recebi um ultimato. Ou me caso com ela na próxima Primavera, ou f
ico no desemprego.
- Não podem fazer isso, pois não?
- O tio da Alice é o meu patrão. Dirige a empresa. A sua sobrinha não é feliz... - encolheu os ombros. - Estás a perceber, não estás?
- Mas não pode... não o faria... O que vais fazer? olhou-o nos olhos.
- É isso que tenho de decidir - e ao ver o azul topázio dos olhos de Shaunna soube que não podia tomar aquela decisão ao lado dela. Ela confundia-o. Com ela agia
de um modo irracional. Voltou a observar Lanie. Ficará bem, não é? Quero dizer, pensei em
passar antes de ir um bocado... - não sabia o que dizer.
- Fica bem - disse Shaunna em voz baixa e tocou-lhe no braço. - E tu?
- Estou bem - mas não era verdade, não pela forma como aquele contacto lhe acelerou o coração. Tinha um problema, um problema importante. Recuou e abanou a cabeça.
- Estou bem.
- Tyler? - a sua voz denotava preocupação.
- Não, a sério - continuou abanando a cabeça, - estou bem. Apenas preciso de pensar. Regresso às cinco para vir buscar a Lanie.
Deu meia volta e dirigiu-se ao carro, e Shaunna observou-o, desejando saber as palavras adequadas para o tranquilizar.
Disse a si própria que não devia preocupar-se. Afinal, não tinha qualquer relação com ele. Sim, tinham-se beijado duas vezes, mas isso não significava nada. Alojava
o cavalo da filha dele no seu estábulo. Era só isso. Eram praticamente desconhecidos,
e, de forma alguma, amantes.
Amantes. A palavra provocou-lhe um arrepio.
Não estava apaixonada por Tyler, pois não?
Regressou ao picadeiro, pensando que aquela era uma ideia muito aterradora de se ter. Não podia estar apaixonada por ele. Eram só as hormonas em acção. Nada mais.
Hormonas enlouquecidas. Bem, podia ignorá-las.
- Aonde vai? - ouviu Shaunna, e nessa altura apercebeu-se de que Lanie se tinha afastado dos outros e dirigia-se na sua direcção montada.
- Não sei - respondeu. - Disse que regressa às cinco para vir buscar-te.
- O que achou de eu montar o Magic? - olhou para o pai enquanto este entrava no carro.
- Ficou impressionado.
- Está a fazer tudo muito bem, não achas? - Lanie sorriu e acariciou o pescoço do animal. - É como se nunca tivesse acontecido nada, como antes do acidente.
- Sim, está a ir muito bem - estendeu a mão por cima da cerca para acariciar Magic, - mas ainda temos de conseguir que supere os medos, e isso requer tempo.
- Eu sei. Mas achas que poderei montá-lo na mostra de cavalos em que o Bobby e a Patti vão participar?
Shaunna sabia que Lanie queria fazer parte do grupo. E de acordo com o comportamento de Magic naquele dia, não via impedimento algum para que ela participasse.
- Esperemos para ver como está daqui a duas semanas.
- Perguntaste-lhe? - Lanie indicou o carro do pai, que já se afastava.
- Mencionei-lhe o assunto.
- E? - a sua expressão revelava esperança.
- Acho que vai deixar-te ir, desde que considere que é seguro. Na verdade, não falámos muito sobre isso. Hoje tinha outra coisa na cabeça.
- Provavelmente a Alice - a menina fez uma careta.
- Sabes uma coisa? Ela quer que ele se case com ela.
- Foi isso que ele disse. E o que é que achas?
Se casarem eu fujo. Vinha para aqui viver contigo e com a Maria.
Shaunna sabia que tinha de ser cautelosa com as suas próximas palavras.
- Sinto-me lisonjeada por quereres vir viver para cá, mas acho que isso não seria o melhor para ti. O teu pai ama-te e precisa de ti. Ficaria muito magoado e triste
se te fosses embora.
- Sei que diz que me ama, mas... - calou-se e apertou os lábios; Shaunna viu lágrimas nos seus olhos. A pequena abanou a cabeça e afastou Magic da cerca para voltar
para junto dos outros.
- Lanie? - chamou, mas a menina não olhou para trás; não restavam dúvidas de que os anos de ausência do pai ainda lhe eram penosos. Tyler dissera que tivera um bom
motivo para isso, mas como se explica isso a uma menina de dez anos? Mais, como podia c
onvencê-la de que o casamento do seu pai com Alice era uma boa ideia, em especial quando nem Shaunna acreditava nisso?
Tyler conduziu e passou à frente de casas e quintas sem ver nada. No percurso de umas poucas horas,
afastara-se de duas mulheres, uma que insistia em que se casasse com ela e outra que era a que mexia com as suas emoções.
Quando o seu casamento com Bárbara terminara, jurara que nunca mais se envolveria emocionalmente com outra mulher e que nunca casaria. Nesse momento, via-se apanhado
entre uma proposta de casamento e a emoção que julgara poder controlar.
Amor.
Não é que considerasse o amor uma debilidade. Amava a Lanie. E pela forma como ela agia ultimamente, tinha a certeza de que ela o amava. Talvez um dia desses lhe
chamasse papá.
O que queria evitar era o amor entre um homem e uma mulher. Não queria estar apaixonado por Shaunna.
Esse tipo de amor era uma ilusão. Um engano; Bárbara demonstrara-o. Não o amara, não depois do primeiro ano, mas ele não soubera e julgara que as coisas corriam
bem. Talvez nunca tivesse sabido que Bárbara tinha um amante se Lanie não tivesse tido uma
hérnia.
Talvez o que necessitava era casar-se com Alice. Seria um casamento sem enganos, sem amor. Manteria o seu trabalho. A Alice seria uma boa mãe para Lanie. Tudo seria
perfeito.
"Se tudo vai ser perfeito, por que estás a conduzir pelo campo?", perguntou a si próprio. "Por que não aproveitaste para te comprometeres com Alice a primeira vez
que ela to sugeriu?"
Conhecia a resposta.
Era alta, magra e tinha cabelo castanho escuro e olhos azul topázio. Potenciava o seu instinto de protecção e acordava as suas emoções. Desde a primeira vez que
a viu soube que tinha problemas. Sem se aperceber do que estava a acontecer, Shaunna Lighf
eather entrara no seu coração, confundindo-o e destruindo a sua capacidade de pensar com lógica.
- Maldição - abanou a cabeça e desejou poder negar a verdade. Mas o amor é impossível de controlar.
Shaunna teve uma sensação estranha quando olhava para os três jovens cavaleiros no picadeiro. Voltou-se e olhou para trás de si. Tyler estava de pé, entre o estacionamento
e os estábulos. Os seus olhos cruzaram-se e ela sentiu um nó no estômago.
Sabia que ainda não eram cinco horas. Passara apenas meia hora desde que ele saíra. O seu regresso antecipado significava que ele tinha tomado uma decisão? Nesse
caso, qual seria?
Não conseguiu adivinhar pela sua expressão. Não parava de a fitar, absorvendo-a com os seus olhos azuis. Começou a caminhar na sua direcção. Conteve a respiração
e esperou que ele falasse. Cada passo que dava provocava-lhe uma maior impressão no estôm
ago. A tensão estava a enlouquecê-la.
Só quando se deteve à frente dela é que sorriu, um gesto breve.
- Tomei uma decisão - sussurrou.
- E? - apressou-se a preparar-se para a resposta. - O que decidiste?
- Há coisas que não podemos controlar - a actividade no picadeiro captou a sua atenção. - A Lanie continua a montar?
Ele demorava de propósito, ainda incapaz de partilhar a importante decisão com ela. Respirou fundo com a esperança de acalmar as batidas do coração, e resolveu dar-lhe
espaço. Não lhe perguntaria qual fora a sua decisão. Fazendo-o apenas revelaria a s
ua vulnerabilidade. Olhou para as três crianças no picadeiro.
- Acho que temos de arrancar a Lanie do lombo do cavalo.
- Mudou desde que a trouxe para aqui - olhou-a com calidez. - Lembras-te como ela era no primeiro dia?
- Lembro
- Estava pálida e débil e, acima de tudo, furiosa. Comigo e com a vida - contemplou a filha. - Agora está quase tão bronzeada como tu. Monta o seu cavalo e ri.
- O tempo pode fazer muitas coisas. Cura o corpo e o coração.
- Como algumas pessoas. Tu foste boa para ela permaneceu em silêncio um momento, depois prosseguiu: - Na verdade, não tinha de tomar uma decisão. Acho que no fundo
do meu ser sempre soube qual era a resposta. A Alice não seria uma boa mãe para a Lanie
.
- Tens a certeza?
- Tenho a certeza de que se me casasse com a Alice não permitiria que a Lanie passasse fome, não levasse a roupa adequada ou coisas do género - riu entre dentes.
- Mas não lhe daria o amor de que ela precisa. Não a amaria como se fosse sua.
- E o teu trabalho?
- Bem, acho que tenho de procurar outro - respirou fundo, depois sorriu. - Talvez não seja assim tão mau. Aprendi muito trabalhando para a Smith e Fischer, e fi-los
ganhar muito dinheiro, mas acho que prefiro trabalhar para uma empresa mais pequena...
talvez abra o meu próprio escritório de contabilidade.
- Não parece muito justo.
- A vida nem sempre o é - acariciou-lhe o rosto. Uma vez disseste-me que procuravas um contabilista. Acho que em breve estarei livre para aceitar novos clientes.
Interessada?
Shaunna conteve a respiração, com uma comichão no sítio em que ele lhe tocara. "Interessada?" Esse era o problema. Estava demasiado interessada.
- Sim - ouviu a sua própria resposta.
***
Capítulo 11.

Três dias mais tarde, Shaunna dava voltas na cozinha sem tirar a vista do monte de facturas sobre a mesa. Tyler teria um ataque quando visse os seus livros da escrita.
Aí residia, de facto, o problema. Não tinha qualquer registo de despesas.
Todas as semanas, quando depositava o dinheiro das aulas e do alojamento dos animais, pagava algumas facturas e esperava que não lhe devolvessem nenhum cheque. Não
fazia a mínima ideia de como andava o estábulo em termos de contas. Precisava de um con
tabilista. Era isso.
Mas não era assim tão fácil.
Teria de reconhecer perante Tyler que não sabia somar nem diminuir, muito menos multiplicar, dividir ou efectuar um cálculo mais complexo. A lógica dizia-lhe que
não devia sentir-se envergonhada, que apenas se tratava de uma desvantagem, como ser cego
ou surdo. Bem, quando uma pessoa era cega ou surda, os outros podiam reconhecer a sua deficiência facilmente. No seu caso, pouca gente sabia. Aprendera a compensar
essa falha, e fazia-o bem.
Mas o seu contabilista tinha descoberto. Já era bastante difícil dirigir o negócio dos cavalos sem que ninguém roubasse nos lucros. Maria descobrira o que ele fazia
antes de as deixar sem um centavo.
Um carro a chegar ao estacionamento captou a sua atenção. Olhou para o relógio e o estômago revirou-se. Eram duas horas. Tyler chegava a horas.
Viu-o sair do carro, espreguiçar-se e olhar à sua volta. Aproximou-se da porta de rede e chamou.
- Estou aqui.
Ele sorriu e dirigiu-se para casa, com aspecto descontraído e informal sem casaco e gravata e as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Demasiado atraente.
- A Lanie está com o Bobby e a Patti, como de costume? - perguntou ao aproximar-se.
- Estão os três a montar - recuou para dar-lhe passagem, seguindo depois para a cozinha. - Queres uma limonada?
- Claro.
- São de plástico - mostrou os copos que tirou do armário. - Para o caso de voltar a deixá-los cair.
- É mais seguro - concordou e sorriu, olhando a sua boca. - Mas às vezes os riscos têm as suas vantagens.
Durante um instante, Shaunna pensou que podia largar os dois copos que segurava. Virou-se rapidamente para o armário da louça para esconder o rubor das faces. Nos
últimos dias tinha-se convencido de que não estava apaixonada por ele. Não podia ser. A
sua filha guardava o cavalo nos seus estábulos e ela contratara-o como contabilista. Só isso. A sua relação seria estritamente profissional.
- Tiraste todas as tuas coisas do teu escritório esta manhã? - perguntou num tom casual.
- Deixei-o limpo e pronto para quem for substituir-me. Entreguei as chaves e despedi-me.
- Ainda não posso acreditar que te despediram - levou os dois copos com limonada para a mesa.
- Redução de pessoal - aceitou a bebida que lhe oferecia. - Se me tivessem despedido, poderia tê-los denunciado. Mas como ele expôs a questão com cuidado, lamentava
ter de prescindir dos meus serviços devido à redução.
- Pelo menos tinha de te ter dado duas semanas de
pré-aviso - Tyler continuava de pé, mas Shaunna teve de se sentar. Não sabia se as pernas aguentariam com ela.
- Queria dar-me, mas para quê prolongar a situação? Terminei os ficheiros que tinha em mãos e transferi-os. Os outros para os colegas. Por isso... - apoiou-se na
cadeira e sorriu-lhe, - agora sou todo teu.
- Todo meu? - olhou-o e o estômago voltou a revirar-se.
- Agora tens um contabilista. A menos que... - bebeu um gole de limonada... em vez de me contratares, por que não trocamos trabalhos? Rever as tuas contas não consumirá
todo o meu tempo, e não faz sentido pagares-me para eu depois voltar a pagar-te a
ti. Por que não trato dos teus livros a troco de te ocupares da Lanie e do Magic?
- Queres trocar os teus serviços de contabilista por aulas? - ela riu. Espera até veres o que tens de fazer. Não será fácil, Tyler. O meu último contabilista falsificou
as contas. Não só vais ter de deduzir em que situação estamos, como deverás compor
tudo o que está mal feito.
- Havemos de o resolver. Ainda bem que descobriste.
- Não fui eu. Foi a Maria, que começou a suspeitar quando viu que o número de uma semana não coincidia com o que tínhamos ganho. Começou então a controlar a caixa
do dinheiro antes de ele chegar e descobriu que todos os dias tirava um pouco. Quando o
confrontou com as provas, ele negou, naturalmente. Mas depois de o despedir, as diferenças de dinheiro não voltaram a repetir-se.
- Espero que o tenhas denunciado.
- Não podia provar nada, mas sei que não me indicará como referência.
- Que atraso tens? - Tyler olhou para o monte de facturas.
- Com algumas, não é muito. Com outras, imenso.
- Não sabia que a situação era assim tão má. Devia ter-te oferecido os meus serviços há mais tempo.
- Estavas ocupado.
- Estas são todas as facturas por liquidar?
- Acho que sim. Se há mais alguma, a Maria é que as tem.
- Estás à minha procura? - Maria entrou nesse momento na cozinha. - Como está, Tyler?
- Muito bem, Maria. Sabe se há mais alguma factura além destas por pagar?
- Não, estas são todas.
- Bem, então acho que vou começar por aqui - deu um trago de limonada e aproximou as facturas. - Preciso ainda dos livros e dos extractos bancários e dos cartões
de crédito. Qualquer coisa que indique quanto tens e quanto deves.
- Vais começar agora?
- Por que não? - ele não esperou a resposta dela e pegou na primeira factura. - Esta tem um atraso de dois meses - olhou-a. - Também preciso de papel e lápis.
- Pensei que fosse usar o escritório do estábulo Maria olhou para Shaunna. - Tudo o que precisa está lá. E é um sítio mais sossegado do que a cozinha.
- E vai - tranquilizou-a Shaunna. - Mas agora está desorganizado. Ia limpá-lo esta tarde.
- E depois? - Maria encolheu os ombros. - Limpem-na os dois.
O escritório do estábulo era pequeno mesmo quando arrumado. Demasiado elegante, na opinião de Shaunna, para trabalhar nele. Para sua segurança emocional, necessitava
manter a distância entre os dois.
- Olha - Shaunna apontou para a camisa branca de Tyler. - Não estás vestido para limpar o estábulo.
- Bem, outra camisa para a lavandaria - interveio ele. - A Maria tem razão. É mais lógico que o façamos juntos.
No seu interior, Shaunna gemeu. Não era o que ela planeara.
- E fica para jantar. O senhor e a Lanie - Maria nem sequer se incomodou em perguntar.
- Ficaremos - dirigiu-se para a porta. - Pronta, Shaunna?
- Pronta - cedeu. Ao ver o sorriso de Maria, soube que não seria fácil manter a relação com Tyler no âmbito profissional.
Demoraram uma hora a limpar o escritório, e Tyler apreciou cada minuto. Apercebeu-se de que Shaunna tentava manter as distâncias, e deixou-a, pelo menos até certo
ponto. Três dias atrás compreendera que estava apaixonado por ela, e sabia que ela se se
ntia atraída por ele. Da forma como agia, apenas podia imaginar que lutava contra esse sentimento. Não queria precipitar as coisas. Ao encarregar-se da sua contabilidade
tinha uma desculpa para estar perto de Shaunna. E a Maria, bendita seja, ainda lh
e dava mais pretextos para isso.
Assim que despejaram a mesa, Shaunna levou-lhe os extractos que ele pedira, juntamente com as facturas e os saldos bancários. Nesse momento ele desconfiou que ela
teria saído se ele não lhe tivesse pedido que ficasse enquanto ele revia tudo... para o
caso de precisar de lhe perguntar alguma coisa. Viu que a ideia não lhe agradou. Mas não conseguia entender por que estava ela tão nervosa.
Então começou a compreendê-lo.
O seu saldo do banco não estava actualizado. Os extractos mostravam que tinha emitido cheques que tinham sido cobrados, mas não tinha anotado nada. Nenhum número,
nem datas, nem a quem eram emitidos. Finalmente ergueu a vista.
- Como sabes a quem pagaste e a quem não pagaste?
- Bem... - evitou o olhar. - Acho que não sei.
- Não registaste isso em lado nenhum? - ela voltou a abanar a cabeça e Tyler começou a folhear o livro bancário. Quando actualizaste o lançamento dos cheques pela
última vez?
- Eu...
Encarou-a e ela encolheu os ombros.
A atitude dela surpreendia-o. Sabia que se lhe perguntasse alguma coisa sobre os cavalos ela saberia responder com exactidão o que fora feito com cada um deles nos
últimos seis meses.
- Fazes alguma ideia de quanto dinheiro ganhas por mês ou gastas? viu que mordia o lábio e abanava de novo a cabeça. A atitude dela ultrapassava a sua compreensão.
Santo Deus, como podes gerir um negócio se desconheces as receitas e as despesas? - ass
im que formulou a pergunta, apercebeu-se de que dissera algo errado. Ela recuou até à porta.
Tenho de ir anunciou. Devo... devo ir ver os cavalos.
Saiu com tanta velocidade que não pôde detê-la. E quando reagiu, verificou que tinha mesmo saído. Olhar para cima e para baixo do estábulo e pronunciar o seu nome
não deu qualquer resultado. Dirigia-se ao outro estábulo quando se cruzou com Maria.
- Ainda bem que o encontro - disse ela. - Gosta de arroz?
- Claro, é óptimo. Viu a Shaunna?
Pensei que estivesse consigo.
- E estava, mas disse alguma coisa que a deve ter irritado, e desapareceu.
- Disse alguma coisa pouco amável? - Maria franziu o sobrolho.
- Estava incomodado com a forma como tem os livros de contabilidade, ou melhor, como não os tem com o olhar continuava à sua procura.
- A Shaunna tem problemas com os números - Maria tocou na cabeça. Baralham-na.
- Tem dislexia numérica? - de repente compreendeu.
Sim, acho que é isso que a menina Betsy lhe chamava. Todos os números lhe fazem uma enorme confusão. Quando a menina Betsy era viva, não havia problema. Ela é que
se ocupava sempre de tudo, mas quando morreu, Shaunna ficou nervosa. Tentou tudo o que p
ôde, mas não foi capaz. Eu tentei, mas também não consegui. Por isso contratámos um contabilista, que ficou algum tempo, mas depois foi-se embora. Contratámos outro,
mas não era lá muito honesto. Depois disso, a Shaunna disse que bastava. Mas ela não
é capaz de o fazer. Por isso estou tão contente por o contratar sorriu. - A Shaunna precisa de si de muitas maneiras, acho eu.
- Assim espero - sabia que ele precisava dela. - Mas acho que tenta evitar-me.
- Tem medo que a deixe como os outros.
Não penso deixá-la.
- Não, acho que não.
E não a vou roubar.
- Se lhe roubar dinheiro, ela superará. Se lhe roubar o coração... Maria abanou a cabeça. Isso não é bom
- olhou para o estábulo mais pequeno. - Ele guardava o seu cavalo ali. Um homem muito atraente. Até eu pensava assim. Mas não era bom por dentro - tocou no amplo
peito, acima dos seios. - Pobre Shaunna, gostava mesmo dele. Acho que tinha uns vinte ano
s. Sei como se sente. Eu só tinha dezoito quando um homem me enganou. Esse disparate deu-me a Ana, e não me arrependo. Mas Shaunna só ficou com o coração partido.
- Eu não quero partir-lhe o coração.
- Acho que não o fará. Observei-o com a sua filha. A Shaunna precisa de alguém como o senhor.
Mas como a convenço disso?
- Achará uma maneira - sorriu. - Vou preparar o arroz. O jantar estará pronto às seis.
Shaunna soube que ir-se embora fora uma estupidez, mas a reacção à crítica de Tyler fora instintiva. Embora tivessem passado anos desde que a tinham repreendido
pela sua incompetência, o tom da sua voz despertara essas lembranças. Em criança tentara f
azer os trabalhos de casa de matemática. Esforçara-se tanto ou mais do que qualquer outra criança da sua aula, mas a resposta que conseguia nunca correspondia à
que a professora queria. E quando o pai tomava conhecimento das más notas, o resultado era
sempre o mesmo para ela. Gritava-lhe, tirava o cinto e batia-lhe, por vezes com mais força, se nesse dia tinha bebido. Ou seja, quase sempre.
Intelectualmente, Shaunna sabia que Tyler não lhe bateria. E desde criança sabia que o seu problema com os números não se devia a preguiça nem a estupidez. Pelo
menos, isso fora o que dissera a mulher que lhe fez o teste. Acontecia que algumas ligaçõe
s não se processavam no seu cérebro. Afirmou também que aprendera a funcionar com essa incapacidade.
Mas não aprendera a reconhecê-lo perante os outros.
Encontrou um martelo e pregos e saiu pela parte posterior do estábulo pequeno para verificar as cercas de algumas cavalariças. Qualquer coisa que mantivesse a sua
mente ocupada e longe de Tyler. Chegou à primeira cerca antes de ele a localizar.
- Aqui estás tu - ouviu-o dizer.
Shaunna viu-o avançar; a sua expressão mostrava que não estava muito contente com ela. Shaunna também não estava; não conseguia explicar o seu comportamento. Bateu
com o martelo com força.
- Achei que era melhor verificar as cercas.
- Por que não me contaste?
- Ocorreu-me agora - fingiu não entender.
- A Maria disse-me.
Quando ele parou mesmo à sua frente, suspirou.
- Disse-te. Pelo menos, tentei. Disse-te que não era boa com os números, que o que para ti era fácil, para mim não era. Disse-te que éramos totalmente opostos.
- Somos sem dúvida diferentes - tocou-lhe no queixo com a ponta dos dedos e ergueu o seu rosto. Mas não importa, Shaunna. Tu sabes fazer coisas que eu não sei.
- Não sei dar o troco. Nem mesmo de um dólar. Por isso digo às pessoas que façam elas o pagamento.
- E eu não sei falar com os cavalos - sorriu. - Todos temos os nossos pontos fortes e fracos.
A expressão nos seus olhos era quente e tentadora, o seu contacto tão gentil que quase acreditou nele.
- As pessoas não precisam de falar com os cavalos para sobreviver. Mas tem de saber organizar as suas contas bancárias.
- Ou contratar alguém que o faça. Eu estou agora aqui para ti, Shaunna. E não penso nem desaparecer nem roubar os teus lucros - mas roubou-lhe a boca.
Ela tremeu e os joelhos fracassaram. -Tyler...
- Shhh!
Voltou a beijá-la com suavidade. Apenas uma promessa. Um prelúdio tentador que a fez desejar mais. E sem pensar apoiou as mãos nos seus ombros e pediu-lhe mais.
- Sim - murmurou Tyler e aprofundou o beijo, enviando mensagens através das suas veias e despertando um desejo que ela tentara negar.
"Sim", repetiu a mente de Shaunna, exprimindo o que lhe ia no mais profundo do seu ser. Isso era o que tinha desejado. A tensão e o nervosismo faziam sentido. O
seu corpo avisara-a de que ignorar os seus sentimentos não
daria certo. A lógica carecia de significado no mundo das emoções. As palavras podiam transmitir uma mensagem, mas uma palpitação forte transmitia outra.
Devia ter ouvido com mais atenção.
Nesse momento cedeu e saboreou Tyler. Podia fugir se quisesse, procurar a liberdade. Mas ficou onde estava, nos braços dele, apertando o corpo dele contra o seu.
Sentiu os seios espalmarem-se e a dureza do seu desejo colou-se a ela. A sua mente viu-se
invadida por imagens... deles nus, com as extremidades entrelaçadas e os corpos formando um só. A ideia cortou-lhe a respiração e o calor da sua paixão queimou-a.
Só quando Tyler parou de a beijar pôde inspirar o ar que necessitava. A respiração dele era também entrecortada, e pela maneira como a olhava ela soube que também
ele estava a arder de desejo. Nos seus olhos havia desejo e reconheceu a mensagem do seu
corpo.
Ele falou primeiro, mas sem a soltar, com uma voz rouca pela ternura que antes ouvira.
- Acho que devemos falar.
Shaunna não queria falar. Queria fazer amor com ele, esquecer os seus medos e gozar as sensações que com tanta facilidade Tyler lhe despertava. Mas sabia que tinha
razão; no entanto, apenas concordou.
- Quero fazer amor contigo - disse ele. - Acho que já sabes - de novo, ela apenas pôde assentir. - E acho que tu também queres fazer amor comigo. Mas não quero precipitar
as coisas. Não quero que penses que passo de uma mulher para outra, que apenas d
esejo o teu corpo - ela não sabia o que pensar. Olhou-o fixamente e esperou que ele prosseguisse. - Acho que devemos ir com calma, conhecermo-nos melhor - Shaunna
não queria reconhecer que tinha razão, mas sabia que assim era. Voltou a concordar. -
Bem: - Tyler sorriu e abraçou-a. Ao soltá-la, estendeu uma mão. - Vamos. Vamos para os livros.
***
Capítulo 12.

Shaunna não tinha a certeza se se sentia comprazida ou decepcionada por descobrir que ele era fiel à sua palavra. Podia surpreendê-la com um beijo rápido, mas jamais
se deixara ir longe demais, e foi ela quem chegou a desejar que não tivesse tanto aut
ocontrolo.
O fim-de-semana da mostra de cavalos chegou depressa. Durante duas semanas Lanie montara Magic todos os dias. À parte alguns problemas insignificantes, o cavalo
portou-se bem, e quando chegou o momento da decisão final, nem Shaunna nem Tyler viam moti
vo algum para que Lanie não pudesse exibi-lo.
Nesse dia a menina mostrou-se nervosa, o que Shaunna já esperava. Assim que chegaram ao recinto da exposição, falou com Bobby e com Patti para lhes pedir que ajudassem
Lanie. Mas, acima de tudo, aconselhou-os a manter os cavalos descontraídos e calmos
.
- Deve ser um momento de diversão para vocês e para os vossos cavalos - disse a todos eles. - Se estiverem calmos, eles também estarão.
Foi só quando os três saíram do picadeiro de aquecimento que Shaunna se apercebeu como Tyler estava tenso e nervoso. Do exterior da pista não parava de gritar instruções
a Lanie. Shaunna pôs-se a seu lado.
- Descontrai, papá - pediu, sem deixar de vigiar Bobby enquanto espicaçava Lanie. - Vai correr tudo bem. Pensa nisto como uma experiência de aprendizagem para os
dois.
- É uma experiência para mim. Lembras-te que há
um ano não sabia distinguir a cabeça do rabo de um cavalo? Também não tinha um Stetson - tocou no chapéu. Nem botas.
Shaunna observou as suas botas lustrosas. Ia vestido à cowboy. Quase parecia um.
Quase.
- Ainda não conseguimos que contasse.
- Passo a passo, obrigado.
- Estou preocupada contigo, Tyler.
- Porquê?
- Não sejas demasiado crítico com Lanie. Não importa que seja apurada ou não. Apenas podemos pedir que se esforce ao máximo.
- Mensagem recebida - respondeu após um instante de hesitação. - Tens razão. Eu é que me porto como um idiota. Com os meus gritos, apenas conseguirei perturbá-la,
e na verdade não importam os resultados, o importante é tentar - estudou os cavaleiros.
- Sabes uma coisa? Desde que lhe dás aulas, acho que se vai sair muito bem. Devias cobrar-nos pelos teus conhecimentos.
Shaunna riu perante a ideia, mas sentiu-se lisonjeada.
- Tenho sorte por não me cobrares pelo teu trabalho de contabilista.
- É onde quero chegar. Ontem mostrei-te a folha do balanço. As coisas estão a ir bem.
Tinha-lhe mostrado, o que provava que não entendia realmente a sua incapacidade para dar sentido aos números. Se ele afirmava que o estábulo dava um bom lucro, óptimo,
embora os algarismos na página nada significassem para ela. No entanto, era agradáv
el não ter de se preocupar com a falência, saber que todos os seus fornecedores tinham recebido e que podia gastar algum dinheiro nas reparações que queria fazer.
- O que está agora a fazer?
Tyler contemplava Lanie e ela seguiu o olhar dele. A pequena levara o Magic para o centro da pista e fazia-o recuar.
- Está a praticar um passo que terá de realizar ali assinalou a pista principal, onde os participantes deviam fazer os seus cavalos recuar para avaliação do júri.
Os membros deste estavam quase todos nos seus lugares, pelo que Shaunna soube que a prov
a estava prestes a iniciar-se. - Vou falar com os miúdos. Ficas bem?
- Só quando isto acabar.
Sorriu e deixou-o. Aproximou-se da porta e agitou a mão no ar para que os seus três alunos se dirigissem até ela. Lanie inclinou-se sobre o ombro de Magic para poder
ouvi-la, e o cavalo esfregou o focinho no braço de Shaunna.
Em certo sentido, Tyler sentia ciúmes da intimidade entre Lanie e Shaunna. A menina vivia e respirava numa atmosfera de cavalos vinte e quatro horas por dia, adorava
a Maria e colocava Shaunna num pedestal. Pelo que Lanie lhe dissera, sabia que não se
importaria de se mudar com ela para irem viver nos estábulos.
Tyler teve de reconhecer que também ele não se importava de ir viver com Shaunna, mas ainda não queria fazer-lhe essa sugestão. Queria certificar-se primeiro de
que dispunha de uma certa disponibilidade financeira, o que começava a acontecer. Os livro
s de Shaunna, apesar de desorganizados, não lhe ocupavam todo o seu tempo, e já tinha conseguido mais clientes. Exercer a sua profissão como trabalhador independente
começava a ser uma realidade, e gostava de ser o seu próprio patrão. Perder o emprego
fora o melhor que lhe poderia ter acontecido... depois de encontrá-la.
Dissera-lhe que lhe daria tempo para que se conhecessem, e assim faria. Mas não esperara que fosse tão difícil manter as mãos afastadas. Sempre que a beijava queria
ir mais longe e fazer amor. Para um homem que
não tivera problemas em restringir os seus impulsos sexuais com Alice, começava a descobrir que na companhia de Shaunna o seu autocontrole era quase inexistente.
Mais de uma vez esquecera os números que somava e fechado os olhos para a imaginar murmurando-lhe palavras carinhosas enquanto faziam amor. Inclusive imaginá-la
montada num cavalo provocava-lhe pensamentos eróticos. Precisava dela, física e emocionalm
ente, como nunca necessitara de uma mulher, nem sequer de Bárbara. Ao lado de Shaunna sentia-se completo, e quando ia embora à noite, sentia como se deixasse para
trás uma parte de si mesmo.
Sabia que não ia conter muito mais tempo os seus sentimentos e que devia também contar a Lanie. Achava que ela não iria importar-se. Apenas ainda não surgira a ocasião
apropriada.
Os cavaleiros na pista já estavam formados há algum tempo. De repente, o locutor começou a chamar cada um deles. Viu que Lanie se erguia na sela. Shaunna disse algumas
palavras aos três e deu umas palmadinhas na perna a cada um. Foi nesse instante que
a sua filha o olhou e levou uma mão ao chapéu. Ele imitou o gesto e engoliu em seco. Chegara o momento.
Quando Shaunna se reuniu de novo a ele, encontraram lugares no exterior da pista central para assistir ao acontecimento. Onze cavalos entraram a trote lento. Em
terceiro lugar ia Patti, seguida de Lanie e Bobby. Tyler não achou justo que Lanie tivesse
de competir com os seus amigos, mas reconheceu que ela parecia tão preparada como eles.
- Monta bem.
Já te disse que é boa - Shaunna apoiou-se no gradeamento. - É claro que devo ser imparcial. Com três dos meus rapazes ali, não posso esperar que um vença aos outros.
Mas o seu sorriso indicou que assim esperava; aproximou-se e deu-lhe um beijo na face. Ela olhou-o e sorriu.
- Para termos sorte.
- Esperemos que resulte - pediu ela.
Provavelmente o júri não se demorou mais tempo com o grupo de Lanie do que com qualquer outro, mas Tyler teve a sensação de que o homem demorava uma eternidade a
tomar uma decisão. À volta da pista os cavalos e os cavaleiros andavam, trotavam e galopa
vam, primeiro numa direcção, depois na outra. Alguns, na opinião de Tyler, pareciam melhores do que outros, e dois animais, incluindo o de Bobby, tomaram a direcção
errada da segunda vez que tiveram de galopar. Embora ele tivesse dificuldade em dizer
o que fazia um cavaleiro melhor do que outro.
Para ele, a melhor era Lanie. Parecia ter uma postura tão correcta e madura assim erguida na sela. E Magic movia-se como um cavalo habituado a ser montado, a cauda
descontraída, a cabeça baixa e as orelhas para a frente. Tyler sorriu quando Lanie pass
ou à frente deles, e ela devolveu-lhe o sorriso. Então foi o inferno.
De início, Tyler não sabia muito bem o que acontecera. A única coisa que viu foi o cavalo mais próximo erguer-se no ar, dando coices. Depois ouviu um grito, seguido
de mais gritos, alguns dos cavaleiros e outros dos pais destes. Um cavalo saiu dispara
do a toda a velocidade e o cavaleiro caiu.
Shaunna entrou na pista pondo-se mesmo à frente do cavalo que ia sozinho. Segurou nas rédeas e fê-lo dar umas voltas. Falava-lhe num tom calmo e, aos poucos, o animal
perdeu a sua expressão de medo.
Viu então uma menina de pé, no meio da pista, o seu
elegante traje coberto de pó, sem chapéu e com lágrimas no rosto. Shaunna aproximou o cavalo dela e deu-lhe as rédeas, depois regressou rapidamente para junto de
Tyler.
- A Lanie está bem?
- Está - Tyler vira Magic mudar de passo e Lanie segurar-se bem à sela para manter o equilíbrio, mas com a mesma velocidade com que reagiu, o cavalo acalmou-se,
detendo-se enquanto Shaunna parava outro cavalo assustado. Nesse momento, Magic mal se mex
ia e apenas agitava a cauda.
Shaunna verificou como se encontravam Bobby e Patti, e suspirou ao descobrir que ambos continuavam montados, e os seus cavalos estavam relativamente calmos.
Bem - disse. - As horas de treino deram os seus frutos.
- Mas o que aconteceu? - Tyler não fazia a mais pequena ideia.
- Acho que uma criança atirou alguma coisa para a pista. Ali - apontou um objecto comprido e de cores berrantes parecido a uma serpente, agora a ser apanhado por
um funcionário. - Parece um brinquedo.
- E praticaram esperando alguma situação idêntica?
- Com o Magic, que tinha medo dos chicotes e de qualquer coisa que se agitasse no ar, pensei que deveríamos fazê-lo, pelo bem de Lanie, e decidi incluir a Patti
e o Bobby nas lições. Ainda bem que o fiz.
- Essa menina tão elegante não parece muito contente - observou a jovem montar o seu cavalo; ainda não parara de chorar.
- Por vezes, se não se está preparado para as surpresas uma pessoa pode desequilibrar-se. Agora vamos ver que tipo de amazona é.
Rapidamente ficou bem claro. A jovem puxou com força as rédeas, movendo violentamente a boca do animal.
E embora Tyler não captasse as palavras que dizia, pela forma como se comportava soube que estava furiosa. O cavalo voltou a erguer-se sobre as patas traseiras,
embora a menina se mantivesse sobre a sela, mas assim que o animal desceu, saltou da sela,
puxou as rédeas e levou-o para a saída.
Quando abandonou a pista, o júri disse aos outros cavaleiros que dessem um passeio. Fê-los percorrer a pista duas vezes, depois ordenou que se formassem.
Falou com cada um deles, pedindo que fizessem o animal recuar e que regressassem à pista. Disse alguma coisa a Lanie e esta respondeu. Tyler viu que sorria quando
ele continuou a inspecção.
Conteve a respiração quando anunciaram os lugares. Começaram com o sexto lugar, e pronunciou o nome de Bobby. Shaunna aplaudiu e ele imitou-a, sabendo que os pais
de Bobby se encontravam nas bancadas e que estariam tão nervosos como ele. Ao atribuir o
quarto e o quinto lugar, Tyler sentiu que Shaunna afastava a mão, e apercebeu-se de que a agarrara com força. Ela sorriu ao flectir os dedos para recuperar o fluxo
sanguíneo.
Então o locutor mencionou o nome de Lanie com o de Magic, e Tyler viu que ficara em terceiro lugar e viu que ela se afastava da fila para ir receber a fita do júri.
Aplaudiu e gritou. Ao olhar para Shaunna, soube o que tinha de fazer.
Levantou-a do chão e deu voltas com ela. O chapéu caiu-lhe e riu-se.
- Tyler, põe-me no chão.
- Ganhou - gritou ele. - Ganhou!
- Fiquei em terceiro - gritou Lanie ao sair da pista. Agitando a fita amarela no ar, pôs Magic a trote e dirigiu-se para eles. - E o júri disse que eu sou muito
boa e que o Magic é muito bonito. Ficou impressionado quando Magic não se assustou. Ganhei
ao Bobby, embora isso não me faça assim tão feliz - voltou a olhar
para a pista. - Vejam, a Patti foi a primeira. Não é maravilhoso? É a menina que caiu...
Continuou a falar, sorrindo e agitando a fita amarela; Tyler soube que todas as semanas que passara sentado ao lado da sua cama, rezando para que sobrevivesse e
os meses de frustração que vivera para tentar superar a fúria da menina tinham valido a pe
na. Não poderia sentir-se mais orgulhoso e feliz.
- Ganhaste - disse-lhe, e não se importou de fazer figura de parvo; abraçou o cavalo.
Lanie ainda estava tensa ao regressar ao estábulo e o seu estado de ânimo contagiou Magic. Quando tiraram o cavalo do trailer, este estava suado e tinha calor.
- Fá-lo andar um bocado - indicou Shaunna, consciente de que o exercício também acalmaria a menina.
- Posso deixá-lo comer alguma relva? - perguntou olhando para o jardim à sua frente, proibido para todos os animais. - Como um prémio especial?
- Está bem. Mas só desta vez ou a Maria zanga-se connosco de verdade.
Depois de observar a menina a levar o animal para o jardim, dirigiu-se ao estábulo. Tyler tirava os arreios do carro e arrumava-os. Bobby e Patti guardavam os seus
animais com a ajuda dos pais. Shaunna foi ter com cada um deles com palavras de entusia
smo. Só depois de todos terem partido é que foi ter com Tyler.
Estava fora da cavalariça de Magic, colocando a fita amarela que Lanie ganhara.
- Estamos orgulhosos, papá? - perguntou enquanto o observava.
- Muito - quando terminou aproximou-se dela. Obrigado.
Não me agradeças. A Lanie é que fez o trabalho.
- Sim, claro, tu não tiveste nada a ver com isto -
sorriu e passou-lhe um braço pelos ombros. - Onde está?
- Acho que levou o Magic a pastar. É melhor irmos ver - afastou-se do braço dele, surpreendida pela dor que o apertão no braço direito lhe provocara. Ao sair, esfregou
o braço, tentando localizar onde lhe doía exactamente.
- Algum problema? - perguntou Tyler.
- Acho que sofri uma contratura ao deter aquele cavalo hoje - voltou a movê-lo. - Dói-me, mas acho que não é nada dramático.
- Deixa-me ver - tocou-lhe no ombro com suavidade e apertou o músculo em diversos sítios. Ao chegar ao ponto delicado, Shaunna fez uma careta.
- É aí.
- Temos de lhe aplicar um pouco de linhaça - virou-a para ele com uma expressão séria. - Sabes uma coisa? Pregaste-me um bom susto. Aquele cavalo podia ter-te deitado
ao chão.
- Os cavalos não atropelam intencionalmente as pessoas se podem evitá-lo, mas como estava tão assustado não sei se não queria saltar a cerca.
- E por isso puseste-te no caminho para o deteres acariciou-lhe a face. - O que vou fazer contigo?
- Não sei - gostava da forma como a olhava, a transbordar de calor e de preocupação.
- Imagino que amar-te.
- Tu não acreditas no amor, lembras-te? - queria acreditar que falava a sério, mas temia acalentar esperanças.
- Estás a converter-me num crente. -Tyler...
- É uma loucura, não é? - sorriu.
A loucura era a forma como o seu coração batia e a expressão da cara dele.
- Vais beijar-me ou quê? - perguntou convencida de que se não o fizesse teria um enfarte.
- Vou beijar-te - e cumpriu.
O contacto dos seus lábios começou por ser gentil, mas daí a poucos segundos transformou-se num beijo intenso e apaixonado. Shaunna abraçou-o e ignorou a dor no
ombro. Beijou-o e amou-o e quis gritar a sua alegria e chorar de alívio. Os dois amavam-se
... e era uma loucura incrível, mas absolutamente maravilhosa.
Não queria que parassem de se beijar. Quando ele introduziu a língua na boca dela e deslizou as mãos pelo seu corpo, atraindo a anca dela contra o seu corpo, a dura
pressão do seu desejo apenas reflectiu o que Shaunna sentia.
O som dos cavalos há muito que desaparecera à sua volta, e os seus sentidos estavam centrados no ritmo da respiração entrecortada e no selvagem palpitar do seu coração.
"Imagino que amar-te". As palavras repetiam-se incessantemente na sua cabeça.
Amava-a.
Nesse momento Shaunna ouviu uma respiração débil.
Num som quase indistinto, mas que atravessou a confusão das suas emoções. Shaunna afastou-se do braço de Tyler por forma a olhar na direcção da entrada do estábulo.
Ali estavam Lanie com Magic. Observava-os com os olhos muito abertos.
Viu que o queixo de Lanie tremia; a menina fechou os olhos como se tentasse apagar a imagem do pai a beijar alguém. Tyler também a viu. Lentamente endireitou-se,
com um braço à volta de Shaunna, mas de frente para Lanie.
- Querida? - perguntou. - Lanie? - ela abriu os olhos cheios de lágrimas. - Pensei que ficasses contente pela Shaunna e por mim.
- Ficar contente? - Shaunna abanou a cabeça.
- Amo a Shaunna - disse ele. - E acho que ela ama-me.
Tinha medo que isto acontecesse.
- Por que tinhas medo? - perguntou Shaunna, confundida com a reacção da menina.
Porque agora ele não me vai querer por perto. Vão casar-se e fará com que me vá embora.
Shaunna soltou-se de Tyler e aproximou-se de Lanie.
- Claro que te vai querer por perto. Por que não seria assim?
- Porquê? - a pequena recuou, levando Magic com ela. - Porque não é o meu verdadeiro pai.
***
Capítulo 13.

- Meu Deus - suspirou Tyler. - Pensava que ela não sabia.
- Não é tua filha? - perguntou Shaunna, encarando-o.
Conseguiu apenas abanar a cabeça. À sua frente viu que Magic puxava a corda e se levantava sobre as patas traseiras. Ouviu Lanie gritar e viu o cavalo levantá-la
do solo enquanto ela se agarrava à corda. O animal desceu e a menina caiu no chão. Os cas
cos de Magic ficaram tão próximos do corpo de Lanie que ficou com a certeza de que a tinham magoado. Dois cães do estábulo começaram a ladrar e Magic saiu a galope
com a corda pendurada pelo ar. Quando Lanie se levantou, Tyler soube que o cavalo não l
he tocara.
Foi então que se apercebeu que a furgoneta de Chris Prescott entrava no pátio do estábulo. Magic corria na sua direcção, e Lanie correu atrás dele, gritando-lhe
que parasse. Shaunna também saiu para avisar Chris enquanto os cães não paravam de ladrar
e de perseguir o cavalo. Tyler apenas observou, com um nó no estômago, incapaz de agir.
Ouviu os travões da furgoneta de Chris chiar tentando parar. Mas não fora a tempo. O animal e o carro chocaram, e com um barulho surdo o metal embateu contra a carne.
Ouviram-se gritos, um de Lanie e outro de Magic.
O grito de dor do cavalo atravessou Tyler, que via o animal deitado de lado, agitando as patas no ar. Apercebeu-se que Lanie corria na sua direcção.
- Não! - gritou ao compreender o perigo que podia correr. Lanie, não!
Também ele começou a correr. Sabia que não poderia chegar antes da menina. Voltou a gritar-lhe para que parasse. Mas ela não fez caso. O cavalo agitava as patas
e fazia um esforço para se levantar; Lanie pôs-se a seu lado.
Tyler conteve a respiração ao contemplar como se ajoelhava junto do animal ferido. O cavalo não sabia o que fazia e uma pata podia aleijá-la. Não queria que Lanie
se ferisse. Talvez não fosse da sua carne e do seu sangue, mas tinha-a amado em bebé e a
mava-a agora.
Chris saiu da furgoneta com a cara pálida.
Meu Deus, desculpem - não parava de repetir.
Tyler ignorou-a e foi para junto de Lanie. Shaunna mantinha a cabeça do cavalo baixa, evitando que se mexesse e se ferisse ainda mais, mas Tyler viu sangue nas mãos
da menina e começou a afastá-la. Ela resistiu, os olhos cheios de lágrimas quando o ol
hou.
- Está ferido - gritou.
Nesse instante viu que o sangue vinha de uma ferida no lombo de Magic e não do corpo de Lanie, e deixou que continuasse a apertar a mão sobre o lombo ferido do animal.
Não sabia que mais poderia fazer.
- Pronto, Magic - disse a pequena com a voz entrecortada. - Pronto - voltou a olhá-lo. - Não deixes que ele morra, papá. Por favor, não deixes que ele morra.
As palavras dilaceraram-lhe o coração. Era a primeira vez que lhe chamava "papá", e soube que lhe prometeria qualquer coisa.
- Não vamos deixar que ele morra - ajoelhou-se ao seu lado para tentar acalmar o cavalo.
- Precisamos de um pano - disse Shaunna. - Alguma coisa para estancar o sangue.
- Usa a minha camisa - levantou-se e despiu-a. Shaunna não hesitou, aceitou-a e afastou um pouco a mão de Lanie para apertar o tecido contra o golpe.
Magic continuava a tentar levantar-se; Shaunna olhou para Lanie.
- Vamos deixá-lo levantar-se se é isso que ele quer. Agarra a corda, enquanto eu mantenho a camisa no sítio.
Shaunna chegou-se para um lado de Magic para dar-lhe espaço, e Chris recuou, sem cessar de se desfazer em desculpas.
- Voltei para vir buscar a marmita do Jeffrey - disse.
- Esqueceu-se dela aqui. Não vi...
- Não tiveste a culpa, Chris - interrompeu Shaunna.
- Está tudo bem. Vai telefonar ao veterinário. A Maria dá-te o número. Conta-lhe o que se passou e pergunta-lhe se pode vir.
Magic continuou a tentar levantar-se.
- Tu consegues - afirmou Lanie, incentivando-o com as mãos e palavras. - Tu consegues, rapaz.
Por fim conseguiu pôr-se de pé. Assim que se levantou, começou a tremer. Sem mexer a camisa de Tyler sobre a ferida, Shaunna começou a verificar o resto do seu corpo
com mãos velozes.
- Verifica desse lado - ordenou a Tyler. - Vê se sentes alguma coisa partida. Diz-me se ele se afastar do teu contacto.
O cavalo afastou-se quando Tyler lhe tocou no ombro esquerdo, e algum sangue saía de vários golpes. Transmitiu a informação a Shaunna.
- Provavelmente de quando caiu no chão sobre esse lado. Esperemos que não tenha partido nada - disse ela. Virou-se para Lanie. - Vê se consegues que dê alguns passos.
Não o obrigues. Vê só se pode andar.
- Vamos, rapaz - pôs-se à frente de Magic e puxou com suavidade a corda. - Tu consegues. Vamos andar um pouco.
No início Tyler pensou que o cavalo não andaria. Nunca tinha visto um animal tremer tanto como Magic. Mas Lanie insistiu em que a seguisse, e por fim o
cavalo deu um passo em frente. Pequeno e inseguro. Depois outro e outro.
- Muito bem - suspirou Shaunna. De casa, Chris gritou:
- O veterinário quer falar contigo, Shaunna. Podes atender?
Shaunna olhou-o com uma expressão de incerteza e Tyler soube o que era preciso.
- Eu seguro na camisa - situou-se daquele lado.
- Está bem. Mantém pressão suficiente para estancar o sangue. Vou ver o que se passa.
Saiu a correr e Tyler fez o que ela lhe indicara. Lanie continuava a falar com Magic com voz meiga; ele sentiu que o animal emitia um grande suspiro e apoiava a
cabeça no ombro da pequena. Nesse momento compreendeu que a ligação entre o cavalo e a men
ina era tão forte como qualquer vínculo humano, e soube que faria qualquer coisa para salvar a vida de Magic.
- Não devia ter puxado a corda dele - disse Lanie. Assustei-o.
- Foi sem querer. Estavas irritada - a menina era a vítima inocente, forçada a uma situação não provocada por ela. Se alguém tinha a culpa, esse alguém era ele.
Ignorava que o soubesses.
Ela assentiu e desviou o olhar. Aquele não era o momento de falar no verdadeiro pai de Lanie, embora tivessem de falar do assunto em breve. Chegara o momento de
terminar com o silêncio. Não haveria mais segredos. Ouviu Shaunna.
- O veterinário vem a caminho - explicou. - Quer que levemos o Magic para a cavalariça, se pudermos, e que o tapemos com uma manta. Tem medo que o cavalo entre em
choque.
- Vou buscar uma manta - disse Chris. - Podem usar a do meu cavalo.
- Trá-la - ordenou Shaunna ao chegar ao lado de Magic. - Quero pôr-lha já.
Juntos, os três fizeram o animal avançar para a sua cavalariça. Tyler sem deixar de apertar a ferida; Lanie insistindo com as suas palavras tranquilizadoras; Shaunna
cobrindo o animal com o cobertor que Chris fora buscar.
- Tenho de voltar para casa - disse Chris ao chegar à cavalariça. - Deixei o Jeffrey com uma vizinha.
- Vai. Aqui já não podes fazer mais nada - disse Shaunna ao certificar-se de que a porta que dava para o picadeiro estava fechada.
- Lamento imenso - desculpou-se Chris com Lanie, olhando depois para Tyler. - Ten... tentei travar.
- Tudo bem - disse ele, desejando que ela fosse embora. O mero facto de sentir o pânico na sua voz já o deixava nervoso. Por outro lado, a calma eficácia de Shaunna
tranquilizava-o.
- O que fazemos? - perguntou Lanie olhando para Shaunna.
- Agora é só mantê-lo calmo - aproximou-se do lombo de Magic, onde Tyler continuava a apertar a camisa. - O sangue está quase estancado. Mantém a pressão - recuou
e estudou a situação. Gostava da forma como Tyler tinha intervido, executando com calma
tudo o que ela lhe pedira. A sua atitude ajudava Lanie e, por seu turno, Magic. - Assustou-se - disse à menina. - Mas acho que as suas feridas não são muito graves.
Continua a falar com ele, diz-lhe que está bem. Não te esqueças de que é um cavalo sel
vagem. Cresceu rodeado de perigos. É mais forte do que um desses cavalos mimados que nunca tiveram de fugir de um predador.
Enquanto Lanie continuava a acariciar e a falar com o animal, Shaunna viu que o cavalo começava a descontrair-se. O olhar acalmou-se e deixou de tremer. Com o focinho
tocou no peito da menina e soltou o ar pelas fossas nasais.
Tanto o animal como a menina começavam a ficar mais calmos. "Não é o meu verdadeiro pai." As palavras atordoaram-na, mas agora, ao pensar nelas, viu que faziam sentido.
Agora entendia como pai e filha não eram nada parecidos, compreendia por que Lanie o chamava sempre Tyler e por que ele jamais se referia a ela como filha. Mas ele
ficou tão surpreendido como ela. Desconhecia que Lanie sabia.
Havia tantas perguntas a fazer. Durante semanas classificara-o no grupo do seu próprio pai, pensara que abandonara a filha. Mas se Lanie não era sua filha...
Shaunna ouviu o ruído de rodas sobre a gravilha.
- Deve ser o veterinário - saiu da cavalariça. - Vou buscá-lo.
O veterinário precisou de uma hora para limpar o golpe no lombo de Magic, cosê-lo e curar as restantes feridas. Tirou a temperatura do cavalo, auscultou-lhe o coração
e os sons do estômago, depois falou com Lanie.
- És uma rapariga com sorte. Tirando o golpe, acho que não tem nada sério - olhou para Shaunna. - No entanto, deves ficar atenta para que não entre em choque. Se
tiver algum sintoma, pode representar uma hemorragia interna. Nesse caso, telefona-me ime
diatamente.
- Daqui a quanto tempo saberemos se vai recuperar?
- perguntou Tyler.
- Eu diria daqui a vinte e quatro horas. Se não tiver nenhum sinal de mal estar, hemorragia ou choque entretanto, estará fora de perigo.
Tyler acompanhou o veterinário até à sua carrinha e agradeceu-lhe por ter vindo tão rapidamente. Depois
regressou ao estábulo. Uma crise parecia estar resolvida. Era preciso enfrentar outra.
Dirigiu-se devagar à cavalariça. Não sabia muito bem como começar o tema nem o que dizer. O que sabia realmente Lanie?
- Como está o nosso rapaz? - perguntou ao entrar.
- Está bem - respondeu Lanie, sem deixar de o acariciar. - A Shaunna foi buscar umas cadeiras.
- Quer dizer que pensas passar a noite com ele?
- Não posso deixá-lo - olhou-o com uma expressão séria. - Tu não me deixaste quando eu fiquei no hospital, pois não? Foi o que me disseram. Contaram-me que ficaste
ao meu lado.
- Não, não te deixei, Lanie, e se queres passar a noite ao lado do Magic, ficamos os dois.
- Ficas comigo?
- Claro. Porque, penses o que pensares, és minha filha.
- Sou? - pareceu confusa. - Mas a mamã disse que não era.
- Bem, outra pessoa pode ser o teu pai, mas em todos os outros sentidos és minha filha. Por isso vem cá e dá um abraço ao teu papá.
Abriu os braços na esperança de que Lanie aceitasse o seu amor. Durante um instante ela ficou a olhá-lo, depois dirigiu-se devagar para ele e abraçou-o.
Tyler ajoelhou-se e apertou-a bem, sentindo que havia lágrimas nos seus olhos, mas isso não importava. Quando era bebé, ela enlaçava os seus deditos nos dedos dele
e estavam unidos. Tinha-a amado como nunca amara ninguém. Depois tiraram-lha. Sentiou u
m arrepio no corpo de Lanie e soube que ela também chorava.
- Há quanto tempo é que sabes? - perguntou em voz baixa.
- Há muito tempo - ficou sem voz. - Um dia zanguei-me com a mamã e disse-lhe que ia viver contigo, e
ela disse-me que tu não eras o meu verdadeiro pai e que não gostavas de mim.
Não devia ter-te dito isso. Sempre te amei.
Ela afastou-se um pouco e olhou-o com o rosto ligeiramente preocupado.
- Então por que é que nunca vieste ver-nos?
- Porque a tua mãe quis assim. Disse que o melhor era eu manter-me completamente fora da tua vida. E doeu-me muito ver-te e saber que já não eras minha.
- Tenho o teu apelido.
- Sim - viu Shaunna de pé com três cadeiras dobráveis na mão. Não a ouvira aproximar-se e não sabia o que ela tinha ouvido. Gostou de saber que estava ali. - Sabes
o que significa "ter uma aventura"? - perguntou a Lanie.
- Sei, papá, achas que sou uma menina pequena?
- Bem, a tua mãe teve uma aventura enquanto estávamos casados. Só que eu não sabia, e quando tu nasceste, pensei que eras minha filha.
- Por isso tenho o teu nome?
- É um dos motivos - não queria entrar em pormenores legais.
E como soubeste que não era tua filha?
- Quando tinhas uns seis meses de idade, tiveste de fazer uma operação a uma hérnia. Nada importante. Decidi ser um bom pai e dizer ao médico que contasse comigo
se fosse preciso uma transfusão de sangue. Mas ele disse-me que não podia, que o teu sang
ue era diferente do meu.
- Era diferente porque eu não era tua?
- Exacto.
- O meu pai era o George?
- Não. Também não é o George - olhou para Shaunna. -A tua mãe teve uma aventura com outro, um homem que também era casado. Disse-lhe que não pensava casar-se com
ela, mas ela deve ter pensado que sim quando se divorciou de mim. Achou que assim que ele
soubesse que eras filha dele, ele mudava de opinião. Pelo menos foi o que ela me contou. Acho que ele não se importou, porque nunca se casou com a tua mãe.
- Ficaste zangado? - perguntou Lanie. - Refiro-me ao que a mamã fez.
Sim - respondeu. - Fiquei muito zangado.
Shaunna pôde imaginar os seus sentimentos. Tinha sido enganado pela esposa e depois soubera que a filha que julgava sua afinal era de outro homem. Ter ido embora,
ter deixado a filha, que não era sua, começava a fazer sentido. Afinal ele em nada se pa
recia ao pai dela.
- Eu também teria ficado zangada - disse Lanie com gravidade.
- Parece-me que ficaste, não foi? - ela hesitou e depois concordou. Tyler voltou a abraçá-la. - Tinhas todo o direito a ficar zangada. Não te tratámos muito bem.
Nem a tua mãe nem eu. Não tens culpa de nada. Devia ter ido visitar-te.
- A mamã disse-me que me odiavas, que a odiavas a ela.
- Não te odiava - afirmou. - Nunca te odiei. De facto, senti a tua falta.
- Então por que não me quiseste depois do acidente? Afastou-se com o sobrolho franzido.
- Quem te disse isso?
- Ouvi-te falar com o médico. Comentaste que estava maluco, que não podias cuidar de uma menina.
- O que queria dar a entender... - olhou para Lanie, depois para Shaunna, de novo para a pequena. - Não tinha nenhuma experiência com crianças. Como podia saber
cuidar de uma menina com nove anos e meio? Não fazia nenhuma ideia - mas afinal tinha apre
ndido.
- Ouvi-vos dizer que devias ficar comigo. Não te deram nenhuma opção.
Shaunna viu que Lanie continuava sem entender e considerou que era hora de intervir.
- Lanie, acho que ninguém pode obrigar o teu pai a fazer uma coisa que ele não quer. Tinha opções. Podia ter dito a toda a gente que não és filha dele. Uma análise
de sangue já tinha provado isso. Há ainda outros testes. Podia levar-te para um lar de
adopção. Mas não contou a ninguém que não eras filha dele, e deu-te um lar mesmo sem saber como cuidar de uma filha... em especial uma filha muito zangada. E fez
tudo para que o teu cavalo recebesse ajuda porque sabia que isso te ajudaria a ti. E este
ve para se casar porque pensou que tu precisavas de uma mãe.
A expressão de Lanie era atribulada.
- Mas não sou sua, e se vocês se casarem, não vão querer que eu fique convosco.
- Quem disse que não? - perguntou ela. - Pensa nos filhos adoptados. Não são filhos biológicos, mas os pais adoram-nos.
- Isso quer dizer que casas comigo? - perguntou Tyler, olhando-a nos olhos.
Não pensara nisso quando respondeu a Lanie, nem considerado o facto de Tyler não lhe ter feito nenhuma proposta. Mas a expressão dele deu-lhe esperança.
- Depende, se me pedires.
- O que achas? - dirigiu-se a Lanie. - Devíamos casar-nos com ela?
- Gosto muito mais dela do que da Alice.
- E eu também - sorriu e levantou-se, sem afastar a mão do ombro de Lanie. - Acho que depende de ti, Shaunna. Tens aqui uma menina carinhosa que percebe muito mais
de cavalos do que o pai - apresentou Lanie empurrando-a um pouco para Shaunna. E um hom
em que não pensava voltar a apaixonar-se, mas que descobriu que não pode evitá-lo.
- Queres casar-te com ele? - perguntou Lanie. Shaunna queria dizer que sim, mas tinha os seus receios.
- Acho que não seria uma mãe muito boa.
- Por que não? - Tyler arqueou as sobrancelhas.
- Porque não sei o que fazer.
- E o que é preciso saber? - perguntou Lanie, e Shaunna sentiu que devia explicar-se perante uma filha.
- Como agir como uma mãe. Como amar. Nunca soube em pequena. Pelo menos, não pela minha mãe. Ela não me queria, não desejava ter filhos. Eu fui um acidente e um
estorvo na sua vida. Dizia sempre que ansiava por que eu crescesse e me tornasse adulta. N
ão faço ideia do que sentem as outras crianças pelos pais. Não sei como comportar-me.
- Shaunna... - Tyler afastou-se de Lanie e aproximou-se dela. - Não te apercebeste que fizeste de mãe de toda a gente no estábulo? Em especial com os teus alunos?
Com eles fazes tudo o que uma mãe faz. Incentiva-los quando precisam. Abraça-los quando
estão tristes. Eu vi. E impões disciplina com compaixão e compreensão. Talvez não tenhas aprendido com os teus pais, mas acabaste por aprender ao longo da vida -
colocou as mãos à volta do seu rosto e obrigou-a a encará-lo. - Eu próprio aprendi a ser
pai. Tu é que me ensinaste a ouvir Lanie, a ceder quando é necessário e a manter-me firme quando é preciso calou-se e inclinou a cabeça. - O que dizes? Casas comigo?
Queres ser a mãe de Lanie?
Como podia dizer que não a esse homem? Nunca fora capaz, desde a primeira vez que lhe telefonara. -Acho... - sorriu. -Acho que sim.
Epílogo
Lanie decidiu que o casamento de Tyler e Shaunna era exactamente o que queria. Ela deixara que a ajudasse a organizar a festa e Maria permitiu-lhe entrar na cozinha
e participar nalgumas tarefas. Quando Shaunna lhe pediu que fosse dama de honor, aceit
ou ansiosa.
Concordaram fazer a festa no primeiro fim-de-semana de Outubro; convidaram todas as pessoas que frequentavam os estábulos, bem como a família e os amigos de Tyler.
Até Ana, a filha de Maria, regressou nessa data para poder assistir.
A cerimónia realizou-se no picadeiro grande, e os convidados juntaram-se à volta da cerca para presenciar. Até Tyler aceitou montar um cavalo. Por isso, os quatro,
Shaunna e Tyler, o irmão deste, que era o padrinho, e Lanie estavam montados. A menina
ficou encantada com aquela parte. Estava impaciente para ver as fotografias.
Durante a cerimónia, Magic não parou de assentir com a cabeça, como se entendesse o que se estava a passar. Lanie não parava de lhe dar palmadinhas para o acalmar
enquanto olhava para Shaunna, que estava muito bela, no seu vestido branco de algodão fe
ito por Maria. Olhava constantemente também para Tyler e sorria. Ficava muito preocupado cada vez que o animal se mexia. Estava muito elegante com o seu smoking
campestre. Lanie achou que era o homem mais atraente de todos. Mais até do que uma estrela
de cinema.
Enquanto o juiz não parava com aquela conversa de
serem fiéis um ao outro, Lanie soube que estava a perder tempo. Sempre que os olhava estavam a beijar-se. Não podia imaginá-los sem estarem apaixonados.
O homem olhou para ela e fez um gesto com a cabeça, e ela percebeu que devia dar agora as alianças a Shaunna. Durante uns instantes sentiu pânico; pânico de levar
a mão ao bolso e não as encontrar. Mas sentiu-as e suspirou quando as entregou.
Magic começava a ficar impaciente quando Shaunna e Tyler finalizaram os votos, mas acalmou-o para poder participar no final da festa. Foi quando Tyler lhe pediu
que ficasse entre ambos e que os três dessem as mãos. Dissera que queria que todos soubess
em que eram uma família. Levantaram os braços para que todos pudessem ver, e Lanie quase chorou.
Se Bobby a visse, gozaria com ela. Mas não se importou. Que gozasse. O que sabia ele? Era apenas uma criança. Não percebia como era maravilhoso ter um pai e uma
mãe. Não sabia nada, mas ela sabia.
E eles eram uma família... para sempre.
Fim.

Magia De Mulher.
Maris Soule.
 

Tyler Corwin sabia que Robin Leach não mostraria essa casa no programa "Estilo de Vida dos Ricos e Famosos". Os degraus de cimento estavam partidos nos bordos, o
alpendre de madeira estalava ao ser pisado e a porta de rede estava descaída, exibindo um
a fenda de três centímetros na parte superior que permitia, contrariando a sua função, a passagem de moscas que esvoaçavam à volta da sua cabeça. Através da porta
de rede pôde ver uma mulher de origem hispânica de meia idade, medindo quase tanto de la
rgura como de altura, que se dirigia na sua direcção. Deteve-se do outro lado da porta, sem fazer qualquer esforço para a abrir.
- Procuro Shaunna Lighfeather - disse. - Chamo-me Tyler Corwin. Telefonei antes. Ela está à minha espera.
Com um grunhido, a mulher deu meia volta e proferiu algumas palavras ao voltar para a cozinha.
- Está a mudar de roupa. Disse para a esperar na cozinha.
Entendeu que podia entrar e abriu a porta. As dobradiças rangeram e assim que entrou sentiu o cheiro a estrume e o som de uma canção country. Espalhadas pelo chão
à sua esquerda, estavam vários pares de botas de vaqueiro. À sua direita, sobre um tanqu
e de roupa, calças de ganga sujas e uma camisa de algodão manchada.
Franziu o nariz e soltou um risinho quando a porta de rede contra os mosquitos se fechou nas suas costas. Não havia dúvida de que a atmosfera era muito diferente
dos corredores e gabinetes limpos da firma de
contabilidade Smith e Fischer. O trajecto de quinze quilómetros de Bakersfield tinha-o transportado para outro mundo, um mundo que ainda há seis meses nem sabia
que existia.
Ao entrar na cozinha, a mulher hispânica indicou-lhe uma mesa de formica coberta com jornais e revistas de cavalos. Considerando um convite para se sentar, afastou
uma cadeira. O plástico do assento estava coberto por fita-cola em dois sítios.
- Café? - perguntou a mulher.
- Não, obrigado - respondeu com um sorriso educado.
- Não demora - voltou a grunhir a mulher. Sem dizer uma palavra, abandonou a cozinha com a saia de algodão oscilando ao movimento das suas largas ancas.
 
***
 
"Fale com delicadeza hoje; quando o amanhã chegar, você já estará habituado".
 
Sérgio Pinto da Cunha
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário