DAPHNE DU MAURIER
Tradução de
EDUARDO SAL?
Círculo de Leitores
Título Original:
MY CAUSIN RACHEL
Capítulo primeiro
Antigamente, costumavam enforcar homens em Four Turnings.
Mas agora já não. Hoje em dia, quando um assassino é punido pelo seu crime, acontece em Bodmin, após julgamento
imparcial nos Assizes. Isto se a lei o condena antes de a
consciência o matar. É preferível assim. Como uma intervenção cirúrgica. E o corpo tem um enterro decente, embora numa sepultura anónima. Quando eu era pequeno, as coisas não se
passavam assim. Recordo-me, na adolescência, de ver um indivíduo pendurado em correntes no local onde as quatro estradas se encontram. O rosto e corpo tinham sido enegrecidos
com alcatrão para os preservar. Esteve lá suspenso durante
cinco semanas antes de o apearem, e foi na quarta que o vi.
Oscilava entre o céu e a terra sobre o estrado de madeira
ou, como o meu primo Ambrose referiu, entre o Céu e o Inferno. O Céu nunca ele alcançaria e, quanto ao inferno que
conhecera, achava-se fora do seu alcance. Ambrose tocou no
corpo com a bengala. Ainda consigo imaginá-lo, a mover-se
com a deslocação do ar como um cata-vento num eixo enferrujado, um triste espantalho daquilo que fora um homem.
A chuva apodrecera-lhe os calções, senão o corpo, e tiras de
tecido pendiam dos membros inchados como papel polposo.
Era Inverno, e um brincalhão qualquer que passara colocara um ramo de azevinho na jaqueta rasgada, para celebração.
Aos meus sete anos, aquilo afigurou-se o ultraje final, mas
não
me pronunciei. Ambrose devia ter-me levado lá com alguma
ideia em mente; talvez para testar a minha coragem, ver se eu
fugiria, riria ou choraria. Como meu tutor, pai, irmão e
conselheiro - na realidade, como todo o meu mundo -, estava
sempre a pôr-me à prova. Lembro-me de que contornámos o
estrado, enquanto ele explorava o corpo com a bengala, até
que se deteve, acendeu o cachimbo e pousou-me a mão no
ombro.
5 - Aqui tens no que todos acabamos, Philip. Uns no campo de batalha, outros na cama e outros ainda em conformidade com o seu destino. Não há fuga possível. Não podes aprender a lição demasiado cedo. Mas é assim que um assassino
morre. Uma advertência para ti e para mim, no sentido de levarmos uma vida direita. - Conservávamo-nos lado a lado, a
ver o corpo oscilar, como se estivéssemos de visita à feira de
Bodmin e o cadáver fosse um alvo para visar com bolas.
- Observa o que um momento de exaltação pode provocar
numa pessoa - continuou. - Aqui tens Tom Jenkyn, honesto e estúpido, excepto quando bebia de mais. Sem dúvida que
a esposa era rezingona, mas isso não justifica que a matasse.
Se
começássemos a eliminar as mulheres por causa das suas línguas aguçadas, quase todos os homens seriam assassinos.
Eu preferia que ele não tivesse mencionado o nome do homem. Até então, o corpo fora uma coisa morta, sem identidade. Surgiria nos meus sonhos, sem vida e horrível, como me
apercebi perfeitamente a partir do momento em que pousei a
vista no cadafalso. Agora, relacionar-se-ia com a realidade e
com o homem de olhos aguados que vendia lagostas no cais da
cidade. Costumava encontrar-se junto dos degraus nos meses
de Verão, com a cesta a seu lado, e punha os crustáceos a rastejar pelo chão numa corrida fantástica, para gáudio das
crianças. Não havia muito tempo que eu o vira.
- Então? - perguntou Ambrose, observando-me a expressão. - Que te parece?
Encolhi os ombros e dei um pontapé na base do estrado.
Não queria que ele reparasse no meu estado de espírito, que
me percorria um misto de amargura e terror. De contrário,
desprezar-me-ia. Aos vinte e sete anos, Ambrose era o deus de
toda a criação, pelo menos de todo o meu reduzido mundo, e
o único objectivo da minha vida consistia em emulá-lo.
- O Tom tinha um ar sorridente a última vez que o vi repliquei. - Agora, nem tem frescura suficiente para servir
de
engodo às suas lagostas.
Soltou uma gargalhada e puxou-me levemente a orelha.
- Assim é que gosto de te ouvir. Falaste como um verdadeiro filósofo. - E, com um súbito lampejo de percepção,
acrescentou: - Se estás agoniado, vai vomitar atrás daquela
sebe e lembra-te de que não me dei conta de nada.
Voltou as costas ao cadafalso e à encruzilhada e afastou-se
pela alameda que construía na altura, a qual atravessava o
bosque e serviria de segunda via de acesso de carruagens à casa.
Fiquei satisfeito ao vê-lo retirar-se, porque não alcancei a
sebe
a tempo. Depois, senti-me melhor, embora os dentes chocalhassem e tivesse muito frio. Tom Jenkyn voltou a perder
identidade e converteu-se numa coisa sem ?vida, como um saco
velho. Foi mesmo um alvo para a pedra que atirei. Invulgarmente temerário, observei o corpo oscilante. Mas não aconteceu nada. A pedra atingiu o vestuário molhado com um som
abafado e saltitou no chão. Envergonhado com o gesto, abandonei o local apressadamente pela nova alameda, à procura de
Ambrose.
Bem, isto passou-se há dezoito anos, e não me recordo de
ter pensado muito no assunto desde então. Até aos dias mais
recentes. É curioso como nos momentos de crise aguda a mente faz reaparecer a infância. Recomecei a pensar no infortunado Tom, suspenso nas suas correntes. Nunca ouvira a sua história, e poucas pessoas se lembrariam dela agora. Ambrose
dissera que tinha matado a mulher. E nada mais. Era rezingona, mas isso não constituía motivo suficiente para recorrer ao
homicídio. Possivelmente, como manifestava inclinação especial para a bebida, matara-a sob o efeito do álcool. Mas como?
E com que arma? Uma faca ou as próprias mãos? Talvez tivesse saído do bar da pousada para o cais a cambalear, naquela
noite de Inverno, inflamado de amor e febre. E a maré estava
alta, com a água a lamber os degraus de pedra e a lua cheia a
reflectir-se no mar. Quem sabe que sonhos de conquista lhe
acudiam à mente perturbada, que súbita erupção de fantasia?
Talvez se arrastasse em direcção a casa, no pequeno chalé
atrás da igreja, um indivíduo pálido, de olhar congestionado,
a
tresandar a lagosta, e a mulher invectivara-o por entrar com
os
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pés molhados, o que pusera termo ao sonho e o levara a matá-la. As coisas podiam perfeitamente ter-se passado assim. Se
existe sobrevivência depois da morte, como nos ensinaram a
crer, procurarei o coitado do Tom para o interrogar. Sonharemos no Purgatório juntos. No entanto, ele era um homem de
meia-idade, com cerca de sessenta anos, e eu ainda só tenho
vinte e cinco. Os nossos sonhos não seriam os mesmos. Por
conseguinte, volta para as tuas sombras, Tom, e deixa-me alguma medida de paz. O cadafalso há muito que desapareceu, e
tu com ele. Atirei-te uma pedra por ignorância. Perdoa-me.
A verdade é que a vida tem de ser suportada e vivida. Mas
o problema consiste em como vivê-la. O trabalho do dia-a-dia
não apresenta dificuldades. Tornar-me-ei juiz de paz, como
Ambrose foi, e também frequentarei, um dia, o Parlamento.
Continuarei a ser honrado e respeitado, como toda a família
antes de mim. Cultivarei bem a terra e velarei pelas pessoas.
Ninguém suspeitará do fardo de culpa que me pesa nos ombros, nem saberá que todos os dias, ainda atormentado pela
dúvida, faço a mim próprio uma pergunta a que não posso
responder. Raquel estava inocente ou culpada? Talvez também
me inteire disso no Purgatório.
Como soa terno e suave o seu nome quando o murmuro!
Perdura na língua, insidioso e lento, quase como veneno, que
é de facto apropriado. Passa da língua aos lábios ressequidos
e
destes regressa ao coração. E o coração governa o corpo, assim
como a mente. Libertar-me-ei disso, um dia? Dentro de quarenta, cinquenta anos? Ou porventura algum persistente vestígio de matéria no cérebro subsistirá, pálido e doentio? Alguma
minúscula célula do sistema circulatório deixará de correr com
as outras em direcção ao coração-fonte? É possível que, quando tudo tiver sido dito e feito, eu não deseje ser livre. Por
enquanto, não o posso determinar.
Ainda tenho a casa para estimar, como Ambrose desejaria.
Posso restaurar as paredes onde a humidade se infiltra e manter tudo devidamente em ordem. Continuar a plantar árvores e
arbustos, cobrir as colinas despidas por onde o vento circula
uivando, proveniente de leste. Deixar algum legado de beleza
quando partir, se não puder ser nada mais. Mas um homem
solitário é contranatura, e não tarda a enfrentar a
perplexidade.
Da perplexidade passa à fantasia. Da fantasia à loucura. E regresso assim a Tom Jenkyn, suspenso nas suas correntes.
É possível que ele também sofresse.
Há dezoito anos, Ambrose afastou-se pela alameda e eu fui
no seu encalço. Ele talvez usasse a jaqueta que visto agora.
Esta velha jaqueta de caça verde, com protecção de cabedal nos
cotovelos. Tornei-me tanto como ele que quase poderia ser o
seu fantasma. Os meus olhos são os seus, e os traços fisionómicos também. O homem que assobiou aos seus cães e voltou
as costas à encruzilhada das quatro estradas e ao cadafalso
podia ser eu. Bem, era o que sempre desejara. Ser como ele. Ter
a
sua altura, os seus ombros, a maneira de se encurvar, até os
braços compridos, mãos de aspecto algo desajeitado, o sorriso
repentino, o acanhamento no primeiro encontro com um desconhecido, a aversão ao rebuliço, ao cerimonial. A cordialidade de maneiras com aqueles que o serviam e estimavam - lisonjeiam-me aqueles que dizem que também possuo essa
característica. E a resistência que se revelou ilusória, pelo
que
tombámos ambos na mesma calamidade. Tenho-me interrogado ultimamente se, quando morreu, a mente enevoada e torturada pela dúvida e temor, ao sentir-se abandonado e só naquela maldita vivenda onde eu não podia estabelecer contacto com
ele, se o seu espírito se desprendeu do corpo e se juntou ao
meu, para tomar posse, pelo que voltou a viver em mim e repetir os seus erros, tornou a contrair a doença e pereceu pela
segunda vez. Pode ter sido assim. Só sei que a minha parecença com ele, de que tanto me orgulhava, constituiu um inconveniente. Em virtude dela, surgiu o desaire. Se eu fosse outro,
ágil e rápido, com uma língua aguçada e ideias lúcidas para os
negócios, o ano agora terminado não teria passado de mais doze meses surgidos e deixados eventualmente para trás. Preparar-me-ia para um futuro activo e satisfatório. Para o
casamento, possivelmente, e para uma jovem família.
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Mas eu não era nada disso, e Ambrose tão-pouco. Éramos
sonhadores, desprovidos de sentido prático, reservados, cheios
de grandes teorias nunca testadas e, como todos os sonhadores, adormecidos perante o mundo acordado. Antipatizando
com o nosso semelhante, ansiávamos por afecto, porém a timidez manteve o impulso dormente até que o coração foi afectado. Quando isso aconteceu, os céus abriram-se e sentimos que
dispúnhamos de toda a riqueza do universo para dar. Teríamos
sobrevivido se fôssemos outros. Raquel teria vindo do mesmo
modo. Permaneceria connosco uma ou duas noites e partiria.
Discutiríamos questões de negócios, resolveríamos alguns assuntos, escutaríamos a leitura do testamento em torno de uma
mesa e eu - abarcando a situação num relance - conceder-lhe-ia uma anuidade vitalícia e livrar-me-ia dela.
Não aconteceu assim porque me parecia com Ambrose.
Não aconteceu assim porque pensava como ele. Quando me
dirigi ao quarto dela, na sua primeira noite, e, depois de
bater
à porta, e entrar, inclinei a cabeça levemente por causa do
lintel baixo e ela se levantou da cadeira em que se sentava junto
da janela, para me olhar, eu devia ter compreendido então, pela expressão de reconhecimento que exibiu, que não era a mim
que via, mas Ambrose. Não Philip, mas um fantasma. Devia
ter partido naquele momento, feito as malas e desaparecido,
regressado ao lugar a que pertencia, à vivenda das persianas
corridas, bafienta de recordações, ao jardim formal com terraço e fonte gotejante no centro; regressado ao seu país, ressequido em pleno Verão e brumoso de calor, austero no Inverno
sob o frio e céu brilhante. Um instinto qualquer devia tê-la
prevenido de que se ficasse comigo acarretaria destruição, não
só para o fantasma que encontrara, mas, em última análise, no
final, também para ela.
Quando me vira de pé na sua frente, acanhado e embaraçado, angustiado de ressentimento pela sua presença, embora
perfeitamente consciente da minha qualidade de anfitrião e dos
meus pés grandes e braços e pernas deselegantes, angulosos,
será que pensara "O Ambrose devia ser assim quando jovem;
antes do meu tempo. Não o conheci quando tinha este aspecto", e, por isso, decidira ficar?
Talvez fosse essa a razão pela qual, quando tive o breve encontro com o italiano Rainaldi, pela primeira vez, também me
olhou com o mesmo ar chocado de reconhecimento, dissimulado com prontidão, moveu os dedos na caneta em cima da secretária por uns instantes e acabou por perguntar:
- Chegou só hoje? Nesse caso, a sua prima Raquel não
o viu.
O instinto também o prevenira. Mas demasiado tarde.
Não se pode voltar atrás na vida. Não há regresso ao passado. Nunca uma segunda oportunidade. Não posso apagar a
palavra pronunciada ou o facto consumado, aqui sentado, vivo
e em minha própria casa, tal como o infortunado Tom Jenkvn
não podia, suspenso das suas correntes.
Foi o meu padrinho Nick Kendall quem, no seu estilo directo e brusco, me disse na véspera do meu vigésimo quinto
aniversário (há apenas uns escassos meses, meu Deus, mas um
lapso de tempo tão longo!):
- Há mulheres, Philip, boas pessoas muito possivelmente,
que, sem a mínima culpa própria, provocam uma calamidade.
Tudo no que tocam transforma-se em tragédia. Não sei porque te digo isto, mas sinto que o devo fazer.
Em seguida, testemunhou a minha assinatura no documento que eu lhe colocara na frente.
Não, não se pode voltar atrás. O rapaz que se encontrava
debaixo da janela dela na véspera do aniversário, o mesmo que
surgiu à entrada do seu quarto na noite em que chegou, já não
existe, à semelhança da criança que atirou uma pedra a um homem morto num cadafalso para se incutir falsa coragem. Tom
Jenkyn, espécime andrajoso da humanidade, irreconhecível e
não chorado, porventura, ao longo de todos estes anos, me
contemplaste com compaixão, enquanto eu percorria o bosque
em direcção ao futuro?
Se olhasse para ti, por cima do ombro, não te veria a oscilar nas tuas correntes, mas a minha própria sombra.
Capítulo segundo
Não me acudia a menor sensação de presságio quando
conversávamos, naquela última noite, antes de Ambrose partir
para a sua derradeira viagem. Nenhuma premunição de que jamais voltaríamos a estar juntos. Decorria o terceiro Outono
em que os médicos lhe haviam ordenado que passasse o Inverno no estrangeiro, e eu habituara-me à sua ausência e a olhar
pela propriedade até ao seu regresso. No primeiro em que o
fez, ainda me encontrava em Oxford, pelo que o seu afastamento pouca diferença exercera em mim, mas no segundo voltei definitivamente e permaneci sempre em casa, que era o que
ele desejava de mim. Não fiquei com saudades da vida gregária
na Universidade, e na realidade até me congratulei por lhe
voltar as costas.
Nunca me acudia vontade de estar em parte alguma senão
no lar. À parte os tempos do liceu em Harrow e mais tarde em
Oxford, não vivera em lugar algum excepto naquela casa, onde
me fixara aos dezoito meses, na sequência da morte de meus
jovens pais. Ambrose, à sua curiosa maneira generosa, foi dominado pela compaixão por aquele pequeno primo órfão, pelo
que me foi buscar pessoalmente, como faria em relação a um
cachorro, um gato ou qualquer ser frágil e solitário
necessitado de protecção.
O nosso lar foi estranho desde o princípio. Ele despediu a
minha ama quando eu tinha três anos, porque me batia nas nádegas com uma escova do cabelo. Não me recordo do incidente, mas descreveu-mo mais tarde.
- Fiquei furioso quando vi a mulher a zurzir o teu pequeno corpo com as suas enormes e grosseiras mãos por causa de
um lapso insignificante, cuja inteligência limitadíssima não
lhe
permitia compreender - explicou. - A partir de então, os
correctivos tornaram-se responsabilidade minha.
Nunca tive motivo para o deplorar. Não podia existir um
homem mais imparcial, mais justo, mais simpático, mais pleno
de compreensão. Ensinou-me o alfabeto da maneira mais simples possível, recorrendo às iniciais de cada imprecação. A
pesquisa das vinte e seis letras exigiu não pouco trabalho, mas
ele
conseguiu-o, e advertiu-me de que não devia empregar as palavras que as acompanhavam. Embora invariavelmente cortês,
revelava-se retraído perante as mulheres, assim como desconfiado, com o comentário de que provocavam problemas num
lar. Nessa conformidade, só admitia pessoal doméstico do sexo
masculino, tribo controlada pelo velho Seecombe, que fora
mordomo do meu tio.
Talvez excêntrico, heterodoxo - a região oeste do país
sempre se caracterizou pelos temperamentos singulares -,
mas, apesar das suas opiniões individuais sobre as mulheres e
a
educação de rapazes, Ambrose não era maníaco, nem nada do
género. Desfrutava da simpatia e respeito dos vizinhos e da
estima do pessoal. Dedicava-se à caça no Inverno, antes de o
reumatismo o atacar, pescava no Verão num pequeno barco
que conservava ancorado no estuário, jantava fora e recebia
amigos quando lhe apetecia, ia à missa aos domingos, embora
me olhasse com uma ruga na fronte se o sermão se alongava
demasiado, e conseguiu contagiar-me com a paixão para plantar arbustos raros.
- É uma forma de criação como outra qualquer - costumava dizer. - Há quem se incline para a reprodução. Eu prefiro ver coisas a desenvolverem-se na terra. Exigem menos de
nós, e o resultado é muito mais gratificante.
Chocava o meu padrinho, Nick Kendall, Hubert Pascoe, o
vigário, e outros seus amigos, que costumavam aconselhá-lo a
criar raízes na paz doméstica e uma família em vez de rododendros.
- Criei um rebento, o que consumiu vinte anos do meu
período de vida, ou enriqueceu, conforme o ponto de vista
com que se encare a situação - argumentava, puxando-me levemente a orelha. - Além disso, o Philip é um herdeiro pronto a exercer essas funções, pelo que não se levanta a questão
de
ter de cumprir o meu dever. Ele se ocupará de o fazer quando
o momento se apresentar. E agora, reclinem-se nas poltronas e
estejam o mais confortáveis possível, meus senhores. Como
não há mulheres em casa, podemos pousar os pés na mesa e
cuspir na carpete, se nos apetecer.
Não fazíamos nada disso, naturalmente. Ambrose era meticuloso em tudo, sem omitir a higiene e asseio, mas encantava-o proferir observações jocosas do género diante do vigário,
pobre homem, com um regimento de filhas, e o vinho do Porto circulava em torno da mesa após o jantar de domingo, com
Ambrose a piscar-me o olho do seu lugar à minha frente.
Parece que ainda o estou a ver, semicurvado, meio refastelado na cadeira - hábito que adquiri dele -, estremecendo
com hilaridade silenciosa quando o vigário proferia a
habitual,
tímida e ineficiente advertência, após o que, receando ter melindrado o homem, se apressava a mudar de assunto, rumando
para temas em que o clérigo se acharia mais à vontade e esforçando-se por proceder de modo que se sentisse como em sua
casa. Eu apreciava sobretudo as suas qualidades quando estudava em Harrow. As férias passavam rapidamente, enquanto
comparava as suas maneiras e companhia com as dos garotos
irresponsáveis meus condiscípulos e dos professores, circunspectos e arrogantes, destituídos, a meu ver, de toda e
qualquer
humanidade.
- Não te preocupes - recomendava-me, com uma palmada no ombro, antes de eu sair, pálido, de olhos algo húmidos,
para apanhar o comboio de Londres. - É apenas um processo
de treino, como domar um cavalo: tem de se enfrentar. Quando os teus tempos de colégio terminarem, como acontecerá
inevitavelmente, ficarás aqui para sempre e passarei eu a
treinar-te.
- Treinar-me para quê?
- Não és o meu herdeiro? Só isso já é uma profissão.
E eu partia, conduzido por Wellington, o cocheiro, para
apanhar o comboio de Londres em Bodmin, não sem me voltar, a fim de ver Ambrose pela última vez, apoiado à bengala,
com os cães ao lado, os olhos semicerrados numa expressão de
compreensão e cabelo anelado que começava a tornar-se grisalho. E quando ele assobiava aos animais e voltava para dentro,
eu engolia o nó na garganta e sentia as rodas da carruagem levarem-me para longe, inevitável e fatalmente, ao longo da passagem de saibro que atravessava o parque, para em seguida
transpor o portão, a caminho do colégio e da separação.
No entanto, Ambrose não incluíra a saúde nos seus planos,
e quando o colégio e a Universidade ficaram para trás de mim,
foi a sua vez de partir.
- Dizem-me que, se passo mais um Inverno debaixo desta
chuva persistente, terminarei os meus dias numa cadeira de rodas - explicou-me. - Tenho de procurar o sol. As praias de
Espanha ou o Egipto, qualquer lugar no Mediterrâneo que seja seco e quente. Confesso que não estou muito empenhado
em ir, mas, por outro lado, demónios me levem se vou acabar
a minha vida paralítico. Aliás, o projecto tem uma vantagem.
Trarei plantas que mais ninguém possui. Veremos como se darão no solo da Cornualha.
O primeiro Inverno chegou e partiu, assim como o segundo. Ele divertiu-se à sua maneira e não creio que se sentisse
só.
Regressou acompanhado de uma infinidade de árvores, arbustos, flores e plantas de todas as formas e cores. As camélias
eram a sua paixão. Iniciou uma plantação exclusivamente delas
e não sei se possuía algum condão especial para o fazer, mas
floresceram à primeira tentativa e não se perdeu uma única.
Assim se foram sucedendo os meses até ao terceiro Inverno. Desta vez, optou pela Itália. Desejava ver alguns dos jardins de Florença e Roma. Nenhuma dessas cidades era quente
naquela época do ano, porém o facto não o preocupava. Alguém lhe garantira que o ar era seco, embora frio, e não
necessitava de temer a chuva. Conversámos até tarde, naquele último serão. Nunca se deitava cedo e acontecia com frequência
sentarmo-nos juntos na biblioteca até à uma ou duas da madrugada, umas vezes calados, outras a trocar impressões, ambos com as longas pernas estendidas na nossa frente diante do
lume e os cães enroscados aos pés. Referi atrás que não me
acudira qualquer premunição, porém agora pergunto-me, ao
rememorar aqueles dias, se tal não sucedeu com ele. Com efeito, olhava-me com uma expressão de perplexidade meditativa,
para de vez em quando desviar a vista para as paredes em volta, onde se encontravam retratos da família, depois para a lareira e em seguida para os cães adormecidos.
- Gostava que viesses comigo - declarou subitamente.
- Não demorava muito a fazer as malas.
Abanou a cabeça e sorriu.
- Estava a brincar. Não podemos ausentar-nos ambos simultaneamente durante meses. Um proprietário rural tem certas responsabilidades, embora nem todos pensem como eu.
- Podia acompanhá-lo a Roma - aventurei, excitado com
a ideia. - Depois, desde que o tempo não me retivesse, estava
de volta pelo Natal.
- Não - articulou pausadamente. - Foi apenas uma fantasia de minha parte. Esquece-a.
- Suponho que se sente bem... Não tem dores?
- Decerto que não. Tomas-me por um inválido? Há meses que não tenho nem vestígios de reumatismo. O pior, meu
caro Philip, é o atractivo que o lar exerce em mim. Quando
chegares à minha idade, talvez sintas o mesmo.
Levantou-se da poltrona e aproximou-se da janela. Afastou
os pesados cortinados e contemplou o relvado durante uns
momentos. Fazia uma noite calma e silenciosa. As gralhas haviam recolhido aos poleiros e, por uma vez, até os mochos
permaneciam calados.
- Ainda bem que eliminámos as passagens e fizemos a relva chegar até aqui - murmurou. - Em todo o caso, podíamos melhorar o aspecto geral se prosseguisse até ao cercado
dos póneis. Um dia, tens de mandar aparar os arbustos do outro lado, para haver uma vista do mar.
- Eu? - Estranhei. - Porque não o primo?
Não respondeu imediatamente.
- Tanto faz - acabou por dizer. - Não te esqueças, em
todo o caso.
O meu velho perdigueiro, Don, ergueu a cabeça e olhou-o.
Vira a bagagem no átrio e pressentira a partida iminente. Levantou-se e foi-se postar ao lado de Ambrose, de cauda baixada. Chamei-o a meia voz, mas ignorou-me. Sacudi a cinza do
cachimbo no lume. O relógio do campanário badalou. No sector do pessoal doméstico, ouvi a voz rouca de Seecombe a admoestar o ajudante de cozinha.
- Deixe-me ir consigo, Ambrose - solicitei.
- Não digas disparates, Philip - foi a réplica pronta.
- Vai mas é para a cama.
Apenas isto. Não voltámos a ventilar o assunto. Na manhã
seguinte, durante o pequeno-almoço, transmitiu-me as últimas
instruções sobre o plantio da Primavera e várias coisas que
desejava que eu fizesse antes do seu regresso. Acudiu-lhe o capricho repentino de construir um lago para cisnes numa área
pantanosa do parque junto da entrada do caminho de acesso
oriental, pelo que necessitaria de iniciar os trabalhos sem
demora, se o Inverno contivesse alguns dias sofríveis. O momento da partida surgiu com uma prontidão que nenhum dos dois
acolheu com satisfação. O pequeno-almoço terminou às sete,
porque ele tinha de sair cedo. Pernoitaria em Plvmouth e partiria de manhã à hora da maré favorável. O barco, uma unidade da marinha mercante, deixá-lo-ia em Marselha, de onde seguiria para a Itália. Fazia uma manhã húmida, de temperatura
cortante. Wellington levou a carruagem para a entrada e carregou a bagagem sem demora. Os cavalos mostravam-se irrequietos, ansiosos por iniciar a viagem. Ambrose virou-se para
mim e pousou-me a mão no ombro.
- Olha por tudo. Não me desapontes.
- Isso é um golpe baixo - retruquei. - Que eu saiba,
nunca o desapontei.
- És muito jovem. Delego em ti uma carga pesada. De
qualquer modo, tudo o que possuo é teu, como sabes.
Creio que, se insistisse, me deixaria acompanhá-lo. No entanto, não o fiz. Seecombe e eu ajudámo-lo a subir para a carruagem, com os seus tapetes e bengalas, e depois sorriu-nos
pela janela aberta.
- Pronto, Wellington. Podemos ir.
E afastaram-se pelo caminho que comunicava com a estrada, precisamente quando principiava a chover.
As semanas sucederam-se mais ou menos como durante os
dois Invernos anteriores. Eu sentia a ausência dele, como sempre, mas havia muita coisa para me entreter. Se desejava companhia, visitava o meu padrinho, Nick Kendall, cuja única filha, Louise, era alguns anos mais nova que eu e companheira
de infância. Tratava-se de uma moça delicada, despretensiosa e
bonita. Ambrose gostava de observar, maliciosamente, que
acabaríamos por casar, mas confesso que nunca a encarei com
semelhantes intenções em mente.
A primeira carta dele chegou em meados de Novembro,
trazida pelo mesmo navio que o deixara em Marselha. A viagem decorrera sem nada de especial a assinalar, com bom tempo, apesar de uma certa agitação do mar na baía da Biscaia.
Encontrava-se bem de saúde, bem-humorado, e aguardava
com ansiedade a passagem pelos diferentes pontos de escala
em Itália. Não se atrevera a viajar numa diligência, o que, de
qualquer modo, o obrigaria a deslocar-se a Lião, e preferira
alugar uma carruagem, na qual tencionava seguir ao longo da costa
em direcção a Florença. Wellington meneou a cabeça ao
inteirar-se e previu um acidente. Manifestava a firme opinião de que
nenhum francês era capaz de conduzir uma carruagem devidamente e todos os italianos revelavam tendência para o roubo. No
entanto, Ambrose sobreviveu à tenebrosa previsão, e a missiva
seguinte proveio de Florença. Conservei todas as suas cartas e
tenho-as neste momento na minha frente. Li-as numerosas vezes
nos meses seguintes e manuseava-as com insistência, como se a
pressão dos meus dedos pudesse extrair-lhes informações mais
completas do que as fornecidas pelas palavras escritas.
Foi perto do final daquela epístola de Florença, onde, segundo parecia, passara o Natal, que aludiu pela primeira vez à
prima Raquel.
??Encontrei uma nossa parente. Deves recordar-te de
me ouvir falar dos Coryn, que possuíam uma vivenda no
Tamar e acabaram por vendê-la. Um deles casou com
uma Ashlev, há duas gerações, como podes verificar na
árvore genealógica, e uma descendente desse ramo nasceu e foi criada em Itália por um pai sem dinheiro e mãe
italiana, para vir a desposar um nobre chamado Sangalletti, o qual abandonou este mundo na sequência de um
duelo, no estrangeiro, deixando à mulher uma carga de
dívidas e uma vivenda enorme e vazia. Não tiveram filhos. A condessa Sangalletti, ou, como insiste em se intitular a minha prima Raquel, é uma mulher sensata, boa
companheira, que decidiu oferecer-se para me mostrar
os jardins de Florença e, mais tarde, de Roma, pois estaremos na capital na mesma altura.?,
Congratulei-me pelo facto de ele ter encontrado uma pessoa amiga e, em particular, alguém capaz de partilhar a sua
paixão pelos jardins. Como não sabia absolutamente nada
acerca da sociedade florentina ou romana, eu receara que se
lhe deparassem poucos, ou mesmo nenhum, compatriotas, mas
afinal surgira ao menos uma pessoa cuja família viera originariamente da Cornualha, pelo que existia também esse elemento
comum.
A carta seguinte consistia quase inteiramente em listas de
jardins, que, embora não apresentassem o seu melhor aspecto
naquela época do ano, pareciam tê-lo impressionado profundamente. Tal como a nossa parente.
??Começo a nutrir um afecto especial pela nossa prima Raquel??, escreveu no princípio da Primavera. ??Sinto-me impressionado com o que deve ter sofrido com esse
Sangalletti. Os Italianos são traiçoeiros por natureza,
facto impossível de refutar. Ela é tão inglesa como tu ou
eu no aspecto e maneiras, e dir-se-ia que ainda ontem vivia junto do Tamar. Não se cansa de me ouvir falar da
pátria e de tudo o que tenho para lhe contar. É extremamente inteligente, mas, graças a Deus, sabe quando se
deve calar. Nada de tagarelices, como é vulgar nas mulheres. Indicou-me aposentos excelentes em Fiesole, perto da sua vivenda, e tenciono passar uma boa parte do
meu tempo junto dela, sentado no terraço ou a percorrer
os seus jardins, que são, segundo parece, famosos pela
sua concepção e estatuetas, apesar de não me considerar
uma autoridade nestas últimas. Ignoro de que vive a
nossa prima Raquel, mas depreendi das suas palavras
que teve de vender uma grande parte dos bens para pagar as dívidas do marido."
Perguntei ao meu padrinho se se recordava dos Coryn
e respondeu que sim, mas não emitiu uma opinião concreta a
seu respeito.
- Eram pessoas instáveis, nos meus tempos de adolescente - salientou. - Perderam ao jogo o dinheiro e propriedades, e actualmente a casa, à beira do Tamar, não passa de
pouco mais que uma herdade em ruínas. Entrou em declínio
há uns quarenta anos. O pai dessa mulher devia ser Alexander
Coryn, que julgo ter desaparecido no continente, segundo filho de um segundo filho. Não sei o que foi feito dele. O Ambrose referiu a idade da condessa?
- Não. Só diz que casou muito jovem, mas não quando.
Suponho que é de meia-idade.
- De qualquer modo, deve ser muito atraente, para lhe
despertar tanto entusiasmo - comentou Louise. - Nunca o
tinha ouvido admirar uma mulher.
- Talvez o segredo resida precisamente aí - aventei.
- É feia e banal e ele não se sente na obrigação de lhe
dirigir
galanteios. A hipótese encanta-me.
Chegaram mais duas ou três cartas, sem qualquer novidade
especial. Ambrose acabava de regressar aos seus aposentos depois de jantar com a nossa prima Raquel ou preparava-se para
se encontrar com ela. Explicava que havia muito poucas pessoas em Florença capazes de lhe dar conselhos desinteressados
sobre os seus assuntos e sentia-se lisonjeado por lhe poder
ser
útil. E Raquel mostrava-se extremamente grata. Não obstante
os seus numerosos interesses, parecia singularmente só. Decerto nunca tivera nada em comum com Sangalletti, e confessava
que toda a vida ansiara por dispor de amigos ingleses. ??Penso
que alcancei algo de positivo, além de adquirir centenas de
novas plantas que regressarão a casa comigo??, revelava numa das
missivas.
Seguiu-se um período de silêncio epistolar. Embora não
mencionasse a data do regresso, costumava ser perto do final
de Abril. O Inverno parecera mais prolongado entre nós, com
geada - raramente forte na área ocidental do país - de uma
intensidade e persistência excepcionais. Algumas das jovens
camélias dele haviam sido afectadas pela intempérie, e eu acalentava a esperança de que não regressasse prematuramente e
tivesse de suportar ventos agrestes e chuvas copiosas.
Pouco depois da Páscoa, recebi a carta.
??Deves estar admirado com o meu silêncio e, para
ser franco, nunca esperei vir um dia a escrever-te o que a
seguir lerás. A Providência actua das formas mais estranhas. Viveste sempre junto de mim, pelo que decerto te
apercebeste da agitação que se me instalou no espírito
nas últimas semanas. Na verdade, ??agitação?, talvez não
seja o termo apropriado. O mais correcto seria falar de
??excitação de felicidade??, que se converteu numa certeza. Não tomei uma decisão precipitada. Como sabes,
sou demasiadamente um homem de hábitos para alterar
o meu modo de vida por um capricho. No entanto,
compreendi, há semanas, que não se me deparava outro
rumo possível. Encontrei algo que nunca vislumbrara,
nem imaginava que existisse. Mesmo agora, ainda me
custa a crer que aconteceu. Os meus pensamentos dirigiram-se para ti com frequência, mas só hoje consegui reunir a calma e coragem suficientes para te escrever. Quero
comunicar-te que a tua prima Raquel e eu casámos há
duas semanas. Estamos agora em Nápoles, em plena lua-de-mel, e tencionamos regressar a Florença dentro de
pouco tempo. Não te posso dizer mais do que isto. Não
traçámos quaisquer planos e nenhum dos dois deseja,
para já, viver fora do momento presente.
Espero que um dia, não muito distante, a possas conhecer. Eu poderia alongar-me numa descrição pessoal
que te aborreceria, a par das suas características nos
campos da ternura e bondade, mas prefiro que te certifiques directamente, na ocasião oportuna. Não entendo
porque me escolheu de entre todos os homens, um cínico avesso às mulheres, empedernido, por assim dizer.
Ela graceja a esse respeito e eu admito a derrota. Aliás,
ser derrotado por alguém como a Raquel equivale, de
certo modo, a uma vitória. Poder-me-ia considerar vencedor, e não vencido, se não constituísse uma afirmação
a todos os títulos presunçosa.
Transmite a nova a todos, com as minhas saudades e
os cumprimentos dela, e lembra-te, meu caro rapaz, de
que este casamento, tardio na vida, não alterará um átomo do afecto que me mereces e até o reforçará, e agora
que me julgo o mais feliz dos homens procurarei fazer
ainda mais por ti do que até aqui, com a ajuda de minha
esposa. Não tardes a escrever e, se achares que o deves
fazer, inclui uma palavra de boas-vindas à tua prima Raquel.
O teu sempre dedicado
Ambrose. ??
A inesperada comunicação chegou por volta das cinco e
meia, quando eu acabava de jantar. Por sorte, encontrava-me
só, pois Seecombe entregara-me a correspondência e retirara-se em seguida. Guardei a carta na algibeira e saí para cruzar
os campos em direcção ao mar. O sobrinho de Seecombe, que
ocupava a pequena casa perto da praia, saudou-me. Tinha as
redes estendidas na muralha de pedra, para as secar aproveitando os derradeiros raios solares. Respondi com um grunhido
entre dentes, e decerto considerou que a minha atitude não
primava pela boa educação. Trepei a umas rochas até alcançar
um rebordo estreito sobranceiro à pequena baía, sentei-me,
puxei da carta e voltei a lê-la. Se conseguisse experimentar
uma ponta de simpatia, de alegria, um simples raio de ternura
pelo casal que partilhava um período de felicidade em Nápoles, teria ficado com a consciência aliviada. Envergonhado comigo próprio e irritado com o meu egoísmo, não era capaz de
notar a menor sensação de afecto no coração. Conservava-me
sentado, aturdido pela amargura, o olhar perdido no mar calmo. Acabava de completar vinte e três anos, mau grado o que
me sentia tão só e perdido como acontecera num passado remoto, instalado num banco em Fourth Farm, sem ninguém
para me dispensar amizade e nada na minha frente - apenas
um mundo novo de experiência estranha que não desejava.
Capítulo terceiro
Creio que o que mais me envergonhava era a satisfação dos
amigos dele, o verdadeiro prazer pelo seu bem-estar. Os parabéns caíam-me em cima às catadupas, como se me considerassem uma espécie de mensageiro de Ambrose, e no meio de tudo eu tinha de sorrir, inclinar a cabeça e tentar convencê-los
de que previra que aquilo acabaria por acontecer. Sentia-me
como um homem de duas caras, um traidor. O meu primo esforçara-se por me fazer detestar a falsidade, nas pessoas e
nos
animais, e, de súbito, descobria-me a fingir que não me achava
à beira de uma angústia excruciante.
??O melhor que lhe podia ter acontecido.?? Quantas vezes
ouvi pronunciar estas palavras e tive de as ecoar! Comecei a
evitar os vizinhos e regressar a casa através do bosque, para
não enfrentar os rostos ansiosos e línguas aguçadas. Se
passava
nas proximidades das herdades ou visitava a aldeia, não havia
fuga possível. Bastava que alguém me descortinasse para me
crivar de perguntas ou trocar impressões entusiásticas. Como
um actor indiferente, exibia um sorriso forçado e via-me obrigado a replicar com um calor que me desagradava, como o que
o mundo espera que se fale de uma boda. ??Quando voltam???
Para isto, não havia resposta senão: ??Não sei. O Ambrose não
diz. ?,
Havia larga especulação sobre o aspecto, idade e natureza
geral da noiva, a que me limitava a replicar: ??É viúva e também adora a jardinagem.¨?
As cabeças dos interessados inclinavam-se em aprovação:
muito apropriado, não podia ser melhor, a mulher indicada
para ele. Seguia-se então uma fase de comentários maliciosos,
aparentemente inofensivos, relativos à interrupção de um longo celibato de quem parecia um solteirão inveterado. A arguta
Mrs. Pascoe, esposa do vigário, perorou acerca do tópico, como se ao fazê-lo se vingasse de insultos passados sobre o matrimónio.
- Como vai ser tudo diferente agora, Mister Ashley! -- proclamava em todas as oportunidades possíveis. - Acabou-se a indiferença pela arrumação em sua casa. E ainda bem.
Passará a imperar uma certa organização entre o pessoal doméstico, o que decerto não agradará ao Seecombe, que fazia
praticamente o que queria.
Neste aspecto, falava verdade. Penso que Seecombe era o
meu único aliado, mas eu tinha o cuidado de não enfileirar a
seu lado e interrompia-o quando tentava revelar-me o que lhe
ia no íntimo.
- Não sei o que dizer, Mister Ashley - murmurava,
sombrio e resignado. - Uma senhora cá em casa voltará tudo
do avesso e ficaremos sem saber a quantas andamos. Primeiro
uma coisa, depois outra, e provavelmente ninguém conseguirá
agradar-lhe por mais que se esforce. Julgo chegado o momento
de me aposentar e ceder o lugar a alguém mais jovem. Talvez
não fosse má ideia mencionar o facto a Mister Ambrose, quando lhe escrever.
Indicava-lhe que não fosse pateta e Ambrose e eu estaríamos perdidos sem ele, mas abanava a cabeça e continuava a
executar as suas tarefas com uma expressão grave, sem deixar
escapar uma oportunidade para pronunciar uma alusão amargurada ao futuro, à inevitável alteração das horas das
refeições,
modificação profunda na disposição do mobiliário, uma interminável operação de limpeza que se prolongaria da alvorada
ao anoitecer sem repouso para ninguém e, como tirada final,
até os infortunados cães sofreriam as consequências. Estas
profecias, emitidas em tons sepulcrais, permitiram-me recuperar uma certa medida do perdido sentido do humor, e soltei
uma gargalhada pela primeira vez desde que lera a carta de
Ambrose.
Que quadro pintava o fiel Seecombe! Acudiu-me uma visão de um regimento de empregadas domésticas, munidas de
panos e espanadores, atarefadas a eliminar até à última teia
de
aranha, sob o olhar desaprovador do velho mordomo. A sua
melancolia divertia-me, mas quando outros principiaram a afinar pelo mesmo diapasão - a própria Louise Kendall, a qual,
por me conhecer bem, devia ter percepção suficiente para dominar os impulsos da língua -, passei a irritar-me.
- Ao menos, vai haver novas coberturas para os móveis
da biblioteca - declarou alegremente. - As actuais tornaram-se cinzentas com o tempo e uso, mas aposto que vocês nunca
repararam. E flores dentro de casa, o que será um progresso
de monta. A sala de estar cumprirá finalmente as suas funções,
pois sempre me pareceu lamentável que não a utilizassem. Calculo que Mistress Ashley a decorará com livros e quadros da
sua vivenda em Itália.
Continuou a desbobinar o seu rosário, enumerando toda
uma lista de ??progressos?,, até que perdi a paciência e disse
com certa aspereza:
- Com a breca, Louise, deixa o assunto em paz! Estou
farto de tudo isso até à raiz dos cabelos.
Interrompeu-se e olhou-me com curiosidade.
- Não estarás, porventura, com inveja?
- Não sejas pateta.
Haveria, sem dúvida, adjectivos menos inconvenientes para
lhe dirigir, mas conhecíamo-nos tão bem que a encarava como
uma irmã mais jovem, sem lhe conceder respeito especial.
A partir daí, não insistiu, e reparei que, quando o estafado
tema voltava à baila na conversa geral, me olhava e tentava
passar a outro. O facto mereceu a minha gratidão e fiquei a
gostar mais dela.
Foi o seu pai e meu padrinho, Nick Kendall, que deu a estocada final, inconsciente de que o fazia, naturalmente, no
habitual tom brusco e sem rodeios.
- Já efectuaste planos para o futuro, Philip? - perguntou-me, uma noite, quando me apresentei em sua casa para
jantar.
- Planos? - repeti, sem compreender. - Não.
- Ainda é cedo, claro - admitiu -, e suponho que não
os poderás fazer até que o Ambrose e a esposa cheguem. Perguntei apenas para saber se encaraste a hipótese de procurar
uma pequena propriedade nas imediações.
- Com que intuito? - Decididamente, custava-me a
abarcar o sentido da sua curiosidade.
- Bem, a situação alterou-se um pouco, não achas? -- Volveu com desprendimento. - Eles desejarão sem dúvida estar sós. E, se surgir um filho, as coisas não serão iguais
para ti,
hem? Penso que o Ambrose não permitirá que sofras com o
novo panorama e te comprará qualquer propriedade que escolheres. Existe, decerto, a possibilidade de não terem descendentes, mas, por outro lado, subsiste sempre essa eventualidade. Talvez prefiras construir. Às vezes, resulta mais
satisfatório
do que adquirir uma casa já pronta.
Continuou a falar e mencionar locais num raio de cerca de
trinta quilómetros susceptíveis de me agradar, e fiquei
aliviado
ao verificar que não esperava que me pronunciasse imediatamente. O que ele sugeria era tão abrupto e inesperado que eu
experimentava dificuldade em raciocinar com clareza, e, na
primeira oportunidade, despedi-me. Sim, tinha inveja. Afinal,
Louise devia falar verdade. A inveja de uma criança que se encontrava repentinamente obrigada a partilhar a única pessoa da
sua vida com uma estranha.
À semelhança de Seecombe, eu vira-me a desenvolver todos os esforços para me adaptar a uma situação nova e desconfortável. Apagar o cachimbo na presença dela, pôr-me de pé à
sua entrada, diligenciar, embora contrariado, participar na
conversa, resignar-me aos rigores e tédio da sociedade
feminina. E ver Ambrose comportar-se como um imbecil, até me
sentir na obrigação de abandonar o aposento em virtude do
profundo embaraço. Nunca me considerara um intruso. Já não
desejado, expulso do lar e alojado em qualquer recanto, como
um criado. A aparição de um filho, que chamaria pai a Ambrose, pelo que eu deixaria de ser necessitado.
Se tivesse sido Mrs. Pascoe que me chamasse a atenção para semelhante possibilidade, atribuiria o facto a malícia e
esquecê-lo-ia. Mas o meu próprio padrinho, um homem reservado e calmo, a expor uma hipótese tão cruel, era diferente.
Regressei a casa atormentado pela incerteza e tristeza. Quase
não sabia o que fazer. Deveria traçar planos, como Nick Kendall sugerira? Procurar uma nova residência? Efectuar os
preparativos para partir? Não queria viver em qualquer outro
lugar ou possuir outra casa. Ambrose criara-me e educara-me
somente para aquela. Era minha. E dele. Pertencia a ambos.
Mas agora tudo se modificara. Recordo-me de vaguear pela vi venda, quando regressei da visita aos Kendall, e
contemplá-la
com um olhar novo, e os cães, pressentindo a minha perturbação, seguiam-me, tão inquietos como eu. O meu antigo quarto
quando criança, desocupado desde longa data, e agora o local
onde a sobrinha de Seecombe se instalava uma vez por semana
para cuidar da roupa da casa, adquiria um novo significado.
Vi-o pintado de fresco, e o meu pequeno taco de críquete, que
ainda se encontrava, debaixo de teias de aranha, numa
prateleira entre livros cobertos de pó, deitado fora como mero lixo.
Não me ocorrera até então que o aposento continha numerosas
recordações. Agora, desejava recuperá-lo, um oásis de refúgio do mundo exterior. Ao invés, converter-se-ia num lugar
estranho, abafado, a cheirar a leite fervido e cobertores
postos
a secar, como as salas de casas pequenas que visitava com
frequência, onde viviam crianças. A imaginação mostrava-mas a
gatinhar pelo chão com gritos agudos e colidir para se magoarem, no meio de uma confusão indescritível. Santo Deus! Estaria tudo aquilo, ou mesmo pior, reservado a Ambrose?
Até então, quando pensava na minha prima Raquel - o
que só fazia esporadicamente, para afastar em seguida o nome
da mente, como se faz perante uma coisa desagradável -,
concebera-a como parecida com Mrs. Pascoe. De traços fisionómicos mais ou menos grosseiros, olhar perscrutador para
detectar o mínimo grão de pó, como Seecombe profetizara, e
risadas demasiado agudas, sobretudo quando houvesse convidados para jantar. Agora, assumia novas proporções. Num
momento monstruosa, como a infeliz Molly Bates, membro
do pessoal doméstico, que obrigava as pessoas a desviar a
vista
por uma questão de delicadeza, e no seguinte pálida e
retraída,
coberta com um xaile numa cadeira dominada por uma petulância de inválida, enquanto uma enfermeira permanecia alerta
para lhe acudir e, entretanto, misturava medicamentos com
uma colher. Num momento, de meia-idade e enérgica, e no seguinte afectada e mais jovem do que Louise, a minha prima
Raquel tinha uma dúzia, pelo menos, de personalidades, cada
uma mais odiosa que a anterior. Imaginei-a a obrigar Ambrose
a ajoelhar para brincar com os filhos encavalitados nas costas
e
ele a submeter-se com humilde graciosidade por ter perdido
toda a dignidade. No entanto, via-a igualmente envolta em
musselina, com uma fita no cabelo, sacudir os caracóis com
uma expressão pretensiosa, enquanto Ambrose se reclinava
na poltrona a observá-la, um sorriso de pateta a alterar-lhe o
rosto.
Quando, em meados de Março, chegou a carta a anunciar
que afinal tinham decidido continuar no estrangeiro durante o
Verão, o meu alívio foi tão intenso que me contive com dificuldade de soltar um grito de satisfação. Sentia-me mais traiçoeiro que nunca, mas não o podia evitar.
??A tua prima Raquel está ainda tão assoberbada pela resolução dos seus assuntos antes de partir para a Inglaterra que
decidimos, embora contrariados, como deves calcular, protelar
o regresso para já??, revelava Ambrose. ??Esforço-me tanto
quanto possível, mas as leis italianas diferem radicalmente
das
nossas, e é uma carga de trabalhos tentar harmonizá-las. Farto-me de gastar dinheiro, mas faço-o por uma boa causa de
que me não arrependo. Falamos de ti com frequência, meu rapaz, e lamento que não estejas connosco.??
Prosseguia com perguntas sobre a situação no lar e estado
dos jardins, com o habitual fervor de interesse, pelo que se
me
afigurava que eu devia estar louco para imaginar por um momento que fosse que ele podia mudar.
A vizinhança não deixou, evidentemente, de se mostrar desapontada pelo facto de eles não regressarem antes do final do
Verão.
- Talvez o estado de saúde de Mistress Ashley a impeça
de viajar - observou Mrs. Pascoe, com um sorriso malicioso.
- Isso não sei - repliquei. - O Ambrose refere na carta
que passaram uma semana em Veneza e voltaram de lá com
reumatismo.
- Reumatismo? - O sorriso extinguiu-se. - A esposa
também? Que pena... - E, com uma expressão pensativa:
- Deve ser mais velha do que eu supunha.
Uma mulher apatetada, com o raciocínio orientado invariavelmente para um único rumo. Eu sofrera de reumatismo nos
joelhos aos dois anos de idade. Com dores incomodativas, segundo os meus pais me haviam explicado. Às vezes, quando a
humidade do ar aumentava, ainda me acudiam. Apesar disso,
existia alguma similaridade entre os meus pensamentos e os de
Mrs. Pascoe. A minha prima Raquel envelheceu subitamente
vinte anos. Voltava a ter cabelo grisalho, apoiava-se a uma
bengala, e eu via-a, quando não plantava rosas no jardim italiano que me era impossível configurar, sentada a uma mesa, a
bater impacientemente com a bengala no chão, rodeada por
meia dúzia de advogados que palravam em italiano, enquanto
o infortunado Ambrose permanecia resignadamente a seu lado.
Porque não regressava ele a casa e a deixava resolver os
seus problemas?
O meu estado de espírito melhorou, todavia, a partir do
instante em que a noiva afectada cedeu o lugar à matrona idosa, flagelada por lumbago. O quarto das crianças retrocedeu
para segundo, ou mesmo terceiro, plano, e a sala converteu-se
num boudoir, circundado por cortinados, uma ampla lareira
acesa em pleno Verão e alguém a chamar Seecombe em tom irritado para que trouxesse mais carvão, porque o frio a incomodava profundamente. Readquiri o hábito de cantar quando
montava a cavalo, incitava os cães para perseguirem coelhos
jovens, nadava antes do pequeno-almoço, passeava na embarcação de Ambrose até ao estuário se o vento soprava de feição
e gracejava com Louise acerca das modas impostas por Londres, quando ela ia lá passar a época do ano apropriada. Aos
vinte e três anos, não é preciso muito para que o espírito
assuma um estado quase de euforia. A casa continuava a ser o meu
lar. Ninguém mo arrebatara.
Até que, no Inverno, o tom geral das cartas dele se alterou.
De modo imperceptível, a princípio, e quase não me dei conta.
Porém, ao reler as suas palavras detectei uma aragem de tensão, como que uma nota de ansiedade subjacente que o dominava gradualmente. Depreendi que, em parte, se tratava de
saudades de casa. Uma nostalgia da pátria e de bens que lhe
pertenciam, mas, sobretudo, uma espécie de solidão que me
parecia estranha num homem casado havia apenas dez meses.
Admitia que o Verão e o Outono tinham sido muito cansativos, e agora o Inverno encontrava-se invulgarmente perto.
Embora a vivenda se situasse num ponto elevado, a atmosfera
era opressiva, e ele dizia que costumava mover-se de um aposento para outro como um cão antes de uma tormenta, sem
que, contudo, se registasse qualquer trovão. O ar persistia
pesado, e daria a própria alma por uma boa chuvada, ainda que
lhe agudizasse o reumatismo. ??Nunca fui atreito a enxaquecas,
mas agora acodem-me com frequência?,, escrevia. ??Às vezes,
quase me privam da visão. Estou farto de ver o Sol. Não encontro palavras para exprimir as saudades que tenho de ti. Há
muitas coisas para abordarmos, mas não por carta. A minha
mulher foi hoje à cidade, e daí a oportunidade que se me depara para traçar estas linhas.,? Era a primeira vez que
empregava a expressão ??minha mulher". Até então, mencionara-a como ??Raquel?, ou ??a tua prima Raquel??, pelo que ??minha
mulher?? parecia formal e mesmo fria.
Nessas epístolas do Inverno, não aludia ao regresso, mas
manifestava sempre um desejo apaixonado de conhecer as novidades, e comentava qualquer pequena ocorrência que eu lhe
comunicara em cartas anteriores, como se não possuísse outro
interesse.
Como não chegassem notícias na Páscoa ou no Pentecostes, comecei a preocupar-me. Falei disso ao meu padrinho,
que aventou a possibilidade de o mau tempo ter atrasado o
correio. Verificavam-se intensos nevões na Europa Central,
pelo que eu não devia contar com a chegada de correspondência de Florença antes de fins de Maio. Havia já um ano que
Ambrose casara e dezoito meses que partira para a Itália.
O meu alívio inicial pela sua ausência, após o enlace,
transformou-se em temor de que jamais voltasse. Era óbvio que um
Verão no continente lhe afectara a saúde. Que aconteceria
após
o segundo? Por fim, em Julho, chegou uma carta, breve e incoerente, totalmente imprópria dele. Até a letra, em geral
bem
legível, estendia-se no papel como se lhe fosse difícil
pegar na
caneta.
??Não estou a passar bem?,, reconhecia. ??Deves ter-te apercebido pela minha carta anterior. Em todo o caso, convém
guardar silêncio, pois ela vigia-me constantemente.
Escrevi-te
diversas vezes, mas não há ninguém que me mereça confiança,
e a menos que eu próprio saia para enviar estas linhas, há o
perigo de não te chegarem às mãos. Desde que adoeci, não
posso ausentar-me para muito longe. Quanto aos médicos, nenhum me proporciona o mínimo alívio. São uma corja de
mentirosos. O mais recente, recomendado por Rainaldi, tem
ares de assassino, o que não admira, atendendo à sua proveniência. No entanto, eles nem sabem no que se meteram ao
desafiar-me, e acabarei por vencê-los." Seguia-se um espaço
em branco e a anteceder a assinatura umas garatujas que não
consegui decifrar.
Mandei selar o cavalo e fui mostrar a missiva ao meu padrinho, que ficou tão apreensivo como eu.
- Dá a impressão de um colapso mental - declarou sem
hesitar. - Confesso que não me agrada nada. Não é uma carta
própria e um homem em plena posse das suas faculdades.
Deus queira que... - Interrompeu-se e mordeu o lábio inferior.
- Deus queira o quê? - perguntei.
- O teu tio Philip, pai do Ambrose, morreu de um tumor
no cérebro - declarou secamente. - Suponho que não o
ignoras?
Era a primeira vez que ouvia mencionar o facto e disse-lho.
- Aconteceu antes de nasceres, claro - acrescentou.
- O assunto nunca foi muito ventilado na família. Não sei se
essas coisas são hereditárias, e os médicos creio que também
não. A medicina não está suficientemente avançada. - Tornou
a ler a carta, recorrendo aos óculos. - Existe, sem dúvida,
outra possibilidade, extremamente improvável, mas que eu preferiria...
- Qual?
- Ele estar embriagado quando escreveu isto.
Se não tivesse mais de sessenta anos e não fosse meu padrinho, eu não teria hesitado em esbofeteá-lo pelo arrojo da sugestão.
- Nunca o vi embriagado - afirmei com veemência.
- Nem eu - admitiu com prontidão. - Limito-me a tentar escolher o menor de dois males. Acho que deves partir para a Itália.
- Já tinha decidido fazê-lo, antes de o procurar - anunciei.
Regressei a casa, sem a mais remota ideia das providências
a tomar para empreender a viagem.
Não partia de Plymouth qualquer barco que me pudesse
ser útil, pelo que seria obrigado a seguir para Londres, daí
para Dôver, embarcar no paquete para Bolonha e depois atravessar a França, rumo à Itália na diligência usual. Admitindo que
não se verificariam atrasos imprevistos, encontrar-me-ia em
Florença dentro de cerca de três semanas. O meu francês era
fraco e o italiano inexistente, mas nada disso me preocupava,
desde que pudesse chegar até Ambrose. Despedi-me de Seecombe e do pessoal, com a única explicação de que tencionava
efectuar uma breve visita ao amo, sem todavia mencionar a
doença, e parti para Londres numa bela manhã de Julho, com
a perspectiva de uma viagem de cerca de três semanas em território desconhecido no meu horizonte.
Quando a carruagem enveredava pela estrada de Bodmin,
avistei o nosso empregado que costumava ir buscar a correspondência. Indiquei a Wellington que parasse e o rapaz entregou-me a mala. Existia uma possibilidade muito remota de haver nova carta de Ambrose, mas foi o que aconteceu. Separei-a
das restantes, devolvi a mala ao rapaz e mandei-o seguir para
casa. Enquanto reatávamos a marcha, extraí a folha de papel
do sobrescrito e aproximei-a da janela para ver melhor.
As palavras estavam garatujadas, quase ilegíveis:
??Vem depressa, por amor de Deus. Ela acabou por se
desmascarar, Raquel, o meu tormento. Se não me acudires
imediatamente, poderá ser demasiado tarde. Ambrose."
Apenas isto. Não havia qualquer data, nem marca no sobrescrito, selado com o anel dele.
Conservei-me imóvel, com a folha de papel na mão, consciente de que nenhum poder do Céu ou da Terra me permitiria chegar junto dele antes de meados de Agosto.
Capítulo quarto
Quando a diligência chegou a Florença e nos largou à entrada da estalagem à beira do Arno, afigurava-se-me que passara toda a vida na estrada. Nenhum viajante que pousasse os
pés no continente europeu pela primeira vez se sentiria menos
impressionado do que eu. Os caminhos que percorremos, os
montes e vales, as cidades, francesas ou italianas, onde nos
detivemos para pernoitar, pareciam-me todos iguais. Em toda a
parte imperava a sujidade, e o ruído era ensurdecedor. Habituado ao silêncio da vivenda quase vazia - pois o pessoal dormia nas suas instalações junto da torre do relógio -, onde eu
não ouvia qualquer som ao longo da noite, à parte o vento nas
árvores e o bater da chuva nas vidraças quando a circulação
era de sudoeste, a confusão e pandemónio das cidades estrangeiras quase me aturdiam.
É verdade que dormi - quem não se deixa vencer pelo sono após longas horas de trepidação na estrada? -, porém os
sonhos estavam povoados por todos os ruídos estranhos: o bater de portas, vozes agudas, passos junto da janela, carroças
pesadas que percorriam a rua empedrada e, sempre, cada quarto de hora, o badalar do relógio do campanário. Se me encontrasse no estrangeiro com qualquer outra missão, talvez tudo
fosse diferente. Poderia então assomar à janela pela manhã
com o espírito despreocupado, observar as crianças descalças a
brincar no passeio e até talvez lhes atirasse moedas, enquanto
escutaria os novos sons com fascinação, para à noite passear
pelas ruas estreitas e sinuosas com agrado perante um ambiente diferente do habitual. No entanto, a actual situação
obrigava-me a encarar tudo com indiferença e até hostilidade. O meu
único objectivo consistia em entrar em contacto com Ambrose, e o facto de o saber enfermo num país estranho fazia com
que a minha ansiedade se convertesse em ódio por tudo o que
era estrangeiro, até o próprio solo.
A temperatura era quase sufocante. O céu apresentava uma
tonalidade azul-clara e, enquanto percorria as estradas poeirentas da Toscana, dir-se-ia que os raios solares tinham absorvido toda a humidade da atmosfera. Os vales achavam-se
cobertos por um tapete pardo e as pequenas povoações encontravam-se desertas, pois os habitantes refugiavam-se debaixo
dos seus tectos para obviar o calor.
O meu primeiro instinto, ao apear-me da diligência em
Florença, enquanto descarregavam a bagagem coberta de pó e
a levavam para a estalagem, consistiu em cruzar a rua empedrada e postar-me diante do rio. Sentia-me extenuado e coberto de pó da cabeça aos pés. Nos dois últimos dias, preferira
sentar-me ao lado do condutor para não morrer sufocado dentro da pequena cabina, e, à semelhança dos infortunados animais que percorriam a estrada, ansiava por uma paisagem em
que a água ocupasse um lugar privilegiado. Agora, tinha-a na
minha frente. Não se tratava do estuário azul das proximidades de casa, mas de uma corrente caudalosa acastanhada como
o leito pelo qual circulava, a superfície sulcada de detritos,
apesar do que, para a minha imaginação, quase febril de cansaço e sede, representava um espectáculo maravilhoso, como
quem se sente disposto a tragar veneno, desde que lhe mitigue
a secura das entranhas.
Continuei a contemplar a água em movimento, fascinado,
enquanto o sol incidia na ponte próxima, até que, de súbito,
atrás de mim, na cidade, soaram as badaladas solenes das quatro horas. O eco foi retomado por outros campanários e o
som misturou-se com as águas castanhas do rio.
Notei a meu lado uma mulher, com uma criança soluçante
nos braços e outra agarrada às saias rasgadas, a qual estendeu
a
mão na minha direcção, os olhos negros dominados por uma
expressão de súplica. Dei-lhe uma moeda, mas tocou-me no
cotovelo, murmurando, até que um dos passageiros da diligência, ainda junto desta, lhe dirigiu algumas palavras incisivas
em
italiano e ela afastou-se para a ponte de onde viera. Era
jovem;
pouco mais de dezanove anos, porém os traços do semblante
podiam considerar-se intemporais, perseverantes, como se albergasse no pequeno corpo uma alma velha que se recusava a
morrer. Mais tarde, já no quarto que me atribuíram, assomei
à pequena varanda sobranceira à praça e vi-a mover-se entre as
carroças, furtivamente, como uma gata a coberto da noite.
Lavei-me e mudei de roupa com uma apatia invulgar em
mim. Agora que chegara ao termo da viagem, assolava-me
uma espécie de alheamento, e o ânimo que me impelira a efectuar a longa peregrinação parecia ter-se dissipado,
substituído
por uma indiferença inexplicável. A própria realidade da folha
de papel na minha algibeira perdera toda a substância. Fora
escrita há muitas semanas, e tornava-se difícil determinar o que
podia ter acontecido desde então. Talvez ela tivesse levado
Ambrose de Florença, em direcção a Roma ou Veneza, e imaginei-me encafuado de novo na diligência, atrás deles, para
percorrer cidade após cidade ao longo do tórrido país, sem jamais os encontrar, sempre vencido pelo tempo e estradas poeirentas.
Por outro lado, as minhas deduções podiam estar erradas,
com as cartas escritas apressadamente, e daí a irregularidade
da
letra, resultado de uma das partidas a que o Ambrose de outrora se dedicava de vez em quando. Nessa conformidade,
apresentar-me-ia na vivenda e descobri-lo-ia a meio de uma
recepção, abrilhantada por trepidante música italiana.
Desci à praça diante da estalagem. As carroças já não se
achavam lá. O período da sesta terminara e as ruas voltavam a
estar cheias de gente. Enveredei por elas e perdi-me quase
imediatamente. Rodeavam-me pátios e travessas sombrios, casas altas que dir-se-ia tocarem-se, varandas protuberantes, e,
à
medida que as percorria, vislumbrava rostos desconfiados ou
curiosos que me acompanhavam com os olhos e expressões de
sofrimento. Algumas pessoas aventuraram-se a seguir-me,
murmurando, como fizera a mendiga com dois filhos de tenra
idade, e estendendo as mãos, mas quando eu lhes falava com
aspereza, à semelhança do meu companheiro de viagem, retrocediam, apreensivas. Os sinos recomeçaram a atroar os ares e
desemboquei numa larga piazza, onde numerosos indivíduos,
em grupos, falavam e gesticulavam animadamente, sem o menor elemento de ligação, a meu ver, com os edifícios em redor,
austeros e belos, ou com as estátuas que os contemplavam
remotamente com olhos cegos ou mesmo com o som dos sinos, que vibravam intensa e lugubremente sob o céu quase
plúmbeo.
Chamei uma carrozza que ia a passar e, quando articulei
em tom hesitante as palavras ??Villa Sangalletti?,, o condutor
respondeu algo que não compreendi, embora detectasse o termo ??Fiesole", ao mesmo tempo que inclinava a cabeça e apontava com o chicote. Seguimos pelas artérias estreitas
apinhadas
de gente, enquanto ele vociferava para o cavalo e as pessoas
se
desviavam apressadamente. Os sinos calaram-se, todavia o eco
pareceu perdurar nos meus ouvidos, solene, sonoro, dobrando, não pela minha missão, insignificante e pequena, nem pelas vidas dos transeuntes, mas pelas almas de homens e mulheres há muito falecidos e pela eternidade.
Subimos uma estrada longa e sinuosa em direcção às colinas distantes e deixámos Florença para trás. As casas começaram a rarear e atravessámos uma área pacífica, silenciosa, sem
o calor sufocante de pouco antes. As construções que agora
nos ladeavam apresentavam um aspecto menos formal, mais
acolhedor. Entretanto, a vegetação aumentava, com mais tendência para o verde do que para o castanho das regiões
flageladas pelas temperaturas escaldantes.
O condutor deteve a carrozza diante de um portão fechado
embutido num muro alto, voltou-se no banco e olhou-me por
cima do ombro.
- Villa Sangalletti - anunciou simplesmente. O termo da
minha peregrinação.
Fiz-lhe sinal para que aguardasse, apeei-me, avancei para o
portão e puxei a corrente da sineta a um lado. Ouvi-a retinir
no interior da propriedade. O condutor levou a carrozza para
a berma da estrada, saltou do banco e permaneceu junto dela,
ao mesmo tempo que enxotava as moscas com o chapéu.
O cavalo inclinou-se entre os varais e assumiu a melhor posição possível para recuperar as energias, após a longa e
íngreme
subida. Como não acudisse ninguém, tornei a puxar a corrente
da sineta. Desta vez, registou-se o latido surdo de um cão,
que
aumentou de intensidade no momento em que se abriu uma
porta algures. O grito de uma criança foi abafado, enérgica e
irritadamente, por uma voz feminina, e distingui passos que se
acercavam. Registou-se o ruído de um ferrolho e o ranger dos
gonzos do portão à medida que se abria. Surgiu uma mulher
com ares de camponesa, que me olhou em silêncio.
- Villa Sangalletti? - proferi. - Signor Ashley?
O cão, preso por uma corrente à entrada de um anexo onde ela decerto vivia, pôs-se a ladrar mais furiosamente que
antes. Estendia-se uma alameda à minha frente, ao fundo da
qual
avistei a villa, com aspecto decrépito e destituída de vida.
A mulher fez menção de me fechar o portão na cara, enquanto
o animal persistia nos latidos e a criança chorava. O rosto
daquela estava inchado, como se sofresse de dor de dentes, e
conservava a ponta do xaile pousado nele, como que para atenuar o tormento.
Transpus o portão e repeti as palavras ??Signor Ashley??.
Desta vez, ela estremeceu, como se visse os meus traços fisionómicos pela primeira vez, e pôs-se a falar rapidamente, com
uma espécie de agitação nervosa, ao mesmo tempo que gesticulava em direcção à vivenda. De repente, voltou-se e chamou
alguém que se encontrava no anexo. Um homem, presumivelmente o marido, apareceu à porta aberta, com uma criança
equilibrada no ombro, reduziu o cão ao silêncio e aproximou-se de mim, enquanto increpava a mulher. Esta prosseguiu a
torrente de palavras, das quais distingui ??Ashley?? e
??Inglese?,,
e foi a vez dele de me olhar com estranheza. Tinha um aspecto
menos desagradável que ela - mais asseado e olhos de expressão sincera -, até que a expressão se alterou para profunda
apreensão e murmurou algumas palavras para a mulher, a qual
desapareceu no interior do anexo com a criança, para assomar
quase imediatamente, ainda com a ponta do xaile pousada no
rosto.
- Eu falo algum inglês, signore - articulou o homem.
- Em que o posso servir?
- Procuro Mister Ashley - informei. - Ele e Mistress
Ashley encontram-se na villa?
A expressão apreensiva acentuou-se e ele engoliu com nervosismo, antes de perguntar:
- É filho de Mister Ashley, signore?
- Não - redargui com impaciência. - Sou primo. Eles
estão em casa?
Meneou a cabeça, mais acabrunhado que nunca.
- Nesse caso, vem de Inglaterra e não sabe o que aconteceu? Que posso dizer? É um assunto muito triste, não sei como explicar-lhe. O Signor Ashley morreu há três semanas. De
repente. Uma pena... A condessa fechou a villa, mal o enterraram, e partiu. Há quase duas semanas que não se encontra cá.
Ignoramos se voltará.
O cão reatou os latidos e ele voltou-se para o mandar calar.
Senti o sangue esvair-se do rosto, absolutamente estupefacto. O homem observava-me com pesar e disse algo à mulher,
que foi buscar um banco e o colocou a meu lado.
- Sente-se, signore - indicou ele. - Lamento. Lamento
profundamente.
Abanei a cabeça, impossibilitado de falar. Não havia nada
que pudesse dizer. O homem, preocupado, dirigiu-se à mulher
em tom agreste, para desanuviar a tensão, e virou-se de novo
para mim.
- Se deseja entrar na villa, eu abro-a. Poderá ver onde o
Signor Ashley morreu.
Era-me indiferente o que fazia ou aonde ia. A minha mente ainda se achava demasiado aturdida para raciocinar. Ele começou a afastar-se pela alameda, ao mesmo tempo que puxava
de umas chaves da algibeira, e acompanhei-o, com as pernas
subitamente pesadas como chumbo. A mulher e a criança seguiram-nos.
Os ciprestes que nos ladeavam lembravam sentinelas tenebrosas, e a decrépita vivenda, como um sepulcro, aguardava ao
fundo da alameda. à medida que nos aproximávamos, vi que
era grande, com muitas janelas, todas fechadas, e, diante da
entrada, o caminho de acesso descrevia um círculo, para as
carruagens poderem inverter a marcha. Estátuas, nos respectivos pedestais, erguiam-se entre os ciprestes. O homem abriu a
pesada porta com uma das chaves que possuía e fez-me sinal
para que entrasse. A mulher e a criança também vieram e eles
começaram a subir os estores, passando de aposento a aposento, decerto convencidos de que a entrada da luz me atenuaria a
amargura. As dependências comunicavam todas umas com as
outras, grandes e arejadas, com frescos no tecto e chão de pedra, num ambiente vagamente medieval. Numas, as paredes
eram lisas, enquanto outras exibiam tapeçarias e, noutra
ainda,
mais escura e opressiva, havia uma longa mesa de refeitório
circundada por cadeiras monásticas lavradas, com candelabros
enormes em cada extremidade.
- A Villa Sangalletti é muito bonita e antiga, signore -- disse o homem. - O Signor Ashley costumava sentar-se aqui
quando o sol era muito forte para ele. Esta era a sua cadeira.
Apontou, quase com reverência para uma de espaldar elevado a um lado da mesa. Eu observava tudo como que imerso
num sonho. Nada daquilo possuía realidade. Era-me impossível imaginar Ambrose naquela casa ou naquela sala. Nunca
poderia entrar ali com o à-vontade que eu tão bem lhe conhecia, a assobiar e conversar com ar despreocupado. Persistentemente, em ritmo monótono, marido e mulher moviam-se em
torno do aposento para abrir janelas e subir estores. Lá fora,
havia um pequeno pátio, uma espécie de claustro quadrangular, aberto ao céu, mas protegido do sol. No centro, via-se
uma fonte, com a estátua de bronze de um rapaz, que segurava
uma concha nas duas mãos. Atrás da fonte, um laburno entre
duas áreas pavimentadas, que produzia uma abóbada de sombra. As flores douradas há muito que tinham murchado e caído no chão poeirento e cinzento. O homem murmurou à mulher, que se dirigiu a um canto do pátio e fez rodar uma
torneira. Com lentidão, suavemente, a água começou a jorrar
entre as mãos do rapaz.
- O Signor Ashley sentava-se aqui todos os dias, para observar a fonte - explicou ele. - Gostava de ver a água. Colocava-se debaixo da árvore. É muito bonita, na Primavera, coberta de flores. A contessa chamava-o do quarto por cima.
Apontou para as colunas de pedra da balaustrada. A mulher desapareceu dentro de casa e, momentos depois, aparecia
na varanda que o marido indicara, depois de subir os estores.
Entretanto, a água continuava a jorrar entre as mãos do rapaz.
- No Verão, sentavam-se sempre aqui - prosseguiu o
homem. - O Signor Ashlev e a contessa. Comiam ao som da
água da fonte. Era eu que os servia. Trazia dois tabuleiros e
pousava-os na mesa. - Apontou para a mesa de pedra e duas
cadeiras que ainda ali se encontravam. - Após o jantar, tomavam a tisana, dia após dia, sempre da mesma maneira.
Fez uma pausa e tocou numa cadeira com a mão. Acudiu-me uma sensação de opressão. A temperatura era agradável
no pequeno pátio, fresca quase como numa sepultura, apesar
do que a atmosfera dir-se-ia estagnada, como a do interior da
casa antes de ventilada.
Pensei em Ambrose em nossa casa. Percorria a propriedade
em mangas de camisa durante o Verão, apenas com a protecção de um chapéu de palha. Revi esse chapéu, puxado para os
olhos, enquanto ele se sentava na embarcação e apontava para
algo ao longe, no mar. Recordava-me de como estendia os
braços, a fim de me puxar para bordo, quando eu nadava na
sua esteira.
- Sim - volveu o homem, como que para consigo.
- O Signor Ashley sentava-se nesta cadeira para olhar a água.
A mulher reapareceu, cruzou o pátio e fechou a torneira.
A água parou de correr. Tudo ficou imóvel, silencioso.
A criança, que estivera a contemplar a fonte de olhar
arregalado, agachou-se repentinamente e pôs-se a apanhar vagens do
laburno, que em seguida se entreteve a atirar à água da fonte.
A mulher ralhou-lhe, puxou-o para a parede e pegou numa
vassoura aí apoiada, com a qual principiou a varrer o pátio.
O facto quebrou o silêncio, e o marido tocou-me no braço.
- Quer ver o quarto onde o signore morreu? - perguntou com brandura.
Possuído pela mesma sensação de irrealidade, segui-o pela
escadaria de acesso ao piso superior. Atravessámos aposentos
menos abundantemente mobilados que os de baixo, e um, virado a norte, sobranceiro à alameda dos ciprestes, achava-se
desnudo como uma cela monástica, à parte a simples armação
de ferro de uma cama encostada à parede, junto da qual se
viam um jarro de água, uma bacia e um biombo. Havia tapeçarias na parede acima da lareira e, num nicho ao canto, encontrava-se uma estatueta que representava uma Virgem ajoelhada, as mãos unidas em prece.
Dirigi o olhar para a cama. Os cobertores estavam meticulosamente dobrados aos pés. Duas almofadas, sem fronhas,
achavam-se colocadas à cabeceira, sobrepostas.
- O fim foi muito rápido - informou o homem, a meia
voz. - É certo que ele estava fraco, muito mesmo, mas ainda
na véspera se arrastara até ao pátio, para se sentar diante da
fonte. A contessa bem lhe recomendou que voltasse para a cama, devido à fraqueza, mas o Signor Ashley não quis escutá-la. E os médicos entravam e saíam constantemente. O Signor
Rainaldi também veio para o convencer a ter cuidado, mas ele
reagia com violência, como uma criança. Era aflitivo ver um
homem definhar daquela maneira. Até que, de manhã cedo, a
contessa foi chamar-me ao quarto, pois eu tinha passado a dormir cá em casa. Branca como um lençol, exclamou: ??Ele está a
morrer, Giuseppe! Pressinto que não passa de hoje!,? Segui-a e
vi-o na cama, de olhos fechados, ainda a respirar, embora pesadamente, não como se dormisse. Mandámos chamar o médico, mas o Signor Ashley não voltou a acordar. Estava em coma, o sono da morte. Eu próprio acendi as velas com a
contessa e, depois de as freiras se retirarem, fiquei a velar
o
corpo. A violência tinha desaparecido completamente e ele
apresentava uma expressão serena. Gostava que o tivesse visto,
signore.
Notei-lhe os olhos marejados. Desviei a vista e fixei-a na
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cama. No entanto, não sentia nada. A apatia dissipara-se e
deixara-me frio e duro.
- A que violência se refere? - acabei por perguntar.
- À que surgiu com a febre. Tive de o manter na cama à
força por duas ou três vezes, a seguir aos ataques. Com a violência veio a fraqueza, aqui. - Pousou a mão no estômago.
- Tinha muitas dores. E quando elas desapareciam, ficava
aturdido e sonolento, com o espírito a vaguear. Garanto-lhe
que foi horrível, signore. Horrível ver um homem tão forte incapacitado.
Abandonei o quarto frio e desolador e ouvi-o fechar a janela e baixar o estore atrás de mim.
- Porque não se fez nada? - persisti. - Os médicos não
lhe podiam aliviar as dores? E Mistress Ashley limitou-se a
deixá-lo morrer?
- Desculpe, signore? - proferiu, perplexo.
- Que espécie de doença era, quanto tempo durou?
- Como disse há pouco, o final foi muito rápido, mas
precedido de um ou dois ataques. E, durante todo o Inverno,
o signore não se sentia bem; triste, diferente do habitual.
Pelo
menos, muito diferente do ano anterior. Quando veio viver
para a villa, era feliz, alegre.
Ele ia abrindo mais janelas enquanto falava, e saímos para
um espaçoso terraço, com algumas estátuas dispersas. Na extremidade mais distante, havia uma longa balaustrada de pedra, da qual nos aproximámos. Em baixo, via-se um jardim de
aspecto formal que exalava o odor de rosas e jasmins e, ao
longe, outra fonte, e ainda outra, com degraus de pedra de acesso
a cada jardim, até que, ao fundo, se erguia o muro que rodeava
toda a propriedade.
Voltámo-nos para oeste, na direcção do sol-poente, que
projectava uma luminosidade suave no terraço e jardins, e afigurou-se-me que pairava uma estranha serenidade que anteriormente não se achava presente.
A pedra ainda estava quente debaixo da minha mão, e uma
lagartixa surgiu de uma greta e rastejou ao longo da parede.
- Nas tardes calmas, isto é muito bonito, signore - disse
o homem, que permanecia um ou dois passos atrás de mim,
como que por deferência. - Às vezes, a contessa mandava
abrir a água das fontes e, nas noites de lua cheia, ela e o
Signor
Ashley vinham para o terraço depois de jantar. O ano passado,
antes de ele adoecer.
Conservei-me imóvel e silencioso, a contemplar as fontes e
os lagos por baixo, com os nenúfares.
- Creio que a contessa não voltará - acrescentou o homem, pausadamente. - Isto tornou-se muito triste para ela.
Há demasiadas recordações amargas. O Signor Rainaldi disse-nos que a villa vai ser alugada e possivelmente vendida.
Estas palavras fizeram-me regressar à realidade. O sortilégio do jardim silencioso dominara-me por um breve momento, com a fragrância das rosas e o clarão do sol-poente, mas o
efeito agora extinguira-se.
- Quem é o Signor Rainaldi?
- Ocupa-se de todos os assuntos da contessa: negócios,
questões de dinheiro, tudo. Conhecem-se há muito tempo.
Enrugou a fronte e acenou com a mão para a mulher, a
qual, com o filho nos braços, cruzava o terraço. A visão desagradava-lhe, pois não deviam estar ali. Ela apressou-se a
desaparecer na villa e começou a baixar os estores.
- Quero falar com ele - declarei.
- Eu dou-lhe o endereço. Fala inglês perfeitamente.
Entrámos igualmente e, quando percorria os diversos aposentos em direcção ao átrio, verifiquei que os estores eram
fechados, um a um, atrás de mim. Explorei as algibeiras em busca de trocos. Sentia-me uma pessoa anónima qualquer, um
turista de visita ao continente, atraído pela curiosidade a
uma
villa com a possível intenção de a comprar, e não eu próprio,
a
olhar pela primeira e última vez o lugar onde Ambrose vivera
e morrera.
- Agradeço-lhe tudo o que fez por Mister Ashley.
Com isto, depositei-lhe algumas moedas na mão.
- Lamento, signore. - As lágrimas surgiram novamente.
- Lamento profundamente.
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Os últimos estores encontravam-se baixados. A mulher e a
criança achavam-se no átrio ao nosso lado e a atmosfera voltara a escurecer, como a entrada de um subterrâneo.
- Que aconteceu à sua roupa, bens pessoais, livros, documentos? - inquiri.
O homem pareceu embaraçado. Virou-se para a mulher,
com a qual dialogou por um momento. Registou-se um vaivém de perguntas e respostas. O rosto dela assumiu uma expressão de ignorância e encolheu os ombros.
- A minha mulher ajudou a contessa, antes de partir -- disse ele, voltando-se de novo para mim. - Parece que ela levou tudo. A roupa, livros e outras coisas de Mister Ashley
foram guardados num baú. Não ficou nada na villa.
Olhei ambos com intensidade, mas não vacilaram, e compreendi que falavam verdade.
- E não fazem a menor ideia do destino de Mistress
Ashley?
O homem meneou a cabeça.
- Só sabemos que abandonou Florença no dia a seguir ao
funeral.
Abriu a pesada porta principal e transpu-la.
- Onde está sepultado? - perguntei em tom impessoal,
como um estranho.
- No novo cemitério protestante de Florença, signore,
como muitos ingleses que morreram aqui. O Signor Ashley
não se encontra só.
Dir-se-ia que pretendia assegurar-me de que Ambrose teria
companhia e, no mundo das trevas para além da sepultura, receberia consolação de compatriotas seus.
Pela primeira vez, não consegui sustentar o olhar do homem. Exibia a expressão de um cão, sincero e dedicado.
Voltei-me e, no mesmo instante, ouvi a mulher soltar uma
exclamação para o marido. Antes que ele tivesse tempo de fechar a porta, precipitou-se para dentro e abriu uma pesada arca que estava encostada à parede. Regressou com algo na mão,
que entregou ao homem, o qual se virou para mim. O rosto
apresentava-se descontraído, como que aliviado.
- A contessa esqueceu isto. Leve-o, signore, pois é só
para si.
Era o chapéu de Ambrose, de abas largas, viradas para baixo. O que ele costumava usar para proteger a cabeça do sol,
nos jardins de casa. Não servia a mais ninguém, por ser muito
grande. Senti os olhos ansiosos deles pousados em mim, à espera de que dissesse alguma coisa, enquanto o voltava repetidamente nas mãos.
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Capítulo quinto
Não me recordo de nada do percurso de regresso a Florença, à excepção de que o Sol se pusera e anoitecera. O crepúsculo não era tão prolongado como em Inglaterra. Nos arbustos que ladeavam a estrada, insectos, porventura grilos,
tinham
iniciado os habituais sons monótonos e, de vez em quando, a
carrozza cruzava-se com camponeses descalços, com pesadas
cestas às costas.
Quando entrámos na cidade, o ar fresco e límpido das colinas circundantes foi de novo substituído pelo calor. Não como
o que fizera durante o dia, ardente, escaldante, mas abafado,
proveniente das paredes e chão, que o haviam armazenado ao
longo de horas. A lassidão da tarde e a actividade do lapso de
tempo entre a sesta e o pôr do Sol tinham cedido o lugar a
uma certa animação. Os homens e as mulheres que percorriam
as piazzas e ruas estreitas achavam-se dominados por certa vivacidade, como se acabassem de passar o dia escondidos, adormecidos, nas suas casas silenciosas e agora surgissem como
gatos vadios dispostos a explorar a cidade. Os mercados ambulantes estavam superlotados de compradores ruidosos, no
que emulavam os vendedores, enquanto outros acudiam à chamada dos sinos e enchiam as igrejas.
Paguei ao condutor junto da catedral, na piazza, e entrei,
quase sem me dar conta do que fazia, no templo, onde o sacerdote entoava num murmúrio palavras velhas de séculos que
não me era possível entender, até que, de súbito, me apercebi
da imensidão da perda que acabava de sofrer. Ambrose morrera. Não o tornaria a ver. Deixara-me para sempre. A figura e
sorriso familiares não voltariam a beneficiar-me com a sua
presença. Pensei no quarto frio e ermo onde morrera, na Villa
Sangalletti e na Virgem no seu nicho, e ocorreu-me a ideia de
que quando partira não fazia parte daquele aposento, ou sequer da casa, ou mesmo do país, e o seu espírito regressara ao
lugar a que pertencia, entre as suas colinas, os seus bosques,
no jardim que estimava, rodeado pelo som do mar.
Saí da catedral e, na piazza, ao erguer os olhos para o imponente zimbório, lembrei-me pela primeira vez de que não
comera nada em todo o dia, com a compreensão repentina que
surge após um abalo e tensão profundos. Assim, transferi os
pensamentos da morte para a vida e, ao descobrir um local
aparentemente sofrível nas proximidades, entrei para
satisfazer
o apetite, após o que me dispus a procurar o Signor Rainaldi.
Giuseppe, o homem que me recebera na villa, escrevera o endereço num pedaço de papel e, esforçando-me por pronunciar
as palavras o mais compreensivelmente possível, encontrei a
casa, do outro lado da ponte nas cercanias da estalagem, na
margem esquerda do Arno, onde havia menos ruído que no
coração de Florença. Viam-se poucas pessoas nas ruas. As
portas achavam-se fechadas e os estores das janelas baixados.
Os meus passos ecoavam com algo de sinistro no pavimento.
Cheguei por fim ao endereço que me interessava e puxei o
cordão da sineta. Um criado abriu a porta passado um momento e, sem perguntar como me chamava, conduziu-me ao
primeiro piso e ao longo de um corredor, ao fundo do qual
bateu a uma porta e introduziu-me numa sala. Pestanejei ante
a luz intensa e súbita e vi um homem numa cadeira junto de
uma mesa, que consultava um maço de documentos. Levantou-se à minha entrada e fitou-me com uma expressão de
curiosidade. Era um pouco mais baixo do que eu, com cerca
de quarenta anos, rosto pálido, quase totalmente desprovido
de cor e feições aquilinas. Havia algo de arrogante, desdenhoso, na sua atitude, como de quem manifesta pouca tolerância
para com os imbecis... ou os inimigos. No entanto, creio que
o que mais me atraiu a atenção foram os olhos, negros e encovados, os quais, à primeira vista, deixaram transparecer uma
expressão de reconhecimento, prontamente dominada.
- Signor Rainaldi? - perguntei. - Chamo-me Philip
Ashley.
- Queira sentar-se.
A voz era fria e dura e o sotaque italiano pouco vincado.
- Deve estar surpreendido de me ver - volvi, instalando-me na cadeira que indicava. - Não sabia que me encontrava
em Florença?
- Não - admitiu. - Na verdade, não fazia a menor
ideia.
As palavras continham uma inflexão de prudência, que, todavia, se podia dever ao seu fraco domínio da língua inglesa.
- Sabe quem sou? - prossegui.
- Creio que estou bem elucidado quanto ao grau exacto
de parentesco. É, salvo erro, primo ou sobrinho do extinto
Ambrose Ashley.
- Primo - precisei - e herdeiro.
Pegou numa caneta e tamborilou com ela no tampo da mesa, como se pretendesse ganhar tempo, ou procurasse uma distracção.
- Estive na Villa Sangalletti e vi o quarto onde ele morreu. O empregado, Giuseppe, foi muito atencioso. Forneceu-me todos os pormenores, mas sugeriu que o procurasse, Signor Rainaldi.
Seria impressão minha, ou os olhos negros toldaram-se de
facto?
- Há quanto tempo se encontra em Florença?
- Algumas horas. Desde o meio da tarde.
- Chegou só hoje? - A mão que segurava a caneta perdeu a tensão. - Nesse caso, a sua prima Raquel não o viu.
- Não, com efeito. Giuseppe deu-me a entender que ela
abandonou Florença no dia seguinte ao do funeral.
- Abandonou a Villa Sangalletti, mas não Florença.
- Quer dizer que ainda está na cidade?
- Não, agora já partiu. Confiou-me o encargo de alugar a
villa. Vendê-la, se possível.
Os seus modos eram algo rígidos, como se toda a informação que me revelava tivesse de ser ponderada previamente.
- Sabe onde se encontra neste momento? - perguntei.
- Não. Partiu quase repentinamente, sem traçar planos.
Prometeu escrever quando tomasse uma decisão sobre o futuro.
- Está, porventura, em casa de pessoas amigas?
- É possível, embora me custe a crer.
Acudiu-me a sensação de que, naquele próprio dia, ou na
véspera, estivera com ele, o qual sabia muito mais do que confessava.
- Decerto compreenderá, Signor Rainaldi, que sofri um
forte abalo ao inteirar-me da morte do meu primo através de
empregados domésticos. Tenho vivido numa espécie de pesadelo. Que aconteceu? Porque não fui informado de que se encontrava enfermo?
Observou-me em silêncio por uns instantes e, por fim,
disse:
- Creia que nós também sofremos um abalo profundo
com a morte repentina do seu primo. Estava doente, sem dúvida, mas não supúnhamos que fosse tão gravemente. A febre
habitual que afecta muitos estrangeiros no Verão provocara-lhe certa debilidade, e queixava-se com frequência de enxaquecas. A contessa... talvez deva dizer antes Mistress
Ashley...
achava-se muito preocupada, além de que ele não se podia
considerar um enfermo fácil. Criou animosidade instantânea
contra os nossos médicos, por razões difíceis de determinar.
Mistress Ashley ansiava constantemente por sinais de melhoras, pelo que se absteve de lhe escrever, Mister Ashley, para
não o apoquentar sem necessidade, segundo imaginava.
- Mas estávamos todos inquietos - retruquei. - Foi por
isso que me desloquei a Florença. As cartas que recebi dele
obrigaram-me a efectuar a viagem.
Tratava-se, provavelmente, de uma diligência arrojada e, de
certo modo, irreflectida, mas era-me indiferente. Estendi ao
meu interlocutor as duas últimas missivas de Ambrose. Leu-as
atentamente, embora a expressão não se alterasse, após o que
mas devolveu.
- Sim - articulou calmamente, sem a mínima surpresa -,
Mistress Ashley temia que ele tivesse escrito algo do género.
Só nas últimas semanas, quando começou a mostrar-se reservado e estranho, os médicos recearam o pior e preveniram-na.
- Preveniram-na? - ecoei. - De quê?
- Da possibilidade de se verificar uma pressão estranha no
cérebro. Um tumor, ou excrescência, que aumentava rapidamente de volume, justificativo da sua condição.
Não pude evitar um estremecimento. Um tumor? Nesse
caso, a suposição do meu padrinho confirmava-se. Primeiro o
tio Philip e agora Ambrose. Não obstante... Porque continuaria o italiano a observar-me com tanto interesse?
- Os médicos declararam que a morte se deveu a um
tumor?
- Indiscutivelmente. A isso e à intensificação da fraqueza
resultante da febre. Assistiram-no dois. O meu e outro que ele
indicou. Caso queira, posso mandá-los chamar, para que os
interrogue. Um fala inglês, embora não com fluência.
- Não me parece necessário - declarei, pausadamente.
Abriu uma gaveta e puxou de uma folha de papel.
- Tenho aqui uma cópia da certidão de óbito, assinada pelos dois médicos. Leia-a. Seguiu já outra pelo correio para a
Cornualha e uma terceira para o testamenteiro do seu primo,
Nicholas Kendall, perto de Lostwithiel, também naquela região de Inglaterra.
Baixei os olhos para o documento, mas não senti interesse
em o ler.
- Como soube que Nicholas Kendall é o testamenteiro
dele?
- O seu primo Ambrose tinha uma cópia do testamento
consigo. Eu próprio a li várias vezes.
- Leu o testamento do meu primo? - proferi com incredulidade.
- Naturalmente - admitiu, sem pestanejar. - Na minha
qualidade de administrador dos bens da contessa, de Mistress
Ashley, competia-me tomar conhecimento do testamento do
marido. Não há nada de estranho nisso. Ele próprio mo mostrou, pouco depois do casamento. Na verdade, até possuo uma
cópia. No entanto, não lha devo divulgar. Isso é da alçada do
seu tutor, Mister Kendall, que decerto o fará quando regressar
a Inglaterra.
54 ? 55
Rainaldi também sabia que o meu padrinho era igualmente
o meu tutor, pormenor que eu desconhecera até àquele momento. Não acontecia com frequência um homem com mais
de vinte e um anos ter um tutor, e eu já completara vinte e
quatro. Em todo o caso, o pormenor carecia de importância.
O que me interessava era Ambrose e a sua doença. Ambrose e
a sua morte.
- Estas duas cartas não são próprias de um homem enfermo ou afectado por perturbações mentais - persisti. - Parecem mais as que escreveria alguém com inimigos, rodeado de
pessoas que não lhe merecem confiança.
Voltou a observar-me em silêncio, por um momento, antes
de replicar:
- São cartas de um homem mentalmente doente, Ashley.
Perdoe-me a franqueza abrupta, mas eu vi-o nas suas últimas
semanas e o senhor não. Creia que a experiência não foi agradável para qualquer de nós, em particular para a esposa. Como
vê na primeira dessas cartas, ela não o abandonou, e posso
confirmá-lo. Com efeito, não saía do seu lado, dia e noite.
Outra mulher recorreria a freiras para cuidar dele. Ao invés,
prestou-lhe toda a assistência humanamente possível.
- Que veio a não servir para nada - comentei secamente.
- Repare nesta passagem final: ??Ela acabou por se desmascarar, Raquel, o meu tormento...?? Que depreende disto, Signor
Rainaldi?
Creio que levantei a voz, arrastado pelo entusiasmo. Ele
ergueu-se da cadeira e tocou uma sineta. Quando surgiu o empregado, transmitiu-lhe uma ordem e o homem reapareceu
com um copo e uma garrafa de vinho.
- Então? - insisti, ignorando a oferta.
Rainaldi não voltou a sentar-se. Dirigiu-se à secção da sala
onde havia várias prateleiras com livros e retirou um.
- Está familiarizado com a história da medicina, Mister
Ashley?
- Não.
- Encontrará aqui a informação que procura, ou pode interrogar os médicos, cujos endereços lhe fornecerei com todo
o gosto. Existe uma afecção especial do cérebro, presente
sobretudo quando ocorre um tumor ou excrescência, em que o
doente é assolado por visões, ilusões. Imagina, por exemplo,
que o vigiam. Que a pessoa mais próxima, a esposa, digamos,
se voltou contra ele, lhe é infiel ou procura apoderar-se do
seu
dinheiro. Não há amor ou persuasão capaz de neutralizar semelhante suspeita. Se não acredita em mim ou nos médicos de
cá, consulte compatriotas seus ou leia este livro.
Revelava uma segurança, plausibilidade e serenidade sem
dúvida convincentes. Imaginei Ambrose deitado na cama de
ferro da Villa Sangalletti, torturado, desesperado, com aquele
homem a observá-lo, a analisar-lhe os sintomas um a um, postado porventura atrás do biombo que eu vira. Era-me impossível determinar se ele tinha ou não razão. Só sabia que o
detestava profundamente.
- Como se explica que ela não me mandasse vir? - inquiri. - Se Ambrose suspeitava dos seus manejos, porque não
exigiu a minha presença? Ninguém o conhecia melhor do
que eu.
Fechou o livro com um som seco e tornou a colocá-lo na
prateleira.
- É muito jovem, Mister Ashlev.
- Que quer dizer com isso? - retorqui, arregalando os
olhos, sem compreender aonde pretendia chegar.
- Uma mulher apaixonada não renuncia com facilidade.
Chame-lhe amor-próprio, tenacidade ou o que quiser. Apesar
de toda a evidência em contrário, as emoções delas são mais
primitivas que as nossas. Apegam-se àquilo que desejam e
nunca se rendem. Nós temos as nossas guerras e batalhas, mas
as mulheres também sabem combater.
Fitou-me friamente com os olhos negros encovados, e concluí que nada mais tinha para lhe dizer.
- Se eu estivesse cá, ele não teria morrido - asseverei.
Levantei-me e movi-me em direcção à porta. Ele voltou a
tocar a sineta e o empregado apareceu para me acompanhar à
saída.
56 ? 57
- Escrevi ao seu tutor, Mister Kendall - informou Rainaldi. - Expliquei-lhe pormenorizadamente tudo o que aconteceu. Necessita de algo mais de mim? Tenciona permanecer
em Florença muito tempo?
- Para quê? Já nada me retém neste país.
- Se deseja visitar a sepultura, dar-lhe-ei um bilhete para
o guarda do cemitério protestante. É claro que ainda não houve tempo para colocar uma lápide, mas ela não faltará.
Voltou-se para a mesa e escreveu algo num pedaço de papel, que me entregou.
- Que dizeres serão inscritos na laje?
Deixou transcorrer um momento, como se reflectisse, enquanto o empregado, que aguardava junto da porta aberta, me
estendia o chapéu de Ambrose.
- Creio que as minhas instruções consistiam em gravar as
palavras ??Em memória de Ambrose Ashley, estimado marido
de Raquel Coryn Ashley??, com a data, é claro.
Compreendi então que não desejava visitar o cemitério e
muito menos a sepultura. Não sentia a mínima vontade de ver
o lugar onde o tinham enterrado. Eles podiam colocar a lápide
e levar flores mais tarde, se quisessem, mas Ambrose nunca o
saberia, nem se preocuparia com isso. Estaria comigo na Cornualha, debaixo do seu próprio solo, da sua própria terra.
- Quando Mistress Ashley regressar, comunique-lhe que
estive cá - articulei, pausadamente. - Que visitei a Villa
Sangalletti e vi o quarto onde Ambrose morreu. Pode, também,
falar-lhe das cartas que ele me escreveu.
Estendeu-me a mão, fria e rígida como ele próprio, continuando a observar-me com intensidade.
- A sua prima Raquel é uma mulher impulsiva. Quando
partiu de Florença, levou todas as suas posses. Receio muito
que não volte.
Abandonei a casa e tornei a percorrer as ruas estreitas e
escuras, com a sensação de que os seus olhos me seguiam. Antes
de entrar na estalagem, para tentar dormir, por pouco que
fosse, detive-me mais uma vez diante do Arno.
A cidade dormia. Aparentemente, eu era noctívago solitário. Até os sinos solenes se achavam reduzidos ao silêncio, e
o
único ruído provinha da água que corria sob a ponte. Parecia
que agora deslizava mais depressa do que durante o dia, como
se também tivesse sofrido da indolência provocada pelo calor
e pudesse finalmente, com o fresco da noite, dar livre curso à
sua impetuosidade.
De súbito, no meio da corrente, inteiriçado e rodando
com lentidão, com as quatro patas inertes, descortinei o corpo de um cão, que passou debaixo da ponte e desapareceu
na escuridão.
Fiz então um juramento a mim próprio, na margem do
Arno.
Desenvolveria todos os esforços para infligir as dores e sofrimentos que Ambrose conhecera à mulher que lhos causara,
pois não acreditava na versão de Rainaldi. Inclinava-me antes
para a verdade daquelas duas cartas que conservava na algibeira. As últimas que ele me escrevera.
Um dia, de uma maneira ou de outra, faria a minha prima
Raquel expiar o mal que praticara.
58
Capítulo sexto
Regressei a casa na primeira semana de Setembro. As tristes novas haviam-me precedido, pois o italiano não mentira
quando dissera que escrevera a Nick Kendall. Este encarregara-se de informar o pessoal e os caseiros da propriedade. Wellington aguardava-me em Bodmin, com a carruagem. Os cavalos estavam cobertos com crepes, assim como ele e o moço da
estrebaria, de expressões solenes.
O meu alívio por estar de novo no meu país era tão grande
que por momentos o pesar permaneceu dormente, ou possivelmente a longa permanência na Europa endurecera-me os
sentimentos, mas recordo-me de que o meu primeiro instinto
me obrigou a sorrir ao ver os dois rostos familiares,
acariciar
os cavalos e perguntar se tudo se encontrava em ordem. Era
quase como se tivesse voltado à adolescência e regressasse das
aulas. No entanto, o velho cocheiro assumia uma atitude rígida, com uma nova formalidade, e o moço de estrebaria abriu
a portinhola da carruagem com deferência. ??Um triste regresso
a
casa, Mister Philip", disse Wellington. E quando perguntei por
Seecombe e o resto do pessoal, meneou a cabeça e revelou que
se achavam todos amargurados com o sucedido. Acrescentou
que não se falava de outra coisa em toda a região desde que a
pungente nova se tornara conhecida. A igreja estivera enlutada
todo o domingo, assim como a capela da propriedade, porém
o golpe mais rude verificara-se quando Nick Kendall lhes
anunciara que o amo fora sepultado em Itália e não seria
transladado para a pátria, a fim de repousar no jazigo de família.
- Não nos parece certo, Mister Philip - declarou o cocheiro. - E pensamos que o próprio Mister Ashley não concordaria.
Não havia nada que eu pudesse responder. Assim, subi para a carruagem, que em seguida se pôs em marcha.
Curiosamente, a emoção e fadiga das últimas semanas dissiparam-se à vista da casa. Toda a sensação de tensão me abandonou e, apesar das longas horas na estrada, senti-me descontraído e em paz. Era de tarde e o sol incidia nas janelas da
ala
oeste e nas paredes cinzentas, enquanto rolávamos através do
segundo portão e subíamos a encosta em direcção à vivenda.
Os cães estavam presentes para me saudar, e Seecombe, com
um fumo negro no braço direito, como o resto do pessoal, não
pôde conter as lágrimas quando lhe estendi a mão.
- Foi uma longa ausência, Mister Philip - soluçou.
- Muito longa. E quem nos garantia que não contrairia também a febre maligna?
Ele próprio me serviu o jantar, solícito, ansioso pelo meu
bem-estar, e congratulei-me por não lhe ocorrer fazer perguntas sobre a minha viagem ou a doença e morte de Ambrose,
embora não poupasse as palavras para descrever outros pormenores: os sinos tinham dobrado durante um dia inteiro, o
vigário mencionara a ocorrência no púlpito e haviam sido oferecidas numerosas coroas de flores. E todo o seu arrazoado
era salpicado de uma nova fórmula: ??Mister Philip?? a cada
passo, em vez de ??menino Philip??. Aliás, eu apercebera-me do
mesmo pormenor no cocheiro e no moço de estrebaria. Apesar de inesperado, resultava reconfortante.
Depois de jantar, subi ao meu quarto, olhei em volta e a
seguir desci à biblioteca e passei aos jardins, percorrido por
uma estranha sensação de felicidade que nunca imaginei que
me ocorreria com Ambrose morto, pois quando abandonara
Florença atingira o grau mais baixo de solidão e não experimentava qualquer desejo. Enquanto atravessava a Itália e a
França, acudiam-me imagens obsessivas que não conseguia
afugentar. Via Ambrose sentado à sombra, no pátio da Villa
Sangalletti, junto do laburno, a observar a fonte; na cela monástica, reclinado em duas almofadas, esforçando-se por respirar. E, sempre no seu campo auditivo, sempre sob as suas vistas, o vulto sombrio e detestado da mulher que eu nunca vira.
Tinha numerosos rostos e disfarces, e a designação de
contessa,
empregada por Giuseppe e Rainaldi, de preferência a Mistress
Ashley, conferia-lhe uma espécie de aura que eu nunca lhe
atribuíra a princípio, quando a vira como outra Mistress
Pascoe.
Desde a minha visita à villa, convertera-se num monstro
em tamanho natural. Tinha olhos tão negros como abrunhos,
feições tão aquilinas como as de Rainaldi, e movia-se nos
aposentos da húmida e sombria casa sinuosa e silenciosa como
uma serpente. Vi-a, quando já não existia uma réstia de
alento
no corpo dele, recolher todas as suas posses e partir,
porventura para Roma ou Nápoles, ou talvez oculta naquela estalagem
na margem do Arno, sorridente, atrás dos estores. Essas imagens acompanharam-me até que cruzei o mar e desembarquei
em Dôver. E agora que regressara ao lar, haviam-se
extinguido
como os pesadelos ao romper do dia. E a minha amargura
também. Ambrose encontrava-se de novo comigo e não era
torturado nem sofria. Nunca estivera em Florença ou sequer
em Itália. Dir-se-ia que morrera em casa e fora sepultado ao
lado dos pais e outros familiares, pelo que a dor se
convertera
em algo que me era possível suportar. O pesar persistia, mas
sem vislumbres de tragédia. Eu regressara igualmente ao lugar
a que pertencia, com a sua fragrância especial que me circundava.
Percorri os campos, onde o pessoal procedia à safra. O trigo era carregado em carroças. Quando me viam, eles interrompiam o trabalho e trocávamos algumas palavras. O velho
Billy Rowe, que era caseiro das terras de Barton desde que eu
me conhecia e sempre me tratara por ??menino Philip??, levou a
mão ao chapéu quando me aproximei, e a esposa e a filha, que
o ajudavam com os outros, saudaram-me igualmente. ??Tínhamos muitas saudades suas??, disse ele. ??Custava-nos
principiar
a colheita sem a sua presença. Alegra-nos que tenha voltado."
Um ano atrás, eu teria arregaçado as mangas e participado nos
trabalhos, mas agora algo me impedia de o fazer, a vaga ideia
de que eles não considerariam apropriado.
- Também estou contente por ter voltado - afirmei.
- A morte de Mister Ashley constituiu uma perda profunda
para todos, mas temos de prosseguir a sua obra.
Conversámos durante mais alguns minutos, até que chamei
os cães e reatei o percurso. Ele aguardou que me encontrasse
para além da sebe antes de mandar continuar o trabalho.
Quando alcancei o cercado dos póneis, a meio caminho entre
a casa e os campos ao longo da encosta suave, fiz uma pausa e
voltei-me para trás, a fim de contemplar a aprazível paisagem.
As espigas de trigo adquiriam uma tonalidade dourada sob os
derradeiros raios solares. O mar apresentava-se invulgarmente
azul, quase arroxeado onde cobria as rochas. A frota pesqueira
achava-se ancorada, à espera da hora para o início de mais uma
faina. A vivenda encontrava-se agora imersa na sombra e somente o cata-vento no topo do campanário era ainda beneficiado por um pouco mais de luminosidade. Recomecei a caminhar, com lentidão, em direcção à porta aberta.
Os estores das janelas estavam levantados, porque Seecombe ainda não ordenara ao pessoal que os baixasse. Havia algo
de acolhedor no aspecto das ripas recolhidas, com as cortinas
a
oscilar levemente, e no pensamento de todos os aposentos por
detrás dessas janelas, que me eram familiares e queridos. O
fumo desprendia-se das chaminés, altas e estreitas. O perdigueiro, o velho Don, demasiado pesado e rígido para me acompanhar e aos cães mais jovens, espreguiçou-se no chão por baixo
das janelas da biblioteca e em seguida volveu a cabeça para
mim e começou a agitar a cauda lentamente.
Acudiu-me, súbita e intensamente, pela primeira vez desde
a morte de Ambrose, a ideia de que tudo o que existia à minha
volta me pertencia. Jamais teria de o partilhar com vivalma.
As
paredes e janelas, o telhado, o sino que badalou as sete horas
naquele momento, toda a entidade viva da casa eram meus, e
só meus. A relva sob os meus pés, as árvores circundantes, os
bosques, e até os homens e mulheres que trabalhavam a terra
da propriedade, faziam parte da minha herança.
Entrei e visitei a biblioteca, postando-me de costas para a
lareira, as mãos enfiadas nos bolsos. Os cães seguiram-me,
co mo era seu hábito, e deitaram-se a meus pés. Seecombe apareceu para perguntar se tinha alguma ordem para Wellington, na
manhã seguinte. Necessitaria da carruagem ou preferia que selasse o Cigano para eu dar uma volta? Repliquei que não tencionava dar-lhe quaisquer ordens naquela noite. Eu próprio
me avistaria com Wellington após o pequeno-almoço, e desejava que me acordassem à hora habitual. Respondeu ??Perfeitamente, senhor??, e retirou-se. O ??menino Philip,?
desaparecera
para sempre, substituído por ??Mister Ashley". Era uma sensação estranha. Tornava-me de certo modo humilde e, ao mesmo
tempo, singularmente orgulhoso. Apercebia-me de uma espécie de confiança e força que até então não conhecera, a par de
uma nova euforia. Afigurava-se-me que reagia como um militar a quem acabassem de confiar o comando de um batalhão.
O sentimento de posse, amor-próprio, assolava-me como a
um major após muitos anos numa posição secundária, guindado a uma situação de responsabilidade nova para ele. Mas, ao
contrário de um militar, eu nunca teria de renunciar ao comando. Pertencia-me para toda a vida. Ao abarcar toda a extensão da minha situação, conheci um momento de felicidade
que nunca me visitara no passado. No entanto, à semelhança
de todos esses lapsos de tempo, foi de breve duração. Um som
qualquer quebrou o encanto: talvez um dos cães se movesse,
uma acha se deslocasse no lume ou um empregado percorresse
um dos aposentos do piso superior para fechar subitamente
uma janela. Confesso que não me recordo, mas continuo a ter
bem presente no espírito a emoção estranha, porém aprazível,
que me acudiu. Deitei-me cedo e dormi sem um único sonho.
O meu padrinho procurou-me no dia seguinte, acompanhado de Louise. Como não havia familiares próximos para
convocar, e apenas legados a Seecombe e outros empregados,
além dos usuais donativos aos pobres da paróquia, e toda a
propriedade se me destinava, Nick Kendall leu o testamento
apenas na minha presença, na biblioteca, enquanto Louise passeava pelas imediações. Apesar da terminologia legal, tudo parecia simples e claro. À excepção de um pormenor. Ele era nomeado meu tutor, porque os bens só seriam virtualmente meus
quando completasse vinte e cinco anos.
64 ? 65
- Ambrose estava convencido de que um jovem não tinha
a mente formada solidamente antes dessa idade - explicou,
tirando os óculos, ao mesmo tempo que me entregava o documento para que o lesse. - Podias ter criado um fraco para
a bebida, o jogo ou as mulheres, e a cláusula acerca dos vinte
e cinco anos representa uma espécie de salvaguarda. Ajudei-o
a redigir o testamento quando ainda estudavas em Harrow,
e, embora ambos soubéssemos que não se desenvolvera qualquer dessas tendências, ele preferiu manter o estipulado.
??Não
prejudicará o Philip e ensiná-lo-á a ser prudente??, confidenciou-me mais de uma vez. Por conseguinte, não há nada a fazer quanto a isso. Na realidade não te afectará, à parte o
facto
de teres de me pedir o dinheiro de que necessitares, como
sempre aconteceu, durante mais sete meses. O teu aniversário
é em Abril, salvo erro?
- Sabe-o perfeitamente, como meu padrinho.
- Eras um vermezinho muito engraçado - comentou,
com um sorriso. - Olhavas o padre como se pretendesse devorar-te. O Ambrose acabava de sair de Oxford e beliscou-te
o nariz para que chorasses, o que indignou a tia, tua mãe. Depois, desafiou o teu infortunado pai para uma regata e remaram do castelo até Lotswithiel, acabando por cair ambos à
água. Nunca sentiste a falta dos teus pais?
- Bem, não sei... Confesso que não pensei muito nisso.
Nunca desejei outra companhia que não fosse o meu primo.
- Os cuidados de uma mãe fazem sempre falta. Falei disso
ao Ambrose por diversas vezes, mas nunca me deu ouvidos.
Devia ter havido alguém em casa: uma perceptora, uma parente distante. Cresceste ignorante no que se refere a mulheres,
e,
se vieres a casar, isso há-de reflectir-se na tua companheira,
como referi à Louise o outro dia.
Interrompeu-se, com uma ponta de embaraço, se porventura o meu padrinho podia exprimir semelhante emoção, como se tivesse dito mais do que pretendia.
- Não se preocupe - repliquei com desprendimento.
- A minha mulher superará todas as dificuldades quando surgir o momento. Ou melhor, se surgir, o que me parece pouco
provável. Creio que sou demasiado como o Ambrose, e agora
compreendo como o matrimónio o deve ter afectado.
Conservou-se silencioso. Em seguida, descrevi a visita à
villa e o encontro com Rainaldi, após o que ele me mostrou
a carta que este último lhe escrevera. Correspondia mais ou
menos ao que eu previra: a revelação, em termos secos, da
doença e morte de Ambrose e da amargura da viúva, a qual,
segundo ele, estava inconsolável.
- Tão inconsolável - salientei - que partiu como uma
ladra, no dia após o funeral, levando todos os bens do meu
primo, à excepção do chapéu, de que se esqueceu. Decerto por
estar coçado e carecer de todo e qualquer valor.
O meu padrinho tossiu discretamente e enrugou a fronte.
- Suponho que não lhe invejas os livros e roupa que levou? Francamente, Philip, é tudo o que lhe resta.
- Tudo o que lhe resta? - repeti, perplexo.
- Acabo de te ler o testamento e tem-lo na tua frente. É o
mesmo que redigi há dez anos. Não contém qualquer codicilo
acrescentado depois do casamento. Não existe a mínima provisão para a esposa. Durante os últimos meses, esperei receber
notícias dele nesse sentido. É costume em casos similares.
Calculo que a ausência no estrangeiro o levou a descurar a possibilidade, e talvez tencionasse introduzir a alteração quando
regressasse. No entanto, a doença alterou a situação radicalmente. Estranho que esse italiano, o Signor Rainaldi, com
quem tanto antipatizas, não mencione qualquer pretensão do
género por parte de Mistress Ashley. Revela um tacto admirável do homem.
- Pretensão? - exclamei. - Fala em semelhante hipótese,
quando sabemos perfeitamente que foi ela que o conduziu à
morte?
- Não sabemos nada do género, e, se pensas continuar
a referir-te nesse tom à viúva do teu primo, não estou
disposto
a escutar-te.
Com estas palavras, Nick Kendall levantou-se e começou a
recolher os documentos.
66 ? 67
- Quer dizer que acredita na versão do tumor?
- Naturalmente. Temos aqui a carta de Rainaldi e a certidão de óbito assinada por dois médicos. Recordo-me da morte
do teu tio Philip. Os sintomas eram muito similares. Foi exactamente o que receei, quando chegou aquela carta do Ambrose
e partiste para Florença. O facto de teres chegado demasiado
tarde para lhe poderes prestar qualquer assistência constituiu
uma daquelas calamidades que ninguém pode remediar. Pensando bem, talvez nem fosse uma calamidade, mas um acto de
misericórdia. Julgo que não desejarias vê-lo sofrer.
Contive com dificuldade a irritação que a sua peroração me
provocava, ditada por uma obstinação e cegueira insensatas.
- Não chegou a ver a segunda carta - lembrei-lhe. - A que
recebi na manhã em que parti para Itália. Ei-la.
Voltou a pôr os óculos para ler a missiva em causa, que eu
conservava sempre comigo. No final, declarou:
- Lamento, Philip, mas estas garatujas são insuficientes
para alterar a minha opinião. Deves encarar os factos. Estimavas o Ambrose e eu também. Quando morreu, perdi o meu
melhor amigo. Sinto-me tão amargurado como tu quando
penso no seu sofrimento mental, talvez ainda mais, porque o
vi noutra pessoa. O teu mal é não aceitares a realidade de que
o homem que conhecemos, admirámos e amámos não era o
mesmo na altura da morte. Estava mental e fisicamente enfermo e, por conseguinte, irresponsável pelo que escrevia ou dizia.
- Não acredito. Não posso acreditar.
- Diz antes que não queres, e nesse caso nada mais temos
a dizer sobre o assunto. No entanto, em atenção a ele e a todas as pessoas que o conheceram e estimaram, aqui, na propriedade e no condado, devo pedir-te que não divulgues o teu
ponto de vista. Só conseguirias desgostá-las e, se chegasse
aos
ouvidos da viúva, onde quer que se encontre, ficaria com uma
ideia muito triste a teu respeito e não me surpreenderia que
te
movesse um processo por difamação. Se eu fosse o seu representante legal, como Rainaldi parece ser, não hesitaria em
fazê-lo.
Eu nunca ouvira o meu padrinho exprimir-se com tanta
veemência. Tinha razão ao afirmar que estava tudo dito sobre
o assunto. Eu aprendera a lição e não voltaria a abordá-lo.
- E se chamássemos a Louise? - sugeri. - Suponho que
já se terá cansado de percorrer os jardins. Gostava que
jantassem comigo.
Ele mostrou-se pouco comunicativo durante a refeição e
pressenti que ainda estava chocado com o que eu dissera. Entretanto, Louise crivava-me de perguntas sobre as minhas viagens, o que pensava de Paris, da França em geral, dos Alpes,
de Florença, e as minhas respostas, embora vagas, serviram para preencher as soluções de continuidade na conversa geral.
Não obstante, ela era perspicaz e compreendeu que se passava
algo de errado. Após o jantar, quando o meu padrinho chamou Seecombe e o pessoal doméstico para lhes anunciar os legados, fomos sentar-nos na sala de estar.
- O teu pai está aborrecido - informei, e expus-lhe a situação.
Ela observou-me com curiosidade por um momento, a cabeça um pouco inclinada, como era seu hábito, e disse:
- Talvez tenhas razão. Creio que o infortunado Mister
Ashley e a esposa não eram felizes, mas o amor-próprio impediu-o de to revelar por escrito antes de adoecer. Depois,
provavelmente tiveram uma briga, os acontecimentos precipitaram-se
e
enviou-te aquelas cartas. Que disseram os dois empregados italianos acerca dela? Era jovem, de meia-idade, ou quê?
- Não perguntei. De resto, não vejo o que isso possa interessar. A única coisa importante é que o Ambrose não confiava nela quando morreu.
- Devia sentir-se muito só - murmurou, com uma réstia
de amargura.
Naquele momento, o afecto que sempre me inspirara aumentou. Talvez por ser jovem, praticamente da minha idade, e
parecer possuidora de mais bom senso que o pai.
- Devias ter perguntado ao tal italiano, Rainaldi, como ela
era - acrescentou. - Eu perguntava, de certeza. Na verdade,
68 ? 69
seria a primeira coisa que desejaria saber. E o que acontecera
ao conde, seu primeiro marido. Não disseste uma vez que tinha perdido a vida num duelo? Isso também se reflecte negativamente na mulher. Era capaz de ter montes de amantes.
Essa faceta da minha prima Raquel não me ocorrera. Imaginava-a apenas como uma criatura malevolente, uma espécie
de aranha. Apesar da animosidade que me percorria, não pude
evitar um sorriso.
- Essa de lhe atribuir amantes é mesmo próprio de uma
mulher. Punhais num átrio escuro. Escadas secretas. Fiz mal
em não te levar comigo a Florença. Tinhas averiguado muito
mais do que eu.
Naquele momento, o meu padrinho reuniu-se-nos e não
voltei a pronunciar-me sobre o assunto. Agora, ele parecia
mais bem-humorado. Seecombe, Wellington e os outros decerto se haviam mostrado gratos pelos pequenos legados, e Nick
Kendall, no seu habitual estilo condescendente, sentia-se
atingido por isso.
- Volta em breve - solicitei a Louise, quando a ajudava a
subir para a carruagem. - A tua presença faz-me bem. Gosto
da tua companhia.
Ela corou e dirigiu um olhar de través ao pai, para observar a reacção das minhas palavras, como se até então não nos
visitássemos com regularidade e frequência. Talvez também estivesse impressionada com a minha nova situação e não tardasse a tratar-me por ??Mister Ashley?,, em vez de Philip. Voltei
para dentro, sorrindo com a ideia de Louise Kendall, cujos cabelos eu costumava puxar poucos anos atrás, me olhar respeitosamente, mas em breve me esqueci dela e do meu padrinho,
porque tinha muito que fazer em casa após dois meses de ausência.
Não contava voltar a ver o meu padrinho nas duas semanas
mais próximas, em virtude das numerosas ocupações que exigiam a minha participação, mas ainda não se tinham escoado
oito dias quando um seu empregado apareceu, por volta do
meio-dia, com uma mensagem verbal de Nick Kendall. Pedia a
minha comparência em sua casa, porque se achava impossibilitado de sair devido a um leve resfriado e necessitava de me
comunicar uma novidade.
O assunto não se me afigurava urgente, pelo que só compareci na tarde seguinte, sobretudo porque desejava assistir
aos
derradeiros trabalhos relacionados com a safra.
Fui encontrá-lo no seu gabinete, só. Depreendi que Louise
fora visitar uma amiga. O meu padrinho exibia uma expressão
estranha - um misto de embaraço e perplexidade, que também me intrigou.
- Precisamos de tomar uma atitude e tens de decidir exactamente qual - começou. - Ela acaba de desembarcar em
Plymouth.
- Quem? - perguntei, embora fizesse uma ideia muito
concreta.
Mostrou-me uma folha de papel que tinha na mão.
- Recebi carta da tua prima Raquel.
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Capítulo sétimo
Observei a letra da carta. Confesso que não sei o que esperava ver. Talvez um estendal de arabescos com floreados caprichosos ou então, pelo contrário, uma série de garatujas. No
entanto, as palavras na minha frente não apresentavam qualquer característica especial, à excepção de pequenos traços
no final de cada uma, o que as tornava um pouco difícil de
decifrar.
- Dá a impressão de que não sabe que estamos ao corrente da situação - disse o meu padrinho. - Decerto partiu de
Florença antes de Rainaldi me escrever. Lê e dá-me a tua opinião. Depois revelo-te a minha.
Encimava-a o nome de uma estalagem em Plymouth e
apresentava a data de 13 de Setembro.
??Prezado Mr. Kendall:
Quando o Ambrose me falava do senhor, como
acontecia com frequência, mal sabia eu que o nosso primeiro contacto se revestiria de tanta amargura. Cheguei
a Plymouth, procedente de Génova, esta manhã, imersa
em profunda apreensão e, infelizmente, só.
O meu querido faleceu em Florença a 20 de Julho,
após um breve período de doença, que, não obstante, se
revelou particularmente violenta. Fez-se tudo o que foi
possível, porém os melhores médicos a que consegui recorrer revelaram-se impotentes para o salvar. Verificou-se uma recaída de uma febre estranha que o atacou no
princípio da Primavera, agravada por uma pressão no cérebro incubada ao longo dos últimos meses, até que se
declarou com toda a sua virulência. Foi sepultado no cemitério protestante de Florença, num sector que eu própria escolhi, um pouco afastado das campas inglesas,
com árvores em volta, como ele desejaria. Não me referirei à dor e solidão em que o passamento me mergulhou, pois não me conhece, nem pretendo importuná-lo
com os meus sentimentos pessoais.
O meu primeiro pensamento foi para Philip, que o
Ambrose tanto estimava e cujo pesar decerto não será
inferior ao meu. O Signor Rainaldi, de Florença, meu
particular amigo e conselheiro, prometeu escrever-lhe
para o pôr ao corrente da situação e poder informar Philip, mas não confio muito no serviço postal de Itália para
Inglaterra e receei que acabasse por se inteirar através de
rumores que circulassem em bocas estranhas. Daí a minha visita a este país. Trouxe comigo todos os bens do
Ambrose - livros, roupa; em suma, tudo o que ele gostaria que ficasse em sua casa, a qual agora decerto passou
a pertencer ao seu jovem primo. Assim, ficar-lhe-ia profundamente grata se me indicasse a melhor maneira de
lhos fazer chegar às mãos e se devo ou não escrever a
Philip.
Abandonei Florença subitamente, em obediência a
um impulso, mas quase com satisfação. Sentia-me impossibilitada de continuar lá sem o Ambrose a meu lado.
Para já, não tenho quaisquer planos. Após um abalo tão
amargo, necessito de algum tempo para reflectir. Esperava chegar a Inglaterra há mais tempo, todavia uma avaria
qualquer não permitiu que o navio iniciasse a viagem de
Génova antes. Creio que ainda existem familiares meus,
os Coryn, dispersos pela Cornualha, mas como não os
conheço pessoalmente não me atrevo a procurá-los. Prefiro permanecer só. É possível que, após uns dias de repouso, siga para Londres e trace então as linhas gerais
do meu futuro.
Fico a aguardar instruções suas, Mr. Kendall, sobre o
destino a dar aos bens do meu marido.
Cordialmente,
Raquel Ashley.??
Li a carta duas, possivelmente três vezes, e devolvi-a ao
meu padrinho, o qual aguardou que me pronunciasse, mas
conservei-me calado.
- Como vês, ela não quer ficar com nada - acabou por
dizer. - Nem sequer um livro ou um par de luvas. É tudo
para ti.
Continuei imerso em silêncio.
- Nem pede para ver a casa - prosseguiu. - A casa que
constituiria o seu lar, se o Ambrose vivesse. Esta viagem
tê-la-iam efectuado juntos. Que diferença, hem? Todos os nossos
amigos a dar-lhe as boas-vindas e, ao invés, vê-se relegada
para
uma estalagem solitária em Plymouth. Pode tratar-se de uma
mulher agradável ou desagradável, mas na verdade não exige
nada. Não obstante, é Mistress Ashley. Embora compreenda o
teu ponto de vista, não posso, como amigo do Ambrose e administrador dos seus bens, manter-me indiferente à situação.
A sua viúva acaba de chegar, só e sem amigos, pelo que considero meu dever oferecer-lhe o quarto de hóspedes que existe
nesta casa.
Aproximei-me da janela. Afinal, ao contrário do que supusera, Louise não se ausentara, pois avistei-a no jardim,
entretida a recolher as flores murchas caídas nos canteiros. Ergueu
os
olhos, viu-me e acenou. Perguntei-me vagamente se o pai lhe
teria mostrado a carta de Raquel.
- Então, Philip? - perguntou Kendall. - Podes escrever-lhe ou não, como preferires. Suponho que não desejas vê-la e, se ela aceitar o meu convite, decerto não nos visitarás
durante a sua permanência. Em todo o caso, creio que esperará
de ti alguma espécie de mensagem, para agradeceres as coisas
que
trouxe. Posso incluí-la, à guisa de pós-escrito, na minha
carta.
Voltei-me da janela e olhei-o.
- Porque pensa que não a quero ver? Pelo contrário, quero e muito. Se é uma mulher de impulsos, como admite na
carta, e Rainaldi também referiu, não lhe ficarei atrás nesse
aspecto. De resto, foi um impulso que me levou a Florença.
- Então? - repetiu, enrugando a fronte, com uma expressão desconfiada.
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- Quando lhe escrever, diga que Philip Ashley já se achava ao corrente da morte de Ambrose. Visitou Florença na sequência de duas cartas que ele enviou, esteve na Villa Sangalletti, conversou com dois empregados domésticos de lá e com
o seu amigo e conselheiro Rainaldi, e agora está de regresso.
Acrescente que é um homem simples que vive com simplicidade. Possuidor de boas maneiras, pessoa de poucas palavras e
nada habituado a conviver com mulheres. Se, no entanto, desejar conhecê-lo e à vivenda do falecido marido, a casa de
Philip Ashley encontra-se à disposição da prima Raquel. - Pousei a mão no coração e efectuei uma ligeira vénia.
- Nunca imaginei que te veria tão empedernido. Que te
aconteceu?
- Nada de especial. Apenas isto: à semelhança de um jovem cavalo de guerra, farejo o sangue. Esqueceu-se de que o
meu pai era militar?
Dirigi-me ao jardim, à procura de Louise. A sua preocupação era mais profunda que a minha. Peguei-lhe na mão e conduzi-a ao pavilhão de Verão junto do relvado, onde nos sentámos, como conspiradores.
- A tua casa não está em condições de receber ninguém, e
muito menos uma pessoa como a contessa... como Mistress
Ashley - declarou imediatamente. - Não posso deixar de
lhe chamar contessa, parece-me mais natural. Já pensaste que
há mais de vinte anos que não vive lá uma mulher? Em que
quarto a instalarias? E lembra-te do pó! Não só no andar de
cima, mas na própria sala, como notei o outro dia.
- Isso não interessa - repliquei, com impaciência. - Ela
que limpe o pó, se lhe apetecer um ambiente mais imaculado.
Quanto menos lhe agradar, mais satisfeito me sentirei. Que se
inteire da vida desregrada que o Ambrose e eu levávamos. Nada parecida com o que se passava naquela villa...
- Laboras num erro grave, Philip. Não acredito que queiras parecer um labrego, um ignorante, como um campónio.
Colocavas-te em desvantagem ainda antes de trocarem uma
palavra. Deves ter presente que ela viveu quase sempre no
continente, em meios requintados, com muitos lacaios, e
aposto que trouxe um guarda-roupa variado e elegante, para não
falar de jóias e outros adereços, chamemos-lhes assim. O teu
primo decerto teceu tantos encómios à casa que ela esperará
ver um ambiente admirável, muito semelhante ao da sua villa.
Imaginas o efeito negativo que exerceria uma espécie da
Babilónia de desarrumação e lixo?
- Desarrumação e lixo? - repeti, enxofrado. - É uma
casa de um homem, simples e banal, e queira Deus que não se
modifique. Tanto o Ambrose como eu nunca nos preocupámos com esses requintes a que te referes.
- Desculpa - proferiu, embaraçada. - Não pretendi melindrar-te. Sabes que adoro a tua casa, mas não podes levar a
mal que diga o que penso sobre a maneira como é assistida.
Não há nada de novo desde longa data, não existe o mínimo
conforto...
Lembrei-me da sala de estar imaculadamente arrumada e
decorada onde estivera com o meu padrinho e reconheci para
comigo que não me desagradaria desfrutar de uma atmosfera
similar em minha casa.
- Bem, esqueçamos a minha falta de conforto. Agradava
ao Ambrose e agora a mim e, durante os dias (poucos, espero)
que se conservar connosco, à minha prima Raquel.
- És incorrigível - acusou, meneando a cabeça. - Se
Mistress Ashley corresponde àquilo que julgo, bastar-lhe-á
uma olhadela à casa para procurar refúgio em Saint Austell, ou
connosco.
- Veremos.
- Vais mesmo atrever-te a interrogá-la? - perguntou
,
olhando-me com curiosidade. - Por onde começarás?
Encolhi os ombros.
- Só o saberei quando a vir. Não duvido de que tentará
sair-se airosamente da situação. Ou talvez opte por uma tirada
emocional, com uns borrifos de histeria. Não conseguirá impressionar-me. Assistirei impávido e sereno.
- Não acredito que recorra a esses meios. Limitar-se-á a
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entrar e assumir o comando. Não esqueças que deve estar habituada a dar ordens.
- Em minha casa, garanto-te que não dará uma única.
- Coitado do Seecombe! Gostava de lhe ver a cara. Ela é
capaz de lhe atirar coisas se não aparecer imediatamente,
quando tocar a sineta. Os Italianos são muito arrebatados, como deves saber. Pelo menos, é o que consta.
- Ela é apenas parcialmente italiana - lembrei-lhe - e,
de qualquer modo, penso que o Seecombe saberá enfrentá-la.
Talvez chova durante três dias consecutivos e seja obrigada a
ficar de cama com reumatismo.
Rimos em uníssono, como crianças, embora não me achasse tão despreocupado como pretendia deixar transparecer.
O convite fora lançado ao ar como um desafio e começava a
arrepender-me, apesar de me abster de o confessar a Louise.
E ainda me arrependi mais quando entrei em casa e olhei à minha volta. Reconheci que cometera uma imprudência e, se não
fosse por uma questão de amor-próprio, creio que teria procurado novamente o meu padrinho, para lhe pedir que não incluísse qualquer pós-escrito a meu respeito quando escrevesse
à minha prima Raquel.
Como deveria proceder com aquela mulher em minha casa? Que lhe diria, que medidas conviria tomar? Se Rainaldi se
revelara plausível, ela sê-lo-ia dez vezes mais. O ataque
directo
poderia não resultar, e que dissera o italiano acerca de
tenacidade e de mulheres que travavam batalhas? Se a viúva se mostrasse agressiva, ordinária mesmo, eu saberia como fazê-la calar. Mas os modos açucarados, insidiosos, com peitos arfantes
e olhos de expressão angelical estariam ao alcance da minha
capacidade de contra-ataque? Procurei convencer-me disso.
De resto, tinham-se-me deparado alguns casos similares em
Oxford, e sempre lograra triunfar, com o recurso à linguagem
clara e contundente, atingindo mesmo, por vezes, as raias da
brutalidade. Na verdade, consideradas todas as ramificações do
assunto, estava persuadido de que a confrontação com a minha
prima Raquel se traduziria numa vitória retumbante dos meus
métodos. Mas, para já, havia que cuidar dos preparativos da
visita, a fachada de cortesia antes de recorrer às armas.
Não fiquei pouco surpreendido quando vi Seecombe acolher a informação sem desagrado. Parecia até que já a
esperava.
Expliquei-lhe rapidamente que Mrs. Ashley chegara a Inglaterra, com os bens do meu falecido primo, e era possível que
nos fizesse uma breve visita, dentro de uma semana. O lábio
inferior não se tornou protuberante, como costumava acontecer quando se lhe deparava um problema, e escutou-me com
uma expressão grave.
- Perfeitamente, senhor - acabou por articular. - Parece-me uma ideia muito acertada e apropriada. O pessoal terá o
maior prazer em dar as boas-vindas a Mistress Ashley.
Olhei-o por cima do cachimbo, divertido com a sua pomposidade.
- Julgava que eras como eu e não desejavas a presença de
mulheres cá em casa. Assumiste uma atitude muito diferente
quando te comuniquei o casamento de Mister Ashley e que ela
passaria a dar-te ordens.
Revelou-se chocado, e desta vez o lábio inferior salientou-se de facto do outro.
- Não era a mesma coisa - alegou. - Desde então,
aconteceu uma tragédia. A pobre senhora enviuvou. Mister
Ambrose desejaria que fizéssemos o que pudéssemos por ela,
em especial porque... - tossiu discretamente - parece que
não foi minimamente beneficiada com o seu novo estado.
Estranhei que estivesse a par do facto e perguntei-lhe como
se inteirara.
- É do conhecimento geral - esclareceu. - Mister Ashley deixou-lhe tudo, Mister Philip, e absolutamente nada à
viúva. De um modo geral, numa família, importante ou não,
existe sempre uma provisão para a esposa enlutada.
- Estou admirado contigo - admiti. - Não costumas
dar ouvidos a mexericos.
- Não se trata de mexericos, senhor - asseverou, com
dignidade. - O que diz respeito à família Ashley interessa a
todos. Nós, servidores da casa, não fomos esquecidos.
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Acudiu-me uma visão de ele sentado no seu quarto, rodeado, diante de canecas de cerveja, por Wellington, o velho cocheiro Tamlyn e o chefe dos jardineiros, a comentar pormenores do testamento, que eu supunha secretos.
- Não houve qualquer esquecimento - declarei, secamente. - O facto de Mister Ashley se encontrar no estrangeiro, e não no seu país, impossibilitou a introdução de novas
cláusulas. No fundo, convém ter presente que ele não esperava
morrer em Itália. Se expirasse aqui, tudo se passaria de
maneira diferente.
- Foi o que nós pensámos - murmurou, diplomaticamente.
Enfim, que dissessem o que quisessem acerca do testamento.
Por outro lado, porém, eu tentava determinar como reagiria se
não tivesse herdado a propriedade. A deferência achar-se-ia
presente? O respeito? A lealdade? Ou ver-me-ia reduzido ao
menino Philip, um parente pobre, com um quarto situado
num recanto das traseiras da casa? Esvaziei o cachimbo, de súbito desagradável entre os lábios. Perguntei a mim próprio
quantas pessoas haveria que gostavam de mim e me serviam
desinteressadamente.
- Bem, nada mais de momento, Seecombe - declarei.
- Se Mistress Ashley decidir visitar-nos, tratarei de te
prevenir com a necessária antecedência. A escolha do quarto ficará
ao teu critério.
- Mas não lhe parece correcto instalá-la nos aposentos
que Mister Ashley ocupava? - argumentou, surpreendido.
Olhei-o em silêncio, chocado com as suas palavras. Em seguida, receoso de que o meu estado de espírito se reflectisse
no rosto, voltei-o para o lado.
- Não vai ser possível, porque tenciono mudar-me para
lá. Aliás, era para te ter dito antes, pois tomei a decisão há
dois ou três dias.
Era falso, pois a ideia acabava de me ocorrer.
- Muito bem, senhor. Nesse caso, o quarto azul e o aposento anexo são os mais apropriados para Mistress Ashley.
Afastou-se com uma ligeira mesura e entreguei-me a reflexões.
Encafuar aquela mulher no quarto de Ambrose constituiria
um autêntico sacrilégio. Afundei-me na minha poltrona usual
e mordi o tubo do cachimbo. Sentia-me irritado e revoltado
com a situação. Fora autêntica loucura enviar aquela mensagem por intermédio do meu padrinho e considerar sequer a visita da mulher a minha casa. Em que demoníaca embrulhada
me envolvera? E, ainda por cima, havia Seecombe, com as suas
ideias do que estava certo ou errado.
O convite foi aceite. Ela escreveu uma carta a Nick Kendall e não a mim. O que, como o mordomo decerto não deixaria de pensar, estava certo e apropriado. Como eu não a
convidara directamente, a resposta tinha de seguir pelas vias
competentes. Informava que estaria preparada quando fosse
julgado oportuno mandá-la chamar. Comuniquei-lhe, mais
uma vez por intermédio do meu padrinho, que enviaria a carruagem na sexta-feira.
O dia surgiu com excessiva prontidão, chuvoso, fustigado
por vento forte. A situação meteorológica não era inédita,
muito pelo contrário, na terceira semana de Setembro, com as
marés vivas. As nuvens negras percorriam o céu velozmente e
prometiam chuva intensa antes de anoitecer. Numa palavra, o
cenário próprio da região ocidental do país do princípio do
Outono. Nada que se parecesse com o que predominava na
parte meridional de Itália. Eu enviara Wellington com a carruagem na véspera e ele pernoitaria em Plymouth, para regressar com a minha prima Raquel. Desde que eu anunciara a visita iminente da viúva, instalara-se uma espécie de agitação na
casa. Os próprios cães se apercebiam disso e seguiam-me de
aposento para aposento. Seecombe lembrava-me um velho sacerdote que, após anos de abstinência de todas as celebrações
religiosas, voltava subitamente a confrontar-se com o ritual
esquecido. Movia-se de um lado para o outro, misterioso e solene, com passos abafados - foi ao ponto de comprar um par
de pantufas de sola de borracha -, para transferir de lugar
diferentes artigos de prata, alguns dos quais eu via pela
primeira
vez. Calculei que se tratava de relíquias dos tempos do meu
tio Philip. Candelabros enormes, açucareiros, taças e até
uma saladeira - pelo menos, era o que me parecia - cheia
de rosas.
- Deste em acólito? - perguntei. - Só faltam o incenso
e a água benta.
Não se lhe alterou um único músculo do rosto enquanto
recuava um passo para olhar as ??relíquias??.
- Pedi ao Tamlyn que trouxesse rosas do jardim murado.
Os rapazes estão neste momento a seleccioná-las nas traseiras.
Vamos precisar de flores na sala de estar, no quarto azul e no
boudoir.
Enrugou a fronte ao ver o jovem John, ajudante de cozinha, escorregar, e quase cair, sob o peso de mais um par de
volumosos candelabros.
Os cães olhavam-me, consternados. Um deles foi esconder-se debaixo de um dos longos bancos do corredor. Resolvi
ir para o piso superior. Não me recordava da última vez que
entrara no quarto azul. Nunca recebíamos visitas e achava-se
ligado, na minha memória, ao jogo das escondidas, num passado remoto, quando Louise acompanhava o pai para passarem
o Natal connosco. Lembrava-me de penetrar no aposento silencioso e ocultar-me atrás da cama, no meio do pó. Tinha a
vaga ideia de Ambrose dizer, uma ocasião, que fora ocupado
pela tia Phoebe, a qual se mudara para Kent pouco antes de
falecer.
Não perdurava o mínimo traço dela. Os rapazes, sob a batuta de Seecombe, tinham trabalhado com afinco, e a tia Phoebe fora varrida com o pó dos anos. As janelas estavam abertas,
sobranceiras aos jardins, e de manhã o sol incidia nos tapetes
assaz coçados. Lençóis de linho, de uma qualidade desconhecida para mim, guarneciam a cama. O lavatório e respectivo jarro teriam estado sempre no quarto de vestir contíguo? E aquela poltrona? Não me recordava deles, mas na verdade também
não conservava a menor recordação da tia Phoebe, que se
transferira para Kent antes de eu nascer. Enfim, o que servira
para ela teria igualmente de satisfazer as necessidades da
minha
prima Raquel.
O terceiro aposento, sob a arcada, que completava a suite,
fora o boudoir da tia Phoebe, igualmente submetido a uma
limpeza meticulosa e de janelas abertas. Havia um retrato de
Ambrose na parede por cima da lareira, pintado na sua juventude, de que eu nem conhecia a existência, e ele provavelmente
esquecera-o há muito. Se procedesse do pincel de um autor de
renome, encontrar-se-ia no piso térreo com os outros retratos
da família. Tratava-se de uma reprodução a três quartos, e ele
tinha a espingarda debaixo do braço e segurava uma perdiz
morta na mão esquerda. Os olhos fitavam em frente, directamente nos meus, e os lábios esboçavam um sorriso. O cabelo
era mais comprido do que eu o recordava. O conjunto não
apresentava nada de extraordinário. Com uma excepção.
O rosto parecia-se singularmente com o meu. Vi-me ao espelho e tornei a concentrar-me no retrato. Cheguei à conclusão
de que a única diferença residia na inclinação dos olhos, um
pouco mais estreitos que os meus, e na cor mais escura do cabelo. No entanto, poderiam tomar-nos por irmãos, quase gémeos. A súbita descoberta da parecença animou um pouco o
meu espírito enevoado. Era como se o jovem Ambrose me dirigisse um sorriso tranquilizador e dissesse: ??Estou a teu
lado. ?? E o Ambrose mais velho também me parecia muito próximo. Por fim, fechei a porta atrás de mim e dirigi-me para a
escada.
Ouvi o som de rodas no caminho de acesso à casa. Era
Louise, na carruagem, com ramos enormes de margaridas-do-outono e dálias no banco a seu lado.
- Para a sala - explicou ao ver-me. - Pensei que o Seecombe ficaria satisfeito.
O mordomo, que naquele momento cruzava o átrio, com o
batalhão de subordinados, pareceu ofendido e assumiu uma
atitude rígida enquanto ela entrava com as flores.
- Não merecia a pena incomodar-se, Miss Louise - articulou ele. - Eu já tinha tratado disso com o Tamlyn. Trouxemos flores em quantidade suficiente do jardim murado.
- Então, eu faço os arranjos, antes que os teus homens
comecem a partir vasos. Suponho que há vasos? Ou têm estado a colocar as flores em boiões de compota?
O semblante de Seecombe podia considerar-se um estudo
de dignidade penalizada, e considerei prudente impelir Louise
para a biblioteca, cuja porta fechei.
- Julguei que ele gostaria que me ocupasse dos preparativos e estivesse presente quando Mistress Ashley chegar - explicou ela em voz baixa. - O pai não me acompanhou porque
não se sentia bem e, com toda esta chuva, achei preferível que
ficasse em casa. Que dizes? Fico ou não? As flores não passaram de um pretexto.
Sentia-me vagamente contrariado pelo facto de ela e o meu
padrinho me julgarem tão incompetente, assim como o velho
Seecombe, que trabalhara como um escravo nos últimos três
dias.
- É uma boa ideia, embora desnecessária - repliquei.
- Conseguimos perfeitamente dar conta do recado.
Mostrou-se desapontada. Era óbvio que ardia de curiosidade por conhecer a viúva. Abstive-me de referir que não tencionava encontrar-me em casa quando chegasse.
Louise observou a sala em volta com uma expressão de crítica, mas não emitiu qualquer comentário. Embora decerto se
apercebesse de numerosas lacunas, revelava o tacto suficiente
para não as mencionar.
- Se quiseres, podes ir lá acima ver o quarto azul - indiquei, para descargo de consciência.
- O quarto azul? Não é o que dá para nascente, por cima
da sala de estar? Então, ela não fica no de Mister Ashley?
- Não, pela simples razão de que o ocupo eu.
A insistência com que todos estranhavam que a minha prima Raquel não fosse instalada no quarto de Ambrose começava a arrasar-me a paciência.
- Se queres mesmo cuidar das flores, pede ao Seecombe
os vasos de que precisares - esclareci, dirigindo-me para a
porta. - Tenho uma carrada de coisas para fazer lá fora e estarei ausente a maior parte do dia.
Começou a pegar nas flores, sem afastar os olhos de mim.
- Acho-te enervado.
- Enganas-te. Quero meramente estar só.
Corou e desviou a vista, ao mesmo tempo que me acudia o
rebate de consciência que conhecia sempre que magoava alguém.
- Desculpa - murmurei, com uma leve palmada no ombro. - Não faças caso do que digo. Agradeço-te teres vindo
com as flores e ofereceres-te para ficar.
- Quando voltarei a ver-te, para saber novas acerca de
Mistress Ashley? Deves calcular que anseio por me inteirar
de tudo. É claro que, se o meu pai melhorar, apareceremos
na igreja, domingo, mas passarei todo o dia de amanhã a
matutar...
- A matutar em quê? Receias que atire a minha prima Raquel pela janela? Sou capaz disso se me irritar muito. Para
descanso do teu espírito, fica sabendo que amanhã à tarde passarei por tua casa para proceder a um relato minucioso da
situação. De acordo?
- Combinado - assentiu, com um sorriso, e foi à procura de Seecombe e dos vasos.
Ausentei-me durante toda a manhã, para regressar cerca
das duas da tarde, com fome e sede, após um longo percurso a
cavalo. Antes de uma refeição de carnes frias e cerveja,
inteirei-me de que Louise se retirara. A seguir, entrei na
biblioteca,
sentei-me e reflecti que me encontrava só pela última vez.
A noite, ela já estaria debaixo do mesmo tecto, naquele aposento ou na sala, uma presença desconhecida e hostil, disposta
a entranhar a sua personalidade em minha casa. Surgia como
uma intrusa no meu lar. Eu não a desejava a meu lado. A ela
ou a qualquer outra mulher, de olhar perscrutador e indiscreto, a insinuar-se na atmosfera, íntima e pessoal, que só a mim
pertencia. O ambiente era sossegado e silencioso, e eu fazia
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parte dele, pertencia-lhe, como Ambrose, no passado e ainda
actualmente. Não precisávamos de ninguém para alterar a
quietude.
Olhei em volta, quase numa despedida, saí de casa e embrenhei-me no bosque.
Afigurava-se-me que Wellington não chegaria com a carruagem e a indesejável passageira antes das cinco, pelo que
decidi conservar-me cá fora até depois das seis. Que aguardassem
a minha aparição para jantar. Seecombe recebera instruções
bem claras. Se ela vinha faminta, que contivesse a vontade de
comer até à chegada do dono da casa. Suscitava-me um prazer
especial imaginá-la sentada, só, na sala de estar, trajada com
ostentação, cheia de importância, sem ninguém para a receber.
Continuei a caminhar ao vento e à chuva, ao longo da alameda onde as quatro estradas se cruzavam e para leste, em direcção ao limite da propriedade; depois, de novo através do
bosque para norte, onde se situavam várias herdades, para me
deter a trocar impressões com os caseiros, com a única intenção de gastar tempo. Já estava encharcado até aos ossos, mas
era-me indiferente.
Abri a porta do átrio e entrei em casa. Esperava ver malas,
baús, montes de caixas e cestas, mas, como habitualmente, não
se me deparou nada de anormal.
A lareira da biblioteca fora acesa, porém não havia ninguém. Na sala de jantar, a mesa estava posta para uma pessoa.
Cada vez mais perplexo, toquei a sineta para chamar Seecombe.
- Então? - inquiri.
Exibia a recuperada expressão de auto-importância, e a voz
era abafada quando anunciou:
- A senhora já chegou.
- Isso já eu calculava, visto que são quase sete horas. Não
trouxe bagagem? Que lhe fizeram?
- A senhora trouxe muito pouca coisa. As caixas e os
baús pertenciam a Mister Ambrose e colocámo-los no seu antigo quarto, senhor.
- Ah... - Aproximei-me do lume e dei um pontapé numa acha, empenhado em evitar que ele se apercebesse do tremor das minhas mãos. - Onde está Mistress Ashley?
- Recolheu ao quarto. Disse que estava cansada e pediu-me que explicasse a sua ausência ao jantar. Mandei levar-lhe
um tabuleiro há cerca de uma hora.
O esclarecimento produziu-me indiscutível alívio. No entanto, até certo ponto, constituía uma espécie de anticlímax.
- Como decorreu a viagem?
- O Wellington diz que a estrada estava péssima a partir
de Liskeard e soprava vento quase ciclónico. Um dos cavalos
perdeu uma ferradura e houve necessidade de efectuar uma paragem num ferreiro, perto de Lostwithiel.
- Hum... - Voltei-me de costas para o lume, a fim de as
aquecer, assim como as pernas.
- Está encharcado, senhor - observou Seecombe. - É melhor mudar de roupa antes que contraia um resfriado.
- É o que vou fazer a seguir - prometi, enquanto olhava
em redor. - Onde estão os cães?
- Creio que seguiram a senhora ao quarto. Pelo menos, o
Don. Quanto aos outros, não tenho a certeza.
Continuei a aquecer as costas e as pernas junto da lareira e
o mordomo permanecia à entrada, como se esperasse que eu
reatasse o diálogo.
- Bem, vou tomar banho e mudar de roupa - decidi, por
fim. - Diz a um dos rapazes que encha a banheira. Jantarei
dentro de meia hora.
Naquela noite, sentei-me sem companhia para jantar, diante dos candelabros acabados de polir e da saladeira de prata
cheia de rosas. Seecombe conservava-se atrás da minha cadeira,
mas não falávamos. O silêncio devia constituir uma tortura para ele, naquela ocasião especial, pois eu estava ciente de
como
ansiava por tecer comentários sobre a recém-chegada. Enfim,
que contivesse o ímpeto e despejasse depois o saco na sala do
pessoal.
Quando acabava de comer, John entrou na sala de jantar e
murmurou algo ao mordomo, que se acercou de mim e murmurou:
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- A senhora manda dizer que, se deseja vê-la quando acabar de jantar, terá muito gosto em recebê-lo, senhor.
- Obrigado, Seecombe.
Quando se retiraram, fiz uma coisa muito rara em mim somente devido a extrema exaustão, após uma longa cavalgada,
por exemplo, ou uma caçada particularmente movimentada.
Dirigi-me ao aparador e tomei uma generosa dose de brande.
A seguir, subi a escada e bati à porta do pequeno boudoir.
Capítulo oitavo
Uma voz fraca, quase inaudível, convidou-me a entrar.
Embora tivesse anoitecido e as velas estivessem acesas, os
cortinados permaneciam afastados e ela sentava-se junto do peitoril da janela, a contemplar o jardim. Achava-se de costas para
mim, as mãos unidas sobre o regaço. Devia supor que era um
dos criados, pois não se moveu quando entrei. Don estava deitado diante do lume, o focinho entre as patas, com os dois
cães mais jovens a seu lado. Nada fora alterado, não se via
qualquer gaveta aberta da pequena escrivaninha, nem objectos
dispersos pelo chão; em suma, nada de comum com a confusão produzida por uma pessoa recém-chegada de uma viagem.
- Boa noite - proferi, e a voz pareceu-me tensa e irreal,
no pequeno aposento.
Ela voltou a cabeça e pôs-se imediatamente de pé, para se
aproximar de mim. Desenvolvia-se tudo tão depressa que eu
não dispunha de tempo, nem um mero instante para reflectir
sobre as centenas de imagens dela que conjurara durante os últimos dezoito meses. A mulher que me perseguira através de
noites e dias, pairara sobre as horas conscientes e perturbara
os sonhos achara-se finalmente diante de mim. A minha primeira sensação foi de choque, quase de estupefacção, por ser
tão baixa. Quase não me chegava aos ombros. Não tinha nada
que se comparasse com a altura e figura de Louise.
Trajava de preto, o que lhe absorvia a cor do rosto, e havia
rendas em torno da garganta e dos pulsos. O cabelo era castanho, separado ao meio, com um nó baixo atrás, e as feições irrepreensíveis e regulares. As únicas coisas grandes nela resumiam-se aos olhos, que, ao verem-me, se arregalaram em
reconhecimento súbito, surpreendidos, como os de uma gazela; do reconhecimento passaram a confusão e desta a dor, quase apreensão. Vi a cor acudir às faces e tornar a desaparecer,
e
creio que constituí um abalo tão profundo para ela como vice-versa. Era difícil determinar qual dos dois estava mais
nervoso e menos à vontade.
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Olhámo-nos - eu para baixo e ela para cima -, e transcorreu um momento antes que quebrássemos o silêncio.
Quando o fizemos, foi simultaneamente.
??Espero que tenha descansado", foi a minha contribuição,
e a sua ??Tenho de lhe pedir desculpa,?. Fez seguir a minha
abertura das palavras ??Sim, Philip, obrigada", após o que se
acercou do lume, sentou-se num banco baixo e indicou-me a
cadeira em frente. O velho perdigueiro, Don, espreguiçou-se,
bocejou e, apoiando-se nas patas posteriores, pousou-lhe a cabeça no regaço.
- Suponho que este é o Don? - disse ela, afagando-lhe a
cabeça. - Já fez de facto catorze anos?
- Exactamente. O seu aniversário é uma semana antes
do meu.
- Encontrou-o num cesto à hora do pequeno-almoço.
O Ambrose espreitava atrás do cortinado da sala de jantar, para lhe observar a reacção quando o abriu. Disse-me que nunca
esqueceria a alegria no seu rosto no momento em que retirou a
tampa e o Don saltou para fora. Você tinha dez anos e era o
primeiro de Abril.
Ergueu os olhos e sorriu-me e, não sem uma ponta de embaraço, vi indícios de lágrimas, prontamente extintos.
- Tenho de lhe pedir desculpa por não comparecer ao jantar. Efectuou preparativos só para mim, e decerto regressou a
casa antes do que desejava. Mas é que me sentia muito cansada
e teria sido uma horrível companheira à mesa. Pareceu-me
preferível para si que jantasse sozinho.
Recordei que me fartara de caminhar pela propriedade, para a obrigar a esperar, mas conservei-me silencioso. Um dos
cães mais pequenos acordou e pôs-se a lamber-me a mão. Puxei-lhe as orelhas com brandura para me concentrar em alguma coisa.
- O Seecombe disse-me que estava ocupado e havia muito
que fazer. Não quero que a minha visita inesperada o desvie
das suas obrigações. Posso orientar-me por aí sozinha, e até
terei o maior prazer nisso. Espero que por minha causa não
introduza qualquer alteração na sua rotina de amanha. Desejo
apenas dizer uma coisa. Obrigada por me ter convidado, Philip. Calculo que não deve ter sido fácil para si.
Levantou-se e aproximou-se da janela para correr os cortinados. A chuva alagava as vidraças, e reflecti que eu talvez
devesse ter tomado a iniciativa de o fazer. Pus-me igualmente de
pé, não sem algum embaraço, mas era demasiado tarde para
me antecipar. Ela voltou para junto do lume e tornámos a sentar-nos.
- Foi uma sensação estranha cruzar o parque em direcção
à casa, com o Seecombe a aguardar-me à entrada. Era uma cena que eu tinha imaginado diversas vezes, e a realidade não se
desviou dela. O átrio, a biblioteca, os quadros nas paredes.
O relógio do campanário bateu as quatro horas no momento
em que a carruagem parou diante da porta. Até esse som me
pareceu familiar.
Eu entretinha-me a puxar as orelhas do cão, sem me atrever a olhá-la.
- Ao serão, em Florença, no Verão e Inverno passados
antes de o Ambrose adoecer, costumávamos falar da viagem de
regresso ao lar - prosseguiu ela. - Eram os seus momentos
mais felizes. Ele falava-me dos jardins, do bosque e do caminho até ao mar. Tencionávamos vir pelo percurso que utilizei,
razão pela qual o fiz. Por Génova e Plymouth. E na carruagem conduzida pelo Wellington no resto da viagem. Foi
perspicaz e atencioso da sua parte providenciar nesse sentido, Philip.
Apesar de me sentir algo desnorteado, consegui recuperar
o uso da fala.
- Sei que a viagem não foi agradável, e o Seecombe disse-me
que tiveram de parar num ferreiro. Lamento o contratempo.
- Não me preocupei com isso. Na verdade, até me senti
muito confortável junto do lume, a conversar com o Wellington, enquanto o homem ferrava o cavalo.
As maneiras dela revelavam-se agora mais descontraídas.
O nervosismo inicial desaparecera, se porventura se tratara
disso. Era-me impossível ter a certeza. Acabei por me convencer de que, se alguém estava em falta, era eu, pois sentia-me
singularmente grande e desajeitado num aposento tão pequeno, com a impressão de que a cadeira que ocupava se destinava
a um anão. Não há nada mais contraproducente para uma pessoa se sentir à vontade do que estar sentado com desconforto,
e perguntava-me que espécie de figura seria a minha, encolhido na exígua peça de mobiliário, com os pés enormes pousados no chão e os braços compridos suspensos de cada lado do
corpo.
- O Wellington indicou-me a casa de Mister Kendall e,
por um momento, pensei se seria oportuno e cortês ir apresentar-lhe cumprimentos - continuou. - Mas era tarde, os cavalos estavam extenuados e eu ansiava por chegar... aqui. - Fez
uma breve pausa antes de dizer ??aqui??, e ocorreu-me a possibilidade de pretender referir-se a ??casa" e acabar por se
conter
no último momento. - O Ambrose descreveu-me tudo minuciosamente, desde o átrio a todos os aposentos vazios. Até
traçou um diagrama de tudo, pelo que creio que poderia percorrê-los todos de olhos fechados. - Fez uma breve pausa.
- Agradeço-lhe a gentileza de me conceder esta pequena suite, pois era a que utilizaríamos se o destino não pusesse
termo
abrupto ao nosso casamento. Queria que você se mudasse para
o quarto dele, e o Seecombe explicou-me que já se tinha instalado lá. O seu primo ficaria muito contente se soubesse.
- Espero que esteja confortável - articulei. - Creio que
ninguém voltou a ocupar estas instalações desde que uma familiar, a tia Phoebe, que não conheci, as deixou.
- Ela enamorou-se de um cura e partiu para Tonbridge, a
fim de consolar o coração despedaçado. No entanto, o coração
revelou-se obstinado e a paixoneta prolongou-se por vinte
anos. Nunca lhe contaram a história dela?
- Não.
Olhei-a dissimuladamente e vi que fitava o lume, com um
leve sorriso, provavelmente por pensar nas desventuras românticas da tia Phoebe. As mãos achavam-se pousadas no regaço.
Reconheci para comigo que nunca vira mãos tão pequenas numa pessoa adulta. Eram esguias e estreitas, como as de alguém
num retrato pintado por um velho mestre e deixado inacabado.
- Que lhe aconteceu, afinal? - perguntei.
- O coração recompôs-se, passadas duas décadas, quando
conheceu outro cura. Mas entretanto ela contava quarenta e
cinco anos e via o comboio passar sem que tivesse lugar. Resultado: subiu para a última carruagem. Por outras palavras,
casou com ele.
- O matrimónio foi feliz?
- Não. Ela morreu na noite de núpcias... de comoção.
Voltou-se e olhou-me, com um trejeito levemente malicioso nos lábios, e de súbito acudiu-me uma visão de Ambrose a
contar-lhe a história, como decerto acontecera, encolhido na
cadeira, os ombros trémulos, enquanto ela o olhava precisamente com aquela expressão, contendo a vontade de rir. Não
pude reprimir o impulso. Sorri à prima Raquel, e o ar solene
que persistia no seu olhar dissipou-se, enquanto o sorriso se
alargava.
- Desconfio que acaba de inventar esse desenlace -- acusei-a, arrependido do meu sorriso.
- De modo algum. O Seecombe deve conhecer a história.
Pergunte-lhe.
- Ele não acharia próprio. - Meneei a cabeça com veemência. - E ficaria chocado se soubesse que você ma revelou.
A propósito, esqueci-me de perguntar se lhe trouxe algo para
comer.
- Trouxe. Sopa, uma perna de frango e uma fatia de pudim. Estava tudo excelente.
- Como decerto já sabe, não há mulheres entre o nosso
pessoal doméstico. Ninguém para cuidar de si, arrumar-lhe os
vestidos no roupeiro, mas apenas o jovem John ou Arthur para lhe preparar o banho.
- Prefiro assim. As mulheres falam pelos cotovelos.
Quanto aos meus vestidos, apenas trouxe este e mais um. Fiz-me igualmente acompanhar de sapatos resistentes para percorrer as imediações.
- Se amanhã chover como hoje, não poderá sair de casa.
A biblioteca está bem abastecida, se desejar ler. Não sou
muito
dado a leituras, mas espero que encontre obras do seu agrado.
Os lábios voltaram a comprimir-se num trejeito malicioso,
prontamente rectificado com uma expressão grave.
- Se me aborrecer, posso entreter-me a arear as pratas.
Não esperava ver uma quantidade tão grande. O Ambrose disse mais de uma vez que a proximidade do mar as afectava.
Eu juraria pela sua expressão que suspeitava de que o estendal de relíquias provinha de um armário fechado desde longa data e, por detrás do ar circunspecto, me desfrutava.
Desviei os olhos. Sorrira-lhe uma vez, mas poder algum do
mundo me obrigaria a fazê-lo de novo.
- Na villa, quando fazia muito calor, sentávamo-nos à sombra, no pátio em que há uma fonte - prosseguiu. - O Ambrose dizia-me que fechasse os olhos e escutasse a água, para
imaginar que era a chuva daqui. Agarrara-se à teoria de que eu
mirraria no clima britânico, em particular na humidade da
Cornualha. Chamava-me flor de estufa, própria apenas para
ser cultivada por um perito, absolutamente inútil no solo vulgar. Afirmava que eu tinha crescido na cidade e era, portanto,
supercivilizada. Recordo-me de, uma ocasião, ter comparecido
à mesa com um vestido novo e ele queixar-se de que tresandava a Roma. ??Assim, morrias de frio, em casa?,, garantiu-me.
??Não poderás fugir da flanela e xaile de lã.?, Não me esqueci
da advertência e trouxe um xaile.
Ergui a vista e verifiquei que, com efeito, havia um, preto
como o vestido, em cima do banco a seu lado.
- Em Inglaterra, sobretudo nesta região, dependemos
muito das condições meteorológicas -. expliquei. - Não há
outro remédio, devido à proximidade do mar. A nossa terra
não é muito rica para a agricultura, pelo menos como na parte
norte do país. Habituado como estou ao que se passa aqui,
creio poder afirmar que amanhã surgirá o .sol e você poderá
dar um bom passeio.
- Assim espero. Até perto do farol e ao longo de Twenty
Acres e West Hills.
- Sabe os nomes das terras de Barton? - estranhei.
- Há mais de dois anos que os conheço de cor.
Guardei silêncio por um momento, sem me ocorrer coisa
alguma, para replicar. Por fim, aventurei em voz rouca:
- E terreno áspero para uma mulher.
- Trouxe sapatos resistentes.
O pé que surgiu de baixo da longa saia afigurou-se-me inadequadamente preparado para uma longa caminhada, pois envolvia-o uma chinela de veludo.
- Refere-se a isso?
- É claro que não. Tenho calçado mais forte.
Não consegui imaginá-la a calcorrear os campos, por muito que se mostrasse convencida do contrário.
- Sabe montar a cavalo?
- Não.
- Ou equilibrar-se no dorso de um, se alguém tomar conta das rédeas?
- Talvez, mas precisaria de me agarrar à sela com ambas
as mãos. Não há uma coisa qualquer chamada maçaneta a que
uma pessoa se pode segurar?
Formulou a pergunta com gravidade, o olhar dominado
por uma expressão solene, mas convenci-me mais uma vez de
que me desfrutava.
- Não sei ao certo se há por aí alguma sela de amazona -- articulei com relutância. - Hei-de perguntar ao Wellington,
embora não me recorde de ver nenhuma na sala dos arreios.
- É possível que a tia Phoebe costumasse andar a cavalo -- observou. - Para se distrair, quando perdeu o cura. Seria a
sua
única consolação.
Era inútil insistir. Havia algo de subjacente na voz dela
que
me intrigava. E o pior é que me vira sorrir. Desviei mais uma
vez os olhos e disse:
- Está bem. Tratarei disso, de manhã. Quer que diga ao
Seecombe que vasculhe os armários para ver se ela também
deixou ficar um trajo de equitação?
- Não creio que precise dele se você me orientar com
brandura e eu me agarrar bem à maçaneta.
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Naquele momento, o mordomo bateu à porta e entrou,
com uma chaleira de prata numa bandeja monstruosa, além de
um bule e uma caixa do mesmo metal. Era a primeira vez que
eu via aqueles objectos e perguntei-me nas entranhas de que
arrecadação os teria descoberto. E com que objectivo os trazia? A minha prima Raquel leu a perplexidade nos meus
olhos. Por nada deste mundo me atreveria a ferir a susceptibilidade de Seecombe, que pousou a bandeja na mesa com a
maior dignidade, mas acudiu-me uma maré crescente de algo
semelhante a histeria, pelo que me levantei e aproximei da janela, com o pretexto de observar a chuva.
- O chá está servido, minha senhora - anunciou ele.
- Obrigada, Seecombe - proferiu ela solenemente.
Os cães ergueram-se, fungando e apontando os focinhos ao
tabuleiro, sem dúvida tão intrigados como eu. O mordomo
fez estalar a língua e chamou:
- Venham comigo, Don e companhia. Acho conveniente
levá-los, minha senhora. Podiam derrubar a bandeja.
- Pois sim, Seecombe. Talvez tenha razão.
Mais uma vez a inflexão maliciosa subjacente. Congratulei-me por estar de costas para ela.
- E quanto ao pequeno-almoço, minha senhora? - volveu Seecombe. - Mister Philip costuma tomá-lo na sala de
jantar, às oito horas.
- Preferia tomar o meu no quarto. Mister Ashley¨ dizia
com frequência que nenhuma mulher está apresentável antes
das onze da manhã. É muito incómodo?
- De modo algum, minha senhora.
- Então, obrigada e boa noite.
- Boa noite, minha senhora. Boa noite, senhor. Vamos,
meninos.
Fez estalar os dedos, desta vez, e os animais seguiram-no,
embora com relutância. Nos momentos imediatos, imperou silêncio, até que ela perguntou quase num murmúrio:
- Toma chá comigo? Sei que é um costume da Cornualha.
A minha dignidade extinguiu-se. Aliás, mantinha-a com
uma tensão quase insuportável. Voltei para junto do lume e
sentei-me no banco ao lado da mesa.
- Vou confiar-lhe um segredo. É a primeira vez que vejo
estes apetrechos.
- Calculei isso mesmo pela sua expressão, quando o Seecombe entrou. Creio que ele também nunca os tinha visto. Fazem parte de um tesouro enterrado nas caves.
- É mesmo costume tomar chá depois do jantar?
- Sem dúvida - assentiu. - Na alta sociedade, quando
há senhoras presentes.
- Nunca o fizemos aos domingos, quando os Kendall e os
Pascoe vêm jantar.
- Talvez o Seecombe não os considere membros da alta
sociedade. Confesso que me sinto lisonjeada. Aprecio muito o
chá. Você pode comer o pão com manteiga.
Isso também constituía uma inovação. Fatias finas de pão
enroladas como pequenas salsichas.
- Não compreendo como se lembraram disto na cozinha,
mas o sabor é excelente - admiti, tragando uma.
- Alguma inspiração repentina, que decerto se repetirá no
seu pequeno-almoço. Olhe que a manteiga está a derreter-se.
Aconselho-o a chupar os dedos. - Levou a chávena aos lábios, sem afastar os olhos de mim. - Pode acender o cachimbo, se quiser.
- No boudoir de uma senhora? - exclamei, estupefacto.
- Tem a certeza? Aos domingos, quando Mistress Pascoe
vem com o vigário, nunca fumamos na sala de estar.
- Não nos encontramos na sala de estar e eu não sou Mistress Pascoe.
Encolhi os ombros e puxei do cachimbo.
- O Seecombe não aprovará. Há-de notar o cheiro, de
manhã.
- Abrirei a janela antes de me deitar. Desaparecerá com a
chuva e o vento.
- A chuva entrará e estragará a carpete, o que será pior
que o cheiro de tabaco.
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- Seca-se com um pano - retrucou. - É miudinho como
um velhote.
- Supus que as mulheres se preocupassem com essas coisas.
- E preocupam-se quando não têm mais nada em que
pensar.
Enquanto chupava o cachimbo, sentado no antigo boudoir
da tia Phoebe, assolou-me subitamente a suspeita de que aquilo não correspondia de modo algum à maneira como tencionara passar o serão. Tivera em mente umas breves palavras corteses, tanto quanto possível glaciais, e uma despedida abrupta,
para que a intrusa ficasse perturbada.
Observei-a dissimuladamente. Acabara de tomar o chá e
pousara a chávena e o pires na bandeja. Apercebi-me mais
uma vez das suas mãos, esguias, pequenas e muito brancas, e
perguntei-me se Ambrose lhes chamaria citadinas. Usava dois
anéis, ambos com pedras valiosas, que não pareciam destoar
do luto ou da sua própria personalidade. Congratulei-me por
ter o fornilho do cachimbo para segurar e o tubo para morder,
pois faziam-me sentir mais como eu próprio e menos como
um sonâmbulo, aturdido por um sonho. Havia coisas que eu
devia fazer e dizer e, ao invés, permanecia ali sentado como
um pateta diante do lume, incapaz de coordenar as ideias.
O dia tão temido chegara ao fim e sentia-me impossibilitado
de determinar se me resultara vantajoso ou prejudicial. Se, ao
menos, ela possuísse alguma semelhança com a imagem que eu
criara, saberia melhor como proceder, mas agora que a tinha
na minha frente, em carne e osso, as visões anteriores
afiguravam-se-me meras fantasias de um espírito alucinado que se haviam fundido umas nas outras e desaparecido nas trevas.
Algures, havia uma criatura amargurada, encarquilhada e
idosa, rodeada de advogados, uma Mrs. Pascoe mais possante,
de voz incisiva e arrogante, uma boneca mimada petulante,
uma víbora sinuosa e silenciosa. Mas nenhuma delas se encontrava comigo naquele aposento. A animosidade parecia agora
fútil. Com efeito, como podia eu recear alguém que nem me
chegava ao ombro e não possuía nada de notável além de um
velado sentido de humor e mãos pequenas? Teria sido por
aquela mulher que um homem participara num duelo e outro,
moribundo, me escrevera ??Ela acabou por se desmascarar, Raquel, o meu tormento?,? Era como se eu tivesse soprado uma
bola de sabão no ar e a visse bailar, até que rebentara
subitamente.
Tomei nota no meu íntimo para não tornar a beber brande
após uma caminhada de mais de quinze quilómetros à chuva,
pois o álcool embotava os sentidos e dificultava o raciocínio.
Decidira combater aquela mulher e ainda nem sequer esboçara
uma escaramuça. Que fora que ela dissera acerca da sela da tia
Phoebe?
- Está quase a adormecer, Philip - sussurrou. - Quer
fazer-me o favor de se levantar e ir para a cama?
Abri os olhos com um sobressalto. Ela observava-me com
curiosidade, as mãos pousadas no regaço. Pus-me de pé não
sem certa falta de firmeza e quase derrubei a bandeja.
- Desculpe, mas deve ter sido do calor do lume - balbuciei. - Em regra, vou estender as pernas para a biblioteca.
- Fez hoje muito exercício, segundo julgo.
A inflexão parecia inocente, mas... Haveria um segundo
sentido nas suas palavras? Enruguei a fronte e olhei-a em silêncio. De resto, não sabia muito bem o que poderia dizer.
- Nesse caso, de manhã, se fizer bom tempo, arranja-me
um cavalo manso, para poder visitar as imediações? - lembrou.
- Pois sim, se está tão empenhada.
- Não precisa de se incomodar. Pedirei ao Wellington que
me acompanhe.
- Não, irei eu. Aliás, não tenho mais nada que fazer.
- Ah, mas não pode ser! Esquecíamo-nos de que é sábado. Não costuma pagar ao pessoal nessa manhã? Fica para a
parte da tarde.
- Com a breca! - Olhei-a assombrado. - Como sabe
que costumo pagar ao pessoal na manhã de sábado?
Verifiquei com perplexidade crescente e não pouco embaraço que os seus olhos se tornavam subitamente brilhantes e
algo húmidos, como quando se referira ao meu décimo aniversário. E a voz adquiriu uma dureza singular.
- Se não adivinha, tem menos discernimento do que eu
supunha. Aguarde um momento, por favor. Trouxe uma coisa
para si. - Abriu a porta e passou ao quarto azul contíguo, para reaparecer com uma bengala. - é sua. Pode ver e separar
tudo o resto mais tarde, mas queria ser eu própria a entregar-lhe isto, esta noite.
Tratava-se da bengala de Ambrose. A que sempre usara e à
qual se apoiava. A da faixa dourada, com uma cabeça de cão
de mármore no castão.
- Obrigado - articulei impressionado. - Estou-lhe muito grato.
Saí e detive-me, com ela nas mãos. Raquel não me dera
tempo para me despedir. Não notei qualquer som proveniente
do boudoir, e afastei-me lentamente pelo corredor em direcção
ao meu quarto. Pensei na expressão dela quando me entregara
a bengala. Uma ocasião, não muito tempo atrás, vira outros
olhos com a mesma expressão de sofrimento. Também continham reserva e orgulho, aliados a idêntica humilhação, à mesma agonia de suplicação. Quando entrava no quarto de Ambrose, agora meu, e examinava a bengala, reflecti que devia
ser
porque os olhos eram de cor similar e pertenciam à mesma raça. A parte isso, não possuíam nada de comum - a pedinte na
margem do Arno e a minha prima Raquel.
Capítulo nono
Levantei-me cedo na manhã seguinte, e logo após o pequeno-almoço dirigi-me ao estábulo e chamei Wellington, com o
qual visitei a sala dos arreios.
Sim, havia cerca de meia dúzia de selas de amazona entre
várias outras, embora eu nunca tivesse reparado nelas.
- Mistress Ashley não sabe montar - expliquei. - Interessa-lhe apenas uma coisa para se sentar e agarrar.
- É melhor dar-lhe o Salomão - sugeriu o velho condutor. - Talvez nunca tenha transportado uma senhora, mas não
a fará cair. É o único cavalo pelo qual ponho as mãos no fogo.
Salomão fora domado por Ambrose, alguns anos antes, e
agora comportava-se sem margem para reparos. As selas de
amazona encontravam-se dependuradas num lugar alto da parede, pelo que Wellington teve de chamar o moço de estrebaria, que, com uma escada, as trouxe para baixo. A escolha da
mais apropriada consumiu longos minutos. Por fim, optámos
por uma cujo único óbice consistia no aspecto pouco atraente.
Recomendei que a polissem devidamente, e a prima Raquel
julgaria que acabava de chegar de Londres.
- A que horas deseja a senhora partir? - perguntou Wellington.
- Pouco depois do meio-dia, suponho. Traz o Salomão
para a entrada e eu próprio a acompanharei.
Em seguida, entrei no escritório, a fim de consultar os livros e determinar a quantia que competia a cada um dos meus
homens, antes que se apresentassem para receber. A maneira
como Wellington dissera ??a senhora?? ficara-me atravessada na
garganta. Seria assim que a consideravam? No fundo, talvez
fosse uma reacção natural, conquanto eu não deixasse de estranhar a prontidão com que o pessoal da casa parecia ter-se rendido àquela que continuava a afigurar-se-me uma intrusa.
A expressão de reverência nos olhos de Seecombe quando
comparecera no boudoir com o chá e o pousara diante dela e,
naquela manhã, fora o jovem John que me servira o pequeno-almoço, porque ??Mister Seecombe foi lá acima com um tabuleiro para a senhora" contribuíam para que a minha inquietação se acentuasse. Debrucei-me sobre os livros, esforçando-me
por afastar do pensamento a realidade de que uma mulher
dormira debaixo daquele tecto pela primeira vez desde que
Ambrose despedira a minha ama. No entanto, não pude deixar
de me recordar, com um estremecimento de pavor, que ela me
mandara quase maternalmente para a cama, no momento em
que o sono começava a vencer-me, no boudoir.
Quando, por volta do meio-dia, apareceu o pessoal do serviço externo para receber, reparei que o chefe dos
jardineiros,
Tamlyn, não se encontrava entre os colegas. Indaguei o motivo
e fui informado de que se achava algures com ??a senhora,?.
Abstive-me de emitir qualquer comentário, paguei-lhes e retiraram-se. No entanto, tinha uma vaga ideia de onde Tamlyn e
Raquel podiam estar. E não me equivoquei. Descobri-os num
recanto da propriedade, onde armazenáramos as camélias,
oleandros e outras plantas que Ambrose trouxera das suas viagens.
Eu nunca fora perito na matéria - delegava essas funções
em Tamlyn - e agora, ao dobrar a esquina que antecedia o local, ouvi Raquel falar de enxertos e situação mais favorável
em
termos meteorológicos, enquanto o chefe dos jardineiros escutava com a mesma expressão de reverência que eu notara
nos olhos de Seecombe e Wellington. Ao ver-me, ela endireitou-se, com um sorriso.
- Estou aqui desde as dez e meia - informou. - Procurei-o para pedir autorização, mas como não o encontrei tive
o arrojo de chamar o Tamlyn para me ajudar. Não é verdade?
- perguntou, virando-se para ele.
- Com certeza, minha senhora - assentiu o interpelado,
com olhos de carneiro mal morto.
- É que eu trouxe para Plymouth, onde ficaram por não
caberem na carruagem, mas chegarão por portador especial,
todas as plantas que o Ambrose e eu adquirimos nos últimos
dois anos. Tenho a lista comigo, com a indicação dos lugares
em que ele as desejava, e pensei que pouparia tempo se trocasse já impressões com o Tamlyn sobre o assunto. Com efeito,
talvez tenha partido quando o portador chegar.
- Não tem importância - declarei, magnânimo. - Vocês
entendem dessas coisas muito mais do que eu. Continuem,
por favor.
- Já terminámos, não é assim, Tamlyn? Não se esqueça de
agradecer a Mistress Tamlyn o chá que me ofereceu, e espero
que a irritação na garganta lhe passe depressa.
- Obrigado, minha senhora - murmurou o chefe dos
jardineiros, que em seguida se voltou para mim. - Aprendi
algumas coisas esta manhã, Mister Philip - revelou, com uma
ponta de desafio na voz. - Confesso que nunca esperei
aprender nada de uma senhora. Pelo menos, no que se refere à
minha profissão. Mistress Ashley sabe de jardinagem muito
mais do que eu. Fez-me sentir totalmente ignorante.
- Não diga disparates - obtemperou ela. - Só percebo
um pouco de árvores e arbustos. Lembre-se de que ainda não
me mostrou o jardim murado. Fica para amanhã.
- Quando desejar, minha senhora.
Tamlyn ficou entregue às suas plantas e encaminhámo-nos
para a casa.
- Se tem andado por aí desde as dez da manhã, deve precisar de descansar - observei. - Vou dizer ao Wellington que
não sele o cavalo.
- Descansar? Que ideia! Estou ansiosa por dar uma volta
a cavalo e nada me fará desistir. Não quero perder esta manhã sem chuva e com algum sol. É o Wellington que me
acompanha?
- Não, eu. E previno-a desde já do seguinte: talvez dê lições sobre camélias ao Tamlyn, mas não conseguirá fazer o
mesmo comigo no que se refere a equitação e agricultura.
- Sei distinguir o trigo da cevada - aventurou, em tom
aparentemente submisso. - Isso não o impressiona?
- Nem um átomo. De resto, não encontrará nem um nem
outro, porque já terminámos a safra deste ano.
Quando entrámos em casa, descobri que Seecombe servira
um almoço frio de carne e salada na sala de jantar, com tartes
e
pudins, como se fôssemos sentar-nos para comer. Raquel
olhou-me com uma expressão solene, por detrás da qual pressenti uma réstia de malícia.
- Você é jovem e ainda não acabou de crescer - salientou. - Coma e esteja grato à Providência. Guarde um pedaço
de tarte na algibeira e eu pedir-lho-ei quando estivermos nos
montes. Entretanto, vou lá acima vestir-me apropriadamente
para montar.
??Pelo menos?,, cogitei, enquanto atacava a carne fria com
considerável apetite, ??não exige que a sirvam nem parece
esperar atenções especiais, e possui um espírito de independência
indiscutível. O único inconveniente é que a minha atitude, que
eu tencionava tornar encorajadora de iniciativas, não
exerce o menor efeito. O meu sarcasmo foi encarado como
jovialidade.,?
Eu acabara de comer quando Salomão foi levado para a entrada, e verifiquei que o velho e possante cavalo sofrera um
tratamento ímpar na sua existência. Até as ferraduras tinham
sido polidas, atenção que nunca fora concedida ao meu Cigano.
Fui comunicar a Seecombe que deveríamos regressar depois das quatro e, quando voltei a sair, Raquel já descera do
quarto e estava equilibrada no dorso de Salomão, enquanto
Wellington lhe ajustava o estribo. Ela mudara de vestido, também de luto, e, em vez de chapéu, cobrira a cabeça com o xaile, preso com um alfinete debaixo do queixo. Naquele momento, conversava com Wellington, de perfil para mim, e, por
qualquer razão indeterminada, lembrei-me do que dissera na
véspera acerca do comentário jocoso de Ambrose, que a acusara de tresandar a Roma. Julguei compreender ao que se referira. As suas feições recordavam as gravadas numa moeda romana, bem vincadas, porém pequenas. E agora, com o xaile à
cabeça, fazia-me pensar nas mulheres que vira ajoelhadas na
Catedral de Florença ou dissimuladas às entradas das casas silenciosas. Empertigada na sela, tornava-se difícil acreditar
que
era baixa no chão. A mulher que eu considerava banal, à parte
as mãos, expressão mutável do olhar e riso que uma vez lhe
notara na voz, assumia um aspecto diferente, agora que se encontrava sentada acima de mim. Dir-se-ia mais distante, mais
remota e mais... italiana.
Ouviu os meus passos e voltou-se - e tudo desapareceu: a
expressão distante que dominara a fisionomia em repouso.
Agora, reassumira a aparência inicial.
- Está pronta? - perguntei. - Ou tem medo de cair?
- Deposito a minha confiança em si e no Salomão.
- Muito bem. Vamos.
Peguei na brida e partimos para a digressão às terras de
Barton.
O vento do dia anterior abrandara sensivelmente e o céu
apresentava-se agora quase limpo. Pairava uma certa maresia
na atmosfera e ouvia-se a rebentação do mar ao longe. Aquele
tipo de tempo era frequente no Outono.
A nossa peregrinação era de algum modo estranha. Começámos por visitar as terras de Barton, e tive de desenvolver
esforços para impedir Billy Rowe e a esposa de nos convidarem
a entrar em sua casa, para tomar chá.
As chamadas terras de Barton formavam uma espécie de
península, com os campos do farol na extremidade mais afastada e o mar a constituir baías, a leste e oeste, em cada
lado.
Como eu referira a Raquel, o trigo fora levado na sua
totalidade, pelo que podia conduzir Salomão por onde quisesse, sem o
risco de produzir estragos. Chegámos assim às proximidades
do farol, de onde, virando-se para trás, ela tinha ensejo de
contemplar toda a propriedade, limitada, na parte ocidental,
pela longa extensão de areal da baía e, cinco quilómetros para
oriente, pelo estuário. A herdade Barton e a própria casa - a
mansão, como Seecombe lhe chamava - situavam-se numa espécie de pires, porém as árvores plantadas por Ambrose e o
meu tio Philip já apresentavam uma altura e espessura apreciáveis, para proporcionarem mais abrigo ao edifício, e, para
norte, a nova alameda atravessava o bosque e seguia pela encosta
suave em direcção à encruzilhada das quatro estradas.
Recordando-me da conversa da véspera, tentei testar Raquel acerca dos nomes dos campos de Barton, mas não consegui apanhá-la em falso, pois conhecia-os todos. E a memória
também não a traiu quando começou a mencionar as outras
herdades da propriedade, com as identidades de quem as
ocupavam.
- De que acha que o Ambrose e eu conversávamos mais? -- acabou por perguntar quando descíamos da colina do farol para os campos a leste. - Isto era a sua paixão, pelo que o tornei também na minha. Não desejaria que a sua eventual esposa
fizesse o mesmo?
- Como não sou casado, não me posso pronunciar - repliquei secamente. - Em todo o caso, pensei que, como viveu
sempre no continente, os seus interesses seriam inteiramente
diferentes.
- E eram, até conhecer o Ambrose.
- À excepção da jardinagem.
- À excepção da jardinagem - concordou. - Aliás, foi
assim que tudo principiou, como ele decerto lhe revelou.
O meu jardim na villa era adorável, mas isto... - Fez uma
pausa e puxou as rédeas, enquanto eu conservava a mão na
brida - isto corresponde ao que sempre desejei ver. É diferente. - Conservou-se silenciosa por uns instantes, com o
olhar fixo na baía. - Na villa, quando eu era jovem e recém-casada (não me refiro ao Ambrose), não me sentia muito feliz, pelo que me distraía com as plantas, procedendo a enxertias e outras actividades do género. Li muitas obras da
especialidade, com resultados altamente compensadores. De
qualquer modo, era o que eu supunha e me diziam. Não sei
qual seria a sua opinião.
Ergui os olhos para a observar. Tinha o perfil voltado para
o mar, alheia ao meu exame. Que quereria dizer? Porventura o
meu padrinho não lhe comunicara que eu visitara a villa?
Acudiu-me uma ponta de desconfiança. Evoquei a sua serenidade da véspera, após o nervosismo inicial, assim como a
facilidade com que a conversa se desenrolara, o que, ao recordá-la durante o pequeno-almoço, atribuíra à sua compostura
social e minha apatia por efeito do brande que ingerira.
Afigurava-se-me agora estranho que não tivesse feito a menor alusão
à minha visita a Florença e, sobretudo, à maneira singular como me inteirara da morte de Ambrose. Dar-se-ia o caso de o
meu padrinho haver omitido essa faceta da situação, para que
eu me incumbisse de a elucidar? Amaldiçoei-o intimamente
pelo inqualificável gesto de cobardia, embora, ao mesmo tempo, reconhecesse que o cobarde agora era eu. Na noite anterior, com o brande a encorajar-me, não sentiria rebuço em a
informar, mas presentemente o empreendimento apresentava-se-me muito mais difícil. Ela ficaria intrigada por não ter
falado antes. O momento era o mais indicado, evidentemente, para anunciar: ??Na realidade, conheço os jardins da Villa
Sangalletti. Não sabia?" No entanto, Raquel agitou as rédeas e
Salomão reatou a marcha.
- Podemos ir até ao moinho e atravessar o bosque para o
outro lado? - perguntou.
A oportunidade perdera-se e encaminhámo-nos para casa.
Enquanto avançávamos através do bosque, ela emitia comentários ocasionais acerca de árvores, a sequência de colinas ou
qualquer outra característica, mas para mim a descontração
da tarde dissipara-se, pois, de uma maneira ou de outra,
necessitava de lhe falar da minha visita a Florença. De contrário,
inteirar-se-ia por intermédio de Seecombe ou do meu padrinho,
quando comparecesse para jantar, no domingo. Tornei-me menos comunicativo à medida que nos aproximávamos de casa.
- Cansei-o - observou ela. - Tenho permanecido na sela, importante como uma rainha, enquanto você percorre quilómetros, ao estilo de um peregrino. Perdoe-me, Philip, mas a
felicidade que sinto fez-me esquecer outras realidades. Nem
imagina como estou feliz.
- Não estou cansado - repliquei -, e alegra-me que desfrutasse com o passeio.
Wellington aguardava-nos e ajudou-a a desmontar. Raquel
subiu ao quarto, a fim de repousar um pouco antes do jantar,
e eu sentei-me na biblioteca, enrugando a fronte por cima do
cachimbo e perguntando-me como demónio lhe falaria de Florença. O pior de tudo era que, se o meu padrinho a tivesse
elucidado na sua carta, competiria agora a ela abordar o
assunto em primeiro lugar, enquanto eu permaneceria descontraído,
à espera do que dissesse. Assim, a iniciativa devia partir de
mim. Mas mesmo isso careceria de importância especial se se
tratasse da mulher que eu antevira. Por que tenebrosa razão
tinha de ser tão diferente e transtornar os meus planos profundamente?
Lavei as mãos, mudei de casaco para jantar e meti na algibeira as duas cartas que Ambrose me escrevera, mas quando
entrei na sala, esperançado em vê-la sentada no sofá ou numa
poltrona, encontrei-a deserta. Seecombe, que passava naquele
momento no corredor, informou-me de que ??a senhora?, estava na biblioteca.
Agora, que não se sentava na sela acima de mim e se desembaraçara do xaile, parecia ainda mais baixa que anteriormente, mais indefesa. E também mais pálida, o que proporcionava a ilusão de que o luto era mais carregado.
- Importa-se que me sente aqui? A sala é encantadora durante o dia, mas agora, à noite, com os cortinados corridos e
as velas acesas, este aposento parece mais confortável. De
resto, era onde você e o Ambrose se instalavam sempre.
Talvez fosse aquela a minha oportunidade para dizer:
??É verdade. Não há nada como isto na villa.,? Ao invés, conservei-me calado, e a aparição dos cães naquele momento
constituiu uma diversão. Prometi a mim mesmo que falaria a
seguir ao jantar, e até lá não beberia vinho do Porto nem
brande.
À mesa, Seecombe colocou-a à minha direita e ele e John
incumbiram-se de nos servir. Raquel admirou a ??saladeira??
com rosas e os candelabros e conversava com o mordomo, enquanto ele ia velando pelas nossas necessidades e eu
transpirava com receio de que ele pronunciasse algo como ??Isso passou-se, minha senhora, quando Mister Philip se encontrava em
Itália??.
Foi com profundo alívio que vi a refeição chegar ao fim e
voltámos a ficar sós, embora isso me acercasse mais da minha
tarefa. Sentámo-nos diante do lume da biblioteca e Raquel puxou de um trabalho de renda de que se fizera acompanhar, enquanto eu observava a destreza das pequenas mãos.
- Diga-me o que o preocupa - solicitou, transcorridos
alguns minutos. - Sei que tem alguma coisa, pressinto-o.
O Ambrose observava que eu possuía um instinto animal para
antever problemas, e é o que me acontece neste momento. Na
verdade, noto-lhe algo de diferente desde esta tarde. Disse
alguma coisa que o contrariasse?
Pronto. A bola fora posta a rolar. Ao menos, proporcionava-me uma jogada fácil.
- Não disse nada que me contrariasse, mas proferiu determinadas palavras que me intrigaram - repliquei. - Pode revelar-me o conteúdo da carta que Nick Kendall lhe escreveu
para Plymouth?
- Com certeza. Agradecia a minha e explicava que ambos
conheciam os factos relacionados com a morte do Ambrose, o
Signor Rainaldi lhe enviara cópias da certidão de óbito e outros documentos e você me convidava a passar uns dias aqui,
até eu traçar planos para o futuro. Sugeria mesmo que seguisse
para Pelyn no final da minha visita, o que considerei uma gentileza especial.
- Nada mais?
- Só isso. Era uma carta muito breve.
- Não fazia a mínima alusão à minha viagem ao estrangeiro?
- Não.
- Então, compreendo. - Senti-me corar com intensidade,
enquanto ela voltava a concentrar-se no trabalho de renda.
Após uma pausa, acrescentei: - O meu padrinho cingiu-se à
verdade ao referir que ele e o pessoal da casa tomaram conhecimento da morte do Ambrose através de Rainaldi. Mas o meu
caso foi diferente. Inteirei-me em Florença, na villa, por
intermédio dos seus criados.
Ergueu a cabeça e olhou-me com curiosidade. Desta vez,
não havia vestígios de lágrimas nos olhos, nem sugestão de
malícia na expressão. O olhar era perscrutador, e pareceu-me
ler nele compaixão e censura.
- Esteve em Florença? - perguntou. - Quando, há
quanto tempo?
- Voltei há cerca de três semanas. Fui e vim pela França.
Passei apenas uma noite em Florença. A de quinze de Agosto.
- De quinze de Agosto? - Apercebi-me da nova inflexão
na voz dela, enquanto enrugava a fronte para esquadrinhar a
memória, sem dúvida. - Mas eu tinha partido para Génova
na véspera. Não é possível.
- É possível e verdade - asseverei. - Foi o que aconteceu.
O trabalho de renda deslizou-lhe das mãos, e a expressão
estranha, quase de apreensão, reapareceu nos olhos.
- Porque não me disse? Porque me deixou permanecer
aqui, nesta casa, vinte e quatro horas sem pronunciar uma
única palavra a esse respeito? Devia ter-mo revelado ontem
à noite.
- Pensava que sabia, pois pedi ao meu padrinho que a informasse na carta. De qualquer modo, agora ficou a saber.
Uma fibra de cobardia num recanto do meu ser acalentava
a esperança de que o assunto terminasse aí, mas tal não aconteceu.
- Você esteve na villa - articulou, como se falasse para
consigo. - Suponho que conversou com o Giuseppe. Ao
abrir o portão e vê-lo, deve ter pensado... - Interrompeu-se,
o olhar enevoou-se e voltou a cabeça para o lume. - Explique-me o que aconteceu, Philip.
Introduzi a mão na algibeira e os dedos pousaram nas
cartas.
- Havia muito tempo que não tinha notícias do Ambrose,
desde a Páscoa ou talvez desde o Pentecostes... Não me recordo da data exacta, mas tenho todas as cartas lá em cima.
Estava
cada vez mais preocupado, à medida que as semanas passavam.
Até que, em Julho, chegou uma. Apenas uma página. Uma série de garatujas, coisa que nem parecia dele. Mostrei-a ao meu
padrinho, o qual concordou que eu devia seguir para Florença,
como fiz um ou dois dias mais tarde. No momento da partida,
veio outra carta, muito resumida e seca. Tenho ambas aqui, no
bolso. Quer vê-las?
Não respondeu imediatamente. Achava-se de costas para a
lareira e voltava a olhar-me com curiosidade. Naqueles olhos
havia algo de compulsivo, nem arrogante nem autoritário, mas
estranhamente profundo, terno, como se dispusesse do poder
de detectar e compreender a minha relutância em continuar,
consciente do motivo, o que a levava a urgir que prosseguisse.
- De momento, não. Depois.
Transferi a minha atenção dos olhos para as mãos, unidas
na sua frente, aparentemente mais pequenas que nunca, imóveis. Afigurava-se-me mais fácil falar sem a olhar
directamente.
- Quando cheguei a Florença, aluguei uma carrozza e dirigi-me para a villa. Acudiu uma mulher a abrir a porta e perguntei pelo Ambrose. Pareceu assustada e chamou o marido, o
qual me comunicou que o meu primo tinha morrido e você
partido. A seguir, mostrou-me a residência e entrei no quarto
onde o Ambrose faleceu. Quando me retirava, ela abriu uma
arca, de onde tirou o chapéu dele, que me entregou. Era a única coisa que você se tinha esquecido de levar consigo.
Calei-me, sem desviar os olhos dela. Os dedos da mão
direita pousavam na aliança da esquerda e vi que exerciam
pressão.
- Continue - solicitou.
- Voltei para Florença. Giuseppe tinha-me dado o endereço de Rainaldi e fui procurá-lo. Pareceu surpreendido de me
ver, mas recompôs-se com prontidão. Descreveu pormenores
da doença e morte do Ambrose e forneceu-me indicações para
visitar o cemitério protestante, mas não o fiz. Quando o
interroguei sobre o seu paradeiro, Raquel, alegou que o ignorava.
Nada mais. No dia seguinte, iniciei a viagem de regresso a
casa.
Registou-se nova pausa. Os dedos aliviaram a pressão na
aliança.
- Posso ver agora as cartas?
Extraí-as da algibeira e entreguei-lhas. Volvi os olhos para
o lume e ouvi o ruído produzido pelo papel quando ela o desdobrava. Seguiu-se um longo silêncio. Por fim, perguntou:
- Só estas duas?
- Só estas duas - confirmei.
- Disse que não recebeu qualquer outra depois da Páscoa
ou do Pentecostes?
- Exacto.
Creio que as leu e releu várias vezes até as saber de cor.
Por último, devolveu-mas, ao mesmo tempo que pronunciava
em tom pausado:
- Como me deve ter odiado...
Ergui os olhos, surpreendido, e afigurou-se-me que ela conhecia todas as minhas fantasias, todos os meus sonhos, e via,
um a um, os rostos das mulheres que eu conjurara ao longo
daqueles meses. Negar resultaria inútil, e protestar absurdo.
As barreiras tinham sido baixadas. Era uma sensação singular,
como se estivesse sentado, desnudo, diante dela.
- É verdade - murmurei.
Era mais fácil, depois de dito. ??Talvez seja assim que um
católico se sente após a confissão??, reflecti. ??Um peso
retirado
dos ombros e substituído por uma impressão de vazio."
- Porque me convidou para o visitar?
- Para a acusar.
- De quê?
- Não sei bem. Talvez de desgostar o Ambrose, o que se
poderia considerar homicídio, atendendo ao estado do seu coração.
- E depois?
- Não tinha traçado planos a mais longo prazo. Queria,
sobretudo, fazê-la sofrer. Assistir ao seu sofrimento. Depois,
é
natural que a deixasse partir.
- Seria muito generoso de sua parte. Mais do que eu merecia. Mesmo assim, foi bem sucedido. Conseguiu o que queria. Vigiou-me até à saciedade.
Operava-se uma transformação qualquer nos seus olhos.
O rosto estava pálido, quase lívido, e imóvel, como até ali.
Se
eu dispusesse de poderes, ou insensibilidade, para o reduzir
a
pó com o pé, os olhos perdurariam, com as lágrimas que nunca deslizavam para as faces.
Levantei-me e cruzei a sala.
- É inútil - desabafei. - O Ambrose sempre disse que
eu daria um péssimo militar. Não posso fazer fogo a sangue-frio. Por favor, vá lá para cima ou qualquer lugar menos
aqui.
A minha mãe faleceu numa data que não consigo recordar, e
nunca vi uma mulher chorar. - Abri a porta, porém ela continuou sentada junto do lume, sem efectuar o mínimo movimento. - Vá lá para cima, prima Raquel.
Não sei como a minha voz soava - áspera ou mesmo elevada e ríspida -, mas o velho Don, deitado no chão, ergueu a
cabeça, olhou-me, como que intrigado, acabou por se espreguiçar e bocejar e voltou a estender-se diante da lareira. Ela
moveu-se finalmente. Baixou a mão e tocou na cabeça do cão.
Fechei a porta, peguei nas duas cartas e atirei-as ao lume.
- Não servem de nada, uma vez que nos recordamos do
que ele escreveu - observou ela.
- Posso esquecê-lo, se você também o fizer. O fogo tem
algo de limpo. Não subsiste nada. As cinzas não contam.
- Se você fosse um pouco mais velho ou a sua vida tivesse
sido diferente ou ainda se se tratasse de outra pessoa e não o
amasse tanto, eu podia falar-lhe destas cartas e do Ambrose.
Mas não o farei. Prefiro que me condene. A longo prazo, torna a situação mais fácil para ambos. Se me deixar ficar até
segunda-feira, partirei logo a seguir e não necessitará de
pensar
mais em mim. Embora você não os planeasse assim, a noite de
ontem e o dia de hoje foram muito felizes. Que Deus o abençoe, Philip.
Espevitei o lume com a biqueira da bota e algumas brasas
desprenderam-se.
- Não a condeno. Nada funcionou como eu tinha pensado ou planeado. Não posso continuar a odiar uma mulher que
não existe.
- Mas eu existo.
- Não é a mulher que eu detestava. A questão cinge-se a
isso.
Ela continuou a afagar a cabeça de Don, que naquele momento a ergueu e apoiou no seu joelho.
- Essa criatura que concebeu na mente assumiu forma
quando leu as cartas ou antes?
Ponderei a pergunta por uns instantes. De súbito, revelei
tudo numa torrente de palavras. Para quê guardar algo para
mim e deixá-lo apodrecer?
- Antes - declarei com firmeza. - Fiquei, de certo modo, aliviado quando as cartas chegaram. Forneceram-me um
motivo para a odiar. Até então, não tinha nada em que me basear, o que me envergonhava.
- Envergonhava, porquê?
- Porque estou convencido de que não existe nada de
mais autodestrutivo e nenhuma emoção tão desprezível como
a inveja.
- Tinha inveja?...
- Sim, agora posso dizê-lo, por muito que me custe. Desde o princípio, quando ele escreveu para anunciar o casamento. É mesmo possível que antes disso houvesse uma espécie de
sombra, não sei... Todos esperavam ver-me tão encantado co mo eles, e não era possível. Deve parecer-lhe altamente emocional e absurdo que experimentasse semelhante estado de espírito. Como uma criança mimada. No fundo, talvez fosse,
sou, isso mesmo. O caso é que nunca conheci nem estimei
ninguém como o Ambrose.
Eu começava a pensar em voz alta, sem me preocupar com
o que ela considerasse a meu respeito. Traduzia coisas por palavras que até então não admitira a mim próprio.
- Não seria também a situação dele? - observou.
- Não compreendo.
Retirou a mão da cabeça de Don e, pousando o queixo nas
mãos abertas e inclinadas para cima, com os cotovelos nos
joelhos, fixou o olhar no lume.
- Tem apenas vinte e quatro anos, Philip, e toda a vida à
sua frente, provavelmente muitos anos de felicidades, casado
sem dúvida, com a esposa amada e filhos. O seu afecto pelo
Ambrose nunca diminuirá, mas recuará para o lugar que lhe
compete. O amor de qualquer filho por qualquer pai. Não era
esse o caso dele. O matrimónio surgiu demasiado tarde.
Pousei um joelho no chão diante da lareira, para acender o
cachimbo. Desta vez, não pedi autorização para fumar, por saber que não se importava.
- Porquê demasiado tarde? - inquiri.
- Tinha quarenta e três anos, há apenas dois, quando chegou a Florença e nos vimos pela primeira vez. Você conhecia o
seu aspecto, o modo de falar, as maneiras, o sorriso.
Representava a sua vida desde a infância. Mas não podia saber o efeito
que exerceu numa mulher cuja vida não fora feliz e conhecera
homens... muito diferentes.
Conservei-me calado, embora julgasse compreender o sentido das suas palavras.
- Não sei porque se interessou por mim, mas a verdade é
que isso aconteceu. Essas coisas nunca se podem explicar:
acontecem. A razão pela qual esse homem veio a amar esta
mulher, que estranha reacção química no nosso sangue nos
atraiu, torna-se impossível de determinar. Para mim, só,
ansiosa e sobrevivente de numerosos naufrágios emocionais, surgiu
como um salvador, a resposta a uma prece. Nunca se me deparara uma pessoa forte como ele e, ao mesmo tempo, terna,
desprovida de presunção pessoal. Foi uma revelação. Sei o que
constituiu para mim. Mas eu para ele...
Fez uma pausa e enrugou a fronte, sem desviar os olhos do
lume. Os dedos voltaram a fazer rodar a aliança na mão esquerda.
- O Ambrose era como alguém que acorda subitamente
de um sono profundo e repara pela primeira vez em todas as
coisas belas do mundo. E nas tristes, também. Na fome e na
sede. Tudo aquilo em que nunca pensara nem imaginara que
existisse encontrava-se na sua frente e concentrava-se e
ampliava-se numa mulher, que quis o acaso, ou o destino, chame-lhe
o que quiser, que fosse eu. Rainaldi (que ele detestava,
diga-se
a talhe de foice) afirmou que despertara para mim como algumas pessoas para a religião. Tornou-se obcecado, do mesmo
modo. Mas quem mergulha na religião pode entrar para um
mosteiro e orar todo o dia perante o altar da Virgem Maria,
imagem de barro ou pedra imutável. As mulheres não são as sim, Philip. Os seus estados de espírito variam com os dias
e
as noites, às vezes até com as horas, como os dos homens.
So mos humanos, o que constitui a nossa imperfeição.
Não entendi a passagem sobre a religião. Apenas me ocorria o velho Isaías, da Igreja de St. Blazey, que se tornara
meto dista e passeava pelos campos, descalço, a predicar.
Invocava
Jeová e proclamava que ele e todos nós éramos míseros pecadores aos olhos do Senhor e devíamos acudir às portas de uma
nova Jerusalém. Na realidade, não vislumbrava como esse estado de coisas se aplicava a Ambrose. No entanto, os católicos
eram diferentes, sem dúvida. Raquel devia querer dizer que ele
a encarara como uma imagem gravada nos Dez Mandamentos.
Não te curvarás perante eles, nem os adorarás.
- Quer dizer que ele esperava excessivamente de si? -- perguntei. - Colocou-a numa espécie de pedestal?
- Não. Eu teria acolhido com satisfação um pedestal, de pois da minha vida rude. Uma auréola pode ser uma coisa
muito agradável, desde que consigamos tirá-la, de vez em
quando, para nos tornarmos humanos.
- Então, que se passou?
Suspirou e as mãos deslizaram para os lados do corpo. Parecia repentinamente extenuada. Reclinou-se na cadeira e,
pousando a cabeça no espaldar, fechou os olhos.
- O facto de encontrar a religião nem sempre melhora
uma pessoa. Assim, despertar para o mundo não serviu de nada ao Ambrose. A sua natureza modificou-se.
A voz também parecia cansada e estranhamente átona. Era
possível que, se eu falara no confessionário, ela igualmente o
.fizera. Continuou reclinada no espaldar e levou a mão à fronte, para pousar os dedos nas pálpebras.
- Modificou-se? - estranhei. - Como se lhe alterou a
natureza?
- Os médicos explicaram-me mais tarde que se deveu à
doença, não o pôde evitar, e qualidades adormecidas até então
tinham acabado por aflorar, através da dor e do medo. Mas
nunca terei a certeza do que na verdade aconteceu. Nunca me
certificarei do que necessitava de ter sucedido. Algo em mim
estimulou essas qualidades. A minha aparição na sua vida representou o êxtase por um breve momento e depois a catástrofe. Você teve razão ao odiar-me. Se o Ambrose não visitasse a
Itália, talvez continuasse a viver aqui consigo, neste
momento.
Não morreria naquela altura.
Sentia-me cada vez mais envergonhado, embaraçado, sem
saber que dizer.
- Podia ter adoecido igualmente - aventurei, como se
pretendesse acudir em seu auxílio. - O peso da culpa repousaria agora nos meus ombros e não nos seus.
Retirou a mão da fronte e, sem mover a cabeça, olhou-me
e declarou:
- Ele amava-o muito. Você podia ter sido o seu filho, tal
o orgulho que lhe consagrava. Era sempre o meu Philip faria
assim, o meu rapaz faria assado. Se teve ciúmes de mim nestes
últimos dezoito meses, estamos quites. Deus sabe como eu
dispensaria de bom agrado as alusões constantes a seu
respeito.
Observei-a por um momento e sorri.
- Também conjurou imagens?
- Quase sem interrupção. ??Aquele menino mimado, sempre a escrever-lhe cartas de que o Ambrose me lê passagens,
mas nunca mostra,?, pensava com frequência. ??Só tem virtudes
e nenhum defeito. O menino que o compreende, quando eu
não consigo. Que possui três quartos do seu coração e todas
as atenções, enquanto para mim ficam um quarto e a parte
pior do seu carácter.?, Oh, Philip... - Interrompeu-se e
conseguiu tentar um sorriso. - Você fala de inveja, ciúme. A inveja
de um homem é como a da criança, caprichosa e insensata,
sem profundidade. A de uma mulher é adulta, portanto muito
diferente. - Ajeitou a posição da almofada sob a cabeça e empertigou-se. - Acho que já falei demasiado, por uma noite. -- Inclinou-se para a frente e recolheu o trabalho de renda que
deslizara para o chão.
- Não estou cansado - repliquei. - Podia continuar
aqui horas e horas. Não a falar, entenda-se, mas a escutá-la.
- Ainda resta o dia de amanhã.
- Porquê só amanhã?
- Porque parto na segunda-feira. Vim para passar apenas
o fim-de-semana. O seu padrinho convidou-me para uma estada em Pelyn.
Parecia-me absurdo, e a todos os títulos injustificado, que
se transferisse de poiso tão cedo.
- Não necessita de se mudar para lá, quando acaba apenas
de chegar - objectei. - Dispõe de muito tempo para visitar
Pelyn. Ainda nem viu metade da propriedade. Nem quero
imaginar o que o pessoal doméstico ou os caseiros pensariam.
Ficavam, pelo menos, melindrados.
- Acha?
- De resto, convém não esquecer o portador das plantas e
rebentos proveniente de Plymouth. Tem de discutir o assunto
com o Tamlyn. E há as coisas do Ambrose para examinar e separar.
- Julgava que era capaz de se encarregar disso sozinho.
- Para quê, se o podemos fazer ambos?
Levantei-me e estendi os braços acima da cabeça. Em seguida, toquei em Don com a biqueira da bota.
- Acorda. São horas de parares de roncar e ires para o canil com os outros. - Espreguiçou-se igualmente e emitiu uma
espécie de grunhido. - Madraço. - Volvi os olhos para Raquel e vi que me observava com uma expressão estranha, quase
como se, através de mim, olhasse outra pessoa. - Que se passa? - perguntei.
- Nada. Absolutamente nada. Pode procurar uma vela e
alumiar-me até ao quarto?
- Está bem. Levarei depois o Don ao canil.
Os castiçais encontravam-se à nossa espera em cima da mesa junto da porta. Raquel pegou num e eu acendi a vela.
O átrio achava-se às escuras, mas em cima, no patamar, Seecombe deixara luz para o respectivo corredor.
- Isto basta - declarou ela. - Posso seguir para o quarto
sozinha. - Deteve-se por um momento no primeiro degrau
da escada, o rosto na sombra. Uma das mãos segurava o castiçal e a outra o vestido. - Já não me odeia?
- Não. Não era a você, como lhe expliquei, mas outra
mulher.
- Tem a certeza de que era outra?
- Absoluta.
- Então, boa noite. E durma bem.
Fez menção de subir, mas pousei-lhe a mão no braço e retive-a.
- Um momento - solicitei. - É a minha vez de fazer
uma pergunta.
- De que se trata?
- Ainda tem ciúmes de mim, ou também se tratava de outro homem e nunca de mim?
Soltou uma risada e estendeu-me a mão, e, como se encontrava a um nível mais elevado do que eu no degrau, dir-se-ia
existir como que uma graciosidade nova nela de que até então
não me apercebera. Os olhos pareciam maiores ao clarão incerto da vela.
- Aquele menino horrível, mimado e presunçoso? - redarguiu. - Dissipou-se ontem, no instante em que você entrou no boudoir da tia Phoebe. - De súbito, inclinou-se e
beijou-me na face. - O primeiro que lhe dou e, se não lhe
agradou, finja que não fui eu, mas a outra mulher.
Recomeçou a subir a escada, enquanto o clarão da vela
produzia uma sombra, obscura e distante, na parede.
Capítulo décimo primeiro
Observávamos uma rotina rigorosa aos domingos. O pequeno-almoço era servido mais tarde, às nove, e, às dez e um
quarto, a carruagem levava-me, com Ambrose, à igreja, enquanto o pessoal doméstico nos seguia no breque. Terminada
a missa, verificava-se o regresso para almoçar, igualmente
mais
tarde, à uma. Isto no caso dos empregados, porque a nossa
refeição ocorria às quatro, com a presença do vigário e Mrs.
Pascoe, possivelmente uma ou duas das suas filhas solteiras e,
em
geral, o meu padrinho e Louise. Desde que Ambrose se ausentara, eu não tornara a utilizar a carruagem e preferira o
Cigano, o que, segundo suspeitava, suscitava alguns comentários
críticos, embora não compreendesse porquê.
Naquele domingo, em honra da minha visitante, transmiti
instruções para que a carruagem fosse preparada como anteriormente, e Raquel, preparada para o evento por Seecombe,
quando lhe levou o pequeno-almoço aos aposentos, desceu ao
átrio às dez em ponto. Assolava-me uma espécie de descontração desde a noite anterior e afigurava-se-me, ao contemplá-la, que, de futuro, conseguiria dizer-lhe o que quisesse.
Nada me conteria - ansiedade, ressentimento ou mesmo a
mera cortesia.
- Uma palavra de advertência - segredei-lhe, depois de
nos cumprimentarmos. - Na igreja, todos os olhos estarão
postos em si. Os próprios retardatários, que por vezes aproveitam o pretexto para ficar na cama, serão hoje pontuais.
Permanecerão de pé nas naves laterais, à espreita da ocasião
especial da sua aparição.
- Aterroriza-me. O melhor é eu não ir.
- Isso representaria uma catástrofe, pela qual nenhum dos
dois seria jamais perdoado.
Olhou-me com ar solene por uns instantes.
- Não sei bem como devo comportar-me - admitiu.
- Fui educada segundo a religião católica.
- Guarde essa revelação para si. Os papistas, neste sector
do mundo, só servem para arder no inferno. Pelo menos, é o
que me constou. Preste muita atenção a todos os seus movimentos. Observe os meus e imite-os.
Naquele momento, a carruagem apresentou-se à entrada.
Wellington, devidamente uniformizado, com o moço de estrebaria ao lado, estava inchado de importância como uma pomba-papo-de-vento. Seecombe, por seu turno, de fato domingueiro, postava-se diante da porta com não inferior dignidade.
Tratava-se da ocasião de uma vida inteira.
Ajudei a minha prima Raquel a subir para a carruagem e
instalei-me a seu lado. Ela tinha um manto preto sobre os ombros, e o véu do chapéu encobria-lhe o rosto.
- As pessoas desejarão ver-lhe a cara - observei.
- Então, vão ter de se contentar com o desejo.
- Não está a compreender - insisti. - Nunca tinha
acontecido nada disto nas suas vidas. Pelo menos, há bem uns
trinta anos. Os mais velhos recordam-se de minha tia, suponho, e de minha mãe, mas para os mais novos nunca houve
uma Mistress Ashley que frequentasse a igreja. Aliás, você deve elucidar-lhes a ignorância. Sabem que vem daquilo a que
chamam terras remotas. Podem até imaginar que os Italianos
são negros.
- Fale mais baixo - murmurou. - Noto pela rigidez das
costas do Wellington que está a ouvir.
- Não tenho nada que falar mais baixo, porque o assunto
se reveste de importância, e gravidade. Sei como os rumores se
espalham. Toda a gente se retirará para o seu almoço de domingo a abanar a cabeça e dizer que Mistress Ashley é de raça
negra.
- Levantarei o véu na igreja, mas não antes, quando me
ajoelhar - transigiu. - Que olhem então, se quiserem, embora me pareça que não o deviam fazer e concentrar antes a atenção no livro de orações.
- Uma vedação elevada rodeia os bancos, com cortinas.
Uma vez ajoelhada, ficará oculta dos restantes fiéis. Até se
pode jogar o berlinde, se se quiser. Era o que eu fazia em
criança.
- Conheço a sua meninice praticamente de cor. Sei que o
Ambrose dispensou a ama quando você tinha três anos. A idade com que começou a usar calções de rapaz. A maneira
monstruosa como aprendeu o alfabeto. Por conseguinte, não
me admira que jogasse o berlinde na igreja. Surpreende-me é
que não fizesse coisas piores.
- E fiz, uma ocasião. Levei ratos brancos na algibeira, que
se puseram a correr debaixo do banco. Provocaram o terror a
uma senhora atrás de nós. Desmaiou e tiveram de a levar para
o ar livre.
- O Ambrose não lhe aplicou o correctivo apropriado?
- Nem pensar. Foi ele que os largou no chão.
Raquel apontou para as costas de Wellington. Os ombros
assumiam uma posição rígida e as orelhas pareciam ao rubro.
- Hoje, vai ter de se portar bem, de contrário abandono a
igreja - ameaçou ela.
- Se o fizer, pensarão que viu um rato, e o meu padrinho
e a Louise acudirão em seu auxílio. Com a breca! - exclamei
,
ao mesmo tempo que desferia uma palmada no joelho, consternado.
- Que foi?
- Passou-me por completo. Prometi deslocar-me de cavalo a Pelyn, ontem, para falar com a Louise, e esqueci-me.
É capaz de ter ficado toda a tarde à minha espera.
- Não foi muito galante de sua parte. Espero que o chame severamente à pedra.
- Atribuir-lhe-ei a culpa a si, o que corresponde inteiramente à verdade. Explicarei que me pediu que a acompanhasse
na visita às terras de Barton.
- Não lho teria pedido se soubesse que devia estar noutro
lugar. Porque não me disse?
- Porque me esqueci totalmente.
- No lugar dela, eu melindrava-me ainda mais com uma
desculpa desse género, imprópria para apresentar a uma mulher.
- A Louise não é uma mulher, mas uma moça mais jovem
do que eu. Conheço-a desde muito miúda.
- Isso não é razão. Possui sentimentos como qualquer
outra pessoa.
- Bem, há-de passar-lhe. Vai sentar-se a meu lado à mesa
e hei-de felicitá-la pela forma como arranjou as flores.
- Quais flores?
- As de casa. Do seu boudoir e do quarto. Deslocou-se lá
expressamente para isso.
- Que gentil...
- Não confiava na perícia do Seecombe para o efeito.
- Penso que é uma atitude que se justifica. Revelou grande intuição e gosto. As minhas preferidas são as do jarrão na
prateleira da chaminé do boudoir e os crocos-de-outono junto
da janela.
- Confesso que não reparei nessas. Mas de qualquer modo hei-de felicitá-la, e espero que não me peça que descreva
os
arranjos.
Entreolhámo-nos e rimos, e vi-lhe os olhos sorrir sob o
véu. Porém, meneou a cabeça.
Descemos a encosta íngreme, percorremos a alameda e desembocámos na aldeia, em direcção à igreja. Como eu previra,
havia uma concorrência pouco vulgar. Eu conhecia a maior
parte das pessoas presentes, mas muitas tinham vindo atraídas
apenas pela curiosidade. Verificou-se uma espécie de pressão
entre elas no momento em que a carruagem parou e nos apeámos. Tirei o chapéu e ofereci o braço à minha prima Raquel,
como vira o meu padrinho fazer numerosas vezes com Louise.
Percorremos o caminho de acesso ao templo, sob os olhares
ávidos da assistência. Eu receara sentir-me embaraçado e a representar um papel impróprio de mim, mas passava-se exactamente o contrário. Invadia-me uma confiança e orgulho bem
firmes, a par de uma secreta satisfação. Fixava o olhar na minha frente, sem o desviar para a direita nem para a esquerda,
e,
à medida que passávamos, os homens descobriam-se e as mulheres efectuavam uma ligeira vénia. Não me recordava de os
ver proceder assim para comigo uma única vez. Tratava-se, no
fundo, de uma ocasião invulgar.
Quando transpusemos a entrada, os sinos repicavam e os
fiéis já sentados voltaram-se para nos observar. Registou-se
um arrastar de pés entre os homens e um ruge-ruge por parte
das mulheres. Avançámos pelo corredor central e ocupámos os
nossos lugares à frente dos Kendall. Notei que o meu padrinho franzia o sobrolho, com uma expressão pensativa no rosto. Decerto perguntava a si próprio como me comportara nas
últimas quarenta e oito horas. A boa educação impedia-o de
nos olhar directamente. Louise sentava-se a seu lado, empertigada e quase rígida. Exibia um ar altivo, o que me levou a depreender que estava ofendida comigo. Todavia, quando me
desviei para que Raquel me precedesse, a curiosidade dominou-a. Ergueu os olhos para a minha prima e em seguida fitou-me, enquanto arqueava as sobrancelhas, como se formulasse uma pergunta. Fingi que não me apercebia e ocupei o
meu lugar. A congregação ajoelhou em prece.
A presença de uma mulher a meu lado na igreja produzia-me uma sensação singular. A minha memória retrocedeu até à
infância, quando Ambrose me levou consigo pela primeira vez
e tive de me pôr de pé num banco para olhar em volta. Eu
imitava-o, com o livro de orações nas mãos, mas na maioria
das vezes ao contrário, e quando chegava o momento de murmurar os responsos, ecoava os dele sem a mínima ideia do seu
significado. A medida que crescia, contemplava a assistência
já
sem o auxílio do banco e, mais tarde, em Harrow, sentava-me
de braços cruzados sobre o peito, como o meu primo, e passava pelas brasas se o sermão se alongava. Agora que atingira a
fase adulta, a ida à igreja tornara-se num período de
reflexão.
Não, lamento admiti-lo, acerca dos meus defeitos ou omissões, mas dos meus planos para a semana seguinte, o que se
devia fazer nos campos ou nos bosques, o que eu tinha de dizer ao sobrinho de Seecombe na casa de pesca da baía, que ordem esquecida havia para transmitir a Tamlyn. Conservava-me
sentado, só, fechado em mim próprio, sem nada ou alguém
para me distrair. Entoava os salmos e proferia os responsos em
obediência a um hábito antigo. Naquele domingo, porém, era
diferente. Eu estava consciente dela a meu lado constantemente. As minhas preocupações quanto à sua maneira de se comportar careciam de fundamento. Dir-se-ia que frequentava o
serviço religioso da Igreja de Inglaterra todos os domingos.
Mantinha-se imóvel, olhos fixos gravemente no vigário, e
quando ajoelhava fazia-o por completo e não se conservava
sentada parcialmente no banco, como Ambrose e eu costumávamos fazer. Tão-pouco voltava a cabeça para um lado e para
o outro, à semelhança de Mrs. Pascoe e respectivas filhas, no
sector lateral da igreja, onde o sacerdote não as podia ver.
Chegado o momento de entoar os hinos, Raquel levantou o
véu e vi-lhe os lábios acompanhar as palavras, embora não as
ouvisse. Voltou a baixá-lo, ao sentarmo-nos para escutar o
sermão.
Perguntei-me quem teria sido a última mulher a sentar-se
no sector reservado aos Ashley. A tia Phoebe, possivelmente, a
suspirar pelo seu cura, ou a esposa do tio Philip, mãe de Ambrose, que eu nunca vira. Talvez o meu pai tivesse estado ali,
antes de partir para combater contra os Franceses e perder a
vida, e a minha mãe, jovem e delicada, que lhe sobrevivera
apenas cinco meses, segundo Ambrose me revelara. Na verdade, eu nunca pensara muito neles ou sentira a sua falta, pois
o
meu primo exercera as funções de ambos. Contudo, agora, ao
observar a minha prima Raquel, detive-me a evocar minha
mãe. Teria ajoelhado ali, ao lado de meu pai, as mãos unidas
no regaço, para escutar o sermão? E, depois, regressaria a
casa
para me erguer do berço. Enquanto a voz de Mr. Pascoe ecoava na sala, eu perguntava-me o que teria sentido, ou acontecido, quando me achava nos braços dela. Ter-me-ia acariciado a
cabeça e beijado a face, para em seguida, com um sorriso de
ternura, voltar a depositar-me no berço. Lamentei subitamente
a minha memória não remontar até tão longe. Porque seria
que as recordações não podiam retroceder no tempo para além
de um certo limite? Eu era um garoto, que corria no encalço
de Ambrose e lhe pedia que esperasse por mim. Nada antes
disso. Absolutamente nada...
- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
As palavras do vigário fizeram-me pôr de pé. Não escutara
uma única sílaba do seu sermão. E também não traçara planos
para a semana seguinte. Limitara-me a permanecer sentado,
entregue a divagações e a observar a minha prima Raquel.
- Portou-se muito bem - murmurei, pegando no chapéu
e tocando-lhe no braço -, mas a verdadeira provação vai ser
agora.
- E a sua também - replicou no mesmo tom. - Tem de
justificar o não cumprimento da promessa.
Abandonámos a igreja, e cá fora ao sol aguardava-nos uma
pequena multidão de pessoal da propriedade, conhecidos e
amigos, entre os quais a esposa do vigário, Mrs. Pascoe, com
as filhas, assim como o meu padrinho e Louise, que se aproximaram, um a um, para as apresentações, quase como se estivéssemos na Corte. Raquel levantou o véu e tomei mentalmente nota para lhe dirigir um comentário sarcástico sobre o
facto,
quando nos encontrássemos sós.
Enquanto percorríamos o caminho em direcção às carruagens que nos aguardavam, ela propôs-me, diante dos outros,
para que eu não pudesse objectar (e verifiquei pela expressão
do olhar e inflexão da voz que o fazia propositadamente):
- Não prefere ter a companhia de Miss Kendall na sua
carruagem, Philip, e eu seguirei na de Mister Kendall?
- Se assim o deseja... - assenti.
- Parece-me o mais apropriado - volveu, com um sorriso ao meu padrinho, o qual, com uma vénia, lhe ofereceu o
braço.
Voltaram-se, como que de comum acordo para a carruagem dos Kendall, pelo que não me restou qualquer alternativa
senão subir para a minha com Louise. Sentia-me como um colegial que acabassem de esbofetear. Wellington fez estalar o
chicote no ar e partimos.
- Queria pedir-te desculpa daquilo de ontem, Louise -- comecei -, mas tive toda a tarde ocupada. A Raquel quis que
a acompanhasse numa visita às terras de Barton, pelo que não
pude esquivar-me. Não houve tempo para te prevenir, de contrário mandava um dos rapazes levar-te um bilhete.
- Não tens nada que pedir desculpa. Estive à tua espera
mais de duas horas, mas não tem importância. Como fazia um
tempo estupendo, aproveitei para encher uma cesta de groselhas.
- Foi uma coincidência deplorável. Acredita que lamento
profundamente.
- Calculei que te retivera algo do género e congratulo-me
por não ter sido nada de grave. Conhecedora do teu estado de
espírito acerca dessa visita, receei que cometesses algum acto
violento, tivessem um desentendimento mais azedo, e ela viesse bater-nos à porta. Que se passou, afinal? Conseguiste de
facto sobreviver até agora sem uma confrontação? Conta-me
tudo.
Puxei a aba do chapéu para os olhos e cruzei os braços sobre o peito.
- Que queres dizer com ??tudo,??
- Tintim por tintim. O que lhe disseste, como reagiu, etc.
Mostrou-se embaraçada com as tuas palavras, ou não deixou
transparecer o menor sinal de culpa?
Ela exprimia-se em voz baixa e Wellington não tinha possibilidade de ouvir, apesar do que me sentia irritado e de modo
algum bem-humorado. Escolhera um lugar e altura bizarros
para uma conversa de semelhante natureza e, de qualquer modo, porque se lhe teria metido na cabeça tentar catequizar-me?
- Ainda não dispusemos de muito tempo para trocar impressões - aleguei. - Na primeira noite, estava cansada e foi-se deitar cedo. Ontem, deu-lhe para visitar a propriedade. Os
jardins de manhã e as terras de Barton à tarde.
- Nesse caso, ainda não tiveram uma discussão a sério?
- Depende do que entendes por ??a sério,?. Só posso dizer
que é uma pessoa muito diferente do que eu esperava. Aliás,
tu própria o terás verificado nos breves momentos que esteve
na tua frente.
Conservou-se silenciosa por uns instantes. Abstendo-se de
se reclinar no banco como eu, mantinha-se empertigada, as
mãos enfiadas no regalo.
- Ela é muito bonita - acabou por declarar.
Retirei os pés do banco em frente e voltei a cabeça para a
contemplar com perplexidade.
- Bonita? - ecoei. - Deves estar louca.
- De modo algum. Pergunta ao meu pai. Não reparaste
que as pessoas arregalaram os olhos quando ela levantou o
véu? Só um homem tão cego em relação às mulheres como tu
não se aperceberia.
- Que monumental disparate! Talvez tenha uns olhos um
pouco fora do vulgar, mas quanto ao resto não sai da banalidade. A pessoa mais banal que conheci até hoje, para ser mais
preciso. Posso dizer-lhe o que quiser, abordar qualquer assunto, sem necessidade de adoptar uma maneira especial de me
comportar na sua frente, e não sinto o menor embaraço em fumar de cachimbo na sua presença.
- Pareceu-me teres dito que ainda não dispuseras de tempo para uma conversa mais demorada.
- Não exageres. É claro que não nos mantivemos sentados durante o jantar e quando percorremos a propriedade. Por
outro lado, acho natural que as pessoas a olhem com curiosidade. Não esqueças que é Mistress Ashley.
- Talvez tenhas razão, mas só em parte. De qualquer modo, mulher vulgar ou não, parece que te causou uma impressão profunda. E de meia-idade, claro. Aparenta uns trinta e
cinco anos. Ou acha-la mais jovem?
- Não faço a menor ideia, nem me interessa. Nunca me
preocupei com essas coisas. Pela parte que me toca, até pode
ter noventa.
- Deixa-te de patetices. Aos noventa anos, as mulheres
não têm olhos assim, nem aquela frescura de pele. Além disso,
traja com gosto. Aquele vestido preto é elegantíssimo, assim
como o manto. O luto não a desfavorece nada.
- Falas como Mistress Pascoe. Nunca te tinha ouvido dizer imbecilidades dessas.
- Nem eu a ti. Estamos, portanto, quites. Que modificação em vinte e quatro horas! Enfim, ao menos, uma pessoa vai
ficar aliviada. O meu pai, que receava derramamento de sangue, depois da vossa última conversa.
Congratulei-me com a aparição da longa e íngreme encosta
da colina, pretexto para me apear e percorrê-la a pé, com o
moço de estrebaria, a fim de aliviar o esforço dos cavalos.
Que
atitude mais extraordinária a assumida por Louise! Em vez de
se mostrar aliviada com o facto de a visita da minha prima Raquel se desenrolar de modo satisfatório, parecia contrariada,
quase irritada, o que se me afigurava uma maneira singular de
revelar amizade. Atingido o topo da colina, tornei a subir
para
a carruagem e não voltámos a trocar uma única palavra até ao
final do percurso. Era ridículo, mas se ela não tomava a
iniciativa de quebrar o silêncio, eu ainda menos o faria. Não pude
deixar de ponderar que o trajecto no sentido contrário se desenrolara em clima muito mais agradável.
Ao invés, os ocupantes da segunda carruagem tinham viajado em ambiente mais cordial, a avaliar pelo seu aspecto.
Com efeito, Raquel e Nick Kendall apearam-se sorridentes e a
conversar como velhos amigos. Consegui detectar as expressões ??deplorável" e ??o país não admitirá uma coisa dessas??,
o
que me permitiu concluir que o meu padrinho abordava o seu
tópico favorito: o governo e a oposição.
- Fizeram boa viagem? - perguntou a minha prima, dirigindo-me uma mirada levemente perscrutadora, e eu quase juraria que deduziu das nossas expressões a natureza do diálogo
que traváramos.
- Perfeita, obrigada - replicou Louise, desviando-se para
que Raquel nos precedesse.
No entanto, esta última segurou-lhe o braço e proferiu:
- Suba ao meu quarto, para tirar o chapéu e despir o casaco. Quero agradecer-lhe os belos arranjos de flores.
O meu padrinho e eu mal tivéramos tempo para lavar as
mãos e trocar meia dúzia de palavras, quando nos vimos rodeados por toda a família Pascoe, e competiu-me a discutível
honra de escoltar o vigário e filhas nos jardins. Ele era uma
pessoa inofensiva, mas eu prescindiria sem relutância da presença das raparigas. Quanto à esposa, fora juntar-se às outras
mulheres, como um perdigueiro no encalço da presa. Nunca
vira o quarto azul sem as coberturas dos móveis... Por seu
turno, as filhas não se cansavam de tecer encómios à minha prima
Raquel e considerá-la bonita, à semelhança de Louise. Acolhi,
pois, com satisfação a oportunidade para dizer que a achava
a
todos os títulos banal, o que suscitou exclamações de
protesto.
- De modo algum - articulou Mr. Pascoe, sacudindo
uma hortênsia com a bengala -, de modo algum. Talvez não
me aventure ao ponto de a julgar excepcionalmente bonita.
??Feminina?? parece-me o termo mais adequado.
- Mas decerto não seria de esperar que Mistress Ashley
fosse outra coisa - interpôs uma das filhas.
- Nem fazes uma ideia da quantidade de mulheres que carecem dessa qualidade - foi a resposta.
Pensei em Mrs. Pascoe, com a sua cabeça equina, e apressei-me a indicar as jovens palmeiras que Ambrose trouxera do
Egipto, que eles decerto já haviam visto uma centena de vezes,
desviando assim, com tacto segundo me pareceu, o rumo da
conversa.
Quando voltámos para dentro e penetrámos na sala de estar, deparou-se-nos Mrs. Pascoe a informar Raquel, em voz
particularmente alta, como era seu hábito, do problema grave
provocado à sua ajudante de cozinha pelo filho do jardineiro.
- O que mais me custa a compreender é onde o fizeram -- confessava no momento em que entrámos. - Ela dorme no
quarto da cozinheira e, tanto quanto sabemos, nunca se ausenta de casa.
- Não seria na cave? - sugeriu a minha prima.
À nossa aparição, o diálogo foi prontamente prosseguido
em tom confidencial. Desde que Ambrose se ausentara, dois
anos atrás, eu não conhecera um domingo que passasse tão rapidamente. E mesmo quando se achava presente por vezes arrastava-se penosamente. Como antipatizava com Mrs. Pascoe,
as filhas desta lhe eram meramente indiferentes e suportava
Louise por ser filha do seu mais velho amigo, sempre providenciara para desfrutar da companhia do vigário e do meu padrinho, altura em que nós os quatro nos podíamos descontrair. Quando as mulheres os acompanhavam, as horas
pareciam dias. Agora, tudo era diferente.
Quando o jantar foi servido, com as iguarias na mesa e as
pratas areadas, como num banquete, instalei-me à cabeceira,
lugar que Ambrose sempre ocupava, com Raquel na extremidade oposta. Esta distribuição proporcionava-me Mrs. Pascoe
como vizinha, mas, por uma vez, não lhe servi de alvo para as
habituais abordagens irritantes. A maior parte do tempo, o seu
rosto alongado voltava-se para o outro lado da mesa - ria,
comia e até se esquecia de dirigir miradas aceradas ao marido,
o vigário, o qual, fora da casca possivelmente pela primeira
vez
na vida, corado, de olhar ardente, houve por bem pôr-se a citar poetas célebres. Toda a família Pascoe florescia como
rosas,
e eu nunca vira o meu padrinho tão bem-disposto.
Somente Louise se mostrava pouco comunicativa e meditativa. Eu esforçava-me por animá-la, sem resultado. Sentava-se
rigidamente à minha esquerda, debicava a comida com movimentos automáticos e mantinha uma expressão fixa, como se
tivesse tragado um berlinde. Enfim, se optara por amuar, que
o fizesse sozinha. Achava-me demasiado bem-humorado para
perder tempo com ela. Entretinha-me a escutar e a observar
Raquel, empenhada em encorajar o vigário com a sua poesia.
??E o jantar de domingo mais fantástico em que participei, e
daria tudo para que Ambrose estivesse presente", admitia para
comigo. Quando acabámos de comer e foi servido o vinho do
Porto, fiquei sem saber se devia levantar-me, como habitualmente, para abrir a porta, ou conceder a iniciativa a Raquel,
na
sua qualidade de anfitriã. Registou-se uma pausa nas conversas. De súbito, ela olhou-me e sorriu. Retribuí-lhe o sorriso
em resposta à interrogação sem palavras. Pareceu estabelecer-se um elo de comunicação momentâneo, curioso, estranho,
uma sensação nova para mim.
Por fim, o meu padrinho perguntou, na usual voz rouca:
- Diga-me, Mistress Ashley, o Philip não lhe recorda o
Ambrose?
Seguiu-se breve silêncio, até que ela pousou o guardanapo
na mesa e declarou:
- A tal ponto que me pergunto se existe alguma diferença.
Levantou-se, as outras mulheres imitaram-na e eu cruzei a
sala de jantar para abrir a porta. Mas quando elas saíram e
regressei ao meu lugar, a sensação persistia.
Capítulo décimo segundo
Retiraram-se por volta das seis da tarde, porque o vigário
ainda tinha de ir presidir às vésperas noutra paróquia. Ouvi
Mrs. Pascoe convidar Raquel para ir passar uma tarde com ela
durante a semana, e cada uma das filhas invocou razões para
usufruir de idênticos direitos. Uma queria inteirar-se da sua
opinião sobre determinada aguarela, outra pretendia iniciar
uma colcha e desejava aconselhar-se acerca da combinação de
tons e a terceira, que costumava visitar uma anciã inválida na
aldeia, insistia em que a acompanhasse, pois a mulher ansiava
por conhecê-la.
- Na verdade - disse Mrs. Pascoe, quando cruzávamos o
átrio em direcção à porta principal -, há tantas pessoas desejosas de a conhecer, Mistress Ashley, que pode contar com
compromissos nas próximas quatro semanas.
- A nossa residência em Pelyn está idealmente situada para efectuar visitas - acudiu o meu padrinho. - Melhor do
que esta. E penso que teremos o prazer da sua companhia
dentro de um ou dois dias.
Volveu os olhos para mim e apressei-me a sufocar a ideia à
nascença, antes que se estabelecesse um compromisso irreversível.
- De modo algum. A prima Raquel continuará aqui. Antes de se envolver em quaisquer convites do exterior, tem toda
a propriedade para visitar. Começamos amanhã, tomando chá
nas terras de Barton. As restantes herdades figurarão a seguir
no programa. Haveria susceptibilidades melindradas se ela não
fosse saudar cada um dos rendeiros.
Vi Louise olhar-me com estranheza, mas não lhe prestei
atenção.
- Sim, tens razão - concordou o meu padrinho, também
surpreendido. - É o mais apropriado. Tencionava propor-me
para a escoltar nessa digressão, mas se desejas fazê-lo retiro
a
candidatura. - Virou-se de novo para Raquel. - Se, por
qualquer razão, se sentir desconfortável aqui (o Philip
decerto
me perdoará por dizer isto, mas há muitos anos que uma mulher não pisava o chão desta casa, e o atendimento pode, por
conseguinte, deixar um pouco a desejar, por falta de prática)
ou preferir companhia feminina, estou certo de que a minha
filha a receberá com prazer.
- Temos um quarto de hóspedes, no vicariato - anunciou Mrs. Pascoe. - Se, em qualquer altura, se sentir só, Mistress Ashley, lembre-se de que se encontra à sua disposição.
- Com certeza, com certeza - apoiou o vigário.
- São todos muito amáveis e inexcedivelmente generosos -- replicou Raquel. - Voltaremos a falar disso quando tiver
cumprido o meu dever aqui. Para já, considerem-me profundamente grata.
Seguiu-se a habitual e confusa troca de palavras de despedida, e as carruagens partiram com destinos diferentes.
Voltámos para a sala de estar. A tarde escoara-se num clima extremamente agradável, porém congratulava-me por se terem retirado e a casa regressar ao silêncio do costume. Suponho que Raquel raciocinava em termos muito similares,
porque se conservou de pé no centro do aposento por um momento, olhou em redor e declarou:
- Adoro a tranquilidade de uma sala, após uma reunião.
As cadeiras estão fora dos lugares, as almofadas desarrumadas,
o ambiente denuncia que os seus ocupantes viveram algumas
horas de boa disposição, e uma pessoa sente-se depois
satisfeita por tudo haver terminado, poder descontrair-se e dizer
??Voltamos a estar finalmente sós". O Ambrose costumava
afirmar que merecia a pena sujeitarmo-nos ao tédio das visitas
para em seguida experimentar a satisfação da sua partida. Tinha toda a razão.
Observei-a em silêncio, enquanto alisava a cobertura de
uma poltrona e pousava os dedos numa almofada.
- Não precisa de fazer isso - lembrei-lhe. - Seecombe e
o seu pessoal ocupar-se-ão de tudo amanhã.
- Instinto feminino. Não fique aí especado a olhar para
mim. Sente-se e acenda o cachimbo. Divertiu-se?
- Muito. - Reclinei-me no sofá. - Não compreendo
porquê, pois costumo achar os domingos aborrecidos. Talvez
por não ser um conversador. A única coisa que tive de fazer
hoje foi permanecer sentado e deixá-los falar livremente.
- É nisso que uma mulher se pode revelar útil. Faz parte
do seu treino. O instinto adverte-a de como deve proceder,
se
as conversas esmorecem.
- Sim, mas você actua com discrição - argumentei.
- Mistress Pascoe é muito diferente. Fala interminavelmente,
pelos cotovelos, até que uma pessoa tem vontade de soltar um
grito. Um homem nunca tinha oportunidade de se exprimir,
nos outros domingos. Não consigo descortinar o que fez para
tornar o ambiente tão agradável.
- Acha, então, que foi agradável?
- Sem dúvida. Já lho disse.
- Nesse caso, não perca tempo e case com a sua Louise,
para dispor de uma verdadeira anfitriã e não de uma ave de arribação.
Endireitei-me no sofá e olhei-a com perplexidade, enquanto ela ajeitava o cabelo diante do espelho.
- Casar com a Louise? Não diga tolices. Não quero contrair matrimónio com ninguém. Além disso, ela não é minha,
como sugere.
- Desculpe, pensava que fosse. Pelo menos, o seu padrinho levou-me a ficar com essa impressão.
Sentou-se numa poltrona e pegou no trabalho de renda.
Naquele momento, John entrou para correr os cortinados, pelo que me mantive silencioso, embora interiormente espumasse de indignação. Com que direito se permitira o meu padrinho formular semelhante sugestão? Quando voltámos a ficar
sós, perguntei:
- Que disse ele?
- Não me recordo das palavras exactas. No entanto, penso que está convencido de que é uma coisa assente. Quando
regressávamos da igreja na carruagem, referiu que a filha
tinha
vindo para se ocupar dos arranjos de flores, pois você
crescera
num ambiente de homens e não entendia desses assuntos.
Quanto mais depressa casasse e houvesse uma esposa para velar por si melhor. Acrescentou que a Louise o compreendia
muito bem e vice-versa. Espero que lhe pedisse desculpa pela
sua falta de maneiras do sábado.
- Sim, pedi, mas o efeito foi aparentemente nulo. Nunca a
vi tão mal-humorada. A propósito, ela considera-a bonita.
E as filhas dos Pascoe afinam pelo mesmo diapasão.
- Sinto-me lisonjeada.
- Mas o vigário não concorda com elas.
- Agora, sinto-me desolada.
- Em todo o caso, acha-a feminina. Decididamente feminina.
- Em que sentido?
- Muito diferente do de Mistress Pascoe, imagino.
Desprendeu-se-lhe uma risada de entre os lábios e ergueu
os olhos do trabalho.
- Como a definiria, Philip?
- O quê?
- A diferença na nossa feminidade, a dela e a minha.
- Sei lá. É um assunto em que navego na ignorância quase
total. Só posso dizer que gosto de olhar para si, e para Mistress Pascoe não.
- É uma resposta simples e agradável. Obrigada, Philip.
Eu poderia afirmar o mesmo acerca das suas mãos. Agra dava-me observá-las. Em contrapartida, as de Mistress Pascoe
pareciam presuntos mal curados. .
- De qualquer modo, isso a respeito da Louise não passa
de mera fantasia, pelo que é melhor esquecê-lo. Nunca a encarei como minha futura mulher, nem tenciono fazê-lo.
- Coitada da Louise...
- Considero ridículo do meu padrinho aventar sequer semelhante possibilidade.
- Não concordo. Quando dois jovens de sexos opostos e
da mesma idade convivem regularmente e gostam da companhia um do outro, é muito natural que um observador pense
num eventual casamento. De resto, a Louise é uma moça muito atraente e inteligente. Daria uma excelente esposa.
- Importa-se de não insistir no tema, prima Raquel? -- Fiz uma pausa, enquanto tornava a olhar-me e sorrir. - E outra coisa em que não deve insistir é no disparate de visitar
toda
a gente, ficar no vicariato, em Pelyn, etc. Que tem a censurar
a
esta casa e à minha companhia?
- Nada, até agora.
- Então...
- Continuarei aqui até que o Seecombe se farte de mim.
- O Seecombe não é para aqui chamado, tal como o Wellington, o Tamlyn ou qualquer dos outros. Sou o dono da casa, e o assunto só a mim diz respeito.
- Nesse caso, farei o que me ordenar. Isso também está
incluído no treino de uma mulher.
Olhei-a com desconfiança, para ver se sorria, mas concentrara-se no trabalho e não consegui descortinar-lhe os olhos.
- Amanhã, elaborarei a lista dos caseiros, por ordem de
antiguidade. Serão visitados em primeiro lugar aqueles que
trabalham para a família há mais tempo. Principiaremos pelas terras de Barton, como combinámos no sábado. Partiremos às
duas, todas as tardes, até não haver ninguém na propriedade
que não a conheça.
- Muito bem, Philip.
- Terá de escrever um bilhete a Mistress Pascoe e às raparigas, para explicar que lhe surgiram outros compromissos.
- Tratarei disso logo pela manhã.
- Terminadas as visitas ao nosso pessoal externo, deverá
permanecer em casa três tardes por semana (às terças-feiras,
quintas e sextas, salvo erro), para a eventualidade de alguém
do
condado a procurar.
- Como sabe que são esses os dias indicados?
- Ouvi-os mencionar com frequência pelos Pascoe e
Louise.
- Muito bem. Aguardo sozinha na sala, ou você faz-me
companhia?
- Sozinha. Eles virão visitá-la e não a mim. Receber habitantes do condado não faz parte dos deveres de um homem.
- Se me convidarem para jantar, devo aceitar?
- Não a convidarão. Lembre-se de que está de luto. Se
houver necessidade de promover uma recepção, será aqui. Mas
nunca mais de dois casais de cada vez.
- Existe etiqueta neste recanto do mundo?
- Ao diabo com a etiqueta. O Ambrose e eu nunca nos
sujeitámos a princípios rígidos impostos do exterior. Regíamo-nos pelos nossos próprios.
Vi-a curvar mais a cabeça sobre o trabalho, e acudiu-me a
suspeita de que o fazia para encobrir o riso, embora não descortinasse a causa da hilaridade, pois não pretendia ser
engraçado.
- Seria impertinência excessiva de minha parte pedir-lhe
que me fornecesse uma lista das regras em vigor? - aventurou, transcorrido um momento. - Uma espécie de código de
conduta. Poderia estudá-lo enquanto aguardava a primeira visita. Custar-me-ia efectuar um faux pas social, segundo a sua
óptica, e incorrer em desagrado.
- Pode dizer o que lhe apetecer a quem quiser - expliquei. - A única coisa que lhe peço é que o faça aqui, na sala
de estar. Nunca permita que entrem estranhos na biblioteca,
seja com que pretexto for.
- Porquê? Que acontecerá na biblioteca?
- Eu estarei lá. Com os pés pousados na cornija da lareira.
- Às terças, quintas e sextas também?
- Às quintas não. Nesse dia, vou ao banco da aldeia.
Aproximou o trabalho do clarão das velas para examinar
a combinação de cores, após o que o dobrou e pousou a seu
lado.
Lancei uma olhadela ao relógio. Ainda era cedo. Tencionaria ela recolher já ao quarto? Invadiu-me uma sensação de desapontamento.
- Depois de o condado completar as suas visitas, que
acontecerá?
- É obrigada a retribuir as visitas, sem uma única excepção. Tomarei as providências necessárias para que a carruagem
esteja à sua disposição todas as tardes, às duas horas.
Perdão,
todas não. Só às terças, quintas e sextas-feiras.
- E vou sozinha?
- Vai sozinha.
- Que tenho de fazer às segundas e quartas?
- Às segundas e quartas? Deixe-me ver... - Reflecti rapidamente, mas a minha imaginação não revelava espírito de colaboração. - Sabe desenhar ou cantar? Como as meninas Pascoe. Podia entreter-se a cantar às segundas e desenhar ou
pintar às quartas.
- Não desenho nem canto, e receio que esteja a preparar-me um programa de lazer para o qual não me sinto minimamente preparada. Se, em vez de ficar à espera de que o condado me procurasse, eu o visitasse com o objectivo de dar lições
de italiano, agradar-me-ia muito mais.
Levantou-se e apagou as velas do seu lado, enquanto eu me
erguia igualmente do sofá.
- Mistress Ashley a dar lições de italiano? - articulei,
fingindo-me horrorizado. - Que desgraça para o nosso venerado nome! Só as solteironas dão lições, quando não têm ninguém que as sustente.
- E que fazem as viúvas que se encontram em circunstâncias similares?
- As viúvas? - proferi, sem reflectir. - Bem, voltam a
casar o mais depressa possível, ou então vendem as jóias.
- Pois não tenciono fazer nem uma coisa nem outra. Prefiro dar lições de italiano.
Com uma leve palmada no meu braço, encaminhou-se para
a porta, enquanto me desejava as boas-noites por cima do
ombro.
Senti um calor desconfortável nas faces. Que demónio fora
eu dizer? Falara sem pensar na sua condição, esquecendo-me
de quem ela era e do que acontecera. Envolvera-me no divertimento da conversa com a minha prima como fazia com Ambrose no passado, em consequência do que dera livre curso à
língua. Voltar a casar. Vender as jóias. Que ficaria a pensar
de
mim?
Como lhe devia ter parecido pateta, insensível e desprovido de um mínimo de maneiras! O calor propagou-se ao pescoço e, no sentido contrário, às raízes dos cabelos. Inferno e
maldição! Não adiantaria pedir desculpa. Só serviria para incrementar a importância do caso. Era preferível não insistir e
acalentar a esperança de que tombasse no esquecimento. Congratulava-me por não haver testemunhas, como, por exemplo,
o meu padrinho, para me chamar à parte e verberar a falta, ausência mesmo, de tacto. Ou, pior, a cena podia ter-se passado
à mesa, sob as vistas de Seecombe. Voltar a casar. Vender as
jóias. Que influência maligna me teria dominado o espírito?
Depois daquilo, dificilmente conseguiria dormir. Passaria a
noite às voltas na cama, ao mesmo tempo que, repetitivamente, escutaria a réplica dela, pronta como o relâmpago: ??Pois
não tenciono fazer nem uma coisa nem outra. Prefiro dar lições de italiano.?,
Chamei o velho Don e saí por uma porta lateral, a fim de
percorrer as imediações. À medida que caminhava, a minha
ofensa afigurava-se-me cada vez mais grave, em vez de se reduzir em volume. Ordinário, irreflectido, cabeça vazia... Por
outro lado, qual o verdadeiro significado das palavras dela?
Seria possível que dispusesse de pouco dinheiro e houvesse forte
percentagem de verdade no que dissera? Mrs. Ashley a dar lições de italiano? Evoquei a sua carta ao meu padrinho, enviada de Plymouth, segundo a qual tencionava seguir para Londres depois de um breve período de repouso. Recordei-me
igualmente do que Rainaldi dissera sobre a sua necessidade de
vender a villa de Florença. Ao mesmo tempo, tinha presente
no espírito que Ambrose não lhe deixara nada em testamento.
Tudo, até ao último péni, na sua propriedade me pertencia.
Lembrei-me também dos rumores entre o pessoal doméstico.
Nenhuma cláusula respeitante à viúva. Que pensariam, na sala
comum, nas habitações dos rendeiros, em todo o condado, se
Mrs. Ashley decidisse dar lições de italiano?
Dois ou três dias atrás, não me teria preocupado com a situação. A outra mulher produto da minha excitada imaginação
poderia morrer merecidamente de fome. Mas agora não. Tudo
se alterara. E radicalmente. Impunha-se que algo fosse feito
para o remediar, e eu não tinha a menor ideia do quê. De modo algum podia discutir o assunto com ela. A simples ideia
obrigou-me a corar de novo, de vergonha e embaraço. De repente, com uma sensação de alívio, recordei-me de que o dinheiro e a propriedade ainda não eram legalmente meus, o que
só aconteceria à data do próximo aniversário, dentro de seis
meses. Por conseguinte, o caso achava-se fora das minhas
mãos. A responsabilidade incidia no meu padrinho. Era administrador da herança e meu tutor. Competia-lhe, pois, abordar
a minha prima Raquel e elaborar qualquer espécie de provisão
para ela. Decidi procurá-lo nesse sentido na primeira oportunidade. De resto, o meu nome não necessitava de figurar no
que se combinasse. Podia conferir-se-lhe o aspecto de um trâmite legal que, de qualquer modo, viria a consumar-se, em
obediência a um costume do país. Estava encontrada a solução. Graças a Deus que me acudira. Lições de italiano... Que
vergonhoso e inconcebível!
Voltei para dentro menos acabrunhado, embora ainda não
tivesse esquecido a gaffe originária. Tornar a casar, vender
as
jóias... Preparava-me para transpor a porta, quando ouvi uma
voz abafada na escuridão:
- Costuma percorrer o bosque à noite?
Era Raquel, sentada, às escuras, junto da janela aberta da
sala azul. O meu erro acudiu-me à mente em toda a sua extensão, e agradeci aos Céus o facto de ela não me poder ver o
rosto.
- Às vezes, quando tenho alguma preocupação.
- Isso significa que alguma coisa o preocupa neste momento?
- Exacto. Cheguei a uma conclusão grave, entre o arvoredo.
- Pode saber-se em que consiste?
- Concluí que você tinha toda a razão em antipatizar comigo, antes de me ver, e considerar-me presunçoso e mimado.
Sou tudo isso, e pior.
Ela inclinou-se para a frente e pousou os braços no peitoril.
- Nesse caso, os passeios no bosque fazem-lhe mal e as
suas conclusões pecam por estupidez.
- Prima Raquel.
- Sim?
Mas eu não sabia como apresentar o pedido de desculpa.
As palavras que tão facilmente me haviam acudido na sala de
estar para dizer disparates achavam-se arredias agora que
desejava rectificar o lapso. Conservei-me diante da janela imóvel,
calado e envergonhado. De repente, vi-a voltar-se, estender os
braços para dentro, tornar a debruçar-se e atirar-me algo, que
me atingiu no rosto e caiu no chão. Agachei-me para o recolher. Era uma flor da sua jarra, um croco-de-outono.
- Não seja tonto, Philip. Vá-se deitar.
Fechou a janela e correu os cortinados. Curiosamente, a
perturbação abandonou-me, assim como o peso na consciência
resultante do lapso cometido, e experimentei uma espécie de
euforia.
Não tive possibilidade de me deslocar a Pelyn na primeira
parte da semana, devido ao programa que elaborara para visitar os caseiros. De resto, não poderia invocar o pretexto de
procurar o meu padrinho sem levar Raquel para conversar
com Louise. No entanto, a oportunidade surgiu na quinta-feira. Chegou o portador de Plymouth, com as plantas que a
minha prima trouxera de Itália e, mal Seecombe a informou do
facto (na altura eu acabava de tomar o pequeno-almoço), tratou de se vestir e descer apressadamente, o xaile em torno da
cabeça e preso sob o queixo, disposta a dirigir-se ao jardim.
Como a porta da sala de jantar estava aberta, eu vi-a passar e
fui cumprimentá-la.
- Se bem entendi, o Ambrose disse-lhe que nenhuma mulher merecia que lhe olhassem para a cara antes das onze da
manhã - observei. - Por conseguinte, que faz cá em baixo às
oito e meia?
- O portador acaba de chegar e, às oito e meia da última
manhã de Setembro, não sou uma mulher, mas uma jardineira.
O Tamlyn e eu temos muito que fazer.
Tinha um aspecto alegre e feliz como uma criança na iminência de receber um brinquedo novo.
- Vão contar as plantas? - insisti.
- Contá-las? Não. Quero ver quantas sobreviveram à viagem e quais convém dispor na terra imediatamente. O Tamlyn
ignora-o, mas eu sei. Não há pressa, no caso das árvores, embora convenha dar uma olhadela a tudo, para descargo de
consciência.
Notei que calçara luvas coçadas, em absoluta discordância
com o resto da indumentária, impecável.
- Não me diga que vai esgaravatar na terra! - observei
,
perplexo.
- Com certeza que vou. Venha ver. Trabalharei mais depressa que o Tamlyn e os seus homens. Não me espere para
almoçar.
- E à tarde? - protestei. - Esperam-nos em Lankelly e
Coombe.
- Mande preveni-los de que a visita fica adiada. Não me
comprometo com nada ou ninguém quando há plantações a
efectuar. Até logo.
Acenou-me em despedida e saiu.
- Prima Raquel! - chamei da janela da sala de jantar.
- Que mais temos? - perguntou por cima do ombro.
- O Ambrose enganou-se no que disse acerca das mulheres.
Às oito e meia da manhã, têm um aspecto muito satisfatório.
- Ele não se referia às oito e meia, mas às seis e meia, e
no
quarto e não cá fora.
Voltei-me para dentro, com uma gargalhada, e vi Seecombe
junto de mim, de lábios comprimidos. Com uma expressão de
desaprovação, aproximou-se do aparador e fez sinal ao jovem
John para que levantasse a mesa do pequeno-almoço. Havia,
ao menos, uma coisa boa naquele dia dedicado às plantações.
A minha presença não seria necessária. Assim, alterei o meu
programa para a manhã, dei instruções para que selassem o
Cigano e, às dez horas, encontrava-me na estrada a caminho
de Pelyn. Fui encontrar o meu padrinho no escritório da residência e, sem qualquer preâmbulo, expus o motivo da visita.
- Compreende, pois, que se tem de fazer alguma coisa,
e sem demora - concluí. - Se chegasse ao conhecimento
de Mistress Pascoe que Mistress Ashley tenciona dar lições
de italiano, o facto espalhava-se por toda a região em menos
de vinte e quatro horas.
Como eu previra, Nick Kendall mostrou-se altamente chocado e penalizado.
- Nem pensar numa coisa dessas. O assunto reveste-se,
evidentemente, de certa delicadeza. Preciso de reflectir para
tentar descobrir a solução mais conveniente.
Comecei a impacientar-me. Estava familiarizado com a
forma prudente como abordava as questões legais e sabia que
cismaria no caso durante dias.
- Não há tempo a perder - volvi. - O padrinho não conhece a prima Raquel tão bem como eu. É muito capaz de
perguntar a um dos caseiros: ??Conhece alguém que gostasse
de aprender italiano??? Imagine uma coisa dessas e diga-me em
que situação ficaríamos. Aliás, já me chegaram rumores aos
ouvidos, através do Seecombe. Toda a gente sabe que não lhe
foi deixado nada em testamento. Por conseguinte, a situação
tem de ser rectificada sem demora.
Exibiu uma expressão meditativa, ao mesmo tempo que
mordia a caneta.
- Aquele conselheiro italiano não disse uma palavra sobre
as circunstâncias dela. É pena eu não poder trocar impressões
com ele sobre o assunto. Não temos meios para determinar a
extensão do rendimento pessoal dela ou o que ficou acordado
nesse sentido em resultado do seu casamento anterior.
- Julgo que se destinou tudo ao pagamento das dívidas de
Sangalletti. Recordo-me de o Ambrose mencionar o facto nas
suas cartas. Foi uma das razões pelas quais eles não vieram
para a Inglaterra o ano passado: a resolução dos problemas financeiros dela. Pode muito bem dar-se o caso de não ter um
péni de seu. Impõe-se que se faça alguma coisa, e hoje mesmo.
O meu padrinho pôs-se subitamente a arrumar a papelada
em cima da secretária.
- Congratulo-me por teres mudado de atitude - declarou, olhando-me por cima dos óculos. - Confesso que estava
muito desconfortável antes da chegada da tua prima. Parecias
disposto a tratá-la com rudeza e não fazer nada por ela, o que
teria causado escândalo. Ao menos, agora parece que ouviste a
voz da razão.
- Estava equivocado - admiti, secamente. - Podemos
esquecer tudo isso.
- Nesse caso, enviarei uma carta a Mistress Ashley e outra ao banco, em que explicarei as nossas intenções. O plano
mais conveniente afigura-se-me ser o depósito trimestral, numa conta que abrirei em nome dela. Quando se mudar para
Londres, ou qualquer outro lugar, a respectiva delegação receberá instruções para o efeito. Dentro de seis meses, quando
completares vinte e cinco anos de idade, poderás ocupar-te
pessoalmente do assunto. Passemos agora à quantia envolvida.
Quanto sugeres?
Reflecti por um momento e indiquei um número.
- É muito generoso da tua parte, Philip. Duvido que ela
necessite de tanto. Para já, em todo o caso.
- Não sejamos mesquinhos, com a breca! Ou procedemos
como o Ambrose faria ou então mais vale estarmos quietos.
- Hum... - grunhiu, inscrevendo algo no bloco de apontamentos. - Espero que fique contente - acrescentou. - Compensá-la-á de algum desapontamento que o testamento lhe
provocasse.
Não havia dúvida de que a mente legal era dura e insensível. O meu padrinho dedicava-se a cálculos complexos para se
inteirar de quanto se podia gastar sem provocar um rombo
importante na herança. Naquele momento, odiei o dinheiro
solenemente.
- Despache-se e escreva a carta, para a levar comigo -- indiquei. - De caminho, posso passar pelo banco e entregar a
que lhe diz respeito. Assim, a minha prima Raquel poderá
efectuar levantamentos imediatamente.
- Não acredito que ela esteja em situação financeira tão
aflitiva como se pode depreender das tuas palavras. Passas de
um extremo ao outro. - Suspirou e pegou numa folha de papel em branco. - Não se enganou quando disse que eras parecidíssimo com o Ambrose.
Aproximei-me para ter a certeza de que escrevia o que me
interessava. Não mencionava o meu nome. Referia-se somente
à herança. Os ??administradores" dos bens deixados por Ambrose tinham decidido estabelecer um legado para ela, dividido
por quantias pagas trimestralmente.
- Se não te queres envolver pessoalmente no assunto, é
melhor não levares tu a carta - advertiu. - O Dobson tem
de ir para os teus lados, esta tarde, e pode encarregar-se
disso.
O assunto assumirá assim um aspecto mais verosímil.
- ?ptimo - aprovei. - E eu visitarei o banco. Obrigado, padrinho.
- Não te esqueças de falar à Louise, antes de saíres. Creio
que está algures por aí.
Eu teria prescindido perfeitamente de cumprimentá-la, em
virtude da impaciência que me dominava, mas não me podia
esquivar. Fui encontrá-la na saleta contígua ao escritório.
- Pareceu-me ter ouvido a tua voz - declarou. - Vieste
para passar o dia connosco? Prova este bolo ou come uma peça de fruta. Deves estar com fome.
- Obrigado, mas tenho de me retirar imediatamente. Vim
apenas para trocar impressões com o teu pai sobre um assunto
legal.
- Ah, compreendo... - murmurou, enquanto a expressão
jovial se toldava e reassumia o aspecto do domingo anterior.
- Como está Mistress Ashley?
- A minha prima Raquel está bem e muito ocupada. As
plantas que trouxe de Itália chegaram esta manhã e ela
insistiu
em dispô-las no jardim com o Tamlyn.
- Admira-me que não ficasses em casa a ajudá-la.
Tornava-se-me difícil interpretar a atitude da moça, mas a
nova inflexão da voz resultava particularmente irritante. Recordei-me do seu comportamento nos velhos tempos, quando
fazíamos corridas no jardim e, de um momento para o outro,
sem motivo aparente, estacava, sacudia a cabeça emoldurada
pelos caracóis, dizia ??Não quero brincar mais,? e olhava-me
com a mesma expressão obstinada.
- Sabes perfeitamente que não entendo nada de jardinagem - repliquei. E acrescentei maliciosamente: - O mau humor ainda não te passou?
- Mau humor? - repetiu, empertigando-se e corando.
- Não percebo ao que te referes.
- Percebes, sim. Estiveste de trombas todo o domingo.
Via-se à distância. Nem sei como as filhas dos Pascoe não comentaram o facto.
- As filhas dos Pascoe, como todos os outros, deviam ter
a atenção concentrada noutra coisa.
- Em quê, pode-se saber?
- Como deve ser fácil para uma mulher com experiência
do mundo, como Mistress Ashley, manobrar um jovem como
tu a seu bel-prazer!
Dei meia volta e retirei-me apressadamente, receoso de que
não conseguisse dominar a vontade de a esbofetear.
Capítulo décimo terceiro
Quando me encontrei de novo em casa, depois de percorrer a estrada desde Pelyn e cruzar a aldeia, devia ter coberto
uns trinta quilómetros. Detivera-me para tomar um copo de
cidra no bar da estalagem, mas não comera nada, pelo que me
achava positivamente faminto às quatro da tarde.
Na realidade, o relógio do nosso campanário acabava de as
badalar quando me dirigia para o estábulo, onde quis o infortúnio que Wellington, e não o moço de estrebaria, se encontrasse naquele momento.
- Isto assim não pode ser, Mister Philip - articulou, meneando a cabeça ao ver o Cigano coberto de espuma de transpiração, enquanto eu desmontava com uma sensação de culpa.
- Sabe perfeitamente que o animal pode resfriar-se se aquecer
demasiado, e trá-lo transformado numa caldeira. Não está em
condições de perseguir raposas, se porventura se dedicou a semelhante actividade.
- Se tivesse estado a perseguir raposas, não usava esta indumentária nem tentaria apanhá-las com as mãos - retorqui,
agastado. - Não digas disparates, homem. Fui a casa de Mister Kendall e no regresso dei uma volta maior do que pretendia. De qualquer modo, não creio que aconteça nada de mal
ao Cigano.
- Oxalá que não - grunhiu, começando a passar as mãos
pelos flancos do cavalo.
Entrei em casa e refugiei-me na biblioteca. O lume estava
aceso, mas não havia vestígios da minha prima Raquel, pelo
que chamei Seecombe.
- Onde está Mistress Ashley?
- A senhora entrou pouco depois das três, após ter estado
a trabalhar lá fora com os jardineiros desde que o senhor
saiu.
O Tamlvn encontra-se agora comigo na sala comum do pessoal. Diz que nunca tinha visto nada assim. A senhora é uma
autêntica autoridade na matéria. Uma maravilha, segundo ele.
- Deve estar exausta.
- Também tive esse receio e sugeri que fosse descansar,
mas nem quis ouvir falar nisso. ??Diga aos rapazes que tragam
água quente. Quero tomar um bom banho", foram as suas palavras. ??De caminho, lavarei a cabeça." Propus que a minha
sobrinha a ajudasse, mas recusou com firmeza.
- Depois, que me preparem também um banho. Tive um
dia esgotante. E morro de fome. Quero jantar cedo.
- Muito bem, Mister Philip. As cinco menos um quarto?
- Sim, se achas que é possível.
Subi ao quarto a assobiar, para me instalar na banheira fumegante diante da lareira. Os cães seguiram-me, provenientes
dos aposentos de Raquel. Haviam-se acostumado totalmente à
sua presença e acompanhavam-na a toda a parte. O velho Don
aguardava-me no topo da escada e agitava a cauda de contentamento.
- Olá, amigo. És-me infiel, sabias? Trocaste a minha companhia pela de uma senhora.
Lambeu-me a mão com a língua áspera e olhou-me com o
habitual ar submisso.
Não tardaram a vir encher a banheira, e foi agradável permanecer sentado na água quente e lavar-me lentamente, ao
mesmo tempo que assobiava com notável desafinação. Quando
me secava com a toalha, vi que havia uma jarra com flores em
cima da mesa-de-cabeceira. Era a primeira vez que alguém se
lembrava de me distinguir com aquela gentileza. Seecombe não
tomaria semelhante iniciativa, e o restante pessoal ainda menos. Só podia ter sido a minha prima Raquel. A presença das
flores contribuiu para me acentuar a boa disposição. Por muito tempo que ela tivesse consagrado à jardinagem, ainda lhe
sobrara o suficiente para se lembrar de mim. Vesti-me para
jantar, enquanto continuava a assobiar. Por fim, atravessei o
corredor e bati à porta do boudoir.
- Quem é? - perguntou Raquel.
- Eu, o Philip. Vim avisá-la de que hoje jantamos mais
cedo. Estou faminto e você também, suponho, a avaliar pelos
rumores que circulam. Que demónio esteve a fazer com o
Tamlyn para precisar de tomar banho e lavar a cabeça?
A resposta foi precedida de uma risada divertida.
- Abrimos subterrâneos, como as toupeiras.
- Enterraram-se até aos cabelos?
- Estava cheia de terra. Já tomei banho e agora seco o cabelo. Julgo-me suficientemente apresentável e até me pareço
com a tia Phoebe. Pode entrar.
Abri a porta e entrei no boudoir. Ela encontrava-se sentada
no banco diante do lume e, por instantes, quase não a reconheci, de tal modo estava diferente, sem o luto. Envolvia-a um
roupão branco e tinha o cabelo puxado para o alto da cabeça,
em vez de meticulosamente separado ao meio.
Decidi para comigo que nunca vira ninguém tão pouco parecido com a tia Phoebe ou qualquer outra tia.
- Sente-se - convidou. - E não faça uma cara tão assombrada.
Fechei a porta atrás de mim e ocupei uma poltrona, enquanto dizia:
- Desculpe, mas nunca tinha visto uma mulher de roupão.
- É o trajo com que costumo tomar o pequeno-almoço.
O Ambrose chamava-lhe roupão de freira. - Ergueu os braços e começou a colocar ganchos no cabelo. - Aos vinte e
quatro anos de idade, é altura de assistir a uma agradável
cena
doméstica, como a da tia Phoebe a arranjar o cabelo. Está embaraçado?
Cruzei os braços sobre o peito, tracei a perna e continuei a
observá-la.
- Nem por sombras - asseverei. - Apenas surpreendido.
Tornou a rir sem interromper a aparentemente delicada e
complicada tarefa, que, não obstante, completou em poucos
minutos.
- Faz isso todos os dias e em tão pouco tempo? - perguntei, admirado.
- Tem muito que aprender, Philip. Nunca viu a sua Louise cuidar do cabelo?
- Não, nem quero ver - apressei-me a replicar, com a recordação súbita das palavras de despedida da moça quando me
retirava de Pelyn.
Raquel soltou nova risada e largou um gancho em cima do
meu joelho.
- Uma recordação. Ponha-o debaixo do travesseiro e observe a expressão do Seecombe de manhã, durante o pequeno-almoço. - Passou do boudoir ao quarto contíguo, mas deixou a porta aberta. - Pode continuar aí sentado e levantar a
voz para conversar comigo, enquanto me visto.
Dirigi uma mirada furtiva à pequena escrivaninha, para ver
se havia algum sinal da carta do meu padrinho, mas não descortinei nada. Talvez a tivesse no quarto. Era possível que
decidisse não a mencionar e considerasse o assunto de interesse
exclusivo de ambos. Pelo menos, eu acalentava essa esperança.
- Onde esteve todo o dia? - perguntou, do quarto.
- Tive de ir à vila tratar de uns assuntos - informei,
consciente de que não necessitava de aludir ao banco.
- O tempo passou-se agradavelmente, com o Tamlyn e os
jardineiros. Foram pouquíssimas as plantas que não se aproveitaram. Mas ainda há muito para fazer: limpar o solo de
ervas daninhas, abrir uma passagem entre os canteiros, etc.
Dentro de menos de vinte anos, pode dispor de um jardim de
Primavera que a Cornualha em peso virá admirar.
- Sim, era essa a intenção do Ambrose.
- No entanto, a plantação exige cuidados especiais, que se
não podem deixar ao sabor do acaso e do Tamlyn. Ele esforça-se com dedicação, mas os seus conhecimentos na matéria são
limitados. Porque não se interessa você mais pelo jardim?
- Não possuo a bagagem necessária. Aliás, o Ambrose tinha plena consciência disso.
- Deve haver alguém que o possa ajudar. Podia, por
exemplo, mandar vir um perito de Londres.
Abstive-me de replicar. Não desejava chamar um perito de
Londres. Tinha a certeza de que ela dispunha de conhecimentos mais do que suficientes.
Naquele momento, bateram à porta do boudoir e assomou
a cabeça do mordomo.
- Que há, Seecombe? - perguntei. - O jantar está
pronto?
- Não, senhor. O Dobson acaba de chegar com um bilhete de Mister Kendall para a senhora.
Senti o coração cair-me aos pés. O miserável decerto efectuara uma paragem num botequim do caminho, para se apresentar tão tarde. Agora, ver-me-ia forçado a assistir,
enquanto
Raquel lia a mensagem. Ouvi Seecombe bater à porta aberta
do quarto e entregar a carta.
- Vou esperar por si lá em baixo, na biblioteca - anunciei.
- Não, deixe-se estar. Já falta pouco e poderemos descer
juntos. A carta é de Mister Kendall. Talvez se trate de um
convite para visitarmos Pelyn.
Entretanto, o mordomo desaparecera no corredor e, levantando-me, lamentei não poder seguir-lhe o exemplo. Sentia-me
subitamente enervado. Não transpirava o mínimo som do
quarto azul. Ela devia estar a ler a carta. Pareceu escoar-se
uma eternidade. Por último, surgiu à porta de comunicação,
com a missiva aberta na mão. Achava-se devidamente trajada
para jantar. Talvez fosse o contraste da tez com o luto que a
fazia parecer tão pálida.
- Que andou a fazer? - inquiriu, numa inflexão diferente, tensa mesmo.
- A fazer? - ecoei. - Nada. Porquê?
- Não minta, Philip, que não é capaz.
Conservei-me imóvel diante do lume, preocupado em fixar
a vista em qualquer lugar menos nos olhos acusadores dela.
- Esteve em Pelyn - acrescentou. - Foi lá para se avistar com o seu tutor.
Tinha razão. Eu era o pior dos mentirosos. Pelo menos, no
que lhe dizia respeito.
- E depois? - balbuciei.
- Convenceu-o a escrever esta carta.
- Não fiz nada do género - aleguei, engolindo em seco.
- Ele escreveu-a espontaneamente. Tínhamos uns assuntos a
tratar e aconteceu virem à baila vários pormenores legais...
- E você disse-lhe que a sua prima Raquel tinha decidido
dar lições de italiano, não foi?
- Não exactamente - protestei em voz débil.
- Devia ter compreendido que estava a brincar consigo.
Não pude deixar de reflectir que, se fora mera brincadeira,
porque se mostrava tão enxofrada comigo?
- Nem imagina o que fez - volveu. - Obriga-me a estar
profundamente envergonhada. - Acercou-se da janela, de
costas para mim. - Se pretendia humilhar-me, não podia ter
escolhido uma maneira mais eficiente.
- Não compreendo porque tem de ser tão orgulhosa.
- Orgulhosa? - Voltou-se e olhou-me com uma expressão quase furiosa. - Como se atreve a chamar-me isso?
Agora, encontrava-me literalmente embasbacado, sobretudo porque uma pessoa que, momentos antes, gracejara comigo
se apresentava irritada a um grau inconcebível. De repente,
descobri que o nervosismo me abandonava. Avancei para ela e
estaquei a dois passos.
- Insisto em chamar-lhe orgulhosa. Vou mesmo mais longe e considero-a horrivelmente orgulhosa. Sou eu que corro o
risco de me humilhar e não você. Não foi a brincar que anunciou a intenção de dar lições de italiano. A afirmação surgiu
com demasiada prontidão para se tratar de um gracejo. Disse-o
com absoluta sinceridade.
- E se o disse? - retrucou, com uma expressão de desafio. - Há algo de vergonhoso no facto de dar lições de
italiano?
- De um modo geral não, mas a situação muda de aspecto
no seu caso. Mistress Ambrose Ashley a dar lições de
italiano
é vergonhoso, reflecte-se no marido, que se absteve de a incluir no testamento. E eu, Philip Ashley, seu herdeiro, não
o
permitirei. Receberá esse rendimento até ao último péni,
prima
Raquel, e quando for levantar o dinheiro ao banco queira ter
presente no espírito que não provém da propriedade, nem
do herdeiro da mesma, mas do seu falecido marido, Ambrose Ashley.
À medida que falava, apoderava-se de mim uma cólera não
inferior à dela. Demónios me levassem se permitiria que qualquer criatura pequena e frágil me acusasse de a humilhar e,
ainda mais, recusasse o dinheiro que lhe pertencia por direito
próprio.
- Entendeu o que acabo de lhe dizer? - perguntei.
Por instantes, pensei que me agrediria. Manteve-se imóvel,
como que petrificada, a olhar para mim. De súbito, os olhos
marejaram-se e precipitou-se para o quarto, cuja porta fechou
ruidosamente. Desci à sala de jantar, toquei a sineta e
comuniquei a Seecombe que duvidava de que Mrs. Ashley comparecesse para comer. Em seguida, verti clarete num copo e sentei-me à cabeceira da mesa. ??Com que então, é assim que as
mulheres se comportam!??, reflecti. Nunca me sentira tão enfurecido e esgotado. Longos dias ao ar livre, a trabalhar com o
pessoal na época da colheita; discussões com os caseiros atrasados no pagamento da renda ou envolvidos em desavenças
com vizinhos que eu tinha de solucionar - nada disso se
comparava com cinco minutos perante uma mulher cuja boa
disposição se convertera, num mero instante, em aberta hostilidade. A arma final consistiria sempre nas lágrimas? Porque
elas conheciam perfeitamente o efeito no sexo oposto? Servi-me novamente do clarete. Quanto a Seecombe, na expectativa
atrás de mim, desejava-o a quilómetros dali.
- A senhora está indisposta? - acabou por perguntar.
Eu podia ter-lhe explicado que a senhora estava menos indisposta do que furiosa e provavelmente tocaria a campainha a
todo o momento, a fim de pedir a Wellington que a transportasse na carruagem para Plymouth.
- Não, mas ainda não acabou de secar o cabelo. É melhor
dizeres ao John que lhe leve qualquer coisa no tabuleiro.
Depreendi que era àquilo que os homens se expunham
quando casavam. Portas fechadas estrondosamente e depois silêncio. Jantar sem companhia. Por conseguinte, o apetite,
estimulado pelas numerosas horas ao ar livre, descontração na
banheira e antevisão do prazer de um serão calmo junto da lareira, passado em diálogo intermitente, a observar as mãos
brancas e pequenas a moverem-se com eficiência no trabalho
de renda, tinha forçosamente de se extinguir. Com que euforia
me vestira para jantar, atravessara o corredor, batera à porta
do
boudoir e a encontrara sentada diante do lume, envolta num
belo roupão branco, com o cabelo puxado para o topo da cabeça! Com que facilidade havíamos partilhado a boa disposição, numa espécie de intimidade que proporcionava uma aura
de beatitude à perspectiva do serão a sós! E agora, desterrado
na sala de jantar, com um bife que me suscitava tanto apetite
como se fosse um pedaço de sola. E que estaria ela a fazer?
Encontrar-se-ia deitada na cama? Achar-se-iam as velas apagadas, os cortinados corridos e o quarto imerso na escuridão?
Ou a agressividade ter-se-ia dissipado e permanecia sentada no
boudoir, de olhos secos, a comer com voracidade, para impressionar Seecombe? Era-me impossível determiná-lo. Nem me
interessava. Ambrose não se equivocava quando afirmava que
as mulheres constituíam uma raça à parte. Para já, uma coisa
era certa: eu nunca casaria...
Terminado o jantar, fui sentar-me na biblioteca. Acendi o
cachimbo, estendi as pernas à minha frente e preparei-me para
a sonolência pós-refeição, que se pode revelar agradável e
calmante em circunstâncias normais, mas naquela altura carecia
de todo o atractivo. Habituara-me à presença dela na poltrona
diante de mim, os ombros voltados ligeiramente para que a luz
incidisse no seu trabalho, com o velho Don aos pés, porém
agora o seu lugar parecia singularmente vazio. Enfim, ao diabo
com tudo aquilo, com a possibilidade de uma mulher poder
perturbar o final de um dia. Levantei-me, procurei um livro na
estante e folheei-o. Creio que adormeci, porque quando ergui
os olhos o relógio da parede indicava quase nove horas. Chegara, pois, o momento de ir para a cama e dormir. Não merecia a pena continuar a pé, com o lume apagado. Levei os cães
para o canil - o tempo mudara e chovia, com vento forte -,
tranquei as portas e subi ao meu quarto. Preparava-me para
colocar o casaco no espaldar da cadeira, quando vi um bilhete,
apoiado à jarra de flores em cima da mesa-de-cabeceira. Desdobrei-o e verifiquei que era de Raquel.
??Caro Philip: se lhe for possível, agradecia que perdoasse a minha grosseria desta noite. É a todos os títulos imperdoável comportar-me assim em sua casa. Não tenho
qualquer justificação, salvo que não estou inteiramente
em mim nos últimos tempos e a emoção persiste muito
perto da superfície. Escrevi ao seu tutor para lhe agradecer a carta e aceitei a oferta pecuniária. Foram ambos extremamente generosos. Boa noite, Raquel.??
Voltei a lê-lo e guardei-o na algibeira. Poderia concluir-se
que o orgulho fora dominado, juntamente com a irritação? Os
sentimentos dissolver-se-iam com as lágrimas? A aceitação do
dinheiro tirava-me um peso dos ombros. Com efeito, previra
nova visita ao banco, com mais explicações e anulação das ordens anteriores, a que se seguiriam reuniões com o meu padrinho, argumentações e um desenlace que se traduziria com a
partida da minha prima Raquel para Londres, onde se sustentaria dos proventos que as lições de italiano lhe proporcionassem.
Ter-lhe-ia custado muito escrever aquelas linhas? O salto
do orgulho para a humildade? Desagradava-me admitir o facto
de que tivera de proceder assim. Pela primeira vez desde a sua
morte, descobri-me a atribuir a Ambrose a culpa do que acontecera. Podia perfeitamente ter tomado providências para assegurar o futuro da esposa. Uma doença súbita e morte imprevista aconteciam a qualquer pessoa. Decerto sabia que, assim,
deixava Raquel ao sabor da nossa comiseração e mesmo da
nossa caridade. Uma simples carta endereçada ao meu padrinho evitaria tudo aquilo. Acudiu-me a visão de ela sentada no
boudoir da tia Phoebe a redigir aquele bilhete. Perguntei-me
se ainda lá se encontraria ou já se deitara. Hesitei por um momento e atravessei o corredor até à arcada junto dos seus aposentos.
A porta do houdoir estava aberta, mas a do quarto fechada.
Bati a esta última e, por uns instantes, obtive o silêncio
como
única resposta, até que ela perguntou:
- Quem é?
Abri e entrei, sem me identificar previamente. O quarto
estava imerso na escuridão, e o clarão da minha vela revelou-me que as cortinas da cama se achavam entreabertas e os contornos dela sob o edredão.
- Acabo de ler o seu bilhete - informei. - Queria agradecer-lhe e desejar as boas-noites.
Pensei que se soergueria e acenderia a vela do castiçal da
mesa-de-cabeceira, mas não o fez. Conservou-se deitada, a cabeça pousada na almofada, atrás das cortinas.
- Queria também que soubesse que não tive a menor intenção de armar em paternalista - acrescentei. - Acredite,
por favor.
A voz proveniente detrás das cortinas era singularmente
calma e abafada:
- Nunca me passou pela cabeça que tivesse. - Fez uma
breve pausa. - Não me preocuparia ter de dar lições de italiano. Não possuo qualquer preconceito a esse respeito. O que
não pude suportar foi você dizer que se reflectiria negativamente no Ambrose.
- E é verdade - reiterei -, mas deixemos isso agora.
- Foi extrema gentileza e bondade de sua parte ir a Pelyn
avistar-se com o seu padrinho. Deve ter-me julgado inconcebivelmente ingrata. Nunca me perdoarei semelhante atitude.
Notei que se achava sinceramente emocionada e acudiu-me
uma sensação penosa na garganta e no estômago.
- Preferia que me batesse a vê-la chorar - murmurei.
Ouvi-a mover-se na cama, procurar um lenço e assoar-se.
O gesto e o som, tão vulgares e simples, verificados atrás das
cortinas, tornaram a sensação ainda mais aguda.
- Aceito a mesada, ou como lhe quiser chamar, Philip,
mas não posso abusar da sua hospitalidade para além desta semana. Na próxima segunda-feira, se não vir inconveniente,
abandonarei esta casa, possivelmente rumo a Londres.
Estas palavras produziram-me como que um abalo.
- Londres? Porquê? Com que objectivo?
- Vim passar apenas uns dias e já excedi o período que
me impusera.
- Mas ainda não conhece toda a gente. Não fez tudo o
que se esperaria de si.
- Que importa? No fundo, parece tudo inútil.
A inflexão da voz alterara-se ao ponto de não parecer a
sua, como se carecesse de vida.
- Supus que lhe agradava percorrer a propriedade e visitar
os caseiros. Nas vezes que o fizemos juntos parecia contente.
E hoje, ao proceder à plantação com o Tamlyn... Não passava
de simulação e limitava-se a manifestar delicadeza?
Não respondeu imediatamente, até que articulou pausadamente:
- Às vezes, penso que lhe falta toda e qualquer compreensão.
Talvez fosse verdade. Sentia-me acabrunhado e magoado, e
preocupava-me pouco com o resto.
- Muito bem - acedi. - Se quer partir, faça-o. Suscitará
comentários, mas paciência.
- Estava convencida de que suscitaria mais se ficasse.
- Se ficasse?! Que quer dizer com isso? Não compreende
que pertence aqui por direito próprio e, se o Ambrose não
fosse tão imprevidente, seria o seu lar?
- Meu Deus! - exclamou, subitamente irritada. - Por
que outra razão julga que vim?
Eu tornara a cometer uma gaffe. Inconsciente e desprovido
de facto, dissera tudo o que não devia. Sentia-me exasperado e
aproximei-me da cama, afastei as cortinas e contemplei-a. Encontrava-se reclinada na almofada, as mãos unidas sobre o peito. Usava algo de indefinido devido à penumbra, branco, com
rendas em torno do pescoço como uma sobrepeliz, o cabelo
solto atado sobre a nuca com uma fita, o que me fez pensar
em Louise quando criança. O facto impressionou-me e, ao
mesmo tempo, produziu certa surpresa: parecia curiosamente
jovem.
- Não sei porque veio ou a meta de tudo o que fez. Posso
considerar-me um ignorante a seu respeito e das mulheres em
geral. A única coisa de que tenho a certeza é que a sua
presença me agrada e não quero que parta. Acha isto complicado?
Levou as mãos ao rosto, num gesto quase defensivo, como
se receasse que a agredisse.
- Acho - assentiu. - Muito.
- Nesse caso, é você que o complica e não eu.
Cruzei os braços sobre o peito e olhei-a, assumindo uma
serenidade que estava longe de sentir. Não obstante, de certo
modo, desfrutava de uma posição vantajosa, dadas as circunstâncias. Não compreendia como uma mulher de cabelo solto,
o que a tornava numa jovem, podia estar encolerizada.
Vi os olhos marejarem-se. Enquanto ela procurava no espírito um pretexto plausível, uma nova razão para partir,
acudiu-me uma inspiração repentina.
- Disse esta tarde que devia chamar um perito de Londres
para se ocupar do jardim. Sei que era também a intenção do
Ambrose. Acontece que não conheço nenhum e, de qualquer
modo, enlouqueceria de irritação se tivesse um indivíduo desses à minha volta. Se você sente alguma atracção por isto, sabendo o que representava para ele, continuará cá por uns meses, a fim de tratar do assunto.
O tiro atingiu o alvo. Raquel fixou o olhar na sua frente,
enquanto movia os dedos em torno da aliança. Como eu tivera
oportunidade de observar, tratava-se de um gesto instintivo
sempre que estava preocupada. Aproveitei a vantagem momentânea para prosseguir:
- Nunca consegui, e o Tamlyn tão-pouco, diga-se de passagem, entender os planos que o Ambrose costumava traçar.
O chefe dos jardineiros tem-me consultado com frequência a
respeito de dúvidas que não sou capaz de esclarecer. Se você
ficasse (nem que fosse apenas durante o Outono, época mais
apropriada para a plantação), seria uma grande ajuda.
- Penso que deve pedir a opinião ao seu padrinho - sugeriu, continuando a mover os dedos na aliança.
- Ele não tem nada a ver com isto. Julga-me um colegial
inconsciente? Existe somente um factor a considerar: saber se
você deseja ficar. Se quiser realmente partir, não a poderei
impedir.
- Porque me pergunta isso? - proferiu em voz curiosamente submissa. - Sabe que quero ficar.
Como podia eu saber, santo Deus, se ela deixara transparecer precisamente o contrário?
- Nesse caso, adiará a partida por uns tempos, para cuidar
do jardim? É ponto assente e não voltará com a palavra atrás?
- Sim, ficarei por uns tempos.
Tive dificuldade em me abster de sorrir. O seu olhar exibia
uma expressão grave e acudiu-me o receio de que, se o fizesse,
ela mudasse de ideias. Contentei-me, pois, com celebrar o
triunfo intimamente.
- Muito bem. Sendo assim, desejo-lhe uma boa noite.
E quanto à sua carta para o meu padrinho? Quer que a faça
seguir?
- Já a entreguei ao Seecombe.
- Nesse caso, deixou de estar zangada comigo?
- Não estava zangada consigo, Philip.
- Pareceu-me o contrário. Receei mesmo que me agredisse.
- Às vezes, é tão estúpido... - murmurou, depois de me
olhar em silêncio por um momento. - Um dia, sou muito capaz de o fazer. Venha cá. - Aproximei-me e o meu joelho
contactou com o edredão. - Incline-se. - Segurou-me o rosto entre as mãos e beijou-me. - Agora, vá-se deitar como um
bom rapaz e durma bem. - Impeliu-me para fora das cortinas, que uniu.
Quase cambaleei, com o castiçal na mão, enquanto abandonava o quarto, eufórico e aturdido simultaneamente, como
se tivesse exagerado o consumo de brande, e afigurou-se-me
que a vantagem que julgara ter sobre ela se perdera por completo. O aspecto de jovem indefesa e a sobrepeliz haviam-me
iludido. Não deixara de ser mulher um único instante. Apesar
disso, sentia-me contente. O mal-entendido dissipara-se e a
minha prima Raquel prometera ficar. Não houvera mais lágrimas.
Em vez de ir imediatamente para a cama, tornei a entrar na
biblioteca, a fim de escrever duas ou três linhas ao meu
padrinho, para lhe assegurar que tudo correra bem. Não necessitava
de se inteirar do serão mais ou menos tempestuoso que acabávamos de atravessar. Depois, introduzi a missiva num sobrescrito e levei-a para a mala da correspondência que se
encontrava no átrio e seguiria pela manhã.
Como era hábito, Seecombe deixara-a em cima da mesa,
com a chave ao lado. Quando a abri, tombaram-me na mão
duas cartas, ambas do punho de Raquel. Uma destinava-se a
Nick Kendall, como ela me dissera. A segunda exibia o nome
e o endereço de Rainaldi, em Florença. Enruguei a fronte por
uns instantes e voltei a colocá-las na mala. Porque não havia
a
minha prima de escrever a um amigo? Nada mais natural e
compreensível. No entanto, enquanto subia em direcção ao
meu quarto, assolava-me a suspeita, indefinida sem dúvida, de
que me ludibriara.
No dia seguinte, quando desceu e fui ter com ela ao jardim, Raquel parecia tão contente e despreocupada como se
nunca se tivesse registado o mínimo atrito entre nós. A única
diferença na sua atitude para comigo era que se mostrava mais
atenciosa e cordial. Implicava menos, ria comigo e não de mim
e pedia-me a opinião sobre a plantação das flores, não em virtude de conhecimentos na matéria, que não possuía, mas tendo em conta o meu prazer futuro quando as contemplasse.
- Proceda como lhe parecer melhor - indiquei. - Mande os homens alterar tudo radicalmente, se quiser, porque sou
uma nulidade na matéria.
- Mas desejo que o resultado lhe agrade, Philip. Tudo isto
pertence-lhe e um dia será dos seus filhos. Suponha que introduzo alterações que depois não lhe agradam, já sem possibilidade de remediar o mal?
- Hão-de me agradar, estou certo. E pare de falar dos
meus filhos, pois estou firmemente decidido a permanecer solteiro.
- O que representa uma atitude essencialmente egoísta e
uma estupidez da sua parte.
- Discordo. Creio que, mantendo-me solteiro, evitarei
muitas preocupações.
- Nunca pensou no que perderá?
- Tenho a não muito vaga impressão de que as vantagens
do matrimónio não correspondem totalmente ao que se apregoa. Se é ternura e conforto que um homem procura, e algo de
belo para contemplar, pode obter tudo isso em sua própria casa, se a estima o suficiente.
Soltou uma gargalhada tão ruidosa que Tamlyn e os jardineiros ergueram a cabeça para nos olhar com perplexidade.
- Um dia, quando se apaixonar, recordar-lhe-ei essas palavras - advertiu ela. - Ternura e conforto fornecidos por
paredes frias, aos vinte e quatro anos. Francamente, Philip! -- E a *hilaridade repetiu-se.
Quanto a mim, não descortinava o mínimo motivo para
rir, e repliquei:
- Compreendo perfeitamente ao que se refere. Sucede
apenas que nunca senti qualquer inclinação nesse sentido.
- Vê-se com clareza. Deve ser o despedaçador de corações
da região. Coitada da Louise...
Mas não estava disposto a deixar-me arrastar para uma discussão acerca de Louise ou uma dissertação sobre o amor e o
casamento. Interessava-me muito mais vê-la trabalhar no jardim.
O mês de Outubro apresentava-se excepcionalmente benigno e, nas primeiras três semanas, praticamente não choveu,
pelo que Tamlyn e os seus homens, sob a orientação de Raquel,
puderam adiantar os trabalhos de forma notável. Conseguimos
igualmente arranjar tempo para visitar todos os caseiros da
propriedade, o que lhes proporcionou grande satisfação, como eu
previra. Conhecia-os desde a infância e procurava-os com regularidade, consciente de que me competia fazê-lo. Tratava-se,
todavia, de uma experiência nova para a minha prima, que
crescera em Itália num sistema de vida muito diferente. As
suas maneiras eram impecáveis e produziram-me particular satisfação. Fazia as perguntas apropriadas e dava as respostas
convenientes. Por outro lado - pormenor que mais contribuiu para a aceitação de que foi alvo -, dir-se-ia achar-se
familiarizada com todos os seus problemas e meios necessários
para os solucionar. ??Juntamente com os conhecimentos de jardinagem, sou entendida em ervas medicinais??, esclareceu. ??Em
Itália, é vulgar estudarem-se essas coisas.?? E fornecia
indicações sobre a maneira mais eficaz de debelar, ou mesmo pôr
termo, aos seus achaques.
- Imagino que está a antever o que acontecerá - observei. - Vão tomá-la pela parteira do distrito. Prepare-se para
ser chamada a meio da noite para trazer bebés ao mundo.
- Também existe uma tisana para isso, feita de folhas de
amoreira e cardos - replicou. - Se uma mulher a tomar durante os seis meses anteriores ao parto, terá a criança sem
dor.
- Isso é bruxaria. Elas não aceitariam um tratamento dessa natureza.
- Que disparate! Porque hão-de as mulheres sofrer desnecessariamente?
Por vezes, à tarde, procuravam-na, como eu previra. E revelava-se tão eficiente com a ??nobreza?,, segundo a
terminologia de Seecombe, como com a plebe. Não tardei a inteirar-me
de que ele vivia nas suas sete quintas, por assim dizer.
Quando
as carruagens paravam à nossa porta, às terças ou quintas-feiras, às três horas da tarde, encontrava-se à espera no
átrio.
Ainda trajava de luto, mas a jaqueta era nova, reservada para
essas ocasiões. O infortunado John tinha a seu cargo a missão
de introduzir os visitantes e confiá-los ao seu superior
hierárquico, o qual, com passos lentos e solenes, os precedia em direcção à sala de estar, cuja porta abria para anunciar os
nomes,
como numa recepção formal. Antes disso, discutia com Raquel
a possibilidade de uma ou outra pessoa aparecer e fornecia-lhe
um breve resumo da história da respectiva família até ao momento presente. De um modo geral, acertava na profecia de
quem viria, e nós perguntávamo-nos se haveria algum método
de enviar mensagens de uma casa para outra através das instalações do pessoal doméstico para proporcionar as informações
necessárias, como os tambores dos selvagens na floresta. Por
exemplo, Seecombe comunicava a Raquel que tinha a certeza
de que Mrs. Tremayne mandara aprontar a carruagem para a
tarde de quinta-feira e levaria consigo a filha casada, Mrs.
Gough, e a solteira, Miss Isobel, e a minha prima devia precaver-se quando se dirigisse a esta última, porquanto a jovem
sofria de uma deficiência na fala. Ou então, que, em determinada
terça-feira, a velha Lady Penryn decerto apareceria, porque
costumava visitar a neta nesse dia, a qual vivia apenas a
quinze
quilómetros de nós, e Raquel devia abster-se de aludir a raposas na sua frente, porque a anciã sofrera um susto profundo
provocado por um daqueles animais pouco antes do nascimento do filho mais velho e o rapaz adquirira o estigma sob a
forma de um sinal congénito no ombro esquerdo.
- Durante todo o tempo em que ela esteve cá, tive de me
esforçar por evitar que a conversa abordasse o tema da caça -- explicou-me Raquel, mais tarde. - Apesar disso, parecia empenhada em não falar de outra coisa. Foram momentos particularmente difíceis.
Havia sempre um ou outro episódio relacionado com as
visitantes com que me acolhia quando eu regressava a casa, depois de vir pelo bosque, a fim de não me cruzar com elas. As
pessoas e respectivas vidas revestiam-se sempre de um interesse especial, e costumava dizer, ante as minhas objecções:
??Isto
é tudo muito diferente da sociedade em Florença. Sempre desejei conhecer os hábitos da vida no campo, em Inglaterra.
Agora, começo a fazer uma ideia. E cada vez me agrada mais."
- Não concebo nada de mais monótono do que discutir
generalidades com alguém, em Florença ou na Cornualha -- observei uma ocasião.
- Você é um caso perdido e acabará por se tornar num
homem de vistas estreitas, que só pensará em nabos e couves.
Às vezes, afundava-me numa poltrona da sala e pousava as
botas enlameadas no banco, para a provocar, mas se o facto
lhe desagradava nunca o deixava transparecer.
- Vá, conte-me o último escândalo da aldeia - solicitava-lhe noutras alturas.
- Para quê, se sei que não lhe interessa? - replicava.
- Porque gosto de a ouvir falar.
Por conseguinte, antes de subir ao quarto para se vestir para o jantar, regalava-me com os mexericos da região: os últimos casamentos e mortes, os bebés de nascimento iminente,
etc. Raquel parecia desfrutar mais com uma conversa de vinte
minutos com uma desconhecida do que se se tratasse de uma
amizade de tempos imemoriais.
- Como eu suspeitava - informou -, você constitui o
desespero de todas as mães num raio de oitenta quilómetros.
- Como assim?
- Não se digna olhar para as suas filhas. Um homem tão
alto, apresentável e disponível em todos os aspectos... ??Por
favor, Mistress Ashley, convença o seu primo a conviver mais."
- E qual é a sua resposta?
- Que você encontra toda a ternura e distracção de que
necessita dentro destas quatro paredes. Pensando melhor
- acrescentou -, a frase talvez não esteja devidamente construída. Preciso de ter mais cuidado com a língua.
- É-me indiferente o que lhes diz, desde que não envolva
um convite. Não tenho o mínimo desejo de procurar a filha de
ninguém.
- As apostas concentram-se pesadamente na Louise. São
numerosas as vozes convencidas de que ela acabará por caçá-lo. A terceira Miss Pascoe também ocupa um lugar cimeiro
nos prognósticos.
- Com a breca! - bradei, escandalizado. - Belinda Pascoe? Preferia casar com a Katie Searle, que ganha a vida a
lavar
roupa. Aqui para nós, prima Raquel, devia fazer um esforço
para me proteger. Porque não diz a essas almas caridosas que
sou um lobo solitário e passo o tempo a escrevinhar versos
latinos? Creio que isso bastaria para as desencorajar.
- Nada as desencorajará. A ideia de que um jovem e bem-parecido homem solteiro prefere a solidão e a poesia latina
só
serviria para lhe conferir um aspecto mais romântico. Essas
coisas estimulam o apetite.
- Então, que o satisfaçam noutro lugar. O que mais me
intriga é as mentes das mulheres desta parte do mundo (talvez
seja o mesmo em todos os lados) só se concentrarem no matrimónio.
- Pouco mais têm em que pensar. As possibilidades de escolha são muito limitadas. Eu própria não escapo, pode crer, e
forneceram-me uma lista de viúvos disponíveis. Há um par do
reino que vive no Oeste da Cornualha e reúne as condições
ideais: cinquenta anos, herdeiro, com as duas filhas casadas.
- Não me diga que é o velho Saint Ives? - articulei, abismado.
- Esse mesmo. Uma pessoa encantadora, segundo me asseguraram.
- Uma pessoa encantadora, hem? Ao meio-dia já está bêbado como um cacho e frequenta os caminhos solitários atrás
das serviçais. Billy Rowe, das terras de Barton, teve uma sobrinha a trabalhar em casa do Saint Ives, e um dia ficou tão
apavorada que fugiu sem ter tempo de levar a bagagem.
- Quem é que está agora a acreditar em mexericos? Coitado do homem... Se tivesse uma esposa, não necessitava de
frequentar os caminhos solitários atrás das serviçais. É claro
que tudo dependeria da companheira.
- Seja como for, com esse é que você não casa - declarei
com firmeza.
- Porque, ao menos, não o convida para jantar? - sugeriu, os olhos dominados por uma expressão solene que eu
aprendera a interpretar como malícia. - Podíamos promover
uma festa, Philip. As moças mais bonitas para si e os viúvos
mais favorecidos pela fortuna para mim. Mas creio que já escolhi. Se, um dia, me decidir, optarei pelo seu padrinho, Mister Kendall. Tem uma maneira desassombrada de falar que
muito aprecio.
É possível que ela o fizesse propositadamente, mas mordi o
anzol e explodi:
- Não acredito que fale a sério! Casar com o meu padrinho? Mas ele tem quase sessenta anos e é raro não estar resfriado ou sofrer de qualquer outra coisa.
- Isso significa que não encontra em sua casa o calor e
conforto que existem nesta.
Compreendi então que tentava desfrutar-me e rimos em
uníssono, mas mais tarde, ao ponderar o assunto, invadiu-me
uma ponta de desconfiança. Não subsistiam dúvidas de que o
meu padrinho se mostrava extremamente cortês nas suas visitas dominicais, e eles pareciam dar-se muito bem. Tínhamos
jantado em casa dele duas ou três vezes e revelara atenções
que
eu lhe desconhecia. Mas havia dez anos que enviuvara e decerto não acalentava a ideia fantástica de tentar a sorte junto
da
minha prima Raquel. De qualquer modo, ela não o aceitaria.
A ideia indignou-me. A minha prima Raquel em Pelyn? A minha prima Raquel, Mrs. Ashley, convertida em Mrs. Kendall?
Simplesmente monstruoso! Se um objectivo tão presunçoso
cruzava o espírito do velho, apressar-me-ia a cancelar os convites para o jantar de domingo. Por outro lado, isso representaria a interrupção de uma rotina de numerosos anos. Impossível, portanto. Assim, o costume tinha de se manter, mas, na
vez seguinte, quando ele, sentado à direita de Raquel,
inclinou
ligeiramente a cabeça para ela e, de súbito, soltou uma gargalhada e disse ??Excelente, excelente!??, perguntei-me que tema
estariam a abordar e porque riam tanto juntos. ??Trata-se de
mais um ardil de mulher??, reflecti. ??Assumir uma atitude que
permita as conclusões mais obscuras. ??
Raquel sentava-se em perfeito à-vontade, durante o jantar
de domingo, bem-humorada, com o meu padrinho à sua direita e o vigário à esquerda, ambos aparentemente munidos de
tópicos inesgotáveis para alimentar a conversa, e, sem motivo
aparente, tornei-me meditativo e silencioso, como Louise fizera naquele primeiro domingo, e o nosso sector da mesa lembrava uma reunião de quacres. Ela fixava o olhar no seu prato
e eu no meu e, de repente, ergui a vista e surpreendi Belinda
Pascoe com os olhos cravados em mim, o que me acabrunhou
ainda mais, ao recordar os rumores a nosso respeito que circulavam na região. O nosso silêncio obrigava Raquel a maiores esforços, numa tentativa para o neutralizar, pelo que ela,
o
meu padrinho e o vigário procuravam exceder-se mutuamente,
citando versos de autores célebres, enquanto o meu acabrunhamento se intensificava, embora em parte me congratulasse
com a ausência de Mrs. Pascoe, graças a uma indisposição passageira. Louise não interessava. Não era obrigado a conversar
com ela.
No entanto, quando todos se retiraram, Raquel chamou-me à pedra:
- Quando recebo os seus amigos, conto com um certo
apoio de sua parte, Philip. Que aconteceu? Passou todo o
tempo com uma cara horrível, sem dirigir uma única palavra
às suas vizinhas, coitadas. - E meneou a cabeça, num gesto
de desaprovação.
- Reinava tanta alegria no vosso lado, que me pareceu
desnecessário contribuir. Todos aqueles disparates sobre "Amo-te" em grego... E o vigário a proclamar que ??o prazer do meu
coração?, soava melhor em hebraico!
- E é verdade. A expressão brotou-lhe suavemente dos lábios e fiquei muito impressionada. O seu padrinho prometeu
mostrar-me o promontório do farol ao luar. Diz que é um cenário inesquecível.
- Escusa de contar com isso - determinei. - O farol situa-se na minha propriedade. Há uma antiga olaria, de data indefinida, na propriedade dele. Que lhe mostre isso. O acesso
está coberto de cardos e espinhos.
- Confesso que não compreendo o que se passa consigo.
Está a perder o sentido do humor.
Deu-me uma palmada amigável (proteccionista?) no ombro
e seguiu para o quarto. Era isso o que mais me enfurecia numa
mulher. A última palavra tinha de lhe pertencer sempre, deixando o interlocutor imerso em indignação ou, pelo menos,
perplexidade. Segundo parecia, uma mulher nunca se equivocava. Ou, se laborava em erro, manipulava-o em seu proveito
e conferia-lhe um aspecto diferente. Referia-se a um eventual
passeio ao luar com o meu padrinho, ou qualquer outra expedição com a mesma escolta - uma visita ao mercado de Lostwithiel, por exemplo - e perguntava-me, imperturbável, se
devia usar o novo chapéu que encomendara a um estabelecimento de Londres e chegara por portador especial ou um véu
de malha mais larga que permitia uma melhor observação do
rosto. E se eu amuava, replicando que me era indiferente mesmo que ocultasse as feições com uma máscara, exibia um sorriso malicioso.
Mais tarde, sós na biblioteca, sem a presença ou proximidade de Seecombe, a atitude alterava-se ligeiramente. Não me
encarava com uma expressão divertida e manifestava, por
exemplo, a intenção de confeccionar uma cobertura para a minha cadeira do escritório. Depois, serenamente, sem modos ou
palavras irritantes, fazia-me perguntas sobre o meu dia - com
quem estivera, o que fizera -, pelo que todo o meu amuo se
esvaía. Entretanto, a situação não deixava de me intrigar.
Para
quê começar por me espicaçar e depois esforçar-se por me
tranquilizar? Dir-se-ia que as alterações do meu estado de espírito lhe proporcionavam prazer, embora a causa escapasse à
minha compreensão. Só sabia que no primeiro caso experimentava profundo desconforto e no segundo felicidade e
paz.
Perto do final do mês, o bom tempo terminou. Choveu
ininterruptamente durante três dias, o que não permitiu a continuação dos trabalhos de jardinagem, as minhas digressões
a cavalo ou (e ainda bem) as visitas das terças e
quintas-feiras.
Foi Seecombe quem sugeriu aquilo que, inconscientemente,
nós protelávamos: o exame aos bens de Ambrose. Abordou o
assunto numa manhã em que Raquel e eu nos encontrávamos
atrás dos vidros da janela da biblioteca, entretidos a contemplar a chuva torrencial.
- O escritório para mim e o dia metida no boudoir para
si - decretei. - Que contêm as caixas acabadas de chegar de
Londres? Mais vestidos para escolher, provar e devolver?
- É tecido para cortinados - explicou ela. - Creio que a
visão da tia Phoebe carecia de discernimento. O quarto azul
acabou por se tornar cinzento. E a colcha da cama apresenta
picaduras de traças, mas não diga nada ao Seecombe. A traça
dos anos. Também tenciono renová-la.
Foi naquele momento que Seecombe entrou e, ao ver-nos
inactivos, propôs:
- Dada a inclemência do tempo, achei que os rapazes podiam proceder a uma limpeza extraordinária. O seu quarto carece de atenção especial, senhor. Mas eles não podem fazer nada enquanto os baús e caixas de Mistress Ashley inundarem o
chão.
Dirigi uma mirada de través à minha prima, receoso de que
a falta de tacto do mordomo a melindrasse, mas verifiquei,
surpreendido, que reagia satisfatoriamente.
- Tem toda a razão, Seecombe. Os rapazes não podem
proceder à limpeza do quarto até que as caixas sejam esvaziadas. Já adiámos a tarefa demasiado. Que diz, Philip?
- Concordo, se é esse o seu desejo. Manda acender o lume, Seecombe, e quando o quarto estiver devidamente aquecido subiremos.
Creio que ambos procurávamos ocultar um ao outro o que
pensávamos, e introduzimos uma espécie de jovialidade na
nossa atitude e conversa. Ela estava empenhada, por minha
causa, em não denunciar apreensão. E eu, igualmente desejoso
de lhe poupar aborrecimentos, exteriorizava uma euforia em
absoluto estranha ao meu temperamento. A chuva fustigava as
janelas do meu antigo quarto e surgira uma camada de humidade no tecto. O lume, que não era aceso desde o Inverno anterior, ardia com um crepitar que parecia alheio ao ambiente.
As caixas achavam-se alinhadas no chão, à espera de que as
abrissem e, no topo de uma, via-se o familiar rótulo azul-escuro, com o monograma ??A.A.?, em largas maiúsculas, a
um canto. Acudiu-me subitamente à memória que a depositara
sobre os joelhos dele, no dia em que partira na carruagem.
Raquel quebrou o silêncio que se estabelecera:
- Começamos pelo baú da roupa?
Exprimia-se em tom propositadamente duro e prático, e
estendi-lhe as chaves que confiara a Seecombe, à chegada.
- Como queira - repliquei.
Introduziu a chave apropriada na fechadura, fê-la girar e
levantou a tampa. O seu velho roupão encontrava-se em cima.
Eu conhecia-o bem - era de seda espessa vermelho-escura.
Os chinelos também estavam aí, alongados e abaulados.¨Olhei-os pensativamente, e foi como um regresso ao passado.¨ Lembrava-me de, certa manhã, ele entrar no meu quarto, quando
se barbeava, o rosto coberto de espuma. ??Sabes uma coisa; rapaz? Estive a pensar...,? A seguir, passara ao seu, onde agora
nos encontrávamos. Com o roupão e chinelos acabados de expor. Raquel retirou-os do baú e, em tom suave, perguntou:
- Que lhes faremos?
- Não sei. É a si que compete decidi-lo.
- Usava-os, se eu lhos oferecesse?
Era estranho. Eu ficara com o seu chapéu. Com a sua bengala. Com a jaqueta de caça provida de protecção de cabedal
nos cotovelos que Ambrose deixara em casa, quando partira
para a sua derradeira viagem. E não sentia a menor relutância
em usá-los. No entanto, aquelas outras coisas - o roupão e os
chinelos - infundiam-me a impressão de que abríramos a urna e o víamos morto na nossa frente.
- Não me parece.
Conservou-se silenciosa. Pousou-os na cama e a seguir
extraiu um fato leve, que ele decerto vestira no clima mais
quente. Não me era familiar, porém ela devia conhecê-lo bem.
Estava amarrotado de permanecer tanto tempo no baú, e colocou-o ao lado dos outros objectos, murmurando algo que me
pareceu ser: ??Precisa de ser engomado.?? De repente, começou
a tirar o resto rapidamente e amontoá-lo em cima da cama,
quase sem o olhar.
- Penso que, se nada disto lhe interessa, Philip, o pessoal,
que o estimava, talvez o aceite. Você saberá melhor do que eu
o que deve dar e a quem.
Suponho que não via o que fazia. Extraía as peças de vestuário do baú numa espécie de frenesim, enquanto eu a observava com curiosidade.
- E o baú? - acabou por perguntar. - Um baú é sempre
útil. Serve-lhe para alguma coisa? - Olhou-me e a voz tremeu
levemente.
De repente, encontrou-se nos meus braços, a cabeça pousada no meu peito.
- Oh, Philip, perdoe-me - sussurrou. - Devia tê-lo deixado tratar disto com o Seecombe. Foi loucura minha vir cá
acima.
Era curioso. Como abraçar uma criança. Ou um animal ferido. Toquei-lhe no cabelo e pousei a face na sua cabeça.
- Acalme-se, não chore - proferi no mesmo tom. - Vá
para a biblioteca. Ocupo-me disto sozinho.
- Não. Foi uma manifestação de fraqueza de minha parte.
Uma estupidez. É tão penoso para si como para mim. Queria-lhe tanto...
Movi os lábios pelo seu cabelo. Era uma sensação estranha.
E ela parecia tão pequena, colada a mim...
- Não me importo - assegurei-lhe. - Um homem é capaz de tratar destas coisas. Para uma mulher, é mais difícil.
Vá
para baixo, por favor, Raquel.
Afastou-se um pouco e secou as lágrimas com o lenço.
- Já me sinto melhor. Não voltará a acontecer. E retirei a
roupa, o mais íntimo dele. Se se encarregar de a distribuir
pelo
pessoal, ficar-lhe-ei grata. E guarde para si aquilo que
desejar.
Nunca receie usá-lo, que não me importarei.
As caixas com os livros encontravam-se mais perto da lareira. Peguei numa cadeira, ofereci-lha, para que se
instalasse
junto do calor, ajoelhei diante dos outros baús e abri-os, um
a
um.
Estava esperançado em que não tivesse reparado - eu próprio quase não me dera conta - de que a tratara pela primeira
vez por Raquel e não por prima simplesmente. Confesso que
não sei como aconteceu. Julgo que foi porque, tendo-a nos
braços, parecera muito mais pequena do que eu.
Os livros não possuíam o toque pessoal do vestuário. Havia velhas obras favoritas que eu conhecia e sempre o acompanhavam nas viagens, que Raquel me ofereceu para ter junto da
cama. Depararam-se-me igualmente os botões de punho, o relógio e a caneta, que também insistiu que aceitasse. Alguns
volumes eram-me totalmente estranhos, todavia ela explicou-mos: um fora adquirido em Roma, por um preço de ocasião,
apesar de se tratar de uma primeira edição, outro em Florença,
e descreveu o local da compra e o vendedor. Entretanto, à medida que falava, afigurava-se-me que a tensão se dissipara com
as lágrimas vertidas. Pousámo-los no chão e fui buscar um espanador, com que lhes limpou o pó. De vez em quando, lia-me uma passagem de um e esclarecia que agradava particularmente a Ambrose, ou mostrava-me uma ilustração.
Quando chegámos a uma obra com gravuras de disposição
de jardins, salientou que nos seria útil, levantou-se da
cadeira e
levou-a para junto da janela, a fim de aproveitar a luz do
dia.
Abri outro livro ao acaso, e um pedaço de papel caiu de
entre as folhas. Vi que continha a caligrafia de Ambrose e pareceu-me parte de uma carta, retirada do contexto geral e esquecida.
??É uma doença, sem dúvida. Ouvi falar dela com frequência, como a cleptomania ou qualquer outra moléstia, e decerto lhe foi transmitida pelo devasso do pai,
Alexander Coryn. Não posso determinar há quanto
tempo é vítima de semelhante anomalia. Talvez desde
sempre. Em todo o caso, explica grande parte do que até
agora me intrigava. Uma coisa é certa, meu rapaz: já não
posso, ou, melhor, já não me atrevo a deixá-la tomar
conta da minha bolsa, sob pena de me conduzir à penúria e a propriedade sofrer as consequências. é imperioso
que previnas o Kendall, se porventura... ?,
A frase não fora concluída e o texto não estava datado.
A letra parecia normal. Naquele momento, Raquel regressou
da janela e amarfanhei o papel na mão.
- Que tem aí? - perguntou.
- Nada de especial.
Atirei-o ao lume. Ela viu-o arder, enquanto as palavras
manuscritas se deformavam e desapareciam, pasto das chamas.
- Era a letra do Ambrose - articulou. - Que dizia? Tratava-se de uma carta?
- Uns apontamentos quaisquer, sem interesse - declarei,
esperançado em que não reparasse no calor que me acudia às
faces.
Peguei noutro volume e ela imitou-me. Continuámos a
amontoá-los no chão, mas agora estabelecera-se um pesado silêncio entre nós.
Capitulo décimo quinto
Completámos a separação dos livros cerca do meio-dia.
Seecombe enviou John e o jovem Arthur ao primeiro andar,
para saber se havia alguma coisa para transportar, antes de
irem almoçar.
- Deixa ficar a roupa na cama e arranja um pano para a
cobrir, John - indiquei. - Precisarei do Seecombe para me
ajudar a embrulhá-la, mas mais tarde. Para já, leva este monte
de livros para a biblioteca.
- E estes para o boudoir, Arthur, por favor - disse Raquel.
Eram as primeiras palavras que pronunciava desde que eu
queimara o pedaço de papel.
- Posso guardar os de jardinagem no meu quarto, Philip? - acrescentou.
- Com certeza. Aliás, são todos seus, como sabe.
- De modo algum. O Ambrose desejaria os outros na sua
biblioteca.
Endireitou-se, alisou o vestido e entregou o espanador a
John.
- Há uma refeição fria na sala de jantar, minha senhora -- informou ele.
- Obrigada, John, mas não me apetece comer.
Hesitei, postado junto da porta aberta, depois de os dois
rapazes saírem com os volumes.
- Acompanha-me à biblioteca, para ajudar a arrumar os
livros? - acabei por perguntar.
- Acho que não.
Pareceu disposta a acrescentar algo, mas não o fez e afastou-se em direcção ao seu quarto.
Almocei sem companhia, com o olhar perdido na chuva intensa através da janela da sala de jantar. Não merecia a pena
tentar sair, porque não poderia fazer nada. Seria preferível
que
completasse a tarefa de separar a roupa de Ambrose, com a
ajuda de Seecombe, o qual decerto ficaria satisfeito por o
consultar. A que se destinaria aos diferentes caseiros deveria
ser
escolhida cuidadosamente para que ninguém se melindrasse.
Desse modo, estaríamos ocupados toda a tarde. Embora me
esforçasse por pensar exclusivamente nisso, o estranho pedaço
de papel persistia em se intrometer nas minhas cogitações.
Que fazia entre as páginas daquele livro e há quanto tempo se
encontraria lá esquecido? Seis meses, um ano, mais tempo?
Teria Ambrose iniciado uma carta para mim que nunca chegara ao seu destino ou haveria outros pedaços de papel, pertencentes à mesma missiva, entre as páginas de diferentes volumes? Aquelas palavras deviam ter sido traçadas antes da sua
doença, pois a letra revelava-se firme e bem legível. Por
conseguinte, no Inverno ou Outono anterior. Acudiu-me uma ponta de embaraço. Que direito me assistia de tentar explorar o
passado, entregar-me a conjecturas sobre uma carta que nunca
me chegara às mãos? Não me dizia respeito, e começava a deplorar tê-la encontrado.
Seecombe e eu passámos a tarde a separar a roupa, que ele
acondicionava em embrulhos, enquanto eu escrevia bilhetes
explicativos que os acompanhariam. Sugeriu que fossem entregues pelo Natal, o que me pareceu boa ideia, decerto do agrado dos caseiros. Quando terminámos, voltei à biblioteca para
continuar a arrumar livros nas estantes. Descobri-me a mover
as folhas de cada um, antes de o colocar na prateleira, ao
mesmo tempo que experimentava uma sensação de embaraço, como se cometesse um pequeno delito. ??...como a cleptomania,
ou qualquer outra moléstia...". Porque recordava em particular essas palavras? Que quereria Ambrose dizer?
Peguei num dicionário e procurei o vocábulo ??cleptomania??: ??Tendência irresistível para o roubo em pessoas não
tentadas a fazê-lo por necessidade." A acusação dele não era
essa,
mas de esbanjamento, extravagância. Como podia esta última
constituir uma doença? Era totalmente impróprio de Ambrose, o mais generoso dos homens, acusar alguém de semelhante
hábito. No momento em que restituía o dicionário ao seu lugar, a porta abriu-se para dar passagem à minha prima Raquel.
Fiquei tão perturbado como se me tivesse surpreendido a assaltar a lata das bolachas à socapa.
- Acabei agora mesmo de arrumar os livros - expliquei,
e perguntava-me se a minha voz lhe soava tão falso como a
mim.
- Estou a ver - proferiu, indo sentar-se diante do lume.
Notei que já se vestira para o jantar, o que me deixou perplexo, pois não me apercebera de que fosse tão tarde.
- Também separámos a roupa. O Seecombe foi muito
prestável. Achámos preferível, se você não se opuser,
distribuí-la pelo Natal.
- Sim, ele falou-me disso há instantes e concordo plenamente.
Conquanto não soubesse determinar se se devia à minha
atitude ou à dela, detectei um certo constrangimento entre
nós.
- Não parou de chover em todo o dia - observei.
- Pois não - articulou a meia voz.
Baixei os olhos para as minhas mãos, cheias de pó dos livros.
- Se me dá licença, vou lavar-me e mudar de roupa para o
jantar.
Subi ao quarto e quando voltei ao piso térreo o jantar estava na mesa. Ocupámos os nossos lugares em silêncio. Seecombe, em obediência a um hábito antigo, interrompia a nossa
conversa com frequência, durante a refeição, quando tinha algo para comunicar, e naquela noite, perto do final, perguntou
a Raquel:
- Já mostrou a Mister Philip as novas coberturas, minha
senhora?
- Ainda não tive tempo - respondeu ela. - Mas se lhe
interessa vê-las, posso fazê-lo quando acabarmos de comer.
Diga ao John que as leve para a biblioteca.
- Coberturas? - estranhei. - De quais se trata?
- Não se recorda? Disse-lhe que as tinha encomendado
para o quarto azul.
- Ah, tem razão!
- Nunca tinha visto outras iguais, senhor - interpôs Seecombe. - Não deve haver nenhuma mansão nestas redondezas com algo que se lhes compare.
- Não esqueçamos que o tecido é importado da Itália -- salientou ela. - Só há uma loja em Londres onde se pode encontrar, segundo me indicaram em Florença. Quer de facto ver
as coberturas, Philip, ou não lhe interessam?
Dirigiu-me a pergunta com um misto de esperança e ansiedade, como se desejasse conhecer a minha opinião, mas temesse que me aborrecesse.
- Com certeza que quero - assenti, corando, sem compreender porquê. - Terei o maior prazer.
Levantámo-nos da mesa e dirigimo-nos à biblioteca. Seecombe seguiu-nos e, momentos depois, ele e John reuniam-se-nos com as coberturas, que estenderam sobre os móveis.
O mordomo não se equivocara. Dificilmente se encontrariam outras iguais em toda a Cornualha. Eu próprio não vira
quaisquer que se assemelhassem, mesmo em Oxford ou Londres. Eram numerosas. Brocados deslumbrantes e sedas de cores mais discretas. Na realidade, apresentavam certa
similaridade com as que se podiam observar num museu.
- São de alta qualidade, senhor - declarou em voz baixa,
como se estivesse numa igreja.
- Sugiro este azul para as cortinas da cama, o tom mais
escuro e ouro para os cortinados e tecido acolchoado para a
colcha - disse Raquel. - Que lhe parece, Philip? - Olhou-me com ansiedade, enquanto eu não sabia como responder.
- Não lhe agradam?
- Pelo contrário, agradam-me muito, mas - tornei a sentir que corava - não serão muito caras?
- Lá caras são de certeza, como qualquer artigo de qualidade, mas durarão muitos anos. Estou convencida de que o
seu neto e até o bisneto poderão dormir no quarto azul, com
esta colcha na cama, rodeados por estes cortinados. Não é verdade, Seecombe?
- Sem dúvida, minha senhora.
- A única coisa que interessa é saber se gosta ou não,
Philip.,
- É claro que gosto.
- Nesse caso, as coberturas pertencem-lhe. São uma oferta minha. Pode levá-las, Seecombe. Tratarei de escrever à
loja
de Londres para comunicar que ficamos com elas.
O mordomo e John enrolaram o tecido e levaram-no.
Pressenti que os olhos de Raquel se fixavam em mim e, para
os evitar, puxei do cachimbo e acendi-o com maior lentidão
do que habitualmente.
- Passa-se alguma coisa - murmurou. - De que se
trata?
Tornava-se-me difícil responder sem a melindrar, mas reuni coragem suficiente para declarar:
- Não devia dar-me presentes destes. São muito dispendiosos.
- Representam a ínfima parte do que tem feito por mim.
A sua voz era suave, quase implorativa, e apercebi-me de
uma expressão de mágoa no olhar.
- É extrema gentileza de sua parte, mas acho que não o
devia ter feito.
- Deixe ser eu a decidi-lo. Quando o tecido for aplicado,
ficará encantado com o efeito.
Na verdade, sentia-me embaraçado e desconfortável, e não
por desejar oferecer-me algo, o que se me afigurava generoso e
impulsivo de sua parte, que eu aceitaria sem hesitar no dia
anterior. Mas agora, depois de ler o infernal pedaço de papel,
assolava-me a dúvida de que o que ela pretendia fazer por mim
redundasse em sua desvantagem, e, ao assumir uma atitude
mais ou menos passiva, envolvia-me em qualquer coisa que
não entendia totalmente.
- Aquele livro sobre jardinagem vai ser-nos muito útil -- disse ela após uma pausa. - Já não me lembrava que o tinha
oferecido ao Ambrose. Não deixe de observar as ilustrações.
É claro que algumas não servem para aqui, mas outras podem
adaptar-se perfeitamente. Um caminho empedrado, por exemplo, sobranceiro ao mar através dos campos e, do lado oposto,
um jardim imerso na água, como havia nas villas de Roma que
eu costumava visitar.
Não sei como o consegui, mas surpreendi-me a perguntar-lhe com aparente desprendimento:
- Viveu sempre em Itália?
- Exacto. O Ambrose não lhe disse? A família de minha
mãe era de Roma, e o meu pai, Alexander Coryn, tinha dificuldade em criar raízes num lugar. Não suportava a Inglaterra,
e creio que não se dava muito bem com os seus familiares da
Cornualha. Preferia a vida em Roma, e ele e a minha mãe pareciam feitos um para o outro. Mas levavam uma existência
precária, sempre com dificuldades materiais. Eu suportava-a
em criança, mas à medida que crescia a realidade tornou-se-me
insustentável.
- Já não vivem?
- Não. O meu pai morreu quando eu tinha dezasseis
anos. A minha mãe e eu vivemos sós durante cinco anos. Até
que casei com Cosimo Sangalletti. E foram cinco anos terríveis, a saltitar de cidade para cidade, nem sempre com uma
ideia concreta de onde viria a refeição seguinte. A minha juventude não foi um mar de rosas, Philip. Domingo passado,
quando jantávamos juntos, não pude deixar de pensar como
fora diferente da de Louise.
Por conseguinte, casara aos vinte e um anos. A mesma idade de Louise actualmente. Especulei mentalmente em como
teria vivido com a mãe até que conhecera Sangalletti. Talvez
dessem ambas lições de italiano, como agora Raquel se
prontificara a fazer.
- A minha mãe era muito bonita, diferente de mim, excepto na cor da pele. Alta, quase corpulenta. E, à semelhança
de grande parte das mulheres do seu tipo, tornou-se subitamente desleixada, perdeu a formosura e engordou. Congratulei-me por o meu pai já não viver para assistir à metamorfose
e
a muitas das coisas que ela (e eu, diga-se de passagem) fez.
Embora se exprimisse com naturalidade, sem azedume, eu
reflectia que, no fundo, a conhecia muito pouco e mal. Cha mara menina protegida ou algo do género a Louise, o que cor respondia à verdade, e acudiu-me subitamente a ideia de que
se me podia aplicar o mesmo. Com vinte e quatro anos, à par te os que passara em Harrow e Oxford, a única coisa do mundo que sabia limitava-se à propriedade que me circundava.
Quando uma pessoa como a minha prima Raquel se transferia
de um lugar para outro, trocava um lar por um segundo e depois por um terceiro, casava e a seguir pela segunda vez, como
se sentiria? Fecharia o passado atrás de si como uma porta e
não voltaria a pensar nele ou seria assolada por recordações
constantes?
- Ele era muito mais velho que você? - aventurei-me a
perguntar.
- O Cosimo? Apenas um ano. Foi apresentado a minha
mãe em Florença, pois ela sempre desejara conhecer os Sangalletti. Ele levou um ano a decidir-se entre as duas, até que
ela
perdeu a beleza, coitada, e, simultaneamente, o interesse
dele.
Mas suponho que o Ambrose lhe descreveu tudo por carta.
A história não é das mais agradáveis.
Estive quase a replicar: ??Ele mostrou-se mais reservado do
que você supõe. Se havia alguma coisa que o magoava ou chocava, fingia que não existia, que não acontecera. Nunca me falou da sua vida antes de casarem, à excepção de que
Sangalletti
perdeu a vida num duelo." Ao invés, não aludi a um único
desses pormenores. E cheguei repentinamente à conclusão de
que não queria inteirar-me de nada referente ao primeiro marido, à mãe e à vida em Florença. Desejava fechar a porta a
tudo aquilo. E trancá-la.
- Sim, ele escreveu-me a mencionar tudo isso.
Suspirou e ajeitou a almofada a que apoiava a cabeça.
- Parece que foi há muito tempo. A jovem que suportou
aqueles anos era outra pessoa. Aguentei quase dez anos de vida em comum com Cosimo Sangalletti. Não quereria voltar à
juventude, ainda que me oferecessem o mundo. Mas é claro
que a minha posição pode estar influenciada por preconceitos.
- Fala como se tivesse noventa e nove anos.
- Para uma mulher, quase os tenho. Já cumpri trinta e
cinco.
Olhou-me, com um leve sorriso.
- Julgava-a mais velha.
- Aceito como um cumprimento aquilo que a maioria das
mulheres encararia como um insulto. Obrigada, Philip. - Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, inquiriu: - Que continha realmente o pedaço de papel que queimou esta manhã?
A brusquidão do ataque apanhou-me desprevenido. Olhei-a
sem conseguir proferir palavra e engoli em seco.
- Qual papel? - acabei por replicar.
- Sabe perfeitamente ao que me refiro. O que tinha sido
escrito pelo Ambrose e você queimou para que eu não o lesse.
Decidi que meia-verdade era preferível a uma mentira. Embora sentisse o calor acudir-me às faces, enfrentei-lhe o
olhar.
- Creio que era parte de uma carta que me escrevera.
Mostrava-se simplesmente preocupado com as despesas. Eram
apenas duas ou três linhas e não me recordo bem das palavras
exactas. Queimei-a porque receei que você ficasse triste se a
lesse.
Verifiquei com alívio que a expressão dela perdia parte da
tensão. As mãos, cujos dedos pousavam nos anéis, baixaram
para o regaço.
- Só isso? Estava tão intrigada... Não conseguia compreender. - Fez uma pausa, enquanto eu agradecia aos Céus
o facto de ter aceitado a explicação. - Aquilo a que chamava
as minhas extravagâncias constituía sempre motivo de preocupação para o Ambrose. Admira-me que não lhe falasse
disso mais vezes. A vida na Itália diferia radicalmente da que
conhecera aqui, e nunca conseguiu aclimatar-se. Sei do fundo
do coração que guardava ressentimento contra a existência que
eu tivera de suportar antes de nos conhecermos. Pagou todas
aquelas horríveis dívidas.
Não me pronunciei, mas enquanto a observava sentia a ansiedade dissipar-se. A meia-verdade resultara eficiente, e ela
agora exprimia-se quase com desprendimento.
- Era muito generoso nos primeiros meses - prosseguiu.
- Não imagina o que isso significava para mim, Philip. Dispunha finalmente de alguém em quem podia confiar e, sobretudo, amar. Creio que me daria tudo o que lhe pedisse. Foi
por isso que, quando adoeceu... - Interrompeu-se e o olhar
enevoou-se. - Foi por isso que me custou tanto assistir à
transformação que sofreu.
- Quer dizer que deixou de ser generoso?
- Não, continuou a sê-lo, mas de uma maneira diferente.
Comprava-me coisas (presentes, jóias), como se tentasse submeter-me a um teste. Mas se lhe pedia dinheiro para uma necessidade da casa, algo de que não podíamos prescindir, recusava-mo. Olhava-me com uma expressão de desconfiança,
perguntava para que o queria, se o destinava a alguém. Acabei
por ter de procurar Rainaldi e solicitar-lhe o suficiente para
pagar ao pessoal.
- O Ambrose inteirou-se disso?
- Inteirou-se. Nunca simpatizara com o Rainaldi, mas
quando descobriu que eu recorrera a ele foi o fim. Proibiu-me
de voltar a admiti-lo na villa. Custa-me confessar isto, mas
tinha de me ausentar de casa furtivamente, quando ele repousava, para ir pedir-lhe o dinheiro de que necessitava para a
casa. -- Gesticulou e levantou-se. - Deus é testemunha de que não
desejava revelar-lhe isto.
Aproximou-se da janela, afastou o cortinado e olhou a
chuva com uma expressão pensativa.
- Porquê?
- Porque queria que o recordasse como era aqui. Há o retrato dele nesta casa. O seu Ambrose era aquele. Deixe-o permanecer assim. Os seus últimos meses foram meus, e não os
quero partilhar com ninguém. Consigo menos do que com
qualquer outra pessoa.
E eu não o queria partilhar com ela. Desejava que fechasse
todas aquelas portas pertencentes ao passado, uma a uma.
- Sabe o que aconteceu? - persistiu, virando-se da janela
e fitando-me. - Fizemos mal em abrir aqueles baús. Devíamos tê-los deixado como estavam, sem tocar nos objectos que
lhe pertenceram. Pressenti-o no instante em que abrimos o
primeiro e vi o roupão e os chinelos. Libertámos algo que até
então não se encontrava connosco. Uma espécie de sentimento
amargo. - Empalidecera e entrelaçava os dedos na sua frente.
- Não me esqueci das cartas que atirou ao lume e arderam.
Tentei não voltar a pensar nelas, mas hoje, desde que abrimos
a bagagem, foi como se as tivesse voltado a ler.
Levantei-me e conservei-me de costas para a chaminé, sem
saber o que lhe dizer, enquanto ela percorria o aposento em
cadenciado vaivém.
- O Ambrose escreveu que eu o vigiava - continuou.
- Sem dúvida que o fazia, receosa de que se molestasse de algum modo. Rainaldi aconselhou-me a recorrer às freiras do
convento para me ajudarem, mas recusei, de contrário ele suporia que se destinavam a espiá-lo. Chegara ao ponto de não
confiar em ninguém. Às vezes, até recusava receber os médicos, apesar de se revelarem pacientes e compreensivos. Depois,
pediu-me que despedisse os empregados domésticos, um a um,
até que só ficou o Giuseppe. Nesse confiava inteiramente. Dizia que tinha olhos de cão...
Interrompeu-se e voltou o rosto para o outro lado. Recordei-me do empregado que me recebera à entrada da villa e do
seu desejo de me poupar sofrimento. Era estranho que Ambrose também acreditasse naqueles olhos sinceros e fiéis. E eu
só vira o homem uma vez.
- Não interessa evocar tudo isso agora - declarei.
- Não adianta nada ao Ambrose e apenas serve para a torturar. Pela parte que me toca, o que aconteceu entre vocês não
me diz respeito. Pertence tudo ao passado e deve ser esquecido. A villa não era o lar dele. Nem o seu, Raquel, quando casaram. O seu lar é aqui.
- Às vezes - murmurou, detendo-se na minha frente -,
parece-se tanto com ele que me assusta. Vejo os seus olhos,
com a mesma expressão, cravados em mim, e é como se não tivesse morrido e tudo o que suportei reaparecesse para nova
provação. Não conseguiria aguentar aquele clima de suspeita,
dia após dia, noite após noite.
Enquanto ela falava, eu conjurava uma imagem clara da
Villa Sangalletti. Revia o pequeno pátio e o laburno com o aspecto que decerto apresentaria na Primavera, a cadeira em que
Ambrose se sentava e a bengala a seu lado. Notava o silêncio
do local, aspirava o ar húmido, observava a fonte gotejante.
E, pela primeira vez, a mulher que olhava para baixo, da varanda, não constituía um produto da minha imaginação e era
Raquel. Contemplava Ambrose com a mesma expressão implorativa, de sofrimento, de súplica. Senti-me de súbito muito
velho, assolado por um novo vigor que não compreendia.
Obedecendo a um impulso, estendi-lhe as mãos.
- Venha cá, Raquel.
Cruzou o aposento e pousou as suas nelas.
- Não existe qualquer clima de suspeita nesta casa -- acrescentei. - Ela pertence-me. A suspeita que uma pessoa
acalenta parte com ela quando morre. A roupa foi toda dividida por embrulhos, que se guardaram. Já não tem nada de comum connosco. Doravante, você vai recordar o Ambrose da
mesma maneira que eu. Conservaremos o seu velho chapéu no
cabide do átrio. E a bengala, com as outras, no respectivo lugar. Passou a pertencer aqui, Raquel, como ele no passado e eu
actualmente. Fazemos os três parte de tudo isto. Compreende?
Olhou-me em silêncio por um momento, sem retirar as
mãos das minhas.
- Compreendo - sussurrou.
Sentia-me curiosamente comovido, como se tudo o que fazia e dizia tivesse sido planeado para meu uso exclusivo, ao
mesmo tempo que uma voz débil me segredava: ??Nunca poderás regressar a este momento. Nunca... nunca...,? Continuámos de mãos unidas, e ela acabou por perguntar:
- Porque é tão bondoso para mim, Philip?
Lembrei-me de que, de manhã, quando chorara, repousara
a cabeça sobre o meu coração, e eu beijara-lhe o cabelo. Agora, ansiava por que a cena se repetisse. Mais do que tudo
neste mundo. Mas desta vez a minha prima não vertia lágrimas nem
apoiava a cabeça no meu peito. Limitava-se a permanecer
diante de mim, com as minhas mãos entre as suas.
- Não sou bondoso para consigo - asseverei. - Pretendo apenas que se sinta feliz.
Desprendeu as mãos, pegou no castiçal para recolher ao
quarto e, antes de sair, proferiu:
- Boa noite, Philip, e que Deus o abençoe. Um dia, é
possível que venha a conhecer a felicidade que eu outrora experimentei.
Ouvi os seus passos na escada e sentei-me, para fixar os
olhos no lume da biblioteca. Afigurava-se-me que, se subsistia
alguma amargura na casa, não provinha dela, nem de Ambrose, mas consistia numa semente alojada no meu coração, de
que nunca lhe falaria. O velho pecado da inveja que supunha
sepultado e esquecido voltava a achar-se presente. Contudo,
agora não invejava Raquel, mas Ambrose, a pessoa que até então mais amara no mundo.
Completámos a separação dos livros cerca do meio-dia.
Seecombe enviou John e o jovem Arthur ao primeiro andar,
para saber se havia alguma coisa para transportar, antes de
irem almoçar.
- Deixa ficar a roupa na cama e arranja um pano para a
cobrir, John - indiquei. - Precisarei do Seecombe para me
ajudar a embrulhá-la, mas mais tarde. Para já, leva este monte
de livros para a biblioteca.
- E estes para o boudoir, Arthur, por favor - disse Raquel.
Eram as primeiras palavras que pronunciava desde que eu
queimara o pedaço de papel.
- Posso guardar os de jardinagem no meu quarto, Philip? - acrescentou.
- Com certeza. Aliás, são todos seus, como sabe.
- De modo algum. O Ambrose desejaria os outros na sua
biblioteca.
Endireitou-se, alisou o vestido e entregou o espanador a
John.
- Há uma refeição fria na sala de jantar, minha senhora -- informou ele.
- Obrigada, John, mas não me apetece comer.
Hesitei, postado junto da porta aberta, depois de os dois
rapazes saírem com os volumes.
- Acompanha-me à biblioteca, para ajudar a arrumar os
livros? - acabei por perguntar.
- Acho que não.
Pareceu disposta a acrescentar algo, mas não o fez e afastou-se em direcção ao seu quarto.
Almocei sem companhia, com o olhar perdido na chuva intensa através da janela da sala de jantar. Não merecia a pena
tentar sair, porque não poderia fazer nada. Seria preferível
que
completasse a tarefa de separar a roupa de Ambrose, com a
ajuda de Seecombe, o qual decerto ficaria satisfeito por o
consultar. A que se destinaria aos diferentes caseiros deveria
ser
escolhida cuidadosamente para que ninguém se melindrasse.
Desse modo, estaríamos ocupados toda a tarde. Embora me
esforçasse por pensar exclusivamente nisso, o estranho pedaço
de papel persistia em se intrometer nas minhas cogitações.
Que fazia entre as páginas daquele livro e há quanto tempo se
encontraria lá esquecido? Seis meses, um ano, mais tempo?
Teria Ambrose iniciado uma carta para mim que nunca chegara ao seu destino ou haveria outros pedaços de papel, pertencentes à mesma missiva, entre as páginas de diferentes volumes? Aquelas palavras deviam ter sido traçadas antes da sua
doença, pois a letra revelava-se firme e bem legível. Por
conseguinte, no Inverno ou Outono anterior. Acudiu-me uma ponta de embaraço. Que direito me assistia de tentar explorar o
passado, entregar-me a conjecturas sobre uma carta que nunca
me chegara às mãos? Não me dizia respeito, e começava a deplorar tê-la encontrado.
Seecombe e eu passámos a tarde a separar a roupa, que ele
acondicionava em embrulhos, enquanto eu escrevia bilhetes
explicativos que os acompanhariam. Sugeriu que fossem entregues pelo Natal, o que me pareceu boa ideia, decerto do agrado dos caseiros. Quando terminámos, voltei à biblioteca para
continuar a arrumar livros nas estantes. Descobri-me a mover
as folhas de cada um, antes de o colocar na prateleira, ao
mesmo tempo que experimentava uma sensação de embaraço, como se cometesse um pequeno delito. ??...como a cleptomania,
ou qualquer outra moléstia...". Porque recordava em particular essas palavras? Que quereria Ambrose dizer?
Peguei num dicionário e procurei o vocábulo ??cleptomania??: ??Tendência irresistível para o roubo em pessoas não
tentadas a fazê-lo por necessidade." A acusação dele não era
essa,
mas de esbanjamento, extravagância. Como podia esta última
constituir uma doença? Era totalmente impróprio de Ambrose, o mais generoso dos homens, acusar alguém de semelhante
hábito. No momento em que restituía o dicionário ao seu lugar, a porta abriu-se para dar passagem à minha prima Raquel.
Fiquei tão perturbado como se me tivesse surpreendido a assaltar a lata das bolachas à socapa.
- Acabei agora mesmo de arrumar os livros - expliquei,
e perguntava-me se a minha voz lhe soava tão falso como a
mim.
- Estou a ver - proferiu, indo sentar-se diante do lume.
Notei que já se vestira para o jantar, o que me deixou perplexo, pois não me apercebera de que fosse tão tarde.
- Também separámos a roupa. O Seecombe foi muito
prestável. Achámos preferível, se você não se opuser,
distribuí-la pelo Natal.
- Sim, ele falou-me disso há instantes e concordo plenamente.
Conquanto não soubesse determinar se se devia à minha
atitude ou à dela, detectei um certo constrangimento entre
nós.
- Não parou de chover em todo o dia - observei.
- Pois não - articulou a meia voz.
Baixei os olhos para as minhas mãos, cheias de pó dos livros.
- Se me dá licença, vou lavar-me e mudar de roupa para o
jantar.
Subi ao quarto e quando voltei ao piso térreo o jantar estava na mesa. Ocupámos os nossos lugares em silêncio. Seecombe, em obediência a um hábito antigo, interrompia a nossa
conversa com frequência, durante a refeição, quando tinha algo para comunicar, e naquela noite, perto do final, perguntou
a Raquel:
- Já mostrou a Mister Philip as novas coberturas, minha
senhora?
- Ainda não tive tempo - respondeu ela. - Mas se lhe
interessa vê-las, posso fazê-lo quando acabarmos de comer.
Diga ao John que as leve para a biblioteca.
- Coberturas? - estranhei. - De quais se trata?
- Não se recorda? Disse-lhe que as tinha encomendado
para o quarto azul.
- Ah, tem razão!
- Nunca tinha visto outras iguais, senhor - interpôs Seecombe. - Não deve haver nenhuma mansão nestas redondezas com algo que se lhes compare.
- Não esqueçamos que o tecido é importado da Itáliasalientou ela. - Só há uma loja em Londres onde se pode encontrar, segundo me indicaram em Florença. Quer de facto ver
as coberturas, Philip, ou não lhe interessam?
Dirigiu-me a pergunta com um misto de esperança e ansiedade, como se desejasse conhecer a minha opinião, mas temesse que me aborrecesse.
- Com certeza que quero - assenti, corando, sem compreender porquê. - Terei o maior prazer.
Levantámo-nos da mesa e dirigimo-nos à biblioteca. Seecombe seguiu-nos e, momentos depois, ele e John reuniam-se-nos com as coberturas, que estenderam sobre os móveis.
O mordomo não se equivocara. Dificilmente se encontrariam outras iguais em toda a Cornualha. Eu próprio não vira
quaisquer que se assemelhassem, mesmo em Oxford ou Londres. Eram numerosas. Brocados deslumbrantes e sedas de cores mais discretas. Na realidade, apresentavam certa
similaridade com as que se podiam observar num museu.
- São de alta qualidade, senhor - declarou em voz baixa,
como se estivesse numa igreja.
- Sugiro este azul para as cortinas da cama, o tom mais
escuro e ouro para os cortinados e tecido acolchoado para a
colcha - disse Raquel. - Que lhe parece, Philip? - Olhou-me com ansiedade, enquanto eu não sabia como responder.
- Não lhe agradam?
- Pelo contrário, agradam-me muito, mas - tornei a sentir que corava - não serão muito caras?
- Lá caras são de certeza, como qualquer artigo de qualidade, mas durarão muitos anos. Estou convencida de que o
seu neto e até o bisneto poderão dormir no quarto azul, com
esta colcha na cama, rodeados por estes cortinados. Não é verdade, Seecombe?
- Sem dúvida, minha senhora.
- A única coisa que interessa é saber se gosta ou não,
Philip.,
- É claro que gosto.
- Nesse caso, as coberturas pertencem-lhe. São uma oferta minha. Pode levá-las, Seecombe. Tratarei de escrever à
loja
de Londres para comunicar que ficamos com elas.
O mordomo e John enrolaram o tecido e levaram-no.
Pressenti que os olhos de Raquel se fixavam em mim e, para
os evitar, puxei do cachimbo e acendi-o com maior lentidão
do que habitualmente.
- Passa-se alguma coisa - murmurou. - De que se
trata?
Tornava-se-me difícil responder sem a melindrar, mas reuni coragem suficiente para declarar:
- Não devia dar-me presentes destes. São muito dispendiosos.
- Representam a ínfima parte do que tem feito por mim.
A sua voz era suave, quase implorativa, e apercebi-me de
uma expressão de mágoa no olhar.
- É extrema gentileza de sua parte, mas acho que não o
devia ter feito.
- Deixe ser eu a decidi-lo. Quando o tecido for aplicado,
ficará encantado com o efeito.
Na verdade, sentia-me embaraçado e desconfortável, e não
por desejar oferecer-me algo, o que se me afigurava generoso e
impulsivo de sua parte, que eu aceitaria sem hesitar no dia
anterior. Mas agora, depois de ler o infernal pedaço de papel,
assolava-me a dúvida de que o que ela pretendia fazer por mim
redundasse em sua desvantagem, e, ao assumir uma atitude
mais ou menos passiva, envolvia-me em qualquer coisa que
não entendia totalmente.
- Aquele livro sobre jardinagem vai ser-nos muito útil -- disse ela após uma pausa. - Já não me lembrava que o tinha
oferecido ao Ambrose. Não deixe de observar as ilustrações.
É claro que algumas não servem para aqui, mas outras podem
adaptar-se perfeitamente. Um caminho empedrado, por exemplo, sobranceiro ao mar através dos campos e, do lado oposto,
um jardim imerso na água, como havia nas villas de Roma que
eu costumava visitar.
Não sei como o consegui, mas surpreendi-me a perguntar-lhe com aparente desprendimento:
- Viveu sempre em Itália?
- Exacto. O Ambrose não lhe disse? A família de minha
mãe era de Roma, e o meu pai, Alexander Coryn, tinha dificuldade em criar raízes num lugar. Não suportava a Inglaterra,
e creio que não se dava muito bem com os seus familiares da
Cornualha. Preferia a vida em Roma, e ele e a minha mãe pareciam feitos um para o outro. Mas levavam uma existência
precária, sempre com dificuldades materiais. Eu suportava-a
em criança, mas à medida que crescia a realidade tornou-se-me
insustentável.
- Já não vivem?
- Não. O meu pai morreu quando eu tinha dezasseis
anos. A minha mãe e eu vivemos sós durante cinco anos. Até
que casei com Cosimo Sangalletti. E foram cinco anos terríveis, a saltitar de cidade para cidade, nem sempre com uma
ideia concreta de onde viria a refeição seguinte. A minha juventude não foi um mar de rosas, Philip. Domingo passado,
quando jantávamos juntos, não pude deixar de pensar como
fora diferente da de Louise.
Por conseguinte, casara aos vinte e um anos. A mesma idade de Louise actualmente. Especulei mentalmente em como
teria vivido com a mãe até que conhecera Sangalletti. Talvez
dessem ambas lições de italiano, como agora Raquel se
prontificara a fazer.
- A minha mãe era muito bonita, diferente de mim, excepto na cor da pele. Alta, quase corpulenta. E, à semelhança
de grande parte das mulheres do seu tipo, tornou-se subitamente desleixada, perdeu a formosura e engordou. Congratulei-me por o meu pai já não viver para assistir à metamorfose
e
a muitas das coisas que ela (e eu, diga-se de passagem) fez.
Embora se exprimisse com naturalidade, sem azedume, eu
reflectia que, no fundo, a conhecia muito pouco e mal. Chamara menina protegida ou algo do género a Louise, o que cor respondia à verdade, e acudiu-me subitamente a ideia de que
se me podia aplicar o mesmo. Com vinte e quatro anos, à par te os que passara em Harrow e Oxford, a única coisa do mundo que sabia limitava-se à propriedade que me circundava.
Quando uma pessoa como a minha prima Raquel se transferia
de um lugar para outro, trocava um lar por um segundo e depois por um terceiro, casava e a seguir pela segunda vez, como
se sentiria? Fecharia o passado atrás de si como uma porta e
não voltaria a pensar nele ou seria assolada por recordações
constantes?
- Ele era muito mais velho que você? - aventurei-me a
perguntar.
- O Cosimo? Apenas um ano. Foi apresentado a minha
mãe em Florença, pois ela sempre desejara conhecer os Sangalletti. Ele levou um ano a decidir-se entre as duas, até que
ela
perdeu a beleza, coitada, e, simultaneamente, o interesse
dele.
Mas suponho que o Ambrose lhe descreveu tudo por carta.
A história não é das mais agradáveis.
Estive quase a replicar: ??Ele mostrou-se mais reservado do
que você supõe. Se havia alguma coisa que o magoava ou chocava, fingia que não existia, que não acontecera. Nunca me falou da sua vida antes de casarem, à excepção de que
Sangalletti
perdeu a vida num duelo." Ao invés, não aludi a um único
desses pormenores. E cheguei repentinamente à conclusão de
que não queria inteirar-me de nada referente ao primeiro marido, à mãe e à vida em Florença. Desejava fechar a porta a
tudo aquilo. E trancá-la.
- Sim, ele escreveu-me a mencionar tudo isso.
Suspirou e ajeitou a almofada a que apoiava a cabeça.
- Parece que foi há muito tempo. A jovem que suportou
aqueles anos era outra pessoa. Aguentei quase dez anos de vida em comum com Cosimo Sangalletti. Não quereria voltar à
juventude, ainda que me oferecessem o mundo. Mas é claro
que a minha posição pode estar influenciada por preconceitos.
- Fala como se tivesse noventa e nove anos.
- Para uma mulher, quase os tenho. Já cumpri trinta e
cinco.
Olhou-me, com um leve sorriso.
- Julgava-a mais velha.
- Aceito como um cumprimento aquilo que a maioria das
mulheres encararia como um insulto. Obrigada, Philip. - Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, inquiriu: - Que continha realmente o pedaço de papel que queimou esta manhã?
A brusquidão do ataque apanhou-me desprevenido. Olhei-a
sem conseguir proferir palavra e engoli em seco.
- Qual papel? - acabei por replicar.
- Sabe perfeitamente ao que me refiro. O que tinha sido
escrito pelo Ambrose e você queimou para que eu não o lesse.
Decidi que meia-verdade era preferível a uma mentira. Embora sentisse o calor acudir-me às faces, enfrentei-lhe o
olhar.
- Creio que era parte de uma carta que me escrevera.
Mostrava-se simplesmente preocupado com as despesas. Eram
apenas duas ou três linhas e não me recordo bem das palavras
exactas. Queimei-a porque receei que você ficasse triste se a
lesse.
Verifiquei com alívio que a expressão dela perdia parte da
tensão. As mãos, cujos dedos pousavam nos anéis, baixaram
para o regaço.
- Só isso? Estava tão intrigada... Não conseguia compreender. - Fez uma pausa, enquanto eu agradecia aos Céus
o facto de ter aceitado a explicação. - Aquilo a que chamava
as minhas extravagâncias constituía sempre motivo de preocupação para o Ambrose. Admira-me que não lhe falasse
disso mais vezes. A vida na Itália diferia radicalmente da que
conhecera aqui, e nunca conseguiu aclimatar-se. Sei do fundo
do coração que guardava ressentimento contra a existência que
eu tivera de suportar antes de nos conhecermos. Pagou todas
aquelas horríveis dívidas.
Não me pronunciei, mas enquanto a observava sentia a ansiedade dissipar-se. A meia-verdade resultara eficiente, e ela
agora exprimia-se quase com desprendimento.
- Era muito generoso nos primeiros meses - prosseguiu.
- Não imagina o que isso significava para mim, Philip. Dispunha finalmente de alguém em quem podia confiar e, sobretudo, amar. Creio que me daria tudo o que lhe pedisse. Foi
por isso que, quando adoeceu... - Interrompeu-se e o olhar
enevoou-se. - Foi por isso que me custou tanto assistir à
transformação que sofreu.
- Quer dizer que deixou de ser generoso?
- Não, continuou a sê-lo, mas de uma maneira diferente.
Comprava-me coisas (presentes, jóias), como se tentasse submeter-me a um teste. Mas se lhe pedia dinheiro para uma necessidade da casa, algo de que não podíamos prescindir, recusava-mo. Olhava-me com uma expressão de desconfiança,
perguntava para que o queria, se o destinava a alguém. Acabei
por ter de procurar Rainaldi e solicitar-lhe o suficiente para
pagar ao pessoal.
- O Ambrose inteirou-se disso?
- Inteirou-se. Nunca simpatizara com o Rainaldi, mas
quando descobriu que eu recorrera a ele foi o fim. Proibiu-me
de voltar a admiti-lo na villa. Custa-me confessar isto, mas
tinha de me ausentar de casa furtivamente, quando ele repousava, para ir pedir-lhe o dinheiro de que necessitava para a
casa. -- Gesticulou e levantou-se. - Deus é testemunha de que não
desejava revelar-lhe isto.
Aproximou-se da janela, afastou o cortinado e olhou a
chuva com uma expressão pensativa.
- Porquê?
- Porque queria que o recordasse como era aqui. Há o retrato dele nesta casa. O seu Ambrose era aquele. Deixe-o permanecer assim. Os seus últimos meses foram meus, e não os
quero partilhar com ninguém. Consigo menos do que com
qualquer outra pessoa.
E eu não o queria partilhar com ela. Desejava que fechasse
todas aquelas portas pertencentes ao passado, uma a uma.
- Sabe o que aconteceu? - persistiu, virando-se da janela
e fitando-me. - Fizemos mal em abrir aqueles baús. Devíamos tê-los deixado como estavam, sem tocar nos objectos que
lhe pertenceram. Pressenti-o no instante em que abrimos o
primeiro e vi o roupão e os chinelos. Libertámos algo que até
então não se encontrava connosco. Uma espécie de sentimento
amargo. - Empalidecera e entrelaçava os dedos na sua frente.
- Não me esqueci das cartas que atirou ao lume e arderam.
Tentei não voltar a pensar nelas, mas hoje, desde que abrimos
a bagagem, foi como se as tivesse voltado a ler.
Levantei-me e conservei-me de costas para a chaminé, sem
saber o que lhe dizer, enquanto ela percorria o aposento em
cadenciado vaivém.
- O Ambrose escreveu que eu o vigiava - continuou.
- Sem dúvida que o fazia, receosa de que se molestasse de algum modo. Rainaldi aconselhou-me a recorrer às freiras do
convento para me ajudarem, mas recusei, de contrário ele suporia que se destinavam a espiá-lo. Chegara ao ponto de não
confiar em ninguém. Às vezes, até recusava receber os médicos, apesar de se revelarem pacientes e compreensivos. Depois,
pediu-me que despedisse os empregados domésticos, um a um,
até que só ficou o Giuseppe. Nesse confiava inteiramente. Dizia que tinha olhos de cão...
Interrompeu-se e voltou o rosto para o outro lado. Recordei-me do empregado que me recebera à entrada da villa e do
seu desejo de me poupar sofrimento. Era estranho que Ambrose também acreditasse naqueles olhos sinceros e fiéis. E eu
só vira o homem uma vez.
- Não interessa evocar tudo isso agora - declarei.
- Não adianta nada ao Ambrose e apenas serve para a torturar. Pela parte que me toca, o que aconteceu entre vocês não
me diz respeito. Pertence tudo ao passado e deve ser esquecido. A villa não era o lar dele. Nem o seu, Raquel, quando casaram. O seu lar é aqui.
- Às vezes - murmurou, detendo-se na minha frente -,
parece-se tanto com ele que me assusta. Vejo os seus olhos,
com a mesma expressão, cravados em mim, e é como se não tivesse morrido e tudo o que suportei reaparecesse para nova
provação. Não conseguiria aguentar aquele clima de suspeita,
dia após dia, noite após noite.
Enquanto ela falava, eu conjurava uma imagem clara da
Villa Sangalletti. Revia o pequeno pátio e o laburno com o aspecto que decerto apresentaria na Primavera, a cadeira em que
Ambrose se sentava e a bengala a seu lado. Notava o silêncio
do local, aspirava o ar húmido, observava a fonte gotejante.
E, pela primeira vez, a mulher que olhava para baixo, da varanda, não constituía um produto da minha imaginação e era
Raquel. Contemplava Ambrose com a mesma expressão implorativa, de sofrimento, de súplica. Senti-me de súbito muito
velho, assolado por um novo vigor que não compreendia.
Obedecendo a um impulso, estendi-lhe as mãos.
- Venha cá, Raquel.
Cruzou o aposento e pousou as suas nelas.
- Não existe qualquer clima de suspeita nesta casa -- acrescentei. - Ela pertence-me. A suspeita que uma pessoa
acalenta parte com ela quando morre. A roupa foi toda dividida por embrulhos, que se guardaram. Já não tem nada de comum connosco. Doravante, você vai recordar o Ambrose da
mesma maneira que eu. Conservaremos o seu velho chapéu no
cabide do átrio. E a bengala, com as outras, no respectivo lugar. Passou a pertencer aqui, Raquel, como ele no passado e eu
actualmente. Fazemos os três parte de tudo isto. Compreende?
Olhou-me em silêncio por um momento, sem retirar as
mãos das minhas.
- Compreendo - sussurrou.
Sentia-me curiosamente comovido, como se tudo o que fazia e dizia tivesse sido planeado para meu uso exclusivo, ao
mesmo tempo que uma voz débil me segredava: ??Nunca poderás regressar a este momento. Nunca... nunca...,? Continuámos de mãos unidas, e ela acabou por perguntar:
- Porque é tão bondoso para mim, Philip?
Lembrei-me de que, de manhã, quando chorara, repousara
a cabeça sobre o meu coração, e eu beijara-lhe o cabelo. Agora, ansiava por que a cena se repetisse. Mais do que tudo
neste mundo. Mas desta vez a minha prima não vertia lágrimas nem
apoiava a cabeça no meu peito. Limitava-se a permanecer
diante de mim, com as minhas mãos entre as suas.
- Não sou bondoso para consigo - asseverei. - Pretendo apenas que se sinta feliz.
Desprendeu as mãos, pegou no castiçal para recolher ao
quarto e, antes de sair, proferiu:
- Boa noite, Philip, e que Deus o abençoe. Um dia, é
possível que venha a conhecer a felicidade que eu outrora experimentei.
Ouvi os seus passos na escada e sentei-me, para fixar os
olhos no lume da biblioteca. Afigurava-se-me que, se subsistia
alguma amargura na casa, não provinha dela, nem de Ambrose, mas consistia numa semente alojada no meu coração, de
que nunca lhe falaria. O velho pecado da inveja que supunha
sepultado e esquecido voltava a achar-se presente. Contudo,
agora não invejava Raquel, mas Ambrose, a pessoa que até então mais amara no mundo.
Capítulo décimo sexto
Novembro e Dezembro passaram com extraordinária rapidez, ou ao menos assim me pareceu. Usualmente, à medida
que os dias se tornavam mais curtos e as condições meteorológicas se agravavam, quando havia pouco que fazer no exterior
e anoitecia às quatro e meia da tarde, os serões
afiguravam-se-me monótonos. Como nunca fora grande amante de leituras e
professava escassa inclinação para a vida social, pelo que não
ia
à caça com vizinhos nem aceitava convites para jantar, ansiava
pelo novo ano, com a perspectiva de um tempo menos agreste
e dias mais longos. E a Primavera chega cedo na área ocidental. Surgem as primeiras flores ainda antes do primeiro de Janeiro. No entanto, aquele Outono escoou-se sem monotonia.
As árvores despiram-se, as terras de Barton apresentavam um
aspecto acastanhado e barrento, devido às chuvas, enquanto o
vento soprava com intensidade. Porém, eu não encarava nada
daquilo com acabrunhamento.
Raquel e eu estabelecemos uma rotina que raramente variava e nos satisfazia. Quando o tempo o permitia, ela passava as
manhãs com Tamlyn e os jardineiros, aos quais transmitia instruções sobre a plantação, ou a observar a construção do caminho empedrado, que exigira o recurso a mão-de-obra exterior,
enquanto eu percorria a propriedade para me inteirar das necessidades dos caseiros, ou visitava as áreas mais distantes
onde também possuía terras. Encontrávamo-nos ao meio-dia e
trinta para uma breve refeição, em geral fria. Como se tratava
da hora do almoço do pessoal, nós próprios nos servíamos.
Era a primeira vez que a via nesse dia, pois costumava tomar o
pequeno-almoço no seu quarto.
Quando me encontrava no exterior e ouvia o relógio do
campanário bater as doze badaladas, seguidas quase imediatamente da sineta que convocava o pessoal para almoçar, invadia-me uma excitação crescente e dir-se-ia que as palpitações
do coração se aceleravam.
Aquilo a que me dedicava parecia de súbito destituído de
importância, e conduzia o Cigano para casa com impaciência,
como se receasse que o mínimo atraso me obrigasse a comer
sem companhia. A reacção não diferia se me encontrava no escritório. A carta importante, por vezes urgente, era prontamente relegada para segundo plano e abandonada, em favor da
partida imediata para as imediações da sala de jantar.
Raquel costumava chegar primeiro, para me dar as boas-vindas e os bons-dias. Acontecia com frequência pousar um
galho novo ao lado do meu talher, que eu colocava na botoeira
da lapela, ou então havia um licor novo para provar, confeccionado com algumas das suas ervas, de que parecia conhecer
dezenas de receitas. Algumas semanas depois da sua vinda,
Seecombe segredou-me, um dia, que o cozinheiro a consultava
para receber ordens, razão pela qual o nível da alimentação se
elevara notavelmente.
- A senhora não queria que Mister Ashley soubesse, por
recear que considerasse presunção de sua parte - confidenciou-me o mordomo.
Achei graça e não disse nada a Raquel, mas às vezes, só para observar o efeito, comentava:
- Não sei o que se passa ultimamente na cozinha. O cozinheiro e respectivos ajudantes estão a tornar-se autênticos
chefs franceses.
Ao que ela perguntava, com uma expressão inocente:
- Acha tudo mais satisfatório que dantes?
Agora, já todos a tratavam por ??senhora??, e eu não me importava. Ao invés, até me agradava e infundia uma espécie de
orgulho.
Após o almoço, a minha prima costumava ir repousar ou,
se era terça ou quinta-feira, eu mandava aparelhar a carruagem
e Wellington levava-a a retribuir visitas. Em algumas
ocasiões,
se tinha assuntos a tratar para os mesmos lados, acompanhava-a durante uma parte do caminho. Ela esmerava-se sempre
com o aspecto geral e escolhia os trajos mais irrepreensíveis,
embora virtualmente todos o fossem.
- Deixo-a entregue aos seus mexericos - observava eu,
maliciosamente, no momento da separação. - Gostava de me
poder transformar numa mosca e pousar a um canto das salas
que visita, para poder ouvir.
- Porque não vem comigo? O convívio só lhe faria bem.
- Nem pensar. Pode contar-me tudo durante o jantar.
Conservava-me na estrada até que a carruagem desaparecia
ao longe, enquanto um lenço assomava à janela, num gesto de
despedida trocista. Não a voltava a ver até ao jantar, às
cinco
da tarde, e as horas intermédias escoavam-se, para mim, com
uma lentidão enervante. No regresso, entrava em casa pelo lado dos estábulos, para me certificar de que tudo se encontrava
em ordem naquele sector. Raquel repousava sempre um pouco
antes de se apresentar à mesa. Por meu turno, eu tomava banho, mudava de roupa e descia à biblioteca, onde a aguardava.
A minha impaciência acentuava-se, à medida que as cinco horas se aproximavam, e em regra deixava a porta aberta para lhe
ouvir os passos.
Primeiro, surgiam os sons produzidos pelos cães e a seguir
o ruge-ruge do vestido ao longo dos degraus. Creio que era o
momento que mais apreciava em todo o dia. O murmúrio do
tecido provocava-me um choque de antecipação, uma tal sensação de expectativa que quase não sabia o que fazer ou dizer
no momento em que ela aparecia à entrada do aposento.
Envolvia-a uma suavidade nova ao clarão das velas que não
se achava presente durante o dia. Dir-se-ia que a claridade
matinal e as primeiras sombras da tarde se empenhavam em lhe
realçar todos os atributos, como se, sem isso, alguns pudessem
passar despercebidos. Agora, havia mais cor nas faces e no cabelo, uma maior profundeza nos olhos, e todos os seus movimentos, independentemente da sua finalidade, se revestiam de
uma graciosidade fácil, fascinante.
Seecombe anunciava o jantar e nós transferíamo-nos para a
outra sala, a fim de ocuparmos os lugares habituais - eu à cabeceira da mesa e ela à minha direita -, e afigurava-se-me que
fora sempre assim e não havia nada de novo na situação, nada
de estranho.
A excitação não se atenuou com o rolar das semanas - talvez até aumentasse -, pelo que me descobria a inventar pretextos para me conservar nas imediações da casa, durante alguns minutos, e dispor de uma oportunidade suplementar de a
ver.
Se nos cruzávamos, antes de partir para uma das suas visitas ou a caminho do jardim, sorria-me e exclamava, surpreendida: ??Que o traz por cá a estas horas?", o que me obrigava a
recorrer à imaginação para encontrar uma justificação plausível. Quanto ao jardim, a minha aversão dos tempos de Ambrose convertera-se em profundo interesse, e debruçava-me
com entusiasmo sobre o andamento da construção do caminho
empedrado e aprovava todas as sugestões de Raquel na matéria; creio mesmo que, se propusesse uma réplica do Foro Romano na propriedade, eu não hesitaria em tomar as providências necessárias para que o empreendimento se iniciasse com
prontidão.
Não nos reuníamos sempre na biblioteca. Às vezes, ela pedia que a acompanhasse ao boudoir da tia Phoebe, onde abríamos livros de jardinagem e estendíamos os projectos dos melhoramentos no chão. As minhas funções de anfitrião eram-lhe
então transferidas, sem que isso me causasse a mínima contrariedade. Passámos a prescindir das formalidades. Seecombe
não nos interrompia - não sem tacto apreciável, a minha prima convencera-o a dispensar a solenidade do chá servido num
tabuleiro de prata - e ela preparava tisana para ambos, que
afirmava constituir um costume continental, de efeitos muito
mais satisfatórios para a pele e os olhos.
Aquelas horas pós-jantar escoavam-se com deplorável rapidez, e eu acalentava sempre a esperança de que ela se
esquecesse de mas perguntar, porém o malfadado relógio do campanário intervinha invariavelmente para perturbar a paz.
??Não sabia que era tão tarde", costumava Raquel dizer, levantando-se e começando a fechar os livros.
Eu compreendia que aquilo era o sinal para as despedidas.
O próprio ardil de permanecer junto da porta em derradeira
troca de palavras resultava inútil. Tinham badalado as dez horas e eu devia retirar-me. Por vezes, estendia-me a mão para
que a beijasse, enquanto noutros casos me oferecia a face. Na
maioria das ocasiões, todavia, dava-me uma palmada no ombro, como faria a um cachorro de estimação. Não voltou a
acercar-se de mim ou segurar-me o rosto entre as mãos, como
fizera naquela noite em que se encontrava deitada. Eu não
procurava nem acalentava a esperança de que isso se repetisse,
mas quando me despedia, atravessava o corredor em direcção
ao meu quarto, subia os estores, contemplava o jardim silencioso e ouvia o murmúrio distante da rebentação do mar na
baía aos pés do bosque, sentia-me singularmente só, como
uma criança no final de um dia feriado.
A tarde, que se desenrolara paulatinamente, hora após hora, em ansiedade febril, terminara. Dir-se-ia que passaria uma
eternidade até que voltasse. E tanto a minha mente como o
corpo não se achavam preparados para repousar. Outrora, antes de Raquel surgir, eu costumava dormitar diante do lume,
no Inverno, após o jantar, e depois, espreguiçando-me e bocejando, recolhia ao quarto, aliviado por me afundar na cama e
dormir até às sete da manhã. Agora, era o inverso. Apetecia-me caminhar toda a noite. Ou conversar até ao romper da alva. O primeiro caso resultaria ridículo e o segundo
impossível.
Por conseguinte, refastelava-me numa cadeira junto da janela
aberta e fumava e olhava o jardim. Por vezes, eram duas horas
da madrugada antes que me deitasse, sem que tivesse feito outra coisa além de meditar em nada de concreto e desperdiçar o
período de silêncio.
Em Dezembro, formaram-se as primeiras geadas com a lua
cheia, e as minhas noites de vigília adquiriram uma qualidade
mais fácil de suportar. Continham uma espécie de beleza, fria
e límpida, que me envolvia o coração e obrigava a arregalar os
olhos, maravilhado. Observado da minha janela, o extenso relvado mergulhava no prado e este prosseguia até ao mar, tudo
embranquecido pela geada e pelo luar. As árvores circundantes
apresentavam-se negras, imóveis e silenciosas. De vez em
quando, assomava um coelho, que mordiscava a relva e regressava à toca, e, de repente, ouvi o som inconfundível de uma
raposa, que precedeu a aparição de um corpo peludo e alongado. Mais tarde, tornei a detectar o grito, embora já longe.
Perguntei-me se Raquel estaria a dormir no quarto azul ou, como
diz, deixava a janela aberta. O relógio que me mandara para a
cama às dez badalou as duas da madrugada, e reflecti que me
rodeava uma riqueza de pormenores belos que podíamos ter
partilhado.
As pessoas que não importavam podiam aceitar o mundo
monótono. No entanto, aquilo na minha frente não era o
mundo, mas encanto, e todo meu. Ora, não o desejava só
para mim.
À semelhança de um cata-vento, eu oscilava entre fases de
exultação e excitação e um nível mais baixo por vezes de
apatia
e depressão, quando, ao recordar-me da sua promessa de se
conservar em minha casa apenas durante um breve período,
especulei sobre quanto tempo mais seria. Se, por exemplo, a
seguir ao Natal, se viraria para mim e anunciaria: ??Bem,
Philip,
na próxima semana sigo para Londres.?? A fase de mau tempo
pusera termo aos trabalhos no jardim, e pouco mais se conseguiria fazer até à Primavera. O terraço poderia ser terminado.
Porém, graças ao plano, o pessoal estaria em condições de
continuar sem a assistência de Raquel. Assim, qualquer dia ela
decidiria partir e eu não disporia de um pretexto para a
reter.
Outrora, quando se encontrava em casa, Ambrose oferecia
um jantar aos caseiros na véspera do Natal. Eu interrompera o
hábito, nos últimos Invernos da sua ausência, pelo que, quando regressava das viagens, promovia a refeição em meados do
Verão. Agora, eu decidira reatá-lo, ainda que fosse apenas
porque Raquel estaria presente.
Na minha infância, a ocasião constituíra o ponto alto do
meu Natal. Os homens costumavam trazer um abeto de dimensões apreciáveis com cerca de uma semana de antecedência
e colocá-lo na sala longa por cima da cocheira, onde o jantar
se celebraria, e eu devia ignorar a sua existência. Mas quando
não havia ninguém nas proximidades, esgueirava-me até lá para o admirar. Só comecei a ajudar a decorá-lo nas minhas primeiras férias de Natal de Harrow. A promoção foi espectacular e nunca me sentira tão orgulhoso. Quando garoto,
sentara-me ao lado de Ambrose, à cabeceira da mesa, todavia a
alteração da minha posição valeu-me o lugar de honra de uma
mesa separada.
Agora, dei mais uma vez ordem aos lenhadores para abater
uma árvore satisfatória e acompanhei-os para a escolher. Entretanto, Raquel mostrava-se encantada com os preparativos.
Nenhuma outra celebração lhe poderia agradar mais. Mantinha contacto permanente com Seecombe e o cozinheiro, visitava a copa com regularidade e até mandou chamar duas jovens das terras de Barton para se dedicarem aos trabalhos de
pastelaria, sob as suas vistas, bem entendido. Imperava a
excitação, e o mistério, diga-se de passagem, pois eu insistira em
que não visse a árvore e, em contrapartida, ela decretou que
eu
só saberia em que consistiria a ementa quando me sentasse à
mesa.
Chegavam encomendas para ela, que eram despachadas para os seus aposentos. Quando eu batia à porta do boudoir, ouvia o ranger de papel e, uma eternidade mais tarde, segundo
me parecia, mandava-me entrar. Encontrava-a ajoelhada no
chão, de olhos brilhantes e faces coradas, com uma cobertura
estendida sobre vários objectos dispersos na carpete, e recomendava-me que não olhasse.
Eu regressava à infância, à velha febre de, em camisa de
dormir, assomar, em bicos dos pés, ao topo da escada, para escutar o murmúrio de vozes em baixo e Ambrose surgir repentinamente da biblioteca e rir-se de mim. ??Volta para a cama,
mariola, ou levas um par de açoites!??
Havia uma coisa que me provocava particular ansiedade.
Que ofereceria a Raquel? Passei um dia em Truro, de visita a
livrarias em busca de um livro sobre jardinagem, mas não encontrei nada de interessante. De resto, as obras que ela
trouxera de Itália eram melhores do que qualquer que eu pudesse encontrar. Além de mais, não fazia a menor ideia do género de
presente que poderia agradar a uma mulher. O meu padrinho
costumava comprar tecido para um vestido, quando oferecia
algo a Louise, porém Raquel só trajava de luto. Recordei-me
de uma ocasião em que a filha de Kendall se mostrara encantada com um medalhão que ele comprara em Londres. De súbito, acudiu-me a solução.
Devia haver alguma jóia valiosa entre as pertencentes à família susceptível de agradar à minha prima, as quais eram
guardadas num cofre do banco. Eu não fazia a menor ideia da
sua natureza. Lembrava-me apenas vagamente de, uma ocasião,
ter acompanhado Ambrose numa visita ao estabelecimento, onde
me mostrara um colar e explicara, sorrindo, que pertencera à
nossa avó e a minha mãe o usara no dia do casamento, mas só
nessa ocasião, como um empréstimo, pois o meu pai não se situava na linha directa de sucessão e, num futuro distante, se
me comportasse devidamente, ele permitiria que o oferecesse a
minha mulher. Agora, como eu tinha plena consciência, tudo
o que se encontrava no banco pertencia-me. Ou pertenceria,
dentro de três meses.
É claro que o meu padrinho saberia que jóias se achavam
no cofre, mas deslocara-se a Exeter em serviço e só
regressaria
na véspera do Natal, para cujo jantar ele e Louise estavam
convidados. Decidi, por conseguinte, visitar o banco e pedir
para as ver.
Mr. Couch recebeu-me com a habitual cortesia no seu gabinete sobranceiro ao porto e escutou atentamente a minha
pretensão.
- Suponho que Mister Kendall não terá nada a objectar? -- perguntou por fim.
- Decerto que não - repliquei com impaciência. - Isso
subentende-se.
O que não correspondia à verdade, mas aos vinte e quatro
anos, a poucos meses dos vinte e cinco, pedir autorização ao
meu padrinho para uma coisa tão insignificante afigurava-se-me absurdo. E irritava-me.
Mr. Couch mandou buscar as jóias, que se encontravam
em caixas seladas. Ele quebrou o selo e, depois de estender um
pano no tampo da secretária, pousou-as nele, uma a uma.
Eu não imaginara que se tratava de uma colecção tão valiosa. Havia anéis, pulseiras, brincos, medalhões, alguns pertencentes a conjuntos. No entanto, enquanto os contemplava,
sem me atrever a tocar-lhes, recordei-me, com desapontamento, que Raquel estava de luto e não usava jóias de cor. Se lhe
oferecesse, por exemplo, o conjunto de pulseira, medalhão e
anel de safiras, serviria apenas para o guardar numa gaveta.
Finalmente, Mr. Couch abriu a última caixa e extraiu dela
um colar de pérolas de quatro voltas com um único diamante
no fecho, que reconheci imediatamente. Tratava-se do que
Ambrose me mostrara.
- Gosto dele - declarei. - É a melhor peça de toda a
colecção. Lembro-me de o meu primo Ambrose mo mostrar.
- As nossas opiniões não coincidem. Eu inclinar-me-ia
antes para os rubis. No entanto, o colar de pérolas reveste-se
de características especiais. A sua avó, Mistress Ambrose Ashley, usou-o na Corte de Saint James. Depois, a sua tia, Mistress Philip, ofereceu-lho, quando os bens passaram para as
mãos do seu tio. Vários membros da família o usaram no dia
de casamento, entre os quais a sua própria mãe. Julgo mesmo
que foi a última. O seu primo Ambrose nunca permitiu que
abandonasse o condado, quando se realizavam enlaces noutro
lugar. - Mr. Couch pegou nele e aproximou-o da janela, para
que a claridade do dia incidisse nas pérolas imaculadas. - Na
verdade, é belo. E há vinte e cinco anos que ninguém o usa.
Estive presente no casamento de sua mãe. Era uma mulher linda e o colar assentava-lhe maravilhosamente.
Estendi a mão e peguei nele para o contemplar.
- Quero levá-lo - anunciei, e depositei-o na caixa.
O meu interlocutor hesitou.
- Não sei se será uma decisão prudente, Mister Ashley. Se
se perdesse ou extraviasse...
- Não se perderá nem extraviará - asseverei secamente.
Não pareceu convencido, e tratei de me retirar sem demora, antes que lhe acudisse algum argumento de peso para me
dissuadir.
- Se está preocupado com o que o meu tutor possa dizer,
tranquilize-se - acrescentei. - Explicar-lhe-ei tudo quando
regressar de Exeter.
- Oxalá que sim, embora eu preferisse que estivesse presente. É claro que em Abril, quando tomar legalmente posse
da herança, não haverá inconveniente, mesmo que leve toda a
colecção e lhe dê o destino que entender, embora eu não aconselhasse semelhante decisão.
Despedi-me dele, desejei-lhe um bom Natal e segui para
casa, particularmente satisfeito comigo próprio. Não encontraria melhor presente para Raquel, mesmo que vasculhasse todo
o país. As pérolas eram brancas, graças a Deus. E estabelecia
uma espécie de elo o facto de a minha mãe ter sido a última
pessoa a usá-las, como não deixaria de salientar à minha prima. Agora, podia encarar a perspectiva do Natal com toda a
serenidade.
Faltavam dois dias. Fazia bom tempo, a geada matinal não
era forte e tudo, parecia prometer ausência de chuva para a
noite do jantar. A medida que a data se aproximava, o pessoal
mostrava-se excitado, e na manhã da véspera do Natal, pedi a
Seecombe que me ajudasse a decorar a árvore com os rapazes.
O mordomo assumiu as funções de mestre-de-cerimónias.
Conservava-se um pouco afastado de nós, a fim de observar
melhor o conjunto, e transmitia instruções se algum pormenor
não lhe parecia totalmente satisfatório.
Por fim, declarou, com uma expressão solene:
- Creio que atingimos a perfeição, Mister Philip.
O início do jantar estava marcado para as cinco da tarde.
Os Kendall e os Pascoe seriam os únicos transportados em
carruagens. Os restantes viriam de breque ou coche ou mesmo
a pé, os que viviam mais perto. Eu inscrevera os respectivos
nomes em rectângulos de papel, que colocara na mesa para indicar os lugares. Quem tivesse dificuldade em ler, ou não soubesse, recorreria a outros convivas mais esclarecidos nesse
particular. Havia três mesas. Eu ocuparia a cabeceira de uma, com
Raquel na outra extremidade. O lugar de honra da segunda
competiria a Billy Rowe, das terras de Barton, e o da terceira
a
Peter Johns, de Coombe.
Segundo o costume vigente, reuniam-se todos na sala longa, pouco depois das cinco, e em seguida nós fazíamos a nossa
aparição. No final do jantar, Ambrose e eu distribuíamos os
presentes da árvore, sempre dinheiro para os homens e xailes
para as mulheres e embalagens com comida para todos. Os
presentes nunca variavam. A mínima alteração na rotina teria
chocado toda a gente. Naquele Natal, porém, eu pedira a Raquel que me ajudasse a proceder à distribuição.
Antes de me vestir para o jantar, eu mandara levar-lhe ao
quarto o colar de pérolas. Mantivera-o no estojo, mas juntara-lhe um breve bilhete:
??A minha mãe foi a última a usá-lo. Agora, pertence-lhe, Raquel. Quero que o ponha esta noite, e sempre.
Philip.??
Os Kendall e os Pascoe não nos procurariam na residência,
pois, em obediência à tradição, seguiriam directamente para a
sala onde o jantar se realizaria e conversariam com os
caseiros,
como medida preliminar para dissipar algum eventual constrangimento. O pessoal doméstico também se encontraria lá.
Por fim, desci ao piso térreo e aguardei na sala de estar.
Percorria-me um certo nervosismo, porque nunca tinha dado
um presente a uma mulher. Podia acontecer tratar-se de uma
infracção à etiqueta, que só permitia oferecer flores, livros
ou
quadros. E se se irritasse, como acontecera com a atribuição
da mesada, e encarasse o meu gesto como um insulto? Era
uma hipótese alarmante, e os minutos que se escoavam uma
tortura crescente. De repente, ouvi os seus passos na escada.
Desta vez, os cães não a precediam, pois haviam sido encerrados no canil.
Aproximava-se com lentidão, o ruge-ruge familiar cada vez
mais perto. A porta estava aberta e ela entrou e deteve-se
diante de mim. Trajava de negro, como eu previra, mas o vestido
era novo. Os ombros achavam-se expostos. O cabelo encontrava-se puxado mais para cima do que habitualmente, com as
orelhas descobertas. Rodeava-lhe o pescoço o colar de pérolas,
única jóia que usava, num contraste peculiar com a pele bronzeada. Eu nunca a vira tão radiosa e, aparentemente, feliz.
Afinal, Louise e os Pascoe tinham razão. A minha prima era bonita.
Conservou-se imóvel por um momento, a observar-me, até
que me estendeu as mãos e proferiu: ??Philip.?? Acerquei-me
dela. Parei na sua frente. Colocou os braços à minha volta e
puxou-me para si. Havia lágrimas nos seus olhos, mas naquela
noite não me provocavam preocupação. Ergueu as mãos para a
minha nuca e pousou os dedos no cabelo.
Por último, beijou-me. Não como nas ocasiões anteriores.
E, enquanto a abraçava, eu reflectia: ??Não foi com saudades
do lar, de doença no sangue ou de febre cerebral, mas por isto
que o Ambrose morreu.¨?
Retribuí-lhe o beijo. O relógio do campanário badalou as
cinco horas. Raquel não me disse nada, nem eu a ela. Estendeu-me a mão e encaminhámo-nos para a sala longa por cima
da estrebaria, cujas janelas estavam brilhantemente
iluminadas.
Para imergirmos na atmosfera alegre e nos apresentarmos perante os rostos ansiosos.
Capítulo décimo sétimo
Todos se levantaram quando entrámos. As cadeiras foram
impelidas para trás, houve um arrastar de pés e as vozes atenuaram-se, enquanto todas as cabeças se voltavam para nos
contemplar. Raquel imobilizou-se à entrada por uns instantes,
e admiti a possibilidade de ela não contar com uma presença
tão numerosa. De súbito, viu a árvore de Natal na extremidade oposta da sala e soltou uma exclamação de prazer. A pausa
foi quebrada e brotou um murmúrio de simpatia e satisfação
de todas as bocas.
Dirigimo-nos para os respectivos lugares às cabeceiras das
mesas e Raquel sentou-se. Eu e os outros imitámo-la e seguiu-se a actividade usual em semelhantes circunstâncias. Eu tinha
à minha direita Mrs. Billy Rowe, das terras de Barton, trajada
irrepreensivelmente, e notei que Mrs. Johns, de Coombe, à
minha esquerda, a olhava com uma expressão de censura.
O meu desejo de observar o protocolo impedira-me de ter
presente no espírito que se achavam de relações cortadas desde
longa data, devido a qualquer divergência a meu ver banal,
embora elas pensassem sem dúvida de maneira diferente. Decidi, pois, esforçar-me por intervir diplomaticamente se se gerasse algum atrito. O sector da cozinha comportara-se à altura
da sua fama, e as variadas e abundantes iguarias e bebidas
contribuíam para o clima jovial e cordial que não tardou a predominar.
Já começáramos a comer (e a beber), quando me apercebi
de que cada um de nós tinha um pequeno embrulho junto do
talher, endereçado na caligrafia regular e clara de Raquel.
Dir-se-ia que todos nos demos conta ao mesmo tempo e, por um
breve momento, o repasto foi esquecido, enquanto os envoltórios eram retirados. Mantive-me na expectativa, antes de
desembrulhar o meu, consciente, com uma contracção no
coração, do que ela fizera. Dera um presente a todos os convidados e incumbira-se pessoalmente de os embrulhar e incluir
um bilhete. Nada de espectacular ou particularmente dispendioso, mas, não obstante, uma lembrança que não podia deixar
de agradar aos destinatários. Estava explicado o misterioso
ranger de papel que eu detectara do outro lado da porta do
boudoir.
Só me concentrei na minha quando os outros voltaram a
debruçar-se sobre os pratos. Retirei o invólucro em cima dos
joelhos, abaixo do nível da mesa, para ser o único a inteirar-me de que se tratava. Era uma corrente de ouro para o chaveiro, com um disco que continha as iniciais P.A.R.A. e a data. Conservei-a nas mãos por uns instantes e acabei por
guardá-la furtivamente na algibeira do colete. A seguir, ergui
os olhos para Raquel e sorri, após o que peguei no copo num
gesto significativo, que se apressou a imitar. Como me sentia
feliz, meu Deus!
O jantar prosseguiu, ruidoso e alegre. Em dada altura, alguém a meio da mesa começou a cantar, em breve secundado
por vários outros. Mrs. Johns de Coombe confidenciou-me
que as minhas pestanas eram demasiado longas para um homem, e tratei de lhe reabastecer o copo de cidra.
Por fim, recordando que Ambrose escolhia o momento
apropriado com precisão meticulosa, bati com o cabo da faca
no tampo e estabeleceu-se silêncio.
- Os que desejarem e necessitarem podem ir lá fora e voltar em seguida. Dentro de cinco minutos, Mistress Ashley e eu
distribuiremos os presentes da árvore. Muito obrigado, senhoras e senhores.
O movimento em direcção às portas correspondeu ao que
eu calculava. Com um sorriso nos lábios, vi Seecombe incorporar-se no volumoso grupo. Os que ficaram impeliram as
mesas e cadeiras para junto das paredes. Após a distribuição
dos presentes da árvore e a nossa retirada, aqueles que ainda
se
sentissem com energias suficientes, ignorando o peso no estômago e a leveza na cabeça, entregar-se-iam à dança, possivelmente até por volta da meia-noite. Aproximei-me do pequeno
grupo que se encontrava em redor da árvore: o vigário, Mrs.
Pascoe, com as três filhas, e um cura, o meu padrinho e
Louise, com excelente aspecto, embora algo pálida. Apertei-lhes
a
mão e Mrs. Pascoe, expondo os dentes, proferiu:
- Excedeu os seus próprios recursos. Nunca me senti tão
bem numa reunião desta natureza. As moças estão positivamente extasiadas.
De facto, pareciam extasiadas, com um único cura a dividir
pelas três.
- Ainda bem que lhe agradou - repliquei, e virei-me para Raquel, que me acompanhara. - Está contente?
- Que acha? - Os nossos olhares cruzaram-se e sorriu.
- A tal ponto que contenho as lágrimas de alegria com dificuldade.
Voltei-me para o meu padrinho.
- Feliz Natal. Como encontrou Exeter?
- Fria - grunhiu. - Fria e triste.
A sua atitude quase se podia considerar abrupta. Conservava uma das mãos atrás das costas e os dedos da outra cofiavam
o bigode. Perguntei-me se algo ocorrido durante o jantar lhe
desagradara. A cidra teria jorrado com abundância excessiva
para o seu gosto? De repente, notei que fixava o olhar em Raquel e, mais especificamente, no colar que lhe rodeava o pescoço. Quando viu que me apercebera, desviou a vista. Por instantes, senti-me regressado a Harrow, com o professor a
descobrir a cábula debaixo do compêndio de latim. No entanto, acabei por encolher intimamente os ombros. Eu era Philip
Ashley, de vinte e quatro anos a quem ninguém do mundo,
nem mesmo o meu padrinho, podia ditar ordens, sobre o destinatário dos presentes de Natal ou qualquer outra coisa. Não
me surpreenderia que a intrometida Mrs. Pascoe lhe tivesse soprado ao ouvido. E daí talvez não, pois decerto desconhecia a
existência do colar. Todavia, Louise dera-se conta, sem margem para dúvidas. Vi os seus olhos azuis desviarem-se momentaneamente para Raquel e comprimir os lábios.
Os convivas regressaram ruidosamente à sala. Rindo, murmurando, acotovelando-se, aproximaram-se da árvore, enquanto Raquel e eu ocupávamos uma posição estratégica para
proceder à operação seguinte. Em seguida, inclinei-me para os
presentes e, lendo os nomes em voz alta, fui-os passando à minha prima, que se encarregava de os entregar aos
destinatários,
no meio de um vendaval de palavras de agradecimento.
No final, transcorridos cerca de trinta minutos, retrocederam para um dos lados da sala e aguardaram aquilo que sabiam
que se seguiria. Deixei escoar-se um momento e, no meu tom
mais solene e cordial, desejei-lhes um feliz Natal. Como um
coro bem ensaiado, replicaram:
- Um bom Natal para si e para Mistress Ashley.
Depois, Billy Rowe sugeriu com ardor ??Três vivas pelo generoso e simpático par!,?, e as paredes pareceram estremecer
por uns momentos. Observei que as lágrimas tinham acabado
por vencer e assomar aos olhos de Raquel e meneei a cabeça.
Sorriu, pestanejou para as repelir e estendeu-me a mão.
Repa rei que o meu padrinho nos olhava com gravidade e, em novo
regresso aos tempos de estudante, embora a atitude íntima
fosse indesculpável, cogitei: "Se não te agrada, mete-o no...",
Por
último, puxei a mão de Raquel para o cavado do meu braço e
encaminhámo-nos para a residência.
Alguém, provavelmente o jovem John, levara bolos secos e
uma garrafa de vinho para a sala de estar, mas estávamos demasiado cheios para comer ou beber mais. Verifiquei, todavia,
que o cura não resistia à tentação e se servia de um dos primeiros. Depois de todos instalados, Mrs. Pascoe, decerto vinda ao mundo para não permitir que a harmonia perdurasse por
muito tempo, virou-se para Raquel e disse:
- Perdoe-me, Mistress Ashley, mas não posso resistir a
emitir um comentário. Que belo colar de pérolas! Não tive
olhos para outra coisa desde que cheguei.
A minha prima sorriu e pousou os dedos nas pérolas.
- Sim, orgulha qualquer mulher que o use.
- E com forte razão - interveio o meu padrinho. - Vale
uma pequena fortuna.
Creio que somente Raquel e eu nos apercebemos do seu
tom de voz. Ela olhou-o, intrigada. Em seguida dirigiu-me
uma interrogação muda e preparava-se para dizer algo, quando
anunciei:
- Creio que as carruagens acabam de chegar.
A seguir, postei-me à entrada do aposento. A própria Mrs.
Pascoe, em geral cega e surda às minhas sugestões de
retirada,
compreendeu que a recepção chegara ao fim.
- Vamos, meninas. Devem estar cansadas e aguarda-nos
um dia trabalhoso. A família de um clérigo não conhece um
momento de repouso no dia de Natal.
Acompanhei a família Pascoe à porta. Por sorte, a minha
previsão resultou acertada, e a carruagem deles aguardava
diante da entrada. O cura aproveitou o transporte e
instalou-se
entre duas das jovens. A dos Kendall surgiu quase imediatamente. Regressei à sala e encontrei-a deserta, à excepção do
meu padrinho.
- Onde estão elas? - perguntei.
- A Louise e Mistress Ashley foram lá acima, mas não
tardam. Congratulo-me com esta oportunidade para trocar
uma palavrinha contigo.
Aproximei-me da chaminé e, de costas para o lume, inquiri:
- De que se trata?
Não respondeu imediatamente, algo embaraçado.
- Não tive ensejo de falar contigo, antes de partir para
Exeter, de contrário abordaria então o assunto - acabou por
declarar. - A verdade é que recebi uma informação do banco
a todos os títulos preocupante.
??O colar??, reflecti. No entanto, o assunto só a mim dizia
respeito.
- De Mister Couch, suponho?
- Exacto. Informou-me de que Mistress Ashley já excedeu a sua conta bancária em várias centenas de libras.
Experimentei uma sensação de frio, apesar da proximidade
do lume. Olhei-o em silêncio por instantes, até que a tensão
irrompeu e senti um ardor desconfortável nas faces.
- Sim? - limitei-me a articular.
- Confesso que não compreendo. Ela não deve ter muitas
despesas aqui. Vive como tua hóspede e as suas necessidades
decerto são poucas. A única explicação que me ocorre é que
envia dinheiro para fora do país.
- É uma mulher muito generosa, como sem dúvida já reparou - argumentei, esforçando-me por ignorar o palpitar intenso do coração. - Um presente para cada um de nós não se
consegue com um punhado de xelins.
- Várias centenas de libras chegam e sobejam para comprar uma carrada deles. Não ponho em dúvida a generosidade
dela, mas só os presentes não justificam esses levantamentos
avultados.
- Decidiu gastar dinheiro com a casa. Entre outras coisas,
adquiriu tecido para redecorar o quarto azul. Temos de tomar
isso em consideração.
- Talvez, mas subsiste o facto de que a quantia que estipulámos conceder-lhe cada trimestre já atingiu o dobro, quase
o triplo. Que vamos decidir para o futuro?
- Duplicar, triplicar, a soma inicial. Tudo indica que não
era suficiente.
- Mas isso é absurdo - insistiu. - Mulher alguma que
vivesse como ela aqui poderia desejar gastar tanto.
- Pode ter dívidas que ignoramos. Credores de Florença
que exigem o pagamento. O assunto não nos diz respeito.
Quero que aumente o quantitativo e salde o excesso do dinheiro levantado.
Olhou-me com incredulidade e uma ponta de animosidade,
mas eu desejava o assunto resolvido com prontidão. Entretanto, apurava os ouvidos para tentar detectar passos na escada.
- Outra coisa, Philip. Procedeste mal ao retirar aquele colar do banco. Deves compreender que faz parte da colecção,
da herança, e não te assiste o direito de dispor dele.
- Pertence-me - retorqui. - Posso dispor do que é meu
como me aprouver.
- Ainda faltam três meses para poderes falar assim.
- Ora! - Gesticulei com desprendimento. - Três meses
passam depressa. Não acontecerá nada de mal ao colar em poder dela.
- Gostava de estar tão seguro disso como tu.
A implicação subjacente a estas palavras fez-me explodir.
- Que demónio está a insinuar? Receia que o venda?
Por um momento, conservou-se silencioso, enquanto co fiava o bigode.
- A viagem a Exeter permitiu-me ampliar os meus conhecimentos acerca da tua prima Raquel.
- Que diabo quer dizer com isso?
Desviou os olhos para a porta e concentrou-se de novo
em mim.
- Encontrei casualmente uns velhos amigos, pessoas que
não conheces e viajam muito. Passam o Inverno em Itália e
França há vários anos. Segundo afirmaram, conheceram a tua
prima quando estava casada com o primeiro marido, Sangalletti.
- E daí?
- Eram ambos personagens de fama pouco recomendável.
Devido a extravagâncias desregradas e um modo de vida demasiado livre. O duelo em que Sangalletti perdeu a vida deveu-se à presença de outro homem. Os meus amigos garantem
que quando se inteiraram do casamento de Ambrose Ashlev
com a condessa Sangalletti ficaram horrorizados e predisseram
que lhe esbanjaria a fortuna em poucos meses. Felizmente, tal
não aconteceu. Ele morreu antes que ela o conseguisse. Lamento, Philip, mas essas informações deixaram-me desolado.
- Não o julgava tão crédulo a histórias de viajantes.
Quem são essas pessoas, afinal? Como se atrevem a repetir
mexericos sobre acontecimentos de há dez anos? Aposto que
não o fariam diante da Raquel.
- Deixemos isso, de momento. A minha principal preocupação é o colar. Por muito que me custe e na qualidade de
teu tutor ainda durante três meses, vejo-me obrigado a pedir-te que exijas a sua devolução. Voltarei a guardá-lo no cofre-forte do banco, juntamente com o resto das jóias.
Comecei a percorrer o aposento em excitado vaivém, quase
sem saber o que fazia.
- A devolução do colar? - bradei. - Como quer que lhe
peça uma coisa dessas? Ofereci-lho esta noite, como prenda de
Natal. É a última coisa do mundo que me aventuraria a fazer.
- Nesse caso, fá-lo-ei eu.
Detestei repentinamente aquele velho obstinado, com a sua
indiferença pelos sentimentos alheios.
- Demónios me levem, se o permitir!
- Então, Philip! - persistiu, com ares paternalistas. - És
muito jovem e impressionável, e compreendo perfeitamente
que quisesses oferecer um objecto de estimação a tua prima.
Mas as jóias de família são algo mais do que isso.
- A Raquel tem o direito a elas. Deus sabe que se alguém
tem o direito de as usar é ela.
- Se o Ambrose vivesse, com certeza, mas não agora. Ficarão na posse de tua esposa, quando casares. E isso é muito
diferente. Esse colar possui uma significação própria, que alguns dos caseiros mais velhos presentes esta noite no jantar
talvez recordem. Um Ashley, aquando do casamento, permite
à esposa que o use, nesse dia, como único ornamento. Trata-se
de uma superstição de família com que as más-línguas da região se deliciam. É deplorável e daquelas coisas de que os
mexeriqueiros se alimentam. Estou convencido de que a tua
prima, na sua actual situação, é a última pessoa a desejar
semelhante ocorrência.
- Os convidados desta noite pensarão, se porventura ficaram em condições de pensar seja o que for, que o colar faz
parte dos objectos pertencentes a Raquel. Afigura-se-me totalmente absurdo que o simples facto de o usar suscite mexericos.
- Não é a mim que compete decidi-lo. Decerto não tardarei a inteirar-me, se circularem comentários cáusticos. No entanto, tenho de ser firme num aspecto, Philip. O colar deve
regressar ao cofre-forte do banco. Ainda não te pertence e não
tinhas o mínimo direito de o retirar de lá sem a minha autorização. Repito, portanto: se não exigires a sua devolução a
Mistress Ashley, eu próprio o farei.
Na intensidade da nossa argumentação, não ouvíramos o
ruge-ruge dos vestidos na escada. Agora, era demasiado
tarde.
Raquel aparecera à entrada, com Louise a seu lado.
Permaneceu imóvel por um momento, a cabeça voltada para o meu padrinho, que, postado no meio da sala, me olhava
com intensidade.
- Não pude deixar de ouvir o que diziam. Peço-lhes que
não fiquem embaraçados por minha causa. Foi muito gentil da
parte do Philip deixar-me usar o colar esta noite, e Mister
Kendall tem todo o direito de exigir que o devolva.
Levou as mãos ao pescoço, abriu o fecho e fê-lo deslizar
para a palma da mão.
- Por que demónio tem de fazer uma coisa dessas? -- protestei.
- Por favor, Philip... - murmurou.
Entregou as pérolas ao meu padrinho, que teve ao menos o
decoro de se mostrar embaraçado, embora igualmente aliviado.
Vi Louise olhar-me com compaixão e desviei a vista.
- Obrigado, Mistress Ashley - disse ele. - Como deve
compreender, este colar faz parte da herança que me foi confiada, e o Philip não tinha o direito de o retirar do banco.
Cometeu um acto estouvado, irreflectido. Mas os jovens são casmurros.
- Compreendo perfeitamente e sugiro que não se fale
mais no assunto - redarguiu Raquel. - Quer que procure algo para o envolver?
- Não, obrigado. O meu lenço é suficiente. - Puxou-o
da algibeira do peito e depositou o colar no meio, com cautela
infinita. - E agora, a Louise e eu vamos despedir-nos. Obrigado pelo excelente jantar, Philip, e desejo a ambos um feliz
Natal.
Não respondi. Encaminhei-me para o átrio e aguardei junto da porta, para em seguida ajudar Louise a subir para a carruagem, sem uma palavra. Ela exerceu pressão na minha mão
em sinal de simpatia, mas achava-me demasiado indignado
para a retribuir. O meu padrinho entrou atrás da filha e partiram.
Regressei à sala de estar em passos lentos e vi que Raquel
se mantinha de pé, com o olhar fixo no lume. O seu pescoço
parecia desnudo sem o colar. Conservei-me com os olhos cravados nela, silencioso, irritado e exasperado. Ao ver-me, estendeu os braços e aproximei-me. O meu coração achava-se
demasiado cheio para que pudesse dizer algo. Sentia-me como
um garoto de dez anos, e não seria necessário muito para me
fazer chorar.
- Não se preocupe, Philip - murmurou numa inflexão
de ternura que lhe era peculiar. - Orgulho-me de ter usado o
colar, ainda que fosse uma única vez.
- Eu queria que o usasse e guardasse para sempre. Demónios levem o meu padrinho!
- Não diga essas coisas, por favor.
Estava tão enfurecido e alucinado que me apetecia visitar o
banco naquele instante, forçar o cofre-forte e retirar todas
as
jóias da herança, para as oferecer à minha prima. Na
realidade,
desejava oferecer-lhe o mundo inteiro.
- A noite ficou completamente estragada - articulei.
- Todo o Natal. Tudo.
- É como uma criança que me procurou de mãos vazias -- observou com uma risada.
Recuei um passo e contemplei-a.
- Não sou uma criança. Faltam três meses para completar
vinte e cinco anos. A minha mãe usou esse colar no dia do casamento, e a minha tia e a minha avó antes dela. Não compreende que eu desejava vê-lo também no seu pescoço?
Pousou-me as mãos nos meus ombros e beijou-me.
- E eu estava muito contente e orgulhosa por isso. Quis
que o usasse porque sabe que, se tivesse casado aqui e não em
Florença, o Ambrose mo ofereceria no dia da cerimónia.
Conservei-me calado. Ela dissera, algumas semanas atrás,
que eu carecia de percepção. Agora, eu poderia dizer o mesmo
a seu respeito. Momentos depois, despediu-se e foi-se deitar.
Introduzi a mão na algibeira e pousei os dedos na corrente
de ouro que me oferecera. Aquilo ao menos era só meu.
Capitulo décimo oitavo
O nosso Natal foi alegre. Raquel providenciou nesse sentido. Visitámos as herdades da propriedade e distribuímos a
roupa que pertencera a Ambrose. E, sob cada tecto, fomos
obrigados a comer uma fatia de tarte ou de pudim, pelo que
ao fim da tarde estávamos demasiado cheios para jantar.
Depois de regressarmos a casa, como se eu tivesse retrocedido no tempo duas dezenas de anos, ela indicou-me que fechasse os olhos e, rindo, dirigiu-se ao boudoir e reapareceu
com uma pequena árvore, que me depositou nas mãos. Ornamentara-a com uma imaginação fantástica, numa reprodução
em miniatura dos presentes pendurados, e compreendi que o
fizera por mim, para que esquecesse o drama da véspera de
Natal e o fiasco do colar. Mas eu não podia esquecê-los. Nem
perdoar. E, a partir daquela data, estabeleceu-se uma profunda
frieza entre mim e o meu padrinho. Como se não fosse suficientemente deplorável que tivesse dado ouvidos a mexericos,
repisara o pormenor técnico de que só poderia dispor da herança dentro de três meses. Até lá, necessitaria de obter a
sua
autorização em tudo o que se lhe relacionasse. Que interessava
que Raquel gastasse mais do que prevíramos? Não passávamos
dificuldades por causa disso. Tanto Ambrose como o meu padrinho desconheciam o estilo de vida em Florença. Mesmo
que ela se revelasse um pouco extravagante, constituiria um
crime? Quanto à sociedade, não a podíamos julgar. Kendall
permanecera toda a existência num clima doméstico mais ou
menos espartano e, como Ambrose nunca se preocupara em
gastar muito consigo próprio, tomara como ponto assente que
esse estado de coisas continuaria depois de a herança passar
para as minhas mãos. Na verdade, as necessidades que me
acudiam não se podiam considerar exorbitantes, mas a actual
mesquinhez do meu padrinho provocava-me uma indignação
que encorajava a fazer vingar o meu ponto de vista e despender o dinheiro que me pertencia como me aprouvesse.
Ele acusara Raquel de esbanjar a mesada. Nesse caso, podia acusar-me de dispêndios irresponsáveis com a minha casa.
Decidi que, após o Ano Novo, introduziria melhoramentos na
propriedade que seria minha. Mas não apenas nos jardins.
A pavimentação do caminho prosseguiria, assim como a escavação e preparação do terreno junto dele, que se converteria
no jardim aquático, copiado da gravura do livro de Raquel.
Estava igualmente resolvido a reparar a casa. Afigurava-se-me que não me podia contentar com as visitas mensais do pedreiro da propriedade para proceder a pequenos consertos.
Chegara o momento de efectuar obras de maior envergadura,
sobretudo no capítulo da erosão provocada pela intempérie ao
longo dos anos.
Antes de o mês de Janeiro terminar havia cerca de vinte
homens a trabalhar, tanto no exterior como dentro de casa, estes últimos para se incumbirem da decoração. Entretanto, divertia-me secreta e antecipadamente com a ideia da cara que o
meu padrinho faria quando lhe apresentasse a factura.
Aproveitei-me da situação para suspender as visitas semanais e jantar de domingo. Assim, evitava a presença regular
dos Pascoe e dos Kendall e nunca me avistava com o meu padrinho, o que constituía parte da minha intenção. Ao mesmo
tempo, encarreguei Seecombe de fazer circular o rumor, graças
às suas vias de comunicação habituais, de que Mistress Ashley
não podia receber as visitantes habituais, até nova ordem.
Nessa conformidade, vivemos ao estilo dos eremitas, durante
aqueles dias de Inverno e princípios da Primavera, não sem
particular satisfação. O boudoir da tia Phoebe, como Raquel
insistia em lhe chamar, tornara-se o nosso local de habitação.
Aí, no final do dia, ela sentava-se a ler ou a fazer renda e
eu
entretinha-me a observá-la. Desde o incidente do colar de pérolas na véspera do Natal, apoderara-se dela uma nova brandura de atitude, que, embora profundamente agradável, por
vezes se tornava difícil de suportar.
Creio que Raquel não fazia a menor ideia do efeito em
mim. Aquelas mãos, pousadas por um momento nos meus
ombros ou a tocar-me a cabeça numa carícia, quando passava
junto da cadeira em que me sentava, enquanto falava do jardim
ou de qualquer assunto prático, aceleravam-me as palpitações
do coração de forma desordenada. Observar-lhe os movimentos constituía um prazer infinito, e às vezes perguntava a mim
próprio se se levantava propositadamente por saber que os
meus olhos a acompanhavam com persistência. Pronunciava o
meu nome numa inflexão muito sua quando se me dirigia. Em
criança, sempre desejara que fosse Ambrose em vez de Philip,
porém agora congratulava-me por tal não acontecer. Quando
os operários instalaram a nova canalização para escoamento da
água da chuva do telhado e afixaram uma placa com as iniciais
P.A. e a data por baixo, a anteceder o leão que formava o brasão de minha mãe, invadiu-me um orgulho estranho, como se
acabasse de contribuir de algum modo para o futuro. Raquel,
que se encontrava a meu lado, murmurou:
- Nunca o imaginei orgulhoso, Philip, até este momento,
e ainda o estimo mais por isso.
Sim, sentia-me orgulhoso... mas a sensação era acompanhada de um vazio desconfortável.
Os primeiros dias da Primavera surgiram envoltos numa
mescla de tormento e prazer. Os melros e os tentilhões
cantavam
junto das nossas janelas ao romper do dia e interrompiam-nos o
sono, o que representava tema obrigatório da conversa quando
nos encontrávamos. Os raios solares visitavam-na em primeiro
lugar e a mim mais tarde, quando me vestia. Antes de abandonar o quarto, assomava à janela para contemplar o cenário
aprazível, que todos os dias parecia renovado.
Certa manhã, Seecombe procurou-me para comunicar que
um dos caseiros, Sam Bate, retido na cama devido a doença de
certa gravidade, pedia que o visitasse, pois tinha algo de importante para me entregar. Aparentemente, tratava-se de uma
coisa demasiado valiosa para confiar a um portador. Por conseguinte, à tarde, segui pela alameda que desembocava na encruzilhada das quatro estradas, em direcção a casa do enfermo.
Fui encontrá-lo sentado na cama, com um dos casacos que
pertencera a Ambrose, oferecido pelo Natal, em cima da
colcha.
- Lamento vê-lo doente, Sam - declarei. - Que tem?
- A mesma tosse persistente que me visita todas as Primaveras, senhor. Já era velha conhecida do meu pai e acabará por
me acompanhar à cova, como lhe aconteceu a ele.
- Não diga disparates, homem. Isso são histórias para assustar incautos.
- Gostava de me convencer disso - articulou, meneando
a cabeça. - Há males que nos são transmitidos pelos pais.
Lembre-se de Mister Ambrose e do pai dele. Uma doença cerebral vitimou ambos. Não se podem combater os meios empregados pela Natureza. Vi suceder o mesmo entre o gado.
Não repliquei, enquanto estranhava que ele estivesse ao
corrente do tipo de enfermidade que vitimara Ambrose, pois
eu não o revelara a ninguém. Era incrível como os rumores se
propagavam na região.
- Tem de dizer a sua filha que procure Mistress Ashley,
para que lhe dê um xarope para a tosse - acabei por recomendar. - Ela possui larga experiência dessas coisas. ?leo de
eucalipto é um dos seus remédios.
- Assim farei, Mister Philip, assim farei, mas primeiro
quero resolver o assunto da carta, razão pela qual lhe pedi
que
viesse - declarou, baixando a voz.
- Qual carta?
- No dia de Natal, o senhor e Mistress Ashley tiveram a
gentileza de nos oferecer roupa que pertencera ao nosso
falecido patrão. Ora, o casaco que vê aqui, em cima da cama, foi-me então entregue. Achei o presente tão valioso que não tive
coragem de o usar e guardei-o no armário. No entanto, quando adoeci e fiquei retido em casa, resolvi vesti-lo, mais para
me proteger do frio que outra coisa, o que aconteceu ontem.
Foi então que encontrei a carta.
Fez uma pausa, introduziu a mão debaixo da almofada e
retirou-a com um pequeno embrulho.
- Creio que não se deram conta dela, porque havia um
rasgão no forro por onde deslizou. Quando me apercebi disso,
peguei num canivete para alargar a abertura e retirei a
carta.
Aqui a tem, senhor. E-lhe endereçada pelo punho de Mister
Ambrose. Reconheci a letra perfeitamente. A descoberta abalou-me, como se se tratasse de uma mensagem do Além.
Entregou-ma e verifiquei que de facto se tratava da caligrafia de Ambrose e me era dirigida.
- Procedeu como devia - assenti, impressionado.
- Obrigado.
- Não me agradeça, por favor. Fiquei preocupado ao pensar que esteve aí esquecida durante todos estes meses. Daí a
razão pela qual preferi entregar-lha pessoalmente, em vez de
enviar a minha filha à mansão.
Tornei a agradecer-lhe, guardei a carta na algibeira e conversámos de assuntos banais por uns minutos, até que me
retirei. Uma intuição inexplicável levou-me a pedir-lhe que
guardasse segredo da ocorrência, ao que aquiesceu com prontidão.
Não regressei a casa imediatamente e decidi efectuar um
passeio pela propriedade, como Ambrose gostava de fazer
sempre que se lhe deparava uma oportunidade. Num ponto
isolado raramente visitado, mandara colocar uma laje de granito explicando, com uma ponta de gravidade não totalmente
isenta de sarcasmo, que o local lhe serviria de sepultura,
preferindo-o ao jazigo de família.
Não podia adivinhar nem prever que os seus restos mortais
não jazeriam ali nem entre os outros Ashley já falecidos, mas
no cemitério protestante de Florença.
Agora, conservei-me imóvel por uns momentos, consciente
de que tinha de tomar uma decisão penosa. Entretanto, o aspecto inicial do dia deteriora-se gradualmente e a temperatura
descera, enquanto nuvens espessas avançavam do horizonte e o
vento aumentava de intensidade.
Sentei-me ao lado da laje, tirei a carta da algibeira e
pousei-a
no joelho, com o endereço voltado para baixo. No verso do
sobrescrito havia o lacre em que Ambrose apusera o seu anel.
O conteúdo não era volumoso. Apenas uma carta, que eu não
desejava abrir. Não consigo explicar que força me desencorajava de o fazer, que instinto cobarde me impelia a ocultar a cabeça na areia como um avestruz. Ambrose morrera e o seu
passado fora sepultado com ele. Eu tinha a minha vida para
organizar e seguir. Existia a possibilidade de a missiva
conter
novos elementos sobre o outro assunto que eu resolvera esquecer. Se o meu primo acusara Raquel de se dedicar a extravagâncias, decerto me atribuiria agora as mesmas tendências,
se vivesse.
Mas, não ler a carta... Como classificaria esse meu gesto?
Se a rasgasse sem me inteirar do conteúdo, condenar-me-ia?
Sopesei-a pensativamente. Ler ou não ler... Desejava ardentemente que a decisão não me competisse a mim. À semelhança
de um garoto que deseja que faça bom tempo no dia do seu
aniversário, eu suplicava a Deus que o sobrescrito não contivesse nada de preocupante, e acabei por abri-lo. A carta
estava
datada de Abril do ano anterior, pelo que fora escrita três
meses antes da morte.
??Meu caro rapaz:
Se as minhas cartas têm sido pouco frequentes, isso
não significa que não pense em ti. Tens permanecido na
minha mente, nos últimos meses, talvez mais do que
nunca. Mas uma carta pode extraviar-se ou ser lida por
estranhos, e não quero que tal aconteça. Por conseguinte, não tenho escrito, ou quando o fiz abordei assuntos
banais. Tenho estado doente, com febre e fortes enxaquecas. Agora, sinto-me melhor, embora não possa prever por quanto tempo. A febre pode reaparecer, assim
como a dor de cabeça, e nessas fases não sou responsável
pelos meus actos ou palavras. Disto não subsiste a menor dúvida.
Ainda não estou certo da causa. Atravesso um período de extrema tensão, meu caro rapaz. Escrevi-te no Inverno, salvo erro, mas adoeci pouco depois e não me recordo do que aconteceu à carta. Posso muito bem tê-la
destruído no período de desorientação que se seguiu.
Julgo que te falava do defeito dela, que tanta preocupação me produziu. Ignoro se é ou não hereditário, mas
penso que sim, e estou convencido de que a perda do
nosso filho, nos primeiros meses da gravidez, a afectou
de modo irreparável.
Pela parte que me toca, tenho-te a ti e sinto-me consolado. Mas, no caso da mulher, os efeitos são mais profundos. Ela tinha traçado planos e projectos, como deves
calcular, e, no momento em que o médico lhe anunciou
que não poderia voltar a engravidar, a sua atitude alterou-se radicalmente. O esbanjamento de dinheiro tornou-se progressivo e detectei-lhe uma tendência para a
dissimulação, para a mentira, completamente contrária
à sua natureza terna de quando casámos. À medida que
os meses se sucediam, apercebi-me de que cada vez se
voltava mais para o homem que mencionei em cartas anteriores, um tal Signor Rainaldi, amigo e, segundo creio,
advogado dos Sangalletti, a fim de se aconselhar, e não
para mim, seu marido. Creio que a ama desde longa data, ainda em vida de Sangalletti, e agora que o estado de
espírito dela se modificou, não posso afirmar a inexistência de reciprocidade do afecto. Regista-se uma névoa
no seu olhar, uma inflexão na voz, quando o nome dele
é mencionado, que me desperta a mais terrível das suspeitas.
Porventura em virtude de ter sido criada por pais
pouco enérgicos e da vida que se viu obrigada a conhecer antes e mesmo durante o primeiro casamento, cada
vez me convenço mais de que o seu código de comportamento difere do nosso. Assim, os laços do matrimónio
talvez não sejam sagrados. Suspeito (tenho mesmo quase
a certeza) de que ele lhe dá dinheiro. Lamento ver-me
forçado a reconhecer que, actualmente, o vil metal constitui a única via de acesso ao seu coração.
Há ocasiões em que ela parece no seu estado normal,
ao ponto de quase me convencer de que atravessei um
pesadelo e despertei nos primeiros tempos do nosso casamento. De repente, porém, com uma palavra ou um
gesto, tudo regressa ao mesmo. Se saio ao terraço e a encontro a conversar com Rainaldi, calam-se subitamente,
o que me redobra as suspeitas. Certa vez em que fiquei
só com ele, aludiu ao meu testamento, que vira por ocasião do casamento, e comentou que, se morresse, deixaria a minha mulher sem recursos. Achava-me ao corrente
do facto e já redigira outro em que corrigia a omissão, o
qual assinaria, com as testemunhas exigidas por lei, se
me convencesse de que a tendência para o dispêndio desregrado de dinheiro era temporária e não profundamente
enraizada.
Quero salientar, a propósito, que o novo documento
lhe atribuiria a casa e a propriedade apenas enquanto vivesse, pelo que transitariam para ti por sua morte, com a
cláusula de que a administração de tudo permaneceria
nas tuas mãos.
Mantém-se por assinar pela razão que acabo de expor.
Repara que foi Rainaldi quem me fez perguntas sobre o testamento e chamou a atenção para as omissões.
Ela abstém-se de me falar no assunto. Mas trocarão impressões a esse respeito? Que dirão um ao outro quando
não estou presente?
Esta questão do testamento ocorreu em Março. Reconheço que estava adoentado, com dores de cabeça excruciantes, e a abordagem do assunto por parte de Rainaldi pode dever-se ao facto de supor que eu morreria.
Talvez fosse isso, e não o abordem entre si. Não disponho de meios para o averiguar. Surpreendo-a com frequência a olhar-me com uma expressão estranha.
E quando a abraço, dá a impressão de que tem medo.
Mas de quê ou de quem?
Há dois dias, e esta é a razão principal da presente,
sofri novo acesso febril, como o que me prostrou em
Março. O ataque é repentino. Acodem-me dores e náuseas, que passam rapidamente a uma enorme excitação
cerebral, a qual me suscita uma tendência irresistível para
a violência, impedindo-me de permanecer de pé. Em seguida, surge um desejo intolerável de dormir, pelo que
caio no chão ou na cama, consoante o lugar onde me encontro. Não me recordo de o meu pai sofrer de nada do
género. Das dores de cabeça e certa irritação sem dúvida,
mas nunca os outros sintomas.
Diz-me o que tudo isto significa, Philip, meu caro
rapaz, única pessoa no mundo em quem posso confiar,
e, se puderes, procura-me. Não digas nada a Nick Kendall. Ou a quem quer que seja. E, sobretudo, não escrevas a responder. Limita-te a vir.
Há uma ideia que me domina e não permite um instante de paz. Pretenderão envenenar-me?
Ambrose. ?,
Guardei a carta no sobrescrito pensativamente, mas não a
rasguei. Escavei debaixo de uma das extremidades da laje e
ocultei-a aí, dentro do porta-moedas. Em seguida, alisei a
terra
com a mão e afastei-me. Entrei em casa pelas traseiras, e Seecombe, ao ouvir-me, surgiu da sala do pessoal, com uma expressão consternada.
- Ainda bem que chegou, senhor. A senhora tem estado a
perguntar por si. O Don sofreu um acidente e ela está muito
preocupada.
- Um acidente? - repeti. - Que aconteceu?
- Caiu-lhe em cima uma pedra enorme do telhado. Como
sabe, senhor, ele tornou-se um pouco duro de ouvido ultimamente e costuma estender-se ao sol junto da janela da
biblioteca. Creio que foi atingido no dorso e não pode mover-se.
Precipitei-me para a biblioteca. Raquel encontrava-se ajoelhada no chão, com a cabeça de Don pousada no regaço.
- Mataram-no - murmurou, erguendo os olhos para
mim. - Está moribundo. - Porque tardou tanto? Se se encontrasse em casa, isto não teria acontecido.
As suas palavras soavam como um eco de algo há muito
esquecido na minha memória. No entanto, não conseguia determinar de que se tratava. Seecombe, que me seguira, deixou-nos sós. As lágrimas que inundavam os olhos de minha prima
deslizavam pelas faces.
- O Don era seu amigo de infância. Cresceram juntos.
Não suporto vê-lo morrer.
Ajoelhei por meu turno junto do animal e descobri que
não pensava na carta enterrada debaixo da laje de granito ou
no infortunado Don moribundo, deitado entre ambos, o corpo
rígido e imóvel, mas apenas numa coisa. Pela primeira vez desde que entrara em minha casa, a mágoa de Raquel era por mim
e não por Ambrose.
Capítulo décimo nono
Conservámo-nos junto de Don ao longo do serão. Eu ao sentara-me para jantar, porém Raquel recusara-se a comer.
O cão morreu pouco antes da meia-noite. Levei-o e envolvi-o
num cobertor, para o sepultar na plantação, na manhã seguinte. Quando regressei à biblioteca, encontrei-a deserta. Subi
ao
boudoir e vi-a sentada diante da chaminé, com o olhar fixo no
lume.
- Creio que não sofreu - murmurei, sentando-me a seu
lado e pegando-lhe nas mãos. - Duvido que sentisse dores.
- Quinze longos anos, o garoto de dez, que abriu o seu
bolo de aniversário - proferiu a meia voz. - O episódio
acudiu-me várias vezes ao espírito quando mantinha a cabeça
dele pousada no regaço.
- Dentro de três semanas, haverá mais um aniversário -- lembrei. - Completarei vinte e cinco anos. Sabe o que acontecerá nesse dia?
- Devem conceder-se todos os desejos, como a minha
mãe costumava dizer, quando eu era jovem. Que desejará,
Philip?
Não respondi imediatamente. Fixava os olhos no lume, como ela.
- Só o saberei quando a data chegar. - Fiz uma pausa,
enquanto a mão dela, branca e imóvel, com os habituais anéis,
se mantinha pousada na minha. - Quando atingir os vinte e
cinco anos, o meu padrinho deixará de ter poderes sobre a herança. Será minha, para a utilizar como quiser. Poderei oferecer-lhe o colar de pérolas e as outras jóias guardadas no
banco,
Raquel.
- Não as aceitaria. Devem continuar lá, para a sua esposa,
quando casar. Sei que, por enquanto, não tenciona contrair
matrimónio, mas acabará por mudar de ideias.
Eu sabia perfeitamente o que desejava dizer-lhe, mas não
me atrevia. Ao invés, inclinei a cabeça para lhe beijar a mão
e
levantei-me.
- Deve-se apenas a um erro o facto de elas não serem suas
hoje. E não só as jóias, mas tudo. Esta casa, o dinheiro, a
propriedade. Você sabe-o perfeitamente.
Mostrou-se perturbada. Desviou os olhos do lume e reclinou-se na cadeira. Os dedos começaram a mover-se em torno
dos anéis.
- Não há necessidade de discutir isso - argumentou.
- Se ocorreu um erro, já me habituei a ele.
- Talvez, mas eu não.
Postei-me de costas para a chaminé e olhei Raquel com firmeza. Descobrira o que podia fazer e ninguém conseguiria impedir-me.
- Que quer dizer com isso? - perguntou, ainda com a
expressão perturbada no olhar.
- Não interessa, de momento. Sabê-lo-á dentro de três semanas.
- Daqui a três semanas, após o seu aniversário, partirei.
Acabava de pronunciar as palavras que eu esperava ouvir.
No entanto, agora que se me formara um plano no espírito,
poderiam carecer de importância.
- Porquê?
- Já cá estou há demasiado tempo.
- Diga-me uma coisa - solicitei. - Se o Ambrose tivesse
feito um testamento em que lhe deixava a propriedade e bens
durante a sua vida, com a cláusula de que eu os administraria
em seu nome, que faria?
Os olhos voltaram a fixar-se no lume.
- Que faria? Não compreendo.
- Viveria aqui? Expulsar-me-ia?
- Eu, expulsá-lo de sua própria casa? Como é possível
que me faça uma pergunta dessas, Philip?
- Nesse caso, ficaria? Viveria nesta casa e, de certo modo,
empregar-me-ia? Continuaríamos debaixo do mesmo tecto,
como agora?
- Suponho que sim. Confesso que nunca pensei nisso.
A situação seria, porém, diferente. Não é possível estabelecer
uma comparação.
- Diferente em que sentido?
- Como lhe posso explicar? - Gesticulou com as mãos.
- Não vê que a minha posição é, mesmo assim, insustentável,
devido à minha condição de mulher? O seu padrinho seria o
primeiro a concordar comigo. Embora não se pronunciasse,
estou certa de que reconhece que chegou a altura de eu partir.
Tudo se modificaria se a casa fosse minha e você, no sentido
que refere, meu empregado. Eu como Mistress Ashley e você
o meu herdeiro. Afinal, é Philip Ashley e eu uma mera parente
dependente da sua bondade. Existe um oceano de diferença
entre as duas situações.
- Exactamente.
- Então, não falemos mais no assunto.
- Continuaremos a falar, porque se reveste de suprema
importância. Que aconteceu ao testamento?
- Qual testamento?
- O que o Ambrose redigiu e não chegou a assinar, em
que lhe deixava a propriedade e bens.
Notei que lhe perpassava pelos olhos uma névoa de ansiedade.
- Como sabe que ele existe? Eu nunca toquei no assunto.
Reflecti que uma mentira serviria de desculpa e apressei-me
a proferi-la.
- Sempre supus que haveria um testamento, embora sem
assinatura e, portanto, sem validade legal. Vou mesmo mais
longe e admito que o tem cá, entre as suas coisas.
Tratava-se de um disparo ao acaso, mas acertou no alvo.
Os seus olhos desviaram-se instintivamente, por um instante
fugaz, para a escrivaninha ao canto e voltaram a pousar em
mim.
- Que pretende obrigar-me a dizer?
- Apenas a confirmação da sua existência.
Hesitou e acabou por encolher os ombros.
- Pois bem, existe, mas não altera nada. Não chegou a ser
assinado.
- Posso vê-lo?
- Para quê?
- Por uma razão de natureza pessoal. Julgo que pode
confiar em mim.
Tornou a olhar-me, agora mais demoradamente. Achava-se
perturbada, sem margem para dúvidas, e, segundo me pareceu,
apreensiva. Por fim, levantou-se, encaminhou-se para a escrivaninha e, hesitante, olhou-me mais uma vez.
- A que propósito veio isto, assim de repente? - perguntou. - Porque não podemos deixar o passado em paz? Prometeu-me que assim seria, naquele dia, na biblioteca.
- E você prometeu que ficaria - contrapus.
Mostrar-mo ou não, a escolha era dela. Pensei na que eu fizera, aquela tarde, junto da laje de granito. Decidira ler a
carta, indiferente às consequências. Agora, era a sua vez de
tomar
uma decisão.
Puxou de uma pequena chave a abriu uma gaveta da escrivaninha, da qual extraiu uma folha de papel, que me estendeu.
- Leia, se está tão empenhado.
Aceitei o documento e acerquei-me do candelabro. A letra
era na verdade de Ambrose, bem legível e firme, mais do que
na carta que eu lera naquela tarde. Estava datada de Novembro do ano anterior, quando havia sete meses que ele e Raquel
tinham casado. Encimavam-no o título últimas vontades e
testamento de Ambrose Ashley?,. O conteúdo correspondia
exactamente ao que era referido na missiva. A propriedade e
bens destinavam-se a Raquel, enquanto vivesse, após o que
passariam ao mais velho dos filhos que eles tivessem, e, na
sua
inexistência, seria eu o beneficiado, com a cláusula
específica
de que a administração dos mesmos ficaria a meu cargo até à
morte dela.
- Posso copiá-lo? - inquiri.
- Faça o que quiser. - Apresentava-se pálida e apática,
como se tudo lhe fosse indiferente. - O assunto pertence ao
passado, Philip. Não adianta repisá-lo agora.
Sentei-me à escrivaninha e peguei numa folha de papel e
caneta para reproduzir os dizeres, enquanto ela se sentava,
com uma expressão meditativa.
Eu sabia que necessitava de obter confirmação de tudo o
que Ambrose me revelava na carta e, conquanto detestasse cada uma das palavras que tinha de pronunciar, reuni coragem
suficiente para a interrogar. Continuei a escrever
persistentemente, embora a cópia do testamento constituísse mais um
pretexto do que outra coisa para não ter de a olhar.
- Vejo que o Ambrose apôs a data de Novembro passado - observei. - Faz alguma ideia do motivo por que escolheu esse mês para redigir um novo testamento? Vocês tinham
casado em Abril.
A resposta tardou a surgir, e compreendi subitamente o
que um cirurgião devia sentir quando inspeccionava uma costura no corpo que tardava a sarar.
- Não sei porque o fez em Novembro, pois nenhum de
nós pensava na morte nessa altura. Muito pelo contrário. Foi o
período mais feliz dos dezoito meses que vivemos juntos.
- Sim, ele referia-se a isso numa carta - admiti, puxando
de nova folha de papel.
- O Ambrose falou-lhe disso? Mas pedi-lhe que não o fizesse, com receio de que você não compreendesse e se sentisse, de certo modo, despeitado, o que, de resto, seria natural,
e
ele prometeu guardar segredo.
Exprimia-se em voz átona, sem a mínima emoção. Era possível, afinal, que quando o cirurgião inspeccionasse a costura
o
paciente referisse vagamente que não tinha dores. Na carta enterrada sob a laje, Ambrose dizia: ??No caso da mulher, os
efeitos são mais profundos.??
- E o testamento acabou por não ser assinado - comentei.
- Exacto. Ele deixou-o como o vê neste momento.
Acabei de escrever. Dobrei o documento e a cópia que acabava de completar e guardei-os no bolso interior do casaco,
onde, naquela tarde, estivera a carta, antes de a enterrar. Em
seguida, aproximei-me da cadeira, ajoelhei e, rodeando Raquel
com os braços, apertei-a com ternura - não como se fosse
uma mulher, mas uma criança.
- Porque foi que o Ambrose não assinou o testamento? -- Mantinha-se imóvel, sem contudo deixar transparecer contrariedade com o meu gesto. Somente a mão que pousara no meu
ombro acentuou levemente a pressão. - Diga-me, por favor.
A voz que respondeu era débil, distante, um simples murmúrio ao meu ouvido.
- Ignoro-o, pois não voltámos a abordar o assunto. No
entanto, penso que, quando se inteirou de que eu não podia
ter filhos, perdeu a confiança em mim. Dissipou-se uma espécie de fé, embora ele nunca tivesse consciência disso.
Tornei a evocar a carta enterrada, que continha aquela mesma acusação por outras palavras, e perguntei-me como era
possível que duas pessoas que se amavam tivessem um conceito tão errado uma da outra e acabassem, com uma amargura
comum, por se separar gradualmente. Devia existir algo na natureza do amor entre um homem e uma mulher que os conduzisse ao tormento e à suspeita.
- Você foi, pois, infeliz?
- Infeliz? - ecoou. - Que lhe parece? Quase enlouqueci.
Imaginei-os sentados no terraço da villa, com a sombra
ominosa entre ambos, originada apenas pelas suas próprias dúvidas e temores, e afigurava-se-me que as sementes remontavam a um passado indefinido que nunca conseguiriam determinar. Era possível que, inconsciente desse rancor, Ambrose
acalentasse suspeitas acerca da vida dela com Sangalletti e
antes
dele, censurando-a pela existência que não partilhara, e Raquel, com igual ressentimento, receasse que a perda do amor
se devia à impossibilidade de engravidar. Afinal, ela
compreendera-o muito pouco. E vice-versa. Eu poderia divulgar o conteúdo da carta, mas não serviria de nada. A incompreensão estava demasiado entranhada.
- Foi, portanto, devido a um erro que o testamento ficou
por assinar e esquecido?
- Chame-lhe erro, se quiser. Agora, já não faz diferença.
Mas a atitude dele alterou-se pouco depois, assim como o seu
próprio temperamento. Começaram as dores de cabeça, que
quase o cegavam e conduziram à beira da violência, uma ou
duas ocasiões. Eu perguntava-me até que ponto era a causa
da quilo e estava com medo.
- Não tinha amigos?
- Apenas o Rainaldi, que nunca se inteirou do que eu lhe
revelei esta noite.
Eu compreendia que Ambrose não confiasse naquele rosto
duro e olhos perscrutadores. Em todo o caso, como se explicava que ele, o marido, se mostrasse tão inseguro de si? Um
homem decerto sabia quando uma mulher o amava. Por outro
lado, talvez nem sempre fosse possível determiná-lo.
- Quando o Ambrose adoeceu, você não voltou a convidar o Rainaldi a visitá-los?
- Não me atrevia. É difícil, para quem não estava presente, compreender como o seu primo se modificou, e prefiro não
lho dizer. Por favor, Philip, não me faça mais perguntas.
- Ele suspeitava de si... de quê?
- De tudo. Infidelidade e coisas piores.
- Que pode haver pior que a infidelidade?
De súbito, levantou-se, encaminhou-se para a porta e
abriu-a.
- Nada, nada neste mundo. E agora deixe-me só.
Aproximei-me com lentidão e detive-me na sua frente.
- Desculpe. Não a queria irritar.
- Não estou irritada.
- Foi a última vez que lhe fiz perguntas. Prometo-lho solenemente.
- Obrigada - murmurou.
A palidez acentuara-se, juntamente com uma expressão
tensa, e a voz era fria.
- Tinha uma razão para as fazer - acrescentei. - Conhecê-la-á dentro de três semanas.
- Não exijo uma razão. A única coisa que lhe peço neste
momento é que saia.
Não me beijou nem estendeu a mão. Inclinei-me numa leve
vénia e afastei-me. Não obstante, poucos momentos antes,
permitira que ajoelhasse a seu lado e a cingisse. Porque mudara de atitude tão bruscamente? Se Ambrose conhecia mal as
mulheres, eu conhecia-as pior. Aquela ternura tão inesperada,
que apanhava um homem desprevenido e o elevava aos píncaros do êxtase e, de repente, sem motivo aparente, projectava
para a posição apagada que ocupara. Que espécie de raciocínio, confuso e indirecto, cruzava a mente delas para lhes enevoar o discernimento? Que ondas de impulsos lhes varriam o
ser e arrastavam para a cólera e indiferença, ou então para a
generosidade inesperada? Nós éramos sem dúvida diferentes.
Com a nossa compreensão embotada, movíamo-nos mais devagar, enquanto elas, imprevisíveis e instáveis, se deixavam
transportar por ventos de fantasia.
Na manhã seguinte, quando desceu, a sua atitude não diferia da dos outros dias - atenciosa e cordial -, sem qualquer
alusão à nossa conversa da véspera. Enterrámos Don na plantação, num sector à parte, onde principiava o caminho das camélias, e construí um pequeno círculo de pedras em volta da
sepultura. Não falámos do meu décimo aniversário, em que
Ambrose mo oferecera, nem do vigésimo quinto que se aproximava a passos largos. Todavia, no dia seguinte, mandei selar
o Cigano e dirigi-me para Bodmin, onde procurei um advogado chamado Wilfred Tewin, que se ocupava de grande parte
dos assuntos do condado, mas nunca dos referentes aos Ashley, porque o meu padrinho costumava tratar com causídicos
de Saint Austell. Expliquei-lhe que me levava à sua presença
uma questão de particular urgência e confidencialidade e desejava que redigisse um documento em termos legais que me
permitisse transferir todos os meus bens e a propriedade para
as mãos da minha prima, Raquel Ashley, a partir do dia um de
Abril, data em que passariam a pertencer-me.
Mostrei-lhe o testamento que Ambrose não assinara e esclareci que a ausência do seu nome se devia unicamente à
doença súbita que o acometera, seguida da morte. Indiquei
que incluísse no meu documento praticamente tudo o que ele
determinara no seu, em especial a parte referente à
transmissão
da propriedade e bens. Se eu morresse, passaria tudo para
uns
primos afastados que viviam em Kent, mas somente após o falecimento de Raquel, e nunca antes. Tewin apercebeu-se com
prontidão do que eu desejava e, segundo me pareceu, como
não nutria simpatia digna de menção pelo meu padrinho
- principal motivo por que eu o procurara -, congratulava -se por ver uma incumbência tão importante nas suas mãos.
- Pretende introduzir alguma cláusula relativa à salvaguarda
das terras? - perguntou. - Do modo como o rascunho está redigido, Mistress Ashley poderá vender os hectares que
desejar,
o que não me parece prudente se o senhor quer que tudo seja
transmitido aos seus herdeiros.
- Sim - assenti pausadamente -, é conveniente figurar
um parágrafo que proíba a venda. O mesmo se aplica à casa,
evidentemente.
- Suponho que há jóias e outros bens pessoais... Que decide a esse respeito?
- Serão dela, para lhes dar o destino que entender.
Leu o rascunho em voz alta e não descortinei a mínima
omissão.
- Falta uma coisa - salientou de repente. - Não há
qualquer cláusula referente à eventualidade de Mistress Ashlev
voltar a casar. '
- É pouco provável que tal venha a acontecer.
- Mesmo assim, penso que a possibilidade deve ser contemplada. - E olhou-me na expectativa, com a caneta suspensa sobre o papel. - A sua prima é ainda relativamente jovem,
segundo julgo saber. Nessa conformidade, o facto tem de ser
considerado.
Lembrei-me de súbito, numa ocorrência monstruosa, do
velho Saint Ives e dos comentários que Raquel proferira ironicamente.
- Na eventualidade de novo casamento - anunciei apressadamente -, a propriedade e os bens voltam para a minha
posse. Quero que isto fique bem claro.
- E deseja o documento pronto, na sua forma legal, até ao
dia um de Abril?
- Exacto. É o meu aniversário. Nessa data, passa tudo a
ser meu, sem qualquer excepção. Ninguém poderá apresentar
a mínima objecção.
- Procede com uma generosidade admirável - declarou,
sorrindo. - Vai ceder tudo no momento em que passa a pertencer-lhe.
- Nunca me pertenceria se o meu primo Ambrose Ashley
assinasse esse testamento.
- De qualquer modo, duvido que algo do género se tenha
feito até hoje. Pelo menos, que eu saiba. Deseja, sem dúvida,
que o assunto não seja ventilado antes dessa data...
- Nem uma palavra. Insisto no maior sigilo.
- Muito bem, Mister Ashley. Agradeço ter-me honrado
com a sua confiança. Estarei sempre à sua disposição para
qualquer assunto legal que deseje.
Antes de me retirar, prometeu que o documento me seria
entregue a trinta e um de Março.
Segui para casa, com uma sensação penosa no coração. Ao
mesmo tempo, perguntava-me se o meu padrinho teria um
ataque apopléctico quando se inteirasse da novidade. No fundo, era-me indiferente. Não lhe desejava qualquer mal, uma
vez liberto da sua jurisdição, mas reconhecia que invertera a
situação quase com perfeição. Quanto a Raquel, agora não poderia transferir-se para Londres e abandonar a propriedade.
O argumento que invocara na noite anterior deixaria de ter validade. Se objectasse à minha presença na casa, instalar-me-ia
num dos anexos e procurá-la-ia diariamente para receber ordens. Acompanharia Wellington, Tamlyn e os outros e aguar daria que me chamasse, de chapéu na mão. A euforia que me
percorria fazia com que tudo me parecesse belo.
Quando regressei, após uma digressão pelos campos, a
meio da tarde, avistei uma mala-posta imobilizada à entrada.
Tratava-se de um facto invulgar, pois as pessoas que visitavam Raquel costumavam utilizar as suas próprias carruagens.
A viatura achava-se coberta de pó, como se acabasse de efectuar um longo percurso, e não consegui identificá-la, assim
como ao cocheiro. Segui para os estábulos, porém o rapaz que
acudiu para tomar conta do Cigano não se achava mais elucidado
do que eu sobre o visitante ou visitantes, e Wellington ausentara-se.
Não vi ninguém no átrio, mas quando avançava em silêncio para a sala de estar ouvi vozes, do outro lado da porta
fechada. Decidi subir ao meu quarto pela escada de serviço nas
traseiras, em vez de utilizar a principal. Começava a
encaminhar-me para lá, quando a porta da sala se abriu e Raquel,
sorridente, saiu para o corredor. Parecia particularmente bem-disposta. Na realidade, eu não me recordava de a ver tão
eufórica.
- Ah, chegou, Philip! - exclamou. - Importa-se de
cumprimentar este meu visitante, que veio de muito longe expressamente para nos ver?
Pegou-me no braço e levou-me, não sem relutância de
minha parte, para dentro. Avistei um homem sentado junto
do lume, que ao ver-me se levantou e aproximou de mão estendida.
- Sei que não me esperava e quero desde já apresentar
desculpas. Em todo o caso, eu tão-pouco o esperava quando
nos encontrámos pela primeira vez.
Era Rainaldi.
Capítulo vigésimo
Não sei se deixei transparecer os meus sentimentos com a
clareza que revelavam no meu coração, mas penso que sim,
porque Raquel começou a falar apressadamente, para explicar
ao italiano que eu passava a maior parte do tempo ao ar livre
e
não tinha hora certa de regressar.
- O Philip trabalha mais arduamente que o seu pessoal -- concluiu - e conhece cada centímetro quadrado da sua propriedade melhor do que ninguém.
Conservava a mão no meu braço, como se pretendesse exibir-me perante o visitante, mais ou menos no estilo de uma
professora que apresenta um aluno pouco comunicativo.
- Permita-me que o felicite pela admirável propriedade
que possui - disse Rainaldi. - Não me surpreende que a sua
prima Raquel lhe criasse tanto afecto. Nunca a tinha visto tão
contente. - Os olhos perscrutadores e inexpressivos desviaram-se para ela e concentraram-se de novo em mim. - O ar
daqui deve ser mais conducente ao repouso do espírito e do
corpo do que o de Florença.
- A minha prima é oriunda da área ocidental do país -- repliquei. - Limitou-se a regressar ao lugar a que pertence.
Sorriu, se se podia falar assim da leve contracção das
faces,
e dirigiu-se a Raquel.
- Tudo depende do laço de sangue que é mais forte.
O seu jovem parente esquece-se de que a sua mãe era romana.
E, diga-se de passagem, cada vez se parece mais com ela.
- Apenas nas feições e não na figura ou carácter - retrucou ela. Virou-se para mim. - O Rainaldi diz que se instalará
em qualquer estalagem que lhe indicarmos, mas não concordo.
Decerto não existe inconveniente em que fique connosco, não
é assim?
Experimentei uma sensação de revolta, mas reconheci que
não me podia opor.
- Sem dúvida. Vou transmitir instruções nesse sentido,
imediatamente, e mandarei embora a mala-posta, uma vez que
deixa de necessitar dela.
- Trouxe-me de Exeter - explicou Rainaldi. - Vou pagar ao cocheiro e dizer-lhe que recorrerei de novo aos seus
préstimos quando regressar a Londres.
- Há muito tempo para decidir isso - declarou Raquel.
- Uma vez que veio, deve ficar connosco alguns dias, para
poder ver tudo. Além disso, temos muitos assuntos para
analisar.
Afastei-me, a fim de providenciar para que preparassem
um quarto, e em seguida subi a escada com lentidão, para me
dirigir ao meu, tomar banho e mudar de roupa para o jantar.
Da janela, vi Rainaldi surgir à entrada para pagar ao
cocheiro,
após o que olhou em volta, como se avaliasse as potencialidades da propriedade. Acudiu-me a sensação de que, num simples relance, determinava a quantia que a madeira das árvores
poderia proporcionar, e até o vi examinar as figuras
esculpidas
na porta. Raquel reuniu-se-lhe e ouvi-os conversar e rir,
antes
de voltarem para dentro.
Estava meio tentado a permanecer no quarto e pedir a John
que me levasse o jantar num tabuleiro. Se eles tinham tanto
para dizer um ao outro, a minha presença só serviria de empecilho. Por outro lado, dada a minha qualidade de anfitrião, a
ausência representaria uma descortesia. Assim, tomei banho
sem pressa, vesti-me, desci a escada com relutância e fui encontrar Seecombe e John atarefados na sala de jantar, que não
voltáramos a utilizar desde que sofrera algumas reparações nas
paredes e no tecto. Avistei as melhores pratas em cima da mesa, juntamente com todos os apetrechos especiais destinados
aos hóspedes.
- Não havia necessidade de todo este aparato - observei
ao mordomo. - Podíamos ter comido na biblioteca.
- Ordens da senhora - articulou ele com uma ponta de
dignidade melindrada.
Acendi o cachimbo e fui dar uma volta pelas imediações.
O final de tarde primaveril ainda proporcionava luz suficiente
e o crepúsculo só surgiria dentro de uma hora, pelo menos.
No entanto, as velas já estavam acesas na sala, com as
cortinas
ainda não corridas, assim como as do quarto azul, e vi Raquel
mover-se de um lado para o outro diante da janela. Passaríamos o serão no boudoir, se estivéssemos sós, eu a congratular-me intimamente com o que conseguira em Bodmin e ela a
descrever em que empregara o dia. Assim, não haveria nada de
similar. Ruído na sala de estar, animação na de jantar,
diálogo
entre eles sobre assuntos que me não diziam respeito e, a sobrepor-se a tudo isso, a sensação instintiva de repulsa que o
homem me produzia, de que a sua presença não se devia a um
mero acaso, mas a um objectivo bem definido. Saberia Raquel
que ele chegara a Inglaterra e a visitaria? Todo o prazer da
minha digressão a Bodmin se dissipara. Voltei para dentro, acabrunhado e cheio de pressentimentos tenebrosos. O italiano
achava-se só na sala de estar, de pé próximo do lume. Trocara
o fato da viagem pela indumentária própria para jantar e examinava o retrato da minha avó numa das paredes.
- Um rosto encantador, de olhos belos e tez irrepreensível - comentou. - Pertence a uma família bem-parecida.
O retrato em si não possui valor especial.
- É provável que não - concedi. - Os Lely e os Kneller
encontram-se na escada, se deseja dar-lhes uma olhadela.
- Reparei neles quando descia. O Lely está bem situado,
mas o Kneller não. Devo acrescentar que este último não revela o seu melhor estilo, mas foi executado num dos seus momentos mais floridos. Possivelmente terminado por um discípulo. - Eu mantinha-me calado, à escuta dos passos de
Raquel nos degraus. - Em Florença, pouco antes de partir,
consegui vender um Furini da sua primeira fase para Raquel,
pertencente à colecção Sangalletti, agora infelizmente
dispersa.
Uma peça extraordinária. Costumava estar pendurado na parede da escada da villa, onde a luz do dia incidia no ângulo
mais
favorável. Suponho que não reparou nele quando esteve lá.
- É natural que não - articulei vagamente.
Raquel surgiu à entrada. Usava o mesmo vestido da véspera de Natal, mas notei que cobrira os ombros com um xaile,
com o que me congratulei. Moveu os olhos de um para o outro, como se quisesse deduzir das nossas expressões a natureza
do diálogo que mantínhamos.
- Estava a explicar ao seu primo que tive a sorte de vender a Madonna de Furini - disse Rainaldi. - Mas foi pena
não o poder conservar...
- Já estamos habituados - volveu ela. - Muitos dos tesouros não puderam ser preservados.
Não pude deixar de me insurgir intimamente por ouvi-la
empregar o plural em semelhante contexto.
- Conseguiu vender a villa? - perguntei quase bruscamente.
- Ainda não - replicou Rainaldi. - Na verdade, é esse,
em parte, o motivo da minha visita. Estamos mais inclinados
para a alugar por um período de três ou quatro anos. Seria
mais vantajoso, e o aluguer não representa um acto tão definitivo como vender. A sua prima pode querer voltar para Florença. Aliás, foi o seu lar durante muitos anos.
- Para já, não tenciono regressar - declarou Raquel.
- Talvez, mas veremos.
Os olhos do homem seguiam-na enquanto ela se movia pela sala, e eu implorava-lhe mentalmente que se sentasse, para
que ele não o pudesse fazer. Ofereci-lhe uma cadeira, mas
ignorou-a.
- Imagine que o Rainaldi se encontrava em Londres há
uma semana e não mandou dizer nada. Nunca fiquei tão surpreendida em toda a vida como no momento em que o Seecombe anunciou que acabava de chegar. Acho que foi um
mauzão em não me prevenir.
Raquel sorriu-lhe e ele limitou-se a encolher os ombros.
- Pensei que a surpresa da minha aparição repentina lhe
daria maior prazer - observou. - O imprevisto pode ser
agradável ou o inverso, consoante as circunstâncias. Recorda-se daquela vez em Roma, quando o Cosimo e eu aparecemos
no momento em que se vestia para uma recepção em casa dos
Castelucci? Ficou visivelmente aborrecida connosco.
- Mas tinha motivo para isso - redarguiu ela com uma
risada. - Se já o esqueceu, não lho recordarei.
- Não, não o esqueci. Até me lembro da cor do seu vestido. Parecia ambarino. O Benito Castelucci enviara-lhe flores.
Vi o bilhete que as acompanhava, embora o Cosimo não se
desse conta.
Seecombe assomou à porta para anunciar o jantar, e Raquel
encabeçou o pequeno cortejo em direcção à outra sala, ainda a
rir e evocar ocorrências em Roma com Rainaldi. Eu nunca me
sentira tão melancólico e deslocado. Continuaram a falar de
personalidades e lugares e, de vez em quando, ela estendia-me
a mão por cima da mesa, como a uma criança, e proferia:
- Tem de nos desculpar, Philip. Há muito tempo que eu
não via o Rainaldi.
Uma ou duas vezes, dialogaram em italiano. Ele dizia-lhe
algo, de súbito procurava o termo que lhe escapava e, com
uma vénia na minha direcção, exprimia-se no seu idioma. Raquel respondia com palavras que me eram estranhas, mais rapidamente do que quando falávamos inglês, e nessas ocasiões
tornava-se mais animada e também mais dura, de certo modo,
com uma energia que não me agradava totalmente.
Afigurava-se-me que não se sentiam no seu meio próprio à
minha mesa e deveriam achar-se antes noutro lugar, em Florença ou Roma, num ambiente requintado de sociedade. Não
deviam estar ali, com Seecombe à sua volta em gestos deferentes, porém não esmerados como os de um nível mais elevado,
e um dos cachorros a circundá-los com desconfiança. Conservava-me afundado na minha cadeira e, uma vez por outra, estendia a mão para as nozes e esmagava-as entre os dedos, para
aliviar a tensão.
No final da refeição, quando saboreávamos vinho do Porto
ou brande, Rainaldi acendeu um charuto e olhou-me com uma
expressão de tolerância, enquanto eu puxava do cachimbo.
- Dá-me a impressão de que em Inglaterra todos os homens fumam cachimbo - observou. - A ideia consiste em
que facilita a digestão, mas ouvi dizer que deteriora o
hálito.
- Como beber brande, que pode deteriorar o discernimento - retorqui.
- Se nos dá licença, Philip - disse Raquel, levantando-se -, o Rainaldi e eu precisamos de discutir vários assuntos,
além de que ele trouxe documentos que tenho de assinar. Parece-me preferível fazê-lo lá em cima, no boudoir. Vai ter
connosco mais tarde?
- Não creio. Tenho umas cartas para escrever, além de
que andei todo o dia por aí e apetece-me ir para a cama cedo.
Dou-lhes desde já as boas-noites.
Abandonou a sala de jantar e ele seguiu-a. Instantes depois, eu ouvi-os subir a escada. Continuava sentado, quando
John apareceu para levantar a mesa.
Resolvi então dar uma volta nas proximidades da casa. Vi
luz no boudoir, mas os cortinados estavam corridos. Agora
que se encontravam sós, podiam exprimir-se livremente em
italiano. Raquel devia sentar-se na cadeira baixa diante do
lume e Rainaldi a seu lado. Ponderei se ela aludiria à nossa
conversa da noite precedente e à minha leitura e cópia do testamento. Que lhe aconselharia ele e que documentos trouxera
para assinar? Terminada a parte consagrada aos negócios, passariam a trocar impressões sobre pessoas e locais que ambos
conheciam? Raquel prepararia tisana para lhe oferecer, como
fazia comigo, e em seguida mover-se-ia pelo aposento, para
que Rainaldi a pudesse contemplar? Especulei acerca da hora
a que ele se despediria e iria para a cama e se ela lhe
estenderia
a mão. O italiano permaneceria um momento junto da porta,
retardando o mais possível a separação, como era meu hábito?
Ou, pelo facto de o conhecer bem, ela permitiria que ficasse
até mais tarde?
Percorri a nova passagem empedrada até perto da praia, e
quando o relógio do campanário deu as dez badaladas, recordei que era a hora a que costumávamos despedir-nos. Passar-se-ia o mesmo com Rainaldi? Retrocedi até à orla do relvado
e fixei o olhar na janela. A luz do houdoir continuava acesa.
Aguardei demorada e pacientemente, sem que a situação se alterasse. Entretanto, a temperatura baixara e eu tinha as mãos
e os pés frios. Às onze, segundos depois de o relógio voltar a
badalar, a luz apagou-se finalmente, e surgiu a do quarto
azul.
Hesitei por um momento e, obedecendo a um impulso, transferi-me para a área diante da ala ocidental da casa e ergui os
olhos para a janela de Rainaldi. Acudiu-me profundo alívio.
A luz também estava acesa. Lobriguei o leve clarão amarelado
através de uma nesga nos cortinados.
Entrei e subi a escada em direcção ao meu quarto. Acabava
de despir o casaco, tirar a gravata e pousá-los no espaldar de
uma cadeira, quando detectei o ruge-ruge do vestido dela no
corredor e em seguida uma leve pancada na porta. Apressei-me a abrir e vi-a na minha frente, completamente vestida, sem
faltar o xaile sobre os ombros.
- Venho dar-lhe as boas-noites - murmurou.
- Obrigado. Desejo-lhe o mesmo.
Baixou os olhos para os meus pés e notou a lama nos sapatos.
- Onde esteve todo este tempo?
- Às voltas por aí.
- Porque não veio ao boudoir, para a tisana habitual?
- Não me apetecia.
- É muito pateta, se me permite que lho diga. Ao jantar,
portou-se como um colegial merecedor de meia dúzia de chibatadas.
- Lamento.
- Sabe perfeitamente que o Rainaldi é um velho amigo.
Como deve compreender, tínhamos muito que conversar.
- É por se tratar de um velho amigo que o deixa permanecer no boudoir até às onze?
- Já era tão tarde? Confesso que não me apercebi.
- Quanto tempo o teremos entre nós?
- Depende de si, Philip. Se se comportar com correcção e
o convidar, talvez fique três dias. Mais não é possível, pois
tem
de regressar a Londres.
- Já que me pede que o convide, tenho de o fazer.
- Obrigada. - De repente, a expressão dos olhos suavizou-se e descortinei a sugestão de um sorriso no canto dos lábios. - Porque procede assim? Em que pensava quando andava às voltas por aí?
Eu podia ter respondido centenas de coisas. Que Rainaldi
não me merecia a mínima confiança, detestava a sua presença
em minha casa e queria que esta voltasse ao que era anteriormente, apenas com Raquel a fazer-me companhia. Ao invés,
sem motivo aparente, salvo que me repugnava tudo o que fora
abordado naquela noite, inquiri:
- Quem é esse Benito Castelucci que lhe ofereceu flores?
Soltou uma risada e, erguendo os braços, rodeou-me o
pescoço.
- Um sujeito idoso, muito gordo, cujo hálito tresanda a
charutos... e eu amo-o demasiado, Philip.
E, com estas inesperadas palavras, retirou-se.
Não duvido de que adormecera vinte minutos depois de
nos separarmos, enquanto eu ouvia o relógio do campanário
badalar até às quatro horas. Por fim, imergi no intranquilo
sono da madrugada, que se torna mais pesado ao romper do dia,
altura em que fui acordado às sete por John, como habitualmente.
Rainaldi ficou connosco não três, mas sete dias, durante os
quais não encontrei qualquer razão para rever a minha opinião
a seu respeito. Creio que o que mais me desagradava era a atitude de tolerância para comigo. Exibia um semi-sorriso cada
vez que me olhava, como se me considerasse uma criança que
não convinha contrariar. Impus a mim mesmo a ausência às
refeições do meio-dia, e quando regressava a casa e entrava na
sala, à tarde, pouco depois das quatro, encontrava-os juntos,
a conversar no seu inevitável italiano, mas interrompiam-se à
minha aparição.
- Ah, o trabalhador regressou! - gostava Rainaldi de dizer, instalado na minha poltrona preferida, demónios o levassem. - E enquanto percorre os seus vastos hectares e verifica
se os arados penetraram suficientemente na terra, você e eu,
Raquel, calcorreamos muitas centenas de quilómetros em pensamento. Não saímos em todo o dia senão para desentorpecer
as pernas no novo caminho empedrado. A meia-idade tem as
suas compensações.
- A sua presença é-me perniciosa - volveu ela. - Desde
que chegou, tenho descurado todas as minhas obrigações. Não
faço visitas nem assisto à plantação. O Philip acabará por me
acusar de negligência.
- Não tem estado inactiva - discordou Rainaldi. - Percorremos tantos quilómetros imaginariamente como o seu jovem primo em terreno firme. A juventude inglesa manifesta a
deplorável tendência para martirizar o corpo até à exaustão.
Eu pressentia o seu sarcasmo - a cenoura à frente da cabeça do jumento -, e a forma como Raquel acudiu em meu
auxílio ainda me irritou mais.
- Hoje é quarta-feira, dia da semana em que o Philip fica
no escritório imerso em contas. Tem uma excelente cabeça para os números e sabe exactamente o que gasta. Não é verdade?
- Nem sempre - corrigi. - Hoje, por exemplo, assisti à
reunião dos juízes de paz em representação de um vizinho e
fiz parte do júri do julgamento de um indivíduo acusado de
roubo. Foi-lhe atribuída uma multa e saiu em liberdade.
Rainaldi observava-me, com o mesmo ar de tolerância.
- Um jovem Salomão, além de jovem agricultor - comentou. - Inteiro-me constantemente de novos talentos.
O seu primo não lhe lembra o retrato do Baptista de Del Sarto, Raquel? A mesma arrogância e inocência numa mescla enternecedora.
- É possível - admitiu ela. - Confesso que não tinha reparado. Quanto a mim, parece-se apenas com uma pessoa.
- Sim, com essa também, mas não subsistem dúvidas de
que os traços de Del Sarto estão igualmente presentes. Um
dia, tem de o arrancar dos seus hectares e mostrar-lhe o nosso
país. As viagens expandem a mente, e eu gostaria de o ver vaguear por uma galeria ou uma igreja.
- O Ambrose aborrecia-se com ambas e duvido que o
Philip se sentisse mais impressionado. - Raquel voltou-se para mim. - Viu o seu padrinho entre os juízes de paz? Gostava
de levar o Rainaldi a visitá-lo, em Pelyn.
- Sim, estava lá e manda-lhe cumprimentos - declarei.
- Mister Kendall tem uma filha encantadora. - Dirigiu-se de novo ao italiano. - Um pouco mais jovem que o
Philip.
- Uma filha? Nesse caso, o seu jovem primo não está totalmente isolado da sociedade feminina juvenil.
- Longe disso. - Exibiu um sorriso. - Num raio de cinquenta quilómetros, todas as mães têm os olhos postos nele.
Olhei-a com intensidade, o que só serviu para que o sorriso se alargasse, e, ao passar junto de mim, a caminho do quarto a fim de mudar de roupa para o jantar, deu-me uma palmada no ombro, em obediência ao seu enfurecedor hábito.
??O gesto da tia Phoebe??, como eu o classificara, o que a encantara como se se tratasse de um elogio.
Quando ficámos sós, Rainaldi disse:
- Foi muito generoso de sua parte e do seu padrinho concederem uma mesada a Raquel. Escreveu-me a revelar-mo,
profundamente sensibilizada.
- Era o mínimo que se podia fazer por ela.
Exprimia-me num tom que esperava fosse desencorajador
de ulterior troca de impressões, pois não estava disposto a
comunicar-lhe o que aconteceria dentro de três semanas.
- Como talvez não ignore, à parte essa mesada, ela não
dispõe de outros meios de subsistência, salvo aquilo que lhe
posso enviar de vez em quando. A mudança de ares fez-lhe
muito bem, mas penso que não tardará a sentir a falta da convivência, como acontecia em Florença. É essa a verdadeira razão pela qual tento desencorajá-la de vender a villa. Os laços
são muito fortes.
Não respondi. Se eram muito fortes, a ele se deviam. Com
efeito, Raquel não fizera a menor alusão a laços até que Rainaldi chegara. Perguntei-lhe qual seria a extensão da sua
fortuna pessoal e se lhe enviaria dinheiro seu e não apenas do produto do que vendia da herança Sangalletti. Ambrose achava-se
dentro da razão ao não confiar nele. Mas que ponto fraco de
Raquel a obrigaria a mantê-lo como conselheiro e amigo?
- É claro que seria mais sensato acabar por vendê-la e Raquel alugar um pequeno apartamento em Florença, ou então
mandar construir uma pequena vivenda em Fiesole. Tem muitos amigos que não desejam perder o contacto, entre os quais
eu próprio.
- No nosso primeiro encontro em Itália, disse que ela era
uma mulher impulsiva - lembrei-lhe. - Decerto continuará a
sê-lo e viverá onde lhe aprouver.
- De acordo, mas a natureza dos seus impulsos nem sempre a conduziu à felicidade.
Depreendi que pretendia implicar que o casamento com
Ambrose constituíra um desses impulsos, assim como a vinda
dela para Inglaterra, cujo resultado ainda se lhe apresentava
pouco claro no espírito. Exercia influência na minha prima,
porque lhe administrava os bens, e era esse poder que talvez
acabasse por levá-la a regressar a Florença. Convenci-me de
que se situava aí o fulcro da sua visita, acompanhado da
insistência na tecla de que a mesada que eu propusera e já vigorava
não bastaria para a sustentar indefinidamente. Ora, eu possuía
um trunfo importante, que ele ignorava. Dentro de três semanas, Raquel tornar-se-ia independente de Rainaldi para toda a
vida. Quase me apetecia rir, porém a antipatia que o homem
me provocava. era mais forte que a hilaridade.
- Deve ser estranho para si, com a educação que recebeu,
ver-se de repente com uma mulher em casa por muitos meses -- insistiu, observando-me com curiosidade. - Não se sente embaraçado?
- Pelo contrário. Acho a situação extremamente agradável.
- Em todo o caso, é um prato forte para um jovem inexperiente como você. Consumido numa dose tão abundante,
pode provocar uma indigestão.
- Prestes a completar vinte e cinco anos, sei exactamente a
dieta que me convém.
- O seu primo Ambrose também pensava assim, aos quarenta e três, mas verificou que laborava em erro.
- Trata-se de um aviso ou de um conselho?
- Das duas coisas, se encarar as minhas palavras da maneira apropriada - asseverou, levantando-se. - Se me permite, vou vestir-me para o jantar.
Calculei que constituía o seu método de introduzir uma
cunha entre mim e Raquel - lançar uma palavra de advertência, pouco venenosa em si, mas suficientemente carregada para
empestar a atmosfera. Se sugeria que devia ter cuidado com
ela, que insinuaria a meu respeito? Alegaria que não passava
de um moço ingénuo e impressionável sem préstimo, nos seus
tête-à-tête no boudoir? Pelo menos, dera provas convincentes
de que a imaginação para inventar argumentos não lhe escasseava.
- O óbice dos homens muito altos - observou certa ocasião - consiste na tendência fatal para se curvarem. - Eu encontrava-me debaixo da bandeira da porta da sala e inclinava a
cabeça para dizer algo a Raquel. - Além disso, os mais fortes
acabam por engordar.
- O Ambrose não era gordo - apressou-se ela a salientar.
- Não fazia tanto exercício como aqui o nosso amigo. As
longas cavalgadas, caminhadas a pé e natação contribuem para
desenvolver as partes erradas do corpo. Notei-o com frequência, e quase sempre entre os Ingleses. Nós, em Itália, temos
ossos mais pequenos e levamos vidas mais sedentárias. Por
conseguinte, mantemos a linha. Por outro lado, abusamos menos da carne e dos farináceos. Quanto aos doces... - Esboçou
um gesto de desdém. - Este rapaz não se faz rogado. Vi-o
devorar uma tarte inteira, ontem ao jantar.
- Está a ouvir, Philip? - Raquel voltou-se para mim.
- Ele considera que come de mais. - Dirigiu-se ao mordo mo, que se conservava a uma distância respeitosa. - Temos de
racionar a comida a Mister Philip, Seecombe.
- Espero bem que não, minha senhora. - A estupefacção
do homem era inequívoca. - Comer menos do que come seria prejudicial para a saúde. Não podemos esquecer que é muito possível que ainda esteja a crescer.
- Que ideia! - exclamou o italiano. - Se ainda estivesse
a crescer aos vinte e quatro anos, haveria motivos para
suspeitar de alguma perturbação glandular grave.
Sorveu o brande com uma expressão meditativa, sem desviar os olhos de mim, até que quase me supus com dois metros e meio de altura e duas centenas de quilogramas de
peso,
exibido nas feiras numa jaula.
- Suponho que goza de boa saúde... - acrescentou.
- Teve alguma doença grave em criança que possa explicar essa altura?
- Não me lembro sequer de ter estado doente - assegurei-lhe.
- Isso, em si, também é causa de preocupação. Os que
nunca conheceram uma enfermidade são os primeiros a baquear quando a Natureza os ataca. Não é verdade, Seecombe?
- Talvez, senhor - articulou o interpelado. - Confesso
que não sei.
Mas quando abandonava a sala, vi que me dirigia uma mirada de dúvida, como se notasse indícios de um ataque de varíola.
- Este brande devia ter ficado a envelhecer pelo menos
mais trinta anos - prosseguiu Rainaldi. - Estará em condições de ser consumido quando os filhos do jovem Philip atingirem a maioridade. - Virou-se para Raquel. - Lembra-se
daquela noite na villa em que você e o Cosimo receberam praticamente Florença em peso, e ele insistiu em que nos apresentássemos trajados de dominós e mascarilhas, como num carnaval veneziano? E a sua chorada mãe portou-se de forma
reprovável com o príncipe não-sei-quantos. Lorenzo Ammanati, salvo erro.
- Com esse não foi de certeza, porque se concentrava inteiramente em mim.
- Que noites de loucura... Éramos todos incrivelmente jovens e totalmente irresponsáveis. Prefiro a calma e a modera
ção de agora. Calculo que nunca promovem reuniões desse tipo em Inglaterra... O clima não o permite, evidentemente. Em
todo o caso, o nosso amigo Philip decerto acharia divertido
vestir-se de dominó e percorrer o bosque atrás de Miss Kendall.
- Estou convencida de que a Louise ficaria encantada -- disse Raquel, comprimindo os lábios num trejeito malicioso.
Resolvi deixá-los sós, e passaram imediatamente a exprimir-se em italiano, a voz dele interrogativa e a dela
sorridente
em resposta à pergunta, e compreendi que falavam de mim e
porventura também de Louise, além dos rumores que circulavam acerca de um eventual casamento. Por quanto mais tempo
continuaria ele em minha casa? Quantos dias e noites mais teria eu de suportar a sua presença?
Por fim, no último dia da sua visita, o meu padrinho e
Louise compareceram para jantar. O serão desenrolou-se de
modo satisfatório, ou assim pareceu. Vi Rainaldi esmerar-se
por tratar Nick Kendall com razoável cortesia e os três - eles
e Raquel - formaram um grupo, o que me proporcionou a
oportunidade de entreter Louise. De vez em quando, apercebia-me dos olhares indulgentes que o italiano nos dirigia e, a
dada altura, ouvi-o murmurar: ??Os meus cumprimentos pela
sua filha e o seu afilhado. Formam um par encantador.,? Louise também se inteirou e não pôde deixar de corar.
Depois do jantar, Raquel anunciou:
- Espero visitar Londres em breve. Se nos encontrarmos
lá - acrescentou, dirigindo-se a Louise -, pedir-lhe-ei que
me mostre os lugares mais interessantes, porque não conheço
a cidade.
O meu padrinho aproveitou a oportunidade para perguntar:
- Tenciona, pois, deixar-nos? Devo reconhecer que suportou perfeitamente os rigores do Inverno na Cornualha.
Creio que achará Londres mais divertida. - Voltou-se para
Rainaldi. - Ainda estará lá?
- Os assuntos que tenho de tratar na capital tomar-me-ão
algumas semanas, mas se ela me procurar colocar-me-ei naturalmente à sua disposição. Conheço Londres razoavelmente.
Espero que o senhor e a sua filha nos concedam o prazer de
jantar connosco quando a visitarem.
- Teremos o maior prazer. Londres é muito agradável na
Primavera.
Apetecia-me chocalhar-lhes as cabeças umas contra as outras pela certeza com que falavam de um eventual encontro,
mas era o emprego do plural por parte de Rainaldi que mais
me irritava. O seu plano não se tornava difícil de
discernir.
Atrair Raquel a Londres, entretê-la enquanto levava a cabo
os
seus misteriosos assuntos, e por último tentar persuadi-la a
regressar a Itália. E o meu padrinho, pelas suas próprias
razões,
encorajaria o projecto.
Mal sabiam eles que eu congeminara um esquema para os
ludibriar. O serão foi-se escoando, com numerosas expressões
de boa vontade de todas as partes, e Rainaldi aproveitou os
últimos vinte ou mais minutos para celebrar um colóquio com
Nick Kendall, sem dúvida para destilar novas gotas do veneno
de que parecia possuir uma reserva inesgotável.
Quando os Kendall se retiraram, não voltei à sala. Segui
para o quarto, cuja porta deixei entreaberta para ouvir Raquel
e Rainaldi subir a escada, o que tardou a acontecer. Soaram as
badaladas da meia-noite e ainda continuavam lá em baixo.
Aventurei-me a assomar ao patamar para escutar e detectei o
murmúrio das suas vozes. Apoiando-me ao corrimão, desci até
meio da escada, descalço. Acudiram-me recordações da infância. Procedera assim quando Ambrose tinha convidados para
jantar. Assolava-me agora o mesmo sentimento de culpa. As
vozes persistiam interminavelmente. Mas as minhas tentativas
para as escutar careciam de objectivo válido, pois exprimiam-se em italiano. De vez em quando, captava o meu nome e o
do meu padrinho. Trocavam impressões acerca dele ou de
mim, ou mesmo de ambos. A inflexão de Raquel continha
uma urgência que se me afigurava estranha, enquanto a de
Rainaldi dava a entender que a interrogava. Perguntei-me, com
repulsa súbita, se o meu padrinho falara a este último dos
seus amigos viajantes de Florença e, por seu turno, o italiano a
informara. Como fora inútil a minha educação em Harrow e o
estudo de latim e grego! Duas pessoas conversavam em italiano na minha própria casa, discutindo assuntos porventura importantes para mim, e eu não conseguia entender uma única
palavra, à parte a alusão ao meu nome.
Estabeleceu-se um silêncio repentino. Nenhum deles falava. Não me chegava aos ouvidos o mínimo movimento. E se
Rainaldi tivesse avançado para ela, que o beijara como fizera
comigo na véspera do Natal? Acudiu-me uma tal vaga de ódio
contra o homem que quase abandonei toda a prudência e desci
a escada a correr para abrir a porta. Por fim, tornei a ouvir
a
voz de Raquel e o ruge-ruge do vestido e vislumbrei o clarão
da sua vela. A longa sessão chegara ao seu termo. Eles iam recolher aos respectivos quartos. E, como a criança de outrora,
regressei ao meu em bicos dos pés.
Ouvi Raquel passar no corredor em direcção à sua suite,
enquanto ele seguia noutro sentido para os seus aposentos.
Provavelmente, eu nunca saberia de que tinham falado durante
aquelas horas, mas pelo menos era a última noite que Rainaldi
dormia sob o meu tecto e a partir do dia seguinte ver-me-ia
liberto de um peso cada vez mais opressivo. Na manhã imediata, quase não conseguia tragar o pequeno-almoço, devido à
ansiedade em vê-lo partir. Ouvi o rodado da mala-posta no caminho de acesso à casa, e Raquel surgiu devidamente trajada
para se ocupar do jardim, a fim de se despedir dele.
O italiano pegou-lhe na mão e beijou-a. Desta vez, numa
atitude de cortesia para comigo, seu anfitrião, exprimia-se em
inglês.
- Não se esqueça de escrever para informar dos seus pla nos. Quando estiver disposta a partir, encontrar-me-á à sua
espera, em Londres.
- Não traçarei quaisquer planos antes do dia um de
Abril - retrucou ela, que olhou por cima do ombro e me
sorriu.
- Mas é o aniversário do seu primo - observou Rainaldi,
enquanto subia para a mala-posta. - Espero que ele passe um
dia divertido e não se empanturre de tartes. - Depois de instalado, assomou à janela, para me dizer: - Deve achar bizarro
fazer anos numa data tão especial. O dia das mentiras! No entanto, com vinte e cinco anos, talvez se considere demasiado
velho para pensar nisso.
Fez sinal ao cocheiro e o veículo pôs-se em marcha, não
tardando a transpor o portão.
- Não sei se fiz mal em não o convidar para vir cá passar
esse dia connosco - murmurou Raquel. De súbito, com um
sorriso repentino que me enterneceu, pegou na primavera que
usava no vestido e colocou-a na botoeira do meu casaco. -- Portou-se muito bem nestes sete dias. E eu descurei os meus
deveres. Está contente por nos encontrarmos de novo sós? -- E, sem aguardar resposta, encaminhou-se para a plantação
com Tamlyn.
Capítulo vigésimo primeiro
As restantes semanas de Março escoaram-se muito rapidamente. Em cada dia que surgia eu sentia maior confiança no
futuro, acompanhada de uma euforia crescente. Raquel parecia
pressentir o meu estado de espírito e partilhava-o.
- Nunca vi ninguém tão entusiasmado com um aniversário - comentou. - Você lembra-me uma criança que acha o
mundo mágico ao despertar. Significa assim tanto para si
libertar-se de Mister Kendall e dos seus cuidados? Duvido que pudesse arranjar um tutor mais generoso e competente. Que planeia para essa data?
- Nada de especial, à parte o facto de ter de lhe lembrar o
que me disse o outro dia. Devem conceder-se todos os desejos
ao celebrador de um aniversário.
- Apenas até aos dez anos de idade - salientou. - Nunca depois.
- Está a ser injusta - protestei. - Não mencionou qualquer estipulação acerca da idade.
- Se tenciona efectuar um piquenique junto do mar ou
dar um passeio de barco, não o acompanharei. Ainda não estamos na época própria para visitar a praia e, quanto a subir
para uma embarcação, mete-me mais medo do que montar a cavalo. Convide antes a Louise.
- Não convidarei a Louise, nem iremos a parte alguma
imprópria da sua dignidade.
Na realidade, não me detivera a planear os eventos para o
dia em causa. Limitara-me a decidir que ela encontraria os documentos no tabuleiro do pequeno-almoço, e o resto ficaria
entregue ao sabor do acaso. Havia outra coisa que também
não queria deixar de fazer. Lembrei-me das jóias guardadas no
banco e amaldiçoei-me por ainda as não ter ido buscar. Impunha-se, pois, que celebrasse duas reuniões prévias. Uma com
Mr. Couch e a outra com o meu padrinho.
Comecei por Mr. Couch. Calculei que os embrulhos se
riam demasiado volumosos para levar no Cigano, mas não
queria mandar preparar a carruagem, com receio de que Raquel se inteirasse e exprimisse o desejo de se deslocar à
aldeia.
De resto, a minha utilização daquele meio de transporte constituía uma raridade em mim. Por conseguinte, desloquei-me a
pé, depois de recomendar ao moço de estrebaria que me fosse
buscar mais tarde no breque. Quis o infortúnio que, à primeira vista, parecesse que todas as pessoas conhecidas tinham escolhido aquela manhã para fazer compras na povoação, pelo
que necessitei de mudar de rumo com frequência para não dar
de cara, por exemplo, com Mrs. Pascoe e as filhas. Tive mesmo de entrar na estalagem Rose and Crown antes das onze
horas da manhã, a fim de me esquivar à esposa do vigário da
paróquia vizinha, que acabava de surgir ao fundo da rua e
avançava na minha direcção.
Por último, encontrei-me em lugar seguro, entre as quatro
paredes do banco, onde Mr. Couch me recebeu com a cordialidade habitual.
- Desta vez, quero levar tudo - anunciei, sem qualquer
preâmbulo.
Olhou-me com perplexidade e perguntou:
- Pretende transferir a sua conta para outro estabelecimento bancário, Mister Ashley?
- Nada disso - tranquilizei-o. - Refiro-me às jóias.
Amanhã, cumpro vinte e cinco anos de idade e tornam-se minha propriedade legal. Desejo tê-las comigo quando acordar.
Decerto me considerou excêntrico ou, pelo menos, um
pouco transtornado.
- Quer dizer que pretende satisfazer um capricho só nesse dia? Se a memória não me atraiçoa, fez algo do género na
véspera do Natal. O seu tutor, Mister Kendall, veio devolver o
colar imediatamente.
- Não se trata de um capricho, Mister Couch. Quero as
jóias em casa, na minha posse. Não me ocorre outra maneira
de ser mais claro.
- Compreendo. - Fez uma pausa. - Bem, espero que
tenha um cofre ou, ao menos, um lugar seguro para as guardar.
- Isso é comigo. Agradecia que as mandasse buscar. Lembre-se de que não é apenas o colar, desta vez, mas toda a colecção.
Pela sua expressão, dir-se-ia que pretendia extorquir-lhe
algo de sua exclusiva propriedade.
- Muito bem. Vai demorar um pouco ir buscá-las ao cofre-forte e embrulhá-las com as precauções convenientes. Se
tem algumas voltas a dar...
- Nenhuma - cortei. - Aguardarei aqui.
Reconheceu que não lucraria nada em protelar o penoso
momento da separação, pelo que transmitiu as instruções necessárias. Eu munira-me de algo para levar as jóias - uma cesta de verga utilizada em casa para as couves -, e Mr. Couch
estremeceu de repulsa quando os preciosos objectos nos seus
estojos foram acondicionados nela.
- Teria sido preferível deixar-me enviar-lhas da maneira
apropriada - articulou a meia voz. - Dispomos de um transporte seguro para casos desta natureza.
Imaginei os comentários que a presença do referido transporte, devidamente identificado, suscitaria à entrada de minha
casa. Afigurava-se-me mais adequada a cesta das couves levada
no breque.
- Não se preocupe, Mister Couch. Não lhes acontecerá
nada.
Abandonei o banco profundamente satisfeito com o êxito
da diligência... e caí virtualmente nos braços de Mrs. Pascoe,
com a respectiva prole.
- Santo Deus, Mister Ashley! - exclamou. - Nunca o vi
tão carregado - acrescentou, apontando para a cesta, que eu
transportava ao ombro.
Segurei-a com uma das mãos e tirei o chapéu com a outra.
- Surpreendeu-me num dos meus dias tenebrosos - repliquei, sem me desconcertar. - As minhas finanças encontram-se tão em baixo, que necessito de vender couves a Mister
Couch e restante pessoal do banco. As reparações a que mandei proceder em casa quase me deixaram na penúria, pelo que
tenho de transaccionar os meus produtos agrícolas na aldeia.
Fitou-me boquiaberta, enquanto as filhas arregalavam os
olhos com expressões de incredulidade.
- Infelizmente - acrescentei -, as couves que trago aqui
destinam-se a outro cliente, de contrário teria o maior prazer
em vender-lhas. De futuro, quando precisar de legumes na reitoria, lembre-se de mim.
Afastei-me para procurar o breque no local previamente
combinado, enquanto reflectia que toda a região não tardaria a
inteirar-se de que Philip Ashley, além de ser excêntrico,
alcoólico e louco, estava reduzido à miséria.
Regressámos pela alameda, entrei em casa pela porta de
serviço, guardei a cesta no guarda-fato do meu quarto, que fechei à chave, e voltei a descer para almoçar.
Se estivesse presente, Rainaldi fecharia os olhos e estremeceria de repulsa ao ver-me devorar uma lauta refeição, que impeli com uma quantidade apreciável de cerveja.
Raquel esperara por mim, mas, supondo que eu não almoçaria em casa, resolvera comer e recolhera ao quarto, segundo
revelava no bilhete que me deixou. Por uma vez, não me senti
contrariado com a sua ausência, pois receava que a satisfação
P
elo êxito da missão se tornasse visível com clareza no meu
rosto.
Assim que me levantei da mesa, voltei a ausentar-me, agora
a cavalo, em direcção a Pelyn. Levava na algibeira o documento que o advogado, Mr. Tewin, me enviara, como prometera,
por mensageiro especial. Acompanhava-me igualmente o testamento. As perspectivas referentes ao encontro não se podiam
considerar agradáveis, mas nada me dissuadiria do objectivo
que me impusera.
Nick Kendall encontrava-se em casa e no escritório.
- Olá, Philip. Embora com algumas horas de antecedência, desejo-te um aniversário feliz e que se repita ao longo
dos
anos.
- Obrigado e aproveito a oportunidade para lhe agradecer
igualmente o afecto que sempre manifestou por mim e pelo
Ambrose, além da competência como tutor.
- Funções que terminam amanhã - observou com um
sorriso.
- Sim. Ou melhor, hoje, à meia-noite. E como não o quero arrancar da cama a essa hora, desejo que testemunhe a minha assinatura num documento que entrará em vigor nesse
preciso momento.
- Hum... - grunhiu, pegando nos óculos. - Que espécie
de documento.
Extraí o testamento da algibeira.
- Em primeiro lugar, gostava que lesse isto. Não me foi
entregue espontaneamente, mas só após alguma discussão. Há
muito que suspeitava da sua existência.
Entreguei-lho. Ele equilibrou os óculos no nariz e leu-o
em silêncio.
- Está datado, mas não assinado - observou.
- Exacto. No entanto, reconhece a letra do Ambrose?
- Sem dúvida. O que não compreendo é porque não o
testemunhou e mo enviou. Aliás, eu esperava um testamento
deste género quando casou, como te disse na altura.
- Não foi assinado porque adoeceu e esperava voltar para
casa a todo o momento e entregá-lo então. Posso garantir-lho.
Pousou o documento na secretária e suspirou.
- Bem, temos de nos render à evidência. São coisas que
aconteceram noutras famílias. Infelizmente para a viúva, não
podemos fazer mais do que já fizemos por ela. Um testamento
sem assinatura não tem valor.
- Eu sei, e ela está ciente disso. Como há pouco referi, foi
apenas graças a forte persuasão que lhe arranquei este
documento. Tenho de o devolver, mas existe uma cópia.
Guardei o testamento original e entreguei-lhe a cópia que
efectuara.
- E agora? - perguntou. - Veio à luz algo mais?
- Não. Simplesmente, a consciência indica-me que tenho
estado a desfrutar de algo que por direito não me pertence.
O Ambrose tencionava assinar este testamento, mas a morte,
ou antes, a doença em primeiro lugar, impediu-o. Quero que
leia um documento que preparei. - E passei-lhe para as mãos
as disposições redigidas por Tewin, em Bodmin.
Leu-o lenta e atentamente, a expressão a toldar-se gradualmente, e só passados longos momentos tirou os óculos e fixou
o olhar em mim.
- A tua prima Raquel tem conhecimento disto?
- Absolutamente nenhum - asseverei. - Nunca, por palavras ou atitudes, exprimiu a mínima ideia relacionada com o
que menciono aí ou as minhas intenções. Está profunda e inteiramente inocente da decisão que tomei. Não sabe sequer
que me encontro aqui ou lhe mostrei o testamento. Como a
ouviu dizer há umas semanas, pretende partir para Londres
em breve.
Empertigou-se na cadeira, sem desviar os olhos de mim.
- Estás absolutamente decidido a seguir este rumo?
- Sem a menor hesitação.
- Decerto te apercebes de que pode conduzir a abusos, há
poucas salvaguardas e o total da fortuna, que mais tarde te
pertencerá e aos teus herdeiros, pode ser dissipado...
- Sim, estou resolvido a correr o risco.
Meneou a cabeça e voltou a suspirar. Por fim, levantou-se,
aproximou-se da janela e concentrou-se de novo em mim.
- O conselheiro dela, esse tal Signor Rainaldi, está ao corrente deste documento?
- De modo algum.
- Foi pena não me teres dito nada, Philip. Podíamos analisar a situação e eu talvez te convencesse a encará-la de
outro
modo. De qualquer maneira, trocaria impressões com ele, que
me pareceu uma pessoa sensata. Naquela noite, tive oportunidade de lhe falar da minha preocupação sobre o excesso de levantamentos dela. Admitiu que a extravagância sempre constituíra um dos seus defeitos e conduzira a problemas, não só
com o Ambrose, mas também com o primeiro marido, Sangal letti. Deu-me a entender que ele, Rainaldi, era a única
pessoa
capaz de lidar com a tua prima.
- Estou-me nas tintas para o que lhe deu a entender. Antipatizo com o homem e penso que se serve desse argumento
para seu interesse pessoal. Acalenta a esperança de a
convencer
a voltar para Florença.
O meu padrinho olhou-me em silêncio por uns segundos.
- Desculpa fazer-te uma pergunta de natureza pessoal,
mas conheço-te desde que vieste ao mundo, pelo que julgo
que me assiste esse direito. Não é verdade que estás
totalmente
perdidinho, como se costuma dizer, pela tua prima?
Senti um calor incomodativo nas faces, mas sustentei a sua
mirada incisiva.
- Não compreendo aonde pretende chegar. ??Perdidinho??
é um termo fútil e a todos os títulos hediondo. Respeito a minha prima Raquel mais do que qualquer outra pessoa que conheço.
- Era para te falar disto antes. Começam a circular comentários pouco agradáveis sobre a sua permanência prolongada em tua casa. Irei mesmo mais longe, para te garantir que
não se aborda outro tema nos mexericos locais.
- Que continuem a abordá-lo. A partir de amanhã, as línguas viperinas disporão de mais palha para saborear. A
transferência da propriedade e fortuna não poderá manter-se secreta.
- Se a tua prima tem algum discernimento e quer conservar o auto-respeito, partirá para Londres ou pedir-te-á que
vás
viver para outro lugar. A actual situação é perniciosa para
ambos.
Conservei-me silencioso. Só me interessava uma coisa: que
ele assinasse o documento.
- É claro que, a longo prazo, só existe uma saída para os
mexericos - acrescentou. - E, segundo este documento, apenas uma maneira de evitar a transferência da propriedade. Ela
voltar a casar.
- Acho extremamente improvável.
- Suponho que não te ocorreu propores-lhe casamento tu
próprio?
O calor no rosto acentuou-se.
- Não me atreveria, pois estou certo da sua recusa.
- Nada disto me causa satisfação, Philip. Oxalá ela nunca
tivesse posto os pés em Inglaterra. Infelizmente, é demasiado
tarde para perder tempo com lamentações dessa natureza.
Muito bem, assina lá isto, e prepara-te para enfrentar as
consequências.
Peguei na caneta e apus o meu nome no documento, enquanto ele me observava com uma expressão grave.
- Há mulheres, de índole irrepreensível possivelmente,
que precipitam as calamidades, embora não acalentem semelhantes intenções. Tudo aquilo em que tocam converte-se em
tragédia. Não sei porque te digo isto, mas sinto que devo prevenir-te. - Fez uma pausa para assinar como testemunha.
- Vais falar à Louise?
- De momento, não. Se estão ambos livres, porque não
aparecem amanhã lá em casa, para jantar e brindar pela minha
saúde, no dia do meu aniversário?
- Ainda não tenho a certeza de estarmos disponíveis -- declarou, após breve hesitação. - De qualquer modo, mandarei avisar-te mais tarde.
Compreendi que não tencionava comparecer, mas tinha relutância em declinar abertamente o convite. No entanto, encarara o assunto da transferência muito melhor do que eu previra, sem admoestações violentas, nem sermões intermináveis,
mas decerto me conhecia o suficiente para reconhecer que o
efeito resultaria nulo. Em todo o caso, a sua preocupação e
contrariedade eram notórias. Por outro lado, congratulava-me
por não ter feito a menor alusão às jóias da família. A descoberta de que estavam escondidas na cesta da hortaliça no meu
guarda-fato poderia ter constituído a gota de água que faria
transbordar o copo.
Regressei a casa tendo presente no espírito a euforia que
me dominava na ocasião anterior em que o fizera, depois de
visitar o advogado Tewin, em Bodmin, prontamente destruída
ao descobrir Rainaldi à chegada. Agora, não se me depararia
qualquer visitante do género. Nas últimas três semanas, a Primavera instalara-se na região e a temperatura era cálida como
em Maio. Todavia, à semelhança de todos os profetas do tempo, os meus caseiros abanavam a cabeça e prediziam calamidades. Surgiriam geadas tardias, que comprometeriam o êxito das
colheitas. Penso, porém, que, naquele último dia de Março, eu
permaneceria impávido mesmo que se verificasse um flagelo
daquela natureza, ou até uma inundação ou abalo de terra.
O Sol descia para o horizonte além da baía a oeste, incendiava o céu limpo e escurecia a água, e a Lua despontava acima
das colinas a leste. Reflecti que era assim que um homem se
devia sentir quando imerso num estado de elevada embriaguez, aquele completo abandono à hora que passava. Eu via as
coisas não como que através de uma névoa, mas com a clareza
do ébrio absoluto. O parque, quando comecei a percorrê-lo,
exibia toda a graciosidade de um conto de fadas e o próprio
gado disperso apresentava-se-me como animais encantados,
possuidores de uma beleza especial. Apesar de tudo aquilo me
ser familiar desde a infância, revestia-se agora de uma nova
magia.
Embora tivesse comido de mais ao almoço para ter agora
fome, estava com sede e bebi água fresca do poço no pátio.
Gracejei com o pessoal que fechava as portas das traseiras e
os estores. Todos sabiam que o dia seguinte era o do meu aniversário. Em dado momento, desapareceram na sala comum e
regressaram com um embrulho. John, aparentemente nomeado
seu porta-voz, entregou-mo, com estas palavras:
- Isto é oferecido por todo o pessoal, senhor. Não conseguimos conter a impaciência até amanhã.
Era um estojo com cachimbos, que decerto lhes custara o
salário de um mês. Apertei-lhes a mão e afirmei que tencionava comprar um conjunto similar na minha próxima visita a
Bodmin ou Truro, o que contribuiu para lhes acentuar a satisfação. Na realidade, só utilizava o cachimbo que Ambrose me
oferecera quando completara dezassete anos, mas de futuro
devia tomar a precaução de recorrer àqueles, sob pena de os
desapontar.
Quando entrei na sala de jantar, depois de tomar banho e
mudar de roupa, encontrei Raquel à minha espera.
- Cheira-me a travessura - observou imediatamente.
- Passou todo o dia fora de casa. Que andou a magicar?
- Não é de sua conta, Mistress Ashley.
- Ninguém lhe pôs a vista em cima desde o pequeno-almoço. Tive de almoçar sozinha.
- Devia ter ido comer com o Tamlyn. A mulher dele é
uma excelente cozinheira.
- Esteve na aldeia?
- Por acaso, estive.
- Viu alguém conhecido?
- Vi - admiti, contendo a vontade de rir. - Mistress
Pascoe e as filhas, as quais ficaram muito chocadas com a minha aparência.
- Como assim?
- Levava uma cesta ao ombro e disse-lhes que andava a
vender hortaliça.
- Isso é verdade, ou visitou a Rose and Crown e bebeu
cidra em excesso?
- Não é verdade que vendia hortaliça nem estive na Rose
and Crown.
- Então, explique-se melhor.
Não estava disposto a elucidá-la e sentei-me à mesa, com
um sorriso.
- Creio que, quando a Lua estiver alta no céu, irei nadar
um pouco, depois de jantar. Sinto-me invadido por toda a
energia do mundo, assim como por toda a inclinação para
a aventura.
Olhou-me com uma expressão pensativa.
- Se quer passar o aniversário na cama com cataplasmas
no peito e tomar xarope a todas as horas, sob as vistas, não
minhas, mas do Seecombe, previno-o, vá nadar, que não tentarei impedi-lo.
Estendi os braços acima da cabeça e emiti um suspiro de
profunda satisfação. Em seguida, pedi autorização para fumar,
que ela me concedeu.
- Olhe o que os rapazes me ofereceram. - Mostrei-lhe o
estojo dos cachimbos. - Não conseguiram conter a impaciência até amanhã.
- É tão criança como eles. - Fez uma pausa e acrescentou a meia voz: - Não sabe o que o Seecombe lhe prepara.
- Julgo que faço uma ideia - repliquei no mesmo tom.
- Viu-o?
Assentiu, com uma inclinação de cabeça.
- Está perfeito, com a sua melhor jaqueta, a verde, e tudo
o resto. Foi pintado pelo genro, que mora em Bath.
Após o jantar, passámos à biblioteca, mas eu não mentira
quando dissera que sentia toda a energia do mundo. Achava-me em tal estado de exultação que não conseguia permanecer
quieto na cadeira, ansioso por que a noite terminasse e
surgisse o novo dia.
- Parece-me conveniente que vá espairecer, Philip - acabou Raquel por sugerir. - Corra até ao farol e volte, se acha
suficiente para se curar. De qualquer modo, desconfio que enlouqueceu.
- Se isto é loucura, quero ficar assim para sempre. Nunca
supus que a demência pudesse proporcionar tanto prazer.
Beijei-lhe a mão e saí. Fazia uma noite agradável para caminhar, silenciosa e calma. Segui em direcção ao farol, embora
não a correr, como ela indicara. A lua cheia iluminava a baía
e
parecia partilhar do meu segredo.
Avistei um clarão para os lados das terras de Barton, acima
do prado, e quando alcancei o promontório do farol, com as
baías a espraiarem-se em cada um dos meus lados, verifiquei
que se tratava das luzes de povoações ao longo da costa ocidental, assim como das do nosso porto, a leste. Se fazia uma
noite agradável para caminhar, não o era menos para nadar, e
nenhuma ameaça de eventuais cataplasmas ou xaropes me impediriam de o fazer. Desci pelas rochas num dos meus pontos
favoritos e, rindo para comigo daquela loucura particularmente sublime, mergulhei na água. Afinal, estava gelada. Sacudi-me como um cachorro, tentando dominar o chocalhar dos
dentes, e regressei ao local de partida após uns escassos
quatro
minutos, a fim de me vestir apressadamente.
Loucura? Muito pior que isso. No entanto, era-me indiferente, e a euforia persistia.
Enquanto empreendia o regresso a casa, o luar produzia
sombras caprichosas e algo sinistras do meu corpo. Avançando
entre as árvores do bosque, no ponto em que o caminho se dividia em dois - um em direcção à passagem ao longo dos cedros e o outro pela pavimentada de construção recente -,
acudiu-me às narinas o cheiro inconfundível de uma raposa
nas proximidades, mas não vislumbrei nada indicativo da sua
presença.
Já perto de casa, ergui os olhos para a janela de Raquel.
Estava aberta, mas não consegui determinar se conservava a vela
acesa ou a apagara. Consultei o relógio. Faltavam cinco minutos para a meia-noite. Acudiu-me subitamente ao pensamento
que, se o pessoal não pudera conter a impaciência para me entregar a prenda de anos, eu também não aguardaria pelo dia
seguinte para dar à minha prima a sua. Recordei-me de Mrs.
Pascoe e das couves, e a propensão para as medidas impulsivas
intensificou-se. Encaminhei-me para debaixo da janela do
quarto azul e chamei-a. Pronunciei o seu nome três vezes antes de obter resposta. Ela assomou finalmente, envolta no roupão branco de freira.
- Que quer? Estava quase a adormecer.
- Importa-se de protelar o sono por uns minutos? Desejava dar-lhe uma coisa. O embrulho que Mistress Pascoe estava muito interessada em ver.
- Não tenho a curiosidade dela. Deixe isso para de manhã.
- Tem de ser agora.
Entrei pela porta lateral, subi ao meu quarto e voltei a
descer, com a cesta de hortaliça na mão, a cujas pegas atei um
longo troço de cordel. Tinha igualmente comigo o documento,
que guardei na algibeira do casaco. Raquel continuava à espera, na janela.
- Que tem nessa cesta?- perguntou em voz baixa. - Se
se trata de alguma das suas brincadeiras, não estou disposta
a
aturá-la. Não me diga que escondeu aí caranguejos ou lagostins!
- Mistress Pascoe julgava que eram couves. De qualquer
modo, garanto-lhe que não morde. Pegue na ponta do cordel. -- Atirei a extremidade solta à janela. - Agora, puxe, mas com
ambas as mãos, porque a cesta pesa um pouco.
Ela obedeceu e aguardei que a recolhesse. Por último, levou-a para dentro e seguiu-se um silêncio.
Transcorrido um momento, Raquel reapareceu e olhou para baixo.
- Não confio em si, Philip. Os embrulhos têm formas esquisitas. Estou certa de que o que contêm morde.
Em vez de responder, comecei a subir pela trepadeira que
se estendia ao longo da parede, até que alcancei a janela.
- Tenha cautela, de contrário cai e fractura a espinha -- advertiu. No instante imediato, encontrava-me no quarto, com
um pé no sobrado e a outra perna no peitoril. - Tem a cabeça
molhada! Mas não está a chover.
- Fui nadar, como lhe tinha dito. Desembrulha os pacotes, ou prefere que o faça eu?
Havia uma única vela acesa. Ela encontrava-se descalça e
tremia de frio.
- Ponha qualquer coisa por cima - recomendei.
Retirei a colcha da cama, coloquei-lha sobre os ombros
e em seguida ergui-a e depositei-a entre os cobertores.
- Desconfio que enlouqueceu por completo - murmurou.
- Nada disso. Acabo unicamente de completar vinte e
cinco anos. Escute. - Levantei a mão para impor silêncio, enquanto o relógio do campanário badalava a meia-noite. - Isto, pode lê-lo quando lhe apetecer - expliquei, pousando o
documento na mesa-de-cabeceira, ao lado do castiçal. - Mas
quero dar-lhe o resto já.
Coloquei os embrulhos em cima da cama, rasguei os envoltórios e verti o conteúdo dos estojos no cobertor. Registou-se
uma pequena chuva de safiras e esmeraldas, com o colar de pérolas e as pulseiras.
- Tudo isto é seu - anunciei.
Num êxtase de loucura, peguei nas jóias e larguei-as sobre ela.
- Agora, tenho a certeza de que perdeu o juízo, Philip!
Que fez?
Em vez de replicar, peguei no colar e apertei-lho em torno
do pescoço.
- Tenho vinte e cinco anos, como o relógio acaba de confirmar. Terminou o impedimento que até agora vigorava. Tudo
isto lhe pertence, repito. Se eu possuísse o mundo, também
lho ofereceria.
Nunca tinha visto tanta perplexidade e assombro concentrados numa pessoa. Moveu os olhos alternadamente para as
jóias e para mim por uns instantes, e em seguida, talvez porque me via rir, abraçou-me subitamente e soltou uma risada.
Continuámos abraçados, como se se tivesse deixado contagiar
pela minha loucura e a alucinação irreprimível da demência
pertencesse a ambos.
- Era isto que planeava ao longo das últimas semanas?
- acabou por perguntar.
- Era, e tencionava servir-lhe as jóias com o pequeno-almoço. Mas à semelhança dos rapazes e o estojo dos cachimbos, não consegui esperar.
- E eu que não tenho nada para si, além de um alfinete de
gravata! É o seu aniversário, e você cobre-me de vergonha.
Existe alguma outra coisa que deseje? Diga-me, e tê-la-á.
Seja
o que for.
Olhei-a, com os rubis e as esmeraldas à sua volta e o colar
de pérolas ao pescoço, e de repente a hilaridade abandonou -me ao recordar o que este último significava.
- Sim, uma - aquiesci. - Mas não merece a pena pedi-la.
- Porquê?
- Porque me puxava as orelhas e mandava para a cama.
- Diga-me o que é - sussurrou, acariciando-me a face.
Não sei como um homem pede uma mulher em casamento. Há, em geral, um pai envolvido, cujo consentimento deve
ser obtido em primeiro lugar. Ou, na sua ausência, um período de namoro e uma longa conversa prévia. Ora, nada disto se
aplicava a qualquer de nós. Era meia-noite e nunca se
verificara a mínima alusão ao amor e casamento entre ambos. Eu podia dizer-lhe, sem rodeios: ??Amo-a, Raquel. Quer ser minha
mulher??? Recordei-me daquela manhã no jardim, quando se
referira ironicamente à minha aversão a semelhante situação
e
eu replicara que bastava o meu lar para me reconfortar.
- Expliquei-lhe uma ocasião que tinha toda a ternura e
conforto de que necessitava dentro destas quatro paredes -- lembrei-lhe.
- Não me esqueci.
- Estava enganado. Compreendo agora o que me falta.
Tocou-me com os dedos a fronte, o lobo da orelha e a
ponta do queixo.
- Sim? - murmurou. - Está assim tão certo disso?
- Mais certo do que de qualquer outra coisa do mundo.
Fitou-me com intensidade. Os olhos pareciam mais escuros
ao clarão da vela.
- Naquela manhã mostrou-se muito seguro, e obstinado.
O conforto das casas... - Com uma risada, estendeu a mão
para apagar a vela.
Quando me encontrava no relvado, ao nascer do Sol, antes
de o pessoal se levantar e descer para subir os estores e
deixar
entrar a luz do dia, perguntei-me se algum homem antes de
mim teria sido aceite em casamento em circunstâncias tão singulares. Pouparia muito tempo de namoro se tal acontecesse.
Até então, o amor, com todos seus meandros, não figurara no
cenário das minhas preocupações. Estivera convencido de que
os homens e as mulheres deviam proceder como lhes aprouvesse. Fora cego e surdo e permanecera imerso num sono letárgico. Agora, tudo isso se dissipara.
O que aconteceu naquelas primeiras horas do meu aniversário perduraria. Se houve paixão, já a esqueci. Se existiu
ternura, ainda se alberga em mim. Continuarei persuadido de que
uma mulher, ao aceitar o amor, não tem qualquer defesa. Talvez seja esse o segredo que possuem para nos unir a elas. Manifestam reservas a esse respeito até ao fim.
Nunca o saberei, por me faltar um termo de comparação.
Ela foi a minha primeira e última.
Capítulo vigésimo segundo
Recordo-me de a casa despertar para o sol e ver o disco rubro despontar acima das árvores que ladeavam o relvado.
O orvalho fora forte e o tapete verde apresentava uma
tonalidade prateada, como que afectado pela geada. Um melro começou a cantar, seguido de um tentilhão, e em breve todo o
coro primaveril dominava a atmosfera. O cata-vento foi o
primeiro a ficar sob a acção dos raios solares. No topo da
torre
do campanário, apontou para noroeste e imobilizou-se, enquanto a fachada da casa principiava igualmente a ser iluminada.
Entrei e subi ao meu quarto, onde puxei uma cadeira para
junto da janela e contemplei o mar. A minha mente achava-se
vazia, desprovida de pensamentos, o corpo sereno. Não acudia
qualquer problema à superfície, nenhuma ansiedade tentava
abrir caminho das profundezas ocultas para alterar a paz
beatífica. Era como se todas as coisas da vida tivessem sido
resolvidas e o caminho à minha frente se encontrasse desimpedido.
Os anos passados não contavam para nada. Os vindouros
constituíam uma mera continuação de tudo o que eu agora sabia e possuía. Assim seria para todo o sempre, como o ámen
que culminava uma litania. No futuro, só haveria isto: Raquel
e eu. Um homem e a esposa numa existência unicamente sua,
com a casa a conter-nos e o mundo fora das nossas portas a
desenrolar-se despercebido. Dia após dia, noite após noite,
enquanto vivêssemos. Recordava-me pelo menos disso do livro
de orações.
Fechei os olhos, e ela surgiu imediatamente a meu lado, e
creio que adormeci, porque quando descerrei as pálpebras o
sol incidia na janela aberta e John entrara, para dispor a
minha
roupa no espaldar da cadeira e trazer a água quente, sem que
me apercebesse. Fiz a barba, vesti-me e desci para tomar o pequeno-almoço. Depois, assobiei aos cães e saí, em direcção ao
jardim, onde colhi todas as camélias em botão que vi e coloquei-as na cesta, a mesma em que transportara as jóias na véspera, após o que voltei para dentro e subi ao quarto de Raquel.
Estava sentada na cama, a contas com o pequeno-almoço,
e, antes que tivesse tempo de protestar e correr os
cortinados,
verti-lhe o conteúdo da cesta em cima, cobrindo-a, e aos cobertores, de camélias.
- Bom dia, mais uma vez - proferi. - Quero recordar-te que o meu aniversário continua.
- Aniversário ou não, é costume bater à porta antes de
entrar. Desaparece.
A dignidade tornava-se difícil, com as camélias no seu cabelo e ombros e a caírem na chávena e no pão com manteiga,
mas consegui exibir uma expressão grave e transferi-me para o
canto mais distante do quarto.
- Desculpa, mas desde que me habituei a entrar pelas janelas, tornei-me distraído acerca das portas. Na verdade, as
boas maneiras abandonaram-me.
- É melhor saíres, antes que o Seecombe venha buscar o
tabuleiro. Creio que ficaria chocado se te visse aqui, com ou
sem aniversário.
Aquelas palavras constituíram um balde de água fria no
meu encantamento, mas reconheci que havia nelas uma certa
lógica. Talvez fosse arrojado de minha parte invadir os
aposentos de uma mulher que tomava o pequeno-almoço, mesmo
que em breve se tornasse minha esposa, pormenor que Seecombe desconhecia.
- Saio já. Perdoa-me. Apenas queria dizer uma coisa.
Amo-te.
Antes de me retirar, notei que já não usava o colar de pérolas. Devia tê-lo tirado depois de eu sair, de madrugada, além
de que as jóias haviam sido guardadas. No entanto, no tabuleiro do pequeno-almoço, encontrava-se o documento que eu assinara no dia anterior.
Seecombe aguardava-me no átrio, com um embrulho algo
volumoso.
- É uma data especial, Mister Philip. Permita-me que lhe
dê os parabéns e deseje muitissimas repetições deste dia.
- Muito obrigado, Seecombe.
- Isto não passa de uma ninharia. Uma pequena recordação dos numerosos anos dedicados à família. Espero que não
se sinta ofendido, nem tomasse qualquer liberdade ao supor
que o aceitaria como uma prenda.
Retirei o envoltório do embrulho e deparou-se-me o rosto
dele, de perfil. Porventura pouco favorecido, mas inconfundível.
- É uma bela prenda - declarei com gravidade. - Tão
bela, na verdade, que a pendurarei em lugar de honra junto
da
escada. Arranja-me um martelo e pregos.
Puxou o cordão da sineta com dignidade, para incumbir
John da tarefa, e colocámos o retrato na parede à saída da
sala
de jantar.
- Acha que a parecença me presta justiça, senhor? - perguntou. - Ou o artista terá conferido dureza excessiva às feições, em particular ao nariz? Confesso que não estou totalmente satisfeito.
- A perfeição num retrato é impossível - assegurei-lhe.
- Quanto a mim, considero-o inteiramente satisfatório.
- Nesse caso, é a única coisa que interessa.
Apetecia-me anunciar-lhe imediatamente que Raquel e eu
tencionávamos casar, tal a alegria que me assolava, mas contive-me devido a uma ponta de hesitação. O assunto era demasiado solene e delicado para lho divulgar de rompante, e
talvez
conviesse que o fizéssemos juntos.
Dirigi-me ao escritório, com a vaga intenção de trabalhar,
mas a única coisa que fiz foi sentar-me à secretária e olhar
vagamente na minha frente. Continuava a ver Raquel, reclinada
nas almofadas, a tomar o pequeno-almoço, com os botões de
camélias dispersos à sua volta. A paz do nascer do Sol
dissipara-se do meu espírito e reaparecera o estado febril da noite
anterior. Cogitei que, quando estivéssemos casados, não me afastaria da sua presença com tanta facilidade. Tomaríamos o
pequeno-almoço juntos. Acabar-se-ia a primeira refeição do
dia na sala de jantar sem companhia. Iniciaríamos uma nova
rotina.
Soaram dez badaladas no relógio do campanário e peguei
num maço de facturas, para as pousar em seguida, após o que
encetei uma carta a um magistrado, mas não fui além da primeira linha. Não me acudiam palavras que formassem um sentido coerente, e ainda faltavam duas horas para o meio-dia,
altura em que Raquel desceria do quarto. O caseiro de Penhale,
Nat Bray, procurou-me com uma história complicada e confusa de algumas cabeças de gado que tinham invadido as terras
de Trenant, mas a culpa era do vizinho, que não conservava a
vedação em bom estado, enquanto eu assentia com movimentos de cabeça ocasionais, quase sem prestar atenção, porque
Raquel já se devia encontrar no jardim, a trocar impressões
com Tamlyn.
Por fim, interrompi-o e despedi-me, e, vendo que parecia
descoroçoado, indiquei-lhe que passasse pela sala comum do
pessoal e tomasse uma cerveja com Seecombe, esclarecendo
que não me ocupava de assuntos formais por ser dia do meu
aniversário e me considerar o mais feliz dos homens.
Depois, assomei à janela e chamei um dos empregados da
cozinha, a fim de lhe recomendar que preparasse uma refeição
fria para dois, porque me apetecia subitamente estar a sós com
Raquel, ao sol, sem o ambiente circunspecto da sala de jantar,
após o que me dirigi aos estábulos, para comunicar a Wellington que desejava o Salomão selado para a senhora.
Não o encontrei, e apercebi-me igualmente da ausência da
carruagem. Um dos moços, que varria o chão, não se mostrou
muito elucidativo:
- A senhora mandou aparelhar a carruagem pouco depois
das dez horas, mas não sei aonde foi. Talvez à aldeia.
Tornei a entrar em casa e chamei Seecombe, que todavia
nada pôde acrescentar além de explicar que Wellington levara a
carruagem para a entrada, pouco depois das dez, onde Raquel
já se achava à espera. Era a primeira vez que ela saía de
manhã,
e a minha euforia desceu repentinamente vários furos. Tínhamos todo o dia à nossa frente, e não fora nada daquilo que eu
planeara.
Esforcei-me por aguardar calmamente o desenrolar dos
acontecimentos. O meio-dia chegou e soou a sineta para o almoço do pessoal. A cesta do piquenique encontrava-se a meu
lado e o Salomão selado. Mas a carruagem não apareceu. Finalmente, às duas, levei o cavalo para os estábulos e indiquei
ao moço que o desselasse. Atravessei o bosque em direcção à
nova alameda, com a excitação matinal totalmente dissipada e
convertida em apatia. Mesmo que ela regressasse naquele momento, seria demasiado tarde para pensar num piquenique,
pois o calor do sol de Abril extinguir-se-ia às quatro horas.
Quase atingira a extremidade da alameda, em Four Turnings, quando vi a carruagem transpor o portão. Fiquei à espera, a meio do caminho, que os cavalos se aproximassem, e,
ao avistar-me, Wellington puxou as rédeas e o veículo imobilizou-se. O peso do desapontamento, tão opressivo durante as
últimas horas, dissipou-se ao ver Raquel, que indicou ao cocheiro que reatasse a marcha comigo sentado na sua frente.
Envolvia-a a capa negra e tinha o véu baixado, pelo que
não me era possível descortinar-lhe as feições.
- Andava à tua procura desde as onze horas - declarei.
- Onde estiveste?
- Em Pelyn, para falar com o teu padrinho.
Todas as preocupações e perplexidades, sepultadas nas profundezas, acudiram ao primeiro plano do meu espírito e, com
um brusco pressentimento, perguntei-me que poderiam eles
fazer, em conjunto, para aniquilar os meus planos.
- Para quê? - insisti. - Que necessidade tinhas de lhe
falar com tanta urgência? Ficou tudo resolvido há muito tempo.
- Não entendo bem o que queres dizer com ??tudo??.
A carruagem sofreu um solavanco numa cova, e a minha
prima estendeu a mão enluvada para se segurar à correia a seu
lado. Como parecia remota, sentada na minha frente, de luto,
o rosto oculto pelo véu, a um mundo de distância da Raquel
que me apertara ao coração!
- O documento - expliquei. - Estás a pensar nisso.
Não é possível alterá-lo. Tenho a idade legal, e o meu padrinho não pode fazer nada. Foi assinado, selado e testemunhado. É tudo teu.
- Sim, agora compreendo. O fraseado era algo confuso e
quis certificar-me do que significava.
Ainda a voz distante, fria, desprendida, enquanto nos meus
ouvidos e memória persistia a outra, a que me sussurrara à
meia-noite.
- É tudo claro para ti agora?
- Muito claro.
- Nesse caso, nada mais há a dizer sobre o assunto?
- Nada - assentiu.
Não obstante, subsistia uma ponta de dúvida no meu coração. Desaparecera toda a espontaneidade, a alegria e sorrisos
que havíamos partilhado quando lhe dera as jóias. Demónios
levassem o meu padrinho se tivesse dito alguma coisa que a
melindrara.
- Levanta o véu - pedi-lhe.
Por um momento, não se moveu. Em seguida, ergueu os
olhos para as costas largas de Wellington e o moço a seu lado
no banco do cocheiro. O primeiro fez estalar o chicote, a fim
de acelerar as passadas dos cavalos no ponto em que as sinuosidades da alameda terminavam, substituídas por uma longa
recta.
Raquel levantou o véu, e os olhos que me fitaram não eram
sorridentes como eu esperara, ou marejados de lágrimas como
receara, mas firmes e serenos, de alguém que tratara de um negócio e o resolvera a seu contento.
Sem razão visível e, até certo ponto, frustrado, queria que
os seus olhos fossem como os vira ao nascer do Sol. Afigurara-se-me, por mera insensatez porventura, que se devera ao
facto de conservarem a mesma expressão que os ocultara de trás do véu. Tal não acontecia, porém. Ela decerto
enfrentara
assim o meu padrinho, do outro lado da secretária no
escritório dele, calma, determinada e prática, enquanto eu a
esperava
em casa, atormentado pela dúvida.
- Não voltei mais cedo porque eles insistiram em que fi casse para almoçar, e não pude recusar - informou. - Tinhas
traçado algum plano?
Volveu o rosto para o cenário que deslizava diante da janela, e perguntei a mim próprio como era possível que conseguisse assumir uma atitude como se fôssemos duas pessoas
que se haviam encontrado por mera casualidade, quando na
realidade dominava com dificuldade o desejo de a apertar nos
braços. Tudo se modificara desde a véspera. No entanto, ela
não deixava transparecer que fosse assim.
- Tinha de facto traçado um plano - admiti -, mas já
não interessa.
- Os Kendall jantam hoje em casa de uns amigos, mas no
regresso irão ver-nos. Creio que as minhas relações com a
Louise melhoraram. Pelo menos, não me tratou com tanta
frieza.
- Ainda bem. Gostava que fossem amigas.
- Na verdade, continuo convencida de que ela te convém
perfeitamente.
Soltou uma risada, que eu não secundei. Parecia-me injusto
tecer comentários mais ou menos sarcásticos escolhendo Louise como um dos alvos. Com efeito, eu não desejava o mínimo
mal à rapariga e esperava que encontrasse o marido mais apropriado.
- Penso que o teu padrinho não simpatizava particularmente comigo, mas no final do almoço as nossas relações eram
muito mais cordiais. A tensão atenuou-se e o diálogo passou a
desenrolar-se com facilidade. Combinámos voltar a encontrar-nos em Londres.
- Em Londres? - estranhei. - Continuas decidida a partir para lá?
- Com certeza. Porque não?
Não respondi. De facto, tinha todo o direito de ir para
Londres, se lhe apetecia. Devia haver lojas que pretendia
visitar, compras a fazer, em especial agora que dispunha de mais
dinheiro, mas... Porque não aguardaria algum tempo, até que
pudéssemos efectuar a viagem juntos? Precisávamos de discutir várias coisas, porém eu hesitava em abordá-las. Acudia-me agora, com todo o seu impacto, algo em que até então não
pensara. Havia nove meses que Ambrose falecera. O mundo
não aprovaria o nosso casamento antes de meados do Verão.
Com o romper do dia tinham surgido problemas ausentes
do horizonte à meia-noite, e eu não estava interessado em
encará-los.
- Não regressemos a casa imediatamente - propus.
- Vamos dar uma volta pelo bosque.
- Pois sim.
Parámos junto da casa do guarda da propriedade, no vale,
apeámo-nos e indiquei a Wellington que seguisse para casa
com a carruagem. Enveredámos por um dos caminhos à beira
de um ribeiro, que corria do topo de uma colina, e Raquel colheu algumas primaveras, enquanto voltava a aludir ao tema
de
Louise, dizendo que tinha uma inclinação natural para os
jardins e, se escutasse os conselhos adequados sobre a matéria,
poderia tornar-se numa autêntica autoridade. Todavia, a filha
do meu padrinho podia dedicar-se à jardinagem até ao dia do
Juízo Final, pela parte que me tocava, pois eu não sugerira
o
passeio no bosque para trocar impressões sobre ela.
Retirei-lhe as primaveras da mão, pousei-as no chão, estendi a capa debaixo de uma árvore e convidei-a a sentar-se.
- Não estou cansada - replicou. - Passei mais de uma
hora sentada na carruagem.
- E eu estive sentado mais de três, à porta de casa, ansioso por que chegasses.
Descalcei-lhe as luvas, beijei as mãos, coloquei o seu chapéu e véu entre as flores e tornei os beijos extensivos ao
rosto.
- Era este o meu plano, que estragaste ao almoçares com
os Kendall. . .
- Suspeitava disso, e foi a principal razão por que aceitei
o convite. .
- Prometeste não me negar nada no dia do meu aniversário.
- A indulgência tem limites.
Contudo, eu não descortinava nenhum. Voltava a sentir -me feliz, com toda a ansiedade dissipada.
- Se o guarda costuma passar por aqui, pode surpreender -nos e ficaremos embaraçados - acrescentou.
- Ele ainda ficaria mais quando lhe pagasse o salário no
sábado. Ou ocupar-te-ás também disso? Passei a ser o teu
servo, mais ou menos como o Seecombe, a aguardar ordens.
Pousei a cabeça no seu regaço e ela fez deslizar os dedos
entre o meu cabelo. Fechei os olhos e desejei que o momento se
prolongasse eternamente.
- Estranhas que não te tenha agradecido - observou.
- Notei a tua expressão perplexa na carruagem. Não há nada
que eu possa dizer. Sempre me julguei impulsiva, mas tu ainda
o és mais. Vou necessitar de algum tempo para abarcar toda a
dimensão da tua generosidade.
- Não fui generoso - asseverei. - Limitei-me a repor a
verdade da situação. Deixa-me beijar-te, mais uma vez. Tenho
de me desforrar das horas de solidão à tua espera.
Seguiu-se um breve silêncio, que ela acabou por quebrar:
- Aprendi, pelo menos, uma coisa. Não voltar a passear
no bosque contigo. Deixa-me levantar.
Ajudei-a a pôr-se de pé e, com uma vénia, entreguei-lhe as
luvas e o chapéu. Em seguida, ela abriu a bolsa, extraiu um
pequeno embrulho e retirou o envoltório.
- Aqui tens a minha Prenda de aniversário, que já te devia
ter dado. Se soubesse que herdaria uma fortuna, a pérola seria
maior. - Prendeu o alfinete na minha gravata. - E agora, estou autorizada a regressar a casa?
Estendeu-me a mão, e recordei-me de que não almoçara, o
que contribuíra para criar um apetite devorador para o jantar.
Recomeçámos a caminhar - eu a pensar em frango assado e
bacon e na noite que se avizinhava -, até que se nos deparou
a laje de granito sobranceira ao vale, que, embora eu o
tivesse
esquecido, nos aguardava ao fundo da passagem. Fiz menção
de me desviar para o arvoredo, a fim de a evitar, mas era demasiado tarde. Raquel já a vira e, largando-me a mão, imobilizou-se, os olhos fixos nela.
- Que é aquilo parecido com uma sepultura?
- Uma simples laje de granito - apressei-me a replicar,
com simulada indiferença. - Uma espécie de marco de referência. O caminho entre as árvores é menos íngreme. Vamos.
- Aguarda um momento. Quero vê-la de perto. Nunca tinha passado por aqui.
Acercou-se e olhou-a com curiosidade. Vi os lábios moverem-se enquanto lia os dizeres, com apreensão crescente. Talvez fosse impressão minha, mas pareceu-me que estremecia e a
leitura se prolongava mais do que o necessário. Por fim, voltou para junto de mim, mas desta vez não me deu a mão. Não
emitiu qualquer comentário sobre a laje, porém esta erguia-se
entre nós como uma barreira. Não pude deixar de me lembrar
do porta-moedas que continha a carta enterrado debaixo da
pedra. O silêncio da minha companheira provava que estava
emocionada. ??Se eu não falar agora, neste momento, a laje de
granito opor-se-á sempre entre nós??, reflecti. ??Com o rolar
dos anos, as suas dimensões aumentarão.??
- Fazia tenções de te levar aí - expliquei, numa voz que
me pareceu pouco natural. - Era a vista que o Ambrose preferia em toda a propriedade. É a razão da pedra colocada nesse
lugar.
- Mas não fazia parte dos teus planos do aniversário mostrar-ma - redarguiu numa inflexão dura, que quase não reconheci.
- Pois não - aquiesci a meia voz.
O resto do caminho foi percorrido em silêncio e, uma vez
em casa, ela seguiu directamente para o quarto.
Tomei banho e mudei de roupa, já sem a mínima euforia
- apático e acabrunhado. Que demónio nos conduzira à laje
de granito, que lapso de memória? Raquel não sabia, como eu,
que Ambrose costumava passar horas naquele local, sorridente
e apoiado à bengala, com uma expressão de nostalgia por detrás do olhar divertido. A laje de granito, alta e orgulhosa,
receberia a substância do próprio homem que as circunstâncias
não tinham permitido que morresse no seu lar e, ao invés, ficara sepultado a muitas centenas de quilómetros, no cemitério
protestante de Florença.
Tratava-se de uma sombra na minha noite de aniversário.
Ao menos, ela ignorava a existência da carta, do que jamais
se inteiraria, e eu perguntava-me, enquanto me vestia para
jantar, que outro demónio me impelira a enterrá-la naquele lugar
em vez de a queimar, como se possuísse o instinto de um animal que voltaria um dia para a retirar do esconderijo. Esquecera todo o seu conteúdo. Dominara-o a doença quando a escrevera. Atormentado, desconfiado, com as asas da morte tão
próximas, não contara com as suas palavras. De súbito, como
se bailasse diante de mim na parede, revi a frase em que
referia
que o dinheiro constituía o único caminho de acesso ao coração de Raquel.
As palavras brotaram do espelho quando me detive na sua
frente para me pentear. Continuavam presentes no momento
em que colocava na gravata o alfinete que ela me oferecera.
Acompanharam-me ao longo da escada e à sala de estar e passaram da escrita para a voz dele, a salientar: ??...o único
caminho de acesso ao coração de Raquel.??
Quando apareceu para jantar, ela usava o colar de pérolas,
como que num gesto de perdão, um tributo ao meu aniversário. No entanto, por estranho que parecesse, o facto de o
usar,
em vez de a aproximar de mim, tornava-a mais distante. Naquela noite, eu teria preferido ver-lhe o pescoço sem aquele
ornamento.
Sentámo-nos à mesa, com Seecombe e John incumbidos de
nos servir as variadas iguarias próprias de um jantar de
aniversário. Conversámos, rimos e brindámos numerosas vezes, mas,
no fundo, eu pressentia que se tratava de mera fachada da
parte de ambos em virtude de não nos encontrarmos sós, em
cuja eventualidade mergulharíamos em profundo e tenebroso silêncio.
Acudiu-me uma espécie de desespero imperioso para que
me tornasse jovial, eufórico mesmo, e a única solução para isso consistia em beber sem restrições e insistir em encher
igualmente o copo de Raquel. Na noite anterior, eu caminhara até
ao farol, alegre, excitado, como que imerso num sonho. Agora, apesar de, nas horas intermédias, ter despertado para a
riqueza do mundo inteiro, também ficara ciente das sombras
que me rodeavam.
Levemente aturdido, eu observava-a do outro lado da mesa, via-a rir por cima do ombro para Seecombe, e afigurava-se-me que nunca estivera tão atraente. Se conseguisse recuperar
a
boa disposição das primeiras horas daquele dia, a serenidade e
a paz, e mesclá-las com os momentos deliciosos entre as primaveras, sob as árvores altaneiras, voltaria a sentir-me
feliz.
E Raquel igualmente. E conservaríamos aquela disposição para
sempre, preciosa e sagrada, a fim de a transportarmos para o
futuro.
Seecombe tornou a encher-me o copo, e parte das sombras
atenuou-se, as dúvidas reduziram-se. ??Quando estivermos sós,
tudo correrá bem e perguntar-lhe-ei esta noite mesmo se podemos casar em breve, dentro de semanas, um mês o máximo??, reflecti. Ansiava por comunicar a todos que ela manteria
o seu actual apelido.
Continuaria a ser Mrs. Ashley, mas esposa de Philip Ashley.
Creio que nos conservámos sentados até tarde, pois ainda
não abandonáramos a mesa quando ouvimos o ruído de rodas
de uma carruagem no caminho de acesso à casa. Soou a sineta
da porta e os Kendall foram introduzidos na sala de jantar,
onde nos mantínhamos entre a confusão de restos da sobremesa
e garrafas de vinho. Levantei-me, com pouca firmeza devo reconhecer, e puxei duas cadeiras para a mesa, com o meu padrinho a protestar que já tinham jantado e haviam passado por
minha casa apenas para me dar os parabéns.
Seecombe trouxe copos para ambos, e vi Louise, de vestido
azul, olhar-me com uma expressão interrogativa, sem dúvida
convencida de que eu bebera em excesso. Tinha razão, mas o
facto não ocorria com frequência e, de resto, ela devia habituar-se à ideia de que não lhe competia criticar os meus
actos.
E, de caminho, o pai devia igualmente inteirar-se disso.
Impunha-se que, de uma vez por todas, pusesse termo aos seus
planos de um eventual casamento entre nós.
Voltámos a sentar-nos e estabeleceu-se imediatamente animada conversa entre os três, enquanto eu permanecia silencioso na minha extremidade da mesa, quase sem lhes prestar atenção, mais preocupado com a revelação que estava decidido a
fazer.
Por fim, Nick Kendall virou-se para mim, de copo na mão,
e brindou:
- Aos teus vinte e cinco anos, Philip. Uma longa vida,
cheia de felicidades.
O trio concentrou-se em mim e, não sei se devido ao vinho
que ingerira ou à euforia, considerei que o meu padrinho e
Louise eram amigos nos quais podia confiar, enquanto Raquel,
a minha amada, de olhos marejados, exibia um sorriso de encorajamento.
O momento não podia, pois, ser mais oportuno. Como
Seecombe e John não se achavam presentes, o segredo ficaria
encerrado entre nós os quatro.
Levantei-me, agradeci as felicitações e, pegando no copo,
anunciei:
- Também quero fazer um brinde. Desde esta manhã, julgo-me o mais feliz dos homens. Desejo que o padrinho e a
Louise bebam em homenagem a Raquel, minha futura esposa.
Esvaziei-o e olhei-os, sorridente. Ninguém se moveu. Divisei perplexidade na expressão do meu padrinho e, volvendo
o olhar para Raquel, notei que o sorriso desaparecera e me
contemplava, o rosto convertido numa máscara glacial.
- Enlouqueceste, Philip? - perguntou.
Pousei com mão trémula, na borda da mesa, o copo, que
resvalou para o chão, onde se desfez em vários pedaços. Senti
o coração palpitar desordenadamente. Não conseguia afastar
os olhos do rosto duro, que empalidecera.
- Lamento - articulei, por fim. - Precipitei-me ao mencionar o evento. Mas não esqueças que é o meu aniversário e
eles são os meus melhores amigos.
Segurei-me à mesa para conservar o equilíbrio, ao mesmo
tempo que me apercebia de um latejar nos ouvidos. Raquel
parecia não abarcar a situação. Desviou os olhos de mim e fixou-os no meu padrinho e em Louise.
- Receio que o aniversário e o vinho subissem à cabeça do
Philip. Desculpem-lhe a atitude de colegial e esqueçam-na, se
puderem. Estou certa de que pedirá perdão quando recuperar
a sensatez. Passamos à sala de estar?
Levantou-se e abriu caminho em direcção à porta. Continuei imóvel, de pé, o olhar perdido nos restos da refeição,
sem
qualquer sensação, com uma espécie de vácuo onde se devia
encontrar o coração. Aguardei uns minutos e, com passos incertos, antes que Seecombe e John reaparecessem para levantar
a mesa, encaminhei-me para a biblioteca e sentei-me na escuridão, diante da lareira, onde ardiam algumas escassas brasas,
sem que as velas tivessem sido acesas. Através da porta
entreaberta, ouvia o murmúrio de vozes na sala. Apertei a cabeça
agitada entre as mãos e senti o gosto azedo do vinho na língua. Se permanecesse ali, na penumbra, talvez recobrasse o
equilíbrio mental e o aturdimento se dissipasse. A bebida
constituía a causa da minha precipitação. Em todo o caso,
porque se mostrara ela tão escandalizada - era o termo adequado - com o que eu dissera? Podíamos ter pedido ao meu
padrinho e a Louise que guardassem segredo. Decerto não
manifestariam dificuldade nem relutância em compreender.
Conservei-me sentado, à espera de que se retirassem. Por último - parecia que transcorrera uma eternidade, mas duvido
que fosse mais de uma dezena de minutos -, as vozes aumentaram gradualmente de intensidade e transferiram-se para o
átrio. Ouvi Seecombe abrir a porta, dar-lhes as boas-noites e
em seguida trancá-la, após o que soou o ruído do rodado da
carruagem.
Entretanto, o meu cérebro desanuviara-se um pouco. Mantive-me à escuta e detectei o ruge-ruge do vestido de Raquel.
Aproximou-se da porta entreaberta da biblioteca, parou por
um instante e afastou-se. Quando distingui os seus passos na
escada, segui-a, para a alcançar à entrada do corredor do primeiro piso, onde se detivera para apagar as velas do patamar.
Olhámo-nos por um momento em silêncio, ao clarão oscilante.
- Pensava que tinhas ido para a cama - murmurou.
- Aconselho-te a fazê-lo, antes que produzas mais estragos.
- Agora que eles se retiraram, perdoas-me? Acredita que
podes confiar nos Kendall. Não divulgarão o nosso segredo.
- Assim espero, porque não estão ao corrente. Fazes-me
pensar numa criada de quarto que se refugia no sótão com um
colega. Conheci situações embaraçosas no passado, mas esta
ultrapassa tudo o admissível.
Conservava a expressão glacial que não era sua.
- Não parecias embaraçada ontem à meia-noite. Prometeste, e não estavas contrariada. Não hesitaria em me retirar
imediatamente, se mo ordenasses.
- Mas que te prometi eu?
- Casar comigo, Raquel.
Ela tinha o castiçal na mão e ergueu-o, para que a chama
me iluminasse bem o rosto.
- Atreves-te a afirmar que prometi casar contigo? Acusei-te, diante dos Kendall, de teres enlouquecido, e cada vez me
convenço mais disso. Sabes perfeitamente que não te fiz qualquer promessa do género.
Arregalei os olhos de incredulidade. Não fora eu que enlouquecera, mas ela. Senti-me invadido por um calor intenso
nas faces.
- Perguntaste o que desejava para o meu aniversário.
A única coisa que me interessava, e continua a interessar, era
que casasses comigo. Que mais poderia desejar?
Não respondeu. Persistiu com o olhar cravado em mim,
incrédula, perplexa, como se escutasse um idioma estrangeiro
impossível de traduzir ou compreender, e apercebi-me subitamente, com angústia e desespero, de que era o que acontecia
entre nós: tudo o que ocorrera não passara de um equívoco.
Ela não entendera o que lhe pedira à meia-noite, nem eu, no
meu cego deslumbramento, o que me dera, pelo que aquilo
que se me afigurara uma afirmação de amor constituía algo de
diferente, sem significado, a que atribuíra a sua própria
interpretação.
Se se sentia embaraçada, que diria eu, ao reconhecer que
cometera um erro tão clamoroso a meu respeito?
- Vou formular o pedido em linguagem clara - decidi.
- Queres casar comigo?
- Nunca, Philip - replicou, com um gesto largo, como
que para pôr termo definitivo ao assunto. - Considera esta
resposta irrevogável. Se acalentavas alguma esperança, lamento-o profundamente. Não tive a menor tenção de te induzir
em erro. Boa noite.
Deu meia volta para se afastar, mas segurei-lhe a mão com
firmeza.
- Não me amas, nesse caso? Foi tudo uma comédia? Porque não me disseste a verdade, ontem à noite, e mandaste sair
do quarto?
Os olhos tornaram a denunciar perplexidade, como se eu
tivesse aludido a um facto incompreensível. Éramos dois estranhos, sem o mínimo elo comum. Ela provinha de outras terras, de outra raça.
- Atreves-te a recriminar-me pelo que aconteceu? Quis
apenas agradecer-te. Tinhas-me oferecido as jóias.
Creio que abarquei naquele instante tudo o que se tornara
claro aos olhos de Ambrose. Compreendi o que vira nela e pelo que ansiara e nunca obtivera. Entendi o tormento, a mágoa
e o abismo que se cavara entre ambos, cada vez mais profundo. Os olhos de Raquel, tão negros e diferentes dos nossos,
fitavam-nos, sem compreender. Ambrose encontrava-se a meu
lado, na sombra, à margem do oscilante clarão da vela. Nós
contemplávamo-la, torturados, sem esperança, enquanto nos
retribuía a mirada com uma expressão acusadora. O seu rosto
também era estrangeiro, na penumbra, pequeno e estreito, a
face de uma moeda. A mão que eu segurava já não irradiava
calor. Fria e frágil, os dedos debatiam-se para se soltar e os
anéis cravavam-se-me na palma. Larguei-a e, ao fazê-lo, desejei tornar a pegar-lhe.
- Porque me olhas assim? - murmurou. - Que mal te
fiz? A tua expressão alterou-se.
Tentei determinar intimamente que mais tinha para dar. Ela
dispunha da propriedade, dinheiro e jóias. E possuía a minha
mente, corpo e coração. Restava apenas o meu nome, e já o
usava. Não faltava nada. A menos que fosse o medo. Retirei-lhe o castiçal da mão e pousei-o na mesinha no topo da escada. Em seguida, rodeei-lhe o pescoço com os dedos e ficou
impossibilitada de se mover, limitando-se a observar-me, de
olhos esgazeados. Dir-se-ia que tinha uma ave assustada entre
as mãos, a qual, com o intensificar da pressão, bateria as
asas
por um momento e morreria, alcançando assim a liberdade.
- Nunca me abandones - proferi entre dentes. - Jura
que nunca, mas mesmo nunca, o farás.
Tentou mover os lábios para responder, mas não conseguiu, em virtude da pressão dos dedos. Aliviei-a até a soltar,
e
ela recuou, ao mesmo tempo que levava a mão à garganta. Havia dois vergões avermelhados, um de cada lado do colar de
pérolas.
- E agora, casas comigo? - insisti.
Não respondeu e continuou a retroceder, ao longo do corredor, sem desviar os olhos do meu rosto, a mão ainda pousada na garganta. Vi a minha sombra na parede, uma coisa
monstruosa destituída de forma e substância. Raquel acabou
por desaparecer sob a arcada e ouvi a porta fechar-se e a
chave
rodar na fechadura. Entrei no meu quarto e, ao descortinar a
minha imagem no espelho, detive-me de olhos arregalados. Só
podia ser Ambrose o homem que se encontrava na minha
frente, a fronte perlada de transpiração e faces esvaídas de
toda
a cor. Por fim, movi-me e voltei a ser eu, de ombros encurvados, braços desajeitados e demasiado compridos, hesitante, o
Philip que se permitira uma loucura de colegial. Raquel pedira
aos Kendall que perdoassem e esquecessem.
Abri a janela, mas não havia luar e chovia com intensidade.
O vento agitou os cortinados, que atingiram o bloco-calendário em cima da prateleira da chaminé e o atiraram ao
chão. Agachei-me para o recolher, arranquei a folha de cima,
amarrotei-a e atirei-a ao lume. O dia das mentiras chegara
ao fim.
De manhã, quando me sentei à mesa para tomar o pequeno-almoço e fixei o olhar na fúria dos elementos através da
janela, Seecombe entrou com um bilhete numa salva de prata.
Ao vê-lo, o meu coração experimentou um sobressalto. Talvez
se tratasse de um pedido para a procurar no quarto. Mas não
era de Raquel, como verifiquei pela caligrafia, mais volumosa
e
arredondada. Provinha de Louise.
- O moço de Mister Kendall acaba de o trazer - informou o mordomo. - Ficou a aguardar a resposta.
Desdobrei o papel e li:
??Caro Philip: Tenho estado muito preocupada com o
que se passou ontem à noite. Creio que compreendo
o que sentiste, mais do que o meu pai. Lembra-te de que
sou, e sempre serei, tua amiga. Esta manhã, tenho de me
deslocar à aldeia. Se precisas de alguém com quem conversar, podemos encontrar-nos no adro da igreja, por
volta do meio-dia. Louise.??
Guardei-o na algibeira e pedi a Seecombe que fosse buscar
papel e uma caneta. O meu primeiro instinto, como sempre
ante a sugestão de um encontro com quem quer que fosse e,
mais especificamente, naquela manhã, consistiu em escrever
umas palavras de agradecimento e recusar a sugestão. No entanto, quando o mordomo reapareceu com o que lhe pedira,
tinha mudado de ideias. A noite em claro e a agonia da solidão
que me assolava faziam ansiar por companhia. Por conseguinte, tracei meia dúzia de palavras em que prometia comparecer
no local e hora propostos.
- Depois de entregares isto ao portador, diz ao Wellington que sele o Cigano às onze horas.
Terminado o pequeno-almoço, encerrei-me no escritório,
dei seguimento às facturas por saldar e completei a carta que
iniciara na véspera. Agora, afigurava-se-me mais fácil. Uma
secção do meu cérebro funcionava de um modo quase impessoal: tomava nota dos factos e números e armazenava-os para
utilização posterior, em obediência à força do hábito.
Concluído o trabalho, encaminhei-me para os estábulos, disposto a
afastar-me apressadamente da casa e de tudo o que representava para mim. Não segui pela alameda através do bosque, com
as suas recordações da véspera; cruzei o parque em direcção à
estrada.
O mau tempo, que se mantivera ausente em Fevereiro e
Março, surgira finalmente. Nuvens densas e negras cruzavam
o céu a intervalos cada vez menos espaçados, para despejarem
aguaceiros diluvianos, com fortes rajadas de vento, enquanto o
mar apresentava ondulação alterosa. Nat Bray, de quem me
desembaraçara tão precipitadamente na véspera, conservava-se
junto do portão quando passei e deu-me os bons-dias com um
gesto respeitoso, porém o som da sua voz não me chegou aos
ouvidos.
Havia pouca gente nas ruas quando desci a colina e entrei
na aldeia, e as pessoas que se aventuravam moviam-se apressadamente, indicando que só uma necessidade imperiosa as obrigaria a exporem-se à fúria dos elementos. Deixei o Cigano à
entrada da Rose and Crown e encaminhei-me para a igreja.
Louise encontrava-se abrigada à entrada e transpusemos a pesada porta. O silêncio e paz que imperavam constituíam um
contraste tranquilizador depois da implacável intempérie do
exterior, embora pairasse um leve cheiro a mofo e subsistisse
a
usual temperatura baixa. Fomos sentar-nos junto da figura jacente de mármore do meu antepassado, com os filhos lacrimosos a seus pés, e ponderei quantos Ashley estariam dispersos
pela região, uns ali, outros na minha própria paróquia, e como
tinham amado, sofrido e depois prosseguido o seu caminho.
O instinto impelia-nos a falar em surdina, em virtude da
quietude que nos envolvia.
- Há muito tempo que ando preocupada contigo - explicou ela. - Desde antes do Natal, mas não me atrevia a tocar no assunto. De qualquer modo, não farias caso.
- Não havia necessidade - repliquei. - Tudo correu
muito bem até ontem à noite. A culpa foi minha, pelo que
disse.
- Não o dirias se não acreditasses que correspondia à verdade. Houve logro desde o princípio e foste preparado para
ele, antes de ela aparecer.
- O logro só ocorreu nas últimas horas. Se me equivoquei, sou o único culpado.
Novo aguaceiro torrencial sacudiu as janelas do lado sul do
templo e a escuridão no interior acentuou-se.
- Porque veio ela? - volveu Louise. - Porque percorreu
uma distância tão grande para te atormentar? Não foi o sentimentalismo ou a curiosidade que a trouxe. Chegou à Inglaterra e à Cornualha com um objectivo bem definido.
Olhei-a com estranheza, mas a sua expressão revelava a
maior simplicidade, sem qualquer malícia.
- Não compreendo.
- Ficou com o dinheiro. Era esse o plano que tinha em
mente antes de iniciar a viagem.
Um dos professores de Harrow explicara-nos, uma ocasião, que a verdade era uma coisa intangível, invisível, que
por
vezes se nos deparava sem que a reconhecêssemos, descoberta,
e compreendida apenas pelos idosos perto da sua morte ou, às
vezes, pelas pessoas muito puras, muito jovens.
- Enganas-te - objectei. - Não sabes nada a seu respeito. É uma mulher impulsiva e emocional, com fases imprevisíveis e estranhas, mas nada mais. Foi um impulso que a levou a
vir de Florença e a emoção que a reteve cá. Ficou porque se
sentia feliz e tinha o direito de permanecer aqui.
Olhou-me com compaixão e pousou a mão no meu joelho.
- Se fosses menos vulnerável, ela não teria ficado. Procuraria o meu pai, tentaria chegar a um acordo razoável e
partiria. Interpretaste mal as suas intenções desde o
princípio.
Levantei-me e reflecti que aguentaria melhor se Louise tivesse agredido Raquel com as suas próprias mãos, cuspido na
cara ou tentado arrancar-lhe os cabelos. Seria uma atitude
primitiva e animal. Representaria uma luta leal. Mas aquilo, no
silêncio da igreja, com o alvo dos seus comentários ausente,
constituía calúnia pura e simples, quase blasfémia.
- Não quero continuar a escutar-te - declarei. - Desejava o teu conforto e simpatia. Se não os tens para me
transmitir, paciência.
- Não compreendes que tento ajudar-te? - Pôs-se igualmente de pé e segurou-me o braço. - És tão cego a tudo que
não merece a pena insistir. Se não está na natureza de
Mistress
Ashley traçar planos com meses de antecedência, porque tem
enviado a sua mesada para o estrangeiro, semana a semana,
mês a mês, ao longo do Inverno?
- Como o sabes?
- O meu pai tem meios para se inteirar. São coisas que
não se podiam ocultar entre Mister Couch e ele, na sua qualidade de teu tutor.
- Muito bem. Admitamos que o fez. Ela nunca me ocultou que tinha dívidas em Florença. Os credores pressionavam-na cada vez mais.
- De um país para outro? Achas possível? Duvido. Não
será mais plausível inferir que esperava reunir um fundo avultado para o seu regresso e passou cá o Verão por saber que a
herança ficaria legalmente nas tuas mãos no dia do vigésimo
quinto aniversário, que foi ontem? Depois, com as funções de
tutor do meu pai extintas, podia sugar-te o dinheiro a seu
bel-prazer. Só que não houve necessidade de se esforçar tanto,
pois ofereceste-lhe tudo.
Custava-me a crer que uma moça que conhecia desde a infância e me merecia inteira confiança possuísse um espírito
tão
cáustico e se exprimisse - esta era a faceta mais difícil de
suportar - com tanta lógica e senso comum, para deitar virtualmente por terra uma mulher como ela.
- É a mente legal do teu pai que fala pela tua boca, ou tu
própria?
- Conheces a reserva dele. Aliás, pouco me revelou sobre
o assunto. Sei traçar conclusões daquilo que vejo.
- Embirraste com ela desde o primeiro dia - acusei.
- Num domingo, salvo erro, na missa. Regressaste connosco
para jantar e não disseste uma palavra, sentada à mesa, empertigada e altiva. Decidiste antipatizar com ela desde o
princípio.
- E tu? - contrapôs. - Esqueceste o que disseste a seu
respeito antes de chegar? Lembro-me perfeitamente da animosidade que lhe dispensavas. E com boas razões.
A porta lateral rangeu, para dar passagem à mulher da limpeza, Alice Tabb, de vassoura em punho. Olhou-nos furtivamente e desapareceu atrás do púlpito, porém a sua presença
achava-se consciente nos nossos espíritos e a solidão
terminara.
- É inútil, Louise, não me podes valer. Somos amigos de
longa data, mas se continuarmos a conversar acabaremos por
nos detestar.
Olhou-me em silêncio por uns instantes e soltou-me o braço.
- Ama-la assim tanto?
Voltei o rosto para o outro lado. Era mais jovem do que
eu, uma rapariga, pelo que não podia compreender. Ninguém
poderia, à excepção de Ambrose, que morrera.
- Que encerra o futuro para vocês? - persistiu.
Os nossos passos ecoavam, enquanto seguíamos pelo corredor central. O aguaceiro que alagara as janelas terminou
quase bruscamente e os raios solares, algo tímidos, iluminaram
a cabeça de São Pedro por uns instantes.
- Propus-lhe casamento - informei. - Fi-lo uma vez e
mais tarde outra. E continuarei a propor-lho. Aí tens o meu
futuro.
Transpusemos a porta da igreja e detivemo-nos à entrada.
Um melro, indiferente ao tempo instável, cantava empoleirado
numa árvore próxima e um rapaz de um talho, com um saco
às costas, chapinhava no chão molhado no cumprimento de algum recado.
- Quando foi a primeira? - quis saber Louise.
O cenário de ternura voltou a acudir-me ao pensamento,
com o clarão das velas e a atmosfera de intimidade. De repente, tudo se dissipara à nossa volta. Só restáramos Raquel e
eu.
Quase como numa paródia à meia-noite, o relógio do campanário emitiu as doze badaladas do meio-dia.
- Na manhã do meu aniversário.
Aguardou que soasse a última, quase ensurdecedora sobre
as nossas cabeças.
- Que respondeu?
- Desentendemo-nos. Julguei que aceitava, quando na
realidade recusava.
- Tinha lido o documento?
- Não. Leu aquela carta. Mais tarde, na mesma manhã.
Avistei o breque dos Kendall, com o cocheiro, diante da
igreja. Quando viu a filha do patrão à entrada, o homem ergueu o chicote e desceu do banco. Louise apertou a capa à sua
volta e puxou o capuz para a fronte.
- Nesse caso, ela não perdeu muito tempo com a sua leitura e procurar o meu pai.
- Não compreendia bem as expressões empregadas.
- Mas ficou ciente quando se retirou de Pelyn. Lembro-me perfeitamente de o meu pai lhe dizer, ao despedirmo-nos:
??A cláusula sobre um novo casamento poderá parecer-lhe um
pouco dura. Deve continuar viúva, se deseja conservar a fortuna.,? Ela sorriu e respondeu: ??Corresponde inteiramente ao
meu desejo.??
O cocheiro acercou-se com o guarda-chuva aberto antes
que Louise abandonasse a protecção da entrada da igreja, pois
principiara mais um aguaceiro.
- Essa cláusula foi introduzida para salvaguarda da herança - expliquei - e impedir o seu esbanjamento por um estranho. Se ela casasse comigo, não se aplicaria.
- Aí é que te enganas. Se vocês casassem, voltava tudo para o teu poder. Aposto que não tinhas pensado nisso.
- E daí? - argumentei. - Partilharia o dinheiro até ao
último péni com ela. Não acredito que recusasse casar comigo
devido à cláusula que referes. É isso que pretendes sugerir?
Embora o capuz dissimulasse o rosto, os olhos cinzentos
observaram-me com uma expressão grave.
- Uma mulher casada não pode enviar dinheiro do marido para fora do país, nem regressar à terra de origem. Não sugiro coisa alguma.
O cocheiro levou dois dedos ao chapéu e segurou o guarda-chuva sobre a cabeça dela. Segui-a até ao breque e ajudei-a
a instalar-se.
- Não te ajudei em nada e julgas-me dura e implacável -- murmurou. - Às vezes, uma mulher vê com mais clareza que
um homem. Perdoa-me se te magoei. Apenas desejo que voltes
a ser como outrora. - Virou-se para o cocheiro. - Voltemos
para Pelyn, Thomas.
Mantive-me imóvel por uns momentos e fui sentar-me na
pequena sala da Rose and Crown. Louise falara verdade ao dizer que não me ajudara. Procurara-a em busca de conforto e
não o obtivera. Apenas factos frios e duros, alterados até à
distorção. Tudo o que dissera se revestiria de sentido na mente
de
um advogado.
Eu sabia perfeitamente como o meu padrinho pesava as
coisas na sua balança, sem permitir a mínima interferência do
coração. A filha não podia evitar a herança da sua visão rigorosa e lógica das situações.
Eu estava mais bem inteirado do que ela do que ocorrera
entre mim e Raquel. Rainaldi dissera que ela era uma mulher
impulsiva. Em virtude de um desses impulsos, permitira que
eu a amasse. E, graças a outro, repelira-me.
Ambrose achava-se ao corrente disso. E compreendera.
Tanto para ele como para mim, não poderia existir outra mulher ou outra esposa.
Conservei-me longamente na sala fria da Rose and Crown.
O dono serviu-me carneiro assado frio e cerveja, embora não
me apetecesse comer. Mais tarde, encaminhei-me para o cais e
olhei pensativamente a ondulação que se desfazia nos degraus
de pedra. As embarcações de pesca oscilavam nas suas amarras, e um homem despejava com uma lata a água do fundo
da sua.
As nuvens ameaçadoras continuavam a sulcar o céu, cada
vez mais baixas, e as árvores da margem oposta achavam-se
envoltas em neblina. Se eu pretendia regressar a casa sem
ficar
encharcado até aos ossos e o Cigano sem um resfriado, convinha que o fizesse antes que o tempo se agravasse. Agora, não
se via virtualmente vivalma nas ruas. Subi para a sela,
enveredei pela encosta da colina, alcancei Four Turnings e segui
pela
ampla alameda. Cerca de uma centena de metros adiante, o cavalo começou a coxear, pelo que decidi apear-me e levá-lo pelas rédeas, para não o sobrecarregar com o meu peso.
O vapor desprendia-se do vale pantanoso numa nuvem
branca e apercebi-me de súbito, com um arrepio, de que estivera longamente exposto ao frio, desde que me sentara na
igreja com Louise e depois na sala sem aquecimento da Rose
and Crown. Decididamente, vivia num mundo diferente do da
véspera.
Prossegui em frente pelo caminho que tomara com Raquel.
As nossas pegadas ainda eram visíveis, onde estivéramos a colher primaveras. O percurso parecia interminável, sobretudo
com o Cigano a coxear, e a chuva introduzia-se no colarinho
da minha camisa para me enregelar as costas.
Quando cheguei a casa, sentia-me demasiado cansado para
dar as boas-tardes a Wellington e limitei-me a confiar-lhe as
rédeas sem uma palavra, deixando-o a olhar-me com perplexidade. Depois do que se passara na véspera, só me apetecia beber água, mas como tinha frio e estava encharcado considerei
que um pouco de brande contribuiria para me restituir parte
do calor perdido. Assim, entrei na sala de jantar, onde John
punha a mesa. Pedi-lhe que fosse buscar um cálice e, enquanto
não reaparecia, vi que havia três talheres. Quando regressou,
perguntei:
- Temos convidados?
- Miss Pascoe, que está cá desde a uma hora. A senhora
passou por lá da parte da manhã, pouco depois de o senhor
sair, e voltou com ela. Veio para ficar.
- Miss Pascoe veio para ficar? - estranhei.
- Sim, senhor. Miss Mary, a que ensina catecismo aos domingos. Temos estado atarefados a preparar-lhe o quarto cor-de-rosa. Ela e a senhora encontram-se no boudoir neste momento.
Continuou a pôr a mesa e eu dirigi-me ao primeiro piso,
sem me preocupar mais com o brande. Havia um bilhete com
a letra de Raquel, na mesa do meu quarto. Abri-o e verifiquei
que não continha qualquer forma de endereço nem data.
??Pedi à Mary Pascoe que ficasse comigo para me fazer
companhia. Depois do que aconteceu ontem, não quero
continuar sozinha contigo. Podes ir ter connosco ao
boudoir, se quiseres, antes e após o jantar. Fico-te grata
se revelares um pouco de cortesia. Raquel."
Ela não podia estar a exprimir-se com sinceridade. Aquilo
não podia ser verdade. Quantas vezes nos tínhamos rido à socapa das filhas dos Pascoe, e muito em particular da
logorreica
Mary, uma edição mais jovem, mas não menos fastidiosa, da
mãe. Eu admitia que Raquel a convidasse para nos divertirmos
à sua custa, porém os termos do breve bilhete não permitiam
depreender que a situação contivesse a menor parcela de divertimento.
Assomei ao corredor e vi que a porta do quarto cor-de-rosa estava aberta. Não havia engano possível. Aproximei-me
e deparou-se-me a lareira acesa, roupas e diversos objectos de
uso pessoal. Ao mesmo tempo, detectei vozes na suite de Raquel. Era, pois, aquele o meu castigo. Mary Pascoe fora de
facto convidada para estabelecer uma divisão entre mim e a
minha prima, a fim de não podermos voltar a estar juntos.
A minha primeira reacção consistiu num acesso de cólera
que quase me impeliu a puxar a rapariga pelo braço e conceder-lhe cinco minutos para desaparecer daquela casa. Como se
atrevera Raquel a convidá-la, graças a um pretexto tão inconcebível e insultuoso? Estaria, por conseguinte, condenado
a suportar a presença de Mary Pascoe na biblioteca, na sala de
estar, no boudoir, juntamente com a sua interminável loquacidade?
Avancei para o boudoir, com a roupa encharcada, pouco
disposto a perder tempo com a substituição por outra menos
desconfortável. Raquel sentava-se na cadeira habitual, com
Mary Pascoe a seu lado no banco, concentradas num pesado
volume de ilustrações de jardins italianos.
- Ah, estás de volta? - proferiu a primeira. - Escolheste
um dia pouco convidativo para passear a cavalo. A carruagem
quase foi varrida para fora da estrada pelo vento, quando
visitei a reitoria. Como vês, temos a sorte de contar a Mary como
hóspede. Já se instalou e estou encantada com a sua presença.
A visada emitiu uma breve risada aguda.
- Fiquei tão excitada, quando a sua prima me foi buscar,
Mister Ashley! Deixei as minhas irmãs verdes de inveja. Confesso que me custa a crer que estou aqui. E como é agradável
esta atmosfera do boudoir! Ainda mais do que lá em baixo.
A sua prima diz que costumam passar os serões nesta sala. Jogam cribbagel? Eu adoro. Se não sabem jogar, ensino-lhes.
- O Philip não aprecia os jogos de azar - informou Raquel. - Prefere estar sentado e fumar em silêncio. Jogaremos
nós, Mary.
Volveu os olhos para mim, por cima da cabeça da rapariga.
Não, não se tratava de uma brincadeira. A expressão do olhar
indicava que procedera com particular deliberação.
- Posso falar contigo a sós? - perguntei com certa brusquidão.
- Não vejo a menor necessidade. Podes dizer o que quiseres diante da Mary.
- Não me quero intrometer. - A filha do vigário pôs-se
de pé com prontidão. - Vou para o meu quarto.
- Deixe a porta aberta, para me ouvir se eu a chama -- recomendou Raquel, com o olhar hostil cravado em mim.
- Com certeza, Mistress Ashley.
- Porque fizeste isto? - inquiri, mal nos encontrámos sós.
- Sabe-lo perfeitamente. Expliquei-o no bilhete.
' Jogo de cartas de três ou quatro pessoas. (N. do T.)
- Quanto tempo vai ela ficar?
- O que eu desejar.
- Não aguentas a sua companhia mais de vinte e quatro
horas. Não tardará a endoidecer-te, e a mim também.
- Enganas-te. Mary Pascoe é uma moça atenciosa e inofensiva. Não falarei com ela se não me apetecer conversar.
Ao
menos, sentirei uma certa segurança nesta casa. De qualquer
modo, as coisas não podiam continuar como estavam, sobretudo após a tua explosão à mesa. O teu padrinho disse-o por
outras palavras ao retirar-se.
- Que disse exactamente?
- Que circulavam rumores indesejáveis acerca da minha
permanência aqui, os quais se agravariam com as tuas ideias
matrimoniais a meu respeito. Quem sabe a quantas pessoas as
terás revelado... A presença da Mary Pascoe porá termo a ulteriores mexericos. Esforçar-me-ei por providenciar nesse
sentido.
Seria possível que a minha atitude da véspera tivesse originado uma alteração tão profunda, um antagonismo tão horrível?
- Isto não pode ser decidido numa conversa momentânea
e com as portas abertas. Suplico-te que me deixes falar
contigo
a sós, depois do jantar, quando ela recolher ao quarto.
- Ameaçaste-me, ontem à noite. Uma vez foi suficiente.
De resto, não há nada a esclarecer. Podes retirar-te, se
quiseres. Ou ficar e jogar cribbage com a Mary. - E baixou os
olhos para o livro de jardinagem.
Abandonei o boudoir, consciente de que não havia mais
nada a fazer. Era, pois, aquele o meu castigo pelo breve momento da véspera, em que lhe rodeara o pescoço com os dedos. O acto, instantaneamente deplorado, era imperdoável.
A recompensa achava-se bem clara, na minha frente. A cólera
abandonou-me subitamente, substituída por uma sensação de
desespero. Que fizera eu, meu Deus?
Poucas horas antes, tínhamos sido felizes. A euforia da
véspera do meu aniversário desaparecera, dissipada pelo meu
gesto irreflectido. Quando me encontrava na Rose and
Crown, admitira a possibilidade de a relutância de Raquel em
se tornar minha esposa se atenuar e extinguir mesmo, transcorridas algumas semanas. E, se tal não fosse possível,
paciência, desde que pudéssemos estar juntos, apaixonados, como na
madrugada do dia dos meus anos. Quase me sentira esperançado quando regressava a casa. No entanto, a presença da estranha, de uma terceira pessoa, comprometia tudo de uma forma virtualmente irremediável. Fechei-me no quarto e, pouco
depois, ouvi as vozes delas aproximarem-se da escada e o ruge-ruge dos vestidos nos degraus. Era mais tarde do que eu
supunha, e já deviam estar vestidas para jantar. Reconheci que
não conseguiria enfrentá-las. Teriam de comer sós. De resto,
eu não tinha apetite e percorria-me um frio desagradável. Talvez estivesse a chocar um resfriado, e conviria que me conservasse no quarto. Toquei a sineta e indiquei a John que apresentasse as minhas desculpas, mas não compareceria à mesa e
iria deitar-me imediatamente. Como calculava, a minha decisão suscitou certa preocupação entre o pessoal, e Seecombe
não tardou a aparecer com uma expressão apreensiva.
- Não se sente bem, Mister Philip? Permita-me que sugira um banho de mostarda e um grogue bem quente. É o resultado de andar por aí com este tempo.
- Não é preciso nada, obrigado. Estou apenas cansado.
- Convinha que comesse alguma coisa, senhor. Temos vitela assada e tarte de maçã. As senhoras encontram-se na sala
de estar à sua espera.
- Não, Seecombe. Nada. A noite passada, dormi mal. De
manhã, estarei fino.
- Vou informar a senhora. Imagino como ficará preocupada.
A ideia de permanecer no quarto talvez me proporcionasse
a oportunidade de ver Raquel a sós, pois havia a
possibilidade
de, após o jantar, aparecer para se inteirar do meu estado.
Despi-me e enfiei-me na cama. Era óbvio que de facto me
resfriara. Os lençóis pareciam húmidos de tão frios, pelo
que
os retirei e introduzi-me entre os cobertores. Mais tarde,
ouvi-as entrar na sala de jantar e, após um longo intervalo, de
novo
na de estar, sempre imersas em animado diálogo.
Pouco depois das oito, apercebi-me de que subiam a escada. Soergui-me na cama e coloquei o casaco por cima dos ombros. Ela talvez escolhesse aquele momento para me visitar.
Apesar dos cobertores, os arrepios de frio persistiam, agora
acompanhados de uma forte dor de cabeça.
Aguardei com ansiedade, mas ela não apareceu. Calculei
que se encontravam no boudoir. Ouvi as nove, dez e onze badaladas no campanário. Convenci-me então definitivamente de
que não viria. Ignorar-me devia constituir a sequência do meu
castigo.
Levantei-me e assomei ao corredor. Elas haviam recolhido
aos respectivos aposentos, pois ouvi Mary Pascoe mover-se no
quarto cor-de-rosa e, de vez em quando, uma tosse seca irritante para aclarar a garganta, mais um hábito que adquirira da
mãe.
Acerquei-me do quarto de Raquel, pousei a mão no puxador e fi-lo girar. A porta não se abriu. Ela trancara-a. Bati
levemente. Não obtive resposta. Regressei lentamente ao meu
quarto e deitei-me, frio como o gelo.
Recordo-me de me vestir pela manhã, mas não de John
aparecer para me chamar ou de qualquer outra coisa, à parte a
rigidez no pescoço e dor de cabeça excruciante. Fui sentar-me
atrás da secretária, no escritório. Não escrevi qualquer carta
nem recebi ninguém. Pouco depois do meio-dia, Seecombe
anunciou-me que as senhoras estavam à minha espera para almoçar. Quando repliquei que não tencionava comer, aproximou-se e olhou-me com ar apreensivo.
- Está doente, Mister Philip? Que tem?
- Não sei.
Pegou-me na mão por um momento. Em seguida, afastou-se e ouvi-o cruzar o pátio apressadamente.
Momentos volvidos, a porta abriu-se de novo, para dar
passagem a Raquel, acompanhada de Mary Pascoe e do mordomo.
- O Seecombe diz que estás doente - proferiu a primeira. - Que se passa realmente?
Olhei-a em silêncio. Nada do que acontecia tinha a menor
relação com a realidade. Quase nem me dava conta de que estava no escritório. Julgava-me no meu quarto, a tiritar na cama, como acontecera ao longo de toda a noite.
- Quando a mandas para casa? - perguntei em voz débil.
- Não farei nada para te molestar. Dou-te a minha palavra de
honra.
Pousou-me a mão na fronte, examinou-me os olhos e voltou-se rapidamente para Seecombe.
- Chame o John e levem Mister Ashley para a cama. Antes, porém, diga ao Wellington que mande alguém prevenir o
médico.
Eu só via as faces pálidas e os olhos dela e, por cima do
seu
ombro, deslocada no ambiente, Mary Pascoe, que me fitava
com perplexidade. Em seguida, nada. Apenas a rigidez e a dor.
De novo na cama, dei-me conta de que Seecombe baixava
os estores, para mergulhar o quarto na escuridão pela qual eu
ansiava. Era possível que a ausência de luz atenuasse a dor
insuportável. Não conseguia mover a cabeça na almofada, como
se os músculos do pescoço estivessem presos num torno. Senti
a mão dela na minha e repeti:
- Prometo não te molestar. Manda a Marv Pascoe para
casa.
- Não fales - advertiu, em voz baixa. - Limita-te a estar quieto e calado.
O quarto estava cheio de murmúrios. A porta a abrir-se, a
fechar-se e a tornar a abrir-se. Passos suaves e arrastados.
Nesgas de luz do corredor e sempre o sussurro geral, segundo me
parecia, em torno do delírio que decerto me assolava, como se
a casa estivesse repleta de gente, com hóspedes em cada quarto, em número muito superior às capacidades de alojamento,
enquanto Raquel se movia entre eles para os distribuir do modo mais apropriado e eu repetia: ??Manda-os embora!??
Por fim, descortinei o rosto arredondado do Dr. Gilbert,
que me observava através dos óculos. Tudo indicava que também fazia parte dos convidados. Tratara-me da varicela em
criança e não me recordava de o ter voltado a ver senão esporadicamente.
- Com que então, foste tomar banho no mar à meia -noite, hem? Podia ter-te dado para pior... - Olhou-me, meneando a cabeça, como se eu fosse um irresponsável, e cofiou
a barba.
Fechei os olhos, por causa da luz, e ouvi Raquel dizer-lhe:
- Tenho experiência suficiente deste tipo de febre para
não me enganar. Vi crianças morrer disto em Florença. Ataca a
espinha dorsal e depois o cérebro. Faça alguma coisa, por
Deus...
Afastaram-se e o coro de murmúrios recomeçou, seguido
do som de rodas no caminho de acesso, indicativo da partida
de uma carruagem. Mais tarde, distingui uma respiração perto
das cortinas da cama. Compreendi então o que acontecera.
Raquel seguira para Bodmin, a fim de tomar o transporte para
Londres, e deixara Mary Pascoe em minha casa, para me vigiar. Seecombe e John também se haviam ausentado. Ficara
apenas ela.
- Saia, por favor - articulei. - Não preciso de ninguém.
Uma mão aproximou-se para pousar na minha fronte.
A mão de Mary Pascoe, que repeli. Mas insistiu e gritei-lhe
que me deixasse em paz. No entanto, exerceu pressão, fria e
dura como o aço, para me transmitir a sensação glacial ao rosto, imobilizando-me como um prisioneiro. De súbito, ouvi
Raquel sussurrar-me ao ouvido:
- Não te movas, querido. Isto alivia-te a cabeça. Melhorarás, a pouco e pouco.
Tentei desviar-me e não consegui. Mas afinal não partira
para Londres?
- Não me deixes - balbuciei. - Promete que não me
deixarás.
- Prometo. Estarei sempre junto de ti.
Descerrei as pálpebras, mas não consegui vê-la, porque o
quarto se achava de novo imerso na penumbra. A configuração era diferente da dos aposentos que eu conhecia - longo e
estreito como uma cela. A cabeceira da cama rija como o ferro. Havia uma vela acesa algures, atrás de um biombo. Num
nicho, na parede oposta, divisei uma madonna ajoelhada.
- Raquel... Raquel... - chamei em voz trémula.
Ouvi passos apressados, uma porta a abrir-se, e uma mão
pousava na minha, enquanto ela murmurava:
- Estou contigo.
Tornei a fechar os olhos.
Encontrava-me numa ponte, junto do Arno, e jurava destruir uma mulher que nunca vira. As águas caudalosas rolavam
sob a ponte, e Raquel, a pedinte, acercava-se de mãos vazias.
Estava desnuda, com o colar de pérolas em torno do pescoço.
De repente, apontou para o rio, e Ambrose deslizou debaixo
da ponte, as mãos unidas sobre o peito. Distanciou-se,
arrastado pela corrente, seguido, lenta, majestosamente, as patas erguidas com rigidez, do corpo do cão morto.
A primeira coisa de que me apercebi foi que a árvore diante da minha janela estava coberta de folhas. Olhei-a,
perplexo.
Quando me metera na cama, apenas principiavam a despontar.
Era um fenómeno muito estranho. A dor de cabeça desaparecera, assim como o torpor de todo o corpo. Depreendi que
dormira muitas horas, possivelmente um dia ou mesmo mais.
Uma pessoa perdia a noção do tempo quando adoecia.
Afigurava-se-me que vira o Dr. Gilbert diversas vezes, com
outro homem, um desconhecido. Sempre com o quarto mergulhado na penumbra. Agora, havia claridade. Notei uma sensação incómoda nas faces e depreendi que necessitava urgentemente de me barbear. Levei a mão ao queixo e estremeci de
incredulidade, pois tinha barba. Fixei o olhar na mão e não me
pareceu a minha. Era branca e esguia, com unhas de comprimento invulgar em mim. Voltei a cabeça e vi Raquel sentada,
junto da cama - na sua própria cadeira do boudoir. Não se
deu conta de que a observava. Concentrava-se num trabalho
de renda e usava um roupão que não lhe conhecia - preto,
como todo o seu vestuário, mas de mangas mais curtas, acima
dos cotovelos, como que para se defender do calor. O quarto
encontrar-se-ia assim tão quente? As janelas estavam abertas.
E a lareira apagada!
Tornei a levar a mão ao queixo. A barba tinha um toque
agradável. De súbito, soltei uma gargalhada e ela ergueu a cabeça.
- Philip... - murmurou.
Acto contínuo, ajoelhou a meu lado e rodeou-me com os
braços.
- Deixei crescer a barba - articulei.
Voltei a rir, incompreensivelmente divertido com a situação, e a hilaridade transformou-se em tosse. Sem perda de um
instante, Raquel aproximou um copo dos meus lábios e obrigou-me a beber parte do conteúdo, após o que me reclinou
cuidadosamente na almofada.
O gesto fez vibrar uma corda na minha memória. Durante
um longo lapso de tempo, houvera uma mão, com um copo,
que me obrigava a beber, no meio dos meus obscuros sonhos.
Eu atribuíra-a a Mary Pascoe e repelira-a. Agora, conservava
o olhar fixo em Raquel e estendia-lhe a minha. Segurou-a e
exerceu pressão. Fiz deslizar o polegar ao longo dos vasos
capilares azuis que se salientavam sempre no dorso da sua e
pousei-o nos anéis. Mantivemo-nos assim em silêncio por longos minutos.
- Sempre a mandaste para casa? - acabei por perguntar.
- A quem?
- A quem havia de ser? Mary Pascoe.
Ouvi-a conter o alento e vi que o sorriso desaparecera,
substituído por uma expressão grave.
- Partiu há cinco semanas - murmurou. - Mas deixemos isso agora. Tens sede? Preparei-te uma bebida fresca de
limas, vindas de Londres.
Ingeri alguns sorvos do refresco, que tinha sabor agradável em comparação com o medicamento que ela me obrigara
a tomar.
- Devo ter estado doente - admiti.
- Ias morrendo.
Fez menção de se retirar, mas opus-me. Roguei-lhe que me
descrevesse os pormenores. Acudia-me a curiosidade de alguém que dormira durante anos e despertava para descobrir
que o mundo seguira a sua marcha natural sem ele.
- Se queres que eu reviva todas estas semanas de ansiedade, estou disposta a satisfazer-te a curiosidade - explicou.
- De contrário, não o farei. Sim, estiveste muito doente. Contenta-te com isto para já.
- Que tive?
- Não morro de admiração pelos vossos médicos ingleses.
No continente, chamamos-lhe meningite, que parece ser des conhecida aqui. O facto de continuares vivo pode considerar -se quase um milagre.
- O que me salvou?
- Creio que foi a tua resistência equina e certas coisas que
os obriguei a fazer-te - declarou, com um sorriso, exercendo
pressão na minha mão. - A punção na espinha dorsal para
extrair o fluído foi apenas uma das mais simples. Além disso,
introduziram-te no sistema circulatório um soro a que eles
chamaram veneno. O que interessa é que sobreviveste.
Recordei-me dos cordiais que ela preparara para alguns caseiros que haviam adoecido ao longo do Inverno e de que a
desfrutara, chamando-lhe parteira e boticária.
- Como se explica que saibas tanto disso?
- Aprendi com a minha mãe. Os Florentinos possuem conhecimentos profundos na matéria.
Estas palavras fizeram-me vibrar outra corda da memória,
mas não consegui identificá-la. Raciocinar envolvia, por enquanto, um esforço considerável. De momento, contentava-me
com permanecer na cama e a mão de Raquel pousada na minha.
- Porque está aquela árvore coberta de folhagem?
- É natural na segunda semana de Maio.
Custava-me compreender que tivesse estado de cama tantas
semanas, além de que não me lembrava dos eventos que me
haviam conduzido a ela. Raquel zangara-se comigo, por razões
que de momento me escapavam, e convidara Mary Pascoe para
lhe fazer companhia. Tinha a certeza absoluta de que casáramos na véspera do meu aniversário, embora não me acudisse
uma visão clara da igreja, nem da cerimónia, à parte o facto
de
Nick Kendall e Louise serem as únicas testemunhas, sob as
vistas de Alice Tabb, a mulher da limpeza. Recordava-me de
estar muito feliz. E, de repente, sem qualquer motivo aparente, desesperado. Por último, doente. Mas tudo regressara à
normalidade. Eu não morrera e decorria o mês de Maio.
- Acho que tenho forças suficientes para me levantar -- anunciei.
- Nem penses. Dentro de uma semana talvez te sentes
numa cadeira, ali ao pé da janela, para vermos até que ponto
as
pernas aguentam o peso do corpo. Mais tarde, darás um passeio até ao boudoir. Lá para o fim do mês, ajudar-te-emos a
descer a escada, para te sentares ao ar livre. Veremos.
Com efeito, a sequência das minhas melhoras correspondeu às previsões dela. Nunca me sentira tão incapacitado como na primeira vez em que me sentei na borda da cama e pousei os pés no chão. O quarto começou a oscilar à minha volta.
Seecombe e John ladearam-me, enquanto me considerava tão
fraco como um recém-nascido.
- Com a breca, minha senhora, ele cresceu! - exclamou
o mordomo, com uma consternação tão profunda que não pude conter uma gargalhada.
Instantes depois, via-me no espelho, magro e pálido, de
barba castanha, como um apóstolo.
- Estou quase tentado a percorrer o distrito como pregador oficial da doutrina de Cristo - resmunguei. - Tenho a
certeza de que converteria milhares de almas. - Voltei-me para Raquel. - Que te parece?
- Prefiro-te de cara rapada - respondeu, gravemente.
- Traz-me os apetrechos de barbear, John.
No entanto, no final da operação, pressenti que perdera
parte da dignidade e ficara de novo reduzido à condição de colegial.
Aqueles dias de convalescença foram na verdade agradáveis. Raquel encontrava-se sempre a meu lado. Conversávamos
pouco, porque descobri que isso me cansava mais do que tudo
o resto e produzia indícios da temível dor de cabeça. O que
me agradava em particular era sentar-me junto da janela aberta
e assistir às evoluções dos cavalos, que Wellington exercitava
no relvado. Quando as pernas começaram a revelar maior firmeza, transferi-me para o boudoir, onde tomávamos as refeições,
sob as vistas de minha prima, que me cuidava como a enfermeira
diplomada mais experiente. Uma ocasião, observei-lhe que seria a única culpada se estivesse destinada a ocupar-se de um
marido enfermo no resto da vida. Olhou-me com uma expressão estranha e pareceu na iminência de replicar, mas
conteve-se
e mudou de assunto.
Recordava-me de que, por qualquer razão de momento
pouco clara, o nosso enlace fora ocultado ao pessoal da casa,
porventura para deixar escoarem-se doze meses desde a morte
de Ambrose. Talvez ela receasse que me mostrasse indiscreto
diante de Seecombe, pelo que me abstive de insistir. Dentro de
um par de meses, poderíamos anunciá-lo ao mundo e, até lá,
tentaria conter a impaciência. Creio que cada dia a amava mais
e ela revelava-se atenciosa e terna como nunca nos distantes
meses de Inverno.
A primeira vez que desci a escada e saí para o ar livre fiquei surpreendido com o que fora feito durante a minha doença. O caminho pavimentado estava concluído, e o local onde
se situaria o novo jardim achava-se devidamente preparado.
De momento, ainda havia alguns operários que procediam aos
trabalhos finais, e a larga escavação apresentava um aspecto
algo ominoso até que se procedesse à plantação definitiva.
Tamlyn escoltou-me com orgulho, na visita ao jardim antigo, onde se viam numerosas flores, num variegado conjunto
de cores.
- Teremos de transferir algumas, antes da próxima época -- esclareceu. - Ao ritmo a que se reproduzem, as sementes podem ser impelidas pelo vento e matar o gado. - Estendeu a
mão para um dos laburnos, plantas a que se referia, e indicou
as vagens cheias de pequenas sementes. - Um fulano do outro lado de Saint Austell morreu por ter comido várias.
Lembrei-me subitamente da árvore no pequeno pátio da
villa italiana e da mulher que pegara na vassoura para varrer
as
vagens do chão.
- Havia uma planta destas em Florença, onde Mistress
Ashley vivia - declarei.
- Sim? Bem, segundo me disseram, quase todas as plantas
se dão bem naquele clima. Deve ser um lugar maravilhoso.
Compreendo o desejo da senhora de voltar para lá.
- Não creio que acalente essa intenção.
- Oxalá, embora não seja o que me constou. Parece que
aguardava que o senhor se restabelecesse para regressar.
Reflecti que era incrível o que se podia inventar através de
meros mexericos, e decidi que o anúncio do nosso casamento
constituiria a única maneira de lhes pôr termo. Não obstante,
hesitava em abordar o assunto com Raquel. Tinha a vaga ideia
de que, no passado, se registara uma divergência a esse
respeito, que a irritara.
Naquela tarde, quando nos sentávamos no boudoir e eu tomava a habitual tisana, em conformidade com o hábito que
contraíra, antes de me deitar, aventurei-me a dizer:
- Circulam novos rumores.
- Acerca de quê, desta vez?
- Da tua intenção de voltar para Florença.
Não respondeu imediatamente e tornou a baixar os olhos
para o trabalho de renda.
- Há muito tempo para decidir essas coisas - acabou por
referir. - Primeiro, tens de recuperar totalmente a saúde e
energias.
Fitei-a, intrigado. Afinal, Tamlyn não estava totalmente
equivocado. A ideia de regressar a Florença pairava num recanto da mente dela.
- Já vendeste a villa?- insisti.
- Ainda não, nem faço tenções disso ou mesmo de a alugar. Agora que as coisas se alteraram, disponho de meios para
a manter.
Não repliquei. Embora não quisesse contrariá-la, a perspectiva de ter duas residências não me sorria particularmente.
Na realidade, detestava a própria imagem da villa que se mantinha bem nítida no espírito e supunha que Raquel também
acabara por odiar.
- Queres dizer que quererias passar lá o Inverno? - perguntei, por fim.
- É possível, ou a parte final do Verão. Mas por ora não
merece a pena preocuparmo-nos com isso.
- Tenho estado inactivo por muito tempo. Acho que não
deixaria a propriedade sem assistência durante o Inverno, nem
gostaria de me ausentar.
- Acredito. Com efeito, eu própria não partiria, a menos
que ficasses a cuidar de tudo. Poderias visitar-me na
Primavera
e eu mostrar-te-ia Florença.
A doença devia ter-me tornado de compreensão lenta,
pois nada do que ela dizia se revestia do menor sentido ou
sensatez.
- Visitar-te? É assim que sugeres que passemos a viver,
separados durante longos meses de cada vez?
Pousou o trabalho e olhou-me. A expressão constituía um
misto de ansiedade e impaciência.
- Escuta, Philip querido. Como disse, não desejo abordar
o futuro neste momento. Acabas de sair de uma doença grave,
perigosa mesmo, e afigura-se-me desaconselhável planear as
coisas com muita antecedência. Prometo não te abandonar antes do teu restabelecimento total.
- Mas que necessidade tens de partir? Agora, pertences
aqui. É este o teu lar.
- Também tenho a villa, muitos amigos e uma vida, em
Itália, diferente desta, bem sei, mas a que estou acostumada.
Encontro-me em Inglaterra há oito meses e começo a ansiar
por voltar a mudar de ares. Sê razoável e tenta compreender.
- Talvez esteja a ser egoísta - concedi. - Não tinha pensado nesse aspecto da questão. - Precisava de me habituar
à ideia de que ela desejaria dividir o seu tempo entre os dois
países, em cuja eventualidade eu teria de fazer o mesmo e começar a procurar um indivíduo de confiança para dirigir as actividades da propriedade. A hipótese de nos separarmos era,
evidentemente, inadmissível. - O meu padrinho deve conhecer alguém - acrescentei na sequência do raciocínio.
- Alguém para quê?
- Para se ocupar disto, durante a nossa ausência.
- Não me parece necessário. Duvido que te ausentes por
mais de algumas semanas. Em todo o caso, talvez te apeteça ficar mais tempo. Florença é admirável na Primavera.
- Ao diabo com a Primavera! - bradei. - Acompanhar-te-ei na data que decidires, qualquer que seja.
A ansiedade e a impaciência reapareceram no rosto dela.
- Deixemos isso por agora. Passa das nove e nunca te deitaste tão tarde. Queres que chame o John, ou consegues desembaraçar-te sozinho?
- Não chames ninguém. - Levantei-me da cadeira com
lentidão, pois ainda sentia os membros incomodativamente
fracos, aproximei-me dela, ajoelhei e rodeei-a com os braços.
- Contigo tão perto, custa-me suportar a solidão do meu
quarto. Não poderemos anunciar-lhes em breve?
- Anunciar o quê?
- Que somos casados.
Estremeceu levemente e permaneceu rígida em seguida.
Dir-se-ia que se convertera numa estátua.
- Meu Deus... - murmurou. Por fim, pousou as mãos
nos meus ombros e olhou-me com intensidade. - Que queres
dizer com isso, Philip?
Senti um latejar algures na cabeça, como um eco da dor
que me flagelara durante semanas. Acentuou-se gradualmente,
acompanhado de uma impressão de medo.
- Se informarmos o pessoal, poderei ficar contigo, porque
somos casados e... - Interrompi-me ao ver-lhe a expressão
dos olhos.
- Mas nós não somos casados, Philip querido.
Pareceu-me que algo explodia dentro do meu crânio.
- É claro que somos. Aconteceu no dia do meu aniversário. Não acredito que te esquecesses.
Mas quando acontecera? Em que igreja? Quem fora o sacerdote celebrante? O latejar intensificou-se e vi as paredes
e
móveis oscilar à minha volta.
- Diz-me que é verdade - urgi.
Compreendi, de súbito, que se tratava de uma fantasia toda
a felicidade que me pertencera na imaginação das últimas semanas. O sonho terminara.
Afundei a cabeça no seu regaço, sacudido por soluços. As
lágrimas nunca me tinham acudido com tanta facilidade, nem
mesmo em criança. Raquel acariciava-me a cabeça, sem proferir palavra. Por fim, consegui dominar a comoção e reclinei-me na cadeira, exausto. Ela trouxe-me algo para beber e sentou-se no banco junto de mim. As sombras do crepúsculo
estival pairavam em redor. Os morcegos emergiam dos esconderijos entre as vigas do telhado e descreviam círculos diante
da janela.
- Era preferível que me tivesses deixado morrer - murmurei.
Suspirou e pousou-me a mão na face.
- Se falas assim, também me destróis. Sentes-te infeliz
agora, porque ainda estás fraco. Mais tarde, quando recuperares as forças, nada disto te parecerá importante. Reatarás as
tuas actividades normais. Poderás nadar na baía ou passear no
barco.
O tom da sua voz indicou-me que tentava convencer-se a
si própria e não a mim.
¨ - E que mais? - perguntei, agastado.
- Sabes perfeitamente que és feliz aqui. Tudo isto representa a tua vida, e assim continuará a ser. Ofereceste-me a
propriedade, mas considerá-la-ei sempre tua.
- Queres dizer que trocaremos correspondência entre a
Itália e a Inglaterra, mês após mês, ao longo do ano.
Dir-te-ei:
??Querida Raquel, as camélias estão em flor." E tu responderás: "Querido Philip, alegra-me sabê-lo. O meu roseiral também está a desabrochar satisfatoriamente.," Será esse o nosso
futuro?
Imaginei-me à porta de casa, numa manhã após o pequeno-almoço, à espera do rapaz com o correio, perfeitamente
ciente de que não haveria carta alguma e porventura apenas
uma factura de Bodmin.
- É natural que eu venha todos os anos pelo Verão, para
me certificar de que tudo corre bem - aventurou.
- Como as andorinhas, que só aparecem numa época do
ano, na Primavera, e partem na primeira semana de Setembro -- comentei.
- Já sugeri que me visitasses na Primavera. Há muitas coisas que te agradarão em Itália. Só lá estiveste uma vez, e em
circunstâncias especiais. De resto, conheces muito pouco do
mundo em geral.
Ela fazia-me pensar numa professora primária que tentava
convencer um aluno mais renitente. Talvez fosse dessa maneira
que me encarava.
- Aquilo que vi levou-me a detestar tudo. Que pretenderias que fizesse? Que visitasse uma igreja ou um museu, de
guia turístico na mão? Conversasse com desconhecidos para
enriquecer o meu vocabulário? Prefiro ficar em casa a contemplar a chuva.
Exprimia-me com azedume, mas não o podia evitar. Raquel tornou a suspirar, como se tentasse, em vão, procurar um
argumento para provar que tudo estava bem.
- Volto a dizer que, quando te sentires melhor, mais forte, o futuro terá um aspecto diferente aos teus olhos. Nada se
alterou radicalmente do que era. Quanto ao dinheiro... - Deteve-se e olhou-me.
- Qual dinheiro?
- O da propriedade. Será tudo solucionado da maneira
mais satisfatória. Disporás do suficiente para dirigir os
negócios sem prejuízos, enquanto eu levarei o necessário para fora
do país. Os trâmites estão em estudo neste momento.
Podia ficar com tudo, até ao último péni, pela parte que
me dizia respeito. Aliás, que tinha tudo aquilo a ver com os
meus sentimentos por ela? Mas ainda não acabara de desfiar o
seu rosário.
- Deves continuar a promover os melhoramentos que julgares convenientes. Sabes perfeitamente que não me oporei a
nada, nem precisas de me enviar a relação das despesas, porque confio em ti. De qualquer modo, em caso de dúvida, poderás recorrer ao teu padrinho. Dentro de pouco tempo, tudo
te parecerá como se encontrava antes de eu vir.
A escuridão do crepúsculo acentuara-se e quase não conseguíamos ver-nos.
- Acreditas realmente nisso? - perguntei.
Não respondeu imediatamente. Procurava uma justificação
para a minha existência, a fim de a juntar às que já expusera.
No entanto, não havia nenhuma, como ela sabia muito bem.
- Tenho de acreditar - declarou, estendendo-me a mão -,
de contrário não encontraria paz de espírito.
Ao longo dos meses que nos conhecíamos, dera muitas
respostas às perguntas, sérias ou não, que eu lhe fizera. Umas
haviam sido acompanhadas de sorrisos ou risadas e outras evasivas, porém todas continham um leve toque feminino a ornamentá-las. Aquela era directa finalmente, proveniente do coração, sem o mínimo desvio. Devia julgar-me feliz, possuidor de
paz de espírito. Eu abandonara a terra da fantasia, para ela
ocupar o meu lugar. Por conseguinte, duas pessoas não podiam partilhar um sonho. Excepto na escuridão, como nos domínios da simulação. Cada figura tornava-se, então, um fantasma.
- Volta para lá, se queres, mas não já - propus. - Concede-me mais algumas semanas para reter na memória. Não sou
um viajante e tu és o meu mundo.
Esforçava-se por evitar o futuro e procurar uma evasão.
Mas quando a abraçava tudo se modificava - a fé desaparecia
e, com ela, o primeiro êxtase.
Capítulo vigésimo quinto
Não voltámos a falar da partida dela. Tratava-se de um papão, relegado para o olvido por ambos. Na sua intenção, eu
tentava mostrar-me despreocupado e ela procedia do mesmo
modo para comigo. O Verão chegara e em breve regressei ao
meu estado normal - pelo menos, aparentemente -, embora
por vezes a dor de cabeça reaparecesse, não com toda a intensidade, mas incomodativa, repentina e sem motivo plausível.
Abstinha-me de tocar no assunto - para quê? Não se devia a esforços físicos excessivos, pois só se manifestava se
me
entregava a reflexões. Os problemas mais simples apresentados
pelos caseiros faziam com que se estabelecesse uma espécie de
névoa na minha mente, e achava-me impossibilitado de tomar
uma decisão.
Na maioria dos casos, porém, acontecia por causa dela. Eu
olhava-a em silêncio, quando nos sentávamos cá fora, depois
do jantar, pois o tempo que fazia em Junho permitia que permanecêssemos ao ar livre até tarde, e, de repente, perguntava
a
mim próprio o que se passava na sua mente, enquanto tomava
a habitual tisana com uma expressão pensativa. Ponderaria, no
íntimo, durante quantas semanas, dias ou horas teria de continuar a suportar aquela vida de solidão? Pensaria, com alívio
crescente: "Para a semana, agora que ele se encontra bem, poderei finalmente partir"?
A Villa Sangalletti, em Florença, assumia agora, aos meus
olhos, outra configuração e atmosfera. Em vez da escuridão
em que a vira imersa na minha única visita, apresentava-se-me
profusamente iluminada, com todas as janelas bem abertas. Os
desconhecidos a quem ela chamava amigos moviam-se de uma
sala para outra; havia alegria, risadas e murmúrios de conversas animadas. Pairava sobre o local uma espécie de esplendor.
Ela detinha-se um momento junto de cada grupo de convidados, sorridente e à vontade, senhora do seu domínio. Era
aquela a vida que conhecia, amava e compreendia. Os meses
passados comigo constituíam um mero interlúdio. Agora, regressaria finalmente ao lar a que pertencia. Imaginei a
chegada,
com Giuseppe e a mulher a escancararem os portões da propriedade, para dar passagem à carrozza e, depois, Raquel a
percorrer todos os recantos da villa de que estivera longamente ausente. Muitos dias e noites futuros que já não me pertenceriam.
De súbito, pressentia que eu a observava e perguntava:
- Que tens, Philip?
- Nada - limitava-me a responder.
E, quando uma sombra lhe cruzava o rosto - de dúvida,
apreensão -, sentia-me como que um peso sobre os seus ombros. Para ela seria preferível que se afastasse de mim. Eu
tentava consumir as energias, como dantes, na orientação das
actividades da propriedade, nas tarefas comuns do dia-a-dia, mas
já não tinham o mesmo significado. E se as terras de Barton se
tornassem áridas por falta de chuva? Ser-me-ia indiferente.
E se o nosso gado conquistasse prémios na feira? Representaria isso uma glória? No ano passado, talvez. Agora, todavia,
tratar-se-ia de um triunfo vazio.
Apercebia-me com clareza de que perdia popularidade aos
olhos daqueles que me consideravam seu patrão. "Ainda está
fraco, Mister Ashley, depois de uma doença tão prolongada",
comentou Billy Rowe, o agricultor de Barton, com um mundo
de desapontamento na voz. Passava-se o mesmo com todos os
outros. O próprio Seecombe aludiu ao facto.
- Não parece estar a restabelecer-se como devia, Mister
Philip. Ainda ontem à noite falámos disso na sala comum.
"Que se passa com o patrão?", dizia o Tamlyn. "Vejo-o pálido
como um fantasma e parece alheio a tudo o que o rodeia". Recomendo-lhe um bom tónico pela manhã. Ou mesmo um copo de marsala para revigorar o sangue.
- Diz-lhe que se preocupe com o trabalho - retruquei.
- Sinto-me perfeitamente bem.
A rotina do jantar de domingo, com os Pascoe e os Kendall, ainda não fora reatada, felizmente para mim. Creio que,
quando adoeci, Mary Pascoe regressou à reitoria com histórias
de que eu enlouquecera. Surpreendi-a a olhar-me dissimuladamente, na igreja, a primeira vez que assisti à missa após a
doença. E toda a família me observava com uma espécie de comiseração.
O meu padrinho e Louise visitavam-me, assumindo atitudes pouco usuais neles, uma mescla de jovialidade e compaixão, como as dispensadas a uma criança após uma enfermidade
prolongada, e pressenti que haviam sido advertidos para não
abordar qualquer assunto susceptível de me causar apreensão.
Assim, sentávamo-nos na sala como quatro desconhecidos. Nick
Kendall sentia-se desconfortável e arrependido de ter comparecido, embora o dever lho impusesse, enquanto a filha, graças
a um instinto inexplicável possuído pelas mulheres, sabia o
que acontecera, mas esforçava-se por não o deixar transparecer. Raquel dominava a situação, como sempre, e mantinha a
conversa no ritmo apropriado. A exposição da feira, o iminente casamento da segunda filha dos Pascoe, a temperatura elevada que persistia, a perspectiva de uma remodelação do Governo - tudo isto eram temas fáceis de explorar.
Mas, e se falássemos das coisas em que realmente pensávamos?
"Abandone a Inglaterra sem demora, antes que se destrua a
si e ao rapaz", articularia sem dúvida o meu padrinho.
"Ama-la mais do que nunca. Noto-o nos teus olhos", isto
da parte de Louise.
"Tenho de os impedir a todo o custo que amargurem o
Philip", de Raquel.
E de mim: "Retirem-se e deixem-me só com ela".
Ao invés, apegávamo-nos à cortesia e mentíamos. Todos
respirávamos fundo no final das visitas e, enquanto os via
afastarem-se na carruagem, lamentava não poder erigir uma vedação intransponível em volta da propriedade, como nos contos
de fadas da infância, para impedir a vinda de importunos e calamidades.
Dava-me a impressão, embora não se pronunciasse nesse
sentido, de que ela planeava os primeiros passos da partida.
Surpreendi-a, mais de uma ocasião, a examinar os livros da biblioteca, como costumam fazer as pessoas ao escolherem os
volumes que tencionam levar. Outra vez, vi-a sentada à escrivaninha entretida a pôr os seus documentos pessoais em ordem, enchendo o cesto de papéis de cartas rasgadas e atando
os restantes com fitas coloridas. No entanto, interrompia-se à
minha entrada no boudoir, ia sentar-se na cadeira habitual e
pegava no trabalho de renda, mas eu não me deixava iludir.
Tratava-se na verdade de preparativos para a separação final.
Afigurava-se-me que o aposento parecia mais desnudo que
no passado. Faltavam pequenas coisas insignificantes. O facto
fez-me remontar à infância, antes de partir pela primeira vez
para o colégio. Seecombe procedera a uma limpeza geral no
meu quarto de recreio: arrumara os livros e outros objectos
que me acompanhariam e separara o resto, que eu não voltaria
a utilizar, para as crianças da propriedade. Era como se me
privasse definitivamente de um passado feliz. Agora, parte
dessa atmosfera pairava no boudoir de Raquel. O xaile, que
costumava achar-se pousado no espaldar da sua cadeira e brilhava pela ausência, tê-lo-ia dado a alguém, porque não o necessitaria num clima mais quente? A caixa de costura, igualmente desaparecida, encontrar-se-ia no fundo de um baú? Por
enquanto, não havia sinais de preparação da bagagem. Isso
constituiria o indício final. Passos pesados no sótão, os
rapazes a descer a escada com as volumosas caixas. Nessa altura,
eu ficaria ciente do pior e aguardaria, resignado ou não, o
inevitável desenlace. Outro factor significativo consistia nas
suas
saídas matinais, coisa que nunca fizera até então. Alegava que
tinha de efectuar uma ou outra compra e tratar de assuntos no
banco. Eram explicações plausíveis, embora me parecesse que
para tal bastaria uma única deslocação à aldeia. No entanto,
as
ausências verificaram-se por diversas vezes, até que não me
pude conter e observei:
- Deves ter muitas compras a efectuar e assuntos a resolver no banco.
- São coisas que se atrasaram com a tua doença.
- Tens-te encontrado com alguém nas ruas da aldeia?
- Não, ninguém em particular... Não, minto. Cruzei-me
com Belinda Pascoe e o cura com o qual vai casar. Mandaram-te cumprimentos.
- Mas estiveste ausente toda a tarde - insisti. - Compraste todo o recheio das lojas?
- Que curioso e indiscreto me saíste! Não posso utilizar a
carruagem quando me apetece, ou receias que canse demasiado
os cavalos?
- Porque não vais antes a Bodmin ou a Truro? Encontrarás aí lojas mais bem abastecidas.
Reflecti que, se as minhas perguntas a incomodavam, as
suas actividades deviam obedecer a alguma intenção inconfessável.
Na vez seguinte que pediu a carruagem, Wellington não se
fez acompanhar do moço. Este queixava-se de dores nos ouvidos e fui encontrá-lo nos estábulos com uma expressão angustiada.
- Pede à senhora que te dê um pouco de um óleo qualquer que tem para esse fim - recomendei-lhe.
- Já o fiz, e ela prometeu aplicar-me gotas quando voltasse. Acho que apanhei isto ontem, no cais, onde soprava vento
frio.
- Que foste fazer ao cais?
- Estivemos muito tempo à espera da senhora, e o Wellington, que ficou à entrada da Rose and Crown, deixou-me ir
ver os barcos no porto.
- Nesse caso, a senhora andou às compras durante toda a
tarde? - estranhei.
- Não, senhor. Estava na sala da Rose and Crown, como
sempre.
Olhei-o com incredulidade. Raquel na Rose and Crown?
Estaria a tomar chá com o dono e a esposa? Por um momento,
pensei em aprofundar o interrogatório, mas acabei por mudar
de ideias. Era muito possível que o rapaz estivesse a dar
largas
à imaginação. De qualquer modo, não podia deixar de reconhecer que cada vez me ocultavam mais coisas. Dir-se-ia que
todo o pessoal se unira numa conspiração de silêncio contra
mim. Estaria Raquel tão ávida de companhia que necessitava
de a procurar na aldeia? Consciente da minha aversão às visitas, alugaria a sala da Rose and Crown por uma manhã ou
uma tarde e convidaria pessoas para a procurarem aí? Quando
regressou, limitei-me a perguntar-lhe se passara uma tarde
agradável, e respondeu que sim.
No dia seguinte, não pediu a carruagem. Durante o almoço, declarou que precisava de escrever umas cartas e depois
recolheu ao boudoir. Por meu turno, informei-a de que tinha de
me deslocar a Coombe para falar com o agricultor de lá, o que
correspondia à verdade. Contudo, continuei em frente, até à
aldeia. Era sábado e, em virtude do bom tempo, as ruas achavam-se particularmente concorridas, mas não vi ninguém conhecido. As pessoas de "qualidade", como Seecombe lhes chamava, nunca visitavam a povoação à tarde e jamais ao sábado.
Aproximei-me da muralha do porto, perto do cais, e vi alguns rapazes a pescar numa embarcação. Pouco depois, remaram até aos degraus e saltaram para terra. Reconheci um deles:
o ajudante do barman na Rose and Crown, que levava quatro
ou cinco percas de dimensões razoáveis numa cesta.
- Nada mau - observei. - São para o jantar?
- Não são para mim, mas hão-de recebê-las com agrado,
na pousada.
- Agora, servem percas com a cidra?
- Não, senhor. O peixe é para o cavalheiro da sala. Ontem, servimos-lhe salmão do rio.
Um cavalheiro na sala? Extraí algumas moedas de prata da
algibeira.
- Espero que te pague bem o trabalho. Aqui tens, para ti.
Quem é ele?
- Não sei como se chama, mas ouvi dizer que é italiano.
Com estas palavras, afastou-se a correr. Consultei o relógio. Passavam alguns minutos das três. O cavalheiro italiano
decerto jantaria por volta das cinco. Dirigi-me ao alpendre
onde Ambrose guardava a sua embarcação. Puxei-a para a água,
saltei para dentro e comecei a remar para o largo, onde aguardei, a curta distância do cais.
Havia vários indivíduos que se moviam dos barcos ancorados no canal para terra e vice-versa, mas não repararam em
mim ou então tomaram-me por um pescador. Lancei o peso à
água, pousei os remos e concentrei-me na entrada da Rose and
Crown. A entrada para o bar situava-se na rua lateral, mas ele
não a utilizaria. Se viesse, preferiria a porta principal. Às
cinco
menos um quarto, vi a mulher do proprietário emergir da sala
e olhar em volta, como se procurasse alguém. Aparentemente,
o visitante estava atrasado para o jantar e o peixe já se
encontraria cozinhado. Ouvi-a dirigir-se a um homem que se achava
junto das embarcações amarradas aos degraus, mas não consegui distinguir as palavras. Ele respondeu algo, virou-se e
apontou para o porto. Ela assentiu com uma inclinação de cabeça e
voltou para dentro. Por fim, às cinco menos dez, vi um barco
acercar-se do cais. Impelido por um jovem de compleição robusta, tinha todo o aspecto dos que os forasteiros costumavam
alugar para percorrer o porto.
Descortinei um homem de chapéu de abas largas sentado
junto da popa. Uma vez nos degraus, ele desembarcou, deu algumas moedas ao jovem, após breve discussão, e encaminhou-se para a Rose and Crown. Antes de entrar, fez uma pausa,
olhou em redor, como se pretendesse atribuir um preço a tudo
o que via, e tirou o chapéu. Por último, transpôs a porta. Era
Rainaldi.
Puxei o peso que fazia de âncora, levei a embarcação para
o alpendre, atravessei a aldeia e iniciei o regresso a casa em
andamento acelerado. Creio que cobri os seis quilómetros em
quarenta minutos. Raquel estava na biblioteca à minha espera.
O jantar ainda não fora servido, em virtude do meu atraso.
Quando me viu, levantou-se, ansiosa.
- Até que enfim! Estava preocupadíssima. Onde estiveste?
- A remar, no porto. Faz um tempo excelente para passear
na água. Está-se muito melhor aí do que encafuado na Rose
and Crown. - A expressão chocada que lhe acudiu aos olhos
era tudo o que eu necessitava para a prova definitiva. - Descobri o teu segredo. Não merece a pena continuares a mentir. - Fiz uma pausa, no momento em que Seecombe assomou à porta para perguntar se podia servir o jantar. - Sim,
imediatamente. Não mudarei de roupa.
Cravei o olhar nela, sem mais uma palavra, e passámos à
sala de jantar. O mordomo cumulava-me de atenções por pressentir que havia algo de anormal na atmosfera. Debruçava-se
sobre mim como um médico e recomendava-me que provasse
determinadas iguarias.
- Exagerou o dispêndio de energias, senhor - asseverou.
- Isto assim não pode ser. Ainda acaba por voltar a cair de
cama.
Desviou os olhos para Raquel, em busca de uma confirmação que não surgiu. Mal chegámos ao fim do jantar, em que
quase não tocáramos na comida, ela levantou-se e seguiu
directamente para cima. Quando alcançou a porta do boudoir, tê-la-ia
fechado na minha cara, mas antecipei-me e entrei. A expressão
chocada reapareceu-lhe no olhar enquanto se afastava de mim
e retrocedia em direcção à lareira.
- Há quanto tempo está o Rainaldi hospedado na Rose
and Crown?
- Isso é comigo.
- E comigo também. Responde.
Creio que compreendeu que não conseguiria dissuadir-me
ou embalar com novas fábulas, pois capitulou.
- Muito bem. Há duas semanas.
- Porque voltou?
- Porque lhe pedi. Porque é meu amigo. Porque precisava
da sua opinião e, consciente da tua antipatia, não o podia
convidar a ficar nesta casa.
- A opinião para quê?
- Não é da tua conta. Pára de te comportares como uma
criança e mostra um pouco de compreensão.
Congratulava-me por a ver perturbada. Significava que a
apanhara em falso.
- Pretendes que compreenda as tuas dissimulações? Não
tens parado de me mentir nas duas últimas semanas, e escusas
de tentar negá-lo.
- Se o fiz, não foi com prazer. Pensei apenas na tua tranquilidade. Odeias o Rainaldi. Se soubesses que me encontrava
com ele, esta cena surgiria mais cedo, quando ainda não recuperaras energias suficientes para a enfrentar. Terei de
voltar
a passar pelo mesmo, meu Deus? Primeiro com o Ambrose e
agora contigo!
Tinha as faces lívidas e tensas, mas era-me impossível determinar se se devia a medo ou cólera. Entretanto, mantinha-me com as costas apoiadas à porta fechada e olhava-a com intensidade.
- Sim, odeio o Rainaldi, como o Ambrose o odiava. E com
razão.
- Qual?
- Está apaixonado por ti. E tem estado desde há anos.
- Que incrível disparate... - Pôs-se a percorrer o aposento em vaivém, entre a lareira e a janela, as mãos unidas à sua
frente. - É um homem que se manteve sempre a meu lado,
em todas as provações. Nunca teceu juízos errados a meu respeito nem tentou ver-me de um modo diferente do que sou.
Conhece os meus defeitos e fraquezas e não os condena, aceitando-me por aquilo que valho. Se não me apoiasse ao longo
dos anos das nossas relações absolutamente platónicas, e de
que nada sabes, estaria perdida, sem possibilidade de
salvação.
O Rainaldi é meu amigo. O meu único amigo.
Fez uma pausa e olhou-me com uma expressão de desafio.
Tratava-se, sem dúvida, da verdade, ou, pelo menos, tão distorcida na sua mente que assumia esse aspecto. Todavia, não
influía minimamente na minha opinião sobre Rainaldi. Na realidade, ele já possuía parte da sua recompensa, como Raquel
acabava de me revelar. O resto surgiria com o tempo. No próximo mês, no próximo ano, mas não deixaria de aparecer. O homem dispunha de um poço de paciência. Porém, eu não; nem
Ambrose.
- Manda-o embora para a sua terra - sugeri.
- Irá, quando for oportuno, mas se eu o necessitar ficará.
Quero mesmo prevenir-te de que, se tornas a ameaçar-me, o
trago para esta casa, como meu protector.
- Não acredito que te atrevesses.
- Porque não? A casa é minha.
Eclodia a inevitável batalha. As suas palavras constituíam
um desafio que eu não podia enfrentar. O seu cérebro de mulher funcionava de uma maneira diferente do meu. Toda a argumentação era justa, todas as arremetidas contundentes. Só a
força física a podia desarmar. Avancei um passo, mas correu
para junto da chaminé e pousou a mão no cordão da sineta.
- Deixa-te estar aí, ou chamo o Seecombe. Queres cobrir-te de vergonha diante dele, quando lhe disser que tentaste
agredir-me?
- Não tencionava agredir-te. - Voltei-me e abri a porta.
- Chama-o, se desejares, e explica-lhe tudo o que se passou
entre nós. Se vai haver violência e vergonha, que seja em
larga
escala.
Olhámo-nos com animosidade, em silêncio, por um longo
momento. Por último, largou o cordão, mas não me movi. De
olhos marejados, fitou-me e articulou:
- Uma mulher não pode sofrer duas vezes. Já passei por
tudo isto. - Levou a mão à garganta. - Até os dedos em volta do pescoço. Compreendes agora?
Desviei os olhos por cima da sua cabeça, para o retrato na
parede, onde o rosto juvenil de Ambrose era o meu. Ela vencera ambos.
- Sim, compreendo. Se precisas de te encontrar com o
Rainaldi, chama-o aqui. Prefiro isso a vê-lo clandestinamente
na Rose and Crown. - Voltei-lhe as costas e dirigi-me para o
meu quarto.
No dia seguinte, ele compareceu para jantar. Raquel enviara-me um bilhete à hora do pequeno-almoço, a fim de pedir
autorização para o convidar, sem dúvida esquecida da atitude
de desafio da véspera ou limitando-se a ignorá-la até nova decisão, com a aparente intenção de restaurar a minha posição.
Em resposta, informei que transmitiria as ordens necessárias a
Wellington para o ir buscar com a carruagem, e o italiano
chegou às quatro e meia da tarde.
Aconteceu encontrar-me, só, na biblioteca, e, graças a um
lapso do mordomo, foi introduzido lá e não na sala de estar.
Levantei-me e dei-lhe as boas-tardes. Parecia totalmente
descontraído e estendeu-me a mão.
- Espero que esteja totalmente restabelecido - proferiu. - Na verdade, acho-o com melhor aspecto do que as circunstâncias me levaram a crer. Todas as informações que recebi a seu respeito eram pessimistas. A Raquel estava muito
preocupada.
- Com efeito, sinto-me bem.
- A felicidade dos jovens - volveu, com uma expressão
sonhadora. - Quanto não vale ter bons pulmões e uma digestão excelente, responsáveis pelo desaparecimento dos traços da
doença em poucas semanas! Aposto que já percorre os campos
a cavalo todos os dias. Em contrapartida, nós, a sua prima e
eu, mais velhos, precisamos de evitar toda a tensão. Pessoalmente, considero a sesta a meio da tarde essencial para a
meia-idade.
Indiquei-lhe uma cadeira, que aceitou, para em seguida
sorrir, enquanto olhava à sua volta.
- Ainda não há alterações. Talvez a Raquel tencione deixar
tudo como está, para criar ambiente. Muito me alegra. O
dinheiro pode ser despendido melhor noutras coisas. Ela contou-me
que, desde a minha visita anterior, se efectuaram várias obras
na propriedade. Quero vê-las antes de conceder a aprovação.
Considero-me uma espécie de administrador, para equilibrar a
situação.
Puxou de um charuto e acendeu-o, sem parar de sorrir.
- Escrevi-lhe uma carta, em Londres, depois de você
transferir a posse dos bens, mas a sua doença impediu-me de
lha enviar. Quase tudo o que continha posso repetir agora na
sua presença. Limitava-me a agradecer-lhe, em nome da Raquel, e assegurar que providenciaria para que não ficasse prejudicado com a transferência. Pretendo, de resto, vigiar de
perto todas as despesas. - Expeliu uma nuvem de fumo azulado e fixou o olhar no tecto. - Este lustre não foi escolhido
com muito gosto. Em Itália, conseguiria muito melhor. Tenho
de recomendar à Raquel que tome nota desses pormenores.
Telas de autores conhecidos e mobiliário e acessórios de
qualidade constituem bons investimentos. Quando chegar o momento
de lhe devolver a propriedade, verificará que duplicámos o
valor.
No entanto, isso situa-se num futuro distante. Nessa altura,
você decerto já terá filhos. Ela e eu não passaremos de velhos
alquebrados em cadeiras de rodas. - Soltou uma gargalhada
condescendente e conservou o sorriso. - A propósito, como
está a encantadora Miss Louise?
Repliquei que estava convencido de que se encontrava bem.
Enquanto o observava, com o charuto entre os dedos, reflectia
que tinha mãos assaz delicadas para um homem. Possuíam
uma espécie de qualidade feminina que não correspondia ao
resto da sua pessoa, e o volumoso anel, no dedo mindinho,
achava-se deslocado.
- Quando regressa a Florença? - perguntei.
- Depende da Raquel - redarguiu, sacudindo a cinza que
caíra no casaco. - Vou voltar para Londres, a fim de arrumar
uns negócios em suspenso, e depois sigo para a Itália antes
dela, para preparar a villa e o pessoal para o seu regresso, ou
espero e viajaremos juntos. Decerto está ao corrente de que pretende tornar a instalar-se lá...
- De facto, estou.
- Satisfaz-me verificar que não tentou pressioná-la para
que ficasse. Sei que, com a doença, se tornou dependente dela.
Por outro lado, a Raquel queria evitar-lhe todo o tipo de
amargura. Mas, como lhe vinquei com clareza, você agora é
um homem e não um adolescente desamparado. Se porventura
não consegue apoiar-se nas pernas com firmeza, tem de aprender a fazê-lo. Não concorda?
- Em absoluto.
- As mulheres, em particular a Raquel, procedem sempre
ao sabor das suas emoções. Nós, homens, mais frequentemente, embora nem sempre, em obediência à razão. Alegra-me ver
que se tornou uma pessoa sensata. Na Primavera, quando nos
visitar em Florença, terei oportunidade de lhe mostrar alguns
dos nossos tesouros históricos. Garanto-lhe que não ficará desapontado. - E tornou a soprar fumo para o tecto.
- Quando diz "nos", emprega o pronome no sentido real,
como se a cidade lhe pertencesse, ou trata-se de uma fórmula
legal?
- Perdoe-me, mas estou tão habituado a agir em nome da
Raquel, mesmo a pensar por ela, de tantas maneiras, que nunca consigo dissociar-me totalmente da ideia, pelo que insisto
no emprego desse pronome pessoal. Disponho, aliás, de bons
motivos para crer que virei a fazê-lo de um modo mais íntimo.
Mas isso - concluiu com um gesto largo - está nas mãos dos
deuses... Ah, aí a temos!
Pôs-se de pé e imitei-o, no momento em que Raquel entrou e lhe deu as boas-vindas em italiano, estendendo a mão
para que a beijasse. Devido a causas indeterminadas - talvez
fosse a forma como trocavam olhares e sorrisos durante o jantar -, senti avolumar-se uma espécie de náusea no meu íntimo.
A comida que tragava não me sabia a nada. A própria tisana,
que ela preparou para os três no final da refeição, tinha um
sabor amargo fora do habitual. Deixei-os sentados no jardim e
subi ao meu quarto. Ainda não dera meia dúzia de passos
quando os ouvi passarem a exprimir-se em italiano. Ocupei a
cadeira junto da janela, onde permanecera nos primeiros dias
de convalescença, com Raquel a meu lado, e foi como se todo
o mundo se tivesse tornado maligno. Não logrei reunir coragem para voltar a descer e despedir-me do homem. Ouvi a
carruagem deter-se à entrada e partir, pouco depois, sem me
mover dali. Mais tarde, Raquel subiu a escada e bateu levemente à minha porta. Não respondi. Abriu-a, entrou e pousou-me a mão no ombro.
- Que tens agora? - A voz parecia envolta num suspiro
prolongado, como se tivesse atingido os limites da paciência.
- Ele não podia ter sido mais atencioso e cordial. Que defeito
lhe encontraste hoje?
- Nenhum.
- Fala-me sempre muito bem de ti. Gostava que o ouvisses. Se fosses menos difícil de aturar, menos ciumento...Correu os cortinados, porque começava a escurecer, e o próprio gesto denunciava a impaciência que a dominava. - Tencionas ficar aí encolhido na cadeira até à meia-noite? Em caso
afirmativo, envolve-te num cobertor, ou apanhas um resfriado.
Quanto a mim, estou exausta e vou-me deitar.
Tocou-me levemente na cabeça e retirou-se. Não era uma
carícia. O movimento superficial de quem afaga uma criança
que se comportou mal, a pessoa adulta demasiado enfastiada
para insistir em lhe ralhar.
Naquela noite, a febre reapareceu. Não com a intensidade
anterior, mas suficiente para me incomodar. De manhã, descobri que não conseguia permanecer de pé com firmeza e, depois
de vomitar, assolado por fortes arrepios, voltei para a cama.
Foram chamar o médico, e perguntei a mim próprio se se repetiria o tormento de poucas semanas atrás. Ele diagnosticou
qualquer anomalia no fígado e deixou ficar os medicamentos
que se lhe afiguraram apropriados. Mas quando Raquel se sentou ao lado da cama, à tarde, pareceu-me que o rosto exibia a
mesma expressão de desconfiança da véspera. Imaginei o que
pensava: "Voltará tudo ao princípio? Estarei condenada a fazer
de enfermeira eternamente?" Mostrou-se mais brusca comigo
ao dar-me o medicamento, e, quando tive sede, não pedi que
me alcançasse o copo, com receio de lhe desagradar.
Fazia-se acompanhar de um livro, que não lia, e a sua presença na cadeira à cabeceira da cama dir-se-ia conter uma censura silenciosa.
- Se tens alguma coisa para fazer, não percas tempo
aqui - acabei por dizer.
- Que havia de querer fazer?
- Falar com o Rainaldi.
- Partiu.
A informação produziu-me uma alteração no palpitar do
coração. Uma espécie de euforia. A doença foi imediatamente
relegada para segundo plano.
- Regressou a Londres?
- Não. Embarcou ontem em Plymouth.
O meu alívio foi tão intenso que tive de virar o rosto para
o
lado, a fim de evitar que se apercebesse e ficasse mais
irritada.
- Supunha que ainda tinha assuntos a resolver em Londres.
- Pois tinha, mas decidimos que o podia fazer por correspondência. Aguardam-no outros mais urgentes em Itália. Soube que havia um navio que partia à meia-noite e aproveitou.
Estás mais satisfeito?
Rainaldi abandonara o país - na verdade, achava-me satisfeito. Mas não com o plural que ela empregara. No fundo, eu
sabia porque partira: para prevenir o pessoal doméstico da
villa para preparar o regresso da dona da casa. Era essa a urgência que o aguardava. As minhas possibilidades de êxito esvaíam-se a passos agigantados.
- Quando o seguirás? - perguntei.
- Depende de ti.
Reconheci para comigo que poderia continuar a fingir-me
doente - queixar-me de dores em várias partes do corpo e
deixar ao médico o trabalho de determinar uma possível causa.
Ganharia assim mais um par de semanas. E depois? A bagagem seguiria para Plymouth, a cama do quarto azul seria coberta como durante todos os anos antes de ela chegar, e silêncio.
- Se fosses menos rancoroso e cruel, estes últimos dias
podiam ser felizes - observou com um suspiro.
Estaria a ser rancoroso? E cruel? Custava-me a crer. Parecia-me, ao invés, que a atitude hostil lhe pertencia. Não
havia
solução possível. Procurei-lhe a mão e não a retirou. No entanto, ao beijá-la, continuava a pensar em Rainaldi.
Naquela noite, sonhei que me dirigia à laje de granito e
voltava a ler a carta que enterrara. O sonho era tão intenso
que não se dissipou com o despertar e persistiu durante toda a
manhã. Levantei-me e senti-me com forças suficientes para
descer ao piso térreo, como habitualmente, cerca do meio-dia.
Por muito que me esforçasse, não conseguia dominar o desejo
de a ler de novo. Não me recordava do que dizia a respeito de
Rainaldi. Necessitava de saber, sem margem para dúvidas, o
que Ambrose revelava acerca dele. À tarde, Raquel recolheu
ao quarto para descansar e aproveitei para satisfazer a
curiosidade. Percorri a passagem empedrada, embora contrariado comigo mesmo pelo que tencionava fazer. Uma vez diante da laje, ajoelhei, escavei a terra com as mãos até sentir o
contacto
do porta-moedas, agora pegajoso, porque uma lesma o escolhera para habitação durante o Inverno. Sacudi-a com um piparote e extraí a carta amarrotada. Os dizeres estavam algo
apagados, mas perfeitamente legíveis. Li-a do princípio ao
fim.
A primeira parte mais apressadamente, embora fosse estranho
que a doença de Ambrose, devida a uma causa diferente, apresentasse sintomas similares à minha.
"À medida que os meses se sucediam, apercebi-me de
que cada vez se voltava mais para o homem que mencionei em cartas anteriores, um tal Signor Rainaldi, amigo
e, segundo creio, advogado dos Sangalletti, a fim de se
aconselhar, e não para mim, seu marido. Creio que a
ama desde longa data, ainda em vida de Sangalletti, e,
agora que o estado de espírito dela se modificou, não
posso afirmar a inexistência de reciprocidade de afecto.
Regista-se uma névoa no seu olhar, uma inflexão na voz,
quando o nome dele é mencionado, que me desperta a
mais terrível das suspeitas.
Porventura em virtude de ter sido criada por pais
pouco enérgicos e da vida que se viu obrigada a conhecer antes, e mesmo durante, do primeiro casamento,
cada vez me convenço mais de que o seu código de com
portamento difere do nosso. Assim, os laços de matrimónio talvez não sejam sagrados. Suspeito (tenho mesmo quase a certeza) de que ela lhe dá dinheiro. Lamento
ver-me forçado a reconhecer que, actualmente, o vil metal constitui a única via de acesso ao seu coração."
Ei-la, a frase que eu não esquecera, e persistia nos meus
sonhos. Na parte em que o papel estivera dobrado, a letra era
indistinta, até que voltei a detectar o nome "Rainaldi":
"Se saio ao terraço e a encontro a conversar com Rainaldi, calam-se subitamente, o que me redobra as suspeitas.
Certa vez em que fiquei só com ele, aludiu ao meu testamento, que vira por ocasião do casamento, e comentou
que, se morresse, deixaria a minha mulher sem recursos.
Achava-me ao corrente do facto e já redigira outro em
que corrigia a omissão, o qual assinaria, com as testemunhas exigidas por lei, se me convencesse de que a tendência para o dispêndio desregrado de dinheiro era temporária, e não profundamente enraizada.
Quero salientar, a propósito, que o novo documento
lhe atribuiria a casa e a propriedade apenas enquanto vivesse, pelo que transitariam para ti por sua morte, com a
cláusula de que a administração de tudo permaneceria
nas tuas mãos.
Mantém-se por assinar pela razão que acabo de expor.
Repara que foi Rainaldi quem me fez perguntas sobre o testamento e chamou a atenção para as omissões.
Ela abstém-se de me falar no assunto. Mas trocarão impressões a esse respeito? Que dirão um ao outro quando
não estou presente?
Esta questão do testamento ocorreu em Março. Reconheço que estava adoentado, com dores de cabeça excruciantes, e a abordagem do assunto por parte de Rainaldi pode dever-se ao facto de supor que eu morreria.
Talvez fosse isso e não o abordem entre si. Não disponho
de meios para o averiguar. Surpreendo-a com frequência
a olhar-me com uma expressão estranha. E quando a
abraço, dá a impressão de que tem medo. Mas de quê ou
de quem?
Há dois dias, e esta é a razão principal da presente,
sofri novo acesso febril, como o que me prostrou em
Março. O ataque é repentino. Acodem-me dores e náuseas, que passam rapidamente a uma enorme excitação
cerebral, a qual me suscita uma tendência irresistível para
a violência, impedindo-me de permanecer de pé. Em seguida, surge um desejo intolerável de dormir, pelo que
caio no chão ou na cama, consoante o lugar onde me encontro. Não me recordo de o meu pai sofrer de nada do
género. Das dores de cabeça e certa irritação, sem dúvida, mas nunca os outros sintomas.
Diz-me o que tudo isto significa, Philip, meu caro
rapaz, única pessoa no mundo em quem posso confiar,
e, se puderes, procura-me. Não digas nada a Nick Kendall. Ou a quem quer que seja. E, sobretudo, não escrevas a responder. Limita-te a vir.
Há uma ideia que me domina e não permite um instante de paz. Pretenderão envenenar-me?
Ambrose."
Desta vez não voltei a guardá-la no porta-moedas. Rasguei-a
em numerosos pedaços, que enterrei no chão, em diferentes lugares. Quanto ao porta-moedas, parcialmente apodrecido pela
humidade, parti-o em dois e ocultei-o entre a vegetação do
bosque. Por fim, regressei a casa. Afigurou-se-me uma espécie
de pós-escrito da carta o facto de que, quando me preparava
para entrar, Seecombe recebia a mala do correio, que um dos
rapazes fora buscar à aldeia. Abri-a e, entre as poucas
missivas
que se me destinavam, havia uma para Raquel, com o carimbo
de Plymouth. O endereço achava-se traçado na caligrafia inconfundível de Rainaldi. Creio que, se o mordomo não estivesse presente, a teria confiscado. Assim, limitei-me a
indicar-lhe que a entregasse à destinatária.
Ironicamente, quando a procurei, um pouco mais tarde, a
agressividade parecia ter-se-lhe dissipado, substituída pela
ternura de outrora. Estendeu-me os braços, sorridente, e perguntou como me sentia, abstendo-se, porém, de aludir à carta que
acabava de receber. Durante o jantar, interroguei-me se o conteúdo teria contribuído para a sua nova atitude e imaginei que
se trataria de uma epístola recheada de palavras de amor. Apesar de redigida em italiano, decerto haveria, aqui e ali,
termos
que eu compreenderia, pois Raquel ensinara-me algumas frases
naquele idioma. De qualquer modo, ficaria inteirado, através
da introdução, do grau das relações que mantinham.
- Estás muito calado - observou em dado momento.
- Sentes-te bem?
- Sinto-me - repliquei. - Muito bem. - E baixei os
olhos para o prato, não fosse ler-me o pensamento e depreender o que tencionava fazer.
Terminada a refeição, subimos ao boudoir. Ela preparou a
tisana, como de costume, e pousou as respectivas chávenas na
mesinha a meu lado. Em cima da escrivaninha encontrava-se a
carta de Rainaldi, parcialmente coberta por um lenço. Os
meus olhos foram atraídos para aí, fascinados. Porventura um
italiano, ao escrever à mulher amada, manteria um estilo formal? Ou, ante a perspectiva da separação de algumas semanas,
depois de um lauto repasto, voltar-se-ia para a indiscrição e
permitir-se-ia a liberdade de derramar amor no papel?
- Conservas o olhar fixo num lado da sala, como se visses
um fantasma - acusou Raquel. - Que se passa contigo?
- Nada.
E, pela primeira vez, menti, enquanto ajoelhava junto dela,
fingindo uma urgência de conforto e amor, para que as suas
dúvidas se dissipassem e esquecesse a carta e a deixasse em
cima da escrivaninha.
Mais tarde, depois da meia-noite, quando me convenci de
que dormia, ao passar diante da porta do seu quarto e
verificar
que não se filtrava luz pela frincha inferior, voltei ao
boudoir.
O lenço continuava no mesmo lugar, todavia a carta desaparecera. Inspeccionei a lareira, mas não descortinei vestígios de
cinzas. Abri a gaveta da escrivaninha e depararam-se-me papéis meticulosamente arrumados e nada mais. Restava apenas
um compartimento fechado à chave ao fundo do móvel, ladeado por outros abertos. Puxei do canivete e introduzi a lâmina
um pouco acima da fechadura, numa tentativa para alargar o
espaço intermédio, o que me permitiu descortinar uma ponta
de papel branco. Entrei no quarto de Raquel, peguei no molho
de chaves da gaveta da mesa-de-cabeceira e experimentei a
mais pequena. Ajustava-se perfeitamente e a fechadura não
ofereceu resistência. Retirei um sobrescrito, mas verifiquei
com desapontamento que não se tratava da carta de Rainaldi.
Continha vagens e sementes, que me deslizaram para a mão e
se espalharam pelo chão. Eram muito pequenas e verdes.
Olhei-as pensativamente e recordei-me de que vira outras
iguais, assim como as vagens. Pareciam-se muito com as que
Tamlyn me mostrara no jardim e também cobriam o chão do
pátio da Villa Sangalletti, que a mulher de Giuseppe varrera.
Tratava-se de sementes de laburno, venenosas para o gado... e para os homens.
Tornei a colocar o sobrescrito no compartimento da escrivaninha, que tranquei. Em seguida, guardei o molho de chaves
na mesa-de-cabeceira e regressei ao meu quarto, sem olhar para Raquel, que dormia profundamente.
Creio que estava mais calmo do que em qualquer outro
momento das últimas semanas. Aproximei-me do lavatório e,
entre o jarro de água e a bacia, vi os dois frascos de medicamentos que o Dr. Gilbert me prescrevera. Esvaziei-os na janela, peguei no castiçal e desci à cozinha. O pessoal há muito
que se deitara. Em cima da mesa, junto do lava-loiça, encontrava-se o tabuleiro com as duas chávenas de que bebêramos a
tisana. Eu sabia que, a maioria das vezes, John as deixava por
lavar até à manhã seguinte, como na realidade voltara a
acontecer. O depósito da bebida achava-se bem visível no fundo de
ambas. Examinei-o à luz da vela e não notei qualquer diferença. Pousei o dedo em cada um - primeiro da chávena dela e
depois da minha - e levei-o aos lábios. Existiria uma leve
distinção no sabor? Tornava-se difícil determiná-lo. Dava a impressão de que o depósito da minha era ligeiramente mais espesso, mas não o poderia jurar. Por fim, abandonei a cozinha e
voltei para o quarto.
Despi-me lentamente, imerso em cogitações, e deitei-me.
Não me assolava cólera ou medo. Apenas compaixão. Considerava Raquel sem responsabilidade do que fizera, possessa do
mal. Subjugada pelo homem ao qual não podia resistir, carente, devido ao peso das circunstâncias e de possíveis meios em
que se movera no passado, de um sentido sólido da moral, revelava-se capaz, por instinto e impulso, daquele acto final.
Eu
queria salvá-la de si própria e não sabia como fazê-lo. Tinha
a
impressão de que Ambrose se encontrava a meu lado e eu voltava a viver nele, ou ele em mim. A carta que escrevera e eu
reduzira a pedaços achava-se agora concretizada.
Eu admitia que ela, à sua estranha maneira, amara ambos,
mas tornáramo-nos dispensáveis. Qualquer coisa diferente da
emoção cega encontrava-se, afinal, na raiz dos seus actos.
Talvez fosse duas pessoas, cada uma das quais tinha fases de predominância. Na realidade, não o podia afirmar. Louise diria
que ela fora sempre a segunda. Que, desde o princípio, cada
pensamento, cada movimento, se revestia de certa premeditação. Em Florença, com a mãe, após a morte do pai, principiara
então, ou ainda antes, a maneira de viver? Sangalletti, morto
num duelo, que nunca fora para mim ou para Ambrose nada
mais do que uma sombra sem substância, também teria sofrido? Louise não deixaria de se inclinar para a afirmativa.
Insistiria em que, desde o primeiro encontro com Ambrose, dois
anos atrás, planeara casar com ele, por dinheiro. E quando não
obtivera o que pretendia, planeara a sua morte. Assim raciocinava a mente legal. E Louise não lera a carta que eu rasgara.
Qual seria a sua posição se o tivesse feito?
O que uma mulher fez uma vez sem ser detectada, pode
repetir com a mesma naturalidade. E desembaraçar-se de mais
um fardo.
Enfim, a carta fora rasgada, e ela, ou qualquer outra pessoa, não teria possibilidade de se inteirar do conteúdo. De
resto, este último preocupava-me pouco agora. Não me merecia
tanta importância como a parte final da que Ambrose escrevera, considerada por Rainaldi, assim como por Nick Kendall, o
mero produto de um cérebro enfermo. "Ela acabou por se
desmascarar, Raquel, meu tormento."
Eu era o único ciente de que essas palavras correspondiam
à verdade.
Voltava, pois, ao ponto de partida. À ponte junto do Arno,
onde fizera um juramento. Em última análise, um juramento
talvez fosse algo que não podia ser repudiado, tinha de ser
cumprido no momento oportuno. E esse momento chegara...
O dia seguinte era domingo. À semelhança de todos os domingos do passado, desde que ela se instalara em minha casa, a
carruagem conduziu-nos à igreja. Fazia um tempo excelente,
próprio dos píncaros do Verão. Raquel usava um novo vestido
preto e chapéu de palha e fazia-se acompanhar de um pára-sol.
Sorridente, deu os bons-dias a Wellington e a Jim e ajudei-a a
subir para o seu lugar. Quando me sentei a seu lado e começámos a atravessar o parque, pousou a mão na minha.
Eu pegara-lhe muitas vezes, apaixonado. Sentira a sua delicada pequenez, movera os anéis em torno dos dedos, vira as
veias azuladas, tocara nas unhas bem cuidadas. Agora, pousada
na minha, observava-a, pela primeira vez, destinada a um fim
diferente. Via-a pegar nas vagens de laburno, extrair as
sementes, esmagá-las e friccioná-las na palma. Recordei-me de, uma
ocasião, lhe dizer que tinha umas mãos belas, e ela, com uma
risada, replicar que era a primeira pessoa a reconhecê-lo.
"Têm
a sua utilidade", acrescentara. "O Ambrose costumava dizer,
quando me ocupava do jardim, que eram mãos de operária."
Alcançámos a encosta íngreme e o peso concentrou-se nas
rodas da retaguarda da carruagem. Raquel tocou-me no ombro
com o seu e murmurou:
- Dormi tão profundamente esta noite que nem te ouvi
sair. - E olhou-me, com um sorriso significativo.
Embora me tivesse iludido durante muito tempo, eu sentia-me o maior mentiroso dos dois. Não consegui sequer replicar e, para manter a mentira, segurei-lhe a mão com mais
firmeza e voltei a cabeça para o outro lado.
A areia apresentava uma tonalidade dourada na baía ocidental e a água da baixa-mar reflectia os raios solares. A
carruagem enveredou pela alameda que conduzia à aldeia e à
igreja.
Os sinos repicavam e as pessoas juntavam-se em torno da entrada, à espera de que nos apeássemos e as precedêssemos. Raquel
sorria e inclinava-se levemente para todos os lados. Avistámos
os Kendall e os Pascoe, além dos vários caseiros, enquanto nos
encaminhávamos para o nosso lugar, sob os acordes do órgão.
Ajoelhámos em oração por um breve momento. Os rostos
afundados nas mãos. "Que estará ela a dizer ao seu deus, se
porventura acredita em algum?", pensei. "Agradecer-lhe-á o
êxito de todas as suas maquinações? Ou porventura suplica
misericórdia?"
Por fim, sentou-se e abriu o livro de orações. A sua expressão era calma e feliz. Eu desejava odiá-la, como
acontecera
durante muitos meses antes de a conhecer. No entanto, somente conseguia experimentar aquela estranha e terrível compaixão.
Levantámo-nos quando o vigário entrou, e o serviço religioso começou. Recordo-me perfeitamente do salmo que entoámos naquela manhã: "Aquele que operar o embuste não
habitará na minha casa; aquele que proferir mentiras não permanecerá à minha vista." Os lábios dela moviam-se com as palavras, e a voz era suave e baixa. E quando o vigário subiu ao
púlpito para pronunciar o sermão, pousou as mãos no regaço
e preparou-se para o escutar, enquanto os olhos, graves e concentrados, se erguiam para contemplar o orador, que principiou a dissertar sobre o tema: "É terrível cair nas mãos do
Deus vivo."
Os raios solares penetravam pelos vitrais e incidiam nela.
Observei os rostos rosados das crianças da aldeia, que bocejavam, ansiosas por que o sermão chegasse ao fim, e moviam os
pés com impaciência, aprisionados nas botas dominicais e desejosos de recuperar a liberdade no relvado, descalços, para
reatarem as brincadeiras. Lamentei ardentemente, por um breve momento, não poder voltar àquela idade, inocente, com
Ambrose, em vez de Raquel, a meu lado.
"Há uma colina verdejante ao longe, atrás das muralhas de
uma cidade." Não sei porque cantámos este hino naquele dia.
Talvez tivesse havido algum festival relacionado com as crianças da povoação. As nossas vozes elevavam-se com clareza, e
eu não pensava em Jerusalém, como decerto se pretendia de
mim, mas apenas numa sepultura abandonada no cemitério
protestante de Florença.
Quando o coro se retirou e nos encaminhávamos para a
saída, Raquel segredou-me:
- Acho que devíamos convidar os Kendall e os Pascoe para jantar, como antigamente. Passou muito tempo desde a última vez, e são capazes de estar ofendidos.
Reflecti por um momento e assenti com uma breve inclinação de cabeça. A presença deles ajudaria a transpor o abismo
que
se cavara entre nós, e, entretida a conversar com os
convidados,
habituada ao meu silêncio, ela disporia de poucas oportunidades de olhar para mim e estranhar a minha reserva. À entrada
da igreja, os Pascoe não necessitaram de insistência por parte
de Raquel, ao contrário dos Kendall, que opuseram certa resistência.
- Terei de os deixar logo após o jantar, mas a carruagem
voltará lá para recolher a Louise - explicou o meu padrinho.
- Mister Pascoe tem de celebrar as vésperas - interpôs a
esposa do vigário. - Podemos, pois, levá-la.
Encetaram animada troca de impressões para coordenar a
operação dos transportes e apercebi-me de que o capataz dos
operários que trabalhavam na construção do caminho empedrado e jardim aquático, aguardava, de chapéu na mão, para
falar comigo.
- Queria alguma coisa? - perguntei.
- Peço desculpa, Mister Ashley, mas ontem não o encontrei, para o prevenir. Se passar pelo caminho empedrado, não
utilize a ponte que estamos a construir sobre o novo jardim.
- Porquê?
- Trata-se de uma estrutura provisória, até procedermos à
consolidação, segunda-feira de manhã. O piso parece sólido,
mas não aguentaria o peso de uma pessoa. Se alguém passasse
por aí, arriscava-se a cair lá em baixo e fracturar a espinha.
- Obrigado. Não me esquecerei.
Verifiquei que os outros tinham chegado a um entendimento
e, como no primeiro domingo, que agora parecia perdido num
passado remoto, separámo-nos em três grupos: Raquel e o meu
padrinho seguiram na carruagem deste último e Louise e eu na
minha, enquanto os Pascoe subiam para o seu breque. Decerto
que a ocorrência se verificara diversas vezes no tempo intermédio, todavia, quando começámos a subir a colina e me apeei
para reduzir o peso, pensei na primeira, cerca de dez meses
atrás, naquele domingo de Setembro. Eu irritara-me com a atitude de Louise, calada e altiva, quase arrogante, e não lhe
ligara a importância devida desde então. Contudo, ela não se mostrara melindrada e continuara a distinguir-me com a sua
amizade. Quando chegámos ao topo da colina e tornei a sentar-me a seu lado, perguntei:
- Sabias que as sementes do laburno são venenosas?
- Sim, ouvi falar disso - admitiu, olhando-me com estranheza. - O gado que as come morre. E as crianças também.
porque perguntas? Perdeste reses nas terras de Barton?
- Até agora não, mas o Tamlyn sugeriu, o outro dia, que
transferíssemos as árvores da plantação para o campo, por causa do perigo que representa a queda das sementes no chão.
- Parece-me uma ideia útil. O meu pai perdeu um cavalo,
há anos, devido a um descuido desses. A morte ocorre rapidamente e não há nada a fazer.
Interroguei-me sobre como reagiria se lhe falasse da minha
descoberta da noite anterior. Olharia para mim, horrorizada, e
chamar-me-ia louco? Custava-me a crer. Quase tinha a certeza
de que acreditaria. No entanto, o lugar não era o mais apropriado, com Wellington e Jim ao alcance das nossas palavras.
Voltei-me para trás e vi que as outras carruagens nos seguiam a certa distância.
- Preciso falar contigo, Louise. Quando o teu pai se retirar, inventa um pretexto qualquer para ficar.
Fitou-me com perplexidade, mas não acrescentei qualquer
esclarecimento.
Quando Wellington imobilizou a carruagem à entrada de
casa, desci e estendi a mão à minha companheira. Enquanto
aguardávamos os outros, admiti para comigo que podia perfeitamente ser aquele outro domingo, em Setembro. Raquel sorria como então. Conversava animadamente com o meu padrinho, e afigurou-se-me que tinham enveredado de novo pela
política. Naquele domingo, embora me sentisse atraído para
ela, era uma estranha para mim. E agora? Julgava conhecê-la
demasiado bem - o seu melhor e o pior. Até os motivos dos
seus tenebrosos actos, porventura intrigantes para ela
própria,
começavam a despir-se do mistério inicial. Já não lograva
ocultar-me nada, Raquel, o meu tormento...
- Parece que voltámos aos bons tempos - declarou quando
nos juntámos no átrio. - Estou muito contente por terem
vindo.
Abraçou virtualmente todo o grupo com o olhar e encabeçou o pequeno cortejo em direcção à sala de estar, a qual, como sempre, apresentava o seu melhor aspecto no Verão, com
as janelas abertas, as hortênsias japonesas viçosas nos seus
vasos e reflectidas nos espelhos das paredes. Sentámo-nos, e
Seecombe serviu fatias de bolo e vinho.
- Estão eufóricos por causa de um pouco de sol - disse
Raquel com uma risada. - Para mim, não é nada. Em Itália,
temos tempo assim nove meses por ano. - Fez uma pausa.
- Vou fazer as honras da casa. Deixa-te estar sentado, Philip,
que continuas a ser meu paciente.
Verteu vinho em copos, que distribuiu. O meu padrinho e
o vigário levantaram-se, protestando, porém ela rejeitou-os
com um gesto. Quando se aproximou de mim, fui o único que
se negou a beber.
- Não tens sede? - perguntou.
Abanei a cabeça. Não voltaria a ingerir uma única gota
servida por ela. Com um leve encolher de ombros, pousou o copo no
tabuleiro e foi sentar-se com Mrs. Pascoe e Louise, no sofá.
- Suponho que, nesta época do ano, em Florença o calor
é quase insuportável, mesmo para si - observou o vigário.
- Nunca tive dificuldade em suportá-lo. Os estores mantêm-se baixados durante a maior parte do dia, o que conserva
as casas frescas. Uma pessoa adapta-se ao clima em que vive.
Como quem sai à rua no período mais quente sabe ao que se
arrisca, aproveitamos para dormir a sesta. Na Villa
Sangalletti,
há um pequeno parque virado a norte, onde praticamente
nunca dá o sol. Contém um lago e um repuxo, que ponho a
funcionar se o calor aperta. A água a correr produz um efeito
calmante. Na Primavera e Verão, nunca me sento noutro lugar
da casa.
Com efeito, na Primavera, podia ver as vagens do laburno
incharem e converterem-se em flores, as quais constituíam um
canopo para o rapaz desnudo que se erguia acima do lago e segurava a concha entre as mãos. Por seu turno, as flores acabariam por murchar e cair e, quando os píncaros do Verão chegassem à villa, como acontecia agora entre nós, embora com
menor intensidade, as vagens rebentariam e espalhariam as sementes pelo chão. Raquel assistira a tudo isso, sentada no pequeno pátio, com Ambrose a seu lado.
- Eu adorava visitar Florença - disse Mary Pascoe, arregalando os olhos e sonhando só Deus sabia com que estranha
magnificência.
Raquel voltou-se para ela e replicou:
- Então, deve fazê-lo no próximo ano, e ficará comigo.
Aliás, o convite é extensivo a todos.
Estas palavras provocaram um coro de exclamações e perguntas, assim como expressões pesarosas. Tinha de partir tão
cedo? Quando voltaria a Inglaterra? Quais eram os seus planos?
- Ainda não sei quando partirei nem quando voltarei.
Costumo obedecer a impulsos repentinos e não a datas estipuladas com antecedência.
Vi o meu padrinho olhar dissimuladamente para mim, cofiando o bigode, e em seguida fitar as biqueiras dos sapatos.
Imaginei o que lhe cruzava o espírito. "Quando ela partir,
voltarás a ser o que eras." A tarde foi-se escoando serenamente.
Às quatro, sentámo-nos à mesa para jantar. Fiquei mais uma
vez à cabeceira e Raquel na extremidade oposta, com Nick
Kendall e o vigário de cada lado. Houve de novo conversas
animadas, risos e até poesia. Entretanto, conservava-me pouco
comunicativo, quase totalmente silencioso, sem perder de vista
o rosto da minha prima. Anteriormente, fizera-o com fascinação, por se tratar de uma situação inédita para mim. A sequência da troca de palavras, a mudança de tópico, a inclusão de
todas as pessoas presentes representava algo que nunca vira
uma
mulher pôr em prática, pelo que constituía autêntica magia.
Agora, achava-me familiarizado com todos os ardis. A abordagem de um tema, o murmúrio por detrás da mão ao vigário e a
risada de ambos, ao que o meu padrinho se inclinava para a
frente e perguntava "Que foi que disse, Mistress Asley?" e a
réplica pronta dela, com uma ponta de mordacidade, "O vigário
depois conta-lhe",, enquanto este último, corado e importante,
considerando-se um humorista, embarcava numa história que
a sua família não conhecia. Um pequeno jogo que ela apreciava, e éramos todos, com os nossos cândidos hábitos da Cornualha, fáceis de manipular e ludibriar.
Ponderei se, em Itália, a sua tarefa seria mais difícil, e
decidi que não. Simplesmente, a sua companhia naquele país adaptava-se mais ao seu temperamento. E com Rainaldi sempre
disponível para a ajudar, exprimindo-se no idioma que ela melhor dominava, a conversa desenrolava-se na Villa Sangalletti
com mais animação do que jamais acontecera na minha monótona mesa. Por vezes, Raquel gesticulava para clarificar a sua
maneira de falar rápida. Eu apercebera-me de que quando falava com Rainaldi em italiano ainda o fazia mais. Naquela tarde,
interrompeu Nick Kendall numa afirmação qualquer e tornou
a fazê-lo. Em seguida, enquanto aguardava a resposta, os cotovelos pousados levemente na mesa, conservara as mãos imóveis. Tinha a cabeça voltada para ele, como que para escutar
melhor, pelo que, do meu lugar à cabeceira da mesa, eu podia
observá-la de perfil. Assim, era sempre uma estranha. As feições irrepreensíveis gravadas numa moeda. Morena e reservada, uma estrangeira à entrada de um aposento, de xaile à cabeça e mão estendida. Mas de frente, quando sorria, nunca era
uma estranha. A Raquel que eu conhecia e amara.
O meu padrinho terminou a história. Seguiu-se uma pausa
e silêncio. Agora treinado para interpretar todos os
movimentos
dela, eu observava-lhe os olhos, que se fixaram em Mrs. Pascoe
e
depois em mim.
- Vamos para o jardim?
Levantámo-nos, e o vigário puxou do relógio de bolso,
suspirou e anunciou:
- Por muito que me custe, tenho de me despedir.
- Eu também - declarou o meu padrinho. - O meu irmão que vive em Luxilyan está doente e prometi ir vê-lo. Mas
a Louise pode ficar.
- Como somos só três, abandonemos as formalidades -- propôs Raquel. - Venham para o boudoir. - Sorrindo a
Louise, precedeu-nos em direcção à escada. - Você vai provar
a minha tisana. Mostrar-lhe-ei o método que emprego. Se o
seu pai alguma vez sofrer de insónias, é o remédio indicado.
Entrámos no boudoir e sentámo-nos, eu junto da janela,
enquanto Louise ocupava o banco e Raquel iniciava os preparativos da tisana.
- À maneira inglesa, se é que existe, do que duvido, usa-se cevada descascada - explicou a minha prima. - Eu trouxe ervas secas de Florença, para enriquecer o sabor. Se lhe
agradar, dar-lhe-ei algumas quando partir.
Louise levantou-se do banco e acercou-se.
- A Mary Pascoe garantiu-me que você sabe o nome de
todas as ervas e curou os caseiros e familiares desta
propriedade de numerosas indisposições. Antigamente, as pessoas sabiam mais dessas coisas do que agora. No entanto, algumas
das mais velhas ainda conseguem eliminar verrugas e certas
erupções cutâneas.
- Eu elimino mais do que verrugas - redarguiu Raquel,
rindo. - A utilização de ervas para fins medicinais é muito
antiga. Aprendi-a com a minha mãe. Obrigada, John - agradeceu ao rapaz, que entrara com uma chaleira de água a ferver.
- Em Florença, costumava preparar a tisana no meu quarto e
deixá-la repousar. Fica melhor assim. Depois, íamos para o pátio, ligávamos o repuxo, sentávamo-nos e, enquanto saboreávamos a tisana, a água jorrava para o lago. O Ambrose era capaz
de passar horas a observá-lo. - Verteu parte da água em ebulição no bule do chá. - Estou a pensar em trazer de lá, a
próxima
vez que visitar a Cornualha, uma estatueta igual à que tenho
no lago. Necessitarei de a procurar, pois não sei bem onde a
guardei, mas acabarei por encontrá-la. Poderemos colocá-la no
meio do jardim que está em vias de acabamento. Que achas?
- Virou-se para mim, sorridente, enquanto movia a tisana
com a mão esquerda.
- Aprovo - respondi secamente.
- O Philip carece de todo e qualquer entusiasmo - indicou a Louise. - Ou concorda com tudo o que digo ou é-lhe
indiferente. Às vezes, penso que os meus esforços aqui... o
novo arranjo das flores no jardim, o caminho empedrado... não
passam de mera perda de tempo. Creio que se contentaria com
vegetação rasteira e uma passagem lamacenta.
Passou a chávena a Louise, que a aceitou e voltou a sentar-se no banco. A seguir, encheu outra e aproximou-se da janela,
onde me encontrava, mas sacudi a cabeça.
- Não queres a tisana? Mas faz-te bem, sobretudo para
dormires descansado. É a primeira vez que a recusas.
- Bebe-a por mim - retruquei.
- A minha já está noutra chávena - volveu, com um encolher de ombros. - Gosto de a deixar repousar mais tempo.
Esta vai-se perder. É pena.
Debruçou-se no peitoril junto de mim e verteu a bebida.
Ao retroceder, pousou a mão no meu ombro e notei o odor
que tão bem conhecia. Não era perfume, mas a essência da sua
pessoa, a textura da pele.
- Não te sentes bem? - perguntou em voz baixa, para
que Louise não ouvisse.
Se tudo o que sabia e todos os sentimentos pudessem apagar-se, solicitar-lhe-ia que conservasse a mão em contacto com
o meu corpo. Se esquecesse a carta rasgada, as sementes fechadas à chave num compartimento da escrivaninha, o mal, a duplicidade... A mão moveu-se do ombro para o queixo, onde
permaneceu por instantes numa breve carícia, que, por se encontrar entre mim e Louise, passou despercebida.
- O meu amuado... - sussurrou.
Olhei acima da cabeça dela e vi o retrato de Ambrose na
parede do lado da lareira. Os seus olhos fixavam-se directa mente nos meus, na juventude e inocência. Não respondi e ela
afastou-se de mim para pousar a minha chávena vazia no tabuleiro.
- Que lhe parece? - perguntou a Louise.
- Creio que precisaria de algum tempo para me habituar
ao sabor.
- Acredito que não agrade a toda a gente. De qualquer
modo, é um excelente sedativo para os espíritos inquietos.
Esta noite, todos dormiremos bem. - Sorriu e bebeu com
lentidão.
Conversámos durante algum tempo - ou antes, quem
conversou foram elas -, até que Raquel se levantou, e propôs:
- Agora que arrefeceu um pouco, vamos dar uma volta
pelo jardim?
Dirigi uma mirada a Louise, que se conservou silenciosa, e
aleguei:
- Prometi mostrar à Louise o mapa antigo da propriedade
de Pelyn, que descobri o outro dia. Os limites estão assinalados com a maior nitidez e provam que a velha fortaleza da colina faz parte dela.
- Nesse caso, vou passear sozinha. - E encaminhou-se
para o quarto azul, enquanto cantarolava em surdina uma melodia qualquer.
- Não saias daqui - recomendei a Louise.
Desci ao escritório, pois na verdade existia um mapa antigo
que eu conservava entre os meus papéis, algures. Encontrei-o
numa pasta de cartolina e, quando cruzava o pátio para regressar ao primeiro piso, avistei Raquel, que saía para o
anunciado
passeio. Estava de cabeça descoberta, mas segurava o pára-sol
numa das mãos.
- Não me demoro - informou. - Vou só até ao terraço.
Quero ver se a estatueta ficaria bem no novo jardim.
- Tem cuidado - adverti.
- Com quê?
Deteve-se na minha frente, o pára-sol aberto pousado no
ombro. Usava um vestido preto, como habitualmente, com
rendas brancas em redor do pescoço. Não parecia muito diferente da primeira vez que a vira, dez meses atrás, com a diferença de que agora estávamos no Verão. O odor da relva aparada recentemente pairava na atmosfera. Uma borboleta esvoaçou sobre as nossas cabeças e perdeu-se entre as plantas. Os
pombos arrulhavam entre as árvores para além do relvado.
- Com o sol - especifiquei. - Ainda queima.
Soltou uma gargalhada e afastou-se. Vi-a cruzar o relvado e
subir os degraus de acesso ao caminho empedrado.
Voltei para dentro, subi a escada rapidamente e entrei no
boudoir, onde Louise me aguardava.
- Preciso da tua ajuda - articulei, ofegante. - Disponho
de pouco tempo.
- De que se trata? - perguntou, levantando-se, curiosa.
- Lembras-te da nossa conversa na igreja, há várias semanas? - Assentiu com uma inclinação de cabeça e prossegui:
- Tinhas razão e eu não, mas isso não interessa agora. Preciso
de confirmar as minhas suspeitas. Penso que ela tentou envenenar-me e fez o mesmo ao Ambrose.
Calei-me por um momento, enquanto Louise arregalava os
olhos, horrorizada.
- De momento não vem para o caso como o descobri,
mas a pista pode encontrar-se numa carta de Rainaldi - acrescentei. - Vou revistar aquela escrivaninha para a localizar.
Sei
que aprendeste um pouco de italiano com a professora de
francês e, com os nossos esforços conjugados, havemos de a
traduzir.
Acto contínuo, acerquei-me do móvel e iniciei as pesquisas, mais minuciosas que na véspera à luz da vela.
- Porque não preveniste o meu pai? - quis saber Louise.
- Se ela é culpada, podia acusá-la com maior veemência do
que tu.
- São precisas provas - lembrei-lhe.
Depararam-se-me papéis e sobrescritos cuidadosamente arrumados, facturas que talvez alarmassem o meu padrinho, se
as visse, mas careciam de significado para mim, na minha febre
para descobrir o que procurava. Voltei a tentar a sorte no
compartimento que continha o pequeno pacote. Desta vez,
não se achava fechado à chave. Abri-o e verifiquei que se encontrava vazio. O sobrescrito desaparecera. O facto poderia
constituir uma prova adicional, porém a minha tisana tinha sido deitada fora. Continuei a abrir compartimentos e gavetas,
enquanto Louise assistia de fronte enrugada.
- Devias ter esperado - persistiu. - Falavas com o meu
pai e ele tomava medidas legais. Assim, procedes como um ladrão vulgar.
- A vida e a morte não se compadecem com medidas legais - repliquei. - Alto! Que é isto?
Mostrei-lhe uma folha de papel, com nomes. Uns em inglês, outros em latim e outros, ainda, em italiano.
- Não tenho bem a certeza, mas creio que é uma lista de
plantas e ervas. A letra não está muito clara. - Examinou os
dizeres, enquanto eu prosseguia as pesquisas. - Sim, deve tratar-se das ervas e remédios dela. Mas há uma secção em inglês
que dá a impressão de descrever a reprodução de plantas. Espécies e mais espécies. Montes delas.
- Procura o laburno.
Obedeceu e, após um momento, anunciou sem entusiasmo:
- Sim, está aqui, mas não adianta nada.
Arranquei-lhe a folha das mãos e li a passagem que o indicador dela assinalava:
"Laburnum Cytisus. Oriundas do Sul da Europa, estas
plantas podem reproduzir-se rápida e abundantemente.
As sementes devem ser depositadas em canteiros ou onde as plantas ficarão definitivamente. Na Primavera, em
Março, por exemplo, podem transplantar-se para culturas do tipo viveiro, para conservação eficiente até se
transferirem para as culturas definitivas."
Seguia-se a indicação de onde Raquel obtivera os elementos: The Nezv Botanic Garden. Editado, para John Stockdale
and Company, por T. Bousley, Bolt Court, Fleet Street, 1812.
- Não diz nada sobre veneno - declarou Louise.
Continuei a revistar a escrivaninha, até que encontrei uma
carta do banco, em que reconheci a caligrafia de Mr. Couch.
Apressei-me a lê-la, sem o mínimo rebuço.
"Prezada Senhora: Agradecemos a devolução da colecção de jóias Ashley, as quais, em conformidade com as
suas instruções, por se ausentar do país dentro em breve,
permanecerão ao nosso cuidado até que o seu herdeiro,
Mr. Philip Ashley, possa tomar posse delas.
Atentamente,
Herbert Couch."
, Voltei a introduzi-la no sobrescrito, subitamente
angustia do. Apesar da influência de Rainaldi, um rebate de
consciência
levara-a àquele derradeiro acto.
, Não se me deparou mais nada de interesse, depois de esquadrinhar todos os recantos do móvel. Raquel destruíra a
carta ou tinha-a consigo. Perplexo e frustrado, voltei-me
para
Louise.
- Não está aqui.
I - Viste debaixo do mata-borrão?
Na verdade, pousara-o inconscientemente na cadeira ao
iniciar as pesquisas e não me preocupara mais com ele.
Examinei-o e, entre duas folhas brancas, avistei o sobrescrito
proveniente de Plymouth, que ainda continha a carta. Extraí-a
com
prontidão e entreguei-a a Louise.
- Vê se consegues decifrá-la.
Desdobrou o papel e restituiu-mo.
- Podes ler tu. Não está em italiano.
O texto não era muito longo. Rainaldi prescindira das formalidades, como eu previra, mas não da maneira que
imaginara. Indicava as onze horas da noite, sem qualquer
preâmbulo
clássico:
??Como se tornou mais inglesa do que italiana, escrevo-lhe no seu idioma adoptivo. Passa das onze e largamos
à meia-noite. Farei tudo o que me pede em Florença, e
talvez até mais, embora duvide de que você o mereça.
A villa estará preparada para a receber, assim como o
pessoal doméstico, quando finalmente resolver arrancar
daí. Aconselho-a a não retardar muito a partida. Nunca
tive grande confiança nos seus impulsos do coração e
emoções. Se não se decidir a deixar o rapaz, traga-o. No
entanto, advirto-a de que reprovo firmemente semelhante medida. Tenha cuidado consigo e creia-me sempre seu
dedicado amigo, Rainaldi."
Li as estranhas linhas segunda vez e passei-as a Louise.
- Prova o que suspeitavas?
- Não - murmurei, pensativamente.
Devia haver algo de errado no meio de tudo aquilo. Decerto faltava alguma coisa: um pós-escrito, numa folha suplementar, que ela ocultara noutro lugar. Tornei a examinar o mata-borrão, sem resultado. Apenas continha uma folha de papel
dobrado. Tratava-se de uma caricatura de Ambrose. As iniciais
a um canto eram indecifráveis, mas supus que fora traçada por
algum amigo ou artista italiano, pois continha o nome "Florença" e estava datada de Junho. Depreendi que fora executada
pouco antes da morte do meu primo e pude observar que envelhecera consideravelmente desde que o vira pela última vez.
Havia vincos profundos em torno dos olhos, que apresentavam uma expressão quase esgazeada, como se lhe pairasse uma
sombra sobre os ombros e receasse olhar para trás. Dir-se-ia
que pressentia a iminência de uma calamidade. Embora os
olhos pedissem devoção, também imploravam piedade. Abaixo
do desenho, ele próprio inscrevera uma citação em italiano:
"Para a Raquel. Non rammentare che le ore felici. Ambrose."
- Só há mais isto - comuniquei a Louise. - Que significam os dizeres?
Leu-os em voz alta, reflectiu por um momento e disse pausadamente:
- Recorda apenas as horas felizes. - Devolveu-mo, juntamente com a carta de Rainaldi. - Ela nunca to mostrou?
- Não.
Olhámo-nos por instantes, em silêncio, até que aventurou:
- Julgas possível teres-te enganado? Refiro-me ao veneno.
Como vês, não existe a mínima prova.
- Nem existirá nunca.
Guardei o desenho e a carta na escrivaninha.
- Nesse caso, não a podes condenar - salientou Louise.
- Tanto pode ser inocente como culpada. É-te impossível fazer seja o que for. Na primeira hipótese, se a acusares,
nunca
te perdoarás. A culpa recairá então em ti e não nela.
Abandonemos este aposento e vamos para a sala. Estou arrependida
de
ter colaborado nesta diligência insensata. - Virou-se para
mim, que olhava o relvado pela janela. - Vê-la?
- Não. Há quase meia hora que saiu.
Cruzou o boudoir e olhou-me com estranheza.
- Porque estás com essa voz tão tensa? Porque manténs o
olhar fixo nos degraus de acesso à passagem empedrada? Há
alguma novidade?
Desviei-a e encaminhei-me para a porta.
- Sabes onde fica a corda na plataforma atrás do campanário utilizada ao meio-dia para chamar o pessoal para o almoço? Vai lá e puxa-a com força.
- Para quê? - perguntou, intrigada.
- Porque é domingo, toda a gente está por aí dispersa e
eu talvez precise de ajuda.
- Ajuda? - repetiu, cada vez mais perplexa.
- Alguém pode ter sofrido um acidente. A Raquel.
Olhou-me horrorizada.
- Que fizeste? - balbuciou, apreensiva.
Dei meia volta e abandonei o aposento.
Desci a escada apressadamente e enveredei pelo caminho
empedrado, sem que vislumbrasse o menor sinal de Raquel.
Os dois cães encontravam-se junto de um monte de pedras
sobranceiro ao abismo de pelo menos duas dezenas de metros.
Um deles, o mais jovem, aproximou-se de mim. O outro permaneceu no mesmo lugar. Avistei as pegadas dela no solo
brando e o pára-sol, ainda aberto, a um lado. De súbito, o
sino do campanário começou a dobrar prolongadamente, para
se transmitir sem dúvida a longa distância, em virtude de se
tratar de uma tarde calma e silenciosa.
Acerquei-me da beira do precipício, ao fundo do qual o
novo jardim atingira a fase de acabamento. Parte do esqueleto
da ponte ficara suspensa, grotesca e horrível, como uma escada
oscilante. O resto tombara nas profundezas.
Desci até onde ela jazia, entre os destroços de madeira e
pedras soltas. Peguei-lhe nas mãos e conservei-as entre as minhas. Notei o frio glacial que as envolvia.
- Raquel - murmurei, ansioso. - Raquel...
Os cães começaram a latir, sem todavia conseguirem abafar
o som do sino. Ela abriu os olhos e fixou-os em mim. Primeiro com uma expressão de dor, como me pareceu. Depois, de
espanto. Por último, pensei que me reconhecia. Mas equivocava-me mais uma vez. Chamou-me Ambrose. Continuei a segurar-lhe as mãos, até que expirou.
Antigamente, costumavam enforcar homens em Four Turnings.
Mas agora já não.
O Autor e a Obra
Daphne du Maurier, segunda filha do famoso actor e empresário teatral Sir Gerald du Maurier e neta de George du
Maurier, apreciado artista bonecreiro, nasceu em Londres, a 13
de Maio de 1907. Iniciou a sua carreira com artigos de crítica
literária e pequenas narrativas, tendo vindo a lume, em 1931,
o
seu primeiro romance, The Loving Spirit, mas foi com A Pousada da Jamaica (1936) que alcançou o sucesso junto do público. Mais tarde, em 1938, escreveu Rebeca, o romance que a
consagrou, traduzido em mais de vinte línguas e adaptado ao
cinema por Alfred Hitchcok. Aliás, muitos dos seus romances,
perpassados por ambientes de novela gótica, tiveram versões
cinematográficas: A Prima Raquel (1951), A Pousada da Jamaica, Os Pássaros, Aquele Inverno em Veneza.
Entre os seus livros mais conhecidos, salientam-se ainda
A Enseada do Francês (1941), O Voo do Falcão (1965) e A Casa na Praia (1969).
Daphne du Maurier escreveu também peças de teatro, pequenas novelas, uma biografia de Branwell Bronté e dois estudos interessantes da sua família, Gerald (1934), e The Du
Mauriers (1937). Morreu em Par, na Cornualha, a 19 de Abril
de 1989.
(fim)
TÍTULO: Mary Anne
AUTOR: DU MAURIER, Daphne
LOCAL DA PUBLICAÇÃO: Lisboa
EDITORA: Livros do Brasil
Data da publicação: Fevereiro de 1997
GÉNERO: Romance
CLASSIFICAÇÃO: Inglaterra – Século XX - Ficção
COLECÇÃO: Dois mundos n.º 236
DIGITALIZADO E CORRIGIDO POR:
Aventino de Jesus Teixeira Gonçalves
Outubro de 2004
Badana da capa:
Mary Anne
por
DAPHNE DU MAURIER
Tendo conhecido a força
opressora da pobreza, Mary
Anne decidiu libertar-se.
Como possuía beleza, inteligência
e ambição, soube
aproveitar-se da resplandecente
decadência do período
da Regência em Londres e
escolheu a única via capaz
de conduzir uma rapariga da
classe baixa londrina ao
topo - ser amante do Duque
de York.
O enorme defeito de Mary
Anne era o seu desmedido
amor ao dinheiro e aos
homens que o gastavam...
Como os seus encantos não
eram suficientemente lucrativos,
em breve passou a
vender comissões militares,
dando origem a um escândalo
que abalou todo o país,
que levou o duque a responder
perante o Parlamento e
que a fez correr o risco de
ficar sem nada.
Baseado na história verídica
da trisavô de Daphne
du Maurier, este romance
tem sexo, escândalos da
alta sociedade, a vitalidade
e a corrupção das ruas de
Londres... além de uma
heroína fascinante, corrupta
e, sobretudo, credível.
MARY ANNE
Tradução de
MARIA IRENE LAUREANO
*
Capa de
A. PEDRO
*
Título da edição original
MARY ANNE
*
Copyright © Daphne du Maurier, 1954
*
Reservados todos os direitos pela legislação em vigor
*
Lisboa - Fevereiro de 1997
*
VENDA INTERDITA
NA REPÚBLICA FEDERATIVA
DO BRASIL
COLECÇÃO DOIS MUNDOS
DAPHNE DU MAURIER
MARY ANNE
EDIÇÃO LIVROS DO BRASIL LISBOA
Rua dos Caetanos, 22
A
Mary Anne Clarke
minha trisavô
falecida em Bolonha, a 21 de Junho de 1852
e a
Gertrude Lawrence
que a deveria ter protagonizado no palco
falecida em Nova Iorque a 6 de Setembro de 1952
Em memória de ambas
AGRADECIMENTOS
Os meus agradecimentos a Sir Walter Peacock pelo
fornecimento de apontamentos sobre Mary Anne Clarke,
os quais me forneceram informações valiosas; a Oriel
Malet, pelas longas horas passadas no British Museum
e Public Record Office; e sobretudo, a Derek Pepys
Whiteley, pela sua incansável pesquisa em livros, jornais
e documentos da época, assim como a sua enorme ajuda
nas obras a serem consultadas.
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1
ANOS mais tarde, após o seu desaparecimento,
quando já não fazia parte das suas vidas, do que
mais se lembravam, era do seu sorriso. O tom
de pele e feições eram indistintos, esfumados na memória.
Os olhos eram, sem dúvida, azuis mas também
poderiam ter sido verdes ou cinzentos. E o cabelo, penteado
à maneira grega ou apanhado em cachos no topo
da cabeça, poderia ter sido castanho ou castanho-claro.
O nariz, certamente, era tudo menos grego, pois era arrebitado;
e o verdadeiro formato da boca nunca parecera
importante - nem então nem hoje.
A sua verdadeira beleza residia no sorriso. Começava
no canto esquerdo da boca e pairava momentaneamente,
troçando indiscriminadamente daqueles de quem
mais gostava - incluindo a sua própria família - e
daqueles que desprezava. E enquanto esperavam constrangidamente
uma explosão mordaz ou uma atitude de
desprezo, o sorriso passava para os olhos, transfigurando
o rosto e iluminando-o de alegria. Aliviados, desfrutavam
do calor, partilhavam a loucura e não havia pose intelectual
na gargalhada que se seguia, irreverente, barulhenta,
popular, saída das entranhas.
Era isto que recordavam anos mais tarde. O resto
fora esquecido. Esquecidas foram as mentiras, as fraudes
e os repentinos acessos de mau génio, assim como os
excessos incontroláveis, a generosidade despropositada
e a língua viperina. Só restava o calor e o amor à vida.
Recordaram-na, um a um, sentados sozinhos em
momentos diferentes, figuras sombrias e indistintas
11
umas das outras. E não havia amizade entre eles, apesar
de se terem cruzado em tempos; o elo que os unia era
involuntário.
O mais estranho era que as três pessoas que ela
mais amara haviam morrido no espaço de três anos,
enquanto a quarta não lhes sobreviveu muito mais
tempo; e cada uma delas se lembrou daquele sorriso na
hora da morte. Ouviram aquele riso forte e cristalino,
nada fantasmagórico, ecoar algures nas suas cabeças;
e a memória, como uma hemorragia repentina, inundou-lhes
a mente.
O seu irmão, Charles Thompson, fora o primeiro a
partir, porque lhe faltara sempre a paciência, já desde
miúdo, quando lhe estendia as mãos, dizendo:
- Leva-me contigo, não me deixes ficar!
Desde então, entregara-se para sempre ao seu
cuidado, de tal modo que, nem então nem quando homem,
se libertou dela ou ela dele, o que só lhes causou infelicidade.
Tudo terminou para ele depois de uma rixa de
taberna, onde estivera a falar de mais sobre si próprio,
como era seu costume - sobre os velhos tempos, o
mais promissor comandante de companhia no regimento
a ser apontado para promoção. Voltou outra vez a velha
história; a sua fraca saúde, a malevolência do seu coronel,
a animosidade dos seus camaradas oficiais, a manifesta
injustiça do tribunal militar, e - para cúmulo a
mesquinhez do comandante supremo, desgraçando o
irmão para se vingar da irmã. Olhou à sua volta, procurando
compaixão, mas ninguém queria saber dele,
nem sequer o ouviam, e de qualquer modo tudo tinha
acontecido há muito tempo, que interessava isso agora?
Todos lhe voltaram as costas e começaram a encher os
copos. Charles Thompson, batendo com o seu no tampo
da mesa e corando de raiva, disse:
- Ouçam-me, raios vos partam! Eu posso contar-vos
coisas acerca da família real que vocês nem imaginam.
Se soubessem, atirariam toda a Casa de Brunswick
para lá do canal.
Então, alguém ali, que se lembrava do que acontecera
dezasseis anos antes, começou a sussurrar suavemente
uns versos obscenos que tinham sido cantados
naquele tempo, nas ruas de Londres, depreciando a irmã
12
de Charles. O homem não pretendia ofendê-lo, apenas
fazer-se engraçado. Charles Thompson pensou o contrário.
Levantou-se e esmurrou-o na boca. A mesa virou
de pantanas. Charles esmurrou mais um e tudo se transformou
numa grande confusão, barulho e blasfémias, até
que ele se viu no meio da rua, com sangue a escorrer
pela cara abaixo e com os ouvidos cheios dos risos de
desprezo dos seus ex-companheiros.
A luz brilhava e a cúpula de St. Pauls recortava-se
nítida no céu e, sem se aperceber, um há muito perdido
sentido de orientação levou-o através do dédalo de ruas
até à casa da sua infância, cuja existência ele teria
negado aos seus amigos da taberna, ou, como a sua
irmã fazia frequentemente, teria inventado para ela uma
nova localização, Oxfordshire, talvez, ou até a Escócia.
Mas ali estava ela, escura e entalada entre as suas congéneres,
ao cimo da Bowling Inn Alley, sem sequer uma
nesga de luar para iluminar aquelas janelas onde se
tinham: ajoelhado juntos, em crianças, planeando o
futuro. Ou antes, ela planeava-o e ele ouvia. Pessoas
ainda lá viviam. Ouviu um choro de criança e uma voz
de mulher, ténue e rabugenta, responder ao choro, e
então a porta daquela casa escura abriu-se e alguém
saiu, atirando um balde de água suja sobre as pedras
da rua, enquanto vociferava para trás do ombro.
Charles Thompson virou costas e os fantasmas
seguiram-no através das ruas em direcção ao rio, onde
a maré corria rápida e turbulenta na Pool of London
(Estuário do Tamisa). Apercebeu-se então que não tinha
dinheiro nem: futuro, que ela já não estava ao seu lado,
e que já não lhe limparia o sangue que agora lhe escorria
para a boca.
Muito tempo depois, algumas crianças que chapinhavam
na lama encontraram-no.
Foi William Dowler, fiel a Mary Anne durante vinte
e cinco anos, que identificou o corpo de Charles Thompson.
Nessa altura já um homem doente, veio expressamente
de Brighton; a Londres para o fazer, após ter recebido
uma carta dos advogados de Mary Anne, narrando-lhe
a descoberta feita à beira-rio. Alguns detalhes correspondiam
à descrição do irmão desaparecido, e Dowler,
na sua qualidade de administrador dos bens de Mary
13
Anne, mentalizou-se para essa tarefa. Nunca simpatizara
com Thompson, e quando viu tudo o que dele restava
no necrotério, pensou como a vida poderia ter sido diferente
para Mary Anne, se o irmão tivesse morrido afogado
dezassete anos atrás, quando da sua expulsão
do exército. Diferente para Dowler, também. De coração
despedaçado, Mary Anne ter-se-ia apoiado nele e
ele tê-la-ia levado para longe para tudo esquecer, em
vez de a ver vingar-se, movida pela amargura e pela ira.
Ali jazia ele, o causador de tantos problemas. O seu
"querido irmão", como ela costumava chamá-lo, o seu
" menino adorado".
De regresso a Brighton, perguntava-se se a antipatia
que sentira por Thompson não fora motivada por ciúmes.
Aceitara os inúmeros amigos de Mary Anne, insignificantes
- bajuladores a maioria deles, cortejando-a apenas
por interesse. Fechara os olhos, no entanto, a um
ou dois mais íntimos. Quanto ao duque, após o primeiro
choque, encarara aquela relação como uma necessidade,
uma questão de negócios. Nada de que ele dissesse a
demoveria.
- Disse-te que era ambiciosa, dissera-lhe, e a
seta atingira o alvo. - Ainda vou precisar de ti na
sombra.
E na sombra permanecera. Fazia de criado quando
ela o chamava. Dava-lhe conselhos que ela não acatava.
Pagava a suas contas quando o duque se esquecia de o
fazer. Até foi buscar os seus diamantes ao penhorista.
Fora-lhe imposta a degradação final de acompanhar os
seus filhos de regresso à escola, enquanto ela acompanhava
sua alteza real a Weybrigde.
Porque o fizera ele? O que lucrara com tudo aquilo?
Fixando o mar que rebentava suavemente no areal
de Brighton, William Dowler relembrou as semanas que
aí haviam passado antes da entrada do duque em cena.
É claro que já então ela procurava vítimas - Cripplegate
Barrymore e os Fouir-ira-Handi gallants (garbosos condutores
de carruagens tiradas a quatro cavalos) - mas ele
estava demasiado apaixonado para prestar atenção ou
preocupar-se.
Os tempos mais felizes haviam sido em Hampstead
- ela necessitara dele então, precipitando-se na sua
14
direcção impulsivamente ao sair do quarto do seu filho
doente.
Mais tarde, quando o duque a deixara, precisara
dele mais ainda. Hampstead revisitada acreditara nessa
altura que ela não pensava em mais ninguém senão nele,
mas devido ao seu espírito irrequieto, não podia ter a
certeza.
Finalmente, teria sido a emoção que a fez precipitar-se
para ele naquela noite no Hotel Reid, apenas uma
hora após a sua chegada de Lisboa, sujo da viagem, e
exausto? Ela atirara uma capa sobre os ombros - não
houve tentativa de disfarce:
- Estiveste longe demasiado tempo, disse ela.
Precisei tanto da tua ajuda! - Ou fora a sua visita primorosamente
planeada para o apanhar desprevenido,
sabendo da sua fraqueza por ela, com a certeza intuitiva
que ele seria uma testemunha extremamente valiosa,
perante a barra do tribunal da Câmara dos Comuns?
Não havia resposta para essa ou quaisquer outras
perguntas. Não tinha importância, o sorriso perdurava.
William Dowler virou as costas ao mar e permaneceu
imóvel um momento no meio dos outros passeantes, o
chapéu na mão, e, como um eco na memória, uma carruagem
passou, transportando um forte cavalheiro idoso
e uma rapariguinha.
Era o duque de York e a sua sobrinha, a princesa
Vitória. O duque envelhecera ultimamente - parecia
muito mais velho que os seus sessenta e dois anos.
O mesmo ar corado, o mesmo rígido aprumo militar,
a sua mão meio erguida saudando as pessoas que passavam.
Então, Dowler viu-o curvar-se e sorrir para a
criança, que o olhava rindo, e pela primeira vez na sua
vida, sentiu uma ponta de piedade pelo homem que em
tempos invejara.
Havia algo de patético na figura daquele ancião
sentado naquela carruagem acompanhado da criança, e
Dowler perguntou a si mesmo se ele se sentiria muito
só. Os mexeriqueiros diziam que não conseguira sobrepor-se
à morte do seu último amor, a duquesa de Rutland,
mas eles diziam fosse o que fosse, conforme Dowler
bem sabia. Havia maior verosimilhança de verdade
no rumor de que a «gota» o levaria dentro de poucos
15
meses. E quando isso acontecesse, os jornais ordinários
iriam desenterrar o velho escândalo da investigação e,
lado a lado, com a notícia destacada do óbito a preto,
Dowler veria o nome dela novamente escarrapachado.
Foi-lhe poupada esta provação ao morrer quatro
meses apenas antes do duque, e foi este que leu a notícia
do óbito de Dowler, perdida nas páginas de um velho
número do Gentlemans Magazine. Estava sentado na
biblioteca da casa de Arlington Street, envolvido num
roupão cinzento, as suas pernas inchadas e ligadas sobre
uma cadeira à sua frente. Devia ter adormecido - cansava-se
já muito facilmente, apesar de nem ao seu secretário,
Herbert Taylor, falar acerca disso; mas toda a gente
dizia que ele estava muito doente e necessitado de descanso,
desde o seu irmão, o rei, até aos inúteis e desnorteados
médicos que o visitavam todas as manhãs.
Dowler... Que dizia a revista? «Faleceu em Brighton,
a 7 de Setembro, William Dowler, Esq., (Ilustríssimo
Senhor), ex-comissário das Forças de Sua Majestade.»
E o duque já não estava sentado, coxo e inútil, na casa
de Rutland, em Arlington Street, mas de pé no hall da
casa de Loucester Place, tirando o talim (cinturão da
espada), atirando-o a Ludovick e galgando as escadas de
três em três degraus, enquanto ela o chamava do andar
de cima.
- Senhor, estou à vossa espera há horas! O
pequeno ritual cerimonioso não significava coisa
alguma - era só para os ouvidos dos criados - e
enquanto ela lhe fazia uma vénia absurda (adorava fazer
isto), não importando como estivesse vestida, desde o
vestido de baile ao robe de chambre, ele, com a sua
bota, pontapeou a porta, fechando-a depois com força,
e no momento seguinte ela estava nos seus braços,
desabotoando o botão de cima da túnica dele.
- O que te fez demorar desta vez? Os Horse Guards
ou St. James Palace?
- Ambos, minha querida. Tenta lembrar-te que estamos
em guerra.
- Eu nunca o esqueço, nem por um instante. Despachar-te-ias
mais depressa se tivesses mantido Clinton
como teu M. S. (ordenança), em vez de Gordon.
- Porque não tratas tu dos meus assuntos?
16
- Tenho feito isso, na sombra, nos últimos seis
meses. Diz ao teu alfaiate que ele faz as casas aos botões
demasiado pequenas, parti a minha unha.
Dowler... William Dower... Era esse o tal. Arranjara-lhe
um lugar no Comissariado: Armazéns e Aprovisionamento,
Comando de Leste. Até se lembrava da
data, Junho ou Julho de 1805.
-Bill Dowler é um velho amigo, senhor - dissera
ela. - Se ele obtiver este cargo, mostrar-me-á a sua
gratidão.
Na altura, o duque estava meio adormecido - o
último cálice de porto provocara-o. Nunca falhava.
A cabeça dela no seu ombro, também.
- Como demonstrará ele essa gratidão?
- Fazendo tudo o que eu lhe disser. Podia pagar,
por exemplo, a conta do talho - que está em atraso
há três meses. Foi por essa razão que tiveste hoje
peixe ao jantar.
Meu Deus! Como o fantasma do seu sorriso surgia
do passado para o perseguir. Aqui, repentinamente,
em Arlington Street, onde não existiam memórias dela.
Pensou que elas estavam todas há muito sepultadas,
escondidas na poeira e teias de aranha da casa vazia
de Gloucester Place.
Durante a investigação, descobrira-se que Dowler
lhe dera mil libras esterlinas pela nomeação, e que fora
seu amante de vez em quando, durante anos. Assim
se disse. Provavelmente era tudo mentira. Que importava
isso, agora? O caos que ela provocara na sua vida
fora só temporário. Daí para a frente, levara uma vida
impecável. E nunca mais houvera uma mulher que lhe
chegasse aos calcanhares, e Deus sabe que tudo fizera
para a encontrar. A todas lhes faltava aquela indefinível
qualidade que haviam tornado aqueles breves anos em
Gloucester Place tão memoráveis. Costumava regressar
lá, ao anoitecer, depois de um dia interminável no seu
quartel-general, e ela fazia-o esquecer todas as frustrações,
obstruções e aborrecimentos que inevitavelmente
lhe calhavam como comandante-chefe de um exército,
cinquenta vezes mais pequeno do que o do inimigo.
(Recebera só injúrias em vez de louvores, e não fora
fácil lidar com uma série de tolos e, ao mesmo tempo,
2 - Mary Anne
17
lutar para pôr em ordem as defesas do país, enquanto
o inimigo se agachava no outro lado do canal, esperando
o momento certo para a invasão). Mas, mal entrava
naquela casa, a irritação desaparecia e podia relaxar-se.
Ela alimentava-o tão bem. Sabia da sua aversão
a grandes jantares. Tudo sempre na medida exacta.
E depois ter a possibilidade de se estender ao comprido
diante de uma boa lareira, bebendo o seu brande,
enquanto ela o fazia rir com tontarias. Ainda se lembrava
do odor característico da sala, a ligeira desordem
por toda a parte, transformando-a num lar, os seus tímidos
esboços de pintura em cima da mesa - estava sempre
a ter lições de qualquer coisa - a harpa ao canto
da sala, a boneca ridícula que ela trouxera de um qualquer
baile de máscaras, pendurada no lustre, para onde
a atirara.
Porque acabara? Fora bom de mais para durar, ou
fora a intromissão no caso daquele metediço do Adam,
lançando a discórdia? Ou o beberrão do marido com as
suas ameaças? Esse, deve ter acabado na sarjeta. Morto,
provavelmente. Toda a gente estava morta, ou a morrer.
Ele próprio estava a morrer. Puxou a campainha, chamando
o seu criado pessoal, Batchelor.
-Que barulho é este que estou a ouvir lá fora,
na rua?
- Estão a espalhar palha em Piccadilly, Alteza, para
que não sejais importunado pelo som do tráfego. Ordens
de Sir Herbert Taylor.
- Que disparate. Diz-lhes para pararem. Eu gosto
do barulho do tráfego. Detesto o silêncio.
Existira uma caserna nas traseiras de Gloucester
Place. Do quarto de vestir dele, costumavam os dois
assistir ao desfilar da guarda real. Havia sempre vida
e risos naquela casa, sempre a acontecer qualquer coisa
- cantando enquanto se penteava; gritando aos filhos
que podiam correr e brincar no andar de cima quando
a visitavam; insultando a criada quando ela lhe dava
o par de sapatos errado. Nunca houvera silêncio, como
este agora, morto.
Aquele velho idiota do Taylor, mandando colocar
palha em Piccadilly...
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O marido, a quem o duque de York chamara beberrão,
preferia o silêncio ao barulho do tráfego. Era mais
suave para o traseiro cair na urze do que na sarjeta.
Não que ele caísse frequentemente. Sutherland, o fazendeiro,
em casa de quem ele se hospedava e que tomava
tão bem conta dele, tinha cuidado com isso. Mantinha
o uísque fechado à chave. Mas Joseph Clarke tinha um
stock privado escondido sob o soalho do seu quarto, e
de vez em quando, se a melancolia o invadia e
os invernos em Caithness eram muito longos - fazia
o que ele chamava uma pequena autocelebração, e
quando já estava bem aviado, mas ainda nas primeiras
rodadas, solenemente bebia à saúde de sua alteza real,
comandante-chefe.
- Não é qualquer um - dizia ele em voz alta, sem
ninguém para o ouvir - que é transformado em cornudo
por um príncipe de sangue real.
Infelizmente, essa disposição não durava muito.
Seguiu-se a autocompaixão. Poderia ter alcançado tanto,
não fora a sorte estar contra ele. Tivera pouca sorte do
princípio ao fim. Sabia tão bem o que poderia ter feito,
mas nunca tivera oportunidade de o mostrar - nem
conseguira começar, acontecera sempre algo para o
impedir. Se ao menos alguém pusesse um martelo e
um escopro nas suas mãos agora, e o colocasse perante
um bloco de granito de 1,83 m de altura, ou talvez de
1,85 m, a altura do comandante-chefe, teria... teria criado
a obra-prima que ela sempre lhe pedira. Ou então, estoirar
com a pedra e acabar com o uísque.
De qualquer modo, havia demasiado granito em
Caithness. Havia granito por todo o condado. Fora por
isso que, antes do mais, fora enviado para lá.
- Fizeram-te pedreiro, não é verdade? Portanto continua.
Pedreiro? Não! Artista, escultor, um fazedor de
sonhos. Uma combinação dos três, após uma garrafa de
uísque.
E no entanto, ela tivera a coragem de, na Câmara
dos Comuns, declarar ao promotor-público e a toda a
multidão aí reunida para assistir, que ele era uma nulidade.
-O seu marido está vivo?
19
- Não sei se está vivo ou morto. Ele não me é
nada.
- Ele tinha algum negócio?
-Ele não era nada... Apenas um homem.
E todos se riram quando ela disse aquilo. Fora publicado
no jornal. Ele comprara-o e lera-o. Todos se tinham
rido. Apenas um homem.
Esqueceu o insulto ao terceiro copo de uísque.
Abrindo a janela de par em par, de modo que a neblina
escocesa enchesse o quarto frio, deitou-se em cima da
cama e fixou o tecto. E em vez de cabeças de santos
que pudesse ter esculpido, remotas, austeras, com olhos
cegos fixando o céu, viu o sorriso e ouviu o riso dela,
estendendo-lhe a mão, de manhã cedo, no pequeno adro
da igreja de St. Pane rãs.
- Aconteceu uma coisa desagradável - dissera ele.
- Esqueci-me da licença.
- Tenho-a eu -, respondera ela. - E tem que haver
uma segunda testemunha. Também pensei nisso.
- Quem é ela?
-O coveiro da igreja de Pancras. (Antigamente, em
Inglaterra, o adro da igreja era usado como cemitério).-
Dei-lhe dois xelins pelo seu trabalho. Depressa, estão à
nossa espera.
Estava tão excitada que assinou o registo antes dele.
Era o dia do seu décimo sexto aniversário.
Apenas um homem. No entanto, também teve direito
ao seu óbito publicado. Não no Times, nem no Gentlemans
Magazine, mas sim no John OGroats Journal.
«Faleceu a 9 de Fevereiro de 1836, em casa do
Sr. Sutherland, de Bylbster, paróquia de Wattin, neste
Condado, o Sr. J. Clarke, geralmente conhecido como
o marido da notória Mary Anne Clarke, notável por ter
desempenhado um papel tão conspícuo no julgamento
de Sua Alteza Real, o falecido Duque de York. Estava
há algum tempo viciado em hábitos imoderados que,
juntamente com o severo infortúnio doméstico a que
fora sujeito, lhe afectaram visivelmente a mente. Diz-se
que vários livros, onde o nome de Mary Anne Clarke
estava escrito, foram encontrados na sua posse.»
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Assim se quebrou o último elo, levado suavemente
para a eternidade numa névoa de álcool e nada restou
de qualquer deles, senão maços de cartas, folhetos ofensivos
e velhas notícias de jornais, sujas de pó. Mas a
dona do sorriso troçou deles até ao fim. Não era, nem
um fantasma, nem uma memória, nem um produto da
imaginação visto num sonho há muito desaparecido,
quebrando os corações daqueles que a tinham amado
demasiado insensatamente. Aos setenta e seis anos,
sentada à janela da sua casa de Bolonha, Mary Anne
olhava para lá do Canal, para uma Inglaterra que a
esquecera totalmente. A sua filha preferida estava morta,
a segunda vivia em Londres e os netos que tinha criado
quando bebés, tinham vergonha dela e nunca lhe escreviam.
O filho que adorava tinha a sua própria vida. Os
homens e mulheres que conhecera tinham caído no
esquecimento.
Os sonhos eram tudo o que lhe restava.
CAPÍTULO 2
A primeira recordação da infância de Mary Anne,
foi o odor da tinta de impressão. O seu padrasto,
Bob Farquhar, costumava regressar com a roupa
impregnada dessa tinta, e então a sua mãe e ele tinham
um trabalhão para a lavar. Por mais que esfregassem,
as nódoas permaneciam e os punhos das camisas nunca
pareciam limpos. Ele próprio, por causa disso, nunca
tinha um ar asseado, e a mãe de Mary Anne, que era
impecável e muito esmerada, resmungava constantemente
com ele. Sentava-se à mesa para jantar com as
mãos manchadas de tinta - tinta essa que se entranhava
nas unhas, tornando-as pretas e Mary Anne, rápida e
atenta, via a expressão atormentada no rosto da mãe,
o rosto suave e resignado de uma mártir; e como estimava
o seu padrasto, e não gostava de o ver rebaixado,
beliscava um dos seus irmãos sob a mesa, para o fazer
chorar, desviando assim a atenção da mãe.
- Cala essa boca - dizia Bob Farquhar. - Nem
sequer me consigo ouvir a comer.
Entornava ruidosamente a comida na boca, enquanto
tirava da algibeira com a mão esquerda um coto de
lápis e uma cópia impressa ainda molhada tresandando
ao prelo, de modo que à medida que comia, corrigia,
o cheiro da tinta confundindo-se com o vapor do caldo
de carne.
Foi assim que Mary Anne aprendeu a ler. Ficava
fascinada pelas palavras, pela forma das letras em
espiral e pela maneira como algumas delas se repetiam.
Tinham, também, sexos diferentes. Os as, os os
e os
22
us eram femininos; os firmes gs, bs e qs eram todos
masculinos e pareciam depender das primeiras.
- O que é que isso quer dizer? Diga letra a letra! dizia
ela a Bob Farquhar, e este, calmo, de boa índole,
punha o braço em redor da criança e mostrava-lhe como
as letras formavam palavras e o que se podia fazer com
elas. Foi este o único material de leitura que passou
pelas mãos de Mary Anne, pois os livros e bens de sua
mãe tinham há muito sido vendidos para complementar
o pequeno salário que Bob Farquhar recebia do Sr. Hughes,
proprietário da tipografia onde trabalhava; e onde
alguns escrevinhadores anónimos faziam uma quantidade
enorme de panfletos a meio-dinheiro cada.
Deste modo, numa idade em que a maioria das
crianças estava a aprender o catecismo, ou soletrava
provérbios, Mary Anne sentava-se na soleira da porta
da acanhada casa na Bowling Inn Alley, lendo com toda
a atenção os ataques ao governo, explosões de raiva
acerca da política externa, aclamações histéricas e igualmente
histéricas denúncias dos líderes populares, tudo
numa mistura de sordidez, escândalos e alusões indirectas.
- Toma conta dos rapazes, Mary Anne e lava-me a
louça - dizia a mãe, cansada e rabugenta, e a pequenita,
pondo de lado as sebentas folhas de papel impresso
que o padrasto deixara para trás, levantava-se da soleira
da porta para lavar a louça do pequeno-almoço ou de
qualquer outra refeição que a mãe, novamente grávida,
não conseguia enfrentar; enquanto Charley, o seu próprio
irmão, se servia de compota e os seus dois meio-irmãos,
George e Eddy, gatinhavam pelo chão sob os
seus pés.
- Portem-se bem, que eu levo-os comigo à rua ordenava
ela suavemente, de modo que a sua mãe, no
quarto do andar de cima não a ouvisse. Mais tarde,
depois da louça lavada, a mesa posta para a refeição
seguinte, e a mãe aconchegada na cama para uma hora
de descanso, Mary Anne pegava num dos rapazes, escarranchava-o
na anca, dava a mão ao outro, enquanto o
terceiro seguia atrás agarrado à sua saia. E lá se iam,
para fora da escura ruela onde o sol nunca chegava,
através do labirinto de pequenos pátios pegados uns
23
aos outros, até Chancery Lane e descendo até Fleet
Street.
Era um outro mundo. Mundo esse que ela amava,
cheio de cor, sons e odores, estes últimos tão diferentes
dos da ruela. Aqui as pessoas acotovelavam-se
nos passeios, o tráfego fluía ruidosamente em direcção
a Ludígate Hill e St. Pauls, os carroceiros estalando os
seus chicotes, gritando e puxando os cavalos para a
berma da estrada enquanto uma carruagem passava,
salpicando tudo e todos de lama. Um cavalheiro apeara-se
para visitar uma livraria, enquanto uma mulher vendendo
alfazema lhe coloca um ramo debaixo do nariz, e do lado
oposto, um carrinho de mão virado, espalhando maçãs
e laranjas, atirando para a valeta um músico cego e um
velhote que consertava uma cadeira.
Os sons e os cheiros de Londres chegavam-lhe às
lufadas, fazendo-a sentir-se parte daquele mundo, apanhada
no movimento e na azáfama, a excitação contínua
que certamente deve conduzir a qualquer coisa, a algum
sítio - não apenas até à escadaria de St. Pauls, onde
os rapazes podiam brincar em segurança, longe da confusão,
enquanto ela observava o movimento.
A aventura estava ali, ao alcance da mão. Apanhar
um ramalhete deixado cair por uma senhora, oferecendo-o
de seguida a um cavalheiro idoso, que lhe fazia uma
festa na cabeça e lhe dava dois dinheiros. Aventura era
olhar fixamente as montras dos penhoristas, andar em
carroções sob o sorriso condescendente dos carroceiros,
brigar com os miúdos marearias, pairar no exterior das
livrarias e enquanto o livreiro estava no interior, arrancar
as páginas do meio de um livro, para ler em casa, pois
os fregueses nunca olhavam senão para o princípio e o
fim do livro.
Eram estas as coisas de que ela mais gostava, sem
saber porquê. Por isso, manteve-as em segredo, pois
se a sua mãe soubesse, teria desaparecido e ter-lhe-ia
ralhado.
As ruas eram mentor e recreio, professor e companheiro.
Garotos roubavam carteiras, esmolas eram
dadas aos pedintes, mercadorias eram transaccionadas,
ninharias eram vendidas, homens riam, praguejavam,
mulheres choramingavam, sorriam, e crianças morriam
debaixo dos rodados. Alguns homens e mulheres usavam
24
roupas finas, outros, andrajos. Os primeiros comiam
bem, os segundos passavam fome. O modo de evitar os
andrajos e a fome era observar, esperar, apanhar a
moeda caída no passeio antes de qualquer outra pessoa,
guardá-la bem, ter asas nos pés, escondê-la rapidamente,
sorrir no momento certo, esconder-se logo a seguir e
olhar pelos seus. O essencial era não crescer como a
sua mãe, que era fraca, pouco resistente, e que se sentia
perdida neste mundo de Londres que lhe era estranho, e
cuja única consolação era falar do passado, quando conhecera
melhores dias.
Melhores dias... Quais melhores dias? Melhores dias
significavam dormir em lençóis de linho, ter criada, possuir
roupas novas, jantar às quatro horas. Coisas irreais
para a criança, mas que, como as tinha ouvido da boca
da mãe, se tornavam reais aos seus olhos. Mary Anne
imaginava esses melhores dias de outrora. Via a criada,
as roupas e o jantar das quatro horas. A única coisa que
não compreendia, era a razão por que sua mãe desistira
disso tudo.
- Não tive outra escolha. Eu era viúva. Tinha que
vos sustentar, a ti e ao Charley.
- Que quer dizer isso, nenhuma outra escolha?
- O teu padrasto pediu-me em casamento. Não podia
fazer outra coisa. Além disso, ele era bom e meigo.
Afinal, os homens não eram dependentes das mulheres
como ela pensara - as mulheres é que eram
dependentes dos homens. Os rapazes eram fracos, choravam,
eram meigos e desamparados. Mary Anne sabia
isto porque era a mais velha dos seus três pequenos
irmãos, excluindo a pequenina Isobel. Os homens também
eram fracos, também choravam, também eram meigos e
também se sentiam desamparados. Mary Anne sabia-o,
porque o seu padrasto, Bob Farquhar, por sua vez, era
isso tudo. No entanto, os homens trabalhavam fora. Os
homens ganhavam dinheiro - ou dissipavam-no, como o
seu padrasto, de modo que nunca havia dinheiro suficiente
para comprar roupas para as crianças, e a mãe
juntava, economizava, e cosia à luz da vela, parecendo
frequentemente abatida e exausta. Não havia justiça. Não
havia equilíbrio.
- Quando for crescida, hei-de casar com um homem
rico - dizia ela. Disse isto um dia, quando estavam todos
25
sentados a jantar, à mesa, mas não às quatro horas.
Estava-se a meio do Verão e o ar quente da ruela entrava
pela porta aberta, trazendo o cheiro das sarjetas e dos
legumes podres. O padrasto estava sentado em mangas
de camisa e pendurara o casaco nas costas da cadeira.
Grandes manchas de suor apareciam nas axilas e, como
de costume, tinha manchas de tinta nas mãos. A mãe
tentava fazer com que Isobel comesse, mas a criança,
rabugenta devido ao calor, virava a cara e chorava.
George e Eddy pontapeavam-se um ao outro nas canelas
sob a mesa. Charlie acabara de entornar o caldo de carne
na toalha.
Mary Anne olhou para todos um a um ao fazer esta
declaração. Tinha treze anos de idade na altura. Bob
Farquhar riu e piscou-lhe o olho por cima da mesa.
- Terás que o encontrar primeiro - disse ele. Como
pensas fazê-lo?
Não do mesmo modo que a mãe o tinha encontrado,
pensou a criança. Não esperando pacientemente que a
pedissem em casamento. Não se transformando numa
burra de carga, servindo apenas para cuidar de crianças
e lavar louça. Raciocinava assim, mas como gostava
muito de Bob Farquhar, sorriu e piscou-lhe também o
olho.
- Fazendo alguém de parvo - disse ela - antes que
alguém faça de mim parva.
Isto divertiu o padrasto, que acendeu o cachimbo
e riu à socapa, mas a mãe não achou graça nenhuma.
- Eu sei onde ela adquire esta linguagem! - disse
ela, andando atrás de ti à tardinha, ouvindo-te e aos
teus amigos.
Bob Farquhar encolheu os ombros, bocejou e empurrou
a cadeira para trás.
-Onde é que está o mal? - perguntou ele. - Ela
é esperta que nem um macaco é sábio. Nunca nenhuma
rapariga assim se meteu em sarilhos.
Atirou um rolo de cópia para cima da mesa e a
enteada apanhou-o.
- O que acontece se eu puxar o rabo ao macaco? perguntou
ele.
- O macaco morde - disse Mary Anne.
Ela passou os olhos pela cópia. Algumas das palavras
eram compridas e não estava segura ao seu signi-
26
ficado, mas sabia que o padrasto queria que a corrigisse,
porque ele estava a vestir o casaco e, ao passar pela
sua cadeira em direcção à porta, puxou-lhe um caracol.
- Ainda não nos disseste como vais encontrar o teu
marido rico - desafiou-a ele.
- Diga-me o senhor como - respondeu ela.
- Ora, põe-te no passeio e assobia ao primeiro que
te agradar. Com esses olhos, agarras quem quiseres.
- Sim - disse Mary Anne, mas o primeiro que
me agradar pode não ser rico.
Ela ouviu-o rir-se enquanto descia a ruela ao encontro
dos amigos. Fora frequentemente com ele e sabia
precisamente o que ele faria. Primeiro, passear pelas
ruelas e travessas e (apanhar os camaradas; depois, dar
uma volta pelas ruas rindo, contando anedotas e observando
as pessoas; e depois, num grupo de seis ou sete,
irem a uma taberna e discutirem jovialmente e acaloradamente
os assuntos do dia.
A conversa dos homens era mais interessante que
a das mulheres. Nunca era acerca de comida, bebés,
doenças, ou botas que precisavam de ser consertadas,
mas sim acerca de pessoas, acontecimentos e porquês.
Não acerca do estado da casa, mas acerca do estado
do exército. Não acerca das crianças dê vizinha, mas
acerca dos rebeldes em França. Nunca acerca de quem
quebrou a porcelana, mas acerca de quem quebrou o
tratado. Não acerca de quem estragou a roupa lavada,
mas acerca de quem revelou um segredo. Um Whig
(membro do Partido Liberal) era um patriota, um Frog (rã)
era um francês, um Tory (membro do Partido Conservador)
um traidor, uma mulher uma prostituta. Algumas
destas coisas eram confusas, outras disparates, mas tudo
aquilo era melhor do que remendar as peúgas do Charley.
- Botabaixo?
- Botabaixo.
Solenemente tocavam os copos, bebiam-nos e,
naquela atmosfera ruidosa e cheia de fumo, destruíam
a reputação dos famosos, enquanto a criança ouvia ávida-
mente-mas não naquela noite. Naquela noite havia
meias para remendar, camisas para lavar, rapazes para
cuidar, uma mãe para consolar e, mesmo na hora de ir
para a cama, quando tinha um momento para se sentar
27
à janela e olhar para a cópia que tinha de ir no dia
seguinte para a tipografia, Charley entrava no quarto
exigindo atenção.
- Conta-me uma história Mary Anne.
- Primeiro, levas duas bofetadas.
- Conta-me uma história.
Qualquer coisa servia. O rufar de um tambor. Os
sinos de St. Pauls. O grito de um bêbado. O pregão de
um vendedor ambulante. O funileiro esfarrapado gritando
às portas «tachos e panelas».
- Têm tachos e panelas pra consertar? - tropeçando
em Eddie e George, que brincavam na sarjeta
com um barco de papel. Até a figura apagada e sem
interesse do funileiro despachado rapidamente pela mãe
se podia transformar num príncipe para deslumbramento
de Charley.
- Fala-me da revolução de 45 e do botão de prata.
O príncipe Carlos perdera a batalha que fora ganha
pelo duque de Cumberland. Ela nunca mencionava este
episódio diante da mãe, que era uma Mackenzie. Um
dos Mackenzies possuíra um botão de pirata que pertencera
ao príncipe.
- Que aconteceu ao botão? - perguntara ela quando
tinha cinco anos. A mãe não sabia.
O seu ramo dos Mackenzies viera para o Sul quando
ela nascera. Haviam perdido o contacto com o clã.
Assim; Mary Anne teceu uma fábula para Charley e para
ela própria. Bastava-lhes encontrar o botão para a fortuna
da família ser recuperada.
-Que faremos quando encontrarmos o botão?
- Colocar velas em toda a parte.
Velas que enchessem a sala de luz e não de gordura.
Velas que não tivessem que ser guardadas depois de
usadas.
Mary Anne contou a Charley a história do botão de
prata. Em seguida acendeu a vela e, pegando no rolo de
cópia, de pé ao lado do pequeno espelho pendurado na
parede, leu-o em voz alta, escutando a sua própria pronúncia.
A mãe dissera-lhe que ela falava mal e Mary
Anne não o esquecia.
- Que quer dizer com isso, falo mal? - perguntara
ela, na defensiva.
28
- Não é a tua voz, é o sotaque. Aprendeste com as
crianças da rua. O teu padrasto não repara, porque
também fala assim.
Sentia-se discriminada novamente. Discriminada com
o padrasto, com as ruas e vielas. Os Mackenzies da
Escócia haviam sido diferentes, assim como o seu pai,
Mr. Thompson, de Aberdeen.
- Então ele é um cavalheiro?
Ela procurava um pouco de romance, uma ligação
aos melhores dias de então.
- Ele movia-se apenas em círculos só para cavalheiros
- era a resposta.
Aquilo não bastava. Não bastavam os dias melhores
e os jantares das quatro. Nem o simples Mr. Thompson,
de Aberdeen. Nem que ele houvesse perdido a vida nas
guerras americanas.
- Quer dizer que ele comandou tropas?
- Não exactamente. Estava ligado ao exército.
- Foi conselheiro, talvez? Um estratega? Um intermediário?
Os panfletos faziam alusão a tais pessoas. Algumas
vezes chamavam-lhes espiões. Mr. Thompson, que dera
melhores dias a sua mãe, já não parecia tão insignificante.
Ele sorria, fazia vénias e escutava; segredava
segredos estratégicos; era esperto e astuto. Acima de
tudo, era um cavalheiro que falava com um tom de voz
refinado. Não falava calão como os miúdos da rua.
- Escuta, Charley. Escuta a minha voz.
- O que é que se passa com a tua voz?
- Não importa, escuta.
O «h» era importantíssimo. A mãe dissera-lhe isso.
O «h» e o «o» e o «u». E o «o» e o «i» quando juntos.
«Sabemos de fonte limpa que o Governo de Sua
Majestade procurará de qualquer maneira um meio de
derrubar a Oposição de uma vez por todas durante a
presente sessão, e não contente com isso, procurará os
podres...»
- O que estás a ler, Mary Anne?
-A cópia de amanhã.
- Mas não entendo.
- Nem eu tão pouco. Mas isso não tem importância.
O pai diz que os leitores também não. Não inter-
29
rompas. «Sabemos de fonte limpa...» - e pegando no
lápis - o f de «fonte» foi retocado. .
- Está alguém lá em baixo a bater à porta.
- Deixa bater.
Mas o rapaz saltou da cama e foi debruçar-se à
janela.
- São uns homens... Trazem o pai... Está magoado.
E repentinamente, ouviram a voz da mãe gritando
assustada, Isobel chorando e George e Eddie subindo
as escadas a correr.
- Calma, está tudo bem. Não há motivos para
alarme.
Colocaram-no entre duas cadeiras na sala e a sua
cara estava pintalgada e esquisita.
- É do calor.
- O médico sangra-o.
- Caiu ali à esquina.
- Não tarda, volta a si.
A mãe ficou paralisada. Mary Anne mandou Charley
a correr chamar o médico e despachou os outros rapazes
e Isobel para o andar de cima, fechando-lhes a porta.
De seguida foi buscar uma bacia de água fria e molhou
a cabeça do padrasto com uma esponja, enquanto os
amigos dele, mais uma vez, contavam a história pormenorizadamente
à mãe.
Em breve, Charley regressava com o médico que.
com um ar sério, murmurou algo como apoplexia, enquanto
mandava Mary Anne e Charley para fora da sala - em
caso de doença, as crianças só atrapalhavam.
Finalmente, Bob Farquhar foi levado para a cama e.
depois de sangrado e purgado, foi dito às crianças que
afinal não era apoplexia, que não ia morrer, mas que
necessitava de muito descanso. Não deveria, de modo
algum, ir trabalhar, nem no dia seguinte, nem na semana
seguinte, nem durante várias semanas. Enquanto o médico
explicava o ritual do tratamento e da alimentação
à sua perturbada mãe, Mary Anne escapou-se para dentro
do quarto e foi pegar na mão do padrasto. Ele tinha
recuperado os sentidos.
-Que irá acontecer? - disse ele. - Vão encontrar
outra pessoa para fazer o meu trabalho na tipografia.
Um homem doente não lhes serve para nada.
- Não se preocupe.
30
- Vais ter que levar um recado. Alguém tem de lá
ir levá-lo. Pergunta por Mr. Day, que é o supervisor
Fechou os olhos - falar cansava«o de mais.
Mary Anne desceu as escadas. A mãe olhou para ela
desesperadamente.
- Isto é o fim - disse ela. - Pagar-lhe-ão esta
semana de trabalho e nada mais. Podem passar-se meses
até que ele esteja bom. Vai perder o emprego. Como
vamos nós viver, entretanto?
- Eu tenho de ir à tipografia logo de manhã.
- Tens de lhes dizer a verdade. Que o teu pai está
doente.
- Eu digo-lhes a verdade.
Mary Anne enrolou a cópia cuidadosamente. Tinha
que partir do princípio que todas as palavras estavam
correctas. Já conhecia todos os sinais, as pequenas
marcas na margem, mas nunca antes uma cópia fora
entregue na tipografia sem o padrasto lhe dar antes uma
vista de olhos. Ela conhecia bem a caligrafia dele. O R
inclinado. O F floreado. Assinou na parte de baixo da
cópia: «Corrigido. Rofot. Farquhar.»
No dia seguinte, muito cedo, lavou a cara e as mãos
e pôs o seu vestido domingueiro. Os caracóis desordenados
tinham um ar frouxo, tornando-a infantil. Deu-lhes
umas tesouradas e afastou-se do espelho para ver
o efeito. Melhor, mas faltava-lhes qualquer coisa, faltava-lhes
cor. Esgueirou-se silenciosamente para o quarto ao
lado. O padrasto dormia. Abriu o armário onde a mãe
guardava as suas roupas. Estava lá pendurado um vestido
que ela nunca usara em Bowling Inn Alley, um vestido
que pertencera aos melhores dias, com uma molhada
de fitas vermelhas no corpete: Mary Anne entrelaçou
uma fita no cabelo e mirou-se novamente no espelho.
Sim, a fita era a resposta.
Saiu furtivamente de casa antes que a mãe ou os
irmãos a vissem e com o rolo de cópias debaixo do braço,
desceu até Fleet Street.
31
CAPÍTULO 3
AS portas estavam abertas e ela podia ir por onde
lhe apetecesse. Ninguém lhe ligou importância.
O prelo estava a funcionar, e ela avistou de
relance uma grande maquineta de madeira numa sala
comprida e estreita, dois homens ao seu lado e um rapaz
segurando rolos de papel, que lhes ia passando. Outros
dois homens estavam por perto conversando e um segundo
rapaz subia continuamente uma estreita escada
em direcção a uma divisão, de onde regressava com
papel novo. Os homens levantavam as vozes para se
ouvirem por causa do som metálico que os rolos de
impressão faziam, conforme as folhas de papel passavam
através do prelo.
Outra porta, onde se lia «Privado», encontrava-se
defronte da sala de impressão, do outro lado do corredor.
Mary Anne bateu à porta. Alguém gritou com uma voz
irascível:
- Entre. - Ela entrou.
- O que é que tu queres? - O dono da voz irascível
era um cavalheiro. Usava um bom casaco e meias
de seda, e a sua cabeleira empoada e encaracolada
estava atada com uma fita preta. O outro usava o seu
próprio cabelo e as meias eram de lã.
- Trago uma mensagem do meu pai. Ele está doente.
- Quem é o teu pai?
- Robert Farquhar.
32
O cavalheiro voltou-se encolhendo os ombros. O homem
simples das meias de lã desculpou-se:
-Bob Farquhar, Sr. Hughes. Um dos nossos melhores
homens. Compositor e corrector. Que grande azar.
- O que é que aflige o teu pai?
- Adoeceu ontem à noite. O médico diz que vai ter
que ficar de cama algumas semanas antes de poder vir
trabalhar.
- Risque o nome dele - disse o cavalheiro irascível.
Estava a limpar as unhas à janela. - Substitui-se
facilmente. Dê o pagamento de uma semana à criança e
mande-a embora.
O homem simples ficou preocupado.
- Vou ter pena de o perder, senhor. Ele está connosco
há muitos anos.
- Não posso fazer nada. Não me posso dar ao luxo
de pagar a um homem doente.
- Não, senhor.
O homem suspirou e, abrindo uma gaveta, retirou
algum dinheiro.
-Diz ao teu pai que temos muita pena e que, se
ele vier ter connosco quando estiver bom, talvez lhe
arranjemos qualquer coisa, mas não podemos prometer
nada. Aqui está o pagamento de uma semana.
-O senhor é que é Mr. Day?
- Sou.
- Tenho aqui a cópia para si.
Ela entregou-lhe o precioso rolo e observou-o cuidadosamente
enquanto ele lhe dava uma vista de olhos.
Viu-o olhar de relance para a assinatura no fundo.
-O teu pai fez isto ontem à noite antes de adoecer?
- Fez.
- Isto é outra perda, Mr. Hughes. Bob Farquhar leva
as cópias para casa para corrigir. Poupa-nos o pagamento
a um segundo homem.
- Então as cópias devem ser corrigidas aqui, por
um dos outros, em trabalho extraordinário. Dê o dinheiro
à criança e despache-a.
Mr. Day entregou o dinheiro a Mary Anne e disse:
- Lamento.
3 - Mary Anne
33
Mary Anne pegou no dinheiro e saiu da sala. Não
regressou imediatamente a casa. Saiu do edifício e ficou
um pouco afastada, observando, até que viu Mr. Hughes
sair e começar a subir a Fleet Street. Retrocedeu então,
bateu novamente à porta que dizia «Privado» e recebeu
ordem para entrar. O supervisor estava sentado à secretária,
a escrever. Olhou para cima, surpreendido:
- Outra vez tu? - perguntou ele. - Já te dei o
dinheiro.
Mary Anne fechou a porta atrás de si.
-A cópia estava bem assim? - perguntou ela.
- Que queres dizer com isso, estava bem assim?
Estava como de costume. Deixaste-a cair na rua?
- Não. Quero dizer, estava correcta?
- Estava. Já foi para a sala de imprensa.
- Sem erros?
- Sem erros. O teu pai é muito perfeito. Por isso é
que tenho pena de o perder. Mas Mr. Hughes é um patrão
duro, como viste.
- Se um dos homens corrigir as cópias aqui, vai
ficar até tarde, não vai? E ele vai pedir dinheiro extra,
não vai?
- Vai, mas esse extra vai ser menor do que o que
pagamos ao teu pai por inteiro.
- Esse extra evitaria que o meu pai doente e todos
nós passássemos fome até que ele fique bom de novo
O supervisor fitou a criança.
- O teu pai encarregou-te de me vires dizer isso?
- Não, eu é que me lembrei. Se eu vier cá buscar
a cópia à noite e a levar para ele corrigir e se a trouxer
de manhã, isso serve-lhe, não serve? E Mr. Hughes não
precisa de saber, pois não?
Mr. Day sorriu. A criança sorriu também. A fita
encarnada estava a dar resultado.
- Porque não sugeriste isso enquanto Mr. Hughes
esteve aqui?
- Mr. Hughes ter-me-ia dito para sair.
-Que idade tens?
- Treze.
-Vais à escola?
- Não, o meu pai não ganha o suficiente para nos
mandar para lá.
- Podias ir à escola da igreja.
34
- A minha mãe diz que as crianças de lá são ordinárias.
Mr. Day abanou a cabeça em reprovação.
- Vais ficar sempre ignorante, se não fores à escola.
Todas as crianças devem aprender a ler e a escrever.
- Eu sei ler e escrever. Ensinei-me a mim própria.
Posso voltar para dizer ao meu pai que o senhor lhe
paga por corrigir a cópia até ele ficar melhor?
Mr. Day hesitou. O seu olhar ficou preso na fita
vermelha, nos grandes olhos, naquela estranha segurança
- Muito bem--disse ele, vamos tentar durante
uma semana. Mas não estou a ver como é que um
homem doente vai corrigir cópias. Tem que ser um trabalho
perfeito, sabes?
-Sei isso e o meu pai também, senhor.
-Achas que ele vai ser capaz de o fazer? Ele não
teve uma insolação, não tem febre, nem nada parecido
com isso?
- Oh, não.
- O que é que ele tem, então?
- Ele... ele partiu uma perna. Caiu do escadote
abaixo.
- Estou a ver. Bem, se cá voltares logo à noite,
dou-te algumas cópias para lhe levares. Bom dia.
Quando Mary Anne voltou a casa, o padrasto ainda
estava de cama com as janelas e as cortinas corridas,
para evitar o barulho e os odores da ruela.
- O médico acaba de sair -disse a mãe. - Disse
que não é nada de grave, basta calma e repouso. Viste
Mr. Day?
- Vi, ele disse para não nos preocuparmos. Vai
pagar cinco xelins por semana enquanto o pai estiver
doente.
- Cinco xelins por semana por não trabalhar? Isso
é generoso.
- Ele disse que o pai era um dos melhores homens
deles.
A criança subiu as escadas e escondeu a fita encarnada.
Durante as três semanas seguintes, Mary Anne foi
buscar e levar as cópias corrigidas sem a família saber.
Então, no princípio da quarta semana, depois de ela ter
35
regressado da rua, de tarde, com os irmãos, o padrasto
chamou-a do quarto acanhado e pouco arejado.
- Mr. Day esteve aqui agora mesmo.
- Oh.
- Pareceu muito surpreendido. Ele pensava que eu
tinha uma perna partida.
- Fui eu que lho disse. Pareceu-me melhor do que
uma apoplexia.
- Eu também não tive uma apoplexia. Tive uma
insolação.
- O senhor não pode corrigir cópias com uma insolação.
- Exactamente.
Mary Anne ficou calada. Bob Farquhar apanhara-a.
- Mr. Day agradeceu-me por corrigir as cópias. Eu
disse-lhe que não tinha corrigido cópias nenhumas. Então,
adivinhei o que tinhas tramado. Pensaste no risco que
correste? Dois, três erros ainda passam, mas meia
dúzia não.
- Eu revi-as quatro vezes, e depois outra vez à luz
do dia, antes de as levar à tipografia.
-Sem erros?
-Sim. Mr. Day ter-me-ia dito se os houvesse.
- Bom, ele agora já sabe que foste tu.
- O que é que ele disse? O que é que ele me vai
fazer? O senhor vai perder o trabalho?
- Tens de ir à tipografia falar com ele.
Ela pôs o vestido domingueiro e colocou a fita vermelha
no cabelo. A sua sombra, Charley, observava-a
ansiosamente:
- Mr. Day descobriu o que tu fizeste. Vais levar
uma sova.
- Não vou, não. Já sou muito velha para levar sovas.
- Ele vai-te fazer alguma coisa.
Ela não respondeu. Correu para fora da ruela e
desceu Chancery Lane até Fleet Street, com o coração
aos pulos. E se Mr. Hughes lá estivesse? Mandaria de
certeza dar-lhe uma sova. Talvez ele próprio lha desse.
Mr. Hughes não estava lá. Somente Mr. Day, o
supervisor, na sala onde se lia «Privado».
Mary Anne ficou humildemente de pé com as mãos
atrás das costas. Mr. Day tinha na mão rolos de cópias
36
rejeitadas. Talvez tivesse havido alguns erros, afinal de
contas.
- Bem, Mary Anne, estou a ver que tentaste fazer
pouco de nós, aqui na tipografia.
- Não, senhor.
- Porque é que me enganaste?
- Precisávamos do dinheiro.
- O teu pai disse-me que tens, desde há algum
tempo, corrigido cópias, mesmo antes de ele estar
doente. Porque o fizeste?
- Para ter qualquer coisa que ler.
- Estas coisas não são escritas para rapariguinhas
-- Por isso é que eu gosto de as ler.
Mr. Day tossiu e colocou de lado os rolos de cópia.
Mary Anne perguntou-se o que iria ele fazer a seguir.
Obviamente, pretendia puni-la.
- Quanto é que tu compreendes destas coisas, ao
certo?
- Não sei.
- O que é que dissemos acerca do Primeiro-Ministro
a semana passada, por exemplo?
- Disseram que Billy Pitt segura bem de mais as
rédeas para ser atirado do cavalo abaixo e que Charlie
Fox faria melhor se fosse jogar ténis com o Príncipe de
Gales e com Mr. Mucklow, que possui um court em
St. James Street. Acho que isto tem dois significados,
mas não tenho a certeza. .
Mr. Day pareceu mais chocado e desaprovador do
que nunca.
- Pelo menos, não compreendes o calão escrito no
jornal, pois não? - perguntou ele.
- Sei o que quer dizer escolher um campo (pick up
a flat).
- O que quer dizer?
- Na realidade, é um termo do ténis, mas na
imprensa quer dizer ludibriar um tipo que não sabe a
quantas anda.
Mr. Day ergueu as sobrancelhas.
- Tive uma longa conversa com o teu pai -disse
ele. E concordei em recebê-lo aqui de novo quando
estiver bom. Mas tu ficas proibida de corrigir cópias
37
outra vez. Pelo menos, para já. Em vez disso, vais para
a escola.
- Para a escola?
- Sim. Não para a escola da tua paróquia, mas para
um internato de meninas que eu conheço em Ham, Essex.
Mary Anne fitou Mr. Day desconcertada. O homem
estava maluco?
- Não posso ir para lá - disse ela. - O meu pai
não tem dinheiro para isso e a minha mãe não me pode
dispensar em casa.
Mr. Day levantou-se. Já não tinha um ar desaprova-
dor. Sorria.
- Ofereci-me para pagar a tua educação - disse ele.
- Acho que mereces ser educada. Tenho uma filha da
tua idade nessa escola em Ham, e estou certo que te
darás lá muito bem.
- Mr. Hughes sabe disto?
- Este assunto é pessoal. Não tem nada a ver com
Mr. Hughes.
O supervisor franziu o sobrolho. Que estranho uma
criança pensar assim. Não ia, com certeza, contar nada
daquilo a Mr. Hughes, que, com o seu mau feitio, lhe
diria que ele ficara deslumbrado com uma miúda esperta-
lhona, que mais parecia ter quinze anos em vez de
treze e que ficava encantadora com uma fita vermelha
no cabelo.
- É muito amável da sua parte - disse Mary Anne.
- Mas o que é que o senhor espera lucrar com isto
exactamente?
- Falaremos disso daqui a dois anos - disse ele
Acompanhou-a à porta e apertou-lhe a mão solenemente.
- Se o internato em Ham é para meninas - perguntou-lhe
ela, quer dizer que também me vou transformar
numa menina?
- Sim, se aprenderes o que te ensinarem.
- Com certeza.
A criança ficou excitada. Isto era o começo de
qualquer coisa, o começo de uma aventura. Sair de casa,
sair da ruela, tornar-se uma jovem senhora; e tudo porque
fizera algo que não devia ter feito. Enganara Mr. Day e
ele ia pagar-lhe a educação. Valia então a pena enganar
- Visitarei de novo os teus pais durante a semana
- disse ele. - E a propósito, parece que Bob Farquhar
38
não é o teu verdadeiro pai, mas sim o teu padrasto.
O teu pai chamava-se Thompson. Que nome preferes
adoptar, então, enquanto estiveres na escola?
Mary Anne pensou rapidamente. O cavalheiro de
Aberdeen. O cavalheiro ligado ao exército. O cavalheiro
que dera melhores dias a sua mãe. Tudo isto poderia ser
explicado às meninas de Ham, mas só se o nome não
fosse Thompson. Havia tantos Thompson. Mary Anne
Thompson. Mary Anne Farquhar. Farquhar soava melhor,
ao mesmo tempo que, por trás, surgia o nome do clã
Mackenzie.
- Mary Anne Farquhar, por favor - disse ela.
39
CAPÍTULO 4
QUANDO Mary Anne atingiu os quinze anos e meio.
a boa mulher que geria o internato para meninas
em Ham disse a Mr. Day que a sua protegida
completara a sua educação e que não havia mais nada
para lhe ensinar. Lia bem, falava bem e tinha uma letra
bonita. Era versada em História e Literatura Inglesa
Sabia coser e bordar, desenhar e tocar harpa.
Mas era muito adulta para a idade, e isso havia
causado uma certa preocupação às responsáveis pelas
meninas do internato. A aparência de Miss Farquhar era
tal, que chamava a atenção fora do recinto da escola
Na igreja olhavam fixamente para ela. Olhares atrevidos
seguiam-na na rua. Bilhetes eram-lhe atirados por cima
do muro. Alguém, que deveria ter juízo, acenara-lhe de
uma janela em frente, e dizia-se que Miss Farquhar
correspondera. Estas coisas provocavam ansiedade num
estabelecimento escolar. Sem dúvida que Mr. Day estudaria
a situação e entregaria a sua protegida ao cuidado
dos pais, que a vigiariam.
Mr. Day, que foi buscar Mary Anne de carruagem,
não ficou surpreendido ao saber que as pessoas, na
igreja, olhavam fixamente para ela. Ele próprio, achava
difícil não a olhar fixamente. Não era uma beleza, mas
havia qualquer coisa nos olhos dela, a expressão mudando
continuamente, e aquele nariz arrebitado que a
tornava muito viva e encantadora. A modéstia e o recato
não estavam nas suas qualidades. Tagarelou com ele na
carruagem sem o mínimo embaraço e massacrou-o para
saber se ele progredira jornalisticamente.
40
- Tínhamos autorização para ter o Morning Post disse
ela -, mas era muito maçudo para o meu gosto,
O Public Advertiser tem as notícias todas. Costumava
comprar esse quando íamos à cidade e escondia-o sob
a minha almofada. No entanto, senti a falta dos seus
panfletos e dos mexericos da Corte. Ouvi dizer que o
duque de York vai casar com uma princesa alemã de
cabelo louro quase branco. Acabaram-se os duelos. E o
rei já não gosta do Sr. Pitt como gostava. E os Tories
(Conservadores) andam sobressaltados, com medo que
o hábito que os Franceses têm de guilhotinar toda a
gente se pegue, e comecemos a fazer o mesmo deste
lado.
Mr. Day pensou para si mesmo que a sua protegida
ia achar a vida em casa muito monótona e não podia
de modo algum arriscar-se a que ela fosse à tipografia ler
as cópias; o prelo deixaria de trabalhar e o jornal nunca
mais seria impresso. O melhor para a jovem - não podia
continuar a chamá-la criança , era levá-la para a sua
casa, como governanta. Era viúvo e a sua única filha
continuava no internato, em Ham. Mary Anne seria uma
governanta muito apresentável e, possivelmente, com
o passar do tempo, se os seus sentimentos se tornassem
mais calorosos, consideraria tomar outras providências.
Não a precipitaria para já, com estes planos.
Primeiro devia ir a casa ver os pais. Mas estava convencido
que em breve se cansaria da vida com eles.
Três anos haviam alterado a vida em casa dos Farquhar.
Haviam trocado a acanhada e velha casa de Bowling
Inn Alley por outra maior em Black Raven Passage,
ao virar da Cursitor Street, propriedade de um certo
Mr. Thomas Burnen, conhecido pedreiro e mestre da
Maçonaria, que conservou apenas uma divisão no rés-do-chão
para servir de escritório, alugando o restante.
Os três rapazes passavam o dia todo na escola e só
Isabel ficava com a mãe, enquanto o seu padrasto, Bob
Farquhar, apesar de ainda afectuoso, bonacheirão e de
bom coração, estava agora mais gordo, mais grosseiro
e mais preguiçoso que nunca e cada vez mais embriagado.
Mary Anne tentou conversar com a mãe sobre isso,
mas, esta, orgulhosa e reservada, desviou-se do assunto.
41
- Os homens têm os seus defeitos - foi tudo o
que ela disse. - Se não é uma coisa, é outra.
A outra, supunha Mary Anne, devia ser mulheres.
Muitas vezes, o padrasto vinha tarde para casa e, quando
entrava com ar comprometido, levemente tocado, piscando-lhe
o olho como fazia quando ela era mais nova,
apetecia-lhe dar-lhe duas bofetadas. A mãe tinha um ar
martirizado. Lamentava-se sem palavras, e Mary Anne
achou-se dividida entre os dois e com pena de ambos.
Era jovem, alegre e cheia de vida, e queria que todos à
sua volta fossem felizes. Entretanto, os dias tinham que
ser passados a limpar o pó, a ensinar Isobel a fazer
contas de multiplicação e a passear para trás e para
diante na Hoborn Street, olhando para as lojas. A sua
educação refinada parecia desperdiçada. Charley era
ainda o companheiro favorito, mas até ele lhe parecia
demasiado novo para a sua mentalidade quase adulta,
e quando ele lhe pedia para lhe contar histórias, os
romances de Ham, em Essex, substituíram o botão de
prata e a revolução de 45.
- E que aconteceu depois?
- Não respondi ao bilhete dele, claro. Deitei-o fora.
- Viste-o na igreja?
- A ele, não. Ao outro.
-De qual é que gostavas mais?
- De nenhum em especial. Eram ambos meros
rapazes.
No entanto, acenar de uma janela fora bastante
divertido, e em Black Raven Passage não havia ninguém
a quem acenar.
Depois do Natal, Bob Farquhar, que durante várias
semanas voltara para casa às três da manhã, não voltou
de todo. Ninguém o vira. Não voltara à tipografia nem ao
café, nem à taberna. Temeu-se um acidente, abriu-se
um inquérito, mas sem resultados Finalmente, oito dias
depois, quando a sua perturbada mulher já se preparava
para comprar crepes e um chapéu de viúva, recebeu
um lacónico bilhete do criminoso, dizendo que saía de
casa para sempre, que deixava a tipografia e que ia
viver com uma mulher para Deptford.
Mrs. Farquhar teve um colapso. Confessou que suspeitava
de uma coisa do género há anos. Amealhara e
poupara para pôr de lado uma pequena soma que os
42
ajudasse numa eventualidade como esta que surgia
agora. Mas a soma não duraria muitos meses. Era preciso
fazer qualquer coisa.
- Mas ele tem que a sustentar - disse Mary Anne.
- A lei obrigá-lo-á.
- Nenhuma lei pode obrigá-lo a fazer o que não
quer.
- Então a lei devia ser alterada - disse Mary
Anne.
Injustiça - havia sempre injustiça entre homens e
mulheres. Os homens fazem as leis para sua conveniência.
Os homens fazem o que lhes apetece e as mulheres
sofrem com isso. Só havia uma maneira de os
derrotar: confrontar a sua inteligência com a deles e
sair vitoriosa. Mas quando, como e onde?
- Se eu conseguisse encontrar um homem rico,
iria com ele já amanhã - disse ela a Mr. Day.
Mr. Day não respondeu. Ela tinha um ar fascinante
ao dizer isto. A ideia de lhe fazer uma proposta naquele
momento era tentadora, mas ele era cauteloso. Precisava
de apalpar terreno. E, além disso, não queria Mrs. Farquhar
e um bando de rapazes irrequietos sob o seu tecto.
A intenção não era essa, claro.
- Claro - disse ele, a sua mãe, como mulher
casada, pode alegar falta de meios quando os comerciantes
lhe exigirem o pagamento das contas.
-O que quer dizer, alegar falta de meios?
- O marido é legalmente obrigado a pagar todos
os bens que a família compra, não a mulher. Nenhum
débito pode ser exigido à mulher.
Aquilo, pelo menos, era alguma coisa. Mas não ajudava
muito, pois mal os comerciantes soubessem que
o seu padrasto abandonara a sua mãe, não lhe forneceriam
mais nada. Se a renda também não fosse paga,
Mr. Burnell pô-los-ia na rua. Ela tinha que ir falar com
Mr. Burnell. Talvez se pudesse combinar alguma coisa
com ele.
- Entretanto - suplicou ela - deixa-me corrigir
cópias para si outra vez? Já o fiz antes, posso fazê-lo
novamente.
Ela era persuasiva e Mr. Day concordou, mas estipulou
que Charley iria buscar e trazer as cópias. Não
era decente uma jovem passear em Fleet Street.
43
-. O passo seguinte de Mary Anne foi pedir a Mr. Burnell
se poderiam continuar em Black Raven Passage.
Mr. Burnell possuía uma boa casa noutro local da
cidade - usava o escritório de Black Raven Passage
apenas porque estava perto do seu estaleiro, em Cursitor
Street - e tendo ganho reputação pelas suas belas
esculturas em várias igrejas, acabara de ser nomeado
pedreiro do Inner Temple (uma das Faculdades de Direito
de Londres). Há muito que ambicionava esta nomeação
e sabia que era alvo da inveja de todos os seus colegas
de profissão, Já toda a gente sabia do seu novo cargo
e estava a receber felicitações de vários visitantes,
quando Mary Anne desceu a escada, vinda do andar de
cima. Homem ocupado, tivera pouco tempo para reparar
nos Farquhar. Pareciam boa gente, não causavam
problemas e pagavam a sua renda, o que parecia suficiente.
Cumprimentara a filha recém-chegada do internato,
quando passara por ela na entrada, mas nunca a
observara de perto. Então, devia ser aquela, juntando-se
aos visitantes, felicitando-o e falando entusiasticamente
da sua nomeação.
- Miss Farquhar? Sim, deve ser. Não tinha a certeza.
Sim, muito obrigado. Muito gratificante.
Que bonita jovem, surpreendente. O pai parecia um
sujeito vulgar. Então, ela sabia dos monumentos de Culworth
e de Marston St. Lawrence! Teria lido sobre eles
nalgum jornal? Imagine-se! Afinal o trabalho de Culworth
fora um sucesso;
Sem perceber como, os visitantes haviam partido
e Miss Farquhar falava-lhe do malandro do seu padrasto
que desaparecera sem deixar morada, de modo que era
impossível obter dinheiro dele para pagar a renda.
- Por isso pensei, Mr. Burnell, visto que vai ter
tanto trabalho no -Inner Temple, se não irá dar emprego
a vários aprendizes, que terão que ser alojados e alimentados?
Sei que a minha mãe teria imenso prazer de
lhes dar alojamento tão próximo do seu estaleiro de
Cursitor Street. Se fizéssemos isso, poderíamos então
pagar a renda como antigamente e o senhor não teria
o trabalho de pensar o que fazer da casa.
, Ela falava rapidamente com um sorriso irresistível e
ele viu-se a concordar com -tudo o que ela dizia. Claro
que ele ia empregar mais aprendizes. Quantos quartos
44
podiam as senhoras dispensar? Na realidade, somente
dois, admitiu ela, mas mesmo só com dois hóspedes,
ficariam mais aliviadas. Qualquer número acima de dois
seria uma multidão - Mr. Burnell compreenderia isso eles
poderiam ser desordeiros e, naturalmente, isso não
era conveniente, pois reflectir-se-ia em Mr. Burnell.
Não foi dado tempo a Mr. Thomas Burnell para concordar.
Ela decidira, pagara-lhe um quarto da renda adiantado
(emprestado por Mr. Day) para selar o novo acordo,
e subira novamente as escadas para informar a mãe da
transacção antes que ele tivesse tempo de pensar duas
vezes no assunto. Supunha que na prática daria resultado
e na realidade não tinha muita importância. Uma
bagatela, este assunto dos alojamentos em Black Raven
Passage, comparados com o que ia acontecer no Inner
Temple.
Mary Anne encontrou maiores dificuldades junto da
sua família. A mãe, como em relação a outra sugestão
qualquer, ficou apreensiva:
- Hóspedes! - exclamou ela. - Entrando com
botas sujas e atirando coisas por toda a parte.
- Os rapazes já fazem isso. Mais dois não vão
fazer grande diferença.
- Além disso, que quartos é que lhes vamos dar?
- Há dois bons quartos no sótão.
- Nem sequer sei como os vou alimentar. Devem
ser uns comilões.
- Eles vão pagar pelos seus grandes apetites, não
se esqueça.
- Não sei o que dizer, Mary Anne. Hóspedes. É tão
pouco fino.
- É menos fino ainda passar fome nas ruas. Se não
metermos hóspedes, é isso que nos acontece.
- Acho que devias pedir a opinião de Mr. Day.
- Mr. Day não tem nada com isso.
Mrs. Farquhar protestou, os rapazes resmungaram,
mas Mary Anne levou a sua avante. Os sótãos foram
esfregados, cortinas foram penduradas nas pequenas
janelas, tapetes foram encomendados numa loja em; Holborn
e postos na conta de Mr. Burnell.
- Muito bem, muito agradável - disse ele, depois
de uma rápida inspecção aos dois sótãos e sem uma
ideia sequer de quanto iria pagar pelos tapetes. - E, é
45
claro, tudo isto numa base de experiência. James Burton,
que se está a sair muito bem no negócio imobiliário, precisa
de alojamento temporário - um escocês como a
senhora, Mrs. Farquhar. Sugeri-lhe que viesse alojar-se
aqui. E um jovem aprendiz, Joseph Clarke, filho de um
velho amigo meu - talvez tenha ouvido falar, Thomas
Clarke, construtor em Snow Hill. Homens respeitáveis,
ambos; não vai ter problemas nenhuns com eles.
E despediu-se rapidamente, encaminhando-se para o
seu trabalho no Inner Temple, deixando Mrs. Farquhar
numa pilha de nervos.
- Esses cavalheiros não vão aceitar quartos num
sótão - disse ela. - Quando os virem, vão-se logo
embora.
- Disparate! - disse Mary Anne. - O escocês vai
pensar apenas na algibeira, e que alojar-se connosco
é mais barato que noutro sítio qualquer. Quanto ao outro,
se é novo, dorme como uma pedra, e quanto mais dura
é a cama, mais doces são os sonhos. Mas por favor, não
faça referência aos sótãos. Os quartos são no terceiro
andar.
Uns pequenos retoques finais, um ou dois quadros,
uma torção às cortinas, um piparote num espelho. Só
faltava a chegada dos hóspedes.
Infelizmente, Mary Anne não estava em Black Raven
Passage no momento exacto em que Mr. Burton e Mr.
Clarke decidiram instalar-se. Ficara combinado que ela
e a mãe os receberiam, na sala de visitas (já não era sala
de estar - ninguém dizia sala de estar em Ham) e que
após uns minutos de polida conversação, ela os escoltaria
ao terceiro andar para desfazerem as malas. Depois
do que o jantar, não a ceia, seria servido às seis horas
O destino não o quis assim. Mary Anne, que fora
ter com Mr. Day à tipografia em Fleet Street para lhe
pedir mais um empréstimo, já que o dinheiro era escasso
até ao primeiro pagamento dos hóspedes, voltou a casa
mais tarde do que esperava, para encontrar a mãe em
grande alvoroço.
-Eles chegaram - disse ela, e eu não sabia o
que havia de fazer, por isso levei-os logo para os quartos.
Um deles desceu logo a seguir dizendo que ia jan-
tar fora. O segundo está lá em cima e já me chamou
duas vezes. A primeira para dizer que não havia um
46
armário adequado para pendurar as suas roupas e a
segunda para saber quem é que lhe ia engraxar as botas
Suponho que foi fraqueza minha, mas disse-lhe que ele
deveria esperar até que a minha filha voltasse a casa,
que ela é que tomara todas as providências.
Mrs. Farquhar estava esbaforida, de tanto subir e
descer as escadas.
- Fez muito bem - disse Mary Anne, se ele
pensa que vai provocar sarilhos, está muito enganado.
- Fez uma pausa, colocando a mão no corrimão:
-Que aspecto têm eles? - segredou ela.
- Não reparei no que saiu - disse Mrs. Farquhar -,
mas o que está lá em cima é alto e moreno.
Um estrondo veio do andar de cima. O hóspede
estava a bater no soalho. Mrs. Farquhar ficou aflita:
- Isto quer dizer que ele quer qualquer coisa disse
ela, já o fez duas vezes antes.
Mary Anne subiu as escadas com um olhar feroz.
Antes de chegar ao terceiro andar, a porta de um dos
sótãos abriu-se e um mancebo, sem casaco, vestindo
uma fina camisa de linho e fazendo atarefadamente o nó
de uma gravata de seda, olhou-a de alto:
-Ah! - disse ele. - Mesmo a tempo. Estava a
ver que tinha de descer todas estas escadas em meias,
As minhas botas estão cheias de pó. Faz-me o favor de
as limpar?
Mary Anne olhou para ele. Apetecia-lhe esbofeteá-lo,
esbofeteá-lo com força. O facto de ele ser o mais bem
parecido mancebo que jamais vira em toda a sua vida,
era de somenos importância. Os negócios e a sua posição
estavam em primeiro lugar.
- Eu mando limpar-lhe as botas - disse ela friamente,
mas isso não está incluído no contrato de
alojamento. É um extra. Vai ter que o pagar. - Subornaria
Charley, George ou Eddie. - Os rapazes podiam
fazê-lo por turnos. Podiam limpá-las na parte de trás da
cozinha, longe da vista.
- Não estou interessado em quem me limpa as
botas - disse o mancebo , desde que mas limpem bem.
Acontece que sou muito exigente. - O frio olhar dela
era desconcertante. Ele estava à espera de uma criada.
A situação era muito diferente e ficou sem saber o que
dizer.
47
- Desculpe - disse ele, mas com quem estou a
falar? O meu nome é Joseph Clarke. Às suas ordens.
- Eu sou Mary Anne Farquhar replicou ela.
Sou eu quem toma todas as providências nesta casa.
Suponho que o seu amigo foi jantar fora. O senhor também
vai?
Ele hesitou um momento. Olhou para trás do ombro
para o quarto em desordem, a escolha de casacos, gravatas,
as preparações para uma noite de farra. Virou-se
então novamente para Mary Anne:
- Não - disse ele. -Se não for inconveniente para
si, prefiro jantar em casa.
48
CAPÍTULO 5
Joseph Clarcke deixou bem claro para todos, nessa
primeira noite, que não tinha necessidade de trabalhar
para ganhar a vida. O seu pai era um homem
rico e ele podia levar uma vida de ócio, se lhe apetecesse.
Mas tinha talento, e o seu pai não gostava de
o ver desperdiçado. Daí a sua aprendizagem com Thomas
Burnell.
- Mas, é claro - disse ele despreocupadamente,
não estou atado de maneira nenhuma. Não como um vulgar
aprendiz. Posso deixar Burnell quando me apetecer,
e talvez começar por conta própria. Ainda não me decidi.
Os Farquhar observavam-no com interesse. Os rapazes,
com as mãos limpas por uma vez na vida e os cabelos
penteados de risco ao meio, ouviam-no respeitosamente
em silêncio e a jovem Isobel, apavorada. A mãe
deles, nervosa com aquela súbita recepção depois de
um lapso de anos, tentava lembrar-se de quando serviu
o vinho, ou se era vulgar colocar o queijo em cima da
mesa. Felizmente, as faltas de etiqueta eram; cobertas
pela filha. Um rapaz que estendesse a mão por cima da
toalha de mesa, era fuzilado por uns olhos irados. Um
rapaz que de repente soluçasse, levava uma canelada
por baixo da mesa. O prato de Isobel, servido pela
segunda vez, era-lhe retirado de sob o nariz e entregue
ao hóspede com um sorriso.
Este não reparava em nada. Estava demasiado
ocupado a falar de si próprio.
- O meu pai está reformado - disse-lhe ele,
os meus irmãos continuam com o negócio em Snow Hill.
4 - Mary Anne
49
Estão a fazer um bom trabalho. O meu irmão mais novo
acabou de partir para Cambridge. Tenciona tornar-se
pároco. Conhecem um tio meu, o vereador Clarke?
Espera vir a ser Lorde Mayor of London (presidente da
Câmara de Londres) um destes dias.
O hóspede bebia o vinho: era um apreciador.
Recusou o queijo: era fastidioso. Sim, na verdade (em
resposta a uma pergunta de Mrs. Farquhar), ele lamentava,
mas nunca tocava em gorduras de qualquer espécie.
A sua digestão não o suportaria. A criança frágil dera
lugar a um mancebo frágil.
Havia outra razão pela qual ele não podia trabalhar
muitas horas - cansava-se facilmente. Seria então melhor
viver no campo, respirando ar puro? O hóspede
torceu o nariz com desagrado. Certamente que não.
Aborrecer-se-ia de morte, no campo. Quais eram os seus
objectivos? Confessou-se adepto dos jogos de azar, mas
apenas contra jogadores experimentados e com paradas
altas. Tinha um interesse mediano no Turf (corridas de
cavalos). Na época anterior persuadira o seu irmão mais
velho a comprar um cabriolet. (Um pequeno veículo de
duas rodas, tirado a dois cavalos.) Haviam feito uma corrida
até Brighton!, numa aposta, e ganho duzentas libras.
Gostava de música, canto e de ir ao teatro. A política
não estava nos seus horizontes e os assuntos do dia
nem mereciam discussão.
- Viemos a este mundo para nos divertirmos disse
ele, para fazermos o que mais nos agrada. Não
concorda, Miss Farquhar?
Miss Farquhar concordava realmente. Antes de a
refeição terminar, já esquecera que ele lhe pedira para
lhe engraxar as botas. Aquele mancebo de olhos melancólicos,
nariz romano e ar lânguido, de modos aristocráticos,
era totalmente diferente do sujeito cheio de borbulhas
que a fixara na igreja ou do jovem escanzelado
que lhe acenara tão entusiasticamente da casa defronte
do internato, em Ham.
Aquele era o tipo de mancebo que em França estava
a ser guilhotinado. Parecia acabado de descer da carroça
dos condenados à guilhotina. Havia romance em todos
os gestos. Com o arrastar da noite, ficaram sozinhos na
sala de visitas, após a mãe ter desaparecido discretamente
na cozinha com os rapazes e Isobel. Ele confes-
50
sou-lhe que fora profundamente infeliz sob o tecto
paterno desde a morte da mãe.
- O meu pai não perdoa mudanças de humor
disse ele, júbilo num momento e desespero no outro.
A única coisa a que dá valor é aos empreendimentos
realizados. Fiquei algumas vezes prostrado pela fadiga.
Ele chama-lhe preguiça. Necessito do estímulo de boas
companhias. Ele chama-lhe ralé. O que acontece é que
sou um incompreendido.
Mary Anne escutava extasiada. Durante três anos
não ouvira senão tagarelice feminina, sendo a do reitor
de Ham, quando visitava a escola ao domingo, a única voz
masculina. Os mexericos de taberna do seu padrasto e
dos seus camaradas haviam sido bons no passado, mas
agora era diferente. Pela primeira vez na vida tinha um
mancebo bem-parecido só para ela, pronto a abrir-lhe o
coração. A cabeça podia ser esquecida. O coração era
tudo.
- Quando a vi esta noite nas escadas, senti uma
atracção imediata entre nós. Um reconhecimento mútuo
Também o sentiu? - perguntou ele.
Ela quisera esbofeteá-lo, mas o momento passara
O vinho ao qual não estava habituada, soltava-lhe a
língua.
- Para lhe dizer a verdade, não gosto de ninguém
na vizinhança - respondeu ela. Governar a casa da
minha mãe é uma ocupação monótona. Quero da vida
muito mais do que isso.
O que queria ela? Não sabia. Mas enquanto ele a
fixava com admiração, algo até esse momento adormecido
despertou nela. A combinação de artista e mancebo
rico era intoxicante para uma jovem recém-chegada da
escola.
As boas maneiras de Ham haviam temporariamente
suavizado a astúcia, a esperteza da criança das ruas de
Londres. Aos quinze anos, as emoções amadureciam, o
pulso acelerava; e a situação esmorecia.
Mary Anne estava pronta para o seu primeiro caso
de amor. Naquele momento, qualquer um a satisfaria.
Um tipógrafo do estabelecimento de Mr. Hughes, um
ajudante de carniceiro de olhos vivos ao cimo da rua,
um estranho apeando-se de uma carruagem em Holborn
51
e tirando-lhe o chapéu - todos eles lhe alimentavam os
sonhos, sonhos esses personificados na pessoa de
Joseph Clarke, de vinte e um anos de idade. A partilha
comum de um tecto dava-lhes a afinidade necessária.
Black Raven Passage não era muito mais larga do que
Bowling Inn Alley, mas a lua-cheia via-se melhor da
soleira da porta. O céu tinha grandeza, os esgotos eram
mais discretos. Podia-se ver as estrelas da janela do
sótão, mesmo com um jovem irmão ciumento batendo
no tecto do quarto de baixo.
James Burton, o outro hóspede, não dava problemas.
Homem de trinta anos de idade, trabalhador, com muitos
amigos, regressava ao seu quarto para dormir e mais
nada. Joseph e Mary Anne foram empurrados um para
o outro.
O primeiro beijo apanhou-a de surpresa e deixou-a
assustada. Houvera antes pequenos namoricos, risos
abafados, tolices de rapariga, agora, a realidade era
outra. Joseph Clarke, ainda um aprendiz, tinha que provar
o seu valor como escultor, mas como amante não
necessitava de credenciais. Nem rude nem brusco, beijava
com ardor. O beijo tímido não era com ele, nem o
murmúrio «desculpe-me».
Mary Anne experimentou, em toda a sua grandeza,
o tormento e o êxtase do primeiro amplexo. Foi para o
seu quarto confusa e feliz, mas o instinto dizia-lhe: «Esta
é uma das coisas que vou esconder da mãe.»
Do Charley também, que observava com desconfiança
pelas portas entreabertas, que reparava que as
meias de Joseph eram remendadas e as suas não, e que
o hóspede recebia a carne branca da galinha e ele a
perna.
Mary Anne estava apaixonada. Não pensava em mais
ninguém senão em Joseph. O dia era interminável até
à sua chegada do estaleiro; tão interminável que era
forçada a passar por lá duas a três vezes por dia, inventando
recados. Ele deixava de trabalhar para ir ter com
ela, avançando naquele passo lento e leve que ela
achava tão irresistível, e enquanto falavam junto do
muro, ela sentia que os outros aprendizes a observavam,
a avaliavam, ligavam os seus nomes, aumentando
assim a excitação.
52
Contudo, o mundo dos adultos era hostil ao primeiro
amor, franzindo o sobrolho e desaprovando. O primeiro
amor tinha que ser escondido de olhares indiscretos.
- Foste muito tarde para a cama, ontem à noite.
Ouvi a tua porta bater. Que estiveste a fazer?
- Estive a conversar com Joseph Clarke.
- Mr. Burton estava convosco?
- Não... Tinha saído.
Silêncio. Frieza no ar. Nada mais foi dito, mas num
relance, Mary Anne relembrou silêncios e friezas anteriores,
quando Bob Farquhar agarrava na sua bengala e
descia a rua vagarosamente para apanhar ar. Agora condoía-se
dele e compreendia. Tinha que guardar segredo.
- Mrs. Farquhar, minha senhora, posso pedir-lhe
que deixe Miss Mary Anne dar um passeio comigo à
tardinha, depois do jantar? É uma pena ficar em casa
num fim de tarde tão bonito.
- Um passeio? Esperava que ela ficasse comigo. Há
tanta roupa para coser e ela sabe que a minha vista é
fraca.
- Mãe, a costura pode ser feita de manhã quando
a luz é melhor.
- Não compreendo como podem querer ir passear
quando em casa estão mais confortáveis.
A censura muda, o suspiro e o cansado estender da
mão para o cesto de costura. Como é que a mãe poderia
compreender o que era a sensação de subir Ludgate Hill
de braço dado com Joseph Clarke para ver a cúpula
de St. Pauls ao luar? Fez um sinal com os olhos ao seu
apaixonado, que esperava impacientemente, e de seguida,
enquanto a mãe estava ocupada com a costura, Mary
Anne escapuliu-se da sala para se lhe juntar.
- Posso ir convosco? - perguntou Charley, carrancudo
e reprovador.
- Não.
- Porque não?
- Não te queremos. - E depois, condescendente:
- Bem, só até Fleet Street, mas mais longe não.
Perturbador, excitante, o passeio no meio das multidões,
frequentadores de tabernas e botequins, serviu
de desculpa para o regresso tardio. Os estreitos pátios
e as ruelas abrigavam-nos, os vãos de porta protegiam-
53
-nos de aguaceiros, os sinos de St. Pauls soando a meia-noite
como um eco de palavras balbuciadas:
- Mary Anne, não posso viver sem ti.
- Mas que podemos nós fazer? Para onde havemos
de ir?
O deslumbramento, a excitação da descoberta, deram
lugar à astúcia. Todas as complicações resultantes de
um segredo - o terror de uma porta a ranger, o perigo
de uma escada escura, um passo ruidoso, um tropeção.
Estas coisas podiam acordar uma casa adormecida. Momentos
que deviam ser prolongados, eram apressados
devido ao medo. A urgência substituía a delicadeza e
a ternura.
Infelizmente, as oportunidades não apareciam à
medida do desejo, que crescia. Entre a meia-noite e as
quatro da manhã, não havia alternativa à sala de visitas.
Ali foram encontrados, numa manhã de Abril por Mrs.
Farquhar que, a pretexto de ouvir ratazanas nos lambris,
e intimamente desconfiada desde há muitas noites, finalmente
desceu a escada rangente.
A fuga era impossível. A fanfarronada fora de questão.
Haviam sido apanhados. O resultado imediato foram
lágrimas - não de Mary Anne, mas da mãe.
- Como te pudeste tu comportar assim? Depois de
tudo o que te ensinei e te meti na cabeça? Escapulindo-te
para aqui no escuro, como uma vulgar rapariga da
rua. E o senhor, Joseph Clarke, que se intitula filho de
um cavalheiro, aceitando a minha hospedagem e sabendo
perfeitamente que Mary Anne não tem um pai para a
proteger.
A casa toda ficou em alvoroço. Os rapazes saíram
das camas aos trambolhões:
-Que aconteceu? Que fizeram eles?
James Burton, apercebendo-se da situação num
relance, retirou-se para o seu quarto com o sobrolho
levantado.
Então a vergonha era aquilo. Nunca deveria ter acontecido.
Fora apanhada em flagrante, descoberta, dada
como culpada, tonta e infantil.
- Não quero saber - disse Mary Anne em voz alta.
- Eu amo-o. Ele ama-me. Vamos casar, não é verdade,
Joseph?
54
Porque não respondeu ele de imediato? Porque ficou
ali especado com aquele ar estranho e envergonhado?
Porque gaguejou ele algo acerca de não saber qual o
seu futuro? Não tinha a certeza de obter autorização do
seu pai, eram ambos demasiado jovens para casar, pedia
desculpa a Mrs. Farquhar por a terem perturbado, tinham
ouvido ratazanas, não estavam a fazer nada de mal.
Mary Anne, apaixonada, ultrajada, virou-se para a
mãe:
- Mas, isso não é verdade! Não estávamos à procura
de ratazanas. Amamo-nos verdadeiramente. E tencionamos,
evidentemente, casar.
Joseph estava de pé, com ar pateta, o sorriso fraco,
sem reacção, desfigurando o seu atraente rosto.
Uma força interior veio em socorro de Mrs. Farquhar,
talvez a memória de Mr. Thompson e dos melhores
dias. Manteve-se digna:
- A questão de um casamento não se põe. Joseph
Clarke deixa a minha casa de manhã com uma carta
endereçada a Mr. Burnell. Mary Anne, ainda não tens
dezasseis anos, ainda estás ao meu cuidado. Vai para
o teu quarto, por favor.
O momento tempestuoso terminara. Sucedeu-se a
bonança. Mary Anne foi para o seu quarto, fechou a porta
à chave, e agora era ela que chorava e não a mãe. As
suas lágrimas não eram pela descoberta, mas pela recordação
de Joseph, ansioso, desajeitado e incapaz de dizer
uma palavra em defesa do seu amor. Ficou trancada no
quarto todo o dia, ouviu sons de mudança, bagagem a
ser arrastada para o andar de baixo. Isobel, com ar assustado,
trouxe-lhe alguma comida, na qual Mary Anne nem
sequer tocou.
Já não era a Miss Farquhar que tomava todas as
providências da casa. Era uma criança de quinze anos
magoada, desonrada e dolorosamente apaixonada.
Era uma casa enlutada. As vozes eram abafadas. Os
visitantes chegaram. Primeiro Mr. Burnell, depois Mr. Day.
O terceiro, seria a directora do internato de Ham? Iria
ela ser enviada para lá, de imediato?
- Não vou! - disse para si própria. - Fujo.
De repente, ansiou pela presença do padrasto, Bob
Farquhar. Ele não lhe teria ralhado. Teria compreendido.
Ter-lhe-ia feito uma festa no ombro, com um brilho no
55
olhar e diria: «Com que então o macaco deu um passo
em falso! Onde está o marido rico, agora?» Só havia uma
resposta para a confusão que ia na sua cabeça. Tinha
que encontrar Joseph e, uma vez sozinhos, obteria a sua
promessa de casamento. A autorização do pai não era
essencial, porque ele já atingira a maioridade. Dissera-lhe
repetidamente que o dinheiro tinha pouca importância
na sua vida. O pai era rico. Poderia trabalhar ou não,
conforme lhe apetecesse. Podia deixar Mr. Burnell e
estabelecer-se por conta própria, ou simplesmente, não
fazer nada. Não interessava. Uma vez casados, tudo
correria bem. O que naquelas circunstâncias parecia uma
fraude, passaria a ter a aprovação geral. Uma mulher
casada não agia mal. A mãe condescenderia, então.
O natural optimismo de Mary Anne voltara. Só tinha
que conseguir o consentimento da mãe, encontrar Joseph,
e o futuro estava assegurado.
Não era, no entanto, este tipo de futuro que Mrs.
Farquhar tinha em mente. Os planos dela eram muito
diferentes.
- Não vou discutir agora o que aconteceu - disse
ela à filha nessa noite. - A culpa é minha por permitir
hóspedes sob o meu tecto. Nunca gostei da ideia, e os
meus receios eram fundados. Joseph Clarke deixou-nos
para sempre e deixou Mr. Burnell também, que, como
cavalheiro que é, ficou horrorizado com a sua conduta,
tendo escrito ao pai. Estamos todos livres dele.
- Para onde foi Joseph?
- Não perguntei. Mas, mesmo que soubesse, não
to diria. O seu paradeiro não é da tua conta, porque
também te vais embora.
- Se quer dizer que vou voltar para Ham, recuso-me.
Já sou crescida, já não tenho idade para andar na escola.
- Eu não estava a falar da escola. Isso está fora
de questão. Tu vais para casa de Mr. Day como governanta.
Mary Anne desatou a rir:
- Deve estar louca. Eu nunca faria tal coisa. Conheço
a casa dele, um lugar atafulhado, lúgubre, em Islington
e não estou interessada em Mr. Day, que é um homem
melindroso que gosta de pregar sermões.
A mãe olhou-a desaprovadoramente. Era aquela a
gratidão da filha por tudo o que o seu benfeitor lhe
55
fizera. Um homem melindroso que gostava de pregar sermões.
- Mr. Day comportou-se muito generosamente. Eu
Disse-lhe o que acontecera e ele concordou que tu necessitas
de protecção, da protecção de um pai. Tornando-te
a sua governanta, ele pode agir como tal. Depois do que
aconteceu a noite passada, é demasiada responsabilidade
para mim.
- Muito bem.
A súbita mudança de humor devia ter alertado Mrs.
Farquhar, mas ela estava demasiado ansiosa por pôr a
filha a salvo. Não discutiu mais.
Para Mary Anne, a solução era simples. Podia fazer
o que lhe apetecesse em casa de Mr. Day, e assim que
ele saísse de manhã para a tipografia, ela procuraria
Joseph. Nada mais fácil. A atmosfera de desolação desaparecera.
Os rapazes assobiavam novamente, excepto
Charley, que chorava e recusava ser consolado.
No dia seguinte, Mary Anne partiu para Islington
numa carruagem de aluguer. Foi recebida por Mr. Day,
um pouco mais grave do que era seu hábito, talvez,
quando do( primeiro encontro, mas presentemente inflexível
e mais tarde, quando lhe entregou as chaves do
armário da despensa, positivamente alegre.
- Penso que nos vamos dar muito bem - disse ele.
- Nada de saudades de casa nem arrependimento,
espero.
Ela perguntou-lhe a que horas pretendia o pequeno-
-almoço antes de ir para a tipografia, de manhã.
Ele olhou para ela surpreendido.
-A sua mãe não lhe disse? - perguntou ele.
Estou reformado. Decidi há algum tempo atrás. Tenciono
passar os meus dias em casa, com os meus livros e
outras coisas que podemos partilhar. Fá-lo-emos maravilhosamente.
Mais tarde, quando a minha filha regressar
da escola, terá também a sua companhia, mas até
lá, a minha terá que bastar.
Ele sorriu, fez uma vénia, as suas maneiras eram
galantes. Aquilo era ridículo. Mary Anne não contara
ter Mr. Day em casa todo o dia. Esperara poder fechar-lhe
a porta nas costas todos os dias às oito e meia
da manhã. Fazia tudo parte de um plano, então, entre
ele e a mãe, para a manterem vigiada.
57
Mary Anne não fazia justiça a sua mãe. O plano era
de Mr. Day. Era verdade que ele deixara a tipografia,
o que só lhe fazia bem, mas o facto de a filha de Mrs.
Farquhar ter caído em desgraça, inflamara-lhe a imaginação.
Uma jovem senhora precisava de disciplina,
disciplina essa de que ambos poderiam vir a gostar.
Em vez de se ver a fechar-lhe a porta nas costas
às oito e meia da manhã, Mary Anne viu-se a fechar
a porta do seu quarto à chave, às dez e meia da noite.
Retirara-se cedo, exausta com as emoções dos dias
precedentes e, ouvindo-o bater à porta, pensou que havia
alguma coisa errada, que ele estava doente, que a casa
estava a arder. Viu-o ali defronte dela, de candelabro
na mão, um barrete na cabeça, uma figura tola, esperançosa
e pouco atraente.
- Sente-se só? - perguntou ele.
Então, ela percebeu. Fechou-lhe a porta na cara e
deu a volta à chave. Nem quis saber das roupas. Um
caleiro mesmo ao lado da janela serviu de fuga à primeira
luz da manhã. Então fora por isso que a mandara
para Ham, para ser educada. Mas ele não contava com
Joseph. A última palavra seria dele.
58
CAPÍTULO 6
Ela tinha o dinheiro suficiente para alugar uma carruagem.
Deixaria Islington em grande estilo, tal
como chegara - nada de marchas penosas pelas
ruas às primeiras horas da madrugada, sujeita a qualquer
passante, um potencial Mr. Day. Aprendera a
lição. O problema é que ninguém acreditaria na sua
história, muito menos a mãe. O respeitável Mr. Day,
um lobo com pele de cordeiro? Nunca! Mary Anne imaginou
tudo isso. Mr. Day deve ter a sua própria versão.
Um homem passado dos quarenta merece confiança, ao
contrário de uma rapariga de quinze.
Correndo de volta a Holborn na carruagem alugada,
Mary Anne decidiu duas coisas. A primeira, lembrar-se
sempre que as aparências iludem, o simples acto de
aparente generosidade esconde um propósito posterior,
e apenas um, se o protector for masculino. A segunda,
não regressar a casa sem estar casada, quando, ostentando
uma aliança e a sua licença de casamento, passaria
a dominar. Seria a benfeitora, então. A nora do
rico Mr. Clarke de Snow Hill teria um estatuto diferente
da Miss Farquhar de Black Raven Passage. Não haveria
necessidade de hóspedes, nunca mais. A mãe, Isobel e
os rapazes gozariam finalmente os dias melhores. Mrs.
Joseph Clarke sustentá-los-ia a todos.
Não tinha mais nada senão as roupas que levava
vestidas e uns poucos xelins numa pequena bolsa, mas
era jovem e tinha grande esperança no futuro.
Apeou-se com dignidade da carruagem alugada e
pagou ao homem a importância da viagem. Depois, foi
59
procurar James Burton no Inner Temple. Sim, era verdade,
Joseph deixara Mr. Burnell. James Burton disse
que andara o diabo à solta. Joseph rasgara os seus
apontamentos de aprendizagem e atiráramos ao chão,
aos pés de Mr. Burnell. Este acusara Joseph de esbanjador
e sedutor de meninas. Joseph chamara a Mr. Burnell
tirano e avarento.
-Sim - disse Mary Anne impaciente, mas onde
está o Joseph agora?
- Está hospedado em Clerkenwell- disse Burton.
- Posso dar-lhe o endereço. Ele tem a cabeça cheia de
ideias loucas acerca de ir para a América. Levei-o a sair
ontem à noite e ele embebedou-se. Acabámos no Ring
OBells às três da manhã. Joseph teve a sorte de ganhar
dez libras ao jogo. Se for agora a casa dele, encontra-o
a dormir.
A casa de hóspedes em Clerkenwell, embora situada
numa rua e não numa viela, era completamente diferente
da habitação asseada de Mrs. Farquhar. A porta
da frente estava escancarada. Qualquer pessoa podia
entrar. Uma criança escanzelada esfregava, de joelhos,
a entrada suja, vigiada por uma mulher indolente com
as faces pintadas. Aquele lugar tinha um ar miserável,
rançoso, descuidado.
Mary Anne subiu as escadas escuras, desconsolada.
Se Joseph era demasiado orgulhoso para voltar para
a casa do seu pai, bem podia ter arranjado algo melhor
do que aquela porcaria.
Ele estava a dormir, como James Burton supusera.
Se realmente se embebedara na noite passada, não
mostrava sinais disso. A face estava corada, talvez,
mas ficava-lhe bem. Tinha o mesmo ar de inocência
que Charley, quando dormia, e Mary Anne soube que
o amava mais do que nunca. Passeou pelo quarto em
bicos de pés, restaurando a desordem, as roupas atiradas
de qualquer maneira para o chão e depois deitou-se
ao lado dele, na cama.
Quando Joseph acordou e viu Mary Anne deitada
na sua almofada, todas as ideias que tinha de navegar
para a América, morreram de morte natural. A proximidade
provocou um efeito fatal. Já não estavam sob o
tecto paternal. Escadas rangentes não eram ameaça
numa pensão onde não se faziam perguntas.
60
A meio da tarde, nada mais interessava no mundo
inteiro, senão o facto de estarem juntos novamente.
O futuro pertencia-lhes. Poderiam fazer o que lhes apetecesse
com ele.
- Nada mais, senão isto - disse Joseph sonhadoramente,
dia após dia, noite após noite, nada de levantar
cedo, nada de Tommy Burnell, nada de planos.
- Temos que comer - disse Mary Anne, e, além
disso, não tenho grande opinião acerca deste quarto.
A janela não tem estores e a; cama é muito pequena.
Ele disse-lhe que ela não tinha temperamento. Ela
Disse-lhe que ele não tinha bom-senso. Às sete e meia,
saíram para jantar.
Se a ideia que Joseph tinha de uma pensão estava
abaixo da sua posição, a ideia que ele tinha de um lugar
para comer, estava distintamente acima. Não lhe servia
uma taberna escondida numa ruela qualquer. Tinham que
jantar espalhafatosamente no Strand. E não podiam ir
a pé. Tinham que ir de carruagem.
Carneiro e cerveja? Meu Deus, que sugestão. Lombos
de vitela e um vinho francês leve. A seguir patinho, mas
bastante tenro. As suas maneiras ao encomendar eram
magníficas, ao pagar, superiores ainda. Os criados desfaziam-se
em mesuras perante ele. Ao sair, se vacilasse
um pouco, não tinha grande importância - tinha um ar
tão garboso, que era extremamente fácil chamarem-lhe
outra carruagem.
- E agora? Para a Ópera? - sugeriu ele, tinindo os
trocos na algibeira. A ideia era tentadora, mas quanto
sobrara das dez libras que ganhara ao jogo? Mary Anne
abanou a cabeça.
- Esta noite, não - disse ela amparando-o mesmo
a tempo. Afinal, era muito bom não haver perguntas na
pensão de Clerkenwell.
Nos dias que se seguiram, Mary Anne deu-se conta
que, dos dois, ela é que tinha de ser prática. Tinha que
assumir o comando. Joseph, deleitando-se com a sua
liberdade, não desejava mais nada senão ficar na cama
para além do meio-dia e, depois, passear vagarosamente
sem destino, para espairecer. «Porquê olhar em frente?
Planear, para quê?»-costumava dizer, discutindo de
61
seguida onde iriam jantar essa noite. Dinheiro? Ora
bolas! Não há problema. De momento tinha muito.
Mais tarde, quando estivesse sem dinheiro, poderia sempre
ganhar mais dez libras ao jogo e se acontecesse o
pior e tivesse que engolir o orgulho, condescenderia em
aproximar-se do pai. Entretanto, era tão agradável preguiçar
e fazer amor.
Enquanto Joseph dormitava no seu ombro, Mary
Anne planeava o que fazer em seguida. O primeiro passo
era indicar o seu paradeiro a Charley, para que O rapaz
agisse como intermediário, levando roupas, coisas imprescindíveis,
até comida, se possível, da casa de Black
Raven Passage. Aquilo parecia fácil. Charley trocaria os
ciúmes pela aventura e o romance. Se o descendente
do clã Mackenzie não podia rastejar por entre a urze
com um punhal nos dentes, podia, pelo menos, escapulir-se
da casa materna com um cesto de pão e receber
um xelim pelo seu trabalho.
Charley contou que em casa havia choro e ranger
de dentes. Mr. Day contara a sua versão dos acontecimentos
daquela noite em Islington, declarando que Mary
Anne era uma rapariga desaforada. Mrs. Farquhar dera
a sua filha como desaparecida. Descrições, tanto de Mary
Anne como de Joseph, haviam sido enviadas para os
jornais. Essas mesmas descrições haviam sido afixadas
nas portas de lojas, tabernas e casas de pasto.
Sim, havia sido visto no Crown and Anchor, três
semanas antes. Um tipo forte, pesado, de olhar maroto?
Sim, há cinco ou oito dias atrás, mas no White Hart e
não no Crown and Anchor. Visitaram pensão atrás de
pensão, em vão. Ele não era conhecido em Deptford.
Finalmente, havia notícias mais seguras na última estalagem
da estrada de Londres.
- Farquhar? Um grupo com esse nome esteve cá
há duas noites atrás. Marido e mulher. Quarto número
quatro. Apanharam a carruagem para Londres com a
filha,
Mulher e filha. Aquilo não era viver em pecado,
era bigamia. Havia castigo para a bigamia.
- Eles disseram para onde iam?
- Não, mas ouvi a filha falar em Pancras Fields.
62
De regresso a Londres, ao outro lado da cidade. Já
que estavam ali, ela e Joseph, não seria aconselhável
escaparem-se também?
A mulher pintada e desmazelada que geria a pensão
em Clerkenwell, seguira-os desconfiadamente com os
olhos, naquela manhã, segurando na mão uma cópia do
Advertiser. Charley tinha que servir novamente de intermediário.
Tinha que ir buscar os parcos haveres de
ambos e trazê-los à nova morada, que era: Pancras, nos
arredores da cidade. Se o padrasto estivesse naquela
zona, seria fácil de encontrar. Pouco mais era do que
uma aldeia e só havia duas tabernas.
- Mas, isto é o fim do mundo - protestou Joseph.
- Estou a ver, além, do outro lado, uma quinta e vacas
a pastar. Vamo-nos aborrecer de morte num lugar como
este.
Um beijo, umas palavras de amor, uma festa no
cabelo, e ele ficava tão fácil de manejar como Charley.
Ela deixou-o a pendurar as suas gravatas num fio que
ia de parede a parede.
Bob Farquhar não estava em nenhuma das tabernas
Mas, na segunda, deram-lhe um palpite, assim, acabou
por encontrá-lo do outro lado de Pancras Fields, numa
pequena casa, sentado diante de uma refeição caseira
de bacon, pão e queijo. Defronte dele, estava uma
mulher forte, de ar maternal, mais ou menos da sua
idade, que nunca conhecera melhores dias e uma rapariga
de ar muito deslavado que, por estranho que parecesse,
tinha fortes semelhanças com Bob Farquhar.
- Terão de mudar de alojamento, ou serão apanhados
avisou Charley. - Serão então levados a tribunal
e enviados para a prisão.
- Não podemos ir para a prisão por estarmos apaixonados
- disse Mary Anne.
- Podem, se não forem casados - retorquiu Charley. Ouvi
Mr. Day dizê-lo. Chamam a isso viver em
pecado e ele deve sabê-lo.
E, na verdade, sabia. A prova estava no molho de
chaves que entregara a Mary Anne, quando governanta,
-Temos de casar. Temos de o fazer, Joseph, estás
a ouvir?
63
Joseph, os pés apoiados na barra da cama e a
cabeça aninhada em almofadas, estava a arranjar as
unhas, uma ocupação agradável e relaxante. Bocejou:
- Não percebo nada de leis - disse ele - e nem
quero saber. Mas tu és menor - só tens quinze anos.
Portanto, como é que vamos ultrapassar isso?
O problema era esse. A mãe tinha ainda os trunfos
todos, a não ser... que Bob Farquhar fosse encontrado
Então, subornado, lisonjeado, aliciado, ameaçado, chantageado,
teria que dar o seu consentimento, como tutor
legal. A ideia nasceu, criou raízes e expandiu-se na
mente de Mary Anne.
A procura de Bob Farquhar nunca fora exaustiva
Fora deixada inteiramente ao cuidado de Mr. Day. Agora
que o conhecia melhor, Mary Anne acreditava que ele
nunca o quisera encontrar. Nunca conviera a Mr. Day
encontrar o seu padrasto. Imaginava a piscadela de olho
familiar e a risada abafada:
-Governanta? Disparate! -teria dito.
Mary Anne retirou as almofadas de sob a cabeça
de Joseph e obrigou-o a levantar-se.
Ele fixou-a bocejando, inútil, relutante, mas incrivelmente
belo:
- Que se passa agora?
-Despacha-te, veste-te. Vamos a Deptford.
Bob Farquhar era esquivo, astuto e manhoso. Por
isso, passara vinte anos a imprimir folhetos escandalosos.
Conhecia os truques todos - para onde desaparecer,
onde se esconder, como arranjar um ninho confortável
para si e para uma companhia agradável e, desse
modo, escapar à responsabilidade e a uma mulher reprovadora.
Quem mais forte bate, sempre ganha, pensou Mary
Anne. Preparou o golpe:
- Finalmente, encontrámo-lo - disse ela. - Tenho a
família toda lá fora, numa carruagem de aluguer, com
dois advogados. Que tenciona fazer?
Para seu desgosto, o padrasto não pareceu incomodado.
Recostou-se na cadeira e tirou um jornal da algibeira:
- Posso ler-lhes o Advertiser - disse ele. - «Desaparecida
de sua casa desde o dia dezassete de Abril,
64
Mary Anne Thompson, aliás, Farquhar, filha de Elizabeth
Mackenzie Farquhar, do número dois de Black Raven
Passage, Cursitor Street, tendo quinze anos de idade,
olhos azuis, cabelo castanho-claro, uma tez fresca, de
aspecto cuidado, etc., etc. Ou já viste uma cópia disto?
Atirou-lhe o jornal e ela, habituada aos velhos tempos
de Bowling Inn Alley, em que fazia isso com os
panfletos, apanhou-o.
- Dado que escapámos ambos à tua mãe, estamos
quites - disse Bob Farquhar. - Apresento-te Mrs. Farquhar
número dois ou, como era conhecida antes, Mrs.
Favoury, e a Martha, esperança da nossa velhice.
A dignidade estava fora de questão, impossível qualquer
fingimento. Em segundos, Mary Anne estava sentada
com eles, a comer pão e queijo.
- A questão é que, se eu o denunciar, o senhor
também me pode fazer o mesmo. Tudo bem, dependemos
um do outro.
- Faz sentido - respondeu ele.
- O senhor é um bígamo.
- Precisas de umas palmadas.
-Conheço o Joseph há apenas oito semanas, mas,
para mim, é o único homem deste mundo.
- Conheço Mrs. Favoury há dezassete anos e levei
este tempo todo para me decidir entre ela e a tua mãe
- Andou cá e lá, entre elas?
- Era-me impossível ter as duas ao mesmo tempo,
Mrs. Favoury, de modo algum incomodada;, bebia
chá e sorria para ambos. Mary Anne, evocando as censuras
mudas da mãe, achou estranho que o pai tivesse
levado dezassete anos a decidir-se. Não obstante, ele
conseguira conciliar o que de melhor havia nas duas
mulheres. E já não era surpreendente que Martha tivesse
o nariz e os olhos do pai.
- Então, entregaste o coração a esse tipo?
- Entregámos os nossos corações um ao outro
- E as perspectivas, são boas?
- O pai dele é rico.
- É mais do que tu tens. Será compreensivo?
- Será, quando me conhecer.
- Hum... Quem casa a correr, toda a vida tem para
se arrepender.
5 - Mary Anne
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- Quem casa tarde, perde um coração que arde
Ela não ia esperar dezassete anos por Joseph Clarke,
como o padrasto fizera por Mrs. Favoury.
- Muito bem, que queres tu que eu faça?
- Dê o seu consentimento, como meu pai que é,
- Quem pagará a licença?
-O Joseph paga. Ele faz o que lhe mandam. Eu
trato disso. Podemos casar aqui em Pancras. Ao chegar,
reparei na igreja.
Bob Farquhar suspirou:
- Teremos que escapar logo a seguir -disse ele.
- Eles encontram-me logo, mal ponha o meu nome na
tua licença de casamento. A tua mãe exigirá satisfações.
- Da mãe trato eu.
- Vamos lá, então, dar uma vista de olhos ao teu
namorado.
Desconfiaram logo um do outro, o contraste entre
eles era enorme. Um era alto, elegante e desdenhoso;
o outro, baixo, atarracado e fanfarrão. Olharam um para
o outro, como dois cães antes de se pegarem. Não era
momento para conversa de salão, gracejos, ou trocas
de impressões. A situação exigia uma visita imediata
à taberna mais próxima. Ficaram lá dentro duas horas
e saíram de lá como dois irmãos.
- Lembra-te sempre, minha querida - disse Mrs.
Favoury a Mary Anne, enquanto observavam os dois
homens dirigirem-se para elas, de braço dado, não há
nada na vida que não se resolva com um copo. Ou,
talvez, dois copos. Abrem o coração e fecham a cabeça,
que é o que nós, mulheres, queremos dos nossos
homens. Podes apostar, o casamento são favas contadas.
Ela tinha razão. O consentimento fora dado. No dia
seguinte, enquanto os homens curavam a ressaca, Mrs.
Favoury e Mary Anne compraram a licença e falaram
com o pároco da igreja de St. Pancras. Mrs. Favoury
concordou que, nem ela nem a pequena Martha bolachuda,
de olhos esbugalhados de excitação, estariam
presentes na cerimónia, com receio de serem descobertas.
Mary Anne meteu dois xelins na mão do coveiro,
que concordou em ser testemunha do acontecimento.
Faltava apenas arrastar o noivo ao altar.
66
- Joseph, acorda! Hoje é o dia do nosso casamento
- Seco, ou molhado?
- Está um dia lindo, nem uma nuvem no céu.
- Mais uma razão para ficar na cama, O dia aguenta-se.
Bocejou, espreguiçou-se e deixou-se vestir.
Aquela camisa, a de cambraia, nunca usada antes. Não.
não, o colete de cetim. Gravatas? Levaria meio dia para
encontrar uma que condissesse com o colete. Ele vira
uma linda numa camisaria no Strand. Não poderiam
alugar uma carruagem para ir ao Strand antes do casamento?
Impossível. A hora estava marcada. O pároco
estava à espera.
- Gostas do meu vestido? Comprei-o ontem. Mrs
Favoury foi generosa.
-Acho-o encantador. Mas cor-de-rosa porquê? Vai
chocar com o salmão da minha gravata.
- Ninguém vai reparar, a esta hora da manhã. Por
favor, despacha-te.
Era o dia dezanove de Maio de 1792. Atravessaram
os campos em direcção à pequena igreja de Pancras, de
mãos dadas, sob o sol tépido. Não era só a manhã do
casamento de Mary Anne, mas também o dia do seu
décimo sexto aniversário.
A meio caminho da igreja, Joseph apalpou, de repente,
a algibeira do casaco:
- Aconteceu uma coisa terrível. Esqueci-me da
licença.
- Tenho-a eu. E tem de haver uma segunda teste-
munha. Também pensei nisso.
- Quem é?
- O coveiro da igreja de Pancras. Dei-lhe dois
xelins pelo seu trabalho. Despacha-te, estão à nossa
espera.
Bob Farquhar, com uma flor na botoeira, estava
de pé à porta, com o pároco ao lado.
- Já pensávamos que tinhas mudado de ideias disse
ele.
Mary Anne, agarrada ao braço de Joseph, sorriu
-Nunca na vida - respondeu ela.
O padrasto olhou para eles, interrogando-se sobre
o jovem dandy, com o seu ar distante e desdenhoso
sobre Mary Anne, corada, excitada e radiosa no seu
novo vestido cor-de-rosa.
67
- Vamos ver se sentes o mesmo por ele, daqui a
dez anos - disse ele.
O reverendo Sawyer conduziu-os para dentro da
igreja. Era muito simples e despretensiosa. Um raio de
sol filtrava-se através do vitral, até às paredes caiadas
Ouviam-se, lá fora, os pássaros a cantarem nos ramos
dos ulmeiros ao lado da igreja e o distante balido dos
carneiros em Pancras Fields.
Mary Anne proferiu os seus votos numa voz clara
e decidida. Joseph, mal se ouviu. Depois, na sacristia,
ela assinou o seu nome primeiro, no registo, por cima
do dele.
- E a lua-de-mel? - perguntou o pároco, encantado
por ter transformado um casal inocente em marido e
mulher. - Onde vão passá-la?--Entregou o registo de
casamento a Joseph e aguardou uma resposta. Este
virou-se inquiridoramente para a noiva. Tendo-se sentido
deliciosamente em lua-de-mel nas últimas cinco semanas,
certamente não iria haver alteração. A vida continuaria
como antes - andando de carruagem, jantando,
gastando dinheiro no turbilhão da vida de Londres, indo
para a cama muito depois da meia-noite e levantando-se
por volta do meio-dia.
Mary Anne sorriu. Fazendo uma pequena vénia ao
reverendo Sawyer, tirou o registo de casamento das
mãos de Joseph.
- Vamos para Hampstead - disse ela. - O meu
marido necessita de descanso, leite fresco e ar do
campo.
Olhou fixamente para Joseph e este retribuiu. Bob
Farquhar deu uma risada trocista e acotovelou o coveiro
nas costelas.
Era a primeira contestação de Mary Anne.
68
CAPÍTULO 7
HAVIAM falado do assunto vezes sem conta, mas
nunca tinham chegado a conclusão alguma. Era
inútil discutir: Haviam chegado a um impasse.
- Então, mentiste-me o tempo todo?
- Eu nunca minto. Dá muito trabalho.
- Disseste a toda a gente, na primeira noite em
Black Raven Passage, que tinhas muito dinheiro.
- Na realidade, tinha, na altura. Foi-se muito
depressa. Posso sempre arranjar mais.
- Como tencionas fazer isso?
- Às cartas, especulando e apostando em cavalos.
Alguma coisa há-de surgir.
- Mas, o teu pai, tu disseste-me que ele era rico,
que poderias sempre obter dinheiro dele?
- É um bocado complicado.
- Que queres dizer, complicado?
Ela colocou as mãos nos ombros dele e forçou-o a
olhar para ela. Porquê sempre aquele riso descuidado
e o encolher de ombros apologético?
- Joseph, tens de me dizer a verdade. Já, e acabamos
com a conversa. Amo-te, prometo que não fico
zangada.
Estavam casados há seis semanas e apesar de ela
ter conseguido que ele lhe fizesse a vontade, indo para
Hampstead - haviam vivido pacatamente numa casa de
hóspedes, o ar tinha-lhe trazido uma certa cor ao rosto,
de modo que ele perdera aquele ar dissipado - continuava
a recusar discutir o futuro - e quando ela lhe
perguntava se ele escrevera ao pai mudava de assunto.
69
A calma de Hampstead estava a saturar. Ela queria
regressar à cidade para ver a mãe e os rapazes, pavo-
neando-se nas ruas como Mrs. Joseph Clarke, nora de
um conhecido construtor e gozar ao máximo o estatuto
de mulher honrada e casada.
Já deviam o alojamento de duas semanas e era ridículo
viver daquela maneira miserável e furtiva, quando
uma palavra do pai de Joseph restabeleceria a sua posição
e trar-lhes-ia respeito, para onde quer que fossem
Mary Anne queria os habituais privilégios de uma noiva
- as prendas de casamento, as congratulações, as ofertas
do linho e prata e a mudança para casa própria (não
precisava de ser grande, de início). De que servia ser
casada, se não possuía ainda nenhuma destas coisas?
Haveria, também, um bebé no Outono -ela tinha,
agora, a certeza disso. Então, nada senão o melhor lhe
conviria; Joseph tinha de entender isso. Ela fixou-o
novamente. Os olhos escuros dele pestanejaram e evitaram
os dela.
- Que se passa, Joseph?
Subitamente, ele levou a mão à algibeira e retirou
uma carta.
- Muito bem: - disse ele, ganhaste. Não vi necessidade
de estragar o nosso divertimento antes, com isto.
É melhor leres.
A carta não tinha cabeçalho, estava datada de vinte
e três de Maio, quatro dias depois do seu casamento e
vinha remetida de Angel Court, Snow Hill.
Dado que continuas a ser um grande desapontamento
desde muito novo, não fiquei surpreendido ao
saber, por Thomas Burnell, da tua vergonhosa conduta.
Devo recordar-te que não é a primeira, nem a segunda
vez que te comportas desta maneira e foi a esperança
de te afastar de sarilhos que me fez colocar-te como
aprendiz no Burnell. Nunca acreditei no teu suposto
talento, que Burnell confirma ser insignificante. A tua
única esperança, segundo penso, é ganhar uma honrada
libra, ou duas, fazendo biscates como pedreiro, sob as
ordens de alguém. Sei que casaste com a jovem que
seduziste, o que, conhecendo o teu carácter, me surpreende,
mas o assunto tem pouco interesse, pois não
tenciono receber nenhum dos dois. Em atenção à tua
70
mãe, conceder-te-ei até ao fim dos teus dias, a quantia
de uma libra por semana ou de cinquenta e duas libras
anuais, mas não deves esperar mais coisa alguma de
mim, além disto e, pela minha morte, todo o dinheiro
que possua e o negócio irão para os teus irmãos.
Teu Pai, Thomas Clarke
Joseph olhava para a sua noiva, enquanto esta lia a
carta. Manteria ela a promessa de não se zangar? O seu
génio era repentino, sabia disso. Já haviam brigado antes,
com cenas, palavras iradas, que, até ao presente, ele
conseguira aplacar com gestos de amor. Mas, que iria
ela fazer quanto à referência «mau comportamento» na
carta do seu pai? «Nem a primeira, nem a segunda vez».
O problema era esse. Teria de confessar o infeliz caso
da irmã do estalajadeiro? Ou o mais infeliz ainda caso
da mulher do carroceiro? Teria de enfrentar acusações,
lágrimas, uma saída impetuosa do quarto, seguida de
um bater de portas e um regresso à casa materna?
Joseph não conhecia a noiva tão bem como pensava.
As alusões à sua conduta anterior deixaram-na
impassível. A maneira como ele se aproximara, na primeira
semana, em Black Raven Passage, explicara, sem
palavras, tudo o que ela pretendia saber acerca do seu
passado. Uma frase acima de todas as outras, na carta,
atingiu-a fortemente, «nunca acreditei no teu suposto
talento, que Burnell confirma ser insignificante». A importância
daquela frase era crucial. E a sugestão para
o futuro, «fazendo biscates como pedreiro, sob as ordens
de alguém». Seria aquela a única perspectiva nos anos
vindouros?
Ela rasgou a carta aos bocados e sorriu para o
marido.
- Esquece o teu pai - disse ela. - E quanto aos
teus irmãos?
Ele encolheu os ombros:
- John é o mais velho, filho do primeiro casamento
do meu pai, é muito mais velho que nós. Casado, com
família e vivendo em Charles Square, Houston. Damo-nos
bem, os dois. O Thomas é igual ao meu pai, trabalhador,
cuidadoso e desconfiando sempre de mim. James não
71
tem nada que ver com o negócio, está em Cambridge,
a estudar para ir ser sacerdote - e tenho, também,
uma irmã. Mas de que serve falar deles? Eu sou a
ovelha ranhosa. Sempre foi assim. - Denegrir a família
ajudava um pouco o seu estado de espírito. Ao culpá-los
a eles, absolvia-se a si próprio. Nunca era culpa dele.
- E quanto ao teu tio?
- Que tio?
- Contaste-nos, lá em casa, que o teu tio era o
vereador Clarke, que poderia, um dia, vir a ser Lorde
Mayor of London?
-Ah, isso. - Joseph encolheu novamente os
ombros. - Na verdade, a nossa relação é muito distante.
Nem sequer o conheço.
Todas as palavras que ele proferia confirmavam
todos os receios de Mary Anne. A verdade era que, apercebeu-se
ela no momento, ele a enganara o tempo todo.
Os Clarke não eram a família rica que ela supusera
serem. Eram comerciantes como centenas de outros,
sem grandes conhecimentos e vivendo mediocremente.
Estivera tão apaixonada por Joseph, tão cega pelo seu
encanto, que nunca lhe passara pela cabeça questioná-lo
mais profundamente. Estivera apaixonada. Estaria já a
pensar no passado? Não... nunca... nunca... afastou o
pensamento.
- Só há uma coisa a fazer - disse ela, é aproximarmo-nos
do teu irmão, John. Deixa isso ao meu cuidado.
O seu natural optimismo voltara-lhe, como sempre,
quando tinha que pensar, ou planear alguma coisa. Levaria
a melhor sobre o cunhado John, assim como levara
a melhor sobre Mr. Day, quando ele a autorizara a levar
cópias para corrigir, em Bowling Inn Alley. E muito dependeria
da mulher de John.
Foi a Houston sozinha. Escolheu uma tarde de domingo,
dia em que o cunhado John, amolecido por uma manhã
na igreja e por um almoço de domingo, estaria confortavelmente
em casa, no seio da família.
Charles Square, agradável e sossegada, de casas
recém-construídas, irradiava um ar de fleumática respeitabilidade.
72
«Podíamos ficar com o andar de cima», pensou ela.
«Deve haver dois quartos para a frente e outro para as
traseiras. Sem pagar renda».
Levava o seu vestido de casamento, de musselina
cor-de-rosa. Tinha um ar muito inocente e jovem. A porta
foi aberta pelo próprio cunhado, John. Reconheceu-o imediatamente.
«Era uma versão mais velha, mais flácida e
menos elegante de Joseph e ainda mais fácil de manejar»,
pensou ela.
- Desculpe-me - disse ela, sou a mulher de
Joseph - e desatou a chorar. O efeito foi como que
mágico. A ajuda fraterna até à sala de visitas, o apelo
ansioso à mulher (um ar maternal, graças a Deus), os
olhos curiosos das crianças apressadamente retiradas
da sala e, após a calma restabelecida e um tónico gentilmente
oferecido, ela contou a história:
- Se Joseph soubesse que eu vim, nunca me perdoaria.
Disse-lhe que ia visitar a minha mãe. Mas eu
soube, pela maneira como ele me falou de vós, que não
me fechariam a porta. Tem-vos grande afeição, mas
conhecem o seu orgulho.
Eles duvidavam da afeição e orgulho de Joseph, mas.
quando ela lhes sorriu através das lágrimas, a dúvida
deixou de existir.
- A carta do pai quase lhe quebrou o coração. Têm
conhecimento dessa carta, claro?
Eles sabiam. Era desolador, mas nada se podia fazer
- O casamento foi por minha culpa. Obriguei-o a
fugir. Eu era infeliz em casa e a minha mãe mandou-me
para casa de um homem chamado Day, como governanta
Ela contou a história de Mr. Day - a entrada forçada
no seu quarto às dez horas da noite, omitindo o tímido
bater à porta, e a sua consequente fuga para os braços
de Joseph.
- Que teria feito no meu lugar? - perguntou ela a
Mrs. John.
Mrs. John Clarke demonstrou horror, choque e ansiedade.
Pobre criança, que experiência.
- Sabia que a minha mãe não me podia proteger
e o meu irmão, Charley, não tem idade para isso. Tive
que recorrer a Joseph, em quem confiava. Não era correcto
vivermos juntos, por isso fomos obrigados a casar
O meu padrasto concedeu-me autorização para o fazer
73
Apercebeu-se com crescente espanto, que a sua
história era verdadeira. Inventara apenas a entrada forçada
no quarto, o que a tornava verosímil.
- E onde está o seu padrasto, agora?
- Foi para a Escócia. Devemos duas semanas de
renda, no nosso apartamento, em Hampstead e vamos
ser postos na rua até sábado. Se ao menos tivéssemos
para onde -ir... Sabe, no Outono... Olhou para Mrs. John
Clarke. Esta compreendeu.
Em menos de uma semana, Mr. e Mrs. Joseph Clarke
haviam-se mudado para Charles Square. O andar de cima
era deles. Não era o que Mary Anne esperara perante
o altar da igreja de Pancras, mas nunca ninguém necessitaria
de o saber, excepto ela. E a vizinhança era superior
à de Black Raven Passage. Dava distinção. Pôde
assumir um pequeno ar condescendente, quando visitou
a mãe pela primeira vez:
- Como vê, a situação é muito conveniente. Vivemos
separadamente, mas se eles quiserem companhia,
nós estamos lá. Joseph, claro, tem a mesada do pai e
é totalmente independente.
Era uma história diferente da que Mrs. Farquhar
ouvira da boca de Thomas Burnell, mas servia perfeitamente.
Sentira a falta da sua filha. Tudo estava perdoado.
A única coisa que não compreendera, fora o
súbito reaparecimento do seu próprio marido, que decidira
desaparecer de novo após o casamento.
- Como vou eu viver? Que vai ser da Isobel e dos
rapazes?
-Tem que continuar a receber hóspedes.
- Como pudeste tu deixar fugir o teu padrasto?
Certamente poderias tê-lo impedido, porque eu mereço
uma reparação, perante a lei.
- É inútil, ele não tem dinheiro.
Não se falou mais de Bob Farquhar. Fizera o que
se lhe pedira e podia ser esquecido. Não se enquadrava
em Charles Square, onde, nem John Clarke ou Joseph
Clarke, se sentavam à mesa em mangas de camisa. Aparência
e boas maneiras acima de tudo. Mary Anne estava
disposta a esquecer o padrasto para sempre, mas não
contara com a Martha bolachuda.
Esta chegou, uma manhã, à porta da casa em Charles
Square, em resposta a um anúncio num jornal, pedindo
74
uma ama para o bebé que estava para nascer. Mary Anne
agarrou-a e levou-a para o andar de cima, antes que
Mrs. John a visse:
- Que estás tu a fazer aqui? Quem te disse para vir?
--Vi o anúncio no jornal. Calculei que fosses tu.
A criatura olhava-a fixamente, numa adoração apática
e muda. Seria atrasada mental? Não tinha um olhar
um tudo nada parado?
- O meu padrasto sabe que estás aqui?
- Eles não me querem mais, disseram-me que
tenho de ganhar a vida. Por isso, vim para te servir.
- Quanto é que tu queres ganhar?
- Não sei. Comida e dormida, suponho eu.
Sim, ela sabia cozinhar, lavar, remendar, passajar
e sabia ir ao mercado.
- Se cá ficares, não podes falar no meu padrasto,
nem na tua mãe. Nem de me já teres visto em Pancras
Serás Martha Favoury, a minha criada, estamos entendidas?
- Estamos.
- Se fizeres qualquer coisa que me desagrade,
mando-te imediatamente embora.
- Não te deixo ficar mal. Farei o que me mandares.
Num instante, Martha arranjou um avental. No dia
seguinte, esfregava a lareira. Um aceno e um sorriso em
Pancras, haviam-na transformado logo em escrava. «Sim,
minha senhora, não, minha senhora. Sem ordenado, apenas
comida e dormida.»
Mrs. Joseph Clarke tinha agora uma criada. Podia
dizer a Mrs. John Clarke:
- Se quiser, posso dispensar-lhe a Martha durante
a tarde. Uma atitude assim, anulava quaisquer obrigações.
As duas senhoras estavam agora em igualdade
de circunstâncias.
Mary Anne e Joseph viveram dois anos em Charles
Square e, durante esse tempo, tiveram dois filhos. O primeiro,
morreu pouco depois de nascer. O segundo, uma
rapariga, sobreviveu, foi baptizada e recebeu o nome da
mãe, Mary Anne. Quando o terceiro filho vinha a caminho,
Mary Anne declarou que o andar de cima da casa
de Charles Square já não era suficiente, tinham que
arranjar casa própria. Mas, quem a pagaria? O pai de
Joseph havia morrido e mantivera a sua palavra, não lhe
75
deixando, nem mais um tostão, senão as cinquenta e
duas libras anuais. O negócio de Snow Hill prosperava,
mas sem o segundo filho. Este encolhia os ombros. Tinha
uma libra por semana, não pagava a renda, nem sequer
tinha que pagar ordenado à criada, portanto, para quê
preocupar-se? Poderiam viver indefinidamente em casa
do seu irmão John.
- Não queres ser independente?
- Eu chamo a isto independência.
- Não queres ser respeitado, considerado, conhecido
como um artífice, tal qual Thomas Burnell? Não gostarias
de ver o teu nome, Joseph Clarke, anunciando o
teu próprio negócio?
- Prefiro viver como um cavalheiro.
Mas seria viver como um cavalheiro, passar o dia
indolentemente no terceiro andar da casa do seu irmão,
sugerindo mais vezes do que as necessárias irem jantar
ao andar de baixo? Não seria este o primeiro passo
que os conduziria à situação de miseráveis, desprezados,
dignos de dó, «os parentes pobres?» Se, ao menos, ele
tivesse energia e ambição.
- John, sentimos que estamos a mais. Os seus
filhos estão a crescer e vai precisar dos nossos quartos.
- Que disparate, minha querida. Há espaço para
todos.
- Mas o Joseph precisa de trabalho, precisa de
ocupar o seu tempo. Ele tem talento. Se, ao menos,
tivesse oportunidade de o demonstrar... O testamento
foi injusto e desleal. Joseph tem direito a uma parte do
negócio da família.
John ficou preocupado e incomodado. A morte do
pai havia causado problemas a todos eles. Já tinha conflitos
com o seu outro irmão, Thomas, que herdara a inteligência
e a maior parte do capital. Além disso, ele
próprio caíra em desgraça por ter ajudado Joseph. Às
vezes, pensava se não seria melhor separarem-se totalmente,
deixando Thomas seguir o seu caminho, aposentando-se
ele de seguida.
- O Joseph não exige nada -disse Mary Anne,
notando a ruga de ansiedade e o sobrolho franzido de
indecisão - eu é que peço por ele. Seria necessário
apenas uma pequena soma para que ele montasse o
seu próprio negócio. Naturalmente, mal tivesse os pri-
76
meiros lucros, pagar-lhe-ia o empréstimo. A propósito, já
ouviu dizer que uns cervejeiros de Golden Lane vão
vender a casa? Está em bom estado e possui um pátio
nas traseiras. Se Joseph arranjasse um aprendiz para
o ajudar, um rapaz no seu primeiro ano...
Charley serviria. Ninguém de fora. Os lucros ficariam
todos na família, não se pagariam ordenados a
estranhos.
- Poderia começar como filial do negócio de Snow
Hill, não acha? Mas o Thomas não poderia ter voz activa,
ficaria tudo nas suas mãos e nas de Joseph, visto que
se entendem tão bem.
No Natal de 1794, a família de Joseph Clarke mudou-se
para Golden Lane... Finalmente, Mary Anne tinha
a sua própria entrada e escada. Não tropeçaria mais
nos filhos do cunhado, John. Tinha as suas próprias cortinas
novas colocadas nas janelas e as suas próprias
carpetes novas a taparem o soalho. Martha, num vestida
de algodão estampado, de touca e avental, fazia as encomendas
ao rapaz do talho. Havia um carrinho para a
segunda Mary Anne, um berço para o bebé que vinha
a caminho, pago com os fundos que haviam sido colocados
no negócio, fundos esses pagos por John, que
havia discutido com Thomas por causa disso.
- Como vai o negócio»? Vai muito bem, na realidade.
Uma encomenda para um monumento em St. Lukes,
outra de St. Leonards. Joseph não tem mãos a medir,
Levar os visitantes ao andar de cima, mostrar-lhes
as divisões impecáveis, o bebé vestido primorosamente
e a criada respeitável na cozinha. Tudo sinais de prosperidade
e sucesso. Mas havia que manter a porta do
pátio fechada, para esconder os blocos de granito em
bruto, as ferramentas deixadas à toa e o patrão ausente.
- Mr. Clarke está em casa?
- Lamento, saiu em negócios. Uma encomenda importante.
E, tarde, muito mais tarde, Martha, sussurrando da
cozinha:
- O patrão voltou.
Joseph, com as mãos enfiadas nas algibeiras, dava
pontapés nos blocos de granito. Não era necessário perguntar-lhe
de onde vinha: o rosto afogueado, as mãos
pouco firmes, a tentativa imediata de a tomar nos bra-
77
ços, o beijo para afastar o seu olhar acusador, falavam
por si...
- Amanhã trabalho, hoje não. Hoje temos que festejar.
Ao diabo o trabalho.
Ela não devia ralhar, ameaçar ou mostrar reprovação.
Essas coisas haviam afastado Bob Farquhar de sua
mãe. Havia que sorrir, rir e andar de carruagem pela
cidade, mostrando confiança e optimismo. O ar fanfarrão
tinha que ser mantido perante a mulher de John, que
a visitara várias vezes durante o Verão, sempre com
problemas, e acabando, finalmente, debulhada em
lágrimas.
-John cometeu o grande erro de cortar relações
com Thomas - reconhece-o agora. É uma criança em
tudo o que respeita a dinheiro. A sua parte do capital
está a desaparecer rapidamente. Até que o estaleiro de
Golden Lane dê lucro, temos que depender da especulação
e John não entende nada da City (parte comercial
e financeira de Londres). Não pode persuadir Joseph a
trabalhar mais arduamente?
- Ele trabalha muito, mas o negócio está fraco por
causa das doenças de Inverno, da guerra e da incerteza
dos tempos que vão correndo. - Mary Anne agarrava-se
a qualquer desculpa para defender o marido. - E a especulação
não é necessariamente uma coisa arriscada, se
se conhecerem as pessoas certas. No outro dia, um
amigo de Joseph fez uma fortuna - creio que ele foi
apresentado a John. Se o seu conselho for seguido podemos
todos acordar ricos, uma manhã.
Nunca mostrar apreensão, nunca temer o futuro,
Um coração esperançoso ganha três quartos da batalha,
e a duplicidade, o restante. Não se pediria mais dinheiro
a John, até as especulações na City serem bem sucedidas.
Entretanto, Mr. Field, artífice de pratas em Golden
Lane, estava disposto a avançar pequenos empréstimos
nas condições por ela sugeridas.
- O meu marido é sobrinho do vereador Clarke, e,
se o negócio do meu marido não tiver lucros imediatos,
o vereador ajudar-nos-á mais tarde. Mas talvez um
pequeno empréstimo, por pouco tempo?
Por pouco tempo, havia poucos artífices de prata
que não tivessem a amabilidade de o fazer, tendo visto
a elegante e recentemente mobilada casa algumas por-
78
tas abaixo, o conjunto todo financiado presumivelmente
pelo futuro Lorde Mayor of London.
Também James Burton poderia ser assediado - não
financeiramente para já, mas com conselhos diários
sobre o trabalho. Ele era, agora, um construtor de
sucesso e podia ver, num relance, os defeitos e falhas
do estaleiro de Golden Lane.
- Uma palavra sua, Mr. Burton, significaria muito.
Joseph é reservado e tímido, não força as encomendas.
Em memória dos velhos tempos...
Velhos tempos? Ela sorria-lhe. Há muito que ele
deixara a casa da mãe de Mary Anne, em Black Raven
Passage. Vivia agora numa casa construída por si, em
Bloomsbury, mas, pela maneira como ela falava, meio
a brincar, meio nostálgica, era como se tivesse namoriscado
com ele e não com Joseph, três anos atrás.
«Eu merecia melhor», ela insinuava, atirava para o
ar, mas não o admitia por palavras. Pelos «velhos tempos»,
ele arranjou encomendas, mas o trabalho era imperfeito,
pobre e inacabado. Gradualmente, retirou o seu
patrocínio. Porque empregaria ele um pedreiro sem
talento, raramente sóbrio e que trabalhava como se estivesse
a fazer um favor?
- O problema, Mrs. Clarke, é que o seu Joseph
bebe.
- É pior que isso, Mr. Burton, ele não tem talento.
A afirmação do pai provava-se agora verdadeira
Não apenas insignificante, mas também inexistente.
Casara com um homem sem objectivos nem força de
vontade. No entanto, ainda o amava. Ele era jovem, era
dela e era belo. Ela segurava o primeiro filho, rapaz, nos
braços, numa quente tarde de Verão, Edward, de olhos
iguais aos seus, a mesma boca, o mesmo rosto. Mostrou
à sua irmã de dezoito meses, à fiel Martha e à
sorridente parteira; mas Joseph, que deveria lá estar
não estava.
Era o dia vinte e oito de Julho de 1795. Nascera o
filho e herdeiro de Golden Lane. Estava deitada, sozinha,
fixando o tecto do quarto. Se ele escolhera aquela
noite para se embebedar, ela não se calaria. O silêncio
podia ir até certo ponto, mas tudo tinha limites. Ela precisaria
do seu amparo como nunca antes. No dia seguinte
seria forte, estaria pronta a encarar o futuro e a tomar
79
as rédeas, mas naquela noite - por piedade - um pouco
de paz e carinho. Quando ele entrou, não estava bêbedo,
mas muito pálido. Nem sequer olhou para o bebé no
berço, mas sim directamente para ela.
- O negócio falhou.
Ela sentou-se na cama e olhou para ele, parado à
entrada do quarto.
- Que negócio? Que queres dizer?
Fui a Charles Square mal ouvi as notícias. Cheguei tarde
de mais. Ajoelhou-se ao lado da cama e começou a
soluçar. Ela segurou-o, como segurara o filho, uma hora
atrás.
- Nunca é tarde de mais, hei-de arranjar uma saída
- disse ela.
Joseph abanou a cabeça, o rosto desfigurado pelo
choro. O que quer que fosse que ela planeasse ou maquinasse,
não poderia já mascarar a sua incompetência.
O irmão confiante aceitara o seu conselho, como se de
um perito se tratasse.
- Quanto perdeu o teu irmão John? - perguntou
ela.
-As suas poupanças, tudo o que possuía. Soube
disso esta manhã na City, e não regressou a casa. Matou-se
com um tiro, ao meio-dia. Encontraram o corpo
na mala-posta, em Pentonville.
80
CAPÍTULO 8
O importante era manter as aparências, mostrar
um ar alegre e nunca denunciar quão próximos
estavam da falência. John suicidara-se: eles
sobreviveram. Por essa razão, a profusão de painéis pintados,
soalhos envernizados, cortinados de seda, roupas
alegres. Musselina com pequenas flores, para as crianças,
uma espineta alugada ao mês, ainda por pagar, pautas
de música, livros com encadernações de pele, castiçais
incrustados de prata. Desenhos de moda espalhados
em cima de uma mesa, programas de teatro, bordados
emoldurados, uma caricatura grosseira no mais recente
folheto de imprensa. Um cachorro de orelhas compridas
usando uma fita, dois periquitos numa gaiola. O conjunto
servia para mostrar bem-estar, prosperidade e sugerir
que Golden Lane não tinha semelhança alguma com
Bowling Inn Alley.
Tirem a carne e os ossos ficam à vista. O esqueleto
da pobreza troçava do alto das paredes. Cubram o estuque
caído com um lençol de damasco - assim, os vizinhos
viam os folhos e não as rachas.
Sozinha, deitada na cama ao lado do marido embriagado,
via a sua vida misturando-se com a da sua mãe,
repetindo-se o mesmo padrão. Um bebé todos os anos.
Mal-estar e irritação. Os quatro pequenos rostos à volta
da mesa, imitando o passado Mary Anne, Edward,
Ellie o bebé George - dependendo dela, nunca de
Joseph. Este, transformando-se no seu padrasto Bob
Farquhar, como que num pesadelo, olhos sonolentos,
6 - Mary Anne
81
inchados, sempre com uma desculpa nos lábios. Como
libertar-se, como fugir? Como derrotar a imagem da
mãe?
Mrs. Farquhar visitava a filha todos os domingos e
era sempre a mesma conversa de mulheres, lenta, entediante, o
preço do peixe, os caprichos do novo hóspede,
a Isobel que já ajudava em casa, uma cura para
o reumatismo. Mas algures, por trás da conversa, queixas
ficavam por dizer, uma reprovação muda daquele
casamento de amor tão desejado por Mary Anne, que
não trouxera riqueza. O terrível «eu bem te disse», era
um espectro entre elas. Tantas promessas naquela união
com os Clarkes e, afinal, nenhuma cumprida. Os meio-irmãos
de Mary Anne tinham ido para o mar, ao serviço
da marinha - mas como grumetes (isto nunca era mencionado)
e ambos haviam morrido afogados na batalha
de Cape St. Vincent. Charley vivia em Golden Lane como
aprendiz de Joseph, mas, sentindo-se num beco sem
saída, ameaçava ir-se embora para se alistar no exército,
- Disseste que seríamos todos ricos. Isso não aconteceu.
As encomendas que lhes apareciam, eram humilhantes.
Uma simples lápide para um vendedor de queijos,
ao cimo da rua, ou uma simples inscrição para o
talhante falecido em Old Street.
Sempre planeando, fingindo e escondendo a ineficiência.
Mas, e se isso continuasse através dos anos,
que aconteceria? Tinha de haver uma saída, não podiam
estagnar. Mary Anne lembrava-se dos velhos panfletos
escandalosos a meio-dinheiro a cópia, manuseados nas
tabernas por dedos sebentos. Notícias quentes por algumas
noites apenas, comentadas em ar de galhofa, discutidas
e depois usadas para embrulhar uma cabeça de
bacalhau para o gato, para mais tarde serem encontradas
ensopadas na sarjeta. Notícias publicadas por Mr.
Hughes, pela Blacklock na Royal Exchange, pela Jones
em Paternoster Row, por inúmeros outros, pela cidade
inteira. Quem escrevia aquelas obscenidades? Qualquer
escrevinhador de terceira categoria, com uma mulher
doente. Porque não uma mulher? Seria fácil persuadir
Joseph a darem um passeio, para procurarem as casas
de pasto onde os editores se encontravam. Seria fácil
misturar-se com eles, dar dois dedos de conversa, insi-
82
nuar-se, descobrir os seus nomes reles e as suas reles
moradias. E enquanto Joseph jogava aos dados, fanfarronava
e brincava aos cavalheiros, ela ficaria a conhecer
os mexericos necessários, material essencial para alimentar
o mercado. Sydney, de Northumberland Street,
Hildyard, de Fetter Lane, Hunt, de Beaufort Buildings, no
Strand: eles percebiam do assunto. Primeiro, a astuta
pena lisonjeava O leitor, escrevendo uma citação clássica
no topo da página, assumindo uma sabedoria que não
era pertença de quem escrevia ou de quem lia. Um
começo prosaico, parágrafos floreados e depois em
cheio! vinha a insinuação, a facada nas costas. O meio-dinheiro
era gasto naquilo, ficava escrevinhado o escândalo.
Quanto mais alto o nível, maior o interesse.
-Onde é que aprendeu a atirar tanto fogo-de-artifício,
Mrs. Clarke?
- No berço. Em vez de uma roca, tive uma bicha
de rabiar.
Na cama, enquanto Joseph ressonava, ela escrevinhava
esse lixo sem ninguém saber, nem mesmo Charley.
Servia os propósitos que ela pretendia. E, de cinco
dúzias de contas atrasadas, cinco foram pagas. Além
disso, afastava-a dos problemas caseiros: difteria e convulsões,
febre à meia-noite, buracos nas carpetes, os
amuos de Martha, pudins queimados e os abraços do
Joseph que ela já não desejava. Como evitá-los? Era
um problema premente: fingir-se doente, cansada, mentir
ao máximo e simular frigidez. Assim, não teriam mais
crianças, concebidas a soluçar. Quatro, bastavam. Mas
como ela as amara quando pegara nelas pela primeira
vez, com as pálpebras pesadas, indefesa, a cabeça zonza,
arrastando-se, frouxa, os olhos cerrados, as mãos pálidas;
as suas, não as de Joseph. Tivesse ela segurança
e geraria uma dúzia, mas nunca na situação em que se
encontrava. Mais pobres para a paróquia, nunca.
No entanto, onde estava a alternativa a Golden Lane?
Como vencer os credores? Gatafunhos à luz da vela
nunca os sustentaria a todos, nunca pouparia a mãe,
nem faria de Charles um homem. Havia demasiadas pessoas
dependentes do espírito de uma mulher com ape-
nas vinte e três anos de idade.
Ela travava uma batalha perdida. Os credores apareceram.
Levaram as mesas e as cadeiras, os periquitos
83
e as camas. Não havia comerciantes moribundos suficientes
a necessitarem de lápides, mas, se os houvesse,
desprezá-los-iam simplesmente. Joseph estava falido e
o estaleiro foi vendido. Até Martha teve que se ir embora,
lavada em lágrimas, protestando, para ir ocupar um lugar
de ama-seca para os lados de Cheapside. Aquilo aconteceu
no Verão de 1800, e um apressado plano de emergência
teve que ser elaborado. Sem esperança de ajuda
do irmão Thomas de Snow Hill, que tal o mais novo, o
cura? O reverendo James Samuel, que morara em Cambridge?
Tinha uma casa grande de mais para ele, em
Bayswater, e já dera asilo à viúva de John Clarke.
Podia-se arranjar espaço para mais, se todos se apertassem
um pouco. Assim, a família Joseph Clarke mudou-se
com armas e bagagem para Craven Place. Com o tempo,
talvez o cura se tornasse bispo, mas, entretanto, as crianças
estavam abrigadas, que era o mais importante, e
Joseph foi obrigado a entrar na linha - o que acontecia
ao virar da esquina não tinha importância, desde que
estivesse sóbrio, para jantar, às cinco horas. Os vizinhos
eram simpáticos, Craven Place, um subúrbio, o cura hospitaleiro
abria a porta a toda a gente e Mary Anne estava
sequiosa de caras novas. Os Taylor, do número seis,
foram o seu grande achado. Três irmãos no exército,
dois na marinha e a filha mais velha, sua homónima,
Mary Anne.
- Não pode haver duas Mary Anne, chamar-te-ei
May.
Uma vez mais, como na escola em Ham, tinha uma
amiga, alguém com quem gracejar, rir despropositadamente,
trocar chapéus, vestidos e fitas e ridicularizar
sem piedade todos os seus conhecimentos masculinos.
Todos aqueles disparates eram um bálsamo, um antídoto
para o casamento. Além disso, May Taylor tinha conhecimentos
que podiam ser de grande utilidade, pois se
Mary Anne queria manter as suas crianças, vestidas,
tinha que alimentar os editores de Fleet Street. Havia
uma avó Taylor em Berkeley Street, cujo estabelecimento
de ensino para meninas era sobejamente conhecido,
com prospectos que diziam, «as aulas de Mrs.
Western são para a educação piedosa de meninas pequenas
e para aprendizagem de damas mais experientes».
84
Quando as meninas eram despachadas para a cama,
as damas juntavam-se e, então, Mrs. Western, às vezes,
caía na indiscrição:
- Posso contar-vos o que se passa na alta sociedade.
Recebo os filhos das melhores famílias.
A jovem Mrs. Clarke, que fora aperfeiçoar o seu
francês, tomava notas de outro género, em símbolos de
imprensa. As anotações não eram mostradas ao cura,
nem aos Taylor, mas eram encaminhadas para a Pater
Noster Row. Resultado: uma pelissa para Ellen e um
carrinho de bebé para George.
Havia um Taylor em Bond Street, o tio-avô Thomas.
Como sapateiro da Família Real, ainda era mais valioso.
Não havia nada que não revelasse, após dois cálices de
Porto. Mas só aos amigos e familiares, dentro de quatro
paredes.
- Como melhor amiga da minha sobrinha, posso
contar-lhe isto, Mrs. Clarke, e fazia-o, para gáudio dos
abutres de Grub Street. Rubicundo, redondo, careca, com
um nariz de papagaio, o seu passatempo era o jogo das
damas, à lareira, com o estômago bem cheio.
- É a sua vez, Mrs. Clarke.
- Não, é a sua, Mr. Taylor.
-Perdeu a jogada, comi-lhe uma pedra. Mas que
estava eu a dizer?
- A Princesa Augusta...
- Ah! sim, no seu boudoir. Aconteceu em Windsor.
- E ninguém descobriu?
- A aia. Está no estrangeiro, mandada embora com
uma pensão.
- Mas quem era o amante?
- Chiu! Aproxime-se.
O tio-avô Thomas era um entre mil, esfregando o
seu nariz monstruoso, sempre com o tabuleiro das
damas à sua frente, mas às vezes ela suspeitava que
ele desconfiava.
-Viu o comentário no Personalities da semana
passada?
-Não, Mr. Taylor, o meu cunhado cura não compra
panfletos de meio-dinheiro.
- Curioso que aquela anedota acerca da Rainha
tenha sido divulgada. Perguntei a mim próprio, esta
manhã, quem teria revelado esse segredo.
85
Ah, quem, de facto. Ela colocou as pedras no tabuleiro
e deixou-o ganhar o jogo para afastar suspeitas.
Ele disse-lhe, em conversa, que ela lhe deveria comprar
os sapatos a ele. Bond Street, número nove, perto de
Piccadilly.
- O senhor é muito careiro. Não tenho posses para
os seus preços. O meu marido não tem dinheiro que
chegue para isso, Mr. Taylor.
- Mas eu soube pela minha sobrinha que ele vivia
dos seus rendimentos.
- Uma pequena pensão deixada pelo pai.
- Então, deve ter dificuldade em sobreviver, ainda
para mais com quatro crianças nos braços.
- Não é fácil.
- Gosta do seu marido?
- Estamos casados há oito anos.
Ele brincou com as pedras do tabuleiro e esfregou
o nariz. A confusão da sala de estar dos Taylor dava-lhes
uma certa privacidade. Ela perguntava-se onde quereria
ele chegar com tantas perguntas. Ele jogou a sua primeira
peça e ela fez o mesmo. Ele tossiu levemente,
clareando a voz e depois murmurou:
- É sempre possível aumentar os seus rendimentos.
Uma jovem senhora, bem parecida e elegante...
Ajudei várias com casos semelhantes ao seu. Não fale
nisso à minha sobrinha, que ela não sabe de nada.
Ela não sabe o quê? O que é que o velho estava
a murmurar? Quereria ele dizer que emprestava dinheiro
a três por cento?
- É muito amável da sua parte - disse Mary
Anne, mas eu detesto estar em dívida seja com
quem for.
De novo o aclarar da voz, o brincar com as peças
do jogo, e um olhar furtivo por cima do ombro, para ver
se estava alguém por perto:
- Não se trata disso, os cavalheiros pagam a despesa.
É tudo uma questão de acomodações. Tenho duas
ou três salas de recepção por cima das minhas instalações,
em Bond Street. Discretas e silenciosas, sem
receio de indiscrições. Só a nata da sociedade possui
a morada. O próprio Príncipe de Gales está entre os
meus clientes.
86
Então, percebeu. Meu Deus! Quem haveria de imaginar?
O velho tio Tom e uma casa de rendez-vous. Teria
que estar muito aflita antes de tentar uma coisa daquelas,
mas que divertido - não admirava que ele soubesse
todos os mexericos. Uma sombra caiu entre eles e o
tabuleiro. A pequena May Taylor estava ali com a mão
sobre o ombro de Mary Anne:
- Que estão os dois a discutir tão concentrados?
- O preço do cabedal. O seu tio diz que quando os
meus sapatos me começarem a magoar, terá prazer em
me fazer uns novos. Levantou-se e fez uma pequena
vénia, fixando os olhos do velho. Não havia mal nenhum
em que ele se apercebesse de que ela compreendera
tudo.
- Falei a sério, minha querida - disse ele. - Nunca
se sabe. Os seus sapatos podem começar a magoá-la a
qualquer momento.
Entregou-lhe o seu cartão com uma vénia e um
floreado:
Thomas Taylor
Sapateiro da Família Real
Bond Street, 9, Londres
- Está mal impresso - disse-lhe ela. - Não devia
ler-se Thomas Taylor, embaixador de Marrocos na corte
de St. James? A propósito, faz à medida? Ou tenho que
aceitar os primeiros sapatos que me oferecer?
Os pequenos olhos dele brilharam e as grandes
bochechas enrugaram-se:
- Minha querida senhora, asseguro-lhe a medida
exacta.
A sobrinha dele virou-se encantada e disse às
amigas:
- A Mary Anne vai comprar sapatos ao tio Tom.
Todas aplaudiram, riram e entraram na conversa!:
-Cuidado, vai-lhe custar caro.
- Extremamente caro.
- Certamente, tem condições especiais para a família,
tio Tom?
O velho aclarou novamente a voz, sorriu e não
respondeu. Nada de impróprio fora sugerido, prejuízo
algum fora causado. Ele mudou de assunto, para a
87
música e o canto. Os sapatos foram esquecidos e o
serão chegou ao fim. Mary Anne foi acompanhada a
casa, duas portas acima, por um Mr. Sutton, ex-capitão
dos Granadeiros e um dos conhecimentos do exército
de um dos irmãos Taylor. Conforme se despediu, segurou
na sua mão por um momento e então, com uma
expressão estranha nos olhos, perguntou-lhe:
- Onde nos encontraremos de novo, Mrs. Clarke,
em Craven Place, ou em Bond Street?
Seria uma insinuação? Ela fechou-lhe a porta na
cara e subiu as escadas a correr. Passou pela viúva de
John, pelo retiro do cura, pelos breviários colocados
em fila para o serviço do dia seguinte, pelo quarto das
crianças onde os quatro dormiam calmamente, inconscientes,
uma parte dela, e dela dependentes. Entrou no
seu próprio quarto, indo de encontro a Joseph, estatelado
no meio do chão. Falhara a cama e caíra. Admirou-se
de o cura não o ter ouvido. Pelo menos, poupara-lhe
a vergonha de aparecer em casa dos Taylor para
a ir buscar. Poupara-a a uma súbita entrada em passo
vacilante, ao silêncio seguido de animada conversa para
disfarçar o embaraço, enquanto um dos irmãos Taylor,
de bom coração, o seguraria pelo cotovelo.
Ela dobrou-se para lhe esvaziar os bolsos e encontrou
um xelim - ele tinha três guinéus ao sair de casa.
No dia seguinte, haveria as desculpas habituais e pedidos
de perdão. Jogara um pouco e tomara umas bebidas
com uns amigos. Ela colocou-lhe uma almofada sob a
cabeça e deixou-o ficar. Onde estavam o seu papel e
a pena? Com que alimentaria ela os abutres, esta noite?
Há dias que não havia nada da parte de Mrs. Western.
O último assunto fora acerca de um bebé encontrado
em Devonshire House, embrulhado numa toalha de rosto
e encontrado num armário. Dizia-se ser da criada da
cozinha, mas rumores diziam... Algo de novo acerca de
Mr. Pitt? Ela puxou pela cabeça: O primeiro-ministro
visto a cambalear no lobby (Câmara dos Comuns, grande
átrio, aberto ao público, especialmente utilizado para
entrevistas entre deputados e eleitores, ou outras pessoas).
Dois versos de Pope a dar-lhe um duplo sentido.
Lembra-te sempre que o ferrão está na cauda. Ela escrevinhou
durante vinte minutos e depois fechou os olhos.
88
Não vinha nenhum som de Joseph adormecido, além
da respiração. Uma criança chorou, mas foi novamente
adormecida carinhosamente, o cobertor entalado e a
almofada alisada. Não havia descanso na sua cabeça,
somente conjecturas.
O olhar apreciador e zombeteiro do capitão Sutton:
Craven Place, ou Bond Street, Mrs. Clarke?
89
CAPÍTULO 9
UMA semana mais tarde, houve retribuição de hospitalidade.
Os Taylor foram a casa dos Clarke,
objectivo, música. No dia anterior, recebera um
bilhete do capitão Sutton: «Encontrei-me casualmente
com um amigo meu, ao meio-dia, Bill Dowler, na Bolsa
de Valores. Posso levá-lo a sua casa, para jantar?»
A resposta: «Encantada.» Fora um daqueles encontros
casuais que alteram uma vida.
Excitada e nervosa antes da festa, por causa de
uma exigência de Joseph que lhe estragou a noite, Mary
Anne ficou com os nervos em franja. Precisava de um
Estímulo e encontrou-o. Um estranho no seu meio.
Ele sentou-se ao seu lado. Ela gostou do aspecto dele,
dos olhos azuis, da estatura média e da pele clara.
A tagarelice dos outros convidados deu-lhes o pretexto
para uma exploração mútua. Dos gracejos passaram à
concordância e da concordância ao consentimento. A harmonia
era total. O resultado foi uma fusão química,
perturbante para ambos. A súbita aparição daquele
homem, por quem se sentiu extremamente atraída, veio
complicar a sua Vida, transtornando os seus planos e
fazendo-a duvidar dos seus escrúpulos. Como lidar com
aquele perigo? O desejo que sentira outrora por Joseph,
transferia-se, agora, para Dowler, que era tudo o que
Joseph nunca fora: protector, nada exigente, digno de
confiança, forte, de voz calma, nunca estridente. Não
se gabava com conversas fúteis do que fora antes a
sua vida. As palavras eram cuidadosamente pensadas.
90
Havia força naquelas mãos e naqueles ombros largos...
Ela apercebia-se agora, bem de mais, do seu grande
erro, do pseudo-verniz que a atraíra aos quinze anos.
A diferença era total.
«Se nos tivéssemos encontrado antes, o que teria
acontecido?»
Dito antes por milhares de amantes e repetido de
novo, naquele momento. Ele não forçou o passo, estava
calmo, reservado, incendiando-a ainda mais, fazendo-a
pensar - chocada pelas suas emoções e sentindo o
orgulho ultrajado. - «Desejo este homem. Como vou
fazer para o conquistar?»
Que esperança de resposta podia ter, sob o tecto
do cura? Ali, a condenação seria imediata. O problema
era o sentido de honra de Bill Dowler - talvez a sua
maior atracção. Com ele, não haveria passeios à meia-noite,
nem escadas a ranger. Se o jantar fosse às cinco,
ele retirar-se-ia às dez - uma agonia para ambos, mas
a honra estaria salva. Não se comprometia nunca uma
senhora. Filho único de pais dedicados e afáveis, seguia
os seus ensinamentos: Temer a Deus e fugir do Diabo.
Uma ida em grupo até Vauxhall? Claro, seria agradável.
Mas iam todos aos seis e mesmo aos oito, nunca
aos pares... Ombro contra ombro, enquanto assistiam
a um Punch and Judy (espectáculo de fantoches ou
marionetas), mãos roçando-se ao apontar para o urso
Bruno, risos partilhados, olhares trocados, sugerindo
todo o calor da intimidade. E depois, ao fim do dia, um
regresso às sacudidelas, todos juntos numa carruagem
de oito lugares, até Bayswater, quando um curricle
(pequeno carro de duas rodas puxado por dois cavalos)
teria feito maravilhas.
As sugestões veladas de May Taylor provocavam
em Bill Dowler compaixão e aumentavam-lhe o interesse:
- O marido dela é um bruto, sabe?
- Pelo que Sutton me disse, já o calculava. É triste!
A preocupação notava-se na sua voz e no seu ar
protector, mas não o demonstrava, comportando-se com
lisura - compensando-a com uns volumes de poesia,
alguns versos assinalados, uma festa na cabeça de
Edward ou uma boneca para Ellen.
91
- Se eu puder fazer alguma coisa por si, diz-me?
Fazer? Meu Deus, pensaria ele que ela era de pedir?
Deveria ela sentar-se recatadamente, baixar a cabeça
e tudo suportar? Ou comportar-se como as meninas de
Ham, a desfolhar um malmequer? «Bem me quer, mal
me quer, muito, pouco ou nada...» E, entretanto, noite
após noite, Joseph adormecido, semanas desperdiçadas
e o Verão a meio...
Afinal, foi o próprio Joseph quem forçou a decisão.
Talvez tivesse adivinhado já, apesar do seu permanente
estado de nebulosidade, que não era somente a fadiga
que a emudecia; talvez pressentisse o que estava por
trás do bocejo, do rosto sempre virado para o outro
lado, da resistência permanente.
- O que se passa contigo, ultimamente? Porque
mudaste?
-Mudei? O que esperavas? Olha para o espelho.
Nada de censuras veladas, uma facada directa.
O tom de repulsa dizia-lhe a que ponto havia descido.
Ele olhou para o espelho e viu a sua própria imagem:
um monstro, pretendendo imitar o que fora em tempos.
As feições manchadas, os olhos estreitos, mal se vendo
num rosto papudo e todo sarapintado, as mãos trémulas
e os ombros curvados, a boca torcida como se uma
abelha o houvesse picado, uma ruína daquilo que fora
e tudo aquilo antes dos trinta anos.
- Lamento, mas não posso evitá-lo.
Acordava envergonhado logo de manhã, digno de
dó e de mãos estendidas, pedindo perdão e chorando
por misericórdia.
- Não tive oportunidades, não tive sorte, o mundo
inteiro está contra mim.
As conversas com o irmão cura eram inúteis, o
solene «Possa Deus, na Sua infinita misericórdia, dar-te
paz» era seguido de lágrimas e de uma promessa de
futuro bom comportamento, mas sabia, do fundo do
coração, que ela o desprezava e, à tarde, não restava
nenhuma esperança de salvação. Um pequeno copo para
firmar as mãos trémulas, um segundo para recuperar o
orgulho ferido, um terceiro para dar um ar gingão, um
quarto para dar cores berrantes ao mundo, um quinto
para mandar todos à fava, «sou Deus-Todo-Poderoso»,
92
um sexto para tudo apagar e tudo esquecer e finalmente
o último, a queda total e a descida ao inferno.
- Vai necessitar de cuidados médicos durante meses,
Mrs. Clarke. Já vi outros, nestas condições, recuperarem,
mas a senhora não pode ter um único momento
de descanso. Uma só bebida e a recaída será inevitável.
É um fardo que terá de carregar durante toda a vida,
ainda por cima com crianças pequenas.
O médico dissera-lhe aquilo no escritório do cura,
onde todos se haviam reunido em conselho de família
- Mary Anne, o reverendo James e Mrs. John Clarke.
Finalmente, o horror fora encarado e não mais tentariam
encobrir ou afastar o facto admitido.
- O senhor chama ao meu marido um dipsomaníaco,
eu chamo-lhe um bêbado. Se for forçada a escolher, não
hesito. Escolho as crianças, não a ele.
A alternativa era ficar acorrentada à cama dele para
o resto da vida e, a intervalos, levá-lo a passear, como
um urso guiado pelo seu tratador. Um monstro pesadão,
trôpego e de língua de fora. As crianças enviadas, separadamente,
para casa de familiares; as raparigas para
casa de Mrs. Farquhar e os rapazes para casa de Mrs.
John Clarke. O inválido e ela própria, sustentados pela
paróquia. Ela afastou a imagem e, virando-se para o
cura:
- Aguentei isto durante nove anos, seis já foram
de mais. Começou tudo antes de deixarmos Charles
Square e a podridão final instalou-se em Golden Lane.
O melhor para ele e para todos nós, seria se ele metesse
uma bala na cabeça, como o irmão John.
O cura rogou-lhe que adiasse a sua decisão. Parábolas
saíam-lhe dos lábios, acerca de maridos pródigos,
ovelhas perdidas e pecadores arrependidos:
- Há mais alegria... - começou ele - mas ela
atalhou-o:
- Talvez no céu -disse ela, mas não na terra,
para uma mulher.
Ele recordou-lhe os seus votos de casamento, a
aliança que usava e a bênção que recebera, na riqueza
e na pobreza, enquanto fossem vivos.
- Com todos os meus bens terrenos, eu me entrego
a ti. Ele também disse isso quando nos casámos e não
me deu nada, excepto uma infecção, por causa da qual
93
perdi um bebé. O respeito que tenho pelo seu hábito
coíbe-me de pormenores sórdidos.
Chocados e boquiabertos, não a pressionaram mais.
O médico, um homem sensato, estava do seu lado.
Aconselhou-a a sair da cidade por uns tempos, pelo
menos. Descanso... ar puro... e um sedativo para os
nervos. O marido ficaria em Craven Place, vigiada por
um enfermeiro.
O cura vacilou, apanhado na sua própria ratoeira
O marido pródigo era também um irmão pródigo, e
Joseph era Esaú sem o prato de lentilhas. John fora
levado ao suicídio, Joseph tinha que ser salvo; talvez,
com o tempo, o casamento se compusesse. Mas uma
mulher sozinha no mundo, com quatro crianças pequenas?
Corando, forçou-se a umas palavras de aviso:
- Acha-se suficientemente forte, Mary Anne, para
resistir às tentações?
Ela não se achava, essa era a questão. A tentação
chamava-a e ela queria ceder e esquecer. Queria mergulhar
nessa tentação.
- Sei tomar conta de mim própria e das crianças
também.
O cura não precisava de saber do bilhete, já escrito
mas ainda não enviado, pronto a seguir por mensageiro
especial para Dowler.
As crianças, desorientadas, foram metidas numa
carruagem, acompanhadas de May Taylor e Isobel. O pe-
queno grupo partiu para se alojarem em Hampstead.
-Onde está o pai? Está doente? Porque estava
ele a gritar?
O jovem Edward foi rapidamente silenciado: Entretanto,
a viagem havia-se transformado numa distracção.
O ar fresco e doce de Hampstead era um antídoto e
Yellow Cottage, propriedade de Mrs. Andrews, dava para
Haverstock Hill e para a urze em flor. Joseph, deitado
em Craven Place com as janelas fechadas, tinha que ser
esquecido. O cenário estava agora preparado para a fuga
e para o romance. O dia seguinte trar-lhe-ia uma resposta
ao seu bilhete, ou Dowler em pessoa. Dir-lhe-ia:
«Porque não fica? Pode ficar no quarto de May Taylor,
porque ela tem de se ir embora. Não pode ficar mais
tempo ausente de Craven Place. E a Isobel - bem,
94
Isobel fica com as crianças. Tem tanto jeito, quando a
Ellen rabuja de noite... Trouxe-me livros? Sinto-me perdida
sem livros e sem música.»
Depois, com os candelabros acesos e as cortinas
corridas, seria preciso que um homem fosse de natureza
muito fraca para...? Ela adormeceu, perdida em
sonhos.
O dia seguinte trouxe-lhe desastre, não o que ela
planeara. Mary Anne, a filha, acordara cheia de febre,
tossindo e delirando. À tarde, tinha a face e o peito
cheios de borbulhas. A criança não parava de chamar
pela Martha ausente, que os deixara havia um ano.
A mãe, ajoelhada ao lado da sua cama, não conseguia
acalmá-la.
- Eu quero a Martha, por favor vá buscar a Martha.
A criança virava-se e revirava-se na cama. O nome
era repetido. Um médico mandado chamar por Mrs.
Andrews, abanou a cabeça. Um ataque agudo de sarampo
muito infeccioso.
Todos os outros seriam contagiados. Não havia
nada a fazer. As ventosas não adiantariam. O único tratamento
era leite morno.
- Isobel, onde vive a Martha, agora?
- No mesmo local, em Cheapside, não é? Em casa
de Mrs. Ellis.
Vai lá num instante com a May. Apanha uma carruagem
de aluguer, não te preocupes com a despesa.
- Mas como pensa conseguir que ela volte, se se
foi embora há um ano?
- Diz-lhe que eu preciso dela. Virá imediatamente.
Agonia, vingança. Os olhos vidrados da criança, eram
agora os olhos de Joseph. Os dois misturavam-se, marido
e filha. Em vão oferecia orações a um Poder ofendido.
Que fiz eu de mal, para que isto me aconteça? Leva-me
a mim, mas poupa esta criança. Era inútil colocar pachos
de água fria na testa escaldante. Os minutos transformaram-se
em horas e as horas numa eternidade. Charles
Square, depois Golden Lane, e um bebé rindo. Algo
correra mal no casamento, mas de quem era a culpa?
E porque teria de ser esta criança a pagar?
- Cheguei, minha senhora.
- Martha!
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Agarrou-se a ela, chorando. Havia esperança naquela
cara redonda, naquela figura calma, no xaile - uma
prenda de despedida - no cesto de verga, no seu ar
tranquilizador, na maneira como pousou o cesto e tirou
o xaile.
- O que disseste ao teu patrão?
- Não interessa, não me preocupo com ele. Disse-lhe
que a minha mãe estava doente.
O sorriso de Bob Farquhar e a sua piscadela de
olho.
-Aqui está a Martha, meu amor, chegou a Martha
para tomar conta de ti.
Mary Anne sentiu o pânico desaparecer, o alívio no
coração, todos os sentimentos se esvaíram, excepto a
fadiga, persistente, que a prostrava, enquanto permanecia
ali de pé.
Olhou pela porta aberta e viu Bill Dowler.
-Que está a fazer aqui?
- Recebi o seu bilhete esta manhã. Vim imediatamente.
-O meu bilhete?
Esquecera tudo por causa da criança. O isco, enviado
de Craven Place, pertencia a outro tempo, a outra era.
Yellow Cottage era uma casa de repouso, não um ninho
de amantes.
- Chega tarde de mais.
Ele não percebeu o que ela queria dizer e nem
perguntou. Mary Anne sofria e estava exausta. Nada
mais importava. Estendeu-lhe os braços e ela correu
para eles como uma criança para os braços do pai.
Era um estranho conforto, não planeado e nunca
sentido. Não havia magia nocturna naquele abraço. Ele
conduziu-a para o andar de baixo, para a sala de visitas
de Mrs. Andrews e sentaram-se ao lado da janela aberta,
de mãos dadas. No jardim, que conduzia ao campo de
urze, Isobel corria atrás de um endiabrado Edward, May
Taylor apanhava flores com Ellen e o bebé George tropeçava
no seu bibe.
-Pensei que precisasse de ajuda. Vim prevenido.
- O meu cunhado cura deu-me dinheiro.
- Pode não ser suficiente.
96
Suficiente para quê? Para a doença, a morte, desgraças,
para todos os problemas imprevistos e futuras
provações?
Repentinamente, ele disse:
- Deixou o seu marido?
- Deixei.
- Quero dizer, para sempre?
Ela não respondeu, pois não sabia. Se dissesse
«não», estarem ali sentados não teria significado algum.
Ele levantar-se-ia e voltaria para a cidade. Se ela dissesse
«sim», a criança no quarto do andar de cima transformar-se-ia
num refém.
Como poderia ela ter a certeza de que Deus - se
fizesse um pacto com Ele - cumpriria o prometido, lançando,
em vez disso, a desordem? O medo era a força
motriz, a culpa, o condutor.
- Se a minha Mary Anne melhorar...
Não terminou a frase. Ele compreendeu. O seu destino
e o dela dependiam do da criança. O sarampo, na
mente dela, era agora um símbolo, uma tabuleta com
duas setas, direita e esquerda. Se a criança recuperasse,
o dever, a gratidão e uma resolução firme levá-la-iam
de regresso a Craven Place e a Joseph. Era aquela a
disposição de Mary Anne, devastada pela doença da
filha. Além do mais, o medo era superior à atracção.
O medo, para ele, funcionava de outro modo. Vê-la
ansiosa e enlouquecida de desespero, duplicava-lhe o
desejo. A prudência mantivera-o alerta até agora por
causa do marido, uma figura na sombra, tapando o
caminho. O tecto do cura ajudara a manter o instinto
adormecido, mas aqui o terreno era neutro, derrubando
as convenções. Era estranho como aquela mulher de
olhos fixos, infeliz e assustada, pensando apenas na
sua filha, conseguia ser mais bela do que a trocista
namoradeira que o provocara em Vauxhall, pressionando
o seu joelho, enquanto abanava um leque.
- Passa cá a noite, então? Por favor, o senhor
conforta-me tanto! Sei que Mrs. Andrews tem um quarto
disponível.
Ela nem sequer lhe desejou as boas-noites. Como
um íman, foi atraída para o quarto da criança doente.
- Como está ela, Martha?
7 - Mary Anne
97
- Penso que melhor, minha senhora. Já não está
tão irrequieta. Vá dormir um pouco, eu fico ao pé dela,
esta noite.
- Se alguma coisa acontecer, acorda-me imediatamente.
Para a cama, então, dormir. Para a escuridão total,
sem pensamentos, sem sonhos, nada, até de madrugada
- e então o acordar repentino, com o coração aos saltos.
Agarrou num roupão e correu, descalça, para o
quarto que esperava triste e escuro. Em vez disso,
encontrou um quarto cheio de luz, cortinas afastadas,
uma Martha sorridente e uma cabecinha apoiada na
almofada, com uns olhos grandes, brilhantes e conscientes.
-A febre desapareceu, está quase boa.
-Oh, graças a Deus!
Mas porquê aquela onda de sentimentos, aquele
rio de emoções, o desejo instantâneo que a fez correr,
o cabelo esvoaçando, direita ao quarto dele, o pacto
com Deus esquecido, nada recordando, somente aquela
necessidade repentina de ser acarinhada e amimada?
- Amo-te tanto, anseio por isto há tanto tempo.
Para quem a gratidão? Para Deus no Céu? Não fazia
sentido para ela ou para Bill Dowler. O que acontecera,
acontecera. O que interessava era o presente. Isobel foi
para casa, assim como May Taylor. Os amantes tinham
a casa apenas para eles. As crianças foram contagiadas.
Mas, que importava? Algumas borbulhas na cara, tosse
por uma noite, com Martha e Mrs. Andrews como enfermeiras
voluntárias.
- Não vai voltar para o seu marido?
- Nunca... Nunca.
Mas Edward, o último a apanhar o sarampo, morreu.
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CAPÍTULO 10
Ela não conseguia raciocinar. A morte do filho apanhara-a
de surpresa, marcara-a, destroçara-lhe o
coração. Ao mesmo tempo, a razão entrava também
naquele conflito, dividindo-lhe as emoções. Limitara-se
apenas a seguir o que o coração e o instinto lhe
ditavam. Joseph é que tinha a culpa da morte do filho,
de toda aquela tragédia, porque falhara completamente,
Se ele tivesse tido sucesso, como o seu mestre Burnell,
ou como James Burton;, a desgraça nunca os teria atingido.
Seriam agora ricos e felizes, e Edward estaria vivo
Não conseguia separar o sucesso da paz de espírito.
As duas coisas tinham que andar juntas. A experiência
dizia-lhe isso. O insucesso significava pobreza, a pobreza,
miséria e, na etapa final, a miséria conduzia aos maus
cheiros e estagnação de Bowling Inn Alley.
Uma mulher velha antes de tempo, arrastando-se,
rabugenta, com filhos rebeldes -o retrato que fazia de
si própria nos anos vindouros, e tudo por culpa de um
marido que falhara redondamente. É o homem que deve
sustentar a família, e que deve providenciar o dinheiro
Ela fora castigada por ter escolhido e aceite um marido
irresponsável.
Lutar, criar os filhos, governar com dificuldade,
manter as aparências, não lhe haviam trazido qualquer
recompensa - apenas um marido entregue aos cuidados
de um enfermeiro e um filho morto. Tinha agora de
agarrar com ambas as mãos tudo o que lhe fora negado
antes, lutando com todas as suas forças, caso o insucesso
a ameaçasse. O idílio em Hampstead fora uma
99
panaceia para a dor, uma purga para o corpo. A dependência
e o desejo desapareceram quando o pequenino
caixão, escondendo um rapazinho cor de cera, cujo
sorriso, riso e maneira de ser tinham agora que ser
projectados no bebé George, foi descido, coberto com
um pequeno ramo de lírios para a sepultura escancarada
Bill Dowler, amante, resposta a todos os anseios,
transformou-se num Bill Dowler provedor e amigo, ainda
amante, quando e como surgia o desejo. O seu estatuto
foi definido e aceite sem perguntas desnecessárias; já
não era Mr. Dowler, mas sim o tio Bill. Ela não tinha
ilusões quanto ao futuro entre os dois. Enquanto o
dinheiro durasse, ele bastava. Se o amor fraquejasse
e a bolsa também, ela procuraria noutro lugar. Não
havia hipótese de casamento com um marido vivo, mas
o casamento não era tudo num mundo masculino. O sapateiro
de Bond Street - o tio Tom - surgia como uma
sombra na sua memória, representando ou não uma
promessa de fortuna.
Este visitou-a em Hampstead com a sua sobrinha
e sobrinho. Ela compreendeu porque viera. Viu-o nos
olhos. A desculpa, claro, foi convencional e trivial.
Pesar, condolências e uma pancadinha paternal no braço.
Mas, quando a sós por um momento, ela sentiu o seu
olhar frio, avaliador e calculista e pensou que ele também
olharia assim quando escolhia as peles, avaliando
o peso e a textura, antes da compra.
- Suponho - disse ele, não a olhando directamente,
mas fixando um ponto acima dela - que não vai voltar
para Craven Place, segundo um comentário casual da
minha jovem sobrinha, no caminho para cá?
- É verdade.
- E que está de momento, se me permite, acompanhada?
- Já não dependo nem da pensão do meu marido,
nem dos seus parentes, se é isso que quer dizer.
- Claro, claro. Uma medida temporária, a ajuda de
um amigo.
O seu murmúrio cortês mas sarcástico lançou a
dúvida quanto ao futuro, na mente de Mary Anne. Velha
raposa, pensou ela, calculista, esperto, sabe com que
linhas se cose.
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- Especulações na Bolsa - murmurou entre dentes.
- Arriscado, claro, com este país no seu actual estado
de ansiedade. Fortunas ganhas facilmente, mas ainda
mais facilmente perdidas. É um jogo a evitar, a não ser
que se seja perito.
Nenhum nome foi mencionado, mas ela sabia que
ele se referia a Bill. Audaciosamente, ela perguntou:
- Então, nesse caso, o que sugere?
- Uma renda, claro - disse ele. - Assim, não há
sobressaltos. Uma jovem senhora na sua condição, deve
ter protecção. Uma quantia no banco significa independência...
A não ser que...
- A não ser o quê?
- O arrendamento de uma casa poderia ser melhor
- murmurou ele. - No seu nome, naturalmente. O dinheiro
pode desaparecer rapidamente, mas a propriedade
fica. Nas suas circunstâncias, seria mais sensato.
Ela imaginou-o a manejar os cordelinhos de uma
marioneta: «Faz isto, minha linda, vira-te, mostra uma
perna. Devagar, suavemente, é assim que se apanham.»
Olhou para o outro lado da sala e viu Bill a conversar
com May Taylor. Firme, sólido, e no entanto... John
Clarke arriscara tudo na especulação e estoirara os
miolos na mala-posta de Pentonville. Talvez isso não
acontecesse a Bill, cauteloso e prudente, mas, nesse
caso, retirar-se-ia calmamente para casa dos seus extremosos
pais. Uma vida segura no campo. Mas como
podia haver lugar para Mrs. Clarke e as crianças, com
uns pais frequentadores da igreja e respeitadores da lei?
Uma vez abandonado o marido, havia que tomar
uma decisão irrevogável. Muito bem, que se danem,
para o inferno com os subterfúgios.
- Diga-me, quanto valho no mercado?
Desta vez, o intermediário, o homem de negócios
que sabe o que faz, olhou directamente para ela e não
hesitou:
-Que idade tem?
- Vinte e cinco.
- Pode passar por vinte. Regra geral, os cavalheiros
preferem-nas mais novas. O que não quer dizer que
aconteça sempre. Casada há quanto tempo?
- Faz nove anos este Verão.
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- Esse é um assunto a evitar. O preço baixa.
Casada dois anos, repentinamente viúva a necessitar
de consolo, pode ser um íman - depende do cliente
e da moda.
- Qual é a moda, agora?
- Tudo o que seja alegre, fresco. Maliciosas e
vivas. A ingenuidade já não é aceite há um bom par
de anos. O príncipe lançou a moda com Mrs. Fitz, os
carneiros seguem-no. Já ouviu falar de Lorde Barrymore?
- Já vi o seu nome na imprensa.
E já o vira aviltado, pensou ela, nos panfletos ordinários.
Ou seria Richard, o sétimo conde, que fugiu
para Gretna Green com a filha de um proprietário de
liteiras, que depois tropeçou no seu próprio mosquete,
na milícia de Berks, apressando o seu fim?
- Certamente que morreu, não? - perguntou ela.
- Um deles, sim, o melhor amigo do príncipe. Há
três irmãos, todos eles selvagens como falcões. Ele
deu-lhes alcunhas - Hellgate, Cripplegate e Newgate.
A irmã é Billingsgate. Sua Alteza Real contou-me uma
vez que ela amaldiçoara os irmãos. Estou a pensar no
conde actual, ele pagaria bem.
Pagaria bem? Seria ela então um campo a lavrar, e
Taylor, o lavrador, escolhendo a sua parelha de cavalos?
- Ele casou com uma rapariga irlandesa em 95 disse
ele -, mas ela está sempre a escapar-se de
regresso a Waterford, deixando sua excelência à solta.
Tem uma perna estropiada, mas isso não o incomoda.
Na realidade, um dos meus melhores clientes. Basta
uma palavra sua - e tratarei de os apresentar.
Ela viu o olhar de Bill Dowler procurá-la, o olhar
terno de um amante feliz e possessivo. A questão era
saber quanto tempo duraria a paixão.
- Disse qualquer coisa acerca de um arrendamento
murmurou ela baixinho, uma casa na cidade.
Vejo que seria uma vantagem. Tenho amigos no negócio
da construção que poderiam ser úteis.
James Burton, um velho conhecimento, poderia
ajudar. Estava a construir casas quase todos os dias,
urbanizando completamente Bloomsbury.
O problema era saber se Bill conseguiria o dinheiro.
O sapateiro devia ter lido os seus pensamentos,
porque fez uma pausa, olhou rapidamente para Dowler
102
medindo-o, fixou-a novamente e, fazendo-lhe uma festa
no joelho, disse-lhe:
- Ali não há negócio, somente sentimento.
- Quer dizer, apenas um amigo da adversidade,
não um amigo de facto?
- Exactamente. Se o deseja muito neste momento,
fique com ele e divirta-se, faça favor. Simplesmente,
não o vejo a assinar um documento. Eu digo-lhe o que
deve fazer...
- Sim?
- Entendemo-nos muito bem. Fale com os seus
amigos construtores e escolha a sua casa. Eu adianto-lhe
o dinheiro.
- Com que garantias? Não é arriscado?
Ele riu-se e coçou o nariz:
-A senhora não é um risco, é uma certeza. Não
tenha medo, recuperarei o meu dinheiro com lucro.
A sua mãe é viva?
- É, tenho também uma irmã e um irmão mais
novo.
- A mãe é o trunfo e a irmã mais nova; também.
Instale-as, dá uma certa respeitabilidade. Jovem viúva,
vivendo debaixo das saias da mãe. Soa bem e é correcto,
aguçando o apetite. Por ora, já chega. Sabe onde me
encontrar quando chegar o momento.
Ele vasculhou numa grande algibeira e tirou um
pau-de-açúcar e dois bombons. Mostrou-os, sorrindo, aos
filhos solenes de Mary Anne.
- Quem quer um doce do velho tio Tom?
Aproximem-se... aproximem-se... Ela imaginava-o
numa feira, batendo fortemente num tambor. Por trás
dele, cortinas carmesim cerradas. O que estará por
trás? Pague e descobrirá. As crianças, atraídas pelos
bombons, aproximar-se-iam dele. George, com os lábios
lambuzados, saltando nos seus joelhos. Um velho ogre,
atraindo miúdos com isco... Repentinamente zangada,
dirigiu-se a Dowler:
- Leva-me daqui, não aguento mais.
Ele olhou-a, perplexo. O que se passava agora?
Aquelas pessoas estavam ali para passar o dia, era
uma espécie de festa. Momentos antes, ele vira-a absorvida
e rindo, falando pelos cotovelos com aquele velho
tagarela do Taylor. As lágrimas pelo filho morto haviam
103
secado há muito - não falava dele nem o chorava de
noite, na almofada partilhada. Porquê, então, aquele
olhar angustiado, como se fantasmas a perseguissem?
- Com certeza, levo-te daqui assim que o quiseres.
Esta noite, amanhã ou depois de amanhã. O que é que
se passa?
Ela poderia ter dito: «Passa-se que o mundo gira e
tu podes ter que te ir embora e deixares-me só. Não
propositadamente, mas devido às circunstâncias. Os
teus pais em Uxbridge, já na segunda meninice, têm
prioridade sobre ti, não é verdade? Ou então, vires a
casar com a filha de um morgado e teres uma data de
filhos com caras de lua-cheia. Ora, se o fizeres, eu
serei posta em leilão, o martelo manejado por aquele
velho desprezível ali ao canto. Quanto vale uma mãe
de três filhos, desonrada? Ansiosa por servir, valor total
garantido.»
Em vez disso, sorriu-lhe e disse:
- Estou aborrecida.
Então, era só aquilo. Ela disfarçava bem. Nem um
encolher de ombros, nem um bocejo. No entanto... a
maneira como o dizia, era um desafio:
- Compensa-me pelo que perdi - insinuava ela.
Ele fizera o melhor possível, que mais queria ela?
Sempre à sua disposição, garantindo Instantaneamente
todos os seus caprichos, divertindo os filhos e pagando
a Mrs. Andrews. Estivesse ela livre para casar... Não
haveria problemas. Por muito que a amasse e continuasse
a amar, havia qualquer coisa que o prendia à
velha casa em Uxbridge, o rosto de seu pai - no
entanto, ela não era livre, a questão não se punha.
Talvez mais tarde pudesse haver uma casa de campo:
decente, pequena, na propriedade de um amigo, conveniente
para as suas visitas. E quando os seus pais
morressem, tudo poderia ser resolvido sem corações
destroçados. Entretanto, tirá-la-ia de toda aquela confusão,
da irmã, dos amigos e de crianças convalescentes,
e tê-la-ia só para ele.
- Eu conheço uma aldeia - sugeriu ele, Chalfont
St. Peters a cerca de quarenta quilómetros da cidade.
Uma pequena pousada, pouca gente, campos e bosques,
e caminhos calmos e desertos. - O rosto sem expressão
de Mary Anne indicou-lhe o seu erro.
104
- St. Peters o quê? - perguntou ela. - Eu não sou
uma peregrina. Por amor de Deus, vamos viver um
pouco, vamos para Brighton.
Se é isso que ela deseja, pensou ele, ainda bem
que tive uma sorte inesperada na Bolsa. Brighton é uma
cidade cara, enquanto que St. Peters...
Cinco minutos depois, já ela planeara tudo. A mãe
viria para Hampstead e substituí-la-ia. No dia seguinte,
iria à cidade para comprar um vestido. Não estava em
condições de ser vista, os seus chapéus estavam todos
fora de moda. Isobel e May podiam ir com ela. Estava-se
no fim da estação e tudo estava mais bonito.
- E sapatos? - perguntou o tio Tom Taylor.
Bill Dowler surpreendeu-se com o olhar que Mary
Anne lhe lançou. O velho falava educadamente, não
pretendia ofender, atendendo a que era o seu negócio
e May sua sobrinha, esperava poder ajudá-la a poupar
dinheiro.
- Eu calçar-me-ei em Brighton - disse Mary Anne.
Não havia necessidade de ser tão seca. Ela virou ais
costas ao velho, que continuou a distribuir doces, sorrindo.
Dowler pensou que o velho a teria, talvez, ofendido.
As mulheres podiam ser tão complicadas e imprevisíveis.
Naquela noite, o amor foi mais forte que nunca.
Para quê, então, a viagem a Brighton? Porquê o aborrecimento?
Era melhor não fazer perguntas e ficar calado.
Transportar os embrulhos, escrever a reservar os quartos,
ser o tio Bill a levar uma das crianças aos ombros
para o pequeno-almoço, tapar os ouvidos à conversa das
irmãs sobre moda, as penas usavam-se, ou não? Os
seios usavam-se tapados? Um último dilema - ser-lhe-ia
destinado a ele, este aparato? Achou que sim, quando,
já em Brighton, passeando na avenida com a alta sociedade,
o sorriso, os olhares, o riso de Mary Anne eram
todos dele, apesar dos muitos olhos assestados nela
Caramba, ele estava orgulhoso dela. O cabelo, um amontoado
de caracóis, a última moda, um vestido elegante
(ainda por pagar?, adiante), o chapéu coberto de penas
colocado de lado. Sem preocupações, o desgosto esquecido.
Pobre criança, merecia aquele prémio depois do
que sofrera. Aquele bruto do marido, estragando-lhe os
seus melhores anos.
105
- Feliz? - perguntou ele, enquanto lhe fixava os
olhos brilhantes.
Ela apertou-lhe o braço, anuiu, mas não respondeu.
- O ar está-te a fazer bem, estás com melhores
cores.
«Cores - que disparate!», pensou ela. Mas não o
disse. Era aquele o tipo de ambiente com que sempre
sonhara. Não tinha nada que ver com o ar puro e a
fresca brisa marítima. Aquele era o mundo dos panfletos,
da moda, que as pessoas do estrato mais elevado liam
desde a infância, o mundo dos folhetos escandalosos
a meio-dinheiro, dos homens e das mulheres de quem
ela troçara sem ninguém saber. Ali estavam eles em
carne e osso, como ela os imaginara, superficiais,
afectados, fúteis, prontos a serem depenados. Ali iam
os janotas da brigada das carruagens puxadas por quatro
cavalos, seguindo em andamento vivo ao longo da
avenidas soltando gritos acompanhados de gestos floreados.
Bill Dowler indicou-lhe os famosos. Os Lordes
Sefton, Worcester, Fitzhardínge, Sir Bellingham Graham,
e não eram aqueles o «Teapot» Craufurd e «Poodle»
Byng?
- O que melhor conduz do grupo, é Barrymore.
Encontrei-o uma vez no Almacks. Não é o meu género é
um libertino. É aquele ali.
A carruagem passou por eles num andamento vivo.
O condutor, com uma dália do tamanho de uma couve
na botoeira, virou a cabeça e fixou-os, comentando depois
qualquer coisa com o companheiro.
Então, aquele é que era o Cripplegiate, cliente do
velho Taylor. Chicotearia ele as suas mulheres, como
chicoteava os seus cavalos, forçando o andamento,
detestando a lentidão delas? «Muito bem, meu amigo»,
pensou ela, «agora não. Encontrar-me-ei contigo no
número nove da Bond Street, um dia destes. Mas não
leves a tua botoeira, que eu não suporto couves. Nem
sou adepta de chicotes.
- Vamos andar mais um pouco - disse ela em voz
alta. - Talvez vejamos o Príncipe de Gales. Em vez deste,
num golpe de sorte, encontraram James Burton.
- Mas que surpresa, Mrs. Clarke!
- Mr. Burton! Que agradável. Conhece Bill Dowler?
106
Não houve referências a Joseph. James Burton compreendeu
que o assunto era proibido e não ficou admirado.
Ela estava destinada a descarrilar, porque não em
Brighton?
- Podíamo-nos encontrar esta noite no Salão de
Festas - disse ele. - Poremos os assuntos em dia, será
como nos velhos tempos.
Velhos tempos? Não podia haver comparação possível.
Como comparar o brilho dos Salões a Gotóen Lane,
às escadas que rangiam em Black Raven Passage, onde
Burton se esgueirava para dar lugar ao playboy Joseph?
Ela estava muito bem, pensou ele. E tremendamente
atraente. Teria sido intencional o modo como ela nessa
noite evitou o acompanhante Dowler, para que ambos
pudessem conversar?
Ela foi imediatamente direita ao assunto:
- Eu quero uma casa em Londres - disse ela.
- Quanto pode despender? Quer comprar?
- Um arrendamento de dez anos era o que eu tinha
em mente.
Ele olhou para ela e imaginou quem iria pagar.
Aquele sujeito, Dowler, ou qualquer outra pessoa?
- Já agora, pode ficar a saber - disse-lhe, deixei
o Joseph, para sempre. Vou viver sozinha com a minha
mãe e os meus filhos.
Nesse caso, a costa estava livre. Um tiro ao acaso
podia atingir o alvo:
- Possuo umas casas em construção em Tavistock
Place - disse ele. - O arrendamento seria de mil ou
mil e quatrocentas.
- A renda paga adiantada? De três em três ou de
seis em seis meses?
Ele sorriu e abanou a cabeça:
- Não me deixo apanhar nessa ratoeira. Esse
assunto pode ser resolvido calmamente com uma velha
amiga como a senhora.
- Quando posso mudar-me?
- Durante a próxima Primavera. Até lá e se estiver
disposta a isso, pode puxar uns cordelinhos aqui em
Brighton. A estação vai continuar bastante alegre até
Dezembro.
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Tempo suficiente para olhar em volta, pensou, dar-me
a conhecer. Ser vista, ser apresentada e ser conhecida
A seguir, Londres.
- Gostaria de ter a casa disponível, na cidade,
pouco depois do Natal - disse ela -, mas mantenha
isso em segredo. Pelo menos, para já.
- Não quer que o seu amigo saiba?
- Dir-lhe-ei mais tarde.
As perspectivas, pensou ele, eram ainda mais atraentes.
Dowler, afinal, não era o protector. Nesse caso, os
negócios poderiam ser misturados com o prazer.
- E eu? - perguntou ele. - Algum «bónus» para
o construtor? Vou precisar de inspeccionar o telhado
de tempos a tempos. O estado da pintura e a necessidade
de ventilação. É claro que lhe mandaria um bilhete
antes de a visitar.
A expressão dos seus olhos dizia tudo. Ela percebeu
o que ele queria dizer. Por outras palavras, podia esquecer
a renda. As mil e quatrocentas libras seriam perdoadas.
Um arrendamento de dez anos em troca de
umas brincadeiras extra. Bem... ele era um amigo de
há dez anos atrás e bastante apresentável. Casado há
pouco, não daria problemas. A vida familiar reclamá-lo-ia
a maior parte do tempo. Se ela vivesse sem pagar renda,
não haveria necessidade de se aproximar do tio Tom.
Poderia evitar Bond Street e fazer os seus próprios
contactos. Ergueu o copo a Burton e olhou-o nos olhos.
- Como arquitecto - disse ela -, terá entrada
livre.
Nada mais foi dito, sabia que o assunto do arrendamento
estava assente.
«Atirei-me de cabeça» - pensou ela - «e não posso
voltar atrás. Vou fazer de maneira a obter aquilo que
quero. Retribuirei em géneros, não vigarizarei ninguém,
não serei desonesta. Ninguém poderá afirmar que não
mereci o dinheiro que ganhei. Valor dado por valor
recebido. É um negócio como outro qualquer, o do carniceiro,
do padeiro ou o do fabricante de velas. Todos
temos que viver.
«A questão era que, daquela maneira, faria dinheiro.
Não para poupar, mas para gastar. Vender os seus ser-
108
viços como escrevinhadora nunca lhe trouxera quaisquer
proventos. Finalmente, poderia comprar o que queria vestidos,
agasalhos, pequenos adornos de joalharia, chapéus
ridículos, roupas para a sua mãe e para Isobel e
brinquedos para as crianças. Não haveria guinéus perdidos
nas algibeiras de Joseph. Casa própria, mobilada
a seu gosto. Caras novas, pessoas novas e novos amigos.
Um divertimento libertino que ninguém invejava,
vivido e ganho por ela.»
Os meses em Brighton trouxeram-lhe a recompensa,
os conhecimentos aumentavam e o círculo alargava-se.
Quando Bill Dowler vinha aos fins-de-semana para a
reclamar, pela primeira vez encontrava competição. Cartões
dos janotas das carruagens ornamentavam o espelho
dela. «Ver-te-ei ao meio-dia ou ao jantar» - dizia ela e
lá se ia a grande velocidade para as corridas com
Johnny Brunei I; e quando o meio-dia chegava, encontrava-a
com Charles Miller.
- Quem te deu este modelo de chicote com diamantes?
- Oh, isso? Foi o Cripplegate Barrymore. Por brincadeira.
- Uma brincadeira um pouco cara.
-Tem dinheiro para isso.
Ela estava sempre no cabriole de alguém, ou na
carruagem de alguém. Quando questionada, fugia ao
assunto frivolamente:
- Nunca me tinha divertido antes na minha vida
Estou a fazê-lo agora.
Por outras palavras, ele tinha que aguentar - ou
ir embora. Haviam tido o seu momento e esse acabara.
Ele podia ter os seus golpes de sorte na Bolsa, ou
pôr-se a andar para casa, em Uxbridge, o que lhe apetecesse.
O problema era que os golpes de sorte na Bolsa
escasseavam. Os mercados estavam de pantanas e ele
estava a perder dinheiro. Teria que regressar a Uxbridge.
ou abrir falência. Foi no fim de Outono que ele apresentou
o seu plano:
- Sei de uma aconchegada casinha de campo, não
longe dos meus pais. Há apenas espaço para ti e para
as crianças. Que tal?
109
Ela pensou: «Cá vamos nós. Encara os factos. As
cartas estão todas na mesa.»
Levantou-se, rodeou-lhe o pescoço com os braços,
beijou-lhe os olhos, o pescoço e até o botão do colete:
- Vou-me mudar para Tavistock Place, na cidade disse
ela. - Consegui uma casa do Burton, barata. Não
quero viver próximo de Uxbridge, nem esconder-me
numa casa de campo. Quero dar nas vistas e aí sim.
posso consegui-lo.
Então... Brighton fora uma experiência, um ensaio
Agora, ele tinha que ficar, para ver o espectáculo todo
-Para falar com toda a franqueza - disse ele -.
queres dizer que estás à venda?
- O vencedor leva tudo - disse ela. - É a sorte
do jogo. Os teus golpes de sorte não durarão muito
Tu sabe-lo e não vale a pena fingir. Tenho que planear
a minha vida antes disso e preciso da minha liberdade
- Liberdade para quê? Para andar de um lado para
o outro numa carruagem descoberta?
- Já o faço. Há mais conforto em Tapistock Place.
- Com Burton pagando as despesas da casa e Cripplegate
a visitar-te? Passando a noite lá e deixando
duzentos guinéus?
- Duzentos e cinquenta, espero, escondidos numa
dália.
Riu-se e beijou-o de novo. Ele sabia que estava
vencido.
- Já alguma vez ouviste falar em Kitty Fisher, Lucy
Cooper e Fanny Murray? - perguntou ele. - Seguiram
o mesmo caminho e acabaram todas na sarjeta.
- Eram de classe muito baixa - retorquiu ela -, eu
tenciono chegar mais alto.
- Foi por isso que acabaste tudo comigo - eu não
tenho um título. O meu pai era apenas um comerciante.
O vinho, como te disse antes, era o negócio da família.
- Mas agora vendido. Bill, e o teu pai aposentado.
Por isso, não me sinto atraída.
- Quando ele morrer, eu herdo.
- Herdarás dentes falsos e uma cabeleira e eu
estarei careca. Tenho que viver agora e não contar com
uma data qualquer no futuro.
- E o amor?
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- Provavelmente, amar-te-ei toda a vida. O amor
não é negócio.
- Então, só terei o meu quinhão depois de o Cripplegate
ter tido o dele. Que vais colocar na porta?
«Inspecção convidada?» «Velhos amigos a um quarto do
preço?» «Música incluída?»
- Pensei enviar cartões a todos os clubes. Mrs.
Clarke recebe, mas não às terças-feiras, que são reservadas
para Mr. William Dowler.
Beijou-o de novo, transformando tudo numa brincadeira.
Mas não era uma brincadeira, ele sabia-o e ela
também. Ali, finalmente, ao virar da esquina, estavam
os melhores dias, o esplendor e os contos de fadas
disparatados que ela inventava no passado para o irmão
Charley. Pretendia fazer pouco de tudo e troçar dos
seus pretendentes, no entanto no recôndito do seu
coração, sentia-se lisonjeada e satisfeita. Bill Dowler
nunca sugerira champanhe ao pequeno-almoço, nem lhe
dera rosas à meia-noite, ou diamantes ao amanhecer,
mas os janotas das carruagens faziam-no com floreados
e agradava-lhe estar sentada, embrulhada em peles, com
um par do reino por condutor. Parecia tudo tão longe
de Bowling Inn Alley.
Claro que amaria Bill durante toda a vida, mas uma
casa em Uxbridge estava fora de questão. O seu gosto
amadurecera, a ambição era desmedida e para o diabo
com os sentimentos, que pertenciam ao passado, excepto
quando a Lua brilhava, ou alguém que a atraísse às três
da manhã.
Aquela nova vida era fácil. Nem cuidados, nem
preocupações. E passado o primeiro choque do orgulho
ferido, o passo seguinte era simples. Os homens eram
leais, directos e ficavam gratos com pequenas coisas.
Divertidos à mesa, mas geralmente toldados. Depois
de nove anos com Joseph, aquilo não era nada. Uns
abraços um pouco desajeitados seguidos de roncos numa
almofada. Os roncos de um par do reino feriam menos
do que os de um pedreiro, e um par do reino era pródigo
em presentes, e isso pesava na balança. Era ela que
escolhia quem queria, não precisava de ficar à espera
que a visitassem. Duas dúzias de cartões no espelho,
111
todos eles convites, davam-lhe razão. Era tão simples
como isso.
Uma carta do cura foi respondida com poucas
palavras.
Nem eu nem as crianças voltaremos jamais para
Joseph. Por favor, explique-lhe isso da maneira que
achar melhor. Se ele alguma vez tentar encontrar-nos,
não será bem sucedido. Obrigada por tudo o que fez
por nós, mas futuramente, esqueça-nos.
Sinceramente sua,
M. A. C.
O sobrescrito foi o último que ela fechou com o
simples gesto de carregar no selo com o dedo. O papel
não tinha marca nem endereço, somente uma data de
Fevereiro de 1802.
Na vez seguinte que escreveu aos amigos - não
ao cura - o papel de carta estava timbrado com «Tavistock
Place», e o selo no sobrescrito não era a marca
de um dedo, mas uma impressão clara de um Cupido
em cima de um burro.
112
SEGUNDA PARTE
8 - Mary Anne
CAPÍTULO 1
Aporta principal pintada de branco, os degraus
esfregados, alegres floreiras, o batente, a cabeça
de uma mulher com um olho fechado - onde
teria encontrado ela aquilo? pensou o estranho. O segredo
era revelado a quem sabia. Bateu à porta e puxou
a campainha. A porta abriu-se:
- Mrs. Clarke está em casa?
Vozes altas provavam-no, também o provavam os
sobretudos, as bengalas de junco de Malaca, os tricórnios
atirados para cima de uma mesa e mais dois ou
três chapéus de abas reviradas. Um bulldog preso por
uma trela rosnava, deitado no chão do hall, com as
mandíbulas entre as patas. Ao seu lado estava um par
de galochas e uma espada embainhada. Uma grande
quantidade de visitantes, na sua maioria homens.
O jovem que abrira a porta devia ser um criado.
No entanto, não usava libré e a sua cara era-lhe familiar.
- Eu conheço-te de qualquer lado - alvitrou o
estranho.
- Sim, senhor. Eu vivia com o capitão Sutton. Ele
mandou-me para aqui, para servir Mrs. Clarke.
Então, era isso. O estranho pousou a bengala.
O jovem que passava por filho ilegítimo de Sutton, mas
que não era tal - soava melhor. Claro que era uma
maneira de se livrar dele, fazendo-o passar por pajem
naquela casa.
- Por favor, senhor, suba e anuncie-se.
Era tudo muito informal, como lhe haviam dito, desde
o som de passos que corriam, até às gargalhadas dlver-
115
tidas e estridentes. Crianças en evidence. Aquilo servia
para pôr o cliente à vontade - ou para ludibriar os simplórios.
Subiu as escadas e passou a porta da sala de
visitas. Uma senhora de idade, magra e bastante nervosa,
dirigiu-se a ele com a mão ossuda estendida:
- Sou Mrs. Farquhar. Esteja à vontade, a minha
filha ainda não regressou de Ramsgate.
Foram-lhe oferecidos um copo de vinho e umas
bolachas, entregues por uma rapariga desajeitada, dos
seus quinze ou dezasseis anos, que corou até à raiz
dos cabelos, quando ele lhe agradeceu, desaparecendo
de seguida.
- Isobel, o cavalheiro pode preferir Porto a Xerez.
- Não, minha senhora, asseguro-lhe que o Xerez
está óptimo.
A babel na sala dificultava a conversa. A senhora
de idade estava nervosíssima - e com razão. Se ele
não soubesse a verdade, juraria ter-se enganado na
morada. As crianças brincando ruidosamente no chão,
encavalitando-se nos sofás, trepando para as costas das
cadeiras; todos os proprietários dos tricórnios e dos
chapéus de abas reviradas (alguns deles seus conhecidos
de vista, jovens impetuosos que costumavam rondar
St. James) brincavam também ruidosamente com
as crianças, levando-as às cavalitas, atirando-as ao ar tudo
aquilo dava ao ambiente um certo ar burguês, na
realidade muitíssimo divertido para olhos observadores.
Ele pensou no velho Tom Taylor e na sua mensagem,
escrevinhada no número nove de Bond Street, à noitinha:
«Digo-lhe que ela é de excelente qualidade. Não deixe
de a visitar. Nós os dois podemos moldá-la para quem
nós sabemos.»
De repente, reboliço, turbilhão. As crianças preci-
pitaram-se para a porta e os jovens impetuosos juntaram-se.
No meio da confusão, um riso trocista e uma
voz interessante:
- Queridos, não me abafem... George, que mãos
nojentas, é divertido brincar com o carvão na cave,
mas não cá em cima. Ellen, os teus calções precisam de
ser remendados, vai ter com a Martha... Mãe, nem vai
acreditar, demorámos cinco horas desde Ramsgate, nunca
levámos tanto tempo, ainda por cima com dois cavalos
116
coxos. Apeteceu-me matar Cripplegate. Onde está a
Isobel? Estou faminta, tenho de comer... Quem está cá?
Johnny, como está? Adoro vê-lo... Harry também...
E Bobby... Fitzgerald, o senhor é um monstro, deixou-me
ficar mal na última quinta-feira. É melhor passarmos
essa festa para sexta-feira... Vamos ao Sadlers Wells,
o Grimaldi voltou e as anedotas dele são únicas. Adoro-o.
Quem é aquele ali de pé ao canto? Não o conheço.
O estranho apresentou-se, fez uma vénia, beijou
mãos, murmurou uma frase ou duas e declinou o seu
nome. Entregou o cartão, escusando-se pela formalidade.
Os olhos azuis inspeccionaram o cartão e depois
a face do homem. Ele pensou: Está a tentar adivinhar
que diabo quero eu dela. No entanto, Taylor tem razão,
é de uma assim que nós precisamos. Astuta e ambiciosa.
É isto mesmo.
- Ogilvie? Parece-me que já ouvi o seu nome...
E não foi há muito tempo, não me lembro onde.
- Deve ter ouvido falar de mim através do capitão
Sutton.
Aquilo confundiu-a. Olhou-o de alto a baixo, mediu-lhe
o físico e depois levantou as sobrancelhas:
- Desculpe-me, mas o senhor não me parece o tipo
de pessoa que ande com ele. Há sempre rapazes de
cabelos encaracolados à sua volta. Eu própria tenho
um como criado, Sammy Carter.
- Compreendeu-me mal, minha senhora. Os meus
assuntos com o capitão Sutton são estritamente profissionais.
- Pela minha parte, os meus também. - Sobrancelhas
ainda levantadas, observou de novo o cartão e
leu - sob o nome - a ocupação.
-Ah! Já percebi. Um agente do Exército. Isso
explica tudo. O senhor deve ser um homem muito
ocupado, com a guerra a estoirar a qualquer momento
e jovens oficiais a pedincharem comissões. Eu conheço
dúzias.
O sorriso deslumbrante apareceu. As suas credenciais
haviam sido, então, aceites. Mas o cartão foi guardado
para uma futura inspecção.
- Uma casa encantadora - murmurou ele. - Um
produto de Burton?
117
Ela olhou-o friamente. Não se desmanchou ao compreender
a insinuação.
- Sim - replicou. - Ele construiu-a e é também o
meu senhorio. Burton é escocês, sabe, assim como a
minha mãe. Burtons, Mackenzies e Farquhars, somos
todos muito unidos.
Unidos era pouco; ele conhecia as ligações. Taylor
piscara-lhe o olho, ao dizer-lhe que ela vivia sem pagar
renda.
- Tavistock Place é muito central - disse ele.
Gosto muito de Bloomsbury. Um oásis, no meio do
barulho. A senhora deve ter grande círculo de amigos
que aparecem à noite?
Ele pensou: «Se ela não acusar o toque, é uma
mulher muito dura.»
Ela nem piscou. Serviu-se de um biscoito.
- Os amigos chegados são bem-vindos, mas só
quando convidados.
Um aviso? Bem... talvez. Ele serviu-lhe um pouco
de xerez.
- A sua aldraba da porta é muito interessante.
Onde a descobriu?
- O meu filho George é que a descobriu numa
loja de quinquilharia, em Hampstead. Ele fez apenas
cinco anos no dia de S. Valentim... um pouco precoce.
- Dá um certo ar à casa.
- Ainda bem que gosta. Também gosta da porta
pintada de branco? Suja-se com facilidade, claro, mas
sobressai à noite.
Muito bem, pago na mesma moeda. Ele sabia onde
estava e estava a gostar.
- Quer dizer - replicou ele - que os visitantes de
ocasião não deixam de ver a cor?
-Os visitantes de ocasião não vêm. Nem vendedores
ambulantes, ou ciganos a vender vassouras
Podem pegar pulgas às crianças. Digo sempre aos meus
amigos que a minha casa fica mesmo ao lado da capela
Deve ter reparado nisso, também. Mesmo a jeito para
as matinas.
Ela sorriu e afastou-se, deixando-o ali especado
junto da mãe. Mesmo a jeito para as matinas, não havia
dúvida. Mesmo a jeito para Burton, para Barrymore tam-
118
bém e para o resto dos Four-in-Hand drivers (condutores
de carruagens de quatro cavalos), mas longe como o
diabo do seu escritório da Agência, em Saville Row.
- Mais vinho, Mr. Ogilvie?
- Não, obrigado, minha senhora, já tenho o suficiente.
- A minha filha tem tantos amigos, que ficamos
aqui completamente inundadas, às quartas-feiras.
Inundadas toda a semana, ouvira ele dizer, mas lá
mais para a meia-noite, com a velha senhora já deitada
e aconchegada com as crianças. Mesmo a tempo, aliás,
para o caso de Cripplegate Barrymore aparecer. Ele era
extremamente indiscreto quando aparecia em Bond
Street, segundo se lamentava Tom Taylor - aparecia
conduzindo um tandem (carro puxado por dois cavalos
um atrás do outro), tocando a buzina e gritando «Tallybo»
para as janelas que se abriam, chocando os comerciantes
da vizinhança e acordando as suas mulheres
Toda a Bond Street se queixava e o pobre Tom Taylor
esteve prestes a fechar o negócio. Foi forçado a manter-se
discreto por uns tempos, mandando os clientes
para outro lado.
- Quer ajudar-me a dar banho às crianças, Mr
Ogilvie?
Deus me livre! Ele não tinha vindo para aquilo.
Alguns dos visitantes estavam preparados para o que
quer que fosse. O jovem Russell Manners enrolava as
mangas da camisa e o advogado irlandês, Fitzgerald, que
já tinha idade para ter juízo, cabriolava com uma criança
às costas, dirigindo-se para as escadas. Era aquela a
rotina habitual das quartas-feiras? Se era, o Tom Taylor
poderia tê-lo avisado.
-A questão é que, minha senhora, não estou muito
habituado a crianças.
A desculpa resultou com a velha senhora, mas não
com a filha. Os olhos azuis fixaram-no do outro lado
da sala:
- Que disparate, Mr. Ogilvie. Não tem nada que
saber. Sabão e uma escova. Como agente do exército,
devia fazer parte do seu trabalho. Pense em todos aqueles
alferes dos Dragões.
Diabo! Ela pusera-lhe uma criança nos braços. Um
pequenito a espernear com as mãos todas pegajosas,
119
a fincar-lhe os calcanhares nas costelas, gritando: «Arre
burro».
- Qual é o seu primeiro nome, Mr. Ogilvie?
- William, minha senhora.
- Estás a ouvir, George? Mais um tio para ti. Já
temos um tio Bill, este pode ser o tio Will.
Era inútil protestar. O fedelho aos pontapés, uma
fuga precipitada pelas escadas acima, com toda a gente
atrás. O jovem Manners esbarrou nele, corado e a transpirar:
-O Cripplegate é que começou isto, maldito seja.
Diz que o mantém em forma, que é uma ginástica perfeita.
Poupa uma data de dinheiro em ginásios.
- Por que não recusa?
- Para ser atirado porta fora? Nem pensar nisso.
A recompensa de Manners passara então, pela tortura
da água. Já ganhara as suas esporas, Ogilvie ainda
não. Este atirou com o rapaz aos gritos para dentro da
selha.
- Querido, deixa o tio Will lavar-te as mãozinhas
primeiro!
Que o diabo levasse as mãozinhas. Não conseguia
segurar no fedelho, tinha os olhos, a boca e o cabelo
cheios de água. Em cheio! Levou com um bocado de
sabão no queixo, enquanto se ouviam gritos de triunfo,
vindos de outra selha. Uma rapariga de olhar selvagem
tinha-o atingido com uma toalha:
- Estamos a ganhar, George, estamos a ganhar. Vais
ficar em último.
O rapazito, com as mãos sujas de carvão, parecia
uma enguia, esperneava e gritava:
- Esfregue com mais força, Mr. Ogilvie, o George
detesta perder. - A voz calma murmurou-lhe ao ouvido,
os ombros tocando-se. Virando a cara a escorrer água,
ele viu o sorriso divertido e trocista, deliciando-se com
o seu sofrimento. Tom Taylor que fosse com os seus
esquemas para outro lado qualquer, a agência de Saville
Row que fosse para a falência, ele já tinha que chegasse.
William Ogilvie estava farto:
- Maldito seja eu se fizer de ama-seca. Esfregue-o
a senhora.
Ela retirou a criança das mãos inúteis dele e abafou-lhe
a cabeça com uma toalha para lhe acalmar os
120
gritos. E enquanto ele se mantinha de pé, a pingar,
corado e zangado, ela disse-lhe:
- Idiota! Quem o mandou cá vir às cinco horas, e
ainda por cima a uma quarta-feira? Estes rapazes ficam
para jantar, mas depois vão-se embora. Volte às dez
horas, que eu estarei só.
Lentamente, ele secou a cara e a gravata encharcada,
pegou no casaco manchado das gotas de água e
olhou para baixo, para onde ela estava de joelhos, prodigalizando
carícias ao filho, que estrebuchava.
- Não lhe perdoarei por estes dez minutos de
grande aflição. Estou encharcado até aos ossos e detesto
crianças. O que é que eu ganho, se voltar cá logo, às
dez horas?
Ela endireitou as costas, afastou um caracol húmido
dos olhos e respondeu:
-O Sam, ou a bandeira dos piratas. Escolha.
Ele desceu as escadas silenciosamente, ensurdecido
pelos gritos das crianças e pegou no chapéu e na bengala.
O bulldog rosnou. Sam Carter, lacaio e companheiro
de folguedos, dispensado pelo capitão Sutton dos granadeiros,
abriu-lhe a porta e inclinou-se, desejando boa-
-noite. Da janela da sala de visitas, Mrs. Farquhar acenou-lhe.
Faltavam exactamente quatro horas e meia para
as dez da noite. Então, as cortinas estariam corridas, as
velas acesas, a sala de visitas estaria na sombra,
obscurecida. A dona da casa estaria só, à espera. Uma
pena a sua visita ser de negócios, mas era assim mesmo,
uma sociedade, se a viessem a ter, excluía intimidades.
Um passo na direcção errada podia ser fatal. Portanto,
considerando tudo... Começou a passear em direcção a
Russel Square.
Quando voltou às dez, a casa estava fechada, mas
um olhar para as janelas da sala de visitas mostrou-lhe
uma luz. Sim, ela tinha razão acerca de a porta branca
atrair os olhares como um íman; a mesma atracção que
se sente por uma bengala de cego. Ele fez soar a campainha
e tocou a aldraba confiadamente.
Desta vez, uma criada de fora abriu a porta, atarracada
e redonda, as feições quase escondidas por uma
touca tão grande como um cogumelo. Nem sinal de
Sammy Carter.
- Boa noite. Onde está o criado?
121
- Vai para a cama às nove. A senhora diz que ele
está a crescer e precisa de ir para a cama cedo. Sou
eu que atendo à porta, à noite.
- A tua senhora é muito conscienciosa.
Desta vez, não havia bulldog nem outros chapéus
A entrada estava às escuras, apenas uma pequena lâmpada.
- E qual é o teu nome?
- Martha, senhor. Sou a governanta por direito. Na
cozinha, chamam-me Mrs. Favoury.
- Muito bem, demonstra respeito. Subo?
- Por favor, senhor. Encontrará a senhora na sala
de visitas. Ela disse-me que o senhor sairia sozinho,
mais tarde.
Tudo bem arranjado, sem dúvida. Um ritual nocturno
- o visitante para o primeiro andar. Martha para
a cave. Imaginou o que pensaria de tudo aquilo, a
Martha?
- Estás sempre de serviço, todas as noites?
- Oh não, só quando um estranho como o senhor
é esperado. Mr. Dowler, Mr. Burton e Sua Excelência
têm chave própria.
Fantástico! E se chegassem os três ao mesmo
tempo? Haveria confusão, pelo menos, senão, possivelmente,
derramamento de sangue. Não havia dúvida que
ela tinha tudo controlado e sabia os movimentos deles
A touca desaparecera. Subiu as escadas polidas e
pensou ouvir, por trás das portas fechadas da sala de
visitas, uma mulher a cantarolar baixinho. Ele conhecia
a canção - a grande moda em Vauxhall. Toda a Londres
a cantava naquela Primavera:
To-morrows a Cheat,
Lets be merry today.
(O amanhã é uma intrujice,
sejamos alegres hoje.)
Soava melhor ali do que em Vauxhall. Cantarolar
baixinho era um passatempo agradável, reconfortante
para um homem trabalhador a necessitar de descanso,
depois de um dia ocupado. Oh, sim, ela faria o trabalho
que ele tinha em mente e mantê-lo-ia. E o riso? Riria
ela quando estava só? Tosse, uma tosse masculina. Que
122
tramava ela? Carrancudo, ele bateu firmemente à porta.
Houve uma espécie de tumulto, um sussurro, passos
abafados. A porta traseira da sala de visitas fechou-se
e então a voz dela ouviu-se, clara e imperturbável:
- Faz favor de entrar, Mr. Ogilvie!
Ele entrou e olhou em volta. Não estava ninguém,
excepto» eles. O cenário estava montado como ele imaginara;
a luz fraca, discreta, a dona da casa recostada
num sofá, de negligee, apoiada num monte de almofadas,
- Estava alguém consigo? - Havia desconfiança e
acusação na sua voz. O escutar às portas era um jogo
de que não gostava, a não ser que praticado por ele próprio,
um mestre no assunto.
Ela levantou os olhos e sorriu. Pôs de lado o polidor
com o qual estivera a polir as unhas e estendeu-lhe a
mão para que a beijasse:
- Ninguém, senão Charley, o meu irmão. Mandei-o
para a cama. Ele sabe qual é o seu lugar. Deu uma ligeira
pancada no lugar ao lado dela, no sofá.
Ainda desconfiado, ele olhou por cima do ombro:
-Toda a sua família vive debaixo deste tecto?
- Vive, mas não seremos incomodados. Disse-lhe
que éramos unidos. É o nosso sangue escocês, uma espécie
de instinto.
Ele olhou-a de perto: a pele era muito bela, o pescoço
e os ombros mostrados generosamente naquele
negligee de renda. Vinte e seis ou vinte e sete anos.
dissera o velho Taylor e casada com um bêbado durante
cerca de nove anos. Fora precisa muita coragem para
aguentar tanto tempo.
- Minha senhora, vou ser muito franco. Vim aqui
para falar de negócios, nada mais.
- Graças a Deus por isso. Passei a última noite em
Ramsgate.
- Lorde Barrymore?
- Sim, conhece-o? É um querido, mas oh!, tão bruto.
Deixa-me cheia de nódoas negras e sempre na anca
esquerda, sabe Deus porquê. Quer beber alguma coisa?
Talvez um brande?
- Obrigado.
Agora que ela sabia em que situação se encontrava,
mudou de posição, endireitou-se um pouco e agarrou nos
123
joelhos com as duas mãos. Deixou cair o langor e ficou
alerta:
- Muito bem, comece - disse ela. - Sou toda
ouvidos.
Ele encheu o copo de brande e sentou-se ao seu
lado.
- Há quanto tempo vive aqui?
-Há um ano.
- As coisas correm bem?
- Mais ou menos, mas é arriscado.
-Tem algum dinheiro de parte?
- Nem pensar, eu vivo o dia-a-dia, como quase toda
a gente. Não tenho que pagar renda, o que me salva a
pele.
- Não recebe uma quantia certa de Burton?
- Não seja absurdo. James é escocês. Tive sorte
em lhe apanhar a casa.
- E Sua Excelência?
- Cripplegate dá-me presentes, quase sempre diamantes.
O problema é que eu gosto de os usar e não de
os empenhar. Os homens não se apercebem de que, o que
nós precisamos é de dinheiro à mão, para pagar ao
carniceiro.
- Acontece o mesmo em qualquer negócio - disse
ele. - Crédito hoje, dinheiro só amanhã. Quem mais é
regular?
Ela hesitou:
-O senhor não conhece Bill Dowler. Um amigo
muito dedicado, mas dependente do pai. Acabou de perder
um dinheirão na Bolsa, com: este boato acerca da
guerra. Sou incapaz de extorquir dinheiro a um homem
que amo, não é honesto.
Ogilvie bebericou o seu brande, traçou as pernas
e, com um piparote, tirou uma minúscula linha da sua
meia de seda branca:
- Suponho que se faz passar por viúva?
- Quem lhe disse que não sou?
- Tom Taylor, e é melhor eu ser franco. Foi ele que
me induziu a fazer esta visita. Trabalhamos em conjunto
- é só um passo de Bond Street a Saville Row. Metade
dos clientes que lhe passam pelas mãos, são-me enviados
depois por ele: jovens oficiais à procura de promo-
124
ção, tenentes, capitães, majores e coronéis. Conheço os
cordelinhos todos, quando puxá-los e a quem me dirigir.
Ela puxou uma almofada e encaixou-a a seu lado.
A seguir, pegou no polidor uma vez mais e recomeçou
a polir as unhas:
- Se o Pitt conseguir o que quer e mergulharmos
na guerra, o senhor ficará bem?
- Em teoria, Mrs. Clarke, mas não na prática. Já
há muita gente no jogo hoje em dia e Greenwood e Cox
estão a espremer-nos, tentando tirar-nos o negócio. Eles
já têm a Guarda Real, os Dragões e metade dos regimentos
da frente. Pequenas firmas como a minha, não
têm hipóteses. A minha falência é apenas uma questão
de tempo, com ou sem guerra - oficialmente, claro.
O meu objectivo é trabalhar nos bastidores, particularmente.
É aí que a senhora entra.
Ela olhou para as suas unhas polidas e depois
para ele:
- Mas como?
- Com alguma influência. - A voz dele era abrupta;
não tencionava abrir o jogo totalmente.
- Quer dizer, dar jantarinhos aos meus amigos do
exército? E dizer-lhes «Comprem promoções a Will Ogilvie,
ele oferece-as a preço especial e com garantia?»
Eles não me ouviriam!. Além disso, não conheço muita
gente do exército. Apenas uns poucos rapazes simpáticos
que vêm cá brincar, mais nada. E um velho general,
fútil, que devia ter sido posto de lado há anos. Chama-se
Clavering.
Ogilvie abanou a cabeça e pousou o copo:
-Oh, eu conheço Clavering. Não serve para nada.
Não, Mrs. Clarke, não era isso o que eu queria dizer.
O que nós precisamos é de alguém do topo.
- Dos irmãos Wellesley? Não seja ridículo. Eles
são tão aprumados que não conseguem, sequer, tirar
as botas, quanto mais os calções. Para eles, nada de
portas principais brancas, iriam direitinhos à capela.
- Eu não estava a pensar nos irmãos Wellesley.
- Conheço Jack Elphinstone e Duncan Mackintosh,
ambos coronéis no 60.º, mas, e depois? Eles não são
do topo, passam o tempo na caça. Encontrei o velho
Amherst uma vez, na praia de Brighton. Ele costumava
125
ser comandante-chefe antes do duque de York. Um
velho babado, caquéctico, quase com oitenta anos. Não
serve de nada, Mr. Ogilvie, tem de encontrar outra pessoa
para o ajudar na sua firma em falência. Ora, se fosse
a marinha...
Ela ficou pensativa. O Primeiro Lorde do Almirantado
fizera-lhe uma oferta uma vez, perdera a coragem
e fugira, de seguida, para Portsmouth.
Ogilvie sorriu. Era estranho ela não ter compreendido.
Mencionara o nome certo sem se aperceber. Era
melhor deixar os retoques finais com Taylor.
- Oiça, Mrs. Clarke, se encontrássemos o homem
- e quando digo nós, refiro-me à senhora, a Tom Taylor
e a mim próprio - e o fizéssemos cair na rede, por
outras palavras, se esse homem cujo nome não é necessário
mencionar, se perdesse totalmente por si, entraria
no jogo?
- Para jogar a quê?
- Para repartir o que ganhasse. E ganharia muito.
Isto é, se aprendesse as regras elementares, regras
essas que eu lhe ensinaria em poucas semanas.
Ela olhou para ele, de sobrancelhas levantadas:
- E o que me poderia ensinar que eu já não saiba?
É assim: tão conhecedor? Estou intrigada.
Ele abanou a cabeça impacientemente:
- Não me estou a referir à sua profissão, minha
senhora. Nisso, a senhora conhece os truques todos,
creio eu. Queria dizer que a instruiria nos rudimentos
da minha profissão: assuntos do exército, não do amor
Ela encolheu os ombros:
-Quer dizer, tornar-me mensageiro? Oh, sim, eu
podia fazer isso. Adoro conversas de homem, sempre
gostei, desde criança. Política, medicina, literatura ordinária,
o que calhar. E se isso me trouxer dinheiro, melhor
ainda. Eu tenho três crianças a meu cargo, sabe,
além do resto da minha família. A propósito, o meu irmão
precisa de um emprego. Que tal fazer também dele um
mensageiro?
- Excelente. Trabalho de rotina para ele, os estratagemas
para si. Mas tem de compreender, Mrs. Clarke,
se isto for para a frente - este meu plano - pode acontecer
que tenha de se mudar, quase de certeza.
126
Ela endireitou-se, com o horror estampado nos
olhos:
-A minha querida casa? Mas, é tão confortável,
com tudo a meu gosto, e tenho aqui os meus contactos!
- Se apanharmos o nosso homem, Mrs. Clarke, não
vai necessitar dos seus contactos. Ele dar-lhe-á uma
casa maior que esta três vezes. Adeus a Burton, Barrymore
e ao resto. Peixe miúdo, todos eles.
Ele conseguira encostá-la a um canto. Os olhos azuis
estreitaram-se, depois arregalaram-se. Ele conseguia ver
a mente dela a trabalhar, saltando os degraus da aristocracia,
até aos grandes duques; mas ainda não conseguira
acertar em cheio.
- Se isso quer dizer absoluta segurança - disse
ela, falando devagar, escolhendo as palavras, não há
nada que eu não faça para a alcançar. O senhor conheceu
a minha mãe esta tarde, Mr. Ogilvie. Trémula, nervosa,
velha antes de tempo. Abandonada por dois maridos,
sem ninguém para a proteger. A sorte esteve do
meu lado, senão, teríamos morrido à fome. Não quero
acabar assim. Nem as minhas crianças. Tive um filho
que morreu... fiz um juramento. Entrarei em qualquer
jogo que uma mulher possa jogar neste mundo; se é
sórdido, ou sujo, ou mesquinho, não quero saber. Mas,
por Deus, aquele rapazinho que o senhor meteu na selha
esta noite, a chorar desalmadamente, e as irmãs também,
têm que crescer em segurança, têm que se sentir
seguros. O que quer que tenha feito no passado, ou
farei no futuro, fiz e farei por eles, e os céus ajudem
aquele que me desiludir.
Levantou-se do sofá e percorreu a sala. O sorriso
desaparecera-lhe da face. Puxou a cortina e olhou através
da janela, para a chuva que caía. Era o sinal da despedida?
Ele pousou o copo de brande;
- Pode confiar em mim - disse ele. - Serei sempre
um amigo. A minha vida, tal como a sua, não tem
sido fácil. Ambos nascidos nesta cidade de Londres,
não é verdade? Exactamente! Então, temos o mesmo
engenho, a mesma inteligência. E mesmo aqui, debaixo
dos nossos narizes, está uma certa classe, uma certa
camada social, conhecida como os «Dez Mais». Riqueza
127
herdada, ociosa, inútil e frívola. A senhora já apanhou
umas migalhas, eu também. Muito bem... vamos apanhar
muito mais do que isso, e aqui vai à saúde das suas
crianças.
Acabou o brande e beijou-lhe a mão.
- E que quer o senhor que eu faça, agora?
-Visite Tom Taylor. Bond Street, número 9.
-. Conheço a morada. Nunca lá fui e, não sei porquê,
sempre o evitei.
- Compreendo o sentimento. Não se rale. Não se
arrependerá da visita, tenho a certeza. Encaminhou-se
para a porta. Ela ficou de pé, observando-o:
- A que horas? Em que dia?
- Sexta-feira, às oito horas. Da noite, naturalmente.
Mandar-lhe-emos uma carruagem.
- O senhor estará lá?
- Não, apenas Taylor. Ele vai estar à janela, a
senhora não terá que esperar. E, a propósito, leve uma
pequena mala, no caso...
- No caso de quê?
- Pode ser que a convidem para passar algumas
noites fora da cidade.
Ela franziu o sobrolho, depois sorriu, riu, e abriu a
porta:
-O senhor faz-me sentir como uma criança antes
de ir trabalhar para a fábrica. Xaile, tamancos e jantar,
tudo embrulhado num lenço. Quando tinha treze anos,
Mr. Ogilvie, o meu padrasto ficou doente. Ele era corrector
de imprensa e eu corrigi cópias por ele, levando-as
ao supervisor e fingindo que eram do meu pai. Durante
três semanas inteiras, ele nunca adivinhou a verdade. Fiz
bem o meu primeiro trabalho. Fi-lo muito bem.
- Aposto que sim. E este também. Boa noite.
- Boa noite.
Ela ficou a vê-lo atravessar a rua e acenou-lhe. Colocou
o copo de brande no tabuleiro, alisou as almofadas
e soprou as velas. Subiu as escadas, meteu-se na cama,
mas não adormeceu. «Mais uma mudança na sua vida,
mas não havia nenhum Joseph a ressonar no chão, para
a forçar. Nenhum Edward silencioso para sempre no
seu berço. Nenhum Bill, deitado a seu lado, a quem se
128
agarrar, chorando. Charley, no andar de cima, era demasiado
jovem e ignorante. «Meu Deus» pensou, «como
uma mulher se pode sentir só, quando é ela o ganha-pão
da família. Os homens nunca avaliam o sacrifício, estão
habituados a isso».
E sexta-feira chegou. Um dia como qualquer outro,
com coisas a tratar. Alguns comerciantes madrugadores
com contas por pagar, mandados embora com uma desculpa.
Refeições planeadas com Martha. O médico para
o reumatismo da mãe. Compras com Isobel, que necessitava
de meias e de luvas. Jantar às seis com as crianças,
como presente. George bastante rabugento, a chocar
uma doença qualquer...
- Não é nada, minha senhora - disse Martha.
Demasiadas maçãs.
Charley, sem saber o que fazer, pedindo dinheiro:
- Fui convidado para jogar ténis. Posso?
- Claro que podes, querido. Não sejas tão atado
Finalmente, a casa estava arrumada. A mala feita.
uma capa escura cobrindo o vestido de noite. A carruagem
estava à porta e Sammy Carter esperava. Repentinamente,
sem nenhuma razão aparente, sentiu uma dor
aguda no estômago:
- Sammy, deseja-me sorte.
- Para quê, minha senhora? Para onde vai?
- É justamente isso que eu não sei, mas deseja-me
na mesma.
- Sim, minha senhora, fá-lo-ei sempre.
- Então fecha a porta e indica ao cocheiro a morada:
Bond Street, número 9.
As ruas estavam escuras, uma noite no começo de
Abril. A Primavera estava mesmo ao virar da esquina,
mas tardia como sempre. Havia uma festa em Hanover
Square, com carruagens parando. Ela desejou que a sua
fosse uma delas, alegre e divertida, e não correndo em
direcção a um rendez-vous desconhecido. Recordou a
carruagem de aluguer. Isligton e Mr. Day com o seu
barrete de dormir cheio de borlas, do lado de fora do
seu quarto. Onze anos haviam passado desde então, com
tantos obstáculos... A carruagem parou em Bond Street
e ela abrigou-se na capa. Uma luz brilhava numa janela do
9 - Mary Anne
129
primeiro andar - o tio Tom, furtivo, espreitando, olhando
de soslaio, ansioso. Bem, era demasiado tarde para voltar
atrás; os dados estavam lançados. O candeeiro da
rua, mortiço, alumiava umas letras por cima da loja:
«Taylor, Sapateiros»; e o escudo de armas: «Fornecedor
da Casa Real», tornavam claro o estatuto da firma.
O embaixador de Marrocos acreditava no double
entente.
m
l
CAPÍTULO 2
TOM TAYLOR esperava-a à entrada para lhe dar as boas-vindas,
vestido na perfeição, com um casaco de
veludo azul brilhante, cabelo empoado, sapatos de
fivela:
- Minha querida, estou encantado. Não nos víamos
há tanto tempo. Não ponho os olhos em si pelo menos
há três meses, desde a festa que deu às minhas pequenas
sobrinhas. Como estão as suas crianças? Lindas
como sempre? E a senhora? Mas não preciso de perguntar,
está fresca como uma rosa.
O velho homem beijou os próprios dedos e conduziu-a
às escadas:
- Eu devia estar zangado consigo - continuou ele.
- Há quanto tempo nos conhecemos? Há mais de dois
anos? E nunca visitou o tio Tom, nem mesmo para comprar
sapatos.
- Eu disse-lhe em Craven Place - o senhor é muito
careiro.
- Disparate, minha querida, disparate. Para si, desconto
duplo.
A escadaria era impressionante, profusamente atapetada,
espelhos dourados em todos os ângulos e, no
patamar, pronto para tomar conta da capa de Mary Anne,
um pajem cor de chocolate, de faixa e turbante.
- Afinal, onde estamos? - perguntou ela. - Em
Istambul?
131
Ele sorriu, esfregando as mãos, mas ignorou a graça,
os olhos pequeninos brilhando como contas, fixando profissionalmente
o vestido dela:
- Encantador - disse ele, e o decote no ponto
certo. Muitas raparigas tolas cometem o erro de mostrar
de mais o que devia ser adivinhado, diminuindo assim
a excitação da antecipação. Mas a senhora, uma promessa
numa subtil insinuação. Trouxe luvas compridas?
- Não. Porque quereria eu luvas? Vamos a alguma
recepção?
- As luvas dão o toque final. Mas não interessa.
Tenho algumas que lhe posso dar. - Ele tocou no laço
preso no ombro dela. - Muito bem - disse ele. - Gosto
do toque colorido sobre o branco, e é fácil de ajustar.
O conjunto desliza? Bem me parecia, muito conveniente.
- Afastou-se um pouco, medindo o tout ensemble.
- O senhor abraçou a profissão errada - disse-lhe
ela. - Devia mexer em seda, não em peles, percebendo
tanto acerca de corte de vestidos.
-Ficaria surpreendida - disse ele - com as coisas
que tive de fazer, em momentos de aperto. Recebi
aqui raparigas que pareciam anjos caídos do céu, mas
vestidas desastrosamente, ataviadas para a catequese.
O velho tio Tom nunca as deixou ficar mal. Com as minhas
tesouras, cortei fitas e laços, abri corpetes apertados,
aparei caracóis que formavam cachos demasiado
pesados para a linha do pescoço. Sem o polimento necessário,
as raparigas nunca brilhariam. Ainda hoje me
agradecem. Por aqui, minha querida, por aqui, um
pequeno refresco.
Ela olhou em redor, observadora, crítica. Aquela
era a sala com a janela de sacada, que dava para a rua.
Cadeiras de veludo vermelho, velas vermelhas, um
tapete ainda mais espesso do que aquele que pisara no
andar inferior. Um sofá igual ao seu de Tavistock Place,
ao lado de uma mesa posta com três copos, o que ela
anotou mentalmente, e uma grande garrafa de champanhe.
Biombos estavam espalhados por aqui e por ali,
fáceis de manejar e dobrar e quadros de cupidos recostados
indolentemente em nuvens encapeladas. Um
grande espelho na parede reflectia o sofá e a mesa.
«O efeito era berrante e frio», pensou ela. Se era aquele
o gosto dos clientes, então não estava interessada. Tal-
132
vez os cupidos servissem para estimular alguns espíritos
lentos, acicatando apetites dúbios. Depois, com as
velas carmesins...
- Bebe champanhe, minha querida? - perguntou o
tio Tom.
- Se é esse o costume.
Pouco faltou para sair e regressar a casa. O cenário
aborrecia-a. Uma armadilha para apanhar algum general
meio embriagado, e depois ficar ali, soprando bolhinhas.
Era melhor, de longe, agarrar-se aos amigos que conhecia
e debater-se com Barrymore em Rarnsgate.
- Agora, conte-me as suas novidades. - Os seus
olhinhos brilhavam.
- As minhas novidades; não tenho nenhumas. Tenho
uma vida cheia: a casa, as crianças, a minha mãe, sabe
como é, e agora estes rumores acerca da guerra, que
só servem para desestabilizar as coisas. Os meus amigos
Whig estão desesperados, abanam as cabeças, e
os Tories, claro, exultantes e dando vivas de alegria.
Estou-me nas tintas para uns e outros, não me afecta.
Conhece Burton, o meu senhorio? Deu em patriota, muito
excitado. Diz que recruta um regimento de construtores
em caso de invasão e que os comanda ele próprio. Finge
estar assustado com o assunto, mas na verdade adora
a ideia.
- E como está Lorde Barrymore?
- Parte amanhã para a Irlanda, doente com a perspectiva.
- Ouvi dizer que a mulher está de esperanças.
- Ela diz isso, mas eu duvido. Estas mulheres irlandesas
montam... isso é fatal para os bebés.
- Mr. Dowler está na cidade?
- Estive com ele a semana passada. Está desalentado
e descorçoado. Teve que deixar a Bolsa de Valores
e refugiar-se junto do pai. Gostei do seu William Ogilvie,
mas de que se trata, ao certo?
Tom Taylor levou um dedo aos lábios:
- Mais tarde - murmurou ele -, agora não. Depois,
mais alto, enquanto enchia novamente o copo
dela: - Que mais tem para me contar? Algum mexerico?
133
- Nada de ouvir dizer, só o que tenho lido. Diga-me,
a verdade aquela reportagem no Post - o senhor devia
saber, com tantos clientes reais aparecendo aqui para
que lhes aperte os pés nuns sapatos novos - é verdade
que o duque de York roubou o irmão, que houve trapalhada
em Gibraltar e que Kent foi chamado de novo?
Tom Taylor ficou cor de púrpura, engasgou-se e lançou
perdigotos. O champanhe parecia ter-lhe ficado na
garganta. Ela bateu-lhe entre as espáduas, mas vendo
que não dava resultado, procurou uma sanduíche:
- O truque do nariz? Coma um pouco de pepino,
que fica bom. Tudo pelo seu veludo azul abaixo... que
pena.
Tirou-lhe o grande lenço da algibeira, limpou-o e
colocou-o lá de novo. Ele fez um movimento violento com
as mãos - ela não percebeu. Ele suplicou com os olhos
-ela não reparou. Repentinamente esfomeada pelo
champanhe, ela desatou a comer e a falar ao mesmo
tempo, recuperando o bom humor:
- Está-se a tornar um tirano, o Frederic Augustus
Deixa cair o pobre duque de Kent e recusa um comando
ao Príncipe de Gales. O problema, suponho eu, é que
ele é o querido do velho e pode fazer o que lhe apetece
quando este está com a telha. Que tribo aquela - confesse,
tão maus como os Bourbons. Uns erros mais e
zás! lá vão as cabeças para o cesto. Graças a Deus,
sou escocesa, não devo vassalagem a ninguém. Estas
sanduíches são boas. Foram feitas na sua cozinha?
Sem esperar resposta, pegou noutra:
- Preste atenção - disse ela -, os Stuarts não
foram assim tão espertos. O miúdo Charlie ficava bem
de kilt, mas era só isso. Atrevo-me a dizer que ele correria
como uma lebre, ao som de um mosquete. A minha
mãe matar-me-ia por dizer isto, mas, mesmo quando era
pequena, adorava o som do carniceiro. Casaca vermelha
e enfeites. Gosto dos meus homens grandes, casualmente,
e ele não era nenhum franganote. Não era agora
a altura de o senhor abrir o jogo e dizer-me o que me
espera? Quem é que vai sair do seu chapéu, esta noite?
Aviso-o, se é algum velho cavalo de guerra longe da
juventude, não sou eu que o vou arrear, nem que ele
me ofereça um cordão de medalhas.
134
Sentou-se no sofá, sorrindo feliz. O champanhe era
agradável, depois do chá com as crianças, e a sala não
era assim tão má, os cupidos inofensivos:
- Então, e essas luvas? - perguntou ela. - Vamos
ao trabalho.
O anfitrião, desconcertado, recuou até à porta:
- Receio que não sejam necessárias.
- Ainda bem, ficaria com as mãos dormentes.
- Não compreendeu o que eu queria dizer. Eu queria
só demonstrar...
O pajem cor de chocolate entrou, puxou-lhe a manga
e murmurou-lhe qualquer coisa em voz baixa. Tom
Taylor curvou-se para ouvir, o estômago saliente, deixando
de seguida a sala apressadamente com o pajem
a seu lado. Repentinamente desconfiada, ela levantou-se
do sofá:
- Oh, não - disse ela -, não pode fugir e dei-
xar-me sem primeiro me dar instruções. O que se passa?
Porquê essa criança de turbante e o disparate acerca
das luvas...?
Ocorreu-lhe um pensamento terrível: o que a esperava
era de cor. Um idoso rajá indiano, adornado com
fiadas de rubis...
- Meu Deus! - gritou ela. - Se for preto, pode o
senhor ficar com ele.
Ouviu um ruído atrás de si. O biombo movia-se, todo
ele dobrando-se para trás, pondo portas a descoberto
- portas que se abriam para uma sala interior. Encostado
a elas, estava um homem, as mãos nas lapelas do
casaco e pernas cruzadas, com cerca de um metro e
noventa de altura, de tez rosada, olhos azuis salientes,
um nariz um tanto ou quanto largo, com mais ou menos
quarenta anos de idade. O coração caiu-lhe aos pés.
Reconheceu imediatamente aquele rosto, visto cinquenta
ou cem vezes em jornais e panfletos. Um rosto a quem
milhares de pessoas acenavam, que retribuía, tirando
o chapéu e mais nada. Agora, estava demasiado perto
e em pessoa, causando-lhe pouco à-vontade. Frederick
Augustus, duque de York e Albany:
- Preto, não - disse ele - e mesmo que fosse,
diabos me levem se eu levava Tom Taylor até Fulham.
Onde está o seu casaco?
135
Ela estava estarrecida. Não conseguia responder.
Submissão e fúria confundiam-se no seu íntimo. Aquele
Ogilvie, aquele tio Tom, que se atreveram a metê-la
naquele assunto sem estar preparada. Luvas brancas...
claro... e não aquele vestido do ano passado, mas o
novo, ainda não usado... brincos... broches... E ali estava
ela, como uma criada de cozinha, de olhos arregalados
e boca aberta.
Detestando-se a si própria e a ele, fez uma vénia.
Martha teria feito melhor, ter-se-ia dobrado mais. Os
sapatos não eram apropriados para aquilo, magoavam-lhe
o calcanhar. Tudo o que aprendera nos últimos três
anos fora esquecido.
- Desculpe-me - disse ela, mas o tio Tom meteu
a pata na poça, aliás, eu também meti. Não estava
preparada para isto.
- Preparada - para quê? - perguntou ele, pegando
numa sanduíche. - Não gosta do meu aspecto? Não tive
tempo para me mudar. Vim directamente dos Horse
Guards. Estou a pé desde as seis da manhã, fiquei amarrado
à secretária até às oito, com um interlúdio poeirento
de duas horas na parada do quartel. Ainda não
jantei, a senhora também não e estou danado de fome.
Juntaremos o jantar e a ceia, quando chegarmos a
Fulham. Despache-se - onde está aquele pajem com o
seu casaco? Trouxe bagagem?
- Trouxe, está lá em baixo.
- Bem, vamos descer, aqui dentro está muito calor,
parece um forno. O velho idiota tem sempre as janelas
fechadas, o champanhe assim fica quente até ao ponto
de ebulição. Não beba mais dessa porcaria, senão fica
bêbada como um cacho.
Ele colocou uma grande mão no ombro dela, empurrando-a
à sua frente, agarrou na capa que o pajem de
turbante segurava no patamar e atirou-a por cima dela.
- Onde está Taylor? Escondeu-se? Diz-lhe que nos
vamos embora. - Ela dirigiu-se para as escadas: - Por
aí, não, por aqui, pelas traseiras. Há uma entrada privada
lá atrás, em Stafford Street. Dê-me a sua mão.
Ele passou uma porta, conduzindo-a por um corredor, e
desceu uma estreita escada a dois e dois. Ela quase tropeçou
e caiu, os saltos altos escorregando no piso.
136
- Não conhece este caminho? - perguntou ele.
Poupa muita chatice. Não posso carregar Bond Street
acima numa caleche e esbarrar numa duquesa qualquer
que vem comprar sapatos. Os camaradas que cá vêm,
usam todos a porta das traseiras do Tom.
Que pensava ele que ela era, alguma pega da
esquina?
- Nunca aqui estive antes - disse ela - e nunca
mais cá volto. Tudo isto é um mal-entendido do princípio
ao fim. - Ao fim e ao cabo, tinha o seu orgulho. Se ele
queria uma rapariga para passar a noite, que a arranjasse
na rua. Não havia elegância naquele método,
nenhuma sensibilidade.
Ele atirou-a para dentro da carruagem e sentou-se
a seu lado, ocupando a maior parte do espaço: ela ficou
pregada no canto. Ele colocou as pernas abertas no
assento oposto e puxou-a para si.
- Ainda é longe, daqui a Fulham, vamos, portanto,
travar conhecimento.
Ela suspirou e encostou a cabeça no ombro dele,
resignada ao pior, fervendo de indignação e fazendo planos
de vingança - não contra ele, pobre bruto, não sabia
mais - mas contra Ogilvie e o tio Tom. Se soubesse
antes o que eles planeavam... teria tomado a iniciativa,
teria tomado o assunto em mãos. Um cozinheiro para a
noite e dois ou três criados: saberia antes o gosto dele
e o que gostava de comer: contrataria uns músicos para
tocarem e cantarem,, redecoraria a sala de visitas e
alteraria o quarto de hóspedes... Quando ele estivesse
pronto para o pequeno-almoço até poderia sair antes
- teria tido uma noite magnífica e tudo o que de melhor
ela tinha para dar. Cripplegate sempre lhe dissera que
Tavistock Place era de longe a casa mais confortável em
que estivera, os jantares eram bons, o vinho bem escolhido,
as camas eram de sonho. Uma só palavra dele,
umas semanas antes, e teria preparado tudo a tempo e
horas. Em vez disso... aos tombos como uma meretriz
qualquer, numa carruagem em direcção a Fulham. Sem
oportunidade de demonstrar as suas qualidades - a
maneira como falava, como se movia, o seu método
muito particular de conquistar os seus homens e por
que razão a admiravam. Aquilo que lhe estava a aconte-
137
cer, podia ser feito por qualquer miúda ou velha meretriz,
não interessava, ataviada para o momento.
- Bem, foi refrescante - disse ele. - Agora, que
tal jantarmos? Temos ali Fulham Lodge, à direita. Estou
tão faminto como Moisés.
Lacaios, discretos, que evitavam fixá-la. Um deles
levou-lhe o saco, outro a capa, precedendo-a nas escadas
até um grande quarto quadrado. Tudo estava preparado,
pronto - escovas, almofadas para alfinetes, pentes e
frascos, defronte do espelho do toucador. Uma cama
de dossel, camisa de noite, roupão, chinelos. De má
vontade, ela forçou-se a admitir que não podia criticar
o estilo, os preliminares. Estivesse a bota calçada no
outro pé - se ele a tivesse visitado em Tavistock Place
- ela não teria pensado na camisa de noite, ou nos
chinelos. Apetrechos para a barba, com certeza, e pentes,
no armário, mas nunca isto... Espreitou a roupa branca.
Perfumada com alfazema, macia e fina como um lenço,
que pena a sua mãe não poder ver aquilo, dava grande
valor ao bom linho e acreditava na fábula acerca do fun-
cionamento dele através de uma aliança de casamento.
- Se está pronta para descer, Sua Alteza Real
espera-a, minha senhora.
Espera, não espera? Deixá-lo esperar um pouco
mais. Ele enganava-se, se pensava que ela se sentaria
à mesa para jantar com o cabelo esfrangalhado, toda
desarranjada da viagem - a decência primeiro. Umas
gotas de perfume daquele frasco, cheirava tão bem e,
em nome de Deus, tinha que ser bom, quando fornecido
por príncipes. Tom Taylor tinha razão, devia ter trazido
luvas, davam o toque final: mas como pareciam não
fazer parte do equipamento daquele quarto, partiu do
princípio que não deviam ter grande significado para
Sua Alteza. Deslizou pelas escadas com graça e dignidade.
Uma oportunidade para lhe mostrar as suas qualidades.
Ele não reparou: arrastou-a para a mesa e mugiu
como um touro porque a sopa estava fria.
- Raios partam, quantas vezes é que isto já me
aconteceu? Três vezes numa semana. Tenho de pôr o
cozinheiro na rua. O meu estômago berra por comida.
Tragam-me pão.
138
1
Os pratos de sopa foram retirados. Pãezinhos frescos
a fumegar foram trazidos, logo seguidos da sopa aquecida
de novo.
«Que serviço», pensou ela. «Parabéns. Se fosse a
Martha!»
Ele sorvia a sopa tal qual George, como um cachorro,
e por causa disso, ela mandava-o sempre levantar-se
da mesa. Uma figa para as maneiras e comportamentos
reais. Era suposto ela conversar, ou ficar sentada como
um espantalho? De qualquer modo, podia ir comendo,
sem esperar por ele. Ele arrasou um linguado bonne
femme em duas garfadas, por isso ela brincou com o
seu, supondo que se seguiria um assado.
Assim aconteceu. Lombo de carneiro com todos os
acompanhamentos. Enquanto ele o atacava gulosamente,
o colete rebentou e um botão voou como uma seta para
o outro lado da mesa. O príncipe Charlie... o clã Mackenzie...
a ruína. Aquilo era um presságio ao qual ela
não pôde resistir.
-Importa-se - disse ela, que eu o dê ao meu
irmão?
O duque esticou-se e tirou o botão de dentro do
sal e ela viu o lacaio empertigar-se por trás da cadeira
dele. Ele levantou os olhos e resmungou:
- Qual é a ideia? Estes botões só servem nestes
coletes, que são especialmente feitos à mão por um
tipo qualquer em Windsor, que conhece a medida do
meu plexo solar.
- Não queria dizer para usar... como um símbolo.
- Símbolo de quê? De mais elegância?
-O meu irmão tem apenas vinte anos e é magro
como um caniço. Não, talvez para usar numa corrente
de relógio, uma espécie de talismã. - Perguntou-se se
lhe deveria dizer, ou ele não teria tacto nenhum? Talvez
a sensibilidade hanoveriana estivesse ainda crua, após
cinquenta anos.
- Sabe, nós, o clã Mackenzie, vimos da Escócia.
Um dos nossos antepassados tinha um botão de prata,
um presente pessoal do Jovem Pretendente que infelizmente
se perdeu, mas que era suposto dar sorte. Este
não é a mesma coisa, eu sei, mas de qualquer maneira...
139
Não lhe trará azar? É capaz disso, se for uma
Jacobita.
- Oh, mas não sou.
-Vocês, os Escoceses, são todos iguais. Tão maus
como os Irlandeses. Se lhes dessem oportunidade, apunhalavam-nos
pelas costas. Eu abatia-os todos a tiro.
- Que sangrento da sua: parte. - Vendo a expressão
do criado, acrescentou rapidamente: - Sangrento no
sentido marcial, truculento. Claro que é a sua profissão,
foi treinado para isso. - Não era oportuno, naquele momento,
enfurecê-lo. Já que estava ali, tinha que levar a
situação até ao fim, mostrar-se alegre, afável, ganhando
assim a sua hospedagem nocturna, como uma mulher
honesta.
- Depreendi, pela sua conversa em casa do Taylor
- disse ele, que não viveremos muito tempo. Destinados
à carroça dos condenados dentro de pouco tempo.
-Quem escuta às portas, ouve aquilo de que não
gosta - começou ela, para depois engolir em seco: não
podia esquecer com quem estava. - Quem escuta como
eu - modificou a frase - ouve imensos disparates e
também os lê, nos jornais diários e nos panfletos. Apenas
fiz eco disso ao tio Tom.
Que fatalidade seria, se ele a mandasse embora
àquela hora tardia, com os cavalos já desaparelhados
e recolhidos, obrigando-a a ir a pé para casa até Bloomsbury!
Como poderia uma mulher adivinhar a disposição
real e saber se teria perdido as boas graças? Talvez um
passeio de carruagem fosse tudo o que ele exigia? Ceia
e rua... Diferente do Cripplegate e também do Burton.
Olhou-o repentinamente ao terminar o terceiro prato.
Ele estava impassível e levemente ébrio. Pronto para
comer a tarte de marmelo e beber Sauterne.
- Portanto - disse ele, fixando-a -, acha que sou
um tirano, não é verdade? Má vontade para com os
meus irmãos?
Ele ouvira - palavra por palavra. Não perdera nada,
engolira tudo. Paciência, não havia nada a fazer senão
ser honesta e aguentar com as consequências. Se ele
a pusesse na rua, só se podia culpar a si própria.
- Deve concordar - disse ela com os braços em
cima da mesa - que é duro para o Príncipe de Gales
não ter um comando. Se o velho... se Sua Majestade
140
ficar novamente delirante, o Príncipe de Gales, como
Príncipe Regente, pode virar o feitiço contra o feiticeiro;
e será o senhor a procurar emprego em vez dele.
O lacaio encheu-lhes os copos e, ao passar, ela
viu-lhe a expressão de relance. Tinha os olhos vidrados
como os de um peixe cuja vida se esvai.
- Não tem nada que ver comigo - disse o duque.
- O rei ordena. Apenas obedeço às suas ordens e
transmito-as.
- Compreendo - disse ela. - Bem, nesse caso, é
um tanto problemático. Se Sua Majestade se impõe, o
senhor não pode fazer nada.
- Adivinhou - respondeu ele. - Por isso, diga aos
seus amigos que se dedicam aos mexericos da corte,
que um comandante-chefe não pode fazer o que lhe
apetece. A sua ignorância é abismal, assim como a
deles.
A tarte de marmelo desaparecera. A seguir veio o
Stilton (queijo fabricado em Stilton, uma aldeia inglesa).
Outro botão rebentou e saltou do apertado colete e ele
deu-lhe um piparote, atirando-o para o outro lado da
mesa, sem uma palavra. Ela colocou-o junto do primeiro
- no corpete.
- Continue - disse ele. - Gosto de ouvir falar dos
meus defeitos.
A cabeça dela já não estava tão clara como devia,
depois do doce Sauterne, o melhor dos claretes, do hock
(vinho do Reno) - demasiado - do linguado bonne
femme, do champanhe morno em casa do tio Tom e da
luta desordenada na carruagem. Regra geral, não bebia
em negócios, mas naquela noite tudo correra mal desde
o princípio.
Apoiou o queixo na mão e ficou a olhar fixamente
para as velas. A realidade misturava-se com o sonho,
nada era real.
- Tenho a certeza que fez o que estava certo, em
Gibraltar, trazendo Kent para casa. Ele nunca foi o
homem certo para aquele trabalho: em nome dos Céus,
porque o mandou? Aquela assustadora mania dos pormenores...
um mártir do dever, e todos os homens o
detestam, sei isso de fonte segura. Tive amigos da
Marinha em Gibraltar, então, por altura do motim, que
141
se misturaram com o infeliz batalhão que arcou com as
culpas todas... Quem eram eles? Os Royals? Já me
esqueci... Nada teria acontecido se Kent possuísse apenas
um pouquinho de senso comum. Mas não. Naturalmente,
os homens aborreciam-se, presos no aquartelamento,
sem luta-é claro que o ambiente era propício
à zaragata, às brincadeiras. E o que Kent fez, foi decretar
o recolher obrigatório, fechar todas as casas de bebida
e fechar os rapazes na caserna! Meu Deus, eu arrumava
uma zaragata dos diabos, se fosse soldado. Todos o
adoram a si; a propósito, acham que é um herói, embora,
claro, tenha havido tempo em que... em que as coisas
não lhe correram como planeara.
Ela levantou-se com dificuldade e tentou focar arduamente
as velas. Que raio estava ela a dizer, e quanto
daquilo já era traição?
- Que tempos?
-Bem... certamente na Holanda?-Tentou recordar-se.
Que lera ela num panfleto, ou que escrevera ela,
logo depois de Mary ter nascido? O fiasco de Dunquerque,
ou qualquer coisa parecida. - Não duvido da sua
coragem - disse ela. - É corajoso como um tigre. Mas
a coragem por si só não vence batalhas, a não ser que
haja uma estratégia. E agora me lembro, não foi nessa
altura que os críticos começaram a falar - não havia
uma estratégia, por isso o recambiaram para casa?
Coragem... Deus, sim! Ficava todo o dia de pé, em
risco de ser abatido. Mas não acha que foi inconsciência
da sua parte andar à procura de sarilhos, expondo-se
assim de costas, como alvo? Foi uma sorte, de
facto, ter sobrevivido. Mas conseguiu... e agora, à sua
saúde.
Ela bebeu o último golo de Sauterne e atirou o copo
vazio por cima do ombro, estilhaçando-o, uma proeza
dos Four-in-Hand drivers, que um perito a ensinara a
fazer e dava-lhe sempre uma grande satisfação ver a
fidalguia perder a compostura.
Bem... agora é que ela estava tramada. Ele chamaria
a guarda e despachá-la-ia para Newgate, onde cumpriria
uma longa sentença. De certo modo, valera a pena, teria
algo para contar aos descendentes, a luta desordenada
numa carruagem em Fulham Road, seguida de jantar e
dois botões de colete.
142
Ele levantou-se e deu-lhe a mão. Ela firmou-se e
esperou pela palavra de despedida.
- Sugiro que nos deitemos cedo - disse ele. - Far-lhe-ei
companhia ao pequeno-almoço. Não seremos perturbados
- podemos passar o dia todo em manobras,
Concordo que sou insípido no assunto, e quero aprender
as tácticas. No domingo, tenho de ir a Windsor, mas
regressarei para jantar e na segunda-feira rã, instalá-la-ei
numa casa em Park Lane, que está totalmente mobilada
para certas ocasiões. Se nos dermos bem, procurarei
algo maior. O Tom diz que você tem dois ou três filhos
e pode querê-los ao pé de si. E se subíssemos agora,
ou tem que ser transportada?
Ela respirou fundo e fez uma grande vénia. Se não
conseguisse levantar-se, pelo menos o gesto estava
feito. Os Stuarts podiam todos apodrecer nos seus
túmulos... aquele homem era um anjo.
- Sua Alteza Real - disse ela – subjuga-me. - Não
queria acreditar. Apetecia-lhe rir e chorar, gritar aos
quatro ventos, «Brunswick para sempre!».
- Tem os seus botões?-perguntou ele.
Ela mostrou-lhe o esconderijo e ele ajudou-a a levantar-se.
- Então, boa noite. Vejo-a às sete, ou talvez antes.
Estou sempre em forma pela manhã, por isso durma
enquanto pode.
- Boa noite, Alteza. E obrigada.
Às sete... de madrugada, se ele quisesse. Se alguma
coisa merecia um bom serviço, aquele tratamento garanti-lo-ia.
A má educação perdoada, uma casa em Park Lane,
outra maior a seguir. Meu Deus, que futuro!
Deitada na cama de dossel, pensou em Charley.
Poriam os botões numa moldura de prata, com as armas
reais entrelaçadas e, por baixo, num círculo, 1803.
Ogilvie tinha razão. Aquilo significava o adeus a
Burton, a Cripplegate e a Bill. Partes iguais para todos?
Nunca com um príncipe como amante. Faria sempre
jogo limpo, ele não teria de se preocupar.
«Cheguei», disse para si própria. «Cheguei ao topo.
Serei agora a segunda, em detrimento de Mrs. Fitz.
143
A questão é... quanto tempo conseguirei manter o lugar?
Não me posso desleixar, nem por um momento... Precisarei
de todos os truques que conheço para o manter
preso.»
Uma lição a ter em mente para quando o perigo
espreitasse. Confrontada com uma decisão dúbia... agir
com audácia.
144
CAPÍTULO 3
MARTHA?
- Sim, minha senhora.
- Martha, traz a ardósia, para vermos como
estamos acerca de convidados. Traz também a minha lista
de compromissos - deixei-a na sala de visitas.
Pegou no xaile, amontoou as almofadas atrás das
costas, colocou o tabuleiro do pequeno-almoço sobre os
joelhos e, noutra almofada à sua esquerda, colocou papel
de carta, apontamentos e uma pena. Aquele era o segundo
pequeno-almoço que ia tomar. O primeiro fora tomado
apressadamente às sete e meia. Chá e pãezinhos quentes
servidos à pressa, enquanto ele, meio vestido, andava
de um lado para o outro, conversando e berrando por
Ludovick, o criado, pedindo as botas, o cinto ou uma
peça qualquer da farda fora do sítio, enquanto ela lhe
servia o chá e perguntava quais os planos do dia.
- A que horas, hoje à noite?
- Nunca antes das seis, seis e meia. Não devo
poder jantar antes dessa hora. Devo chegar atrasado.
Vai ser outro dia como o de ontem, papelada até ao
tecto na minha secretária, nos Horse Guards, além de
tudo o mais que o Clinton me traz para assinar. Este
assunto do recrutamento sobrecarregou toda a gente,
as manutenções militares todas aos berros, protestando
e só Deus sabe quantos coronéis a meio soldo querem
aumentar os seus efectivos.
- Isso é bom, não é? Os homens são precisos!
- Claro que são precisos. Se eu tivesse autoridade,
ia aos livros da Armada e aproveitava-me deles, obri-
10 - Mary Anne
145
gando os homens a ingressar no Exército à força. Os
efectivos são o diabo. Precisamos de mais ou menos
três meses para fazer os regulamentos, depois mais seis
para fazer o recrutamento e entretanto, Booey farta-se
de rir enquanto nos observa de Calais.
- LudVick! - berrou ele para o quarto de vestir.
- Alteza?
- O meu segundo par de botas, estas não, que
tenho um calo. Mais uma chávena de chá, querida, e
açúcar.
Ela esticou-se para fora da cama para pegar na
chávena, enquanto ele se sentava aos pés, lutando com
as ligas das meias.
- Devo ter que ir a Hythe na quarta-feira, por três
dias. Eles fartam-se de coçar as cabeças por causa das
defesas de Romney Marsh, se bem que possuam os
meus desenhos em triplicado. Mal tenho tempo, com
toda esta agitação em Londres e com a desordem política
na ordem do dia. Addison vai ter que se demitir e
o Pitt vai ter que o substituir, não podemos continuar
assim, é confusão a mais.
Ela observou-o a vestir-se, com as mãos cruzadas
na nuca. Aquele era o momento de que mais gostava,
frases irreflectidas a saírem da boca dele, tão rapidamente
esquecidas como o chá que bebia, enquanto ela
as memorizava.
- Como está Sua Majestade?
- Doentíssimo, aqui entre nós e a coluna da cama,
ali. O cirurgião, Dundas, esteve em Windsor ontem, numa
conferência com o médico Symonds. Querem levá-lo
rapidamente de volta para Buck House, amanhã ou no
dia seguinte, mas a Rainha é contra. Diz que toda; esta
excitação política lhe vai agravar o estado e que uma
vez em Londres, vai querer interferir. Ludovick! O meu
casaco.
- Tenho-o aqui, Alteza.
Ele ficou a ajeitá-lo, em frente do espelho dela.
Pela janela entreaberta entrava o som dos cascos dos
cavalos que o moço de estrebaria passeava para cima
e para baixo em Gloucester Place.
-Não tenho tempo para mais uma chávena de chá,
minha querida. Tomarei o pequeno-almoço em Portmam
Square e depois sigo para os Horse Guards. Se chegar
146
tarde esta noite, é porque fui à Câmara dos Lordes preciso
de ouvir o que St. Vincents tem para dizer.
Espero ver o Almirantado levar uma sova mestra, de
maneira que se esqueçam de nós, no Ministério da
Guerra. Geralmente, é ao contrário - os marinheiros
levam os louros e nós as censuras. Ajoelha-te na cama
e dá-me um beijo, não me posso dobrar.
Ela riu-se e esticou-se para cima, esfregando as
faces dele com as mãos.
- Trabalhas de mais - disse ela. - Deixa-me ajudar-te.
- Tu já estás demasiado metida no assunto. Imagina
a cara de Clinton, se eu te levasse aos Horse Guards
e te vestisse de A. M.S. (Army Medical Staff). Verdade
seja dita, o dia passaria um pouco mais depressa. Que
horas são?
- Passa das oito.
- Volta a adormecer e sonha que já são onze da
noite. Amas-me um bocadinho?
- Sir... como tendes a lata...?
- Não tenho, é apenas um hábito. Um desejo de sair
de casa bem-disposto. Sonhos doces, meu amor.
O tinir da espada pelas escadas abaixo, o ranger
da porta da frente e o trote dos cavalos a caminho de
Portmam Square. Ela reclinou-se nas almofadas e fechou
os olhos. Mais uma hora a dormitar e então começaria o
dia. Aquela vida estranha e desarticulada era agora
uma segunda natureza. As noites eram dele, doze horas,
das sete às sete, mas o resto do tempo pertencia-lhe,
para fazer o que lhe apetecesse; e cada momento era
preenchido sem ele sequer sonhar.
Dormitando, fez uma retrospectiva da sua vida até
ao momento, ano após ano, quase desde os dias das
ruelas. Aquela educação como rapariga do povo aguçara-lhe
o espírito e permitira-lhe saber aproveitar-se das
oportunidades: a escola em Ham dera-lhe um pseudo-
polimento: o casamento com Joseph dera-lhe o pior na
mocidade - tão mau, que nada que um homem, lhe
pudesse fazer então, ou no futuro, lhe quebraria o
coração. Quanto ao resto... todos os amantes eram
diferentes. Ela sabia como tirar proveito e seguir em
frente, grata pela lição. Tudo o que aprendera com os
homens, não apenas com os amantes, tinha um objectivo,
147
num mundo feito por esses mesmos homens. Tornar-se
igual a eles, portanto. Jogar o jogo deles e juntar a
esse mesmo jogo o sentido da intuição.
Os seis meses em Park Lane, embora arrebatadores,
suficientemente violentos para lhe porem a cabeça a
andar à roda e mandar a precaução às urtigas, eram
apenas uma experiência, para provar o seu valor. Não
bastava rir e armar em folgazona. Dúzias de outras, em
Bond Street, esperavam a sua vez e estavam prontas
a tomar o seu lugar a qualquer momento, se o duque
precisasse apenas de uma companhia de cama. Mas,
que se passaria na sua mente, no seu coração, no seu
estômago? Eram essas coisas que ela se propunha descobrir.
Nunca com perguntas directas, nem com sondagens,
mas tacteando, abrindo os olhos e os ouvidos e
absorvendo tudo.
E a mulher, a duquesa? Uma mulher pateta, desmiolada,
vulgar e estéril, rodeada de montes de cãezinhos
de salão. Por essa razão, ao contrário de James
Burton e outros que ela conhecia, a vida de casado do
duque era vazia, sensaborona e solitária. Ele queria uma
casa que cheirasse a lar, que tivesse vida. Um lugar
onde crianças brincassem no andar de cima, à vontade,
sem cerimónias e sem uns quantos lacaios à sua volta.
Um lar onde pudesse relaxar, bocejar - estender-se de
pernas e braços abertos. Precisava de uma mulher com
quem pudesse conversar, rir, comer, amar quando lhe
apetecesse, aborrecer e com quem dormir. Uma mulher
que não o enfastiasse com mexericos, tagarelice sobre
folhos e rendas, vestidos e toucas. Uma mulher que
mudasse de disposição quando o temperamento dele o
exigisse. Uma mulher cujo humor fosse grosseiro como
o de um brigão de caserna. Uma mulher que talvez lhe
batesse num acesso de raiva. Uma mulher que o mordesse
num momento de paixão. Era isso que ele exigia
e finalmente encontrara. Uma vez a experiência de seis
meses terminada, ela passara com distinção.
- Dar-te-ei uma casa na cidade - disse ele - e
uma casota no campo. Mil libras por ano para as governares,
pagas mensalmente. Se não chegar, terás de te
governar de outro modo qualquer. Ninguém te exigirá
o pagamento quando se souber e tratarei que se saiba,
inclusive os comerciantes, que de futuro viverás sob a
148
minha protecção. Assim rotulada, terás todo o crédito
do mundo. A protecção acarreta favores, os favores
acarretam protecção. Desenvencilha-te e não me aborreças.
Sou um palerma em tudo o que se relaciona com
dinheiro, não o compreendo.
(Aquilo fora dito em Park Lane no final do Verão.
Pensara para si própria: «Mil por ano não é muito se ele
quiser viver bem.» Mas se reclamasse da soma demasiado
pequena, poderia perdê-lo.)
-Claro - replicou ela -, eu governo-me. Onde
vamos viver?
- Tenho uma casa em Portman Square - disse-lhe
ele - a cinco minutos daqui. Outra em Gloucester Place;
que será tua. Irei ter contigo todas as noites, jantarei
e dormirei lá, regressando a minha casa pela manhã.
Criados, mobília e tudo o mais, deixarei ao teu critério.
Mil libras por ano pagariam quase só os ordenados
dos criados e as librés... Afastou o pensamento e começou
os planos. Estranho, os homens da sua vida serem
todos tão irresponsáveis com o dinheiro, mas daquela
vez não haveria necessidade de economizar, tinha todo
o crédito que quisesse.
Os comerciantes atropelavam-se para a servir. A protecção
real era dela para a dar a quem quisesse. Birkett,
o artífice de pratas, Parker, o joalheiro, o primeiro com
baixelas de prata do duque de Beri, contrabandeadas
de França, para serem pagas conforme ela quisesse,
o segundo com diamantes.
- Um presente, minha senhora, para o duque.
Cartões à porta, todos de comerciantes em perspectiva.
«Teríamos muita honra, minha senhora, o favor
de...» etc., etc. Mortlock de Oxford Street, oferecendo
porcelanas e cristais. Summer and Rose de Bond Street,
enviando grades para a lareira; Oakleys de Bond Street,
estofos e cortinados. «Mr. Taylor, minha senhora, do
número 9, sugeriu que a visitássemos.»
Tom Taylor também arranjou criados que estavam
disponíveis.
- Minha querida, deixe tudo por minha conta. Tenho
exactamente o que precisa. Criados com longa experiência.
Esses sujeitos vêm todos ter comigo, quando
precisam de emprego.
149
- Porquê? Costuma ter comissão sobre os ordenados
deles?
Ele ignorou a sugestão e não respondeu.
Pearson, mordomo, que estivera dez anos com
Lorde Chesterfield, Mr. Dowler, lacaio, cinco anos em
Berlington House, Parker, cocheiro, muito bem recomendado,
sete anos com Mrs. Fitzherbert e querendo
mudar. Criadas de fora, lavadeiras, cozinheira e ajudantes
de cozinha... Todos arranjados pelo tio Tom num
abrir e fechar de olhos.
- A minha criada pessoal passará a ser a governanta.
insistiu ela.
- Acha que ela dará conta do recado, querida? pôs
ele em dúvida.
-A Martha sabe tudo. É leal, fiel e as crianças
adoram-na. - Não se falou mais no assunto.
Duas carruagens, seis cavalos - algumas vezes
oito. Moços de estrebaria, um postilhão (Sam Carter
podia servir), uma rapariguinha para costurar pela manhã,
uma mulher-a-dias para esfregar a casa, pelo menos
duas vezes por semana.
Roupa branca - e a roupa branca? Tom Taylor prontificou-se
a arranjá-la. Feita à mão na Irlanda, numa
firma de amigos pessoais.
- Mas, tio Tom, essas pessoas terão de ser pagas?
- Não há pressa, minha querida, o que eles querem
é o prestígio da «protecção».
Se era assim, então ao diabo com os escrúpulos e
consequências e encomendar o melhor. Ninguém se
atreveria a processar um príncipe de sangue real.
A notícia espalhou-se «Soo & protecção do duque»
e o resultado no mundo do comércio foi mágico. Felicitações
afluíram em grande quantidade, da parte de
conhecimentos, amigos e até dos amantes.
James Burton, que se poderia ter sentido desprezado,
assegurou-lhe que a mãe dela podia ficar em
Tavistock Place enquanto a casa servisse as necessidades
familiares.
- Soube que obteve a protecção do Duque de York.
Esplêndido! O melhor dos Brunswick e o único que não
parece alemão. A propósito, dê-lhe uma palavrinha sobre
a minha pessoa e o meu regimento de artesãos. Se
150
tivermos a sua aprovação e apoio, o meu projecto pode
avançar.
Cripplegate escreveu-lhe da Irlanda.
- Ena, que ouço eu, enrolada com Frederick Augustus?
Parabéns. Prá frente, é que é o caminho, mas
segura bem as rédeas e não te esqueças dos velhos
amigos quando te pedirem um favor. Tenta saber o que
York me dará, se eu conseguir alguns recrutas.
Bill Dowler foi o único dissidente. De lábios cerrados
e retraído, visitou-a.
- É verdade que és amante do Duque de York?
- Oh, Bill, não sejas antiquado. E porquê essa
palavra? Eu gosto de dizer que estou sob a sua protecção.
dá um ar paternal, que eu nunca tive. Quando
nos conhecemos, disse-te que era ambiciosa, não disse?
E acho que cheguei onde queria. De qualquer maneira,
vou continuar a precisar de ti na sombra.
Ela levou-o a ver a casa em Gloucester Place. James
Burton verificara as canalizações e as instalações. Dava
jeito um ex-amante ser também construtor. Bill podia
escolher os cortinados e as carpetas.
- Tens um acordo como deve ser com o duque?
- Acordo? O que queres dizer? Tenho esta casa.
- É muito bom teres a casa, mas e o dinheiro para
a manter? Custar-te-á, pelo menos, três ou quatro mil
libras por ano.
Ela achou aquela prudência tipicamente característica
de Bill, andar de sala em sala abanando a cabeça,
aumentando as dúvidas dela, esmorecendo-lhe o entusiasmo.
- Ele prometeu-me dinheiro todos os meses.
- Estou a ver... Bem... certifica-te que consegues
essa promessa por escrito, o mais rapidamente possível,
ou melhor ainda, um acordo com o banco dele.
- Não posso fazer isso. Pareceria tremendamente
ganancioso da minha parte.
Despeitado, pensou ela. Pobre Bill, magoado e ciumento...
Ainda suspirando por aquela casa de campo
em Chalfont St. Peters. Que grande distância para Gloucester
Place! Protegida do duque, não de Mr. Dowler.
Will Ogilvie deu conselhos de outro género. Conselhos
que não se atreveu a repetir a Bill.
151
- Vá devagar - disse ele, não tenha pressa.
Aprenda o negócio. Deixo-a instalar-se e depois dir-lhe-ei
como agir. Agora que o meu escritório em Saville Row
fechou, declararam-me falido, ninguém me ligará a
assuntos da Agência do Exército. Trabalharei por conta
própria, como seu agente e receberei uma percentagem.
Indicar-lhe-ei os sujeitos que querem promoção. Passá-los-á
depois ao duque. E o assunto fica arrumado.
Dinheiro para si dos sujeitos que ficam com os nomes
publicados na Gazeta. Para mim, uma percentagem. Sua
Alteza Real não lhe fará quaisquer perguntas. Experimente
primeiro com favores onde não haja dinheiro
envolvido.
O primeiro pedido seria fácil. Qualquer coisa para
Charley, cujos olhos brilhavam agora com os reveses
da fortuna, que já se via como marechal de Campo no
espaço de três anos.
- Achas que Sua Alteza Real... Podias pedir-lhe?
Um assunto de família, particular, rapidamente resolvido.
- Sir, o meu irmão está ansioso por se alistar no
exército. Brinca aos soldados desde os seis anos de
idade. Posso apresentar-lho, talvez. Uma destas noites?
É bastante jovem e tímido, mas muito entusiasta.
Charley Farquhar Thompson, portanto, teve o nome
devidamente publicado na Gazeta como alferes no 13.º
Light Dragoons, a vinte e cinco de Fevereiro de 1804.
Sam Carter, ajudante de lacaio, tinha inveja da promoção
de Charley. Se Mr. Thompson se alistava no
exército, porque não poderia ele fazê-lo? O capitão
Sutton sempre lhe dissera que uma casaca vermelha
lhe assentaria bem.
- Minha senhora, tenho-me sentido bem ao seu
serviço, a senhora tem sido muito bondosa. Mas agora
que Mr. Thompson partiu, sinto-me um pouco só, ainda
por cima com a guerra e tudo o mais, com toda a gente
atarefada. Detestaria que incomodasse Sua Alteza Real
por minha causa, mas talvez uma palavrinha...
- Querido Sam, claro, se assim o desejas, apesar
de eu não suportar perder-te.
Que divertido, pensou ela, dar aos seus amigos o
que eles mais desejavam. Sam Cárter não se podia
152
considerar um amigo, mas tinha-a servido bem e parecia
tão indefeso quando na copa limpava as facas.
- Sir, conhece o meu Sammy, que serve à mesa?
- O jovem que se dobra pela cintura, como um
narciso?
- Sim. Nem vai acreditar, ele quer uma comissão.
Mandei-o estudar, sabe? É bastante educado. Um rapaz
encantador, que está a desperdiçar a juventude como
lacaio.
- Então, dá-me os pormenores todos e verei o que
posso fazer.
Samuel Cárter foi alistado como alferes no 16.º de
Infantaria. Publicado na Gazeta em meados de Abril de
1804. Aquilo era fácil, um nome de cada vez ficava mais
ou menos em família e não havia dinheiro envolvido.
O teste surgiria logo que ela começasse a brincar às
promoções. Cada dia que passava, arranjava uma desculpa
diferente... E Ogilvie continuava à espera.
O relógio deu as nove e Martha entrou com o tabuleiro
do pequeno-almoço, a lista dos compromissos e a
ardósia.
- Minha senhora, aquele sujeito, Few, está lá em
baixo outra vez.
- Quem é ele?
- Tinha uma loja em Bernard Street. A senhora
comprou-lhe um candeeiro para Tavistock Place há quase
um ano, diz ele,
- Aquela coisa grega que Lorde Barrymore fez em
cacos? Lembro-me. Bem, que quer ele agora? Anda a
vender mais relíquias?
- Não, minha senhora, ele diz que o candeeiro
nunca foi pago. O conserto custou vinte libras.
- Que disparate! Foi ele que o consertou no quarto
das traseiras. Manda-o embora.
Que ridículo, incomodá-la agora por causa de uma
conta feita há um ano, em Bloomsbury. Aqueles dias
haviam caído -no esquecimento, assim como as dívidas.
- Como está a constipação do menino George?
- Ele diz que se sente melhor, mas não quer ir
hoje à escola. Quer observar os Life Guards no Quartel.
- Abençoado seja, que vá. Leva-o, Martha.
- E quanto a Miss Mary e Miss Ellen?
153
- Elas não estão constipadas, por isso têm de
estudar as suas lições.
Ela também tinha uma lição. – Corri, o professor de
música, às dez e meia. Tal como Sam, fora protegido de
Button, mas mais como um lírio do que um narciso e
inchado por causa disso.
- Martha, recebo Mr. Corri esta manhã. Vê se a
sala de visitas está pronta e se a minha harpa está
descoberta. Mr. Ogilvie vem ao meio-dia. Miss Taylor
disse que talvez viesse esta tarde. Se vier e eu estiver
ocupada com alguém, ela que vá para o pé das crianças;
já devem estar em casa a essa hora. Diz a Parker que
não preciso da carruagem antes das quatro. Diz a
Pierson que não jantamos antes das sete, mas que
deve estar pronto às seis e meia, para o caso de Sua
Alteza Real chegar a horas. Sabemos que ele não suporta
esperar pelo jantar. Que está escrito na ardósia?...
Pato assado?... Comemos pato assado no domingo.
- Ouvi Ludovick dizer que o cozinheiro de Portman
Square tinha um salmão. Se Sua Alteza Real não jantar
lá, vai-se estragar.
- Não, se eu puder evitar. Manda Pierson buscá-lo.
Mas tem que ser temperado pelo azeiteiro em George
Street - o cozinheiro não o pode fazer aqui, não sabe
como. Onde estão os meus chinelos?
- Ali, minha senhora, debaixo da cama.
- Que está na caixa?
- Capas, minha senhora, da costureira. Enviaram
várias para a senhora experimentar, pode usá-las à vez.
- Não gosto de capas, os mexeriqueiros dirão que
estou grávida. Diz a Pierson que as leve de volta quando
for buscar o salmão.
Um roupão serviria para o professor de música, o
cabelo torcido num carrapito, fitas nos caracóis. Um
toque de azul nas pálpebras, mais nada.
- Mamã... Mamã...
- George, meu amor, meu anjo. - Assoou-lhe o
nariz. - Agora, vai ter com a Martha.
As raparigas sentiram-se magoadas e empertigaram-se:
- Porque é que o George pode ir ter com a Martha?
154
- Porque, minhas queridas patetas, ele só tem seis
anos, e se vocês se portarem bem, levo-as na carruagem.
Agora desapareçam, que eu tenho de me vestir.
Em baixo, na sala de visitas, Mr. Corri esperava,
a face redonda e pálida como uma flor murcha, emoldurada
por uma auréola de cabelos de seda, posando
ao lado da harpa, a porta da sala de visitas aberta, não
fosse o caso de o imprevisto acontecer e Sua Alteza
Real ainda não ter saído.
Inútil. A esperança transformou-se em desapontamento.
Mrs. Clarke correu pelas escadas abaixo sozinha,
acenando.
- Bom dia, Corri, fi-lo esperar? Estou sempre atrasada,
nunca me visto a tempo.
- Minha querida senhora, nesta casa o tempo não
tem significado. Respirar o mesmo ar que a senhora
respira, é paradisíaco. Passei pelas suas crianças, belas
como fadas, nas escadas.
- Espero que o George não lhe tenha dado um
pontapé nas canelas.
- Minha querida senhora, não. Enrugou a boquinha
e fez-me uma careta divertidíssima por brincadeira.
- Alegro-me que tenha achado graça. Quando ele
me faz isso, geralmente dou-lhe um açoite. Que vamos
cantar hoje?
- Um pouco de Mozart?
- Se isso me libertar a voz, fá-lo-emos, mas só
como exercício, nada mais. Sua Alteza Real não aprecia
Mozart. Diz que gosta de ouvir música popular.
- Música popular... Minha querida senhora...
- Deixe-se disso, Corri. Sei o que quero dizer.
Nada de trá-lá-lá, nem muita gritaria, mas uma canção
de sucesso, de Vauxhall, e quanto mais picante, melhor.
Ela virou as páginas de música, enquanto ele se
encolhia, um pouco magoado.
- Estas não servem, pareceria uma vaca a parir.
Sua Alteza Real gosta de rir, não de tapar os ouvidos.
Atirou com as músicas dele para o chão e encontrou
as suas.
- Vamos experimentar esta, ouvimo-la na passada
quinta-feira à noite. «To London town Ilf haste away» eis
aqui algo que ele pode acompanhar batendo o pé
155
no chão. É esta, «When Sandy told his Tale of love»?
O terceiro verso é mesmo chocante.
- Se insiste, minha querida senhora, se insiste.
Ela passou os dedos pela harpa. As duas vozes
encheram o ar, a dela pura e clara, a dele rouca e apaixonada.
Uma batidela na porta perturbou a solene lição.
- Mr. Ogilvie para si, minha senhora.
- Diz-lhe para esperar.
Só mais uma canção, que Ogilvie ouviria através
das portas duplas da sala de visitas e Compreenderia:
«Young Man seeks my Heart to love».
Ouviu o discreto aplauso no final.
- É tudo por agora, Mr. Corri. Amanhã à mesma
hora.
Ele reuniu as suas coisas.
- Desculpe-me por mencionar isto de novo, minha
senhora, mas aqueles cavalheiros que estão tão ansiosos
por conhecê-la. O coronel French e o capitão Sandon, seria
possível um ou ambos visitarem-na esta tarde?
- Que querem eles?
-Não sei exactamente, são amigos de um amigo...
Disse-lhes que agiria como intermediário.
O costume, claro. Algum favor a ser pedido. Corri
receberia uma percentagem do negócio.
-Quer dizer - perguntou ela, um assunto militar?
- Creio que sim, minha querida senhora, a sua
influência é conhecida. Uma palavra à pessoa certa,
compreende?
Ela compreendia. Acontecia todos os dias. Cartas,
bilhetes, de estranhos ou de amigos. «Cara Mrs. Clarke,
se pudesse falar no meu nome perante... Uma palavra
sua a Sua Alteza; Real teria mais peso do que qualquer
requerimento ao Ministério da Guerra... e não necessito
de dizer que pagaria de bom grado qualquer recompensa
que pedisse.» Encolheu os ombros e entregou a Mr.
Corri as folhas de música.
- Não posso prometer nada, Corri, esses assuntos
são muito delicados e difíceis. Os seus amigos podem
vir visitar-me, mas podem não me encontrar em casa.
- Naturalmente que eles terão que arriscar, minha
querida senhora. Mas creio que mencionaram a soma
de dois mil guinéus.
156
Ela virou-lhe as costas e fingiu arranjar as flores.
Conforme ele se dirigia para a porta, disse-lhe casualmente:
- Para quem são os dois mil guinéus?
Ele suspirou com uma expressão dolorosa, os ombros
descaídos, dando a entender que não tinha nada
a ver com isso.
- Querida senhora, tem acesso directo a Sua Alteza
Real. Necessito dizer algo mais, além de que deve
usar da maior discrição?
Fez uma profunda vénia e saiu. Dois mil guinéus...
O dobro da soma anual que o Duque lhe prometera e
que Vinha agora, gota a gota, todos os meses, o suficiente
para pagar aos criados e nada mais.
Ela abriu as portas duplas e chamou Ogilvie:
- Então, ouviu-me cantar?
Ele entrou vagarosamente com um sorriso nos
lábios e beijou-lhe a mão. Sem lisonjas, sem admiração.
Era o único homem, entre todos os conhecimentos masculinos
dela que nunca tivera pretensões, que se man-
tinha à distância.
- «Young William seeks your heart to move»? As
palavras intrigam-me. Não pretendo tocar-lhe o coração,
somente a cabeça.
-A qual prefere pensar por si própria, sem a sua
assistência.
Ela ofereceu-lhe um refresco. Ele recusou. Ela indicou-lhe
uma cadeira e depois sentou-se também, de
costas para a janela, observando-o.
- O senhor é como uma sombra demoníaca, sempre
na retaguarda. Porque não me deixa em paz? Sou felicíssima.
- É? - perguntou ele. - Duvido. Nenhuma mulher
é feliz se não conseguir fechar o seu homem a sete
chaves. E a senhora não o consegue com o seu príncipe.
- Mantenho a porta da gaiola aberta. Ele é livre
para voar. Mas regressa sempre ao poleiro, como um
pássaro fiel.
- Folgo em ouvir isso. A felicidade doméstica é
comovedora desde que, claro, seja duradoura.
Sempre o ferrão, a insinuação, a alusão indirecta de
que nada é permanente.
157
- Perguntou-lhe acerca das defesas sul de Londres?
- Não e eu seja cega se o fizer. Não sou nenhuma
espia.
- Espia é uma palavra estúpida para uma mulher
da sua inteligência. Acontece que a informação pode
ser útil, não necessariamente agora, mas no futuro.
- Útil para quem?
- Para si, para mim, para ambos. Somos sócios
neste pequeno jogo, não somos? Ou éramos, quando
começámos.
A insinuação, a ameaça velada. Ela não estava a
cumprir o contrato.
- Não compreende - disse ela. - Ele é honesto,
directo e as coisas que conta, conta-as confidencialmente.
Se as repetisse, seria traição.
- Que sentimentos nobres, nos últimos seis meses.
Deve ser influência de Gloucester Place. Vê-se aqui
instalada para sempre. Talvez lhe devesse recordar o
discurso de Wolsey: Não confie em príncipes - ou estou
a ser cínico?
- Creio que é cínico e também traidor. Não me
surpreenderia se, ao sair desta casa, fosse direito a
algum agente francês contar tudo o que lhe disse. Muito
bem, vá ter com eles, diga-lhes o que comemos, o que
bebemos, a que horas vamos para a cama e a que horas
nos levantamos. A imprensa de Paris pode satirizar-nos,
se lhe apetecer, não será segredo nenhum. - Ela fez-lhe
uma careta, a mesma que George fizera a Corri nas
escadas e fixou-o em ar de desafio.
Ele suspirou e encolheu os ombros.
- Não me diga que fez a única coisa imperdoável,
fatal para o negócio e para a paz de espírito, esperá-lo-ia
de qualquer outra mulher, mas não de si, não me
diga que se apaixonou pelo seu protector principesco?
- Claro que não, não seja absurdo.
Ela levantou-se e passeou pela sala, enquanto ele
a observava pensativamente.
- Eu não teria tanta certeza. É insidioso, não é
verdade? Dá uma sensação de segurança apegar-se a
um homem que não é feio de todo e tem uma posição
de relevo. Isso deve fazer com que corresponda aos
sentimentos dele de uma maneira arrebatadora.
158
I
Era mesmo de Ogilvie manchar a confiança e gratidão
e procurar minuciosamente uma fraqueza escondida
ou não admitida. O amor era um sentimento esquecido,
findo, mas não totalmente morto, quando a cabeça do
filho preferido de Sua Majestade repousava na sua
almofada.
- Quem me dera que o senhor se fosse embora disse
ela. - Vem cá, dia após dia e eu não tenho nada
para lhe dar.
- Peço-lhe apenas um pouco de cooperação.
- Não me transformarei em espia. É a minha última
palavra.
- Nada é definitivo neste mundo em mudança.
Lembre-se disso, pode-lhe ser útil, um dia. De momento,
há outros assuntos mais importantes. Como sabe, fechei
o meu negócio para me tornar seu agente. Quando
começo?
- Já lhe disse, não tenho nada para si.
Ele tirou uma pequena pasta da algibeira, abriu-a
e retirou uma folha de papel, que lhe entregou.
-Eis uma lista de nomes - disse ele. - Uma lista
de oficiais de vários regimentos, todos pedindo favores.
Alguns deles querem promoções, outros, trocas. Se
seguirem os trâmites normais, têm que esperar três
meses.
- Eles não podem esperar?
- Claro que podem, mas não nos é vantajoso. Dê
esta lista ao duque e veremos o que acontece. A senhora
sabe qual a ocasião, a disposição e o momento,
- Provavelmente, recusará.
- Tanto pior. Voltaremos a pensar nisso. Mas deixe-me
fazer-lhe uma sugestão, se me deixar. Antes de
lhe dar a lista, peça-lhe dinheiro. Diga-lhe que esta casa
está a custar muito mais do que pensava, que não sabe
o que fazer e que está muito preocupada. Depois, deixe
passar uma hora e entregue-lha.
- Porquê uma hora?
- O aparelho digestivo é delicado, os órgãos reais
lentos a digerir uma má notícia. A propósito, a sua história
é verdadeira, por isso, não estará a dizer nenhuma
mentira. A casa custa-lhe mesmo muito dinheiro e está
muito preocupada.
159
Inútil protestar. Ele sabia de mais e conhecia também
o seu receio principal, a raiz do problema: «Se eu
falhar, que acontecerá às crianças?» - aquele fantasma,
pairando num recôndito da sua mente.
Ficou ali de pé, olhando para a lista com os nomes.
- Will?
- Sim, Mary Anne?
- Recebi uma oferta de duas mil libras. Ainda não
sei de quem, nem do que se trata. Provavelmente, virão
cá a casa esta tarde.
- Receba-os, confirme e diga-me depois. Não fique
com um ar tão sério, minha querida, é tudo muito simples.
Não tem nada a perder, tudo a ganhar. É o jogo
mais fácil do mundo, depois de se aprender a jogá-lo.
Dois mil guinéus mais rica, se jogar bem.
-Jura que não há perigo?
- Não entendo, perigo para quem?
- Para o Duque... para mim... para todos nós...
para o país?
O pânico repentino de uma criança do povo...
cuidado... o bedel vem atrás de ti, esconde-te sob o
carrinho de mão ou foge pela ruela acima... não digas
à tua mãe onde estiveste.
- Desde a conquista normanda - disse ele - que
este país tem sido dirigido pela corrupção. Desde o
arcebispo até ao mais baixo e mais mal pago funcionário,
estamos todos metidos no mesmo barco. Não
necessita de se preocupar, lembra-se do seu primeiro
emprego com o patrão do seu pai? Enganou os simplórios
nessa altura, porque não os pode enganar hoje?
- Mas isto é diferente.
- Não é, não O jogo é idêntico. Se não o tivesse
jogado então, teria ficado na sarjeta; mas agarrou a
oportunidade e salvou a sua família. Se lhe faltar a coragem
agora... - ele hesitou; a porta da frente bateu, um
rapazinho gritou e logo a seguir, o som de uns pés
subindo rapidamente as escadas...-se lhe faltar a
coragem agora, o que lhe acontecerá?
- Está previsto o George ir para o colégio de Chelsea,
no Outono e, dentro de um ano ou dois, para Marlow.
Tem o futuro assegurado, prometeu o Duque.
Will Ogilvie sorriu e gesticulou.
160
- Um padrinho com uma varinha mágica? Que
encantador. Contudo, as varinhas mágicas têm o condão
de desaparecer, assim como as promessas. Se eu
fosse o George, preferia confiar na minha mãe.
A criança irrompeu pela sala, excitada e barulhenta.
- A Martha levou-me a ver os Life Guards fazer
instrução militar. Vai-me deixar ser soldado, não vai?
E andar a cavalo atrás do Boney e cortá-lo aos bocados?
Olá, tio Will, diga à mamã que me deixe ser soldado.
- Parece-me que a tua mãe está a tratar do assunto.
Adeus, criança horrorosa, não toques nos meus calções
Bem, Mary Anne, manda-me notícias amanhã de manhã?
- Não sei... não posso prometê-lo.
Ele deixou-a com a criança e ela ficou a vê-lo afastar-se
de Gloucester Place. Confidente e amigo, ou conselheiro
diabólico? Não conseguia decidir-se, não tinha
a certeza.
-Que está a ler, mamã, posso ver?
- Não é nada, querido, apenas uma lista de nomes.
As crianças haviam chegado da escola e May Taylor
viera visitá-las. Foram todas andar de carruagem em
redor do parque. Deveria confiar em May e procurar o
seu conselho? Mas isso significaria a admissão de mentiras
anteriores, a destruição da fábula arquitectada para
a sua família, assim como para os seus amigos, do
modo como conhecera o Duque.
«Vou contar-te o que aconteceu. Fui a uma festa,
alguém se aproximou e disse: "Sua Alteza Real quer
ser-lhe apresentado", e desde esse momento... "Engolido
por toda a gente, aceite e tomado como certo. Como
poderia ela virar-se para May na carruagem, deixar escapar
a verdade e explicar." O seu tio, assim como Will
Ogilvie, são alcoviteiros. Engendraram tudo isto, investindo
em mim e agora estão ansiosos por dividendos»
- como poderia ela?
Inútil. Para esquecer. A amizade quebrava-se com
facilidade. Uma discussão familiar, os Taylor escandalizados,
o crescente romance entre Isobel e um dos
irmãos Taylor cortado pela raiz e tudo isso para nada.
- Mary Anne, nunca a vi tão preocupada, passa-se
alguma coisa?
- Sim, tenho falta de dinheiro.
11 - Mary Anne
161
- Está a brincar, certamente! Na sua posição, só
tem que pedir a Sua Alteza Real.
- Só? Pergunto-me. Não falemos disso agora. Parker,
passemos no Birkett, o artífice de pratas, antes de
regressarmos a casa. Encomendei uns castiçais que já
devem estar prontos.
Deviam e estavam. Já haviam sido despachados para
casa, assim lhe disse Birkett, dobrando-se pela cintura.
- Posso tentá-la com estes cupidos acabados de
chegar?
- Não me tente com nada. Talvez só uma molheira
com as armas reais.
- A senhora gosta de brincar. Já utilizou o serviço
de jantar?
- Uma vez. Sua Alteza Real diz que sabe a polimento.
- Impossível, minha senhora, o duque de Berri
nunca mandava limpar as pratas. Soube-o por um amigo
que conhecia os seus criados.
- Então, devia ser o sabor do bolor e não do polimento.
Da próxima vez que dermos uma festa, lavarei
pessoalmente todas as peças com água e sabão.
- A senhora é sempre tão divertida. Precisa de
uma travessa para peixe? Tenho uma aqui que pertenceu
ao marquês de St. Clair, que infelizmente perdeu a
cabeça, como tantos outros nobres.
- Essa travessa parece suficientemente grande
para a colocar. Mas eu não sou a Salomé pedindo uma
mercê a Herodes. Quanto lhe devo, Birkett?
O rosto exprimiu horror, as mãos afastaram a ideia
Tais assuntos nunca eram discutidos, eram deixados
para uma ocasião futura.
- Diga-me, eu quero saber.
- Se a senhora insiste... cerca de mil libras. Quinhentas
por conta, dão sempre jeito. Mas, por favor, não
pressione Sua Alteza Real.
Ele acompanhou-a à porta da loja e dobrou-se pela
cintura. As crianças acenaram-lhe. O lacaio fechou a
porta da carruagem, subiu para o seu lugar, de braços
cruzados ao lado do cocheiro. Quando ela chegou a casa.
os castiçais já lá estavam. Ao lado, a conta com uma
anotação: «Agradecíamos o obséquio da liquidação do
artigo acima.» A protecção era uma coisa boa, mas o
162
pagamento era ainda melhor... Todo o crédito que ela
quisesse... mas apenas por seis meses. Era estranho
as exigências de pagamento estarem agora a entrar às
fornadas. Seria concebível - na perspectiva de um
comerciante - que após seis meses um príncipe frequentemente
mudasse de ideias? Amarfanhou a conta
nas mãos e mandou as crianças irem ter com Martha
- Sim, Pierson, o que se passa?
- Chegaram dois cavalheiros que desejam vê-la,
um capitão, Sandon e um coronel, French.
- Disseram ao que vinham?
- Não, minha senhora, mas mencionaram o nome
de Mr. Corri.
- Muito bem, diga-lhes que estou em casa e traga-os
à sala de visitas.
Uma olhadela ao espelho, um toque no cabelo e
estava pronta. Mil libras para a travessa de prata de
Birkett. E aqueles homens prometiam-lhe dois mil guinéus.
«Agradecíamos o obséquio da liquidação do artigo
acima, mas quinhentas libras por conta dão sempre
jeito.»
Porque não usar as mesmas palavras e fechar o
negócio?
163
CAPÍTULO 4
O jantar terminara, as crianças deitadas com um
beijo de boas-noites, os candeeiros da sala de
visitas acesos e os cortinados cerrados.
- Pierson.
- Alteza?
- Diz ao Ludovick que o quero aqui amanhã, às seis
da manhã. Vou a Hythe - ficarei lá até sábado.
- Muito bem, Alteza.
Instalou-se diante da lareira, o copo de brande num
banco a seu lado, desapertou o botão do colete, suspirou
e esticou-se.
- Canta para mim, meu amor.
- Que queres que cante?
- Umas rimas de Vauxhall, não sou esquisito.
Ela cantou as canções que praticara de manhã,
Olhando-o do piano. Ele acompanhava o ritmo com o pé
e a mão e cantarolava o refrão desafinadamente. Ela
observou-lhe a cabeça descaindo para o peito, depois
levantar-se com esforço e cantarolar mais uma vez. London
Town era espirituosa e entrava no ouvido; Sandys
uma sátira ao amor, com versos libertinos. A seguir, passou
daquelas para as suas preferidas de há seis meses
atrás. Two Strings to your Bow, uma balada ligeiramente
devassa; Do Só Ao More, enfadonha e conducente à
harmonia.
164
Finalmente, o brande emborcado, os olhos azuis
vidrados, o colete todo aberto e levemente ébrio, ela
deu-lhe o afrodisíaco final:
Love is a Cheat,
Lets be merry today...
E, fechando a tampa do piano, ajoelhou-se a seu lado.
- Porque paraste, minha querida? - perguntou ele.
- Porque não te vi todo o dia e amanhã não estarás
comigo. Importante?
Ele puxou-a para si e aninhou-a nos seus braços, a
cabeça no seu ombro.
- Se pensas que gosto de saltitar pelo país dormindo
numa cama de caserna, quando posso estar contigo...
Que é isto?
- Uma combinação, não a desapertes. Onde estarás
amanhã?
--Hythe, depois sigo para Folkestone, Deal e Dover.
Com alguma sorte, regressarei no sábado ao meio-dia.
Pegou na mão dele, brincou com os dedos, mordiscou-lhe
as unhas uma a uma e acariciou-lhe a palma da
mão.
- Tens mesmo de ir a Oatlands?
- A duquesa ficará irritada se não for. Tem sempre
a casa cheia, aos domingos. Além disso, se eu faltar à
missa, as pessoas começam a dar à língua e o Rei acaba
por saber. Ele aperta-me com perguntas e ralha-me como
se eu fosse um colegial.
- Ele não faz isso ao Príncipe de Gales.
- Claro que não, eles não se falam, por isso sou
eu o bode expiatório. Tive uma ideia, minha querida...
continua, eu gosto... há uma casa do outro lado do parque
em Oatlands, que está vazia. Costumava ser a casa
do mordomo, mas ele já não a utiliza. Porque não a mobilas,
arranjas pessoal e assim eu podia ir lá passar a
noite, depois de deixar a duquesa?
- Nada me agradaria mais. E as más línguas?
- Não falarão disso. Eu estaria a viver em Oatlands.
Seria a coisa mais fácil do mundo escapar-me pelo
parque.
- Não podes escapar-te por lado nenhum, com essa
altura e essa largura toda... Gostaria muito de ir a Wey-
165
bridge e ficar lá de sábado para segunda-feira a apanhar
ar do campo, mas o problema é: não será muito dispendioso?
- A casa não te custará muito - está desocupada.
- Teria que ser arranjada, mobilada e decorada.
O problema é, sir, que nesses assuntos sois tão infantil.
É o resultado de terdes sempre vivido em palácios. Nem
sequer imaginais como vivem os restantes mortais.
- Estou a aprender rapidamente.
- Aprendeste como saltar para dentro de uma cama
sem a ajuda de um criado de quarto. Mas foi só isso.
Um bebé de colo pode fazer melhor que tu, pela manhã.
O Ludovick abotoa-te como uma ama a mudar uma fralda.
- A culpa é toda tua. Já não estou tão ágil quando
acordo. Já lá vai o tempo em que andava a cavalo pelo
parque, antes de tomar o pequeno-almoço.
- Não acho que sejas preguiçoso... o ritmo é que
não é o mesmo; um dia destes, esqueces-te e enfias-me
a cabeça numa cevadeira, como aos cavalos. Mas, sir,
falo a sério, gostaria muito de estar convosco em Weybridge,
o problema é que não tenho posses para isso.
Mobilar uma casa, arranjar pessoal e mantê-la - está
fora de questão, com a mesada que recebo.
Silêncio, uma pausa rabugenta, um movimento impaciente.
Ela mudou de posição e aliviou um pouco a
pressão sobre o braço dele.
- Não te dou o suficiente?
- O suficiente para manter uma pequena casa de
campo.
- Bem, cos diabos, não sei, sou permanentemente
incomodado. Greenwood e Cox, estão encarregues de
todas as minhas finanças. Eles, Courts e os outros tentam
dar conta do recado e o meu tesoureiro, Adam,
dá-lhes uma palavrinha de vez em quando. Estou constantemente
falido e não consigo manter a minha residência
oficial, quanto mais a tua. Dizes que não sei
como vives; tu, uma vulgar mortal. Não fazes a mínima
ideia das nossas despesas totais. Eu e os meus irmãos,
Clarence, Kent e os restantes. O Príncipe de Gales tem
o Ducado, pode viver bem; mas todos os outros, eu
inclusive, estamos endividados até à raiz dos cabelos.
Tudo devido a má gerência, já o disse vezes sem conta.
166
Cuidado - o assunto era perigoso, não devia continuar.
A semente estava lançada, deixá-la germinar. Ela
deslizou dos joelhos dele e atiçou o fogo que se apagava.
- Eu jamais aumentaria as tuas despesas. Talvez
tivéssemos feito mal em mudar para Gloucester Place?
E no entanto... está tão à mão de Portman Square. Gosto
imenso de estar aqui e tu também... mas, sir, se isso
vos arruína, desistamos de tudo. Alugo uns quartos,
mando as crianças para casa da minha mãe e despeço
os criados.
- Cos diabos, não.
Ele puxou-a de novo para si. Ela ajoelhou-se entre
os seus joelhos, com os braços em redor dele.
- Não quer dizer que eu seja um pedinte. Estou
apenas falido. - A voz dele estava zangada e irritada.
Se há algum assunto no mundo que eu detesto discutir
e sempre detestei, é o dinheiro. Já te disse dezenas de
vezes que podes viver à base de crédito.
- Talvez vós, sir, mas não a vossa amante.
Ela encostou a face à dele e tocou-lhe no cabelo.
- Quem te incomoda com as contas? - perguntou
ele.
- Birkett e outros... Não devíamos ter comprado
aquela travessa de prata; mas era tão tentador imaginar
o peito de frango deitado langorosamente em cima da
flor de lis, apesar de não ter melhor sabor do que teria,
se estivesse num recipiente de esmalte rachado.
-Se o Birkett começar a queixar-se, mando-o
prender.
- Pobre pequeno Birkett, que cruel e duro és.
Fez-lhe uma massagem atrás das orelhas e deu-lhe um
beijo na sobrancelha. - Tens realmente poder para enviar
um homem para a prisão?
- Sim, se ele me der razão para isso.
- Então, é isso o que a expressão «Sua Alteza Real
usou prerrogativas reais» quer dizer?
- As prerrogativas reais não são para mim, são
para Sua Majestade, o Rei.
- Os arcebispos também têm prerrogativas, porque
não tu?
- Questão de privilégios. Temos de falar disso,
agora?
167
- Mas, sir, eu adoro saber estas coisas... é a essência
da vida. E a suspensão dos trabalhos do Parlamento
(prorrogue]: isso também é diferente?
- Totalmente e completamente. (Prorrogue) é sinónimo
de descontinuidade.
- (Prerog- prorrogue)-deve haver alguma ligação.
Podias suspender (prorrogue) um beijo que eu te
estivesse a dar?
A questão foi posta à prova, sem resultado. O fogo
estava reduzido a cinzas, na grelha. A única cadeira de
braços provou ser inadequada para conforto de ambos.
- Porque estamos sentados aqui em baixo?
- Tu estás sentado... eu estou de joelhos.
- Deve ser muito desconfortável.
- E é. Estava somente aguardando a ordem real para
me levantar.
Subiram de mãos dadas para o andar de cima e pela
porta entreaberta do seu quarto ela ouviu o som de roupas
sendo atiradas para o chão. Imaginou como estariam
as vísceras reais a funcionar. Teria Ogilvie razão, ou
não? Demoraria o remédio uma hora a fazer efeito?
Pegou na lista de nomes e estudou-a. Eram, na sua maioria,
capitães, querendo ser promovidos a major - era-lhe
impossível lembrar-se dos nomes todos. Pregou a lista
na cortina da cama, por cima da sua almofada, onde ele
a veria.
- Sir? - chamou ela, na direcção do quarto de
vestir.
- Vou já.
-Sir, conheceis um camarada chamado coronel
French?
- De momento, não me lembro. Qual é o regimento?
- Penso que não tem. A questão é que ele se reformou,
ou então está a meio soldo. Não sei bem. Parece
que ele lhe tem estado a escrever para os Horse Guards.
- Todos fazem isso. Todos os dias chovem, deste
maldito país, cartas de coronéis a meio soldo.
- Ele quer reunir recrutas.
- Que os reúna.
- Sim, mas leva tanto tempo obter uma ordem de
serviço. Não percebo o que quer dizer isso, mas suponho
que tu sabes.
168
- Eventualmente, obtê-la-á, se o seu requerimento
for aceite. Primeiro passa pelo meu M.S. Clinton, ou
pelo A. M.S. Loraine, depois um ou outro passa-o a
Hewitt, o inspector-geral.
- E depois?
- Depois, volta para a minha secretária para comentários
e assinatura, se eu concordar. Esses tipos ficam
impacientes, mas estas coisas demoram. Pensam eles
que nós não temos mais nada que fazer senão sentarmo-nos
em cima dos traseiros a ler as suas cartas
toscas?
- Sabes, penso que sim. Eles não têm visão. Mas
este homem, coronel French, foi extremamente simpático.
Pediu desculpa por incomodar, etc., etc., e disse
que se eu mencionasse ao menos o seu nome, ficaria
infinitamente agradecido e não só.
- Que quis ele dizer com isso?
- Não faço ideia. Talvez tencione mandar-me um
ramo de flores.
Silêncio no quarto de vestir. Depois, o som de uma
janela a abrir e o de pesados passos sobre o soalho
atapetado.
O capitão Sandon, de facto, é que fizera as despesas
da conversa. Quinhentos guinéus por conta e, com
o requerimento aceite, outros mil e quinhentos... Depois,
French iria à Irlanda reunir recrutas e por cada homem
um guinéu a mais, a ser pago quando quinhentos homens
estivessem recrutados.
- E que recebe o senhor? - perguntara-lhe ela.
O assunto era interessante.
Sandon, o rosto parecendo um furão, tentara explicar:
- O prémio oficial, minha senhora, estipulado pelo
governo, é de treze guinéus por cada homem que se
aliste. Alguns regimentos da linha da frente pagam dezanove.
É isso que nós queremos, e estamos prontos a
encontrar mais recrutas, mas os requerimentos que mandamos
para o Ministério da Guerra, ficam sem resposta.
Uma palavra ao C.4n-C., (comandante-chefe) e o assunto
ficaria resolvido. Quanto mais alto for o prémio, maior
será a sua recompensa.
Parecia extremamente simples. Um prémio por cada
cabeça. Por cada valoroso recruta irlandês, um guinéu
no seu bolso.
169
Ela meteu-se na cama e encostou-se nas almofadas;
por cima, presa à cortina, flutuava a lista. Ouviu-se
uma praga no quarto de vestir, qualquer coisa caiu no
chão com estrondo. A digestão era lenta, ou rápida de
mais. Ele entrou em bicos de pés. Ela fechou os olhos
e esperou. Sentiu-o subir para o outro lado da cama.
- Sabes - disse ele - se fosses realmente esperta,
não me incomodavas com assuntos de dinheiro. Esse
tipo, French...
- O ramo de flores?
- Cambada de maricas... ele teria que mostrar gratidão.
Na tua posição, podes dominá-los a todos. E se
se mostrarem desagradáveis, indica-lhes a porta.
- Importas-te de clarificar qual é exactamente a
minha posição?
- Lá em baixo, não tinha a certeza. Estávamos os
dois muito emaranhados.
Um interlúdio, para mastigar o assunto em questão.
As soluções eram diversas.
- Que raio é aquilo?
- Perguntava-me quando repararias.
- Ainda não tinha tido ocasião para levantar a
cabeça... De quem são aqueles nomes todos?
- De cavalheiros, simplesmente.
- Admiradores teus do passado? Quem lançou a
moda?
- Não, soldados da Coroa. É a ti que servem. Para
te dizer a verdade, nunca tinha ouvido falar de nenhum
deles, antes.
- Qual é a ideia? Perdi de repente o vigor? É uma
insinuação velada à minha força em declínio, e aqueles
quinze tipos fariam um trabalho melhor? Se é isso...
Conversa interrompida para mais um curso de aperfeiçoamento,
com distinção.
- Só os preguei ali para te espicaçar a mente.
- Gosto dela espicaçada nos Horse Guards, não
em casa.
- Os pobres homens só pretendem um pouco de
boa vontade e um favor.
- Também eu... não me tires a almofada.
170
- Pensa em como ficarão contentes, se forem promovidos.
Cada um com um ramo de flores para mim,
A casa parecia uma estufa, cheia de rosas...
- Sentes falta de flores?
- Sinto falta de uma data de coisas.
Um período de espera, para ele digerir a afirmação,
- Estás a dormir?
- Estava, já não estou... Se percebesses alguma
coisa de assuntos militares, saberias que não posso promover
todos os Tom, Dick ou Harry. Tenho que analisar
cada caso, ver a folha de serviço, para ver se o tipo
merece.
- Bem, esquece. Eles que vão alistar-se nos fuzileiros.
- Vou ver o que posso fazer, mas é impossível promover
a todos de uma vez. Chega-te para lá...
Os sucos digestivos estavam, aparentemente, a funcionar
bem. O remédio fora bem absorvido e estava a
disseminar-se pelo sistema. Prescrição de pequenas
doses, repetidas amiúde.
- Tens que te mudar aos fins-de-semana para Weybridge,
para aquela casa de que te falei, do lado de lá
do parque. Se não o fizeres, ainda corto as goelas. Não
suporto vaguear por aquela gruta o tempo todo com
a duquesa.
- Os cãezinhos manter-te-ão ocupado.
- Uns brutos tinhosos. Mordem-nos os dedos se
tentamos afagá-los.
- Não desperdices o teu talento, então, guarda-o
para quem precisa dele. O relógio deu a uma?
- Não faço a mínima ideia. Tenho os ouvidos
tapados.
- Só tens seis horas, antes de ires para Dover.
- Disseram-me que Boney se desenvencilha com
muito menos.
- Menos quê?
- Menos tempo, menos horas de sono.
- Ele só tem um metro e sessenta de altura; tu
carregas mais peso. A corpulência tem que ser abrigada,
repousada, acalmada e cuidada.
- Até parece um bocado de bacon, a ser salgado.
Minha querida, isto é o teu cotovelo ou o teu queixo?
- Penso que é o meu calcanhar, mas não apostaria.
171
- Garanto que Boney sofre menos do que eu. Numa
prova de resistência, mano-a-mano...
- Perderia. O vencedor fica com tudo.
O silêncio desceu sobre Gloucester Place. Paz e
esquecimento. As velas derretidas vacilaram e apagaram-se.
A escuridão, como um manto, desceu sobre o
quarto. De uma das almofadas vinha o som de uma respiração
delicada, da outra roncos e estertores.
- São seis horas, Alteza.
- Está bem, sai.
A pálida luz da madrugada entrava pela janela, como
um presságio do dia que estava para vir. Chuva, estradas
enlameadas, aos solavancos numa carruagem. No fim
da viagem, um acampamento e, na melhor das hipóteses,
uma caserna. O pivete dos metais e cabedais de equipamentos
novos. O cheiro de homens en masse, de fumo
e de pólvora.
- Estás acordada?
Não estava. Era melhor deixá-la com um beijo no
cabelo em desordem e outro na face. Mas ela estava
e, com os braços esticados, pendurou-se-lhe no ombro.
- Não vás, ainda não é manhã.
- É, e o Ludovick está aqui.
- Atira-o pelas escadas abaixo.
Lamentos e protestos não serviam de nada. Obrigações
em primeiro lugar, o namorico tinha que dar lugar
ao dever. O cornetim chamava.
- Adeus, meu amor. Tentarei estar de volta no
sábado.
- Não vás para Oatlands. Passa o fim-de-semana
comigo.
De volta para as almofadas e para um sonho interrompido,
num profundo adormecimento. Perseguindo
estranhos pela ruela acima, Charley a reboque e Eddie
sobre os ombros. Sons e choros de rua, o cheiro de
cebolas a cozinhar, couves na sarjeta, o som da água.
Quando acordou, às nove, o Sol brilhava. Olhou
para cima, a lista desaparecera.
172
CAPÍTULO 5
Will Ogilvie tinha razão. Era tudo muito simples.
E uma vez espalhada a notícia de que uma promoção
poderia ser obtida através de canais privados,
os pedidos aumentaram.
- Estabeleça uma tarifa regular - dissera Will mas
não muito alta. Espalharei que com a sua influência,
pode fazer um major por novecentos, um comandante de
companhia por setecentos. E, digamos, um tenente por
quatrocentos, senão, não vale a pena; e duzentos por um
alferes - assim, estará bem. É necessário frisar que se
limita a mencionar um nome, nada de cartas para trás
e para a frente. Uma vez publicados, os interessados
devem pagar-lhe em dinheiro. Não aceite letras de câmbio
- uma letra de câmbio pode deixar rasto e isso
pode ser fatal. Insista em dinheiro, notas de banco, mas
não em notas altas.
- O senhor trata-me disso? - pediu ela.
- Farei o que puder, mas o meu nome não poderá,
de maneira nenhuma, aparecer. Sou um simples amigo
de um amigo, que ouviu dizer que a senhora é generosa.
Pensando bem no assunto, ela decidira que o jogo
era humano. Patriótica e leal, salvava o país, enchendo
o exército de oficiais, todos eles ardendo em desejo
de servir. Obteria o que eles pediam e cobrar-lhes-ia apenas
uma soma razoável, o que eles agradeceriam, claro,
e nenhum obteria uma comissão sem uma boa folha de
serviço. O dinheiro recebido era uma dádiva do céu.
A caminho de Weybridge nesse Verão, ela calculou os
custos. A casa do outro lado do parque havia sido em
173
tempos uma quinta e ninguém podia viver numa casa de
quinta antes de ser restaurada. Os estábulos tinham que
ser demolidos e reconstruídos, acrescentar uma ala
para os cavalos, novas telhas para o telhado e transformar
dois quartos num só. O pessoal tinha que ser alimentado,
haveria os moços de estrebaria e cocheiro para
instalar, dois homens e um rapaz para o jardim - nunca
o poderia ter feito, não fora aquele negócio de patrocínios,
o jogo do momento.
A ordem de serviço saiu e French embarcou para a
Irlanda. Mas Sandon, o amigo, tornou-se um aliado e
aparecia frequentemente. Ela tinha de ter muito cuidado
- poderia haver fricção. Tal como Ogilvie, ele trazia as
suas próprias listas. Se aquele adivinhasse que havia
mais alguém próximo a receber percentagem, poderia
haver um colapso. Daquela maneira, podiam aparecer
duas listas com os mesmos nomes. Então, quando passasse
os nomes e estes aparecessem! publicados na
Gazeta, seria forçada a dar dupla percentagem em seu
próprio prejuízo.
No entanto, tudo corria bem e o duque não fazia
perguntas. Ela mencionava um nome - capitão Fulano
de Tal quer o posto de major - ou anotava rapidamente
os dados pessoais e deixava-os à mão. Ele lembrar-se-ia
do nome ou meteria o pequeno papel na algibeira.
O assunto nunca era discutido; a discrição era mútua.
Bill era o único dissidente, a nota discordante. Apareceu,
por azar, ao mesmo tempo que French, na mesma
manhã em que este apareceu com os quinhentos, a
soma por conta, para facilitar a sua ordem de serviço.
Ela estava no andar de cima, vestindo-se, e Pierson
mandou dizer por Martha, «Mr. Dowler está cá, foi directamente
para a sala de visitas», enquanto que o coronel
French chegara antes e estava a espera há dez minutos.
Acabou rapidamente a toilette, correu pelas escadas
abaixo e um relance para Bill foi suficiente para adivinhar
o que acontecera. French, volúvel, muito excitado,
insinuara a razão da visita assim que Bill se apresentara
como amigo íntimo, e o gato - ou parte do gato - ficara
com o rabo de fora.
- Eles têm; que fazer a coisa mais rapidamente ouviu
ela, assim que entrou na sala de visitas. - Como
raio querem eles ter soldados, se andam com as ordens
174
nde serviço das pessoas que os recrutam, de um lado
para o outro. Expliquei isso vezes sem conta em cartas
oficiais para o coronel Loraine, o A. M.S., no Ministério
da Guerra. Ele simplesmente ignora-as e o pedido vai
para a gaveta. Mrs. Clarke diz que fará o que puder e
eu espero obter resultados.
- Coronel French, estou encantada por vê-lo. E Bill,
há quanto tempo!
Conversa sem importância para evitar o assunto,
para desviar a atenção, mas o forte e pequeno coronel
continuava a ladrar e não se deixava amordaçar.
- Há demasiada obstrução, lá em cima. O general
Hewitt é que a provoca. Ele é o inspector-geral e bloqueia
todos os pedidos. Tem má vontade contra aque-
les a quem chama «recrutadores», oficiais a meio soldo,
como eu, cujo único desejo, pode estar certo, é servir
o meu país. Se Mrs. Clarke informasse o comandante-chefe
de como Hewitt nos faz obstrução... - e assim
por diante, enquanto Bill ficava cada vez mais mal disposto.
Então - o embaraço final - surgiram notas de
banco.
- O seu amigo, Mr. Dowler, dá-nos licença? Uma
transacção financeira. - E French levou-a para um canto
e falou baixinho.
Nada poderia ter sido mais constrangedor. Ela estava
lívida de raiva. A única maneira de ultrapassar toda
aquela situação, era assumir um ar desprendido e tratar
o assunto com naturalidade. French saiu finalmente e
Bill, com ar de pároco subindo ao púlpito, olhava fixamente
para o tecto. O ataque era a melhor defesa, por
isso ela virou-se subitamente para ele.
- Meu Deus, que cara! Que se passa? Vens de um
funeral? Não te vejo há dias e vê o que acontece. Não
tive a culpa se aquele maçador gordo e pequenino me
veio visitar.
Silêncio. Depois Bill, com ar de mestre-escola:
-Ele pode ser maçador, gordo e pequenino, isso
não me diz respeito. O que me preocupa, como pessoa
que por acaso te ama, é ver-te jogar um jogo que
não entendes. Andares metida em assuntos militares.
-Oh, não sejas ridículo, és sempre tão desaprovador.
Claro que as pessoas me importunam - conto com
175
isso, na minha posição. O duque disse-me que isso aconteceria
e ele deve sabê-lo. Tenho o maior prazer em ajudar
quem quer que seja, que necessite de ajuda. Pessoas
que demonstram ser realmente sinceras.
Gradualmente, ficou mais zangada, cheia de razão,
indignada.
- Tu não vives neste mundo - continuou ela,
enfiado em Uxbridge, ocupado de manhã à noite, com
ninharias, como um rústico. Aposto que conheço mais
pessoas e que as ajudo mais numa manhã, do que tu
numa semana. Não apenas soldados como French, mas
pessoas de todas as profissões. Pedem-me para arran-
jar todo o tipo de empregos, nem te passa pela cabeça.
A culpa não é minha, acontece, apenas. E é tudo o que
há a dizer sobre o assunto. Se a duquesa mostrasse um
pouco mais de personalidade e se se comportasse como
uma esposa, era a ela que lambiam as botas e não a
mim. Mas eles sabem que ela não presta, que é tão
inútil como um dos seus cãezinhos, por isso vêm todos
ter comigo. Eu é que aguento com tudo.
Ele deixou-a continuar, sem se impressionar. Ela
viu, pela expressão, que não o enganara, nem por um
momento.
- Posso viver como um rústico - disse ele, mas
não sou parvo de todo. Por quem és, usa a tua influência
para ajudar, mas não aceites subornos. Acabas por te
meter em sarilhos e a ele também.
- Eu não aceito subornos.
- Que notas foram aquelas, agora mesmo?
- Apenas uma delicadeza, uma espécie de presente,
por lhe favorecer os planos. Ouviste o que ele
disse - obstrução no Ministério da Guerra, nada é despachado.
Sou simplesmente um outro canal, mais directo.
- Estás pronta a ir aos Horse Guards e dizê-lo?
- Não me importaria, poderia dar-lhes o safanão
de que eles necessitam.
- Bravatas e tu sabe-lo. O que estás a fazer, é
estritamente ilegal e cheira a corrupção. Por amor de
Deus, desiste e mantém as mãos limpas. Não te podes
contentar em ser apenas a amante dele? Já é um grande
triunfo, sem estares a mexer na lama.
- Como te atreves a atacar-me assim...
176
- Não te estou a atacar, fico desgostoso por te
ver a comportares-te como uma idiota.
- Muito bem. Nesse caso, põe-te na rua. Volta para
o ar puro de Uxbridge, de onde não deverias ter saído.
Não te peço conselhos nem aprovação. O que espero
dos meus amigos, é que aceitem o que faço e que fiquem
calados.
-Não foi isso que disseste em Hampstead.
- Em Hampstead era diferente. O mundo inteiro
mudou, desde então.
- Para ti, talvez.
Ele dirigiu-se para a porta. Ela deixou-o ir e depois,
antes de ele chegar às escadas, gritou:
-Bill, volta.
Ele voltou -e ficou à porta. Ela estendeu os braços.
- Porque me tratas assim, que fiz eu?
Era inútil argumentar, suplicar ou aconselhar. Tudo
o que ela pedia naquele momento, era aprovação, palavras
doces, um beijo de conforto, compreensão.
-Tenho que o fazer, Bill, preciso de dinheiro.
- Ele dá-te uma mesada, não dá?
- Dá, mas nunca chega... as despesas são terríveis.
Só esta casa custa o triplo do que ele me dá; e
agora, aquela em Weybridge, para cúmulo. Cavalos, carruagens,
comida, mobília, roupas... Não me digas «corta
as despesas», porque não é possível. Sou forçada a viver
desta maneira por causa dele; está habituado a isto, é
isto que espera. Nunca se satisfaria com um quarto nas
traseiras, um caso secreto, às três pancadas. Esta é a
sua segunda casa. Ele chama-lhe assim. A sua verdadeira
casa, para dizer a verdade.
- Gostas dele, não gostas?
- Talvez... mas a questão não é essa. A questão
é que eu não posso nem quero pedir mais dinheiro. Ele
não o tem para mo dar, por isso fui conduzida para isto.
- Ela estendeu as notas que French lhe dera. - Corrupta
se assim o dizes, mas todos os negócios o são e
todas as profissões: faz parte da vida. Políticos, eclesiásticos,
soldados, marinheiros, são todos iguais. Tens
ouvido os últimos boatos e lido os jornais? Que pensas
tu que Lorde Melville anda a fazer no Almirantado? Vai
haver uma comissão de inquérito para o investigar.
- Mais uma razão para tu teres cuidado.
12 - Mary Anne
177
- Oh, eles sentar-se-ão durante um ano, à porta
fechada e no fim nada ficará provado, assim diz o
duque.
- Não sei, duvido muito. Os radicais não deixarão
que isso aconteça, podes ter a certeza.
- Seremos todos condenados por fraude, e o que
é que isso interessa? Manterei a cabeça acima da água
enquanto puder.
Ele beijou-a e saiu. Ela sentiu a condenação. O beijo
fora de reprimenda, de censura. Bem, se era o que ele
sentia, não havia mais nada a dizer. Devia manter-se
afastado da casa e nunca mais a visitar. Ele sofreria
mais do que ela; podia desembaraçar-se sem ele. Tinha
uma vida tão cheia, que não tinha tempo para as desaprovações
de amigos e ex-amantes, como Bill. Compreensão,
sim; mas censura, não. Aquelas maneiras de mestre-escola
eram-lhe desagradáveis, na sua presente posição.
Ele tratava-a ainda como a criança que fugira do
marido, sem conseguir perceber como mudara e amadurecera.
Os homens que conhecia agora, eram homens do
mundo, da moda, e ao lado deles, Bill parecia um pau...
atraente, mas bronco. James Fitzgerald, membro do Parlamento
para a Irlanda, era um dos seus favoritos, um
advogado com um grande dom da palavra, de língua viperina.
Ele gostava de murmurar os escândalos da Irlanda
com um brande na mão, nos quais havia sempre um
esqueleto em todos os armários protestantes. William
Coxhead-Marsh era outro que espreitava na sombra,
amigo do duque, convidado frequentemente para jantar.
Dizia que a adorava, que se ela comandasse, ele obedeceria.
Se ela se cansasse do duque, arranjar-lhe-ia uma
mansão em Essex, em qualquer dia, a qualquer hora,
bastava ela murmurar a palavra. Tudo aquilo fora dito
sotto voce, os joelhos encostando-se sob a mesa. Will
Boodle, Russell Manners e outros insinuavam o mesmo.
Lisonjeavam-na, acariciavam-na - tudo brincadeira, claro,
recebido com um sorriso e reserva, mas divertido, no
fim de contas. Era uma pena o amante real não ser mais
sociável. A casa, generosamente mobilada, era óptima
para recepções. Jantares, festas e música - ela adorava
receber. Ele gostava de alguns amigos de vez em quando,
mas nunca uma multidão e preferia sentar-se calma-
178
mente depois de jantar enquanto ela cantava, ou jogava
às cartas com um punhado de amigos de longa data,
mesmo com May Taylor. Ele lembrava-lhe Bob Farquhar,
tinha gostos enfadonhos, quase de classe média; era
tão estranho. Uma anedota ou uma canção libertina e
escangalhava-se a rir - um criado entornava a sopa e
rebentava a rir. As corridas eram um tópico extremamente
agradável. Adorava sentar-se e discutir, durante
toda a noite, com um grupo de amigos amantes de cavalos,
um cálice de Porto ao lado. Ao passo que o príncipe
e Mrs. Fitzherbert... era melhor nem pensar nisso.
Aquele meio era diferente. O príncipe tinha o seu círculo
especial, Charlie Fox e os outros, a nata da alta sociedade
Whig, todos cintilantes e aparatosos e seguramente
mais divertidos. Com ele, não era assim; se gostava de
voltar dos Horse Guards e pôr-se de joelhos com as
crianças, ela não podia proibi-lo. Preferia jogar às cartas
com May Taylor em Gloucester Place do que recostar-se
languidamente com Lady Hertford em Carlton
House.
Angustiava-a, no entanto, não poder enviar cartões
mais frequentemente. «Mrs. Clarke recebe. Sarau. Carruagens
às onze», e, em letras pequenas, nuns rabiscos
casuais, «para conhecer S. A. R. o Duque de York» .Ele
costumava pôr de parte a sugestão, quando ela lha
sugeria.
- Se tivesses de te sentar em cima do traseiro,
das nove da manhã às sete da tarde, gerindo o exército
de Sua Majestade, quererias relaxar, não encher a barriga
de comida e falar de mais com idiotas.
- O Príncipe de Gales recebe, com Mrs. Fitzherbert. ..
- Porque não tem que fazer. Tem que matar o
tempo.
- Poderias descobrir muita coisa, se déssemos uma
série de jantares. Políticos e pessoas - não gentinha,
mas homens interessantes.
- Os políticos são uns intrujões; prefiro deixá-los
para os meus irmãos. E não há nada que eu queira descobrir,
não pretendo intrigas. Que se passa, meu anjo?
Andas aborrecida, estás farta da minha companhia?
- Claro que não... só que...
179
- Trá-los cá quando eu não estiver... não me
importo. Podes fazer o que te apetecer.
Mas a questão não era aquela. Ela queria a glória,
o fascínio de ficar ao lado dele na sala de visitas, fazer
vénias e sorrir, com a casa cheia de convidados, todos
eles carregados de diamantes, tresandando a títulos,
nenhum deles menos que conde. Afectados, mostrando
os dentes e adulando, o seu convite, a rapariga da ruela,
que conseguira pescar o grande peixe.
Ocasionalmente, sim, ele consentia. Dava um jantar
Dez ou doze pessoas, não mais e teriam que sair cedo.
Então, havia alegria e excitação, com dois cozinheiros
na cozinha, um homem para ajudar Pierson, além do
lacaio do costume, e quatro ou cinco pratos servidos,
a travessa de prata brilhando (finalmente paga, graças
a Deus, com as notas do coronel French), e a seguir,
música, ela própria tocando harpa e toda a gente aplaudin-
do. Aquilo é que era vida, aquilo era verdadeiramente
o céu e mais nada tinha interesse. Os rostos, os sorrisos,
o riso e o clamor das vozes e ele sobrepondo-se
a todos, com as mãos atrás das costas, pestanejando,
indulgente, cordial, orgulhoso dela.
«Digo-vos, por Deus, ela batê-los-ia a todos, em
Vauxhall!» Atirando um beijo que todos viam - ela
podia ver as expressões de todos eles. Aquilo era
poder e encantamento num só, era felicidade, era o
néctar da vida. E após terem todos saído e olhando
para a confusão e os restos, um cálice sobre uma
cadeira, as nódoas no tapete, símbolos de triunfo, reflectindo
a sua glória, disse:
- Oh, sir... estou tão feliz, diverti-me tanto.
- A fazer de anfitriã?
- Quando tu és o anfitrião. Sem ti, não tem graça.
Deitada a seu lado, nervos tensos, demasiado excitada
para dormir, ela olhava o futuro, tecia loucas fantasias
de situações que poderiam acontecer e de pessoas
que poderiam morrer: o Príncipe de Gales que toda
a gente sabia não ser forte, a princesa Charlotte, sempre
tão doente e o duque, presumível herdeiro e próximo
do rei sempre doente, sempre louco, sempre com qualquer
coisa... O duque facilmente reinaria dentro de
vinte anos. E então... que deslumbramento! Que futuro!
180
Entretanto, uns pequenos sorvos de poder subiam
à cabeça e eram agradáveis, o passatempo das promoções
e das trocas, a promoção rápida de majores a
coronéis; peixe miúdo, talvez, mas muito lucrativo. Era
excitante enviar as notas escritas a Sandon, tagareladas
ao pequeno-almoço: «Tenha a bondade de ver a Gazette
amanhã, à tardinha, pois espero que alguns dos nomes
venham publicados; tenho outros, asseguro-lhe, por
minha honra. A recompensa pelo meu trabalho acerca
das promoções a major é de setecentos guinéus, por
isso, se tem mais alguns nomes, a recompensa será
igual. Estarei na cidade na próxima segunda-feira, se
tiver algo para me comunicar...»
Seguida por outra: «Estou perfeitamente convencida
de que o dinheiro é curto e já o mencionei a uma
pessoa que conhece o valor real destas transacções,
por isso, deve dizer a Bacon e a Spelding que me devem
dar mais duzentos, cada e os capitães, mais cinquenta,
cada. Neste momento, recebo mil e cem por um oficial
mais antigo. Necessito de receber uma resposta sobre
este assunto antes de falar com ele. Já mencionei que
está preocupado comigo... Irei ao Little Theatre esta
noite.» Com outra, depois de reflectir: «Com os cumprimentos
de Mrs. Clarke para o capitão Sandon, pensa
que é melhor não ir ao seu camarote esta noite, Visto
Greenwood ir com os dois duques e com certeza verá
para onde se dirigirão os seus olhares de vez em quando;
e se ele visse e conhecesse o capitão Sandon, poderia
fazer algum reparo acerca do negócio dos recrutamentos,
o que poderá ser prejudicial para os seus futuros
interesses, assim como para os de Mrs. Clarke.
Mas as coisas nem sempre corriam de acordo com
o planeado. Os nomes eram apresentados, mas os portadores
atamancavam as promoções, devido aos erros
que cometiam.
De novo para Sandon: «Estou muito aborrecida
porque, sabendo o senhor o estado das minhas finanças
e tendo eu marcado para terça-feira com Spelding, imagine
que o regimento em que ele está, fez as manobras
tão mal, que o duque fartou-se de praguejar com eles
e suspendeu as promoções de toda a gente. Disse tantas
ao coronel Wemyss, que se este fosse um cavalheiro,
desistia - mas hoje, tenciona ir dar uma vista de olhos
181
ao Memorial (Monumento aos mortos na guerra), pois
o Spelding não está há muito tempo naquele regimento
e é um oficial antigo; portanto, veja se consegue obter-lhe
a promoção e quão grato ficaria ele pelos meus
bons ofícios. Eu quase tenho de suplicar, mas o duque
está muito zangado consigo, Sandon, porque quando o
viu pela última vez, o senhor prometeu-lhe 300 estrangeiros
e ainda não lhe apresentou um único – oh!, sim,
Mr. Sandon saiu-me uma bela peça. Eu disse-lhe a si
que as coisas devem ser feitas gradualmente, os funcionários
dele são muito matreiros. Faça com que Spedding
escreva uma lista dos seus serviços e que ma
mande confidencialmente, sem ser endereçada, para eu
lha mostrar. Adieu.»
Algumas vezes, ela rabiscava «Queime isto» no
topo dos bilhetes, mas outras, esquecia-se; quando as
coisas corriam bem, a precaução parecia desnecessária.
Em finais de Julho, teve um momento de pânico. O coronel
Clinton, secretário militar no Ministério da Guerra,
foi substituído pelo coronel Gordon, mais observador,
mais alerta. Os rumores abundavam: o novo M.S. era
astuto, tencionava investigar o que se passava, achara
o seu departamento negligente. Um bilhete apressado a
Sandon foi enviado: «Vou deixar a cidade, rabisco-lhe
umas linhas, pedindo-lhe para estar atento a tudo. E no
que diz respeito ao meu nome, de futuro, nem sequer
o mencione. Estou certa que tem muitos inimigos, pois
ontem o D. foi abordado por sete ou oito pessoas diferentes,
com invectivas sobre a sua pessoa. Ele está
um pouco zangado com qualquer coisa, mas não me diz.»
Zangado, pensou ela, porque Gordon fazia perguntas
e metia o nariz em assuntos que Clinton evitara? Houvera
algum falatório acerca do negócio de recrutamento,
os mexericos eram numerosos acerca disso e de outros
assuntos. Havia demasiados intermediários e boatos
Ogilvie, não, claro, era de confiança; mas o French,
talvez, na Irlanda, ou até Corri?
- Tem andado a falar?
- Minha querida senhora, protesto...
- Andam rumores no ar e Sua Alteza Real sabe-o.
Se guardou alguns bilhetes acerca daquele assunto do
recrutamento - sabe a que me refiro - por amor de
182
Deus, queime-os. - Ela mandou-o a correr para casa,
branco como a cal.
- Mantenha-se calma - disse Will. - Com o tempo,
o vento acalmará. A princípio, são todos muito cumpridores,
dê tempo a Gordon.
- O senhor jurou que não haveria perigo... começou
ela.
- Nem há. Deixemo-lo instalar-se.
Gordon instalou-se furiosamente e tomou as rédeas.
Um dos primeiros resultados do novo regime foi uma
circular a todos os Agentes do Exército, datada dos
Horse Guards, 28 de Setembro de 1804.
Senhores, Sua Alteza Real, o Comandante-chefe,
tendo fortes razões para acreditar que uma extensa
correspondência é mantida entre oficiais do exército e
pessoas que se intitulam Agentes do Exército, para os
induzir a entrarem em contratos pecuniários a fim de
obterem comissões, o que é contrário aos regulamentos
estabelecidos e que leva o Comandante-chefe a investigar
o melhor possível uma prática que é extremamente
prejudicial para o serviço; ordenou-me que chamasse
a vossa atenção para este ponto importante e
para vos fazer ver a necessidade da maior vigilância
e prevenção que esteja ao vosso alcance, para qualquer
comunicação entre essas pessoas e os oficiais da vossa
agência. E se em qualquer momento se souber que tais
comissões foram negociadas através do vosso escritório,
o Comandante-Chefe considerará seu dever recomendar
aos coronéis dos respectivos regimentos que notifiquem
tal irregularidade, retirando os seus regimentos
dessa agência e passá-la para outras mãos.
Mais me foi ordenado que vos expresse o desejo
de que possais transmitir aos oficiais comandando regimentos
da vossa agência, a forte desaprovação de Sua
Alteza Real em relação a este tráfico impróprio e secreto
e assegurar-lhes que, subsequentemente à data desta
carta, quaisquer comissões que se venha a descobrir
terem sido obtidas, serão imediatamente canceladas e
participado o nome desse oficial ao rei, por ter agido
em desobediência directa às ordens do Comandante-Chefe.
Assinado, J. W. Gordon
183
E agora, como vamos sair desta?, perguntou-se Mary
Anne, observando as folhas de Outono da janela de sua
casa em Weybridge. Enquanto aguardava a vinda do
duque da casa da sua duquesa em Oatlands, atirou para
a lareira o bilhete de agradecimento de um capitão,
guardando no corpete quatrocentas libras em notas de
banco.
CAPÍTULO 6
O jogo continuava, mas devagar, com grandes cautelas.
Ela fora longe de mais para poder recuar;
estava atolada até ao pescoço. Por uns tempos,
os requerimentos escassearam - os peixes estavam
assustados; mas com o virar do ano, voltaram a mordiscar.
Era a sua única fonte de receita. Estava desesperada
por dinheiro. A manutenção das duas casas
duplicava e triplicava, não sabia como reduzir despesas,
ou como economizar. Todos os dias Martha lhe aparecia
com queixas.
- O carniceiro não é pago há três meses, minha
senhora. Ele diz que deixa de nos fornecer, a não ser
que, pelo menos, lhe paguemos parte da dívida.
- Martha, não me aborreças, tenho uma lição de
pintura.
Havia sempre uma lição, de canto, de pintura, de
dança, para estar a par da última loucura de Londres.
Pintar sobre veludo, estava na berra, no momento.
- Se não a aborreço, minha senhora, eles atiram-se
a mim. O carniceiro diz que eu fico com o dinheiro e
não lho dou.
- Pega, toma lá isto.
Tirou umas notas atiradas antes para uma gaveta,
destinadas ao joalheiro - um par de fabulosos brincos
que ficariam muito bem, usados com um vestido branco,
tinha que os comprar - parte tinha que ir acalmar o
carniceiro.
- O carvoeiro também se está a tornar desagradável.
Fartou-se de resmungar na semana passada,
185
quando veio entregar. Vamos precisar de um novo fornecimento
dentro de alguns dias, com lareiras em todas
as salas.
Mais notas, encontradas numa caixa, para pagar ao
carvoeiro. Os pequenos comerciantes tinham a primazia,
era justo que assim fosse. O joalheiro podia sempre
esperar, ou reaver os brincos.
- Martha, é a cozinha que come a carne toda. A
cozinha era sempre o bode expiatório naquelas ocasiões.
Sua Alteza Real e eu temos fraco apetite. Os
grandes pedaços é que vão para a cave. Eu sei, porque
já vi.
- Que esperava, minha senhora? Somos dez na cozinha.
Os homens têm apetite, têm que ser alimentados.
Dez na cozinha - tinha atingido tais proporções?
Havia sempre uma cara nova para servir outra. Os
cozinheiros não se sentavam com os ajudantes, ou as
criadas com os lacaios; quem fazia as camas, não lavava
a loiça.
- Oh, Martha, trata tu disso, eu não tenho tempo.
De volta para a pintura sobre veludo e depois para
Kensington, o teatro à noite. Weybridge no dia seguinte
- e mais pedidos de dinheiro do pessoal, no campo
Metera-se-lhe na cabeça plantar vegetais no Verão, mas
em vez de um pequeno jardim nas traseiras da casa,
três campos haviam sido vedados; culpa de alguém
- ordens erradas, o assunto mal administrado - e agora
ela tinha dois cavalos de tiro para pagar e para alimentar.
Aquilo queria dizer, claro, mais um homem só
para eles. Os moços de estrebaria só mexiam nos cavalos
da carruagem. «Mas onde há-de viver o homem? Ele
tem que ter uma casita - com mulher e quatro filhos.»
E assim por diante, um verdadeiro turbilhão. Uma
vez começado, nunca mais parava). Havia queixas familiares,
também, além das dos comerciantes e dos
criados. James Burton, louvado fosse, nunca falava na
renda, mas a casa de Tavistock Place tinha que ser
mantida para a sua mãe e para Isobel, noiva de um dos
irmãos Taylor, família esta em má situação económica,
repentinamente. O pai de May sofria desaires na Bolsa
de Valores e ela desfazia-se em lágrimas. Obrigadas
a deixar a sua casa, ela e a irmã estavam a pensar
fundar uma escola, mas não o podiam fazer sem ajuda.
186
Mary Anne tinha que procurar outra vez na gaveta
e encontrar, de qualquer maneira, outras quinhentas
libras para instalar a pobre May e a irmã em Islington.
Depois, mais duzentas para pagar o casamento de Isobel.
Era um problema, o dinheiro desaparecia... não conseguia
guardá-lo.
A seguir, Charley decidiu transformar-se em mais
uma dor de cabeça. Não se sentia feliz no 13th Light
Dragoons e queria mudar. Poderia a irmã tratar disso?
O pedido veio num momento embaraçoso, quando as
coisas estavam difíceis, mas ela conseguiu desembaraçar-se
e conseguiu transferi-lo para o 7th Regiment of
Foot, Fuzileiros. Seis meses mais tarde, veio ter com
ela novamente.
- Detesto o 7th, quero mudar.
- Mas, meu querido, disseste isso em Setembro
passado!
- Eu sei, foi um erro. Quem me dera não o ter
dito. O 7th é um inferno, prefiro a cavalaria. Disseram-me
que posso mudar para o 14th Dragoons, mas
terá que se fazer um truque. Podes fazê-lo?
- Vou ver... mas tens que compreender que não
podes andar sempre a brincar aos soldadinhos.
- Tenho mais hipóteses de ser promovido nos
Dragoons.
Ela tinha muitas dúvidas, mas não disse nada. O facto
de viver com o duque subira à cabeça do irmão e
rumores haviam-lhe chegado aos ouvidos, de que ele era
detestado. «Diga àquele seu irmão que se cale, ou os
camaradas não o suportarão. Está a ficar muito inchado!»
Quando o assunto de Charley ficou resolvido, chegaram
queixumes de Sammy Carter. Pobre Sammy Carter,
ela esperara que ele estivesse no ultramar, encantado
com o facto de ser alferes e cheio de nove horas
Nem por sombras - estava preso num barco de tropas,
atracado ao largo de Spithead.
Honrada Senhora (escreveu do navio Clarendon).
impelido pela minha penosa situação e no perfeito conhecimento
da sua bondade, espero que me perdoe por
tomar a liberdade de lhe escrever novamente. Desde
a minha última, o embarque teve lugar e eu estou
187
agora a bordo numa situação indescritível. Não tenho
comida para a viagem, nem dinheiro para comprar aquelas
pequenas coisas que são absolutamente necessárias.
Tenho que estar de guarda quatro horas por noite e não
tenho mais nada para comer, a não ser carne salgada
três vezes por semana e água para beber, porque o
rum é mau de mais.
A sua bondade para comigo tem sido tal, que não
me deixa a menor dúvida de que não me deixará passar
fome, devido à situação na qual fez o favor de me
colocar, bondade tal que fará de mim o mais agradecido
e feliz dos homens. Minha senhora, poderia tomar em
consideração o meu caso miserável, salvando-me com
uma pequena ajuda pecuniária de uma situação horrível?
Seria um acto digno da sua bondade e que ficaria eternamente
gravado no meu coração.
Sou, minha senhora, um seu grato servidor,
Sam Carter
Pobre Sammy, a definhar por causa de carne salgada
Enviou de imediato cinquenta libras para lhe restaurar
as forças. Que erro, ele ter deixado o seu serviço - não
fora talhado para soldado, sempre o soubera. Ele enviou-lhe
uma carta de agradecimento, incluindo uma factura
de roupas e artigos. Espadas e cinturões, cintos e plu-
mas, jaqueta e guarnições, luvas e meias e até um
relógio que lhe fora prometido por dez libras e dez
xelins, totalizando tudo mais quarenta. Ora, não havia
nada a fazer, tinha que salvar o pobre Sammy. Esperava
que ele assentasse e não escrevesse a pedir transferência.
- Minha senhora?
- O que é agora, Martha?
- O Dr. Thynne para si.
O Dr. Thynme, ao menos, não queria dinheiro. Já fora
pago pelos seus serviços, graças aos céus - as gripes
das crianças no Inverno, o reumático da mãe, uma sua
má disposição que durou quarenta e oito horas (tratada
com perícia e discrição, matando as esperanças do
duque), um cataplasma para Martha e uma aplicação de
ventosas em Parker, o cocheiro.
- Caro Dr. Thynne, que posso fazer por si?
188
- Por mim, nada, Mrs. Clarke. Somente uma palavra
por uma amiga...
Sempre a mesma coisa... mas Thynne nunca o
tentara antes. Nada de comportamento delicado, nem
de sorrisos doentios (Obrigada, hoje estou melhor, já
me sinto bem), o momento era de negócios. Sorriso
duro, ar profissional.
- Quais são os pormenores? As palavras de rotina.
- Uma paciente minha, uma senhora, tem um marido.
O marido tem um irmão, um coronel Knight.
- Em poucas palavras, Knight é o candidato?
- É, Mrs. Clarke. O coronel Knight pretende fazer
uma troca com um irmão oficial, um tal coronel Brook.
O assunto já seguiu os trâmites regulamentares, mas
a demora é enorme...
- Eu sei, eu sei. -As palavras do costume, já as
sabia de cor. - Farei o meu melhor. A recompensa foi
mencionada?
- Penso que a minha paciente mencionou duzentas
libras.
Ela já recebera trezentas e cinquenta por uma troca,
mas isso fora antes de Gordon assumir o comando.
Duzentas não eram para desprezar, atendendo às circunstâncias.
- Duzentas é pouco, mas como o senhor é um
amigo, farei uma excepção. Em notas de banco, claro.
- Como desejar, Mrs. Clarke. A minha amiga ficar-lhe-á
grata.
-O dinheiro deverá ser enviado para minha casa
quando os nomes forem publicados.
Tentarei fazê-lo até ao fim do mês.
Meu Deus, que calor. Abafava-se em Londres, no
mês de Julho. Não havia uma aragem, nem mesmo em
Weybridge. Do que ela precisava, era de descanso total
à beira-mar. Se não abrandasse, endoideceria, ficaria
maluca como o Rei. Haviam-no despachado para Weymouth,
para banhos de água salgada, que eram a última
novidade para doenças daquelas. Ela também iria para
Weymouth, se tivesse dinheiro. Desorientada, a cabeça
andava-lhe vertiginosamente à roda.
A febre da guerra apanhara de novo o país naquele
Verão e só se falava da invasão. Atrever-se-ia Boney?
Ele tinha os homens, não tinha os barcos, o tempo não
189
era propício, havia nevoeiro no Canal, qualquer tipo
dava cabo de dez franceses em qualquer altura, mas
se houvesse um desembarque, qual seria a estratégia
para Londres?
«Deve ouvir muita coisa, na sua posição. Por favor,
diga-nos, que tenciona fazer o duque? E será realmente
verdade o que Lorde Stanhope diz, que os Franceses
têm uma arma secreta para afundar os nossos barcos?
Como se ela soubesse... e mesmo que soubesse,
não o diria. Havia tantas línguas maldosas à espera de
uma oportunidade para começarem uma campanha de
maledicência e desacreditar o duque. Aquelas cartas no
Morning post, assinadas «Belisarius»- ela tentara descobrir
o autor, mas não conseguira. Sutton jurava que
era um homem chamado Donovan, um veterano a meio-soldo,
rancoroso, mas ele visitou-a, provou a sua inocência
e ainda se comprometeu a arranjar-lhe clientes
(pondo de lado a habitual comissão).
A maior surpresa da Primavera, fora o aparecimento
de Bill. Mal o vira desde a discussão na sala de visitas
um ano antes, porque decidira manter-se à parte. Mas
o medo de uma invasão também o apanhara. Admitira-o
na recepção do casamento de Isobel, atormentado pelo
patriotismo e bastante pomposo.
-Com o país alarmado desta maneira, não posso
ficar quieto. Pretendo procurar um emprego o mais
rapidamente possível.
-Que espécie de emprego?
- É difícil dizer. Qualquer coisa que me permita
ajudar. Estou preparado para oferecer os meus serviços
a qualquer Ministério que pretenda empregar-me.
Ela pensava na recepção do casamento ainda por
pagar...
- As nomeações não são fáceis de conseguir. Os
melhores lugares estão todos ocupados.
- Estou ciente disso - disse ele. - Não estou à
procura de um lugarão. Como muitos outros, pretendo
apenas servir o meu país.
- Poderás ter que pagar por esse privilégio.
- Estou ciente disso, também.
- Nesse caso, eu arranjo-te um emprego e tu
pagas-me.
190
Disse aquilo com um sorriso. Ele voltou-lhe as
costas. Mas quando os noivos já haviam saído sob uma
chuva de pétalas de rosa, seguidos de todos os convidados,
ela apanhou-o, sozinho - daquela vez sem um
sorriso e com lágrimas nos olhos.
- Que se passa?
- Isobel parecia tão feliz, estou a chorar por ela.
O meu casamento, há treze anos, foi bastante diferente.
Sem convidados, nem pétalas de rosa. Tudo isto vai ter
que ser pago, só Deus sabe quando.
-As finanças continuam difíceis?
- Piores que nunca, mas não te vou aborrecer com
isso... Espero que consigas arranjar um lugar.
Ele sabia o que ela queria dizer. Olhou-a, dividido.
Comportamento, princípios, tudo o que lhe era caro,
oscilava em face às necessidades dela.
- O que pretendes, exactamente?
- Para te falar com franqueza - mil libras. Quinhentas
para pagar este casamento. O resto? Para calar
a boca de um joalheiro que me anda a pressionar. Em
troca, arranjo-te um lugar e ninguém precisará de saber,
senão nós.
- Precisaria de pedir ao meu pai. Não tenho esse
dinheiro.
--Pede ao teu pai, então. Ele conhece o mundo
Os lugares não caem das árvores, só porque se fala
neles. Tem de haver um intermediário. Porque não a
tua mais chegada e querida amiga? Ou já não sou?
Acabou tudo entre nós?
Não havia argumentos contra aquilo, nem esperança
de qualquer retirada. Ela tinha-o seguro por um cordel,
balouçando indefeso, e não tinham passado ainda três
meses, já ele servia em Colchester, na Assistant Commissioner
of Stores to His Majestys Forces. As despesas
do casamento estavam pagas, o joalheiro apaziguado.
- Sir?
O que é, minha querida?
-Posso ir para Weymouth?
- Impossível, meu anjo, o Rei estará lá.
- O Rei não estará numa hospedaria às duas da
manhã...
191
- Nem eu, tão pouco. A minha visita será oficial.
E haverá um baptizado no domingo do filho de Chesterfield.
Serei o padrinho, vai ser uma festa pomposa. Se
fosses para Weymouth, não conseguiria pôr-te a vista
em cima.
Sempre aquela linha bem desenhada, demarcando
o que era oficial do que era privado, sem a mínima
tentativa de saltar por cima; ao passo que com o Príncipe
de Gales e Mrs. Fitzherbert... e com o duque de
Clarence e Mrs. Jordon... até com Kent e a sua velha
amante francesa... Ela supunha que era um sentido do
dever, poupar a duquesa.
- Não terás, por acaso, vergonha de mim?
Ele olhou-a do outro lado da mesa de jantar.
- Que se passa, meu amor, cólicas?
- Não... tempestade no ar; não me sinto bem.
Ele nunca compreenderia a repentina necessidade
que lhe vinha de vez em quando, de ter mais poder,
para planear, tomar decisões, partilhar a vida dele; não
da maneira como o fazia, mas como uma igual. Pensou
na fatal falta de tacto, um domingo em Weybridge. Descuidadamente,
sem pensar, instalara-se no local reservado
à nobreza e empertigara-se, sorrindo, enquanto
ele entrava na igreja com a duquesa. Furibundo, ele
olhara na direcção oposta, mas nessa noite, a fúria
explodira.
-Que raio pensavas fazer, exibindo--te na igreja
em frente da minha família? Atreve-te a fazer isso outra
vez, e mando-te chicotear.
Meu Deus... e ele fá-lo«ia. Ela nunca o esquecera.
No entanto, a sua presença em Weybridge era conhecida
de todos, as visitas dele a sua casa provocavam
encolher de ombros, eram aceites. A linha divisória
novamente. Em privado, tudo era permitido. Mas cantar
o Hosana com a duquesa, constituía profanação. A duquesa,
no entanto, não recebia pedidos de promoções.
- Conheceis um Dr. OMeara, sir?
- Nunca ouvi falar.
- É uma espécie de diácono, na Irlanda, e pretende
vir a ser bispo. Já me pediu várias vezes que to apresentasse.
192
- O meu departamento, não. Não lido com a Igreja.
Além disso, mesmo que lidasse, não gosto do «O» no
nome dele.
- Ele é protestante... Tão leal como tu.
- Nenhum irlandês é leal, a não ser à sua própria
pele. Diz a Mr. OMeara da minha parte, que se fique
por lá, pelos pântanos.
Bem... se era assim, não haveria Eminência para
o diácono; nem billet-doux de gratidão cheirando a
incenso. Qual seria o preço de um episcopado? O mesmo
de um coronel? Will Ogilvie não devia saber, mas talvez
Donovan.
- Se não me deixas ir para Weymouth, vou para
Worthing.
- Porquê Worthing, meu amor? Porque não ficas
em casa?
- Em Londres, no fim de Julho? A cidade está
morta.
Coxhead-Marsh estava em Worthing, assim como
Willy Fitzgerald, o divertido filho do deputado irlandês.
O lugar estava na berra, rivalizando com Brighton. Worthing
era a resposta ao momento de despeito, as crianças
instaladas em Weybridge, com a sua mãe. Até tinha
dinheiro que chegasse, recebido nessa manhã, duzentas
libras da parte de Mr. Robert Knight, irmão do coronel
que fizera a troca (por intermédio do Dr. Thymne) e que
fora rápido no pagamento.
- Muito bem então, vai para Worthing. Como te
apetecer. Como estás de dinheiro, desenvencilhas-te?
Pergunta espantosa. Um assunto tão raramente discutido.
Um rebate de consciência, talvez, tornara-o pouco
à vontade. E não era para admirar, vistas bem as coisas.
A sua mesada não era paga desde os princípios de
Maio.
- De facto, vou andando, graças ao doutor.
- Qual doutor?
- O Dr. Thynne, não o diácono irlandês. Um pequeno
assunto de trocas, lembras-te? Os nomes vieram publicados
hoje, por baixo da tua notícia. O único problema
é que ele mandou duas notas de cem e não serve de
nada acenar com elas a um estalajadeiro.
- O Pierson troca-as.
- O quê, a estas horas?
13 - Mary Anne
193
- Com certeza. Se ele disser para quem é, qualquer
comerciante o faz.
De facto, pensou ela. Não precisarei de muito
dinheiro. Coxhead-Marsh e Fitzgerald tratarão disso,
entre ambos. Quartos na hospedaria à beira-mar e ambos
desfazendo-se em amabilidades.
- Pierson, arranja troco para isto, em dez e vinte.
- Sim, minha senhora.
O duque levantou-se da mesa e pegou na mão dela.
-A minha querida vai sentir a minha falta?
- Sabes que sim.
- Tentarei não me ausentar mais de dez dias.
- Nove já é de mais... Pensa em mim, sentada
em Worthing, completamente só.
- Pede à pequena May para ir contigo.
- Talvez o faça, depende.
Dependente de quê? De o Coxhead-Marsh ser divertido
e da promessa dos olhos irlandeses de Willy Fitzgerald.
Um beijo longo, longo.
- Toma conta da tua Real pessoa. - Uma carícia
na cabeça e nas orelhas.
- Raios, eu levava-te para Weymouth, se pudesse.
Maldito Chesterfield, mais o miúdo.
- Eu sei... eu sei...
Duas horas para o tranquilizar e depois aos cavalos.
Ele pretendia cavalgar durante toda a noite, não se
queria deixar ficar. Um amoroso adeus da janela, o lenço
acenando.
-Minha senhora, Pierson trouxe o seu troco.
- Obrigada, Martha.
- E, minha senhora, um Dr. OMeara veio cá para
a ver. Disse que esperava ter tido oportunidade de
apanhar Sua Alteza Real antes de sair. Espera estar
também em Weymouth no domingo.
- Então, que leve a esperança com ele também e
que a mantenha quente. Se mudar o «O» para «Mac»,
talvez lhe sirva de alguma coisa.
- Ele pediu-me para lhe dizer, minha senhora, que
trouxe um presente.
Um presente! Um pouco prematuro. Nem podia
receber um diácono despida, só com um negligee e
depois da meia-noite.
194
- Diz ao Dr. OMeara que eu rabisco umas linhas
a Sua Alteza e que, já que vai para Weymouth, pode
levá-las ele próprio. Diz-lhe também que lhe agradeço
o presente e traz-mo para cima.
Dinheiro sem garantias era bastante raro. Os diáconos
tinham mais fé do que os soldados. «O diácono
visitou-me», escreveu ela, «e manda cumprimentos. Deixo
o resto para a bondade e protecção reais. A tua almofada
parece desamparada. Sinto-me muito só.» Assinado M.
A. Datada de 31.
Martha apareceu de novo à porta do quarto, trazendo
um pacote embrulhado em papel castanho resistente.
- Desembrulha-o, Martha, mas primeiro leva esta
nota ao diácono.
Ela lutou com o cordel partindo uma unha, até que
Martha regressou e a ajudou com uma tesoura. Podia
ser uma veste eclesiástica com o dinheiro lá dentro, mas
parecia demasiado pesado para tal; devia ser um bordão
Atirou fora o último pedaço de papel. Martha disse:
- Um conjunto de tacos de cricket para o menino
George.
O bilhete do diácono vinha no embrulho. «Isto é
para o seu gentil filho. Bonecas para as filhas, seguir-se-ão.
Muito humildemente.»
Tarde de mais para retribuir o bilhete. O diácono
já se fora embora.
- Muito bem, Martha. Guarda isto tudo para levares
amanhã contigo para Weybridge.
- Clérigo esquisito, não era, minha senhora?
- Muito atencioso.
Tanto melhor para a Igreja. O diácono podia permanecer
diácono. E não era precisa muita imaginação
para adivinhar como chegara àquele posto. Uma raqueta
de ténis para a rainha? Ou um conjunto de criquet?
Realmente, aqueles protestantes! Não admirava que os
católicos quisessem a emancipação.
Conjunto de cricket para George... poderia haver
um segundo sentido? Uma insinuação, talvez, de que
jogos deviam ser encorajados. Uma alusão indirecta
irlandesa, algum jogo de palavras? Willie Fitzgerald
devia saber, perguntar-lhe-ia em Worthing.
195
Bocejando de sono, encostou-se na almofada. Era
agradável ter, ao menos uma vez, o espaço todo só para
si, poder dormir até às dez sem perturbações. No dia
seguinte, a viagem até à beira-mar tirar-lhe-ia as teias
de aranha, o tédio e permitir-lhe-ia aprender qualquer
coisa sobre cricket... Willie podia-lhe ensinar as regras,
viera de Oxford há pouco...
O duque estava sempre apressado, sempre ocupado,
mas Willie era divertido - estudantes universitários
saídos da casca eram um bom tónico.
Era tempo de entrar no mundo do cricket.
196
CAPÍTULO 7
O medo de uma invasão passara - Nelson tratara
disso e perdera a vida. A glória de Trafalgar
varreu o país e o patriotismo atingiu o cume,
para depois atingir o desânimo com Austerlitz. O inimigo
era imbatível em terra, ou assim parecia.
O comandante-chefe tinha pouco tempo para brincadeiras.
Estava nos Horse Guards das nove às sete e
a sua vida era uma constante batalha no sentido de
conseguir que as coisas fossem feitas. Por um lado, o
seu exército berrava por equipamento, prioritariamente
armas e roupa's, a Força Expedicionária proposta não
estava pronta, ainda em treinos; por outro, os políticos
clamavam que uma força simbólica devia ser enviada
sem demora e Lorde Cathcart embarcou para o Elba
para se juntar ao general Don - não interessa se são
insuficientes, embarquem os homens.
O duque não se deixou intimidar. As suas cartas
para o primeiro-ministro eram firmes e concisas. «A Força
Expedicionária ainda não está apta a ir para a frente de
combate.» O Pitt que berrasse à vontade - ele seria o
primeiro a explodir, assim como o país, se os homens
fossem chacinados. «Mais uma derrota», culpa do
comandante-chefe, devida a má organização. Que o
Ministério se mude para os Horse Guards e dirija o
Exército; em breve se confessariam vencidos e pediriam
para serem substituídos no cargo. O estado de saúde do
primeiro-ministro também não ajudava. O julgamento
de um homem doente raramente era credível. Se ele
197
saísse, não havia ninguém capaz para o substituir e
ganhar a confiança do país. A brecha teria de ser colmatada
pelos partidos, Fox no Gabinete, os temperamentos
acalmados e, se o rei protestasse, tinha que
ceder. Este estava num estado lastimável - outro problema.
Ora fresco que nem uma alface, ora maluquinho.
«Se alguém quer o meu lugar, está à disposição.»
O duque dissera aquilo num fim de tarde de Outono à
chegada para o jantar, atrasado, sem apetite e num
estado de espírito duvidoso. Tivera uma entrevista com
Pitt que não conduzira a nada; meia hora com o rei,
que se recusava a assinar um papel, mas que andava de
um lado para o outro em roupão sem fazer nada, jogando
às cartas; fazendo pouco das notícias dos jornais que
pediam «acção»; No Times, um líder político que não fazia
sentido, com alusões desagradáveis ao caso Melville, os
escândalos da última Primavera ainda não esquecidos se
o Primeiro Lorde do Almirantado tivesse de se
demitir, que tal sondar os métodos do Exército? E depois,
para cúmulo, à sua espera no hall de Gloucester Place,
uma sarcástica carta anónima.
Ele tirou-a do bolso, depois do jantar e, de costas
para a lareira, leu-a em voz alta.
«Vossa Alteza Real e Adúltera. Conheceis a lei, sem
dúvida, mas se não, há profissionais que a conhecem
e fazem dela a sua profissão. É considerado ofensa
criminal roubar uma mulher ao seu marido, assim como
retirar às crianças os afectos de um pai. Vós fizestes
ambas. Esperai pelas consequências.»
O duque atirou a carta para o regaço de Mary Anne
e riu-se. Mas não era um riso de rejeição, era forçado.
- Algum maluco, suponho, do teu passado?
Ela reconheceu a letra imediatamente e o coração
Gelou-se-lhe. Joseph... As letras esborratadas, as frases
confusas, mas era ele, indiscutivelmente. Joseph, que
fora afastado pelo que sabia para um lugar qualquer no
campo, perto de Northampton, tratado por parentes, sem
esperança, cada vez mais doente, sem perguntas indiscretas,
sem o seu nome ser alguma vez mencionado.
- Ou maluco, ou bêbado - respondeu ela -, talvez
ambas as coisas, e rasgou a carta em pedaços.
198
- Que quererá dizer o tipo acerca de roubar uma
mulher? Uma viúva não pode deixar os seus afectos na
campa do marido.
- Evidentemente, este queria que eu o fizesse,
deve ter ouvido os nossos nomes juntos. Eu não me
preocuparia. Atira os pedaços para o lume, que é onde
pertencem.
Ele assim fez, com uma expressão desorientada,
carregada. A carta despertara-lhe qualquer coisa na
memória. Ele nunca prestara atenção à história inverosímil
que ela lhe contara: um marido patife, morrendo
de delirium tremens; atirada para o mundo com quatro
crianças pequenas e ajudada, depois de uma luta terrível,
pelo construtor Burton.
- Ainda vês algum dos familiares do teu marido?
- Não, nunca... eles vivem no campo. A família
espalhou-se.
Ele bocejou e mudou de assunto. O caso estava
encerrado. Ela ficou a ver os pedaços da carta arderem.
Perdera uma oportunidade? Deveria confessar?
Deveria dizer «acontece que não sou viúva. O meu
marido ainda vive, mas não sei onde está. Deixei-o; ele
não me sustentava, nem às crianças». Seria uma maneira
simples de apresentar a situação, não acrescentava
nada e não era diferente da versão que lhe
contara, mas qualquer coisa a reteve, não sabia porquê.
Seria o medo de parecer tola, de parecer desonesta,
logo, de provocar a pergunta, «Porque mentiste?» Ainda
estava a tempo de dizer «Aquela caligrafia é do meu
marido». Ele sentou-se perto do lume e dormitou enquanto
ela tocava piano. Às nove e meia ela pensou: «Abordarei
o assunto de novo... Direi que sempre me considerei
viúva, que ouvi mais tarde por alguém que a crença
era infundada, que Joseph ainda era vivo, mas louco,
num asilo.» O relógio continuou a tiquetaquear, passou
o quarto, e depois tocou as dez; ele espreguiçou-se e
mencionou a cama. Já era tarde para falar daquilo. Talvez
no dia seguinte, ou no outro dia.
Passou-se uma semana. Chegou então uma nova
carta, desta vez enviada para os Horse Guards, não para
casa. «Quero a minha mulher e as crianças. Devolva-mas.
Se não o fizer, tomarei as minhas providências. Uma
acusação nos tribunais por adultério flagrante ficaria
199
muito bem num momento destes, com o país em perigo.
Assinado e sem dúvida alguma, Joseph Clarke.
Ele entregou-lha nessa noite.
-E então?
Um segundo de hesitação. Lágrimas, ou riso? Lágrimas
seriam uma admissão de culpa, riso era melhor
Tratar do assunto com leveza, atirando-o depois para
trás das costas.
- Com que então, está vivo. Não tive a certeza,
a semana passada. A letra era diferente, mas agora
tenho. Todos me juraram que ele estava morto e eu
acreditei.
- Mas tu disseste-me que o viste morrer sentada
à cabeceira dele.
- Disse? Já não me lembro, é tudo tão confuso
Eu estava de cabeça perdida, o meu filho estava doente
- Era impossível recordar-se da história que lhe contara.
O irmão dele, o cura, pediu-nos para sairmos,
as crianças e eu, ou nunca mais recobraríamos - foram
precisos dois homens, sabes, para o segurarem. Mais
tarde escreveram-me para Hampstead, dizendo-me que
estava livre.
Ele estava em camisa de noite, de pé, ao lado da
cama. O momento era inoportuno, despropositado. Ela
estava sentada ao toucador, segurando o cabelo com
uma fita.
Ele disse:
- Então? Que vais fazer? Voltar para o tipo?
- Oh!, céus, que pergunta! Com certeza que não.
Dez libras calar-lhe-ão a boca. Eu escrevo-lhe logo de
manhã.
Constrangimento entre eles, silêncio nas duas
almofadas.
- Como se - disse ele - eu não tivesse já tanta
coisa na cabeça, faltava-me agora cair-me em cima um
assunto destes.
- Querido! Não te preocupes. Prometo-te que consigo
resolver o assunto.
- Eu vou mostrar a carta ao Adam.
- Porquê, meu Deus?
- Ele é o meu conselheiro pessoal, saberá o que
fazer. Lê cinquenta cartas ameaçadoras por dia. Juntamente
com Greenwood, tratam do sujeito.
200
O coração gelou-lhe. Greenwood... Adam... Os
homens que tratavam de todos os assuntos oficiais dele,
que a olhavam com suspeita, antipatia e desconfiança.
Sabia muito bem que era assim, ouvira-o da boca de
todos os amigos dele. «Cuidado», avisara-a James Fitzgerald
frequentemente, «esses homens estão à espreita,
prontos para a apanhar, especialmente Adam». Ela
tocou-o com a mão. Ele estava frio, insensível.
- Por favor, deixa o assunto comigo. Conheço muito
bem o meu Joseph. Dez ou vinte libras chegam para o
calar.
- Não sei... não gostei da linguagem dele. Adultério.
Eu sei como essa palavra soa num tribunal. É melhor
pôr Adam a tratar do assunto.
Um belo começo de Inverno. A sorte mudara. Cada
dia trazia mais uma contrariedade, mais um problema.
Havia discussões ridículas com os criados, desorganização,
queixando-se todos que Martha passava o tempo a
dar-se ares.
- Não recebemos ordens dela. Só da senhora.
- Mrs. Favoury é minha governanta há treze anos.
Ou recebem ordens dela, ou vão-se embora.
Martha ficava carrancuda, chorando.
- Prefiro ir-me eu embora, a causar toda esta confusão
de manhã à noite. Além disso, quero-me casar.
- Meu Deus, com quem?
- Com Walmsley, o carvoeiro. Corteja-me há seis
meses.
- Mas, Martha, não me consigo desenvencilhar
sem ti.
- Pois nunca o disse, e agora que as meninas foram
para a escola de Miss Taylor e que o menino George
foi para Chelsea, não sou necessária, ainda por cima
com os criados conflituosos, tão maldosos, todos virados
contra mim.
- Oh, cala-te!... Sai e acaba com a tagarelice. Deixa-me
pensar. - Mais contas, contas sem fim, a maior
parte de Weybridge. As vigas do estábulo estavam
podres, os estábulos todos precisavam de ser reparados,
quartos novos para o cocheiro. Contas de batatas,
suficientes para alimentar um regimento. Umas vacas
Jersey compradas e que não davam leite, haviam apanhado
uma doença qualquer e haviam morrido, por isso
201
tinha que comprar outras. Chamou o seu pequeno ajudante
de negócios para a ajudar, Mr. Comrie, um procurador,
capaz e prestável.
- Mr. Comrie, estou à beira do desastre.
- Assim parece. - Ele ajustou as lunetas e debruçou-se
dez, vinte, trinta vezes sobre os papéis dela, atirados
a esmo para o chão da sala de visitas. Contas de
uma centena de proveniências, todas por pagar.
- Sua Alteza Real não lhe dá uma mesada?
- Oitenta por mês. Que posso fazer com tal quantia?
Ela não lhe podia falar das promoções, diminuindo
mês após mês, com Gordon a mandar.
- Tem que alegar protecção do marido. É a sua
única saída. Admita a todos os comerciantes que não
é viúva. - Comrie sabia - fizera-o antes por ela, resolvendo
o caso fora do tribunal, sem ninguém saber.
- Que acontece se eu fizer isso?
- A lei não a pode compelir a pagar.
Ela já ouvira aquilo antes, há muito tempo. A mãe
recebera um conselho semelhante, quando Bob Farquhar
a deixara. De novo a mesma velha história.
- As contas serão enviadas ao meu marido?
- Se o encontrarem. Sabe onde ele vive?
- Não... não tenho a certeza.
Enviar cem contas a Joseph, que não as poderia
pagar? Que as reenviaria ao duque com uma carta ameaçadora?
No fim, viriam novamente para a sua posse. Não
havia solução.
- Recebi outra carta do bêbado do teu marido - dir-lhe-ia
o duque.
Ela receava aquelas palavras, pelo menos uma vez
por semana, nos últimos tempos.
- Espero que as tenhas deitado todas para o lixo.
- Pelo contrário, entreguei-as todas ao Adam. Ele
está a investigar o assunto.
Investigações... que quereria ele dizer, que tipo de
investigações?
Nem se atrevia a perguntar. Ele andava com um ar
preocupado, de modos evasivos, como se tivesse a
culpa. Os nervos dela andavam tão tensos como uma
corda de violino, prontos a rebentar. Passava-se qualquer
coisa que ele não lhe dizia. Costumava mandar-lhe
202
recados pelo criado. «Não me esperes para jantar. Não
sei se irei a casa esta noite.»
Era estranho, não parecia ele. Sempre lhe parecera
aliviado por sacudir dos ombros os problemas dos Horse
Guards e relaxar.
Não havia ninguém em casa para ela se distrair.
Sem as crianças, só havia silêncio. Mary e Ellen haviam
ido para a escola Taylor (mantida em funcionamento
pelas suas contribuições), e George, agora com oito
anos, dava-se ares em Chelsea, um caloiro em miniatura,
antes de ir para Marlow.
Ela continuava a receber, mas sozinha, sem o dono
da casa como anfitrião: os Fitzgerald, pai e filho, Russell
Manners, Coxhead-Marsh, a habitual multidão de admiradores,
mas a animação desaparecera. Tudo era forçado,
ela representava. O riso era falso, o sorriso,
fachada, a conversação fluía automaticamente e o medo
estava sempre presente. «Já não tenho o poder que
tinha... foi-se... foge-me por entre os dedos.»
Uma manhã, Mr. Adam visitou-a, declarando que
tinha sido incumbido pelo duque de York de fazer certas
perguntas relacionadas com a data do seu casamento,
onde vivera antes de casar, todos os factos da sua vida
anterior.
Ela pô-lo na rua com uma cortesia gelada.
- A minha vida passada não diz respeito a ninguém
senão a mim. Nem o senhor, nem Sua Alteza Real têm
o direito de se meterem no assunto.
- Faço-lhe notar, minha senhora, que a senhora sabe
muito bem; há já alguns anos que o seu marido, Joseph
Clarke, está vivo e que a declaração feita por si a Sua
Alteza Real de que era viúva, é incorrecta?
- Isso não é verdade.
- Muito bem. Então, como é que nos princípios de
1804 lhe foi posta uma acção, que a senhora escondeu
de Sua Alteza Real, a qual foi resolvida fora do tribunal,
tendo o seu advogado alegado dependência sua do seu
marido?
Encostada à parede com muita subtileza, encolheu
os ombros.
- O meu advogado e eu própria pensámos que era
a melhor saída. Eu não tinha, na altura, provas d'a morte
do meu marido.
203
O rosto dele, frio, malicioso, permaneceu inexpressivo.
- Tem alguns certificados do nascimento dos seus
filhos?
- Não, penso que não. E porque os quereria o
senhor ver?
- Foi-me insinuado por pessoas que não vou mencionar,
que a senhora deu à luz antes de casar.
Santo Deus! Que grande descaramento. Agora compreendia
tudo. Ele enviara espiões a Hoxton, que haviam
esquadrinhado a vizinhança em Charles Square, baralhado
o seu marido Joseph com o irmão John, atribuindo
a ela as crianças deste, agora quase adultas e dispersas,
sabia Deus por onde.
- A inicial J é que provocou o erro - disse ela. Volte
a Hoxton e certifique-se dos factos. O meu marido
tem um irmão pároco com a mesma inicial, mas o nome
é James. Se lhe facilita as suas investigações, estou
pronta a admitir que casei com os três irmãos.
- A irreverência não a ajuda, minha senhora;
lamento. Importa-se de me dar a data e o local do seu
casamento?
O diabo é que ela daria. Ele palmilhasse o país.
Recordou o casamento de sua mãe com Bob Farquhar.
Ele que descobrisse isso também, se quisesse, já que
o passado era tão vital.
- Em Berkhamsted- disse ela. - Vá lá e procure
nos arquivos. Encontrará menções à minha família. E se
quiser recuar mais, tem que viajar até à Escócia. Escave
nas urzes à procura do clã Mackenzie, ou vá abrir bacalhaus
ao meio, em Aberdeen.
Nessa noite esqueceu a prudência, lívida de raiva.
O duque chegou para jantar e ela atacou-o.
- Como te atreves a enviar um homem para me
interrogar? Metendo o nariz sujo nos meus assuntos.
Ele foi apanhado desprevenido, ficou embaraçado.
- Se estás a falar de Adam, não tenho nada que
ver com isso. Limitei-me a dizer-lhe que tentasse encontrar
o teu marido e que lhe transformasse a vida num
inferno, para me livrar de chatices.
- Muito bem, diz-lhe que da próxima vez, nem lhe
abro a porta. Nunca fui tão insultada em toda a minha
vida e, meu Deus, isso quer dizer alguma coisa.
204
Ela desejou uma zaragata para limpar o ar, atirar-lhe
uma garrafa à cabeça e partir-lhe - a cabeça ou a garrafa,
ou ambas. Não interessava. Ele nem se levantou.
Ficou ali calado, a mesma expressão que aparentava há
já várias semanas, carrancudo, distante, como um rapazito
de escola ofendido.
- Não tenho tempo para me imiscuir nisso tudo.
Já tenho muito com que me ocupar ao longo do dia.
A pressão nos Horse Guards está-me a matar, para não
falar dos berros de Greenwood ou de Adam.
- No entanto - disse ela, arranjas tempo para
ir ao teatro. Li no jornal, ontem. Foi nessa noite que me
mandaste dizer que tinhas sido retido por Sua Majestade.
- E fui. Quando me retirei de Buck House, já era
muito tarde para vir jantar.
- No King's Theatre. Mrs. Carey... ela dança bem?
- Razoavelmente. Na verdade, nem reparei.
- Talvez tivesses reparado mais tarde, durante a
ceia?
Ele corou, bebeu o Porto e não respondeu. Afinal,
Will Ogilvie tinha razão, havia qualquer coisa. Ela apertou
as mãos uma na outra, tentando manter o controlo.
- Parece que ela é alta. Isso é uma vantagem. Não
precisas de te dobrar, nem ela de se esticar. Um peito
do pé partido, não serve de muito a uma bailarina.
Antes que ele pudesse responder, veio um som de
tumulto do andar de baixo. Desordem na cozinha, os
criados à luta? Já não havia a Martha para manter a paz
- casara e fora-se embora.
- Pierson, por amor de Deus!
Havia segredinhos no hall, murmúrios e vozes.
O duque ficou vermelho como um peru. Os distúrbios
vinham mesmo a calhar para fugir ao assunto.
- Meu Deus. Que rica casa, para a qual voltar à
noite. Rixas e gritos de criados. Tinha mais sossego, se
jantasse no quartel.
- Ou num camarim de teatro.
Pierson regressou, pedindo desculpa.
- Lamento muito, minha senhora, mas é uma mulher
a dizer que é a verdadeira esposa do carvoeiro,
o que casou com Mrs. Favoury no mês passado. Berra e
barafusta por justiça.
205
- Mande-a embora. - O duque apertava os lábios,
gelado.
- O pessoal está a tentar, Alteza, nem me atrevo
a repetir a linguagem dela.
- Que diz ela?
- Diz, minha senhora, que a senhora encorajou o
marido a deixá-la, que encorajou a vinda dele para Gloucester
Place para estar com Mrs. Favoury, e que se pas-
sam coisas no andar de baixo que chocariam o mundo,
para não falar no que se passa no andar de cima. Disse
que esta casa não era nada senão um... - Parou e tossiu,
a lealdade sobrepondo-se ao escândalo.
- Tirem a mulher daqui - repetiu o duque.
Fechem-na num lugar qualquer. O lacaio que te ajude.
- Muito bem, Alteza.
A berraria em baixo recomeçou. Como o soalho era
fino, ouviram, antes do silêncio final, os gritos da mulher:
- A sua amante é que é a culpada, essa prostituta
suja. Levar um homem casado para a cama, ainda por
cima um duque de sangue real. Devia ter juízo.
Antes, teria sido motivo para chacota e risota, coisa
que ela imitaria e repetiria, enquanto ele ouviria rindo,
na sala de visitas. Mas não naquela noite. Sentados como
duas múmias, como estranhos, sem humor nenhum em
face a uma situação daquelas. Mas tinham que manter
a dignidade.
- Vamos para cima?
O piano permaneceu intocado, não houve conversação,
cada um segurava um livro, que não leram. O relógio
na sala de visitas continuou a tiquetaquear, arrastando
as horas até às onze. E então, quando deu as onze,
o toque final - o repicar da campainha, pancadas na
porta da frente, barulho de alteração nos degraus da
entrada. O Duque atirou o seu livro por ler para o chão.
- Se é aquela mulher outra vez, chamo a guarda.
Soaram passos na escada e Pierson entrou.
- Peço desculpa por incomodá-lo, Alteza... Minha
senhora, é uma pessoa para si, e muito insistente. Deu
o nome de Joseph Clarke.
Então... acontecera. Joseph não poderia ter escolhido
melhor altura, nem que tivesse a certeza do diabo.
Xeque-mate. Toalha para o ringue...
206
- Obrigada, Pierson. Eu vou vê-lo. Leve-o para a
sala pequena, em baixo. E fique por perto, posso precisar
de si.
Levantou-se e fez uma vénia. O Duque nem sequer
olhou para ela. A ironia perdeu-se, ou talvez ele achasse
que lhe era devida. Desceu as escadas para a antecâmara,
onde os visitantes costumavam esperar. Joseph
estava lá, de pé, ou antes, a sua sombra, ou pior ainda,
a sua caricatura. Apagado, mal vestido, o cabelo grisalho
tocando-lhe os ombros curvados, o corpo pesado e gordo,
os olhos encovados numa face flácida, o queixo por barbear,
os lábios inchados e gretados.
Era aquele o homem com quem casara, amara e
acarinhara, pai dos seus filhos, pai de George.
- Que queres? Sê breve, tenho convidados lá em
cima - disse ela.
Por um momento ele não respondeu, antes a fixou,
o vestido de noite muito decotado, as jóias e o cabelo
penteado ao alto, aos caracóis. Depois riu-se, o riso
idiota e tolo de um bêbado.
- Estás encantadora - arrastando e ciciando as
palavras - o cor-de-rosa sempre te ficou bem. Não te
casaste de cor-de-rosa? Lembro-me bem do vestido, aos
pés da cama. Mais tarde, usaste-o aos domingos, em
Golden Square. Sem essas jóias, claro. Os diamantes
também te ficam bem, nunca tos poderia comprar, nunca
tive dinheiro para isso. Fiz sempre o possível por economizar,
mas tu gastava-lo todo.
A voz desconexa de um homem cuja mente vagueava,
cujos sentidos, empapados pela bebida, estavam embotados,
que distorcia os factos do passado para conveniência
dos seus sonhos.
- Se foi para me dizeres isso que cá vieste, estás a
perder o teu tempo. - No seu coração, não havia mais
nada, senão raiva. Ele era apenas uma concha vazia,
sem vida ou essência. Nem sequer tinha pena dele.
Estava morto.
- Quero-te de volta. Quero a Mary e a Ellen. Quero
o meu filho.
- Queres dizer que queres dinheiro. Muito bem,
que quantia te satisfaz? Tenho vinte libras em casa,
posso dar-tas. Devem chegar-te para mais ou menos
uma semana, até as garrafas se esvaziarem.
207
Ele deu um passo na sua direcção. Ela dirigiu-se
para a porta.
- A casa está cheia de criados, basta chamá-los e
eles põem-te na rua, por isso, não me toques, por favor.
- Ele está cá?
- Quem?
- Esse janota... - Levou a mão à boca para abafar
um esgar idiota, depois baixou a voz, apontando com a
cabeça em direcção da porta. - Assustei-o bem, estive
com o advogado dele. Deixe o caso fora do tribunal, é
o que aconselham.
- Queres dizer que viste o Adam?
Ele sorriu novamente e piscou o olho, depois, com
a solenidade de um bêbado, agitou um dedo, escolhendo
as palavras com cuidado.
- Vi um tipo qualquer que se intitulava tesoureiro,
não me lembro do nome, mas contei-lhe a história. Oh
sim, consegui dar-lhe os detalhes todos, como nos beijávamos
e afagávamos no beco, como te comportaste
com O tipógrafo antes de mim, sem mencionar o teu
padrasto, às escondidas. Também lhe contei como levaste
o meu irmão ao suicídio, gastaste toda: a fortuna dele
e minha, fugiste com o restante, enquanto eu ficava às
portas da morte. O tipo pareceu muito agradecido. Polidamente,
expressou a maior simpatia e disse que avisaria
o janota, para não continuar a ser ludibriado.
Ela chamou Pierson.
- Acompanhe este homem à porta.
- Tão depressa, não, há mais.
- Já ouvi o suficiente.
- Estou-me a lembrar de pequeninas coisas. Como
transformaste a tua própria irmã em cozinheira, a filha
de Bob Farquhar, e a embonecaste com um avental.
Falei-lhe da tua mãe que alugava quartos, um bom disfarce
para outras coisas. Oh sim, ele agradeceu muito
e anotou todos os detalhes num livrinho. Obrigado, Mr.
Clarke, tudo isto será muito útil.
Pierson e o lacaio estavam presentes, haviam ouvido
tudo. Fixavam-na de olhos esbugalhados, esperando novas
ordens.
- Levem-no daqui.
Não houve luta, nem distúrbios. Ele não foi arrastado
como a mulher do carvoeiro. Arrastou-se pelo hall
208
com passos pouco firmes, fazendo vénias, escarnecendo,
com o chapéu amarrotado nas mãos.
- Espero por ti e pelas crianças no próximo sábado.
O nosso aniversário de casamento está a chegar, teremos
a celebração familiar do costume. Lembras-te como
costumávamos celebrar em Golden Lane?
Atiraram-no pelas escadas abaixo. A porta da frente
fechou-se. Pierson, afastando os olhos, conduziu os dois
lacaios de regresso à cozinha. Virando-se, ela viu o
Duque no cimo das escadas.
-Livrei-me dele.
- Pelos vistos.
- Não está só bêbado, também está louco.
- Está bastante lúcido.
-Para quem o quiser ouvir... Onde vais?
- Mandei vir a carruagem. Não durmo cá esta noite.
- Porque não?
- Tenho que sair cedo. Preciso de estar em Windsor
às dez e meia.
- Não disseste nada disso antes.
- Esqueci-me de to dizer.
Não havia elo de ligação entre eles. Somente delicadeza
fria e formal. Ele passou os lábios pela mão dela
antes de sair, murmurando algo acerca de jantar na
sexta-feira. Ela ouviu a carruagem partir depois, o coração
pesando como chumbo, subiu as escadas. Olhou-se
no espelho do quarto. Os olhos estavam ansiosos, arregalados,
sem brilho. Duas rugas reveladoras desciam
do nariz para a boca. Faria trinta anos dentro de uma
semana. Sentou-se ao espelho, alisando as rugas. Ninguém
com quem falar, nem mesmo Martha.
Na manhã do dia onze, recebeu um bilhete com a
caligrafia do Duque, que dizia: «Adam visitá-la-á às seis .
horas». Somente aquilo. Nem um vislumbre do que se
tratava. Não saiu todo o dia, sentou-se e esperou. Então,
à medida que o dia ia passando, passeou pelos quartos.
Os das crianças primeiro, arrumados, devido à sua
ausência. O de Mary (agora quase com treze anos), sombrio,
religioso, com Bíblias e quadros de santos - uma
fase passageira. O de Ellen (com dez), mais infantil, com
uma corda de saltar, dois livros de poesia (romântica)
e por cima da cama, um enorme retrato colorido do
Duque, tirado de um jornal e preso com punaises.
14 - Mary Anne
209
O de George, com caixas de tintas, caixas de berlindes;
soldados com cabeças e braços partidos; o Duque de
novo, montado a cavalo; um retrato dele próprio como
cadete; a escola militar de Chelsea, rapazinhos em exercícios.
A campainha da; porta da frente tocou. Desceu as
escadas apressadamente. Não era Adam, mas sim Will
Ogilvie. Falaram de várias coisas. Ela não aludiu a nada
do que acontecera ou que, provavelmente, viria a acontecer.
Sentiu que ele a observava com atenção, que
estava à espera de algo, mas fingiu que tudo estava
como de costume. Ultimamente, nada acontecera relativamente
a assuntos militares, os negócios entre eles
haviam abrandado nas últimas semanas. Ele aventurou-se
a mencionar algo acerca de promoções. Ela encolheu
os ombros - nada fora aprovado ultimamente. Ele
não a pressionou e, ao beijar-lhe a mão à despedida,
antes de descer as escadas, disse-lhe casualmente, como
que en passant:
- Creio que Mrs. Carey, a bailarina, está a viver
em Fulham.
- A sério? Não sei muito acerca dela. Do King's
Theatre, não é verdade? Nunca lá fui.
- Está em minoria. Anda tudo doido cem ela. Creio
que Sua Alteza Real a conhece e que deu uma festa em
sua honra, em Fulham Lodge.
Uma alegre despedida para lhe desejar felicidades.
Adam chegou ao bater das seis. Ela esperava-o na
sala de visitas, vestida para jantar, com os diamantes
que o Duque lhe oferecera, em redor do pescoço.
- Receio - começou ele - que a minha missão
não seja muito agradável. A entrevista não é escolha
minha.
- Continue, por favor.
- Fui incumbido por Sua Alteza Real, o Duque de
York, de a informar, minha senhora, que de hoje em
diante, a sua ligação com ele deve cessar. Ele não
deseja vê-la ou comunicar consigo novamente. É ponto
assente.
Sentiu-se empalidecer. Não se mexeu, cerrou apenas
as mãos ainda fortemente atrás das costas.
- Sua Alteza Real d'á alguma razão para essa atitude?
210
- Não, minha senhora. Somente, surgiram factos
que demonstram que lhe mentiu constantemente acerca
do seu passado, acerca d'a sua família e muitos
outros assuntos não especificados. Sua Alteza Real acreditava
que a senhora era viúva e o seu marido tentou
mover uma acção de adultério contra ele, em tribunal.
Este é somente um detalhe, entre muitos. Além disso,
a sua extravagância e frequentes pedidos de dinheiro
exasperaram tanto Sua Alteza, que ele não mais se quer
submeter a isso.
- Tudo o que gastei, foi para ele. Esta casa, a casa
de Weybridge, foi tudo por vontade dele.
Adam ergueu uma mão para a interromper.
- Desculpe, minha senhora, nada de explicações, por
favor. Sua Alteza Real mandou-me dizer-lhe que, se se
comportar adequadamente, está disposto a dar-lhe quatrocentas
libras por ano, a serem pagas de três em três
meses. Mas não se considera, de maneira nenhuma, obrigado
a fazer tal: trata-se apenas de um acto de generosidade
da parte dele e essa quantia ser-lhe-á retirada
de imediato, se ele assim o achar.
Ela ficou a olhar para ele, aterrada. Quatrocentas
libras? As suas dívidas atingiam quase quatro mil...
Qual quê, só em Weybridge, as obras que ele sugerira,
que ele insistira para que ela fizesse, atingiam pelo menos,
duas mil. A quinta, os jardins...
- O senhor deve ter confundido as ordens - disse
ela. - Sua Alteza Real conhece as minhas dificuldades
financeiras. Nunca sugeriria quatrocentas libras por ano,
um quarto da soma que pago aos criados em «salários e
librés.»
- Quatrocentas é a soma - repetiu Adam. Quanto
às dívidas, Sua Alteza Real não as reconhece.
A senhora deve liquidá-las, vendendo o conteúdo desta
casa.
Ela tentava planear, antever o futuro. Para onde iria
viver, que iria acontecer? E George na escola militar,
que seria de George?
- O meu filho - disse ele -, que vai acontecer ao
meu filho? Sua Alteza Real prometeu educá-lo. Ele está
na escola, em Chelsea e dentro de um ano ou dois irá
para o colégio, em Marlow. O seu nome já foi aceite,
falei com o comandante.
211
- Lamento, minha senhora, não tenho instruções
nenhumas acerca do seu filho.
A realidade finalmente atingiu-a. Os criados tinham
que ser avisados, pagos e despedidos. Tinha que falar
com os comerciantes, retirar os cortinados, enrolar os
tapetes, desfazer-se dos cavalos e das carruagens, e
não sabia como, mas tinha de avisar os seus amigos e a
família de que tudo chegara ao fim... Olhares de pena,
compaixão forçada, desleal, um sorriso de troça por
trás de uma mão desdenhosa...
Ela disse:
- Tenho de ver Sua Alteza Real. Ele não me pode
deixar nestas condições, sem uma palavra.
O pânico apoderara-se dela, era o caos, o mundo
a desfazer-se.
- Sua Alteza Real, minha senhora, declina uma
entrevista.
Ele fez uma vénia - e saiu. Nem sequer tentou
detê-lo. Sentou-se à janela, tremendo. Pensou, «isto não
é verdade, é só um pesadelo. Ou Adam mentiu, forçando-o
a tudo isto. Ele logo a noite explica; ele vem directamente
para cá. Falou-me em jantar na sexta-feira, não
falta a uma promessa. A última coisa que disse foi jantar
na sexta-feira». Continuou sentada na sala de visitas,
à espera. Sete, oito, nem sombras dos cavalos. Tocou a
campainha.
- Pierson, deve ter havido um mal-entendido. Mande
alguém a Portman Square para saber se Sua Alteza Real
vem jantar. Diga ao cozinheiro para manter os pratos
quentes.
Um pretexto desajeitado para salvar a face e a dos
criados. Andava qualquer coisa no ar, eles sabiam-no.
Não havia ninguém como eles, para cheirar uma ameaça
ou um desastre.
Pierson regressou.
- Desculpe-me, minha senhora, mas ninguém sabe
de nada. Os criados de Portman Square pensavam que
Sua Alteza Real estava aqui. Não havia ordens para o
jantar na casa, portanto deve estar a chegar. Talvez Sua
Alteza Real tenha ficado retido nos Horse Guards.
Detido? Disparate! Foi para o teatro. Ou então, foi
para Fulham Lodge preparar o quarto. Chinelos ao lado
212
da cama, o perfume no toucador, almofadas lado a lado,
por trás das cortinas.
- Pierson, mande lá alguém novamente, mesmo
antes das nove. Pode ser que tenha razão e que ele
tenha ficado retido.
Às nove e meia, Pierson estava de novo ao pé dela.
- Sua Alteza Real voltou para Portman Square.
Mr. Greenwood está com ele, assim como Mr. Adam.
Estão sentados para jantar. Os criados de Sua Alteza
Real pediram-me para lhe entregar isto. - Entregou-lhe
uma carta e ela abriu-a. Era a caligrafia do Duque, mas
não era o seu discurso - pomposo, formal, era uma carta
de advogado, escrita em termos legais:
Deve recordar-se da conjuntura que me obrigou a
empregar os serviços do meu advogado numa questão
devido à qual me senti ameaçado por sua culpa; o resultado
das investigações deram-me razão suficiente para
formar uma opinião desfavorável acerca do seu comportamento,
não pode, portanto, acusar-me de precipitada
ou apressadamente decidir contra si; e depois das provas
que finalmente vieram até mim e que são impossíveis
de rebater da sua parte, devo ao meu carácter e
situação a obrigação de manter a resolução que tomei
e da qual não me é possível abdicar, Uma entrevista entre
os dois seria um momento doloroso para ambos e não
lhe trará quaisquer vantagens; devo, portanto, decliná-la.
Correu pelas escadas acima, encontrou uma capa.
atirou-a pelos ombros e abriu a porta da frente. Estava
uma tarde quente de Maio, o pôr-do-sol brilhava, dourado.
Percorreu Gloucester Place a correr até Portman
Square. Não se preocupou com quem a viu, quem virava
a cabeça. Só tinha um pensamento na cabeça, vê-lo,
confrontá-lo. Mas só depois de Greenwood e Adam saírem.
Ficou à esquina de Portman Square, à vista das
colunas da entrada, observando a bandeira da porta.
Passou-se uma hora. Não se importava; continuou à
espera. Os transeuntes que pensassem o que quisessem.
Finalmente, figuras sombrias apareceram nos degraus
da entrada, de saída. Era lusco-fusco, toda a praça
estava na sombra. A carruagem dele parou à porta.
eis a prova. Não haveria cama de solteiro nessa
213
noite em Portman Square, mas sim uma cama de três
metros, em Fulham. Ela atravessou a praça e assim que
a porta da frente se abriu revelando o criado com a bagagem
dele, subiu os degraus e entrou no hall.
- Boa noite, Ludovick.
Ele começou gaguejante:
- Boa noite, minha senhora.
- Onde está Sua Alteza Real?
- Minha senhora, não faço a mínima ideia. - Pálido
e tremendo, olhou para a escadaria. Ela arregaçou o vestido
e subiu, falando em voz alta e em termos sonoros:
- Tudo pronto para o forrobodó em Fulham? - Um
lacaio que ela nunca vira antes apareceu à porta do
quarto. - Sai da frente, deixa-me passar. - Arredou-o
e o homem, surpreendido, deixou-a passar.
- Então, este é que é o quarto de solteiro. Fico
contente, por conhecê-lo. - Ficou à porta, sorrindo,
embrulhada na capa. O duque estava inclinado para a
frente a mudar de calções, uma perna meio levantada,
com um pé apoiado numa cadeira.
- Apanhei-te com os calções em baixo. Peço-te perdão.
Afinal de contas, não é a primeira vez. Foi assim
que os franceses te viram uma vez, na Holanda. E na
Flandres também, se a memória não me falha.
Ele esticou-se para o roupão, a face escarlate. Ela
bateu a porta atrás de si e encostou-se a ela!, rindo.
- Oh, meu Deus, não cores por minha causa. Estou
habituada a ceroulas. Vi esse par cinquenta vezes em
Gloucester Place, lavadas pela lavadeira e penduradas
a secar. Bem, aqui vai à tua noite.
Ela fez com a mão um gesto de beber. Ele vestiu
o roupão, recuperando a dignidade.
- Imploro-te - disse ele, e a sua voz era baixa e
apressada. - Deixa esta casa imediatamente, antes que
os meus criados te ponham na rua. Em memória do
passado, em nome de tudo o que fomos um para o
outro.
- Em memória do passado - imitou-o ela -; uma
bela lembrança. Eu devo recordá-la e tu, dormir e esquecê-la.
Meu Deus, tu recordas-te. Ao menos, jantaste, ou
assim o disseram os teus criados, de maneira que não
terás que devorar a comida que te espera em Fulham
Sopa fria, se bem me lembro, seguida de carneiro. Mrs
214
Carey gosta do carneiro com espinafres? O bolo rijo
ou mole? Ou não se atreve a comê-lo? Ainda bem que
ela pesa tanto como tu, isso deve obrigá-la a fazer
ginástica. Se ela dá piruetas nos lençóis, ainda estraga
o linho todo.
- Ponham-na na rua - disse ele aos criados que
esperavam.
Ela usara aquelas mesmas palavras umas noites
antes. «Ponham-no na rua», dissera ela, em Gloucester
Place. A vítima fora Joseph. E o seu pessoal obedecera.
Desta vez, ela ficou sozinha no topo das escadas. Ninguém
lhe tocou. Sorrindo, fez uma vénia ao Duque e,
pela última vez, fez uma cortesia.
- Vou-me embora, mas primeiro quero dizer-te uma
coisa. Se retiras a tua protecção a George e às crianças
- não te preocupes comigo; sei defender-me, sou mulher
sofrerás por isso e arrepender-te-ás para sempre.
Farei com que o teu nome passe à posteridade... cheirando
mal. Lembra-te... Bem, desejo-te sorte.
Desceu as escadas acenando aos criados e atravessou
a praça. A sua própria casa estava às escuras,
as luzes apagadas. Bateu e tocou três vezes; ninguém
respondeu. Os ratos deixam o navio? Encolheu os ombros.
Ouviu o som de cavalos - era a carruagem saindo de
Portman Square. A noite estava calma e tépida, as
estrelas brilhavam.
275
CAPÍTULO 8
A reacção foi rápida e repentina. Nada daquilo acontecera.
Cinco horas de um sono febril e tudo lhe
parecia um sonho, Adam um espião do diabo
que se intrometera entre os dois. Tudo se explicaria:
outra entrevista - esquecer a da última noite - apagaria
os erros e os mal-entendidos. Ele não queria dizer o que
dissera; conquistá-lo-ia de volta.
Cartas foram despachadas para Portman Square, para
Fulham, para Oatlands na sexta-feira, até para Windsor.
Dois lacónicos bilhetes foram tudo quanto recebeu de
resposta. «Se fosse minimamente vantajoso para qualquer
um de nós, não hesitaria em aceder ao seu desejo
de me ver; mas como um encontro será, penso eu, penoso
para ambos nas actuais circunstâncias, devo declinar.»
O discurso não era dele, mas novamente de Greenwood.
Greenwood e Adam entre ambos, guiando-o.
«Partilho dos seus sentimentos em relação às crianças,
mas não posso assumir uma responsabilidade que
não tenho a certeza de poder cumprir. Quanto a Weybridge,
penso que seria melhor retirar toda a mobília.»
E deixar a casa vazia e nua para Mrs. Carey? Seria
demasiado longe conduzir de Oatlands a Fulham Lodge?
Ficou sentada com os bilhetes na mão. O bluff
acabara. Não era um sonho. Acabara de se juntar à
multidão das amantes despedidas dele, mulheres que
haviam tido a sua utilidade, mas cujo tempo terminara.
Ele não tivera a coragem de lho dizer cara a cara. Por
consequência, a desculpa coxa de uma investigação à
sua conduta e as acusações bombásticas de Adam, ali-
216
viavam-lhe a consciência. Uma mulher que deixava de
agradar, era um embaraço. Rua... e quanto mais depressa,
melhor... abram alas para a seguinte. Se pretendes
reparação, arranja um advogado, mas ele que se acautele.
Um príncipe de sangue real não se submete a
chantagem. Advogado e cliente podem ir parar à prisão.
Portanto... aceita o despedimento com um sorriso, ou
vais parar a Newgate... escolhe.
Colocou os bilhetes junto de centenas de outros,
todos cartas de amor dele, atou-os com uma fita encarnada
e enviou-os ao seu advogado, Mr. Comrie. Contou-lhe
toda a verdade (conhecia-o bem de mais para lhe
pedir piedade) e perguntou:
- Posso contar com alguma reparação, posso apresentar
uma queixa contra ele?
- Não. Não tem qualquer compromisso por escrito.
- As suas promessas no passado? Os seus frequentes
votos de que nada nem ninguém nos separaria,
de que se algo me acontecesse, ele olharia pelas crianças?
- Promessas verbais, apenas. Nada está documentado.
- Guardei todas as suas cartas. Tenho-as aqui, pode
vê-las.
Ele abanou a cabeça, enrugou a boca e declinou.
- Cartas íntimas entre um homem e a sua amante,
sem qualquer promessa de rendimento, mesada ou
pensão, não têm qualquer valor em tribunal. Lamento,
Mrs. Clarke, mas não existe reparação. A única coisa
que posso fazer, é falar com Mr. Adam e combinar o
pagamento da sua pensão. Quatrocentas libras por ano
é pouco, depois de todo este esplendor, mas não se
pode fazer nada: tem de viver de acordo com isso.
- E as minhas dívidas? Quem as vai pagar? Só a
si, devo pelo menos mil libras.
- Talvez Sua Alteza Real lhe permita vender a casa.
Calculo que valerá cerca de quatro mil libras. Essa soma
cobriria parte das dívidas.
- E as cartas?
- Que cartas, Mrs. Clarke?
Ela apontou para o molho atado com a fita.
- Estas cartas de amor. Quanto valerão para o
mundo? Não são apenas rabiscos de amor. Sabe, Mr.
Comrie, Sua Alteza Real era frequentemente muito indis-
217
creto. Há aí referências a Sua Majestade e à Rainha,
ao Príncipe de Gales, à Princesa, ao Duque de Kent.
Atrevo-me a pensar que, se a família real as lesse...
Mr. Comrie ficou muito sério. Levantou a mão.
- Então, o conselho que lhe dou é que as queime,
e já. Qualquer tentativa de ameaça a Sua Alteza Real
ou à sua família seria desastroso para si e para os seus
filhos, pode ter a certeza.
O advogado tinha razão. Muito bem, não os publicaria,
esqueceria o assunto, mas guardá-las-ia.
- Obrigada, Mr. Comrie, estou nas suas mãos
Falará então com Mr. Adam rapidamente?
- Falarei com ele hoje. Entretanto, quais são os
seus planos? Pretende ficar aqui?
Planos? Não tinha planos. O seu mundo desabara.
No entanto, Mr. Comrie não tinha necessidade de o
saber. A sua vida eram as finanças, sem choques e
emoções, orgulhos feridos ou sentidos de justiça ultrajados.
- Acho que vou sair da cidade, para casa de uns
amigos. - Quem estará onde, pensou para si própria,
para tirar a prova dos nove. Quantos bajuladores restariam,
ou estariam todos à porta de Fulham, à espera?
Em menos de uma semana saberia, assim que a palavra
começasse a circular. Bzzz... bzzz... já sabia?... é verdade...
S. A. R. pô-la na rua... teve o que merecia, a
porca, já era tempo de ele a mandar passear... mais
tarde ou mais cedo, todas as cabras têm o que merecem.
Enrolar os tapetes, colocar as tabuletas «PARA
VENDA». Mas ninguém poderia aperceber-se do seu
sofrimento, do que significava para ela: a perda de
aparência, posição, estilo e protecção, para não falar
da perda de um homem, ainda por cima príncipe, quando
uma almofada era real, os abraços tinham um
valor de pedestal, mas qualquer experiência partilhada,
com príncipe ou sem príncipe, produzia emoção. Incerta,
transitória, durável, que interessava? Ambos os corpos
sentiam o mesmo, por três horas ou por três anos; e
depois desses três anos, individualmente, as células
ficavam impregnadas. Mãos, coxas e ombros tornavam-se
conhecidos, assim como disposições e temperamento
ao pequeno-almoço: risos sem razão depois da meia-noite,
intimidade, orgulho de posse, a paixão, a certeza
218
«Este homem é meu!» Agora, tudo acabara. Fora atirada
da cama abaixo, como um ajudante para fora da cozinha.
Por consequência, tinha que representar, mostrar coragem
ao mundo, encolher os ombros, dizer as maiores
mentiras, se isso pudesse encobrir a vergonha.
«S. A. R. tem dívidas até ao pescoço (mascarar uma
pequena mentira com um pouco de verdade compensava
sempre). Não pretendo ser um fardo para ele, portanto
tenciono deixar a casa de Gloucester Place, vender a
maior parte da mobília, guardar o resto e fazer o mesmo
em Weybridge -- ele não tem dinheiro para tudo aquilo.
É triste para ambos, mas é melhor assim. Mudar-me-ei
para o campo com as crianças e depois, se as coisas
melhorarem, regressarei a Londres. Pobre querido, está
tão envolvido nesta guerra danada, praticamente dorme
nos Horse Guards. Nunca estou com ele.»
Se o dissesse frequentemente, acabaria por acreditar,
assim como os amigos, ou aqueles que tinham
realmente importância - a sua família, especialmente
a sua mãe e Charley. E Bill, no caso de dizer «Eu bem
te disse. Avisei-te montes de vezes. Eu sabia que isto
iria acontecer», e depois oferecer-lhe uma vez mais
aquela casa de campo em Uxbridge, hesitante e tímido,
mas confiante novamente. «É tudo o que posso fazer de
momento, mais tarde, talvez...»
Bill tinha que ser, de facto, o último a saber. Quanto
mais chegado um amigo, pior o estigma da vergonha.
Ouviu dizer, aliviada, que ele devia partir numa expedição
a Buenos Aires, nos princípios de Junho. Contar-lhe-ia
com calma quando regressasse.
As crianças - como lidar com as crianças? Mary,
aos treze anos, já tinha intuição e Ellen, aos dez, era
muito inquisitiva. A pequena escola de May Taylor era
auto-suficiente, mas era preciso pensar nas férias, tratar
de tudo, iludir perguntas. À pergunta «Mas porque temos
de deixar Gloucester Place?» tinha de responder «Londres
é uma cidade muito cara, minhas queridas, só nos
fará bem irmos para o campo». Quando chegasse o
momento, pediria emprestada a casa a alguém.
Irlanda. Que tal a Irlanda e os Fitzgerald? Ambos,
pai e filho, haviam jurado amizade vezes sem conta. «Se
alguma vez precisar de ajuda, visite-nos.» Indagou e
descobriu que o canal de St. George era uma óptima
219
separação em alturas de crise. Vieram protestos de
todos os lados, mas também desculpas: o clima era tão
húmido na Irlanda, eles sabiam que ela odiaria, a mulher
de Jamie Fitzgerald era uma pessoa complicada, Willie
trabalhava tanto, a vida era um problema, etc., mas
talvez fosse possível encontrarem-se no Outono?
Por outras palavras, Mrs. Clarke, não há nada a
fazer. De momento, pelo menos. Os membros do Parlamento
têm que ver onde pisam, mesmo um membro
irlandês, e radical, mas talvez o tempo venha a mostrar
para que lado salta o gato. Pensou nas cartas que Jamie
Fitzgerald escrevera, após três cálices de Porto, em
Gloucester Place e dos murmúrios à mesa de jantar.
Não admirava que a mulher dele fosse complicada, não
a surpreendia; e ainda ficaria mais, se lesse as cartas
que estavam todas numa pequena caixa, atadas com
fita. Quem mais protestara os seus votos de fidelidade
e amizade? Will Ogilvie, mas não com a mão no coração.
De homem para homem, como sócios no mesmo negócio.
Este rebentara e ela esperava uma despedida brusca.
Podia enganar os outros, não esperava enganar Will.
Ele visitou-a, a sua habitual visita de cortesia,
seguro de si, numa manhã em que ela tentava decidir
que peças do mobiliário vender e quais guardar.
- Não entre em pânico - disse ele, friamente--;
guarde o melhor. Os haveres são um investimento e
vai precisar deles. Deite fora o que não presta, as peças
de qualidade inferior. Têm um certo valor devido à notoriedade
e vendem-se bem.
Ela olhou-o de perto. As suas maneiras não haviam
mudado.
Ela disse:
- Não esperava voltar a vê-lo. Imaginei que se
tinha mudado para Fulham.
- Não faço negócio, lá - replicou ele, ela não
é o tipo. Não dura muito. Dou-lhe cerca de seis meses.
- E depois?
Ele encolheu os ombros.
- De facto, as minhas cartas ainda estão do seu
lado. Penso que seria possível recuperá-lo.
A mudança da maré. Ela sentiu um sopro de esperança
no coração.
220
- Que o faz pensar assim? Ouviu alguns rumores?
- Somente que Adam e Greenwood cozinharam a
sua perda, entre os dois. Eles sabiam muito bem qual
era a nossa actividade, claro. O nosso negócio estragava
o mercado privado de dinheiro deles, portanto, a senhora
tinha que desaparecer. Estava a cozinhar há meses,
desde que Gordon substituiu Clinton como M.S. A propósito,
foi Adam que apresentou S. A. R. a Mrs. Carey.
Não tem nada na cabeça, não constitui perigo.
- Mas o duque está apaixonado por ela, Will?
- Uma paixão passageira. Um estimulante para um
paladar fatigado. Ele tem trabalhado muito. E é sensível
à crítica, como uma enguia. Vai haver montes,
espere e verá. Observe o Parlamento durante a sessão
que se aproxima. Os Whig andam à caça do sangue de
alguém e nada melhor do que o do Comandante-Chefe
de um exército em movimento.
O turbilhão na cabeça dela acalmou subitamente.
Will era realista, os pés bem assentes na terra, a sua
divisa eram pás vermelhas, afiadas, tão diferente das
inibições morais de Bill. Não teria compaixão da parte
de Will, nem casa de campo em Uxbridge, apenas um
aperto de ombros descaídos, uma palmada no rabo.
- Muito bem, o senhor e Tom Taylor meteram-me
nisto. Qual é a aposta, agora?
Ele levantou uma mão profissional e tocou-lhe a
face, afastando levemente as rugas provocadas por falta
de sono.
- Quer a verdade nua e crua?
- Por amor de Deus, sim. Estou farta de bajuladores.
- Mantenha-se então escondida por um ano e descanse.
A ansiedade faz estragos tremendos no aspecto
de uma mulher, especialmente quando ela depende,
como a senhora, do charme e do humor. Está com mau
aspecto. A expressão do olhar é que interessa.
- Que sugere, um convento?
- Não, tédio durante seis meses e uma cama só
para si, a não ser que tenha um tipo na manga a quem
assobiar, para a divertir de vez em quando. Não se
preocupe com as despesas. O jogo continua.
Ela olhou para ele e sorriu.
221
- O senhor errou a vocação. Devia ter sido físico
e lidar com remédios. Nada de pílulas para uma mulher
acima dos trinta, só champanhe. O jogo continua, como?
Onde e quando?
- A separação é só um mexerico por enquanto, e
ainda não se espalhou. O peixe miúdo pensa que a
senhora ainda tem influência. As promoções do exército
acabaram, mas há muitos departamentos do governo
que eu sei manejar e a senhora pode enganar os clientes,
se tiver cobertura real. O dinheiro continuará a vir
parar-lhe às mãos, não se engane. Então, quando Mrs.
Carey tiver acabado a corrida e a senhora tiver recuperado
o seu aspecto, veremos em que pé estão as coisas.
A propósito, guardou as cartas dele?
-Todas.
- Rapariga bonita. Podem ser precisas. Feche-as
à chave. Entretanto, se tem alguns Whig entre os seus
amigos, mantenha-se fiel a eles e deixe cair os Tories.
Esta coligação não dura mais um ano.
- Não quer dizer que os Whig chegariam ao poder?
O Rei não o permitiria.
- Eles não «chegarão» como a senhora diz, mas
como forte Oposição, podem tornar-se desagradáveis
e farejarão qualquer escândalo que sirva a causa deles.
Nesse caso, a senhora e eu poderemos achá-los úteis.
Mas não se preocupe com isso, de momento; um salto
de cada vez. Presumo que o seu advogado Comtie a
representa oficialmente e que espremeu o que podia
de Adam, Greenwood e S. A.?
- Quatrocentas libras por ano e o arrendamento
da casa. Nada mais.
- Mesmo o pior acordo que uma mulher podia
obter, é típico, se assim o posso dizer, da generosidade
real. Incidentalmente, não foi só a senhora que ficou
fora da carroça. O Príncipe de Gales está a viver com
Lady Hertford e Maria Fitz perdeu seis quilos.
- Ele volta para ela, no fim. Volta sempre. Ela
apanhou-o ainda novo, penso que é a única explicação.
- Podridão. Quanto mais polpa tem um fruto, mais
se estraga quando cai. Se não conseguir York de volta,
arranjo-lhe um substituto. Cinco irmãos também, sabe,
e todos muito calorosos.
222
- Obrigada. Gato escaldado... Prefiro remediar-me
com a nobreza. Lembrar-me-ei do que me disse acerca
dos Whig. Conhece Lorde Folkestone?
- William Pleydell-Bouverie, Sua Senhoria Radical?
Passou a juventude em França e fala de revolução? Vi-o
duas ou três vezes. Enérgico, mas cativante.
- Foi ao meu camarote, no teatro, algumas semanas
atrás, antes de isto tudo acontecer. Nunca mais
pensei nele, mas dávamo-nos bem, na altura... era muito
atraente.
- Mantenha-o fisgado se puder, então; pode vir a
tornar-se um aliado útil. Que outros admiradores estariam
disponíveis para virem em seu auxílio? O valoroso
Dowler não deve estar muito longe.
- Bill vai para Buenos Aires, está fora da corrida.
Há o Coxhead-Marsh em Essex, mas atrapalhado com
a mulher, como todos, aliás. No entanto, é cioso da
sua propriedade, pode vir a ser útil; eu podia consumir-me
com ele durante uns seis meses. O meu contingente
irlandês deixou-me ficar mal, se não, Dublim
teria sido divertido. Resposta imediata é fácil, claro.
O filho do general Manners, Russell Manners, outro M. P.,
está morto por se pôr à minha disposição. A sua casa
em Old Burlington Street é minha, se lho pedir.
- Tome conta dela, minha cara, se está vazia.
- Não está. O problema é esse. Ele pensava estar
lá à espera e receber a sua recompensa.
- À senhora pode sempre alegar problemas de
nervos.
- Por três noites sim, mas não por uma quinzena.
Preferia representar, com as fungadelas dele e tudo, do
que pensar numa desculpa diferente durante catorze
dias... Sim, Burlington Street podia ser o meu pied-à-terre.
E ele tem um cunhado rico chamado Rowland Maltby,
que lhe paga as contas todas, e que é comerciante
em Fishmongers'Hall. Somos capazes de fazer dinheiro
através deles - conhecem montes de pessoas, todos
com os narizes apontados aos quartos traseiros.
- Continue, continue. A temperatura começa a
subir, certinha.
- Meu Deus, esquecia-me de Lorde Moira... ele
vem-me comer à mão, ou vinha, quando o vi em Abril;
dois meses fazem diferença. Mas tudo às claras e
223
correctamente, nada de forrobodó. Interessou-se muito
pelo George e brincava com os soldadinhos dele. Imagino
que uma história piegas, uma mulher destroçada,
o apanhavam.
- Ponha esse de reserva, Mary Anne. A última
carta do baralho.
- Para quando tudo o mais falhar?
- Para quando a última pevide tiver sido espremida.
Por agora, siga o meu conselho e descanse. Saia
de Londres e esqueça S. A. R. por seis meses. É tudo
o que peço.
Era estranho como a sua moral subira aos céus por
causa da visita dele. Antes, sentira-se sem sentidos,
entorpecida e não encontrava resposta. O seu estado
de espírito estava a zero, não tinha esperança alguma.
Agora, por causa d'a conversa dele, cantava novamente.
O desânimo fora varrido, a tristeza voara pela janela
fora. O azar era um demónio, lutara contra ele e vencera-o;
a fortuna era uma fada a segurar e guardar; a
vida era uma aventura», uma aliada, não uma antagonista.
Ela moveu-se por entre os seus haveres, fria e
de cabeça limpa, sentimentos de parte, separando as
coisas boas da quinquilharia.
«Aquelas podem ir, aquelas e aquelas também.»
Candelabros, candeeiros e cortinas apropriadas um
preço melhor pela casa com certas coisas lá dentro.
«Mas fico com aquilo, e com isto, e com aquela dúzia
de cadeiras.» Parecia que estava de novo em Golden
Lane, seis anos atrás, a casa cheia de beleguins e
Joseph entorpecido. Só seis anos? Um século, uma
eternidade. E tudo por culpa de Joseph, tal como em
Golden Lane. Joseph e Adam, os dois com mentiras e
estratagemas. «Sim, vende-se a cama de dossel. Vai
valer bom dinheiro, especialmente quando se souber
quem dormiu nela. O colchão também, já cumpriu a sua
função. Mas os lençóis, não. Fico com eles, por causa
do monograma....
Sentimentalismos? Não... uma proposta de negócio.
Podiam servir à Duquesa em Oatlands, quando os armários
estivessem vazios. Uma oferta de venda teria de
trazer uma resposta. «Tenho uns lençóis que podem
agradar a Vossa Alteza Real. Já usados, mas em bom
estado e com monograma. Se a oferta for recusada,
224
serão então oferecidos publicamente à Christie's, com
todos os pormenores de quando foram usados e por
quem. O motivo de uma primeira oferta a Vossa Alteza
Real é de pura delicadeza, evitando assim qualquer
ofensa de mau gosto.» Cem guinéus seria bom? A Duquesa
podia dispensá-los. Era capaz de comprar os
lençóis e encurtá-los para uso dos cãezinhos.
«Quanto valerá esta boa cómoda?» Não, para o
leilão, não. Mais um negócio privado com o coronel
Gordon. «Tendo conhecimento da falta de mobiliário
nos Horse Guards, da escassez de objectos devido à
guerra, Mrs. Clarke tem o prazer de oferecer uma grande
cómoda, de solidez garantida. Para uso do coronel Gordon,
Military Secretary. Ultimamente instalada no número
18 de Gloucester Place e utilizada pelo próprio Comandante-Chefe.
Se a venda privada for recusada, será
oferecida à Christie's ou à Royal Exchange, pelo dobro
do valor.»
Gordon não se atreveria a deixá-la ir. Arranjaria o
dinheiro de qualquer maneira, para abafar a história.
Que outros souvenirs os prejudicariam, os fariam levantar
mãos piedosas, chocariam os seus olhos ansiosos?
Uma camisa de noite acabada de chegar da lavandaria
e rasgada? Despachada para Mrs. Carey, juntamente
com um bocado de sabão e um carrinho de linhas.
Um par de cuecas, talvez para a Rainha? «Sabendo
do muito amor de Vossa Majestade pelo Príncipe Frederick
Augustus, Duque de York e Albany, eu, Mary Anne
Clarke, a mais devota das vossas servidoras, atrevo-me
humildemente a enviar-vos esta tocante lembrança, que
vestiu as partes baixas do vosso segundo filho, encontradas,
para minha grande surpresa, no divã da sala de
visitas.» Provocaria grande reboliço em Windsor e um
frisson entre as damas de companhia.
Will Ogilvie tinha razão. O jogo continuava. Havia
ainda muitos tolos prontos a pagar por um lugar e posição,
acreditando que ela puxava os cordelinhos na
direcção certa. O amigo-de-um-amigo-de-um-amigo - e o
dinheiro mudava de mãos. Burlington Street seria o centro
de operações, uma vez que Gloucester Place estava
vendida e a mobília guardada, e Russell Manners, M. P.
(com uma querida e jovem esposa no campo, algures em
Gales), era seu anfitrião, apesar das fungadelas. Quando
15 - Mary Anne
225
o Parlamento se dissolveu para o descanso de Verão e
as esposas reclamaram os seus maridos, ela mudou de
quartel-general. O dinheiro começava a faltar e o descanso
era imperativo. Suportara as fungadelas, mas os
nervos estavam gastos. Num momento de loucura, rabiscou
um bilhete para o Duque, «Devo ter cinquenta quilos
de coisas para retirar da cidade. As minhas dívidas
continuam por pagar e os credores andam atrás de mim.
Tudo o que comprei para a casa foi-se, para pagar aos
comerciantes mais pobres. Se não me ajudas com isto,
vou para a tua entrada e acampo lá.»
Recebeu de volta um postal e notas de banco no
valor de duzentas libras. Um criado de Portman Square
trouxe a carta e disse que Sua Alteza Real estava só,
que nem Mr. Adam, nem Mr. Greenwood estavam com
ele. Portanto... quando os espiões estavam ausentes, a
consciência ferroava. A carta dizia que ele esperava
que ela estivesse bem e que as crianças estivessem
com ela. Não precisava de ter medo por causa de George:
a escola estava garantida, o futuro também, ele prometera.
Com respeito a ela e ao futuro imediato, uma
casa grace-and-favour (casa livre de renda concedida
pelos soberanos de Inglaterra), vazia de momento, à
espera de um locatário apropriado, estava à sua disposição
e que podia ocupar, enquanto não aparecesse o
tal locatário. A casa era bastante longe de Londres, em
Exmouth, mas o ar do mar seria tonificante para ela e
as crianças e ele esperava que ela pudesse prolongar
a estada até ao Inverno. Era seu, com toda a sinceridade,
Frederick P.
Começara Fulham a perder interesse? Ainda não,
decidiu ela. Se assim fosse, ele nunca a mandaria para
Devon. Uma separação de quatrocentos quilómetros
dava-lhe liberdade e espaço para respirar. Que contraste
com as cartas de um ano atrás! Tirou uma do maço,
escrita de Weymouth. «Como posso eu expressar suficientemente
ao meu doce, querido amor, o deleite que
a sua tão linda carta me provocou, ou como sinto as
coisas tão boas que me diz nela? Milhões e milhões
de vezes obrigado, meu anjo, e podes estar segura que
o meu coração está pleno de afeição por ti, dependendo
a sua felicidade apenas e só disso.» Etc... etc... e
acabando com, «Deus te abençoe, meu muito, muito
226
querido amor. Perderei o correio, se escrever mais; oh,
acredita-me, até à minha última hora, teu e apenas teu...»
De volta para a pilha atada com uma fita e para a
caixa de lata, colocada nas profundezas do seu malão
para uma total segurança. E a caminho de Exmouth,
areia-nos-dedos-dos-pés e sardas, com as crianças, a
mãe, Isobel, o marido de Isobel; com Charley, novamente
com baixa de doente de um novo regimento,
tendo deixado os Dragoons e mudado para o 59.º Foot;
May Taylor e a irmã, o período terminado e sem terem
para onde ir; o pobre Mr. Corri, mandado apanhar ar
do mar pelo médico e sem ninguém a precisar de aulas
de música em Londres; e Martha - graças a Deus por
Martha, farta do carvoeiro e de bigamia numa sala que
à noite se transformava em quarto, em Woolwich, e
desejosa de governar de novo uma casa de mais ou
menos doze pessoas. Toda a gente era bem-vinda a
Exmouth. Manchester House era enorme; podia abrigar
toda a gente e a conta da alimentação podia ser enviada
para a Duquesa, em Oatlands... Repouso então, relaxe,
esquecer o passado e o futuro. Estender-se ao sol o dia
todo e brincar com as crianças.
E no Inverno, quando toda a gente corria à procura
de abrigo, e o nevoeiro e a chuva vindos de oeste
deprimiam qualquer um? De volta para Old Burlington
Street, ou para leste, para Essex, para aquela casa
emprestada em Loughton e para Coxhead-Marsh?
Pelo menos, um dos amigos podia abrir os cordões
à bolsa, considerando o que ela fizera por todos eles
no passado: cargos, promoções, segundos empregos.
Por outras palavras, mudar de campo e manter a bola
a girar.
227
CAPÍTULO 9
ESTOU-TE a dizer que é verdade.
- Mas, meu querido, isso é incrível.
-Talvez, mas tu não conheces Fane.
Odiou-me desde o princípio e os outros também. Logo
que me juntei ao regimento, vi que tinha cometido um
erro; tornaram-me a vida completamente impossível. As
ordens deles vinham de cima, isso era óbvio - ouvi
uns rumores na messe.
- Toma cuidado, Thompson, o C. O. (Commanding
Officer) pretende dobrar-te.
Eu disse:
- Qual é a razão? A princípio, não me responderam,
mas depois de os pressionar, disseram-me: «Foi muito
mau a tua irmã ter-se separado do C. - C. O nome dela
anda pela lama, no G. H. Q. (Quartel-general), e toda a
gente sabe d'isso. Quem estiver relacionado, leva um
pontapé. Um tipo qualquer leu na Ordem de Serviço,
não te posso dizer quem.» Então, adoeci, tu sabes que
tenho andado doente... três médicos disseram-me que
eu não estava apto para o serviço. Pedi licença por
doença. O C. O., coronel Fane, escreveu que não estava
na mão dele, que eu tinha que apelar para o Inspecting
Field Officer (Oficial Inspector de Campo), enviando
uma informação escrita pelo médico. O I.F. O. estava
em Newark e eu estava em Leeds. Cheio de dores, não
podia continuar lá, tinha que vir para Londres, para
consultar o melhor médico possível. Por isso, vim-me
embora e quando cheguei, enviei a informação do mé-
228
dico. Estava a ser tratado por ti em Loughton de uma
dupla mastoidite, doido de todo, quando eles publicaram
isto. - Atirou a Gazeta aos pés dela. - «O capitão
Charles Farquhar Thompson, do 59th Regiment of Foot
foi substituído.»
Ela olhou para os olhos furibundos dele e para as
mãos trementes. Já não era um homem, mais um rapazinho
da viela, dizendo «não é justo. Aquele matulão
bateu-me. Ele é mais forte do que eu, atirou-me para
a sarjeta», e ela, limpando-lhe o nariz e secando-lhe as
lágrimas, dizia «não tenhas medo, eu tomo conta de ti»,
enraivecida, fervendo, pegando no primeiro utensílio que
lhe vinha à mão - uma caçarola partida, um atiçador,
um cabo de vassoura - e correndo viela abaixo atrás
do fanfarrão. Pegou na Gazeta e leu a declaração de
novo.
- Não te aflijas, Charley, farei com que sejas
readmitido.
- Como é que podes? Já não tens influência. Estamos
acabados.
Atirou-se para uma cadeira, o cabelo em desordem,
a túnica sebenta, por escovar, os botões por polir.
- Estou-te a dizer que não tenho a mínima hipótese.
Há meses que o sei. Tu também, mas tens andado a tentar
enganar-te. Aquelas semanas em Exmouth, fazendo
de conta que tudo estava bem, que S. A. R. te emprestara
a casa para o Verão e não podia esperar pelo
Outono para te ver. Que aconteceu quando chegou o
Outono? Fugiste para Loughton, dizendo que já estavas
habituada ao ar do campo e que Coxheàd-Marsh fora
incumbido pelo Duque de tomar conta de ti, que Rowland
Maltby e Manners estavam a pagar as contas. Tens
visto S. A. R.? Nem um vislumbre. Nem sequer uma
carta. Acabou contigo para sempre, todo o mundo o
sabe. Não contente com isso, enviou os seus espiões
atrás de mim e tramou-me, fui dispensado do serviço.
E quanto ao George, também vai levar um pontapé. Nada
de novos cadetes para Marlow, as listas estão fechadas.
Ouvi-o da boca de um tipo do regimento.
Ele riu-se e os sons do passado reflectiam-se nesse
riso, O calor da viela, o cheirete dos esgotos ao ar livre,
o choro das crianças, o sabor da comida estragada pelas
229
moscas, o chamamento cansado da mãe, vindo da cozinha
das traseiras, a caneca de cerveja de Bob Farquhar
entornada por cima da mesa.
- Por amor de Deus, tem tento na língua...
- Porquê? Tu é que me criaste, tenho-te seguido
toda a minha vida. Tu é que me ensinaste o que esperar,
o que procurar. «Aspira alto», dizias tu, «e se não conseguires
o que queres, eu consigo-o por ti.» Foi sempre
essa a tua conversa, desde o princípio. A minha primeira
comissão, a primeira mudança, a promoção; tudo facilmente,
eu estava destinado ao sucesso. E então, por
causa de uma frívola questão maldita, emporcalhaste
tudo com o Duque e transformaste a minha vida, numa
trapalhada. Eu é que tenho de sofrer, por causa da tua
estupidez. E não só eu, mas o George também e as
raparigas, todos nós.
Começou a chorar, histericamente, como uma criança,
recuando até aos dias em que as lágrimas traziam beijos,
consolação, um murro na orelha, uma palmada, um caramelo
de maçã e histórias sobre o botão de prata do clã
Mackenzie. Agora, essas lágrimas traziam silêncio, olhar
repentinamente aflito, uma mão que lhe tocava o cabelo
numa carícia conhecida, uma voz distante, estranhamente
aflita:
- Nunca me apercebi que significava tanto para ti,
a minha vida com o Duque em Gloucester Place. Pensava
que o encaravas como um negócio e um lugar onde ficar,
quando vinhas de licença.
- Um negócio? Que negócio? Era o meu mundo.
O mundo que me prometeste quando éramos crianças.
Lembras-te da minha adoração heróica pelo Príncipe
Charlie? Tu transformaste-a em realidade, ou pelo menos
assim pensei. Ele costumava sorrir-me e conversar comigo
depois de jantar, daquelas vezes em que eu ficava em
casa - já não te lembras - e eu voltava para o serviço
orgulhoso como um rei, sentindo que estivera a conversar
com Deus... Tu não compreendes, és apenas uma
mulher, a amante dele, mas nós éramos dois homens;
falávamos a mesma linguagem; fazia-me perguntas acerca
do regimento. Eu respeitava-o mais do que a qualquer
pessoa que conheço. Ele representava algo que não consigo
explicar, um sonho que se tornara realidade. E agora,
acabou tudo. Não restou nada.
230
Ela observou-o, enquanto ele rasgava a Gazeta em
pequenos pedaços e os atirava para o fogo, onde arderam
e se transformaram em cinza.
Ela disse:
- Achas que George sente o mesmo que tu?
Ele encolheu os ombros.
- Como posso saber? Ele ainda é uma criança. Aos
nove anos, ele pode pensar seja o que for. A única coisa
que sei, é que ele acredita que o Duque é o pai dele.
Ela voltou-se e fixou-o, desconcertada.
- Quem te disse isso?
- O George. Ellen também acredita nisso. Uma história
qualquer da Martha. A Mary é diferente, lembra-se
do Joseph, mas mal, e depressa o esquecerá. Eles nunca
esquecerão S. A. R. - ficou gravado para toda a vida.
E as salas de Gloucester Place, com todo o esplendor.
Em toda a vida deles, não terão igual. Estragaste o futuro
deles e é bom que o saibas.
Cada palavra dele revelava os seus mais íntimos
sentimentos. Os últimos dezoito meses, entediantes e
triviais passados entre Exmouth, Londres e Loughton
Lodge, com qualquer amigo que se oferecia para pagar
as despesas - Russell Manners, Coxhead-Marsh, Jamie
Fitzgerald - uma maneira de passar o tempo, de adiar
uma decisão, desapareciam agora, como se nunca tivessem
existido, e imaginava-se de novo em Gloucester
Place, amontoando a mobília, aquilo para ser vendido,
aquilo para guardar, Will Ogilvie a seu lado, dizendo «o
jogo continua».
Um jogo menor, uma perda de tempo, inútil, que
nunca valia a pena - um jogo para amadores. Um jogo
para empregados de escritório num armazém de terceira
categoria, cuja maior ambição era uma nota de dez
libras: sem orgulho, sem poder, sem malabarismo com
nomes grandes. «Mr. Rowland Maltby arranja-lhe um
lugar como criado», já não «Sua Alteza Real recomendá-lo-á...»
Recostada em Loughton com Coxhead-Marsh,
bocejando ao ouvir histórias de gaios do bosque, perdizes,
pombos, ouvindo-o dizer que o Outono era muito
agradável em Essex, enquanto a febre subia: «Quero-o
de volta, quero o poder, a posição.» Os murmúrios ouvidos
em Vauxhall: «Olhem, lá vai Mrs. Clarke... cuidado
231
com o duque» - grande actividade, sorrisos, acenos e
um mar de rostos.
Tudo se fora, a bolha rebentara, o riacho de água
límpida transformara-se numa poça de água estagnada.
- O que me desespera - disse Charley, é a
maneira como enfrentas tudo, sem reagires. Sem sinais
de luta. Será que estás a ficar velha e já não te ralas?
Dessa vez, ele ia apanhando um soco nas orelhas
ou um apertão no pescoço - duas crianças esmurrando
os narizes na sarjeta, puxando os cabelos, gritando: «Pára
ou mato-te!», em vez disso, ela dirigiu-se à janela, olhando
para fora para os impecáveis canteiros do jardim, a
alameda em cascalho e a paisagem ordenadinha e presunçosa
de Essex.
Ela disse:
- Vai arrumar as tuas coisas, vamos para Londres.
- Porquê e para quê?
- Não me faças perguntas. Em criança, confiavas
em mim, tens que continuar a fazê-lo agora.
- Fazes com que eu seja readmitido?
- Faço e apresentar-te-ás ao serviço logo de
seguida. O teu futuro depende da reacção do teu C. O. à
tua apresentação. Se ele quiser mesmo tramar-te, terá
que mostrar o jogo.
Finalmente, acção. Algo para morder e rasgar.
A fúria dela projectava-se no coronel Fane, um fantoche
pomposo, representando a lei e a ordem, emissário de
Adam, de Gordon, do Ministério da Guerra, o ódio
gerando ódio, um mundo em guerra. Uma mulher sozinha
contra os homens, adversários, porque reconheciam o
seu valor. Mantenha-se fora das nossas fileiras, não
invada indevidamente os nossos terrenos. Por essa
razão, eles detestavam-na - provara ser igual. Eles não
detestavam Mrs. Carey, em Fulham, ou de, em bicos dos
pés, a observarem no teatro - a arte era aceite, os
artistas não se imiscuíam, mas uma vez que uma mulher
tomasse a iniciativa, pilhando os lucros e tomando a
dianteira, o que aconteceria ao mundo? O sistema ruiria.
Em direcção a Londres, na carruagem, Charley
disse-lhe:
- Em que pensas? Estás com um ar tão severo.
Ela riu-se. Na realidade, estava a quilómetros de
distância.
232
- Não tem nada que ver contigo, comigo ou com
o momento actual. Vislumbrei a mãe, lavando os pratos,
dobrando-se sobre a selha na pequena cozinha das traseiras
- lembras-te de como era escura, sem janela os
rapazes gatinhando sob os pés dela, agarrando-se aos
tornozelos, de maneira que ela não se podia mexer.
O pai entrava e gritava, exigindo o jantar... Lembro-me
que fui direita a ele e lhe bati. Nunca mais me esqueci.
- Que te fez pensar nisso, depois destes anos
todos?
- Só Deus sabe...
A carruagem saltava pelas veredas, balouçando de
um lado para o outro. Ela agarrava-se com uma das mãos
à correia e com a outra firmemente a Charley. Algo lhe
aclarara as ideias, estava confiante e feliz. Burlington
Street como pied-à-terre, terminara. Russell Manners
partira para a índia - ainda bem, não queria complicações
naquele momento, nem anunciar a sua presença a
credores fortuitos.
Dois dias num hotel, de seguida, aposentos alugados
em Hampstead. Depositou flores na sepultura de
Edward, plantou bolbos para a Primavera seguinte, não
pensando conscientemente neste, mas em George.
O ambiente em Hampstead era nostálgico, familiar, cheio
de lembranças, não da lua-de-mel com Joseph, mas de
Bill. Mrs. Andrews, da Yellow Cottage, acolheu-a calorosamente,
mas infelizmente não tinha quartos para alugar
nos próximos seis meses; todo o andar de cima estava
alugado a um editor, Sir Richard Phillips. Mrs. Clarke
conhecia o nome? Conhecia... e anotou-o para futura
referência. Um editor poderia ser útil, dependendo das
circunstâncias. Entretanto, poderia Mrs. Andrews recomendar
aposentos para ela, o capitão Thompson e mais
tarde, para as crianças? Podia tentar certamente, Mr.
Nichols, Flask Walk, New End. Era um homem muito
respeitável, padeiro de profissão. Os aposentos foram
alugados.
O primeiro round da contenda estava encenado.
Um bilhete enviado a Portman Square não obteve
resposta, mas... a vinte de Novembro, o capitão Charles
Farquhar Thompson, do 59th Regiment of Foot, foi read-
233
mitido. Ela mostrou a Gazeta a Charley com um sorriso
de triunfo.
- Prometi-te, não prometi?
- Sim, mas que acontece a seguir?
- Vai e junta-te ao regimento em Colchester. Se o
coronel Fane for prepotente, escreve-me imediatamente.
George estava ainda a salvo em Chelsea, mas Charley
tinha razão, o seu nome fora apagado das listas de
entrada em Marlow. Adam era um dos membros do conselho
directivo, assim como Gordon - era fácil ver de
onde vinha a má vontade. De momento, Charley estava
em primeiro lugar. George teria de ficar em segundo.
Havia espaço para todos eles em Hampstead, em casa
de Mr. Nichols, para a preceptora francesa (ela própria
tinha de esquecer a escola), e para Martha também.
De momento, a sua mãe podia ficar em Loughton; estava
a envelhecer e a ficar trôpega, sempre a lamentar-se e
a perguntar por que S. A. R. não a ia visitar.
No final da semana, Charley regressou de Colchester.
Um relance ao rosto dele, bastou para lhe dar a
entender que havia mais problemas.
- Que se passa agora?
- Tenho que trocar. O coronel Fane diz que não
me quer no regimento.
- Deu alguma razão?
- A mesma de sempre - ausência sem licença.
E mais: Lembras-te daquelas letras sacadas sobre Russell
Manners, que a mãe assinou e que tu me devolveste
no Verão? Eram pagáveis através de Rowland
Maltby em Fishmongers'Hall e eu consegui que o tesoureiro
em Leeds mas descontasse, mesmo antes de eu
adoecer e vir de licença. As letras não foram aceites e
nós não temos provas que eu acreditava que seriam honradas.
O C. O. diz que posso ser acusado de fraude.
- Mas isso é ridículo. O Rowland Maltby honra
sempre as letras de Russell.
- Aí é que tu estás enganada - Maltby recusou-se
a honrar estas, em especial. Não houve um pequeno
atrito entre ti, Manners e Maltby, em Burlington Street,
antes de ires para Loughton? Ambos a bater à tua porta
e tu a não os deixares entrar?
- Oh, meu Deus! Estavam os dois bêbados que
nem um cacho e eu estava de rastos.
234
- Bem... aí está a resposta dele. Mas o tesoureiro
já me tinha dado o dinheiro e as letras foram devolvidas.
Se este assunto for a tribunal, é o meu fim.
- O coronel Fane disse que serias acusado?
- Disse-me que o assunto ficaria encerrado, se eu
trocasse.
- Muito bem, obterás a tua troca por altura do
Natal.
Daquela vez, nada aconteceu. Os bilhetes enviados
a Portman Square, foram devolvidos por abrir. Charley
escreveu, pedindo uma entrevista. O pedido foi recusado.
Martha, que costumava ter boas relações com o pessoal
de Portman Square, foi visitar os seus velhos amigos
da cozinha. Encontrou caras novas, que lhe fecharam
firmemente a porta. Parecia que Mr. Adam despedira os
seus velhos amigos. Mary e Ellen, subindo Heath Street,
foram seguidas. A preceptora francesa entrou em histeria
e pediu para se ir embora. Um homem tocara-lhe
no braço e tentara fazer-lhe perguntas. «Mrs. Clarke
está em Hampstead? Qual é a morada?»
Podiam ser credores, ou até Joseph. Mas, mais provavelmente,
seriam espiões de Adam, à caça. Charley
andava de um lado para o outro na pequena sala da
frente, roendo as unhas e espreitando pela janela.
- Alguma notícia acerca da minha troca?
- Ainda não, já escrevi.
Não era necessário dizer-lhe que a sua carreira
estava a ser obstruída. Ela escrevera a cinquenta regimentos
e todos o haviam recusado. Nenhuma agência
o queria nos seus livros. Rumores deviam ter escapado
do G. H. Q.: «Na lista negra: C. F. Thompson.» Amigos
que dois anos antes lhe fariam favores, estavam subitamente
fora da cidade, ou doentes, ou ocupados. Ela foi
ter com Will Ogilvie. Ao menos, conseguiria a verdade
da parte dele.
- Que se passa, Will?
- Não tem lido os jornais?
- Você sabe que passei o Verão em Loughton e
parte do Outono, até ao mês passado.
- Eu disse-lhe para estar atenta aos acontecimen-
tos. São esclarecedores. Sem eles, a sua mente enfer-
235
ruja. Em vez disso, ficou a olhar pasmada para Coxhead-Marsh,
como se estivesse a olhar um bando de faisões.
- Se você pensa que gostei... E os jornais?
- Ataques a S. A. R. quase todos os dias. Panfletos
cuspindo ofensas, quase verosímeis.
- E que tem isso que ver comigo?
- Oficialmente nada, mas no Ministério da Guerra,
toda a gente pensa que é você que os escreve.
- Meu Deus, quem me dera.
- Eles andaram a investigar o seu passado todo.
Ou antes, Adam andou, assim como Greenwood. Não o
seu casamento, minha cara - as suas pândegas com os
rapazes de Grub Street, aquele dinheiro extra que você
fez, quando vivia em Holborn.
- É por isso que eles estão a tentar atirar com
Charley para fora do regimento?
- Com certeza. Como seu irmão, está metido no
assunto até ao pescoço.
- Mas, Will, isso não é verdade...
- Não interessa, você chafurdou na lama e tudo
se conjuga. O ponto é que - o povo lê os panfletos e
diz: «Não há fumo sem fogo, um peixe cheira à distância»,
e tudo o mais. O nosso caro amigo S. A. R. começa
a perder as boas graças, a popularidade está em declínio
e, por acréscimo, tudo aquilo em que acredita: o
exército, a Igreja, o governo dos Tories, a guerra com
a França, a Constituição Britânica. Deixe passar mais
alguns meses e poderemos começar a fazer negócio,
mais à vontade do que antes. Você não joga xadrez, por
isso como lhe posso eu explicar? Você é um excelente
peão, Mary Anne, num determinado jogo que eu venho
jogando há catorze anos, desde que a França se desipotecou,
em 93.
Ela encolheu os ombros, exasperada.
- Continua a bater na tecla da república? Pois pode
continuar a batê-la sozinho. Já lhe disse antes, a segurança
da minha família e a minha, está em primeiro
lugar. O que me preocupa neste momento, é o meu irmão
Charley. Estão a tentar dar-lhe um pontapé, para fora
do 59th.
- Deixe-o levar o pontapé, então. Não tem importância.
236
- Para ele, tem. E para mim também. Eu seja maldita,
se vou deixar que isso lhe aconteça sem uma boa
razão. Não lhe pode conseguir uma troca?
- Ele está na lista negra. Não posso fazer nada,
nem ninguém pode. Coração ao alto, minha cara, não
fique excitada. Dentro de um ano o governo cairá,
SÁ. R. perderá o comando... tem que ter paciência.
- Eu amo o meu irmão, ele tem o coração destroçado
e a minha única esperança é fazer com que o duque
oiça a voz da razão. Ele ainda visita Mrs. Carey em
Fulham?
- Você está antiquado, ele anda agora a brincar
com uma aristocrata... Agora, oiça o que eu lhe digo,
a táctica mudou completamente. Você não o vai recuperar.
Você vai esmagá-lo.
A máscara civilizada caíra. Os olhos escuros cintilavam.
Era outro Ogilvie, duro e implacável.
- Esforçar-se pelo seu irmão como uma pateta está
a perder o seu tempo. Quando ele for posto na rua,
e sê-lo-á, venha ter comigo: Dir-lhe-ei o que fazer. A vida
tem sido monótona em Loughton, não é verdade? Pior
ainda em Devon, no meio das algas.
Ela detestava-o, gostava dele, temia-o, confiava nele.
- Porque é que - perguntou ela - hei-de sempre
fazer o que me diz?
- Porque - respondeu ele - não pode viver de
outra maneira.
Ele escoltou-a até à carruagem e fechou a porta.
Ela voltou para Hampstead e encontrou Charley à espera,
com as crianças, todos de rostos ansiosos.
- Tem estado um homem a espreitar de uma porta,
no outro lado da rua. Ele perguntou a Mrs. Nichols se
tu escreveste cartas para Fleet Street.
- Disparate. Não liguem importância. Um bêbado
qualquer.
Mandou um último pedido para Portman Square e
uma carta de Charley foi enviada directamente para os
Horse Guards.
O pedido dela foi respondido, escrito à meia-noite
«Não percebo o que quer dizer. Nunca autorizei ninguém
a atormentá-la ou a perturbá-la, pode por isso, pelo que
me diz respeito, ficar completamente descansada.»
237
A resposta à carta de Charley era sóbria e oficial,
com instruções para se apresentar rapidamente em Colchester.
- Então está tudo bem? Não preciso de trocar?
Charley agitou a folha de papel impressa. Os olhos
brilhavam-lhe. Recuperara a autoconfiança.
Porquê? claro... deve ser o que isso quer dizer.
Ela sorriu e beijou-o. Portanto, Ogilvie estava enganado.
Não havia vendetta alguma. Ele foi buscar o seu
equipamento rapidamente, para partir imediatamente.
George era o seguinte nos seus planos. Marlow ou
Woolwich-seria fácil de arranjar, agora que Charley
estava arrumado. Parecia tudo muito simples. As crianças
estavam felizes. Não havia ninguém a aborrecê-la, a
moral estava alta. Só faltava uma coisa, claro, depois de
Charley se ter ido embora; um homem na casa, que
conhecesse a sua maneira de ser, não um jovem, requerendo
porte e esforço, mas um homem que não se importasse,
que compreendesse. Mas ninguém servia...
pegou no jornal. «A expedição de Buenos Aires já
voltou?»
A guerra sul-americana fora um fiasco. Era uma dispersão
de esforços, exactamente o que o inimigo pretendia.
Um erro do Comando Supremo, ou dos políticos?
Não interessava, o importante era que Bill iria regressar
a casa. Não pensava nele há dezoito meses, mas era
agora a resposta para o seu estado de espírito.
«Vou escrever imediatamente para Uxbridge. Deve
estar em casa.»
Já se esquecera de como havia querido que ele
saísse da sua frente, por causa do seu orgulho, quando
Gloucester Place fora vendida, feliz por o saber a milhares
de quilómetros de distância, em Buenos Aires, fora
da sua vista e dos seus ouvidos.
Agora, como um cata-vento, o estado de espírito
mudara. Hampstead... cumplicidade. Bill era o homem.
Céus! Tinha tanto para lhe contar. As convulsões todas,
a diabólica conspiração de Adam e Greenwood, o
pobre S. A. R., uma simples ferramenta nas suas mãos,
obrigado a desistir dela por causa da pressão deles, (não
haveria necessidade de falar no advento de Mrs. Carey).
Desastre após desastre, mas ela sobrevivera, sem ajuda
de ninguém, só com o seu esforço e determinação. Rus-
238
sell Manners, Rowland Maltby e Coxhead-Marsh? Só
velhos amigos do campo, um pouco estúpidos, mas prestáveis.
Charley fora despachado para Colchester e Bill foi
convidado. Ele tentou falar-lhe das privações em Buenos
Aires, as doenças, o clima. Ela ouviu durante cinco
minutos, abanando a cabeça em sinal de compreensão
e depois interrompeu-o; ele voltava ao velho papel de
ouvinte. Os meses e anos desapareceram, ali estava ele
de novo, calmo, em quem confiar, sólido, fiel e adorador.
Era uma felicidade relaxante, o toque de alguém
familiar, como se usasse uns sapatos confortáveis, ou
um vestido velho de três anos esquecido e encontrado
no fundo de um armário, as cores voltavam-lhe sem
saber como, realçando os olhos.
- Ficas comigo, não ficas?
Ela beijou-o atrás da orelha.
- Não parecerá estranho? As crianças estão tão
crescidas.
- Eu mando-as para Loughton, a minha mãe está lá.
De volta à rotina conhecida e tão agradável. A adoração
acalmava-lhe os nervos, especialmente quando o
desejo era escasso e o interesse pela exploração não
existia de todo. Bill podia ficar até à sua próxima missão,
fosse ela quando fosse. Não recebera ainda qualquer
ordem. O meio-soldo que recebia de momento devia dar
para as despesas dos dois.
A pensão do duque ainda não fora paga, o que não
a preocupava, vivendo em Loughton Lodge. Adam tinha
a culpa, claro, era ele que impedia o pagamento. Outro
pequeno assunto que teria de resolver dentro de algum
tempo.
- É estranho, Bill, nem uma palavra de Charley.
- Provavelmente está à espera de ordens, tal como
eu. O regimento dele pode ter que ir para o estrangeiro.
Corre o boato em Londres que vamos partir para Espanha
sob o comando de Wellesley, numa nova expedição.
- Receio que o Charley esteja doente, ele não é
muito forte.
- Far-lhe-ia bem ver alguns combates.
- É exactamente isso que ele quer - respondeu ela
rapidamente, para mostrar o que vale e prová-lo ao
239
regimento. Até agora, ainda não lhe foi dada qualquer
oportunidade.
O silêncio de Charley era a primeira nuvem num
céu azul, prenúncio de uma tempestade. Então, vinte e
quatro horas depois, soube a verdade a preto e branco,
nas páginas do London Gazette: O capitão Charles Farquhar
Thompson, do 59th Regiment of Foot está sob
prisão, aguardando julgamento.
Will Ogilvie, anjo ou demónio, profetizara-o. O idílio
de Hampstead terminara, a luta ia começar.
240
CAPÍTULO 10
Mary Anne estava sentada na estalagem de Weeleigh,
Colchester, com uma cópia das acusações
na mão e, sentado a seu lado, o advogado recomendado
por Comrie, um homem chamado Smithies,
tomava apontamentos conforme ela ditava.
Do outro lado da mesa sentava-se Rowland Maltby,
uma testemunha relutante, amuado, pouco à vontade e
arrastado da sua casa em Hertfordshire, para testemunhar.
Ela própria o fora buscar no dia anterior de carruagem,
ameaçando que, a não ser que ele confessasse que
as letras mencionadas nas acusações haviam sido endossadas
por ele, ela chamaria a sua mulher ao andar de
baixo e faria uma revelação que lhe prejudicaria a ida
para a índia.
- Que vou eu dizer?
- Pode dizer o que quiser, desde que ilibe o meu
irmão das acusações de fraude.
- Não tenho interesse em imiscuir-me nesse
assunto. O tribunal militar é para soldados, não para
civis.
- Você fez com que isto acontecesse, portanto, tem
que falar em defesa dele. Ou quer que saia da carruagem
e chame a sua mulher?
Ela tinha a porta escancarada e estava prestes a
Descer - Ele empurrou-a rapidamente para dentro, com os
olhos na janela da casa.
- Muito bem, viajarei consigo. Dê-me tempo para
arranjar uma desculpa. Irei ter consigo à encruzilhada
dentro de uma hora.
16 - Mary Anne
241
Viajou carrancudo todo o caminho até Colchester,
censurando-a sem ela sequer se incomodar a virar a
cabeça, escrevinhando durante todo o percurso num
pedaço de papel almaço, apontamentos para o seu maldito
irmão, supunha ele, e quando chegaram a Weeleigh
às duas da manhã, tudo o que conseguiu foram sanduíches
no bar e um seco desejo de boa noite. O estalajadeiro
devia pensar que ele era um grandessíssimo idiota.
Ela lia as acusações e o advogado escrevia-as.
«Acusação número um: Por conduta escandalosa
e infame, indigna, etc., etc., defraudando Mr. Milbanke.
ausentando-se, mais ou menos a 21 de Julho de 1807,
sem autorização do seu oficial comandante.»
«Acusação número dois: Por conduta escandalosa
e infame, indigna, etc., etc., defraudando Mr. Milbanke,
tesoureiro do Leeds Recruiting District, em cem libras,
persuadindo-o a descontar-lhe duas letras, nenhuma das
quais foi aceite quando apresentadas a pagamento posteriormente.»
Ela fez uma pausa, marcando as acusações com
um pequeno traço a lápis.
- Muito bem, Mr. Smithies, quero que compreenda
que o meu irmão está incapaz de se defender. Representá-lo-á
e contra-interrogará as testemunhas. Eu serei
uma, assim como Mr. Maltby. O meu irmão declara-se
inocente de ambas as acusações.
- Compreendo, Mrs. Clarke.
Ela arrancou uma folha de papel e entregou-lha.
-A primeira acusação, a ausência. Estão aqui as
perguntas que quero que apresente à Acusação como
se fossem feitas por ele: Primeira pergunta: «Sabem
que na altura em que me ausentei e fui para Londres,
estava cheio de dores, o que foi confirmado por três
médicos, que me acharam inapto para o serviço?» Quero
que perceba, Mr. Smithies, que este tribunal militar é
o que nós chamamos em linguagem de rua, uma «tramóia».
Eles querem expulsar o meu irmão do exército
e qualquer pretexto serve para isso. Segunda pergunta:
«Sabem que mal cheguei a Londres, enviei uma informação
escrita pelo médico, certificando a minha incapacidade?
Percebeu bem?
- Percebi, Mrs. Clarke.
242
- Muito bem. Quanto à segunda acusação. Não
podemos prever o que a Acusação me vai perguntar.
Será, com certeza, acerca das letras que dei ao meu
irmão, assinadas pela minha mãe, Elizabeth Mackenzie
Farquhar. O facto é que ela está inválida com reumatismo
e não pode escrever, por isso escrevo-as eu,
guiando-lhe a mão. A razão pela qual usei o nome dela
e não o meu, é que eu não queria o meu nome relacionado
com Russell Manners - cunhado de Mr. Maltby
aqui presente. O que pretendo que o senhor me pergunte
no tribunal, é o seguinte: «Recebeu alguma indicação
de Mr. Rowland Maltby de que ele não honraria qualquer
letra sacada por Russell Manners e pagável através dele
em Fishmongers'Hall?» À qual, Mr. Smithies, responderei:
«Nunca.»
Ela olhou para a sua sombria testemunha, do outro
lado da mesa. Ele bebeu um golo de cerveja e não respondeu.
O advogado escrevinhava na folha de papel-almaço
à sua frente.
- Depois do que, Mr. Smithies, quero que me pergunte:
«Do seu conhecimento da transacção das letras
em questão, pode declarar se era possível o capitão
Thompson ter algum interesse fraudulento quando induziu
o tesoureiro a descontar-lhas?» Ao que eu responderei:
«Certamente que não. O capitão Thompson sabia
que Mr. Manners era meu devedor.»
Rowland Maltby moveu-se desconfortávelmente na
sua cadeira.
- Olhe lá, não pode mencionar isso em pleno tribunal.
- Mencionar o quê?
- O que se passava no número nove de Burlington
Street, nós dois consigo e as nossas mulheres em Gales.
- Não sei a que se refere, não me lembro de nada.
Por devedor, refiro-me a dinheiro. Eu vendi uma pulseira
por trezentas libras e dei cem a Russell, que estava com
falta de dinheiro. Portanto, era devedor. Não concorda?
Rowland Maltby encolheu os ombros e olhou de
relance para o advogado.
- Devedor, Mrs. Clarke, já assentei.
- Obrigada, Mr. Smithies, por mim, é tudo por
agora. Vamos tomar um café.
243
Levantou-se e esticou os braços acima da cabeça.
Deus! Era agradável lutar e fazê-lo sozinha, carregar com
o peso, sem interferência alguma. Bill teria aconselhado
precaução, segurança, prudência. As suas últimas palavras
haviam sido: «Tem cuidado, prejudicá-lo-ás mais,
se intervieres.» Como se Charley pudesse encarar sozinho
aquela acusação... Aqueles brutos haviam-no man-
tido preso durante três meses, revelando apenas as
acusações na última semana; e agora, ao ler os nomes,
ela percebeu porquê - todos os homens no tribunal eram
das relações de Adam, Greenwood e do coronel Gordon
e escolhidos por eles.
Os dados haviam sido lançados contra ela, mas não
se importou. Ilibaria de fraude o nome de Charley, nada
mais interessava.
- E a defesa? - perguntou Mr. Smithies. - Mr.
Comõe sugeriu que eu chamasse um colega de Lincoln's
Inn. Podíamos preparar as declarações juntos, para aprovação
posterior do seu irmão.
Ela olhou para ele e sorriu.
- Não há necessidade.
- Tem mais alguém em mente?
- Eu própria a escrevo.
-Mas, minha senhora...
- Por favor, não discuta. Sei perfeitamente o que
hei-de dizer.
- A linguagem legal...
- Quanto maiores as frases, melhor. Vão ficar de
barriga cheia. Eu corrigi cópias, Mr. Smithies, ainda o
senhor usava cueiros. Cuecas sujas de advogados faziam
parte da minha leitura de então, sentada de pernas
cruzadas à porta de casa em Bowling Inn Alley. Pode
ficar descansado, a defesa será floreada com sabedoria.
Deu a mão a beijar aos dois e subiu as escadas.
Mr. Smithies tossiu e olhou de relance para Rowland
Maltby.
- O senhor vai perder, claro? - perguntou este.
- Temo que sim.
O processo foi rápido. Bastantes pessoas testemunharam
a primeira acusação. A segunda requereu mais
tempo e a Acusação, incapaz de estragar os planos da
244
irmã do prisioneiro, perdeu uma manhã inteira com
Mr. Maltby, que se contradisse uma dúzia de vezes e
que foi apertada mente interrogado, não acerca de letras
ou dinheiro, mas acerca de quantas vezes havia permanecido
com Mrs. Clarke em Loughton, se ela era dona
da casa e quem lá estava. Houve uma pausa por adiamento,
pedida pelo prisioneiro. O fim-de-semana foi passado
pela irmã deste em Weeleigh, fechada no seu
quarto, enchendo de palavras folhas de papel almaço.
Quando o tribunal se reuniu de novo, na quinta-feira
seguinte, a defesa do capitão Thompson foi lida à Corte:
Sr. Presidente e Cavalheiros do Tribunal Militar.
Tendo estado pouco mais de quatro anos no Exército,
um homem muito novo e não possuindo as vantagens
de uma experiência alargada, sinto a mais profunda
necessidade de me entregar à vossa protecção e pedir
perdão por qualquer irregularidade que possa ter, inadvertidamente,
cometido.
Se não me sentisse confiante de que sairei inocente
perante este honorável Tribunal das acusações que
me são imputadas com o intuito de transformar a minha
reputação numa infâmia, preferia retirar-me da sociedade
dos homens, escondendo-me da luz do dia, retrocedendo
até à obscuridade, só, sem nenhuma consolação.
Mas, cavalheiros, posso ousadamente afirmar e com
a maior confiança, embora com a maior humildade, que
as setas envenenadas que foram lançadas à minha vida
privada e reputação pública pelas forças conjuntas do
rancor e da hierarquia militar, serão repelidas pelo
escudo da honra, inocência e integridade.
Cavalheiros, quando tive a grande honra de integrar
o 59th Regiment, tive muito cedo a desventura
de descobrir que não possuía o apoio nem a bondade
de uma atenção amigável da parte do coronel Fane.
Fazendo justiça ao meu próprio carácter, devo admitir
que a minha juventude e inexperiência terão permitido
pequenas irregularidades, contra as quais uma maior
experiência e conhecimento do mundo me teriam protegido.
O coronel Fane tinha sem dúvida má vontade em
se tornar meu mentor amigo e foi-me ordenado, repentinamente
e sem preparação, que deixasse Newark e me
apresentasse em Leeds, no Serviço de Recrutamento.
245
Esforcei-me na execução do meu dever com um zelo
e atenção que não desonraria um oficial mais capaz e
experiente, até por volta do mês de Julho de 1807, quando
fui atacado por uma séria doença. Nessa situação, consultei
os mais hábeis dos Medical Gentlemen da vizinhança.
Tendo-se pronunciado, dizendo que não podiam
sugerir mais nada para a minha doença crónica, escrevi
ao coronel Fane, atestando a minha saúde extremamente
precária e requerendo licença de baixa. Em resposta a
este requerimento, recebi uma carta do coronel Fane,
dizendo que não estava nas suas mãos conceder-me qualquer
licença e que, se a minha saúde o requeria assim
tanto, eu deveria enviar um certificado do médico ao
Inspecting Field Officer, para esse efeito.
Assim fiz, mas depois de ter ido a Londres, admito
que isso foi um erro de julgamento da minha parte; mas
deixai-me apelar para esta honorável Corte, se um oficial
comandante pode ser induzido a trazer-me, um
homem tão novo, a um Tribunal Militar com o propósito
de destruir a minha vida (porque carácter é vida para
um homem honrado) e qualquer perspectiva futura?
Prossiga a seguir, chamando a vossa atenção para
alguns reparos na segunda acusação. Apelei para uma
assistência pecuniária. Ela forneceu-me as duas letras
em questão, aceites por ela e avalizadas por Mr. Russell
Manners, Esq., pagáveis a Mr. Maltby, Fishmonger's
Hall.
Que as letras eram boas e que seriam pagas na
data devida, não tinha a menor dúvida. Essa a razão por
que pedi a Mr. Milbanke, tesoureiro do distrito, para me
descontar as letras, ao que ele acedeu. Soube que as
letras não haviam sido pagas. Não vou fazer-vos perder
tempo, recapitulando as provas, porque todas elas me
ilibam e reclamam a minha inocência.
Cavalheiros, penaliza-me muito ter-vos feito perder
tanto tempo, mas a minha ansiedade em explicar todas
as circunstâncias com a máxima verdade e rigor, alongou
os detalhes. Não me sinto na disposição de suplicar
à venerável Corte qualquer favor que não me seja devido.
Não sinto apreensão quanto ao resultado, pois a vossa
decisão basear-se-á em compreensão liberal e esclare-
246
cida. A essa decisão curvar-me-ei com humildade e submissão,
rogando ao venerável Presidente e Advogado
de Acusação que acreditem que, qualquer que seja o
meu destino, guardarei uma grata recordação das atenções
que recebi.
Mr. Smithies sentou-se, um pequeno homem de
óculos, cabelo grisalho, de ombros descaídos. A sua
voz era monótona. Tinha lido a defesa como um cura
lia a Bíblia. Nem uma vez parara para marcar um ponto
ou causar uma impressão. Às palavras que haviam soado
claras, vivas, envolventes e inocentes quando escritas
no quarto do hotel, perderam-se. O prisioneiro sentava-se
rigidamente, em sentido. Os seus olhos não se desviaram
uma única vez do rosto da sua irmã. Ela observou
o coronel Fane, quando este se levantou. Imediatamente
o presidente da Corte relaxou, os cavalheiros traçaram
as pernas e mudaram de posição. Uma onda de concordância
e simpatia envolveu-o. Aclarou a voz, sorriu e
começou a falar:
- Sr. Presidente e Cavalheiros do Tribunal Militar.
«Eu não acharia necessário deter-vos, respondendo
à defesa do prisioneiro, não tivesse ele achado por bem
fazer algumas observações muito sérias acerca dos meus
motivos pessoais e conduta, quando desta ocorrência.
«Se o prisioneiro está inocente das acusações, deveria
estar-me grato por eu lhe dar uma oportunidade para
se justificar. É evidente que havia base para as acusações
e ele deve saber muito bem que, sob tais implicações,
os oficiais do regimento não podiam associar-se
com ele, até ter justificado a sua conduta perante um
Tribunal Militar.
«O prisioneiro também achou apropriado afirmar que
não tinha tanta atenção da minha parte como os outros
oficiais em Newark e, por essa razão, dar a entender
haver um motivo incorrecto da minha parte. Desafio-o
a prová-lo, basta a mais pequena evidência. Pelo contrário,
demonstrei-lhe mais boa vontade do que era minha
obrigação. Pelo menos, assim o penso.
«Também me atacou por o enviar para o Recruiting
Service; que eu tinha o direito de seleccionar os oficiais
247
que achava mais aptos num determinado momento para
enviar para aquele serviço, é indubitável, mas declarei
à Corte as minhas razões por ter escolhido o capitão
Thompson.
«Um certo Mr. Laughton, respeitável estalajadeiro em
Newark, veio ter comigo e contou-me que a conduta do
capitão Thompson no seu alojamento era insuportável,
que na noite anterior o insultara grosseiramente e que,
com dificuldade, evitara que ele lutasse com o empregado
e que se eu não tomasse medidas para evitar futuramente
aquele comportamento, se sentiria na obrigação
de expor o assunto ao comandante-chefe.
«Atendendo a que tal conduta é extremamente prejudicial
para o bom nome do regimento, cujos oficiais
são maioritariamente homens muito jovens, achei por
bem enviá-lo para um sítio onde o seu exemplo não
pudesse ser seguido.
«Quanto à primeira acusação, o tribunal recordar-se-á
que a minha carta não dava ao prisioneiro licença
para se ausentar, mas somente explicava como, estando
realmente doente, devia proceder para a obter. Ele não
seguiu as minhas instruções.
«Quanto à segunda acusação, já afirmei ao tribunal
nada saber. A acusação de ter descontado as letras
indevidamente foi provada. Mas resta ao tribunal determinar
se houve fraude na transacção.
«Não os vou deter mais, cavalheiros, mas declaro
ser meu desejo, assim como do capitão Thompson, que
ele convença o tribunal de que não é culpado.»
O coronel Fane sentou-se e a Corte retirou-se para
deliberar. Não demoraram muito. A sentença foi entregue
pelo presidente, que, após justificar e absolver o
coronel Fane de todas as acusações de tratamento
injusto, se virou para o prisioneiro, acusando-o de que
o seu ataque ao oficial-comandante fora injustificado e
extremamente impróprio.
O capitão Thompson foi declarado culpado da primeira
acusação, mas honrosamente absolvido da
segunda. A sentença: expulsão do exército, com desonra,
a ser confirmada pelo comandante-chefe.
248
A vinte e quatro de Maio de 1808, a sentença foi
confirmada numa carta enviada pelo Duque de York ao
tenente-general Lorde Chatham, oficial que comandava
a Divisão Este. E daquele dia em diante, Mary Anne,
irmã do prisioneiro, decidiu vingar-se custasse o que
custasse.
249
CAPÍTULO 11
AINDA tem intenção de tratar deste assunto
sozinha?
- Assim penso.
- Apesar do facto de a sentença do Tribunal Militar
ter sido contra si?
- Isso era previsível. Eu vi as caras deles. Pelo
menos, consegui anular a segunda acusação.
- Tem algum dinheiro?
- Nem um centavo. Deixámos Hampstead sem
pagar a conta. Os Nichols ficaram com a minha harpa e
alguns livros em troca.
- E Mr. Dowler?
- Chamado ao serviço há mais de um mês. Embarcou
para Portugal com a primeira força expedicionária.
Estou completamente sozinha, com excepção de Charley,
que teve uma depressão nervosa - não me deixa
sair de ao pé dele.
- E o prestável Coxhead-Marsh?
- Tornou-se muito cuidadoso. O julgamento apareceu
em grandes parangonas em todos os jornais de Essex
e o nome Loughton Lodge estava en evidence.
- Chamando as coisas pelos seus nomes, está sem
protector?
- Excepto o senhor e a minha indomável perspicácia.
Will Ogilvie riu-se.
- Trabalho em conjunto outra vez? Temos o mundo
todo só para nós - fico encantado.
250
A primeira coisa a fazer, portanto, é arranjar-lhe um
tecto. Conhece um estofador chamado Francis Wright?
- Sei quem é, porque me guarda a mobília, a que
não consegui vender em Gloucester Place.
- Claro, fui eu que a mandei ir ter com ele, lembro-me
agora. Ele faz variadíssimos trabalhos para mim.
Ele arranja-lhe alojamento e depois trata de lhe arranjar
uma casa. Aconselhou, para seu bem, a que se chame
Farquhar daqui em diante. O nome Clarke tornou-se
suspeito em determinados sítios. Não será assim, no
entanto, com as pessoas que conhecerá daqui para o
futuro. Conhece Folkestone, assim como Burdett e
Cobbett: são os idealistas do Grupo Radical. Os oportunistas,
são os tipos que queremos caçar. Wardie, M. P.
por Okehampton, é a sua presa. Determinado a chegar
ao tipo por todos os meios, quanto mais deslealmente
melhor, desde que enriqueça.
- Não me vou envolver com políticos.
- Vai, vai... se não quer que os seus filhos passem
fome. Qualquer meio para atingir um fim, pensei que já
tinha aprendido. Já teve uma conversa com o editor
Richard Phillips?
- Visitei-o em Hampstead, antes de me vir embora.
Achei-o desagradável, inchado de importância.
- Todos eles são. E você vai ajudar a que inchem
ainda mais. Ele gostava de poder imprimir as listas do
Exército, mas não o conseguirá, a não ser que haja
mudança de governo, incluindo um novo comandante-chefe
nos Horse Guards. Conhece McCullum?
- O autor de panfletos? Não, ele é um escrevinhador
de terceira categoria.
- Ele está a produzir uma crítica severa que vai
estalar dentro de pouco tempo, um inquérito aos abusos
do R.M.C. (Royal Military College), provando que o
estabelecimento de ensino foi imposto ao público, os
cadetes todos crivados de doenças venéreas. Termina
com alguns reparos acerca dos generais britânicos, que
me fizeram desmanchar a rir... penso que gostará dele.
- E porque pretende que os autores de panfletos
e eu nos conheçamos?
- Porque, meu querido morcego cego, você sabe
mais do que eles todos. Eles querem a verdade. Você
251
pode fornecê-la - e então viver como uma rainha até
ao fim dos seus dias. Agora, vá falar com Francis Wright
acerca da casa.
O número 11 de Holies Street, em Cavendish Square,
serviu de alojamento temporário para Mrs. Farquhar
acompanhada do seu irmão capitão Thompson. Uma
senhora muito respeitável recém-chegada da província,
por quem Francis Wright, de Rathbone Place, respondia.
O alojamento foi requerido para o mês de Junho, após
o qual Mrs. Farquhar esperava mudar-se para Bedford
Place.
Na segunda-feira, 20 de Junho, Mr. Adam, que vivia
em Bloomsbury Square, recebeu uma carta:
Sir:
No dia 11 de Maio de 1806, visitou-me, por desejo
de Sua Alteza Real o Duque de York, para me dar a
conhecer a intenção de S. A. R. de me conceder uma
pensão vitalícia de quatrocentas libras por ano.
S. A. R., pela sua promessa, está em dívida para
comigo em quinhentas libras. Escrevi repetidamente,
sem resposta. A conduta de Sua Alteza Real para comigo
tem sido totalmente falha de princípios, sentimentos e
honra, e como as suas promessas são falsas, apesar
de. dadas por si, tomei a decisão de o informar das
minhas intenções para consideração de S. A. R. e que
são as seguintes: Solicito a Sua Alteza Real que cumpra
com a minha pensão vitalícia e que me pague o atrasado
imediatamente, visto que as minhas necessidades são
prementes (ele sabe disso). Se S. A. R. se recusar não
terei outra solução senão publicar todas as cartas a mim
endereçadas por S. A. R. e tudo o mais que chegou ao
meu conhecimento durante a nossa intimidade. Avise-o
de que sei coisas muito sérias. Ele está muito mais
dependente da minha vontade do que imagina.
Espero no entanto que, por consideração com o bom
nome de S. A. R. e do meu próprio, ele aceda a este
meu pedido, porque sofrerei muito, se tiver que expor
a sua vida publicamente. Antes de tomar uma atitude
pública, enviarei a cada membro da família de S. A. R.
252
uma cópia do que pretendo publicar. Se S. A. R. fora um
pouco mais pontual, este pedido nunca teria sido feito.
Mais uma coisa: Se S. A. R. decidir continuar a proteger
o meu filho (coisa que muito lhe agradeço em
nome do passado), espero que ele o mande para a instituição
de Charterhouse, ou qualquer outra escola
pública; a criança não pode ser culpabilizada pela minha
conduta.
Peço-lhe, Sir, que apresente esta comunicação ao
Duque de York. Na quarta-feira enviarei alguém a sua
casa para saber quais as intenções de S. A. R., as quais
o senhor fará o favor de especificar numa carta que
me será endereçada.
Uma obediente e humilde criada,
M. A. Clarke
P. S. - S. A. R. deve sentir que a sua conduta recente
merece isto e muito mais.
Mr. Adam não respondeu àquela carta. No sábado
seguinte, recebeu uma segunda:
Sir:
Não tendo obtido na quarta-feira resposta à minha
carta, vejo-me agora na obrigação de perguntar se S. A. R.
o Duque de York acha por bem não cumprir a sua promessa,
transmitida por si e que o senhor encoraja a
que não cumpra.
Tenho-me dedicado, desde então, a tomar nota de
todos os pormenores de que me recordo, acontecidos
durante a ligação de S. A. R. comigo.
As cinquenta ou sessenta cartas de S. A. R. serão
o suporte desta minha afirmação. Prometi que as alienaria
na próxima terça-feira, o que farei se não obtiver
resposta a este último aviso; uma vez entregues, fora
das minhas mãos, serão impossíveis de recuperar.
Serão entregues a cavalheiros e não a nenhum
editor, os quais são tão obstinados como Sua Alteza
Real, e mais independentes. São das vossas relações
253
e, para prover às minhas necessidades e por despeito,
farão o que o Duque não faz.
No entanto, tudo está nas mãos dele, podendo agir
como muito bem entender.
Sou, Sir, a sua muito obediente,
M. A. Clarke
Na manhã de terça-feira, um oficial do xerife, munido
de um mandato, chegou a Holies Street. Negou ter
conhecimento de alguém chamado Adam, mas disse que
vinha prender Mrs. Clarke, devedora de uma quantia de
dinheiro a um comerciante, um certo Mr. Allen-, que vivia
perto de Gloucester Place. Repetidos pedidos de pagamento
não haviam sido reconhecidos.
Mrs. Clarke foi levada sob custódia pelo oficial e
libertada sob fiança na tarde seguinte. Aquela foi paga
por Francis Wright, estofador. Na acção Clarke versus
Allen, Clarke ganhou: declarou ser uma mulher casada,
desconhecendo o endereço do marido. A renda do mês
de Junho em Holies Street foi também paga por Francis
Wright, o mesmo estofador que, agindo, assim parecia,
por cavalheirismo, pôs à sua disposição a casa de um
amigo-de-amigo em Bedford Place.
Terceiro e quarto assaltos do combate - mais ou
menos empatados. Sem vantagem para qualquer dos
lados, nem perdas mútuas.
Nos fins de Julho ou princípios de Agosto, o Príncipe
de Gales, de partida para Brighton, recebeu uma
carta perfumada em Carlton House. De poucas palavras
e por assinar. O remetente era 14 Bedford Place. O perfume
intrigou-o, assim como a alusão ao seu irmão mais
novo, o Duque de York. O que mais lhe prendeu a atenção,
foi o selo no rodapé. Um Cupido montado num
burro... o humor agradou-lhe. Passou a carta ao seu
secretário privado, McMahon.
- Vai lá e vê o que ela quer, mas não subas ao
andar de cima. Se é quem eu penso, arranca-te os
calções.
O coronel McMahon, habituado a tais encontros,
encarregado de muitos antes de natureza semelhante,
254
chegou a Bedford Place com uma certa segurança.
A criada que lhe abriu a porta era gorda e fleumática.
-Sim, sir?
- Desculpe, a quem pertence esta casa?
- A Mrs. Farquhar, sir.
O nome não era familiar. O seu patrão enganara-se.
A casa tinha um ar respeitável.
- Gostaria de ver Mrs. Farquhar.
A sala de estar estava bastante desmazelada e
pouco limpa, as cadeiras ainda à roda da mesa do jantar
da noite anterior.
- O nome, sir?
-Prefiro não dizer o nome.
Tirou a carta da algibeira.
- Venho em resposta a isto, a sua senhora deve
saber.
O rosto redondo da criada fixou a carta perfumada.
- É verdade, sir, eu própria a pus no correio. Vou
dizer à senhora que o senhor pretende vê-la.
Ela falava num tom familiar, sem demonstração
de respeito - deve ser uma criada há muito tempo na
família, Ele esperou na sala com alguma impaciência.
Finalmente, após quase vinte minutos, foi conduzido a
uma sala de visitas.
O sofá era à la Récamier, com uma figura reclinada,
o cabelo preso à maneira grega, pés delicados metidos
em sandálias. A sala era recatada... e não havia ouvidos
indiscretos. Ela levantou-se com um sorriso, pronta para
uma cortesia, mas ao ver que não era quem julgava...
relaxou.
- Como está? Não penso ter tido o prazer?
- O meu nome é McMahon. Tenho a honra de ser
o secretário particular do Príncipe de Gales. A senhora é
Mrs. Farquhar?
- Chamo-me Mrs. Farquhar de vez em quando.
- É, penso, amiga de Mrs. Clarke?
- Amiga íntima. Ninguém a conhece tão bem. Posso
dizer com a maior das franquezas que ninguém vivo tem
tanta consideração por Mrs. Clarke, como eu. O senhor
não a conhece?
- Não, minha senhora. Só de reputação, não pessoalmente.
255
- O que só me dá razão, não é verdade? Faz favor
de dizer.
- Peço desculpa, Mrs. Farquhar, se a senhora é sua
amiga, mas nada do que ouvi dizer é vantajoso para ela.
A sua imensa ingratidão para com o Duque de York após
extrema generosidade, é do conhecimento geral.
- Será imensa ingratidão dedicar a vida a um
príncipe e, após três anos, ser escorraçada para a província
com a promessa de uma pensão que não é paga?
- Quanto a isso, minha senhora, não sei de nada.
- Perseguida por espiões e credores, ameaçada com
a prisão, o irmão expulso do Exército - isso é generosidade?
O Príncipe de Gales trataria Mrs. Fitzherbert
dessa maneira?
- Lamento, mas não posso fazer comentários acerca
do meu ilustre patrão.
- Eu faria - acho que ele é encantador, sempre
achei, mas isso não tem nada que ver com o assunto.
Coronel McMahon, Mrs. Clarke não pode, de modo
algum, comunicar o que tem para dizer a uma terceira
pessoa, apenas ao próprio Príncipe de Gales.
- Mrs. Clarke deve estar, então, desapontada. Sua
Alteza Real partiu esta manhã para Brighton. Ele disse-me
para lhe enviar qualquer mensagem que receba.
- Se eu soubesse que ele ia para Brighton, teria
ido também.
O coronel McMahon torceu o bigode grisalho.
- Sua Alteza Real lamentará a ocasião perdida.
Nestas circunstâncias, terá que se contentar comigo.
Creio que não estou errado - a senhora é Mrs. Clarke?
Ela sorriu e estendeu-lhe as mãos.
- Claro que sou.
- Mil perdões, então, por tudo o que disse. Boatos,
compreende, não sou eu a fonte. O quadro que está
defronte de mim agora, é muito diferente daquele que
me pintaram.
- Pintado por Adam? E talvez por Greenwood também?
Não lhes devia ter dado ouvidos.
- Venha sentar-se a meu lado, no sofá.
Foi uma manhã bastante agradável, de modo algum
desperdiçada. Às onze horas, trouxeram-lhes bolachas
e vinho e então a sessão continuou com isto, aquilo e
aqueloutro, até quase ao meio-dia.
256
- Do que eu mais gostei, claro, e o Príncipe também,
foi do selo no fim da carta.
- Eu dou-lhe um.
- Ah, mas quantos outros têm essa promessa...?
Finalmente, saiu relutantemente, com a promessa
de agir como intermediário.
•-• Deve compreender, claro, que o Príncipe de Gales
não pode de modo algum interferir entre a senhora e o
irmão, mas tudo o que eu possa fazer, qualquer recado
que queira enviar, fá-lo-ei de boa vontade, da próxima
vez que vir o Duque - possivelmente em Windsor.
Quanto ao outro assunto, as cartas que mencionou, é
melhor queimá-las, minha cara, podem provocar muita
discórdia. Qualquer frieza anterior entre os Príncipes,
está, de momento, sanada. - Deu-lhe uma pancadinha
na mão. - Então, então, cara senhora, tudo acabará bem.
Tudo bem para quem, seu idiota? Ela alisou o cabelo
e arrumou as almofadas, após ele ter saído. O quinto
assalto começara e pouco fora conseguido. Ainda estavam
empatados. Toda a gente deixava a cidade, até
Outubro. Nada mais poderia ser feito até ao Outono,
quando os deputados regressariam e o Parlamento se
reuniria de novo. Então, os amigos Radicais de Will já
teriam os seus pianos preparados.
- Sugiro - disse Will - que se afaste de Bloomsbury.
A proximidade de Adam pode ter os seus inconvenientes.
Wright poderá encontrar-lhe facilmente uma
casa noutro distrito, mas não se esqueça de usar o
nome Farquhar.
- E quem - perguntou ela - vai pagar a casa?
- Wright continuará a adiantar-lhe dinheiro. Ele sabe
que a senhora é um bom investimento; recuperá-lo-á.
Ela procurou anúncios nos jornais e encontrou uma
casa para alugar em Westbourne Place, a cinco minutos
da escola de Chelsea - George ainda era aluno lá, não
fora ainda afastado. Quando o Duque passasse para a
inspecção, passaria sob as suas janelas. A ideia era
tentadora; numa carruagem aberta, o Duque na dele,
um sorriso e uma saudação com a sombrinha. Demasiado
bom para perder. E May Taylor vivia ao virar da
esquina, em Cheyne Road, após muitas vicissitudes.
As raparigas poderiam ir a pé para a escola, estariam
todos juntos. Assinou o contrato de aluguer, mais uma
17 - Mary Anne 257
vez no nome da mãe e se alguém fizesse quaisquer
perguntas, alegaria cobertura legal. Na realidade, fora
o único favor que Joseph lhe fizera, manter-se vivo e
por essa razão ficar legalmente responsável por qualquer
conta que ela não pudesse pagar. O aluguer foi
assinado a 11 de Novembro e durante a mudança - uma
questão de dois ou três dias - Will Ogilvie pôs a engrenagem
em movimento, cujo resultado foi uma visita do
coronel Wardle, à uma hora do dia 17 de Novembro.
Ela recebeu-o na sala de visitas semi-mobilada,
pedindo desculpa pela grande desordem.
- Como pode ver, acabei justamente de me mudar.
Toda a casa está de pernas para o ar, uma tremenda
confusão.
Observou-o atentamente, enquanto ele lhe beijava
a mão. Nariz comprido, decorado, muito pouco atraente,
cabelo castanho frisado e olhos muito juntos.
- Querida senhora, há seis meses que a desejo
conhecer, mas é tão evasiva, que não havia meio de
chegar até si. Deve saber, claro, que sou deputado por
Okehampton. Seguiu, sem dúvida, os meus discursos
durante a última sessão?
-Sei quem o senhor é. Não posso afirmar ter lido
os seus discursos.
- Enviar-lhe-ei cópias, creio que lhe interessarão.
A verdade é que, Mrs. Clarke, sou um patriota. A minha
única finalidade na vida é libertar o meu país do abuso
de poder e da corrupção.
Ele parou para observar o efeito das suas palavras.
Ela convidou-o a sentar-se num caixote, cujo pó ele
limpou primeiro e levantando cuidadosamente a parte
de trás da casaca.
- A corrupção continuará connosco para além da
morte - disse ela -, e depois brinca no inferno com
todos os ideais. Quer um café? O trem de cozinha ainda
está empacotado, assim como a porcelana.
- Não quero mais nada de si senão atenção, Mrs.
Clarke. Quando este nosso grande país, ansiando por
liberdade, preso numa cadeia de ideias gastas...
- E se parasse com isso e tratássemos de negócios?
Ele fez uma pausa. Os olhos estreitos ainda se
juntaram mais.
258
- Desculpe-me - cometi o erro de falar como se
estivesse defronte de um constituinte. Soube por um
jornalista meu amigo, McCulum, que a senhora não
está preparada para o ajudar nos panfletos dele que
têm como principal alvo o Duque de York?
- Exactamente.
- No entanto, Mrs. Clarke, a senhora foi muito mal
tratada. Eu pensava que qualquer mulher de têmpera
quereria vingança?
- A vingança, coronel Wardle, é inútil sem segurança.
Cinco libras por um panfleto não garantem o
futuro dos meus filhos e o meu.
- Compreendo. Pretende uma recompensa maior?
Nesse caso, coloco as cartas na mesa. Os meus amigos
- membros do nosso lado, nos Comuns - e eu, estamos
determinados a expor durante a presente sessão,
os abusos de poder do Exército, com o objectivo principal
de depor o Duque.
- Porquê? Que fez ele?
- Representa um sistema que nós pretendemos
abolir. Começando por ele, deitaremos abaixo o castelo
de cartas e tomaremos nós conta do poder, usando
como figura de cartaz uma pessoa muito mais submissa,
que fará o que lhe dissermos.
- Quão patriótico... Quem é essa pessoa?
O coronel Wardle relançou o olhar por cima do
ombro. A porta estava fechada.
- O Duque de Kent - murmurou ele.
Ela riu-se e bocejou.
- Estou desapontada. Estava à espera que promovessem
um cabo do Exército para o efeito. Esse método
resultou, em França. Os senhores, simplesmente, limitam-se
a substituir Peter pelo pomposo Paul.
- O povo deste país está habituado à tradição.
Poucas mudanças de cada vez - têm que ser graduais.
Sua Alteza Real o Duque de Kent é muito ambicioso.
Ela reparou no sorriso escarninho disfarçado. Tudo
aquilo de um homem que punha acima de tudo os interesses
do país.
- Não se importa de explicar onde entro eu?
- Está ao corrente, com certeza, dos maus ventos
entre os dois irmãos, os ciúmes de um pelo outro?
Esperamos tirar proveito disso. O panfleto de McCulum
259
traz à estampa alguns dos pormenores - é aí que pretendemos
a sua ajuda, deve ter conhecimento de muitos
pormenores. Mas como recusa, pode ajudar de outra
maneira, fornecendo-me pormenores do tráfico de promoções
que, tanto quanto sei, era o seu único modo
de vida quando estava sob a protecção do Duque, e que
tinha a permissão dele.
- E como soube o senhor disso?
- O proverbial passarinho... Se eu tivesse provas
para apresentar nos Comuns, ele seria expulso.
- Que ganhava eu com isso?
- Far-se-ia justiça. O Duque de Kent ascenderia
a Comandante-Chefe. Sabe-se que ele disse a um amigo
meu muito chegado que quem o ajudasse no sentido de
alcançar essa posição, seria bem recompensado e não
só. A propósito, ele ficou horrorizado com a maneira
miserável como a senhora foi tratada. E também com
o assunto do Tribunal Militar. Creio que ele tomaria a
seu cargo a reintegração do seu irmão e a sua pensão
anual; não umas miseráveis trezentas ou quatrocentas
libras, mas alguns milhares.
- Estou demasiado farta de promessas, especialmente
vindas de príncipes. Ouvi de mais.
- Se necessita de mais certezas, posso dar-lhas.
O amigo pessoal de que lhe falei é o major Dodd.
- O secretário pessoal do Duque de Kent?
- Exactamente. Ele está ansioso por conhecê-la e
quanto mais cedo melhor. Se pretende ficar a saber
o que ele diz, pode ler a sua carta.
Ele tirou uma folha de papel de carta da sua pasta
e deu-lha a ler.
Meu caro Wardle:
Quanto mais reflicto sobre a conversa que tivemos
esta manhã, e que teve por objectivo o puro interesse
e a honra do nosso país, mais fico convencido que cada
indivíduo que nos ajude nesta grande causa, tem direito,
não só à nossa protecção particular, mas também à
pública. Se esta garantia da minha parte pode ter alguma
utilidade, tem a minha autorização para a usar como
entender. Pelo que me disse de uma certa senhora, não
hesito em acreditar que a sua cooperação será mais
260
útil do que a de qualquer outro ser humano. Deus sabe
que ela foi tratada infamemente e barbaramente por
uma ilustríssima grande besta; mas tem agora a oportunidade
de uma reparação; e de, servindo um generoso
povo, essencialmente tirar benefício para si própria.
Seu, meu caro Wardle e sempre,
Thomas Dodd
-Plausível - disse ela, mas é só papel.
- Então, peço-lhe que consinta em conhecê-lo e
que o ouça. Devo dizer-lhe que, seja o que for que
pretenda pedir, ele o transmitirá, confidencialmente, ao
seu patrão; o Duque de Kent é uma pessoa muito liberal.
- Não foi muito liberal em Gibraltar, limitando as
tropas às rações e fechando as casas de bebidas.
- Disciplina, Mrs. Clarke, mão de ferro. Exactamente
o que este país precisa nos dias de hoje.
- Ele utiliza a sua mão de ferro na sua velha
amante francesa? Talvez use luvas de veludo, em Ealing.
Ouvi dizer que ele rega as plantas e cria canários. Pode
dizer ao major Dodd da minha parte, que tenho gostos
muito extravagantes. Exigirei, além da pensão, uma
carruagem de quadro cavalos, uma casa com torreões
e dois ou três lagos no jardim.
- Transmitirei a mensagem.
Bom Deus, ele acreditou. Era mais parvo do que
parecia, o que já era qualquer coisa.
- Diga-me, coronel Wardle, quando o Governo cair
e os senhores tiverem alcançado o que querem, quer
dizer, quando o povo de Inglaterra estiver livre de infecções
e corrupção, que posto espera obter, qual será
a sua recompensa final?
Ele respondeu sem hesitar:
- Secretário da Guerra. Pelo menos, foi o que o
Duque de Kent sugeriu.
- Quão nobre, uma gota no oceano. Mal posso
esperar para conhecer os seus amigos, especialmente
Dodd. Quando terá lugar o encontro?
Ele consultou umas anotações.
- Dentro de alguns dias tenciono ir a Kent. Dodd
e o major Glennie irão comigo. Este último está a
escrever um memorando sobre fortificações. Pretende
261
desacreditar as actuais defesas costeiras e temos um
passe para visitar as Martello Towers. Que tal, se
viesse connosco?
- Encantada. Podemos fazer um piquenique em
Romney Marsh e decidir qual o melhor local para uma
invasão.
- Não está a sugerir...
--Que as suas simpatias vão para o outro lado do
Canal? Caro coronel Wardle, nunca me passou pela
cabeça tal pensamento. Apercebo-me apenas de quanto
o senhor ama o seu país.
Foi uma expedição muito divertida e instrutiva.
Primeira paragem em Maidstone, a segunda em Hythe.
Uma senhora com três irritados cavalheiros ex-militares,
todos eles com carreiras falhadas e falando como se
tivessem conduzido os Guards numa batalha. Há anos
que ela não se divertia tanto.
Conduziram ao longo da costa durante quarenta quilómetros
com bom tempo mas frio, enquanto o major
Glennie, o especialista em fortificações, escrevia anotações
e o major Dodd (ex-capitão de artilharia, mas
cujo conhecimento de armas se limitava às salvas de
cerimónia) exultava as virtudes do seu real patrão:
capaz e bravo, nunca se queixando, o protótipo daquilo
que um comandante deve ser.
- Que estranho, então, se é esse o caso - murmurou
a senhora, ele não ter um cargo administrativo há
cinco anos?
- Ciúmes, Mrs. Clarke, da parte do irmão.
- Estou a ver. É claro. Que pena! Que perda de
talento - a vasta experiência militar de Kent atirada
fora. Todos aqueles cansativos dias no campo de batalha,
em Salisbury, com guisado irlandês às refeições e
cerveja turca.
O coronel Wardle olhou para ela, extremamente
baralhado. Para uma mulher que devia estar a arder com
desejos de vingança, comportava-se naquele encontro
com Dodd de uma maneira extraordinária. Quanto a ele
próprio, não era um matemático e necessitava de todos
os poderes de concentração que possuía para compreender
os números que Glennie lhe dava e perceber porque
as Martello Towers não serviam como defesa costeira.
262
Falharia o seu discurso nos Comuns, se não percebesse
as explicações.
Ao jantar, em Hythe, os outros desenhavam diagramas
e a senhora do grupo bebericava um copo de vinho.
- O meu filho George tem um pequeno livro em
casa. Ficaria encantado por lho emprestar, coronel
Wardle. Mostra a diferença - penso que na página três
- entre um octógono e um triângulo, o primeiro passo
para principiantes... Diga-me mais coisas, major Dodd,
acerca de Madame Laurent e da sua devoção pelo Duque
de Kent.
- Ela sabe que está em segurança, Mrs. Clarke.
O único príncipe com leal e fiel coração, terno para com
ela, grato pelo que ela lhe dá.
- Parece um sonho... excepto pelas sobrancelhas
farfalhudas. Transmitiu-lhe as minhas pretensões, caso
eu venha a ajudar a vossa causa?
- Cinco mil libras de imediato, uma pensão vita-
lícia, o pagamento de todas as suas dívidas e um dote
para as suas filhas. Posso prometer-lhe tudo isso e mais;
entretanto, o coronel Wardle fornecer-lhe-á, sem dúvida,
assistência no que precisar. O que necessitamos de si,
são cartas e provas de corrupção, os nomes dos oficiais
promovidos através da sua influência e os nomes de
amigos que possa apresentar como testemunhas. Então,
Wardle pode citá-los no Parlamento sem contradição.
- E atirar com todos nós para a prisão?
- A lei não lhe pode tocar. Expondo o Duque de
York, terá o país inteiro atrás de si. A opinião pública
virar-se-á para a nossa causa e a senhora, Mrs. Clarke,
será a heroína do dia. Uma nova Joana D'Arc, campeã
do povo.
- A sua história é um bocado confusa; Boadiceia - guiando
um carro por cima de cadáveres de guerreiros.
Pensarei no assunto, major Dodd.
De volta a Londres e a Westbourne Place com visitas
diárias de um ou de outro e bilhetes à parte de Will.
«Tem mais alguma alternativa? Que acontece às suas
crianças se recusar? Pelo menos, vale a pena arriscar,
uma última tentativa. Não há perigo para si, Dodd tem
razão. Não a podem meter na prisão, nem processá-la.
Se tudo falhar, você não tem nada a perder.»
263
Muito bem, então, iria para a frente, separaria as
cartas, reacordaria as memórias dos últimos anos. Muitas
delas haviam sido queimadas e as que restavam eram
de carácter íntimo, não tinham utilidade para assuntos
oficiais. Onde estariam os numerosos indivíduos que
haviam pago em dinheiro? A maior parte no Ultramar,
outros desaparecidos, ou esquecidos. O coronel French...
o capitão Sandon... esse estava algures em Inglaterra.
Donovan poderia lembrar-se de outros nomes. Corri, o
professor de música, talvez falasse e um tal Mr. Knight,
paciente do Dr. Thynne. Nunca lhe passara pela cabeça
guardar aquelas informações todas: as cartas de amor
eram para serem atadas com fitas, as de assuntos militares,
não.
- Já procurou em todas as suas arcas? - perguntou
o coronel Wardle. Os finos dedos inquisidores exploravam,
perscrutavam.
- Mudei-me meia dúzia de vezes, desde 1806. Demorarei
semanas a descobri-las no meio da tralha toda
armazenada.
- Onde está essa tralha toda armazenada?
-Em casa de Wright, em Rathbone Place.
- Posso lá ir consigo?
Ela olhou para os olhos juntos assestados na sua
direcção para as mãos crispadas nervosamente.
- Devo a Francis Wright uma boa maquia de
dinheiro. Esta casa não está completamente mobilada,
como vê. Ele guardará tudo, a menos que eu lhe pague.
- Então, é melhor falar-lhe nas suas perspectivas
de futuro.
- Garantidas por si?
- Naturalmente.
Ela levou-o a Rathbone Place, onde descobriram que
Francis Wright estava de cama, com uma perna ferida.
O irmão Daniel recebeu-os, desculpando-se. Podia fazer
alguma coisa, mostrar-lhes algo?
- Sim, Daniel, mostre ao coronel Wardle algumas
das minhas coisas, os cortinados, os tapetes e as cadeiras
que eu quero levar para a nova casa em Westbourne
Place. Que pensa daquele espelho, coronel Wardle?
- Sem dúvida, muito bonito.
- E aquelas cadeiras de sala de jantar? Pintadas à
mão, sabe, por mim, em Gloucester Place. Acompanhe
264
o coronel ao armazém, Daniel e mostre-lhe o resto. Ele
está ansioso por que eu mude tudo daqui para Chelsea,
com tudo o mais que eu comprar. Deixo-os a ambos,
enquanto vou saber como está o seu irmão.
Protestos estavam fora de questão - Wardle ficou
desconcertado. Tinha uma pistola apontada à cabeça.
Mudar a mobília toda para Westbourne Place sem querer
saber do preço, ou perder as cartas preciosas, um
testemunho valioso? Vagueou pelo armazém, apanhado
na armadilha e zangado, com o estofador apontando
peças numa lista,
- Quer dizer que ela tinha tudo isto em Gloucester
Place? - perguntou ele, picando com a bengala os sumptuosos
tapetes.
- Oh, não, sir; estes são novos; ela apaixonou-se
por eles.
- Uma paixão dispendiosa como o diabo, que raio.
- Bem, sir, sabe como é Mrs. Clarke. Alegre, gosta
de viver bem e em estilo. Ouvi dizer que tem amigos
influentes que a apoiam.
- Ah, sim? - Mulher dos diabos, andava a dar com
a língua nos dentes.
Ela desceu as escadas por trás deles, toda sorrisos.
- Pobre Francis Wright, aconselhei-lhe um linimento.
Então, está tudo combinado? Aprova a minha
escolha?
- Falaremos disso depois.
Ela voltou-se para Daniel.
- O coronel Wardle quer dizer que aprova. Despache
tudo e não se esqueça do serviço do Duque de Berri.
Já na carruagem, silêncio. Pelo menos da parte do
coronel. Ela continuou a falar alegremente, sem desconforto
algum!.
- Vai ser maravilhoso viver no luxo uma vez mais.
Não sei como lhe agradecer a sua bondade, foi tão generoso.
Assim que me trouxerem a minha escrivaninha,
procurarei as cartas.
«A escrivaninha que se dane!» - pensou ele. - «As
cartas estão em casa». Que êxtase, no entanto, torcer
a cauda ao patriota e ferrar-lhe com a mobília toda,
tapetes incluídos. Nada de fugir com o rabo à seringa,
tinha-o bem preso. Tudo foi entregue na tarde seguinte
e, quinze dias depois, Francis Wright, recuperado, apa-
265
receu em Westbourne Place para falar com o coronel
Wardle.
- Penso, sir, que o senhor é o cavalheiro influente
que fez tantas promessas a esta senhora. Ela deu-me a
entender que é um dos seus apoiantes. Sendo assim,
agradecia que me pagasse quinhentas libras por conta
de uma soma pendente.
A senhora em questão sorriu e arvorou um ar inocente,
murmurando algo acerca da Câmara dos Comuns
e de um maravilhoso mundo novo para todos, Wardle
incluído. O venerável membro por Okehampton tentou
ser agressivo.
- Não tenho esse dinheiro comigo - disse ele. -
E não posso assinar um cheque. Dei cem libras a Mrs.
Clarke, no outro dia.
- Mas isso - disse ela - chegou apenas para os
comerciantes de Bloomsbury. O pobre Mr. Wright tem
de viver, tal como todos nós. Além disso, não tem necessariamente
de ser o senhor a pagar do seu bolso, aqueles
seus amigos em Ealing... - ela não acabou, ao ver
o seu ar de alarme, de apreensão.
- Tratarei de que o senhor seja pago - gaguejou
Wardle para o estofador; mas por favor, compreenda
que o meu nome não pode aparecer. Com este delicado
assunto à minha frente na Câmara dos Comuns, seria
desastroso para os meus planos. Tratarei de arranjar
uma maneira através de um comerciante.
Ela piscou O olho ao estofador através do espelho.
- Tenho a certeza de que Mr. Wright não pretende
criar dificuldades, desde que fique com alguma garantia.
A garantia apareceu, logo a seguir ao Natal, da
parte de Illingworth, mercador de vinhos, Pall Mall n.º 10
(mercador de vinhos para Sua Alteza Real, o Duque de
Kent), uma promessa de pagamentos a Francis Wright
de quinhentas libras, no prazo de três meses. Uma caixa
de vinho foi entregue a Mrs. Clarke com os cumprimentos
de Mr. lllingworth e o desejo de que ele viesse a
poder servi-la no futuro, com uma cópia do recibo de
Wright no meio da palha: recebido de R. S. lllingworth,
a 2 de Janeiro de 1809, um aceite de letra a noventa
dias, no valor de quinhentas libras que, quando pagas,
o serão por conta da mobília entregue a Mrs. Clarke,
Westbourne Place, n.º 2.
266
O vinho veio a ser muito útil numa festa que ela
deu na véspera do dia de Reis a um grupo de amigos,
uma estranha mistura - bastante divertida, por sinal desde
Mr. Corri e alguns rapazes, Charley, claro, May
Taylor e o tio Tom, até McCullum, o editor, Dodd e
Wardle. Todos foram apresentados sob pseudónimos e
receberam um cálice de brande à entrada, o que provocou
um começo de festa ruidoso, e enquanto os rapazes
cantores faziam olhos a Charley e Dodd se sentava a
jogar às damas com o tio Tom, Corri, o professor de
música, nas suas sete quintas, era bombardeado pelo
coronel Wardle com perguntas acerca do destacamento
recrutado pelo coronel French em 1806.
As línguas soltavam-se... cabeças inclinavam-se...
ninguém se importava... o bolo foi trazido, a fava saiu
a McCullum.
- Quem são aqueles cavalheiros? - segredou Corri,
com a cabeça a ferver do brande e da excitação. Receio
que tenha deixado escorregar coisas, que tenha
sido indiscreto.
- Não se preocupe, eles juraram segredo - murmurou
a sua anfitriã. - São homens de grande integridade
e princípios. Aquele que está de pé, com a fava,
escreve artigos para a imprensa, mas para revistas da
Igreja e jornais diocesanos. O cavalheiro à sua esquerda,
é membro do Parlamento. De nome Mellish, representa
o Condado de Middlesex e é um dos mais respeitados
membros dos Comuns.
Ela limpou os olhos das lágrimas de riso e pensou
no verdadeiro Mr. Mellish - vira-o uma vez, de rosto
corado e pomposo, saindo furtivamente de St. James,
O professor de música estava de boca aberta, os olhos
esbugalhados.
- Foi tão amável da sua parte convidar-me... que
festa tão exclusiva.
Ela circulou para ver como decorria o jogo de damas.
O tio Tom, tendo batido Dodd duas vezes, estava muito
loquaz e revelava segredos reais às dúzias. Ela encheu-lhes
os copos e observou-os, sufocada.
- Calcei-os a todos durante anos - dizia o tio Tom
- e não só com sapatos e botas, posso assegurar-lhe
Cada um dos príncipes veio ter comigo à vez.
267
- Excepto - disse Dodd rigidamente - o Duque do
Kent.
- O príncipe Edward? - disse Taylor atabalhoadamente.
- Ora, era o pior, antes de ser apanhado pela
francesa. Tinha tanto medo de ser apanhado, que vinha
disfarçado, usando uma peruca emprestada e um chapéu
de cocheiro. Os irmãos costumavam alcunhá-lo de
Simon Pure. Dodd afastou o tabuleiro de damas e desculpou-se.
O tio Tom, de olhos vesgos, reparou no casaco
dele. Jesus! Os botões tinham as armas reais. O mundo
estava virado às avessas ou ele estava maluco? Ele
puxou o vestido da sua anfitriã.
- Quem é aquele tipo?
- Não se preocupe, é um tipo que negoceia em
roupa usada.
O tio Tom suspirou de alívio e acabou o brande.
- Entregou a minha mensagem ao Duque de York?
- perguntou-lhe ela.
- Entreguei, minha querida, mas lamento, não há
nada a fazer. Se se atrever a escrever uma palavra que
seja contra ele, vai parar à prisão.
O último esforço para um entendimento falhara.
Para a frente, então, para a batalha e para a vitória.
O método não interessava, desde que ganhasse. Tinha
que encontrar testemunhas que a corroborassem: O Dr.
Thynne, Mr. Knight, até Bill - que estava de novo a
caminho de casa, vindo de Portugal. Tinha que suplicar
a todos, induzi-los, ou até intimá-los, para que Ward l e
pudesse apresentar o caso até ao fim do mês. Alguns
protestariam e negariam qualquer conhecimento, mas
certamente amigos como Bill não o fariam. Wardle teria
que arriscar com os outros: se mentissem e protestassem,
tanto pior.
- Tenho que aparecer também nos Comuns? perguntou
ela.
- Com certeza - replicou ele; a senhora será a
principal testemunha.
Sofreu um baque no coração e ficou apreensiva. Era
tarde de mais para voltar atrás, a bola começara a rolar.
- Que perguntas me fará?
- Nada de alarmante. Ensaiaremos aqui em casa,
na sua sala de visitas, antes de ser chamada. Terá simplesmente
de dizer a verdade acerca das transacções.
268
- Mas o senhor não será o único a fazer-me perguntas.
E os membros do governo, que protegem o
duque? Não tentarão pregar-me uma rasteira e desacreditar
a minha história?
- Talvez, mas a senhora tem inteligência suficiente
para eles.
Ela não confiava nele. Não confiava em ninguém,
exceptuando talvez, Will, de espírito superior. Na noite
anterior à apresentação da moção nos Comuns, ele apareceu
para jantar, sozinho, para lhe incutir coragem.
- Quer dizer - perguntou ela, que vou precisar?
- De cada migalha.
Finalmente, a verdade. Ele olhou para ela a direito
Ela pegou no copo e sentiu as mãos ficarem frias.
- Se mantiver a cabeça fria, sobreviverá. A situação
é esta. Haverá três partidos na Câmara, mais ou
menos. Primeiro o Governo, solidamente por trás do
duque, embora alguns possam vacilar, especialmente
quando os factos forem apresentados. A oposição apoiará
as acusações e fará tudo o que puder para a ajudar. Se
Wardle estiver por nós, como penso que está, Francis
Burdett e Folkestone apoiá-la-ão. Os sisudos compõem
os restantes partidos, os moralistas e o resto, liderados
por Wilberforce. O facto de o duque ter uma amante, é
o suficiente para eles; colocar-se-ão ao lado da oposição,
para o destituir. Os tipos aos quais deve tomar
atenção, são: Spencer Perceval, líder da Câmara dos
Comuns e Vicary Gibbs. Este é o Procurador-geral da
Coroa. Eles tentarão desfazer as suas provas em farrapos,
não tanto por contestar as transacções em questão,
mas tentando descobrir qualquer pedacinho de lama
do seu passado, de maneira a desacreditá-la. Por outras
palavras. «Esta mulher é uma prostituta, uma mentirosa
do princípio ao fim e nós podemos prová-lo». Farão o
mesmo a William Dowler, embora não seja tão fácil
Arranjarão testemunhas para depor contra os dois,
todas elas subornadas por Adam. Agora já sabe. Coração
ao alto, e sorria... Vamos ganhar.
Ganhar o quê? O prazer duvidoso da vingança?
Desgraçar um homem antes venerado, amado e respeitado?
Para aplacar o orgulho ferido, a posição perdida?
- Lembre-se - murmurou Will -, do futuro das
suas crianças. Do seu irmão também - acrescentou.
269
Ele só tem a lucrar. Uma vez que o duque perca o
comando, o veredicto do Tribunal Militar será provavelmente
anulado e Charles será readmitido. Nunca vi um
rapaz com o aspecto dele. Sente que tem a vida perdida,
a não ser que o ajude.
Gentilmente, ele pegou na garrafa de vinho e encheu-lhe
o copo, observando o olhar de dúvida dela, de indecisão.
Onde estaria agora, pensou ele, no passado ou
no futuro? Escondendo-se por baixo de um carrinho de
fruta na viela, roubando as maçãs para Charley, uma a
uma? Ou em pé, na barra da Câmara dos Comuns, a única
mulher num mundo de homens?
De repente, ela sorriu e levantou o copo, atirando-o
depois por cima do ombro, indo cair em pedaços no
chão.
- Fiz isto uma vez antes - disse ela, em Fulham.
À saúde do clã Mackenzie. O jogo continua.
270
TERCEIRA PARTE
CAPÍTULO 1
NO dia 27 de Janeiro de 1809, o coronel Wardle,
membro radical por Okehampton, levantou-se na
Câmara dos Comuns para apresentar uma moção,
requerendo um inquérito à conduta de Sua Alteza Real
o Duque de York, comandante-chefe do Exército, com
respeito a promoções, concessão de comissões e o
recrutamento de soldados para o Exército.
-Acusar publicamente um homem de tão alto nascimento
como o comandante-chefe - disse ele - pode
parecer uma tarefa árdua e presunçosa. No entanto, por
mais que ela seja árdua e presunçosa, nada a me demoverá
do cumprimento do meu dever; e espero que ele
sinta, por mais alto que esteja, por nascimento e influência,
que a voz do povo ouvida através dos seus representantes
triunfará sobre a corrupção e que justiça será
feita a uma nação sofredora. Se a corrupção não for atacada,
e atacada com força, este país tornar-se-á presa
fácil para um inimigo inveterado.
«Espero que ninguém pense que tomei esta iniciativa
de ânimo leve. Tenho os pés bem assentes na terra e
estou preparado para provar essas reivindicações; e para
que elas sejam investigadas, peço a esta Câmara que
uma comissão seja empossada para investigar a conduta
de Sua Alteza Real, o Duque de York.»
Porta-vozes do Governo levantaram-se, protestando
veementemente, dizendo que o ilustre comandante estava
pronto para uma completa investigação às acusações
que lhe eram feitas. Suplicaram à Câmara que tomasse
18 - Mary Anne
273
em consideração se o modo como o exército fora preparado
e enviado mais tarde para Portugal, não fora um
sinal evidente dos superiores talentos militares do
Duque de York, refutando totalmente as acusações da
Oposição; e vincando, bem que era sua opinião que as
torrentes de grosseria que recentemente caíam sobre os
diversos ramos da família real, não eram mais que
uma vil conspiração contra a ilustre Casa de Brunswick.
(Gritos de apoiado! apoiado! de todos os lados da
Câmara). O debate terminou com uma sugestão de
Mr, Spencer Perceval, chanceler do Tesouro e líder da
Câmara, que a comissão para investigar o assunto, devia
ser uma comissão de toda a Câmara - uma moção que
foi aceite unanimemente. Foi ordenado que essa comissão
iniciasse funções daí a cinco dias, a 1 de Fevereiro.
O prazo permitiu o alastramento da notícia - as primeiras
páginas de todos os jornais contaram a história e
quando chegou o dia, a Câmara estava apinhada. Membros
da província, que pecavam pelo absentismo, empurravam-se
para arranjar lugares nos bancos habitualmente
vazios, as galerias estavam a abarrotar, os átrios superlotados.
O coronel Wardle começou, anunciando que apresentaria
provas que suportariam a sua acusação, referindo-se
a uma troca efectuada entre o tenente-coronel
Brook e o tenente-coronel Knight e chamando a sua
primeira testemunha, o Dr. Thynne. Um homem de certa
idade, alto, de cabelos grisalhos, levantou-se perante
a Câmara e testemunhou, dizendo que em 1805 apelara
para Mrs. Mary Anne Clarke (a quem visitara profissionalmente
nos sete anos precedentes) a pedido de
um velho amigo seu, Mr. Robert Knight, irmão de um
dos dois cavalheiros em questão. Fora autorizado a
dizer a Mrs. Clarke, dizia ele, que se ela usasse a sua
influência para que a troca se fizesse, receberia uma
compensação no valor de 200 libras. Concordou, em
resposta às perguntas do coronel Wardle, que o pedido
fora feito a ela somente porque estava sob a protecção
do Duque de York. O testemunho do Dr. Thynne foi
confirmado pelo próprio Mr. Robert Knight, que acrescentou
que, após a troca ter sido publicada oficialmente,
274
enviara a Mrs. Clarke, por um seu criado, 200 libras
em notas de banco.
A seguir veio a testemunha pela qual toda a Câmara
esperava - Mrs. Mary Anne Clarke. «Vestida como se
fosse para uma festa nocturna», dizia o Morning Post
no dia seguinte, com um vestido de seda azul-claro,
debruado a pele branca, de regalo branco, chapéu branco
e véu, de sorriso desconcertante, nariz levemente arrebitado
e olhos azuis cheios de vida, cativou totalmente
a Câmara.»
O coronel Wardle pôs-lhe as seguintes perguntas:
- Residiu numa casa pertencente a Sua Alteza Real
o Duque de York, em Gloucester Place, no ano de 1805?
- Sim.
- Vivia então sob a sua protecção?
- Sim.
- Foi-lhe feito algum pedido respeitante aos coronéis
Knight e Brook?
- Sim.
- Falou com o Comandante-Chefe sobre o assunto?
- Sim.
- Como o mencionou, esse assunto?
- Falei-lhe nisso e entreguei-lhe um pedaço de
papel que me fora dado pelo Dr. Thynne.
- Que compensação monetária recebeu?
- Duzentas libras.
- O Comandante-Chefe teve conhecimento da
quantia?
- Sim, mostrei-lhe as duas notas de cem. Penso
que enviei um dos criados à rua para mas trocar.
Mr. Beresford, pelo Governo, levantou-se para a
interrogar.
- Onde estava imediatamente antes de vir para a
barra desta Câmara?
A testemunha virou-se e fixou-o. Um riso abafado
percorreu a Câmara. Mr. Beresford corou. Levantando
ligeiramente a voz, repetiu a pergunta.
- Onde estava antes de vir para a barra desta
Câmara?
-Numa sala qualquer ao lado.
- Quem estava consigo?
275,
- O capitão Thompson, Miss Clifford, Mrs. Metcalfe,
o coronel Wardle.
- Teve alguma conversa com o Dr. Thynne?
- Sim, estava sentado ao meu lado .
Qual foi o assunto da conversa?
- As senhoras que estavam comigo.
- Que conversa foi?
- Não posso repetir. O assunto era indelicado.
Uma grande risada ecoou através da Câmara. Mr.
Beresford sentou-se. Sir Vicary Gibbs, o Procurador-geral
da Coroa, pôs-se de pé e, cruzando os braços, de olhos
no tecto, começou a questionar a testemunha. Os seus
modos eram tímidos, gentis, a Câmara sabia-o bem, e
acalmou-se para o ouvir, respeitosamente silenciosa.
-. Em que altura do ano foi publicado o pedido do
coronel Knight?
- Penso que foi em fins de Julho ou princípios
de Agosto. Sua Alteza Real estava de saída para Weymouth,
com o propósito de apadrinhar o filho de Lorde
Chesterfield.
- Quando mencionou pela primeira vez o assunto
ao coronel Wardle?
- Muito mais tarde, talvez um mês depois.
- A quem mais falou sobre o assunto?
- Não me lembro, talvez a alguns dos meus amigos.
- Tinha algum fim em vista quando despoletou
todo este caso?
- Com certeza que não.
- Alguma vez declarou que tinha razões de queixa
de Sua Alteza Real o Duque de York?
-Os meus amigos sabem que tenho.
- Não declarou que se Sua Alteza Real não acedesse
às suas exigências, o denunciaria?
- Não. Escrevi duas cartas a Mr. Adam. Talvez ele
as apresente.
- Havia ameaças em ambas?
- Não eram ameaças, eram solicitações.
- Acompanhou essas solicitações dizendo que se
não fossem cumpridas denunciaria Sua Alteza Real?
- Não me lembro. Seria melhor o senhor pedir as
cartas. O Duque mandou-me recado, dizendo que se eu
276
falasse ou escrevesse contra ele, pôr-me-ia no pelourinho,
ou enviar-me-ia para a Bastilha.
- Quem lhe levou essa mensagem?
- Um amigo particular do Duque de York. Um Taylor,
sapateiro em Bond Street.
- Enviou uma carta a Sua Alteza Real?
- Sim.
- Por quem a enviou?
-Pelo mesmo embaixador de Marrocos.
Uma explosão de riso veio de todos os lados da
Câmara. O Procurador-Geral levantou a mão, pedindo
silêncio.
-Qual é o nome do seu marido?
- Clarke.
- Qual o seu primeiro nome?
- Joseph, penso.
- Onde se casaram?
- Em Pancras. Mr. Adam pode dizer-lho.
A testemunha foi admoestada pelo presidente da
Câmara e avisada de que se persistisse em responder
de maneira insolente, expor-se-ia à censura da Câmara.
- Fez Mr. Adam acreditar que se tinha casado em
Berkbamsted?
- Não sei em que é que o fiz acreditar. Estava simplesmente
a rir-me dele.
- Apresentou o seu marido como sendo sobrinho
de Mr. Alderman Clarke?
- Ele disse-me que era. Nunca me esforcei por
perguntar fosse o que fosse acerca dele. Não me é nada,
nem eu a ele. Não o vejo há três anos, nem tenho ouvido
falar dele, desde que ameaçou processar o Duque.
- Que faz seu marido?
- Nada, limita-se a ser homem.
- Que profissão?
- Sem profissão. Vive com o irmão mais novo e
com a mulher de um outro irmão, é tudo o que sei dele.
- Alguma vez esteve em Tavistock Place?
- Sim.
- Em que sítio de Tavistock Place?
- Não me lembro.
- Viveu em mais algum sítio, além de e entre
Tavistock Place e Park Lane?
277
- Não sei. O Duque sabe. Fui a algumas das suas
casas.
- Quando conheceu pessoalmente o Duque?
-Não considero essa pergunta justa para comigo.
Tenho crianças para criar.
- Estava sob a protecção do Duque de York quando
viveu em Tavistock Place?
- Não, estava sob a protecção da minha mãe.
- Conhece um tal major Hogan, que escreveu um
panfleto contra o Duque?
- Não, não o conheço, nem nunca o vi. Taylor, o
sapateiro, disse-me que Mr. Greenwood dissera que eu
estava ligada a editores de panfletos, o que eu neguei,
como nego agora.
- Disse a Mr. Robert Knight que queria esconder
do Duque a transacção das duzentas libras?
- Não.
- Se alguém se apresentasse, testemunhando que
a senhora disse isso, declararia que esse alguém estava
a faltar à verdade?
- Certamente.
-Tem alguma razão para querer ocultar do Comandante-Chefe
a visita do Dr. Thynne a propósito de Mr.
Knight?
- Nunca pretendi ocultar a Sua Alteza Real, as
visitas desse senhor ou de qualquer outro cavalheiro.
O Procurador-Geral da Coroa encolheu os ombros e,
fazendo um gesto de desagrado com as mãos, deu
a palavra ao líder da Câmara.
- Quanto tempo decorreu entre a troca e o cumprimento
da promessa de Mr. Knight?
- Imediatamente, no mesmo dia.
- E alega que foi no mesmo dia que falou da troca
ao Duque de York?
- Eu não falei ao Duque de York acerca da troca,
um criado é que fez isso.
- Recebeu em qualquer outra ocasião dinheiro por
apelar ao Duque de York em nome de oficiais procurando
promoção?
A testemunha suspirou, olhou para o Líder e disse:
- Pensei que depois de falar acerca do assunto de
Knight, seria dispensada.
278
Foi-lhe permitido finalmente retirar-se e o líder da
Câmara disse que Mr. Adam podia prestar declarações.
Num discurso que durou vinte minutos, aquele cavalheiro
disse à Câmara que nos fins de 1805 chegara ao
seu conhecimento que Joseph Clarke pretendia pôr uma
acção de adultério ao Duque de York. Estando ao serviço
de Sua Alteza Real há mais de Vinte anos, julgou seu
dever fazer averiguações, no decurso das quais encontrou
razões que o levaram a acreditar que a conduta de
Mrs. Clarke não fora correcta, que aceitara subornos e
pensou ser seu dever informar o Duque de York. Fora
uma tarefa ingrata, não estando Sua Alteza Real inclinado
a acreditar que houvesse algo errado. Mas a evidência
era irrefutável e pouco depois, Sua Alteza Real
decidia-se a separar-se de Mrs. Clarke e Mr. Adam fora
encarregado de anunciar a decisão real. A sua conversa
com ela fora breve e nunca mais a vira até à presente
data.
Um membro levantou-se para protestar veementemente
pelo facto de uma testemunha com o carácter de
Mrs. Clarke estar a ser interrogada na Câmara sobre a
conduta da Família Real.
Mr. Perceval replicou, dizendo que, por mais desagradável
que o assunto fosse, devia ser investigado até
ao fim.
- A questão que a Câmara deve considerar - continuou
-, é se Sua Alteza Real tinha conhecimento das
circunstâncias em que o dinheiro era entregue, tal como
ela diz. O caso será anulado se se provar o descrédito de
Mrs. Clarke. Ela declarou ser viúva, quando o marido
estava e ainda está vivo. Disse a Mr. Adam que casara
em Berkhampsted, quando na realidade, se casou em
Pancras. Tenho a certeza que as acusações serão retiradas
devido a falso testemunho.
O processo foi, então, adiado.
Mary Anne deixou a Câmara acompanhada pelo seu
irmão, capitão Thompson e pelas duas senhoras com
quem chegara. Foi ajudada a subir para a carruagem por
Lorde Folkstone, que foi muito solícito e que expressou
uma grande preocupação pela sua saúde. Uma multidão
cercou-os, rostos inquisitivos espreitavam pelas janelas
e demorou algum tempo até que se conseguisse espaço
para os cavalos passarem.
279
Uma vez em Westbourne Place, ela aceitou umas
gotas para dormir da parte do Dr. Metcalfe, o seu médico,
e subiu para o seu quarto, seguida pelo irmão e
a irmã Isobel.
- Os brutos - explodiu Charley -, a espremerem-te
como se fosses uma vulgar criminosa. Que tem
que ver a data em que casaste, em que igreja e onde
viveste, com a presente investigação? Porque não mandaste
o Procurador-geral da Coroa para o inferno?
Ela atirara-se para cima da cama e fechara os olhos.
- Eu mandei - disse ela -, o mais cortesmente
que pude. Não te preocupes, sei com o que tenho de
lutar. Will Ogilvie avisou-me. Foi pior do que eu pensava,
mas não há nada a fazer. Isobel, arranja-me um copo de
água, por favor.
Isobel arranjou-lho, tirou-lhe os sapatos e ajoelhou-se
para acender a lareira e aquecer o quarto.
- Não se preocupem comigo, queridos. Vão-se deitar.
Devem estar tão cansados como eu - possivelmente
mais. Podias ver se há algumas cartas para mim, Charley.
- Só havia uma. Tenho-a aqui.
Entregou-lhe a carta com carimbo de Tilbury. Fora
enviada para Bedford Place e reenviada depois. Era a
letra de Bill. Ela amarfanhou-a na mão.
- Eu fico bem. Digam à Martha para não me incomodar.
Eles saíram do quarto e ela abriu a carta.
Minha querida, onde estás e que se passa, por
amor de Deus? Recebi a tua carta em Lisboa, antes do
Natal, na qual pretendes desmascarar o D... Enlouqueceste?
Peço-te que não ouças maus conselhos. Estarei
em Londres na quinta-feira, no Hotel Reid.
Quinta-feira. Naquele mesmo dia. Olhou para o relógio,
na pedra por cima da lareira. Precisava de ir ter com
ele imediatamente e antecipar as notícias. No dia seguinte
seria tarde de mais - ele leria os jornais e formaria
a sua própria opinião sobre o assunto, talvez a
condenasse e se recusasse a imiscuir-se.
Levantou-se da cama, pegou numa capa, foi em bicos
de pés até à porta e abriu-a. Estava tudo calmo, a casa
280
estava na obscuridade. Isobel e Charley haviam ido para
os seus quartos. Deixou um recado na almofada para
Martha e desceu silenciosamente as escadas.
Chamou uma carruagem de aluguer na esquina e
indicou a morada do Hotel Reid. Era quase meia-noite
quando atingiu St. Martins Lane. O quarteirão estava
quase deserto; apenas alguns retardatários deambulavam
ainda pelo local.
O proprietário do hotel, Mr. Reid, estava a conversar
com alguns hóspedes no bar. Reconheceu-a imediatamente
e foi ao seu encontro, sorrindo. Graças a
Deus, ele não a ligou aos mexericos de que falavam
os seus hóspedes - ela apanhou as palavras «o Duque»
e «prostituta mentirosa». Mr. Reid conhecia-a apenas
como «a senhora de Mr. Dowler».
-Vem à procura do seu cavalheiro? - perguntou
ele. - Foi para cima - acabou de jantar há cerca de
duas horas. Ficou satisfeito por ter comido um pouco
de cozinha inglesa. Está com bom aspecto. Sam, leva a
senhora ao número 5.
O criado levou-a ao primeiro andar e bateu à porta.
Ela abriu-a e entrou.
Ele estava de joelhos no chão ao lado do seu malão,
de mangas arregaçadas até aos cotovelos e ao vê-lo, ela
sentiu uma ansiedade conhecida, familiar, dependente.
Fechou a porta atrás de si e chamou pelo nome dele.
- Bill...
- Ora... Mary Anne!
Tanto para deslindar, tanto para explicar - toda a
história dos últimos nove meses. Ele sabia do veredicto
do Tribunal Militar, mas não da sequência daí advinda
- as cartas para Mr. Adam, a noite da prisão, onão-saber-para-onde-se-virar-por-dinheiro,
as semanas de preocupação,
o encontro em Novembro com Wardle e o
major Dodd e a decisão final de misturarem os problemas
dela com os deles.
- Cometeste um erro, um erro terrível.
Mas ela interrompeu-o.
-Que mais poderia eu fazer, em nome de Deus?
Não estavas aqui para me aconselhar. Nunca me senti
tão só, tão abandonada.
- Eu avisei-te, há quatro anos...
281
- Eu sei... eu sei... De que serve recordarmos isso
agora? O mal está feito. Se o Duque ao menos tivesse
feito um acordo decente, nada disto teria acontecido,
mas como ele não o fez, não tive outra solução senão
fazer o que fiz hoje - testemunhar nas acusações feitas
contra ele. É uma tortura, é um inferno e uma danação,
mas não há outra solução.
- Estás à espera que eu te ajude?
- Tens que me ajudar. Sem ti, estou perdida. Não
nos podemos fiar em qualquer das outras testemunhas.
Wardle disse-me esta noite, antes de deixarmos a Câmara,
que muitas das pessoas envolvidas negarão tudo
- estão aterrorizadas, não se querem meter em sarilhos.
Lembras-te de Sandon, o amigo do coronel French?
É suposto ser nossa testemunha, mas parece que vai
mudar de opinião. Assim como um agente chamado
Donovan, com quem eu pensava vir a contar, depois de
todo o dinheiro que recebeu de mim, no passado. Bill
querido, tu vais... tu tens que ficar ao meu lado.
Havia angústia na voz dela e lágrimas nos olhos.
Ele tomou-a nos braços e apertou-a.
- Falaremos disso amanhã.
- Não, esta noite.
- Mas, já é tarde. Preciso de chamar uma carruagem,
para te levar a casa.
- Eu não vou para casa. Fico aqui contigo.
- Não é aconselhável...
- Oh, meu Deus, não me dês conselhos... Não me
queres?
O porteiro recebeu uma mensagem, que entregou
depois a Samuel Wells, o criado:
Não perturbar, sob pretexto algum, o número 5,
antes de amanhecer. Pequeno-almoço para dois, às oito.
No dia seguinte, o coronel Wardle recebeu a informação
de que Mr. William Dowler, recém-chegado de
Lisboa, estava preparado para testemunhar pela acusação
e que esperava encontrar-se com ele no domingo, em
Westbourne Place...
Que diriam eles a Bill, pensou Mary Anne, e porque
responder a tantas perguntas lhe torturava a mente,
282
conduzindo-a instantaneamente ao subterfúgio? Não tinha
nada a temer das acusações. Aceitara os subornos - era
conhecido e admitira a culpa. Não se importava de ser
interrogada sobre isso; mas quando o Procurador-geral
lhe tocasse no passado, um sentimento de encurralamento
apoderar-se-ia dela imediatamente, uma sensação
de que estava encostada a um canto, sem poder escapar.
Tinha medo de ser forçada a um reconhecimento da sua
vida passada, sobre os seus amantes, aparecendo tudo
em letras gordas nos jornais e correndo o risco assim
de as crianças virem a saber tudo.
Pobre Bill, possivelmente, também se sentia culpado,
lembrando-se do seu pai, em Uxbridge, sempre
tão envergonhado dos subornos e das nomeações que
deviam agora ser expostos para suporte da acusação.
Com um horror súbito, ela sentiu que não poderia enca-
rar aquilo tudo e quando Will Ogilvie a visitou na
segunda-feira à tardinha, pediu-lhe que a tirasse da
cidade.
- Perdi a coragem. Não posso continuar.
Por um momento, ele não respondeu. Depois, atra-
vessou a sala e plantou-se defronte dela.
- Sua cobarde ordinária - disse ele, e esbofeteou-a.
Uma raiva súbita acometeu-a. Empurrou-o para trás.
Ele riu-se e cruzou os braços. Ela começou a chorar.
- Muito bem, então choramingue - disse ele -,
volte para a sarjeta. Rasteje como um rato para o esgoto
e esconda-se. Eu pensava que você era uma cockney
(povo londrino) e que tinha algum orgulho.
- Como se atreve a chamar-me cobarde?
-Você é uma cobarde. Nasceu numa viela e cresceu
nas ruas de Londres. No entanto, não tem coragem
de se levantar em defesa da sua classe. Tem medo,
porque o Procurador-geral do Rei, cuja função é ser
desagradável, lhe faz perguntas. Tem medo, porque os
Tories lhe chamam prostituta. Tem medo, porque é mais
seguro chorar do que lutar e porque a Câmara é composta
de homens e você é uma mulher. Fuja, então, se
quiser - pode fazer o que muito bem lhe apetecer.
Talvez lhe interesse saber que ficará bem acompanhada.
283
O Duque de Kent acaba de fazer um discurso na Câmara
dos Lordes. Sugiro que vá e se junte a ele, em Hailing.
Atirou um exemplar de jornal para o chão e saiu
da sala. Ela ouviu a porta da frente bater. Apanhou-o e
leu as notícias que viriam na imprensa no dia seguinte.
Câmara dos Lordes, 6 de Fevereiro de 1809. O Duque
de Kent achou por bem chamar a atenção para o facto
de que era suposto por muitos ele ter desavenças com
o seu Real Irmão, inferindo daí que ele apoiaria as
acusações feitas ao Comandante-Chefe. Sejam quais
forem as diferenças de âmbito profissional entre ambos,
declara o maior respeito pelo seu Real Irmão, dizendo-se
incapaz de tal conduta. Em vez de, portanto, apoiar
tais acusações, fará tudo o que estiver ao seu alcance
para as repelir. Neste assunto, não há diferenças de
opinião na sua família, cujos membros se associam nas
declarações por ele expressas.
Atirou fora o jornal e foi até à janela, mas Will
Ogilvie já se fora embora. Chamou Martha.
- Se o coronel Wardle vier, fui-me deitar. Mas
diz-lhe que estarei na Câmara dos Comuns amanhã, à
hora que ele desejar chamar-me.
Simon Pure podia retractar-se. Mary Anne, não.
284
CAPÍTULO 2
NA terça-feira seguinte, quando a investigação foi
retomada, o coronel Wardle declarou que procederia
à segunda acusação, respeitante ao recrutamento
do coronel French e chamou o capitão Sandon.
Como temera, a testemunha negou ter falado sobre o
assunto com Mrs. Clarke: o recrutamento, disse ele, fora
inteiramente combinado entre aquela senhora e o coronel
French, ele não tivera nada que ver com o assunto.
Pressionado pelo coronel Wardle, admitiu, no entanto,
que pagara várias vezes oitocentas libras, ou talvez
oitocentas e cinquenta, como suplemento aos pagamentos
originais que o coronel French fizera àquela senhora e
ao seu agente, Mr. Corri.
Nunca acreditara, continuou, que Mrs. Clarke tivesse
muita influência junto do Comandante-chefe e nunca
supusera que o requerimento para o recrutamento seria
recusado através das vias oficiais, mas o coronel French
pensara que o assunto seria acelerado, dando dinheiro
a Mrs. Clarke. Mrs. Clarke fora muito discreta acerca
de todo o negócio e, sempre que a via, pedia-lhe a
maior precaução, para que o dinheiro nunca chegasse
a ouvidos oficiais e muito particularmente aos ouvidos
do Duque de York.
O capitão Sandon apeou-se então e Mr. Domenigo
Corri foi chamado. O professor de música, sorrindo e
cheio de confiança, cabelo frisado para a grande ocasião,
relanceou o olhar pela Câmara, na esperança de ver
caras famosas; foi chamado à atenção e questionado
pelo coronel Wardle.
285
- Lembra-se de apresentar o capitão Sandon a
Mrs. Clarke?
- Nunca o apresentei; ele apresentou-se sozinho.
- Tem conhecimento do negócio entre eles?
- Foi tudo acordado entre eles e no mês de Junho
foi-me enviada uma nota de duzentas libras, para o
botequim de Cannon.
- Não tem conhecimento de mais nada?
- Várias pessoas vieram ter comigo em busca de
cargos, mas eu passei-os a Mrs. Clarke. Depois disso,
não soube de mais nada e não tratámos de qualquer
outro assunto, excepto a música.
- Destruiu alguns papéis desde que este caso foi
trazido a esta Câmara?
- Destruí um papel no mês de Julho desse mesmo
ano, depois do negócio com o capitão Sandon. Fui um
dia a casa de Mrs. Clarke e ela disse-me que houvera
uma zaragata terrível, que o Duque estava zangado e
desejava que eu queimasse todos os papéis e cartas
que estivessem em meu poder.
- Ela explicou porque estava o Duque zangado?
- Sim; disse-me que o Duque estava a ser observado
pelo coronel Gordon e que Mr. Greenwood também
a espiava a ela; estava numa situação tal, que não se
atrevia a fazer fosse o que fosse. Ela estava de saída
para Kensington, com a carruagem à porta e disse: «Por
amor de Deus, vá para casa e queime esses papéis.»
Com a pressa, pouco mais se disse.
Mr. Sheridan, membro irlandês, levantou-se para
questionar a testemunha.
- Recebeu algumas cartas de Mrs. Clarke, desde
então?
- Sim, este ano recebi um convite no sexto dia
do mês, para a ir ver. Desejava que eu fosse jantar a
casa dela, o que fiz.
- Houve alguma conversa acerca da transacção de
1804?
- Sim, até fiquei um pouco surpreendido, porque
pouco depois do jantar, quando ela mandou vir o bolo-rei,
chegaram alguns cavalheiros e começou-se a falar
286
neste assunto do capitão Sandon. Eu repeti cada palavra,
tal como o estou a fazer agora.
- Mrs. Clarke aludiu a qualquer outra transacção
de natureza similar?
- Não, o resto da noite foi passada em convívio
coloquial e divertimento. Saí pouco depois da meia-noite,
deixando os cavalheiros lá a beber.
- Sabe quem eram esses cavalheiros?
- Não tenho a certeza. Havia um de nariz comprido,
um amigo de Mrs. Clarke e um escritor de um jornal
qualquer, eles mencionaram o nome, mas já não me
lembro de qual, ela disse que era obrigada a tê-lo para
sua protecção e outro cavalheiro que parecia ser advogado
e que se riu muito, quando eu lhe disse que parecia
um advogado.
- Quem era o amigo de Mrs. Clarke?
- Devo dizer, já que ela me pediu segredo?
Foi exigido à testemunha que respondesse à pergunta,
escapando à atenção da Câmara que o coronel
Wardle, que questionara a testemunha em primeiro lugar,
parecia sofrer de dor de dentes e segurava um lenço
em frente da boca, tendo-se sentado longe dos olhares,
talvez sofrendo.
Mr. Corri replicou:
- Bem, ela disse-me que era Mr. Mellish, membro
do Parlamento por Middlesex, que se encontra, suponho,
nesta Câmara.
Uma exclamação de espanto saiu de todos os lados
da Câmara, logo seguida de risadas altas e zombeteria,
vindas da Oposição. Um cavalheiro forte, sentado na
bancada do Governo, ficou vermelho e abanou a cabeça
energicamente. Foi dito à testemunha que descesse.
Mr. Mellish, o cavalheiro forte, levantou-se e disse que
talvez não fosse correcto, mas desejava que um cavalheiro
qualquer o interrogasse.
Perguntaram-lhe se estivera presente em casa de
Mrs. Clarke, em Janeiro. Retorquiu que nunca em toda
a sua vida estivera em casa de Mrs. Clarke, nem nunca
a vira, senão naquela Câmara.
A pedido de Mr. Mellish, Mr. Corri foi novamente
chamado e o venerável membro do Parlamento aproxi-
287
mou-se da barra para permitir à testemunha uma completa
visão da sua pessoa.
Mr. Mellish disse à testemunha:
- Alguma vez me viu em casa de Mrs. Clarke?
Mr. Corri retorquiu:
- Não, não é o senhor. Eu somente repeti o que
ela me disse. A pessoa que eu vi, tinha um tom de pele
mais escuro que o seu. Se ela me mentiu, não posso
fazer nada.
Houve grandes risadas e aplausos, conforme o venerável
membro por Middlesex, com a sua reputação livre
de qualquer suspeita, se sentava de novo na bancada do
Governo.
O coronel Wardle, já recuperado da sua dor de
dentes, ergueu-se então, para chamar Mr. William Dowler
à barra. A testemunha entrou, de expressão grave, mas
calma. Declarou que acabara de regressar de Lisboa
em despacho oficial, que conhecia Mrs. Clarke há vários
anos e que se recordava de ter visto o coronel French
e o capitão Sandon em Gloucester Place, enquanto ela
estivera sob a protecção do Duque de York.
Ao lhe perguntarem se se recordava de qualquer
conversa com o coronel French acerca do assunto do
recrutamento, replicou:
- Vi-o uma vez em casa de Mrs. Clarke e fui informado
que ele estava lá por causa de uma ordem de
serviço. Perguntei a Mrs. Clarke qual a natureza do
assunto e lembro-me perfeitamente de que tomei a liberdade
de dizer que desaprovava ou achava extremamente
errado. Isso, depois de o coronel French ter saído.
Pagara a Mrs. Clarke quinhentos guinéus, parte da
quantia total prometida.
- Que resposta deu Mrs. Clarke à sua admoestação?
-Replicou que o Duque de York estava tão aflito
com falta de dinheiro, que ela não tinha coragem de
lho pedir e era aquela a única maneira de poder manter
a sua casa. Ficou ofendida por eu ter tomado essa liberdade
e deixei de a ver ou de ter notícias dela, não sei
por quanto tempo.
- Em que situação se encontra agora?
288
- Tenho tomado conta, ultimamente, do Departamento
de Contas da Comissão, em Lisboa.
- Como obteve o seu cargo?
- Comprei-o a Mrs. Clarke.
Um assobio soou algures na Câmara. Mr. Dowler
corou.
- Pagou algum dinheiro a Mrs. Clarke pelo benefício
que recebeu?
- Dei-lhe mil libras.
- Fez algum pedido para essa colocação a mais
alguém, além de Mrs. Clarke?
- A ninguém.
-Acha que Mrs. Clarke obteve a sua colocação
através do Duque de York?
- Certamente.
Contra-interrogado pelo Procurador-geral, Mr. Dowler
disse que a própria Mrs. Clarke lhe sugerira arranjar-lhe
ela própria o cargo - a proposta não viera dele; e
que o seu pai a princípio não dera o seu consentimento,
mas mais tarde concordara, já que o seu filho confiava
em que o assunto não viria a público. Negou repetidamente
que o seu pai tenha apelado nesse sentido, junto
de amigos; era sua firme e inabalável convicção que
Mrs. Clarke obtivera a nomeação através do próprio
Duque de York.
Mr. Sheridan, membro irlandês, levantou-se finalmente,
para questionar a testemunha.
- Se, por respeito a Mrs. Clarke, achou por bem
protestar contra a transacção com o coronel French em
1804, porque a subornou, então, em 1805, com mil libras,
para lhe arranjar um cargo a si?
- Porque ela estava, então, particularmente desesperada
por dinheiro e porque a nomeação ficaria fechada
no meu coração, não havendo nada, senão este inquérito,
para me obrigar a falar. O carácter do Duque de York e
o de Mrs. Clarke nunca sofreriam, não fora a infelicidade
que eu tenho agora de testemunhar perante esta Câmara.
- Então, a Comissão fica a saber que a sua única
razão para protestar com Mrs. Clarke não foi pela impropriedade
do acto, mas pelo risco da descoberta?
- Por ambas as razões. Declarei que as transacções
não lhe dariam nada senão problemas e ansiedade
e aconselhei-a a receber um pagamento regular do Duque
19 - Mary Anne
289
de York, em vez de se imiscuir em tais assuntos. Ela
disse-me que ele não tinha tal dinheiro.
- Recorda-se da primeira vez em que deu dinheiro
a Mrs. Clarke?
- Concedi-lhe várias somas de dinheiro em diferentes
ocasiões.
- Tem alguma garantia dessas somas?
- Nenhuma.
- Foram empréstimos concedidos a Mrs. Clarke?
- Sim.
- Não tomou nota das quantias?
- Não.
- Encontrou-se com Mrs. Clarke depois de chegar
de Portugal?
- Sim.
- Quando esteve com ela?
- Estive com ela no domingo.
- E depois disso?
- Agora mesmo, na sala das testemunhas.
- Estava alguém com ela?
- Ninguém, senão uma jovem senhora ou duas.
- Que se passou entre os dois, quando a visitou
no domingo?
- Lamentei a situação em que a encontrei e ela
disse que o Duque de York é que a levara a essa situação,
não lhe pagando a pensão anual.
- Viu Mrs. Clarke antes de ir para Portugal, durante
o ano passado?
- Sim.
- Frequentemente?
- Não posso afirmar categoricamente qual a fre-
quência.
- Recorda-se da última vez em que lhe deu dinheiro?
- Na verdade, não.
- Deu-lhe algum dinheiro depois da sua nomeação?
- Sob palavra, não me recordo, se lhe dei, foi uma
soma insignificante.
Por fim, foi permitido a William Dowler que saísse,
tendo testemunhado durante mais de uma hora.
Mr. Huskisson, que fora secretário do Tesouro
em 1805, declarou nessa ocasião não se recordar da
nomeação de Mr. Dowler e pensava que nem a mais
diligente busca aos arquivos do Tesouro permitiria encon-
290
trar rasto de como a nomeação fora feita. Sentou-se, no
meio de murmúrios e vaias da Oposição.
De acordo com Mr. Perceval, líder da Câmara, Mrs.
Clarke foi chamada a depor, com o argumento de que
deveria ser interrogada nessa mesma noite, e sem
demora. Depois de um intervalo, o Presidente declarou
que recebera uma mensagem de Mrs. Clarke - estava
tão indisposta e exausta por esperar, dissera, que desejava
ser desculpada por não depor. Houve um grito geral
de «Chamem-na e tragam-lhe uma cadeira.» Um considerável
espaço de tempo decorreu até que ela compareceu
na barra. Quando o fez, disse:
- Estou tão exausta por esperar há mais de oito
horas, que não me sinto capaz de ser interrogada esta
noite.
Houve gritos na bancada do Governo: «Continue...
continue...» O Presidente disse:
- Tem aí uma cadeira, Mrs. Clarke.
Ela respondeu:
- Isso não me retira a fadiga. Estou cansada, física
e mental mente.
Foi-lhe então permitido sair, no meio de grande
barulho, os membros do Governo dizendo que ela devia
ser interrogada imediatamente e os membros da Oposição
sugerindo que seria mais humano adiar o interrogatório
para uma noite posterior. Mr. Canning encerrou
a discussão com a sugestão de que Mr. Dowler devia
ser interrogado para se saber se comunicara com Mrs.
Clarke depois de ter sido interrogado. Mr. Dowler foi,
portanto, novamente chamado e interrogado.
- Depois de deixar a barra, comunicou com Mrs.
Clarke?
- Só para lhe oferecer um refresco, já que ela não
se sentia bem. Arranjei um copo de vinho com água, que
coloquei a seu lado.
- Comunicou-lhe o que se passou aqui durante o
seu interrogatório?
- Não.
-Quanto tempo esteve na sala com Mrs. Clarke?
- Cinco ou dez minutos. Não se sentia bem e havia
vários cavalheiros à volta dela, perguntando-lhe se desejava
tomar um refresco.
291
- Estava avisado de que não devia comunicar, sob
pretexto algum, com Mrs. Clarke?
- Assim pensava.
- E agiu inteiramente de boa fé?
- Sim.
A Câmara levantou-se então e foi ordenado à comissão
que se reunisse de novo na terça-feira seguinte.
Não houve nessa noite Hotel Reid para Mrs. Clarke,
nem carruagem alugada para St. Martins Lane, apenas
cama em Westbourne Place, numa exaustão total. Pronta
e obrigada a estar presente às três horas para a provação,
esperara ser chamada imediatamente, mas as
horas arrastaram-se e a tarde transformara-se em noite.
Nem o vislumbre de Few, o leiloeiro, que vivera em
Bloomsbury, ajudara; nem o de Bill. Bill estivera ausente
uma eternidade e quando ela pediu a um deputado que
estava de serviço, que fosse saber o que se passava
ele disse:
- Eles estão a remexer na lama. Com quem estava
acompanhada quando a conheceu, onde e quando.
French e O recrutamento pareciam ter sido esqueci
dos. A única coisa que interessava aos inquisidores, era
vasculhar o passado, descobrir segredos e Bill, que comprara
o cargo para a ajudar, detestando o que fazia,
achando-o vergonhoso, era agora, para a ajudar novamente,
forçado a revelá-lo.
Quando ele saiu da Câmara, tinha um ar extremamente
perturbado e parecia anos mais velho, ao dizer-lhe:
- Preferia abrir mão de todo o dinheiro que possuo,
a ter de voltar de novo a este lugar. - Antes de deixar a
Câmara nessa noite, foi dito a Mary Anne que até o
inquérito estar terminado, não deveria falar com qualquer
testemunha. Bill não poderia ir a sua casa, não o
poderia ver, não poderia haver qualquer comunicação
entre ambos. Graças a Deus pelo adiamento de quinta-feira,
graças a Deus por poder deitar-se, de cortinas
cerradas, de olhos tapados, com a cabeça na almofada
e um tabuleiro com um caldo de carne trazido por Martha.
Nem Dodd, nem coronel Wardle, ninguém para a afligir.
Mesmo Charley tivera o bom senso de ficar afastado.
Deus! Como ela odiava o mundo, repentinamente
hostil, o seu nome aviltado nos jornais, apontada e
292
escarnecida. Os rapazes da rua já escreviam pasquinadas
na porta da frente e alguém atirara um tijolo, partindo
uma janela.
- É ignorância, minha senhora - disse Martha. -
Eles não sabem que a senhora está a lutar por eles, tentando
livrar o país de tiranos viciosos.
Em nome dos céus, que andara Martha a ler? The
Peoples Globe? Ou Truth for The Underdog? (A Verdade
para os Oprimidos). Fechou os olhos e enterrou a cara
na almofada.
Não podia escapar. Na quinta-feira de novo, às três
da tarde.
293
CAPÍTULO 3
NA quinta-feira, depois dos preliminares, o coronel
Wardle propôs:
- Que Mrs. Mary Anne Clarke seja apresentada
à barra.
Foram dadas ordens para que ela entrasse, mas
houve alguma demora. Quando ela entrou, parecia em
extrema dificuldade e houve um grito geral de «Uma
cadeira, uma cadeira», presumindo os membros que ela
não estava bem. No entanto, não se sentou, mas, olhando
para a bancada do Governo, disse:
- Tenho sido muito insultada pelo facto de vir a
esta Câmara. Foi-me impossível sair da minha carruagem
por causa da multidão encostada às janelas, e o
mensageiro não me pôde proteger. Pedi ao Sergeant-at-Arms
(sargento-de-dia) para me conduzir ao átrio, daí
o atraso.
Foram-lhe concedidos alguns minutos para se recompor
e então o coronel Wardle começou a interrogá-la
sobre o caso de recrutamento do coronel French. Ela
replicou que tanto ele como o capitão Sandon a haviam
pressionado continuamente com pedidos e que passara
sempre ao Duque as notas do coronel sem sequer se
dar ao trabalho de as ler - Sua Alteza Real, compreendia-as,
acreditava ela. Vendo que Mary Anne estava ainda
agitada devido à provação no Palace Yard (entrada da
Câmara dos Comuns), o coronel Wardle fez uma pausa,
294
tencionando poupá-la, mas Mr. Croker, pelo Governo,
levantou-se e perguntou-lhe:
- Há quanto tempo conhece Mr. Dowler?
- Nove ou dez anos, não sei exactamente.
- Deve-lhe algum dinheiro?
- Nunca recordo as minhas dívidas a cavalheiros.
- Enuncie os nomes de todos os homens que conheceram
Mr. Corri em sua casa, no mês de Janeiro.
- Se eu fizesse isso, nunca mais teria a visita de
um homem: decente.
A explosão de riso que ecoou na Câmara pareceu
acalmar a testemunha, que levantou a cabeça e fixou
Mr. Croker.
Vários membros se levantaram à vez, para a interrogar
sobre a casa de Gloucester Place, quem a pagava,
quando fizera ela o primeiro pedido ao duque para algo
relacionado com promoções militares, se confiara na sua
memória em tais ocasiões, ou se anotara os pedidos em
qualquer papel.
- Se era um simples pedido, confiava na minha
memória ou na de Sua Alteza Real, que era muito boa,
se eram muitos, entregava-lhe uma lista, não escrita
por mim. Lembro-me uma vez de uma, bem longa.
- Essa lista existe, agora?
- Não. Eu tinha-a pregada na cabeceira-da-cama e
Sua Alteza Real levou-a com ele, uma manhã. Vi-a uma
vez algum tempo depois, no seu bloco de notas particular.
Risos irromperam da bancada da Oposição.
- Recorda-se de quem recebeu essa lista particular?
- Penso que do capitão Sandon ou de Mr. Donovan,
mas ambos estão preparados para o negar.
- Recebeu muitas cartas com pedidos?
-Centenas e centenas.
- E mostrou essas cartas, contendo promessas de
dinheiro para si, a Sua Alteza Real?
- Ele estava ao corrente de tudo o que eu fazia.
Aproveitando a atrapalhação momentânea do
Governo, o coronel Wardle chamou a sua testemunha
seguinte, Miss Taylor, que, tímida, corada e extrema-
295
mente nervosa, se chegou à barra, em lugar de Mrs
Clarke.
O coronel Wardle perguntou-lhe:
- Costumava visitar habitualmente Gloucester Place
quando Mrs. Clarke estava sob a protecção do Duque?
- Muito frequentemente.
- Alguma vez ouviu o Duque de York falar com
Mrs. Clarke acerca do recrutamento do coronel French?
- Apenas uma vez.
- Relate o que se passou então, por favor.
- As palavras do Duque foram, se bem me recordo:
«Estou permanentemente preocupado com o coronel
French. Está sempre a querer mais qualquer coisa para
seu benefício.» E então, virando-se para Mrs. Clarke,
disse: «Como se comporta ele contigo, querida?» ou
umas palavras meigas parecidas, que ele costumava utilizar,
e ela replicou: «Mais ou menos, não muito bem.»
Foi tudo o que ela disse.
- Foi esse o conteúdo de toda a conversa?
- O Duque disse então: «O senhor French tem que
se lembrar quem é, ou tramo-o, mais o seu recrutamento.»
Foi a expressão que ele usou.
O coronel declarou então que não tinha mais perguntas
para fazer à testemunha. Ela voltou-se para sair,
mas o Procurador-geral levantou-se. Um murmúrio de
simpatia pela jovem testemunha veio da bancada da
Oposição.
A voz que fora tão suave com Mrs. Clarke, tornou-se
então, rude e abrupta com Miss Taylor.
- Há quanto tempo conhece Mrs. Clarke?
- Há cerca de dez anos, talvez um pouco mais.
- Onde a conheceu?
- Numa casa em Bayswater.
- Com quem vivia em Bayswater?
- Com os meus pais.
- Quem são os seus pais?
- O meu pai era um cavalheiro.
- Com quem vive agora?
- Com a minha irmã.
- Onde vive?
- Em Chelsea.
- Em casa alugada ou própria? ,
- Em casa própria.
296
- Tem alguma profissão?
- Se possuir um colégio interno é uma profissão.
- Quem vivia com Mrs. Clarke em Craven Place?
- O marido, quando a conheci.
- Quem viveu com ela, depois?
- Sua Alteza Real, o Duque de York.
-Teve conhecimento de mais algum homem a
viver com ela?
- Que eu saiba, não.
- É aparentada com ela?
- O meu irmão é casado com a irmã dela.
- Que fazia o marido dela?
- Sempre pensei que era um homem rico.
- Viveu com ela em Tavistock Place?
- Nunca vivi com ela.
- Nunca dormiu lá em casa dela?
- Sim, ocasionalmente.
- Acha que ela era uma mulher decente, modesta,
enquanto viveu em Tavistock Place?
- Ela vivia com a mãe, nunca vi nada em contrário.
A testemunha estava lavada em lágrimas. Murmúrios
de indignação vieram da bancada da Oposição.
O Procurador-geral não ligou.
- A pedido de quem está aqui esta noite?
- A pedido de Mrs. Clarke.
- Conhece Mr. Dowler?
- Sim.
- Mrs. Clarke disse-lhe que apresentou Mr. Dowler
ao Duque de York como irmão dela?
- Não, nunca.
- Há quanto tempo ocorreu a conversa que a
senhora diz ter havido entre Mrs. Clarke e Sua Alteza
Real, acerca do coronel French?
- Não posso dizer com exactidão. Aconteceu quando
ela estava em Gloucester Place.
- Alguma vez viu o coronel French em Gloucester
Place?
- Ouvi-o ser anunciado. Não posso dizer que lhe
tenha sido apresentada.
- E depois de um intervalo de cinco anos, a senhora
recorda uma expressão particular, sem que circunstância
alguma lhe refresque a memória?
257
- Ficou-me gravada na memória, embora nunca a
tenha mencionado.
- O que a fez recordar-se?
- Fiquei curiosa acerca de um homem que não me
era permitido ver.
- Em que época do ano aconteceu isso?
- Não me recordo.
- Inverno ou Verão?
- Não me recordo, também.
- No entanto, a sua memória registou as expressões
utilizadas?
- Sim.
- Não acha isso extraordinário?
- Não.
-Os negócios do seu pai estão em estado precário?
Houve um momento de hesitação e depois a testemunha
replicou em voz baixa:
- Sim.
- Quantos alunos tem em Cheyne Row?
- Doze.
- Que idade tem o seu aluno mais novo?
- Sete.
Gritos altos de: «Não, não...», ecoaram através da
Câmara, quando se tornou notório que Miss Taylor
estava profundamente abalada. O Procurador-geral encolheu
os ombros e sentou-se. Miss Taylor foi avisada de
que podia sair.
Mrs. Mary Anne Clarke foi chamada de novo para
de novo ser interrogada por Mr. Croker. Durante mais
de uma hora, ele interrogou-a acerca da casa de Gloucester
Place, de quantos criados possuía, se eles dormiam
na casa, quem lhes pagava os ordenados, quantas
carruagens possuíra, quantos cavalos, que jóias usara,
tinha-as ela penhorado. Então, olhando de relance para
uma nota que o Procurador-geral lhe passara, Mr. Croker
perguntou:
- Viveu alguma vez em Hampstead?
Houve uma pausa da parte da testemunha exausta
e depois ela respondeu:
- Sim.
Em que ano? ;
298
- Parte do ano de 1808 e o fim do ano de 1807.
- Em casa de quem viveu?
- Em casa de Mr. Nichols.
- Durante todo esse tempo, adoptou sempre o seu
próprio nome?
- Sim.
- Alguma vez adoptou o nome de Dowler?
- Não, não adoptei.
- Quantas vezes viu Mr. Dowler após o seu regresso
de Portugal?
- Vi-o naquele domingo em minha casa e tenho-o
visto aqui, na sala das testemunhas.
- Foram as únicas vezes que o viu, desde a sua
chegada a Inglaterra?
- Penso que o venerável cavalheiro o sabe tão bem
como eu, já que as suas águas-furtadas são muito convenientes
para a sua curiosidade, visto que estão em
frente da minha casa.
Houve assobios e aplausos da Oposição.
- Tem a certeza que foram essas as únicas ocasiões
em que viu Mr. Dowler?
- Se o venerável cavalheiro assim o deseja, direi
que o tenho visto com frequência, se isso servir para
alguma coisa. Não tenho razões para esconder que
Mr. Dowler é um amigo meu muito particular.
- Em que outros locais viu Mr. Dowler, desde a
sua chegada?
- Vi-o no seu hotel.
- Quando?
- Na primeira noite, depois da sua chegada. Mas
era suposto ficar em segredo, porque eu não queria que
a minha família, ou fosse quem fosse, viesse a saber
que o visitara naquela noite.
- Ficou em companhia de Mr. Dowler durante bastante
tempo, nessa ocasião?
- Declarei que estava na companhia de Mr. Dowler;
e peço que me deixe perguntar à presidência se esta
pergunta é decente, se não será pouco apropriada para
a dignidade desta Câmara?
Mr. Wilberforce levantou-se, protestando que era
extremamente incorrecto e imoral a Comissão entrar em
detalhes privados que diziam respeito unicamente à tês-
299
temunha. Mas foi mandado calar e Mr. Croker repetiu a
pergunta.
- A sua visita durou até depois da meia-noite de
quinta-feira?
- A minha visita continuou até sexta-feira de
manhã.
Para desapontamento de todos os lados da Câmara,
Mr. Croker não tinha mais perguntas e os trabalhos do
dia foram considerados encerrados.
A caminho da sua carruagem no Old Palace Yard,
um mensageiro tocou no ombro de Mrs. Mary Anne
Clarke e entregou-lhe um bilhete. Ela leu-o e disse ao
mensageiro. «Sem resposta». Quando chegou a casa em
Westbourne Place, prendeu o bilhete no espelho, ao lado
de montes de cartões de S. Valentim que recebera. Estava
assinado com as iniciais de um proeminente membro
Tory: «Que tal trezentos guinéus e jantar esta noite?»
300
CAPÍTULO 4
A investigação na Câmara dos Comuns mantinha,
então, o país fascinado. A Guerra Peninsular
estava esquecida e posta de lado, dia após dia
os principais jornais reproduziam todos os trabalhos nas
suas colunas. Napoleão e Espanha tinham um interesse
secundário. Os editores de panfletos puseram de parte
toda e qualquer disciplina, cartonistas e autores de pasquins
entraram na grande discussão e o comércio animou.
Artigos de porcelana apareceram como que por
magia - jarros de Staffordshire com a figura de Mrs.
Clarke vestida de viúva, com uma lista de nomes de
oficiais na mão; grosseiros retratos coloridos do Duque
de York em camisa de noite, saltando da cama; caricaturas
de Dowler e outras testemunhas. As vidas de
todos eles manchadas e impressas à pressa, as publicações,
arvorando-se em «autênticas», eram vendidas nas
esquinas. Canções cómicas, às dúzias, eram assobiadas
nos teatros. E finalmente, como expressão da moda,
quando uma moeda era atirada ao ar em ocasiões desportivas,
não se dizia «cara ou coroa», mas «Duque ou
Querida.»
Nas festas de Londres, não se falava de outra coisa.
Nos botequins e tabernas, havia apenas um tópico de
conversação. Mrs. Clarke aceitara os subornos, mas
estaria o Duque ao corrente? As opiniões dividiam-se,
mas entre os dois lados opostos - os que diziam que
ele havia embolsado os subornos e os outros que o
declaravam puro e sem mancha - estava uma sólida
brigada, que abanava a cabeça e que dizia que a ligação
301
entre os dois é que tinha realmente importância. Um
príncipe de sangue real, casado, mantivera uma amante,
dera-lhe casas e diamantes - enquanto o povo passava
fome. Homens e mulheres mourejavam nas fábricas, soldados
lutavam, a grande maioria do povo inglês levava
vidas decentes, mas o comandante-chefe, filho do Rei,
mantinha uma prostituta. Aquele era o ponto que motivava
ressentimento. Ali estava o busílis. Oradores de
praça pública e de esquina desataram a falar, assim
como o Zé Povinho, em casa. «É suposto olharmos para
cima, para os Brunswicks. Eles dão o exemplo. Se era
assim que os Bourbons se comportavam em França, não
admira que os Frogs (Franceses) lhes tenham cortado
as cabeças...» O clima era infeccioso e empolado por
aqueles a quem servia - os agitadores.
Will Ogilvie, sentado sozinho à secretária no seu
escritório, sorria, vendo o fósforo acender a palha, a
palha arder em chamas e as chamas atingirem em força
o monstro - a opinião pública. Fora isto que planeara
desde o princípio e a palha que ardia em chamas tivera
um objectivo. May Taylor era um dos exemplos. Os pais
de todos os seus alunos retiraram os seus filhos e o seu
senhorio em Cheyne Row disse-lhe para sair. Deu-lhe
três dias; meia hora na Câmara dos Comuns haviam-lhe
arruinado a vida. Ela não geria um colégio interno, assim
diziam os panfletos pró-governamentais, mas uma casa de
devassidão, onde raparigas da rua aprendiam a profissão.
Vamos ganhar? Vamos perder? Cada dia Mary Anne
se fazia aquelas perguntas. Não tinha conhecimento
das notas despachadas para Windsor pelo líder dos
Comuns, que estava a par, ao contrário dela, da atmosfera
da Câmara. Tinha conhecimento das dúvidas dos
seus próprios apoiantes, sentia a frieza crescer, em
relação ao Duque. Assim, da Câmara dos Comuns para
o Castelo de Windsor: «Penso ser meu dever avisar
Vossa Majestade que a situação se está a tornar preocupante...»
O Duque sabia o que ela andava a fazer e
fechava os olhos - aquele murmúrio era ouvido em
todas as bancadas da Câmara. Os porta-vozes do governo
provocaram uma fraca impressão. Adam, Greenwood de
Greenwood e Cox, agentes do exército - o coronel
Gordon, secretário-militar e o seu assistente, apresenta-
302
ram papéis, documentos, processos, nenhum deles provando
que as promoções haviam sido efectuadas e que
haviam sido publicadas. A única arma que o Governo
podia utilizar, era depreciar a testemunha principal, Mrs.
Clarke, de maneira que, manchando o seu carácter, poria
em dúvida o seu testemunho.
Entre as testemunhas que foram chamadas para a
desacreditar, durante a segunda semana do inquérito,
estava Mr. John Reid, proprietário do hotel em St. Martins
Lane e Samuel Wells, criado. Ambos declararam que
a senhora que estivera com Mr. Dowler na sexta-feira
da semana anterior, se apelidara sempre como Mrs.
Dowler - até então, juraram, ignoravam por completo
que ela não tinha direito a esse nome. A seguir veio
Mr. Nichols, padeiro, testemunhar o mesmo. Mr. Dowler
estava frequentemente em sua casa, enquanto" Mrs.
Clarke lá viveu. Apresentara-se a princípio como viúva,
mas mais tarde informou-o de que se casara com Mr.
Dowler. Nunca lhe pagara qualquer renda, mas ele tinha
na sua posse alguns instrumentos musicais que eram
pertença dela e também algumas cartas que lhe haviam
sido entregues para queimar, mas que haviam ficado
esquecidas num armário. No entanto, não as apresentaria,
a não ser a pedido da Câmara.
Foi mandado sair, enquanto a Câmara deliberava se
as cartas deviam ser lidas ou não. Uma decisão rápida
tinha que ser tomada pelo líder da Câmara. Se as cartas
desacreditassem Mrs. Clarke, a causa da justiça triunfaria
e tudo acabaria em bem. Se as cartas diziam respeito
ao Duque, o assunto era diferente. Podiam prejudicar
o processo, apoiando as acusações. Mr. Perceval,
depois de considerar, decidiu que o risco era grande
de mais e anunciou que não havia razão para examinar
as cartas só porque pertenciam a Mrs. Clarke. O coronel
Wardle suspeitou que elas continham assunto valioso
para a Oposição e disputou vigorosamente a decisão
do Líder. Depois de muita discussão, as cartas foram
apresentadas e lidas pelo Líder.
A primeira era de Samuel Cárter. Pobre Sammy, nas
índias Ocidentais, ignorante felizardo de que a sua carta,
remetida de Portsmouth em 1804, pedindo para ir de
licença, com o fim de comprar a sua túnica, iria ser
lida em voz alta na Câmara dos Comuns. Uma segunda
303
de Sammy e uma terceira. A Câmara inteira sentou-se,
atónita e chocada com aquela nova informação, descoberta
por mero acaso. O lacaio de Mrs. Clarke arranjara
uma comissão como alferes.
Duas cartas da baronesa Nollekens- um nome bem
conhecido em círculos diplomáticos - agradecendo a
Mrs. Clarke favores recebidos e pedindo que os agradecimentos
fossem extensivos a Sua Alteza Real.
Três cartas do general Clavering solicitando entrevistas
e pedindo a Mrs. Clarke que intercedesse junto
do C.-C., no sentido de recrutar novos batalhões. A bancada
do Governo ficou sombria, a Oposição rejubilou.
As cartas, salvas da destruição por um mero acaso, não
agravando especificamente as acusações, ajudaram a
estabelecer o facto de que favores haviam sido concedidos.
Foram lidas em silêncio. Então, o coronel Wardle
chamou Mrs. Clarke para identificar as caligrafias, o
que ela fez em cada uma delas, tendo esquecido há
muito o conteúdo, acreditando que estivessem queimadas.
O coronel Wardle aproveitou a vantagem para a
interrogar minuciosamente sobre as cartas. Fora ela
que conseguira a comissão para Samuel Cárter? Apelara
ao Duque para essa comissão? Sua Alteza Real estava
consciente de que era a mesma pessoa que servia à
mesa em Gloucester Place? O Duque vira-o posteriormente,
já depois de alistado? Apelara ela para o Duque
a respeito da baronesa Nollekens? As respostas satisfizeram-no
no mais alto grau.
- Reconhece - continuou ele - a caligrafia do
general Clavering?
- Sim, e numa carta que recebi do Duque, que
encontrei esta manhã, o general Claverimg é mencionado
e os seus batalhões também.
A carta foi entregue e lida perante a Câmara, interrompida
por explosões de riso.
Oh, meu anjo, faz-me justiça e convence-te que
nunca mulher alguma foi adorada como tu és. Cada dia,
cada hora que passa me convence mais e mais de que a
minha total felicidade depende apenas de ti. Com que
impaciência espero pelo dia depois de amanhã. Restam
ainda duas noites, antes de eu poder apertar a minha
querida nos braços. Clavering engana-se, minha querida,
304
se pensa que vão ser recrutados quaisquer outros regimentos;
não está programado. Somente batalhões suplementares,
para colmatar as baixas; seria melhor falares-lhe
disso e que tens a certeza de não valer a pena
apelar nesse sentido.
Dez mil vezes obrigado, meu amor, pelos lenços e
não necessito de te falar no prazer que me dá usá-los,
nem de pensar nas queridas mãos que os fizeram para
mim.
Nada poderia ser mais satisfatório do que a volta
que tenho dado e o estado em que encontrei tudo.
O dia todo de ontem foi empregue em visitar os trabalhos
em Dover, passando revista às tropas e examinar
a costa toda até Sandgate. Vou de seguida partir, cavalgando
ao longo da costa até Hastings, passando revista
às várias unidades que for encontrando. Adeus, portanto,
meu doce, querido amor.
A carta estava endereçada, estranhamente, a George
Farquhar, Esq., e não a Mrs. Clarke - um facto que
escapou à atenção dos membros da Câmara.
A revelação das cartas de Hampstead abalaram consideravelmente
a confiança dos apoiantes do Governo
e a 16 de Fevereiro, o líder da Câmara, esperando restabelecer
a fé no Duque de York, levantou-se para fazer
uma importante declaração, respeitante à nomeação de
um tal major Tonyn. Mrs. Clarke testemunhara no seu
depoimento, alguns dias antes, que o agente que lhe
dera o nome de Tonyn, fora o capitão Sandon. Este
admitira-o, mas suprimira no seu depoimento um certo
facto vital que desde então viera à luz fora das portas
da Câmara dos Comuns. O facto era que - e descoberto
por Mr. Adam - o capitão Sandon tinha na sua posse,
no meio da sua bagagem, cartas recebidas de Mrs.
Clarke; e uma em particular fora mencionada, aludindo
ao major Tonyn e à sua promoção e supostamente
enviada pelo próprio Duque. Mr. Adam falara desse
assunto com Sua Alteza Real, que declarou imediatamente
que a carta era falsa.
- O meu ponto é este - disse o líder da Câmara.
- Se esta carta pode ser apresentada e se se provar
que é falsa, ficará demonstrado que Mrs. Clarke sabia
como se impor, não só por palavras, mas também por
20 - Mary Anne
305
falsificação de assinaturas. Se, pelo contrário, a carta
é autêntica, tenderá para a tolerância das acusações
perante nós. Sinto-me tão inclinado a acreditar no primeiro
ponto, que não hesito em trazer o assunto perante
esta Câmara, esta noite, para discussão e sugiro que o
capitão Sandon seja trazido à barra.
O coronel Wardle concordou. Nunca ouvira falar de
uma carta, ou de quaisquer outras cartas na posse
de Sandon. Mas deixá-las aparecer - tinha a certeza
que apoiariam as acusações, não prejudicariam Mrs.
Clarke, de modo algum.
O capitão Sandon apresentou-se; e, para grande
espanto do líder da Câmara e de toda a Comissão,
negou qualquer conhecimento da carta em questão.
Podia ter havido uma carta. Não se lembrava. A carta
não existia. Fora destruída. Recordava-se de uma carta,
mas desaparecera. Não se podia lembrar do conteúdo.
A carta fora-sse. O seu estado de culpa abjecta era tão
aparente, não só para Mr. Perceval, como também para
a Câmara, que depois de uma tensa meia hora de interrogatório,
foi mandado sair sob custódia, e a Câmara
concordou sem uma única voz dissidente, que devia ser
conduzido ao seu alojamento pelo sargento e feita uma
busca à procura da carta perdida. Enquanto a Câmara
esperava pelo seu regresso, Mrs. Clarke foi de novo
chamada e interrogada por Mr. Perceval.
- Lembra-se de o capitão Sandon ter falado consigo
a propósito do major Tonyn, em 1804?
- Recordo-me de que o capitão Sandon era subalterno
do major Tonyn; disso, tenho a certeza.
- Recorda-se de ter enviado qualquer mensagem
ao major Tonyn, pelo capitão Sandon?
- Não me recordo se o fiz, talvez o tenha feito,
mas já foi há muito tempo.
- Recorda-se de ter enviado qualquer papel ao
major Tonyn, pelo capitão Sandon?
- Que espécie de papel?
-Qualquer papel escrito, por si ou por qualquer
outra pessoa?
- Não penso que o tenha feito. Eu era sempre
muito cautelosa no que respeitava a papéis escritos
por mim.
306
- Se enviou tal papel pelo capitão Sandon ao major
Tonyn, é possível que o tenha esquecido?
- Não, tenho a certeza de que não esqueceria nada
que dissesse respeito ao Duque de York.
- O capitão Sandon iria receber alguma comissão
pelo sucesso do pedido do major Tonyn?
- Penso que sim, porque me apercebi de que o
major Tonyn era um homem generoso e o capitão Sandon
não se teria interessado tanto por ele, sem uma
recompensa.
- Antes de vir à barra há pouco, teve alguma informação
acerca do conteúdo do interrogatório do capitão
Sandon perante esta Comissão, aqui, esta noite?
- Absolutamente nenhuma.
O comportamento da testemunha fora franco e natural
durante todo o interrogatório. Se houvera qualquer
carta, era óbvio que a esquecera. A Câmara esperou
impacientemente pelo regresso do capitão Sandon e do
sargento. Depois de mais de uma hora se ter passado,
foi levado de novo à barra e imediatamente interrogado
pelo líder da Câmara.
- Encontrou o papel?
- Encontrei.
- Tem-no na sua posse?
- O mensageiro é que o tem e todos os outros
papéis relacionados com o assunto.
Foi ordenado ao mensageiro que entregasse os
papéis, que consistiam num maço de cartas, no topo
do qual estava o tal papel. Em completo silêncio, Mr
Perceval entregou a carta ao Presidente, que a leu em
voz alta perante a Câmara: «Acabo de receber a sua
carta e o negócio de Tonyn fica encerrado. Deus o
abençoe.» Não estava assinada, mas era endereçada a
George Farquhar, Esq. (título de cortesia colocado a
seguir ao nome), 18 Gloucester Place.
Um murmúrio levantou-se das bancadas. Qual era
o significado? A carta era de facto do Duque? E quem
era George Farquhar?
Mr. Perceval interrogou de imediato o capitão
Sandon.
- Que motivos o levaram a esconder esta carta?
-Não tive motivo nenhum. Tenho vergonha de mim
mesmo.
307
- Foi incumbido por qualquer outra pessoa de a
esconder?
- Não.
- Quando Mrs. Clarke lhe deu a carta, disse-lhe
que ela era escrita pelo Duque de York?
- Não recordo as suas palavras exactas, mas ela
disse que vinha da parte dele.
- Conhece a caligrafia do Duque de York?
- Nunca a vi em toda a minha vida.
- Parece-lhe que a escrita nesta carta é a caligrafia
de Mrs. Clarke?
- Não, não me parece.
-Quem é George Farquhar, Esq., a quem a carta
é endereçada?
- Não faço a mínima ideia.
O capitão Sandon retirou-se então e Mrs. Clarke foi
chamada novamente à barra e interrogada pelo Procura-
dor-Geral.
- Recorda-se de ter visto este papel antes?
- Suponho que sim, porque é a caligrafia de Sua
Alteza Real. Não sei como foi parar às mãos daquele
homem, a não ser que lho tenha dado.
- Repare no selo da carta. Reconhece-o?
- É o selo privado do Duque de York. Atrevo-me
a dizer que tenho muitos como esse, em casa. A inscrição
diz Never Absent (Jamais Ausente).
- Quem é George Farquhar?
- Não existe tal pessoa. Era um dos meus irmãos.
Perdi dois na Armada e esse foi um deles. Era um
nome que o Duque sempre usava, quando me enviava
cartas.
-Alguma vez imitou a caligrafia de alguém?
- Não, não para fazer uso disso. Posso ter, com
duas ou três amigas, para nos rirmos, imitado uma mão.
Há um jogo - é ridículo mencioná-lo aqui - em que
se escreve o nome de um homem e depois o de uma
mulher, onde estão, o que estão a fazer, uma comprida
lista de coisas e depois diz-se: «Não é essa a maneira
como Fulano-de-Tal se descreve?», e se aqueles que
são mencionados poderiam ser amigos.
- Consegue imitar a caligrafia do Duque de York?
- Não sei. Ele é que pode julgar. Às vezes, tentava
escrever como ele, quando estávamos juntos. Ele apos-
308
tava que eu era capaz de assinar o nome dele, tal e
qual a sua assinatura Frederick, mas nunca fiz uso dessa
habilidade. Se o tivesse tentado, teria sido acusada, há
muito tempo atrás.
- Escreve sempre com a mesma caligrafia?
- Não sei dizer exactamente como escrevo. Geralmente,
escrevo muito depressa.
- Guiou a mão da sua mãe nas contas que foram
apresentadas no julgamento militar do seu irmão. Não
significa isso uma caligrafia diferente?
- Não escrevo tão depressa quando lhe guio a mão.
Suponho que é realmente a minha caligrafia e não a
dela, já que faz pouco uso dela.
- De facto, então, consegue escrever com duas
caligrafias diferentes?
- Não vejo grande diferença entre ambas.
- Não vê diferença entre a sua própria caligrafia e
a caligrafia nas contas apresentadas no Tribunal de
Guerra?
- Não me parece que haja grande diferença... Pretende
insinuar que a caligrafia nas contas foi uma falsificação?
- Não insinuo tal coisa. Segurou na mão da sua
mãe e guiou-a?
- Ela segura na pena, eu talvez a segure mais
abaixo e assim guio-lhe a mão. Pode ver-nos a escrever
em qualquer altura.
- Então, ambas as contas foram escritas com a
sua caligrafia?
- Se lhe apraz entender assim, muito bem. Servi-me
da mão da minha mãe e a caligrafia é minha,
suponho.
A Câmara suspendeu os trabalhos, tendo previamente
concordado que uma Comissão especial fosse
nomeada para examinar as outras cartas remetidas por
Mrs. Clarke e que haviam sido encontradas no alojamento
do capitão Sandon, juntamente com a carta desaparecida.
Deveriam apresentar um relatório à Câmara
no dia seguinte.
Desse modo, a 17 de Fevereiro, tendo -as cartas
sido identificadas por Mrs. Clarke, como tendo sido
escritas por si - embora tenha sido autorizada a ler
309
apenas os sobrescritos e não o conteúdo - algumas
foram lidas à Câmara em sessão. Não estavam por qualquer
ordem e a maioria tinha a data do Verão de 1804.
Em cada uma delas havia ligação, aberta ou implicitamente,
do Duque de York com a promoção de vários
cavalheiros - incluindo o major Tonyn. «Diga a Spelding
que escreva a dizer o que quer, o D. diz que é o
melhor... Poderá perguntar novamente acerca de um
posto como tenente na índia? O D. assegurou-me que
há dois para venda... Mencionei ao D. a promoção a
major. Ele ficou bastante satisfeito. Poderia ter a amabilidade
de me mandar cem libras?... Infelizmente, Lorde
Bridgewater habilitou-se à vaga, apesar de só haver
uma, mas S. A. R. dir-me-á se puder fazer alguma coisa...
Tenho a certeza que as tarifas estão baixas, por isso
deve dizer a Bacon e a Spelding que cada um deles deve
pagar duzentas. Necessito de uma resposta urgente,
porque estou à espera de poder falar com ele sobre o
assunto e já lhe mencionei que o senhor está preocupado
por minha causa... O Duque ordenou que Tonyn
fosse publicado...
A leitura das cartas provocou uma profunda consequência
na Câmara. Foi constatado por todos os membros
que as cartas haviam sido descobertas por acaso,
que tanto Mrs. Clarke como o coronel Wardle não sabiam
que elas estavam na posse do capitão Sandon, nem
este. Se o soubessem, teriam sido apresentadas como
prova há muito.
Mr. Perceval perguntou ao general Gordon, Secretário
Militar, se, na sua opinião, a caligrafia da carta
que começara toda a polémica - «Acabo de receber a
tua carta e o negócio de Tonyn fica encerrado. Deus te
abençoe» -• era a do Duque?
- O mais que posso dizer, é que se assemelha
muito à caligrafia de Sua Alteza Real, mas se é a dele
ou não, não posso afirmar.
- Teve alguma conversa com o Duque de York
acerca deste assunto?
- Sim, tive.
- Que se passou nessa conversa?
- A última conversa teve lugar às dez da manhã
de hoje. A primeira coisa que me disse, foi: «Como
310
você vai ser chamado à Câmara hoje à noite para responder
a certas perguntas, não lhe falarei mais no
assunto, declaro-lhe apenas o que já declarei antes,
que não tenho conhecimento de carta nenhuma e que
acredito que seja uma falsificação.»
Testemunhas posteriores foram interrogadas, mas
nenhuma delas pôde afirmar categoricamente que a carta
fora escrita pelo Duque. Entre elas, havia um funcionário
do Banco de Messrs, Coutts, que declarou que a
caligrafia era similar à do Duque, mas sem a assinatura,
não podia jurar a sua autenticidade.
Numa última tentativa para acusar Mrs. Clarke de
falsificação, o líder da Câmara chamou um tal Mr. Benjamin
Towan.
- Qual é a sua profissão?
- Sou pintor de veludos.
-- Conheceu Mrs. Clarke em Gloucester Place?
- Sim.
- Recorda-se de ela dizer algo acerca de caligrafia?
-Sim. No decurso da conversação, ela observou
que conseguia falsificar o nome do Duque e demonstrou-o
numa folha de papel. Não consegui ver diferença
alguma.
-Quer dizer que ela introduziu o assunto e imediatamente
imitou a caligrafia na sua presença?
- Sim.
- Ela mostrou-lhe uma assinatura do Duque?
- Sim, numa folha de papel. Ou era Frederick, ou
York, ou Albany, não tenho a certeza.
- O senhor fez alguma observação?
- Disse que o assunto era muito grave.
- Que respondeu ela?
- Riu-se.
Lorde Folkestone levantou-se de repente para interrogar
a testemunha.
- Que ramo de pintura ensina o senhor?
- Flores, paisagens, figuras e fruta.
-Ensina os seus alunos a desenhar letras de maneira
especial? Com floreados e coisas assim?
- Sim, ensino.
311
- Mrs. Clarke afirmou que conseguia imitar a assinatura
do Duque de York, ou mais geralmente, a sua
caligrafia?
- Só mencionou a assinatura dele.
- Tinha confiança com Mrs. Clarke?
- Não.
- Há quanto tempo lhe deu lições?
- Não posso dizer sem recorrer aos meus livros.
- O senhor e ela separaram-se amigavelmente?
- Ela ficou em dívida para comigo.
- E já lhe pagou tudo o que lhe era devido?
- Não.
A testemunha retirou-se algo confusa e a Câmara
adiou os trabalhos, depois de decidir submeter a carta
de Tonyn a alguém conhecedor das diferenças de caligrafia,
de modo que a sua opinião pudesse ajudar a
Câmara a formar um juízo do assunto, na sessão
seguinte.
312
CAPÍTULO 5
SEMPRE que Mary Anne fechava os olhos, via as
duas letras na sua frente e ouvia a voz da mãe
perguntar impertinentemente:
- Porque assinas o meu nome? Que quer isso- dizer?
E ela, perdendo a paciência, respondia:
- Por amor de Deus, faça o que lhe digo. Charley
precisa de dinheiro e pode descontar estas letras passadas
a Russell Manners. Ficam melhor assinadas por si
do que por mim.
Depois, segurando na mão da mãe, guiara a sua
assinatura.
- Quer isto dizer que eles vêm depois pedir-me o
dinheiro? Não posso enviar dinheiro algum a Charley.
- Não, claro que não. Não seja estúpida.
As malditas letras haviam sido enviadas a Charley,
descontadas e haviam sido devolvidas; apresentadas e
discutidas em pormenor no Tribunal de Guerra; esquecidas,
porque ele fora ilibado dessa acusação; e depois
arrastadas de novo para a Câmara dos Comuns. Havia
uma sina qualquer, uma maldição do diabo com as letras.
Fizera ela asneira? O processo era ilegal? Seria uma
falsificação guiar a mão de alguém? Era impossível
jurar, com a< Bíblia na sua frente, que a mãe sabia realmente
o que estava a assinar. Ela estava fraca e trémula
de mais para compreender a complexidade de
letras, cheques, dinheiro, nem sabia sequer o que a
filha andara a fazer no número 9 de Old Burlington
Street com Russell Manners.
313
E se convocassem a sua mãe à Câmara, a chamassem
à barra e a interrogassem? A ideia era doentia...
agonizante - a sua mãe, tremendo numa cadeira,
provocada e atormentada pelo Procurador-Geral. Mary
Anne levantou-se de repente e virou-se, escondendo a
face com as mãos. Quanto tempo mais demoraria a
tortura? Quando terminaria?
Até à data, nada de bom recebera, só difamação.
Desonra, abuso, mentiras e exposição sórdida. Tomou
o pó que lhe haviam prescrito e estremeceu. Dois dias
de cama. Sem visitas de amigos ou parentes. Haviam
sido as ordens do médico e ela devia obedecer. Mas
não conseguia descansar, com a nova acusação de falsificação
sobre os ombros.
Uma pancada na porta. Martha de novo, supunha,
para lhe alisar a almofada.
- Que se passa, Martha? Não me podes deixar
dormir?
- Lorde Folkestone trouxe-lhe flores.
- Bem, põe-as em água.
- Ele espera que a senhora melhore e manda-lhe
um beijo.
- Disse que me queria ver?
- Nem se atreveu.
Ela bocejou e olhou para o relógio. Só nove e meia.
Horas pela frente, ainda, e sem conseguir adormecer.
Talvez a distraísse dar dois dedos de conversa com
Folkestone. Ele era realmente muito atencioso, bastante
atraente e obviamente épris (inflamado), com os olhos
de carneiro-mal-morto - perdera a esposa, parecia, e
ainda não recuperara, mas a perda podia amadurecer os
sentidos, ela já deparara com isso, antes. Levantou-se
e procurou um xaile para cobrir os ombros, retocou o
rosto e derramou umas gotas de perfume na almofada.
- Diz a Sua Excelência que suba.
Martha saiu.
Recostou-se na almofada, pálida e lânguida. O candeeiro
a seu lado tinha a chama baixa, o que era sempre
conveniente. A pancada na porta foi peremptória,
ligeiramente intrigante - haviam-se passado meses,
desde que um homem o fizera pela última vez, já mal
se lembrava.
314
- Entre - disse ela e a sua voz já não soava aborrecida,
mas derretida, convidativa, conducente a um
enredo acolhedor.
- Que amável da sua parte ter-me vindo visitar.
Tenho-me sentido tão só.
- Apenas ficarei uns momentos. Juraria que está
melhor.
- Claro que estou melhor. Por que está tão preocupado?
- Quando o Dr. Metcalfe chegou à Câmara e disse
que a senhora estava doente e não podia comparecer,
quase saí de imediato. Limitei-me a ficar sentado, durante
os trabalhos. Chamei-o à barra para ser interrogado
e ele informou a Câmara que a senhora estava
realmente doente, o que me fez ficar ainda mais ansioso
por vê-la. Precisa de qualquer coisa? Posso trazer-lhe
algo? Tem a certeza de que pode confiar na opinião do
seu médico, ou gostaria que eu mandasse chamar o meu
próprio clínico?
- Estou perfeitamente bem - exausta, simplesmente.
- Pensava que o fim-de-semana me traria descanso,
mas não trouxe. Bem, diga-me, como vão as
coisas?
- Esplêndidas. O dia foi passado a interrogar especialistas
em escrita. Dois tipos do General Post Office
(Estação Central dos Correios), inspectores de francos
(mecanismo da moeda que foi introduzida em 1360), que
levaram microscópios, um segundo do Courts Bank e
três do Banco de Inglaterra. Cada um deles deu mais
ou menos a mesma resposta, apesar de Perceval ter
feito os possíveis para as alterar.
- Qual foi a resposta?
- Forte semelhança, mas não juram que a caligrafia
seja idêntica. Acharam que era a mesma, mas foi tudo.
Ficaram com ar pateta quando eu lhes perguntei se
tinham lido a discussão nos jornais, sobre se a carta
era falsa ou não. É claro que admitiram que sim, o que
quer dizer na prática que todos foram examinar a carta
com um certo juízo preconcebido, acreditando que poderia
não ser genuína.
- Portanto, o Governo não progrediu?
-Certamente que não. Estamos exactamente onde
estávamos antes e não ficará resolvido antes da votação
315
Depois de os especialistas saírem, tivemos o general o
velho Clavering, que esperava negar que a conhecia.
Pelo menos, até saber das suas numerosas cartas. Divertimo-nos
um bocado à custa dele. Sam Whitbread interrogou-o
e enredou o velhote, até que, finalmente, saiu,
aliviado. O depoimento dele não afectou realmente as
acusações, mas a Câmara ficou a saber, pela maneira
como falhou as respostas, que estivera em contacto
consigo, por causa das promoções. Depois, Greenwood
e Gordon foram chamados. Nada de especial. Apresentaram
uma resma de papéis sem significado algum.
A Câmara estava aborrecidíssima. De facto, toda a gente
perdeu o interesse quando souberam que a senhora não
iria estar presente. Eis tudo, portanto.
- Que brutal da parte deles quererem ver-me torturada.
Uma vítima atirada aos leões.
- De modo algum. A senhora nunca tem aparência
de vítima, parece que se diverte a todo o momento.
O Procurador-geral é o urso e a senhora é quem segura
o isco. A Câmara inteira delira consigo, incluindo o
Governo. Mesmo Wilberforoe esqueceu os seus escravos
negros e não fala de mais nada. Ouvi-o segredar a
um dos seus correligionários: «Ela é boa, por baixo.»
- Por baixo de quê?
- Por baixo da superfície. A senhora esteve em
mãos diabólicas, é isso que ele diz.
- E talvez tenha razão. Estive em tantas mãos, a
acreditar nos panfletos, que pouco já deve restar da
minha pessoa. Tem-os lido?
- Abstenho-me de ler lixo. Oiça, estou a fatigá-la?
- Nem um pouco. Acho-o repousante.
- O assunto da carta é muito estranho. Posso dizer-lhe
o que corre nos corredores - que quando se apercebeu
de que a carta fora escrita pelo Duque, o que
ajudaria às acusações. Assim, pretendeu tê-la perdido,
nunca sonhando que Adam a apresentaria na Câmara.
- Porque a apresentou Adam? Só podia prejudicá-los.
- Porque, não vê?, ele não fazia a mínima ideia
de que a carta era realmente genuína; pensava que era
falsa. E agora, devido à azelhice de Sandon, não só
viram a carta ser lida em voz alta, mas também todas
316
as outras - e foram eles que as apresentaram. É aí que
as cartas constituem um grande triunfo para a nossa
causa. Perceval está a dar chutos no próprio rabo, assim
como os outros. Aposto que S. A. R. vai amanhã transformar
a vida de Adam num inferno.
- Ele tem muito medo dele, para lhe transformar
a vida num inferno. Está inteiramente nas garras de
Adam, sempre o disse.
- A senhora realmente não guarda ressentimento.
Penso que isso é maravilhoso.
- De que serve o ressentimento, agora? É tarde de
mais.
- Continua a haver um boato maldito que circula
por aí -em que ninguém acredita, a propósito - que
Kent está, de qualquer maneira, por trás de nós. Sei
como surgiu - foi a sua menção um dia, no seu depoimento,
que conhecia Dodd, o secretário particular de
Kent. Mas toda a gente conhece Dodd.
Ela não respondeu. Sabia que tinha de ter cuidado.
Folkestone, o idealista, não tinha ideia do complot por
trás da investigação.
- Conhece-O bem? - perguntou Lorde Folkestone.
- Quem, Dodd? Por Deus, não. Ele é um terrível
maçador, mas acontece que é meu vizinho. Vive em
Sloane Street e gosta de cá vir visitar-me, se tem oportunidade.
- Eu mantê-lo-ia à distância, se fosse a si. Todos
os cortesãos dão à língua desaforadamente, faz parte
da posição. Achei isso delicioso quando vivi em França
- antes do Terror, claro, quando os ideais eram fortes.
Sentiam-se realmente renascidos, muitos deles, com o
derrube da tirania e um futuro cheio de esperança.
Graças a Deus, ele estava longe, no seu assunto
preferido. O perigo passara, pelo menos de momento.
Um brande, talvez, durante dez minutos, para o distrair;
depois, se se sentisse na disposição, ele poder-se-ia sentar
na cama.
Houve distracção, mas não sob a forma de brande.
Martha apareceu de novo com notícias da campainha da
porta da frente.
- O coronel Wardle e o major Dodd pretendem
vê-la.
317
Silêncio. Um momento horrível, depois uma grande
surpresa.
- Que estranho! Vieram juntos? Que quererão?
- O coronel Wardle espera poder falar consigo.
- Espera em vão.
Lorde Folkestone levantou-se da sua cadeira.
- Não achará ele estranho que a senhora tenha
escolhido receber-me e não lhe dê as boas-noites?
- Ele que ache estranho. Eu posso receber os amigos
que me apetecer.
- Sinto-me embaraçado. Por favor, receba-o. Se
ele souber que eu estou aqui, podem aparecer mexericos
disparatados.
Sua senhoria tinha medo de ficar comprometido?
A consideração de Mary Anne por ele esmoreceu.
A atracção murchara.
- Muito bem, vamos deixá-lo subir.
Sua Senhoria relaxou. O Coronel foi então conduzido
ao quarto.
Em vez do sorriso afectado que seria de esperar, do
pequeno encontrão, do reparo: «O senhor conseguiu chegar
primeiro» e outras alusões maliciosas às conversas
de cabeceira, o membro por Okehampton sentiu-se pouco
à vontade. Murmurou uma palavra ou duas e sentou-se
em silêncio. Algo estava errado. Ela sentiu a mudança
no ar. Disse:
- Lorde Folkestone esteve a falar-me do dia de
hoje. Parece que as coisas estão a andar bem, mas nada
ficou ainda resolvido.
- Sim, a atmosfera da Câmara estava boa e a nosso
favor. Foi em parte por isso que eu vim vê-la esta noite.
Penso que seria melhor a senhora tirar vantagem do
facto de não se sentir bem, permitindo assim não voltar
a ser chamada à Câmara.
- Não poderia ficar mais satisfeita ou mais aliviada.
Lorde Folkestone olhou para Wardle, descrente.
- O senhor deve estar louco! Porquê, se Mrs.
Clarke é o nosso trunfo? A sua presença por si só é
suficiente para garantir o apoio da Câmara.
- Não estou de acordo.
318
- Quer dizer que o depoimento dela foi mais prejudicial
do que benéfico para a nossa causa? Essa sugestão
é monstruosa. Sem ela, não teríamos hipótese.
- Não me interprete mal, Folkestone. É claro que
Mrs. Clarke foi útil. O que eu quero dizer, é que ela já
Disse tudo o que tinha a dizer. Se voltar à Câmara, será
contra-interrogada sobre toda a espécie de assuntos, o
que pode ser prejudicial.
Portanto, Wardle ouvira os rumores que circulavam
acerca da posição do Duque de Kent no assunto. Fora
por isso que a viera visitar com Dodd. Ela encolheu os
ombros. Eles que brigassem à vontade, estava-se nas
tintas.
-Oiça - disse Folkestone, que está por trás
disso? Passa-se alguma coisa que o senhor não explicou?
Há alguma verdade nos rumores acerca de Kent?
- Asseguro-lhe que não.
- Então, que se passa?
- Pretendo apenas que Mrs. Clarke não se aflija.
- Não lhe podem fazer pior do que já fizeram, sabe-o
bem e ela soube como lidar com eles. Que outros assuntos
há que podem ser prejudiciais?
O coronel Wardle olhou para a sua testemunha
número um, em busca de ajuda. Ela pretendeu não reparar,
fechou os olhos e bocejou. Ele voltou-se de novo
para Lorde Folkestone, com desespero.
- Muito bem, serei franco. Trata-se de um assunto
pessoal, entre mim e Mrs. Clarke. Agradecia que nos
deixasse sós por cinco minutos.
Lorde Folkestone pôs-se de pé rigidamente.
- Com certeza, se põe as coisas nesse pé, não
tenho alternativa.
Saiu do quarto, deixando-os sozinhos. O coronel
Wardle começou imediatamente, muito agitado:
- Não disse nada a Folkestone acerca do Duque de
Kent?
- Claro que não.
-Ele desconfia. Por isso é que a visitou, naturalmente.
- Disparate, ele trouxe-me flores.
- Uma mera desculpa. Aviso-a, devemos ter cuidado.
Os rumores abundam. Se o Governo suspeita de algo,
319
a nossa causa está perdida e todas as acusações cairão
em descrédito.
- Folkestone não é um membro do Governo.
- Isso não é razão. Metia-se no assunto, se soubesse.
- Está envergonhado, então, da conspiração por trás
das acusações?
- Não é uma questão de vergonha, nem é uma conspiração.
Trata-se apenas de política, é tudo muito com-
plicado.
- Complicado é realmente a palavra. E o senhor
envolveu-me na confusão. Não só tenho de ter cautela
com o Governo, mas também com Folkestone, o homem
que mais fez para me ajudar.
- Lamento. É uma situação muito infeliz, mas em
política, os nossos melhores amigos são os que, às
vezes, nos traem inadvertidamente.
- Bem, que quer o senhor que eu faça?
- Assegure a Folkestone que Kent não está por
trás de nós. Diga, se quiser, que a senhora e eu somos
íntimos e que estou alarmado com a possibilidade de
um escândalo.
- Muito obrigado!
- A sugestão colocá-lo-á à distância, evitando assim
mais perguntas.
- Porque o colocaria eu à distância? Acho-o extremamente
agradável.
- Então, diga-lhe uma mentira qualquer, não lhe
diga a verdade.
Ela sentou-se na cama, bateu nas almofadas atrás
dela, deu uma espreitada ao espelho e compôs o xaile.
- Para um patriota, coronel Wardle, o senhor é
impressionante. Que pena o Procurador-geral não estar
aqui para o ouvir.
- Querida senhora, medidas políticas...
- Politiquices. Não me venha falar de política,
cheira me!. Muito bem, eu engano Sua Senhoria, não precisa
de se preocupar; e se for chamada à Câmara, apareço.
Não vou fazer asneira, portanto, mantenha a
cabeça... Agora, não seria melhor ir dizer a Sua Excelência
que o nosso tête-à-tête acabou e está encerrado?
A ansiedade desapareceu dos ombros de Wardle.
A expressão perturbada, o ar severo, desapareceram.
320
Saiu e ela pôde ouvi-los falar na sala de visitas. Imaginou
a cena: Folkestone inquisitivo, Dodd e Wardle cautelosos
e só Deus sabia que novo mexerico a mancharia.
Houve um bater de portas e passos na rua. Haviam
saído e ela podia descontrair-se e dormir. Estava quase
a tirar o xaile e a desligar o candeeiro, quando ouviu de
novo uma pancada na porta do quarto.
- Entre! - Que quereria Martha de novo? Mas não
era Martha - era Sua Senhoria de novo, com um ar
febril e furtivo.
- Foram-se embora. Livrei-me deles - disse ele,
movendo-se em bicos de pés até à cama e pegando-lhe
na mão.
Oh, Deus... o coração apertou-se-lhe no peito. Tinha
de aturar aquilo? A sua disposição da meia hora antes,
mudara por completo. O momento passara, tudo o que
pretendia era dormir. Esboçou um bocejo e tentou um
sorriso.
- Pensava que também se tinha ido embora.
- Vim desejar-lhe boas-noites.
Ela sabia o que aquilo significava - acontecera-lhe
dúzias de vezes. Não com Sua Senhoria Radical, mas
com outros. Muito honestos nos primeiros cinco minutos,
umas festas nas mãos, murmúrios e segredos,
depois, um pedido impaciente. O melhor era despachar
o assunto e depois recambiá-lo para casa. Protestar uma
grande fadiga - geralmente resultava. Ele deslizaria
da cama, acreditando que conquistara o mundo.
- Desligo a luz? - segredou ele.
-Se prefere...
Ela olhou de relance para o relógio. Um quarto para
as onze. Se ele saísse às onze e um quarto, o que era
optimista, teria ainda oito horas antes do chá, às sete...
Mas se, como o instinto a avisava e que era o mais
provável, Sua Francófona Senhoria carecesse de perícia
- só promessas e pouco desempenho - então seria
rápido, um caso de faltes vos jeux e allons-y.
21 - Mary Anne
321
CAPÍTULO 6
QUARTA-FEIRA 22 de Fevereiro foi o último dia para
depoimentos e o coronel Wardle, tendo declarado
que não pretendia apresentar quaisquer outras
testemunhas em suporte das suas acusações - as cartas
encontradas na posse do capitão Sandon constituíam
prova suficiente da cumplicidade do Duque de York no
tráfico de promoções - deu lugar ao líder da Câmara.
Mr. Perceval começou por declarar que desejava
afastar qualquer má interpretação que pudesse ter havido
por parte da Câmara no que respeitava ao atraso na
apresentação do depoimento do capitão Sandon e da
apresentação da carta acerca do major Tony n. Haviam
circulado rumores na Oposição que pessoas amigas do
Duque de York haviam dito ao capitão Sandon para destruir
a carta. Isso era completamente falso.
A Oposição recebeu a sua declaração em silêncio.
Repararam, assim como alguns membros do Governo,
que nada mais foi dito acerca da possibilidade de a carta
ser falsa, e mais nenhuns especialistas em escrita foram
chamados à barra.
Numa última tentativa para desacreditar Mrs. Clarke,
o líder da Câmara chamou Mrs. Favoury, governanta,
para prestar depoimento, confiando em que ela menosprezaria
a sua patroa; e Martha, de olhos abertos pela
ansiedade e surpresa, foi entregue ao Procurador-geral.
- Foi governanta de Mrs. Clarke em Gloucester
Place?
- Fui.
322
- A casa era mantida à custa de grande despesa?
- Certamente que era. Às vezes, havia três cozinheiros
ao jantar e se Sua Alteza Real fazia reparo a
algum dos pratos, ela mandava vir outro.
- Mrs. Clarke tinha o hábito de receber visitas de
outros cavalheiros?
- Sim, cavalheiros iam e vinham.
- Antes de Samuel Cárter ir viver com Mrs. Clarke
como lacaio, costumava aparecer na companhia de um
certo capitão Sutton?
- O capitão Sutton trazia-o com ela, certamente,
mas não o levava para a sala de estar.
- Sabe se Mrs. Clarke viveu alguma vez com um
cavalheiro chamado Ogilvie?
- Sei quem é Mr. Ogilvie, mas ela nunca viveu com
ele. Costumava aparecer em Tavistock Place, um cavalheiro
forte.
- Conhece um homem chamado Walmsley?
- Porque pretende trazer esse nome aqui?
Martha, corada e indignada, olhou ressentidamente
para o Procurador-geral. Sir Vicary Gibbs inclinou-se para
a frente. Então... outro amante para acrescentar à lista
das conquistas de Mrs. Clarke?
O nome Walmsley correu de boca em boca nas bancadas.
Um Walmsley de Shropshire abanou a cabeça e
ficou escarlate. O Procurador-geral levantou a mão,
pedindo silêncio.
- Se - disse ele para Martha - tem alguma coisa
a dizer acerca de um Mr. Walmsley, terei muito prazer
em a escutar.
Martha procurou um lenço. Se não dissesse a verdade,
o Procurador-geral podia mandá-la para a prisão.
- Mrs. Clarke sabe de tudo - respondeu ela.
Fui casada com esse homem, que já era casado. Ele
Enganou-me, mas eu não sabia de nada - deixei de viver
com ele quando soube. Casei com ele na igreja de
Woolwich. Era carvoeiro. Mrs. Clarke disse-me para não
casar com ele, mas eu não a ouvi.
Fortes risadas soaram através da Câmara e o Procurador-geral,
olhando de relance para Mr. Perceval, permitiu
à sua testemunha confusa que se retirasse e cha-
323
mou Mrs. Mary Anne Clarke para um interrogatório
final.
-Estava ao corrente de Walmsley?
- Sim. Ouvira falar do homem uma dúzia de vezes.
Ouvira dizer que era um ladrão e dei por falta de alguns
pratos de sopa, tendo os meus criados pensado que
pudesse ter sido ele. Era um homem de péssimo carácter
e o Duque pensou que seria melhor para ela se deixasse
de me servir.
- Quanto tempo decorreu até que a chamou de
novo para seu serviço?
- Não a chamei até ao momento em que precisei
desesperadamente dela. Mrs. Favoury é-me muito necessária,
conhece todos os meus assuntos, acredito que
guarda todos os meus segredos e nunca a achei desonesta.
- Confirma o seu anterior depoimento, em que
declara que recebeu uma vez uma longa lista de nomes
para promoção e que a mostrou a Sua Alteza Real?
-Sim, confirmo. Ele guardou a lista no seu livro
de bolso e mais tarde vi-a com alguns dos nomes riscados.
Menciono isto apenas porque ouvi um cavalheiro
aqui mesmo à minha direita dizer que eu lhe ia aos
bolsos.
Olhou de relance acusadoramente para o membro
Tory que a ofendera e houve expressões de troça «Vergonha»,
vindas da bancada da Oposição.
O Procurador-geral consultou umas notas que tinha
na mão.
- A senhora disse num depoimento anterior que
conhecia o major Dodd. Quando o viu pela última vez?
- Não me lembro. Não tenho vergonha do major
Dodd, nem, atrevo-me a dizer, o major Dodd tem vergonha
de mim. Excepto, talvez, neste momento.
- Conhece um certo Mr. Ogilvie?
- Sim.
- Há quanto tempo o conhece?
- Não me recordo. Há alguns anos.
- Quatro anos?
-Talvez.
- Seis anos?
- Acho que não.
324
- Há quanto tempo conhecia Mr. Ogilvie antes de
viver com o Duque de York?
- Há alguns meses. O seu negócio estava à beira
da falência e os seus livros estavam a ser investigados,
quando o conheci.
- Viveu alguma vez com ele?
- Nunca vivi com nenhum homem, além do Duque
de York.
Aplausos e assobios soaram através da Câmara.
A testemunha ouviu-os com compostura. O Procurador-geral
encolheu os ombros. Lorde Folkestone olhou para
os próprios pés, o coronel Wardle enxugou o suor.
E então, para desapontamento de toda a Câmara, o Procurador-geral
declarou que não tinha mais perguntas a
fazer à testemunha.
Pouco mais se passou. Os trabalhos terminaram
com o depoimento de dois porta-vozes militares do
Governo - o secretário da Guerra e o Right Hon. (altamente
ilustre) Sir Arthur Wellesley.
- Quanto ao estado do exército - disse Sir Arthur
Wellesley-, posso dizer, pelos conhecimentos que possuo
e que são íntimos, que melhorou materialmente em
todos os aspectos. A disciplina dos soldados foi melhorada,
os oficiais têm mais conhecimentos, todo o pessoal
está melhor do que antes e mais completo, os oficiais
de cavalaria estão melhor do que estavam, todo o
sistema de administração de roupas do exército, a economia
dos regimentos e tudo o que se relaciona com
a disciplina militar dos soldados e a eficiência militar
do exército melhoraram bastante desde que Sua Alteza
Real, o Duque de York, foi apontado como comandante-chefe.
Tendo o depoimento sido finalmente concluído,
Mr. Perceval sugeriu que, como as minutas todas seriam
impressas na segunda-feira seguinte, o relatório poderia
ser entregue na terça-feira, para consideração. O coronel
Wardle concordou.
A investigação à conduta do Duque de York terminara.
O debate, que deveria durar de quinta-feira, 23 de
Fevereiro até sexta-feira, 17 de Março, estava ainda
para vir.
325
CAPÍTULO 7
SENTOU-SE na sala de visitas de Westbourne Place
com um sentimento de anti-clímax, depressivo.
A investigação, apesar de odiosa, servira como
um desafio. Agora, nada mais havia a fazer, senão esperar
pelo veredicto. Qual seria, não parecia ter importância.
Não sentia qualquer ressentimento, ou ira. Mesmo o
Tribunal de Guerra fora esquecido. Adam era o culpado
de tudo - Adam e Greenwood.
Pegou no jornal da manhã e leu a carta que o Duque
de York mandara à Câmara dos Comuns:
Sir.
Tenho esperado com a maior ansiedade que a comissão
nomeada pela Câmara dos Comuns, para inquirir
sobre a minha conduta como comandante-chefe e do Exército
de Sua Majestade, termine as suas investigações
e espero que não seja impróprio endereçar esta carta à
Câmara dos Comuns, através da vossa pessoa.
Observo com a maior preocupação que, durante o
inquérito, o meu nome foi associado às mais criminosas
e vergonhosas transacções e devo lamentar profundamente
que tal associação tenha sido, sequer, sugerida,
expondo assim a minha honra e o meu carácter à censura
pública.
«Muito bem», pensou ela, «lamenta. Não o fizeste
antes. Não lamentaste, quando juraste que me amavas.
Não lamentaste, quando prometeste sustentar as crian-
326
ças. Só lamentaste, quando o teu olhar cansado caiu
sobre Mrs. Carey e eu passei a ser um incómodo.
Mesmo então, se tivesses mantido a promessa, ter-te-ia
poupado.» Levantou o jornal e leu a carta até ao fim.
Com respeito à minha alegada ofensa, associada à
destituição dos meus deveres oficiais, juro solenemente
por minha honra como Príncipe, que estou totalmente
inocente, negando qualquer participação em quaisquer
infames e corruptas transacções que surgiram nos depoimentos
apresentados à barra da Câmara dos Comuns, ou
qualquer conivência relacionada com essas transacções,
nem o mínimo conhecimento ou suspeita da sua existência.
«Oh, Deus te perdoe. E aqueles brincos, os que comprei
no Parkers, e os cavalos e as carruagens, e os meus
vestidos, e as armas reais gravadas em todas as pratas?
Pensas que os paguei com as oitenta libras que me
davas todos os meses?»
A consciência da minha inocência leva-me a esperar
confiadamente que a Câmara dos Comuns não adoptará,
baseada em tais depoimentos, quaisquer procedimentos
prejudiciais à minha honra e carácter; mas se,
após tais testemunhos contra mim a Câmara dos Comuns
achar questionável a minha inocência, clamarei por justiça,
no sentido de que não serei condenado sem julgamento,
ou privado dos benefícios e protecção que são
privilégio de qualquer cidadão britânico sujeito a essas
acusações e às quais se submeteu na administração geral
da lei.
Sou, Sir, vosso, Frederick
Escrita pelo próprio? Provavelmente. Ou rascunhada
pelo seu secretário particular Herbert Taylor, com Adam,
possivelmente, pairando nos bastidores.
Não causara grande impressão, de acordo com Folkestone.
Houvera falatório sobre os ataques aos privilégios
da Câmara - ela não os compreendia e ainda se interessava
menos.
- Bem, que acontece a seguir?
327
Fez aquela pergunta aos conspiradores quando eles
a visitaram. Wardle, Dodd e Glennie, o bando que pusera
a engrenagem em marcha.
- Não podemos planear adiantadamente - disse
Wardle, subitamente pomposo, o seu futuro, tal como
o nosso, depende da Câmara. Estarei extremamente
ocupado durante as próximas semanas. O peso inteiro
do debate cairá sobre os meus ombros.
- Não vai receber o apoio do resto da Oposição?
- Com certeza. Mas como instigador das acusações,
sou o responsável. Estou na linha da frente, todos
esperam para ver o que faço.
- O que é exactamente o que o senhor gosta, meu
suave e imaculado patriota.
- Querida senhora, linguagem azeda não lhe fica
bem.
- Mas admirou-a na Câmara.
- Isso foi completamente diferente. A senhora empregou-a
contra o Governo, nós somos seus amigos.
- E falando do Governo... - cortou Dodd, e ela viu
os dois homens trocarem olhares de compreensão.
Falámos sobre si com Sir Richard Phillips, ontem à
noite.
- O editor de Bridge Street?
- Esse mesmo. Um grande admirador seu, pelo
menos foi o que nos disse.
-Ah! sim? Que quer ele?
- Porquê o «quer?» Ele elogiou o seu charme.
- A experiência, major Dodd, ensinou-me há muito
que homem algum expressa admiração, a não ser que
pretenda algo da pessoa admirada.
- Essa é uma visão cínica.
-Eu sou uma mulher cínica.
O coronel Wardle interrompeu.
-A questão está relacionada com o negócio de
Phillips. A senhora anda tanto nas bocas do mundo toda
a Londres fala de si - que ele espera que a senhora
se sente e escreva as suas memórias. A procura seria
enorme, segundo ele.
- As minhas memórias... Memórias de quê?
- Da sua vida com o Duque, de todas as pessoas
que conheceu, de todos os mexericos e escândalos. Faria
uma fortuna, claro. Ficaria rica para o resto da vida.
328
- Mas eu pensava que isso já estava fixado e arranjado.
Que o Duque de Kent tinha uma pensão na manga.
Houve um estranho silêncio, uma pausa embaraçosa.
E depois, Dodd novamente:
- Claro, está tudo no ar, até que o debate na
Câmara termine e nós saibamos o que vai acontecer.
Entretanto, tem tudo a ganhar e nada a perder, publicando
um livro tão depressa quanto possível.
-Com o seu talento - disse Wardle, a sua inteligência,
o seu charme e a sua facilidade de expressão,
não demoraria mais do que umas semanas a escrevê-lo.
Phillips conhece um escritor de aluguer que a ajudaria
nisso. Um tipo chamado Gillingham.
- Eu próprio estou disposto a ajudá-la - disse o
major Dodd. - Tenho um certo jeito com a minha pena;
a minha mulher costumava dizer que se eu tivesse
tempo, poderia escrever uma novela. Sua Alteza Real, o
Duque de Kent, disse o mesmo.
- Porque não escreve as memórias dele, então?
Vendiam-se melhor que as minhas. Como conheceu
Madame de Laurent, em todos os detalhes. E como as
tropas em Gibraltar o queimaram, como se ele fosse o
Guy Fawkes (esteve envolvido na célebre Conspiração
da Pólvora em 1570-1606).
- O objectivo do livro, se escrever as suas memórias
disse o coronel Wardle, tentando mudar de
assunto, seria, claro, para conspurcar York, mas ao
mesmo tempo atacar o actual governo. Remexer em
mexericos íntimos e assim, desferir um; golpe em nome
da liberdade e em nome de todos nós.
- Lavar a roupa suja do Governo e poupar-lhe a si
o trabalho?
-Sou um homem ocupado. Não tenho tempo para
escrever.
Bom Deus! Como ela os desprezava a todos. Usando-a
como um instrumento, para levarem os seus planos
por diante. Não importava que ela ficasse maculada, ficariam
de mãos limpas - desde que se mantivessem a
distância.
- Digo-lhe o que vou fazer - disse ela. - Talvez
escreva um livro acerca da vida privada de todos os
homens que conheci, incluindo a si e ao major Dodd.
329
- Querida senhora, as nossas vidas suportariam
qualquer investigação. Pergunte às nossas mulheres.
- Muito bem. E o pseudónimo de «Mr. Brown»? E o
botequim em Cadogan Square?
O coronel Wardle ficou vermelho e piscou os olhos
- Que quer dizer exactamente?
- Meta a mão na consciência, se a tiver. Eu não
sei. A criada de quarto toma chá na cozinha com a
Martha. Quanto ao major Dodd, há um restaurantezeco
em Drury Lane, que tem uma rapariga ruiva atrás do balcão.
O meu irmão janta lá algumas vezes - ele gosta
muito de teatro.
O major Glennie deu uma pequena risada.
- E que sabe a senhora acerca de mim?
- Pergunto-me como conseguiu a sua actual posição,
muito segura, como professor de matemática em
Woolwich. Pensava que todos os peritos em artilharia
eram necessários em Espanha.
Silêncio. A seguir, gargalhadas forçadas e olhares
sub-reptícios aos relógios - tinham todos que ir para
casa.
- Se pensar nas memórias, Mrs. Clarke, Sir Richard
é o homem indicado, é um editor muito empreendedor.
Tão empreendedor, que um pedido urgente para a
ver chegou na distribuição seguinte do correio, o que
provava haver conivência. Ela teve uma entrevista com
Sir Richard no seu escritório em Bridge Street, e, olhando
à sua volta, recuou dez anos, quando, não naquele escritório,
mas noutros, vendera as suas escrevinhadelas
sobre mexericos em panfletos de meio-dinheiro.
Naqueles dias, a dez xelins a coluna, para Joseph
se poder esgueirar pela esquina e gastá-los nas tabernas.
Mr. Jones, em Paternoster Row, «não é suficientemente
indecente; o público quer qualquer coisa que fervilhe,
para aguçar o apetite.» Mas agora, a passadeira vermelha
fora desenrolada e os xelins transformavam-se em
milhares.
Sir Richard Phillips começou por elogiar o seu
depoimento.
- Minha cara Mrs. Clarke, teve a Câmara toda a
seus pés.
- Com a possível excepção do Procurador-geral.
E o líder da Câmara nem sequer se ajoelhou. Nem sequer
330
vi a bancada do Governo sem figuras sentadas - estavam
móveis.
- Mas asseguro-lhe que ficaram impressionados,
mesmo assim. É demasiado modesta. Vamos ao que interessa,
e as memórias?
- Que têm as memórias?
- Já tem alguma coisa escrita?
- Nem uma linha.
- Mas eu sei que antes da investigação, durante
o Verão do ano passado, a senhora tomou alguns apontamentos
acerca das recordações da sua vida em Gloucester
Place, conversas com o Duque, assuntos privados
relacionados com a família real, etc., etc. É atrás desse
material que eu ando. Posso vê-lo?
- Depende do que pretende fazer com ele.
- Ora, publicá-lo, claro, com certos embelezamentos.
Um pequeno toque aqui e ali, por um escritor de
aluguer profissional, enquanto a senhora vai fornecendo
o material e as cartas. Muito quentes, não tenho dúvidas.
Conheço estes príncipes - é o sangue alemão, não têm
a noção das limitações. Pagar-lhe-ia bem pelos direitos
de autor, Mrs. Clarke.
- Não vendo os direitos de autor, Sir Richard.
- Não vende... mas o que pretende afinal?
- O senhor pode publicar o livro e vendê-lo como
muito bem entender, mas limita-se a ser o vendedor. Os
direitos de autor não saem da minha posse.
- Nesse caso, Mrs. Clarke, não podemos fazer
negócio.
- Lamento. Encontrarei outra pessoa, não tenho
pressa.
Levantou-se para sair, mas ele pediu-lhe que ficasse
mais um pouco.
- Se não sou eu a publicar o livro, posso pô-la em
contacto com um excelente homem que vai começar a
actividade de editor, um certo Mr. Gillet, que está há
algum tempo neste negócio. De facto, ele está cá hoje,
vou-lho apresentar.
Ela reconheceu a patuscada, a engrenagem. Havia
sempre alguém que «apareceu por acaso», mas que
estava, de facto, à espera que a campainha tocasse.
-E, por acaso, há um livreiro de Kent, com um
negócio florescente em Maidstone, um homem chamado
331
Sullivan. Apenas um olhar para si, Mrs. Clarke, e ele
dará a ordem. Malhar em ferro quente é o meu lema
favorito.
Entradas de Mr. Gillet e Mr. Sullivan. Mais discursos
elogiosos e tributos pagos ao seu charme, ao fim dos
quais começaram a escrever números num papel.
- Uma primeira edição de doze mil exemplares,
penso que o conseguiríamos em poucas semanas.
- Um retrato da autora como figura de capa? A cabeça
desenhada por Mr. Buck, a que apareceu nos
jornais? E assinada, claro - sem valor, se não for assinada.
- E acerca da Irlanda, o mercado de Dublim?
- Os Micks (irlandeses.) não são bons pagadores,
mas hão-de querer o livro. Diria que Mrs. Clarke meteria
ao bolso dois mil guinéus.
Ela escutou-os em silêncio e depois colocou uma
pergunta.
- Que tal algum dinheiro antes de se começar o
livro?
Nenhuma oferta. Silêncio de morte. Então, Mr. Gillet:
- É costume entregar o manuscrito primeiro - protestou,
logo seguido pelo vendedor ambulante de Maidstone
e por Sir Richard.
- Estou a ver. Bem, é melhor ir para casa e começar
a escrever.
As suas palavras aliviaram toda a gente. A entrevista
terminou, sem qualquer compromisso de ambas as
partes - nada de assinaturas de contrato, nada confirmado.
Apenas um futuro literário assegurado e uma
fortuna prometida. Acreditaria neles quando tivesse o
dinheiro nas mãos; então, talvez todos os seus discursos
fascinantes fizessem sentido. Portanto, de volta
a Westbourne Place e a uma folha de papel almaço.
E depois...? Memórias de M. A. Clarke - seria esse o
título? Soava seco como pó, como um manual para professores.
A Minha Ascensão e Queda viria mais a propósito,
mas a ascensão causaria algum falatório e agitação.
Era melhor não levantar poeira, manter o véu até
as raparigas casarem e George ser general.
A Minha Vida Com o Duque? Já estava toda nas
minutas, discutida na Câmara dos Comuns. Muita coisa
não seria encontrada nelas, claro. O que ele usava (ou
332
não usava), os seus gostos em comida, a disposição ao
pequeno-almoço, a cantoria na banheira, a aversão à
botija, o bocejo da meia-noite. Diriam que ela mentia,
sem dúvida - o problema era esse - e pô-la-iam em
tribunal por apresentação falsa de factos.
O livro, para ser convincente, teria de conter as
cartas dele: não poderiam ser negadas ou explicadas
de outra maneira. Tinha-as todas numa caixa, atadas
com uma fita, excepto as poucas que entregara na Câmara
e eram o que o público realmente queria. Nada
de billet ctovx, como os que foram lidos nos Comuns,
mas aquelas em que ele revelava segredos acerca da
família.
O Rei jogando às cartas em roupão (alcunhado de
rabugento), enquanto o primeiro-ministro, Mr. Pitt, esperava
pela sua audiência... A persistente insistência da
Rainha no protocolo, a criadagem perfilada à sua passagem...
A prisão da Princesa de Gales, com repercussões
estranhas... Os hábitos e gostos dos irmãos,
especialmente Cumberland, com espelhos por todo o
palácio de St. James e criados de quarto esquisitos.
Sim, aquelas cartas eram valiosas de uma maneira
ou de outra, uma vez encadernadas de couro e profusas
letras douradas. Mas se Sir Richard, Gillet, ou o vendedor
ambulante de Maidstone pagariam tanto pela sua
posse como a mão real que as escrevera, era uma
questão em aberto - e a investigar.
Era divertido o sentimento geral de desconforto
que parecia atacar tantos dos seus amigos. James Fitzgerald,
da Irlanda, era um dos mais agitados - e com
razão, quando pensou nas cartas dele. Não fora o único
que escrevera, implorando que, se ela alguma vez considerasse
a hipótese de escrever as suas memórias
- o rumor espalhara-se, pelos vistos, até Dublim - não
o incluiria a ele, em nome da velha amizade. Se as suas
cartas não houvessem sido queimadas, poderia restituí-las?
De facto, ela não as podia restituir ou queimar.
Haviam feito parte do maço que Nichols descobrira em
Hampstead e repousavam agora na Câmara dos Comuns.
Aquelas notícias tiveram como resultado o envio
de Willie, o filho dele, a casa de Mary Anne, às seis
da manhã, com lágrimas nos olhos.
333
- Que se passa, em nome do céu? O seu pai
morreu?
Os cortinados foram corridos, o fogo atiçado, café
quente e ovos foram colocados à frente dele e ela de
roupão.
- Mary Anne, enfrentamos a ruína. Só você nos
pode ajudar.
- Nem cinco guinéus tenho em casa. Mando já
alguém ao meu estofador, ele ajuda-me.
- Não é isso, não é dinheiro...
- Então, que diabo é?
Ele parecia um louco furioso fugido de Bedlam.
Até tinha palha na cabeça (a travessia de barco de
Dublim), não se barbeara, nem limpara as unhas.
-O meu pai recebeu a sua carta há cinco dias.
Vim imediatamente... tem que recuperar essas cartas.
- Como posso eu? Estão seladas, na Câmara dos
Comuns.
-Tem que apelar para Perceval, sem demora.
--Ele não ouviria. Provavelmente, já rasgou o selo
e está a lê-las todas.
- Não compreende a nossa posição se formos
desonrados? O meu pai nunca mais levantará a cabeça,
a minha irmã terá que romper o noivado e quanto a
mim...
- Eu sei, é muito desolador. Há uma carta em que
James me pede para ser meu agente na Irlanda, escrita,
se bem me lembro, por volta de 1805 e dizendo que
podia elevar os preços dos candidatos a alferes. Será
bastante mau se ela for lida perante a Comissão.
- Você senta-se aí e ri-se...
- Não posso fazer mais nada. Não as tenho em
meu poder. Vá pedi-las você a Perceval, mas ele não o
ouvirá até o debate terminar.
- Entretanto, não nos mencionará nas suas memórias?
- Entretanto, não prometo nada. Coma o seu
pequeno-almoço.
Como pudera achá-lo divertido, em Worthing? Devera-se,
com certeza, à sua aparência jovem e loura, a
juntar ao aborrecimento de um mês de Julho quente.
- Eu digo-lhe o que posso fazer - um súbito pensamento
ocorreu-lhe -, você disse-me que conhecia bem
334
o conde de Moira e também o conde de Chichester. Eu
conheci-os na sua companhia. O meu nome está na lama
neste momento, para eles, mas não interessa. São amigos
pessoais do Duque de York há muito tempo. Diga-lhes
que eu vou publicar as minhas memórias, incluindo
todas as cartas do Duque, mas que posso mudar de
ideias se alguém conseguir persuadir-me.
A sugestão era justa e deixava as portas todas
abertas.
E durante todas aquelas semanas de Março, enquanto
o debate continuava, dia após dia, com longos, intermináveis
discursos - os prós, os contras, os elogios
e as calúnias, os louvores aos céus e a lavagem da
roupa suja - a testemunha principal de acusação de
Wardle escrevinhava em blocos de notas; confissões,
impressões, divagações e tudo o mais. Não havia tempo
para qualquer intromissão, nem sequer da parte das
crianças (longe, seguras, no campo com a sua mãe)
nem um momento para Bill, em Uxbridge, cuidando do
seu idoso pai, que tivera um enfarte.
Só uma vez fez uma pausa e por pouco tempo quando
Sua Senhoria Radical, ainda quente do debate
na Câmara, a visitou clandestinamente. Ouviu, então,
todas as notícias. Como progredia a guerra de ideais,
como lhe chamara feiticeira, uma outra pessoa, libertina
e uma outra, uma pobre mulher equivocada, que ansiava
por perdão dos céus.
- Quem está a ganhar?
- Estamos empatados.
- Será um empate, no fim?
- Não, um avenço do Governo, com uma pequena
margem.
- O que quer dizer?
- Exoneração.
- De quem?
- Do seu galante Comandante-Chefe.
Ela não sentiu alegria, exaltação, triunfo - somente
uma dor no coração e um sentimento de vergonha. Eu
te recompensarei, disse o Senhor - lera as palavras na
velha Bíblia da mãe; mas tudo o que a vingança lhe
trouxera, fora um gosto amargo à boca.
- Posso ficar?
- Se quiser.
335
E mesmo aquilo lhe era indiferente, um tributo não
desejado. Sempre a mesma velha experiência, compartilhada
sem fervor ou loucura.
A Câmara esteve reunida durante a noite de 16 de
Março, antes da votação e do escrutínio. O debate, que
durara três semanas, terminara por fim e os discursos
finais mostraram como se iria dividir a Câmara.
Primeiro, o líder da Câmara e o Procurador-geral
opinaram que não havia necessidade de retirar Sua
Alteza Real do cargo que mantinha presentemente e
para o qual estava excelentemente qualificado. A dar
crédito a Mrs. Clarke, as acusações haviam sido provadas,
mas o seu testemunho parecera baseado em
invenções. Era dever da Câmara absolvê-lo de todas as
acusações que lhe haviam sido feitas.
Sir Francis Burdett, pela Oposição, disse que ficara
atónito por ver o líder da Câmara, Mr. Perceval, que
também acumulava o cargo de chanceler do Tesouro,
Sir Vicary Gibbs, o Procurador-geral e todos os advogados
da Coroa, cujo dever era punir públicas delinquências,
engrossarem as fileiras do partido acusado.
O objectivo fora desacreditar o depoimento de Mrs.
Clarke, mas fora extraordinária a maneira consistente
como ela depusera. Todos aqueles que se haviam proposto
armadilhá-la, ou desacreditá-la, acharam-se postos
em cheque. O Procurador-geral de Sua Majestade fora
continuamente derrotado.
Quanto aos altos princípios morais do Duque de
York, não sentira remorsos em afastar a sua amante,
expondo-a à pobreza e à infâmia. A pensão que lhe fora
pedida, fora recusada, o que dizia muito das promessas
reais. A alta posição do Príncipe era imaterial, naquele
caso. Porque em questão, estava a justiça em Inglaterra
e o povo de Inglaterra esperava justiça por parte da
Câmara. Parecia-lhe impossível, por tudo o que ouvira
durante as últimas semanas na Câmara dos Comuns
que o Duque de York pudesse manter a sua situação
como chefe do Exército.
A Câmara dividiu-se no meio de cenas de intensa
excitação e o resultado foi o que Lorde Folkestone profetizara.
Apesar de o Duque de York ter sido absolvido
336
de corrupção pessoal e conivência, a maioria a seu
favor não foi mais de oitenta e dois.
No papel, e em números, as acusações não haviam
sido provadas; mas aos olhos da opinião pública, o
Duque de York fora condenado e o resultado, uma vitória
para a Oposição.
Quando as notícias foram conhecidas na sexta-feira
à tarde, houve gritos e regozijo nas ruas de Londres.
O coronel Wardle tornou-se um herói nacional, Mrs.
Clarke uma benfeitora do povo inglês e em vez de os
rapazes da rua lhe atirarem pedras à janela da sala de
visitas, havia agora uma multidão das vielas de Chelsea
e Kensington, esperando pela sua aparição à portal e
pelo seu sorriso.
Nessa noite, ela foi à Opera House no Haymarket,
onde uma representação de beneficência era dada em
prol dos actores e actrizes de Drury Lane. Charley estava
com ela, assim como May Taylor e Lorde Folkestone;
e quando chegaram ao camarote e foram vistos pela
audiência, vivas e aplausos calorosos soaram através
do teatro.
- Isto compensa aquilo por que passaste com o
Procurador-Geral, não compensa? - segredou Charley.
A sua irmã sorriu, fez uma vénia e acenou para a
multidão.
- Não - disse ela, sorrindo e acenando novamente.
- Então, que vais exigir a seguir? Um pedido de
desculpas público?
Ela riu-se.
- Fico à espera da minha hora - respondeu ela. Espera
e verás. Um destes dias, ainda apanho Vicary
Gibbs.
-Se recebe tributos destes agora - murmurou
Lorde Folkestone, à medida que as palmas esmoreciam
e a audiência se acalmava -, que acontecerá quando
publicar as suas prometidas memórias?
- Um autor é lido, não é observado - segredou
Mary Anne. - Além disso, é bem possível que não as
publique.
- Mas, a senhora deve... - Ele ficou espantado.
-Ouvi Sir Richard Phillips dizer que estava tudo arranjado.
O livro será mais um travão ao Governo e trará
mais popularidade à Oposição.
23 - Mary Anne
337
Mary Anne encolheu os ombros. As luzes extinguiram-se.
- Se o senhor pensa que me interesso por qualquer
dos lados - disse ela, está muito enganado. Lute
pelas suas próprias questões.
- Então, por que foi toda esta batalha?
- Pelo futuro dos meus filhos.
O pano subiu e fez-se silêncio. O título da peça era
Honey-moon, A audiência levantou-se e gritou a meio,
quando um dos actores principais, concluindo uma deixa,
teve de dizer, «Será desastroso, decerto, demitir-me no
fim do mês, mas tal como outros grandes homens em
cargos públicos, devo tirar o melhor partido do meu
tempo e retirar-me em estado de graça evitando assim
ser posto fora».
Uma vez mais, todas as cabeças se viraram para
o camarote à direita e acenaram, riram e gritaram.
O triunfo era total.
No sábado de manhã, Sua Alteza Real o Duque de
York entregou a sua demissão como Comandante-Chefe
do Exército, que Sua Majestade aceitou graciosamente.
A excitação que se seguiu durou até à Páscoa e discursos
da Oposição em Westminster Hall eram aplaudidos
descontroladamente. No dia 1 de Abril, o coronel
Wardle foi eleito Freeman (cidadão livre) da cidade de
Londres e o Lorde Mayor, que falara contra a sugestão,
foi vaiado pela multidão, que lhe atirou lama à carruagem.
No mesmo dia, a testemunha principal de acusação
do coronel tinha uma reunião com três cavalheiros - o
conde de Moira, o conde de Colchester e Sir Herbert
Taylor, secretário particular de Sua Alteza Real o Duque
de York.
Nessa reunião, Mrs. Clarke, assistida pelo seu advogado
Mr. Gamrie, o seu irmão capitão Thompson e dois
amigos, Mr. William Dowler e Mr. William Coxhead-Marsh,
acordaram em não publicar as suas memórias,
parte das quais haviam já sido impressas por conta de
vários milhares de cópias e que estavam nas mãos do
editor Mr. Gillet, que receberia mil e quinhentas libras
de indemnização, assim que as destruísse.
Pela supressão das memórias e por concordar em
entregar ao conde de Chichester todas as cartas do
Duque de York que ainda estavam na sua posse, Mrs.
338
Clarke receberia a quantia de dez mil libras, com uma
pensão vitalícia de quatrocentas libras e duzentas libras
para cada uma das suas filhas. A sua própria pensão
passaria para as suas filhas, após a sua morte. Os três
cavalheiros que assistiram Mrs. Clarke seriam administradores
da sua pensão; e o conde de Chichester,
Mr. Cox e Greenwood, garantiriam o pagamento.
Então, Mrs. Clarke sentou-se e assinou o acordo
seguinte:
De acordo com os termos propostos e acordados,
eu, Mary Anne Clarke, de Westbourne Place, número 2,
Londres, prometo entregar toda e qualquer carta, papel,
memorando e qualquer outro tipo de escrita em meu
poder ou à minha custódia, respeitantes ao Duque de
York ou qualquer outra pessoa da Família Real e particularmente,
todas as cartas, memorandos ou quaisquer
outras, escritas ou assinadas pelo Duque. Prometo também
procurar todas as cartas que não estão à minha
custódia, que me foram confiadas por outrem e entregá-las
ao amigo do Duque.
Concordo também que, quando requerido, farei uma
solene declaração sob juramento de que entregarei todas
as cartas, e outros tipos de escrita, remetidas pelo Duque
e endereçadas à minha pessoa, desde que estejam em
meu poder e posse e que não tenho conhecimento de
mais nenhum, e prometo procurar junto do editor e
pessoas empregadas para imprimirem uma publicação
da minha vida, qualquer documento na sua posse e
quaisquer partes que já tenham sido impressas.
Prometo ainda não escrever, imprimir ou publicar
qualquer artigo respeitante à ligação entre mim e o
Duque, ou qualquer anedota, escrita ou verbal, que tenha
chegado ao meu conhecimento através do Duque.
Entregarei todas as cartas, mas os manuscritos e
tudo o que foi impresso posteriormente serão queimados
perante uma pessoa nomeada para o efeito. Também
prometo não guardar qualquer cópia, ou cópias de qualquer
das cartas do Duque de York, ou de qualquer dos
manuscritos, ou de qualquer parte posterior.
Datado de 1 de Abril de 1809.
Assinado,
Mary Anne Clarke
339
O seu advogado, Mr. James Courrie, testemunhou
o documento.
Ela seguiu para casa, em Westbourne Place e deu
uma festa... mas pensou na cadeira vazia do escritório
nos Horse Guards.
Quando todos os seus amigos haviam saído, ela
ficou à janela da sala de visitas. Só Bill, Charley e May
Taylor ficaram. Bill aproximou-se e ficou a seu lado,
tomndo-lhe o braço
- O fim de uma era - disse ele. - Esquece tudo.
Uma parte infeliz da tua vida, que passou e está
encerrada.
- Não passou e não está encerrada. E o futuro?
-Tens o que querias. O futuro das crianças está
assegurado.
- Não estou a pensar nisso. Estou a falar das
promessas de Wardle.
- Que te prometeu ele?
- Castelos e carruagens de quatro cavalos, tendo
o Duque de Kent como cocheiro, segurando o chicote.
Riu-se e não disse mais nada. Acabaram o vinho,
o último do simpático presente de Mr. Illingworth.
- Reparaste - disse ela - numa estranha omissão
naquele pomposo documento que eu assinei hoje? Prometi
que não publicaria uma palavra acerca de mim
própria e do Duque e da nossa vida juntos. Mas a promessa
dizia respeito a mim própria e não aos meus
herdeiros.
- Achas que as crianças... - começou Bill.
Ela encolheu os ombros.
- Acho a omissão intrigante - disse ela - mais
nada.
Fez um brinde ao futuro e esvaziou o copo.
340
QUARTA PARTE
CAPÍTULO 1
VIERAM ter com ela à vez, recriminando-a: Wardle,
Dodd, Folkestone e por fim, claro, Will Ogilvie fazendo
todos a mesma pergunta:
- Porquê? Para quê?
A cada um deles, respondeu:
- Segurança. As crianças.
- Mas, nós tínhamos excelentes cartas na mão persistiu
Wardle. - O nosso triunfo era total e a publicação
das suas memórias, incluindo as cartas do Duque,
constituiriam uma enorme vantagem para a nossa causa.
Ela encolheu os ombros.
-A vossa causa não me interessa - disse ela.
Lutei por vós na arena da Câmara e isso foi o suficiente.
- As cartas - gemeu o major Dodd, as preciosas
cartas. A simples sugestão que a senhora me deu
do seu conteúdo, degradaria o Duque de York para o
resto da vida aos olhos da opinião pública, para não
falar da família dele. O Duque de Kent tê-lo-ia substituído
e por causa do seu carácter sóbrio e recto, tornar-se-ia
do dia para a noite numa figura venerada e adulada,
enquanto que assim...
-Enquanto que assim - disse ela - ele continua
sentadinho em Ealing e Sir David Dundas tem o seu
cargo como C.-C.
Sua Senhoria Radical, solícito e suave, inclinou-se
de perto para ela, abanando a cabeça em ar de dúvida.
- A senhora prometeu que me consultaria sobre
todos os pontos - disse ele desaprovadoramente. Compreendo
a sua ânsia por segurança, mas atirar fora
343
esse ás, foi uma rematada loucura. A publicação dessas
memórias e das cartas poderiam ter provocado um profundo
efeito na vida política, não só desbaratando o
Partido Tory completamente e dividido o Gabinete, mas
também trazendo o bem-vindo bafo republicano à nossa
bancada, onde...
- Onde, bom Deus, é necessária uma mudança de
ares - terminou ela por ele. - Varram a vossa Câmara,
mas façam-no por vós próprios. Não sou, nem nunca
quis ser uma mulher política. Vão para casa. As vossas
caras aborrecem-me.
Eles foram e deixaram-na sozinha, solitária, provocando-lhe,
como tantas vezes antes, um movimento de
pêndulo e a consequência disso. Fora tola, sem dúvida
- só o tempo o diria - mas pelo menos, havia dinheiro
no banco para Mary e Ellen e um bom pecúlio, para si.
Já não estava dependente da magnanimidade dos homens.
O eterno medo fora banido e para sempre. Mas, o que
ficara? Sentar-se e mandar todos ao diabo, aos trinta e
três anos? A dúvida colidiu com a disposição inconstante,
como acontecia sempre, quando estava com Will
Ogilvie.
Ele disse imediatamente, sem preliminares:
- Você deixou-me ficar mal.
Ela respondeu:
- Eu disse-lhe há muito tempo - tudo o que faço
na vida, é pelos meus filhos.
- Disparate! Você teria feito um dinheirão com as
suas memórias e transformado as suas filhas em pequenas
herdeiras. Assim, apenas lhes conseguiu umas
duzentas libras vitalícias, simples migalhas; e quanto
às suas dez mil, vivendo como vive e o seu apetite
pelas coisas boas da vida, ficará sem um tostão, em
dois ou três anos. Quanto ao assunto mais importante...
-O assunto mais importante era Buck House (o
Palácio de Buckingham) vazia e os Brunswicks postos
em fuga?
- Ponha-o assim, se prefere.
- Francamente, Will, eu gosto de pompa. Casacas
e brilhantes couraças, latão polido, o Rei com uma coroa
na cabeça - mesmo que seja tonto e só tenha palha
lá dentro. Sou romântica por sangue azul e pelos ungidos
por Deus.
344
- Oh, não, não é. Isso é simplesmente uma desculpa.
Nas profundezas da sua alma feminina, pretende-o
de volta.
- Quem?
- O seu Duque de York. Por isso é que entregou
as cartas e queimou as memórias. Você pensa, na sua
tortuosa mentalidade feminina, que, fazendo isso, fez
um determinado gesto. Que o coração dele ficará tocado,
que derramará uma lágrima nostálgica e que, um destes
dias, a carruagem dele parará a sua porta e ele tocará
à sua campainha.
- Isso não é verdade.
- Não minta. Conheço todos os seus pensamentos.
Bem, apague essa fogueira e calque-a com os pés. Ele
não volta. Fica doente só de ouvir o seu nome. Desgraçado
aos olhos do mundo, e por sua causa.
Aquilo irritou-a profundamente.
- Aconselhada por um chantagista, um agente do
Exército falido... Meu Deus, você meteu-se de mais
nos meus assuntos. Prouvera aos céus que eu nunca
lhe tivesse posto a vista em cima.
- E onde estaria você agora, se não tivesse? Deitada
de costas em Brighton, nalguma pensão miserável?
Três vezes por noite, com bêbados de fim-de-semana,
a cinco xelins cada? Ou, faute de mieux (à falta de
melhor), instalada pelo fiel Dowler num esconderijo
qualquer perto da casa dele, apertada e acanhada? Cozinhando
você mesma, desleixada e satisfazendo de má
vontade os desejos de Dowler, num sábado à noite.
- Pelo contrário, teria afastado Mrs. Fitz e reinado
em Carlton House - ou ficado sem negócio. Oh!, céus,
detesto-o, Will, tem sido o meu demónio.
- Tenho sido o seu salvador, só que não o confessa.
A questão é, que fazemos a seguir?
- Tenciono descansar sobre os meus louros. Vou
ensinar boas maneiras às minhas filhas.
- E casá-las com párocos, que ganham uma miséria.
A sua vida sem pecado, será insípida... E quanto a
amantes?
- Não preciso deles, com dez mil libras e uma
pensão de quatrocentas anuais. Além disso, estou farta
de homens, são demasiado exigentes.
-Está a referir-se a Sua Senhoria Radical?
345
- A ninguém em especial - só à raça em geral.
Ganhei a minha segurança graças aos meus próprios
esforços, não graças a si ou a Wardle. Onde está, a
propósito, o bónus prometido? A mansão com torreões
e a carruagem de quatro cavalos?
- É melhor perguntar ao membro por Okehampton.
Ele dirá, como eu, que o deixou ficar mal e que, suprimindo
as memórias neste momento vital, deitou fora o
trunfo número um, do qual ele dependia. Por outras
palavras, já não tem utilidade nenhuma para ele.
- E Kent?
- Oh, Kent anda aterrorizadíssimo com receio de
ser desmascarado. Admito que o julguei mal, pensei que
tivesse qualidades, mas foram todas para as botas
alemãs. Não ficará com o cargo do irmão, ou de quem
quer que seja.
- Então, estamos todos onde estávamos antes?
- Acertou em cheio. Apesar de Wardle ser um
herói popular e a senhora famosa... Apesar de não ter
o rosto (figura de proa) que lançou milhares de barcos,
tem-no, pelo menos, gravado em jarros de Staffordshire.
Caricaturas suas, na cama, em todas as tipografias que
mais quer?
- Uma palavra de agradecimento, por ter superlotado
a Câmara dos Comuns. Por afastar o pensamento
das pessoas da guerra de Espanha.
- Fez isso com o maior sucesso. Os louros são
todos seus. Toda a Inglaterra vibra ao som do nome
Clarke. Pena é que não vá vibrar muito mais tempo.
Com as memórias queimadas, depressa deixará de estar
na moda. Não há nada mais enfadonho, que viver
afastada.
Ela observava os olhos impassivos, que nunca piscavam.
Quanto do que ele dizia seria para a atrair,
incitar, que génio estaria no seu cérebro, fabricando
veneno?
- Detesto a ingratidão - disse ela - e promessas
quebradas.
- Quando feitas por tolos - sugeriu ele - cheios
de si próprios.
Pelos vistos, ele também não gostava de Wardle.
Ela compreendia perfeitamente. A sua jogada não fora
346
bem sucedida e o seu plano fora por água abaixo. Numa
determinada ocasião, na confusão da intriga, Wardle
cometera um erro estúpido, e Ogilvie, tecendo a sua
teia em segredo, vira os lucros fugirem-lhe por entre
os dedos... A teia desfizera-se.
-Se - disse ela - você fosse mais activo, em vez
de empregar peões, podia ser bem sucedido.
- A minha compleição física é de tal ordem, que
me custa mover-me.
- Então é isso? Várias vezes pensei no assunto...
Mas nenhuma confissão se seguiu, nenhuma revelação
sobre uma vida secreta. Onde iria ele buscar
prazer ou realização pessoal? Pelo menos, pensou ela
ressentidamente, não foi aqui. Aquela declaração provocou,
de imediato, um elo - e uma separação. Talvez,
como era hábito dele, tivesse lido os pensamentos dela,
pois riu-se, beijou-lhe a mão e despediu-se.
- Muito bem, perdoo-lhe - disse ele , por ter
queimado as memórias. Mas olhe que dez mil libras a
pronto desaparecem rapidamente. Tente duplicá-las, enquanto
pode. Além disso, só pensou nas suas filhas.
Não necessita todo o clã Mackenzie da sua ajuda?
E com estas palavras, retirou-se. Mas tocara no
ponto, alfinetara-lhe a consciência, extremamente útil
para os seus propósitos e ela sabia-o.
Os pensamentos turbulentos em que ele a deixara,
provocaram-lhe uma noite irreal, sem dormir, sais pela
manhã, palavras irritadas dirigidas a Martha.
-O vestido azul, não, o branco.
- O vestido azul está roto.
- Então, por que diabo não o remendaste?
- Não tive tempo, minha senhora, ainda ontem o
vestiu.
-O de seda azul, não, o de cetim... Não leves o
tabuleiro, ainda não acabei. O correio já veio? Quem
me veio visitar? Onde estão as minhas cartas?
-Está tudo aqui, minha senhora, no tabuleiro,
A senhora é que as afastou.
- Pensei que eram contas. São contas. Leva-as
daqui para fora.
- Que significa, se posso perguntar, este ramo de
margaridas murchas?
347
- Flores enviadas por Mr. Fitzgerald, chegaram esta
manhã.
- Fitzgerald pai, ou filho?
- Mr. William, minha senhora.
- Com vinte e seis anos, tinha obrigação de fazer
melhor do que isso. O pai dele costumava enviar rosas.
As finanças estão em baixo, ou o sangue irlandês arrefeceu,
das duas, uma. Não me veio ninguém visitar?
- Mr. Wright está lá em baixo.
- Wright, o estofador?
- Sim, minha senhora, está cá desde as sete.
- Quem pensava ele apanhar a uma hora dessas?
- Ele não disse... disse qualquer coisa acerca do
coronel Wardle.
- Deus me livre, se o deixava cá ficar até às sete
Já alguma vez viste o coronel Wardle na minha almofada?
- Não, nunca, minha senhora... Que chocante...
- Chocante é a palavra. Um toque da mão dele e
eu ficava com rigor mortis. Podes dizer isso a Wright,
com os meus cumprimentos. Agora, vai, prepara o meu
banho e deixa-te de mexericos.
Francis Wright lera os jornais, como toda a gente.
Dez mil libras pagas de imediato a Mrs. Clarke. Tudo
em ordem, protegido e seguro, dizia o Morning Post.
Portanto, o comércio estava vivo, ou assim parecia e
ele ainda não fora pago pela mobília.
Ela flutuou pela sala de visitas dentro, as mãos
estendidas.
- Caro Mr. Wright, que posso fazer por si?
- Bem, Mrs. Clarke, é por causa da casa.
- Por causa da casa?
- Está cá instalada, faz agora cinco meses.
- Eu sei, serve-me perfeitamente.
- Pensei que talvez, devido às novas circunstâncias,
queira algo maior, mais grandioso?
- Oh não... os meus gostos são humildes, como
sabe. Além disso, não houve grandes mudanças, apenas
um dinheirinho para as minhas filhas.
- Estou a ver. Bem, se é esse o caso... - Ele
apresentou a conta. Folhas e folhas, com todos os artigos
escritos nitidamente. - Isto diz respeito a Outubro
348
do ano passado, para não falar, claro, do armazenamento
anterior. Quer que lhe leia os pormenores um a um?
- Detestaria que por causa disso perdesse a voz,
O senhor já está bastante rouco. Isso é de andar na rua
a horas tão matinais - fatal para gargantas delicadas.
É melhor tomar um copo de vinho.
Mr. Wright não estava habituado a beber vinho às
dez menos um quarto. Às dez e meia estava sem fôlego
e apopléctico, estupidificado e a falar dos seus dias de
juventude em Greenwich, a conta metida no bolso do
colete. No entanto, viera visitá-la por uma razão. Visitara-a
porquê? Ficou a olhar para a sua cliente, baralhado
e à procura de palavras.
- O meu irmão e eu concordámos que temos direito
ao que nos é devido.
- O seu irmão tem toda a razão e o senhor tem
todo o meu apoio. Apele para o coronel Wardle, ele prometeu
pagar-lhe. Não houve um acordo qualquer com
um mercador de vinhos chamado lllingworth?
- Houve. Mas não foi honrado.
- Que grande descuido... Digo-lhe na maior confidencialidade,
entre nós, que o coronel Wardle agiu
vergonhosamente, e não só consigo. Não manteve uma
única promessa que me fez. Lembra-se do que ele disse
em Novembro passado?
-Penso que sim, não tenho bem a certeza.
- Oh, sim, tem. Aqueles amigos influentes, uma
nova madrugada para Inglaterra - deve estar recordado?
-Penso que ele admirou a mobília no meu armazém,
mas disse que era muito cara. Disso lembro-me.
- Cara, talvez, mas vital para as minhas necessidades
e vital para o papel que ele queria que eu
desempenhasse. Foi por isso que prometeu pagar e deu
a sua palavra.
Wright abanou a cabeça. O seu cérebro começava
a clarear.
- Duvido muito que venhamos a receber um tostão
dele.
-Está disposto a processá-lo?
- Se o nosso caso for bom.
- Claro que é bom. Claro e genuíno. Escreva-lhe
e peça-lhe o dinheiro. Se ele recusar, deixe o assunto
345
por minha conta. Farei com que não se safe. O herói
popular, Mr. Wright, está prestes a cair.
Mr. Wright foi acompanhado à porta, declinando
mais xerez. A visita seguinte foi o Dr. Metcalfe, o clínico.
Ele atendera-a vezes sem conta nos últimos dez
meses e tratara-a durante as tensões da Investigação,
além de ouvir apartes durante momentos de stress.
- Mrs. Clarke, um seu criado, minha senhora.
Parabéns.
- Porquê?
- Pelas notícias desta manhã. Sei que alguns amigos
do Duque lhe pagaram dez mil libras e uma pensão vitalícia
para si e para as suas filhas.
- Oh, isso... Uma ferradela de pulga, para nos impedir
de passar fome.
- Estou a ver. Nada do que esperava. Que desapontamento.
O facto é que...
- Sim?
- Eu tinha muita fé no seu futuro. Disse-me há
alguns meses que tinha expectativa, ou devo dizer esperanças,
de uma espécie diferente, das quais eu teria
uma parte, quando chegasse a oportunidade.
Abençoados fossem todos os médicos assim compreensivos.
Uma ligeira dor de cabeça, uma cama de
dossel, e um quarto de doente transformava-se num
confessionário. Ela recordou momentos de indiscrição,
insinuações deixadas cair por causa de uma voz compreensiva,
murmúrios acerca de Dodd, de Wardle, do
Duque de York - um futuro cor-de-rosa para todos os
seus amigos íntimos. Até lhe pedira para jantar numa
noite de Janeiro, acompanhado da esposa, para conhecer
Dodd e Wardle. Houvera alguma conversa acerca de
Riqueza - o vinho corria livremente, de protecção, da
agitação do mundo da medicina. O Dr. Metcalfe vira-se
instalado em Windsor, examinando com o estetoscópio
os pulmões de princesas agradecidas e não um humilde
médico, ajudando bebés a nascer.
- Lamento - disse ela. - A verdade é que fomos
ingénuos. Não só o senhor e eu, mas outros também.
Aquelas promessas feitas da investigação foram simplesmente
para me levar à Câmara dos Comuns; sem
mim, não tinham um caso, o que eles sabiam muito bem.
E agora, que tudo acabou, resolveram esquecer as pró-
350
messas. Já não tenho utilidade nenhuma, assim como os
meus amigos.
- Mas, minha querida Mrs. Clarke, o major Dodd
assegurou-me...
- Ele também me assegurou cem vezes, mas não
por escrito. A voz humana, Dr. Metcalfe, não serve de
prova; só a palavra escrita tem valor legal. Creio que
tenho alguns apontamentos dele lá em cima, que o vão
fazer tremer um pouco, um destes dias.
- E o coronel Wardle?
- É um ídolo popular. Mas apenas de momento essa
fase passará. Não há nada como um pouco de ridículo,
para pôr de joelhos um favorito do povo e virar
a multidão contra ele. Deixe isso por minha conta.
-Mas, e as minhas perspectivas, Mrs. Clarke, a
minha clientela que diminui a olhos vistos? Admito que
me tenha desleixado nos últimos meses, com tais esperanças
no futuro; e a minha mulher, que não goza de
boa saúde, como sabe, tantas despesas...
A velha, velha história. Dourar a pílula. Iam todos
juntar-se em bando, como abutres, para abocanhar os restos.
Rapidamente, ela passou-lhe um cheque, acompanhou-o
à porta e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
Will Ogilvie tivera razão, mais uma vez, como de costume.
Dez mil era uma miséria, deviam ter sido vinte.
A visita seguinte, foi a de Charley. Carrancudo, de
mau humor, dando pontapés na mobília ainda por pagar.
- Agora que tudo acabou, que me vai acontecer?
- Tratarei de te arranjar um emprego.
- Mas que espécie de emprego? Não pretendo lam-
ber as botas a ninguém, não vou depender seja de quem
for. E aquela conversa toda do re-alistamento, com a
anulação do veredicto do Tribunal Militar, uma nova
comissão?
- Querido, temos de ser realistas. Aqueles brutos
estavam a fazer bluff.
- Então, não podes fazer nada, não lhes podes
fazer ver?
- Ainda não tive tempo para pensar nisso... Por
amor de Deus, deixa-me. Primeiro Wright, depois Metcalfe,
agora tu, todos a pedirem ajuda. Pensei que Coxhead-Marsh
te tinha convidado para Laughton?
351
- Ele falou de qualquer coisa acerca de um em-
prego como imobiliário, sob as ordens do seu beleguim
- o género de trabalho para um criado. Fui treinado
para ser soldado. Raios me partam se vou aceitar uma
posição inferior. Com as minhas qualificações, devo ter
um posto de comando. Deve haver, de certeza, alguém
que tu conheças e que possa puxar uns cordelinhos.
A propósito, preciso de algum dinheiro. Não tenho um
tostão.
Graças a Deus que May Taylor estava orientada uma
subscrição pública para ela e para a irmã Sarah
fora iniciada na Câmara por Samuel Whitbread e subscrita
por todos os membros da Oposição.
E finalmente George, já não um cadete de Chelsea,
com o uniforme, amado e estimado, guardado numa arca,
de grandes e confiantes olhos azuis fixados na mãe.
- Não consigo perceber a causa deste barulho
todo. Por que razão tenho de ir para outra escola?
- Porque, meu anjo, houve um grande escândalo
militar. Sua Alteza Real já não é o Comandante-Chefe e
portanto, já não é patrono do Chelsea Asylum. A tua
ligação a ele é conhecida, por isso, não dá. Tenho de
te mandar para um lugar qualquer, onde não haja mexericos.
Ela viu um olhar parecido com o de Charley, carrancudo,
obstinado, mais sonhos do clã Mackenzie esmagados
ou despedaçados.
- Aposto que estragou tudo com essa estúpida
disputa. Já nada é como em Gloucester Place.
- Eu sei, meu amor. Mas a mãe não te pode explicar.
Um dia, talvez, quando fores mais velho, saberás
o que aconteceu.
A resposta dele foi um lábio descaído, um carrancudo
e infantil encolher de ombros e logo a seguir, o
primeiro olhar de desconfiança, de dúvida e de apreensão.
- Ainda posso ir para o Exército? A senhora prometeu-mo.
No dia em que eu fiz cinco anos, sentou-se
na minha cama e jurou.
- Ainda juro. Nunca faltarei à minha palavra.
Prisão, suplício, pelourinho, qualquer sujeição passaria
por tudo isso, para ir ao encontro dos desejos
de George.
352
Entretanto, ao trabalho e a uma satisfação da parte
de Wardle, Dodd e C.a. Ambos cavalheiros, convidados
para jantar, demonstraram-se evasivos, ficaram durante
uma hora, saindo depois, rapidamente. Quando pressionados
a visitá-la novamente, não se comprometeram.
Ela deu-lhes um intervalo de três semanas e então pegou
na pena e escreveu uma carta, datada de 14 de Maio e
endereçada ao coronel Wardle:
Caro senhor,
Quando o convidei no outro dia e em que estava
acompanhado do major Dodd, para lhe perguntar quais
eram as suas intenções respeitantes ao cumprimento
das suas promessas, pareceu-me relutante em admitir
que elas haviam sido feitas incondicionalmente - eu
digo que o foram.
A única explicação que eu encontro para tal coisa,
é que o senhor tomou sobre os seus ombros uma grande
responsabilidade para comigo, e que, juntamente com o
major Dodd, pensou livrar-se dela, fazendo promessas
futuras, fúteis e evasivas.
Lembro-lhe mais uma vez essas promessas e as
minhas perspectivas, às quais, se os senhores se consideram
homens de honra, não podem faltar e eu tenho
pleno direito - nada menos do que a quinhentas libras
por ano; e como as minhas filhas foram iguais sofredoras,
tal como eu, junto da opinião pública, como sendo
as filhas de uma mãe tão indiscreta, exigem de mim
tudo o que eu possa fazer ou exigir. Portanto, como quinhentas
libras por ano para mim, o que pode ser pouco,
não lhes trará qualquer vantagem, penso que alargando
essa quantia para dez mil libras, não representa, sequer,
metade das vossas promessas. Espero que o senhor e o
major Dodd se associem, como se associaram nas promessas,
para a entrega de dez mil libras, a serem pagas
num prazo de dois anos, e até que isso seja cumprido,
me paguem quinhentas libras por ano, começando em
Março passado, e a pagar a Wright o que falta da sua
conta.
Isto é tudo e não representa, seguramente, metade
do valor das promessas que me foram feitas e que são
as seguintes: Como o meu filho estava então sob a protecção
do Duque de York e com certeza a perderia assim
23 - Mary Anne
353
que eu começasse a sua ruína, passaria a ter igual protecção
do Duque de Kent. Retirei-o e tenho-o agora nas
minhas mãos, sem poder fazer nada.
A seguir, uma situação para o capitão Thompson, ou
coisa parecida, ou suficiente para o manter, ou no caso
de o Duque de Kent vir a ser Comandante-Chefe, realistá-lo
no Exército. Continua como estava! A seguir, os
pagamentos atrasados da minha pensão, conforme prometido
pelo Duque de York, pensão essa que seria de
quatrocentas libras vitalícias, as minhas dívidas por
pagar, contraídas durante a vigência da minha vida com
o Duque de York e as posteriores.
A dívida de mil e duzentas libras que tenho para
com Mr. Corrie, o meu advogado, pelas quais ele guarda
as minhas jóias. A minha casa actual e a mobília por
pagar, da qual uma parte foi paga por si e Dodd.
Agora, deixe-me perguntar-lhe se as dez mil libras
representam metade dessas promessas, e para o cumprimento
das quais o senhor se empenhou tão solenemente?
Acrescento mais uma pequena coisa. Devido à
fama que adquiriu à minha custa, exigir-vos esse dinheiro
não é mais do que aquilo a que tenho direito. Tem quinze
dias para pensar. Após esse prazo, não espere silêncio
da minha parte. Considerar-me-ei livre para utilizar como
quiser a cópia desta carta.
Subscrevo-me, caro senhor,
Sua etc., etc.,
Mary Anne Clarke
Pode meter isto no seu cofre, Senhor Cidadão da
Cidade de Londres, ou noutro sítio qualquer, mas quero
ver onde vai meter a sua presunção, quando a vir publicada
no The Times.
354
CAPÍTULO 2
QUE fez a Wardle?
-Porque pergunta?
- Estive com ele na Câmara, antes de vir
para aqui. Mencionei o seu nome e ele ficou cinzento,
resmungou uma palavra que eu não posso repetir e
desapareceu.
- Uma palavra que começa por p e acaba por a?
- Bem, sim - já que é tão perspicaz. Quase me
atirei a ele. Depois de tudo o que fez por ele, não compreendo.
A sua absurda popularidade, deve-a inteiramente
a si e o mínimo que pode fazer é mostrar alguma
consideração.
- O problema é esse. Ele mostra muita coisa. Não
admira que esteja pálido.
- Quer dizer que ele quer fazer amor e a senhora
recusou-o?
Lorde Folkestone, de olhos esbugalhados, mudou de
posição. Era um daqueles homens que ficavam melhor
totalmente vestidos. Uma certa angulosidade colocava-o
em desvantagem, quando vestia apenas calções. Apesar
de tudo, vestido com um casaco de veludo, às dez e
meia da noite, de ombros bem almofadados, de pé numa
sala de visitas... a imaginação dava para pintar um quadro
mais colorido.
- Não, nada disso, ele deve-me dinheiro.
Ela virou-se para o lado e bocejou, depois bebeu um
gole de água.
355
Sua Senhoria Radical percebeu, desapontado, que a
sua noite terminara. Rien ne vá plus, la suite ant prochain
nume...
- Então, a senhora foi amante dele?
- Nunca na vida. Ele sabia que não podia ganhar
a causa sem mim. Digo o mesmo da Oposição a Sua
Majestade, que disse tantas coisas bonitas há dois
meses, incluindo você, William Pleydell-Bouverie.
Então, fora isso. Que tristeza.
-Se você tivesse publicado as suas memórias...
- começou ele.
- As minhas memórias não têm nada que ver com
promessas feitas.
- Wardle deu-lhe algum tipo de garantia?
Ela descansou sobre o cotovelo, avivando a chama
do candeeiro.
- Agora, oiça, meu jovem protagonista. Acha que
eu aturava todas as baixezas, com a minha reputação
em farrapos, a minha vida particular soluçada em qualquer
cervejaria, se não tivesse algo a ganhar depois de
tudo acabado?
O rosto dele, magro e afilado, parecia surpreendido,
à luz súbita do candeeiro.
- Bem, não... Mas eu pensava que pretendia vingança,
da forma como o Duque a tratou e a causa
comum...
- Que causa, por Deus?
- O bem-estar do povo inglês, o futuro de Inglaterra...
- O futuro de Inglaterra, uma ova! O meu futuro,
quer você dizer. L. s. d. (Libras, xelins e dinheiro] e
mais um bónus para Mary Anne Clarke. Graças a Deus,
não sou hipócrita, como todos vós. Sei o que sempre
quis e tentei consegui-lo. Umas vezes fui bem sucedida,
outras fui derrotada. Apoiei o seu amigo coronel Wardle,
pensando que ele me pagaria. Agora, traiu-me, tal e
qual O patrão dele, o Duque de Kent.
Os olhos ardentes dele brilharam. Num instante,
o cabelo desgrenhado estava alisado, imaculado, o
colete abotoado sobre o seu estreito peito. O charme
regressava - infelizmente, tarde de mais.
- Bom Deus, então a história era verdadeira.
356
- Claro que era verdadeira. E só idealistas como
você e Francis Burnett engoliram o isco acerca da liberdade
para Inglaterra. Tratou-se de uma conspiração desde
o princípio. Kent queria sentar-se nos Horse Guards como
C. C., com o querido coronel Wardle como secretário
da Guerra. Quanto a Dodd, não sei! Uma gratificação
qualquer e uma pensão. Para mim, um número indefinido
de casas, carruagens, coches, milhares de libras
no banco e mais negócios do que nunca.
Ele já estava vestido. Estava pronto para se ir
embora. O encantamento quebrara-se, os seus ideais
desmoronavam-se. Ainda bem que a Câmara ia suspender
os trabalhos dentro de pouco tempo, para o descanso
de Verão. Os rumores desvanecer-se-iam e seriam
esquecidos e ele próprio teria tempo para pensar na sua
posição. Não poderia nunca estar ligada a qualquer
escândalo que viesse a surgir.
-Vai fazer alguma coisa? - Vestiu a casaca.
- Pergunte ao coronel Wardle. Você disse que ele
estava pálido.
- Então, vai. Tenciona publicar isso nos jornais?
Ela sorriu e colocou as mãos atrás da cabeça.
- Ainda não tenho a certeza. Ele não respondeu à
minha carta.
- Juro-lhe, honestamente, que estou inocente. Os
meus pensamentos foram unicamente para o bem do
povo.
Ele estava à porta, já vestido e extremamente nervoso.
-Os seus únicos pensamentos? E compaixão? Não
sentiu nenhuma por uma mulher perdida?
Ela olhou para ele e riu-se. Ele abriu a porta, mas
a sua dignidade foi arruinada pelos pés, calçados só com
meias. Deixara os sapatos no hall, como medida de prudência...
- Quando volto a vê-lo?
Ele pareceu embaraçado.
-Tenho que ir à província dentro de pouco tempo.
- Tenho a certeza que sim. Junho é sempre delicioso.
Jardins, rosas e morangos - como eu adoro isso.
- Escrevo-lhe, claro.
- Mas, não será arriscado? Pode-me passar pela
cabeça publicar as suas cartas.
357
Ele já saíra. Ouviu-o correr pelas escadas abaixo,
tactear no escuro à procura dos sapatos e sair sorrateiramente.
Bem, terminara. Mais um par do reino que se ia,
riscado do mapa atirado para o cesto dos papéis. Não
que ela realmente se importasse - a ligação aborrecia-a
- mas viscondes não cresciam nas árvores e o conhecimento
era útil, dava um certo cachet. Além do mais,
o futuro Conde de Radnor era viúvo. No entanto, paciência,
nunca se devem contar as perdas.
Entretanto, nem uma palavra do coronel Wardle.
Francis Wright informou-a que quando lhe batera à
porta, com um humilde pedido para ver o popular membro
da Câmara dos Comuns, o criado lha batera na cara,
dizendo que o seu patrão não conhecia nenhum estofador
de nome Wright e que estava muito ocupado com
assuntos do Parlamento.
- E agora, o que é que eu faço? - perguntou o
ansioso comerciante.
- Mande-lhe a conta, Mr. Wright, com este bilhete.
O seguinte bilhete foi entregue na casa do coronel:
Francis Wright cumprimenta respeitosamente o
Coronel e toma a liberdade de enviar a sua conta. Como
os artigos eram para ser pagos a pronto e lhe surgiu
um sério contratempo, agradece-lhe que liquide o saldo,
visitando-o, com esse propósito, amanhã de manhã, às
onze horas.
Nem resposta, nem entrada. O membro por Okehampton
não estava em casa.
- E agora, minha senhora?
- Tiramos as luvas e procuramos um advogado.
Mr. Stokes, um sócio da firma de Corrie, Stokes
& Filho, conhecido de Mrs. Clarke há muitos anos,
prestou-se a ajudar. O caso era claro. Se havia roupa
suja a lavar, era a de Wardle.
No segundo dia de Junho, Francis Wright, estofador,
mandou uma notificação de uma acção posta contra
Gwyllym Lloyd Wardle, de St. JAMES Street, para
recuperação de uma quantia de duas mil libras que lhe
eram devidas por mobília comprada e entregue a
Mrs. M. A. Clarke, de Westbourne Place, e oferecida
358
pelo acima referido Gwyllym Wardle. A audiência estava
marcada para Westminster Hall, no mês seguinte, Julho,
ao terceiro dia.
Confusão, pânico e horror espalharam-se em
St. JAMES Street. Os caçadores de notícias quentes
escarrapacharam a história nos jornais. O leão do povo
britânico tremeu, vendo a sua popularidade desvanecer-se
e o público coçou a cabeça. Seria possível que
o conquistador da corrupção, que lutara pela honra e
pela verdade, tivesse pés de barro? Que o homem querido
do público, o Cidadão da Cidade de Londres tentara
fugir ao pagamento de uma conta a um comerciante?
A Guerra Peninsular era esquecida, havia ali sumo
para os paladares fatigados. As notícias trouxeram de
Uxbridge um Dowler irado.
- Mary Anne... deves estar louca.
-Porquê? Que se passa?
- Mergulhando outra vez na publicidade, quando
tinhas a oportunidade de deixar morrer o escândalo.
- Mas eu não tenho nada a perder e os pobres
irmãos Wright querem o dinheiro que lhes pertence.
- A questão não é essa. A conta deles podia ser
paga pelo teu Fundo - Coxhead-Marsh e eu próprio
podíamos tê-la pago num instante.
- Pagar a Wright através do Fundo? Meu Deus, que
sugestão terrível, quando há alguém que pode ser sangrado.
Não devo a Wright um tostão. Foi Wardle quem
encomendou a mobília, tudo o que vês aqui, espelhos,
tapetes e cortinados, nada tive que ver com isto.
- Minha querida menina, esperas que eu engula
essa história?
- É verdade e o meu advogado pode prová-lo.
- E tu vais depor?
- Com certeza, se for chamada. Não me saí mal,
antes. Além disso, o que tem piada, é que... não, não te
vou contar!
- Não tem piada nenhuma este assunto, a acção
é vergonhosa. Tenho estado em Uxbridge - o meu pobre
pai está às portas da morte - e a minha única consolação
era pensar em ti e nas crianças, felizmente orientadas
sem quaisquer problemas ou preocupações e talvez
no Outono, pensei eu, pudesse arranjar-vos uma
359
casa de campo, não longe da minha, onde te pudesses
instalar confortavelmente. E depois, nas longas noites
de Inverno...
- Calas-te, ou eu grito. Eu não estou felizmente
orientada, não vou para o campo, onde me sinto perdida,
e quanto às longas noites de Inverno, eu seja
danada, se as vou passar a olhar para a Lua como um
débil mental e a bocejar o tempo todo.
- Muito bem. Mas depois, não me chames quando
estiveres em sarilhos.
- Eu chamo-te quando e sempre que me apetecer.
Agora, vem para aqui, senta-te e deixa essa cara tão
carregada - pareces um cura a fazer um sermão. Não
há ninguém que te ponha o cabelo em desordem, nos
confins de Uxbridge?
Aparentemente, não. Era um dos prazeres a que
renunciara, pertencentes a tempos mais felizes e aos
bons momentos de Hampstead. Nada mais foi dito acerca
da acção. Bill Dowler regressou a Uxbridge mudo e
melado. E ela guardou a piada da história para si própria
e que era, claro, que o Procurador contra Wardle, no
decurso dos seus habituais deveres na bancada do Rei,
seria o seu antagonista anterior - o Procurador-geral.
A introdução nos seus aposentos, no Lincolns Inn
do advogado dela, Mr. Corrie, a seu lado, com Francis e
Daniel Wright nos seus fatos domingueiros - compensou
bem toda a angústia da Câmara dos Comuns. Sir Vicary
Gibbs, de lunetas no nariz, recebeu-os cordialmente.
Seguiram-se formalidades, questões foram perguntadas
e respondidas, notas foram tomadas. Assuntos legais
foram debatidos entre especialistas da lei.
Mr. Comrie, que tinha outro compromisso às cinco,
saiu às quatro com o seu sócio, Mr. Stokes, logo seguidos
dos irmãos Wright. A testemunha principal da acusação
deixou-se ficar. O Procurador-geral fechou a porta,
sorriu e manteve-se de pé, com o seu metro e oitenta.
- Um golpe de mestre - disse ele; os meus
parabéns. - E tirando as lunetas, abriu uma garrafa de
brande. - É muito cedo para si?
- Não, é tarde de mais. Ter-me-ia feito jeito um
pouco disso, no princípio de Fevereiro.
360
- Ter-lhe-ia mandado uma garrafa se soubesse. Mas
eu pensava que estava bem fornecida pela Oposição.
- Nunca foram além de café e copos de água.
- É o mal dos Whigs, não levam as mãos aos
bolsos. Seguramente que o Folkestone a tratou bem?
- Enviou-me flores.
- Não servem para nada num estômago vazio, com
os nervos em franja. Nenhum Radical tem a mínima percepção;
mas fico surpreendido com Folkestone, que foi
educado em França. Diria que ele conduz os seus negócios
com mais finesse. Culpas da juventude, estas
coisas necessitam de maturidade.
- Si jeunesse pouvait...
-Oh, e não pode? Que lamentável. Pensava que era
essa a única arma da juventude. Os Tories ficarão encantados.
Posso citá-la?
- Não seria justo, não acha? Afinal de contas todos
temos os nossos defeitos.
- Para conseguirem o que lhes é devido, os Whigs
geralmente utilizam os músculos. Nós utilizamos o cérebro,
por isso é que governamos. Diga-me, ficou exausta
com a provação da Câmara?
- Perdi quatro quilos.
- Não admira. Fizemo-la suar e, pelo meu lado,
não lhe dei quartel. Eu próprio, também fiquei exausto
- mas a senhora está com bom aspecto.
- Tenho uma grande capacidade de recuperação.
-Deve ter. Eu conhecia Barrymore - onde está ele
agora?
- O querido Cripplegate? Algures na Irlanda. Atrapalhado
pelo casamento, claro, e atrelado aos cavalos.
- Jamie Fitzgerald era outro que eu conhecia bem.
- James anda aflito. Vive no pânico perpétuo de
que vou publicar as cartas dele e passa a vida a escrever
de Dublim.
- Seriam interessantes?
- Para o Governo, não para o público. Uma perspectiva
Protestante, de acordo com um M. P. irlandês
- Tente a Christies. Eu faço um lance.
- Ele recuperou a maior parte. Não sou gananciosa
por natureza, tenho é crianças para criar.
- Mais brande?
- Porque não?
361
Um toque na porta. Sir Vicary Gibbs reajustou a
toga e a cabeleira.
- Quem é?
Uma voz do lado de lá:
- É o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
que está lá em baixo, sir, de carruagem, vem buscá-lo.
Vai jantar com ele na Câmara dos Lordes. Ele pergunta
se o senhor se esqueceu?
- Não, não... Diga a Sua Excelência que vá andando,
eu sigo-o a pé.
Virou-se para a sua visita.
- Pode dar-me boleia na sua carruagem? Fica no
seu caminho para Chelsea, se não for inconveniente.
- Encantada. Tenho imenso prazer.
- É muito amável da sua parte. Os bispos vão dar
um jantar em honra de Ellen-borough. Não posso chegar
atrasado, mas desde que esteja lá por volta das seis e
meia... Não é todos os dias que tenho um encontro
destes.
Ele olhou para o relógio por cima da lareira e acabou
o brande.
- Este assunto do estofador disse ele - é um
assunto honesto?
- Wardle está à nossa mercê - replicou ela, não
se consegue safar.
- Ele prometeu pagar?
- Não houve limite para as promessas dele, em
Novembro passado.
- A Terra, e tudo o que ela contém, oh, estou a
ver... mas, e este assunto?
- Usei de toda a finesse que possuo e coloquei-o
em situação crítica.
- Muito bem, está tudo bem. Penso que ele não
nos vai dar problemas. Um veredicto a favor de Wright
e o nosso patriota popular desincha. Para si, não fica
nada, receio, excepto mais notoriedade. É isso que pretende?
- Bom Deus, não. Tenho tudo o que pretendo.
- Então o que é?
Ela pousou o copo, alisou o vestido e olhou para
fora da janela.
362
- Queria conhecê-lo - disse ela. - Não havia outra
maneira. Mrs. Clarke e Sir Vicary Gibbs fazem uma boa
combinação.
O Procurador-geral chegou meia hora atrasado à
Câmara dos Lordes...
À medida que Junho avançava, o membro por
Okehampton tentava resolver a acção fora do tribunal.
Não teve sucesso; os queixosos não retiravam a queixa.
E a testemunha dos queixosos achou os preparativos
agradáveis, as visitas ao Lincolns Inn extremamente
recompensadoras. Considerando tudo o que acontecera,
o Verão provou ser divertido; era uma novidade, providenciar
alívio à Magistratura. E muito menos cansativo
do que as batalhas de almofadas com Folkestone. Sua
Senhoria Radical ainda se intitulava admirador, mas
escrevia de longe - a escrita de um amigo era segura,
dentro de certos limites.
Esqueceu-se de que era sempre incauto escrever
depois de jantar. A pena corria mais livremente, os pensamentos
fluíam facilmente e ao acaso. Uma carta escrita
à meia-noite não era a mesma na manhã seguinte, quando
lida ao pequeno-almoço por uma senhora com quem
mantinha correspondência e aquela carta de 27 de Junho
poderia prejudicá-lo, um dia. O olhar perspicaz dela passou
rapidamente pelas páginas escritas de Coleshill
House, num fim de tarde de ócio.
...Gostaria de ter algumas notícias para lhe enviar
em retribuição da sua divertida carta, mas deste lugar
em que me encontro sequestrado não se podem esperar
nenhumas. De facto, desde que vim para aqui, não
tenho feito mais nada senão vaguear sozinho pelos campos
e comer morangos, coisas que são muito saudáveis,
mas sem interesse oratório. A sua carta, pelo contrário,
está cheia de assuntos interessantes, sobre os quais,
eremita que sou neste lugar, contemplativo ou não, posso
reflectidamente ruminar durante vários dias. Penso, por
aquilo que diz, que será um inferno, quando o caso for
a julgamento. Todo o caso deve vir à luz do dia e o
Irmão Real, Dodd e Wardle, devem ser expostos. Lamento
que eles não vejam isso e não prevejam o éclat (desfecho).
Não sei o que Wardle pretende fazer, suponho
que confiará na sua popularidade para sair ileso, mas
363
penso que não o conseguirá - porque, ao fim e ao cabo,
apesar de a parte dele não ser tão vil como a dos outros
dois, foi suja, deixando-se, assim, instrumentalizar por
eles.
O assunto, no entanto, não será bom para a Família
real em geral, porque, embora os amigos do Duque tentem
invalidar o seu testemunho, há tanta evidência nos
seus depoimentos, tantas circunstâncias corroborantes
e tanta gente sabedora de exemplos destes, que o
público não se deixará induzir a acreditar que o seu
testemunho é falso. Suponho que os jornais tentarão
misturar-se com esse trio, mas isso é impossível. Whitbread,
Burnett e eu próprio não estamos de maneira
nenhuma envolvidos - pelo menos, não tenho qualquer
dúvida de que eles estão tão limpos como eu próprio.
Poderia contemplar com divertimento e observar
estas intrigas com indiferença filosofal, se não tivesse
receio que você viesse a sofrer. Receio pela sorte da
decisão sobre os seus assuntos, que presumo estar
agora mais distante que nunca.
Tenho medo que fique cansada destes rabiscos, que
são quase ilegíveis. Permita-me ter novamente notícias
suas quando algo ocorrer e tiver um momento para me
escrever. Se enviar as suas cartas para Harley Street,
como de costume, recebê-las-ei. Adieu!
Sinceramente seu, sempre - Folkestone.
Para a caixa com as outras e atadas com a fita.
A 3 de Julho, no Tribunal de Queixas Comuns, em
Westminster Hall, perante o presidente do Supremo Tribunal
de Justiça, a acção Wright v. Wardle, foi ouvida
e julgada. Pairava a excitação. A sala de audiências
estava cheia. Até parecia Drury Lane em noite de
estreia.
Mrs. Clarke, vestida de branco, com um chapéu de
palha fina colocado à banda, fez a sua apresentação,
sob discretos aplausos. O seu público, maioritariamente
masculino - já que as filhas e as mulheres ainda lutavam
nas bichas de Palace Yard - inclinou-se, de olhos
brilhantes e ombros tocando-se (eram, na sua maioria,
membros da Câmara dos Comuns e mesmo alguns
membros Tories), mas o que os surpreendeu foi o porte
estranhamente jovem do procurador-geral. o homem
364
perdera vinte anos, ficara jovial. Um cão com duas caudas
não o superaria. Ao levantar-se para abrir o caso
para a Acusação, poderia passar pelo próprio Lancelot
em Lyonesse. A voz que causara arrepios em tanta espinha
dorsal, dura e desagradável, possuía agora uma nova
Qualidade líquida. Notas frescas saíam;, como as de um
rouxinol na Primavera.
- Um honesto e trabalhador comerciante foi defraudado.
Uma mulher e mãe foi injustamente tratada.
Deus do Céu! O presidente do Supremo Tribunal
de Justiça esfregou a testa. Estaria a sonhar, ou ter-se-ia
o velho Vinagre Gibbs virado para a religião? Um mês
de Julho muito quente, claro - podia ter bebido. Mas
que conversa era aquela acerca de vigaristas e fragilidade
feminina? Áspides no seio de Cleópatra... veneno...
ingratidão. Mulheres que davam tudo por tudo? Bebés
na sarjeta? O presidente do Supremo estremeceu - que
reviravolta. Quão diferente de Fevereiro passado, na
Câmara dos Comuns. O seu amigo procurador-geral
estava a pôr o pé em falso. A sua retórica transformou-se
em gracejo e Sua Excelência tranquilizou-se.
Assim, já gostava mais. A velha e familiar troça, as
sugestões subentendidas, o polir das lunetas e a língua,
como uma adaga de duas lâminas, comprovando a autenticidade
da defesa. O infeliz réu reduzira-se ao tamanho
de um pardal, o que era bem feito, por ter permitido que
fossem a tribunal aquelas chocantes acusações - o
sujeito merecia ser chicoteado e posto fora do país mas,
mesmo assim, chocava o presidente do Supremo
ver o procurador-geral tão flamante, tão pródigo em
gestos e olhares, um pavão emplumado; baixava o nível
da Justiça e era de muito mau gosto. Se era aquele o
resultado do contacto com a testemunha principal do
queixoso, um encontro ou dois antes da acção, então
o juiz desaprovava inteiramente. E aqueles risos trocistas
da assistência, as beliscadelas e cotoveladas, sugeriam
leviandade totalmente deslocada.
Sua Senhoria gritou «Ordem», bateu vivamente na
mesa e fez-se ouvir. Um franzir de sobrolho a Sir Vicary
Gibbs fez encerrar o discurso. Uma palavra ou duas
mais tarde nos seus aposentos, resolveram qualquer má
vontade e entretanto o Tribunal tinha que entender que
o juiz é que segurava a balança. Uma ferradela na teste-
365
munha, logo no início, daria a conhecer a sua posição,
talvez a fizesse corar e assim restabelecer o equilíbrio.
Ela pavoneou-se até ao banco das testemunhas, no
meio de sorrisos de aprovação, de segredinhos e murmúrios
e então, alguém gritou:
- Atira-te a ele.
O presidente do Supremo endireitou-se e bateu
novamente na mesa.
-O Tribunal será evacuado, se não houver silêncio
absoluto.
Os murmúrios esmoreceram. A testemunha prestou
juramento e ficou de pé, à espera. Sua Senhoria observou-a
e disse com ênfase:
- Sob que protecção está agora, minha senhora?
A testemunha ergueu os olhos e respondeu docemente:
- Pensava que estava sob a sua, senhor.
Foi aquilo mais do que qualquer outra coisa, que
resolveu a acção. As risadas, conduzidas pelo júri, deram
o tom e o caso, como um rio a transbordar, precipitou-se
para a conclusão.
O procurador-geral lançou o isco à sua testemunha,
alimentando-a com ofertas frívolas de conciliação...
O Tribunal aplaudia. O presidente do Supremo não os
podia interromper. O par jogava um jogo que desafiava
a intervenção, estavam em sintonia, como cana e carreto
e não havia maneira de os separar. Faziam malabarismos
com a linguagem, brincavam com doubles
ententes, divertiam-se com os ditos espirituosos um
do outro, tudo aquilo à custa do réu.
Mrs. Clarke, o coronel Wardle foi ao armazém?
Fale-nos dele e qual foi a mobília escolhida. O coronel
Wardle elogiou um aparador - tinha espelho? E acerca
da carpeta cor de bronze e escarlate que o coronel
Wardle insistiu em comprar para o quarto? Era demasiado
grande para Westbourne Place - foram necessárias
alterações e o coronel Wardle mandou cortar um
pedaço na extremidade. Houve algum problema com a
cama? Faltavam as pernas. O coronel Wardle sugeriu
bases de candeeiro de pernas para o ar. Era perfeitamente
seguro, se não se fizesse pressão. Francis Wright
concordou com a sugestão? Francis Wright era solteiro
e vivia com o irmão, Daniel; ambos dormiam em camas
366
de solteiro e não sabia dizer. Mas o coronel Wardle
sabia que os pés de candeeiro serviam, ficara em tempos
num botequim em Cadogan Square - persona grata
- onde tais coisas eram utilizadas. Se se tivesse
cuidado, não haveria qualquer acidente. O coronel admirara
uma estátua de mármore? Sim, Afrodite erguendo-se
das águas e uma miniatura de bronze do cisne de Leda
Eram ambas óptimas para colocar sobre a pedra da
lareira, ficando muito bem quando vistas de lado, ou
assim achava o coronel Wardle. Mrs. Clarke estava relutante
em ficar com elas, por causa das crianças - as
mentes infantis eram tão rápidas a apreender ideias mas
o coronel Wardle era extremamente temperamental
e não conseguia escrever um discurso sem inspiração.
Então, Westbourne Place fora um lar, longe do lar?
Oh, decididamente que sim. Não a pedido da testemunha.
O coronel surgiu sempre nas horas mais inoportunas.
Foi encontrado uma vez pela criada às oito da
manhã, examinando o cisne de Leda minuciosamente.
E assim por diante, até o insultado presidente do
Supremo erguer a mão pedindo silêncio e esclarecer a
sala.
A testemunha retirou-se e os trabalhos continuaram
mais calmos. O irmão Daniel Wright prestou um depoimento
sóbrio e solene e, quando o advogado de defesa,
Mr Park, se levantou para falar, soube que perdera.
O seu cliente estava derrotado, antes mesmo de chegar
ao banco das testemunhas. O coronel Wardle gaguejou,
gesticulou desajeitadamente e falhou; o seu «nego isso»,
repetido vezes sem conta, mal foi ouvido. Bilhetes de
desespero eram passados entre os advogados. As testemunhas
Glennie e Dodd nem sequer foram chamadas
- os seus testemunhos haviam sido considerados demasiado
prejudiciais para a causa, que já estava perdida.
Os discursos finais foram breves; não havia necessidade
de eloquência. A balança inclinara-se e Sua Senhoria
confessou-se vencido.
O veredicto do júri foi favorável a Francis Wright.
Sua Senhoria declarou o réu, Gwyllym Wardle, culpado
de dever ao queixoso a quantia de duas mil libras,
quantia essa a ser paga nos três meses seguintes.
O patriota perdera e o Old Palace Yard, cenário do
seu anterior triunfo, estava deserto. As multidões que o
367
haviam aclamado em Abril, haviam debandado. O coronel
Wardle foi-se embora na sua carruagem toda fechada.
O Procurador-geral dirigiu-se para os seus aposentos,
acompanhado pela sua testemunha.
- Ele vai apelar, claro, ou vai processá-la.
- E então?
- Defendê-la-ei.
- como o pode fazer, se é o Acusador Público?
- Minha querida, eu faço o que quero. Posso mudar
de papel.
- Mas isso não é injusto?
- Serve para variar.
- Advogado privado em vez de Procurador-geral?
- Sim, amadurece a disposição para estas coisas
e ajuda ao discernimento. Mas, se preferir outra pessoa
qualquer, esteja à vontade.
- Oh, não... unidos ficaremos. Vamos ter o mesmo
juiz?
- Eddie Ellenborough? Muito provavelmente. Se isso
acontecer, teremos que ter cuidado com o nosso comportamento.
Poderemos não ser tão bem sucedidos, uma
segunda vez. Como as coisas estão, prevejo uma certa
frieza a caminho; hoje, foram somente os seus princípios
Tory que o impediram de influenciar o júri a favor de
Wardle.
- Aquelas sobrancelhas espessas... Como será ele
em casa?
- Petulante, orgulhoso e terrivelmente intolerante.
- Talvez seja apenas uma fachada e necessite de
compreensão.
- Está à vontade para tentar os seus poderes, mas
ele é um velho frígido.
- Todos os juízes devem ter sangue-frio, está-lhes
na massa do sangue. Se assim não fosse, não haveria
qualquer justiça britânica, Suponho que quando são
promovidos na Magistratura, tornam-se monásticos... Ora.
quando um homem veste sedas...
- Temos que discutir isso agora? Acompanho-a a
casa?
- Mas eu adoro conversas sobre assuntos legais...
- Eu detesto. Repito a minha pergunta.
- A sua pergunta não foi compreendida. Tem de
alterar a fraseologia.
368
- A testemunha permite que o advogado privado a
instrua?
- Chez vous ou chez mói?
- Chez onde quiser.
- Nesse caso, que tal vir jantar a Westbourne Place
e dar uma opinião legal acerca do cisne de Leda?
Em St. JAMES Street, o réu, William Wardle, sozinho
e amargurado, sentou-se para compor uma carta,
endereçada ao povo do Reino Unido.
24 - Mary Anne
369
CAPÍTULO 3
Honrada como foi sempre a minha conduta parla-
mentar e aprovada por tantos dos meus conterrâneos,
sinto-me na obrigação de, em consequência
de um acontecimento surgido ontem, me dirigir directamente
a vós, em defesa do meu carácter, atacado
violentamente pelo veredicto do júri, devido ao testemunho
de Mrs. Clarke e de Mr. Wright, irmão do estofador,
numa causa na qual eu era réu, no Tribunal do Rei.
Os pormenores dos depoimentos podem ser lidos
nos jornais. Cabe-me afirmar que o meu advogado
esclareceu devidamente o júri e que este, apesar de
tais testemunhos da parte do irmão do queixoso e de
Mrs. Clarke, decidiu contra mim, não tomou em consideração
o meu sincero pedido, que repeti novamente
por escrito durante o julgamento, em termos decididos,
para que o major Dodd, Mr. Glennie e outras respeitáveis
testemunhas pudessem ser interrogadas, pois
sabia que os seus testemunhos seriam baseados na
verdade e em contradição directa daquilo que fora jurado
contra mim,
O veredicto foi obtido sob tais circunstâncias.
Só me resta agora, perante Deus e o meu país,
declarar que este veredicto foi obtido unicamente por
perjúrio; e comprometo-me a provar esse facto o mais
brevemente possível, assim que os trâmites da lei mo
permitam.
370 ;
Ansiosamente espero que chegue esse momento;
conto que o público, até lá, suspenda o seu julgamento.
Com sentimentos de profunda gratidão e respeito,
permaneço vosso sempre fiel e devoto servidor,
G. L Wardle
A carta foi publicada em todos os jornais a 5 de
Julho e imediatamente discutida avidamente. A questão
era, iria alguém responder?
A 16 do mesmo mês, Mrs. Clarke publicou uma
carta no Nations Register:
AO POVO DO REINO UNIDO
Honrado como foi o meu testemunho perante a
Câmara dos Comuns, com a confiança de todo o país,
e sancionado como foi o meu testemunho numa instância
recente por um júri de compatriotas meus, sinto-me na
obrigação (após profunda reflexão) de me dirigir a vós,
em consequência de uma circunstância que surgiu após
o julgamento da Causa, na qual Mr. Wright, estofador,
era o queixoso; o coronel Wardle, o réu; e Mr. Daniel
Wright, irmão do queixoso, e eu própria testemunhas,
Nessa Causa, é mais que sabido que o coronel
Wardle foi considerado culpado, para satisfação de
todos os comerciantes honrados e de toda a gente no
Tribunal.
Os jornais facultarão os pormenores dos depoimentos;
quanto ao meu testemunho, esses pormenores são
um tanto inexactos, mas são suficientemente correctos
para permitirem ao público fortalecer esse veredicto,
com uma aprovação quase universal.
O coronel Wardle, inchado por uma popularidade
tão inesperada quanto imerecida, convenceu-se vaidosamente
que essa mesma popularidade o protegeria da
justiça deste país; desapontado com o veredicto, perdeu
toda a prudência, devido ao seu temperamento. E sem
dar tempo a reflectir, fez um apelo pouco usual ao povo
do Reino Unido, contra o veredicto de um júri.
Se se tivesse contentado em atirar as culpas do
seu desaire para cima do seu advogado, eu não teria
371
nada que ver com o assunto, eles sabem defender-se;
mas ser acusada de um crime tão vergonhoso, tão baixo,
tão desprezível como o perjúrio, e por uma pessoa que
acima de todos, sabe bem quão aberrante é para a
minha natureza qualquer coisa que se assemelhe a
falsidade - é realmente muito mau.
Só me resta declarar perante Deus e o meu país
que o testemunho que dei foi estritamente verdadeiro
e que a minha intimidade com o coronel Wardle se
relacionava apenas com o meu testemunho e as suas
promessas.
Ansiosamente espero pela ocasião em que as fúteis
tentativas do coronel Wardle para provar o contrário ao
país, recaiam sobre ele e outros. Espero que até lá, o
público suspenda o seu julgamento acerca da acusação
intemperada.
Embora não seja tão apropriado da minha parte,
como da parte do coronel Wardle, afirmar a gratidão e
respeito que sinto pela opinião pública, espero, no
entanto, que não me seja negado exprimir a angústia
que sentiria se, numa ocasião tal, e de tal maneira,
realmente merecesse a sua desaprovação.
Tenho a honra de ser,
Com o maior respeito,
M. A. Clarke
Se O público britânico se importava com uma parte
ou outra, era muito duvidoso. Mas o assunto animava as
conversas à mesa do jantar. As anfitriãs - com o peixe
mergulhavam) em acesas discussões e quando se servia
o Porto e as senhoras se retiravam, o assunto era nova-
mente rebuscado e ligava bem com o brande. Quem a
manterá agora? Tornava as discussões animadas. Com
o Parlamento fechado para as férias do Verão e os
membros espalhados, não era de admirar que as janelas
de Westbourne Place estivessem fechadas. Terá saído
da cidade? Não sei, diz-se que está em Brighton. Será
verdade? Tubby Clifton afirma que ela foi vista em
Southampton. Em terra, ou no mar? No Solent, uma
fraqueza pela pesca do camarão... Não há rochas, muito
provavelmente. Quanto apostam em como ela se encon-
tra numa fragata? Pfff! A armada está em Gibraltar, não
há fragatas em Portsmouth...
372
Na realidade, Mrs. Clarke estava em Cowes com
as crianças. O ar da ilha era saudável - Spithead próximo,
os iates nos ancoradouros e na Medina, excursões
a Ventnor, piqueniques em Wootton, os longos dias
de Verão eram agradáveis, se não fossem as cartas.
James Fitzgerald continuava a pressioná-la da Irlanda.
Esperava vê-la em Agosto. Era verdade que ela guardara
alguns excertos das suas cartas indiscretas, ou poderia
ela jurar fielmente que as devolvera todas a seu filho?
Quanto a Willie, o pai estava preocupado; o rapaz metera-se
em algum sarilho, ouvira ela alguns rumores?
Ela ouvira. Passara uma tarde inteira, antes de deixar
a cidade, com Willie, lavado em lágrimas, na sala de
visitas, pedindo ajuda. Uma jovem estava metida num
sarilho, a sua condição tornava-se suspeita; tomara comprimidos
ad nauseam, mas nada acontecera e o marido
da jovem senhora estava prestes a chegar do estrangeiro.
Conheceria Mrs. Clarke algum médico? Quanto
cobraria ele?
Imediatamente mandou chamar os Metcalfe, obrigando-os
a jurar silêncio. Foi oferecido refúgio à jovem
senhora e recusado a Willie, sendo o estado da jovem
de tal ordem, que exigia abstenção. Tudo aquilo com as
crianças prestes a chegar e a partida para Cowes.
-O que eu faço pelos meus amigos! - disse Mary
Anne, a jovem senhora enrolada em cobertores e colocada
na Mala-Posta, sob os cuidados de Mrs. Metcalfe
- e dois minutos mais tarde, as raparigas chegando
numa carruagem com Martha, os rostos colados à janela
e acenando.
«Sarilho é a palavra», escreveu eb de Cowes a
James Fitzgerald. «Esqueça as cartas que me escreveu
em 1805 e vigie Willie, ele precisa de atenção.» Se se
desse ao cuidado de revelar os segredos dos fracos
Fitzgerald, preencheria um volume - mas ninguém o
publicaria.
As repercussões da acção Wright v. Wardle continuavam
a encher os jornais. Parecia muito provável,
visto do abrigo de Cowes, que o Outono seria vingativo:
O coronel Wardle não perdera tempo e pusera uma contra-acção.
Uma acção por conspiração. Wardle v. Wright
e Clarke, que seria ouvida no Tribunal do Rei em princípios
de Dezembro. Era essencial, portanto, ter as car-
373
tas certas e jogá-las. Por isso, foi um espantoso golpe
de sorte ter rebentado uma hérnia ao juiz Ellenfoorough,
que mandou chamar um médico - o seu próprio clínico
não estava - e que era o Dr. Thomas Metcalfe.
Os modos compreensivos, com um tratamento bem
sucedido, fizeram maravilhas numa semana, o que foi
devidamente relatado para Cowes e recebido com regozijo.
A esperança é a última coisa a morrer... Muita
coisa podia ser conseguida ainda. Se Sua Senhoria era
agora patrono do doutor, podia mexer alguns cordelinhos
no mundo da Lei.
Uma carta foi despachada de Cowes para Thomas
Metcalfe:
...Pensei num plano que o senhor faria bem em propor
ao seu amigo e patrono. Pode colocá-lo no bom caminho
para o exercício da sua profissão e tornar-lhe a vida
confortável. Se será posto em prática ou não, depende
da confiança que eu possa ter em si, falando dele por
escrito e da certeza da sua parte de que tem de permanecer
um segredo entre nós os dois, uma vez ou duas
na companhia do seu patrono e tenho a certeza de ser
bem sucedida, já que a única coisa que pretendo é o
interesse dele para um assunto meu e não o posso
conseguir sem me mostrar agradável e assim por diante.
Ora se ele, como seu amigo, lhe arranjar uma
pequena casa e a mobilar, o que não lhe custará mais
de quinhentas libras (e o que é essa ninharia para ele),
eu serei sua hóspede, ou sua pensionista, ou sua paciente
e, por isso, pagar-lhe-ei o suficiente para permitir a
Mrs. M., com a sua economia, manter a sua casa e o
senhor poderá utilizar a minha carruagem, porque um
médico não é nada sem uma.
Tudo o que ele tem que fazer, com a sua autorização,
é fazer-me uma visita ou duas por semana, depois de
escurecer e jogar um jogo ou dois de piquet (jogo de
32 cartas para dois oponentes), ou outro jogo qualquer
com que Sua Senhoria esteja au fait.
Pense bem no assunto e não deixe de me escrever
amanhã.
Sinceramente sua,
M. A. Clarke
374
O seu patrono não encontrará uma oferta tão desinteressada
como esta, todos os dias - ele agora está
velho, sabe - mas é tão agradável ter um ou dois gran-
des homens a reboque.
Era mais agradável ainda ter o juiz do seu lado e
manter o procurador-geral alerta.
Numa segunda-feira, 10 de Dezembro, em Westminster
Hall, a acção Wardle v. Wright e Clarke teve lugar
perante o Lorde Chief Justice Elleniborough. Os jogos de
piquet haviam provado ser bem sucedidos.
O advogado de defesa era o procurador-geral, cuja
curiosa troca legal causara conversas animadas. Os
conhecedores diziam que o motivo era político - o caso
não era Wardle v. Clarke, mas Whig v. Tory e o Governo
não se podia dar ao luxo de deixar Wardle vencer. Mas
o que deprimia os espectadores da galeria, que esperavam
uma repetição das cenas de Julho, era o facto de
Mrs. Clarke não ser chamada a depor. Ela sentava-se,
discretamente velada, ao lado do seu advogado e passou
o dia a entregar-lhe bilhetes por baixo da capa.
Mr. Alley, que abriu o caso pela Acusação, começou
ruidosamente a falar acerca de Scylla e Charybdis (Cila
e Caríbdis - monstro marinho que, segundo a mitologia,
morava no estreito de Messina), areias movediças e os
perigos dos navegadores, e saltou deles para uma mulher
que, alegava ele, vivera com ingleses, irlandeses,
escoceses, galeses, soldados, marinheiros, agentes,
lordes e homens do povo - notou-se que Mrs. Clarke
contava pelos dedos - e, após uma longa enumeração
de acontecimentos passados em Inglaterra desde a conquista,
continuou a falar de corrupção, bandidos corsos
e malabaristas que aspiravam a cargos elevados.
Por aquela altura, o Lorde Chief Justice interrompeu-o.
- Por favor, Mr. Alley, acha que isso tem alguma
relação com a questão em consideração?
- Creio que sim, mylorde. Com o devido respeito,
estou a tentar demonstrar que este caso teve origem na
corrupção.
Lorde Ellenborough suspirou.
- Bem, se realmente acha que rever a história de
Bonaparte e o presente estado da Europa tem alguma
375
relação com o assunto, ouvi-lo-ei, mas, a meu ver, a
ligação parece um tanto ou quanto remota.
Mr. Alley continuou por mais vinte minutos e terminou
com as palavras:
- A segurança do Império Britânico está, neste
momento, nas mãos dos doze cavalheiros ali sentados;
não tenho dúvida de que eles agirão segundo as últimas
palavras do nosso herói imortal: «A Inglaterra espera
que todos os homens cumpram o seu dever.»
Sentou-se, com o suor a escorrer. Não houve aplausos.
O procurador-geral pôs-se de pé repentinamente.
- Antes de se aprofundar o caso, desejaria que o
meu letrado amigo, Mr. Alley, me informasse do que queria
dizer com o malabarista que aspira a uma posição
para a qual, nem o seu nascimento, nem a sua educação,
lhe dão direito?
Ouviu-se Mrs. Clarke murmurar:
- Não seja susceptível.
O Lorde Chief Justice franziu o sobrolho e abanou
a cabeça.
- Não creio - disse ele - que possa, nesta altura
dos trabalhos, pedir ao letrado advogado uma explicação.
O julgamento continuou. Minutas da acção de Julho
foram finalmente lidas. O coronel Wardle foi chamado, o
mesmo velho assunto foi debatido, a visita ao armazém,
a escolha de cortinados e carpetas mas daquela vez
não se tocou no lado mais leviano da situação. Sir Vicary
Gibbs introduziu um tom mais ríspido. O nome do Duque
de Kent foi constantemente mencionado.
- Na sua primeira visita a Mrs. Clarke em Novembro
último, não lhe disse que o Duque de Kent tinha
conhecimento dos processos contra o Duque de York?
-Nem na primeira, nem na minha segunda visita.
- Jura que o nome de Sua Alteza Real, o Duque
de Kent, não estava ligado aos seus processos contra
Sua Alteza Real, o Duque de York?
- Juro que estava totalmente desligado.
- Pode informar-me se o major Dodd tinha alguma
posição sob as ordens do Duque de Kent?
- Creio que sim.
- Que posição?
- Creio que era o seu secretário particular.
376
- Não era essa uma posição muito confidencial?
- Certamente que sim.
- O senhor, o major Dodd e o major Glennie levaram
Mrs. Clarke convosco numa visita às Martello
Towers?
- Sim.
- O vosso objectivo, então, era obter informações
acerca do Duque de York?
- Era. ;
- Não tinha mais nenhum outro objectivo em
mente?
- Não.
- Mrs. Clarke mencionou o Duque de Kent?
- Ela mencionava frequentemente muitos membros
da família real, mas não o Duque de Kent como conhecedor
do inquérito.
- O nome do Duque de Kent não foi usado por si
como estando ligado ou interessado em qualquer promessa
a Mrs. Clarke?
- Nunca.
- Alguma vez deu dinheiro a Mrs. Clarke?
- Quando ela me disse que me daria alguns
papéis, dei-lhe cem libras para pagar ao homem do talho
e ao padeiro.
- Além disso, não lhe prometeu nada?
- Nada. Mas disse-lhe que se ela fosse uma verdadeira
amiga do povo, eu seria um verdadeiro amigo
dela.
- Pode afirmar categoricamente que Mrs. Clarke
não foi aliciada por mais nenhumas promessas, além
do reconhecimento como grande benfeitora do povo?
- Não lhe fiz nenhuma de qualquer espécie.
Deixaram o coronel Wardle retirar-se e o major
Dodd foi interrogado em seu lugar. Testemunhou em
como nem ele, nem o coronel Wardle haviam feito promessas
a Mrs. Clarke e que, tanto quanto sabia, o coronel
Wardle nunca se comprometera a pagar a mobília
de Westbourne Place. O Procurador-geral escutava de
braços cruzados e olhos fechados: nem sequer se incomodava
a contra-interrogar a testemunha, mas fez sinal
ao seu subalterno para o fazer.
377
- Creio que tinha uma posição elevada sob as
ordens de Sua Alteza Real o Duque de Kent?
- Era o secretário particular de Sua Alteza Real.
- Ainda mantém essa posição?
- Não, não mantenho.
- Em que ocasião foi destituído?
- Não posso dizer em que dia deixei o meu lugar,
não acho adequado dizê-lo.
- Quando conheceu Mrs. Clarke pela primeira vez,
não tinha contacto permanente com Sua Alteza Real?
Não andava de trás para a frente, de Westbourne Place
para S. A. R. e de S. A. R. para Westbourne Place?
- Sim, estava frequentemente com Sua Alteza Real
e em Westbourne Place.
- Alguma vez informou Sua Alteza Real que estava
em Negociações com o coronel Wardle?
- Não, não informei.
- Ele não suspeitava de nada, que o senhor era
diariamente consultado acerca do assunto?
- Não, eu achava que seria indelicado mencionar o
assunto a Sua Alteza Real.
O advogado virou-se para o Lorde Chief Justice.
-Se se achar necessário fazer um inquérito para
apurar a razão por que este cavalheiro foi destituído,
estamos prontos a fazê-lo.
Lorde Ellen-borough tinha um ar sério.
- Isso é uma coisa que eu não posso permitir. Não
tem, possivelmente, relevância nenhuma para este caso.
O major Dodd retirou-se e o major Glennie foi chamado.
-Entrou acidentalmente neste assunto? - inquiriu
o advogado.
- Pelo que entendi, o coronel Wardle queria obter
informações através da senhora. Queria pôr fim às práticas
corruptas do exército.
- Então o senhor também desejava pôr fim à corrupção?
O senhor também foi com eles para criticar as
Martello Towers?
- Fui para me certificar da sua utilidade, não para
criticar. Publicara um livro acerca de fortificações costeiras.
378
- Tomou apontamentos durante essa expedição?
- Sim, tomei.
- Acerca de Martello Towers?
- Não, acerca de outro assunto.
- De que assunto?
- Bem, para falar francamente, acerca do que Mrs.
Clarke disse da Família Real.
- Não omitiu uma única coisa que achasse ofensiva
para as pessoas em questão?
- Os apontamentos eram acerca da elevação a
baronetes e pares do reino e vários incidentes que
aconteciam no seio da Família Real.
O major Glennie, para sua surpresa e desapontamento -
o éclat de ser testemunha fizera-o inchar, foi
convidado a retirar-se e após outras testemunhas terem
sido interrogadas e contra-interrogadas, entre elas Illingworth,
o comerciante, e Sir. Richard Phillips, o editor, a
Acusação encerrou o caso.
O procurador-geral levantou-se para falar pela Defesa
e tendo-se debruçado sobre os depoimentos anteriores,
apresentou a sua única testemunha e trunfo, Mr. Stokes,
o advogado de Mrs. Clarke.
Mr. Stokes, conhecido da Acusação, da Defesa e do
Tribunal em geral como um advogado de integridade a
toda a prova, afirmou que durante os trabalhos na
Câmara dos Comuns no anterior mês de Fevereiro,
tivera uma entrevista com o coronel Wardle quanto à
conveniência, ou não, de chamar Francis Wright a depor
como testemunha de Mrs. Clarke; e que ele, Mr. Stokes,
se opusera fortemente a isso, pois durante o contra-interrogatório,
seria muito provável que se soubesse
que o coronel Wardle havia mobilado a casa de Mrs.
Clarke, o que seria considerado suborno pelo Governo
e assim, lançar o descrédito imediato sobre a causa do
coronel Wardle. Mr. Stokes disse que não tinha qualquer
dúvida de que o coronel Wardle se comprometera a
mobilar e pagar a casa de Westbourne Place.
O depoimento do advogado causou sensação no
Tribunal, e o advogado da Acusação, Mr. Alley, levantou-se,
perplexo.
- Chamo a atenção de Sua Senhoria para o facto
de o depoimento de Mr. Stokes ser totalmente inesperado,
não só para mim, creio eu, mas para todo o
379
Tribunal. Peço a Sua Senhoria que me conceda cinco
minutos, de modo a eu poder chamar o coronel Wardle.
O Lorde Chief Justice concedeu o pedido e o coronel
Wardle apareceu para ser de novo interrogado pelo
seu advogado. Disse lembrar-se perfeitamente de uma
entrevista com Mr. Stokes por altura da Investigação
e que a razão por que Francis Wright não fora chamado
à barra da Câmara dos Comuns, fora porque o seu testemunho
poderia ter sido perigoso para Mrs. Clarke e
não por ser perigoso para ele, coronel Wardle.
O procurador-geral dirigiu-se novamente ao Tribunal.
- Vossa Senhoria, cavalheiros do júri:
«O coronel Wardle foi novamente chamado para
contradizer Mr. Stokes. Comparai a maneira como estas
duas testemunhas deram o seu testemunho. Recordai-vos
da maneira clara e reflectida como Mr. Stokes depôs
em relação ao que se lembrava, referindo-se aos documentos
que apresentou e que certamente confirmaram
o seu depoimento. Que o coronel Wardle contradissesse
Mr. Stokes, é perfeitamente normal. Se não o fizesse,
seria melhor que se fosse para Yorkshire.
«Depois de ouvirdes o depoimento de Mr. Stokes,
penso que é impossível hesitardes em acreditar no seu,
ou no de Mr. Wright. Recordai que tudo isto ocorreu
muito antes de qualquer disputa entre Francis Wright
e o coronel Wardle.»
Mr. Alley, pela Acusação, fez um longo e apaixonado
discurso em defesa do seu cliente, acabando com
as seguintes palavras:
- A extraordinária extensão de tempo para a qual
este julgamento tem sido levado, impede-me de dizer
tudo o que devia neste momento, em apoio da Acusação;
devido a essa circunstância, acrescida pela hora tardia,
declino acrescentar algo mais do que os meus agradecimentos
pela paciente indulgência com que fui ouvido
por Sua Senhoria e pelos cavalheiros do júri. Acrescentarei
apenas esta observação - os olhos do Reino Unido
estão postos em vós.
Os olhos do Lorde Chief Justice haviam estado
fechados, mas abriu-os, quando o advogado concluiu
o seu discurso.
O seu resumo dificilmente se poderia chamar imparcial.
Os pratos da balança estavam fortemente dese-
390
quilibrados contra o coronel Wardle. Sua Senhoria observou
que era difícil conjecturar a razão pela qual o
coronel Wardle fora ao armazém do estofador. Se um
homem não ia com uma senhora a tal lugar com a
intenção de agir como pagador, era certamente para se
colocar numa perigosa situação. Sua Senhoria disse
aos cavalheiros do júri que a importante questão entre
as duas partes estava nas mãos deles e que não tinha
qualquer dúvida de que fariam justiça a ambas.
O júri, depois de reunido durante dez minutos,
regressou para um veredicto de «Inocente» para Francis
Wright e Mrs. M. A. Clarke.
Pela segunda vez, num espaço de cinco meses, o
membro por Okehampton fora vencido. Os festejos
estavam esquecidos; a maré mudara. O público instável
coçou o nariz e bocejou. Nada ficou para Gwyllym
Lloyd Wardle, senão os últimos lugares da bancada da
Oposição de Sua Majestade, de cuja obscuridade ele
saltara há tão pouco tempo para a ribalta.
- E você? - o Procurador-geral perguntou à sua
cliente. - Já teve a sua dose de tribunais; ou ainda
quer mais?
Ela sorriu e encolheu os ombros.
- Isso depende dos meus amigos e de como me
tratarem.
- Pelo menos, o veredicto foi um presente de Natal
- Graças a Mr. Stokes.
- Não ao seu letrado advogado?
- O malabarista? Sim, talvez... e ao Lorde Chief
Justice. E um pouco a Cila e Caríbdis, perigo de nave-
gadores, etc. Fico satisfeita por o pobre Francis Wright
receber o seu dinheiro, mas eu não estou melhor - o
que é uma pena.
- Eu pensava que tinha vastas quantias das suas
memórias expurgadas.
- Não suficientemente vastas... Por vezes, arrependo-me
do acordo. O que acaba de me dar uma ideia
- você pode aconselhar-me. O Governo acharia deslocado
se eu publicasse os factos que vieram hoje a
Tribunal acerca de Dodd e Wardle? E de como eu fui
subornada para aparecer na Câmara dos Comuns?
381
- uma bomba para a Oposição. Ficaria encantado.
Mas os seus amigos Whig ficarão furiosos, aviso-a.
- Estou-me nas tintas para eles, excepto para Folkestone.
E ele tem estado muito frio, precisa de uma
lição.
- Então faça o seu pior. O Governo ficará mudo e
quedo.
Em Janeiro de 1810, um letreiro «Aluga-se» apareceu
sobre a porta de Westbourne Place. Os administradores
dos bens de Mrs. Clarke e das suas filhas
haviam decidido que ela não podia manter uma casa
tão grande. As despesas deviam ser reduzidas. Ela tinha
de economizar.
Uma casa de campo em Uxbridge? Não, mas uma
em Putney, não longe de Fulham Lodge, podia ser divertido.
O Duque ainda emprestava o pavilhão de caça às
favoritas do momento e desbastava o seu cavalo em
Putney Heath, e ninguém podia saber se ainda existia
algum eco de nostalgia que o obrigasse a dar um passeio
a cavalo matinal. Não que ela tivesse muitas esperanças,
mas o pensamento era perturbador.
Ela sentou-se - atenta a eventuais sons de cascos
de cavalos - com papel, pena e uma caixa de lata cheia
de cartas, e nos fins da Primavera, o resultado foi publicado
por Mr. Chappie, 66 Pall Mall.
Título: The Rival Princes, por Mary Anne Clarke.
392
CAPÍTULO 4
A primeira edição de The Rival Princes esgotou-se
em três semanas. Uma segunda seguiu-se com
alguns aditamentos, cartas adicionais e um agradecimento
aos cavalheiros da Imprensa por retomarem
a causa de uma mulher injuriada, sem qualquer referência
a partidos políticos. Os editores do The Times,
The Post, The Sun, The Courier e do The Pilote receberam
as homenagens; Mr. Bell, do The Weekly Messenger,
um destruidor, disse que aquele escandaloso
volume devia ser queimado por um carrasco vulgar.
Mr. Bell, replicou a autora, nunca fora conhecido por
pagar uma dívida. Só depois de ir preso; o coronel
Wardle tivera, portanto, sorte em ter pago. A autora
conhecia várias anedotas, todas elas curiosas, acerca
da história pessoal de Mr. Bell e se este a provocasse
mais, poderia pensar em publicá-las - o que era um
dos métodos de lidar com críticas adversas.
Fora divertido escrever o livro. Ninguém fora poupado.
Messrs. Wardle, Dodd e Glennie faziam figuras
ridículas; Sir Richard Phillips, de Bridge Street, deitava
fumo e fervia; o mercador de vinhos, Illingworth, era
caricaturado. As visitas a Romney Marsh e Martello
Towers e as noites em Westbourne Place, eram descritas
ao pormenor. Havia referências a espreitadelas
por trás da cena na Investigação e a amizade de Sua
Senhoria Radical era ligeiramente esboçada. O livro
começava com o primeiro encontro com Wardle e acabava
com a sua derrota em Westminster Hall.
383
O Duque de York era referido no prefácio, mas de
maneira que não causasse qualquer ofensa e que as
dez mil libras não corressem perigo. A autora dizia que
o seu anterior real amigo devia os seus desastres aos
descendentes de um homem enganado por Eva, há muito
tempo atrás, por meio de uma maçã. Não mencionava
quaisquer nomes, mas a família que pensasse o que
quisesse. Uma língua viperina envenenara o ouvido real,
porque o coração real era incapaz de injuriar fosse
quem fosse. A autora fora forçada a lutar pelos seus
direitos, ou pereceria aos pés dos seus filhos.
Sua Alteza Real o Duque de Kent não era tão
poupado. Em resposta às acusações de Mary Anne,
publicou uma pormenorizada Declaração, na qual considerava
questões postas ao major Dodd, quando este
ainda era seu secretário particular.
Nessa Declaração, o major Dodd negava ter mencionado
alguma vez o nome do seu patrão, como tendo
encorajado qualquer ataque ao seu irmão. De facto, o
secretário particular, agora destituído, dizia que durante
os dez anos que haviam durado os seus serviços, S. A. R.
nunca pronunciara uma palavra de queixa, quaisquer que
tivessem sido os seus sentimentos para com o irmão.
Quando panfletos haviam censurado o seu irmão e o
haviam elogiado a ele próprio, o Duque de Kent estremecera
e baixara a cabeça. Quanto a tomar medidas
que injuriassem a honra do seu irmão, como descrito
num livro recentemente publicado, The Rival Princes,
era de opinião que tal calúnia não podia deixar de ser
denunciada e devia fazer recuar de horror qualquer
homem honesto.
Na primeira edição, uma só carta de Lorde Folkestone
para a autora foi publicada, mas foi o suficiente
para assustar Sua Senhoria Radical, que imediatamente
escreveu uma carta de pesar a Wardle, dizendo que não
lera o livro, mas que desejava repudiar completamente
qualquer opinião expressa no ano anterior. A adulteração
dos factos por parte de Mrs. Clarke fora a causa dessas
opiniões. Ele esperava que o major Dodd compreendesse
e que, mesmo odiando ver o seu nome nos jornais,
achava que ambos os cavalheiros deviam fazer uso
público daquela carta. Foi publicada no dia seguinte,
13 de Junho de 1810, no Morning Chronicle.
384
Não publicou uma segunda, mais íntima, escrita
nesse mesmo dia ao seu amigo Mr. Greevy. Um excerto
dizia o seguinte:
A carta que ela publicou é tola? Faz-me parecer
ridículo? É nessa que eu digo «não será bom para a
família?» Haverá outras pessoas a pensar assim? E você?
Desculpe estas perguntas, mas depois do nervosismo
excessivo que testemunhou em Dezembro último, não
pode ficar surpreendido. A cabra insinua alguma coisa
acerca de eu ter dormido com ela, ou diz mais alguma
coisa acerca de mim?
Foi bom para Sua Senhoria Radical a autora não
ter tido conhecimento desta carta, ou poderia ter sofrido
bastante. Porque o Morning Chronicle ficou-lhe debaixo
de olho e na segunda edição do seu livro, ela publicou
mais nove cartas de Lorde Folkestone, com alguns
comentários críticos.
A segunda edição de The Rival Princes desapareceu
ainda mais depressa do que a primeira, o interesse já
não na história de Wardle, mas em quem fora exposto
e feito em pedaços. Cópias dobradas eram passadas de
mão em mão nas bancadas mais recuadas, esquadrinhadas
nas salas de fumo, troçadas nos gabinetes e,
embora o fogo fosse dirigido à Oposição, os membros
do Governo não escaparam ilesos. Nem uma palavra
foi dita contra Sir Vicary Gibbs; mas o secretário do
Almirante, Mr. Croker, que, com o procurador-geral,
se mostrara extremamente hostil para com a autora em
1809, recebeu doze páginas explosivas, expondo as suas
origens humildes e o ódio que causara com as suas
repugnantes actividades como cobrador de impostos na
Irlanda.
Durante três ou quatro meses, o livro foi discutido
e aplaudido - apesar de ridicularizado por muitos como
sendo de péssimo gosto - e depois, como acontece com
todos os tópicos efémeros, o interesse decaiu e foi
totalmente esquecido. Outros assuntos clamavam por
atenção - os progressos da guerra e, em círculos próximos
da família real, a morte da filha favorita do Rei,
a princesa Amélia. Foi o último golpe para o titubeante
Rei. Sua Majestade George II foi declarado interdito e
25 - Mary Anne
385
em 1811, o Príncipe de Gales tornou-se Regente. Uma
das primeiras medidas que tomou, foi reconduzir o Duque
de York no posto de Comandante-Chefe.
A Investigação, os processos judiciais, The Rival
Princes, tornaram-se notícias cediças e mais ninguém
se preocupou com elas. Tal como a canção cómica do
ano anterior ou a moda de Verão, o escândalo tivera
os seus dias e podia ser enterrado. A única pessoa que
lamentava o enterro, era Mrs. Clarke. A sua vida tornou-se
monótona.
Ela disse:
- Tenho cartas suficientes na minha caixa de lata
para encher uma dúzia de volumes e fazer uma fortuna.
Porquê deitá-las fora e não legá-las à posteridade?
Disse aquilo numa reunião dos administradores dos
seus bens, Messrs. Dowler e Coxhead-Marsh. As dez
mil libras haviam diminuído para cinco; dentro de dois
anos, não restaria um tostão.
- Uma razão sólida para fazer da escrita a minha
profissão. As raparigas viverão da pensão anual e eu
dos direitos de autor. Não concordam?
Charley Thompson anuiu com a cabeça. Ele era o
terceiro administrador. Tudo o que pudesse aumentar
os fundos das irmãs, tinha a sua aprovação - elas
davam-lhe metade.
Messrs. Dowler e Coxhead-Marsh tinham opinião
diferente. Chocados até ao âmago e aterrados com The
Rival Princes - um insulto em cada página - temiam
uma repetição. Ela safara-se uma primeira vez, mas não
o conseguiria segunda. As probabilidades de atingir o
mesmo alvo duas vezes eram diminutas. Além disso,
nenhum homem era poupado pela sua pena e qual deles
podia ter a certeza de não haver uma tola carta sua,
naquele molho atado com uma fita, naquela caixa de
lata?
-Penso - disse Coxhead-Marsh - que seria melhor
acalmar um pouco e dar atenção à educação das
raparigas.
- Aquela excelente escola em Uxbridge disse
Bill Dowler, só quinze libras por período, com Francês
incluído.
Quantias dessas podem ser disponibilizadas por
motivos escolares, mas não para estoirar em festas
386
disse Coxhead-Marsh.- Tanto Dowler como eu, concordamos
nisso. Se quer que as raparigas se casem
e casem bem, não pode ter as atenções viradas para si.
Diminui-lhes as hipóteses. Como é o caso...
- Como é o caso - interrompeu Dowler - daquilo
que aconteceu em 1809. Pode ser-lhes desfavorável. De
facto, como já te disse vezes sem conta, uma retirada
calma para o campo, é a resposta. Uma casinha em
Chalfont St. Peters...
Ela virou-se para ele, zangada.
- Há cursos de vida conjugal nessa escola, em
Uxbridge? Prefiro prepará-las eu própria, incluindo o
Francês... As raparigas devem viver em Londres, assim
como eu, com um pied à terre em Brighton, ou possivelmente
em Ramsgate, e quando George for para o
exército, nós vamos com ele - haverá alferes a dinheiro
a dúzia para Mary e Ellen e talvez algum fogoso coronel
de cavalaria para mim.
Fez-se silêncio, quando ela pronunciou o nome de
George. A troca de olhares entre os dois administradores
era inequívoca.
Ela disse:
- Que se passa?
Bill não respondeu. Charley encolheu os ombros.
Foi Coxhead-Marsh quem quebrou o silêncio.
- Posso puxar uns cordelinhos na City - começou
ele - e meter o George nos negócios. Temos muito
tempo para isso.
- George vai para o exército - replicou ela. - É o
seu desejo e uma promessa que se mantém.
- Não será fácil.
- Por que não?
- A razão é óbvia. O filho da mulher que deu cabo
da vida do Comandante-Chefe não será, provavelmente,
bem recebido em qualquer regimento. Os requerimentos
virão indeferidos. Ele não tem a mínima chance.
- Eu avisei-te - disse Charley. - Eu falhei e ele
também falhará. A Investigação arruinou as nossas hipóteses.
Se George mudar de nome, pode ter sorte, mas
não no exército de Sua Majestade, isso é certo.
De repente, a fúria acometeu-a. Idiotas incompetentes,
todos eles.
387.
- Se alguém se mete à minha frente, eu sei como
lutar. Tenho na minha posse uma carta do próprio Duque
de York, prometendo a George uma comissão, aos quinze
anos. Que acontece se eu apresentar isso em tribunal?
Os administradores suspiraram. De novo para a
bancada do Rei e para Westminster Hall? Publicidade
-prejudicial, perigosa, fatal para todos. Seria a destruição
completa das hipóteses de George e das raparigas.
Ninguém conseguiria persuadi-la a ficar calada?
- Se tenta qualquer tipo de ameaça - disse Coxhead-Mars
- destrói o futuro dos seus filhos para
sempre. A pensão vitalícia para si e para as suas filhas
ser-lhe-á retirada, e ficará sem um tostão.
- Excepto aquilo que eu sei que posso ganhar com
a minha inteligência e a minha pena e que pode ser
considerável mente mais do que qualquer pensão.
Ela saiu intempestivamente do edifício e deixou-os
a discutir. Podiam fazer o que quisessem com os fundos
do capital que diminuía, que poupassem, que investissem
a três por cento; ninguém era capaz de lançar um ataque,
como ela.
Só quando chegou a casa e procurou na caixa, se
lembrou - a carta do Duque referente a George já não
estava na sua posse. Enviara-a, há séculos, a James Fitzgerald,
para que a guardasse em segurança.
Não sabia nada dos Fitzgerald há meses. James
retirara-se da política nesse ano e Willie subira com
distinção e rapidamente, tornando-se Chancellor of the
Irish Exchequer (Chanceler do Tesouro Irlandês;) e membro
do Conselho Privado Inglês. Escreveu-lhes de imediato.
Estavam ambos na Irlanda devido às férias de Verão
do Parlamento e ela tinha dúvidas que Willie, na sua nova
posição, pudesse obter uma comissão para George,
contra toda a oposição.
Não obteve resposta do pai, ou do filho. Voltou a
escrever. Por fim, umas breves palavras de James chegaram.
«A carta a que se refere foi destruída há muito.»
Destruída, a mais preciosa das suas possessões.
Pensaria ele que o contaminaria? Ou estava aterrorizado
por reter uma carta que provava as suas relações com
a notória Mrs. Clarke?
Um segundo apelo a Willie revelou-se infrutífero e
uma mensagem sugeria que William Fitzgerald, Chan-
388
celer, não desejava ser lembrado por Mrs. Clarke. Qualquer
ligação que pudessem ter tido no passado deveria
ser esquecida por ambos e não retomada. Em suma, o
Chanceler Irlandês recusava fazer fosse o que fosse
quanto ao futuro do filho de Mrs. Clarke.
A princípio, ficou atónita. Não queria acreditar. Não
era humanamente possível que os Fitzgerald, amigos
íntimos nos últimos dez anos, se virassem contra ela,
depois de tantos segredos partilhados e de tantas preocupações.
Willie, que lhe falara de todos os seus problemas
desde os dias de Oxford, correndo para os
braços dela em busca de ajuda e consolo, como Charley;
James, que desabafara com ela centenas de vezes,
revelando segredos políticos e problemas pessoais. Não
deseja qualquer ligação futura... um capítulo encerrado...
e não podia fazer nada por George - George fora abandonado.
A emoção transformou-se em cólera, a cólera em
fúria e a fúria num instinto cego de vingança. Tal como
no passado, ela pediu conselho a Ogilvie.
- Que faço? Como posso atingi-los com força?
Durante os últimos quatro anos, muita coisa falhara.
Ogilvie perdera as esperanças, uma a uma, A Regência
deitara por terra todas as esperanças de um país dividido
em dois, de uma revolução. Os Tories ainda estavam
no poder, sem expectativa de mudança e, portanto,
qualquer arma servia para desacreditar os ministros,
Mal-estar entre a Inglaterra e a Irlanda podia ser alimentado;
a discórdia podia ter a sua utilidade e ali
estava algo que merecia ser apoiado e encorajado.
- Eu disse-lhe, quando publicou o The Rival Princes,
que o devia ter escrito com mais força. Tem agora essa
hipótese. Comece uma série de panfletos atacando o
Governo, começando por William Fitzgerald. Exponha-o.
Haverá uma grande algazarra - ele terá que se demitir.
Lembra-se como fez de Croker um parvo? Houve um
desapontamento amargo no país por não ter continuado,
por não ter desmascarado até ao fim.
- Pensa que aquilo que eu digo tem peso?
- Claro que tem. Quando escreveu The Rival Princes,
agarrou o público. Mas deixou passar o momento
e assim, perdeu-o. Você não sabe o poder que tem na
389
sua pena e também na sua língua. Dois homens caíram
em desgraça por sua causa, o Duque de York e Wardle.
Tente um terceiro. Faça com que o Chanceler Irlandês
leve um pontapé - o público apoiá-la-á.
Aquelas palavras foram como mel para os seus
ouvidos ávidos. Will disse-lhe todas as coisas que ela
ansiava por ouvir. A sugestão dele perturbou-a, excitou-a.
Uma série de panfletos atacando o seu mundo,
o mondo que conhecera; mais uma vez, uma hipótese de
provar que não estava esquecida, que ainda tinha o
poder de dobrar um homem.
A batalha recomeçara, a Idée fixe - os homens
eram uma raça à parte, a serem submetidos. Fechou-se
no quarto e começou a escrever...
A carta para o altamente ilustre William Fitzgerald
continha mais ou menos vinte páginas e foi publicada
sob a forma de panfleto por um Mr. Mitchell. Mr. Chappie
de Pall Mall recusara publicá-la. Aconselhara-a contra
isso, sentindo o perigo, mas a autora de The Rival Princes
não o ouviu.
- Perigo para William Fitzgerald, não para mim.
Mr. Chappie abanou a cabeça. A carta era cáustica,
sem graça, humor ou compreensão.
Pretendo chamar a atenção da Nação Irlandesa para
um dos homens mais viciosos e libertinos que presentemente
e misteriosamente preside às finanças dessa
Nação e que representa esse órgão no Parlamento
Imperial.
Sou guiada pelo princípio geral que tem regulado
toda a minha vida; nunca suportar ingratidão, um dos
piores crimes, permitir que fique sem castigo, ou que
fique hipocritamente escondido. O senhor, Mr. Fitzgerald,
servirá de exemplo, para que nenhum, por mais alto
que esteja, brinque impunemente com os meus sentimentos,
para sua própria conveniência. Desejo que fique
para sempre na sua memória que, quando aguilhoada
pela injúria, exigirei reparação, não só do filho do Rei,
mas também do próprio Rei. Até à data ainda não denunciei
ninguém que não merecesse ser exposto perante
a opinião pública; esta é a única vingança que pretendo
obter daqueles por quem fui mal tratada.
390
O seguinte facto, dá-nos uma notável imagem da
baixeza e perfídia do subtil intriguista que é o seu pai,
a quem eu confiei uma carta do Duque de York, escrita
pouco depois da nossa separação, na qual ele se comprometia
por tudo o que há de sagrado, a educar, proteger
e sustentar o meu filho enquanto vivesse.
Escrevi ao seu pai, pedindo-lhe que me devolvesse
essa carta. A este pedido, respondeu da seguinte maneira:
«Destruí-a.»
Não há palavras adequadas que possam expressar
a indignação que senti por esta conduta traiçoeira para
com uma criança inocente, cujo único sustento dependia
daquela carta e que está agora privado dessa única
garantia: para não falar da flagrante ingratidão dele
para comigo, que o salvara, a si e toda a sua família
da ignomínia e ruína total, fazendo desaparecer correspondência
que não lhe pertencia.
Depois destes reparos ao carácter do seu insidioso
pai, dirigirei, de seguida, a minha atenção para o seu
próprio.
O seu ar debilitado, que o seu pai acredita ser uma
enfermidade hereditária, deve-se à sua incessante prática
nocturna do jogo; indesculpável da sua parte, já que não
são as necessidades pecuniárias que o levam a essa
mesma mesa do jogo. À parte esta paixão dominante na
sua vida, que pensará o mundo em geral de um homem
que seduz a mulher do seu mais íntimo amigo e que,
exercendo uma influência corrupta, faz com que este
seja enviado para uma região pouco saudável, na esperança
de que a doença o leve rapidamente à sepultura;
que depois, satisfaz a sua licenciosa paixão sem restrições;
e que, quando os seus efeitos se tornam aparentes,
droga a vítima inconsciente do seu deboche,
arriscando a sua vida, destruindo a testemunha inocente
da sua culpa para aliviar a consciência e poupar à sua
avareza o sacrifício de uma ninharia para o seu sustento?
Não foi há muito tempo que um bebé nado-morto,
um espectáculo tão horripilante que até a pena de um
médico se sentiria repugnada pelo horror de o descrever,
atestou a virulência da poção fatal, pela qual a infeliz
mãe foi quase levada à sepultura.
391
O senhor protestou que não podia casar com uma
mulher tão desonrada, apesar de ser a causa de tal
desonra, nem podia aviltar o sangue dos Fitzgerald,
unindo-se a uma das filhas de Lorde Dillon, porque elas
eram bastardas e que essa mesma objecção o induzira
a declinar uma oferta semelhante do marquês Wellesleley.
Mas que nascimento é o seu, ou estatuto, ou inteligência,
que o autorizam a rejeitar com desprezo as
mais nobres famílias? O senhor que não é nada disto
- o senhor, cujo avô, o velhaco Billy Fitzgerald de
Ennis, era um pobre advogado charlatão; cujo pai deve
a sua subida na vida não ao mérito, mas às sujas artes
da intriga política; cuja tia é uma vulgar prostituta e
cujo primo foi enforcado por roubo de cavalos - o
senhor, cuja conduta total, desde que nasceu, tem sido
uma teia de infâmias e de delitos vários?
Mostrarei a seguir quais os meios que utilizou para
chegar às honrarias duvidosas que agora usa de maneira
tão abundante, e que, segundo consta, ainda vão
ser mais abundantes, quando se transformar em par do
Reino. Supõe, talvez, que o arminho será uma capa conveniente
para as suas deformações morais e que a posse
de uma coroa de nobre o compensará pela falta de
qualquer outra espécime de mérito, mas permita-me que
lhe pergunte se será alguma vez capaz de olhar para o
animal que compõe o seu brasão, sem se recordar da
sua origem abjecta?
Acrescento a seguir as suas cartas e as do seu pai
que ainda estão na minha posse e vamos ver, senhor,
se os povos da Grã-Bretanha e da Irlanda, ao saberem
do seu verdadeiro carácter, tolerarão pacientemente um
sujeito imoral, que se ergueu repentinamente de uma
posição humilde, para ser um mandão. Resta saber se
eles aplaudirão a escolha de um aventureiro pobre para
preencher alguns dos mais elevados e lucrativos cargos
do Estado e se eles não julgarão que a correspondência
financeira de uma parte essencial do Império não teria
sido melhor entregue a mãos mais capazes e puras do
que aquelas cujas noites são passadas nas mesas do
jogo e que foi considerado culpado da destruição do
seu próprio filho ainda por nascer.
392
Aquele era o tom geral da carta publicada e ela
acrescentou um post-scriptum, prometendo mais.
Quem seria o próximo alvo da sua pena virulenta?
Declaro a seguir ser minha intenção submeter ao
público dentro de muito pouco tempo dois ou três volumes,
que poderão ser seguidos de outros, conforme a
oportunidade ou circunstâncias assim o exijam.
A Autora
Alguns fiéis membros dos Comuns de Sua Majestade
sentiram-se apreensivos quanto àquela perspectiva.
Um ou dois lordes ficaram enregelados de medo. No
Gabinete, murmurava-se. Ouviu-se dizer ao próprio Lorde
Liverpool: «Façam desaparecer essa mulher, antes que
cause ainda mais danos. Se isto continua, ficaremos
todos sem os nossos cargos.»
A primeira vítima consultou os seus conselheiros
legais e recorreu ao tribunal.
Numa segunda-feira, 7 de Fevereiro de 1814, Mrs.
Mary Anne Clarke foi acusada de publicar libelos difamatórios
contra o Chanceler do Tesouro Irlandês, o
altamente ilustre William Fitzgerald, M. P. por Ennis.
Sentou-se pela terceira e última vez no banco do
Tribunal do Rei, observando o mar de rostos virados
para ela; mas Sir Vicary Gibbs já lá não estava para a
defender. Tornara-se juiz precisamente dois anos antes.
Lorde Chief Justice Elleniborough estava ausente.
e seu lugar foi ocupado por Mr. Justice Le Blanc. Antes
daquele julgamento não houve partidas de piquet. Não
houve conversas em Lincolns Inn, nem o cisne de Leda.
-Tente apanhar Henry Brougham e ao diabo com
os custos - disse o ex-procurador-geral à autora. Detesto
as suas ideias políticas, mas é o único sujeito
no mundo que a pode safar. Avisá-lo-ei, contudo, que
não terá uma tarefa fácil.
A conselho do advogado, a ré declarou-se culpada.
Mary Anne fora, final mente, vítima da sua própria presunção.
393
CAPÍTULO 5
OS debates foram breves. Não foram chamadas testemunhas.
A carta para o altamente ilustre William
Fitzgerald foi lida em voz alta no Tribunal
e ouvida em silêncio.
A ré não apresentou quaisquer provas, mas depôs
sob juramento, alegando como atenuante para o seu
crime a conduta traiçoeira dos Fitzgerald, que haviam
destruído muitos papéis valiosos que ela, de boa-fé,
confiara à sua guarda, entre eles um, de uma pessoa
em lugar de destaque, no qual prometia sustentar o seu
único filho, e entregando-se à mercê do Tribunal com
as seguintes palavras:
«Que esta declarante tem duas filhas, uma das
quais se aproxima da idade adulta: que, até agora, sob
muitas infelicidades e circunstâncias adversas as educou
e as criou para serem honradas e virtuosas e que,
se este Ilustre Tribunal, na sua sabedoria, as privar da
sua protecção, ficarão totalmente desamparadas. Humildemente
espera que estas circunstâncias e o seu estado
de saúde sejam levados em consideração por este Venerado
Tribunal, assim como o facto de, no presente caso,
a declarante não ter sido movida por motivos políticos,
mas unicamente pelo tratamento do Demandante, na sua
competência legal.»
O procurador-geral - que substituía há dois anos.
Sir Vicary Gibbs - caracterizou o libelo como sendo o
mais flagrante que jamais aparecera num Tribunal de
Justiça.
394
Disse não ter dúvida que fora motivado exclusivamente
com a finalidade de extorquir dinheiro - na verdade,
a vingança fora a razão da publicação do panfleto.
Esperava que a sentença do Tribunal ensinasse, ao
menos, a ré a não escrever e a refrear o desejo de
publicar futuros libelos difamatórios.
Mr. Henry Brougham (que seis anos mais tarde
defenderia a rainha Carolina), dirigiu-se ao Tribunal,
pedindo a atenuação do castigo da ré, mas sabia que
pouco poderia fazer por Mrs. Clarke.
- Este caso não é acerca - protestou ele acaloradamente
- de um ataque injustificado e voluntário ao
carácter de um indivíduo, só pelo prazer de fornecer ao
público escândalos internos. À publicação daquela carta
surgiu após uma longa ligação de catorze anos entre
as duas partes.
«Meus senhores, não peço qualquer atenuante para
o crime por a pessoa que cedeu a estes sentimentos de
provocação ser uma mulher, a não ser que se diga que
quando o sexo já não impõe constrangimento, deixa de
proporcionar protecção, mas rogo a Vossas Senhorias
reflictam nos efeitos que o seu castigo trará sobre
aqueles que ela criou sob princípios de honra e virtude,
dando-lhes essa educação e esses hábitos, dos quais
sentirá a falta, se é que já não sente.
«Se o Tribunal levar isso em linha de conta, espero
e tenho fé que Vossas Senhorias associarão a distribuição
da justiça que os factos possam exigir, com a
consideração misericordiosa pelos inocentes.»
Mr. Brougham fizera o melhor que podia, mas o
Tribunal era hostil. Suas Senhorias sentiram, e não sem
razão, que uma mulher que podia escrever tais acusações
contra pessoas altamente colocadas, devia ser
açaimada. Não podia, de modo algum, ficar à solta, ou,
semanas depois, recomeçaria de novo. Apenas cinco
anos antes, um príncipe de sangue real fora desgraçado
por ela. Mulheres do seu género eram perigosas.
Nesse mesmo dia, a ré mostrara a sua habitual
alegria durante o processo. Troçara do ar envelhecido
395
de Mr. Mitchell, o tipógrafo, de setenta anos e seu
co-réu e chegara ao cúmulo de fazer uma pequena vénia
trocista ao procurador-geral, no final do seu discurso.
Mr. Justice Lê Blanc estava decidido a ser severo.
- Não existem dúvidas - disse ele severamente acerca
da tendência difamatória da publicação, assim
como existem poucas dúvidas acerca do motivo que a
originaram e que induziram à ameaça de publicação de
mais três volumes que a própria ré afirmou ter em
mente e que foi o de arranjar dinheiro através dos
jornais, ou da sua supressão. Que isto sirva de aviso
para o mundo, como as pessoas podem conceber ligações
irreflectidas e imprudentes, e quanto à ré, espero
que a prisão, à qual este Tribunal tem o dever de a
sentenciar, a induza a rever a sua vida passada e a
arrepender-se dos seus erros, que são -a causa da sua
presente situação.
«É sempre doloroso ser-se obrigado a imputar os
pecados dos pais aos filhos, mas nalguns casos, a
separação destes daqueles, pode trazer resultados benéficos.
Se é o caso nesta Instância, não pertence ao
Tribunal averiguar.
«Tomando todas estas circunstâncias em consideração,
o Tribunal ordena e declara judicialmente que a
ré, Mary Anne Clarke, seja encarcerada na prisão sob
custódia do Tribunal do Rei pelo espaço de nove meses
e que, após este período, ficará sob fiança durante três
anos, pagando uma caução de duzentas libras e arranjando
dois fiadores de cem libras cada, continuando
sob custódia até essa fiança ser entregue.»
Todos os olhos se viraram para a ré, Mrs. Clarke,
quando ela se levantou do banco para ouvir a sentença.
O seu advogado, Henry Brougham, aludira a prisão,
mas nem por um momento ela acreditara. Uma indemnização,
talvez uns milhares de libras, os valores nas
mãos dos seus administradores vendidos para ir ao
encontro das somas exigidas; depois, uma sequência
de The Rival Princes, autêntica e mordaz - mas censurada
primeiro.
396
Mas prisão durante nove meses! As crianças abandonadas
e o décimo sexto aniversário de George daí
a uma semana? Olhou em redor, descrente. Nenhum
rosto sorria. Charley estava presente com Bill, os olhos
postos no chão. Afinal, era verdade. Não havia fuga.
Não havia atenuantes. Chaves a chocalhar, paredes frias
e a cela de uma prisão. Enterrou as unhas na palma da
mão, para manter a dignidade. O jornalista do The Times,
anotou rapidamente a sua última frase «Quando Mr,
Justice Lê Blanc falou de encarceramento, a sua alegria
desapareceu e verteu algumas lágrimas.»
Os seus amigos foram autorizados a despedir-se
dela, antes de ser conduzida à prisão do Tribunal do
Rei. Afastou as lágrimas e dirigiu-se-lhes, sorrindo.
-Sempre tencionei fazer dieta e aqui está a minha
oportunidade. Faz tão bem ao rosto e ao corpo, aos
trinta e oito anos. As águas de Marshalsea são muito
melhores do que as de Bath e o alojamento é metade
do preço... Por favor, digam a Martha para emalar o
necessário para alguns dias apenas, até eu ter inspeccionado
o meu alojamento! Não posso deixar de sentir
que não precisarei de vestidos de noite, apenas de
malhas. Livros? Quem me vai fornecer livros? Conto
convosco. Declínio e Queda, de Gibson e a Odisseia
de Homero, devem chegar-me... Mais algumas sugestões?
Estarei certamente em casa para receber, às
terças e sextas. Todos os visitantes são bem-vindos,
mas tragam os vossos próprios bancos e cadeiras.
Coxey, tome conta das raparigas e convide-as para
Laughton e, por favor, tente arranjar um emprego para
Charley. Bill, querido, beija-me rapidamente e desaparece.
Tenho medo de fazer figura triste, o que te
envergonharia. Sabes o que tens que fazer quanto a
George, mas dá-lhe a notícia suavemente. Diz-lhe que
não se preocupe de modo algum, que estou muitíssimo
divertida - estou ansiosa por explorar o interior de uma
prisão. Mr. Brougham está aí? Quero agradecer-lhe.
Henry Brougham aproximou-se e pegou-lhe na mão.
Ele não se deixou enganar pelo ar alegre e adivinhou
o choque. Mandou os amigos embora e ela relaxou.
397
- Vai ser duro - disse ele.--Devo avisá-la. Tem
força suficiente?
- Não sei. Nunca experimentei. Nunca estive doente.
- Com o tempo, dar-lhe-ão um quarto, ou a partilha
de um. Suponho que os seus amigos poderão pagá-lo.
Mas, de início, não terá direito. A sentença implica
prisão celular.
- Que significa isso, exactamente?
- Há duas pequenas celas, ou masmorras, na prisão
do Tribunal do Rei. Este decretou que será colocada
numa delas.
- Será totalmente escura? Poderei ler ou escrever?
- Penso que existe uma pequena janela no alto da
parede.
- Há alguma coisa, na qual me possa deitar?
- De momento, nada. Só palha. Será autorizada a
mandar vir uma cama - já dei instruções para isso.
- Alguns cobertores?
- Esta noite, terá os meus cobertores da carruagem.
Farei tudo o que puder para lhe enviar uma cama
e cobertores de sua casa, amanhã.
- Quem governa a prisão?
-O Marshall actual é um tal Mr. Jones, mas parece
que nunca ninguém o vê e a prisão é gerida pelo seu
funcionário, um homem chamado Brooshooft.
-• Brooshit ou Brooshft, tanto me faz. Ponho-me
bonita para ele?
- Talvez mais tarde, mas não de momento. Está
pronta? A carruagem está à espera.
-Não vou numa carroça?
- A senhora é poupada a isso, em Inglaterra.
É permitido ao advogado acompanhar o prisioneiro.
Ela subiu para a carruagem, apertando ainda a mão
dele.
- Devíamos poder ir de barco - muito mais romântico.
Não há Traitors Gate (Porta do Traidor) a prisão
do Tribunal do Rei?
398
-Infelizmente não. Não é à beira-rio. É do outro
lado da ponte, perto de Southwark.
- Uma parte que eu conheço... É muito frequentada?
-Trapeiros e pedintes, ninguém mais. Excepto,
claro, os caloteiros.
- Consegue-se ver o Tamisa? Adoro o rio.
- Temo que não. A prisão está muito longe da margem...
A propósito, tem um médico que a possa visitar?
- O meu amado Dr. Metcalfe foi para os Midlands.
Mas tenho a certeza que, em caso de emergência, se
eu assobiar, ele vem. Porquê?
- Não há assistência médica na prisão do Tribunal
do Rei. De qualquer espécie. Nem sequer há uma enfermaria.
- Que acontece se uma pessoa adoece de repente?
- Nada, segundo me disseram, a não ser que um
dos internados tenha conhecimentos médicos. Por isso
é que a avisei.
- Mulher prevenida vale por duas. A Martha tem
que me mandar as minhas pílulas... A propósito, como
são exactamente as condições sanitárias?
- Informaram-me que há uns quantos varredores
pagos pelo Marshall, mas que não vão todos os dias.
Depende do lixo. Quando a quantidade atinge uma certa
altura os varredores tiram lucros disso e removem-no.
- Sim, isso é lógico... Não há esgotos nenhuns?
- Aparentemente não. Vai tudo para selhas.
- Que transbordam constantemente, como as cataratas
do Niagara? Martha vai precisar de uma lista longa
como o meu braço... E acerca de comida, Mr. Brougham?
- Há uma sala de jantar na prisão do Tribunal do
Rei, que é geralmente utilizada pelos caloteiros mais
pobres, que não têm dinheiro para mandar buscar o que
querem. Parece que compram carne ao talhante duas
vezes por semana, mas pelo que ouvi, não é recomendável.
- Então, a comida pode ser enviada para lá?
399
-Sim, mas tem um preço. Os guardas tratam disso.
Teremos que descobrir como. Parece que as bebidas
entram em quantidade, às quais o Marshall faz vista
grossa, mas isso não tem interesse para si. Terá que
fechar os ouvidos à algazarra.
- É aqui? O grande portão?
-Sim, entramos e paramos no pátio interior. Se
alguém gritar ou a insultar não faça caso; os caloteiros
mais pobres fazem a colecta no pátio. É melhor esperar
na carruagem enquanto eu faço algumas perguntas.
Ela segurou os cobertores da carruagem debaixo do
braço. «Em Bowling Inn Alley», pensou, «os cobertores
eram mais finos, mas eu tinha uma cama e o Charley
para me manter quente. Além disso, foi há trinta anos
e eu não era tão frágil...» Inclinou-se para fora da janela
da carruagem e chamou Brougham.
- Encomende uma cama de dossel e jantar para
dois, e exijo o champanhe gelado...
Ele acenou com a mão.
Assim que ele desapareceu no interior da prisão, os
caloteiros aproximaram-se e juntaram-se em redor da
carruagem. Enfiaram as mãos através da janela com tiras
de papel.
- Camarada, bilhetes para venda. Dez xelins por
noite. Cama para si, só quatro pessoas num quarto...
Oito xelins, senhora, posso oferecer oito xelins e um
colchão com três meses de uso... Quatro xelins para
si, minha senhora, por uma parte de cama, a outra
ocupante é muito asseada, uma jovem de vinte e oito
anos... Um guinéu por noite, por um quarto só para si,
minha senhora, a melhor oferta em toda a prisão, não
encontraria melhor na Armada ou em Marshalsea, um
guinéu por noite e um extra pelos despejos todas as
manhãs.
Que pena ela não ser uma caloteira, em vez de uma
criminosa.
- É muito amável da vossa parte - disse ela darem-se
a tanto trabalho. Mas o assunto já foi tratado.
Já tenho quarto.
Eles ficaram a olhar para ela sem expressão.
400
- Deve ser engano, senhora. Não há quartos simples
livres.
- Ah! Mas há. Uns de que vocês não sabem.
O Marshall tem um óptimo escondido na manga.
Henry Brougham voltou. Os caloteiros abriram alas,
continuando a falar alto, discutindo o assunto.
- Lamento - disse Brougham, é pior do que eu
pensava.
- O que é que é pior? Esta gente tem sido muito
amável.
- Os seus alojamentos. São muito pequenos.
- Mas são só para mim?
- Só para si. - Ele olhou para ela com compaixão.
- Vou consigo, agora?
- Se faz favor. - Ele tomou-lhe o braço e guiou-a
para lá da porta. - Paguei a sua taxa de recluso, que
foram dez xelins e seis dinheiros. De uma maneira geral,
isso permite-lhe ter acesso ao que eles chamam um
bilhete de amigo.
- Eu sei, já me ofereceram um.
- Não serve de nada no seu caso - a senhora foi
condenada por difamação. Isso quer dizer uma cela,
como lhe disse. Este é Mr. Brooshooft o funcionário
do Marshall.
Um homem quadrado, de grande barriga, avançou
para ela, de chapéu na parte de trás da cabeça. Ela sorriu
e fez uma cortesia. Ele não fez caso e virou-se para
Brougham.
- Ela trouxe cama?
- A cama será enviada amanhã de manhã. E cobertores,
claro, uma mesa, uma cadeira e outras coisas
que possam ser necessárias.
- Não há espaço para mais nada, senão a cama.
A cela só tem três metros e vinte de superfície. Ela tem
velas?
- Não fornecem as velas?
- Nada é fornecido. Só a palha, e essa é fresca,
colocada hoje de manhã.
- Onde posso comprar velas?
26 - Mary Anne
401
- O chefe do botequim deve ter algumas. Isso não
é da minha lavra. E não se esqueça de que ela está aqui
por acusação de crime. Deram-me instruções, não são
permitidos privilégios. Somente a comida da prisão,
vinda do refeitório.
- E que será?
O funcionário do Marshall encolheu os ombros.
- Papa de aveia ao pequeno-almoço, sopa ao meio-dia.
Varia de dia para dia, o cozinheiro é que trata disso.
Os caloteiros podem comprar o que quiserem no botequim,
dependendo de quanto possam pagar... O caso
dela é diferente.
Henry Brougham virou-se para a sua cliente. Ela
acenou-lhe com a mão.
- Que disse eu? Regime pour embonpoint. Hei-de
sair tão magra como uma vara de salgueiro. Hei-de lançar
a moda.
O funcionário do Marshall virara-se para um carcereiro.
- Conduza a prisioneira à número 2. A cama dela
vem amanhã. Não há mais privilégio nenhum.
-Nem senhas para o botequim?
- Não está nas ordens.
O funcionário do Marshall permitiu que o seu olhar
descesse sobre a prisioneira com indiferença.
- Se adoecer, pode sempre queixar-se. Envie um
bilhete ao Marshall, depois é apontado nos livros e mostrado
quando a prisão é inspeccionada.
- Com que frequência é isso?
- É suposto ser duas vezes por ano, pela Repartição
Oficial da Coroa, mas nem sempre é assim - a próxima
visita deve ser em Junho. Se um prisioneiro está
a morrer, é claro que tenho poderes para o deslocar,
mas os parentes ou amigos são obrigados a pagar. Fiz
uma concessão neste caso, porque o prisioneiro é uma
mulher e tem mais de trinta anos. A cela número 2 tem
soalho de madeira; a número 1 é de pedra e não tem
vidro na janela.
A prisioneira sorriu e segurou nos cobertores.
402-Quão atencioso e amável da sua parte. Quanto
lhe devo?
- Isso é com os seus amigos. Não aceito dinheiro
directamente. É contra os regulamentos, conta como
delito. Importa-se de seguir o carcereiro? Andar a
vaguear por aí não é permitido, a não ser que tenha
sido condenada por dívida ou que já tenha cumprido três
meses de sentença. Boa tarde.
Ela acenou com a cabeça para Henry Brougham e
desapareceu. O advogado tirou os cobertores do braço
da sua cliente e seguiram juntos o carcereiro ao longo
do corredor.
- Que pena - disse ela - não estarmos a chegar
a Brighton, com alojamentos virados para a praia, nem
termos uma festa esta noite.
Henry Brougham segurou-lhe no braço com firmeza.
Não respondeu. O carcereiro guiou-os através de um
dédalo de passagens que levavam a esquinas e depois
a escadas, onde prisioneiros vadiavam sem destino. Eram
aqueles os locais do encontro dos caloteiros. Homens,
mulheres e crianças espalhavam-se pelas escadas, os
adultos comendo ou bebendo, as crianças brincando. Um
jogo de dados decorria numa das escadas, numa outra
um jogo de laranjinha, com garrafas partidas. As pare-
des da prisão faziam eco, vozes altas e gritos, risos e
canções roucas enchiam o ar.
- Pelo menos de uma coisa não me poderei queixar
- do silêncio. Mas tenho medo que os varredores não
tenham vindo. Não gosto daquelas selhas sem quaisquer
tampas em cima...
O cheiro fétido no corredor era pior do que qualquer
coisa que conhecera nos dias de Bowling Inn Alley. Ou
ter-se-ia esquecido? Haveria algo de familiar naquele
cheiro? Lixo por despejar dos vizinhos... soalhos que
deixavam passar água... paredes molhadas e marcas de
dedos... nódoas sugestivas... mesmo os gritos agudos
das crianças pelos cantos, poderiam ser os de Charley
e Eddie a jogar ao berlinde.
- Lembra-se de Mary Stuart? . ,
- Porquê Mary Stuart? ,
403
- O meu fim, disse ela, é o meu começo. Talvez
se aplique a todos nós... Parece que chegámos.
O carcereiro parara no extremo do corredor e estava
a lutar com a sua chave numa fechadura dupla. Abriu a
pesada porta e escancarou-a.
O funcionário do Marshall não exagerara, a cela
tinha três metros quadrados, nem mais, nem menos.
Uma janela, no alto da parede, gradeada e coberta de
teias de aranha, dava pouca luz. O chão era de tábua
de soalho e a um canto, contra a parede, estava uma
enxerga coberta de palha. Uma pequena selha, como
as observadas ao longo dos corredores, estava ao lado
da porta, sem tampa.
A prisioneira mediu a cela com os braços abertos.
- O problema é que - disse ela, quando tiver
a minha cama, não haverá literalmente espaço para mais
nada. Terei que me lavar, vestir e tomar as minhas
refeições escarranchada nela, ou numa só perna - um
novo exercício, à la flamingo.
Fez uma demonstração, levantando o vestido. O carcereiro
abriu os olhos. Ela atirou-lhe um sorriso deslumbrante.
- Já que nos vamos ver frequentemente - disse
ela, - comecemos como devemos continuar. Espero que
sejamos amigos.
Ela apertou-lhe a mão e deu-lhe dois guinéus.
- E agora se tratássemos das velas, Mr. Brougham?
Dentro de meia hora, o quarto estará escuro como breu.
E bastante frio - estou a ver que não tenho lareira.
Assim, as velas darão uma atmosfera de fête. Ora, com
a palha e os seus cobertores, ficarei bastante aconchegada
e com a sopa do refeitório dos caloteiros, a escaldar.
De que é a sopa esta noite, de tomate ou de tartaruga?
O guarda, confuso, olhava pasmado para o seu
último encargo.
- É sempre a mesma - disse ele, - uma espécie
de caldo de carne, cascas de batata a boiar e uma fatia
de pão.
404
- Potage parmentier, comi essa sopa no Almacks...
Agora, Mr. Brougham, penso que é tempo de o senhor
se ir.
O seu advogado tomou-lhe a mão, fez uma vénia
e beijou-lha.
- Se houver alguma coisa neste mundo que eu possa
fazer para a tirar deste buraco e colocá-la num quarto,
será feita - prometo-lhe sinceramente.
- Obrigada mil vezes. O senhor volta para me ver?
-Sempre que for permitido. A propósito, penso
que seria melhor eu ter a morada do tal doutor...
- Bill Dowler tem-na.
- Deseja mais alguma coisa? Quero dizer, imediatamente?
- Velas, do botequim, e se eles tiverem, tinta,
penas e papel.
-Mais nenhuma carta, espero, para Mr. Fitzgerald?
- Não. Um relatório da prisão do Tribunal , do Rei,
visto em primeira mão. Para ser mostrado, se necessário,
na Câmara dos Comuns.
Ele riu-se e abanou a cabeça.
- Penso que a senhora é incorrigível.
- Bom Deus, espero que sim. De outro modo, de
que serve viver?
O guarda abriu a porta e juntamente com Henry
Brougham saíram. A porta fechou-se com um ctang.
A chave deu a volta. A face da prisioneira apareceu na
pequena grade. Atirara com o chapéu para cima da palha
e usava um dos cobertores da carruagem do advogado
em volta dos ombros.
- Só uma última palavra - disse Mr. Brougham.-
Lamento tanto...
Ela olhou para ele e sorriu. Um olho azul piscou.
Murmurou no mais grosseiro cockney, aprendido na
Alley, You pays yer money ana you takas yer choice.
(Paga o que quer e leva o que escolher.)
Ouviu os passos deles ecoarem no corredor e depois
perderem-se nos sons distantes da prisão, as vozes
405
altas, os gritos e as risadas. Às dez horas dessa noite,
quando as velas já se derretiam, o carcereiro abriu a
porta da cela e entregou-lhe uma carta. Fora enviada por
um mensageiro do Rei para o escritório do Marshall,
com ordens de lha entregarem directamente, disse o
carcereiro.
Ela estendeu a mão da palha onde estava deitada
e tomou-a da mão dele. A carta não tinha princípio nem
fim, mas o papel tinha o timbre dos Horse Guards, em
Whitehall e estava datada de 7 de Fevereiro de 1814.
A mensagem era breve e dizia o seguinte:
Sua Majestade teve o prazer de conceder uma
comissão a George Noel Clarke, no 17th Light Dragoons.
A nomeação terá lugar a 17 de Março, quatro semanas
depois do décimo sexto aniversário do oficial, data em
que o alferes Clarke se deverá apresentar ao serviço.
S. A. R. o Comandante-Chefe lembrara-se da sua promessa.
406
CAPÍTULO 6 .-
ESTAVAM-SE sempre a mudar. Nenhuma casa era lar
por muito tempo. Um eterno desassossego enchia-lhe
o coração e o espírito - o que Ellen costumava
chamar «divino descontentamento da mãe» assim
mais uma vez os malões eram fechados e amarrados,
caixas cheias de coisas e as três iniciavam uma
nova peregrinação, em busca de algum El Dorado- inatingível.
Talvez Bruxelas hoje, amanhã Paris; ou, fantasiando
qualquer lugar ainda não tentado, percorriam aos
solavancos as estradas poeirentas de França numa
diligência, de janelas fechadas, de face inquisitiva encostada
à vidraça, mais entusiasmada que as filhas.
- Hotel de la Tête d'Or, é lá que vamos ficar - simplesmente
porque uma praça pavimentada com pedras
guardava mistério, mulheres lavavam a roupa num ribeiro
e camponeses vestidos de azul-cobalto lançavam sorrisos,
queimados pelo sol. Além disso, muito perto,
estava um castelo no alto de um monte, habitado por
algum barão, ou um conde deprimido, que podia ser
visitado e tornar-se divertido, porque nada a intimidava,
nem o protocolo gaulês - acenaria com uma carte de
visite e alegaria conhecer o mais frio dos estranhos.
As suas filhas sofredoras sentar-se-iam de olhos cabisbaixos,
o orgulho tornando-as mudas, enquanto a sua
sorridente mãe, sussurrando um francês de origem des-
407
conhecida, de acento impecável, mas de gramática
rude, se apresentava com gestos pródigos.
- Ravie de faire votre connaissance, monsieur! E
o monsieur, não tão ravi, batia os calcanhares e fazia
uma vénia - o seu chateau até então impenetrável,
excepto a tias solteironas e cures idosos, mas agora sem
defesas, conquistado por olhos penetrantes que varriam
as suas salas e avaliavam os seus objets d'art; e as
filhas angustiadas, de vergonha em vergonha, o murmúrio
por trás da mão, como se fora uma deixa - «Um
viúvo. Servia para uma de vós.»
Plombières-les-Bains, Nancy, Dieppe, termas escolhidas
no mapa por causa de algo ouvido dois anos
antes, esquecido e novamente lembrado.
- Quem vive em Nancy? O marquês de Videlange?
Uma criatura encantadora que se sentou uma vez ao
meu lado num jantar e nunca pronunciou as palavras
ancien regime - iremos visitá-lo.
E Mary e Ellen, trocando um olhar de horror, exclamaram:
- Mãe, não podemos, ele vai descobrir quem a
senhora é.
- Mas, queridas, e se descobrir? Será divertido.
E mais uma vez, surgiriam as histórias e as gastas
observações sarcásticas, os escândalos de tempos idos,
os divertimentos e as loucuras, a vida em Londres de
há vinte anos atrás - então perdida e mal lembrada por
duas jovens cujas mentes estavam ensombradas pela
imagem das paredes de uma prisão, horrores sem discrição
de uma pessoa pálida e fraca, que não se aguentava
em pé, cujos olhos estavam baços, que fixava sem
reconhecer, quando retirada do inferno para o mundo.
Seria verdade o que os médicos haviam dito ao tio
Bill - que a mente apagava sempre tudo o que receava
lembrar? Ou ela nunca falava desses meses escondidos,
porque sabia e desejava poupar-lhe a dor? Mesmo
entre elas, nunca era mencionado e quando a mãe enveredava
pelo passado, despejando as anedotas de que
gostava, ridicularizando a Corte de uma época desapa-
408
recida
, um pânico momentâneo mantinha-as tensas. Mas
se um estranho sem tacto falasse nisso e murmurasse
a palavra «encarceramento», que aconteceria? Abrir-se-iam
as comportas de uma memória confusa? As raparigas
nunca tinham a certeza.
Deixá-la gozar a sua fantasia, vaguear pelo Continente,
ávida de novas paisagens e experiências, um
Verão aqui, um Inverno noutro sítio qualquer, porque,
diria às raparigas, nunca se sabe... Um duque espanhol
podia regalar os olhos em Mary, ou um príncipe russo
podia atirar rublos para o colo de Ellen.
Adiante então, de alojamento em alojamento, vagabundeando,
as três pensões vitalícias esticadas até ao
máximo. Uma fuga ao luar, contas deixadas por pagar
frequentemente; relíquias do passado entregues para
pagar serviços, anéis entregues por cima de balcões,
pulseiras vendidas e negócios sórdidos com joalheiros
descrentes.
- Asseguro-lhe que esse colar pertenceu à falecida
Rainha Carlota.
- Madame, je regrette infiniment...
- Quanto me dá por ele, então?
Cinquenta luíses! Cinquenta luíses por um colar
que vale quinhentos?
Os franceses eram uma raça de ladrões, a escória
do mundo inteiro, nunca se lavavam, até as próprias
casas cheiravam mal. Mas uma vez na rua, o dinheiro
era rapidamente contado, as moedas tilintadas para o
caso de serem falsas e então havia um sorriso, um
gesto com a sombrinha, um fiacre que passava chamado
para a conduzir a casa - casa essa que era, de momento,
um pequeno hotel de prix moderé, no Faubourg
Poissomnière.
- Queridas, estamos novamente ricas, vamos gastá-lo
todo.
Encomendavam-se vestidos, um jantar era oferecido
e um apartamento mobilado era alugado por dois meses.
- Mas, mãe, não temos posses para isto!
- Isso tem alguma importância?
409
Os franceses já não eram ladrões, nem a escória
do mundo inteiro, mais anjos com olhos derretidos,
jurando servi-la, A história da sua vida era imediatamente
contada a porteiras, os seus casos amorosos
eram discutidos com as femme-de-chambre, Paris a única
cidade do mundo - até o dinheiro desaparecer e mudarem
de novo. E ainda não se vislumbravam quaisquer
duques espanhóis, ou príncipes russos, para a delicada
Mary, ou para a letrada Ellen. Ela vi-as ambas fadadas
ao celibato e falava delas como as minhas «virgens vestais»,
deliciando os amigos popularuchos e velhos conhecimentos,
mas assustando futuros genros. George, que
se tornara muito pomposo, desaprovava aquilo tudo.
- As raparigas não casarão nunca enquanto a mãe
não assentar. E Paris não é, de modo algum, o melhor
local para o fazer. Não gosto de a saber a andar de um
lado para o outro sem a minha companhia.
Possuída e mandada pelo filho, olhava para ele com
adoração. Que belo ele ficava no seu maravilhoso uniforme
É sempre o mais distinto do seu regimento!
- O meu filho está no 17th Lancers. Está a sair-se
muito bem - com somente 27 anos de idade, já é
capitão.
Mas o que mais lhe agradava - era que ele não
ligava a mulheres, pelo menos de momento: não havia
noras horrorosas para compartilhar, quando ele viesse
de licença; a sua mãe era tudo na vida dele. Que aquela
situação durasse muito tempo.
Mas as raparigas - continuaria na esperança de
encontrar condes de uniforme, ou estrangeiros com
milhões, ou simplesmente, homens. (Por fim, acabaram
por aparecer, mas ambos sem perspectivas de futuro.
Um tipo chamado Bowles para Mary, que a amava e a
deixou, e um francês sans-souci para Ellen, chamado
Busson du Maurier.) O problema era que, à medida que
entrava na meia-idade, déracinée, exilada em solo estrangeiro,
por mais que mergulhasse no presente, se interessasse
pelo dia-a-dia, visse passar as estações do
410
ano, desse festas e escrevesse aos amigos, os pensamentos
fugiam-lhe sempre para os outros dias.
Lembro-me... E depois parava. Os jovens aborrecem-se
com reminiscências. Quem se importava com que
os dandies em Vauxhall se pusessem em bicos de pés
para a verem passar? Que importava se uma multidão
de boca aberta trepara para a sua carruagem em Palace
Yard? Ou que ela se comportara como uma rainha na
Câmara dos Comuns, a única mulher num mundo de
homens? Essas coisas, o melhor é esquecê-las, dissera-lhe
George; toda a malta era decente no regimento,
portanto, porque não se lançava um véu sobre tudo
aquilo? Ela aceitava a sugestão. Mas por vezes, à noite,
só, uma estranha e saudosa nostalgia surgia do passado;
e desconcertada pelo silêncio, estranhamente
solitária, um relógio de igreja, em Bolonha batendo as
horas, pensava, «Já não resta ninguém que se interesse.
O mundo que eu conhecia, foi-se. Isto já é amanhã».
Se assim era, estava tudo perdido? Nada ficara?
Nenhum fragmento perdido, agarrado a uma esquina
sombria, para ser apanhado por outras mãos? Num momento
o seu irmão Charley era um rapazinho, agarrado
à sua safa em Bowling Inn Alley; no seguinte, uma
conta de umas setenta libras chegava numa carta de
um advogado - «Cara senhora, houve custos no montante
acima referido, relativos à prova da morte e identidade
de Charles Farquhar Thompson.»
Qual daqueles dois era Charley, conhecido e amado?
E que relação tinha um corpo mal tratado encontrado
num esgoto perto do Tamisa, com um rapazinho?
Bill, indo buscá-la à prisão, segurando-lhe nas mãos,
tratando das passagens para França, inalterável, sempre
o mesmo, dizendo, «Sempre que precisares de mim,
irei imediatamente.» Que sentido, então, tinham aquelas
palavras, se ele não as mantinha? E Bill, tão fortemente
dependente, passando a «O seu querido amigo que nos
deixou subitamente... Respeitado por todos... A cidade
de Uxbridge... Anéis de luto, claro, para serem enviados.
411
Onde estava toda a ternura e paciência? Desaparecidas
com o «profundamente chorado» na sepultura,
ou à sua volta na escuridão, brilhantes e constantes?
- A mãe pinta o cabelo. Preferia que o não fizesse.
- Fá-la parecer ordinária. George devia impedi-la.
- Uma mulher deve envelhecer com graça, aceitar
a idade.
Ela ouviu aquela conversa entre Mary e Ellen. Mas
o que era a graça, e quando estava velha uma pessoa?
As manhãs cheiravam ao mesmo, recém-orvalhadas e
excitantes e o mar em Bolonha brilhava, tal como em
Brighton. Para longe os chinelos. Areia entre os dedos.
Chapinhar com os pés na água. Gritos agudos de «Mãe!»,
as virgens vestais apressando-se com um guarda-sol...
Mas aquilo é que era vida, aquele súbito êxtase, aquela
urgência de espírito sem razão alguma, chamando pelo
sangue aos oito anos, ou aos cinquenta e dois. Apossava-se
dela naquele momento, como sempre o fizera
antes: uma feliz corrente de sentimentos, uma selvagem
inquietação. Aquele momento é que contava. Aquele
momento e mais nenhum outro. A Grande Rue em Bolonha
transformava-se em Ludgate Hill, em Brighton Crescent,
em Bond Street pela manhã; sairia e compraria
um chapéu no mercado, ou um cabaz de peras, ou uma
bola de guita colorida. O que interessava eram as pessoas,
as pessoas e os seus rostos.
Aquele velho de muletas, aquela mulher a chorar,
o rapaz com um pião, aqueles namorados sorrindo; todos
eles faziam parte de algo conhecido, partilhado e lembrado,
uma recordação frequente, cheia de colorido.
A criança que caía na sarjeta era ela própria, assim
como a rapariga que acenava de uma janela. «Isto fui
eu em tempos, fui todos eles» - aquele coração dorido,
aquele rebentar de riso repentino, aquelas lágrimas zangadas,
aqueles murmúrios de desejo.
A vida ainda era uma aventura, mesmo então. Esquecer
o amanhã e as horas solitárias. Talvez houvesse uma
carta de Inglaterra pela manhã, talvez houvesse notícias
412
britânicas e jornais britânicos. Talvez aparecesse alguém
de passagem para Paris. «Que se passa por lá? Que se
diz, qual é o último escândalo? É verdade? Ainda se
mantém? Ele está muito velho? Mas eu lembro-me...»
De volta ao passado de novo, à vida que realmente interessava,
aos dias que realmente interessavam. «Como
nos divertíamos. Quão longo parecia o Verão.» E assim
por diante, até perto da meia-noite, quando o visitante,
olhando para o relógio, apanhava a carruagem para Paris.
Um estranho sentimento de vazio apossava-se dela
depois de ele sair, temperado pela perplexidade e surpresa.
O que fora antes um alegre jovem rebento de
olhar errante, tornava-se um homem de idade, de pescoço
de touro, forte, de cabelos grisalhos. Algo estava
errado. Quebrara-se qualquer elo. Aquele velho solteirão
não era o rapaz que ela conhecera. Seriam todos os seus
amigos e contemporâneos assim tão pesadões, tão vagarosos
a mastigar, pomposos, circunspectos? Ter-se-ia
extinguido a centelha vital com o passar dos anos? Se
era aquele o caso, então melhor fora apagar-se como
uma vela, extinta num instante, perdida no vazio. Mais
vale brilhar por um breve momento apenas, um brilho
incandescente, depois, mais nada - o fim.
Numa manhã de Janeiro, os jornais chegaram de
Inglaterra, solenes, tarjados de negro, com as colunas
sublinhadas, e Mary e Ellen, rápidas e intuitivas, desejaram
que ela não os lesse, para lhe poupar a emoção, a
súbita mudança de estado de espírito que elas conheciam
e temiam. Não serviu de nada. Aqueles olhos penetrantes
haviam visto a tinta preta, e adivinhara a notícia
- ouvira rumores - mas mesmo assim, em estado de
choque, subiu as escadas, entrou no quarto, fechou a
porta e, sentada sozinha na cama, abriu o Times.
5 de Janeiro de 1827
Aos dez minutos depois das nove horas da noite passada,
em Rutland House, Arlington Street, morreu Sua
Alteza Real Frederick, Duque de York, e Albany, no sexagésimo
quarto ano da sua vida.
413
Apenas aquilo, mais nada. E voltando atrás no
tempo, lembrou-se de como nos velhos tempos ela perscrutaria
aquela página e veria um breve anúncio do
programa dele. «Sua Alteza Real o Comandante-Chefe,
inspeccionou hoje o 14th Light Dragoons e mais tarde
visitou Sua Majestade»-e mais tarde ainda costumava
ela dizer-lhe a rir, visitou Mrs. M. A. Clarke em Gloucester
Place. Ela tinha dúzias de álbuns de recortes
daqueles algures e, por baixo, aditamentos escritos por
ela a tinta e irrepetíveis.
Ela voltou a atenção para o resumo, o julgamento
final.
«O falecido Príncipe, cuja afabilidade o tornou popular
durante toda a sua vida e que o tornará chorado na
sua morte, foi o que se costuma dizer um homem que
gostava de viver bem.
«Gostava de vinho, gostava de jogar e tinha outros
gostos, infelizmente saciados com demasiada frequência,
os quais são desculpáveis em camadas sociais mais
humildes, que não na de um príncipe.
«Além do apego do Duque de York aos prazeres da
mesa, às apostas nas corridas de cavalos e noutros
locais, e a outros tipos de prazeres imorais, os quais,
sem serem nomeados, podem ser suficientemente compreendidos.
Sua Alteza Real era fraco - atrevemo-nos
a dizer com culpas próprias, assim como infelizmente
insensível quanto à verdadeira utilidade do dinheiro.
Não deveríamos tocar aqui no doloroso assunto da Investigação,
à qual, infelizmente, os Comuns de Inglaterra
estiveram ligados há dezassete anos atrás, se, em primeiro
lugar, essa ocorrência a que aludimos não vivesse
na nossa História e manchasse os nossos registos parlamentares,
e em segundo lugar, que o resultado provou
ter o Exército sido extremamente beneficiado, assim
como todo o Reino. As vozes desiludidas deixaram de
clamar, assim como os murmúrios de inveja, que diziam
que as promoções haviam sido obtidas através de interferências
secretas e impuras.
414
«O Duque de York, em privado, era calorosamente
e justificadamente querido; alegre, afável, aberto, generoso,
um amigo sincero e cordial, grato por qualquer
gentileza, brando nos seus poucos ressentimentos, humano
e compassivo para com todos aqueles cujas misérias
ele podia aliviar.
«A memória de Sua Alteza Real será durante muito
tempo querida para todos aqueles que seriamente se
interessam pela honra, bem-estar e eficiência do Exército
Britânico.»
Uma edição posterior acrescentava mais dois parágrafos.
«A Guarda Real, no Palácio do Rei, em St. James,
montou e desmontou num silêncio solene, perante
milhares de pessoas presentes, em consequência do
falecimento do Duque de York.
«Sabemos que os restos mortais do Duque Real
estarão em câmara ardente durante dois dias, no Palácio
do Rei, em St. James e os dias serão quinta-feira e
sexta-feira, dias 18 e 19 do corrente mês. No dia
seguinte, os restos mortais serão transportados para
Windsor, para serem sepultados no jazigo real. O funeral
do chorado Duque terá as honras de Herdeiro Presuntivo
do Trono e Comandante-Chefe, e não como Marechal de
Campo.»
Ela não contou o seu plano a Mary nem a Ellen.
Teriam tentado impedi-la. A interdição de regressar a
Inglaterra, imposta pelos administradores dos seus bens,
aceite desde a sua saída da prisão do Tribunal do Rei,
já não tinha importância. Charley fora sozinho para a
sua sepultura de suicida e Bill repousava junto dos seus
pais na aldeia de Uxbridge; Will Ogilvie, morto pelas
costas por mão desconhecida, morrera sem uma oração;
mas aquilo era diferente.
Um certo orgulho inglês, obstinado e básico, fê-la
atravessar o Canal uma vez mais, desafiando o mar
encrespado e os céus cor de chumbo, chamar-se Madame
Chambres, assumir um sotaque e velar o seu
415
rosto do qual ninguém se lembraria, com um longo véu
de luto e trajes de viúva.
Perdeu a identidade no meio das multidões, oscilou
para trás e para a frente, empurrou, lutou e debateu-se.
Ninguém conseguia controlar as pessoas em Pall Mall,
os cavalos desenfreados, a ordem pela qual as carruagens
deviam seguir, tudo era confusão, barafunda e
angústia. Dez mil homens e mulheres, vinte mil e continuavam
a aparecer, recusando-se a retroceder, e balouçando
no meio das cabeças estavam os sombrios estandartes
com as palavras «O Amigo do Soldado» inscritas
a roxo, seguidos dos soldados, marchando, e dos cadetes
da escola de Chelsea, quinhentos rapazinhos, de rostos
pálidos e solenes, as crianças mais novas acompanhadas
pelas amas, usando os seus chapéus de palha preta e
vestidos escarlates, como os que Martha costumava
usar em 1805.
Ela sentiu-se impelida para a frente, em direcção a
St. James, com o seu xaile a deslizar, o véu já desaparecido,
enquanto alguém gritava junto ao seu ouvido
e uma criança desmaiada era erguida por cima das cabeças,
seguida por outra e outra e uma mulher, calçando
somente meias, era espezinhada.
Um murmúrio ergueu-se por trás. «Vão fechar as
portas... Não nos vão deixar entrar». Mais pânico, confusão,
cabeças viradas em todas as direcções, corpos
oscilando. «Continuem... voltem para trás... estão a
chamar a Guarda...» E mesmo assim, ela continuou a
abrir caminho até à frente, o seu xaile arrancado das
suas costas, faltando-lhe um sapato, não se importando,
firme, determinada. «Deixa-os chamar!»
Finalmente chegaram ao pátio de St. James, precipitando-se
em direcção às escadarias. Estas eram
ladeadas por gatos-pingados e soldados, alabardeiros
do Rei, de crepes nos chapéus, nas alabardas e nas
espadas.
A multidão ficou estranhamente silenciosa, solene,
e no Palácio de St. James tudo parara, os aposentos
do palácio debilmente iluminados por velas. Ela viu-se
repentinamente a fixar a espada dele. Estava colocada
416
sobre o pano mortuário, juntamente com a coroa e o
bastão, mas estas duas últimas coisas eram régias, devidas
à sua posição; a espada era pessoal, fazia parte do
homem que ela conhecera.
Pensou: «Costumava segurá-la nas minhas mãos», e
surpreendeu-se por a reconhecer, pois ali, a luz das
velas, tinha um ar ameaçador, austero, estranhamente
solitária e deslocada.
Lembrava-se de o ouvir a arrastá-la pelas escadas
abaixo, à hora do pequeno-almoço, no hall, ou atirada
para o lado; lembrava-se de a ver ser atirada a Ludovick
para ser limpa, ou encostada de pé no quarto de vestir,
ou tirada da bainha para ser mostrada a George.
O lugar dela não era ali em cima do pano mortuário - a
espada fazia parte da vida e não do luto.
Ali estavam as suas condecorações e a sua Ordem
da Jarreteira, mas alguém a empurrou e ela não se pôde
virar. Havia demasiadas pessoas empurrando, impelindo-a
para a frente - juntamente com; centenas de outras,
pela escada abaixo. Um olhar de relance à espada dele
e nada mais... Uma estranha despedida.
Encontrou-se mais uma vez ao ar livre, transportada
por multidões sem destino, em direcção a Charing Cross
e pensou: «E agora? Fiz o que vim para fazer. Nada mais
me prende aqui, a visita acabou.
Foi sentar-se nos degraus de St. Martins Church,
rodeada de homens que resmungavam, mulheres cansadas,
crianças chorosas, encostando-se aos seus joelhos,
todos eles amontoados para maior calor, afrontando as
rajadas de vento e a chuva oblíqua.
Uma mulher a seu lado ofereceu-lhe pão e queijo e
um homem do outro lado, uma golada de cerveja.
- Saúde para todos - disse ela, alguém riu, o Sol
apareceu e um deles começou a cantar. Mary Anne pensou
nas suas virgens vestais em Bolonha e em George
no seu uniforme, emproado e pomposo, e de repente,
nenhum deles tinha importância, nem mesmo George;
estava em casa, onde pertencia, no coração de Londres.
- Veio de longe? - perguntou-lhe a vizinha do lado,
chupando uma laranja.
27 - Mary Anne
417
- Dali, ao virar da esquina - disse ela - de Bowling
Inn Alley.
Os sinos de St. Martins começaram a tocar, mas ela
continuou sentada, comendo o seu pão e queijo, atirando
a casca aos pombos que manchavam os degraus e observando
milhares de estorninhos que atravessavam os
céus.
ÚLTIMOS VOLUMES PUBLICADOS
NA «COLECÇÃO DOIS MUNDOS»
145 -SEM TESTEMUNHAS, por Frederick Forsyth
146 -O TODO-PODEROSO, por Irving Wallace
147 -REGRESSADO DA MORTE, por Irwin Shaw
148 -O CANTO ESTREITO, por W. Somerset Maugham
149 -A SEGUNDA DAMA, por Irving Wallace
150 -O PRÉMIO, por Irving Wallace
151- O QUARTO PROTOCOLO, por Frederick Forsyth
152 -O MILAGRE, por Irving Wallace
153 - O CARROCEL, por W. Somerset Maugham
154 -OS DUROS NÃO DANÇAM, por Norman Mailer
155 -RELATÓRIO SOBRE OS HOMENS, por Giovanni Papini
156 -ULTRAMARINA, por Malcolm Lowry
157 e 157 - A - MEMÓRIAS ÍNTIMAS, por Georges Simenon
(obra em dois volumes)
158 -O SÉTIMO SEGREDO, por Irving Wallace
159 -O PARQUE DOS VEADOS, por Norman Mailer
160 -AMOR NUMA RUA ESCURA, por Irwin Shaw
161 - AS CABEÇAS TROCADAS, por Thomas Mann
162 -O CÔNSUL HONORÁRIO, por Graham Greene
163 -O VERÃO PERIGOSO, por Ernest Hemingway
164 -O JOVEM TORLESS, por Robert Musi I
165 -A VIRGEM E O CIGANO, por D. H. Lawrence
166 -O LEITO CELESTIAL, por Irving Wallace
167 -O LIVRO NEGRO DE LAWRENCE DURRELL, por
Lawrence Durrell
168 -OS SETE MINUTOS, por Irving Wallace
169 -EMILY L., por Marguerite Duras
170 -MEMÓRIAS DE UM FASCISTA, por L. Rebatei
171 - OS AEROPLANOS EM BRÉSCIA, por Franz Kafka
172 -A POUSADA DA JAMAICA, por Daphne du Maurier
173 -UM SONHO AMERICANO, por Norman Mailer
174 -OS GRANDES CEMITÉRIOS SOB A LUA, por Georges
Bernanos
175 -AS TRÊS SEREIAS, por Irving Wallace
176 -DESTRUIR -DIZ ELA, por Marguerite Duras
177 -O REGRESSO DE NETCHAIEV, por Jorge Sempnm
178 -HISTÓRIAS DO BOM DEUS, por Ralner M. Rilke
179 - ULISSES, por James Joyce
180 -O NEGOCIADOR, por Frederick Forsyth
181 - A UM DEUS DESCONHECIDO, por John Steinbeck
182 -A FILHA DE UM REITOR, por George Orwell
183 - A CASA VERDE, por Mário Vargas Llosa
184 - O VERÃO 80, por Marguerite Duras
185 -MORREM MAIS DE MÁGOA, por Saúl Bellow
186 -SUA ALTEZA REAL, por Thomas Mann
187 - DJINN, por Alain Robbe-Grillet
188 -ST. MAWR E OUTROS CONTOS, por D. H. Lawrence
189 -A VIAGEM A ROMA, por Alberto Morávia
190 - O VIL METAL, por George Orwell
191 - PEREGRINO E ESTRANGEIRO, por M. Yourcenar
192 -CHUVA DE VERÃO, por Marguerite Duras
193 -S., por John Updike
194 -SYLVIE E BRUNO, por Lewis Carroll
195 -A VIGÉSIMA SÉTIMA MULHER, por Irving Wallace
196 -O MEMORIAL, por Christopher Isherwood
197 -A GRAÇA DE DEUS, por Bernard Malamud
198 - A MINHA VIDA, por Lou Andreas-Salome :
199 - O EMBUSTEIRO, por Frederick Forsyth
200 -UMA VOLTA PELA PRISÃO, por Marguerite Yourcenar
201 - A VIDA ETERNA, por Jacques Attali
202 -O AMANTE DA CHINA DO NORTE, por Marguerite
Duras203 - A MASCARADA, por Alberto Morávia
204 -AS FILHAS DE REBECA, por Dylan Thomas
205 -VIDA DE MORÁVIA, por Alberto Morávia e Alain
Elkainn
206 -A CONSPIRAÇÃO, por Irving Wallace
207 - CARROSSEL SICILIANO, por Lawrence Durrel!
208 - A PRIMA RAQUEL, por Daphne du Maurier
209 -YANN ANDREA STEINER, por Marguerite Duras
210 -O SALÃO DOURADO, por Irving Wallace
: 211 - A MULHER LEOPARDO, por Alberto Morávia
212 -O VOO DO FALCÃO, por Daphne du Maurier
213 -AMOR E DINHEIRO, por Erskine Caldwell
214 -A MORTE DO CORAÇÃO, por Elizabeth Bower»
215 -MRS. DE WINTER, por Susan Hill
216 - O JARDIM (Lê Square), por Marguerite Duras
217 -A CONVIDADA DE HONRA, por Irving Wallace
218 -DOIS NEGROS EM ESTHERVILLE, por Erskine Caldwell
219 -AS TERRAS DISTANTES, por Juliert Green
220 - O PUNHO DE DEUS, por Frederick Forsyth
221 - O PRIMEIRO HOMEM, por Albert Camus
;| 222 -CONTO AZUL, por Marguerite Yourcenar
223 -A CASA DA PRAIA, por Daphne du Maurier
] 224 -MÁGOA PASSAGEIRA, por Françoise Sagan
225 -UM DIABO NO PARAÍSO, por Henry Miller
226 - A IMPOSTORA, por Margaret Atwood
227 - EPISÓDIO EM PALMETTO, por Erskine Caldwell
228 -A PÉROLA, por John Steinbeck
229 -O COLOSSO DE MAROUSSI, por Henry Miller
230 -MADALENA A PECADORA, por Lilian Faschinger
231 - PECADOS CONJUGAIS, por Irving Wallace
232 -O TESTAMENTO FRANCÊS, por Andrei Makíne
; 233 - ÍCONE, por Frederick Forsyth
234 -O SOL NASCE SEMPRE (Fiesta), por Ernest Hemingway
235 -UM FILHO DO CIRCO, por John Irving
Badana da contra-capa
Um filho do Circo
por
JOHN IRVING
«Este romance não é sobre
a índia, que não conheço.
Estive lá apenas uma vez
e durante menos de um mês.
Nesse período, surpreendeu-me
o estrangeirismo do
país que, para mim, se mantém
irredutivelmente estrangeiro.
Mas, muito antes de
o visitar, comecei a imaginar
um homem que nasceu
aí e se transferiu para outro
lugar do Globo.
«Idealizei um personagem
que volta lá com regularidade
- sente-se compelido
a fazê-lo. Não obstante, em
cada visita, a sua sensação
de estrangeirismo acentua-se.
A índia permanece
obstinadamente estrangeira
mesmo para ele.»
Este personagem é o Dr.
Farrokh Daruwalla, nascido
pársi em Bombaim e enviado
para a universidade médica
de Viena, sendo agora cidadão
canadiano. Cirurgião
ortopédico, regressa periodicamente
à índia, para se
ocupar dos pacientes, na sua
maioria crianças incapacitadas.
Vinte anos antes fora ele
o médico que examinara
duas vítimas de homicídio
em Goa e agora volta a encontrar-se
com o assassino...
Contra-capa:
Sobretudo a partir da publicação de Rebeca,
Daphne du Maurier (1907-1989) assumiu-se
como uma das romancistas inglesas mais
lidas em todo o mundo, depressa conquistado
pelo universo e pela atmosfera de
muitas das suas obras que tinham por cenário
as paisagens misteriosas da Cornualha,
onde ela, aliás, passou quase toda a vida.
Da autora, escreveu a sua biógrafa Margaret
Forster: «Nenhuma outra escritora popular
perturbou tanto a ordem estabelecida...
Satisfazia todos os critérios contestáveis
dos romances populares, assim como os
exigentes requisitos da "literatura autêntica",
algo que muito poucos romancistas
conseguem.» Quanto a Mary Anne,
baseia-se na vida de uma sua trisavô, a
qual soube tirar partido da beleza física que
possuía para seduzir o Duque de York e,
assim, libertar-se da miséria
Para quem pediu, seguem dois livros que achei pelaí.
Onde se lia música, leia-se livros.... perdão.
---------
Edgar Madruga
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