Motivos Ocultos
( Withow Knowing Why)
Jéssica Stelle
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CAPITULO 1
Erith já estava em Cuzco, a capital do antigo império inca, mas qualquer emoção que tivesse despertado nela pelo fato de ali estar tinha desvanecido nesse
momento.
Tinha chegado ao Peru na noite anterior, depois de uma viagem com escalas na Alemanha e Venezuela. Não podia dizer que a excitação tivesse sido o ingrediente principal
do voo: de facto, tinha estado mais nervosa do que entusiasmada devido ao que esperava. No entanto, era suficientemente humana para sentir um leve vestígio do espírito
aventureiro, uma vez que se resignou ao facto de ser o único membro da família que podia fazer esta viagem.
Ainda que, na sua opinião, não era necessário que nenhum membro da família fosse ao Peru buscar a Audra. Era bastante reprovável que esta tivesse saído do
país, seis meses antes sem aviso prévio, e apenas tivesse enviado um breve carta explicativa durante todo este tempo.
Audra estava quase a completar vinte e três anos; era apenas alguns anos mais velhos que Erith; mas em experiências mundanas levava-lhe uns quantos anos de avanço.
Sem dúvida, algumas pessoas nasciam aventureiras, pensou Erith, era o caso da sua meia irmã.
Erith conheceu Audra dois anos antes, quando o seu pai casou com a mãe de Audra, Jean Billington. Erith e a sua irmã Bliss, afeiçoaram-se logo com Jean,
que era uma mulher amável e de muito bom carácter. A sua presença no lar fê-las sentir a falta que fazia uma mãe. A mãe delas tinha morrido dez anos antes de uma
forma trágica e nenhuma delas estava habituada às carinhosas atenções quotidianas; a ocasional chávena de chá na cama, a camisola que aparecia dobrada em cima da
cama e outras coisas semelhantes.
Era de estranhar que Erith e Bliss tivessem logo simpatizado com a mulher e, por sua vez, fizessem tudo para a agradar?
No entanto, era difícil estender esse afecto à filha de Jean. Audra vivia em Londres, tinha o seu próprio apartamento e foi óbvio para todos, menos para Jean que
estava cega pelo carinho maternal, que a Audra só a visitava quando necessitava de dinheiro. Mas, uma vez que Jean adorava a sua filha, Bliss e Erith procuravam
sentir alguma simpatia pela rapariga.
Seis meses antes, Audra tinha telefonado para Dorset a fim de dar a estrondosa notícia de que tinha conhecido um homem chamado Nick, e que ia para o Peru. Jean ficou
consternada com a notícia e logo sugeriu que ela levasse Nick a jantar lá em casa. Mas Audra refutou a ideia de imediato e alguns dias mais tarde saiu de Inglaterra,
deixando a mãe dependente do correio.
Quando passaram dois meses sem receber sequer um postal, Jean começou a preocupar-se a sério. Ao vê-la consumida pela angústia, esperando em vão pela chegada
do correio de cada dia, Erith começou a sentir uma profunda indignação pela Audra pela sua desconsideração.
Um mês mais tarde, chegou uma carta do Peru, dirigida a Hector e Jean Cárter.
Não era uma carta longa, mas as notícias que continha eram inquietantes. Sem a menor menção a Nick, Audra escrevia a avisar que agora estava comprometida com um
homem chamado Filipe. Segundo a carta, Felipe e ela estavam de visita em casa do tio do noivo, que era uma fazenda que se encontrava numa lugar chamado Jahara, a
uma hora de caminho de Cuzco. Isso era mais ou menos o que continha a carta, que não especificava a direcção do remetente. Jean começou a dar novas mostras de ansiedade.
Erith, por sua vez, começou a ter as suas próprias preocupações.
Primeiro, soube que a companhia para a qual trabalhava Oitava cm dificuldades financeiras. E de seguida, para confirmai qua 0 que tinham ouvido durante o mês anterior
não eram uiiunivs Nem fundamento, começaram a entregar avisos de liquidação.
Erith recebeu o aviso no mesmo dia em que a sua irmã Bliss caiu doente com pneumonia. O facto de poder ficar sem emprego não tinha importância comparado com a doença
da sua irmã.
Mas Bliss, para alívio de todos, curou-se depressa e quis logo levantar-se da cama.
- Ficas onde estás, irmãzinha! - decretou Erith à sua irmã, com severa ternura. E, sorrindo aos enormes olhos verdes da sua irmã, estudou a sua tez de porcelana
e, como muitas outras vezes, assombrou-se com a extraordinária beleza de Bliss. - Não vais a nenhum lado até que o doutor Lawson permita.
Uma semana mais tarde, a ansiedade de Erith por Bliss passou para segundo plano ao notar outra vez sinais de tensão e preocupação no rosto de Jean. Não estranhou
quando o seu pai lhe disse que temia pela estabilidade emocional da sua esposa, a menos que fizesse algo para aliviar a sua aflição a respeito da sua irresponsável
filha. O que a assombrou foi a solução que o seu pai sugeriu.
- Apenas se pode fazer uma coisa, Erith. Um de nós terá de ir ao Peru para averiguar o que se passa com essa rapariga endiabrada.
- Ir ao Peru? - vacilou Erith. - Mas ...
- Nada de mas, querida - interpôs Hector Cárter, - Jean pode receber uma carta amanhã, ou na próxima semana, mas isso é o que lhe venho dizendo todos os dias desde
que recebeu a única que a Audra lhe enviou ... e isso foi há três meses. Jean já não acredita; e a preocupação está a matá-la.
- Mas ... ir ao Peru! nem sequer temos o endereço! Seria como procurar uma agulha num ...
- Temos que tentar - concluiu o seu pai. - Pelo bem da Jean, devemos fazê-lo. Ela mesma com certeza iria, mas tu sabes que ela fica doente cada vez que viaja ...
- E certo - reforçou Erith.
- Temos que encontrar a Audra! Sabemos que está num lugar chamado Jahara, e que não é longe de Cuzco, de modo que já é um começo.
- Sim, mas ... - Erith olhou para o seu pai. - Mas tu não podes ir. O teu coração está débil e ...
- É verdade - interrompeu-a Hector. - Só podes ir tu ... ou Bliss.
- A Bliss não pode ir! - exclamou Erith.
Ainda que soubesse que a sua irmã, fanática pela arqueologia, daria tudo para poder ir ao Peru, não estava em condições de viajar para tão longe. Erith recordou
que Bliss sempre preferiu a arqueologia aos namorados e aos amigos. A pneumonia tinha sido causada pelo seu amor a essa ciência, e por causa de se deixar absorver
nos assuntos relacionados com os seus estudos, esqueceu-se de mudar as roupas molhadas por um aguaceiro que suportou, enquanto observava algumas peças numa escavação.
- Não, não pode ir definitivamente; necessitará de algumas semanas mais de convalescença antes de ir a qualquer parte - disse o seu pai, interrompendo os pensamentos
da jovem. - O que deixa apenas uma opção, querida ...
- Sim, eu - disse Erith com uma careta.
- Jean está doente de ansiedade - sublinhou Hector. Alguém tem de lá ir para lhe dizer o que se está a passar.
Não queria ir, mas não podia permitir que a angústia destruísse a sua madrasta. A jovem sorriu de repente.
-- Bem, parece-me que não podiam ter-me despedido em momento mais oportuno - comentou.
Uma semana depois estava no Peru. Na noite anterior tinha mudado de avião para voar de Lima a Cuzco. Nesta manhã, após uma breve visita à praça municipal,
sentia-se mais animada.
Tinha acordado cedo no seu quarto do hotel e um leve estremecimento de excitação sacudiu-a ao pensar que estava ali, no Peru. Depois, a seriedade da sua
missão fê-la perder o entusiasmo e a jovem recordou que quando acabasse de tomar o pequeno almoço deveria apanhar um táxi ou qualquer outro meio de transporte para
ir para a fazenda do tio de Felipe, em Jahara.
Não tinha ideia de como a ia encontrar, dado que nem sequer conhecia o seu nome. Audra devia ao menos ter-lhe dado o apelido de Felipe. Podia não ser o mesmo
apelido do tio, mas ao menos tinha sido uma ajuda.
O que está primeiro é primeiro, disse e levantou-se da cama para tomar um duche e vestir umas calças e uma blusa de algodão. Estava quase a sair quando lhe
ocorreu que, podia ser caro alugar transporte para um trajecto longo, devia trocar dinheiro.
Não era permitido levar divisas estrangeiras em dinheiro, de modo que se atrasou um pouco a descer para tomar o pequeno almoço enquanto mexia os seus traveller
cheques. O dinheiro não abundava em casa, mas todos os membros da família tinham contribuído e tinham conseguido reunir o suficiente para cobrir os gastos.
Erith agarrou num dos cheques da quantia que queria trocar. Estava quase a guardar os outros quando um sorriso súbito se instalou na sua formosa boca. Ela e Bliss
tinham reunido uma boa quantia, recordava, quando Jean agarrou numa e pô-lo nas suas mãos, com um alfinete.
- Deves ter mais cuidado, Erith. Não deves ir com todo esse dinheiro na carteira. Põe na peúga e prende-o com um alfinete na parte interior do vestido.
- Está bem, Jean - sorriu a jovem.
- Promete-me - pressionou Jean.
- És um amor - disse-lhe Erith e depositou um beijo afectuoso na sua face.
Agora recordou essa promessa no quarto do hotel e atrasou um momento mais a sua descida para tomar o pequeno almoço.
Ansiosa por iniciar as suas indagações, apenas comeu queijo e sumo de fruta antes de ir à recepção trocar os seus cheques por dinheiro peruano.
Inquanto esperava que lhe trocassem os cheques por intis, I nova moeda peruana, Erith espreitou um momento para a nm. O sol de Maio brilhava esplendoroso
e de repente interrogou se importaria muito que se atrasasse cinco minutos. Apenas Deus sabia o que o dia lhe depararia, mas, não podia til tinco minutos para si
mesma?
Logo que terminou a sua transacção monetária e, quando um olhar para o relógio lhe mostrou que ainda era relativamente cedo, a jovem cedeu ao impulso de dar
um breve passeio pela cidade.
Apenas tinha saído para a rua cheia de sol, quando uma jovem a abordou procurando vender-lhe desde uma peça de tecido feito à mão até uma correia para segurar
a câmara fotográfica.
- Não, agora não, obrigada - disse ela com um sorriso e atravessou pela ampla rua quando foi praticamente assaltada por outros vendedores citadinos.
Cinco minutos nada mais, disse ao atravessar a cidade escapando dos comerciantes- Uma volta à direita e dois minutos depois encontrou, para seu deleite, a
praça central.
Diminuiu o passo e olhou à sua volta, contemplando os arcos de pedra à frente das lojas. Observou os balcões com marcos de madeira e embriagou-se com o ambiente
do lugar.
Depois atravessou até ao centro da praça, atraída pela fonte pintada de verde. Esculpida em pedra contra a fonte, havia uma enorme ave branca. Era uma cegonha?
interrogava-se como, quando alguém tropeçou violentamente nela.
Desconcertada por um momento, a jovem não deu conta de que no choque ... o desconhecido lhe tinha tirado a carteira!
Aturdida e consternada, abriu a boca, mas nenhum som saiu dela.
- A minha carteira! - conseguiu dizer por fim.
A hora seguinte decorreu numa espécie de pasmo, ainda que ao princípio, ao vê-la atribulada, uma mulher parou e perguntou-lhe se tinha algum problema. Por
sorte, a mulher falava inglês e teve a gentileza de a acompanhar ao comissariado da polícia.
Uma vez ali, a peruana explicou em espanhol aos oficiais o que tinha acontecido à turista, dizendo-lhes que Erith não falava espanhol. Quando chegou um polícia
que falava inglês, a boa samaritana foi-se embora.
Erith não teve ideia de quanto tempo esperou que chegasse o polícia bilingue. Mas enquanto esperava, o seu ânimo foi decaindo cada vez mais. Não necessitava
de alguém que lhe dissesse que a possibilidade de recuperar a sua carteira era remota; que, ainda que a voltasse a ver, seria um milagre que tivesse o dinheiro dentro.
Enquanto esperava, teve tempo para lamentar o seu descuido. Que estúpida tinha sido ao sair para a rua com tanto dinheiro no bolso! E onde tinha a cabeça,
por Deus Santo? O que é que a fez pensar que Cuzco era diferente de qualquer outra grande cidade? Por acaso não sabia que o que tinha sucedido se passava em cada
minuto em todas as cidades do mundo?
O guarda que falava inglês, mostrou-se compreensível e
Amável nas bão demosntrou muitas esperanças de que a jovem voltasse a ver a sua carteira
-Tinha todo o seu dinheiro na carteira? - perguntou.
-Não todo.
-Bem, bem- sorriu o guarda. Os seus olhos pareciam atraídos a de vez em quando aos cabelos ruivos da jovem
- Está sozinha no meu país, senhorita?
Erith vacilou um pouco antes de responder.
-A minha irmã está aqui no Peru.
- Está de férias?
-Pois...não exactamente - respondeu Erith e confiou-lhe, sem pensar, que a sua meia irmã estava comprometida com um um peruano.
- Seu namorado vive em Cuzco? - quis saber o polícia, curioso com o seu romance.
-Ah, não - respondeu a jovem. - Acho que tem uma fazenda próximo daqui, num lugar chamado Jahara.
Jahara! - exclamou o homem e parecia querer interrogá-la mais, mas Erith desejava voltar ao seu hotel, para estar sozinha, enquanto se recompunha do golpe
e decidia o que iria fazer.
Agradeceu ao polícia, que insistiu em acompanhá-la ao hotel. Mas uma vez sozinha no seu quarto, sentou-se na cama e cravou o olhar na ponta dos seus pés, abatida.
Que faria agora? O guarda tinha dito que trabalharia pessoalmente no caso, mas Erith não acreditava que pudesse fazer grande coisa.
Chegou e passou a hora do almoço, mas Erith não tinha apetite e não tinha uma ideia clara do que ia fazer. De vez em quando voltava ao terreno que tinha pisado
antes. Não tinha coragem para telegrafar para casa a pedir mais dinheiro; já não tinham nada. Além de tudo não queria preocupá-los mais. Então recordou que tinha
cometido o erro de reservar uma passagem só de ida, em vez de uma de ida e volta com o regresso em aberto. Agora o dinheiro que tinha guardado na bolsa graças ao
sensato conselho de Jean, era apenas suficiente para pagar o seu voo de regresso.
Mas, como podia regressar a casa sem ter encontrado a Audra? Desolada, pôs-se de pé e começou a caminhar pelo quarto. Que faria se não encontrasse a Audra?
Existia sempre a possibilidade de ficar no Peru sem dinheiro, nem passaporte nem meios para regressar a Inglaterra. Tudo o que conseguiria seria ter um pai
aflito em Inglaterra.
A ideia de que Hector Cárter poder preocupar-se fê-la pensar com inquietação na sua doença cardíaca. A todo o custo, compreendeu, devia tentar não gastar o
dinheiro da passagem de regresso a Inglaterra.
Mas, como faria a viagem de uma hora e meia a Jahara sem dinheiro? Como ia pagar, por certo, a conta do hotel? Em todo o caso, se a busca demorasse mais de
um dia, como poderia ficar no Peru nem que fosse por pouco tempo sem gastar o dinheiro destinado ao regresso?
Erith não tinha chegado a uma solução adequada quando alguém bateu com força na porta do seu quarto. Franziu a sobrancelha desconfiada, mas logo se recordou
que o polícia tinha dito que iria trabalhar pessoalmente no caso; quem sabe não era ele quem batia. Erith foi com rapidez abrir a porta.
Mas não era o polícia que estava à porta, mas sim um homem alto, vestido de maneira informal, mas impecável, e que a olhava de cima. Era evidente que não se
tratava de um empregado do hotel, porque, à parte de vestir o uniforme correspondente, nenhum empregado a olharia com tamanha arrogância.
O homem tinha cabelo ruivo, olhos cinzentos e tez clara. Não parecia peruano. Se calhar era um estrangeiro, como ela.
- Não falo espanhol - disse a jovem. - Receio que se tenha enganado na porta - acrescentou quando o homem permaneceu calado. - Parlez vous français? - começou
Erith quando o desconhecido continuou no seu silêncio.
- Bastante bem - respondeu por fim o estranho visitante e prosseguiu em bom inglês com um leve acento estrangeiro. - Eu estou certo de que bati na porta correcta.
Você é a Erith Carter, não é verdade?
Erith compreendeu com uma certa perturbação que, à parte de ser peruano e não turista, o homem devia ser, apesar de tudo, polícia. Ainda que nos seus vinte
e dois anos de vida, Erith nunca se tinha encontrado com um polícia tão elegante e bem parecido como ele.
A inglesa tentou sorrir ao frio personagem e disse:
Entre por favor - e esperou apenas que o homem entrasse no quarto para lhe perguntar: - Já tem notícias?
-Notícias?
-Da minha carteira - disse Erith e ao notar a expressão do homem começou a ter a espantosa sensação de que tinha cometido um tremendo erro. - Você não é ...
polícia? - perguntou com ansiedade, lançando um olhar rápido à porta que ele acabava de fechar.
- Deveria perguntar antes de convidar alguém a entrar no seu quarto - disse o homem com um seco humor. - Se calhar ... tem o costume de convidar estranhos
para o seu quarto.
- Pois claro que não! - exclamou Erith com indignação britânica. Rapidamente passou por ele e dirigiu-se para a porta. - Não sei quem o senhor é. Mas é óbvio
que cometi um er ...
- Chamo-me Domingo de Zarmoza - declarou o homem com tom frio e esperando ver a reacção da jovem, ao dar conta que o seu nome não significava nada para ela,
acrescentou: - Sou o tio de Felipe Moreya. Se calhar já ouviu falar dele.
Assustada, Erith deixou cair a mão para o lado, a mão que tinha na porta. Não podia perceber como é que o tio de Felipe a tinha encontrado. Também lhe surpreendeu
que o homem fosse tão jovem; tinha-o imaginado velho como o seu pai. O arrogante Domingo de Zarmoza devia ter pouco mais de trinta anos.
Contudo, logo se recuperou do susto e olhou para os olhos cinzentos que a observavam com frieza. E então, ao perceber a sua franca hostilidade, compreendeu
que tinha perdido o seu tempo a viajar até tão longe. Quando o queixo do homem ficou tenso de agressividade e impaciência pela demora dela ao responder, Erith apercebeu-se
de que, ainda que tivesse ido ao Peru para procurar a ajuda deste homem, tudo nele a advertia de antemão que estava a perder tempo.
CAPÍTULO 2
- Sabe quem é o Felipe, senhorita? - repetiu Domingo de Zarmoza com irritação.
- Sim - apressou-se a dizer Erith. - Ao menos conhecia o seu nome, não o seu apelido; a minha meia irmã escreveu-nos a informar que está ... comprometida com
um homem que se chama Felipe ...
- Ah! - exclamou o homem com desdém.
Um pouco desconcertada pela explosiva interrupção, Erith olhou para o senhor de Zarmoza por um momento, mas quando foi evidente que nada mudaria a despeitada
interjeição, recuperou o ânimo suficiente para perguntar:
- É você o dono de Jahara? E você o tio que vive ...?
- Filipe apenas tem um tio! - interrompeu-a Domingo com frieza. - A polícia informou-me que lhe roubaram a carteira esta manhã - e sem lhe dar tempo para lhe
perguntar como é que a polícia o tinha localizado para lhe dizer, ele continuou. - Suponho que está sem um tostão, verdade?
Erith não entendia porque é que este homem tinha de se mostrar tão hostil para ela; a menos que fosse antipatia à primeira vista.
Pela segunda vez, ele provocou a sua ira. Mas neste momento a jovem esforçou-se para conservar o control de si mesma, para lhe dizer com orgulho:
- De facto, senhor, não estou sem um tostão - viu as sobrancelhas do homem levantarem-se um pouco. - Para sua informação, guardei à parte alguns dos meus
travellers cheques - e acrescentou com altivez: - Creio que tenho o suficiente para o meu voo de regresso a Inglaterra.
O peruano olhou-a com arrogância e ela devolveu-lhe o olhar com enorme dignidade.
- Quando chegou ao Peru?
- Ontem - respondeu a jovem com voz calma.
- E pouco depois apanhou um avião para Cuzco.
- Exacto.
- E, depois de uma noite no meu país, quer ir embora? - desafiou-a com aspereza. - É a sua primeira visita ao Peru? - perguntou outra vez, sem lhe dar tempo
de responder à primeira pergunta.
- É a primeira - afirmou a jovem. - E não estaria aqui se não fosse porque a minha madrasta está preocupada com Audra.
- Preocupada? Porquê? Pelo pouco que conheci da senhorita Bellington, parece-me que é capaz de tomar conta de si.
Pelo seu tom, era evidente que o senhor Zarmoza não gostava muito de Audra.
- É natural que a sua mãe esteja preocupada; qualquer outra estaria - disse Erith com enfâse. - Nem ela nem o meu pai recebem carta desde há três meses, quando
lhes anunciou o seu compromisso com um homem que eles nem sequer conhecem.
- Porque é que não vieram o seu pai a a mãe de Audra?
- Porque o meu pai sofre de insuficiência cardíaca e a minha madrasta sofre muito com as viagens - respondeu Erith zangada.
- De modo que a enviaram como mensageira.
- Adivinhou!
Durante um momento olharam-se com os olhos cintilantes e depois, quando Erith estava convencida de que o homem se iria depois de lhe fazer algum comentário
sarcástico, Domingo voltou a assustá-la ao perguntar em tom aprazível:
- Que tipo de embaixadora é, que se rende tão facilmente?
- Quem diz que eu me rendi? - disse com irritação. - A única direcção que temos para localizar Audra é a sua ... a fazenda de Jahara - controlando cada vez
mais o seu temperamento, perguntou com a voz mais apaziguada: - Sabe, por acaso, onde está Audra?
Domingo olhou-a fixamente, e depois respondeu em tom calmo:
- Há três meses e meio que não a vejo.
- Mas ... não tem uma ideia de onde pode estar?
A esperança desapareceu quando, depois de alguns segundos de olhar para esses olhos muito abertos e ansiosos, o homem abanou a cabeça.
- Como poderia saber? - disse levantando os ombros.
- Então, e Felipe, o seu sobrinho. Você sabe ...?
- Felipe não me dá confiança - declarou asperamente Domingo.
- Mas ...
- Nem sequer o tenho visto desde o dia em que abandonou o seu trabalho como gerente do meu estaleiro, há três meses e meio - disse ele zangado.
O facto de este homem ser dono de um estaleiro e de uma fazenda não interessava a Erith, ainda que o Filipe tivesse deixado o seu emprego no momento em que
Audra e ele eram hóspedes na fazenda do seu tio, parecia bastante significativo.
Inspirou profundamente e, pelo bem de Jean e do seu pai, atreveu-se a perguntar:
- Mas, sabe onde vive o seu sobrinho?
- Sabia - respondeu Domingo. - Mas a Margarida, minha irmã, disse-me que se mudou do seu apartamento.
Margarida, percebeu a jovem, além de ser irmã do Domingo, devia ser a mãe do Filipe. A esperança voltou renascer-lhe quando deduziu que os pais de Filipe deveriam
saber onde podiam encontrá-lo.
- Os seus pais! - disse com os olhos animados e entusiasmados. - Sem dúvida que eles devem saber onde vive feli ...
- Os seus pais estão divorciados - interrompeu-a Domingo.
-- Mas ... a sua mãe ... ou o seu pai, algum dos dois deve saber onde ele está - Erith recusou dar-se por vencida. E quando o arrogante peruano se limitou
a olhá-la cora frieza, explodiu. - Simplesmente não podem ter ... desvanecido! - e de repente, quando começava a contemplar a possibilidade de regressar a casa para
dizer à Jean que não tinha encontrado indícios de Audra, um pensamento pavoroso assustou-a. - Pode se ter passado algo!
- Não se deixe levar pela imaginação - aconselhou-lhe Domingo com leve humor apenas perceptível na sua voz e expressão. - Asseguro-lhe que se tivesse acontecido
alguma
desgraça eu já teria sabido - Erith não sabia se podia estar segura disso, mas o homem continuou: - O meu sobrinho já tem vinte e três anos e pode fazer o
que lhe apetecer.
Erith, ignorando o evidente sarcasmo do seu interlocutor, deduziu que Audra devia estar com Filipe nesse preciso momento.
Então, tentando controlar o seu ânimo, adoptou um tom mais conciliador para perguntar:
- É possível que ... onde quer que estejam, se encontram juntos, não lhe parece?
Domingo olhou-a sem pestanejar.
- É muito possível - respondeu com gravidade.
Erith estudou o seu forte rosto por um momento, pensou no quanto bem formada era a sua boca e depois, com mais confiança da que sentia disse:
- Então terei de começar a procurá-los.
- Sem fundos, senhorita?
Erith voltou um pouco a cabeça. Era uma questão de honra agora declarar que não necessitava, nem aceitaria a ajuda monetária de ninguém.
- Arranjar-me-ei - declarou.
Por alguns segundos ele observou a orgulhosa determinação no rosto da rapariga e depois, para azar dela decidiu:
- Será melhor que venha para a minha fazenda.
Erith ficou boquiaberta por um momento, mas logo recuperou para dizer com fria cortesia:
- Obrigada, senhor, mas isso não será necessário.
- Tem dinheiro suficiente para pagar as contas do hotel?
- Estou segura de que poderei encontrar algum alojamento mais económico - respondeu, procurando mostrar convicção na sua voz.
- Já! - a interjeição ofendeu-a. - Disse-me que era a sua primeira visita ao Peru. Creio que não tem ideia dos problemas que pode ter, sobretudo se não falar
o idioma. Diz que os vai procurar, mas não tem ideia por onde começar - concluiu com desdém.
- Pois ... eu ... arranjar-me-ei - disse Erith e o homem olhou-a com desconfiança.
- A minha família é muito respeitada nesta região -
indicou com aspereza. Proibo-a de fazer investigações sobre um parente meu quando acabo de lhe dizer que estou disposto a ajudá-la.
- Quando é que o disse? - desafou-o Erith, irritada perante a sua autoritária arrogância.
- Não a convidei a hospedar-se em minha casa? - perguntou Domingo com altivez.
Este homem era insuportável!, disse Erith furiosa. Nenhuma pessoa a convidaria de maneira tão insolente e descortês. Mas, enquanto travava uma batalha entre
o seu orgulho e o senso comum, acabou por compreender que seria uma parvoi-ce não aproveitar a oferta. Além de tudo, o arrogante Domingo tinha razão; ela nem sequer
falava a língua, como é que poderia fazer as suas pesquisas?
Dirigiu um olhar de soslaio ao homem e deu-se conta de que ele a observava em silêncio. Erith afastou o olhar e engoliu saliva; depois, voltou-se para o olhar
outra vez.
- O senhor é muito amável - disse com a voz quase sufocada.
Domingo olhou-a durante uns segundos, e depois abriu a porta.
- Espero-a na recepção enquanto prepara a sua bagagem - disse.
Erith sentiu-se consternada quando Domingo saiu. Tinha aceitado realmente o convite do homem? Tinha outra opção? Não. Mas pouco importava, disse Erith. Era
evidente que estava ansioso por a despachar e era o tipo de homem que gosta de fazer as coisas com rapidez e eficácia, sem dúvida que não teria de ficar na sua fazenda
mais de uma noite.
Guardou os seus pertences na mala e começou a sentir-se animada. Com a ajuda deste homem, era possível que regressasse a Inglaterra antes de a semana terminar.
Depois de dar uma última olhada ao quarto para ver se não se esquecia de nada, dirigiu-se para a porta com a sua mala e saiu até ao elevador.
Quando chegou ao vestíbulo, Domingo foi até ela, agarrou na mala com uma mão e com a outra agarrou no cotovelo da jovem para a conduzir até à porta principal
do hotel.
- Mas ainda não paguei a minha conta! - protestou, negando-se a dar mais um passo.
- Está liquidada - declarou desafiando-a com o olhar para que não se pusesse a proibi-lo em público, tirando os seus travellers cheques para lhe devolver
o favor.
- Pagar-lhe-ei depois - disse a jovem, irritada por ter de ceder.
Domingo disse algo ininteligível e os dois saíram do hotel em direcção ao automóvel.
Já circulavam há algum tempo pela rua quando Erith compreendeu que, se ele a ia ajudar, o menos que podia fazer era mostrar-se amável e não chatear-se com
a menor provocação.
Uma vez decidida a fazer isto, procurou um tema de conversação que lhes permitisse passar o resto do percurso com um certo agrado e harmonia.
Estava quase a fazer um comentário em relação a Audra e Filipe, mas depois vacilou. Nesse instante recordou que cada vez que mencionava qualquer um deles,
a hostilidade de Domingo parecia aumentar.
Então interrogou-se como é que o Domingo a tinha encontrado.
Como é que soube que eu estava no Peru? Ou, melhor, como é que soube da minha existência? - perguntou sem preâmbulos.
Durante um momento, Domingo afastou o olhar do caminho e voltou a cabeça para escutar a sua acompanhante com certa indiferença. Depois voltou o olhar para
a estrada, enquanto respondia com calma:
- Foi por acaso; o policia a que disse que tinham roubado a carteira tem uma irmã que vive em Jahara. Portanto, ele sabe que ali só há uma fazenda.
- Ah - exclamou Erith com suavidade. - A sua, com certeza. Quando lhe disse que o noivo da minha meia irmã tinha um tio com uma fazenda ali, imediatamente
soube que se tratava de você.
- Com efeito - respondeu Domingo com frieza.
Erith voltou a ficar em silêncio e pensou no evidente desagrado de Domingo à ideia de que o seu sobrinho esteve comprometido com a Audra.
Se calhar preferia que ele se casasse com uma peruana, pensou a jovem. Ou talvez não simpatizasse com a Audra, mas isso não era razão para cada vez que se
mencionasse o par, ele se mostrasse tão hostil.
Ou então, disse Erith dando rédea solta à sua imaginação, não foi antipatia o que sentiu pela Audra quando a conheceu, mas sim atracção, e por isso se opunha
à união. Olhou-o de soslaio e decidiu que, ainda que a Audra não faltassem admiradores, não lhe parecia que este peruano fosse um deles. Porque é que não lhe tinha
sabido dizer. Havia qualquer coisa nele que denotava uma particular selectividade em relação às sua mulheres. Por alguma razão, Erith não podia imaginar Audra, apesar
dos seus encantos, atraíndo-o.
Mas, e se ele era casado? Inexplicavelmente, essa possibilidade pareceu-lhe odiável.
- Eh ... telefonou à sua esposa? - perguntou com rapidez,
Domingo voltou-se para a observar com a sua habitual arrogância desdenhosa.
- A minha esposa? - perguntou com rapidez.
- Não incomodará a minha presença na sua casa à senhora Zarmoza?
- Senhorita ... - disse ele com tom apaziguador, voltando o olhar para a frente. - Eu não sou casado.
Erith ficou em silêncio. A julgar pela aparência viril do seu acompanhante, e por impertinente que fosse, não devia carecer de experiência com o sexo feminino.
Ainda que ... de repente ela cortou esse tipo de pensamento. Por Deus! Porque é que pensava nessas coisas? Não estava interessada neste homem detestável nem na sua
vida amorosa!
Saíram da estrada principal e avançaram por um caminho rústico entre a paisagem mais bonita e selvática que a jovem
jamais tinha visto.
- Que bonito que isto é! - exclamou de maneira involuntária, mas estava tão absorta na contemplação do vale por onde passavam agora, que não teve tempo de
olhar para o seu afintrião.
- Sim, agrada-me - disse ele e o seu tom foi o mais amistoso até agora. Voltou a cabeça com rapidez para o observar.
Domingo ofereceu-lhe um olhar, mas de imediato voltou os olhos para o caminho. No entanto, isso foi suficiente para que Erith desse conta de que esse "agrada-me"
era uma declaração demasiado lacónica para o que ele sentia na realidade. Amava este lugar, significava tudo para ele. Ela não tinha Ideia onde ele tinha o seu estaleiro,
mas estava convencida de uma coisa: a sua fazenda era o único lugar onde desejava viver,
O carro reduziu a sua velocidade e transitou por um caminho de pedras; pouco depois Domingo chegou a uma arcada pintada de branco, até um pátio com o chão
de tijoleira.
- Bemvinda à fazenda de Zamorza - disse ele com toda a formalidade, ao parar o automóvel em frente a uma magnífica casa pintada de branco. As buganvílias cor
de rosa intenso c púrpuras resaltavam sobre os muros brancos e, abismada perante tanta beleza, Erith pôde constatar que o senhor Zamorza devia ser um homem muito
rico.
Domingo voltou a levar a mala e conduziu a rapariga através de outra arcada. Erith viu um homem a trabalhar perto de uma piscina enorme. Mas apenas teve tempo
de observar que as QoreB abundavam à volta de um imaculado prado, para além da piscina, quando o seu anfitrião a conduziu até aos três degraus de pedra que levavam
à casa.
De repente apareceu uma mulher roliça que foi apresentada à visitante como governanta, a senhora Garcia.
- Muito gosto - sorriu Erith, estendendo a mão e recebeu um sorriso e uma frase equivalente em dialeto.
De seguida, o anfitrião teve uma rápida conversa com a sua governanta e, enquanto a senhora Garcia se apressava a cumprir o exigido pelo senhor Zarmoza, este
voltou-se para Erith.
- Foi preparar um quarto - disse e acrescentou, com toda a gentileza de um anfitrião voluntário: - Se calhar gostaria de conhecer um pouco mais a fazenda enquanto
espera.
-- Obrigada - respondeu Erith com um sorriso encantador.
Deixaram a mala no vestíbulo enquanto Domingo lhe mostrava a sala de estar, a sala de jantar e a sala do pequeno almoço. E todo o tempo o anfitrião falava
com muita cortesia, o que acabou por confundir a jovem.
Quinze minutos depois acompanhou-a ao quarto que ocu-
paria durante a sua estadia. Era um quarto enorme, luminoso, com casa de banho. A cama, de grande tamanho, tinha uma cabeceira de madeira lavrada e estava
coberta por uma delicada colcha bordada à mão.
-- Espero que goste - disse o seu anfitrião.
- Estou segura que sim - indicou ela levantando os seus enormes olhos verdes até ele.
Domingo afastou-se um pouco.
- Avise-me se necessitar de alguma coisa - assinalou e deixou-a sozinha no quarto.
Alguém tinha levado a mala para o quarto e enquanto uma parte da sua mente lhe dizia que não valia a pena tirar todo o seu equipamento, pois não estaria ali
mais de uma noite, decidiu que não lhe custaria nada colocar toda a sua roupa no armário. Estava a fazê-lo quando, depois de umas leves batidas na porta, entrou
uma bela jovem.
- Boas tardes, senhorita - saudou-a em espanhol e continuou a falar, fazendo gestos marcados.
Erith aproximou-se e levantou o guarda-napo branco que cobria o tabuleiro que a rapariga lhe tinha levado e viu que, além de um bule de porcelana da china
e uma chávena, havia um prato com sandes apetitosas.
- Obrigada - murmurou a inglesa e, como a consideração do anfitrião tinha levantado o seu ânimo, sorriu e procurou na sua cabeça algumas palavras em espanhol,
para perguntar o nome à rapariga.-Eh ... Como se ...? -começou, mas logo procurou outra forma de formular a pergunta. - Quien eres tá?
A rapariga olhou-a de forma estranha por um momento e logo o seu rosto fresco se iluminou com um amplo sorriso.
- Ana, senhorita. Sou a Ana - e saiu do quarto.
Erith serviu-se de uma chávena de chá e, ao dar uma dentada numa das sandes, deu conta que tinha muito apetite. Depois de comer, voltou a tirar as coisas da
mala.
Quando acabou de colocar a roupa no armário, caminhou até às janelas altas que davam para uma varanda e de imediato ficou pasmada. O panorama que os seus olhos
encontraram era encantador, assombroso.
Enormes montanhas, verdes e férteis, rodeavam o vale onde se erguiam frondosas árvores e serpenteavam riachos.
Permaneceu um longo tempo a contemplar a paisagem e leiiloii que a sua mente não fosse interrompida pelos pensamentos sobre Audra e Filipe. Domingo tinha dito
que faria as suas averiguações e sem dúvida que já deveria estar a fazê-las.
Erith acabava de tomar um duche e vestia um vestido ligeiro de algodão, quando a senhora Garcia chegou para a avisar de que o jantar ia ser servido.
Seguiu a governanta até à sala de jantar, onde o anfitrião rstava junto à lareira. Tinha tomado banho e mudado de roupa.
- Queres beber algo, Erith? - perguntou-lhe, percorrendo-a com olhos apreciadores; e o uso do nome provocou na jovem um arrepio de prazer.
- Não, obrigada, senhor - murmurou.
- Talvez um pouco de vinho com a comida - sugeriu em voz gentil e afastou uma cadeira para que a convidada se sentasse à mesa. - Talvez pudesses esquecer o
"senhor" e chamar-me pelo meu nome.
- Pois, sim ... obrigada - respondeu Erith não sabendo se eslava a agradecer a sua oferta do vinho ou pelo seu convite a tratá-lo pelo nome, ou porque havia
um indício de que a trataria mais como amiga do que inimiga.
Contudo, não se atreveu a abordar o tema da Audra. Assim ficou em silêncio quanto a isso, enquanto começavam a comer o primeiro prato, uma deliciosa sopa de
espargos.
listavam a comer o segundo prato, peixe com verduras e especiarias, quando Erith, recordou que o seu anfitrião lhe linha dito no hotel que a sua família era
muito respeitada na região, perguntou de repente:
- A tua família viveu aqui durante muito tempo?
- O meu bisavô espanhol permaneceu no vale durante muitos anos - respondeu Domingo.
Erith sorriu. Estava segura de que ele não era um recém chegado à região.
- Então os teus familiares vivem todos à volta de Jahara? Domingo negou com a cabeça.
- Sou o único que aqui permanece.
Por alguma estranha razão, Erith sentiu-se consternada pela sua resposta.
-E os teus pais ... ? O teu pai é ... ?
- O meu pai morreu - disse ele em tom lacónico e ela viu que linha sido indiscreta. Estava quase a desculpar-se quando Domingo acrescentou, com mais amabilidade:
-- A minha mãe é francesa e prefere viver no seu pais natal.
- Ah, entendo - disse Erith e já não se atreveu a perguntar mais.
Abandonou o tema e bebeu um pouco de vinho branco que seu anfitrião lhe tinha servido. Supôs que a mãe de Domingo linha decidido regressar a França depois
da morte do seu marido. Interrogou-se se o pai de Domingo tinha morrido recentemente e deduziu, pela forma que ele tinha falado, que assim era, e que a sua morte
ainda lhe doía.
A sobremesa foi uma óptima combinação de chocolate e coco, e Erith estava a saborear a segunda colherada quando pensou que se calhar tinha passado tempo suficiente
para que pudesse perguntar ao senhor de Zarmoza quais eram os resultados das suas pesquisas. Sentiu um leve nervosismo antes de perguntar, porque ainda que ele se
comportasse como um anfitrião perfeito, pensou que se tivesse alguma informação já a teria dado.
- Este doce é um manjar do paraíso! - comentou, para começar.
-- Direi o teu comentário à senhora Garcia - disse Domingo com um sorriso. Erith sentiu-se animada.
- Eh ... conseguiste algo com as tuas averiguações, por certo? - atreveu-se a perguntar e parecia ter golpeado o seu interlocutor quando a olhou como se não
entendesse do que é que estava a falar.
- Averiguações? - inquiriu ele levantando uma arrogante sobrancelha.
- Sobre Audra e Filipe. Disseste que farias ...
- Tens pressa, eh? - interrompeu-a ele com um tom irritante na voz.
Mas ele não era o único a sentir-se irritado, pensou Erith com zanga. Pois claro que ela tinha pressa! Sorriu enquanto apertava o pescoço com a sua mão esquerda.
- Gostaria de ir para casa o mais breve possível - disse com calma.
-Espera-te algum homem em Inglaterra? - perguntou Domingo asperamente.
-Não - proferiu Erith, interrogando-se sobre o que é que tinha a ver. - Mas o meu pai e a mãe de Audra ...- interrompeu-se ao recordar que já tinha falado
deles. - Além disso, devo regressar a Inglaterra para procurar emprego. Não ...
-Não trabalhas?
-Sempre trabalhei, desde que saí da escola - respondeu eln altiva, mas teve de continuar com um pouco mais de humildade; - Mas a empresa na que trabalhava
está em dificuldades financeiras e teve de fazer cortes no pessoal.
-Ainda não encontraste outro emprego, eh?
-Encontrarei - afirmou e, cheia de raiva, recusou a muito amável oferta de café e deu as boas noites ao seu anfitrião.
Tinha tomado banho, vestido a camisa de dormir e metido na cama quando se tranquilizou o suficiente para pensar que nada lhe servia chatear-se com Domingo.
Voltou a almofada, frustrada por não ter ideia de onde poderia estar a sua meia irmã. E interrogou-se irritada se o homem tinha feito algum gesto para averiguar.
Mas, porque é que não o teria feito?, interrogou-se um pouco mais tarde. Além de tudo, tinha deixado bem claro que queria ver-se livre dela o mais breve possível,
e quanto mais rápido averiguasse o paradeiro dos namorados, mais rápido ver-se-ia livre dela.
Erith apertou os lábios antes deste pensamento. Não se importava em absoluto que Domingo quisesse livrar-se dela, afinal de contas. Ela também queria sair
dali o mais breve possível!
CAPITULO 3
Mas Erith ainda estava na fazenda três dias depois. Despertou sexta-feira pela manha e por uns minutos permaneceu deitada, a apreciar o glorioso silêncio.
Durante esses instantes experimentou uma profunda paz e sossego. Depois, levantou--se saiu da cama e foi até às janelas altas.
Mas não saiu para a varanda, ainda que o espetáculo lá fora a atraisse, mas nesse momento a realidade prevaleceu e desvaneceu o seu bem estar. Não estava ali
para gozar, mas para cumprir uma missão.
A sua família não teria sossego até que ela lhes escrevesse a informar que tinha encontrado Audra e que esta estava bem, salva e feliz.
Debaixo do chuveiro, voltou a pensar na recusa de Domingo em dizer-lhe se tinha averiguado algo. Voltaria a perguntar-lhe esta manhã, decidiu, e depois pensou
se a ele lhe parecia descortês que o estivesse a importunar com as suas perguntas.
Secou-se e vestiu as calças brancas de algodão e uma camisa amarela, e compreendeu que Domingo a consideraria mal educada se insistisse outra vez no mesmo
assunto, em vez de esperar que ele tivesse alguma informação concreta que lhe comunicasse.
Desceu até à sala do pequeno almoço. Procurou convencer-se de que devia ter paciência. Esperaria que ele lhe desse a informação no momento que tivesse alguma
resposta concreta.
Em todo o caso, uma coisa era evidente, pensou enquanto dava voltas ao trinco: Domingo não estava ansioso a este respeito. Entrou então na sala e de repente,
de maneira inexplicável, invadiu-a uma sensação de timidez e parou em seco.
- Ah, bons dias, Erith! - o composto fazendeiro baixou o jornal que estava a ler tal como na manhã anterior quando ti ouviu entrar, - Já notei que és uma rapariga
madrugadora Comentou com ânimo alegre a pôr-se de pé, para afastar a cadeira.
-Pois ... sim. Incomoda-te? - perguntou-lhe, sem saber porquô o notar um ténue brilho de humor nos olhos do seu infltrlfto, repôs-se e acrescentou: - O que
quero dizer é que calhar preferias um pouco de solidão ao começar o dia. Es uma jovenzita muito bem educada - elogiou-a Domingo. - Agrada-me ter-te como companheira
à hora do almoço - acrescentou.
Se lhe agradava, a ela também, reconheceu Erith. Não lhe e ocurreu então, nem quando a senhora Garcia lhes serviu o pequeno almoço, perguntar qual tinha sido
o fruto, se havia algum, das suas indagações.
De facto, tão cativada que estava por ele e pela sua conversa interessante e cheia de humor, que o continuou a ouvir muito tempo depois de ter terminado o
pequeno almoço. Mas de repente a hostilidade voltou-lhe à consciência, e recordou a razão porque estava ali.
- Domingo ... eu ... - não sabia como voltar interrogã-lo sobre o assunto que a obsessionava.
- Sim, diz-me - indicou ele com um sorriso tão cativador que a jovem sentiu um salto no coração, e por um momento, esqueceu o que ia dizer.
Ainda não se tinha recordado quando, sem sorrir já, mas com uma expressão amável, ele disse:
- Gostarias de me acompanhar a dar uma volta pela fazenda esta manhã?
Se gostaria? Adoraria! Durante os dias anteriores tinha percorrido os prados e jardins à volta da casa, mas, devia admitir, tinha muita vontade de conhecer
mais. Mas, no seu papel de se comportar como uma convidada perfeita, disse:
- Deves ter coisas muito mais importantes que fazer que mostrar-me a fazenda.
- Não queres vir?
- Oh, sim! - respondeu de imediato. - O que se passa é que ... - de repente, quando um sorriso se expandiu pelas faces viris do seu anfitrião, Erith interrompeu-se.
Mentalmente acrescentou a palavra "enfeitiçador", "encantador", para o descrever, e procurou não rir, apesar da forma como o olhar dele se cravou nas fissuras dos
lábios dela, fê-la pensar que estava divertida. - Obrigada - aceitou com suavidade. Para começar caminharam até aos edifícios anexos à casa.
- Sabes montar a cavalo? - perguntou Domingo, mostrar-lhe os estábulos.
- Não - respondeu ela e pensou que se montasse, dificilmente se aguentaria num destes belos animais.
Domingo assinalou um edifício onde se guardavam várias peças de maquinaria. Depois levou-a às cocheiras e convidou-a a subir para uma camioneta para percorrer
a fazenda.
Durante este passeio, por fim desvaneceram-se os seus últimos rumores a respeito de tirar tempo seu anfitrião. Ela tinha abrigado o receio, durante estes três
dias na fazenda, de que obrigado pelo seu dever de afitrião ele estava a perder o tempo que devia dedicar a outras actividades ... como o seu estaleiro ... para
a entreter. Mas enquanto ele conduzia, Erith soube, como tinha suspeitado desde quarta-feira, que o seu anfitrião amava este lugar. Para ele era um gozo poder percorrer
os seus terrenos e mostrar-lhe tudo o que vaha a pena ver.
- Parece que aqui pode florescer qualquer coisa - comentou Erith em certo momento.
- Jahara é um dos vales mais prósperos da região - disse o fazendeiro. - É desde o tempo dos inças - parou o carro e os dois desceram.
Erith olhou à sua volta em silêncio. Domingo tinha falado da agricultura nos tempos pré-hispânicos ... que riqueza histórica devia ter este lugar!
Caminhou ao lado do seu anfitrião, parando junto a um ribeiro que ia desembocar num rio de águas claras e transparentes. Debaixo da sombra de um eucalipto,
ela parou e olhou à sua volta; soube então que esse lugar estava cheio de magia. Tinha razão o Domingo em amá-lo! Ela soube também que podia vir a amar este .lugar,
de maneira que, se permanecesse demasiado tempo ali, podia ficar tão cativada que já não desejaria ir embora.
- É ... mais que maravilhoso! - exclamou de repente, cheia de entusiasmo.
- Gostas?
Erith voltou-se e olhou para o seu acompanhante.
- Si- sorriu, - Quem não gostaria deste paraíso?
Acrescentou e voltou a sorrir, mas logo se interrogou se tinha dito algo de mal, pois o fazendeiro não lhe devolveu o sorriso.
- A minha mãe, por exemplo - disse em tom seco. - Não suportava estar aqui!
Sem esperar por ela, Domingo voltou-se e caminhou para a caminhoneta.
Erith o seguiu e subiu para o lugar do passageiro, recordando-se que ele a tinha confiado que a sua mãe vivia em FrançaErith tinha pensando que ela tinha
voltado a França quando o marido morreu, se calhar não foi assim. Seria possível que a senhora de Zarmoza achasse insuportável a vida em Jahara e tivesse regressado
ao seu país antes de o seu in.indo morrer? Era uma das perguntas que ela não podia fazer.
Durante o trajecto de regresso a casa, ficou convencida de que existia ali um pequeno mistério que nunca poderia descobrir, que se podia supor, dado o tom
com que o Domingo tinha falado da morte do seu pai, era que o amava muito, e não via com bons olhos que a sua mãe o tivesse abandonado. - Obrigada por ter perdido
tempo a mostrar-me a sua propriedade - rompeu Erith o silêncio quando ele estacionou ;i camioneta em frente das portas da cocheira antes de a guardar.
Um som foi a sua resposta. Erith constatou que ele era encantador quando queria, mas seria melhor deixá-lo sozinho com o seu ataque de mau humor. Ele voltou
a sentar-se atrás do volante depois de abrir a porta da cocheira, quando a jovem saltou fora do veículo. Erith estava a caminho de casa quando compreendeu que, uma
vez que não se ouvia o barulho do motor, Domingo deveria estar a observá-la.
Estava próximo da piscina quando Domingo a alcançou. Ela não reduziu o passo, mas como na realidade não tinha nenhuma animosidade contra ele nesse momento,
voltou-se para lhe oferecer um sorriso de agradecimento. Ao chegar a casa, Domingo adiantou-se para lhe abrir a porta.
O rosto do fazendeiro era impassível, inexpressivo, observou Erith, não podendo assim adivinhar o que ele estava a pensar.
Quando Erith entrou no vestíbulo, um homem com uniforme de polícia levantou-se de um dos cadeirões da entrada, fazendo-a esquecer tudo. Ainda que tivesse visto
que o polícia agarrava numa mão o seu boné, de imediato reconheceu a sua carteira na outra, a que lhe tinham roubado e a qual não acreditava voltar a ver.
- A minha carteira! - exclamou e enquanto se aproximava do oficial, a senhora Garcia apareceu e toda a gente começou a falar mesmo tempo.
No entanto, num instante, Domingo impôs a ordem. Escutou a senhora Garcia e mandou-a aos seus trabalhos, depois pôs a mão no cotovelo de Erith para a conduzir
até à sala, enquanto dava algumas instruções em espanhol ao polícia.
Minutos depois os três estavam na sala e Domingo informou a jovem que a sua carteira tinha sido encontrada na rua e que devia identificar formalmente os seus
pertences.
- Definitivamente é a minha carteira - disse ela quando o oficial lha entregou. Abriu-a com rapidez. No entanto, a desilusão aguardava-a, pois ainda que lá
estivesse o seu passaporte e o seu bilhete, não estava o dinheiro que tinha trocado na quarta-feira no hotel, nem os travellers cheques. Tossiu para aclarar a garganta,
de repente obstruída pela decepção.
- Não está ... o dinheiro não está - murmurou.
Então sentiu uma mão confortadora no ombro e, ao levantar os olhos, viu que Domingo a observava com certa comiseração. Mas em seguida ele afastou a mão e perguntou:
- Falta mais alguma coisa?
Erith esvaziou todo o seu conteúdo sobre uma mesa próxima e reviu peça por peça; o seu pente, a sua agenda de direcções, dois lenços, várias coisas mais.
- Falta um baton e duas esferográficas - murmurou. - Mas não tem importân ... - a sua voz desvaneceu-se a meta-da da palavra quando, ao levantar os olhos,
viu que Domingo não a estava a observar, mas tinha os olhos fixos no envelope que estava na mala e que estava dirigida ao senhor Hector Cárter e senhora, em Âsh
Barton. - Essa era a carta que Audra nos enviou a notificar-nos de que estava comprometida com...- voltou-se a calar-se quando desapareceu do rosto do seu anfitrião
toda simpatia. Erith sabia que a sua repetina expressão de seriedade era porque ela tinha mencionado o
compromisso do seu sobrinho com Audra. Bem, pois não se desculparia, decidiu com um repentino ataque de rebeldia.
-Há um recibo que deves assinar - indicou Domingo, oferecendo uma esferográfica.
A rebeldia da jovem tinha cedido um pouco quando uma hora depois almoçava na companhia dele. Além de tudo, devia se alegrar por ter recuperado a sua mala,
ainda que o dinheiro não estivesse ali. O passaporte era um documento era um documento essencial.
Em parte, pelo que ela se podia aperceber, o seu afintrião estava agora de melhor humor.
- Delicioso - comentou a jovem provar o ceviche.
- Parece surpreendida - comentou Domingo com um sorriso divertido.
Nunca acreditei que gostasse de peixe cru - respondeu.
Domingo riu às gargalhadas, provocando na jovem um delicioso prazer.
- Deveríamos dar-te a provar alguns outros pratos regionais- comentou Domingo pouco depois.
A Erith encantou-lhe a ideia, mas de repente ocorreu-lhe que o comentário dava a entender que ele esperava que a sua convidada permanecesse muito tempo no
Peru.
Julgo que em vez de me estar a divertir, deveria estar à procura da Audra.
Esperou que o Domingo se incomodasse com o comentário. Mas não foi assim. Para sua aflição, em vez de se referir a menção da sua meia irmã, fixou a sua atenção
nas primeiras palavras dela.
- Estás a divertir-te? - perguntou com um sorriso agradável. Dizer-Jhe que a causa principal do seu deleite era o maravilhoso lugar que a rodeava, seria, ainda
que certo, falta de sinceridade, pois ele tinha muito a ver com o seu agradável estado de ânimo. De modo que agitou as mãos com uma certa vaguidade e disse:
- Como poderia deixar de disfrutar disto? - pareceu-lhe que a ele lhe agradava a resposta, mas esse não era o ponto. - Mas não é correcto, não é verdade? Eu
deveria ...
- O que é que não é correcto? - interrompeu-a ele.
- Que esteja nesta maravilhosa casa ... neste lugar aprezível - respondeu vacilando, - e em Inglaterra, o meu pai e a mãe de Audra estejam carcomidos de inquietação
à espera de notícias - ali estava a expressão glacial do seu rosto. A jovem conteve um suspiro e decidiu que, dado que já tinha começado, bem poderia aventurar-se
mais. - Já soubeste algo? - e quando tudo o que recebeu foi um olhar indiferente como resposta, insistiu. - Já começaste a fazer investigações?
A palavra ártico tinha sido apenas adequada para descrever o olhar que o seu anfitrião lhe dirigiu.
- Não disse que o faria? - inquiriu ele com a voz igualmente glacial. Depois, sem lhe dar possibilidade para perguntar quais tinham sido os resultados das
averiguações, Domingo pôs-se de pé e disse em tom cortante: -Tenho muito trabalho esta tarde. Vemo-nos à hora do jantar.
Ela estava jã a meio do caminho para a porta quando Erith recuperou o fôlego para reponder:
- E o que se supõe que vou fazer esta tarde? Domingo voltou-se e olhou para a Erith como quem observava uma pessoa fastidiosa.
- Descansa, vai passear - sugeriu com arrogância e desapareceu.
"Onde é que encontro um fato de banho"?, interrogou-se chateada e permaneceu sentada na mesa da sala de jantar, alimentando sentimentos pouco amistosos para
com Domingo.
Quando passaram dez minutos, o natural sentido de justiça da rapariga impôs-se, e compreendeu que nunca devia ter-lhe perguntado o que podia fazer à tarde.
Domingo era um homem muito trabalhador. Tinha-lhe concedido bastante tempo para que ela adoptasse esse tom de menina malcriada.
Sentindo-se um pouco aborrecida consigo mesma, saiu para dar um passeio.
Duas horas mais tarde vagueou à volta da piscina e depois foi para o seu quarto. Fechou a porta e interrogava-se se devia ou não escrever uma carta à sua família,
quando viu que alguém, se calhar a senhora Garcia, tinha deixado sobre a sua cama um fato de banho.
Um sorriso tremeu nos seus lábios a perceber que, apesar do antagonismo surgido entre ela e o seu anfitrião à na hora do almoço, ele tinha tido tempo para
pensar que, uma vez que a viagem para o Peru nao era por prazer, seria possível que não tivesse um fato de banho.
Agarrou na prenda e viu que era um pouco grande para ela. sorriso desvaneceu-se no seu rosto ao interrogar-se a quem pertenceria. Teria o seu anfitrião o
costume de convidar mulheres para a sua casa?
Perdeu o interesse na prenda e, lançando-a sobre a cama, indo tomar um duche.
Naquela noite o jantar decorreu num ambiente tenso. Era evidente que, apesar de Domingo ter pensado que ela poderia precisar de um fato de banho para ir para
a piscina, isso não significava que tivesse mudado a atitude que tinha tido para com ela àhora do almoço.
- Que fizeste esta tarde? - perguntou a dada altura Domingo, mas como Erith sabia muito bem, a pergunta era uma mera formalidade.
-Passeei - respondeu em tom aprazível e formal. - Obrigada por ter pensado no fato de banho. - É da senhora Garcia? - perguntou com aparente indiferença.
- Não - respondeu ele em tom impassível e Erith julgou que isso concluia o assunto. Depois, olhando-a com uma expressão enigmática, acrescentou: - Margarida,
julgo, é um pouco menos ... gorda que a minha governanta.
Margarida era o nome da sua irmã, recordou Erith, e continuou a comer, compreendendo que, a menos que Domingo livesse alguma amiga com o mesmo nome, o fato
de banho qUe lhe tinha emprestado pertencia à sua irmã.
- Se me desculpas - disse ele quando terminaram de comer, - tenho assuntos a tratar no meu escritório.
- Com certeza - Erith falou com cortesia. - Creio que vou para o meu quarto - acrescentou e levantou-se da sua cadeira para sair da mesa.
Quando chegou ao seu quarto, Erith recordou os acontecimentos do dia e, ainda que a manhã tivesse sido uma das mais
felizes, quando recordou que a sua mala tinha aparecido sem o seu dinheiro, sentiu-se bastante melancólica. Compreendeu que não o recuperaria, o que, deixava
bem claro que teria de continuar a aceitar a hospitalidade de Domingo ou regressar imediatamente para a Inglaterra.
Por fim meteu-se na cama depois de decidir que não lhe restava outra opção que não fosse a de ali permanecer. Voltou a interrogar-se se devia escrever para
sua casa ou não. Que objectivo teria, a fim de contas? Ainda não tinha nenhuma notícia concreta sobre a Audra e, além disso, achava que regressaria a Inglaterra
antes de eles receberem qualquer carta que lhes enviasse. Procurou adormecer, cheia de tristeza e frustração.
Domingo não estava na mesa quando ela desceu para tomar o pequeno almoço na manhã seguinte. A senhora Garcia estava lá e era óbvio que o dono da casa tinha
terminado o seu pequeno almoço algum tempo antes.
- O senhor de Zarmoza? - perguntou Erith, esperando que a governanta entendesse que lhe estava a perguntar onde estava o seu patrão.
De uma enxurrada de palavras em espanhol, a inglesa deduziu que o senhor estava no seu escritório.
- Obrigada, senhora - disse-lhe em espanhol e conteve a respiração ao constatar o quanto ocupado estava o dono da casa, se ter uma manhã livre obrigava-o a
trabalhar depois do jantar e a tomar o pequeno almoço muito cedo para se fechar e continuar com os seus trabalhos.
Erith decidiu dar outro passeio, para tentar encontrar na beleza da paisagem o sossego e o gozo do dia anterior. Mas não pôde recuperá-lo, apesar de a vista
ser tão maravilhosa como sempre.
Regressou à casa e, enquanto se interrogava se podia fazer algo para ajudar a senhora Garcia, decidiu que se calhar a governanta não gostava que a sua convidada
lhe oferecesse ajuda. De qualquer maneira tinha-lhe perguntado quando a senhora Garcia, que a tinha visto regressar do seu passeio, foi levar-lhe o café. No entanto,
a reacção da governanta, quando a jovem se ofereceu para ir buscar uma colher que a mulher se tinha esquecido, fê-la constatar que o dono da casa não seria o único
que franziria a sobrancelha perante tal oferta.
-Não......não, não! - exclamou a senhora Garcia e saiu de imediato para que a Erith pudesse levantar-se do seu lugar.
Foi Ana, a empregada, a que foi buscar a colher que faltava.
Depois de tomar o seu café, Erith vestiu o fato de banho e meteu-se na piscina. Mas toda a excitação que sentia pelo exercício físico desvaneceu quando descobriu
à hora do almoço que teria de comer novamente sozinha.
Não que quisesse almoçar na companhia do funesto tipo, pensou com irritação, depois de deduzir do ininteligível resmungo da senhora Garcia, que o senhor de
Zarmoza tinha um almoço de negócios. Mas existiam coisas que Erith lhe queria perguntar.
As coisas que desejava perguntar-lhe estavam relacionadas com a razão porque ela estava ali. E, apesar de estar consciente de que ele estava saturado de trabalho,
duas horas depois do almoço, quando ela viu que ele não aparecia, decidiu que era o momento de tomar uma decisão.
A primeira coisa que fez foi procurar a senhora Garcia. Encontrou a Ana e fez-lhe a pergunta.
-O escritório ... por favor? - inquiriu com um sorriso e Ana convidou-a com gestos a segui-la para fora de casa. Atravessaram um pátio, depois um prado e chegaram
a uma construção pintada de branco.
- Obrigada, Ana - disse Erith e a empregada regressou a casa.
A inglesa suspirou fundo e, dizendo para consigo mesma que não tinha de estar nervosa, bateu na porta de madeira.
- Entre! - disse uma voz e Erith abriu o fecho.
A casa parecia à primeira vista cheia de computadores modernos. Domingo estava sentado de costas para ela à frente de uma das máquinas e parecia absorto no
seu trabalho.
Erith permaneceu em silêncio enquanto ele realizava um complicado cálculo matemático e observou que, à parte de outros aparatos modernos, existia um lugar
no escritório para uma antiquada mesa de desenho. Sem dúvida que era onde Domingo desenhava os seus barcos.
De repente, os dedos do fazendeiro ficaram imóveis no teclado e, ao voltar a cabeça, viu Erith.
- Erith! -- exclamou e levantou-se do seu assento e, ainda que ela fosse a última pessoa que ele esperava ver, ela observou pela sua expressão surpreendida,
mas satisfeita, que não o incomodava que o tivesse ido buscar.
De repente descobriu que, pela segunda vez desde que conhecia este homem, era vítima de um ridículo e inesperado ataque de timidez.
- Lamento ... interromper o teu trabalho - gaguejou.
- Já era tempo de descansar - disse Domingo com um sorriso amplo. - Pensei que quem estava a bater à porta fosse a Ana ou a senhora Garcia, a trazerem-me algum
refresco.
- Oh - murmurou Erith e recuperou o ânimo para continuar: - Isso tudo é uma máquina! - apontou para uma máquina de escrever que parecia poder fazer tudo.
- Escreves à máquina? - perguntou ele.
- Sou secretária - respondeu a jovem e esteve muito atenta quando ele lhe explicou e mostrou as várias peças de maquinaria electrónica, explicando o que poderia
fazer com cada artefacto.
A jovem notou que existia outra porta e Domingo estava a terminar de lhe dizer a senhora que realizava as funções de secretária estava de férias, quando Erith
se conteve a tempo. Quase tinha cedido ao impulso de se oferecer como secretária durante esse tempo.
De repente recordou a razão porque estava ali. Além de não saber espanhol, que seria sem dúvida o idioma em que ele trabalhava, ela não estava ali para lhe
servir de secretária mas sim para tentar localizar a Audra. De facto, a única razão porque estava no escritório era porque lhe queria fazer algumas perguntas a esse
respeito.
Então, Erith levantou o olhar até seu anfitrião e fez-lhe a pergunta que ele menos esperava.
- Jã tiveste resposta às averiguações que tens estado a fazer?
Como ele já podia prever, a quente e amistosa luz nos olhos do seu anfitrião apagaram-se de repente.
- Deves ter paciência! - declarou, dando a entender que era um homem muito ocupado voltou-se para o seu computador e permaneceu parado, como que à espera que
ela se fosse embora.
-Estou a ter paciência - assinalou a jovem. - Mas ...
-Ver-nos-emos no jantar - disse Domingo, convidan-do a de maneira tácita a sair.
Mas sucedeu que ela não o viu no jantar. No entanto, recebeu uma mensagem, a qual pedia que o desculpasse, mas tinha um compromisso de negócios que não podia
faltar.
Erith sentia-se cheia de raiva quando se foi deitar. Mas estranhamente, o seu espírito rebelde não se devia ao facto das pesquisas sobre Audra e Filipe não
parecerem avançar em absoluto. Era a arrogância da mensagem que a fazia recorrer a todo o seu poder de controlo pessoal. Nunca tinha conhecido alguém que, como ele,
pudesse mudar de maneira tão radical do um momento para o outro.
Como tinha chegado a converter-se num hábito desde que Wtava na fazenda, a jovem voltou a sua almofada antes de colocar a cabeça sobre ela. Num momento ele
falava-lhe com amabilidade e ternura, e no momento seguinte já a tratava com aspereza e frieza. Amanhã, disse para el com firmeza,vou pôr as coisas a claro ... definitivamente!
CAPITULO 4
Erith não se tinha esquecido da sua decisão na manhã seguinte e levantou-se muito cedo. Tinha a luz da batalha nos olhos quando, já depois de tomar banho e
vestida, se dirigiu para a sala de jantar. O seu anfitrião, apesar de ser domingo e muito cedo, já tinha tomado o pequeno almoço e começado a trabalhar, bem, ela
sabia onde era o seu escritório, não sabia?
No entanto, Domingo não estava no seu escritório mas sim à mesa, a ler alguns papeis. O seu bom ouvido permitiu-lhe perceber a entrada da jovem e reconhecer
os seus passos, e assim baixou o papel que estava a ler.
- Bons dias, Erith - saudou-a com um tom amistoso, mas ela sabia que essa amabilidade podia desvanecer-se de repente.
- Bons dias, Domingo - respondeu ela, disposta a mostrar-se diplomática de qualquer maneira.
Ocupou o seu lugar na mesa e observou-o a servir uma chávena de café que lhe passou. Então Domingo sorriu, mas Erith já não confiava no seu sorriso; não sabia
em que momento se podia converter numa expressão de desgosto.
- Tenho que ir a Cuzco hoje - disse ele. - Gostarias de me acompanhar?
Erith olhou-o um pouco estupefacta; depois recuperou-se e disse:
- Sim, gostaria muito - e recordando que não tinha consigo ura tostão, acrescentou: - Se calhar podia trocar um traveller cheque; mas ainda não te paguei
a minha conta do hotel.
- Eu aconselho-te a deixar aqui os teus cheques - respondeu ele e voltou-se a mostrar encantador. - Quando me fizer falta aquilo que paguei pela tua noite
no hotel, digo-te.
O que é que ela podia fazer? com Domingo tão afável e gracejando sobre uma quantia tão irrisória para ele, supôs que não tinha sentido insistir em tamanha
ninharia. Além do mais, pelo tom amável que ele adoptara agora e queria ir a Cuzso. Seria melhor agarrar-se aos bons momentos enquanto duravam, decidiu.
Logo que terminaram de tomar o pequeno almoço começa-i im o viagem. E Erith sentiu-se descontraída e contente. Voltou a desfrutar a esplêndida paisagem, as
flores silvestres que cresciam à volta do caminho e a serenidade de toda a região. Uma espécie de paz envolveu-a e durante longos e silencio-non minutos absorveu
a beleza de tudo o que passava ao seu lado. Ouando atravessaram o pasto, Erith viu um animal eternecedor de pescoço largo e pernas igualmente largas que, no entanto,
apenas tinha a altura de um miúdo pequeno. Que animal é este? - perguntou com embaraço. - É um lhama bebé - informou o fazendeiro de bom humor e explicou-lhe que
era da família dos lhamas e que a sua pele era tão suave como a seda. Depois perguntou à jovem sobre sua vida em Inglaterra.
Não havia muito a dizer, pensou Erith, mas falando amigavelmente com ele durante o percurso, surpreendeu-se pois chegaram rapidamente a Cuzco.
- Já chegamos? - perguntou assustada e quando viu o sorriso de Domingo, e o brilho nos seus olhos cinzentos, soube que ele também tinha gostado do percurso.
O coração disparou no seu peito ao pensar que Domingo eslava a gostar da sua companhia tanto como ela gostava da dele. Por isso alegrou-se de ficar sozinha
um momento quando, pouco tempo depois, Domingo tirou um envelope do banco traseiro e, dizendo que não se demorava mais de cinco minutos, saiu do carro e desapareceu.
Esse curto espaço de tempo permitir-lhe-ia pôr em ordem as suas emoções. Erith reconheceu que nunca tinha encontrado um homem como Domingo, mas o facto de
ele parecer estar a gostar da sua companhia não era razão para que ela subisse ao sétimo céu, disse para consigo com severidade. O exagero do "sétimo céu" divertiu-a
e quando Domingo voltou estava a sorrir.
- Pareces contente - comentou e, antes que ela pudesse dizer algo, perguntou: - Que tal darmos um passeio?
- Trabalhaste tanto ontem ... - começou a objectar Erith, mas calou-se quando ele lhe dirigiu uma expressão severa mas brincalhona.
Depois Domingo ofereceu-lhe o maior dos seus sorrisos e pôs o carro em marcha. Seguiu por uma estrada da montanha e, poucos minutos depois, pararam perante
a fortaleza mais impressionante. A edificação, que se chamava Sacsahuaman, estava construida com pedras gigantescas.
- Como é que conseguiram colocar ali as enormes pedras? - exclamou a inglesa com os olhos arregalados.
- É uma boa pergunta, se se considerar que cada pedra pesa várias toneladas.
Erith abriu ainda mais os olhos ao contemplar uma das enormes pedras. Depois voltou a olhar para o seu acompanhante que cravou os seus olhos nela durante um
momento que à jovem pareceu eterno. Depois, Domingo afastou-se de repente dela e dirigiu-se para o carro.
Por um momento, Erith esteve segura de que isso tinha sido tudo. Mas quando regressou ao carro desapareceu a ideia de que Domingo tinha mudado de humor. Ele
voltou-se para Erith com uma expressão amável e disse:
- Já que estávamos tão perto de Sacsahuaman, pareceu-me uma pena não te mostrar. Mas hoje está um dia ideal para um passeio no campo - concluiu com gentileza
e Erith sorriu, voltando a sentir-se feliz.
Estava uma maravilhosa manhã de sol. Assim permaneceu enquanto subiam por uma difícil estrada na montanha. Erith contemplou umas flores escarlates que estavam
em harmonia com outras amarelas. Passaram por um rebanho de alpacas e outro de lamas e Erith disfrutava de tudo com intensidade.
Já estavam no mais profundo território montanhês quando, a exuberância do verde à sua volta num dia tão soalheiro, Erith ficou assombrada com o contraste dos
picos de neve nas montanhas ao longe.
- É impressionante! - exclamou e ao voltar-se para observar o seu acompanhante, notou que ele a observava com olhos penetrantes.
Alguns minutos depois, o que parecia um bosque de eucaliptos chamou a atenção da jovem. Depois passaram por uma aldeia indígena com cabanas pequenas, cobertas
comum tecto de telha de rosa intenso, e outras com tecto de palha.
Viajaram por uma estrada melhor pavimentada ao lado um riacho quando Erith ficou estupefacta ao ver uma série de terraços de aparência inça. De seguida, quinze
minutos depois, viu que tinham chegado a um rio.
- Que rio é? - perguntou encantada com o facto de Domingos a ter detido no carro por alguns minutos.
-É o Urubamba - respondeu ele, mas não parou o carro. Atravessaram uma ponte que atravessava o rio e cinco minutos depois, tinham chegado a uma povoação,
Domingo não só parou o carro como o estacionou.
E onde estamos? - quis saber Erith. Chama-se Pisac - respondeu Domingo. - Gostarias de vi o mercado?
-Se gostaria! O seu rosto deveria ser muito expressivo, pensou ela, pois Domingo não esperou por escutar o seu consentimento verbal e de seguida conduziu-a
pela rua empedrada. Em seguida permaneceu com paciência jovial ao lado da jovem enquanto ela, sem poder acreditar nos seus olhos, observava Uma porca a abrir com
o focinho a porta de um pátio para permetir que os seus leitões saíssem para mamar com excelente apetite.
- É maravilhoso! - exclamou e as mais agradáveis surpresas esperavam-na quando Domingo a conduziu por um mercado muito pitoresco e barulhento, onde se exibiam
todo tipo de mercadorias. Existiam frutas e verduras de toda a espécie, bancas de jóias próximas de outras onde se vendiam ponchos e camisolas, carteiras e ete,
tudo com a montanha como fundo.
Erith estava fascinada e nem sequer esteve em desacordo com Domingo quando ele lhe quis dar algum dinheiro para conprar algo, parou por um momento.
- Se calhar podias permitir que te convidasse para um pouco de limonada? - perguntou Domingo com um pouco de ironia, quando ela lhe disse com firmeza que
gostava muito do que via, mas não desejava comprar mais nada.
- Permitirias que te convidasse para tomar urna limonada se fosse eu e não tu quem trouxesse o dinheiro? - perguntou por sua vez a inglesa.
- Com certeza - declarou Domingo sem hesitar. Mentiroso, pensou Erith, mas o dia estava demasiado maravilhoso para ser desperdiçado com discussões.
- Então porque é que esperamos? - sorriu ela e sentiu que um estranho calor a invadia quando o seu acompanhante deitou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
Domingo levou-a a um pequeno restaurante, mas como a tinha convidado para tomar um refresco, e uma vez que estava no Peru, Erith preferiu provar em vez da
limonada algo que viu na estante e se chamava Inka Kola. A sua brilhante aparência verde amarelada parecia um pouco desagradável, mas de qualquer maneira era refrescante.
Domingo tinha terminado a sua limonada e Erith compreendeu que não podia fazer durar mais o seu Inça Kola. Porquê desejava alargar o momento, não estava claro
na sua mente. Ainda pensou que teria algo a ver com o facto de se estar a dar tão bem com o seu anfitrião; ainda que estivesse a afeiçoar-se à fazenda, uma vez que
regressassem ele podia voltar a ser novamente agressivo e taciturno.
- Pronta? - perguntou com cortesia quando ela depositou por fim o copo vazio em cima da mesa. Cinco minutos depois caminhavam juntos para o automóvel.
No entanto, não regressaram de imediato para Jahara, senão que, para deleite de Erith, ele parou o carro ao lado de um rio caudaloso.
- Almoçaremos por aqui - disse ele e, enquanto Erith era invadida por uma imensa sensação de alvoroço, Domingo foi até ao porta-bagagem e tirou uma cesta.
Erith seguiu-o através da pequena ponte de madeira que atravessava a corrente. E ali, longe do tráfico e com o sussu-rante ruido da água que corria alegremente
por entre as rochas, ajudou-o a esvaziar a cesta que a senhora Garcia tinha preparado esta manhã com o almoço.
Erith compreendeu que ele tinha planeado que comeriam no campo. Poderia existir um sítio mais encantador para um almoço campestre?, interrogou-se enquanto
mordia uma coxa de frango. Contemplou as gigantescas árvores que se estendiam até à infinita montanha.
- Este afluente faz parte do rio Urubamba? - perguntou e num impulso levantou o olhar até Domingo e viu que ele estava a observar.
Domingo sacudiu a cabeça e, desviando o olhar para a água explicou que este rio se chamava Cuyu e tinha este nome devido as comunidades indígenas próximas,
Cuyo Grande e Cuyo Chico.
-Mas estamos em Pisac? - quis saber Erith, enquanto olhava para este sítio que parecia afastado do resto do mundo.
- Estamos entre Pisac Colonial e Pisac Inça - informou
Domingo, evidentemente disposto a continuar a responder a todas as perguntas da sua convidada.
Mas de repente, quando Erith o olhou, descubriu que o seu coração se comportava de maneira curiosa. As palavras morreram nos seus lábios quando estava quase
a fazer-lhe outra pergunta e sentiu que lhe faltava a respiração. Rapida, afastou o olhar e nesse momento, nesse lugar maravilhoso, compreendeu que nunca na sua
vida tinha sentido uma emoção tão intensa perante nenhum homem.
Piscou aliviada quando Domingo falou em regressar. A rapariga passou a maior parte do caminho de regresso, dizendo que isso não tinha sucedido na realidade.
Que em nenhum momento o tinha visto de outra forma que não a do homem que lhe concedera uma amável, ainda que quase forçada, hospitalidade.
- Obrigada pelo dia estupendo - agradeceu-lhe quando chegaram à fazenda.
- Eu também o passei muito bem - sorriu ele.
Erith voltou-se e, engolindo a saliva com dificuldade, foi ao seu quarto.
Quando chegou ao seu quarto teve de reconhecer que ele n tinha afectado de uma maneira especial. E isso era algo multo perturbador, pois nunca lhe tinha acontecido
com nenhum homem.
Tomou banho e pôs um vestido limpo de algodão, mas a sua confusão não diminuiu. Estava apenas segura enquanto descia para a sala, perto das oito da noite,
de que Domingo representava um perigo.
Erith mostrou-se muito silenciosa enquanto jantavam. O que queria dizer que, as respostas dela a qualquer coisa se limitavam a monossílabos, Domingo optou
por a submeter a um atento olhar e depois caiu num silêncio gelado.
Mas ela devia saber que o seu anfitrião não era um homem para deixar as coisas como estavam; de modo que, quando a jovem ia comer uma colherada da sobremesa,
perguntou-lhe de repente:
- Estás preocupada com algo, Erith?
- Pois ,.. não ... quer dizer ... - Erith recusou a resposta, sabendo que de maneira nenhuma lhe iria confessar que o achava perturbador. - Quer dizer... -
e de repente, ainda que não tivesse pensado na sua meia irmã o dia inteiro, lembrou-se de lhe perguntar: - Soubeste alguma coisa da Audra?
Viu o rosto do seu anfitrião endurecer e soube que não lhe agradava em absoluto falar na sua meia irmã.
- Não, não soube nada! - proferiu com irritação. O seu tom áspero zangou a jovem.
- Parece-me que, dado as tuas averiguações sobre a minha meia irmã não revelarem nada, o melhor será eu regressar ao meu país.
Quando acabou de pronunciar estas palavras, ela soube que teria sido melhor se estivesse calada.
No entanto, Erith não estava preparada para a áspera resposta de Domingo.
-- Tem dinheiro para a passagem de regresso, senhorita?
- Com certeza! - proferiu ela e, instigada pelo orgulho, levantou-se de imediato. Agarrando-se ao mínimo do seu controle pessoal, respondeu: - Obrigada pela
sua hospitalidade, senhor - e com uma rapidez inconcebível, foi para o seu quarto.
A sua acção seguinte foi institiva. Quatro minutos depois a sua mala estava sobre a cama, meio cheia com os seus pertences. Um minuto depois, bateram à porta.
Ela voltou-se quando a porta se abriu de repente e Domingo entrou no quarto. O fazendeiro olhou rapidamente para a cama.
- Bom! Vejo que já está a preparar a sua bagagem!
O rosto de Erith ficou vermelho devido à insinuação pouco subtil de que tinha abusado da sua hospitalidade.
-Convidou- me para aqui ficar, senhor - recordou-lhe com dignidade que restava no seu coração e agitou-se quando, depois de a insultar em espanhol, ele furiosamente
para ela.
De repente, sua expressão suavizou-se um pouco e os dedos se dobrarem, acariciaram com suavidade a jovem, Depois, ele murmurou com calma.
-É uma pessoa muito sensível - e enquanto tudo girava em volta, ela inclinou a cabeça e deu-lhe um beijo ligeiro nos lábios. Erith estava enfeitiçada quando
Domingo afastou cabeça e explicou em tom aprazível: - Acabo de receberuma chamada telefônica. Parece que viram Filipe em Arequipa.
-Arequepa? - perguntou Erith enquanto punha em ordem os pensamentos. Não tinha ouvido o telefone mas dado o movimento, não era de estranhar. - Arequipa...
ao sul, verdade? - e de seguida, quando a sua cabeça despertou. - A Audra está com ele? - perguntou.
- Sim - confirmou Domingo.
-Podes dizer-me como ali chegar?
Isso não será necessário- respondeu Domingo enquanto afastava dela, dirigindo-se para a porta, acrescentou: - Eu vou arrumar a minha bagagem.
- O que?
-Vou contigo - sorriu ele. - Voaremos para Arquipa um amanhã.
Erith ficou estupefacta enquanto Domingo saia do quarto. Felipe estava em Arquipa. Audra estava em Arquipa. Ela e Domingos voariam amanhã para Arquipa ...
e ele acabava de lho dar um beijo tão terno!
Brith levantou-se cedo. De seguida recordou o beijo que Domingo lhe tinha dado e adormeceu, pensando mais nesse beijo do que no facto de que ia ver a sua irmã
neste dia.
Um sorriso de satisfação instalou-se nos seus lábios quando tomava ducha e ainda que em parte se sentisse culpada por pensar mais em Domingo dos que em s
eus deveres, descobriu que estava muito contente por Domingo ir com ela a Arequipa.
Enquanto se vestia, recordou que, segundo as palavras de Domingo, Filipe tinha abandonado o seu trabalho no estaleiro. Para tranquilizar a sua própria consciência,
a jovem pensou que se calhar a intenção de Domingo em ir a Arquipa era a de por fim a qualquer disputa familiar que pudesse ter surgido quando o jovem deixou o seu
posto na empresa.
Com todos os seus pertences guardados na mala, Erith desceu para a sala de refeições.
Pensou que Domingo não a tinha ouvido entrar, pois continuou a ler o jornal, sem a cumprimentar.
- Bons dias, Erith - disse ela com suavidade.
Ele baixou lentamente o seu jornal e perante a sua expressão severa, o sorriso amável desvaneceu-se.
- Bons dias, Domingo - respondeu com cortesia, mas sem simpatia.
Erith sentou-se no seu lugar habitual e constatou com resignação que o seu anfitrião tinha sofrido outra mudança de estado de espírito.
Inclinou-se para a frente a fim de se servir de uma xícara de café e interrogou-se se algum dia chegaria a entender este homem e as suas mudanças de humor.
Seguidamente interrogou-se porque é que o tinha que entender, a final de contas. Depois de ver Audra nesse dia, poderia regressar ao seu pais, à sua casa.
Ao terminar o pequeno almoço, a jovem decidiu que estava farta de ser ignorada.
- Desculpe-me, senhor - disse ao fazendeiro. O seu "senhor" nao passou despercebido para Domingo, notou ela, quando ele baixou o jornal e a fixou com os seus
olhos cinzentos frios. - Pode dizer-me a que horas sai o meu avião?
- O nosso avião sai de Jahara dentro de uma hora.
Não me faças nenhum favor, tinha querido dizer-lhe Erith, mas como estivesse farto da sua companhia nessa manhã, Domingo levantou-se e saiu, levando o jornal
como se quisesse lê-lo em paz noutro lugar.
O caminho para o aeroporto foi percorrido em silêncio. Mas embora ela pensasse que não lhe voltaria a falar, foi Erith quem rompeu o silêncio quando, ao tirar
o dinheiro para pagar a sua passagem, descobriu que jã estava paga.
- Quanto é a minha passagem? - perguntou secamente.
Outro desaforo em espanhol feriu os ouvidos da inglesa.
-A ultima coisa que quero, senhorita, é despojá-la do seu ilinlinio pura a passagem de regresso ao seu país!
-Mensagem recebida e entendida! - respondeu Erith e pôde sarar as feridas quando no avião para Arequipa, ele voltou a embrenhar-se na leitura do jornal.
Nesse voo, o que apenas podia desejar era efectivamente que encontrassem a sua meia irmão em Arequipa para voltar 0 m&is rapidamente noutro vôo para Inglaterra,
a fim de pôr o mar entre esse bruto e ela.
Na noite anterior tinha-a beijado com suavidade, hoje comportava-se como se lamentasse esse beijo.
Ele ia ver se tentasse de novo. Ainda que não o fizesse, claro. Nao obstante, Erith sonhava com imagens de Domingo ajoelhado, suplicando os seus favores, e
ela a dar-lhe pontapés no queixo. Nesse momento, Domingo disse-lhe a resmungar:
-Aperta o cinto. Estamos a descer.
Em Arequipa estava mais calor do que em Cuzco. Domingo chamou um táxi. Durante o percurso, Erith, pensou que tudo o que tinha de fazer agora era certificar-se
de que Audra estava bem, e dizer Audra que escrevesse uma carta à sua família; Depois apanharia o avião de volta a Inglaterra. Mas lembrou-se de perguntar em tom
brusco:
- Vamos procurar Audra e Filipe agora?
Em resposta Domingo respirou profundamente, como quem estava farto de ser incomodado. Bom, não tinha de a suportar muito mais tempo, pensou ela.
- Bom.
- Primeiro vamos registar-nos no hotel - respondeu.
- No hotel! - exclamou a jovem incrédula. - Não tenho dinheiro para um hotel!
- Espero que não me insultes e recuses ser minha convi-dftdfi enquanto estás neste país - respondeu com irritação.
- Que amável! - ironizou Erith e, para sua zanga, julgou ver um sorriso nos lábios do seu interlocutor.
O hotel que Domingo tinha escolhido era elegante, tranquilo ... e caro.
- Se necessitares de mim para qualquer coisa, estarei no mesmo piso que tu - disse ele e deu à jovem o número do seu quarto. - O empregado acompanha-te ao
quarto - acrescentou e quando, com uma expressão solene, ela interrogou com o olhar, assinalou: - Quero ir ver se o meu informador
deixou alguma mensagem.
- O teu ... informador sabia que vinhas para aqui? - perguntou Erith e começou a deduzir que ele não sabia exactamente onde estava Audra, e uma vez que era
dela de quem estavam a falar, decidiu que tinha um motivo justo para ir com ele ver se existia ou não alguma mensagem. O olhar glacial que ele lhe dirigiu, no entanto,
mostrou-lhe que a sua presença não seria bem vinda.
- Curiosamente, este desdém aborreceu-a, com ou sem Audra. Sem mais uma palavra, Domingo deu meia volta e dirigiu-se para o elevador.
O quarto da jovem era grande, arejado e cómodo. Sentindo-se deprimida e desolada, Erith tirou os sapatos, e foi deitar-se na cama, interrogando-se com espírito
rebelde se esse preguiçoso a avisaria caso tivesse notícias de Audra.
- Durante mais ou menos dez minutos revoltou-se em silêncio contra Domingo, furiosa ao pensar que num dia tão maravilhoso, se calhar ia passá-lo metida num
quarto de hotel. No entanto, na sua mente existiam pensamentos sediciosos quando de repente ouviu baterem à porta. Num segundo levantou-se da cama e apressou-se
a abrir, certa de que era Domingo com notícias.
Mas a decepção esperava-a, pois não era Domingo quem estava à porta, mas sim um empregado com uma bandeja.
- O seu almoço, senhorita - disse-lhe em inglês com um grande sorriso.
O empregado já estava outra vez perto da porta, depois de ter colocado a bandeja sobre a mesa, quando a jovem se recompôs da desilusão para balbuciar:
- Mas eu não ... -- interrompeu-se. - Obrigada - disse e de seguida soube várias coisas; uma delas o nome de quem tinha ordenado que lhe levassem o almoço
ao quarto. Outra, que Domingo esperava que ela ficasse fechada esta tarde no seu quarto.
Se não porque é que lhe tinham levado a refeição ao quarto?
CAPITULO 5
Erith levou mais tempo que o normal a arranjar-se para jantar, nessa noite, e estava ansiosa enquanto esperava que Domingo falasse com ela.
Desde as sete que estava vestida com um vestido de linho verde que realçava os seus cabelos ruivos e fazia parecer mais verdes os seus olhos. E esperava, irritada
devido ao facto de sido abandonada no quarto do hotel. Nem sequer uma uma chamada telefônica tinha recebido de Domingo para a informar o que tinha averiguado.
De qualquer modo, teve de admitir que se o seu informante não lhe tinha deixado nenhuma mensagem, ele não tinha ficado de braços cruzados toda a tarde. Sem
dúvida, que o que tinha estado a fazer se relacionava com Audra e Filipe.
Ouando às sete e meia alguém bateu à porta, Erith sobressauto -se sem saber porquê, pois tinha esperado toda a tarde com o coração agitado reviu a sua aparência
no espelho do corredor antes de abrir.
Era um mistério para ela que o coração se agitasse desta maneira ao ver Domingo. Ainda que, devesse admitir que com o seu fato cinzento, a sua camisa branca
e a gravata de leda, estava lindíssimo.
A jovem observou que, ele também aprovara a sua aparência.
- Bom - disse ele em voz calma. - Vejo que estás pronta para ir jantar.
- Obrigada pelo almoço - murmurou Erith com voz trémula.
Em resposta, Domingo tirou a chave do quarto da mão da lovem e fechou-o. Depois devolveu a chave à Erith. Cami-nlmram juntos até ao elevador. Quando Domingo
carregou no botão, Erith apercebeu-se de que ele estava de melhor humor que antes. Significaria isso que tinha localizado Audra e Filipe?
Estava quase a perguntar-lhe, mas nesse momento chegou o elevador e Domingo agarrou-lhe no cotovelo para entrar. De repente, no entanto, Erith decidiu não
fazer a pergunta que lhe queimava os lábios. Se ele tinha algo a dizer-lhe, dir-lhe-ia imediatamente. E se nada tivesse a dizer-lhe, o que apenas conseguiria ao
perguntar-lhe seria provocar outra vez a sua agressividade. Não era que ela tivesse medo dele, mas, por alguma estranha razão, não queria lutar com Domingo.
No entanto questionava-se sobre o que podia significar isso, quando chegaram à sala de jantar do hotel e foram conduzidos a uma mesa.
Erith tinha descoberto desde a sua chegada ao Peru que possuía um paladar aventureiro. Mas nessa noite, nem sequer deu conta do que comia.
- Descansaste esta tarde, Erith? - perguntou o seu anfitrião com afabilidade suficiente, fazendo-a compreender que na realidade ele estava de melhor humor,
ou a sua inata cortesia impedia-o de a tratar asperamente em público.
- Geralmente, não necessito de descansar à tarde - respondeu ela com amabilidade.
- Mas geralmente, não vives a mais de dois mil e quinhentos metros acima do nível do mar - rebateu Domingo em tom aprezível e de repente a jovem começou a
sentir outra vez simpatia por ele. Se calhar tinha-a deixado sozinha delibera-damente essa tarde, tal como noutras ocasiões, para que pudesse descansar enquanto
se habituava a esta parte do mundo onde o ar era mais rarefeito.
Sentindo-se mais amiga dele agora, esteve quase a perguntar-lhe o que é que tinha feito nesta tarde e logo se recordou que esse tipo de perguntas o punha mal
disposto.
- Tens uma irmã, verdade? - olhou assustada.
- É certo, tenho uma irmã - respondeu Domingo lentamente olhando para a sua interlocutora com olhos arregalados.
- Mais velha que tu?
- Julgo que te disse que Filipe tem vinte e três anos - recordou-lhe Domingo.
- Então tua irmã deve ter pouco mais de quarenta anos murmurou Audra, sem ter a menor ideia de porque é que estava tendo esta conversa; devia admitir mais
uma vez que tinha curiosidade a respeito deste homem e da sua família. Margarida tem quarenta e três anos, mas não gosta que o divulguem - disse o fazendeiro com
solenidade e, de repente lhe contar esta pequena confidência, Erith começou a sentir-se muito contente.
-Obrigada - disse e com um sorriso que atraiu o olhar do Interlocutor aos seus lábios, acrescentou: - Guardarei o segredo com a minha vida - e ficou encantada
quando Domingos deitou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
- E Margarida ... vive no Peru?
-Sim - disse Domingo, mas o seu tom demonstrava que im pave a cansar-se do interrogatório.
-Lamento - gaguejou a jovem. - Estou a ser indiscreta?
Em resposta, ele olhou para os seus maravilhosos olhos. Depois,, com toda a clareza, ela ouviu-o declarar:
-Tu, minha querida Erith, és o mais encantador ... e nunca és indiscreta.
Por um momento ela ficou estupefacta. Depois, quando o coração começou a bater-lhe no peito de modo errático duvidou ter escutado o que acabava de escutar.
Olhou-o procurando a confirmação, mas ele estava a dar um gole no seu vinho e ele não pôde decifrar a sua expressão.
- Eu ... pois ... - vacilou a jovem e de seguida ouviu Domingos a lançar uma exclamação de assombro.
- Meu Deus, mas estás corada!
- Sim? -perguntou ela, ainda que sentisse o calor nas sua faces, depois, para tentar esconder a sua aflição, perguntou:
- Já estiveste alguma vez em França?
Como Domingo não respondeu à pergunta, Erith sentiu-se muito embaraçada e procurou o copo de vinho para dar um gole. Foi então que compreendeu porque é que
lhe tinha feito a pergunta. Domingo tinha dito que a sua mãe vivia em França e Erith interrogou-se se ela tinha regressado ao seu pais depois da morte do seu marido.
Também compreendeu que era uma das perguntas que não se faziam.
Deixou outra vez o seu copo sobre a mesa e como não podia suportar a tensão do silêncio que tinha provocado, olhou por cima da mesa para Domingo. Foi então
que ele pareceu tomar uma certa decisão e, para alívio da jovem, respondeu:
- Em resposta à tua pergunta, visito França pelo menos uma vez no ano. A minha mãe, como tu sabes, vive lá.
- E Margarida ... também vai?
- Com mais frequência que eu - disse Domingo. - Mas Margarida é mais francesa que peruana. Na verdade, está baptizada como Marguerite.
- Sim? Como foi isso? - nao pôde Erith evitar a pergunta.
- Um dia destes contar-te-ei - respondeu Domingo e então foi ele quem perguntou. - E tu, Erith? Costumas visis-tar França? estás mais próxima desse país que
eu. Apenas tens de atravessar o mar, como se costuma dizer.
- A minha irmã e eu ... - começou e conteve-se quando notou que a expressão do seu interlocutor mudava. - Quero dizer a minha irmã Bliss, não a minha ... -
voltou a calar-se de repente. - Não simpatizas com a minha meia irmã, não é? - perguntou com voz tensa.
- E tu simpatizas? - perguntou Domingo por sua vez, severo.
- Pois ... - Erith não pôde continuar, já que compreendeu que era totalmente incapaz de lhe mentir. Tinha tentado por consideração de Jean, fê-lo com toda
a boa vontade, mas sempre lhe foi impossível sentir afecto e simpatia por Audra. Mas dizê-lo a Domingo era como se fosse desleal para com a sua meia irmã, ou melhor
com Jean, e isto irritava-a, de modo que ignorou a pergunta. - De qualquer maneira, não lhe fazia falta gostar de Audra, não é certo? É com Filipe com quem ela se
ia casar, não ...
- Não se pode fazer algo para o evitar! - interrompeu asperamente.
Erith respirou profundamente para conservar a calma. Tinham quase terminado o jantar e havia pouca esperança de que renascesse a camaradagem entre eles. Erith
decidiu que o melhor seria regressar ao seu quarto. Antes de o fazer, não obstante, pareceu-lhe que lhe devia perguntar se tinha recebido alguma informação importante.
E o que é que averiguaste afinal de contas? -perguntou teve de voltar a respirar para manter a calma quando ele fingiu não entender do que é que ela estava
a falar.
- Sobre quê?
- Sobre ... a minha ... meia irmã! - disse Erith, perdendo as estribeiras.
Durante cinco segundos ele olhou-a com arrogância. A seguir, depois de outra pausa, encolheu os ombros e, rom enorme frieza, disse:
- Foram para outro lugar.
- Para outro lugar! - exclamou Erith. - Que queres dizer? Disseste-me que ...
- Eu sei o que disse - interrompeu-a ele. - Estavam em Arequipa, mas parece que Filipe decidiu levar a tua meia irmã para dar um passeio turístico à volta
do país.
- Oh, não! - exclamou Erith e soube de imediato que era 0 fim. A parte do aspecto financeiro, compreendeu que tinha desaparecido toda a possibilidade de os
alcançar. A sua busca, Compreendeu, seria inútil. - Isso é tudo, então - murmurou com abatida resignação.
Estava quase a levantar-se e deixar a mesa quando o seu anfitrião, com tom agressivo, a deteve.
- Que queres dizer com "isso é tudo"?
- É óbvio, não? Tenho de regressar ao meu país!
- Porquê? - perguntou Domingo com fúria contida. - Espera-te um homem em Inglaterra! - acusou-a.
- Ninguém me espera! - respondeu Erith com veemência e zanga perante a desconcertante declaração do seu interlocutor. O que é que isso tinha a ver com o que
estavam a dizer?
- Sim, espera-te alguém! desde que chegaste que tens estado ansiosa para regressar para os braços do teu amante!
- Amante! - proferiu Erith com fúria. - Nao digas tolices! Não tenho amante! Para tua informação nunca tive nenhum! Ainda que isso a ti não te ...
- Nunca tiveste um amante? - interrompeu-a Domingo.
- Isso foi o que eu disse! - respondeu Erith. - Esta é a verdade e importo-me imenso se tu não acreditares ...
- Queres dizer que não fizeste amor com nenhum homem?
Parte da sua agressividade parecia tê-lo abandonado, pensou Erith enquanto olhava com fúria. Em todo o caso, agora parecia mais incrédulo que chateado.
- Pois claro, que tive alguns namorados, mas ... - a voz de jovem começou a vacilar quando ao passar a sua fúria, aborreceu-se de estar a falar com tanta franqueza
de algo tão íntimo e pessoal. - Mas ... - continuou perante o olhar interrogante de Domingo ... - nunca me envolvi totalmente com um homem.
- Ah! -exclamou o peruano com suavidade. Em seguida, para maior pasmo da jovem, apoiou-se nas costas da cadeira e comentou: - Nunca fiz amor com uma virgem.
- Que cinismo ...! - Erith interrompeu- se e de seguida disse com grande dignidade: - mais vale tirares essas ideias brilhantes da tua cabeça, agora mesmo!
- então notou com grande confusão, que agora era ele quem estava zangado.
No entanto estava corada quando ele declarou em tom despreocupado.
- Parece-me que estás muito triste por ter de regressar a casa e admitir perante a tua família que não fizeste o suficiente para cumprir o prometido.
- Não estou triste! - respondeu Erith. - Por não ter feito o suficiente!
- Ainda mais quando tiveste todas as oportunidades de ...
- Que oportunidades? - explodiu a jovem. - Já sabes qual é a minha situação. Ainda que contasse com fundos ilimitados, seria quase impossível descobrir sozinha
para onde eles tinham ido agora. Como ...?
- Não me ouviste dizer que pensava ter alguns dias livres e que os utilizaria para te ajudar a localizar a tua meia irmã?- interrompeu-a Domingo.
- Nunca me disseste nada semelhante! - proferiu Erith e ficou estupefacta quando ele se voltou a apoiar nas costas da cadeira e, observando as faíscas furiosas
nos olhos da jovem, de repente esboçou um sorriso encantador.
Esse sorriso ... há algo nesse sorriso ... provocou-lhe um salto delicioso no coração. Isto é uma loucura, tentou dizer, mas existia tanto encanto nele quando
tentava ... o que, sem ter de dizer uma palavra, mas só com o curvar da boca, podia apagar a fúria de Erith e tranformá-la em paixão.
Com rapidez afastou o olhar e procurou recordar o que ele ili. imlia acabado de dizer.
-Vais ... fazê-lo?
-Com certeza. Queres mais café?
Estranhamente, apesar de tantas preocupações, Erith dormiu muito bem nessa noite. Sonhou com a cara do peruano, belo e sorridente.
Despertou no dia seguinte e deu conta que já estava no Peru a mais de uma semana e não tinha enviado à sua família um postal ilustrado, Mas, que lhes podia
dizer? Eles queriam saber algo de Audra e ficariam decepcionados se lhes confessasse que nada tinha a lhes dizer.
Depois de vários minutos angustiosos de indecisão a respeite do que fazer, Erith decidiu retardar a carta durante mais alguns dias. Sem dúvida, que quando
tivesse algo concreto a Informar à sua família então poderia telefonar-lhes.
Tomou banho e descobriu que os seus pensamentos voavam até Domingo. Recordou durante vários minutos o que tinham falado na noite anterior ao jantar. No entanto
sentia que o rubor lhe queimava as faces quando recordou que tinha confessado que era virgem. Também recordou a sua oferta para encontrar Audra.
Porque é que se incomodava em ajudá-la, quando tinha tanto trabalho? Se calhar apenas estava a ser cortêz e hospitaleiro com uma visita.
Não, isso não era possível, disse a jovem um momento depois. Conhecia-o, e sabia que não seria cortês se não simpatizasse com a pessoa, seria possível que
sentisse simpatia por ela ... ou algo mais?
Quando o seu coração começou a acelarar o ritmo, Erith soube que não tinha nada a ver com a ideia de poder gostar de Domingo. O seu coração tinha começado
a comportar-se de meneira caprichosa desde que tinha chegado ao Peru, era provável que o ar rarefeito tivesse a ver com isto. Em todo caso, não se importava que
ele simpatizasse com ela.
O seu coração sofreu outro dos seus inesperados saltos quando uma hora depois entrou na sala de refeições e viu que Domingos já estava sentado para comer.
- Dormiste bem? - perguntou-lhe com amabilidade enquanto se punha de pé para afastar a cadeira,
- Como um bebé - respondeu com um amplo sorriso. Estava a acabar a sua últim chávena de café quando a jovem teve o impulso de perguntar a Domingo o que é
que tinha pensado fazer para localizar Audra e Filipe. Mas, antes que pudesse abrir a boca, como se lhe tivesse lido o pensamento, Domingo disse-lhe que esperava
notícias do seu informador.
- Entretanto - prosseguiu, - podia sugerir-te que passássemos o tempo a conhecer Arequipa?
A ideia era tentadora, ainda que duvidasse que um homem com o seu indiscutível refinamento pudesse disfrutar de um simples passeio pela cidade.
- Claro que gostaria - disse ela com entusiasmo. - Mas não sei se tu ...
- Preferias prescindir da minha companhia?- perguntou Domingo, outra vez com expressão austera.
- Com certeza que prefiro a tua companhia - apressou-se a esclarecer a jovem. - O que se passa é que ...
- O quê?
- Bom, acontece que não quero que te aborreças; se calhar gostarias de fazer algo mais divertido, mais interessante para ti.
- E porque é que deveria aborrecer-me? - perguntou ele com uma expressão interrogante. - Já te disse que és uma pessoa muito sensível, não é? - inquiriu com
suavidade e Erith sentiu que se formava um nó na garganta devido à súbita e inesperada emoção.
Primeiro percorreram os arredores da cidade num táxi e Erith ficou fascinada ao ver os terraços e canais agrícolas de tipo pré-hispânico.
As horas seguintes pareceram passar como um relâmpago, com impressões perduráveis para a jovem. Arequipa ... ou a Cidade Branca, como era conhecida, devido
à pedra com que estavam construídos quase todos os seus edifícios ... era um lugar mágico, maravilhoso.
Erith pensou que jamais esqueceria as maravilhosas cascatas de bungavílias, as árvores de Jacarenda e os gerânios de tons variados. Pareceu-lhe que Arequipa
era uma cidade bastante próspera, de acordo com as suas propriedades bem cuidadas.
-Se calhar deveríamos tomar um café agora - sugeriu BDingo quando viu que ela se estava a divertir imenso.
-Deveríamos? - sorriu a jovem, sem saber se ele na realidade queria tomar um café ou se apenas estava preocupa-se com a capacidade de ela se habituar à altitude.
-Poderíamos chegar a um acordo - disse ele com um sorriso. - Se calhar queres ver o convento de santa Catarina... julgo que lá podemos tomar café.
- Parece-me boa ideia - disse a jovem e ficou encantada quando nos lábios do seu acompanhante apareceu um sorriso.
Oconvento era, de facto, uma povoação em miniatura da cidade. Erith e Domingo tomaram primeiro café e depois percorreram o convento, construído no século XVI.
Para ela foi uma experiência caminhar de edifício a edifício, de uma rua para a outra, tudo dentro dos limites do mosteiro, que a princípio servira de colégio interno
para as filhas da nobreza.
- Gostaste? - perguntou-lhe a jovem, observando-o com olhos sorridentes, cintilantes.
- Um pouco -- disse ele. E agora chegou o momento de almoçar.
- Já? - perguntou Erith assustada, pois ainda que tivesse fome não podia acreditar que tivesse passado tanto tempo.
Domingo levou-a a um pequeno restaurante.
Erith contemplou o elegante veludo vermelho das cadeiras e alcatifas da mesma cor enquanto Domingo e ela se dirigiam ptra a parte de trás, mais isolada. As
suas paredes estavam revestidas a madeira de tom claro e tudo era muito harmonioso.
A perfeição combinava com o estado de ânimo da jovem. Pois desde há várias horas que ela e Domingo estavam juntose não tinha surgido a menor nota de discordância.
- Vais escolher por ti própria, ou preferes alguma sugestão? - perguntou Domingo quando chegou o empregado.
- Corrige-me apenas se eu pedir salmão acompanhado i om marmelada ou alguma barbaridade semelhante - sorriu .
O arroz com camarões que pediu parecia estranho.
- Que tal está? - perguntou Domingo.
- Absolutamente delicioso - disse a jovem e quando ele sorriu, Erith compreendeu que o seu acompanhante sabia que teria dito que o prato era requintado ainda
que tivesse sido
incapaz de comê-lo.
O serviço de restaurante era tranquilo, sem pressas, e com Domingo como imaculado anfitrião, a conversar com ela de maneira amigável a aparentemente interessado
em tudo o que ela tinha a dizer, o tempo simplesmente voou.
De facto, pareciam estar a dar-se tão bem que Erith esqueceu por completo que tinha problemas maiores com que se preocupar, do que decidir o que comer. Mas
decidiu-se por um pastel, acabava de dar a última dentada quando, ao pôr a colher sobre o prato, viu as horas no seu relógio.
- São quatro horas! - exclamou.
- Não notaste o tempo a passar? - perguntou Domingo. Erith procurou uma resposta simples, mas descobriu que tinha de ser honesta com ele.
- Passei-o maravilhosamente - disse e alegrou-se quando, com um brilho especial nos olhos que a fixavam sem pestanejar, o seu anfitrião sorriu.
- Bom - indicou ele e pouco depois pediu a conta e saíram do restaurante.
Lá fora, como era óbvio que a jovem era uma turista, foi rodeada por um enxame de cambistas que queriam trocar travellers cheques por intis , juntou ela ao
seu acompanhante.
-É legal?perguntou ela ao seu acompanhanteNão chegou a ouvir a sua resposta, pois agarrou-a no braço para afastar dali, e chamou um táxi. para a ao hotel,
agarrou nas chaves dos seus quartos e foi com a jovem até ao elevador.
- Venho buscar-te às oito e meia - disse-lhe com um sorriso ao abrir a porta do seu quarto e afastar-se para que ela passasse.
- Estarei...pronta- e sofreu outro absurdo ataque de timidez.
Tirou os sapatos e recostou-se na cama, cravando o olhar no tecto, mas sem ver nada além do rosto de Domingo e a sua n iidl e interessada expressão quando
ela lhe contara alguns episódios da sua vida em Inglaterra.
Brith achava que ele era muito mais interessante que ela, Que engano. Recordou que Domingo lhe tinha contado que o estaleiro se encontrava num lugar chamado
Chimbote, localizado muito a norte da sua fazenda em Jahara.
Jahara, era maravilhosa, pensou a jovem. Chimbote devia muitos quilómetros da herdade, mas era ali, em Jahara, se encontravam as raízes de Domingo. Era de
estranhar que apesar das dificuldades que pudesse ter ao dirigir ao seu negócio tão longe de onde vivia, não tivesse vendido a sua fazenda para comprar outra mais
próxima do seu estaleiro? De algo estava segura e se ela fosse dona de uma fazenda como Jahara, jamais a venderia.
Erith não teve ideia de quanto tempo passou encostada na cama a pensar na maravilhosa Jahara. Mas de repente descobriu que desejava regressar a esse lugar
maravilhoso ... e levantou-se de sobressalto. Céus, o que é que estava acontecendo com ela? Não ia voltar a Jahara jamais, por todos os santos!
Na realidade, tinha coisas mais importantes a fazer que permanecer encostada a sonhar acordada. Não estava no Peru para sonhar, mas sim para localizar a Audra.
As oito e vinte e cinco, nessa noite, Erith tinha sofrido Onde atrás de onda de sentimentos de culpa por se ter estado a divertir, passeando em grande, enquanto
o seu pai e Jeane esperavam angustiados as suas notícias. Em certo momento o sentimento de culpa foi tão grande que ela quase a bater no quarto de Domingo para lhe
perguntar se tinha alguma notícia.
Depois ocorreu-lhe que ele a chamaria se tivesse algo a dizer-lhe e, de qualquer maneira, iria vê-lo às oito e meia.
Uns segundos depois das oito e meía, ouviu bater à porta. Derepente, descobriu que não se sentia calma e segura. Confiando que sua aprência não mostrasse
seu nervosismo foi atender a porta.
Domingos vesti ao mesmo fato da noite anterior com uma camisa branca e limpa e gravata diferente, parecia extremamente sedutor.
- Olá - saudou-o, envergonhada e a sua voz parecia-lhe rouca aos seus próprios ouvidos.
Viu que os lábios do seu anfitrião se curvaram ligeiramente antes de lhe agarrar no cotovelo e a conduzir ao elevador. O coração da rapariga voltou a comportar-se
de maneira caprichosa e errante até que estivessem sentados nas mesas da sala de jantar quando ela recuperou um pouco a postura e o seu coração tranquilizou-se.
A jovem preferiu deixar que fosse ele a abordar o tema que a preocupava, mas quando passaram alguns minutos e ele não falava de Audra e Filipe, Erith interrogou-se
sobre a sensatez da sua decisão de se mostrar discreta.
- Gostas de bife? - perguntou-lhe Domingo quando ela parecia estar mais a brincar com a comida do que efectivamente a comê-la.
- Está perfeito - respondeu, procurando sorrir. Quando o gelado que pediu como sobremesa chegou àmesa e Domingo tinha abordado todos os temas possíveis de
conversa, menos o que interessava à Erith, a rapariga compreendeu que devia ser ela a iniciar a conversa.
- E verdade, recebeste alguma mensagem?
- Mensagem? - Domingo franziu a sobrancelha e Erith apercebeu-se de que ele sabia muito bem ao que ela se referia e a pergunta não lhe agradava em absoluto.
- Disseste que me ajudarias a encontrar Audra- repetiu a jovem, com firmeza e sem se importar com o ar zangado do seu interlocutor. - Que ...
- Sei muito bem o que disse - interrompeu-a ele rudemente.
- Então, compreendes que quero saber qual o resultado das tuas investigações!
- Julgas que tais investigações se podem realizar em poucos minutos? - perguntou Domingo em tom seco e frio.
Apertando os lábios com força, Erith deixou o seu guardanapo sobre a mesa e levantou-se tensa.
- Obrigada pela sua companhia, senhor. Vou para o meu quarto.
Domingos também se levantou mas não a deteve, com a cabeça ligeramemnte incoinada e com o corpo muito rígido disse:
-Boas Noites.
Quando Erith chegou ao seu quarto descobriu que tremia, abriu a porta entrou-a e fechou-a. Enconstou-se a ela e suspirou. Definitivamente algo a pertubrava
desde que chegaste no Peru e este algo tinha a ver com Domingos. Por que que que é que este homem tinha o poder de pertubá-la desta maneira?
CAPÍTULO 6
Erith ainda não tinha descoberto porque é que Domingo tinha o poder de a perturbar quando, com ânimo abatido, despertou na manha seguinte. Era diferente, devia
admitido ... para não dizer desesperante!
Mas uma coisa estava clara, não podia continuar. Além do dinheiro para a sua passagem de regresso para Inglaterra, ela estava praticamente na miséria ... e
não tinha grandes esperanças de encontrar rapidamente Audra.
Com os ritmo cm que as investigações decorriam era provável que tivesse de viver com ele muito mais tempo. Desceu para a sala de refeições interrogando-se
sobre onde tinha a cabeça, afinal de contas, ao permitir que a tivesse retido este tempo todo.
O seu anfitrião já estava a comer.
- Bom dia - murmurou Erith em tom sombrio e ele respondeu com uma Iria cortesia,
Distraída, Erith agarrou na chávena de cale que estava à sua direita e deu-lhe um sorvo enquanto pensava se seria muito difícil encontrar um emprego que ;i
permitisse permanecer no Peru até encontrar a sua meia irmfi,
Mas logo descobriu que a ideia era inoperante, pois não devia existir no Peru muita oferta de trabalho para uma secretária que não falava espanhol e, ainda
que houvesse, se começasse a trabalhar não teria tempo suficínte para procurar Audra. Estava num beco sem saída!
A jovem teve de enfrentar o facto do que, desde o início, tinha sido uma tonta ao deixar arrastar-se nesta absurda aventura por causa da ansiedade do seu pai
e de Jcan. Tão embrenhada estava nas suas sombrias reflexões, que não se apercebeu que o homem sentado à sua frente a observava com atenção.
- O que é que te preocupa?
Erith levantou a cabeça de sobressalto e olhou para os
olhos cinzentos, penetrantes de Domingo. "Ele sabe muito bem o que me preocupa", pensou com irritação.
- Decidi levar a cabo o que decidi fazer desde o princípio - declarou a jovem com frieza.
- E o que é que decidiste?
- O que é que vai acontecer? - a jovem levantou os ombros. - Regressar a Inglaterra.
- Estás impaciente por te livrares do povo do meu país, não é verdade? - inquiriu ferozmente.
- Nâo é isso! - exclamou Erith, recordando que ele lhe tinha dito que a sua mãe preferia viver na sua França natal e compreendeu que Domingo devia ser muito
susceptível a respeito de qualquer coisa que mostrasse que não gostava do Peru. - Noutras circunstâncias encantar-me-ia ficar para conhecer o teu país. Mas ... bom
.. já sabes qual é a minha situação.
- Puf! - foi o comentário que recebeu do fazendeiro.
Mas Erith pôde ver pela dura expressão do seu olhar, que a sua mente estava a trabalhar. Depois, Domingo disse:
- Parece-me que, uma vez que viajámos até tão longe, mais valia que aproveitássemos a situação.
- A que te referes? - perguntou Erith, com uma estranha expressão.
- Há muito tempo que não tenho férias.
Erith olhou-o firmemente e em seguida pestanejou, sem compreender.
- E eu, o que é que eu tenho a ver com isto? - perguntou a jovem com perspicácia.
- Se levasses as coisas com calma - declarou Domingo em tom aprazível, - podias descobrir que se calhar até gostas.
- Gostar do quê? - perguntou a jovem com crescente suspicácia que o seu interlocutor notou.
- Peço-te que não penses em coisas que, segundo afirmas, desconheces por completo - disse ele arrastando a voz e com um ligeiro tom de gozo.
- Eu ... - o rubor encheu as suas faces devido à insinuação óbvia.
De repente, Domingo deixou escapar um largo sorriso.
- O que apenas estou a sugerir é que poderias gozar enquanto esperas pela tua meia irmã.
- Esperá-la?
- Infelizmente, soube esta manha que o meu sobrinho e ela voltaram ao caminho.
- Que vol ...! - Erith interrompeu-se, compreendendo o impossível da sua missão.
- Há muito que ver no Peru - disse Domingo. - Não soube muito mais, além de uma tal senhorita Billington andar a percorrer o país com Filipe - fez uma pausa,
e em seguida continuou. - Em conclusão, parece-me que vamos levar várias semanas para os encontrar.
- Semanas!
- Semanas - disse ele com ar de desculpa. - O que para mim é impossível. Tenho muito que fazer.
- Com certeza - concordou a jovem.
- Por isso proponho-te que, em vez de ires cegamente atrás deles, vamos eu e tu esperá-los num lugar onde, se é que conheço o meu sobrinho, eles vão a qualquer
momento.
Este pensamento pareceu brilhante a Erith, que olhou com os olhos muito abertos para o seu interlocutor.
- E onde é esse lugar? - quis saber.
- O Lago Titicaca - anunciou Domingo.
- O Lago Titicaca! Domingo concordou.
- Estou seguro de que não vamos ter de esperar muito - declarou.
- Mas ... como sabes que não visistaram já esta lago? - perguntou Erith. - Poderiam ...
- Ainda não o visitaram - interrompeu-a Domingo. - Existe lá um hotel que é o preferido de Filipe, seria impensável que fosse para outro. Ontem telefonei;
não foi lá desde há seis meses para cá.
- Oh - murmurou Erith, e ficou em silêncio por alguns minutos. A seguir disse: - E como parte das tuas férias ... vais esperar comigo em Titicaca?
A resposta dele foi levantar-se da mesa.
- Então, ficamos - disse.
- Espera - deteve-o Erith. Ele voltou-se para a olhar com uma expressão interrogante. - Nesse caso ficamos ... com uma condição.
A expressão arrogante do peruano indicou à jovem que não era um homem que gostasse que lhe impusessem condições. Mas depois de uma longa pausa durante a qual
a olhou com firmeza, ele perguntou:
- E bom, qual é essa condição?
- Sei que no momento estou limitada de dinheiros - disse Erith algo vacilante, mas prosseguiu com mais firmeza: - Mas só irei contigo com a condição de te
enviar o dinheiro que gastes comigo, quando regressar a Inglaterra.
A boca do fazendeiro torceu-se numa expressão irritada e irônica.
- Primeiro terás de regressar - disse friamente. - Depois, se não me engano, terás que encontrar um emprego e ganhar o suficiente para me pagar.
- Essa é a minha intenção - disse Erith.
- Asseguro-te que quando chegarmos ao lago Titicaca terás o teu próprio quarto no hotel - afirmou Domingo, como se a tivesse escutado.
Erith não teve que ser muito perspicaz para saber que o tinha ofendido. Era evidente que tinha interpretado mal as suas palavras, como se ela tivesse dado
a entender que não confiava nele. Certo, antes tinha albergado uma certa suspicácia, mas Domingo tinha dissipado qualquer receio e a sua confiança nele foi total
quando lhe explicou o plano de esperar por Audra e Filipe no Lago Titicaca.
Erith suspirou quando deixou a mesa do pequeno almoço. Domingo era um homem tão complexo! Ou era ela que era complicada? Num momento estava furiosa com ele
e em seguida, como agora, remoia-lhe a consciência ao pensar que o tinha ofendido sem querer. Algo no Peru estava a afectar o seu modo de ser.
Não estava segura de quando voltaria a ver Domingo. Pela forma como estava separado dela, Erith não estranharia se ele a decidisse ignorar como se não existisse.
Mas não foi assim. Quando ela atravessava o vestíbulo, Domingo afastou-se da recepção e aproximou-se.
- Temos reserva no voo das dez e meia para Juliaca - informou-a sern preâmbulos e ordenou: - Prepara a tua bagagem e desce dentro de meia hora.
No momento em que ele se mostrou tão autoritário, desvaneceu-se em Erith todo o arrependimento por tê-lo ofendido.
- Sim, senhor! - proferiu zangada.
Estava no seu quarto, já mais calma, quando recordou que Domingo quase tinha sorrido antes da sua abrupta resposta, quando ela se afastou indignada. Maldito
homem; não queria ser a sua diversão! Oxalá estivesse a arrumar a bagagem para partir para Inglaterra!
Mas nesse momento uma vozinha interior, mais realista, inquiriu: "é verdade que queres ir para Inglaterra?" Nesse preciso momento, recordou com nostálgica
precisão Jahara e o seu encanto irresistível ...
- Este país - suspirou e apressou-se a fazer a mala. Chegaram ao aeroporto de Arequipa com muito tempo.
Erith pensou que devia pedir desculpas a Domingo por o ter ofendido de maneira involuntária.
Por alguns minutos iniciou uma batalha interior com outra parte de si mesma que não queria pedir desculpas. Mas, por fim ganhou a sensatez e o espírito conciliador.
Estavam sentados à espera do seu voo quando ela, de repente, murmurou:
- Domingo ... - quando os indiferentes olhos cinzentos pousaram nos dela, Erith desejou tè-lo deixado a sós com os seus pensamentos. Mas como ele instava com
um sorriso meio interrogante, continuou: - Apenas queria dizer-te que ... falava a sério quando disse que queria reembolsar-te o dinheiro que gastes comigo, e ...
- vacilou, - e que confio em ti, absoluta e completamente.
Ao olhá-lo nos olhos, acreditou que parte do gelo se derretia, mas ele não comentou nada.
Já voavam há alguns minutos quando uma hospedeira lhe serviu "chicha morada", uma bebida não alcoólica feita com milho dourado. Antes que Erith pudesse dar
um sorvo, o avião começou a abanar e ela teve de agarrar na sua bebeida para que esta não se derramasse sobre o seu vestido.
- Aperta o cinto - ordenou-lhe Domingo com amabilidade. Mas, antes de lhe poder perguntar como podia ao mesmo tempo apertar o cinto e agarrar na bebida para
que não lhe caísse em cima, Domingo resolveu-lhe o problema ao agarrar o copo de plástico com a sua mao e beber de uma só vez toda a "chicha".
Depois ocupou-se do cinto de segurança da rapariga. Erith não sabia explicar porque é que se sentia nervosa com as acções do seu acompanhante, talvez porque
gostava de se sentir protegida por ele, pois era uma sensação que nunca tinha sentido antes. Do que apenas tinha a certeza era que começava a sentir-se bem por dentro.
Esse sentimento persistiu durante todo o curto voo. Curiosamente, apesar da acidentada viagem devido à turbulência, a jovem não sentiu medo em qualquer momento.
Ao chegar ao aeroporto de Juliaca, saíram do edifício e Domingo conduziu Erith pelo braço até ao lugar onde os esperava um carro alugado. O Lago Titicaca ficava
bastante longe do aeroporto. Domingo conduzia com facilidade e eficiência, e a rapariga pensou, enquanto contemplava o impressionante planalto andino, que o seu
anfitrião tinha recuperado o seu bom humor.
Já viajavam hã quase uma hora quando Domingo parou o carro numa berma.
- Gostas de ver crescer o trigo?
- O trigo de onde fazem a "chicha morada" que eu provei? - sorriu Erith.
- Covidar-te-ei para tomares outra numa outra ocasiãso - prometeu Domingo e, para reconfortar o coração da jovem ofereceu-lhe um largo sorriso.
Apenas tiveram de atravessar a estrada para se dirigirem até aos terrenos onde crescia o cereal. Parte das maçarocas tinham sido já apanhadas, mas existiam
algumas ainda por apanhar.
- Isto é tão aprazível ... - murmurou a rapariga pasmada, parada nesta elevada planície como se estivesse no cume do mundo.
Afastando o olhar da plantação, descobriu que dois olhos cinzentos estavam fixados nela e apenas pôde respirar ao julgar ter adivinhado um estranho calor,
um brilho especial nesses olhos. Sem respiração, ela teve a sensação de que Domingo queria tocar-lhe ... e fazia um esforço para controlar o impulso! E depois, enquanto
se olhavam, apoderou-se de Erith uma emoção nunca antes experimentada e teve o desejo quase irreprimível de ser tocada por ele.
De repente, Domingo voltou-se e ... e o momento de magia desvaneceu-se.
Erith alegrou-se de regressar ao carro, onde pôde submeter-se a uma séria admoestação, ainda que não se sentisse culpada por tudo, pois já antes tinha notado
o efeito que este país maravilhoso tinha sobre as suas acções e sentimentos.
Erith já tinha conseguido recuperar um pouco e compreendeu que a sua imaginação tinha muito a ver com tudo isto, quando com voz serena e amável, Domingo comentou:
- Estamos muito próximos de umas ruínas que são consideradas pelos conhecedores como os monumentos antigos mais notáveis do Peru ... Queres visitá-las já que
estamos aqui?
- Claro! - respondeu, e sentiu-se muito emocionada quando ele estacionou o carro.
- Receio que tenhamos de subir uma colina íngreme - disse Domingo enquanto começavam a caminhar por um caminho coberto de ervas. - Sentes-te bem?
- Muito bem! - sorriu Erith, mas descobriu que não tinha tanta energia como supunha. - Como se chama este lugar? - perguntou ao parar, aparentemente para contemplar
a paisagem.
- Sillustani - respondeu o seu acompanhante e quando reiniciaram a subida, contou-lhe que esse sítio era o cemitério cereraonial dos antigos chefes de Hutuncola.
Os topos ou torres funerárias pré-colombíanas, pareciam assombrosas para Erith, que logo começou a constatar que não se sentia totalmente bem.
Absurdamente, no entanto, não quis que Domingo desse conta. De modo que, de maneira casual dava alguns passos em seguida parava, com o pretexto de contemplar
o panorama, quando na realidade estava a recuperar o fôlego para continuar a subida.
Com este método conseguiu ir de um lado ao outro da colina. E foi então que viu, para seu deleite e espanto, lá em baixo um enorme e belíssimo lago.
- É o Lago Titicaca?
Domingo, que estava interessado nas torres funerárias, aproximou-se.
- O Lago Titicaca é maior e chega até à Bolívia - sorriu.
- Este é o Lago Umayo.
Dez minutos depois iniciaram o caminho de regresso.
- Obrigada, foi um passeio precioso - disse a Domingo quando entraram no carro e conversaram ligeiramente até chegarem ao hotel.
Foi quando Domingo assinava o livro de registo que a jovem começou a sentir-se doente. Sofreu um ataque de náuseas, que passou logo, e um momento depois, Domingo
acompanhou-a ao elevador.
Tinham chegado ao piso onde se encontravam os seus quartos e ele tinha inserido a chave na fechadura quando Erith voltou a sentir-se mal.
- Rápido! - exclamou com aflição. - Julgo que vou vomitar! - teve uma visão ténue da expressão desconcertada de Domingo antes que entrasse rapidamente em
acção.
Tudo aconteceu rapidamente. E num instante, ele abriu a porta e de seguida levantou-a em braços para a levar de imediato para a casa de banho.
Mas Erith não vomitou.
- Já estou melhor! - exclamou, sentindo-se ainda muito mal, mas contente por não dar um espetáculo desagradável
perante ele.
- Desde quando é que te sentes mal?
- Desde que ... subimos às ruínas - gaguejou Erith.
Domingo barafustou em espanhol e depois por um momento Erith esteve no paraíso quando ele a puxou para que apoiasse a cabeça no seu ombro.
- Rapariga tonta - repreendeu-a com gentileza. - Estou zangado comigo, não contigo.
- Porquê? - perguntou ela, sentindo que as pernas fraquejavam.
- Devia ter notado que não estavas bem.
- Não, eu não quis que ... - começou ela a dizer.e de seguida interrompeu, agarrando-se a ele. - Quero deitar-me - disse com voz débil.
Erith sentiu que nunca tinha gostado tanto de Domingo como neste momento quando, a levantou nos braços e, disse em tom brincalhão:
- Que momento escolheste para me fazer tal convite.
A jovem passou um braço à volta do seu pescoço quando ele a levantou em braços da casa de banho.
- Tenho tanto frio - murmurou, aninhando-se contra ele.
- Eu sei - disse Domingo com suavidade ao sentar-se sobre a cama e ao tirar-lhe os sapatos.
- Que se passa? - perguntou Erith enquanto se tapava com as mantas.
- "Soroche" ... mal da montanha. Ficas boa era poucos dias - assegurou Domingo. - A altitude aqui é muito maior que em Arequipa. Algumas pessoas ficam doentes,
outras não - acrescentou e ao vê-la metida em baixo das mantas com toda a roupa vestida, perguntou-lhe: Não achas que te sentirias melhor se te despisses?
- Não - murmurou a jovem, adormecida, e fechou os olhos.
Erith escutou meio adormecida ruídos no seu quarto quando o empregado entrou com a bagagem e Domingo deu-lhe de seguida instruções em espanhol. Alguns minutos
depois, alguém do serviço entrou e saiu e Domingo ordenou com suavidade:
- Senta-te e toma isto, Erith.
- O que é? - perguntou ela, tentando levantar-se.
- Chá - respondeu Domingo, e Erith voltou a ser dona do paraíso quando ele a agarrou enquanto ela bebeia o líquido quente que não tinha nenhum sabor em especial.
- É o remédio para o mal da montanha.
- Se tu o dizes, aceitarei - murmurou a jovem.
- Aceitarás também que te sentirás muito melhor se vestires a roupa de dormir?
-- Julgo que não tenho forças suficientes - disse ela e sentiu-se aturdida quando, depois de terminar o seu chá, ele a deitou na almofada e lhe entregou a
sua bolsa.
- Necessito das chaves da tua mala - disse-lhe.
A jovem pareceu-lhe mais fácil procurá-las e entregá-las do que discutir. Também não discutiu quando Domingo, depois de abrir a sua mala e tirar a camisa de
dormir, se aproximou da cama disposto a despi-la, dado que ela não tinha energia suficiente.
- Ainda não é de noite! - protestou Erith afastando-lhe as mãos dos botões da sua blusa.
Domingo afastou-lhe as mãos e disse com suavidade:
- Minha querida Erith, entendo que nenhum homem tenha tomado esta liberdades contigo. Mas estás doente e vais sentir-te melhor com a camisa de dormir - e quando
ela o olhou com os enormes olhos suplicantes, acrescentou: - Não tinhas dito que confiavas plenamente em mim?
- Oh, Domingo - ela chorou com tanto sentimento que ele a abraçou com ternura. E então uma paz beatífica invadiu-a. Sentiu-se contente e consolada nestes braços.
Pelo que lhe pareceu uma eternidade, permaneceu abraçada a ele até que, conseguiu forças suficientes para se afastar e dizer:
- Já estou bem.
- De verdade?
- De verdade - sorriu, e sentiu maior conforto e consolo quando ele a beijou com suavidade nos lábios.
Mas o seu tom foi muito formal quando murmurou:
- De qualquer maneira, mantenhamos o que já disse - e colocando a camisa de dormir por cima da cabeça e mantendo os olhos fixos na sua cara, começou a desabotoar-lhe
a blusa. Por um momento a sua mão tocou no peito, mas ela soube que era sem intenção e quando lhe tirou a blusa e ela passou os braços pelas mangas da camisa de
dormir, Domingo desapertou-lhe o cinto das calças e, indo até ao fim da cama, tirou-lhas. Erith estava exausta. - Descansa agora - instruiu Domingo, mas Erith não
necessitava que lhe disesse isso.
A luz do dia brilhava lá fora quando Domingo a acordou e a apresentou a um médico que ela tinha ouvido entrar no seu quarto.
- Não preciso de nenhum médico - declarou a jovem.
- Estou seguro de que não necessitas - tranquilizou-a Domingo. - Mas podias necessitar de algum medicamento para melhorares mais depressa.
O médico não levou muito tempo a verificar que Erith tinha sofrido um ataque de mal da montanha.
- Ficará melhor dentro de um dia ou dois - disse em muito bom inglês e em seguida entregou a Domingo um frasco de comprimidos. - Se não melhorar, têm de descer
para onde a altitude seja menor.
- Obrigada - disse a jovem e encantou-lhe o facto de poder dormir outra vez.
- Não tens apetite? - perguntou Domingo ao regressar ao quarto depois de acompanhar o doutor até à porta.
- Não - respondeu Erith e sofreu um ataque de arrependimento pela sua falta de consideração. - Oh ... estiveste aqui o tempo todo?
- Asseguro-te que só te estive a observar enquanto esperava pelo médico - disse-lhe Domingo, com certa inquietação, segundo ela pôde notar.
- Não me interpretes mal - apressou-se a joven a esclarecer. - O que quero dizer é que se etiveste aqui o tempo todo, deves estar a morrer de fome. Não almoçaste
- a respiração começou a ser difícil. - E já ... deve ser ... quase hora de ... de jantar.
- Shh, cala-te! - Domingo sentou-se na cama que existia junto à Erith e agarrou na sua mão. - Deves conservar a energia e deixar de te preocupar. Não morrerei
de fome - assegurou-lhe. - Agora, achas que podes comer um pouco de sopa?
Depois disto, Erith dormiu em intervalos e passou uma noite inquieta. Ao princípio apenas podia pensar em Domingo e na sua gentileza. Mas quando se aproximaram
as horas da madrugada, os breves ciclos do sono eram perturbados por pesadelos espantosos. Quando despertava pensava com aflicção em que, apesar de ter estado tanto
tempo no Peru, todavia não tinha sequer mandado um postal ao seu pai e à Jean.
Existiam muito boas razões para isso, claro, tentava convencer-se enquanto se interrogava se os ataques de ansiedade era consequência do mal da montanha. Fosse
o que fosse, alegrou-se de ter companhia quando uns minutos antes das seis, Domingo entrou no quarto.
Erith sorriu-lhe. Domingo tinha tomado banho e estava arranjado.
- Como te sentes? - perguntou-lhe ele, aproximando-Se da cama e examinando-a com a mesma atenção que teve antes de sair na noite anterior.
Erith sentiu desejos de chorar, comovida pela sua bondade.
- Muito melhor - mentiu e pôde ver pela expressão incrédula do seu interlocutor que não era fácil enganá-lo.
- Não dormiste bem? - perguntou-lhe ele e a jovem interrogou-se como podia ter percebido. - O que é que te preocupa?
- Oh, Domingo ... o que se passa é que ... pois ... é que ainda não escrevi ao meu pai e à minha madrasta. Sem dúvida que devem estar preocupados ...
- Um telegrama! - Erith olhou-o, estupefacta. - Mas ...que lhes podia dizer?
- Que te parece: "Audra bem e feliz; beijos de Erith"? - sugeriu ele.
Olhou-o com seriamente nos olhos.
- Mas isso seria ... uma mentira, não?
- Não necessariamente - disse Domingo calmamente. - De acordo com as informações que tenho, a tua meia irmã esta a passear em grande.
De repente Erith sentiu-se muito mais tranquila, em paz
consigo mesma e com o mundo.
- Fazes-me o favor de mandar esse recado? - sorriu. Os olhos de Domingo fixaram-se na suave curva dos lábiosfemininos e sorriu apenas para murmurar:
- Por ti, Erith, faço o que quer que seja.
CAPÍTULO 7
Quando acordou no domingo de manhã, à Erith parecia inacreditável que estivesse há quatro dias no Lago Titicaca. Levantou-se da cama e foi à casa de banho,
tomou um duche e alegrou-se ao comprovar que tinha recuperado energias. Já não tinha as pontas dos dedos adormecidas, respirava com normalidade e sentia-se outra
vez animada.
Tinha começado a sentir-se melhor, compreendeu ao sentar-se na cama para escovar os longos cabelos, quando recuperou o apetite e soube que não seria necessário
descer para menor altitude como tinha sugerido o médico.
Reconhecia que era a Domingo que devia agradecer o seu bem estar. Bem estar em mais de um sentido, admitiu. Pois além de zelar para que ela descansasse o necessário
nestes dias de habituação, ele, ao enviar o telegrama para Inglaterra, tinha dissipado em grande medida a sua ansiedade. De facto, a importância da sua busca parecia
diminuir cada vez mais na sua mente desde que chegou ao Lago.
Erith voltou a pensar em Domingo e de repente franziu o sobrolho. Havia algo, que não podia dizer com exactidão o quê, tinha mudado em Domingo, estava segura.
Continuava a ser amável, e a maior parte do tempo parecia estar a meditar.
Começou a sentir-se impaciente consigo mesma. Levantou--se e dirigiu-se até à janela para contemplar o enorme Lago Titicaca.
Depois, os seus pensamentos voltaram a Domingo. Porque é que estava tão sério e meditativo? Além de tudo, estava de férias, não? O ânimo da jovem decaiu quando
se viu obrigada a reconhecer o facto de que na realidade, ele estava de férias, mas se calhar tinha preferido escolher a sua acompanhante em vez de ter de aceitar
as circunstâncias que a impunham.
Com tais pensamentos, Erith não estava muito alegre quando, pouco antes das oito, Domingo bateu à sua porta.
- Pronta para o pequeno almoço? - perguntou-lhe, olhando-a com atenção para constatar o seu estado de saúde.
- Vou buscar a minha mala - disse a jovem e, quando entrou no quarto, interrogou-se se a súbita agitação do seu coração significava que não estava tão restabelecida
como tinha pensado.
- Estás muito calada - comentou Domingo quando, sentados à mesa do pequeno almoço, tinham passado vários minutos sem que ela tivesse pronunciado uma só palavra.
- Sentes-te bem? - perguntou ele.
- Estou bem - declarou Erith, com uma certa agressividade involuntária. - Obrigada - acrescentou para não parecer tão rude.
- Estás aborrecida - concluiu Domingo. - Até agora não estiveste em forma para nenhum passeio. Sugiro que esta manhã ...
- Não! - apressou-se ela a interrompê-lo: - Não é ... justo para ti - acrescentou.
- Que não é justo?
- Estás de férias. Não tiveste opção de me escolher como acompanhante - explicou a jovem. - És tu quem devia estar aborrecido de ...
- Minha querida Erith - interrompeu-a Domingo, voltando a adoptar esse tom entre o terno e o burlão que ela começava a não gostar, - Faz o favor de te calares.
- Mas ... - quis protestar a jovem ainda, sentia uma ligeireza no coração.
O coração alterou-se ainda mais quando, com um brilho jocoso nos olhos, ele disse:
- Pensa você, senhorita, que se me aborecesse ou não quisesse a sua companhia, sugir-lhe-ia que me acompanhasse às ilhas flutuantes?
- Não ... eu ... As ilhas flutuantes? - gaguejou Erith.
- Pensei que isso despertaria o teu interesse - sorriu e Erith devolveu-lhe o sorriso.
Uma hora depois, Domingo conduzia-a por um caminho até à beira da água onde um homem estava a cuidar de uma lancha com motor. Domingo trocou algumas palavras
com o homem e entregou-lhe alguns bilhetes; em seguida voltou-se para oferecer uma mão a Erith e ajudã-la a subir a bordo.
Ao princípio, Erith pensou que o homem iria com eles, mas quando Domingo ligou o motor do pequeno barco, a jovem compreendeu que realizariam a viagem sozinhos.
A partir de então, e durante umas horas, Erith passou os momentos mais encantadores da sua vida.
As ilhas flutuantes eram na realidade montículos com vegetação que às vezes eram arrastados à volta do lago ou ficavam retidos pelas largas raízes. Os índios
Uro eram os habitantes dessas ilhas. Domingo fez gala dos conhecimentos sobre o lugar, enquanto desembarcavam numa das ilhas em que o solo era de junquilhos.
- Tenho sabido que os Uro de sangue puro têm desaparecido desta região - disse-lhe enquanto dirigia a lancha. Depois ajudou a jovem a descer e conduziu-a até
um lugar onde as mulheres cobertas com chapéus de palha trabalhavam na produção de artesanato para venda.
- Estas pessoas não são índios Uro? - perguntou Erith, parando quando com um sorriso tímido e movimentos das mãos, uma das nativas a convidava a observar um
tapete que estava a bordar.
- São descendentes dos Uro, mas têm mistura de sangue Aymara - informou-a Domingo e foi nesse dialecto, Aymara, que falou com um grupo de homens que pareciam
participar no que a ela lhe parecia uma dessas competições em que dois grupos puxam uma corda.
- O que estão a fazer? - quis saber com precisão. Durante um momento ele olhou-a sem dizer nada e ela sentiu-se de imediato tensa e sem respiração. Teve a
estranha sensação de que Domingo a ia beijar. Apenas respirava quando, incapaz de mover um só músculo, continuou a olhá-lo; depois, ele afastou o olhar.
- Parece que faz mais falta espaço agora que vão casar dois jovens membros da comunidade - disse Domingo. - Estão a fazer uma casa de junquilhos entrançados.
Saíram da ilha depois de Domingo ter feito um donativo para a escola construida de junquilhos, e seguiram até outra ilha onde Erith recuperou o equilibrio
que a sua transbordante imaginação lhe tinha feito perder um pouco antes, quando julgou que ele ia beijá-la, e recuperou a tranquilidade.
A principal indústria nessa ilha parecia ser a pesca e observou fascinante as filas de peixe que depois seriam cozinhados sobre uma pedra quente. Erith soube
logo que os peixes assim cozinhados eram levados mais tarde ao mercado.
- Foi maravilhoso - comentou Erith pouco depois quando deixaram a ilha com as suas cabanas de palha e gente simpática, e Domingo guiava a lancha entre os juncos
altos.
- Passaste bem? - perguntou Domingo, dirigindo-lhe um
olhar simpático e alegre.
- Claro! - respondeu ela, com um brilho de regozijo nos olhos. Voltou-se no seu lugar para percorrer com o olhar a distância que tinham navegado. - É tão aprazível,
tão tranquilo.
- Paradisíaco - acrescentou Domingo e sorriu, e Erith soube, nesse justo momento, que neste homem existia algo especial.
- Não me importa se pensas que exagero neste meu entusiasmo - indicou a jovem. - Esta é a minha primeira visita ao Lago Titicaca e ... - vacilou, quando subitamente
a assaltou o desconsolo ... - e se calhar a última.
O silêncio reinou no barco por um momento; depois Domingo indicou:
- Essa parece ser uma boa razão para que prolonguemos a nossa viagem pelas águas - e, perante o olhar interrogante dela, sugeriu: - Que te parece um almoço
no meio do lago?
- De veras? Pode-se? - inquiriu Erith com uma agitação quase infantil. Foi toda a resposta que ela esperava; continuaram a navegar ainda durante outra hora
e meia e logo que chegou a águas pouco profundas, povoadas de junquilhos, apagou o motor.
Erith descobriu que gostava muito dos almoços no meio da natureza com Domingo.
A conversa entre ambos era fluida e espontânea, enquanto Erith mordiscava uma sandes e via Domingo abrir uma garrafa de Inça Kola para servir o refresco num
copo que depois lhe ofereceu. Nesse momento sentiu que estava realmente em férias com ele.
Longe da sua mente estava qualquer pensamento sobre Audra ou a sua família em Londres, quando terminou o seu almoço com uma fatia de tarte e depois lavou os
dedos nas águas claras de Titicaca.
O lago estendia-se até onde a sua vista alcançava, com as montanhas ao fundo. A claridade da água era assombrosa e as nuvens brancas reflectiam-se perfeitamente
na vasta imensidão aquática.
Depois, no entanto, a paz do lugar teve um efeito soporí-fero e ela encostou-se contra as costas do assento da embarcação, sentindo um delicioso adormecimento.
- Estas nuvens são altas ou chuv ...?
- Perguntas-me a mim? - inquiriu ele com voz divertida e ela saiu da sua sonolência ao soltar uma gargalhada e voltar a olhá-lo.
- O teu inglês é tão bom que por vezes esqueço que não é a tua língua materna - disse-lhe ela e, ao notar que ele fixava o olhar na sua boca sorridente durante
um momento, a jovem voltou a sentir-se tensa.
De repente, soube que desta vez não estava a imaginar, esteve segura de que Domingo não só queria beijá-la, como ia fazê-lo.
- Domingo! - sussurou o nome com voz melada e o tom pareceu-lhe a ela mesma um convite.
E foi um convite que ele não recusou e um instante depois os seus braços abraçavam-na. Sem receio, ela fundiu-se contra ele e um momento depois as suas bocas
uniram-se.
Ela nunca soube, nem se importou em saber, quanto tempo durou esse beijo. Apenas estava consciente de que nunca a tinham beijado assim.
- Erith - murmurou o seu nome com intensidade apaixonada ao apertar os seus lábios aos dela e quando a jovem lhe sorriu com suavidade, voltou a beijá-la.
E de repente Erith percorreu uma viagem de descobrimentos. Apercebeu-se que também achava irresistível a boca de Domingo. Mas queria mais. Respondia com ânsia
aos seus beijos. Os seus corpos fundiram-se num abraço cada vez mais estreito e apaixonado.
- Domingo! - sussurou ela quando as mãos espertas lhe acariciaram o pescoço.
Ele voltou a beijá-la e ela rodeou-o com os seus braços pura o abraçar com força. Então, sentiu uma das mãos masculinas descer até capturar e acariciar um
dos seus seios, e experimentou uma sensação que nunca tinha sentido na sua vida.
Quando a outra mâo desceu até ao fecho das calças, Erith abraçou-se a ele com veemência. Mas quando os largos e sensíveis dedos de Domingo começaram a desapertar
as calças, a jovem descobriu outras coisas. A primeira, que não se negaria a este homem. E a outra descoberta foi tão estremecedora que por um momento superou o
desejo que Domingo despertava nela. Pois essa descoberta, inusitada, inocultável, era que ... estava apaixonada por ele!
- Oh! - gemeu ela. Estava tão perturbada que fez um repentino movimento convulso e, sem querer, afastou as mãos de Domingo.
Ele afastou-se e Erith sentiu ora alívio ora ansiedade. Queria pedir desculpa, mas não sabia de quê, de modo que permaneceu sentada sem dizer nada, mas em
silêncio consternado, olhando hipnotizada as mãos de Domingo, agarradas ao leme.
Durante muitos minutos permaneceram assim, ambos em silêncio. Depois Domingo inclinou-se para a frente e acendeu o motor.
- Se calhar deveríamos regressar ao hotel - disse com voz tensa. Erith não soube que responder.
Todo o seu ser voltou a renascer quando, depois de amarrar o barco ao ancoradouro, ele se voltou e agarrou nas suas mãos para a ajudar a pôr-se de pé. No entanto,
uma vez em terra firme, Erith, com a pele a arder devido ao contacto com a dele, afastou as mãos com rapidez. Pareceu-lhe que Domingo dizia outra maldição em espanhol,
mas não se atreveu a olhá-lo para se certificar se o tinha ofendido.
Sentia a incontrolável necessidade de voltar a ser ela mesma e queria correr pela inclinada colina para chegar ao hotel. Desejava que Domingo a tocasse e,
no entanto, devido ao que podia provocar nela, considerava que não a devia tocar outra vez. Não obstante, em nenhum momento se tinha sentido tão sensível à sua presença
como quando subiam pelo caminho que conduzia ao hotel.
Ereth não tinha a menor ideia do que é que ele pensava enquanto procurava as chaves dos quartos, mas o silêncio de Domingo era absoluto. Depois, a jovem chegou
à conclusão que, realmente o tinha ofendido, não só por lhe ter afastado as mãos de forma brusca uns momentos antes, mas também por ter respondido de maneira tão
veemente aos seus beijos, para depois interpor entre eles um muro de contenção.
Quando chegaram ao quarto da jovem, Domingo abriu a porta e entregou a chave à Erith. Em seguida, quando ela estava convencida que o seu anfitrião não voltaria
a falar-lhe, voltou-se e sugeriu-lhe em tom aprazível:
- Se calhar é melhor descansares esta tarde. Maldição, disse para consigo uma vez sozinha. Sentou-se cora irritação num cadeirão e confrontou-se com o facto
de que, se calhar ainda tinha de agradecer à sua boa sorte porque Domingo foi um verdadeiro cavalheiro e teve controle suficiente dos seus impulsos, dificilmente
poderia descansar esta tarde.
Fisicamente podia fazê-lo, admitiu conforme começaram a passar o minutos, mas a sua mente estava tão confusa e atormentada que parecia não existir escapatória.
Depois de umas quantas horas de suplício mental sem poder concentrar a sua mente em nada que a tranquilizasse, decidiu tomar um duche.
Mas foi em vão, apercebeu-se enquanto a água percorria o seu corpo. Domingo e a imensidade da sua própria preguiça continuavam a torturá-la apesar do movimento
da água. Como é que tinha sido tão estúpida para se apaixonar por ele? Ele não lhe tinha dado nenhum motivo e sem dúvida que ficaria estupefacto se descobrisse.
Mas ela procuraria que ele não viesse a saber, com certeza.
Como tinha feito várias vezes nas últimas horas, Erith procurou qualquer raio de esperança no sentido de ele também lhe ter algum afecto. Achou incentivador
acreditar, devido a um comentário que tinha feito, que Domingo sentia por ela alguma simpatia; mas a simpatia, disse com renovado pessimismo, estava muito longe
de ser amor. Nem sequer via motivo para se alegrar no facto de ter sentido desejo por ela. Além de tudo era um homem, não? E um jovem, vigoroso, e sem dúvida com
muitos impulsos sexuais saudáveis.
Erith no entanto pensava em Domingo e em que devia sair deste país e afastar-se dele o mais rapidamente possível, quando saiu do duche e começou a secar-se.
Então apercebeu-se de que não tinha levado roupa interior limpa para a casa de banho.
Envolveu-se na toalha e estava quase a abrir uma gaveta do toucador quando, para seu alarme, a porta do seu quarto se abriu de repente.
O seu alarme desapareceu um pouco, mas não por completo, quando viu que o intruso era Domingo.
Consternada pela maneira agressiva com que ele a estava a olhar, Erith fez um juízo de valor para mostrar aprumo.
- Podias ter batido na borta antes de entrar! - protestou, ajustando atoalha.
- E fi-lo! - respondeu Domingo. -- Não tens sensatez suficiente para fechar o trinco da tua porta? - percorreu-a com um olhar furioso dos pés à cabeça e fechou
a porta com violência. - Qualquer um podia ter entrado!
- Eu ... - começou ela, mas viu que não tinha defesa. Sentia-se submersa num mar de vulnerabilidade e não encontrava nada para dizer.
Demasiado tarde, compreendeu que o que estava a sentir devia estar a manifestar-se no seu rosto, porque de repente toda a agressividade de Domingo desapareceu
e, depois de dar alguns passos até ela, perguntou com suavidade:
- Sentes-te bem, Erith?
- Estou ... estou bem - vacilou, mas alarmou-se mais quando ele se aproximou mais e a olhou com olhos penetrantes, corno se quisesse entrar na sua alma.
- Estás segura? - perguntou e quando lhe pôs as mãos frescas sobre os ombros, o coração de Erith disparou. - Não quis assustar-te ... lá no lago - murmurou
Domingo.
As emoções de Erith estavam em tal desordem nesse momento que prestou pouca atenção ao facto de que Domingo tentava tranquilizá-la. Tudo o que sabia era que,
de alguma maneira,teria que disfarçar os seus sentimentos mais profundos.
Tentou ocultar a sua agitação ao responder:
- Não te preocupes.
- Não me preocupe! - excalmou Domingo, mas existia algo na sua voz, já não era amável ou solicita, que denotava o seu desagrado perante a atitude da jovem.
- Já fui beijada antes - declarou ela e procurou ir até à casa de banho.
- Não duvido - disse ele e deteve-a, agarrando-a com força nos braços. - Mas nunca tinhas correspondido ... assim - e antes que pudesse reagir abraçou-a.
- Não ... - foi tudo o que pôde dizer antes que a boca de Domingo encontrasse a sua.
Não, tinha querido protestar outra vez, mas não pôde e, em menos de uns segundos , quando Domingo a agarrou com veemência, já não sabia que protestar.
Estava abraçada a ele quando os seus beijos se tornaram menos apaixonados, mais ternos e gentis. Continuou a abraçá-lo quando lhe beijou o ombro e o pescoço,
até voltar a exigir a sua boca. Quando a levantou nos braços e a conduziu até à cama, ela não se opôs.
Estremeceu quando Domingo se deitou ao seu lado. A toalha apenas a tapava agora, mas ela importou-se pouco com a sua semi-nudez.
- Erith, minha doce Erith - sussurou Domingo de forma acariciadora e intensa provocando arrepios de prazer na jovem.
- Oh, Domingo! - suspirou e ele beijou-a com enorme suavidade. Em seguida acariciou-lhe o rosto e o pescoço com os dedos que apenas tocaram, e quando o seu
beijo se intensificou, agarrou-a com mais força. Amava-o, estava apaixonada por ele e, quando os dedos de Domingo desceram para se apoderarem dos seus seios, amá-lo
era tudo cora que se importava.
- Gostas? - sussurou Domingo.
- Sim ... sim, muito - murmurou a jovem com prazer e sentiu a necessidade de lhe tocar.
Estendeu uma mâo tímida até aos botões da sua camisa e ficou encantada quando ele lhe agarrou na mâo, e a levou aos lábios e depois, desabotoando ele mesmo
a camisa, a despiu.
- Oh! - sussurou Erith deleitada quando o firme peito peludo dele se apertou contra os seus seios nús.
O tempo parou enquanto se beijavam e acariciavam. Seguidamente, a jovem sofreu um breve e involuntário ataque de pudor quando ele começou a tirar-lhe a toalha
que a cobria parcialmente.
- Não ... - sussurou com certa agitação.
- Não? - perguntou e olhou-a com um sorriso meio compreensivo. Ela engoliu saliva e também esboçou um sorriso trémulo.
- Lamento - desculpou-se e, depois de um suspiro, acrescentou: - Se ... se.
- Minha vida! - murmurou Domingo, mas em vez de lhe tirar a toalha, levantou as duas mãos para a agarrar no rosto. Em seguida beijou-a com infinita ternura.
Oh, Domingo, amo-te tanto ... tinha querido dizer-lhe, mas não podia fazê-lo; apenas podia mostrar quanto o amava tirando ela mesmo a toalha para lhe oferecer
toda a sua nudez.
- Oh, Domingo! - gemeu e gozou toda a sua própria nudez ao levantar os braços para o rodear com eles e abraçá-lo.
Ouviu-o emitir um gemido de prazer, escutou as palavras de carinho que lhe sussurrou ao ouvido e conheceu novas sensações quando a acariciou com maior liberdade.
- Minha querida, meu amor - disse ao descobrir a sua total nudez e, fazendo-a corar, afastou-se um pouco para a percorrer com um olhar ardente. - Que bela
que és! estendeu uma mão para passar com os seus dedos nas pontas escuras dos seus seios, Uma mão estava num dos peitos quando ele tirou outra peça de roupa. Depois
voltou-se novamente para ela e agarrou-a, entrelaçando as pernas.
- E de estranhar que não possa manter as mãos afastadas de ti? - sorriu Domingo.
- Não podes? - perguntou ela num murmúrio sensual.
- É necessário que as mantenha afastadas? - perguntou.
Mas quando ela abriu a boca para responder com um sorridente e definitivo "não", alguém bateu à porta. Por um momento Erith não ligou. Depois voltaram a bater,
e de repente, ao recordar como Domingo tinha entrado ao não receber resposta à sua batida, a timidez e o pudor voltaram a instalar-se na jovem e um uni tirito de
medo perante a possibilidade de alguém podei entrar e vê-la nua na cama com Domingo, também meio nu, Erith correu até à casa de banho. Com os dedos a tremer trancou
a porta.
Tapou-se com outra toalha e sentou-se à beira da banheira. Depois escutou que Domingo abriu a porta. Escutou uma troca de vozes e depois, a porta fechou-se,
mas ela ainda tremia tanto que desejava correr com todas as suas forças para Domingo, ser abraçada e consolada por ele. Foi então que percebeu que o que tinha acontecido
entre eles um momento antes, não era esse tipo de consolo ou carinho.
Apercebeu-se que, ainda que Domingo a desejasse tanto como ela a ele, não havia outra coisa no seu abraço amoroso além do mútuo prazer.
E isso não era o que ela procurava, devia ser honesta com os seus próprios sentimentos. Não recusava o prazer físico, com certeza, mas como parte de algo mais
amplo e profundo. Durante longos e agitados minutos permaneceu na casa de banho sentindo-se confusa, desconcertada. Queria que Domingo compreendesse que, por não
ter estado nunca numa situação tão íntima com nenhum homem, sentiu-se perturbada quando alguém bateu à porta e o seu primeiro impulso foi correr para se esconder.
Foi então que deu conta que Domingo devia estar à espera que saísse da casa de banho e quase desejou que ele mesmo a fosse lá buscar. Tinha a sensação de que
tudo o que ele tinha de fazer era chamá-la pelo seu nome.
Mas não a chamou e de repente os seus ouvidos atentos avisaram-na que Domingo se tinha cansado de esperar. Ouvia a porta do quarto abrir e fechar-se; estava
tão perplexa com tudo o que tinha acontecido nesse dia que não podia dizer se se alegrava ou lamentava que ele tivesse ido embora.
Ainda tremia com força quando se pôs de pé e com o coração acelarado, voltou ao quarto. Estava vazio. Domingo tinha saido, na verdade. Sobre a cama estava
um monte de roupa limpa e passada que ela tinha entregue à empregada. E a única recordação do apaixonado abraço de momentos antes era a toalha com que ela se tinha
tapado, a qual estava no chão, no outro lado da cama.
Quando os ponteiros do seu relógio se aproximavam cia hora que tinha combinado com Domingo para a ir buscar para jantar, Erith tinha percorrido uma série de
emoções.
Mas não sabia como ia esconder o seu amor por ele, ou mostrar que não estava apaixonada, quando a sua reacção apaixonada quase tinha anunciado aos quatro ventos
o que sentia. Em certa altura pensou que preferiria ficar sem jantar nessa noite do que voltar a encontrar-se com Domingo, Mas isso seria ainda mais revelador, compreendeu.
Várias vezes passou pela sua mente a ideia de que ele não passaria por ali para a vir buscar. Não era a primeira vez que se tinha mostrado tão apaixonada nos
seus braços, para depois ficar inibida. Se calhar tinha ficado farto do seu comportamento vacilante, e tinha decidido que Erith podia morrer de fome antes que voltasse
a ir buscá-la.
Contudo, não foi assim, pois uns minutos depois ouviu baterem à porta. Imediatamente o coração da jovem começou a bater com violência e o seu rosto corou enquanto
foi abrir.
Domingo, alto e direito, olhou-a; os seus olhos cinzentos eram amáveis ao olharem para o seu rosto envergonhado.
- Tens fome? -perguntou aprazivelmente, observando-a com atenção, ainda que nele nada denotasse que recordava o momento de paixão que tinha havido entre eles
os dois, ou que ela tinha ficado nua, nos seus braços.
- Estou a morrer de fome - respondeu a jovem e conversando tranquilamente desceram até à sala de refeições. Erith descubriu, para seu espanto, que se sentia
muito mais tranquila com ele do que tinha pensado.
Ainda que não pudesse dizer com certeza se Domingo estava deliberadamente a fazer todo o possível para que ele se sentisse bem. Mas, quando Erith começou a
jantar, pensou que podia ser esse, o encanto natural do seu acompanhante ou que ela até agora se tinha preocupado sem necessidade. Era possível que tivesse dado
à cena mais importância do que ela na realidade merecia? Podia ser que ao estar pela primeira vez na sua vida numa situação de semelhante intimidade com um homem,
ela tivesse exagerado tudo na sua mente?
Mas não teve tempo de aprofundar a sua autoanálise porque, uma vez terminado o primeiro prato, Domingo estava a contá-la uma cena referente à sua infância.
Ela não sabia como tinham chegado ao tema, mas, amando-o como o amava, desejava saber mais e mais coisas sobre ele.
- Passaste a tua infância no Peru, suponho - deduziu.
- Vivi aqui o tempo quase todo - assinalou ele. - Mas como a minha mãe vivia em França, passava longas temporadas lã.
- Ah - murmurou Erith e pensou que tinha a resposta à pergunta que antes tinha feito a respeito de se a mãe de Domingo tinha deixado o Peru antes da morte
do seu pai.
- O que queres dizer com esse "ah"? - perguntou-lhe Domingo e, com uma espécie de sorriso brincalhão que curvava nos lábios do peruano, Erith sorriu também.
- Os teus pais estavam divorciados? - perguntou ela por sua vez.
- Não - respondeu. - Separaram-se, mas o meu pai amava tanto a minha mãe que não quis que ela partisse por completo. A sua grande ilusão era que ela regressasse
um dia para o seu lado.
- Para Jahara? - quis saber Erith, feliz com o facto de Domingo lhe estar a contar estas coisas.
- Foi ali que viveram o começo do seu casamento - revelou. - Mas a minha irmã não tinha mais de seis meses quando a minha mãe declarou que não podia viver
noutro lugar que não fosse a França e partiu, levando com ela a Margarida.
Erith ficou em silêncio por um momento enquanto assimilava o que Domingo lhe tinha contado.
- Mas o teu pai não a seguiu? - perguntou logo.
- Não. Amava-a, mas nunca quis deixar Jahara. Passaram-se seis anos antes que voltasse a vê-la; a ela e a Margarida.
- E a tua mãe ... continuava a amá-lo?
- É possível. Regressou ao Peru para tentar outra vez e foi então quando nasci eu. Quando decidiu pela segunda vez que queria viver em França, o meu pai insistiu
para que me deixasse com ele.
- Oh, meu Deus! - exclamou Erith. - Deve ter sido terrível para ele.
- A amargura do meu pai aumentou quando, compreendeu de que ela nunca iria deixando atrás o filho, ela preferiu a França.
Erith compadeceu-se do pai de Domingo.
- Alguma vez a tua mãe regressou? - perguntou com suavidade.
-- Nem sequer para o funeral quando, amargurado ele morreu num acidente com uma máquina agrícola ... acidente que nunca devia ter acontecido.
Erith ficou em silêncio, interrogando-se se o que Domingo queria dizer era que o seu pai se tinha descuidado de propósito ao usar a máquina.
Então Domingo olhou-a com intensidade e perguntou:
- O que é que achas, Erith? Julgas que uma mulher por amor deve ficar no país do seu marido?
- Pois ... - começou ela a dizer e calou-se. Baixou o olhar para o seu prato vazio e soube que se o homem a quem amava lhe pedisse que ficasse com ele em
qualquer país deste planeta, ainda que não fosse um lugar tão edílico como Jahara, ela ficaria ao seu lado.
- Então? - insistiu Domingo quando ela vacilou demasiado.
Erith voltou a olhá-lo e viu que ele a estava a observar com atenção. Num momento de pânico, interrogou-se se Domingo tinha adivinhado o que sentia por ele,
mas de seguida compreendeu que não podia ter a menor ideia, já que, a assim ser, ela estava segura de que tinha evitado por completo o tema do amor.
- Eu diria que ... esse tipo de situações não existiriam se ... se desde o princípio existisse honestidade no casal.
- Honestidade? - perguntou Domingo em tom repentinamente áspero, fazendo-a compreender que o tinha ofendido, insinuando que os seus pais não tinham sido sinceros.
- Não me referia aos teus pais em particular - apressou--se a explicar, começando a sentir-se incomodada. - Ainda que ... parece-me que se pode evitar muita
infelicidade quando desde o princípio se fala com franqueza de certas coisa, se cada um sabe o que o outro espera e deseja,
- Parece-me que a franqueza é muito importante para ti, verdade? - perguntou Domingo com a voz tensa.
- Parece-me ser a base de um relação sã e estável, não achas? - comentou Erith, mas quando ele não respondeu compreendeu que o entendimento que parecia ter
surgido entre eles, tinha desaparecido.
Durante os trinta segundos seguintes Erith culpou-se pelo presente estado das coisas. Bem, ele tinha-lhe perguntado a sua opinião sobre se uma mulher devia
viver com o esposo onde ele quisesse, mas, havia necessidade de o ter aborrecido com as suas pedradas sobre a sinceridade?
- Quando é que a tua irmã regressou ao Peru? - Erith tentou mudar levemente o tema; não queria zangar-se com Domingo.
No entanto, ao princípio pensou que o tinha aborrecido tanto que ele não lhe responderia. De qualquer maneira, ele parecia um homem muito apagado numa profunda
reflexão. Mas, quando Erith começava a detestar-se por tê-lo ofendido ou incomodado de alguma maneira. Domingo saiu da sua reflexão e deu conta de que existia uma
pergunta para responder.
- Margarida vinha com frequência a Jahara quando era pequena -- respondeu. - Tinha dezassete anos e estava em Jahara quando se apaixonou por um diplomata.
- Foi o homem com quem se casou?
- Sim. casou com ele, teve Felipe e depois deixou de gostar dele - Erith já sabia que os pais de Filipe estavam divorciados. Mas quando ia perguntar ao seu
interlocutor uma ou outra coisa mais sobre Margarida, ele interrompeu-a com uma pergunta. - Queres café?
Erith soube que ele estava aborrecido com o tema e com o pequeno sermão dela sobre a honestidade. Parecia que tinha chegado o momento de ir dormir.
- Não, obrigada - sorriu e continuou a sorrir ao acrescentar: - O jantar estava delicioso, mas, se me desculpas, gostaria de ir para o meu quarto.
Domingo levantou-se e Erith fez o mesmo um segundo depois.
- Boas noites - disse Domingo
- Boas noites - respondeu ela e sentiu-se algo desamparada quando, pela primeira vez sem acompanhante, subiu para o quarto.
Era possível que ele tivesse ficado na sala porque queria muito uma chávena de café, disse a jovem enquanto subia pela escada. Mas não era isso, sabia que
não era isso.
Não sabia qual era a razão pela qual ele tinha permanecido na sala, mas o amor tinha-a deixado muito perceptiva no que se referia a Domingo. E soube de repente,
que ele era sem dúvida um homem com muitos problemas.
CAPÍTULO 8
Depois de uma tortuada noite mal dormida, Erith voltou a despertar pela manhã pensando outra vez no homen que lhe tinha cativado o coração. Era quase um milagre
que Domingo ainda não se tivesse dado conta da profundidade dos sentimentos que ela tinha em relação a ele.
Mais que um milagre, decidiu, quando pensou na forma em que tinha respondido aos seus beijos e às suas carícias. O rubor encheu-lhe o rosto, e logo desapareceu
a côr quando as odiosas setas de ciúmes a fizeram começar a aperceber de que se calhar existia uma boa razão para que Domingo não tivesse visto nada de extraordinário
na forma como ela o tinha abraçado. Atormentou-a a ideia de que talvez ele não se tivesse apercebido do quanto o amava, porque estava habituado a essa reacção em
todas as mulheres que abraçava e beijava.
Quando a dor se tornou insuportável, Erith, procurando afastar da sua mente tais pensamentos, levantou-se da cama, tomou duche e vestiu-se. Apenas tinha passado
o pente pelos cabelos quando alguém bateu à sua porta.
Descalça e imaginando que se calhar era um empregado que se tinha enganado e lhe levava o pequeno almoço de outro quarto, foi abrir. Enquanto uma mão agarrava
a porta, a outra afastava da cara uma madeixa de cabelos.
Mas essa acção pareceu congelar-se quando descobriu que não era um empregado do hotel quem ali estava, mas sim Domingo.
- Oh ... olá - saudou-o, com a voz enrouquecida pela surpresa. - Eu ... pois ... - procurou dizer algo, mas descobriu que a forma como Domingo a observava
e o desconcerto de o ver à porta, tinham paralizado a sua capacidade de discernimento.
- Bons dias - saudou-a com a voz calma, desviando o olhar até aos cabelos da jovem. - Poderia sugeri qui tomássemos o pequeno almoço mais cedo esta manhã'?
De repente voltou a activar-se o cérebro de Erith. Pelo que sabia de Domingo, estava segura de que não iria ao seu quarto fazer tal sugestão, já vestido e
arranjado a esta hora, sem uma boa razão.
No entanto, o seu tom seco indicou à jovem que ele não se sentia melhor humorado do que quando se separaram na noite anterior. O orgulho era mais que muito.
- Existe alguma razão especial para o fazer? - perguntou com certa arrogância.
- Hoje voaremos até Lima - anunciou Domingo, sem se alterar. - Gostaria que fossemos para o aeroporto às oito e meia.
Se lhe tivessem dado um bofetão, Erith não se teria sentido mais desconcertada e ferida. Era óbvio que Domingo tinha dado conta do que ela sentia por ele.
Sem dúvida que tinha decido acompanhá-la a Lima para a pôr num avião para Inglaterra e livrar-se dum amor que não desejava.
- Podia estar pronta às sete e meia, se for necessário - ouviu-se responder como uma pessoa orgulhosa que enfrenta a humilhação com altiva indiferença. - Mas
para quê tanta pressa?
- Sei exactamente onde se encontram a tua meia irmã e Filipe - declarou ele para espanto absoluto da jovem.
- Mas ... - gaguejou ela e calou-se, desconcertada. Sentia-se tonta e assombrada. - Entendo - murmurou enquanto tentava ganhar tempo para recuperar a postura.
- Queres dizer que ... sabes com precisão ... que não vêm para Titicaca?
- Exactamente.
Era tudo o que ela necessitava de saber.
- Descerei de seguida para tomar o pequeno almoço. Sentiu que amava e odiava Domingo ao mesmo tempo
quando o ouviu dizer, arrastando as palavras:
- Se fosse a ti colocava uns sapatos - e deixou-a ali. Erith nem sequer tinha dado conta que ele lhe tinha visto os pés descalços.
As oito e meia estavam na estrada. Domingo estava embrenhada nos seus próprios pensamentos, e Erith pensou que antes lhe cortassem a língua do que ser ela
a começar a conversa.
Mas não podia assegurar que os seus próprios pensamentos fossem muito levianos e alegres. Tinha-a afectado muito saber que por fim Domingo tinha recebido a
informação exacta sobre o paradeiro de Audra e Filipe, mas horrorizava-a mais o facto de que, uma vez que falasse com a sua meia irmã, teria de ir para Inglaterra.
Em consequência, Erith experimentou uma dor quase física quando Domingo e ela apanharam em Juliaca o avião até Lima. Hã muito que se tinha evaporado o alívio
que sentira poucas horas antes quando confirmou que o segredo do seu amor por ele se mantinha a salvo. Sem dúvida, que se alegrava muito de que a viagem a Lima fosse
para se encontrar com Audra e Filipe, e não para a mandar para Inglaterra por ter descoberto o amor que nutria em relação a ele. Mas Erith não sabia como enfrentar
o facto de ter de se afastar de Domingo para sempre.
A ideia de estar longe dele toda a vida, era demasiado dolorosa. E de repente apercebeu-se de que começava a falar, procurando a conversa como forma de se
distrair dos torturan-tes pensamentos.
- Sabem ... Audra e Filipe que ... que vamos até Lima? - perguntou de repente.
Domingo voltou a olhá-la por um segundo e Erith notou frieza nos seus olhos ao responder:
- Não estão em Lima.
- Não estão! - exclamou Erith desconcertada, interrogando-se porque é que então iam para Lima atrás deles se eles não estavam lá. - Mas disseste ...
- Não disse que estavam em Lima -- interrompeu-a Domingo com brusquidão.
- Não, mas ... começou a dizer Erith, mas interrompeu-se ofendida pelo tom seco e irritado do seu interlocutor. O seu orgulho não lhe permitia suportar esse
tom , nem sequer do homem por quem estava apaixonada. Com tom frio, mas controlado, perguntou:
- Podias, se calhar, dizer-me com exactidão onde é que eles estão ?
Domingo voltou-se e congelou-a com um olhar frio.
- Em Trujillo - disse.
- E onde fica Trujillo?
Domingo voltou a olhá-la de forma desprezante e superior para lhe responder:
- Ao norte de Lima.
O orgulho tinha decretado à jovem que não lhe dirigisse a palavra, mas tinha outra pergunta na ponta da língua.
- Então seguimos para Trujillo? - formulou a que lhe parecia a pergunta mais lógica e mais natural do mundo, mas recebeu do seu interlocutor um olhar de desespero.
- Trujillo fica apenas a quarenta cinco minutos de Lima - declarou ele tentando conter a irritação.
- Sim, mas ...
- Quando chegarmos a Lima telefonarei a Filipe e ele encontrar-se-ão connosco.
Ainda que amasse Domingo, isso não significava que às vezes não o odiasse quando se comportava desta maneira, pensou Erith zangada. Apenas estava a fazer algumas
perguntas lógicas e naturais, por Santo Deus! O que é que ele pensava que ela era, uma espécie de ... de robot?
Erith revoltou-se em silêncio contra o autoritário e bruto que estava ao seu lado. Como é que podia estar seguro, e certo, de que Filipe lhe obedeceria ? Além
de tudo, o jovem já não trabalhava para ele.
Este pensamento provocou outro e Erith rompeu outra vez o silêncio.
- Não achas que teria sido boa ideia ter telefonado ao Filipe do Lago Titicaca? - perguntou ela e o olhar de hostilidade que Domingo lhe lançou foi de absoluta
exasperação. Era evidente que não queria ser interrogado.
No entanto para seu espanto, ele declarou de repente:
- Será mais fácil ... desde Lima.
Erith deduziu que, do mesmo modo que se podiam realizar chamadas internacionais do Lago Titicaca, se calhar também faltavam as linhas de grande distância nacional.
- Entendo - murmurou e começou a sentir-se preocupada com a sua meia irmã. - Mas ... a Audra virá com Filipe também para Lima?
Antes que íhe pudesse perguntar como é que estava tão seguro, disse-lhe. - Aperta o cinto de segurança ... estamos a aterrar.
Os pensamentos sobre Audra desapareceram da sua mente quando Erith recordou o seu voo anterior com Domingo. Ele tinha-lhe ajustado o cinto e então ela recordou
ter-se sentido protegida e feliz.
Quando apanharam um táxi, Domingo informou Erith que se instalariam num hotel e assim ficariam bem instalados enquanto esperavam a chegada de Filipe e Audra.
Erith não sabia o que queria, apesar de voltar a sentir-se bem como nesse voo de Arequipa a Juliaca.
Mas, hospedar-se num hotel e ter onde guardar a sua bagagem parecia ser o mais sensato, ficou em silêncio, sentido-se incomodada pela frieza de Domingo com
ela, e procurou concentrar-se noutras coisas.
Pelo que sabia de Domingo, suspeitava que a sua meia irmã não iria obedecer de bom grado à ordens do tio do seu noivo.
Erith procurava ocultar a dor que lhe causava a hostilidade de Domingo, quando o táxi os deixou num hotel da zona de Miraflores, em Lima. Recordou como tinham
rido juntos, como se tinham abraçado e beijado, e pensou que se calhar seria melhor que deixasse o Peru quanto antes. Apesar da agressividade de Domingo, ela tinha
no entanto recordações alegres da sua convivência. Queria conservar esses momentos; que não fossemm manchados pelas recordações quando o mau humor o convertia num
bruto sem consideração.
Erith nao pôde adivinhar do que falavam ele e o empregado da recepção no hotel. Depois Domingo voltou-se para a jovem quando o outro homem lhe entregou as
chaves.
- Vamos ver os nossos quartos; mais tarde levam-nos as bagagens.
Sem dizer uma palavra, Erith seguiu-o até ao elevador. Também não lhe disse nada quando ele a acompanhou até uma das portas.
Apenas desejava que Domingo inserisse uma das chaves na fechadura, abrisse a porta e se fosse embora. Mas ele não fez isso, mas, fazendo tremer o seu coração,
olhou-a nos olhos por um longo momento com intensidade penetrante. Depois, para que o coração dela batesse com mais violência em tom atrapalhado disse:
- Erith ... há algo que necessito ... que quero dizer-le . - mas nesse momento apareceu uma empregada a empurrar um carrinho com roupa limpa para a cama, e
parou numa porta mais distante. Em seguida, pareceu distrair-se e perder toda a amabilidade que ela acreditava ter percebido nele no momento anterior. - Pareces
cansada - disse friamente e acrescentou antes que Erith lhe pudesse agradecer com ironia o cumprimento: - Vai descansar - e parando apenas para lhe entregar a sua
chave, voltou-se abruptamente e regressou aos elevadores.
Erith observou-o a afastar-se com uma expressão atónita. Ele, sem dúvida, desejoso de praticar exercício físico, desistiu do elevador e caminhou com passo
firme até à escada. Em seguida, sem se voltar uma única vez para olhar para a jovem, desceu com rapidez.
Os olhos de Erith estavam no entanto cravados na escada, quando se apercebeu que o elevador estava parado no seu piso. O que viu logo quando afastou o olhar
da escada, é o que a pasmou.
Se estava zangada pela recente conduta de Domingo, então a palavra zanga nao conseguia definir o que sentia quando se abriram as portas do elevador e apareceu
uma loira alta e esbelta.
- Audra! - exclamou Erith enquanto dava alguns passos até à loira que a observava incrédula.
- Erith! - exclamou a loira, estupefacta. - O que é que fazes aqui, por todos os santos?
- Não posso crer ... O quê ...? Depois deste tempo todo, Domingo chamou-te para ... ?
- Domingo? - Audra foi a primeira a recuperar da surpresa. - Estás a falar de Domingo de Zamorza?
Erith concordou com um movimemto da cabeça. Depois, voltando a encontra a sua voza, disse:
- Tem estado a ajudar-me a localizar-te. Procuramos-te por toda a parte.
Mas esperava-a uma nova surpresa. Não acreditava que a sua meia irmã respondesse a isto, ainda que esperasse que ela perguntasse como estava a sua mãe, quaí
era a razão porque a procurava, ou algo assim. Mas Audra deixou-a estupefacta quando em vez destas perguntas lógicas, perguntou:
- Dizes que Domingo te ajudou a procurares-me ? - e quando Erith concordou. - Não é estranho? - e deixou cair uma bomba ao acrescentar: - Em especial, se se
considerar que sabe com exactido onde eu estava desde o dia em que me expulsou de Jahara, com o seu sobrinho, há quatro meses.
- O quê ...? - disse Erith, boquiaberta.-Mas ...nas ...
- não tinha importância, estava tão estupefacta e desconcertada com o que Audra tinha dito que não conseguia pensar com clareza.
- Não podemos falar aqui - decretou a sua meia irmã. - Vamos ao meu quarto.
Uns minutos depois, Erith estava sentada num cadeirão do quarto de Audra, sentindo-se aliviada ao descobrir que a sua cabeça começava a funcionar outra vez
com normalidade. Se, alguém devia estar a mentir, esse alguém tinha de ser Audra. Ainda não sabia porquê, estava certa de que Domingo seria incapaz de tal mentira.
Antes que Erith pudesse começar a interrogar a sua meia irmã, foi Audra quem perguntou:
- O que é que fazes tão longe de casa, Erith?
- A tua mãe ... e o meu pai ... estão preocupados contigo- gaguejou Erith.
- Preocupados? Céus, sei cuidar de mim desde que tenho dezassete anos! - exclamou Audra com um incrível desdém.
- Por acaso mandaram-te vir buscar-me? - acrescentou zangada.
Não escapou à atenção de Erith que a sua meia irmã, ainda que fosse alguns meses mais velha, parecia considerá-la quase uma criança, ingénua e torpe. Mas ignorou
a intenção da pergunta e sublinhou:
- Fugiste com um homem chamado Nick e o que a tua mãe soube a seguir através da única carta que recebeu de ti, é que estás comprometida com um homem chamado
Filipe.
- A vida tem sido um pouco ... agitada - encolheu os ombros Audra. - Quando é que chegaste ao Peru?
- Há umas duas semanas - respondeu Erith; pareceu-lhe incrível estar há só duas semanas neste páis. Sentia-se há muito tempo na companhia de Domingo, quase
como conhecesse toda a vida.
- Localizaste-me através de Domingo? - quis a Audra saber.
- É uma história longa - respondeu Erith, ainda que não pudesse dizer que a tinha localizado. - A questão é que disseste que ele sabia onde tu estavas desde
que foste embora com Filipe de Jahara - Erith sentia-se mais dona de si agora enquanto esperava que Audra, depois da sua dramática declaração, começasse a retractar-se.
Mas sem a menor hesitação, Audra afirmou:
- Eu sabia.
- Mas, como podias saber? - pressionou Erith, convencida de que ela lhe mentia. - Estiveste a viajar à volta do país e não ...
- Quem disse que eu estava a viajar?
- Domingo. Filipe e tu estavam a percorrer o país para que tu o conhecesses.
- Parece-me que Domingo te contou um monte de mentiras - disse Audra e quando Erith lhe ia dizer que Domingo não lhe tinha contado uma só mentira, a sua meia
irmã perguntou. - Agora bom, porque é que terá feito isso?
- Eu ... ele não ti ... tinha que mentir. Ele ... - balbuciou Erith e interrompeu-se perante o brilho especulativo que apareceu nos olhos de Audra.
- Envolveste-te com ele?
- Não! - exclamou Erith com ênfase e sentiu o rubor que lhe acendia as faces.
- Mas tentou, verdade? - Audra não teve dificuldade em perguntar.
- E o que é que isso tem a ver? - perguntou Erith, começou a sentir-se um pouco irritada com a sua meia irmã.
-Muito, diria eu - respondeu Audra e para maior consternação da sua meia irmã, acrescentou: - Alguns homens não paravam enquanto não conseguissem levar uma
mulher para a cama.
Domingo não é assim, quis dizer-lhe Erith, mas de repente todo o seu mundo pareceu derrubar-se. Já não confiava nele.
- De qualquer maneira, que prova tens que Domingo soube o tempo todo onde estavas? - desafiou-a, não obstante.
- Não necessito de a ter - declarou Audra. - Mas se tu queres uma, dar-te-ei o número de telefone da mãe de Filipe.
- Margarida?
- A própria - disse Audra. - Para que fiques a saber, que um mês depois de Filipe deixar Cimbote, nos mudámos para uma propriedade arrendada em Trujillo. A
senhora estava muito chateada com Filipe porque já não trabalhava para o senhor de Zarmoza e telefonava-lhe continuamente para o convencer a regressar para Domingo.
O que significava que, sem dúvida, também passava a vida a telefonar para Domingo. De qualquer maneira, foi Margarida que recebeu uma chamada do teu "amigo" para
lhe pedir a nova direcção e telefone do Filipe.
- Estava a tentar localizar-te!
- Conhecia muito bem, através de Margarida, cada passo que dávamos - declarou Audra. - Que horror, essa mulher nunca largava o telefone! Eu deveria sabê-lo,
falei com ela quase todos os dias.
O silêncio encheu o ambiente enquanto Erith digeria o que a sua meia irmã lhe tinha dito. Começava a invadi-la a horrível suspeita de que a tinham tomado por
parva.
- Quando foi isso? - perguntou, agarrando-se ao último resquício de esperança. - Quando telefonou a Domingo para pedir a vossa nova direcção? Tens uma ideia?
- Tenho mais que uma ideia. Na Quarta-Feira, para ser mais precisa.
Toda a esperança de não ter sido enganada se desvaneceu em Erith ao escutar isto. Foi essa Quarta-Feira em particular, no dia seguinte à chegada da jovem ao
Peru; o mesmo dia, de facto, em que conheceu Domingo. Ele sabia, com efeito, onde estavam Audra e Filipe. Tinha-o sabido o tempo todo e tinha-a enganado dizendo
que o casal estava a percorrer o país.
Mas, apesar de tudo, ainda brilhava um leve raio de esperança que Erith se negava a apagar.
- Estás certa de que Margarida deu a Domingo o teu endereço? - na sua vontade de salvar o homem amado, Erith teve de sofrer outra estocada.
- Margarida está tão ansiosa que o seu irmão voltasse a encontrar Filipe, que nunca negava dar-lhe a informação que pedia - disse Audra, extinguindo de maneira
contundente a débil luz de esperança que ainda iluminava o coração da sua meia irmã.
Erith sofreu uma grande decepção ao descobrir que Domingo a tinha enganado. Sabia que Audra a observava, e tentando ocultar a sua dor, levantou-se da poltrona
e foi até à janela, para olhar lá para fora.
- É óbvio que a Margarida pensou que Domingo queria a tua morada e número de telefone, para comunicar com Filipe e dialogar sobre a possibilidade de voltar
a contratá-lo - deduziu, abandonando por fim toda a ilusão de que Domingo não tinha estado a divertir-se às sua custa.
- Mas ele não telefonou nem escreveu ao seu sobrinho - apontou Audra. - Pelo que me disseste, Domingo apenas queria saber onde estávamos, suponho, para seguir
a pista de todos os nossos movimentos. Não é uma estranha coincidência que tu e eu nos tivéssemos encontrado antes que ele tivesse planeado?
Erith teve que fazer um verdadeiro esforço para não desmaiar ao pensar que Domingo a tinha tratado de maneira tão vil. Nunca na sua vida tinha sentido uma
dor tão profunda. Mas decidiu que só ela saberia que estava a sofrer. Assim, se não queria evidenciar à sua meia irmã, tinha de pensar noutra coisa que não o facto
de ele ter estado a gozar com ela nas últimas semanas.
- O Filipe está contigo em Lima? - perguntou a sua meia irmã.
- Nem pensar! - exclamou Audra com um furioso desdém. - Mandei-o para o inferno ontem, quando lhe pedi dinheiro e teve o descaramento de me dizer que estava
na ruína.
- Na ruína? - perguntou Erith, alegrando-se de encontrar outra coisa com que ocupar os seus pensamentos além de Domingo.
- Temporariamente, devo dizer - corrigiu Audra. - Eu também estou sem dinheiro, então necessito tanto de um amante sem dinheiro como um buraco na cabeça. Tenho
apenas o necessário para o bilhete de avião - de repente sorriu e disse: - sabia que a minha boa estrela não me abandonaria. Aqui estás tu!
Com tão optimista declaração, Erith deduziu que Audra esperava que ela pudesse pagar a conta do hotel.
- Então, terminou tudo entre o Filipe e tu? - perguntou. - Rompeste o compromisso?
- Meu Deus, nunca estivemos comprometidos! - exclamou Audra. - Filipe pediu-me desde o princípio que fosse sua amante. O que sempre apenas quis foi levar-me
para a cama ... e enquanto teve fundos suficientes, pareceu-me perfeito. Mas ...
- Mas quando se arruinou, decidiste que não valia a pena.
- Algo assim - declarou Audra aborrecida e fez-se silêncio entre elas enquanto Audra se ocupava dos seus próprios pensamentos e Erith procurava evitar os seus;
entre eles, a pergunta de como é que ela se tinha atrevido a escrever à sua mãe mentindo que estava comprometida com um peruano.
Por penosa e natural progressão, Erith não pôde deixar de pensar no Domingo e nas muitas mentiras que lhe tinha dito. Tinha-a enganado deliberadamente! Nunca
devia tê-lo escutado, compreendia agora, ao recordar aquela noite depois de jantar em Jahara, quando ela fazia as suas malas com a intenção de regressar a Inglaterra
e ele lhe disse que acabava de receber uma chamada em que tinham visto Filipe em Are-quipa.
- Estiveste com o Filipe em Arequipa recentemente? - perguntou a sua meia írmã, rompendo o silêncio.
- Arequipa fica muito a sul. Desde que nos conhecemos Filipe e eu nunca estivemos mais a sul do que Jahara - respondeu Audra, abrindo outra chaga no coração
da sua meia irmã.
Ah que estúpida e crédula que foi! Tinha acreditado em cada uma das horríveis mentiras de Domingo. Em quantas coisas ele a tinha enganado mais! E pensar que
apenas há uma hora, ele tinha acelarado o coração ao dizer-lhe que tinha algo muito importante que falar com ela! Sem dúvida outra mentira!
Formou-se-lhe um nó na garganta; e ao recordar as suas carícias, os seus beijos, a forma como ele se tinha mostrado cheio de paixão por ela, interrogou-se
se isso seria também uma farsa. Seria verdade o que Audra dizia a respeito de certos homens que faziam qualquer coisa para seduzir uma mulher? Filipe, ao menos,
tinha pedido a Audra com franqueza que fosse sua amante. Se calhar era isso aquilo tão importante que Domingo lhe queria dizer. Mas, quereria ela uma relação com
Domingo como a de Audra e Filipe?
Toda a sua pessoa se revoltou perante tamanha sordidez. Amava Domingo, mas jamais seria a sua aventura passageira ,.. poderia sê-lo? Por mais que o amasse,
poderia converter-se na sua companheira de prazeres por uma curta temporada?
A reposta a estas perguntas foi dolorosamente clara e Erith soube o que tinha a fazer. Amava Domingo; apesar do que ele lhe tinha feito, não podia deixar de
o amar. Mas, contra os impulsos do seu corpo e do seu coração, sabia que não podia ser só a sua amante.
- Regressarei a Inglaterra! - anunciou de repente à sua meia irmã. O seu coração podia continuar a ser de Domingo, mas não poderia viver com ele nem sequer
uma aventura passageira quando a sua relação estava construída sobre mentiras.
- O quê ... agora? Hoje? - exclamou Audra zangada.
- Se puder arranjar um bilhete de regresso - disse Erith com toda a calma.
- Pois então, será melhor eu ir contigo - declarou Audra para pasmo da sua meia irmã.
No caminho para o aeroporto, Audra estava animada; Erith não. Não tinha demorado muito a deixar o hotel, pensou enquanto o táxi as levava ao aeroporto. Audra
não tinha terminado de desfazer as suas malas, de modo que apenas demorou alguns minutos a voltar a preparar a sua bagagem.
Erith sentia-se aturdida e desfeita com tudo o que se tinha passado, que não se tinha importado de deixar o Peru sem os seus haveres. Mas não foi assim, já
que quando foi ao seu quarto descobriu que um dos empregados tinha deixado as suas malas.
Erith teve uma surpresa ao ver que o quarto que Domingo lhe tinha reservado era uma suite, e então voltou quase a desmaiar. Parecia que Domingo desejava que
ela estivesse tão à vontade na cama como se fosse a dela. Agarrou rapidamente na sua mala e o que apenas fez foi rezar para não o encontrar quando saísse do hotel.
E não o encontrou. Desceu do táxi no aeroporto, cheia de pena por não o ter visto, ainda que ao mesmo tempo reconhecesse que estava demasiado abatida e desolada
para saber o que queria.
Erith deixou que Audra fosse perguntar quando havia voo para Inglaterra, e esperou sentada com as malas de ambas ao lado do seu lugar, procurando saber porque
é que Domingo a tinha levado a Lima. Ao menos tinha dito a verdade em relação a que Filipe estava em Trujillo. De repente apercebeu--se, com raiva, que o seu coração
novamente, se enternecia demasiado com ele.
Raios! O que é que se passava com ela? Era tão estúpida que queria ficar para escutar outra montanha de mentiras?
Quando Audra regressou ao lugar onde Erith estava sentada, esta tinha expulsado da sua mente as ocasiões em que Domingo a tinha feito sorrir,ou quando tinha
sido gentil e protector com eía. Cada acção, cada atitude, tinha sido com a intenção de a seduzir e ela ... ela tinha caiido nas suas redes. É muito ... mentiroso!
Então recordou o dia em que ele lhe disse que nunca tinha feito amor com uma virgem, e compreendeu que era o momento de o afastar dos seus pensamentos.
- Há um voo em breve? - perguntou à sua meia irmã.
- Sim ... mas existe uma pequena dificuldade - respondeu Audra e, sentando-se junto à sua meia irmã, entrou em mais detalhes.
Vinte minutos depois, depois de Audra explicar que a pequena dificuldade consistia no facto de que as duas só tinham dinheiro para uma passagem, estavam de
pé na sala de embarque.
Para Erith foi totalmente inesperado que Audra se inclinasse e lhe desse um grande beijo na face. Depois as duas retrocederam um passo.
- Vemo-nos depois! - despediu-se Audra.
- Até à vista - respondeu Erith.
Voltaram-se ao mesmo tempo e, Audra despareceu logo entre os passageiros que iam embarcar no avião, Erith regressou à sala de espera, e de repente ... toda
a sua pessoa entrou em alvoroço e excitação, pois ao voltar-se, encontrou-se frente a frente com Domingo, que a olhava com uma expressão angustiada.
- Erith! - exclamou com uma voz que parecia um gemido de um animai ferido. - Julguei que tinhas ido embora!
Domingo! esteve quase a gritar a jovem. Mas isso foi antes que desse conta da realidade da situação. E de repente ficou mais furiosa que nunca na sua vida.
O canalha, o maquiavélico canalha!, não estava disposto a desperdiçar as duas semanas de trabalho dedicado a convencê-la a ir para a cama.
- Não, não fui - disse ela tentando controlar a fúria que ameaçava explodir. Ao pensar na traição, no engano, soube logo que não podia conter-se mais. A expressão
de indignação brotava dos seus olhos, e conforme a fúria subia, Erith soube que já nada a podia conter.
Sem tomar em consideração que existia gente à sua volta, que qualquer um podia vê-los, perdeu de repente todo o controle. De seguida, a sua mão direita rasgou
o ar e foi colocar-se com sonora contundência na face de Domingo.
CAPITULO 9
Erith viu o Domingo deitar a cabeça para trás por causa do bofetão, mas, ainda que tivesse estendido as duas mãos até ela, rapidamente, não lhe devolveu a
bofetada. Em vez disso, agarrou-a firmemente nos braços, para evitar ter de lhe devolver a bofetada ou para a reter ali, Erith nunca soube.
Em seguida, Domingo disse com a voz trémula:
- Graças a Deus que estás aqui! Quando soube no hotel que tinhas saído com a tua meia irmã pensei que tinhas voltado para Inglaterra!
Erith olhou-o com firmeza, mas dona das suas emoções. Pareceu-lhe ver nele sinais de fatiga e tensão prolongadas; estava lívido e um poço olherento. Então,
a sua mente registou o que ele acabara de dizer. Mas não lhe perguntaria nada: já estava farta de mentiras e contos.
-- Como sabes -- disse-lhe friamente. - Eu tinha o dinheiro suficiente apenas para uma passagem. Audra nem sequer isso.
- Então tu deste-lhe a passagem e decidiste ficar - deduziu Domingo; Erith descobriu na sua voz uma nota de calor.
- Porquê? - olhou-a com atenção e intensidade, reparando em cada gesto da jovem: - Ficaste porquê ... porque quiseste?
- Fiquei porque a mãe de Audra sentir-se-á mais tranquila se a vir - respondeu Erith e quando captou a mensagem das palavras do seu interlocutor, quis voltar
a golpeá-lo. Mas desta vez, em vez de o magoar fisicamente, perguntou asperamente:
- Além do mais, o que é que tens a ver com isso?
- Tudo - respondeu ele em tom aprazível e o fogo da ira começou a apagar-se na jovem. Mas logo se voltou a acender quando ele acrescentou: - Disse que tinha
algo a dizer-te. Eu ...
- Uma confissão, sem dúvida! - exclamou Erith; a sua dignidade não lhe permitia mencionar que sabia que não era uma confissão o que ele queria fazer-lhe, mas
sim um convite para partilhar o seu leito.
- Uma confissão .., de certa forma - admitiu para surpresa da jovem e o seu pasmo aumentou quando lhe pediu com um tom quase suplicante: - Vem comigo. Escuta-me
e depois, se ainda me detestares, dar-te-ei dinheiro para a passagem para Inglaterra e ...
- Dás-me? - gritou ela com orgulho, ainda que de certa forma se sentisse menos tensa perante o tom conciliador de Domingo. .
- Emprestar-te-ei, se assim o preferires - disse com um leve gesto de impaciência. Depois, quando alguém chocou contra ele, os dois aperceberam-se de que não
estavam sozinhos, mas sim a estorvar o caminho num aeroporto cheio de actividade.
Erith disse para consigo própria que tinha cometido um disparate ao se ter deixado convencer por Audra. A sua meia irmã tinha-lhe dito que bastava apresentar-se
no consulado britânico em Lima, e dizer-lhes que estava sem dinheiro para regressar ao seu país, pois tinham-lhe roubado a mala.
- A onde sugeres que vamos?
- Onde tu quiseres - disse Domingo, afastando-a do caminho de outra pessoa. - Ainda que me pareça que seria boa ideia que fossemos para um lugar mais ...
cómodo ...
- Um lugar como uma suite no hotel Miraflores, por exemplo? - perguntou Erith com ironia.
- Não te culpo por suspeitar - acrescentou com gentileza. - É certo que gostaria de um lugar ... íntimo, mas para o que tenho a dizer-te.
- Já imagino!
Domingo ignorou o comentário e prosseguiu:
- Com certeza, que se tu quiseres, deixamos a porta que dá para o corredor aberta.
- Essa parece-me uma boa ideia - concluiu Erith e, ao olhar para Domingo de soslaio, julgou descobrir uma expressão de alívio no seu rosto.
Sem lhe soltar o braço, Domingo inclinou-se para agarrar a sua mala e sairam juntos do aeroporto.
Erith não sabia dizer quais eram os seus os pensamentos e
emoções durante o percurso de regresso ao hotel. Mas reconhecia que tinha sido fácil concordar em acompanhá-lo. Que podia ele dizer-lhe?
Vadio mentiroso! Sem dúvida que, a sua confissão seria sobre o que Erith já sabia: que desde o princípio ele sabia onde estava Audra. Depois, não existia a
menor dúvida, propor-lhe-ia com todo o descaramento que fosse sua amante.
O dois ficaram em silêncio durante o percurso de táxi. Além de tudo, Domingo parecia tenso. Então Erith interrogou-se por que razão ele poderia estar tenso.
No entanto, Domingo transmitiu-lhe a tensão que sentia, quando estavam na sala da suite, Erith começou a sentir-se irritada não só contra ele, mas também contra
si mesma.
- Queres fazer o favor de te sentar, Erith? - convidou Domingo.
- Faço-o dentro de um momento! - respondeu asperamente e foi fechar a porta da suite que ele tinha deixado aberta. Sabia de antemão como tudo iria terminar,
mas ainda existiam muitas coisas que ignorava sobre o homem a quem tinha entregue o seu coração, existia algo que sabia por intuição: que ele não recorreria à violência
para a possuir quando lhe disse que, obrigada pela sua oferta, mas não seria a sua amante temporária.
Depois de ter fechado a porta que dava para o corredor, Erith sentou-se. Esboçou um sorriso falso e com doçura igualmente fingida, murmurou.
- Bom, chegou a hora das confissões.
Mas logo, o seu sorriso irónico desapareceu do seu rosto quando, depois de a olhar com uns olhos inquisidores por um momento, Domingo sentou-se no cadeirão
que estava à frente dela e lhe respondeu com toda a calma:
- Surpreende e alegra-me, Erith, que ainda confies em mim.
- Bom, o que é que me queres dizer? -perguntou ela inquieta.
Compreendeu que o facto de ter fechado a porta era um sinal evidente da sua confiança nele.
- Eu ... eu menti-te.
- Valha-me! E o que há mais de novo? - acrescentou
Erith com ironia e ficou pasmada que a expressão não denotasse nenhuma hostilidade no seu tom.
- Ao princípio não sabia o que me induzia a mentir-te - comentou Domingo.
- A luxúria - sugeriu com sarcasmo.
- A luxúria não teve nada a ver com isto!
- Pois espantas-me!
- Não mais do que me espantei a mim mesmo pelas acções desde que te conheci - disse ele, ignorando o sarcasmo da jovem. - Desde que te vi ... - interrompeu-se,
apertando o queixo. A seguir, depois de uma tensa pausa, mudou de tom para afirmar: - estou a procurar ser honesto contigo ...para...
- Honesto! - interrompeu-o Erith duramente. Os seus olhos brilhavam de fúria ao recordar todas as suas mentiras.
- Por acaso conheces o significado dessa palavra?
- Sei que não tenho desculpa - disse ele em tom humilde.
- Mas, quero, necessito ...
Interrompeu-se e fez outra pausa. Erith, se não o conhecesse melhor, teria dito que estava nervoso. Mas, como isso não era possível, olhou-o com hostilidade
.. e esperou. Depois, em tom apaziguador, suplicou.
- Se me permites, Erith começarei desde o princípio, quando ...
- Por mim não deixes nada a dizer! - convidou ela com beligerância. Se o seu coração lhe golpeava com violência as costelas pelo mero facto de estar sozinha
com ele no mesmo quarto, apenas ela o sabia.
- Muito bem - disse Domingo com uma expressão triste, dando a entender que esta conversa era da sua máxima importância.
De facto, a enorme seriedade da sua atitude contagiou-se à jovem e Erith não pôde encontrar nenhum outro comentário, sarcástico ou de outro tipo, a fazer.
Em silêncio esperou que Domingo expressasse o que tinha a dizer. Contudo, quando voltou a falar, não remontou ao tempo em que conheceu Audra.
- Como sabes, o meu sobrinho trabalhava no meu estaleiro. O que poderias não saber, a menos que a tua meia irmã te tenha dito, é que pouco tempo depois de
conhecer Audra, o seu trabalho começou a decair tanto que tive que apanhar um avião para ir averiguar o que sucedia.
- Não sabia isso; Audra não me disse nada - murmurou Erith de forma calma e, sabendo ou não, apressou o seu interlocutor para continuar.
- O que descubri quando vi Filipe foi que ele estava a começar um romance e que Audra o instigava a descuidar o seu trabalho, pois preferia que a levasse
a passear a toda a parte.
- Conheceste Audra em Chimbote?
- Sim e perdoa-me, se gostas muito dela mas uma vez que decidi ser completaraente sincero contigo, tenho que te dizer que logo soube que estava mais interessada
no dinheiro do que era Filipe.
- Foi tão óbvio? - perguntou Erith, sentindo-se envergonhada pela_sua meia irmã.
- Receei isso - respondeu Domingo e acrescentou com anuência: - Quando a tua meia irmã descobriu que a minha conta era mais avultada que a de Filipe, começou
a mostrar-se para comigo, mais amistosa do que parecia conveniente. Por favor, não te envergonhes pelo que disse - apressou-se a dizer quando viu que a Erith afastava
o olhar, ao compreender a delicada situação. -- Não queria aborrecer-te. Apenas queria ...
- Está bem - disse Erith, recuperando a postura e, para mudar de tema, acrescentou: - Que fizeste a respeito do Filipe ... ao seu trabalho, quero dizer?
- Aconselhei-o a que voltasse ao seu emprego e saí de Chimbote. Dali viajei até à Europa para algumas reuniões de negócios. Regressei a Jahara duas semanas
depois de descobrir que Audra e Filipe me faziam uma visita sem serem convidados.
- Não tinham sido ... convidados?
- Não. Tinham chegado no dia anterior e a senhora Garcia, que conhecia o Filipe, não viu inconveniente em deixá-los ficar na fazenda.
A Erith espantava-lhe que Audra tivesse sido quem instigara a visita. Mas, se Domingo pensava o mesmo, absteve-se de dizer. Erith compreendeu que devia ter
sido péssimo regressar de uma fatigante viagem de negócios e encontar Audra instalada na sua casa.
- Foi então que Filipe abandonou o seu trabalho?
- Assim foi - respondeu Domingo e ofereceu-lhe parte da sua recém encontrada honestidade ao acrescentar: - Ainda que, para ser sincero, julgo que não lhe dei
outra opção - depois, inclinando-se para a frente, estudou o rosto da sua interlocutora; depois continuou: - contudo, após chegar ao que se poderia chamar "ajuste
de contas" com o meu sobrinho, tive que aturar a minha irmã a perseguir-me durante semanas com chamadas telefónicas para me pôr ao corrente do que sucedia entre
o seu filho e "essa mulher".
- Então, soubeste o tempo todo onde estava Filipe e Audra? - perguntou Erith em voz baixa.
E Domingo suplicou de imediato:
- Por favor, não percas novamente as estribeiras. Nunca pensei que te enfurecesses assim. Quero confessar-te tudo, se me permites - declarou ele, neutralizando
o ânimo da jovem.
- Bom? - convidou-o Erith a continuar. Era todo o convite que ele esperava.
- Resulta, querida, que chegaste precisamente no momento em que ele já estava sob a influência perniciosa das inglesas.
- Por isso te mostraste tão agressivo comigo? -perguntou
Erith, ainda que não necessitasse de resposta. Pelo que lhe tinha contado podia compreender que ele tinha catalogado todas as inglesas de acordo com a sua
lamentável experiência com Audra, e com a maior razão, além do mais, eram parentes.
- Permitirás que eu me desculpe por me ter comportado assim contigo?
- Pensavas que eu era ... igual à minha meia irmã?
- Depois mostraste-me que não eras como ela - declarou Domingo. - Apenas te conheci quando me disseste com toda a dignidade que, ainda que tivesses ficado
quase sem dinheiro, tinhas o suficiente para a tua passagem de regresso para Inglaterra - fez uma pausa e depois, olhando-a sem pestanejar, perguntou. - Podes estranhar,
Erith, que comecei a sentir algo estranho e nebuloso por ti?
O coração de Erith acelerou-se ainda mais do que quando ele um momento antes lhe tinha chamado "querida". Perante o seu olhar intenso e as suas palavras, o
coração de Erith disparou.
- Oh - murmurou, como se apenas sentisse uma leve curiosidade. - Que tipo de nebuloso é "algo"?
- Não sei - respondeu ele. - Ou não sabia ... então. Ao princípio, tudo o que compreendi foi que a polícia tinha comunicado comigo porque uma senhora inglesa
que dizia ser parente da noiva do meu sobrinho tinha sido vítima de um roubo. Na realidade, não existia razão para te ir ver. Mas sucedeu que eu devia ir a Cuzco
por causa de um assunto de negócios e, sem saber porquê, acabei por me dirigir ao teu hotel.
- Não tinhas intenção de ir? Domingo sacudiu a cabeça.
-- O destino - respondeu com um primeiro sorriso. - Parece que o destino me conduziu até ti.
- Oh - murmurou Erith, tentando parecer pouco impressionada pelo que ouvia.
- Oh, certamente - continuou Domingo. - Cheguei a esse hotel em Cuzco, aborrecido comigo mesmo por ter ido, e decidido a mostrar a mais elementar cortesia.
Mas isso foi antes de me encontrar com uma deslumbrante ruiva de olhos verdes, com pele de porcelana, todo o orgulho e dignidade e que, podia ver à primeira vista,
que era completamente diferente da sua meia irmã.
- Pois ... obrigada pelo ... elogio - disse Erith fazendo um esforço supremo para não se deixar cativar. - Mas, porque é que me mentiste? Então não podias
saber ... - interrompeu- se; depois, compreendeu que não era o momento para rodeios e subterfúgios, continuou: - Então não sabias que gostarias ... de me ter como
companheira de cama ... de modo que ...
-- De modo que, porquê mentir? - perguntou Domingo suavemente, sem negar que a queria como companheira de cama. - Apenas me conhecia a mim mesmo. Disseste
que tinhas o suficiente para pagar a tua passagem para Inglaterra e espantou-me descobrir que não queria em absoluto que te fosses embora. Depois decidi que a minha
reticência a que fosses embora tinha origem na curiosidade de saber porque é que tinhas feito a viagem até ao meu país.
- Mas eu disse-te a razão! -recordou-Hu1 lirllli
- Assim foi, mas eu queria saber mais. Incomodou que quisesses ir embora do meu país.
- Tanto patriotismo não me parece lógico,
- Cheguei à conclusão de que a lógica deixou de funcionar em mim desde que te conheci - declarou sem deixar de a olhar nos olhos.
- Sempre me ... pareceste ... lógico - afirmou Erith, balbuciando, e soube pela forma como ele a olhava que o olhar tinha muito a ver com a sua perturbação.
- Foi lógico que nada mais que te conhecer, ao convidar-te para ficares em minha casa descobria informações sobre a tua meia irmã?
-- Porque ... não me disseste onde ela estava? - perguntou Erith num murmúrio, ainda que soubesse demasiado bem a resposta.
- Pois ... descobri que te queria conhecer melhor, o que pensavas, como eras. Julguei que ao atrasar a informação sobre Audra, ainda que só por umas horas,
poderia satisfazer um pouco a minha curiosidade por ti ... mas logo descobri que começava a ... - fez uma pausa ... - a sentir simpatia por ti, que começavas a agradar-me
e então não quis fazer nada que precipitasse o teu regresso a Inglaterra.
Erith sentiu um frenético desejo de o abraçar quando ouviu que tinha agradado ao Domingo. Mas se devia sair dali com um digno "não, obrigada" devia começar
nesse mesmo momento a tomar conta da situação.
De modo que não o abraçou senão que, levantando o queixo com belegerância, acusou:
- Mentiste-me! Perguntei-te se tinhas notícias de Audra ...
- E eu, para meu próprio espanto, não te disse uma mentira, enquanto não comecei toda uma série de embustes.
- Porquê ...
Erith interrompeu-se, desejando que o seu cérebro estivesse em melhor forma. Mas o problema era que com Domingo a olhá-la com tanta ternura, o seu poder de
raciocinar pareciaalterado.
- Então não me ... me querias levar para a cama - conseguiu dizer. -- Porquê, então ...?
- Porque te menti nesse momento? Acredita-me, nem eu mesmo entendia. Garanto-te que não costumo mentir, não faz parte da minha natureza - disse com evidente
sinceridade. - De modo que as evasivas e francas mentiras que iniciei foram ainda mais desconcertantes para mim. Devo confessar, no entanto, que naquele primeiro
jantar em Jahara me senti muito ... atraído peio teu encanto natural.
Os olhos de Erith semi-cerraram-se numa fracção e o seu coração voltou aos seus loucos sobressaltos ao escutar que desde então ele se sentia atraido por ela.
Isto fê-la esquecer por um momento, a razão desta conversa em particular.
- De ... verdade?
- Estou decidido a dizer-te apenas a verdade - foi a resposta de Domingo. Depois continuou. - Mas, ainda que me sentisse atraido pela tua personalidade, essa
mesma noite enfureci-me porque me disseste que querias regressar a Inglaterra o mais rápido possível.
- Recordo-me! - exclamou Erith. - Ficaste muito ... mal disposto e perguntaste-me se tinha algum homem à espera em Inglaterra.
- Que outra coisa esperavas? - perguntou com solenidade e quase lhe provocou um enfarte ao acrescentar em tom suave: - Nunca antes tinha experimentado isto.
Nessa noite descobri o quanto essa emoção pode cegar qualquer um ...
- Estavas ... ciumento ... ao pensar que me esparava um homem no meu país? - Erith olhava-o com os olhos enormes ...
- Oh, sim - declarou com toda a seriedade. - Pois claro, só que não dei conta que eram ciúmes o que eu sentia. Julgo que nessa altura as minhas acções mantinham-me
num estado de estupefacção. Contudo, apesar de perceber que estava a comportar-me de maneira muito diferente da minha conduta habituai, não parecia capaz de manter
a postura. Sem saber porquê, descobri que queria que estivesses cómoda em minha casa ... no meu país. Por isso fiquei chateado quando disseste que querias ir embora.
E, quando falei ao telefone com a minha irmã e soube por ela o paradeiro exacto de Filipe e da sua amiga, apercebi-me, sem poder compreender, que estava a guardar
essa informação.
Erith escutou-o até ao fim com os olhos abertos de espanto Quase lhe perguntou se agora sabia porquê. Mas logo recuperou parte do seu poder de raciocínio e
no momento ficou furiosa, tanto com ele como consigo mesma. Por todos os santos ... ela sabia porquê!
- Deves tomar-me por uma verdadeira idiota! - pôs-se de pé e em seguida Domingo fez o mesmo. - Sabes perfeitamente porquê! - gritou. - A tua meta foi levar-me
para a cama desde ...
Domingo agarrou-a nos ombros e obrigou-a a dar um passo para trás. As suas pernas chocaram contra a poltrona e ela não pôde retroceder mais quando, sustendo-a
ainda nos ombros, Domingo disse-lhe com suavidade:
- Fica tranquila. Sim, meu amor, desejo-te e encantar-me-ia que fosses a minha companheira na cama.
Erith fez um movimento rápido, lutando por fugir, rnas ele não a soltou e olhou-a com ternura.
- Mas, meu céu, há muito mais que isso.
O "meu céu" desarmou a jovem e sentiu-se perdida por completo quando todo o seu ser vibrou com as mãos masculinas.
- Não ... entendo.
A resposta de Domingo foi rodeá-la com um braço e sentar-se junto dela. Depois, agarrando nas duas mãos, disse com
suavidade:
- Não espero que entendas. Eu mesmo não compreendi o que me estava a acontecer até há pouco.
A sensação das mãos dele nas suas não ajudavam em absoluto os esforços árduos que a jovem estava a fazer para recuperar a postura. Também a proximidade de
Domingo na estreita poltrona.
- Perdoa-me se pareço torpe, mas julgo que estás a falar em russo.
- Sou eu quem deve pedir perdão, minha querida - respondeu ele com gentileza, - Mas com a débil desculpa que te posso oferecer, apenas posso dizer que conhecer-te
foi a experiência mais electrizante que jamais vivi.
- De ... verdade? - os olhos de Erith abriram-se outra vez transtornados.
- De verdade - confirmou Domingo sem vacilar. - A parte das mentiras e do engano a que te submeti, garanto-te que acabava de te conhecer quando comecei a sentir-me
mais vivo que nunca. É de estranhar, então, que não quisesse que fosses embora; que desejasse reter-te comigo?
O que ele lhe estava a dizer "electrizava-a", mas no entanto tentava controlar as suas emoç9es quando murmurou em tom case inaudível:
- Eu ... fíz-te sentir ... vivo?
- Desde o princípio - confirmou ele e acrescentou: - Perdoa a minha franqueza, mas não apenas sexualmente.
- Não?
Erith começou a sentir-se mais perdida quando Domingo sacudiu lentamente a cabeça. De seguida todo o seu ser começou a ficar tenso de excitação. Porque de
repente, no meio da sua confusão, apenas um pensamento tomou forma na confusão que existia na sua mente.
Esse pensamento assombroso, exaltante, era que se o seu interesse por ela não era só sexual, então poderia ser ... não se atrevia a concluir a sua linha de
pensamento. Olhou para os olhos sérios do homem que a tinha seguido até ao aeroporto, o homem que, quando ela lhe deu um sonoro bofetão num lugar público, não a
tinha mandado para o diabo, e logo o coração da jovem voltou à sua louca agitação. E Erith soube que ficaria a escutar até à última palavra que Domingo lhe dissesse,
sem. se importar que o resultado pudesse ser decep-cionante.
Apercebeu-se de que ele a observava com atenção, como se procurasse ver as coisas com claridade. Com os olhos de Domingo cravados nos seus, sem pestanejar,
sem permitir que ela afastasse o olhar, Erith respirou profundamente e em seguida disse com fio de voz:
- Julgo que ... gostaria que ... continuasses a dizer o que tens para me dizer.
Domingo vacilou apenas um momento; levou as duas mãos da jovem aos seus lábios e beijou-as. Depois, parecendo um pouco tenso, ainda que não quisesse olhar
para nehuma parte que não fosse os olhos de Erith, murmurou:
- Fascinas-me, sabias?
-Eu?- sorriu ele com simpatia.
- Encantaste-me desde o início
- Sim?
Domingo concordou, e em seguida provocou uma vez mais o louco trepidar no coração femenino ao afirmar:
- Parece-me incrível, agora que a resposta é tão clara, ter levado tanto tempo a entender porque sinto tanta felicidade quando estou na tua companhia - interrompeu-se
por um minuto e respirou fundo antes de continuar: - Não posso entender como, minha querida Erith, pude apaixonar-me por ti sem dar conta disso.
- Pois ... eu ... - Erith não pôde continuar, tinha a garganta obstruída por uma emoção muito tensa. Começou a tremer.
Domingo deve ter percebido o seu tremor, pois exclamou com súbita ansiedade:
- Assustei-te! - e pareceu empalidecer um pouco ao acrescentar: - Envergonham-te os meus sentimentos por ti! - e tal era a angústia na sua voz que Erith encontrou
logo a sua voz perdida.
- Não é isso! - acrescentou de imediato. - O que se passa é que... - interrompeu-se, enquanto as palavras de Domingo se repetiam umas às outras na sua cabeça.
- de verdade ... estás ... apaixonado por mim?
- De verdade! - declarou Domingo veemente. E, como se pensasse que as necessidades dela eram mais importantes que as próprias, acrescentou: - Soube nas poucas
horas que estiveste em Jahara que havia algo de especial em ti - sussurou.
- Desde então?
- Desde então - garantiu ele. - No entanto negava-o a mim próprio. E numa manhã que desceste para tomar o pequeno almoço ao olhar-te, algo incrível, milagroso,
se agitiu no meu coração. Foi então quando decidi ter a manhã livre, para a passar contigo.
- Levaste-me a conhecer Jahara - recordou Erith num sussuro, sentindo-se como se estivesse num sonho de que não queria despertar jamais.
- E disseste que a minha fazenda era maravilhosa.
- Recordas-te disso? - perguntou a jovem com os olhos conturbados.
- Essa recordação foi a única a que me pude agarrar quando tudo começou a ficar negro para mim; era a minha única esperança.
-- O que queres dizer com ... ficar negro? - perguntou ela.
- Minha adorada Erith - murmurou Domingo, olhando-a com ternura. - As palavras e os impulsos debatem-se dentro de mim. Quero beijar os teus doces lábios,
ardo por perguntar o que sentes, o que pensas ... portei-me tão mal contigo; menti-te, enganei-te, apesar de não teres feito outra coisa além de te comportares como
uma doce e encantadora criatura que és, gritei e insultei-te. Por isso agora sinto-me perdido, confuso, sem saber o que fazer nem o que dizer para conseguir o teu
perdão, a tua compreensão. Mas julgo que mereces, pelo amor e respeito que sinto por ti, que te explique ao menos as minhas razões para tão reprovável comportamento.
- Amas ... me?
- Adoro-te - respondeu ele com apaixonada veemência e quando o coração de Erith deu outro salto mortal, ela compreendeu que era a sua vez de tirar essa pesada
carga de culpa que o preocupava.
- Nem todo o tempo que me gritavas - disse com um sorriso trémulo nos seus lábios.
Mas o seu sorriso congelou-se quando a cabeça do peruano começou a aproximar-se dela. Sabia que a ia beijar. Mas de repente, ele conteve-se e retrocedeu. E
Erith compreendeu que para ele era uma questão de honra não beijá-la até ter concluído a sua desculpa.
Olhou-a por um segundo ou dois, e a seguir disse:
- Este amor por ti que começou a depertar em mim, Erith, tem sido algo de perturbador na minha vida. Até te ter conhecido, nunca me tinha visto afectado por
tão constantes mudanças de ânimo.
- Eu ... causei-te ... isso?
- Tu e a minha consciência são os responsáveis pelos meus desvarios. Tu e a forma como o meu coração se inflamava cada vez que te via. Tu e a inquietação que
me provocavas,
como se fosse um rapaz que acabava de descobrir o amor. Tu e a fúria que desencadeavas em mim cada vez que me perguntavas se tinha alguma notícia da tua irmã.
- Começou a ... remoer-te a consciência?
- Com demasiada frequência - sorriu Domingo. - Aconteceu nessa vez que percorremos Jahara. De um momento para o outro ora desejava estar na tua companhia
o tempo todo, ora decidia que no meu estúdio tinha coisas importantes a fazer. Depois quando no dia seguinte, tendo-me esquivado de propósito e convencido que não
te importavas comigo, foste ao meu estúdio buscar-me, bastou ver-te ali para que o meu coração começasse a cantar.
- Juras-me ...? - perguntou Erith, com um brilho de
felicidade nos olhos.
- Juro-te - garantiu-lhe Domingo. - Não deveria estranhar que, depois de me privar da tua encantadora companhia este tempo todo, decidisse que queria saber
mais sobre ti. Então pensei que era o momento de ter um dia livre.
- Disseste-me que tinhas de ir a Cuzco - perguntou Erith e recebeu dele um olhar quente que denotava que estavam na mesma frequência de onda e que se alegrava
que ela tambémrecordasse.
- Mas fomos para além de Cuzco. Quando te levei à fortaleza de Sacsahuaman e me olhaste com esses enormes olhos verdes, pela primeira vez na minha vida senti-me
verdadeiramente vulnerável. Pareceu-me que era o momento de
sairmos.dali, e pronto.
- Creio que ... eu ... senti algo muito parecido mais tarde nesse dia - admitiu a jovem com timidez.
- Espero que isso não seja tudo o que tens para me dizer- disse Domingo.
- Quando almoçamos ao ar livre no lugar mais maravilhoso próximo de Pisac, dei conta de que nunca me tinha sentido assim, tão atraída por um homem.
- Estás a ser ... honesta comigo, Erith? - perguntou ele.
- Sim. Ainda que deva admitir que mais tarde neguei a mim mesma ter sentido isso. A tua presença intimidava-me tanto ...
- Tens medo de mim? - perguntou Domingo franzindo a sobrolho.
- Medo? Se bera me recordo, fui eu quem fechou a porta desta suite - sublinhou a jovem em tom suave.
- É verdade. - Disse Domingo parecendo relaxar-se vi-sisvelmente. - Já te agradecerei depois. Mas primeiro deves perdoar-me pela seguinte acção, quando soube
que Audra e Filipe viviam no norte e com toda a deliberação te levei para o sul.
- Porque o fizeste? - perguntou, ainda que já soubesse a resposta.
- Acabas de me dizer que pensavas regressar ao teu país e eu não queria que tu me deixasses.
- Oh! - suspirou Erith, amando cada palavra que Domingo dizia; e logo acrescentou: - Na manha seguinte parecias um urso com dor de garganta!
- Como poderia sentir-me? Já te disse que nunca tinha mentido como te menti. Passei a noite toda a remoer-me de ressentimentos.
- Oh, Domingo - murmurou Erith, disposta a perdoar-lhe tudo. - Mas estiveste muito tempo zangado comigo.
- Pois claro que não - respondeu com ternura. - Tivemos um dia maravilhoso em Arequipa; um dia em que o que apenas me importou foi disfrutar a tua companhia.
Na verdade, enquanto jantávamos nessa noite, não desejava a intromissão de nenhuma influência exterior - sorriu. - Não entrava dentro dos meus cálculos que me recordasses
do mundo exterior ao perguntar-me se tinha alguma mensagem sobre o paradeiro dos fugitivos.
- Lamento - murmurou Erith. Toda a fúria que antes sentia em relação a ele sentia-a agora por si mesma.
- Não o lamentes. Tu tens tanto que me perdoar! Menti-te deliberadamente. No dia seguinte ao dia dos meus remorsos, já te estava a mentir novamente dizendo-te
que o meu sobrinho e a sua amante estavam a percorrer o país.
Mas então Erith estava disposta a perdoar-lhe tudo. Pensou que o seu coração nunca voltaria a bater corn normalidade
outra vez.
- Voámos para Juliaca nessa mesma manhã - recordouela.
- E foi ali, quando contemplávamos a plantação de milho, que me invadiu o desejo incontrolável de te abraça-la , de tê-la ao meu lado, muito, muito próximo
por muito tempo. E no teu quarto do hotel, quando estavas doente e te tive nos meus braços, soube exactamente porquê. Compreendi então, minha doce Erith, que estava
apaixonado por ti.
- Então?
- Apenas nesse momento.
Erith interrogou-se como podia ter acreditado que apenas queria ir para a cama com ela. Como podia ter esquecido a forma como a atendeu, como a cuidou, e que
esteve sentado ao seu lado quase todo o tempo em que esteve doente.
Mas ao recordar isso, também recordou logo algo mais, eum:
- Oh! - escapou dos seus lábios.
- Que se passa? - perguntou Domingo, quase a matar todos os dragões que a pudessem assustar.
- Eu ,.. pois ... Disseste que enviarias um telegrama ao meu pai e à minha madrasta, mas suponho que não o fizeste - estava quase a acrescentar que na realidade
não importava, já que a Audra estaria quase a lá chegar e aliviaria as suas angústias. Mas Domingo interrompeu-a.
- Não mandei o telegrama no mesmo dia em que disse que o faria, mas a mensagem foi enviada - revelou.
- Sim? - Erith estava comovida e com o coração a palpitar de amor por ele, pela sua gentileza e consideração. - Quando mandaste o telegrama? Um dia depois?
- Para ser exacto uma semana depois.
- Uma semana depois! Quando me fizeste essa promessa, tinha passado uma semana sobre o envio do telegrama ... - a voz de Erith desvaneceu-se em absoluta estupefacção.
- Mas não te dei a direcção senão ...
- Eu já tinha a direcção. Lembras-te do dia em que te devolveram a bolsa roubada.
-- O polícia esperava-nos quando regressamos do nosso passeio pela fazenda - recordou a jovem.
- E tu revistaste o seu conteúdo - recordou Domingo. - Entre os teus haveres havia uma carta dirigida ao senhor e à senhora Cárter. Quando à hora do almoço
disseste que o teu pai e a sua esposa estariam preocupados esperando notícias, recordei a direcção.
- Tu ...
- Enviei um telegrama em teu nome dizendo que a tua meia irmã estava muito bem e contente. Pareceu-me que era o menos que podia fazer - concluiu Domingo.
Erith observou-o em silêncio, cheia de um profundo amor e respeito por este homem tão nobre e generoso.
- Oh, Domingo - sussurou quando não pôde conter a emoção que sentia por ele e não pôde evitar de acrescentar: - É estranho que te ame? - apenas se apercebeu
do que acabava de revelar quando viu o olhar estupefacto que ele lhe dirigiu.
Em seguida Domingo agarrou as maõs dela e colocou-as entre as suas e perguntou com a voz enrouquecida pela emoção:
- De verdade? Isso é verdade? - os lábios de Erith entreabiram-se, mas nenhum som saiu deles e apenas pôde concordar com um gesto de cabeça. - Estás certa?
- apertou-lhe as mãos até quase magoá-la, com a sua força.
- Absolutamente certa - sussurou a jovem.
- Desde quando? - quis saber Domingo.
- Desde que estivemos no Lago.
- Quando? - perguntou o fazendeiro. - Antes ou depois de te der dado este susto tremendo?
- Nunca me deste nenhum susto tremendo - referiu a inglesa.
- Não? - olhou-a com cepticismo e Erith recordou a forma convulsa como ela tinha procedido naquela ocasião.
- O que se passa é que até então não me tinha apercebido de que estava apaixonada por ti - confessou com timidez. A emoção só me ... desconcertou, fazendo-me
reagir dessa maneira.
- Oh, vida minha! - sussurou Domingo e agarrou-a com força nos seus braços.
Beijou-a com suavidade e ternura. Depois abraçou-a nos seus braços, até que o coração de Erith começou a bater tão forte que quase podia ouvi-lo. Então beijou-a
outra vez com infinita doçura.
Depois, dizendo palavras carinhosas em espanhol e inglês, Domingo voltou a abraçá-la e depois afastou-lhe a cara com adoração.
- É verdade ... não estou a sonhar?
- Estarei eu a sonhar? - perguntou Erith por sua vez beijou-o.
- Amo-te com todas as minhas forças - declarou Domingo e nos seus olhos brilhava sinceridade. - Passei tantas torturas por tua casa, meu amor - revelou. Mentindo
quando nunca o tinha feito na minha vida; descobrindo em seguida que receava pronunciar uma só palavra para não voltar a mentir-te.
- Quando foi isso?
- Não deste conta esta manhã que apenas podia dizer-te algumas palavras de cortesia?
- Porque receavas ter de me mentir novamente antes de esclarecer as coisas? - perguntou Erith e recebeu um olhar terno.
- Isso e o facto de não saber como ias reagir quando te confessasse tudo - respondeu ele; em seguida acrescentou: - Iniciei toda esta série de mentiras apenas
porque não queria que te fosses embora. Quando compreendi com precisão porque é que não queria que fosses, senti-me no inferno. Foi então quando reconheci que era
muito provável que não me quisesses sequer falar, muito menos ficar comigo, quando soubesses que te tinha enganado.
- Sofreste muito? - quis saber Erith e adorou quando ele primeiro a beijou com toda a suavidade na cara e a seguir nos seus lábios.
- Mais do que possas imaginar - respondeu Domingo. - Claro que vivi também momentos celestiais. Momentos como estar só contigo, caminhar ao teu lado, ainda
que nem sequer falássemos ou nos tocássemos, faziam-me sentir tão feliz que julgava que o peito ia explodir. Outras vezes pensava que tu nem sequer sentias simpatia
por mim, e o que eu sentia não se desejava ao pior inimigo. Interrogava-me uma e outra vez, no Lago Titicaca, se sentias por mim algum afecto, a menor simpatia e
nunca estive mais próximo do paraíso do que quando te beijei e tu respondeste com paixão.
- Receava então delatar-me - confessou Erith.
- E eu tinha medo de acreditar no que o meu coração desejava acreditar: que tu amavas-me nem que fosse um pou-
co. Não sabes a quantidade de contradições que existiam na minha cabeça!
- Oh, meu amor! - sussurou Erith e abraçou-se a ele. Depois voltaram a beijar-se uma e outra vez.
- Assim que regressámos do Lago - disse Domingo, colocando um certo espaço entre eles enquanto contemplava o rosto de repente envergonhado, da jovem, - tive
que passar toda a tarde preocupado contigo.
- Comigo?
- Pensei que te tinha assustado ao mostrar-me demasiado amoroso. Fui ao teu quarto tentar tranquilizar-te. Mas tu estavas coberta apenas com uma toalha e puseste-me
logo ciumento ao dizeres que te tinham beijado antes. Então agarrei-te nos meus braços e ... mas, para que te digo tudo isto? Tu já o sabes.
- Não foi por medo de ti ou pela tua força, que fui esconder-me na casa de banho - disse a jovem e amou-o ainda mais quando um sorriso amplo iluminou o seu
rosto.
- Eu entendi, minha doce Erith, que não era de mim que tu fugias quando o empregado bateu à porta, mas sim pelo pudor natural de que alguém, tal como eu, entrasse
em qualquer momento no quarto.
- Tinhas saído ... hmm quando eu saí outra vez.
- Esperei alguns minutos - disse Domingo com ternura, acariciando-lhe o dorso da mão num lado da cara. - Mas logo compreendi que não seria justo achar que
estavas disposta a oferecer-te quando entre nós dois existia uma situação tão confusa.
- Oh, Domingo! - sussurou ela.
- Minha doce Erith - sussurou ele: - Saí do teu quarto quando pude fazê-lo e depois passei muito tempo em agonia sabendo que não podia ser assim. O cúmulo
deu-se à hora de jantar, nessa noite.
- Recordo que parecias ter muitas coisas na mente quando te saudei - disse Erith.
- Graças a ti.
- A mim? porquê?
- O meu desejo mais intenso era que viesses comigo para Jahara.
- A sério? - perguntou a jovem num trémulo sussuro.
- Sim, meu amor. Muitas vezes houve que quis dizer-te tudo, mas o medo de que quando soubesses te fosses embora, fêz-me ficar em silêncio. Mas quando as coisas
se ensombre-ceram para mim, o que apenas me animou foi recordar a tua reacção ao beijar-te e o facto de que Jahara te agradava. Tinhas que guardar algum sentimento
afectuoso em relação a mim para responder como respondeste e se me amavas, ainda que fosse pouco, quem sabe se não gostarias de viver comigo em Jahara, ao contrário
da minha mãe que também era europeia. Nessa noite tentei averiguar o que achavas sobre a ideia de viver em Jahara.
De repente o coração de Erith saltou do seu peito. Porque, recordava-se bem, daquela ocasião em que ele lhe tinha perguntado se concordava que uma mulher vivesse
no país do seu marido por amor. Então... tinha querido dizer que...? Vacilou outra vez, tentando controlar pensamentos tão sedutores e loucos.
- Falaste-me sobre... os teus pais e como... se tinham afastado.
- E tu, em vez de me dizeres o que eu queria ouvir, deste-me um sermão sobre a honestidade como base de toda a relação... e fizeste-me pensar muito.
Ao recordar a sua própria noite mal dormida, ela quis saber:
- Não dormiste bem?
- Nem bem nem mal; não dormi em absoluto. Quem podia dormir como que eu carregava na consciência? Não levei muito tempo a aperceber-me de que se queria chagar
a algum lado contigo, teria que limpar a nossa relação das mentiras. Quero, meu amor, que a base da nossa relação seja a honestidade.
Erith sorriu amorosamente.
- Por isso foste ao meu quarto de manhã para me dizer que Audra e Filipe tinham viajado?
- Uma pequena correcção, meu doce amor - disse com um sorriso cheio de ternura, -- tinha jurado não voltar a mentir-te; o que disse foi: "conheço o paradeiro
exacto de Audra e Filipe".
- É verdade - riu Erith e Domingo beijou-á.
- O que me recordo - prosseguiu ele, voltando a colocar espaço entre eles, - foi que fui incapaz de afastar as mãos de ti da última vez que estive no teu quarto.
- Por isso arranjaste-me uma suite.
- Queria ter uma certa solenidade contigo quando te confessasse tudo e não queria distrair-me. Mas decidi que o correcto era esperar até que viéssemos para
Lima para te dizer. Depois, se tudo corresse mal, coisa que eu tentava não considerar, a tua meia irmã estaria apenas a três quartos de hora do vôo e...
- E o que terias feito?
Domingo encolheu os ombros e depois disse solenemente:
- Não fui capaz de enfrentar essa possibilidade. O vôo de Juliaca a este lugar foi maravilhoso. Mas de nenhuma maneira ia começar uma conversa tão pessoal
num avião.
- Disseste quando chegamos aqui, que tinhas algo a dizer-me.
O meu sentido de oportunidade voltou a falhar, verdade? Fui para tentar recuperar a postura, e para encontrar um pouco de serenidade.
- Estavas muito inquieto? - perguntou a jovem.
- Não tens ideia. Já fora, decidi regressar ao hotel a pôr tudo claro de uma vez por todas. E para começar a fazer as emendas necessárias, telefonei ao meu
sobrinho.
- Céus! - exclamou Erith com um sorriso um pouco irónico e um pouco comovido.
- "Céus" é uma expressão muito benévola para traduzir como me senti. Disse a Filipe que se queria recuperar o seu emprego no estaleiro, deveria vir com a sua
amiga para Lima; ele disse-me que o faria com todo o gosto, mas já tinha terminado com Audra. Contou-me que no dia anterior tinha-a levado ao carro para que apanhasse
um avião para Lima.
- Pensaste que se hospedaria neste hotel? Domingo sacudiu a cabeça.
- Nem sequer me ocurreu quando perguntei a Filipe se ela ia directamente para Inglaterra. "Quem sabe"? respondeu-me ele, mas acrescentou que pelo que conhecia
dela, não estranharia que antes desse uma volta por Lima para ver "quem se
encontrava na cidade
Pedi que ela me informasse se tinha dinheiro e disse-me que estava tão escassa de dinheiro com ele nesse momento, mas tinha lhe dado umas peças de joalheria
que ela podia vendei para pagar o hotel e viajar para Inglaterra. Quando desliguei soube que Audra, ainda que arruinada, não deixai ia de hospedar nos melhores hotéis.
E foi então quando começai a sondar. Estavas a descansar na tua suite, julgo, quando decidi telefonar para a recepção e perguntar se se tinha registado alguma senhora
Billington.
- Disseram-te que sim?
- Esperei, pensando que o meu receio era em vão e que apenas tinha de culpar a minha consciência por isso. Quando a recepção confirmou as minhas piores suposições,
ao perguntar-me se me referia à senhorita Audra Billington, compreendi que tinha de te confessar tudo antes que a tua meia irmã te encontrasse. Mas quando estava
a bater à tua porta, um empregado aproximou-se e disse-me que tinha visto a senhora loura ir com uma rapariga ruiva. O coração tremeu de medo - admitiu o peruano.
- E disse ao empregado:
"Mas iam sem bagagens, verdade?". Mas ele disse-me que as duas levavam malas. Não sabes como me senti angustiado.
- Oh, meu amor! - cochichou Erith. - O que fizeste? Domingo dirigiu-lhe um olhar de felicidade radiante pelo "meu amor" e depois disse;
- Que poderia fazer? Consegui de imediato um táxi e pedi-lhe que fosse o mais rápido possível ao aeroporto, aterrado o tempo todo, com a possibilidade de
que já tivesses voado para longe de mim.
- Aterrado... tu?
- Mais que aterrado - respondeu ele. - Ainda que o taxista carregasse a fundo o acelarador, esse trajecto pareceu-me eterno. Mas, foi nessa viagem de pesadelo
que compreendi uma coisa com nítida clareza.
- E o que foi isso? - quis saber Erith.
- Que te amo como nunca amei ninguém nesta vida e que me parece que sempre te amei, inclusivamente antes de te conhecer - e prosseguiu, quando Erith se encostou
mais estreitamente contra ele. - O que se calhar explica porque, apesar das poucas horas que passaste na fazenda e também pela minha angústia, que o que mais desejo
à face da terra é casar-me contigo, mas...
- Casar comigo? Casarmos! - Erith levantou-se de forma compulsiva e olhou-o com os olhos muito abertos e luminosos, enquanto o coração começava a sair do peito.
- Pois claro - disse ele com suavidade e com uma nota de orgulho. Era evidente, pela expressão do seu rosto, que nunca tinha pensado pedir-lhe que fosse sua
amante.
- Ah - murmurou ela, relaxou-se e encostou-se novamente contra ele e quis saber mais. - Desejavas casar comigo, mas...?
- Mas tenho que pensar na nossa futura felicidade seriamente. Ao contrário do meu pai, pareces gostar muito do meu país, da minha fazenda. Mas pensei que,
se tivesse a sorte de não me deixares de falar e me perdoasses quando te confessasse as mentiras, que ainda assim restava a possibilidade de que o teu gosto por
Jahara ser passageiro, e que se calhar um dia podes despertar e descobrir que queres voltar para o teu país, que estás farta de Jahara. Julgas que...?
Existia uma comovedora vulnerabilidade na sua voz, quase uma súplica que ficou incluída na pergunta.
- Oh, minha vida ! - cochichou Erith e agarrou-o com força. - Nao me importo de viver no Polo Norte, desde que seja contigo - e perante a alegria que iluminou
o rosto do seu amado, convidou-o a continuar a falar. - Então... decidiste enfrentar o desafio?
Domingo olhou-a com intensidade nos olhos e disse suavemente:
- Agora fazes parte de mim, meu amor. Ainda que tenha sido no táxi durante essa viagem infernal que com, tantas coisas a ferverem no meu cérebro, recordei
uma coisa que uma vez te disse: "Por ti, faço qualquer coisa" e soube que se te alcançasse, se me perdoasses, não me importaria sequer que Jahara te agradasse ou
não. Porque eu também viveria no Polo Norte ou no Timbuctu desde que fosse contigo. Porque onde quer que estivesse contigo ali seria a minha pátria, o meu lar, o
meu paraíso.
-Domingo! - a alegria tremeu na voz da jovem. -
-Queres dizei que deixaria Jahana por mim?
- Com certeza - declarou com ênfase.
- Amas...-me tanto? - sussurou ela.
- Vais permitir que te o demonstre o resto dai nossas vidas? - sorriu ele.
- É um pedido formal?
- Absolutamente.
O amor brotou no peito da jovem como a água de uma nascente que a pressa apenas pôde conter. Engoliu o nó de emoção que lhe obstruía a garganta e com a voz
enrouquecida e trémula pela emoção que transbordava, disse:
- Não posso recordar um só dia que tenha acordado em Jahara e não me sentisse feliz de ali estar - e enquanto Domingo observava o seu rosto com a intensidade
que apenas podem ter os apaixonados, continuou. - Sinto que Jahara é o meu lar - sorriu a jovem e acrescentou: - E, se me deixares, ficaria encantada de ali viver.
Domingo aproximou mais a sua cabeça da dela e, antes de a beijar, perguntou:
- Essa é alguma maneira inglesa de me dizeres que aceitas a minha proposta de casamento?
- Oh, sim, sim, sim, meu amor! - riu a jovem cheia de alegria e beijou-o.
Abraçaram-se e olharam-se com os olhos cheios de promessas.
Fim
Traduzido e corrigido por
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Motivos Ocultos Jéssica Steele
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