Luís Campos (Blind Joker)
Parte I
Ao passarmos pela Rua do Ouvidor, meus amigos entraram numa casa
lotérica para colocar crédito em seus celulares. Disse-lhes que não
entraria e ficaria à porta . Como sempre, eles entenderam minha intenção:
- Vai fumar, né? - perguntou, afirmando, Reinaldo.
- Claro! - respondi.
Dobrei a bengala e a coloquei num dos bolsos traseiros. Recostei-me à
parede e acendi um cigarro. Após dar umas duas baforadas, uma garota
parou diante de mim e perguntou:
- Por favor... que horas são?
Acionei o relógio e disse-lhe a hora.
- Seis e quarenta!
- Você é cego? - perguntou ela admirada.
- Sou!
- Me desculpe! Não percebi! Mas seu relógio está atrasado!
- Relaxe! É que moro em Salvador e lá não temos horário de verão,
por isso não adiantei o relógio!
- Eu também sou baiana!
- E a quanto tempo está aqui?
- Há mais de vinte anos. Nasci em Xique-Xique e vim pra cá criança.
- Veio sozinha ou com seus pais?
- Viemos todos! Meu pai é gerente de um banco e veio transferido!
- Legal!
- Tenho que ir... preciso trabalhar!
- Você trabalha aqui perto?
- Sim! Numa loja de brinquedos na Rua da Alfândega!
- Hahahaha!
- Qual foi a graça? Hahahaha!
- É que adoro comprar brinquedos e miniaturas!
- Se quiser dê uma passadinha lá na loja. O nome é "Brinquelandia" e
fica no número vinte e sete!
- Até que horas você estará lá?
- Até meio-dia!
- Tá bem! Mais tarde eu apareço por lá!
- Vou ficar esperando!
- Pode esperar!
- Tenho que abrir a loja! Tchau! Até mais tarde! - disse ela dando-me
um beijinho no rosto.
Retribui o beijinho e dei também um "tchau" e continuei aguardando os
meninos. Mais alguns minutos e eles apareceram. Formamos o "trenzinho"
e fomos procurar uma loja de "som", pois Evangel queria comprar um
"Home Theater". Entramos e saímos de diversas ruas do "Saara" e após
visitarmos várias lojas e nada do troço, Evangel desistiu da busca.
Como já era quase onze horas, decidi ir até a loja de brinquedos da
Cíntia e nos dirigimos à Rua da Alfândega. Ao ver-me entrar na loja,
Cíntia veio em minha direção, dizendo-me:
- Que prazer revê-lo! Pensei que não o veria mais!
- Eu disse que viria e aqui estou!
- Venha até minha mesa... vamos ver o que lhe interessa!
Peguei em seu ombro e ela, agora a locomotiva, nos guiou até um canto
da loja e, indicando algumas cadeiras, mandou que sentássemos.
Sentamos diante da sua mesa e ela chamou um rapaz:
- Rodrigo, por favor!
O moço aproximou-se e disse:
- Pois não, Dona Cíntia!
- Aguarde um pouco, Rodrigo. Vejamos o que meu amigo Luís deseja!
- Eu queria ver umas bonecas, carrinhos e outras coisas interessantes,
mas que sejam baratinhos!
- Tudo aqui é baratinho, Luís! - disse ela sorrindo. - Rodrigo, pegue
aquelas bonecas chinesas, os mini-games e alguns carrinhos de fricção!
- Está bem, Dona Cíntia! - disse o rapaz.
Assim que o rapaz saiu, Ednilson, levantando-se, falou:
- Olha, companheiro... já que você vai comprar seus brinquedinhos, vou
dar um giro por aí e nos encontraremos no restaurante da Rosa!
- Eu vou com você, Ednilson! - disse Evangel.
Eles deram tchau para Cíntia e se foram. Reinaldo ficou comigo, pois
tinha interesse em comprar um mini-game. Enquanto o rapaz não voltava,
ficamos proseando:
- Cíntia, pensei que você fosse funcionária da loja, mas vejo que é a
gerente!
- Não, Luís! Sou uma das donas! Eu e minha irmã somos sócias em duas
lojas. A outra fica em Niterói e ela é quem toma conta!
- Que legal! - disse Reinaldo.
- Por isso que a encontrei tão cedo?
- Sim! Costumamos abrir as lojas antes das nove e temos que chegar
mais cedo para arrumarmos as coisas!
- Você mora perto?
- Que nada... moro em Niterói!
- Caramba! É longe pra zorra!
- Pois é... todo dia atravesso a Ponte duas vezes!
- Deve ser um saco, né? - perguntou Reinaldo.
- Que nada... já acostumei que nem percebo a distância!
Nesse momento Rodrigo colocou sobre a mesa diversos brinquedos. Havia
carrinho, boneca, mini-game, bichinho plástico, boneco articulado e
quadro magnético, entre outros.
- Aqui estão, Luís! Pode escolher!
- O mini-game quem quer é o Reinaldo, mas se o preço for bom, levarei
alguns!
- Tenho certeza que você vai gostar dos nossos preços!
- Isso é que é vendedora! - falei sorrindo. - Mas eu sou mão-de-vaca e
adoro pechinchar! Hahahahahaha!
Reinaldo e Cíntia sorriram.
- Com os nossos preços não haverá essa necessidade... além do mais,
esses mãos-de-vacas quando entram aqui acabam abrindo a mão! Hahahaha!
- Isso depende do mão-de-vaca, Cíntia! Você não conhece esse aí! disse
Reinaldo a sorrir.
Todos rimos.
Cerca de uma hora depois eu comprará tudo que queria e Reinaldo o
mini-game. Ao passar o cartão para debitar em conta, a senha não
entrou de maneira alguma e Cíntia aceitou que eu fizesse o pagamento
em cheque, embora não fosse esse o procedimento "normal" ali no Saara.
Ao nos despedirmos, pedi-lhe que nos indicasse para que lado ficava a
Rua Luís de Camões, pois almoçaríamos por lá.
- Se você aceitar, posso levá-los! - disse Cíntia.
- Claro que aceitamos, mas com uma condição: que você almoce conosco!
- Aceito a condição... vamos!
- Vamos! conclui.
Cíntia deu algumas ordens ao Rodrigo, pegou minha mão e a colocou em
seu ombro e saímos.
- - -
* Parte II
Quando alguns cegos se reúnem, ao se movimentarem em grupo, caminham
em fila indiana. Os que vão atrás colocam uma das mãos sobre o ombro
daquele que está à frente. A essa formação, cegos e videntes (como
chamamos a quem enxerga) apelidam de trenzinho. Ao cruzarmos as ruas,
especialmente em Sampa e no Rio, camelôs, ambulantes, vendedores de
lojas e transeuntes, costumam brincar, entre risos e piadinhas:
- Piuiiiii! Piuiiii!
- Olha o trenzinho! Olha o trenzinho!
- Sai da frente do trem, gente!
Claro que também sorrimos com a pilhéria, afinal, é mesmo engraçado
ver aquela "corda de caranguejo" e, como todos vocês sabem, geralmente
somos bem-humorados!
E foi dessa forma que, pelas ruas do Saara, fomos guiados pela Cíntia.
Embora o trenzinho tivesse apenas dois vagões, éramos puxados por uma
"senhora" locomotiva. E fiquei sabendo disso ao ouvir a primeira
gracinha de um camelô:
- Uau! Que locomotiva!
- Piuiiii! Piuiiii!
Nosso comboio finalmente chegou ao destino. O restaurante da Rosa é
pequeno, porém acolhedor. Eles servem um buffet de comida japonesa e
brasileira de dar água na boca. Ao chegarmos, Evangel e Ednilson já
haviam almoçado e não quiseram nos esperar. Disseram que mais tarde
nos encontrariam no hotel e se mandaram... não sei para onde foram!
Rosa nos indicou uma mesa e, após o pedido do Reinaldo, foi servi-lo.
Cíntia, muito atenciosa, perguntou-me o que queria e fez meu prato.
Aguardei ela fazer o seu para começar a comer. Enquanto comíamos,
conversamos sobre nossa viagem a Joinville, os dias que passamos em
São Paulo e o que faríamos no Rio. Cíntia disse que não trabalharia
pela tarde e ofereceu-se como cicerone. Após o almoço fomos até a
Cinelândia, pois Cíntia queria nos mostrar os belos prédios da Belle
Époque, período em que o Rio queria ser uma Paris tropical.
Conhecemos o Teatro Municipal cujo prédio foi inspirado na Ópera de
Paris e foi construído em 1909 com muito mármore e vitrais trazidos da
Europa. Dali fomos até o Museu Nacional de Belas Artes, mais uma jóia
da arquitetura. Cíntia disse que a fachada está sendo reformada e seu
acervo guarda peças trazidas por D. João Vi em 1808. Fomos ao Real
Gabinete Português de Leitura, na Praça Tiradentes. Segundo Cíntia,
ele disputa com o Hotel Copacabana Palace o título de prédio mais
bonito do Rio de Janeiro. Ao passarmos pelo Bar Amarelinho, Cíntia
sugeriu que provássemos o chope mais bem tirado da redondeza, segundo
dizem. Depois, na Primeiro de março, visitamos o Centro Cultural
Banco do brasil, um prédio neoclássico que apresenta peças teatrais,
mostras de arte e excelentes filmes. Dali fomos até a Igreja da
Candelária, construída em 1898. Tombado pelo IPHAN, o prédio da igreja
tem a forma de uma cruz latina. Como já eram quase cinco horas da
tarde, fomos à Rua Gonçalves Dias, pois Cíntia queria nos levar para
fazer um lanche na famosa Confeitaria Colombo. Uma vez nesta, ela
pediu dois "Chás Colombo", carro chefe da casa e que trazia cerca de
dezessete iguarias, entre bolos, tortas, mini-sanduíches, salgadinhos,
frutas secas e casadinhos, além do chá propriamente dito. Depois desse
"lanchinho", não houve estômago para jantares. Antes de sairmos do
local, Cíntia nos contou que a Colombo foi fundada em 1894 por dois
portugueses. Seus enormes salões são também retratos da Belle Époque
carioca, num estilo Art Nouveau do início do século vinte. Espelhos
belgas, molduras, vitrines e móveis em jacarandá esculpidos à mão,
bancadas em mármore italiano, lustres, vitrais e pisos também trazidos
da Europa. Disse-nos ainda que, nos bons tempos, a Colombo, durante o
dia, era freqüentada por pessoas ilustres da sociedade e também por
jornalistas. À noite, os boêmios faziam da Colombo parada obrigatória.
Entre tantas celebridades que estiveram na Confeitaria Colombo,
destacam-se figuras como Ruy Barbosa, Olavo Bilac, Chiquinha Gonzaga,
Villas Lobos, Getúlio Vargas, Virgínia Lane, Juscelino Kubitschek,
Lima Barreto e José do Patrocínio, entre outros. Ela só esqueceu de
nos incluir nessa listinha! Mas, fazer o quê? Conformado, disse-lhe
que ela poderia nos colocar numa estação do metrô que iríamos para o
hotel, mas ela disse que nos levaria e que não adiantaria nossos
protestos. E assim fez. Seu carro estava num estacionamento ali perto
e assim fomos de carona para o Catete. Além do conforto, teríamos a
companhia da Cíntia por mais alguns minutos. Como isso é apenas um
conto, digo-lhes que o trânsito fluía para carioca nenhum botar
defeito e até invejar... mesmo sendo a hora do "rush", viu, Noviço?
Enquanto o carro atravessava as ruas da cidade, conversávamos:
- Em qual hotel vocês estão? - perguntou Cíntia.
- No Cachambu... no Catete! - Respondi.
- Sei onde fica! Até quando você fica por aqui?
- Até o sábado!
- Por que não fica mais alguns dias?
- Não posso! Tenho um compromisso em Salvador!
- E não pode adiar o compromisso?
- Já o adiei uma vez! Sou coordenador de aposentados de um Sindicato
e teremos um almoço de confraternização no próximo dia vinte!
- Que pena! Gostaria de mostrar-lhes as belezas do Rio!
- Antes de perder a visão, Cíntia, vim ao Rio várias vezes!
- Mas eu não lhe mostrei a cidade! Hahahaha!
- Se eu a conhecesse, bem que gostaria!
- Que hora vocês voltam no sábado?
- Às vinte!
- Ah! No sábado, você tem algum compromisso durante o dia?
- Até agora, não!
- Então virei pegá-lo às oito para darmos uma volta em Niterói!
- Legal! Tenho uma amiga em Niterói. Vou pegar o endereço dela com o
Evangel e, se for possível, daremos uma passadinha na casa dela!
- Claro! Será um prazer!
Durante o percurso, Reinaldo não disse uma palavra. Se não estava
dormindo, possivelmente pensava na "paixão" que deixara em Aracaju!
Logo chegamos ao hotel. Ela estacionou o carro e nos levou até o
saguão. Sentamos um pouco numas poltronas que havia ali e trocamos
algumas palavras antes que ela se fosse, sem esquecer, no entanto, de
firmar nosso compromisso. Nos despedimos com beijinhos e eu e Reinaldo
agradecemos a tarde maravilhosa que ela nos proporcionara.
No dia seguinte, sexta-feira, havia um recado da Cíntia na portaria:
"Tenha um excelente dia e divirta-se. Amanhã estarei aí às oito!"
Quando falei do recado aos sacanas, eles ficaram tirando sarro da
minha cara!
Nesse dia pela manhã visitamos o IBC e à tarde fomos ao Méier.
Algumas vezes, nesses dois dias, andamos de metrô no Rio e fomos muito
bem tratados por seus funcionários que, sempre simpáticos, nos guiavam
pelas dependências das estações. Sem querer ofender aos paulistanos, o
pessoal do metrô do Rio é mais caloroso e sorridente. O povo do metrô
de São Paulo, com raras exceções, é "profissionalmente frio", embora
equiparem-se na qualidade do atendimento ao cego. Lembro-me que também
em Recife, quando lá estivemos em 2005, após o Encontro Dosvox em João
Pessoa, fomos muito bem tratados pela turma do metrô local, bem como
pelo cidadão da "Veneza Brasileira". Só para dar um exemplo, certo dia
fomos visitar uma Entidade que dá apoio ao Cego e quando chegamos ao
ponto que deveríamos descer, o motorista parou o ônibus e, saindo do
volante, atravessou a rua conosco. Que maravilha, né?
Mas voltemos ao Rio de Janeiro, afinal, essa aventura está apenas a um
dia de findar-se e ainda há muita coisa a relatar. De metrô fomos até
a Central do Brasil e, de trem, ao Méier. O trem demorou para sair,
mas a viagem foi tranqüila. No Méier visitamos meu amigo Paulo e
o comércio local, visando comprar alguma coisa "diferente". No fim
da tarde voltamos de ônibus até a Tijuca e de lá, fomos de metrô até
o Catete. Antes de chegarmos ao hotel, passamos num restaurante que
havia nas imediações e jantamos. A sexta-feira foi embora e a saudade
começava a bater no peito. Não a saudade de casa, mas a saudade do
que se deixa para trás... daqueles dias em Joinville, em Sampa e agora
na Cidade Maravilhosa! Ao lembrar-me que esqueci de avisar aos amigos
das Listas que participo sobre minha presença em suas cidades nesses
dias, fico retado e vou dormir pensando numa desculpa para o mico!
Mas ao lembrar que amanhã é sábado... durmo o sono dos justos e tenho
um sonho maravilhoso!
- - -
* Parte III
No sábado acordamos mais cedo e, no café da manhã, discutimos nossos
destinos. Eu ia sair com Cíntia. Edinilson e Evangel visitariam uns
amigos e Reinaldo disse que ficaria no hotel por estar cansado e
almoçaria por ali mesmo. Acertamos voltar ao hotel lá pelas dezessete
horas, pois o vôo seria às vinte. Contratamos um táxi para as dezoito
e trinta, para dar tempo de tomar um banho. Afim de evitar correria,
deixamos as malas arrumadas e o hotel pago.
Cerca de vinte pras oito Cíntia chegou. Estávamos sentados no saguão
jogando conversa fora e rindo por qualquer bobagem... o que não é
novidade!
- Olá, rapazes! Que bom vê-los alegres!
- Esse pessoal está sempre alegre, Cíntia... são que nem hienas! -
falou Evangel.
- Qual é a sua, companheiro? - disse Ednilson.
- Calma, Lorde Lerdo... o companheiro Evangel apenas levantou com o
bundão virado... aliás, como faz quase sempre! - disse eu sorrindo.
- Feche a matraca,seu boca suja! - exclamou Evangel.
- Vocês não vão sair? - perguntou Reinaldo.
- Que é isso, companheiro? Quer ver-se livre de nós?- indagou Evangel.
- Acho que ele quer ficar sozinho pra curtir a saudade da paixão!
- Também acho, companheiro Luís! - disse Ednilson.
- Cíntia, vamos! - disse eu, interrompendo a conversa.
- Vamos!
- Tchau, meus caros... nos veremos mais tarde. Divirtam-se!
- Tchau, rapazes!
- Tchau, Cíntia - responderam os três mosqueteiros quase em uníssono.
Cíntia colocou minha mão esquerda em seu ombro direito... eu tirei e
a coloquei em seu ombro esquerdo, abraçando-a e assim fomos até o
estacionamento do hotel. Ela abriu a porta do carro e colocou minha
mão sobre o teto deste. Acomodei-me no banco do carona e coloquei o
cinto de segurança. Ao entrar e me ver já "amarrado", com uma voz
meiga e carinhosa, disse-me:
- Por que não esperou que eu colocasse o cinto?
- Porque seria mais prático eu o colocar! Hahahahaha!
- Vocês se viram, né? - disse sorrindo.
- Menina, cego faz coisas que até Deus duvida! - respondi malicioso.
Com um sorriso, ela replicou no mesmo tom:
- Isso eu espero ver! Hahahahaha!
Sorri também e ela deu partida ao veículo. Uns dez minutos depois
estávamos atravessando a Ponte Rio-Niterói.
- Você conheceu Niterói antes de perder a visão?
- Conheci! Conheço quase todas as capitais e muitas outras cidades!
- Desde o Norte do País?
- Sim! Da Região Norte só conheci Manaus e Belém. Devido ao custo e
às distâncias, não quis conhecer Rio Branco, Macapá, Porto Velho, Boa
Vista e nem Palmas.
- Caramba! Você viajou bastante!
- Sempre gostei de viajar... não gosto é de arrumar mala! Hahahahaha!
- Hahahahaah! Eu também não! Realmente é muito chato!
- Pelo visto estamos chegando em Niterói!
- Ué? Como é que você sabe?
- Simples! O carro começo a descer e a fazer uma curva!
- Que legal! Você percebe o movimento do carro e tem idéia de onde
está?
- Se eu conhecer a cidade, sim! Em Salvador me localizo muito bem!
- Legal! Evita que você seja enganado por um taxista desonesto, né?
- Em Salvador dá pra fazer isso, mas em outras cidades fica difícil!
- Você tem razão!
A conversa continuou nessa linha e após rodarmos mais alguns minutos,
Cíntia disse:
- Estamos chegando em minha casa. Tem algum problema passarmos por lá?
- Por que teria? Relaxe!
- Ok! Quero apresentá-lo aos meus pais! Você vai gostar deles!
- Pelo que é a filha, tenho certeza que sim!
Ela reduziu a velocidade do veículo, manobrou para a esquerda e voltou
à direita para posicionar-se frente ao portão da casa. Enquanto ela
fazia isso, eu disse:
- Chegamos em sua casa, Né?
- Como é que você sabe?
- Fácil! Pela manobra que você fez!
Cíntia parou diante do portão e acionou o controle remoto. Antes que
este abrisse completamente, entrou com o carro e acionou o fechamento
do mesmo.
- Assim você quebra o automático do portão, Cíntia!
- Paínho vive reclamando disso... e eu não tomo jeito! Hahahahaha!
- E ele tem razão! Você foi de sete meses? Hahahahahaha!
- Não sou muito de esperar as coisas acontecerem! Quando quero, corro
atrás! Hahahahahahaha!
Saímos do carro e continuamos a conversa.
- É? Mas nesse caso vai ter que correr atrás do técnico pra consertar
o portão, isso sim! Hahahahahahaha!
- Hahahahahaha! Eu já faço isso há muito tempo e nunca quebrou!
- Tudo bem! Você deu sorte! Em alguns casos eu sou mais cauteloso!
Quando ela pegava alguma coisa na mala, interrompendo o diálogo,
aproximou-se um senhor:
- Eu digo isso a ela todos os dias, meu caro!
- Oi, Paínho... esse é Luís!
- Bom-dia, Luís! Muito prazer!
- Bom-dia, Senhor! Prazer!
- Me chame de Hélder, Luís! Vamos entrar!
- Obrigado, Hélder!
Abracei Cíntia e os acompanhei ao interior da casa. Atravessamos uma
área gramada e após passarmos por uma varanda, adentramos a sala.
Cíntia levou-me até um sofá e sentou ao meu lado. Hélder sentou-se
defronte a nós.
- Mãinha, venha cá! - gritou Cíntia.
Enquanto sua mãe não chegava, Cíntia falou:
- Luís, já falei a Paínho que você é baiano!
- Pois é, meu amigo... tenho muitas saudades daquela terrinha!
- Também gosto muito de Salvador, Hélder! Só moraria em outra cidade
se fosse obrigado!
- É... e eu fui obrigado, Luís! Hahahaha!
- Hahahahaha! Coisas da vida, Hélder!
- Não quero dizer com isso que não gosto daqui! Niterói também é uma
cidade aprazível. Além disso, aqui minhas filhas acabaram de crescer!
- Luís, estamos a umas seis quadras da praia! Podemos ir andando! -
complementou Cíntia.
- Pela brisa, percebi que havia mar por perto!
- Por falar em mar, você trouxe uma sunga? - perguntou Cíntia.
- Trouxe... mas deixei no hotel! Hahahahaha!
- Hahahahaha! Se você quiser, eu lhe empresto um short de meu pai!
- Você tem o mesmo corpo que eu... vai ficar ótimo, Luís!
- E mais idade, Hélder! Hahahahaha!
- Hahahahaha! Acho que não... eu fui pai muito velho, Luís!
Quando Cíntia nasceu, meu caro, eu já tinha trinta e dois anos e, em
fevereiro farei sessenta e oito!
- Poxa, Paínho... agora você disse minha idade ao Luís!
- Ter trinta e seis anos é ruim, Cíntia? - perguntei.
- Para uma mulher, cada ano é uma mecha de cabelo branco, Luís! falou
Hélder sorrindo.
- Imagine se houvesse o risco delas ficarem carecas, Hélder! Hahaha!
Nesse instante chega a mãe de Cíntia e entra na discussão.
- Pois saibam que, para uma mulher, cada ano a mais é uma tortura!
Hahahahaha!
- Luís, essa é Cristina, minha esposa!
Bom-dia, Dona Cristina!
- Bom-dia, Luís! Cíntia já me falara de você!
- Mas, por favor, não acredite em tudo que ela fala, Dona Cristina!
- Ela não costuma mentir, Luís!
- Mas eu sim, Dona Cristina! Hahahahaha!
- Hahahahaha! Até o momento não percebi essa sua "qualidade", Luís! -
complementou Cíntia.
- Por favor, Luís, esse "Dona" faz lembrar minha idade! Hahahahaha!
- Desculpe... Cristina!
- A conversa está boa, mas vamos pra cozinha tomar um verdadeiro café
baiano! - disse Dona Cristina.
- - -
* Parte IV - Final
Já na cozinha, ao sentar-me à mesa, Cíntia descreveu o que havia
sobre esta para o tal café baiano, fazendo com que eu ficasse com
água na boca e crescesse os olhos da imaginação. Desjejum para hotel
cinco estrelas ficar com vergonha. Senão, vejamos:
Cuscuz de puba, bolo de milho e de aipim, banana da terra frita,
mingau de tapioca, inhame, pão quentinho com manteiga de garrafa,
queijo, suco de goiaba e laranja, fatias de melancia, mamão e melão,
leite quente e, para completar, café coado em coador de pano, que me
trouxe lembranças de um passado um tanto distante. Embora houvesse
tomado café no hotel, com todas essas iguarias à mesa, não resisti...
belisquei de quase tudo! E eu ainda fico dizendo que o Evangel é um
glutão! Mas, após este "cafezinho baiano", certamente não almoçaria.
Entre uma mordida e outra a conversa corria solta.
- Cíntia me disse que você vai embora hoje à noite. Por que não fica
mais alguns dias?
- Eu já falei isso pra ele, Mãinha!
- Tenho um compromisso no próximo dia vinte e quatro!
- Liga pra lá e adia, Luís? - disse Hélder.
- Já fiz isso uma vez... não posso adiar novamente!
- Mas você pretende voltar ao Rio, não é?
- Claro, Cristina! Assim que for possível estarei de volta!
- Estamos pretendendo passar uns dias na Bahia. Queremos ir até
Xique-Xique visitar alguns parentes!
- Mas passarão em Salvador, Hélder?
- Claro!
- Espero ter o prazer da visita de vocês!
- Claro, Luís. Não conhecemos bem a cidade e pretendemos conhecê-la
mais um pouco!
- Se quiserem, poderão contar com um "cegorone"! Conheço muito bem
Salvador!
- Cegorone? Mistura de cego com cicerone? - perguntou Cíntia sorrindo.
- É! Vou levá-los para ver nossos pontos turísticos! Tem muito lugar
interessante!
- Quero conhecer a Lagoa do Abaeté, o Elevador Lacerda, o Pelourinho e
a Igreja do Bonfim!
- Eu a levarei para conhecer tudo isso e muito mais, Cíntia!
Cerca de meia hora depois voltamos à sala.
- Mãinha, vou levar Luís para dar uma volta. Quer ir conosco?
- Não, filha, obrigado! Sua irmã ficou de chegar mais cedo para irmos
ao Shopping Plaza!
- Quer ir conosco, Paínho?
- Hoje estou de castigo! A bomba da piscina deu problema e vou esperar
o técnico. Fica pra próxima!
- Bem, se vocês não podem ir, iremos nós. Mãinha, se der tempo eu
passo no Plaza pra Luís conhecer Cindy!
- Está bem, filha! Divirtam-se!
- Vamos, Luís?
- Vamos! Hélder, foi um prazer conhecê-los! Cristina, seu "cafezinho"
estava uma delícia! Obrigado aos dois pela maravilhosa acolhida!
- Obrigada, Luís! Espero que volte ao Rio e nos visite novamente!
- Não tenha dúvida, Cristina! Será um prazer revê-los! Até outro dia!
Tchau, Hélder!
- Grato pela visita, Luís! Volte quando quiser!
- Obrigado por tudo, Hélder! Tchau!
Cíntia colocou minha mão sobre seu ombro e fomos em direção ao carro
dela. Hélder e Cristina nos acompanharam. Entramos no carro e saímos.
- Vamos fazer um tour rápido pelas atrações turísticas de Niterói!
- Ok! Você é quem manda, Chefa!- eu disse sorrindo e fazendo com que
Cíntia sorrisse também.
Rodamos alguns minutos e Cíntia começou a descrever os locais que
passávamos:
- Aqui é o caminho Niemeyer. À exceção de Brasília, Niterói é a única
cidade no Brasil que abriga tantas obras de Oscar Niemeyer!
- Mas ele tem algumas coisas em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e
Belo Horizonte, Cíntia!
- Eu sei! Mas o Caminho Niemeyer está incluso num roteiro turístico
da EMBRATUR que divulga as obras desse arquiteto!
- Ouvi comentários que ele seria convidado a projetar um novo estádio
em Salvador!
- Que legal! Estamos chegando ao MAC, Museu de Arte Contemporânea. É
mais uma das obras do Niemeyer. Fica no alto do Mirante da Boa Viagem
e está cercado por uma belíssima paisagem. É uma pena que você não
possa ver a beleza desse lugar, Luís!
- Mas posso sentir e ouvir, né, Cíntia? - eu disse a sorrir.
- Desculpe-me! - respondeu ela com um tom triste na voz.
- Relaxe... é normal o vidente sentir-se assim diante do cego. Mas
lembre-se que, apenas não posso ver!
- Tá bem! Prometo não esquecer!
- Não estou dizendo que você não descreva a paisagem, Cíntia!
- Entendo! Estamos chegando na Fortaleza de Santa
Cruz. Em 1555, Villegaignon improvisou uma fortificação para a defesa
da entrada da Baía de Guanabara. Dois anos depois foi tomada por Mem
de Sá que a ampliou e deu o nome de Nossa Senhora da Guia. Visava
proteger o embarque do ouro que vinha de Minas Gerais para o porto do
Rio. Também participou da nossa história quando das invasões francesas
e holandesas. Aqui ainda é o bairro de Jurujuba.
Quer ir ao Parque da Cidade?
- Por que não?
Rodamos mais alguns minutos e logo estávamos lá.
- O parque faz parte da reserva biológica e florestal de Niterói. Aqui
é o Morro da Viração, cerca de duzentos e setenta metros de altitude.
Daqui se avista a Baía de Guanabara, o Rio de Janeiro e os bairros de
São Francisco, Charitas, Jurujuba e Icaraí. Também se vê as lagoas de
Piratininga e Itaipu, além dessas duas praias e a de Camboinhas.
Aqui tem duas rampas que os caras descem de Asa Delta e de Parapente.
- Esses caras são corajosos! Eu nunca gostei de esporte radical!
- Nem eu! Gosto de andar em terra firme!
Voltamos para o carro e prosseguimos nosso tour.
- Você não está com fome?
- Depois daquele café, como sentir fome?
- Mas você só comeu um pouquinho!
- Foi... um pouquinho de tudo! Hahahahahaha!
- Hahahahaha! Mesmo assim, depois dessa visita quero levá-lo a um
restaurante muito legalzinho!
- Tudo bem, Cíntia!
- Vamos até a Igreja de São Francisco de Xavier!
- Já são quase três horas. Lembre-se que preciso estar no hotel pelas
cinco! Marquei com o taxista para nos pegar às seis e meia e ainda
quero tomar um banho!
- Não se preocupe! Eu os levarei ao aeroporto!
- Não é preciso! Já marquei o táxi, Cíntia!
Nesse momento Cíntia estacionara o carro em frente à tal igreja.
- É só ligar pro moço e desmarcar, Luís! Cadê o telefone dele?
- Está aqui!
- Me dê aí, por favor!
Peguei o cartão e entreguei a ela. Cíntia ligou do seu celular para o
taxista, explicou a situação e pediu desculpas em meu nome.
- Pronto! Agora saltemos para você ver a igreja!
Entramos no templo e Cíntia falou sobre esse.
- Essa igreja é da época colonial e fica no alto de uma colina, entre
as praias de São Francisco e Charitas. É de 1572 e foi fundada pelo
Padre Anchieta. Aqui tem uma imagem rara de São Francisco Xavier
laminada em ouro e uma pia batismal feita pelos índios.
- Em Salvador temos a Igreja de São Francisco que é internamente toda
laminada em ouro!
- Vou querer conhecê-la!
- Eu a levarei para assistir a benção das terças-feiras!
- Dizem que Salvador tem trezentas e sessenta e cinco igrejas... é
verdade?
- Pra ser sincero, não sei, mas temos muitas igrejas na Capital!
Se pensarmos um pouco, as cidades brasileiras mais antigas têm muitas
igrejas. Quase todos os bairros têm uma, né?
- É... mas essa fama de Salvador corre mundo!
- Cíntia, acho melhor nós irmos... estou preocupado com a hora!
- E não vamos almoçar?
- Acho melhor que não! Já são quatro e dez... os caras devem estar
preocupados com minha demora!
- Está bem! Então vamos para o hotel!
- No aeroporto comeremos alguma coisa!
- É melhor... a não ser que vocês se contentem com barras de cereais
e refrigerantes quentes! Hahahahaha!
- Hahahaha! Como não somos passarinhos, acho de bom alvitre fazermos
um lanche antes! Hahahahahaha!
Entramos no carro e após uns vinte e cinco minutos estávamos no hotel.
Ednilson e Reinaldo, nervosos, já me esperavam no saguão e me deram
uma bronca.
- Porra, companheiro... isso é hora? - perguntou Ednilson.
- A gente tava aqui lhe malhando pelo atraso... não ardeu sua orelha,
ceguinho? - completou Reinaldo.
- Calma, amigos... a Cíntia nos levará ao aeroporto!
- E o táxi, Luís? - perguntou Reinaldo.
- Já liguei pro rapaz e desfiz o compromisso com vocês! - respondeu
Cíntia.
- Numa boa? - indagou Ednilson.
- Sem problemas... cadê o outro? - perguntou Cíntia referindo-se ao
Evangel.
- O gordo foi pra casa dum amigo! - respondeu Reinaldo.
- O companheiro foi filar o pirão do camarada Jobson! - completou
Ednilson.
- Eu quero morrer amiga de vocês! - disse Cíntia sorrindo.
- Cíntia, vou tomar um banho... fique aí agüentando esses caras!
- Certo, Luís!
Uns vinte minutos depois eu voltava já de roupa trocada. Como as
malas estavam na portaria, Manuel, recepcionista da noite, nos ajudou
a colocá-las no carro. Agradecemos ao Manuel e partimos.
No aeroporto, após fazermos o check-in, de trenzinho, "puxado" pela
Cíntia, fomos lanchar. Voltamos ao saguão e ficamos papeando até a
hora do vôo.
- Quando você volta aqui, Luís? - perguntou Cíntia.
- Assim que for possível... talvez em janeiro!
- Ficarei esperando. Acho que irei contigo a Salvador. Quero tirar
férias no final de janeiro... vou aproveitar a folga do carnaval!
- Que bom! Será maravilhoso desfrutar sua companhia mais uma vez!
- Obrigada! Adorei conhecê-lo e passar o dia contigo. Pena que não deu
para lhe mostrar Niterói direito!
- Não faltará oportunidade, Cíntia!
- Espero! - disse ela com a voz tristonha.
Nesse momento foi anunciado o nosso vôo. Mais uma vez, de trenzinho,
Cíntia nos guiou até o portão de embarque. Com um abraço e beijinhos
no rosto, despediu-se de Reinaldo e Ednilson. Brincou um pouco com os
botões da minha camisa, abraçou-me, desejou-me uma boa viagem e, sem
que eu esperasse, colou seus lábios aos meus e trocamos um beijo cheio
de promessas e esperanças. Ao acariciar seu rosto, senti a lágrima que
a saudade deixara cair. Durante o vôo lembrei do seu perfume, da
sua pele macia, dos seus cabelos, da sua meiga voz e dos momentos
ao seu lado. As cartas que trocamos depois deste dia prenunciam que
essa história não termina aqui!
FIM
uma aventura no rio, luis campos.txt
Nota: Para proteger de vírus de computador, os programas de correio de electrónico podem impedir o envio e a recepção de certos tipos de anexos de ficheiros. Verifique as definições de segurança de correio electrónico para determinar como são manipulados os anexos.
__________ Informação do ESET Smart Security, versão da vacina 4956 (20100318) __________
A mensagem foi verificada pelo ESET Smart Security.
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