L. P. BAÇAN
CAPÍTULO 1
Quando o automático do aparelho de som deixou de cair um novo
disco e os acordes vigorosos de um concerto de Tchaikowsky
inundaram a sala, o professor levantou seus olhos negros para a
pintura à sua frente e imaginou-se na Rússia. O lápis em sua mão
pendeu sobre as anotações e ele mergulhou em reflexões.
Estava em seu apartamento, no estúdio improvisado a um canto da
sala, com uma escrivaninha moderna atulhada de livros. A lâmpada
pendia de um lustre apropriado. Sobre as duas poltronas, o sofá, o
tapete e outros móveis, espalhavam-se livros e mais livros. No
canto oposto à escrivaninha, quase perto da porta, uma bandeja de
lanche quase intacta.
Ricardo Freire, professor da Universidade Federal de Estudos
Literários, era um desses elementos que se dedicam com afinco
àquilo que desejam realizar. Preparava no momento sua tese de
doutoramento, importantíssima para sua carreira, e era essa a
razão daquela desordem.
Preso em seus pensamentos, não ouviu quando o telefone tocou pela
primeira vez. Sobressaltou-se em seguida, e procurou entre os
papeis que cobriam seu local de trabalho até encontrar o aparelho.
-- Alô!
-- Ricardo?
-- Sim. É você, Márcia?
-- Sim, eu mesma. Como vai, amor?
-- Estou na pista certa. Hoje comprei um livro-chave para minha
tese.
-- Comeu o lanche que lhe mandei?
Ricardo olhou para o canto da sala e mentiu:
-- Sim, estava muito bom.
-- Estava muito preocupada com você, sabe? Quando se enfia em seus
livros, esquece-se de tudo que o cerca, inclusive de comer.
-- Não se preocupe. Está tudo bem.
-- A que horas você vai para a Universidade amanhã?
-- Vou mais cedo, sete horas mais ou menos.
-- Passa aqui?
-- Sim.
-- Então até amanhã, amor. Cuide-se.
-- Não se preocupe, até amanhã.
Márcia desligou o telefone e olhou para o retrato à sua frente.
Gostava dos olhos negros do noivo, de seus cabelos pretos e sempre
bem penteados e, mais do que tudo, daquele sorriso alegre de
criança travessa que sempre ostentava nos lábios.
Reclinou-se na poltrona, jogou os longos cabelos negros para trás.
À luz do aposento, seus olhos azuis eram de uma coloração
esmaecida, assim como um céu de principio de manhã. Seu corpo
esbelto e sensual descansou displicentemente sobre o sofá.
Era também professora e lecionava na mesma Universidade que
Ricardo, de quem era noiva. Conheceram-se ainda no último ano de
Faculdade e, desde então, sempre estiveram juntos. Eram noivos
acerca de dois anos e planejavam casar-se tão logo Ricardo
concluísse sua tese.
***
-- Você está aí, Márcia?
-- Estou aqui, Tereza.
Tereza era companheira de apartamento de Márcia. Era secretária
executiva em uma grande firma publicitária. Morena, corpo bem
delineado e grandes olhos negros que lhe valiam dezenas de
convites para almoços e jantares, dos quais sempre se esquivava.
-- Quais são as novidades?
-- Márcia, hoje conheci um homem espetacular. É diretor de uma
firma que é nossa cliente. Você precisa vê-lo. Sabe desses tipos
de beira de praia, morenos, altos, de pele bem tosada?
-- Sim, o que é que tem?
-- Pois ele é desse tipo. Só que com uma classe que dá até água na
boca e solteiríssimo da silva. Imagine, vinte minutos depois que
saiu de nosso escritório, recebi, enviadas por ele, uma dúzia de
rosas e um convite para jantar no "Altar" aquele restaurante perto
da praia. E veja o bilhete que ele mandou junto: "Para uma deusa
somente o luxo do "Altar". Um jantar a dois? "
-- E você aceitou?
-- Deixe eu terminar de contar. Dai uma hora mais ou menos ele
telefonou. Perguntou se eu aceitaria o convite. Então eu disse que
tinha uma companheira de apartamento, que era noiva, que eu não
podia sair sozinha, essas bobagens, sabe? Agora adivinhe o que ele
fez?
-- Como vou saber? Conte logo.
-- Pediu-me convidasse você e Ricardo para nos acompanharem.
-- Verdade?
-- Verdade. Com todas as despesas pagas.
-- Puxa! Mas não sei se Ricardo vai querer. Ele anda tão ocupado
com sua tese...
-- Mas não vai ser hoje. É para amanhã.
-- Amanhã?
-- É. Hoje ele ainda compareceria a uma reunião à noite, por isso
combinamos para amanhã.
-- Então vou falar com Ricardo amanhã.
-- E você telefona para mim logo cedo? Se ele telefonar de novo,
tenho que confirmar.
-- Está bem. Logo de manhã ligo para você lá na firma.
-- O que é que você fez para o jantar?
-- Pizza.
-- Oh, não! Pizza todo dia... Acabo me tornando uma italiana e
perdendo todo a linha.
-- Não se preocupe. Você não vai comer muito mesmo.
-- Por quê?
-- Porque a pizza está queimada.
***
O dial foi girando e um som em máxima altura inundou o quarto.
Eliane tirou o chapéu hippie e seus cabelos longos e louros caíram
sobre a blusa xadrez. Com movimentos suaves e preciosos dançou ao
som dos Beatles. Ela apreciava aqueles mitos, embora, para a
maioria dos jovens seus companheiros, eles estivessem
ultrapassados. A onde era Alice Cooper, Mick Jagger, Elton John e
outros. Mas ela gostava mesmo daquele conjunto e sempre que estava
sozinha gostava de ouvi-lo.
Sentou-se na almofada de pele e começou a desamarrar a sandália.
Levantou um pouco a barra do Jean desbotado e destrançou as
correias de couro. Depois deitou-se no tapete, mão entre os
cabelos, meditando, enquanto seus olhos percorriam o aposento
decorado com muito bom gosto, onde se avistava estampas de
pintores famosos misturadas com cartazes de artistas da moda,
reproduções de sinais de trânsito e coisas desse tipo.
Recordava-se da conversa que tivera com Marcos, seu namorado, como
o rapaz insistia em afirmar.
Estavam na cantina da Universidade onde estudavam. Haviam pedido
um refrigerante que repartiam, tomando no mesmo canudinho.
-- Eu duvido que ele faça isso.
-- E por que não?
-- Ouvi dizer que ele passa todo o tempo livre se dedicando às
pesquisas para sua tese.
-- Mas tudo é uma questão de estratégia.
-- E que estratégia você vai usar?
-- Vou me aproximar dele.
-- Eu não vou permitir.
O corpo de surfista de Marcos se retesou ao ouvir as palavras de
Eliane. Gostava dela e não pretendia permitir aquilo. Sabia que
ela não era do tipo de garota convencional. Era inteligente e
atrevida, mas por trás do atrevimento ocultava uma insegurança que
ele adivinhava. E ele sabia que por mais que se esforçasse não
conseguia dar-lhe a segurança desejada. Aquela segurança que
aproxima um homem de uma mulher e os torna parte um do outro.
Eliane levantou os olhos. Havia um sorriso em sua boca e um
desafio em seus olhos.
-- E por que não?
-- Porque como seu namorado...
-- Espere ai, cara. Quem foi que disse isso?
-- Isso o quê?
-- Isso aí de namorado? Não vem com essa não... Você sabe muito
bem que somos amigos. E como amigos vamos permanecer.
-- Mas Eliane, como é que você acha que os outros nos vêem? Sempre
juntos...
-- O que os outros acham não me interessa. Se a mentalidade
tacanha deles não permite que entendam que um homem e uma mulher
podem ser só amigos, não tenho nada com isso.
-- Está bem, não vamos falar mais nisso. Por que você não deixa
que eu lhe aplique toda a matéria?
-- Ora, Marcos. Você sabe muito bem que em todas as vezes que
faltei, você também faltou. Sempre fomos juntos ao treinamento de
motocross. E se eu não tenho a matéria, você também não.
-- Eu não sei por que você está se preocupando tanto com essa
prova.
-- Por quê? Por acaso você viu minhas notas? Quatro e meio, três e
dois e meio. Se eu não tirar cinco nem entro em exame. Vou direto
para a segunda época e sabe o que isso significa? Não preciso nem
falar: nada de praia, nada de moto, nada de passeios, nada de
viagens. palavras do velho.
-- Sei, sei. E como é mesmo que você vai "se aproximar"? -- falou
o moço, fazendo questão de frisar bem o "se aproximar", murmurado
entredentes.
-- Sei lá, vou pensar no assunto ainda. Talvez o convite para uma
volta em minha motocicleta.
Marcos riu alto, com estardalhaço.
-- De motocicleta? Aquele quadrado? Você está brincando.
-- E por que não? Ele não é tão quadrado como você pensa.
-- Pois deixe eu lhe dizer uma coisa: esses dias eu o vi na praia.
Pensa que ele estava de short ou bermuda? Estava com um daqueles
maiôs inteiriços do tempo do meu avô.
-- Não?! -- fez Eliane, adotando um ar sério, como se realmente
estivesse acreditando, apenas para concordar com a brincadeira.
***
Em seu quarto, depois ela pensava. Como agiria? Se ele concordasse
em explicar a matéria, onde o faria? Na Universidade? Na casa
dele?
Suava um pouco. Correr de motocicleta sempre a deixava com calor.
Um calor gostoso que o vento batendo em seu rosto mal conseguia
refrescar, o que a levava a correr cada vez mais.
Levantou-se e foi até a janela. Abriu-a e recebeu o impacto de uma
brisa bem fresca, com gosto de mar. Lá embaixo, após a avenida, o
mar rugia contra a praia em avanços e recuos ritmados. Eliane
desabotoou a camisa, tirou-a e depois também a calça. De biquíni
foi até o banheiro, ligou a torneira da banheira regulou a
temperatura e deixou-a enchendo. Foi até a porta, abriu-a e
gritou:
-- Cristina! Cristina! Venha preparar minha roupa, por favor. uma
voz de mulher apressada respondeu:
-- Já estou indo, patroa.
Enquanto a empregada não chegava, a moça examinou-se ao espelho.
Tinha a pele de um moreno tentador, com formas bem definidas e
suaves. Podia ser graciosa o suficiente para dançar com a leveza
de uma bailarina, ágil o bastante para controlar uma derrapagem da
moto ou rude o necessário para dominar um homem com seus
conhecimentos de caratê e judô. Quando a empregada entrou,
surpreendeu-a, adotou rapidamente uma postura de quem se preparava
para uma luta, envergonhada.
-- A senhorita chamou?
-- Sim, prepare minha roupa.
-- Vai sair à noite?
-- Não, hoje vou ficar em casa.
-- Pois não.
Eliane olhou a empregada. Era jovem também. Uma pergunta
aflorou-lhe aos lábios, mas não a formulou. Deixou sua imaginação
vagar um pouco e então, de repente indagou:
-- Você tem namorado, Cristina?
-- Como ?
-- Eu perguntei se você tem namorado.
A moça olhou para ela, surpresa com a pergunta, depois retorceu a
barra do avental, visivelmente envergonhada.
-- Como é, tem ou não tem?
-- Tenho sim.
-- Venha cá -- ela pediu animada.
A moça se aproximou, Eliane passou seu braço pelo ombro da outra,
fazendo-a sentar-se na poltrona. Divertia-a o receio e a timidez
no rosto da moça.
-- Escute, como é que a gente faz para se aproximar de um homem?
-- Como?
-- É, para a gente chegar de um homem.
-- D. Eliane, eu não sou nada do que está pensando -- respondeu
Cristina, avermelhando-se toda.
-- Está bem, Cristina. Deixe para lá. Você não entendeu e nem vai
entender. Como é que você poderia me explicar como se aproximar de
um homem que é noivo e vive preocupado com uma tese de
doutoramento, para pedir-lhe... É, para pedir-lhe explicações
sobre a matéria onde preciso tirar cinco, senão vou direto para
segunda época?
E ante o olhar espantado e desconcertado da pobre moça. Eliane
sufocou o riso e quanto pode, até explodir numa gargalhada.
CAPÍTULO 2
Ricardo mergulhou a cabeça na pia, várias vezes. Enxugando-se e
voltou para a sala, tropeçando nos livros. Seus olhos estavam
vermelhos e doíam. A cabeça pesava. Suas pernas estavam bambas. O
cansaço infiltrava-se por todo seu corpo e um apelo irresistível o
atraia para o sofá. Procurou resistir. Foi até a cozinha e tomou
uma xícara de café. procurou um cigarro no maço mas este estava
vazio. Voltou até a mesa, apanhou um novo e, enquanto o abria,
chegou à janela.
Lá fora a lua derramava-se generosa sobre o mar, dando-lhe
reflexos prateados. Apesar da estafa, sentia-se animado a um banho
de mar, mas o pensamento fixo na tese punha uma certa impaciência
em seus atos. Mesmos naqueles momentos, procurando descansar, sua
mesa de trabalho o atraia, enraizado que estava o hábito. E este
era-lhe importantíssimo. Seria a coroação de uma vida toda até
então dedicada aos estudos e às pesquisas.
De relance seus olhos resvalaram pelo relógio. Duas horas da
manhã. Lá fora o movimento era reduzido. Poucos carros na rua,
restos de fogueira na praia. Voltou à mesa e preparou o
despertador para às sete. Seu corpo reclamava um repouso.
Resignou-se e dirigiu-se ao quarto, levando o despertador consigo.
Sobre a mesinha de cabeceira, a fotografia da noiva sorria para
ele. Pensou nele com ternura, mas sem nenhuma emoção. Estava por
demais acostumado a ela para se emocionar. Aliás, talvez o
sentimento que os unisse fosse amizade uma camaradagem acentuada
pelos anos de convivência, não amor. A idéia da presença da moça
era encarada com naturalidade, não com o desejo de quem ama. Era
dessa maneira que ele via o fato. Desconhecia a existência de amor
em seu coração.
Deitado, ainda tentou pensar um pouco no assunto mas o sono chegou
antes, desligando-lhe o fio dos pensamentos.
De manhã, acordou pelo que pensou ser o relógio. Estendeu a mão
procurando desligá-lo. A campainha insistia. Segurou o relógio e
balançou-o, ainda meio adormecido. Era o telefone.
-- Alô! -- murmurou, com a voz rouca de sono.
-- Alô, querido! Sou eu, Márcia.
-- Oi, Márcia. Que agradável...
-- Agradável o quê?
-- Ouvi-la tão cedo.
-- Você é um amor.
Um som de beijo fez-se ouvir pelo aparelho.
-- Telefonei para dizer que o amo.
-- Eu também a amo, querida.
Com o telefone na mão, foi até a Janela e abriu as cortinas. O sol
provocava reflexos avermelhados sobre a superfície do mar,
fazendo-o piscar várias vezes.
-- Você já reparou como o dia está bonito?
-- Não, ainda não levantei.
-- Pois então o faça. Já estarei ai.
-- Você toma café comigo?
-- Sim, não demoro. Tchau!
-- Tchau!
E mais uma vez um som de beijo estalou no ouvido do rapaz.
***
Eliane puxou os óculos para cima dos olhos, acelerou forte mais
uma vez e arrancou com sua motocicleta, deixando uma longa mancha
escura sobre o asfalto. À medida em que mudava as marchas e o
veiculo ganhava mais velocidade, seu rosto adquiria um colorido
novo, avermelhando-se como se estivesse ruborizado. Apesar do
movimento matinal nas ruas, dirigia com precisão, exagerando nas
arrancadas e freadas súbitas, a cada sinal.
Não faltava muito para chegar à Universidade, quando alguém na
calçada acenou-lhe. Diminuiu a marcha e parou. Marcos acomodou-se
na garupa e partiram.
-- O que você decidiu, Eliane? -- perguntou ele.
-- O quê? Fale mais alto que o vento não me deixa ouvir direito.
-- O que você decidiu? -- gritou ele.
-- Sobre o quê?
-- Sobre o professor.
-- Espere para ver.
Pouco depois, na cantina, à espera do inicio das aulas,
conversavam. Eliane havia definido um plano e tencionava pô-lo em
prática já a partir daquela manhã. Marcos desejava saber qual era
esse plano e insistia, sem esconder sua desaprovação.
-- Vamos lá, conte como vai ser o plano para enredar o pobre
professor.
-- Não, não vou contar.
-- Oram Eliane. Tenha dó. Conte, ande.
-- Sabe o que fiz ontem à noite?
-- Boate?
-- Não.
-- Teatro?
-- Não.
-- Cinema?
-- Não.
-- Vai me dizer que passou a noite assistindo televisão?
-- Também não, e já vi que você não vai adivinhar.
-- Como posso saber?
-- Pois bem: passei a noite estudando o Romantismo.
-- Você? -- indagou o rapaz, espantado. E depois quis logo saber.
-- E por quê?
-- Pelo plano. Isso faz parte da primeira parte dele.
-- Como assim?
-- Não vou contar tudo. Pense e chegará a uma conclusão.
-- Está bem, vou tentar -- disse ele, desanimado.
A campainha chamou-os às aulas e ambos se misturaram aos jovens
que se dirigiam para suas classes.
Eliane mal podia esperar a chegada do professor Ricardo.
Infelizmente só teria a segunda aula com ele, o que fazia com que
uma torturante mistura de ansiedade e temor a enervasse, Durante a
primeira aula, apenas ouvia muito longe, algumas palavras do
professor de Latim, ocupado em cantar as maravilhas de Ovídio em
sua obra "Os Fastos". Nesta matéria ela já estava praticamente
aprovada, o que fazia com que não se importasse tanto com ela.
Finalmente terminou a aula de Latim e teve inicio a de Literatura
Universal, que versava sobre o período do Romantismo. Mal a figura
do professor recortou-se na moldura da porta. Eliane sentiu um
friozinho percorrer-lhe o corpo, ao mesmo tempo em que um
pressentimento de que algo muito agradável poderia acontecer-lhe.
-- Antes de estudarmos mais profundamente o movimento Romântico,
vamos ver o que vocês se lembram da aula passada, sobre o inicio
dessa nova era da Literatura Mundial. Vimos que ele se manifestou
primeiramente... Alguém sabe em que país?
-- Eu, professor! -- apressou-se Eliane em responder.
-- Na França.
-- Não, creio que você está ligeiramente enganada.
-- Na Alemanha -- gritou um aluno do fundo da classe.
-- Muito bem. Foi na Alemanha onde primeiro se manifestou esse
novo movimento. Vejamos agora se alguém se lembra qual era a
situação daquele pais durante esse período. Se vocês se recordam,
a Alemanha se encontrava convulsionada pela ameaça representada
por um famoso ditador e militar europeu. Alguém se lembra quem era
esse ditador?
-- Hitler! -- apressou-se ela novamente em responder.
-- Eliane! O que está acontecendo com você? Hitler só despontou no
cenário europeu como ameaça quase cem anos depois. Na época, o
perigo era representado pelo brilhante gênio militar que foi
Napoleão.
-- Puxa vida, não dou uma dentro! -- queixou-se a moça.
-- Não tem importância. Vamos continuar. Vamos ver hoje o papel
representado pela Revolução Francesa, o Sturm und Drang, filósofos
como Schelling e Fichte e as escolas místicas, com especial
destaque para a de Bohème. Como vocês sabem...
Eliane fingia-se chateada, mas na verdade sentia-se feliz e
satisfeita. Seu plano estava funcionando perfeitamente. Olhou para
Marcos, piscou-lhe e este abriu os braços e fez gestos de quem não
estava entendendo nada. Eliane piscou-lhe mais uma vez e sorriu.
CAPÍTULO 3
Terminado o período de aulas. Ricardo dirigiu-se à Biblioteca,
onde tencionava conseguir mais alguns livros sobre o assunto que
pesquisava. Ciente disso, Eliane antecipou-se e já estava lá
quando ele chegou. Separava uma porção de livros sobre Literatura.
-- Professor, não poderia ajudar-me a escolher alguns livros sobre
o Romantismo? Tive que faltar a algumas aulas e preciso prepara-me
para a última prova.
-- Recomendo-lhe este, este...
E foi separando uma série de livros. Eliane observava-o. Era jovem
ainda, uns vinte e oito anos, alto e, apesar do terno que usava
constantemente, parece ter uma competição atlética. Quando ele se
virou para entregar-lhe um outro livro, suas mãos se tocaram
levemente. Eliane sentiu-se pequena, inexplicavelmente pequena, ao
fitar aqueles grandes olhos escuros e receber o calor leve daquele
grandes olhos escuros e receber o calor leve daquele contato.
-- Muito bem. Creio que estes serão suficientes. E caso você tenha
alguma dúvida, não deixe de me procurar.
Eliane quase gritou de alegria. Seu plano fora infalível, sem
contar a rapidez com que a boa vontade de Ricardo o tornava
realizado. Restava saber onde procurá-lo.
-- Puxa, professor, obrigada! Não sei... estes livros me
confundem. Tantos nomes estrangeiros...
-- É simples -- ele destacou um volume. -- Consulte este livro que
ele traz bem explicado as principais figuras do período romântico
e seus papéis, obras e toda e qualquer participação.
-- Mesmo assim...
-- Não tem problema. Qualquer dúvida você pode me procurar aqui na
Biblioteca durante a manhã, quando eu não estou em aula. À tarde e
à noite é muito difícil porque dificilmente eu saio. Estou
preparando uma tese e...
-- Ricardo, querido! Não vem almoçar? -- interrompeu-os Márcia que
chegava.
-- Já vou, meu bem. Preciso apanhar uns livros e já vamos sair.
Eliane encarou Márcia. Não pôde deixar de sentir uma certa
antipatia por ela. Era bonita, culta... Despediu-se e saiu,
carregando de livros. Na saída encontrou Marcos que a esperava.
-- Marcos, faça-me um favor. Leve estes livros de volta para a
biblioteca. Se o professor Ricardo ainda estiver lá, não o deixe
vê-lo.
-- Levar de volta? Por quê?
-- Porque sim, seu bobo. Vá, vá logo que eu o espero.
Dentro da biblioteca Márcia aguardava, enquanto Ricardo separava
alguns livros. Não resistiu e perguntou:
-- Quem era aquela garota?
-- Eliane? Uma aluna minha do primeiro ano.
-- Muito bonita.
-- Mas burrinha, coitadinha. Imagine que teve a capacidade de
dizer que Hitler era ditador na Europa, cem anos antes de ter
nascido.
-- Ah, querido! -- disse a moça interrompendo aquele assunto. --
Lembrei-me que Tereza nos convidou para um jantar.
-- Jantar? Onde e por que o jantar?
-- Foi o seguinte: ela conheceu ontem rapaz que a convidou para
jantar lá no "Altar". Ela aceitou com a condição de nos levar
também. O que você acha?
-- Ridículo.
-- Ridículo? Posso saber por quê?
-- Ora, Márcia. O que vamos fazer nós nesse jantar?
-- Companhia para Tereza.
-- Tereza já é suficiente emancipada para saber se cuidar. E
depois, nem conhecemos o tal rapaz.
-- Mas o que é que tem?
-- Ora, Márcia. E depois há a minha tese. Achei uns elementos de
ligação que vão fornecer importantes subsídios para o meu
trabalho. A tese...
-- Tese, tese, tese! Você só sabe falar nisso? Há quanto tempo não
saímos juntos?
-- Márcia, por favor, não fale tão alto.
-- Está bem! Mas se você continuar assim, vai adoecer antes de
terminar isso.
-- Não se preocupe comigo.
-- Preocupo-me sim. Se você não se preocupar comigo, eu me
preocupo com você, que só tem olhos e tempo para essa tese. Até
parece que ela é mais importante do que eu.
-- Não diga isso, querida. Vamos agir como duas pessoas adultas
que somos. Você sabe muito bem o que esse trabalho significa para
mim. E depois, tão logo eu consiga a aprovação no exame, serei
doutor. Doutor em Literatura, com uma tese simplesmente
espetacular. Ela vai revolucionar as Letras do mundo todo. Pense
bem: serei chamado para conferências.
-- E mais uma vez o perderei.
-- Deixe de tolice. Você não me perdeu e nem me perderá. Quem pode
afirmar que não estamos casados até lá?
-- Perdoe-me, Ricardo. Preocupo-me em vê-lo cometendo excessos.
Trabalha demais, não se alimenta...
-- Se você prometer não se preocupar mais, vou propor-lhe uma
coisa.
-- O quê?
-- Que tal um jantarzinho a dois, só nós, ninguém mais?
-- Verdade, querido?
-- Sim, e por que não?
-- Oh!...
Com ternura, Márcia beijou-lhe longamente os lábios, ante o olhar
espantado e divertido dos que freqüentavam a biblioteca, e do
próprio Ricardo.
***
A campainha soou estridente. Márcia enrolou a toalha ao redor do
corpo, tirou a touca e deixou que os cabelos caíssem naturalmente
pelos ombros.
Atrasara-se propositadamente, pois sabia que Ricardo seria pontual
e desejava provocá-lo. Mirou-se no espelho. Seu rosto recém-lavado
mostrava uma beleza natural. Umedeceu ligeiramente os lábios com a
ponta da língua e foi atender a porta.
-- Você ainda não está pronta? Será que cheguei adiantado? --
falou-lhe Ricardo, um tanto perturbado pela aparência da noiva.
Esta levantou-se na ponta dos pés e beijou-o leve e
provocantemente. Ao contanto daqueles lábios, sentindo o perfume
daquele corpo semi-despido. Ricardo sentiu-se embriagado.
Enlaçou-a e beijou-a longamente. Suas mãos escorregaram pelas
costas da noiva até a toalha, que ameaçou soltar-se. Com um
sorriso malicioso. Márcia desvencilhou-se dele e girou o corpo.
-- Não, não, menino mau. Espere ai que vou vestir-me. Que tal
preparar um martini?
-- Está bem.
Enquanto a moça desaparecia por trás da porta do quarto, Ricardo
dirigiu-se ao bar e começou a preparar a bebida.
-- Tereza ficou muito chateada por você recusar o convite.
-- Como? -- retrucou ele, sem entender direito.
Márcia abriu a porta, pôs a cabeça de fora e repetiu.
-- Mas ela há de concordar que seríamos inconvenientes, não acha?
-- Não vejo por quê...
-- Ora, Márcia. Seria a mesma coisa que convidá-los para
participarem do nosso jantarzinho a dois. E venha logo: a bebida
está pronta. Que é que vamos ter para o jantar?
Pela porta entreaberta ela respondeu:
-- Olhe a cozinha.
-- Não, não vou estragar a surpresa. Esperarei.
-- Como quiser, já estarei pronta.
O jantar transcorreu num clima doce e agradável.
Após a refeição, estavam ambos no sofá. Ricardo havia deitado e
sua cabeça repousava no colo da noiva. Do toca-discos vinha o som
agradável de uma balada bem repousante.
-- Esteve ótimo o jantar. Gostei muito do pato assado. Receita
sua?
-- Não, foi Tereza quem preparou antes de sair.
-- Soube alguma coisa do rapaz que saiu com ela?
-- Apenas sei que é diretor de uma editora.
-- Editora? Por que você não me disse isso antes?
-- Você não perguntou... Por quê?
-- Minha tese, precisarei publicá-la.
-- Não, agora não. Esqueça por um pouco esse assunto -- disse ela,
colando seus lábios aos dele.
***
Eliane recolocou o fone no gancho e fez um ar de chateada. Estava
desapontada. Desde as últimas duas horas vinha insistindo na
ligação, tentando falar com Ricardo. Como o telefone não
respondesse em nenhuma das vezes, concluiu que ele deveria estar
com a noiva.
Este pensamento muito a desagradava. Agora, a sós, pensava no
assunto. Estava pisando em terreno perigoso, mas tinha que tentar.
procurava iludir-se e iludir Marcos, buscando uma aproximação com
o professor a pretexto de que este lhe explicasse a matéria. No
entanto, reconhecia que, na verdade, seus motivos eram outros.
Desde o principio do ano, quando pela primeira vez ele entrou na
sala de aula, sentira uma emoção estranha, desconhecida ainda
pelos seus vintes anos. A maturidade e a segurança do mestre,
aliadas a sua bela figura e àquele sorriso maroto a atraíram. Era
um sentimento que ela não havia definido ainda, mas algo
emocionante, quase amor. Às vezes, quando por causa de um
exercício qualquer quando ele passeava pela classe observando os
alunos, gostava de senti-lo perto, do perfume suave mas bastante
masculino de sua loção de barba.
Estendeu o corpo sobre o tapete e ficou olhando o teto, pensativa.
O fato de que naquele momento o professor pudesse estar com a
noiva a torturava de leve. Impaciente, foi até o toca-discos e
colocou um LP. Uma balada bem lenta dos Bee Gees colocou-lhe um
amolecimento indesejável pelo corpo. Bruscamente retirou este e
colocou outro disco. O som dos Beatles inundou o aposento mas,
mesmo assim, não conseguiu reanimar-se. Chegou até a janela e
olhou o mar. Lá embaixo, na praia, grupos de jovens se reuniam em
volta de fogueiras, com violões, gravadores, gozando o frescor da
noite. Resolvida, apanhou uma toalha e saiu.
-- Vai sair, filha? -- perguntou-lhe o pai.
Era viúvo e diretor de importantes empresas. Sempre atarefado com
seus negócios não deixava, porém, de conversar sempre que podia
com a filha. Tinham um bom relacionamento. Um diálogo franco e
honesto.
-- Vou até a praia.
-- A esta hora?
-- E por que não? ainda é cedo e a noite está muito agradável.
-- Eliane, desculpe-me perguntar, mas você se sente bem?
-- Por que pergunta, pai?
-- Não sei, minha menina. De uns tempos para cá tenho notado que
você anda meio aborrecida. Parece-me que tem alguma espécie de
problema. Não quer contar ao seu velho pai?
-- Velho pai? Ora, Alfredo! Você não é tão velho assim. Pensa que
não vejo os olhares da moça do andar de baixo?
-- Isso não vem ao caso agora. Perguntei-lhe primeiro. Há algum
problema?
-- Não, acho que é por causa da escola.
-- Vi seu boletim. Em algumas matérias você está se saindo bem. Em
outras... Não se esqueça do que combinamos...
-- Não esqueço não. Agora vou sair. Não quer vir comigo?
-- Não, sinto muito mas não posso. Tenho que rever alguns
contratos. Não volte tarde.
Eliane beijou o pai e saiu. No elevador, sentia uma angustia
oprimir-lhe o peito, mas lá fora, sentindo o cheiro do mar e a
brisa agitando-lhe os cabelos, recobrou um pouco do ânimo abalado.
CAPÍTULO 4
Enquanto caminhava até seu apartamento, Ricardo pensava na noiva e
envergonhava-se, até certo ponto. Não conseguia definir aquele
sentimento, mas tinha uma quase certeza de que não era amor. Podia
ser uma atração muito forte, ou qualquer coisa semelhante.
Conheciam-se havia tento tempo que já não podia pensar em nenhum
projeto para o futuro sem incluí-la. E sentia-se constrangido em
reconhecer que, se a incluía, era por uma espécie de obrigação.
Quando se conheceram, Márcia parecia-lhe mais atraente, mas suas
relações nunca tiveram aquele sabor apimentado, perigoso e
atrevido de dois apaixonados. Apenas esporadicamente uma ou outra
manifestação mais convincente. E, à medida em que se aprofundava
no estudo de sua tese, a presença de Márcia tornava-se cada vez
mais dispensável. Faltava em tudo aquele misterioso toque do amor.
Como a noite estivesse agradável, antes de voltar para sua tese,
resolveu passear um pouco pela praia. Havia muito que não fazia
isso e sentia-se naquela noite com vontade de conversar com alguém
que não fosse Márcia. Uma vontade de desabafar alguma coisa, de
aliviar-se um pouco daquela tensão que a estafa imprimia em seu
corpo.
Na amurada do quebra-mar abaixou-se para tirar o sapato e a meia e
dobrar um pouco a barra da calça. Estava tão compenetrado e
absorto em seus pensamentos, que não reparou na figura que, apesar
das roupas masculinas, era muito feminina, ao seu lado.
-- Professor -- professor Ricardo...
Ricardo virou-se e viu um rosto jovem intensamente iluminado pelo
luar, o que lhe dava uma palidez característica dos personagens
cantados pelos românticos, período literário que ele tão bem
conhecia. Sem que percebesse, fascinado por aquele rosto
maravilhosamente iluminado, disse:
-- Todo o ideal romântico residia em um rosto como esse. Fosse eu
um...
Antes que terminasse, sobressaltou-se. Estava ali, agindo como um
romântico. Pior, estava simplesmente sendo piegas.
-- Professor Ricardo, sou eu... Eliane.
-- Eliane?
-- Sim, sua aluna, lembra-se?
Ricardo se recompôs como se de repente todo um sonho lindo se
desfizesse no despertar.
-- Eliane, perdoe-me. Fiquei tão maravilhado que... Bem... Ora...
Você entende, não?
Eliane entendeu, mas procurou explorar o constrangimento dele.
-- Entende o que, professor?
-- Bem, nada... Mas o que você está fazendo aqui?
-- O mesmo que o senhor, aproveitando a noite. Quando me sinto
sozinha venho até aqui. O mar reanima as pessoas, não acha?
Ricardo apoiou as mãos na amurada e deixou o corpo pender para
trás, saboreando a atmosfera, mágica que o rodeava.
-- Sim, é verdade. Há pouco tempo li uma teoria sobre a influência
do mar no comportamento sexual do homem. Achei-a muito
interessante e lógica. Você leu alguma coisa a respeito?
-- Não. Ultimamente tenho me preocupado muito com Literatura. Sabe
o senhor que...
-- Por que não deixamos, pelo menos aqui fora, esse tratamento tão
formal? -- interrompeu ele.
-- Como assim?
-- Não me chame professor ou senhor. Sou Ricardo.
Eliane interrompeu um pouco o fio dos pensamentos e pronunciou
mentalmente o nome Ricardo diversas vezes. Depois, com um tom
bastante ingênuo e simples e, ao mesmo tempo, provocante,
sussurrou:
-- Ricardo?
-- Sim, Ricardo.
-- Sim, é mais fácil... Ricardo. Mas o que eu dizia mesmos?
-- Você dizia que se preocupava muito com Literatura. Com o que
mais precisamente?
-- Romantismo.
-- Romantismo? Mas é a minha especialidade... Ah, entendo. Reparei
mesmo em suas notas. Parece-me que você não tem se saído muito bem
em minha matéria.
-- É, mas foi por que faltei um pouco. Contratempos, sabe?
-- Ah! Espero que nada de mau...
-- Não, não foi nada de mau. Apenas contratempos...
Ficaram um pouco em silêncio. Eliane vibrava, sentindo-lhe a
presença. Ricardo, por seu lado, não deixava de pensar naquele
rosto jovem e bonito que notara assim tão de repente, sob o
milagre do luar. pensou em comentar a beleza do rosto da moça, mas
sentiu-se constrangida. Afinal de contas, ele era o professor
dela. Não ficaria bem.
-- O senhor disse... quer dizer, você disse que pretendia andar um
pouco pela praia?
-- Sim, pretendia reanimar-me um pouco com um passeio antes de
voltar a minha tese.
-- Já ouvi falar sobre ela. Dizem que é muito importante.
-- Sim, realmente é importantíssima. Fiz excelentes descobertas no
assunto e tenho absoluta certeza de que...
Ricardo interrompeu-se. Pensou em Márcia que detestava ouvi-lo
falar sobre a tese e julgou que Eliane também poderia sentir o
mesmo com relação ao assunto.
-- Incomoda-se, por acaso, que eu fale sobre isto?
-- Não, em absoluto. Aliás, estou mesmo interessada...
-- Bem, minha tese baseia-se primordialmente sobre o seguinte:
todas as vezes que se relaciona Literatura e Arte, vemos que...
Empolgado por haver encontrado uma ouvinte atenta, continuou
falando, enquanto Eliane prestava-lhe a máxima atenção, ao mesmo
tempo em que percebia um brilho de satisfação nos olhos do
professor e uma alegre febrilidade em seu gesticular.
Já haviam andando bastante. Às vezes passavam perto dos grupos
reunidos em torno das fogueiras, paravam um pouco para observá-las
e depois continuavam. Quando perceberam, já haviam caminhado
muitos metros. Neste ponto, ele havia explicado todo sua tese para
ela que, ao término exclamou:
-- Maravilhoso, professor... Ricardo. Simplesmente maravilhoso.
-- Acha também que vai revolucionar o mundo das Letras e das
Artes?
-- Tenho absoluta certeza. É fantástica.
Foi quando Ricardo constatou o quanto haviam caminhado.
-- Puxa, repare só. Deixei-me empolgar pela conversa e nem notei o
quanto andamos. Cansada?
-- Não, apenas com um pouco de frio.
-- Oh, desculpe-me. Que descortês eu fui. Tome, vista isto.
Tirou seu paletó e colocou-o sobre os ombros da moça. Eliane
recebeu em seu corpo frio o calor irradiante do tecido. Aquele
perfume delicioso de loção de barba subiu-lhe aos sentidos e ela
apertou, com força, fechando os olhos, o paletó contra seu corpo.
-- Vamos voltar? -- sugeriu ele.
-- E se descansássemos um pouco?
Ricardo olhou o relógio. Fez contas mentais e concluiu que nada
mais poderia fazer por sua tese naquela noite. Além disso,
sentia-se como há muito não se sentia. Sob o luar, tão perto do
rugir do oceano e com a presença de uma jovem que ele reconhecia
agradável e atenciosa, novas forças pareciam dominar seu corpo.
Sentiu-se até animado a um banho de mar. Entretanto, ele era
professor e ela a aluna. Tal pensamento causou-lhe irritação.
Levantou-se.
-- Vamos agora?
Eliane sentiu-se desapontada. Estava agradavelmente protegida
perto dele. Mas não opôs resistência.
-- Sim, vamos.
Ricardo estendeu sua mão e ajudou-a a levantar-se. Ambos sentiram
uma nova emoção naquele aperto de mãos. Displicentemente
deixaram-nas enlaçadas um pouco mais. Ao dar um passo, porém,
Eliane torceu o tornozelo e rapidamente ele amparou-a.
-- Machucou?
-- Dói um pouco.
-- Apoie-se em meu braço.
Firmemente ela enlaçou o braço dele e caminharam assim de volta
pela praia. Ali, tão perto dele. Eliane sentia-se segura. Segura e
realizada, mas doía-lhe o fato de saber que amanhã ele poderia até
já ter se esquecido do fato.
Mas pensou que amanhã seria outro dia. O importante era aproveitar
o momento, vivê-lo com intensidade. E foi o que fez.
***
No dia seguinte, quando entrou na classe para a aula, Ricardo
depositou seus livros sobre a mesa e caminhou até Eliane.
-- Como está o tornozelo?
-- Bem, não doeu mais.
-- Espero que não tenha sido grave.
-- Não foi não, Ricardo... quero dizer, professor.
Sem querer deixou escapar e notou que os colegas a ouviram,
inclusive Marcos. Mostraram-se, a principio, espantados e depois
maliciosos. Antes que o período de aulas terminasse, já pelos
corredores da Universidade corriam boatos maldosos sobre um certo
professor e uma aluna, tarde da noite, passeando a sós pela praia.
Quando chegaram aos ouvidos de Márcia, um frêmito de raiva passou
pelo seu corpo. Zangada saiu em busca de Ricardo, encontrando-o na
biblioteca.
-- Ricardo, ouviu dizer que...
-- Psssiu! Não fale tão alto. Estamos em uma biblioteca. O que
houve?
-- O que houve? Você ainda tem coragem de perguntar o que houve?
Que história é essa de você ficar até altas horas da noite
passeando pela praia com uma de suas alunas, que o chama em plena
sala de aula pelo nome?
-- Ora, Márcia. Você sabe como são esses boatos. Sempre exageram.
-- Sempre exageram? Então que tal me contar a sua versão?
-- Ora, não tem nada de grave nem de imoral. Depois que a deixei,
resolvi dar um passeio pela praia antes de voltar para casa.
Encontrei por acaso uma de minhas alunas, a Eliane...
-- Eliane? Não foi aquela que esteve com você ontem aqui na
biblioteca?
-- Sim, ela mesmo.
-- Ricardo, você pensa que por acaso não tenho notado que você
anda frio comigo? Imaginei mesmo outra mulher, mas não poderia
nunca supor que você pudesse trocar-me por uma de suas alunas.
-- Fale baixo, por favor, Márcia. Não a estou trocando por
ninguém.
-- Então quer dizer-me que os encontros aqui na biblioteca e lá na
praia, foram casuais?
-- Sim, foi isso mesmo. Por acaso.
-- Ora, Ricardo. Não sou nenhuma criança. Não queira enganar-me.
-- Márcia, vamos sair, por favor. Lá fora conversaremos melhor.
Os comentários sobre a discussão dos noivos na biblioteca logo
espalhou-se também. Partidos surgiram entre os que aprovavam ou
não o fato de existir um provável romance entre o professor e a
aluna. Muitos se escandalizaram. Não demoraria muito e a diretoria
do estabelecimento tomaria conhecimento do assunto.
Enquanto isso, em uma lanchonete perto da Universidade, Eliane e
Marcos discutiam. Ele julgava-se ofendido com o acontecido e, como
Eliane havia mencionado anteriormente em um plano, tudo aquilo não
lhe parecia nada casual. Fora provocado por ela.
-- Não queira enganar-me, Eliane. Sei de todo seu plano.
-- Que plano para "se aproximar" do professor...
-- Não seja tolo. E depois, não tenho satisfação a lhe dar.
-- Não? Como não? E como fico eu, por acaso? Pensa que já não
aprontaram mil e uma gozação comigo? Para todos os efeitos eu era
seu namorado.
-- Para todos os efeitos, não. Eu nunca lhe dei esperanças. Você
errou em alimentar e deixar que os outros também alimentassem uma
bobagem.
Estava ofendida, mas não podia deixar de sentir piedade do amigo.
Abaixou o tom de voz, segurou-lhe a mão e disse:
-- Olhe, Marcos, vamos deixar as coisas como estão. Sejamos
amigos, bons amigos, nada mais. Não tenho culpa de não gostar de
você.
Marcos levantou os olhos, mas neles não se lia compreensão. Estava
revoltado e zangado.
-- Muito bem, Eliane. Você vai se arrepender. Espere para ver.
-- Como interessa. Não conte comigo para mais nada.
Dizendo isso, levantou-se bruscamente e saiu. Ao passar pela
motocicleta de Eliane, chutou-a, fazendo-a cair.
***
O jornal da Universidade, naquela semana, entre outros assuntos,
trazia uma nota comprometedora numa seçãozinha de boatos.
"Breve um casamento romântico em
grande estilo: professor x aluna"
Como não poderia deixar de acontecer, a história acabou indo parar
em mãos dos membros do conselho da Universidade que, tendo em
vista a gravidade dos fatos, convocaram uma reunião de emergência,
convidando Ricardo e Eliane para serem ouvidos.
No dia marcado para a entrevista, a caminho da sala do Conselho,
Ricardo encontrou a aluna nos corredores e juntos se dirigiram
para o encontro.
-- Sinto muito ter causado todos esses dissabores, professor.
-- Pode continuar chamando-me de Ricardo. Quanto ao problema, tudo
não passou de uma entendido, que em breve solucionaremos. E seus
pais, que disseram?
-- Meu pai? Ele tem toda confiança em mim.
-- E sua mãe?
-- Morreu quando eu nasci.
-- Sinto muito! -- disse Ricardo, notando o acento de tristeza de
voz da moça, ao falar-lhe.
Notou, então, do quanto parecia realmente desprotegida aquela.
Olhou-a de relance e pensou que idade ela poderia ter. Uns dezoito
ou vinte anos, no máximo. No entanto, apesar de uma beleza serena
e jovial, seu rosto parecia triste.
-- Você está se sentindo bem? -- perguntou ele.
-- Sim, estou bem.
E juntos entraram na sala para o "julgamento".
CAPÍTULO 5
-- Você não vem almoçar, Márcia? -- perguntou Tereza, com um
pedaço de torta nas mãos. -- a sobremesa está genial. Torta de
maça. O que você acha?
-- Não estou com vontade, Tereza.
-- Como não? Não diga que está sem fome.
-- Não sei, Tereza.
-- Algum problema?
-- Não, nada de importante.
-- Então por que essa cara?
Márcia ficou uns instantes pensativa e depois, como querendo se
libertar de alguma recordação, indagou:
-- Como foi ontem à noite o jantar? Quando você chegou eu já devia
estar dormindo.
-- É, eu pensei mesmo em acordá-la, mas desisti. Estava louca de
vontade de contar-lhe.
Márcia animou-se um pouco e acomodou-se na poltrona para ouvir a
narrativa da amiga.
-- Imagine você. Para começar, ele veio buscar-me num tremendo
Mercebez Benz. Um carro branco e elegante que só vendo. Antes de
jantarmos, fomos ao teatro. Ele perguntou por que você não quis ir
e, quando respondi, ele disse que estava contente por termos saído
só nós dois juntos.
-- Ele disse isso?
-- Disse sim. Mas deixe eu contar. No teatro, você precisava ver.
Ele comentava comigo sobre a peça, fazia observações quando eu não
entendia alguma coisa...
-- Então ele é um homem bem culto?
-- Culto? cultíssimo. Fique sabendo que ele, além de diretor da
editora, é também escritor. Já tem, inclusive, alguns livros
publicados.
-- Falando nisso, Ricardo precisará do auxilio de um editor para
publicar a tese.
-- Pode deixar comigo. Hoje mesmo vou falar com Carlos.
-- Carlos?
-- É, Carlos Almeida é o nome dele.
-- Você disse hoje mesmo?
-- É, hoje mesmo. Vamos sair juntos outra vez.
-- Outra vez?!
-- O homem está gamado por mim. E eu não minto se digo que tenho
uma ligeira queda por ele. Mas vamos, vamos almoçar enquanto eu
termino de contar.
Almoçando, Márcia ouvia as palavras da amiga contado sobre a
noitada como se a voz viesse de muito longe. Na realidade estava
preocupada por Ricardo. Ele poderia (e por que não) estar falando
a verdade. Estaria sendo vitima de boatos e injustiças. E ela, sua
noiva, ao invés de ajudá-lo, acreditar nele, fora a primeira a
questionar a veracidade dos acontecimentos. E se Ricardo não fosse
culpado? Como poderia ela encará-lo novamente? Afinal de contas,
os encontros poderiam ter acontecido sem premeditação. No entanto,
o fantasma da dúvida fizera com que ela acreditasse mais nos
boatos do que na palavra do homem que amava. Por outro lado, um
sentimento de revolta machucou-a interiormente ao pensar que tudo
poderia, porém, ser verdade. Há tempos vinha notando que Ricardo
não se mostrava mais tão expansivo e carinhoso como nos primeiros
tempos. Poderia ser, também, por causa do excesso de trabalho...
Seus pensamentos turbilhonavam, quando foi interrompido por
Tereza.
-- Márcia, você não está prestando a mínima atenção ao que estou
falando...
-- Desculpe-me, Tereza. É que, na verdade, estou preocupada.
-- Preocupada com o quê?
-- Com Ricardo.
-- O que houve?
Em rápidas palavras pôs a amiga a par dos fatos. Tereza procurou
confortá-la.
-- Ora, Márcia. Não me diga que você acreditou. Ricardo sempre foi
tão `serio. Não creio mesmo que tenha qualquer coisa por que
temer.
-- O problema não é esse, Tereza. Veja bem: você, que não é a
noiva dele, acreditou logo na inocência dele. Eu, porém, duvidei.
Chegamos a discutir. Ele me chamou de tola e ciumenta. Mas não
sei, Tereza. O que posso fazer?
-- Não se preocupe. Faça o que seu coração mandar. Vá procurá-lo.
-- Acontece que agora ele deve estar se avistando com o Conselho
Universitário.
-- Pois então está precisando de você. Vá lá ajudá-lo.
-- Você acha que eu devo?
-- Claro que deve. E já deveria ter ido. Fosse comigo, eu estaria
agora com ele, dando-lhe o meu apoio.
-- Será que ele vai me perdoar?
-- Vá lá e pergunte a ele.
Márcia levantou-se rapidamente, tomou o elevador e pouco depois
estava na rua. Morava a poucas quadras da Universidade.
Tão preocupada estava que, ao passar frente à cantina, não notou
que a chamavam:
-- Professora Márcia! Ei. D. Márcia!
Parou assim que ouviu novamente gritarem seu nome. Virou-se e viu
Marcos correndo até ela.
-- Professora, é sobre o assunto com o professor Ricardo.
-- Sim, o que é que tem?
-- Sabe, eu não devia falar-lhe sobre isso, mas julgo ser minha
obrigação.
-- Vamos, rapaz, o que houve?
-- Eliane, foi ela. Ela bolou um plano para se aproximar do
professor Ricardo.
-- Que plano?
-- Foi o seguinte: ela disse que precisava que o professor a
ajudasse, pois ela estava a perigo na matéria dele. Então bolou um
plano para se aproximar dele e conseguir um ajudazinha para se
sair bem na última prova.
-- Sair bem na prova?
-- Sim, é isso mesmo. Ela precisa tirar cinco para entrar em
exame. Se não tirar, vai direto para a segunda época.
-- Então você está falando sobre suborno?
-- Entenda como quiser. A verdade é essa.
Márcia ficou perplexa. Na verdade tudo não passara de uma trama
para enganar Ricardo. A idéia de que ele era inocente de tudo
aquilo alegrou-a. Por outro lado, a seriedade do caso a fez
pensar. Tentativa de suborno era coisa séria. Passível de
expulsão. Se fosse comprovada, Eliane poderia ser expulsa da
Universidade. E isso, na opinião da professora, seria até muito
bom, Por que não?
Tomada de súbita resolução agradeceu a Marcos e saiu, mais
apressada do que antes.
***
Estavam na sala do Conselho. Ao fundo uma grande mesa
semi-circular, tendo à sua frente duas cadeiras. Das amplas
janelas entrava a claridade do sol, iluminando todo o ambiente.
Cinco membros ocupavam a mesa e convidaram ambos a se sentarem nas
duas cadeiras.
Ricardo estava sereno. De modo algum toda a confusão o havia
abalada. Confiava na sua segurança para safar-se do problema e
esclarecer o mal-entendido.
Eliane por seu turno, mostrava-se atemorizada, insegura, mesmo
perto dele. Não deixava de sentir, porém, lá no fundo, a deliciosa
emoção de ver-se envolvida naquele ligeiro escândalo com o
professor.
O chefe do Conselho tomou a palavra.
-- Professor Ricardo Freire... -- fez uma pausa. -- Este conselho
reconhece seus méritos, bem como o brilhantismo de todas suas
atividades. No entanto, não podemos permitir que rumores como este
do qual tomamos conhecimento circulem pelos corredores de nossa
escola. O que tem a nos dizer acerca disto? -- perguntou ele,
exibindo nas mãos o último exemplar do jornal da Universidade.
Ricardo ficou pensativo por alguns instantes. Quando falou, sua
voz soava segura e firme. Seu coração estava limpo.
-- Senhores conselheiros, é do conhecimento de todos minha conduta
impecável. Desde que presto meus serviços neste estabelecimento,
nunca me vi envolvido em qualquer espécie de escândalo. É de
lamentar, porém, que Vossas Senhorias dêem importância a um boato
de jornal, cujo único fim é justamente esse, o de envenenar e
causar dissabores. Nada há entre mim e a Srta. Eliane, minha
aluna; nunca houve. Se algo aconteceu, foi apenas um encontro
casual, deturpado totalmente por mentes sem caráter, de pessoas
que não medem esforços em enlamear a honra alheia. Minha
consciência está tranqüila.
-- Entretanto, professor, tomamos conhecimento da maneira íntima
como o tratou a Srta. Eliane durante uma de suas aulas.
-- Senhor conselheiro, o senhor e seus companheiros hão de convir
que eu sou um homem e a Srta Eliane, uma mulher. Mesmo que algo
pudesse existir entre nós, não estaria em alçada de conselho
nenhum julgar nosso relacionamento lá fora, longe dos corredores
da Universidade. Mas não há. Sou noivo, como bem sabem, e, até o
momento, não me consta que um conselho fosse convocado para julgar
a inconveniência de meu relacionamento com minha noiva.
-- Quanto a isso, senhor professor, concordamos com suas palavras.
Mas o que pretendemos evitar é que boatos envolvendo professores e
alunos circulem por aí, comprometendo o bom nome de nossa
instituição.
-- Se o problema é esse, conselheiro, não cabe a mim, aos senhores
ou quem quer que seja. Boatos sempre existiram e continuarão
existindo, enquanto houver pessoas interessadas em prejudicar
àqueles que se vêem à mercê de seus interesses escusos.
-- Srta. Eliane, o que tem a dizer sobre tudo isso?
-- Realmente, senhor conselheiro, tudo aconteceu como disse o
professor Ricardo. Encontramo-nos casualmente na praia e ele
comentava comigo sua tese... Infelizmente deturparam nosso
encontro, dando origem a todo esse incidente desagradável.
-- Muito bem. Recomendamos, então, a ambos que procurem evitar
acontecimentos como este, para que o bom nome de nosso
estabelecimento não venha a ser prejudicado por atitudes
inconvenientes.
-- Um momento, senhor conselheiro.
Márcia entrou apressada na sala do conselho. Seu rosto demonstrava
o esforço que fizera para chegar até lá.
-- Professora Márcia, qual o motivo dessa intromissão? Sabe muito
bem o caráter privado das reuniões de emergência de nosso
conselho.
-- Sim, senhor conselheiro. Acontece que o problema parece muito
mais sério do que se pode imaginar. Há uma tentativa de suborno,
ou mais precisamente, um plano para tentar subornar o professor
Ricardo.
Todos olharam surpresos e chocados para ela, que aparentava
tranqüilidade, apesar de um nervosismo mal oculto por trás do
cansaço.
-- Professora Márcia, o assunto suborno é algo realmente grave em
nossa instituição. Estamos à espera de suas explicações.
-- Permita-me dirigir-me à aluna aqui presente.
-- Se realmente for necessário...
-- É de suma importância.
-- Pois não, pode ficar à vontade, desde que a Srta. Eliane não
veja nenhum inconveniente nisso.
-- Não, não vejo nenhum inconveniente -- ela respondeu
prontamente.
Entretanto, sentia-se temerosa. O brilho nos olhos da professora
significava perigo, um perigo muito sério, mas ela não viu meios
de se livrar daquela ameaça que pairava sobre sua cabeça.
-- Srta. Eliane, como vai na matéria do professor Ricardo?
-- Não... Não vou muito bem...
-- Na verdade precisa conseguir cinco pontos na última prova para
conseguir entrar em exame, não é verdade?
-- Sim, é verdade. Mas o que tem isso a ver com o caso?
-- Não é verdade que pretendia se aproximar do professor Ricardo
para este lhe desse uma ajuda? Não é verdade que havia delineado
um plano para conseguir essa aproximação, forçando com isso, de
alguma maneira, convencê-lo a dar-lhe a nota de que precisava?
-- Não, não é verdade! -- gritou a jovem, levantando-se como que
tocada por uma corrente elétrica.
-- Não adianta negar, senhorita. Um colega seu estava a par de seu
plano e levou-o ao meu conhecimento. E então, pode negar isso?
-- Não... Quero dizer... Na verdade tentei uma aproximação com o
professor Ricardo, mas não deu certo... Ele não sabia... Eu...
Estava embaraçada, confusa. Não conseguia coordenar seus
pensamentos. Ricardo a seu lado, olhava-a surpresa. Em seus olhos
negros ela viu a desaprovação, ao mesmo tempo que aquele sorriso
cativante de que tanto ela gostava foi substituído por uma
carranca de desapontamento. Seus olhos nublaram-se, num nó
prendeu-lhe a garganta e ela apenas conseguiu chorar.
-- Professor Ricardo, pode se retirar. E aceite nossas desculpas.
Felizmente tudo ficou esclarecido.
Tão logo ele e Márcia saíram, o conselheiro dirigiu-se a Eliane.
-- Quanto à senhorita, não fosse seu pai um grande benfeitor dessa
instituição, tomaríamos medidas drásticas. mesmos assim não
poderemos deixar de informá-lo sobre o acontecimento.
E continuou em seu sermão, mas ela não o ouvia. Estava preocupada
e sofria por haver perdido algo julgava importante. Havia perdido
a confiança de Ricardo. Como recuperá-la? Como fazer com que ele
entendesse? Era isso que mais importava.
CAPÍTULO 6
Ricardo sentiu-se arrasado com o acontecimento. O orgulho próprio
ferido, por outro lado, fez com que passasse a tratar Eliane com
bastante rudeza. Eram para ela as perguntas mais difíceis, as
observações mais ásperas, os olhares mais duros. Eliane, por sua
vez, reconhecia que havia se envolvido de maneira inapelável numa
teia que ela própria armara, mas com outros propósitos. agora,
porém, com o tratamento dispensado por Ricardo, via-se obrigada a
empenhar-se a fundo no estudo da matéria. Com isso, em poucos
semanas conhecia profundamente todo o assunto do bimestre. Como
estava afastada de Marcos, deixara de lado os treinamentos de
moto-cross, não ia quase à praia pois passava o dia todo
pesquisando e estudando tudo que pudesse encontrar sobre o
romantismo. Sentia-se na necessidade de apagar toda uma péssima
impressão causada ao professor.
Numa noite, quando Ricardo encontrava-se mergulhado em sua tese,
relendo umas anotações encontrou esta frase: "... e todo o ideal
dos românticos da geração `mal do século' residia em rostos
pálidos..." Por momentos deixou-se ficar, tentando imaginar um
rosto pálido, ideal romântico, mas o que lhe veio à mente foi o de
Eliane, intensamente banhado de luar, com uma fulguração de
estrela. A principio sentiu uma ternura imensa invadir seu peito.
Depois, a idéia da atitude dela fez com que sentisse um rancor
profundo. Mas não podia deixar de pensar naquele rosto lindo,
emoldurado pela tonalidade loura de longos cabelos que lhe caíam
pelas costas como cascata.
Encontrava-se preso nestes pensamentos, quando o telefone tocou:
-- Alô! Professor, aqui é Eliane.
-- Eliane? Como se atreve?
Ricardo sentiu, a principio, uma raiva súbita tomar conta de seus
pensamentos. Em um instante, porém, ela passou ao ecoar-lhe nos
ouvidos aquela voz suave que falava em tom que pedia desculpa.
-- Professor, por favor, ouça-me. Ainda não tive oportunidade de
falar-lhe sobre tudo aquilo, mas sinto muito tê-lo envolvido...
-- Espero que não tenha telefonado apenas para dizer-me isto --
interrompeu-a.
-- Não, é que estou com uma dúvida quanto à matéria. como a prova
será no fim da semana, resolvi telefonar-lhe para pedir um
esclarecimento. Como se recorda, prometeu ajudar-me lembra-se?
-- Está bem, ainda sou seu professor, não é? Qual é o problema?
-- É sobre os iniciadores do romance brasileiro. Como se sabe, foi
no Romantismo que esse gênero se definiu. Seus primeiros
adeptos...
-- Quanto aos iniciadores, há realmente uma dúvida. Segundo uma
corrente, foi Antônio Gonçalves Teixeira e Souza; segunda outra,
Joaquim Manual de Macedo. Isto esclarece a dúvida?
-- Sim, esclarece.
O fone ficou mudo por alguns instantes. Ricardo podia ouvir a
respiração quase ofegante da aluna no outro lado da linha.
-- Ricardo... quero dizer, professor Ricardo!
-- Sim, Eliane.
-- Sobre aquele assunto...
-- Por que você insiste em falar nele? Não seria melhor se o
esquecêssemos?
-- Mas é que... eu gostaria de esclarecer...
-- Como você deve saber, ando muito ocupado com minha tese. Seja
breve, se é o que você quer.
-- Sabe, eu tentei realmente uma aproximação, mas não havia
nenhuma intenção de minha parte suborná-lo. Eu queria apenas...
Neste ponto ela interrompeu-se. Ricardo estava à espera. Depois
com a voz vacilante, gaguejando um pouco, prosseguiu.
-- Eu queria realmente que você... quero dizer, o senhor...
explicasse a matéria para mim. Acontece que desde o começo do ano
eu... bem... É que...
-- Sim, pode continuar.
-- Não é nada não, professor. Obrigada! -- disse ela rapidamente
desligando o aparelho.
Ricardo ficou pensando no que realmente a moça pretendia
dizer-lhe.
Eliane por sua vez, desligou o aparelho, jogando-o na cama, em
soluços. Não percebeu a entrada do pai no quarto.
-- Eliane, filha, o que houve?
-- Oh, papai! Tudo está tão errado!
-- Vamos, Eliane, o que houve? O que foi que saiu errado?
-- Eu sou uma boba mesmo, pai.
-- Não diga isso, minha menina. Vamos conte para o velho Alfredo
qual é o problema.
-- Não é nada...
-- Como não é nada? Vejo-a chorando...
-- Ainda é sobre aquele assunto lá da Universidade.
-- Mas você já me explicou o acontecimento. Não teve culpa...
-- Não é isso, pai.
-- O que é então, que eu não estou entendendo?
-- O professor Ricardo...
-- Sim, o que tem ele?
-- Eu... Eu... oh, pai!
-- Eliane, tenha modos. Pare de chorar, vamos. Assim, muito bem...
Conte agora.
-- Eu... eu...
Não conseguiu prosseguir. As lágrimas vieram de novo, escorrendo
graciosamente pelo seu rosto lindo.
-- Se esse tal professor anda perseguindo você na matéria dele, eu
falo com o chefe do Conselho que é meu amigo e nós daremos um
jeito...
Eliane levantou-se de repente, recuando. Seu rosto tornou-se sério
ao fitar o pai, e entre soluços ameaçou:
-- Espere ai, pai. Se você fizer alguma coisa contra o professor
Ricardo, eu... eu... eu não sei o que faço!
-- Calma lá. Puxa, o que foi que eu fiz?
-- Não se atreva a prejudicar o professor Ricardo.
-- Mas Eliane, eu só que...
-- Eu sei o que você queria. Deixe-o em paz, ouviu bem? Deixou-o
em paz!
-- Ora bolas, quem entende as mulheres! -- disse ele, e saiu
batendo a porta, visivelmente confuso.
Eliane ficou uns instante imóvel, depois começou a rir
descontroladamente, ao lembrar o rosto assustado do pai. Quando
parou, atirou-se à cama de novo, chorando desconsoladamente.
***
Era domingo. Ricardo vestiu-se rapidamente e saiu. Havia prometido
ir com Márcia à praia. O céu estava limpo e o sol da manhã era
agradável. O cheiro de mar podia ser sentido por toda parte na
cidade. A primavera dava um colorido especial às árvores e
jardins. Caminhava sentindo toda essa atmosfera penetrar em seu
corpo.
Pouco depois chegava ao apartamento da noiva. Esta já esperava
pronta. Vestia uma túnica bem curta e branca, que deixava à mostra
a parte inferior do biquíni. Sendo transparente, o tecido deixava
perceber o contorno de um corpo rijo e bem proporcionado. À cabeça
um chapéu de palha traçada, de abas largas, bastante protetor.
Ricardo sentiu um frêmito de desejo percorrer seu corpo ao
contemplar a noiva.
Daí a instantes atravessavam a avenida e pisavam a areia. Ricardo
vestia um short bem colante, a camisa aberta no peito. tinha um
físico bem delineado e notava-se que já fora um bom desportista
pelos contornos nítidos da musculatura de seu corpo.
Abriram o guarda-sol, estenderam toalhas e acomodaram-se. Ali
perto o rugido do mar era um convite ao movimento, à atividade.
Ricardo segurou Márcia pela mão e correram até a água. Com
vigorosas braçadas, ele se afastou dela, oceano a dentro. Depois
deixou seu corpo flutuar por alguns minutos, enquanto descansava e
retornava à praia. Márcia já o esperava sob o guarda-sol.
conversavam.
-- Sabe quem me telefonou ontem? -- perguntou ele.
-- Não tenho a menor idéia.
-- Eliane!
Ao ouvir este nome, Márcia levantou o rosto, preocupada. Um
pressentimento martelou seu coração. Aquela garota... Uma ruga de
preocupação marcou-lhe o rosto. A custo dominou-se e, num tom de
quem não se importa com o assunto, indagou:
-- E o que ela queria?
-- Sei lá, a principio uma explicação. Depois quis dar algumas
explicações...
-- Explicações? Explicações sobre o quê?
-- Ela queria alguns esclarecimentos sobre a minha matéria. Depois
disse que sentia muito o transtorno causado e quis explicar-me
alguma coisa, mas estava muito nervosa e confusa para consegui-lo.
Desligou o telefone antes que eu pudesse saber o que era.
-- Deve ter sido alguma bobagem.
-- Não sei. Pelo tom de voz ela me pareceu sincera. Fiquei um
tanto preocupado...
-- Só faltava você se preocupar pela garota agora. Não viu você a
desonestidade em que pretendia envolvê-lo?
Ricardo não respondeu. Em seus pensamentos via aquele rosto
misteriosamente belo, envolvo em sua auréola de encanto místico,
como o de uma pessoa realmente sincera. Não demoraria muito e
estaria... Interrompeu seus pensamentos e, recompondo-se, procurou
afastar a aluna de sua mente. O Romantismo o estava influenciando.
Não demoraria muito e estaria compondo sonetos dedicados a rostos
pálidos e outra tolices românticas.
***
Eliane fechou o livro e deixou-o escorregar fora da cama. Há muito
havia modificado seus hábitos. Levantava-se preocupada somente em
estudar, principalmente a matéria de Ricardo. Precisava fazer uma
boa figura na prova, afastando assim toda e qualquer duvida quanto
ao seu procedimento anterior. Esforçava-se ao máximo e já
demonstrava um pouco de fadiga. Seus olhos emoldurados pelas
olheiras resultantes do constante esforço a que vinha se
dedicando.
Resolveu descer à praia, passear um pouco antes de voltar aos
estudos. Não pretendia nadar, por isso saiu conforme estava
vestida. Uma camisa xadrez sobre a calça desbotada. Calçava apenas
um tênis.
A principio não reparou. Depois notou o olhar constante e
rancoroso que Márcia lhe enviava. Notou Ricardo também, mas este
de inicio não a viu. Estava deito de costas, com o braço direito
sobre os olhos. Depois, como que chamado por estranha voz,
levantou ligeiramente a cabeça e seus olhares se encontraram. O
professor sentiu uma infinita ternura por aqueles olhos grandes e
tristes que o fitaram rapidamente e depois se baixaram. Continuou
a olhar. Eliane voltou a cabeça mais uma vez, sorriu sem graça,
levemente, depois baixou de novo a cabeça. Ricardo deixou afloxar
aos lábios aquele sorriso maroto, o que em parte alegrou Eliane,
pois não leu naquele rosto nenhum sinal de desaprovação e
ressentimento. No de Márcia, pelo contrário, notou rancor e
desafio. Um tanto desconcertada, não viu o castelo de areia à sua
frente. Tropeçou nele, desmanchando-o todo.
-- Ei, moça, meu castelo! Olhe o que você fez, -- falou o
garotinho com voz chorosa.
Pega de surpresa, ficou toda embaraçada. Olhou para Ricardo e
este, sentado agora, sorria divertido. O garoto, no entanto,
insistiu:
-- Você desmanchou todo meu castelo. Vai ter que fazer outro.
-- Está bem, eu faço outro. Só que você vai me ajudar também.
Ambos começaram a amontoar de novo a areia e em pouco tempo o
contorno de um novo castelo definiu-se na areia.
Enquanto estava empenhada neste trabalho, Eliane não notava o
olhar de Ricardo. Este observava a moça e reparava na suavidade
das linhas de seu corpo, na displicência graciosa com que levava
as costas das mãos cheias de areia para afastar os cabelos da
testa. Via ele, nela, um corpo de mulher com modos de adolescente.
Poderia ter, no máximo vinte anos. Sorria e brincava agora com o
garoto, atirando-lhe a água que trouxera no baldinho para encher o
fosso do castelo já terminado. Seu riso misturava-se ao riso da
criança. Era alegre, cheio de vida, despreocupado, sincero...
Alguma coisa pulsou mais forte dentro dele e ele desejou fixar a
cena, gravá-la em seu subconsciente, tal a beleza que nela
encontrava. Eliane olhou para onde ele estava. seus olhos se
cruzaram novamente e seus sorrisos morreram-lhes nos lábios,
enquanto uma emocionante sensação de buscas e encontros invadia
seus corações.
Márcia percebeu aquilo, mas Ricardo nem parecia importar-se com
ela ali ao seu lado. Tinha olhos apenas para a figura jovem e
atraente de Eliane, sua aluna.
-- Ricardo, vamos embora? -- perguntou. Interrompendo o suave
idílio do rapaz.
-- Como?
-- Eu o convidei para irmos embora.
-- Já? Mal acabamos de chegar...
-- Não estou me sentindo bem.
-- O que foi?
-- Uma ligeira dor de cabeça... Deve ter sido por causa do sol.
Desmontaram a barraca de praia, juntaram suas coisas e
afastaram-se. Ricardo sentia-se deliciosamente embaraçado por
aquele olhar que ainda queimava-lhe o rosto com suavidade e
ternura. Mesmo afastando-se, olhava de vez em quando para trás e
lá estava a aluna a olhá-lo com seu sorriso quase infantil e
comprometedor. Márcia notava aquilo, o que mais fazia aumentar seu
desagrado e ressentimento. A idéia de perder o noivo para uma
criançola qualquer a enchia de furos. Dentro dela alguma coisa
dizia que cedo ou tarde aquela criança que brincava com fogo se
queimaria. E não demoraria muito...
CAPÍTULO 7
Em seu apartamento, Márcia encontrou Tereza que acabava de
levantar-se. Vestia ainda apenas a camisola e trazia os cabelos em
desalinho. Bocejava quando viu a amiga que chegava:
-- Já de volta?
-- Sim, não estou me sentindo bem.
-- Não? O que foi?
-- Dor de cabeça. Acho que foi o sol... -- ela repetiu a mesma
desculpa que deu a Ricardo.
-- Quer uma aspirina?
-- Pode deixar, eu apanho.
Dirigiu-se ao banheiro, fingiu apanhar um comprimido e tomá-lo,
voltando depois, A companheira estava à mesa, tomando café com
gestos lentos e preguiçosos.
-- Você voltou tarde ontem, não? -- observou Márcia.
-- Puxa vida, que noite! Fomos a uma boate.
-- Você parece estar gostando realmente daquele rapaz. Quase não
nos vemos. Quando chego você está fora, ou então de saída.
-- É, temos nos divertido muito nos últimos tempos. Teatro,
cimena, jantares, boates...
-- Alguma coisa séria?
-- Pelo que ele deu a entender, breve firmaremos compromisso.
-- Verdade? Meus parabéns!
Márcia expressava-se sem muito entusiasmo e isto foi notado pela
amiga. Tereza observou-a por algum tempo, depois perguntou-lhe:
-- Tudo bem entre você e Ricardo?
-- Não sei Tereza. Tudo anda tão confuso...
-- Confuso como? Explique-me.
-- Lembra-se daquele caso com aquela aluna de Ricardo?
-- Sim, o que é que tem?
-- Não sei. parece-me existir alguma coisa entre eles. Deus queira
que seja apenas minha imaginação. Não saberia o que fazer sem
ele...
-- Mas é tão sério assim?
-- Às vezes penso que tudo é uma série de coincidências, mas por
outro lado, tudo me parece tão claro. É como se o estivesse
perdendo...
-- Algum problema hoje em especial para terem voltado tão cedo?
-- A menina estava lá na praia. Ficou o tempo provocando Ricardo
com olhares gratuitos. Agiam como se eu não existisse. E Ricardo
então, deixou-se levar por ela.
-- Vocês brigaram?
-- Não, eu resolvi dar uma desculpa e disse que estava com dor de
cabeça.
A amiga olhou-a e entendeu.
-- Ah, Márcia! Eu falei com Carlos sobre a tese de Ricardo. Ele
disse que poderia publicá-la, desde que aprovada. Mesmo assim
recomendou que Ricardo o procurasse na editora para os primeiros
contatos.
-- Verdade? Que bom! Ricardo ficará satisfeito.
-- Por que não telefona para ele?
-- Não sei se ele já chegou em casa...
-- Em todo caso, tente.
-- Está bem, vou ligar para ele.
Em outras circunstâncias Márcia se sentiria feliz com a novidade.
Naquele momento, não. Refletindo um pouco, porém, pensou que
aquilo poderia ser um trunfo para reaproximá-la do noivo. Se ele,
ao saber da possibilidade da publicação, trabalhasse com mais
afinco ainda, poderia até esquecer-se da aluna. E ela, Márcia se
encarregaria de fazê-lo esquecer...
***
Após haver deixado Márcia em casa, o primeiro pensamento de
Ricardo foi retornar à praia para ver mais uma vez, ainda que de
longe, Eliane. Uma febrilidade de adolescente apaixonado agitava
seu corpo, mas não conseguiu mais vislumbrar aquele vulto gracioso
e ao mesmo tempo tentador. Foi como um apequena decepção que o fez
irritar-se um pouco.
A caminho de casa pensava ainda na aluna. Os problemas causados
por ela não poderia ter ocorrido conforme constatado. Algum outro
motivo deveria haver. Eliane parecia-lhe sincera. Mesmo no outro
dia, ao telefone. Mas teria ela realmente ligado apenas para pedir
algumas explicações? Não teria sido seu propósito esclarecer todo
um mal-entendido? Sua voz ao telefone soara medrosa confusa, um
tanto embaraçada, mas sincera. De repente, um pensamento veio-lhe
à mente. Quando fizera seu curso universitário, na cadeira de
Psicologia, tomara conhecimento dos problemas que podem ocorrer
entre os alunos. Dentre eles, o da aluna apaixonar-se pela figura
do professor, por encontrar nele alguma espécie de segurança.
Eliane, no entanto, não parecia uma garota insegura à primeira
vista. Mas, e naquela noite lá na praia? Dentro de seu paletó,
apoiado em seu braço, Eliane pareceu-lhe miúda, pequenina com uma
frágil criatura carente de carinho e proteção. Será que ela
estaria... Não, não poderia. E por que não? Ela poderia ter se
apaixonado por ele, sim. Isto explicaria seu embaraço ao telefone.
E os olhares de ainda há pouco na praia?
Inesperadamente seu coração bateu mais rápido, agitado por emoção
recém-descoberta. Na outra quadra à sua frente, Eliane cruzava a
rua e entrava no edifício onde provavelmente residia. E
pareceu-lhe que ela o olhava. Instintivamente levantou o braço e
agitou-o no ar. Depois, percebendo que ela não o vira, abaixou-o
envergonhado. Sentindo uma espécie de tristeza no coração. Foi
quando notou seu comportamento e indagou-se. Não estaria ele
também se apaixonando? Não poderia ele estar se deixando
influenciar por aqueles longos cabelos e tristes olhos? Por aquele
corpo de mulher com jeito de adolescente?
Quando chegou em casa, ainda emocionado por tudo que havia
ocorrido durante a manhã, encontrou o telefone tocando. Atendeu
imediatamente. Era Márcia.
-- Ricardo, tenho uma novidade. Como vai indo sua tese?
-- Praticamente concluída, por quê?
-- Tereza falou com seu namorado, o diretor da editora. Ele disse
que é para você procurá-lo na editora o mais breve possível. Tão
logo sua tese seja aprovada pela Universidade, há possibilidade de
uma publicação.
-- Verdade? Mas isso é ótimo. Quando soube disso?
-- Agora mesmo quando falei com Tereza. E então, que tal
apresentá-la?
-- É o que pretendo fazer o mais breve possível. A única coisa que
vai tomar-me mais tempo será o levantamento biográfico. Tenho
anotações tiradas de mil e um livros. Estou reunindo-as. Fora
isso, estou já no término da conclusão final. Feito isto poderei
submetê-la à banca examinadora, mas esta só se reunirá após o
final do ano letivo.
-- Enquanto isso, você pode verificar os pormenores com a editora,
não acha?
-- Sim, é o que farei. E qual é a editora?
-- Ah, um minuto. Vou ver com Tereza. Espere um pouco.
-- Está bem.
Enquanto aguardava, Ricardo sentiu-se, em parte envergonhado por
tudo que havia pensado anteriormente. Márcia era uma boa moça. Ele
não poderia esquecer todos os favores, a ajuda constante, as
preocupações... E depois estavam noivos. E isto irritou Ricardo. O
pensamento de que poderia casar-se com ela apenas por gratidão e
não por amor o aborreceu. De fato era algo que precisava ser
levado em consideração. Afinal, não poderia basear toda uma vida
futura num simples sentimento de gratidão. O casamento precisava
de algo mais sólido. precisava de amor, de um amor que ele não
conseguia enxergar no rosto de Márcia e sim no rosto banhado de
luar de sua aluna.
***
Na segunda-feira, durante a aula, diversas vezes os olhares de
Eliane e Ricardo se cruzaram. Havia em cada um deles um permanente
brilho de felicidade, como se uma grande e importante descoberta
fosse realizada. Ricardo não precisou esforçar-se para tratá-la
com mais brandura e diversas vezes se repreendeu internamente,
pois estava dando demasiada importância a ela, o que provocaria
suspeitas e novos comentários maliciosos por parte dos outros
alunos.
Marcos não estava ainda certo da derrota. Haveria de encontrar um
meio de separar ambos, e era nisso que vinha pensando desde muito
tempo. Percebendo os olhares trocados pelo casal, bem como a
mudança de tratamento dispensado por Ricardo a Eliane, concluiu
que deveria fazer alguma coisa urgentemente. Precisava definir uma
estratégia que culminasse com a separação dos dois.
Depois, durante o intervalo do recreio, na cantina, ao ver Márcia
que conversava com uma porção de estudantes, um plano delineou-se
em sua mente.
Mais tarde telefonou para ela. Suas palavras soavam de modo
provocante, desafiante, procurando ferir o orgulho da professora.
-- Eu sei exatamente como a senhora se sente. O mesmo anda
acontecendo comigo. Creio que Eliane está se deixando levar por
uma tolice, conquistando um homem já comprometido, não acha?
-- Não tenho resposta para você. O plano que sugeriu é absurdo.
-- Mas há de convir que poderá surtir efeito, não?
-- O que lhe dá essa segurança?
-- Eu tenho motivos para certificar-me. Será infalível. Ao final
de tudo, recupero Eliane e a senhora poderá recuperar seu
professor, que acha?
-- É uma infâmia!
-- E então, professora? Prefere perder seu noivo para uma
adolescente qualquer? Não vai lutar por ele? Pensei que fosse do
tipo de pessoa que não deixa escapar nada de seu poder...
-- É arriscado...
-- "Os fins justificam os meios", não concorda?
-- Sim, e como poderei saber que você não usará isso contra mim no
futuro?
-- Chantagem, professora? Acha que eu poderia fazer chantagem? Não
se esqueça que meu plano é uma faca de dois gumes. Se usada
convenientemente, cortará os laços que unem certas pessoas, em
nosso beneficio. Se falar, poderá cortar tanto um como outro.
Ambos estaremos correndo o mesmo risco.
-- Está bem. Você imita a caligrafia de Eliane e eu faço a troca.
-- Após o término da prova, eu a procuro com tudo pronto.
-- Entendi. Mas uma coisa: quando efetuar a troca, eu fico com a
prova original.
-- Por quê?
-- Apenas uma arma para eu usar contra Eliane.
-- Como assim?
-- Não se preocupe. Procure apenas estudar o modo como fará a
troca. O resto é comigo. Estamos combinados?
-- Sim, estamos combinados.
-- Até breve então... professora -- e ele desligou o aparelho.
***
Finalmente o dia da prova chegou. Eliane estava tranqüila. Nas
últimas semanas, tivera tempo suficiente para tomar conhecimento
profundo de todo o assunto. Não sem esforço, porém. Mas na verdade
aprendera a gostar da matéria e, sempre que estudava, o simples
relacionar do assunto com a figura do professor, seu olhar sereno
e cheio de ternura, seu sorriso, davam-lhe ânimo suficiente para
esforçar-se ao máximo.
Após a distribuição das provas, Ricardo colocou-se diante da
turma. Dali podia dominar toda a classe e, principalmente, Eliane.
Mais do que nunca sentia-se irremediavelmente atraído por ela.
Observava agora sua segurança e serenidade ao responder às
questões. De quando em quando levantava a cabeça, fitava os olhos
do professor com um olhar longínquo, de meditação, e depois
continuava sua tarefa. Ricardo desejou percorrer a classe e passar
perto dela para verificar como estava se saindo. Era, no entanto,
contra seus princípios, pois achava que a presença tão próxima do
professor inibia os alunos menos seguros. Eliane foi a primeira a
entregar a prova. Estava de fato confiante, pois saiu alegremente
da classe. Logo os outros alunos, também entregaram suas provas,
por isso Ricardo não teve tempo de pelo menos dar uma olhada
superficial que fosse no exame da moça, como desejava.
Ricardo arrumava seu material para sair, quando Márcia chegou.
-- Precisa de ajuda, querido?
A presença da noiva ali, inexplicavelmente o desagradou. Até então
nunca ela havia procurado assim, na sala de aula. Entretanto, não
deu tanta importância ao caso.
-- Preciso levar estes livros até a biblioteca. Você toma conta
das provas para mim? Já estarei de volta.
Enquanto Ricardo se afastava, um sorriso zombeteiro marcou os
cantos da boca de sua noiva. Esta se sentia feliz que o plano
traçado estava correndo muito bem. E muito mais fácil do que
supunha anteriormente.
Pouco depois Ricardo retornava.
-- Pronto! Vamos?
-- Que tal se aproveitássemos para um almoço naquele
restaurantezinho na beira da praia?
-- Então vamos -- concordou Ricardo, a contragosto.
Caminharam um pouco em silêncio. Márcia sentia-se triunfante,
enquanto que Ricardo se sentia um tanto embaraçado. A presença da
noiva o incomodava. O que realmente queria era ficar observando
Elaine sair com sua moto, os cabelos atirados ao vento, o rosto
corando-se à medida em que aumentava a velocidade. Naquela última
semana descobrira esse novo passatempo. Eliane, na maioria das
vezes, o via. Sorriam um para o outro, mas nunca ela o convidara
para uma carona em sua moto. Temia, é claro, os comentários
maliciosos dos colegas.
-- E sua tese, Ricardo? Concluída?
-- Finalmente está concluída. Esta semana dei um duro danado para
terminá-la.
-- Visitou a editora?
-- Sim, falei com Carlos Almeida. Já o conhecia de nome. É figura
importante de nossa literatura atual. Tendo em vista o caráter
particular da tese, apenas forneci-lhe uma visão geral, sem entrar
em detalhes. Ele também ficou empolgado com ela. Assegurou-me que
seria aprovada. Não poderia deixar de ser, tal a importância dos
sentidos que efetuei.
-- Satisfeito?
-- Sim, muito satisfeito.
-- Ricardo, o ano letivo está no fim. Sua tese em breve estará
publicada e você receberá seu titulo de doutor em literatura. O
que pretende fazer depois?
Era evidente que Márcia procurava conduzir a conversa a um assunto
que a interessava de perto: o casamento. Ricardo, no entanto, não
a entendeu e respondeu com eloquência.
-- O que pretendo fazer? Puxa darei tantas conferências só neste
final de ano que poderei ficar rouco. De depois precisarei de
muito tempo para selecionar as melhores ofertas de emprego para
mim. É evidente que toda Universidade do país procurará fazer o
impossível para ter-me entre os membros de seu corpo docente.
-- E eu, Ricardo -- perguntou Márcia, diretamente. Seu tom de voz
era triste e esperançoso. Ricardo o percebeu, mas pensou
imediatamente em Eliane.
-- Depois pensaremos em nós, Márcia.
Sua voz também soou triste, mas Márcia não a entendeu. A gratidão
o forçava a tomar uma resolução, enquanto o amor indicava-lhe o
verdadeiro caminho. Já não tinha dúvidas dentro de si. Amava
Eliane. Amava seus cabelos soltos ao vento, seus olhos doces, seu
corpo de mulher, seus modos de adolescente. Mais do que isso:
desejava-a profundamente, como nunca desejara uma outra mulher.
Até à própria Márcia. E este era o dilema de sua vida presente:
escolher entre a gratidão e o amor. Uma escolha difícil, pois se o
amor descortinava-lhe um futuro novo e cheio de felicidades, a
gratidão já havia lhe proporcionado um passado não tão cheio de
felicidade, mas nem por isso inferior.
CAPÍTULO 8
Um frêmito de indignação percorreu o corpo de Eliane, ao examinar
o quadro de editais. Na relação dos resultados da prova, havia
tirado quadro. Na verdade, porém, tinha absoluta certeza de que
suas respostas estavam certas e sabia que, que sem muito esforço,
teria tirado dez. A despeito dos colegas que a cercavam, deixou
escapar, cheia de raiva:
-- Aquele miserável professor e seu maldito Romantismo! Ao diabo
seus olhares mansos e devoradores. Eu devia saber que ele se
vingaria de mim.
Marcos se aproximou:
-- O que foi, Eliane?
-- Minha prova... eu tenho certeza de que não tirei só isso. Ele
se vingou de mim...
Sua voz entre corta. Seu rosto ardia e suas mãos tremiam.
-- Se você acha que foi injustiçada, por que não pede revisão de
prova?
-- Revisão de prova?
-- É, sua prova é reexaminada por uma banca imparcial. Se você
tiver razão...
-- Pois é o que vou fazer imediatamente.
Disfarçando as lágrimas que a raiva punha em seus olhos,
dirigiu-se à secretaria e solicitou uma revisão de prova.
Preencheu os formulários e já ia afastando-se, quando viu Ricardo
que entrava na sala de aula, vindo da biblioteca. A principio
desejou afastar-se do corredor. Depois, tomada de resolução,
correu até o quadro de editais, arrancou a folha com os resultados
e dirigiu-se até ele, quando este já ia saindo. A moça entrou como
um furacão.
-- Nunca pensei que você pudesse fazer isso comigo -- gritou,
enquanto mostrava o papel. Estavam próximos, bem próximos. Ricardo
notou uma nova beleza naquele rosto coberto de raiva, já molhado
de lágrimas. Entretanto, nada entendia. Seu coração batia
descompassado pela proximidade da moça.
Ele estava pesaroso. Infelizmente Eliane não fora tão bem na
prova, como sua segurança fazia supor. Desejara ajudá-la,
dando-lhe os cincos pontos de que precisava, mas era honesto
demais para isso.
-- Mas Eliane, o que houve?
-- O que houve? Você... quero dizer... o senhor ainda pergunta o
que houve? Não pensei que fosse capaz de tamanha mesquinhez. Se
ainda estava magoado comigo por causa do escândalo, não precisava
descer tão baixo para se vingar. Tenho absoluta certeza de que fui
propositadamente prejudicada.
-- Prejudicada? Como? Não estou entendendo...
-- Não está entendendo? Seu professorzinho romântico! Não está
entendendo? Então eu faço uma prova para tirar dez quando preciso
apenas de cinco e minha nota é inferior a isso?!
-- Mas... você não foi tão bem na prova...
-- Não fui bem? Não fui bem? Respondi a todas as questões.
-- A maioria erradamente.
-- Erradas? Minhas respostas erradas? Errado é você seu... seu...
Ricardo não podia deixar de sentir-se atraído por aquele rosto
agora coberto pela fulguração prateada das lágrimas que o cobriam.
Ela era deliciosamente tentadora em seu nervosismo... Tão bela e
próxima. E, antes que ela terminasse de falar, segurou-lhe o rosto
e beijou-a ternamente. Seus lábios eram quentes e maravilhosos,
com um ligeiro sabor de sal, como o mar radiante de sol...
Pega de surpresa, Eliane vacilou. Seu rosto enrubesceu ainda mais.
Por alguns segundos ficou sem reação. Depois com rapidez, levantou
a mão, pronta para aplicar-lhe uma bofetada. Antes que o fizesse,
porém, sua mão ficou parada no ar. Uma nova emoção invadiu-lhe o
peito. Ricardo a beijara. E ela sentira seu coração batendo, a
caricia daquelas mão grandes e suaves que a seguravam com tanta
ternura. O gosto violento daquele beijo que, apesar de suave,
machucara-a de prazer, inundando-lhe todo o corpo numa deliciosa
sensação. Assim, ao invés da bofetada, pôs-se nas pontas dos pés
e, enlaçou-o pelo pescoço, beijou-o violentamente, com
sofreguidão.
Dessa vez sem reação ficou Ricardo. E mais espantado ficou ainda
quando, após beijá-lo, Eliane aplicou-lhe a bofetada adiada.
Ficaram por segundos fitando-se; depois ele tentou reter Eliane
que correu.
Ficou sem entender tudo e sem reação. Desejou sair correndo pelos
corredores gritando por ela. A certeza de que a amava veio-lhe
derepente, como uma vertigem. Mas não podia esquecer-se do porquê
da visita da aluna. Realmente ela havia respondido a todas as
perguntas, mas a maioria delas estava errada. Como podia ela ter
se enganado tanto? E depois, uma revisão de prova poderia
complicá-lo.
Estava remoendo estes pensamentos, quando Márcia entrou.
-- Ricardo, o que houve? Acabo de ver aquela aluna sair daqui
chorando.
-- Foi Eliane. Imagine você que ela pensa que a prejudiquei --
respondeu ele, após ficar alguns instantes pensativo, como que
abobalhado ainda.
-- Prejudicou como?
-- Acha que acertou todas as questões e que eu propositadamente
dei-lhe uma nota inferior a que merecia. Pediu inclusive revisão
de prova.
-- Revisão de prova? -- falou Márcia, assustando-se.
-- Mas ela não pode pedir revisão de prova.
-- Não pode? E por que não pode?
-- Porque... porque ela vai se prejudicar.
-- É um direito que a assiste, mas vou sentir muito ter que
decepcioná-la.
-- Decepcioná-la por quê? -- perguntou ela, já recobrando a
segurança.
-- Porque fui justo.
-- Mas será uma lição para ela. Aliais, ela bem o merece.
-- Por que você diz isso/
-- Bem... Os alunos sempre se julgam injustiçados. Acham que os
professores são desumanos e perseguidores.
-- Ela me chamou de mesquinho.
-- Além de tudo o ofendeu? Pior para ela.
-- Não entendo, francamente não entendo -- disse ele,
preparando-se para sair.
-- Que tal almoçarmos juntos novamente hoje?
-- Gostaria, mas se ela realmente convocou uma junta para revisão
de prova é bom que eu passe pela secretaria para verificar.
-- Espero-o?
-- Não, pode ir. Pretendo demorar-me um pouco ainda na biblioteca
-- mentiu ele.
Na verdade desejava ficar a sós para pensar. Precisava coordenar
seus pensamentos. Ainda não se acostumara à revelação. precisava
saborear a descoberta e repetir mil vezes a si próprio que amava
aquela deliciosa garota, seu rosto lindo e lábios quentes e
salgados como o mar...
Márcia notou que algo de estranho acontecia ao noivo. Estava
diferente, tão pensativo ao se afastar. Um pressentimento a fez
estremecer: o que ele pensava da aluna. Mas confiava em seu plano.
Em breve Ricardo provaria sua honestidade e Eliane pagaria pelo
seu atrevimento. Estava segura e confiante, embora reconhecesse o
risco que corria. Para ela, no entanto, tudo valia, desde que
mantivesse Ricardo junto de si.
***
Passava do meio-dia quando Ricardo deixou a Universidade. Em sua
cabeça ainda se misturaram os últimos acontecimentos. Realmente
Eliane dissera a verdade quando afirmara haver solicitado uma
revisão de prova. Conforme a solicitação que lhe foi feita pela
secretária, guardou a prova em um envelope e o entregou à
funcionaria. Marcos, que estava ali por perto, comentou:
-- Pois é, professor. Veja só o que Eliane aprontou.
-- Sinceramente não consigo entender o procedimento dela. Deve
haver um engano em tudo isso.
-- E já foi marcada a revisão?
-- Será marcada tão logo o diretor examine os documentos... Já de
saída?
-- Não, preciso protocolar um requerimento. Ainda demoro um pouco.
-- Até amanhã, então.
Marcos respondeu ao cumprimento. Em seus olhos brilhava a
satisfação do saber que seu plano corria às mil maravilhas.
Lá fora o Ricardo encontrou Eliane à sua espera. Ela trazia o
semblante preocupado, mas cheio de humildade. Mal conseguia,
entretanto, disfarçar um sorriso malicioso.
Ricardo estranhou vê-la ali ainda. Talvez estivesse com algum
problema na motocicleta. Aproximou-se.
-- Algum problema?
-- Oh, sim! Parece-me que o amortecedor traseiro está emperrado.
Não consigo fazê-lo soltar-se. Poderia fazer um favor?
-- Antes disso, sabe aquele assunto da prova, creio que você se
precipitou.
-- Sim, também acho que me precipitei. Quer ajudar-me agora?
Ricardo, no íntimo, desejou que ela lhe pedisse desculpas. Mas
estava ali, tão próximo dela, que não podia deixar de sentir
aquela emoção arder em seu peito. Seus grandes olhos brilhantes,
seus cabelos displicentes, seus lábios com gosto de mar...
-- O que você quer que eu faça?
-- Suba aqui na garupa por um momento. Talvez o seu peso faça com
que ela desemperre.
Tão logo Ricardo passou a perna sobre a garupa e acomodou-se,
Eliane sorrindo marotamente, arrancou a toda velocidade com a
moto. Como não estivesse firme ainda sobre o veiculo, Ricardo
levantou as pernas, quase caindo. Seus livros, porém,
esparramaram-se sobre o asfalto.
-- Eliane, meus livros... O que você pretende fazer? Garota
maluca?
Eliane ria divertida e acelerava cada vez mais, mostrando toda sua
perícia no manejo daquela máquina. Embora apanhado de surpresa,
Ricardo viu-se envolvido por uma agradável atmosfera de aventura.
A presença de Eliane tão próxima... Como não tivesse mais onde se
segurar enlaçou-a pela cintura, protestando ainda, mas não muito
convincente.
-- Eliane, por favor, pare! Meus livros... Vou perdê-los...
Cuidado!
Em pouco tempo alcançaram a avenida que margeava a praia. Em
determinado trecho, ela desviou a motocicleta para cima da calçada
e, com um pulo espetacular, saltaram a pequena amurada do
quebra-mar, indo cair pouco abaixo, na maciez da areia. A moto
derrapou diversas vezes antes de firmar-se. Agarrando-se no corpo
da moça, nãos sentiu medo e, como ela, desatou a rir. Afinal tudo
não passava de uma brincadeira agradável.
Quando, porém, Eliane passou a dirigir o veiculo rente às ondas,
fazendo a água abrir-se em dois jatos laterais, Ricardo ficou
sério. Corriam ambos um grande perigo. Ela, porém, parecia não se
importar, dando o máximo que podia no acelerador. De repente, uma
onde maior, uma derrapada violenta e ambos viram-se jogados na
água arrastados pelas ondas. Um pouco aturdido, Ricardo pôs-se em
pé e procurou Eliane. Esta, sentada na areia, ria a valer, quase
nervosamente. Com a moto nada acontecera. Ricardo a pôs em pé,
acionou-a e descansou no pedal. Com mão firme segurou o braço da
aluna e forçou-a a subir na garupa.
-- Ei, você sabe dirigir isso? -- perguntou ela.
-- Segure-se em mim, vou mostrar-lhe.
Já na saída, a moto derrapou, atirando um jorro de areia para
trás. Eliane estremeceu, mas sentiu-se segura quando o veiculo
ganhou equilíbrio e partiu. Após a mudança de marcha de primeira
para segunda, depois terceira, Ricardo deu um golpe no guidão e a
moto andou perto de dez metros com apenas a roda traseira. Eliane
sentiu um friozinho de medo percorrer-lhe a espinha de cima a
baixo, da raiz dos cabelos ao tornozelo. Depois, freando
bruscamente, Ricardo fez a moto realizar um giro, derrapando.
Ainda não satisfeito, arrancou a toda até, pouco adiante, ir
diminuindo a marcha até parar, forçando o acelerador, fazendo o
motor roncar alto.
A praia estava deserta, pois o sol estava muito quente. Apenas um
e outro banhista retardatário, dois ou três barcos ao longe.
Quando a moto parou. Eliane preparava-se para descer, quando
Ricardo novamente arrancou, fazendo-a cair de costa sobre as ondas
que vinham morrer pouco além deles. Depois parou o veiculo,
deixou-o cair sobre a areia, rindo a valer. Aproximou-se dela,
toda molhada, com o rosto marcado pela fúria. Quando ele levou a
mão para ajudá-la, com um golpe rápido e hábil ela atirou-o por
cima de seus ombros, fazendo-o estatelar-se sobre a areia. Ele,
embora aturdido, com rapidez maior puxou-a pelo calcanhar,
desequilibrando-a. Caída, voltou-se com a mão no ar para desferir
um golpe de caratê mas ele foi mais rápido, segurando-lhe a mão e
aplicando-lhe uma chave de braço. Estavam ambos ofegantes e com os
corpos se tocando.
-- Então, rende-se?
-- Sim, eu me rendo -- declarou ela.
Ele a soltou, ambos se olharam sérios.
-- Ricardo...
-- Diga de novo.
-- Ricardo...
-- Sim, Eliane.
-- Eu... Eu...
-- O que, sua maluca?
-- Eu... Eu o odeio -- gritou ela, levantando-se e correndo para
apanhar sua moto, arrancando a toda velocidade.
-- Ei, espere! Seu sapato...
Sem olhar para trás ela partiu.
Ele deixou-se ficar ali por mais algum tempo, segurando o sapato
da jovem, pensando na loucura que acabavam ambos de realizar. A
principio riu baixinho, até explodir numa gargalhada que o bramir
do mar abafou. Havia lido nos olhos de Eliane algo completamente
diferente do que ela dissera. Havia lido amor. E por isso não
entendia o seu comportamento. Talvez por causa da prova...
Pensando na prova, lembrou-se dos livros espalhados pelo asfalto.
Precisava recuperá-los. Pôs-se em pé, relembrando os
acontecimentos, voltou a rir sonoramente.
CAPÍTULO 9
À tarde, em casa, Ricardo não conseguia fazer nada. A imagem da
aluna não lhe saia do pensamento. Sobre a mesa, à sua frente, o
sapato dela. Era pequeno, bastante feminino e sem salto. Ainda
estava úmido, com algumas manchas de óleo, provavelmente da
motocicleta. Tencionava devolvê-lo e lutava contra si mesmo para
não o fazê-lo naquele momento, pois desejava ardentemente estar
perto dela outra vez, mas temia essa proximidade. Tentou
esquecê-la relendo a tese, mas não conseguiu. Seu rosto, seu
corpo, seus cabelos escorridos e molhados, as roupas sensualmente
coladas ao corpo pela água, naquele rostinho zangado, tudo não lhe
saía da mente.
Resolveu-se. Apanhou o sapato, embrulhando-o ligeiramente e saiu.
Dirigiu-se ao edifício onde a vira entrando uma vez. Na portaria
foi fácil descobrir qual era o seu apartamento. Tocou a campainha
e aguardou. Cristina, a empregada, atendeu:
-- Pois não, senhor.
-- Eliane... A Srta Eliane está?
-- Está sim. A quem devo anunciar?
-- Professor Ricardo. Sou professor dela na Universidade.
-- Queria entrar, por favor. Vou chamá-la.
Ricardo entrou e sentou-se. Examinou o ambiente. Era luxuoso, tudo
mobiliado com bom gosto.
A empregada sumiu por uma porta e logo depois lhe pôde ouvir a voz
de Eliane que gritava:
-- Diga a ele que não quero vê-lo por nada neste mundo.
Quando a empregada surgiu, Ricardo já estava de pé, furioso,
indagando:
-- Onde está ela?
-- Lá dentro.
-- Pode deixar que eu vou lá.
-- O senhor não pode entrar lá.
-- E por que não?
Afastando-se bruscamente. Ricardo entrou pela porta. O quarto de
dormir estava vazio e do banheiro vinha o ruído de água.
-- Eliane! -- gritou energicamente.
-- Não se atreva a entrar aqui -- respondeu ela, nervosa.
-- Pois então saia. Quero falar com você.
-- Não posso. Não vê que estou nua?
-- Pois então dou-lhe cinco minutos para vestir-se. Cinco minutos,
ouviu bem? Cinco minutos!
E saiu do quarto. Lá fora ouviu-a chamar Cristina, pedindo suas
roupas. Pouco depois estava diante dele.
Tinha a cabeça envolta por uma toalha amarela e vestia uma camisa
azul, toda bordada, e calça cumprida branca. Seu rosto era natural
em sua beleza e de seu corpo evolava um delicioso perfume. O
coração do professor bateu mais rápido e ele sentiu o sangue
latejar em suas têmporas.
-- Seu sapato, você esqueceu... -- soube apenas dizer, preso que
estava no encanto da jovem.
-- Não veio aqui para devolver-me o sapato somente, veio? --
indagou ela. Sua voz era irônica e cheia de indagação.
-- Não. Vim para provar-lhe definitivamente que não tenho culpa de
sua...
-- De minha o quê? Vamos, diga.
-- De sua burrice.
Dizendo isso, tomou-a decidido pelo braço e puxou-a, levando-a
para fora, ante o olhar espantado da empregada.
-- Meu cabelo, olhe como estou. Para onde está me levando?
Solte-me senão eu grito.
-- Onde está sua moto?
A voz dele era enérgica e ela achou por bem não reagir.
Timidamente respondeu:
-- Na garagem.
-- Então vamos apanhá-la. Eu dirijo.
Pouco depois estavam na rua, a caminho da Universidade. Eliane não
protestava e, no fundo, não escondia sua satisfação por estar tão
próxima ao corpo de quem amava. Lentamente foi encostando sua
cabeça nas costas dele, até ficar bem juntinho de seu corpo.
Chegaram à Universidade e, como um possesso, Ricardo arrastou-a
pelo braço até a secretaria.
-- Senhorita, onde está o envelope que lhe dei para o caso da
revisão de prova?
-- Aqui, mesmo, professor -- respondeu a secretária,
entregando-lhe o papel.
Com sofreguidão ele o abriu e, retirando de seu interior, entregou
a Eliane a folha da prova.
-- Pois bem, aqui está. Examine suas respostas corretas. Vamos
olhe, diga que eu a prejudiquei. Vamos, diga.
Ainda desconcertada, Eliane desdobrou a folha de papel e
examinou-a. Seu rosto corou-se ela atirou-a no rosto do professor.
-- Já vi o que tinha que ver. Tirei dez. Foi algum engano,
professor? Errar é humano, persistir no erro...
Ricardo recuou espantado. Realmente a prova acusava a nota máxima.
-- Mas... não estou entendendo...
-- Pois eu estou entendendo perfeitamente, professor. Vejo agora
que tipo de homem mesquinho você é.
-- Mas não é isso... -- dizia Ricardo, embaraçado. -- Não foi esta
a prova que eu corrigi.
-- Como não foi está? Qual foi então?
-- Você realmente tirou quatro, mas a prova era outra... as
respostas eram outras... não posso estar enganado.
-- Você enganado? Não me faça rir. Se alguém foi enganada, este
alguém foi eu; uma tola que acreditou em você. E pensar que quase
me convencia de que a errada era eu mesma. No entanto, como pode
justificar isso agora?
-- Não sei. Francamente não sei. Como vou saber?
Dirigiu-se à secretaria.
-- Senhorita, foi este o envelope que lhe entreguei hoje cedo?
-- Esse mesmo, professor.
-- Deve haver um engano. Não era esta a prova que eu coloquei aqui
dentro...
-- Sinto muito, professor, mas é este envelope mesmo. Inclusive o
diretor já o examinou. Falando nisso, convocou para amanhã noite a
reunião da banca reexaminadora. Tentei avisá-lo ainda há pouco em
sua casa, mas o telefone não atendeu...
-- Amanhã à noite? Mas... Oh, Deus, não entendo mais nada!
-- Mas eu entendo, professor -- falou Eliane. -- Entendo
perfeitamente a tola que eu fui.
-- Eliane, deve haver uma explicação...
-- Não são necessárias maiores explicações. Posso ir agora?
Ricardo ficou sem palavras. Alguma coisa deveria estar errada.
Alguém trocara as provas. Aquela que tinha nas mão era a
verdadeira; a que corrigia era uma falsa. Mas quem corrigira esta
que tinha nas mãos? O modo, a maneira de corrigir era sua, até a
assinatura abaixo da nota. Como? Pareceu-lhe estar vivendo um
pesadelo. Tentou chamar Eliane, explicar-lhe mas não sabia como.
Deixou-a ir, vendo seu vulto gracioso convulsionado pelos soluços
emoldurar-se contra o sol, na porta de saída.
***
Chegando em casa, Ricardo viu-se desesperado. A solidão trouxe-lhe
reflexões e ele procurava entender tudo o que ocorrera, mas não
conseguia coordenar os pensamentos. Não pudera, realmente, ter-se
enganado daquela maneira. As provas haviam sido trocadas. Por
quem? Com que interesse? Nenhuma resposta encontrava.
O telefone tocou. Era Márcia.
-- Ricardo, estou telefonando para um convite. Tereza preparou um
jantar para o namorado e convidou-nos a tomar parte dele. Você
poderá ter a oportunidade de conversar um pouco mais com ele
acerca da publicação da tese. Que acha?
-- Não sei, Márcia. Ando tão atribulado, um problema muito
sério...
Márcia notou o tom de desespero em sua voz. Preocupou-se.
-- O que houve?
-- Um engano, um terrível engano que tenho certeza não cometi.
-- Como assim?
-- Lembra-se daquele problema com a revisão de prova de Eliane?
-- Eliane? -- Márcia estremeceu, mas não perdeu o tom de voz. -- O
que tem ela?
-- Não sei ao certo. Fomos hoje à Universidade. Eu pretendia
mostrar-lhe a prova que ela realizara, mas chegando lá, no
envelope que eu havia deixado com a secretaria, encontrei uma
outra prova, talvez a verdadeira. Ela realmente tirou dez. Mas
tenho certeza de que a prova que corrigi era outra.
A principio Márcia não entendeu. Depois, o pensamento se coordenou
e ela percebeu o que havia ocorrido. Marcos fizera a substituição.
Aquilo comprometeria seriamente Ricardo. Se a banca examinadora
comprovasse o fato, ele poderia ter problemas. Talvez uma simples
retratação pública, talvez pior: uma expulsão do corpo docente.
Aquilo o arrasaria, pois sua tese estava presa por contrato à
Universidade, que lhe fornecia meios para suas pesquisas.
Precisava fazer alguma coisa.
-- Não quer vir aqui à noite? Conversaremos melhor.
-- Sim, creio que farei isso. Preciso conversar com alguém.
-- Não se desespere tanto, pobre querido. Daremos um jeito... Já
procurou falar com Eliane? Quem sabe ela retira o pedido de
revisão se você dissesse que tudo foi um lamentável engano?
-- Não, ela não pretende fazer isso. Está muito magoada comigo.
Não vejo, na verdade nenhuma solução.
-- Não se preocupe. Venha até aqui à noite, está bem.
Era confortante para Ricardo poder contar com alguém naquele
momento. A figura de Márcia surgiu-lhe como uma tábua de salvação,
meio ao mar tempestuoso em que via-se atirado. Seus pensamentos,
porém, outra vez correram para Eliane. Precisava comprovar sua
inocência. Necessitava fazer com que ela recuperasse a confiança
nele. Deveria haver um elo de ligação em tudo aquilo. Procurou
rever o acontecido, item por item. Uma falha deveria ser
encontrada. Deveria haver um jeito de provar sua inocência.
Analisou a situação por todos os ângulos possíveis. De repente seu
rosto se iluminou. Havia encontrado uma pequena possibilidade de
provar sua inocência. Precisava verificá-la. Olhou o relógio.
Ainda não eram cinco horas. Saiu correndo cruzou as ruas
apressadamente, quase correndo, chegando logo ao velho prédio onde
funcionava a Universidade.
Correu até a secretaria e pediu de novo o envelope. Com ele nas
mãos dirigiu-se até seus armário e de lá retirou um maço de
provas. Eram as dos outros alunos. Foi até a biblioteca e numa das
mesas espalhou-as febrilmente. Comparou, então, as outras provas
com a de Eliane. Sim, havia uma pequena falha em toda aquela
espécie de trama que urdiram contra ele. Pensou por alguns
momentos e depois saiu, levando as provas. Pretendia ir ver
Eliane, mas não sabia se ela entenderia sua visita, ou se
aceitaria maiores explicações. Decidiu esperar pela revisão de
provas para expor seu argumento. Enquanto isso, tentaria descobrir
o causador, ou causadores, de todo aquele transtorno.
***
Naquele momento Marcos e Eliane encontravam-se na praia. Ela a
havia convidado pois desejava informá-la de algo muito importante,
relacionado com o professor.
-- Soube que você foi a universidade com o professor.
-- É, ele queria explicar-me um engano que não existiu. Na
verdade, deliberadamente ele me prejudicou.
-- E se eu lhe disser que não houve engano, mas que as provas
foram trocadas?
-- Como? Mas não é possível. Eu mesma vi a minha prova...
-- Aquela foi a que ele não corrigiu.
-- como sabe disso?
-- Quem você acha que substituiu as provas?
-- Você?!
-- Sim, querida Eliane. Eu troquei as provas, eu armei a trama
para envolver o professor.
-- E com que propósito? Como pôde? -- ela estava arrasada. Suas
mãos tremiam e o fogo da raiva ardeu em seu rosto.
-- Por você, Eliane, só por você. Não podia suportar a idéia de
perdê-la. Planejei tudo com o auxilio da professa Márcia.
-- Márcia? Eu deveria ter imaginado. Forçaram-me a odiar Ricardo,
mas vocês não conseguirão. Agora mesmo irei procurá-lo...
-- Não, você não vai procura-lo. Mesmo que você lhe conte tudo,
como poderão provar? E depois, tenho certas noticias prontas a
circularem através do próximo jornalzinho.
-- E o que pretende fazer? Não me impedirá...
-- Sim, eu a impedirei. Esqueça-se do professor Ricardo.
Esqueça-se dele se você o ama realmente.
-- Como? Você está me pedindo para renunciar ao homem que eu amo,
agora tudo está tão bem claro?
-- Sim Eliane. Quero você para mim e quer queira ou não, você será
minha namorada de agora em diante.
-- E se eu não aceitar?
-- Você imagina o que aconteceria se alguma noticia publicadas no
jornalzinho forçassem a diretoria a uma medida drástica? O
professor Ricardo seria demitido e perderia todo e qualquer
direito sobre sua tese.
-- Como assim?
-- Muito simples: ele trabalha na Universidade, suas pesquisas são
custeadas por ela, mas seu contrato contêm uma cláusula de vinculo
quanto ao resultado de seu trabalho. Ele simplesmente perderia
todo o direito a ela.
-- Seria seu fim. Você sabe o quanto aquela tese é importante para
ele...
-- Tudo está em suas mãos, Eliane.
-- Em minhas mãos? Como/
-- Retire o pedido de revisão de provas.
-- E o que acontecerá?
-- Você vai para segunda época. Eu a ajudarei...
-- Não preciso de sua ajuda.
-- Mas vai ter que aceitá-la. Se você deixar o pedido seguir seu
caminho, o professor não terá como provar sua inocência. E isto é
um assunto que poderia voltar à tona em qualquer época...
-- É uma infâmia o que você pretende...
-- "No amor e na guerra, tudo vale", querida. Seja boazinha e seu
professorzinho não terá problema algum.
-- Miserável!
-- Sim, querida. Um miserável que cansou de mendigar seu amor.
Agora você será minha namorada e comece dando-me um beijo.
Marcos levou o braço para segurar-lhe a cabeça e beijá-la, mas
Eliane prendeu-o, dando-lhe uma chave.
-- Não me toque, ouviu bem? Não me toque nunca; ouviu?
-- Não se preocupe, querida. Sou paciente. Você ainda vai implorar
meu amor...
-- Prefiro estar morta antes disso! -- gritou ela, afastando-se
numa corrida.
-- Vejo-a amanhã na aula, querida -- ouviu-o gritar, e sentiu
náuseas. Precisava fazer alguma coisa... Tudo era tão confuso...
Quando entrou em seu apartamento, chorava.
CAPÍTULO 10
Naquela noite, em casa de Márcia. Ricardo sentiu-se alheio. Ela
tentava animá-lo.
-- Não se preocupe, querido. Tudo vai sair bem, você verá.
-- Gostaria de ter sua confiança, Márcia. Já pensei no assusto.
Sabe que isso pode significar o fim de minha carreira.
-- Não seja tão drástico, querido. Tudo vai ser esclarecido, você.
Márcia estava segura, realmente. Naquela mesma tarde, após falar
com Ricardo, havia procurado Marcos. Este já havia tomado suas
providências para afastar Eliane do professor através de
chantagem.
Pouco depois, Carlos, o namorado de Tereza, chagava e a conversa
tornou-se mais animada. Ricardo, porém, sentia-se quase um
estranho naquela reunião. Seu pensamento e preocupação eram para
Eliane. Necessitava esclarecer tudo o mais depressa possível e
reaproximar-se da moça.
Após o jantar, saíram para um cinema. Ao passarem pela avenida, em
frente ao edifício onde Eliane morava, pareceu-lhe vê-la saindo
com um rapaz. E o rapaz era Marcos. Alguma coisa se quebrou dentro
dele.
***
No outro dia, na Universidade, Ricardo teve uma dupla surpresa.
Foi informado pela secretária que Eliane retirara o pedido de
revisão de prova, o que o levou a pensar que ela havia reconhecido
o engano. Ao vê-la, porém, chegar com Marcos, todos seus
pensamentos foram por água abaixo. Simplesmente não entendeu o
comportamento da moça. Primeiro retirava o pedido de revisão e
depois reatava com o antigo namorado. Durante a aula procurou
observá-la, analisá-la e naquele rosto lindo havia uma sombra de
tristeza que encobria aquela figuração constante de luar e
lágrimas que nele haviam.
Quase ao final da aula, disse a ela.
-- Eliane, queria ficar após a aula, por favor.
-- O que deseja de mim, professor?
-- Precisamos conversar, não acha?
-- Não tenho nada a conversar com o senhor.
A resposta deixou Ricardo desconcertado. Todos na sala
entreolharam-se significativamente. Alguns comentários surgiram.
Quando a sineta tocou, Eliane saiu com Marcos, deixando Ricardo a
sós na sala, cheio de pensamentos. Entretanto precisava falar com
ela. Deixou seu material no armário e rumou rapidamente para a
saída. Chegou a tempo de encontrar os dois, dando partida na moto.
-- Eliane, espere!
Esta apenas olhou-o e seu olhar era cheio de tristeza, como se uma
profunda mágoa a ferisse por dentro. Sem nada fazer, viu-os
afastarem-se rapidamente.
-- Ricardo, o que pretende fazer? -- indagou Márcia, que chegara
minutos antes e vira Ricardo dirigir-se à aluna.
-- Márcia, sinto muito. Há uma coisa que preciso esclarecer com
Eliane. Soube que ela retirou o pedido de revisão de prova?
-- Sim, já tomei conhecimento.
-- Só me resta fazer uma coisa.
-- O quê? -- perguntou Márcia, apreensiva.
-- Formalizar a nota dez de Eliane.
-- Mas você não pode fazer isso agora.
-- Não? E por que não? direi que cometi um engano. Um engano que
precisa ser reparado.
-- Como você pode saber que essa é a verdadeira prova?
-- Tenho motivos para acreditar.
-- E depois, o que fará?
-- Vou procurá-la. Temos que esclarecer isso o mais depressa
possível.
Márcia não tentou detê-lo. A idéia de que todo aquele plano
pudesse não surtir efeito, fêz-a esfriar-se. Precisava tomar
alguma providencia para impedir a reaproximação dos dois a todo
custo.
***
Durante toda a tarde Ricardo tentou falar com Eliane pelo
telefone. Quando atendiam, era Cristina informando que ela não
estava em casa. À noite, cansado de esperar e tentar inutilmente,
foi até a casa dela.
-- Preciso falar com a Srta Eliane.
-- Ela não está -- informou a empregada.
-- Ela saiu com a moto?
-- Sim.
-- Então ela deve estar porque a moto está na garagem. Já
verifiquei. Vamos, vá chamá-la e diga a ela que, mesmo que ela
esteja no banho, eu a tirarei a força de lá para falar com ela.
Assustada a empregada saiu. Pouco depois Eliane aparecia à porta
de seu quarto. Encostou-se com displicência no batente. Seu
semblante ainda era triste, mas ela optou por um tom de ironia na
voz vacilante.
-- Seja breve, professor. Tenho um compromisso.
-- Sim, imagino. Marcos, não?
-- Sim, ele mesmo.
-- Por que de novo?
-- Por que gosto dele...
-- Não minta para mim. Eliane. Não sou nenhum bobo -- explodiu
Ricardo, perdendo o controle. -- Pensa que não sei?
-- Sei o quê?
-- Que você gosta de mim?
-- Não seja ridículo. Por que pensa assim?
-- Porque quando se ama uma pessoa a gente aprende a conhecê-la.
A revelação caiu de surpresa sobre Eliane. Cheio de alegria, seu
rosto esboçou um sorriso e ela ameaçou caminhar até ele, atirar-se
em seus braços, mas conteve-se ao se lembrar das ameaças de
Marcos. Seu rosto cobriu-se de sombras novamente. Sua voz soou
trêmula, ao tentar mudar de assunto.
-- O que... o que o trouxe aqui?
Ricardo aproximou-se dela, tomou-lhe as mãos e olhou-a nos olhos.
Falou-lhe cheio de promessas.
-- Eu a amo. Eliane. Fui um tolo em não ter percebido nem dito
isso antes. Eu a amo loucamente. Seja compreensiva.
-- Mas o que está acontecendo aqui? -- perguntou o pai de Eliane,
entrando naquele momento. -- Quem é você? O que faz aqui?
-- Este é o professor Ricardo -- adiantou ela, apresentando o
rapaz a seu pai.
-- Professor Ricardo? Então esse é o famoso professor Ricardo?
-- Sim, eu mesmo. Muito prazer senhor...
-- Alfredo de Souza Marques. Pode me explicar o que faz aqui?
-- É uma longa história e, caso sua filha possa ajudar-me, creio
que em breve a solucionaremos.
Em rápidas palavras, pôs o pai da moça a par dos acontecimentos,
inclusive sobre suas suspeitas sobre a trama que os envolvia.
Contou também seus sentimentos em relação a Eliane.
-- E como pretende provar sua inocência? -- indagou-lhe Alfredo,
ao final da explicação.
-- Com a ajuda de todos.
-- Como assim? -- perguntou Eliane, já mais calma e confiante nas
palavras de Ricardo.
-- Muito bem: olhe, examine estas provas. São as dos outros
alunos. Agora compare com a sua.
-- Não vejo nada diferente -- declarou ela.
-- Mas há. Veja a tinta que utilizei para corrigir estas outras e
a que foi usada em sua prova.
-- Ambas são vermelhas... Mas... Sim!
-- Isto mesmo. Nas provas que corrigi, usei uma caneta
hidrográfica; nesta sua, usaram uma simples esferográfica.
-- E o que prova isto?
-- Prova que, eu corrigi todas as provas ao mesmo tempo, como de
fato o fiz, alguém corrigiu a sua, pois senão também ela estaria
igual às outras.
-- Alguém? Quem poderia ser? -- indagou ela, estremecendo. Marcos
poderia cumprir as ameaças.
-- É o que pretendo descobrir.
-- E como vai fazer? -- perguntou-lhe Alfredo.
-- Eliane -- disse ele, dirigindo-se a ela. -- Quem estaria
interessado em nos separar, em evitar nossa aproximação?
-- Não vejo quem poderia.
-- Duas pessoas tinham interesse em nos separar. Márcia e Marcos,
mas não imagino márcia descendo a tanto.
-- Marcos também não faria isso. Não seria capaz -- acrescentou
ela com a voz indecisa. -- E depois, como faria ele a
substituição?
-- Este é o problema. A substituição foi feita antes que eu
corrigisse as provas. A única pessoa que se aproximou delas antes
disso foi Márcia. A não ser que alguém tivesse uma cópia da chave
de meu armário na Universidade.
-- Também é uma possibilidade -- falou o pai da moça.
-- Mas mesmo assim, todas minhas suspeitas são para essas duas
pessoas. Uma delas foi a culpada.
-- E como fará para descobrir? -- indagou ela.
-- Preciso pensar em alguma coisa. Você me ajudará Eliane? Por
favor?
Ela ficou sem resposta. Se aceitasse, correria o risco de
prejudicá-lo. Se não o ajudasse, poderia perdê-lo. Decidiu-se.
-- Sinto muito, mas não vejo em que poderia ajudá-lo.
-- Poderíamos traçar um plano...
-- Não.
-- Eliane, por favor.
-- Sinto muito, Ricardo.
-- Minha filha, por que não? -- intercedeu Alfredo.
-- Porque não quero, papai. E porque não posso fazer nada, ouviram
bem, nada! -- desabafou ela, correndo para o quarto.
-- Sinto muito, professor. Francamente não estou entendendo o
comportamento dela.
Ricardo dirigiu-se até a porta do quarto e chamou-a.
-- Vá embora -- gritou ela, chorando.
-- Mas, Eliane...
-- Vá embora! Já disse que não vou ajudá-lo. Vá embora!
Desapontado, Ricardo despediu-se de Alfredo e saiu. Não entendia a
atitude de Eliane, mas precisava agir.
Rumou para a casa de Márcia, disposto a tentar qualquer coisa para
averiguar a culpa ou inocência da noiva.
CAPÍTULO 11
-- Boa noite, Ricardo. O que o traz por aqui? -- perguntou-lhe
Tereza.
-- Márcia está?
-- Está. Vamos, entre. Estou de saída, sabe? Carlos ficou de
apanhar-me para irmos ao cinema. Vamos ficar noivos, sabia?
-- Noivos? Meus parabéns?
-- Oh, é você, Ricardo! -- exclamou Márcia, vindo da cozinha.
Estava terminando o jantar. -- Quer comer alguma coisa?
-- Não, Márcia. Estou tão contente que nem consigo comer.
-- O que foi dessa vez?
-- Imagine você que tenho uma pista que vai conduzir-me ao autor
de toda aquela trama.
-- Pista? Que pista? -- indagou ela, empalidecendo.
-- Sinto muito, mas não posso contar por enquanto. Assim que
obtiver uma confirmação, explicarei tudo.
-- Mas o que foi? Conte-me? Que pista importante é essa?
-- Muito simples. Tenho um amigo que é policial. Ele levou a prova
para analisar as impressões digitais. Se a trama foi realizada por
alguém dentro da escola, será fácil localizarmos o autor da
brincadeira.
Márcia sentiu-se perdida. Como não pensaram nisso? Esqueceram-se
ambos, ela e Marcos, de que de um modo ou de outro deixariam
impressões na folha de papel. Como explicá-las?
-- Mas tantas pessoas já puseram as mãos naquele papel -- gaguejou
ela.
-- Já estudamos essa possibilidade -- informou ele, procurando
analisar as reações da noiva. Inventara toda essa mentira ali, no
momento, numa súbita inspiração. E continuou: -- Segundo nossas
observações, seis pessoas tocaram na folha; o vendedor de quem
Eliane a adquiriu, ela mesma, eu quando recolhi após a prova a
secretaria ao protocolar como documento para a revisão, o diretor
e o causador de todo esse aborrecimento.
-- Mas isso é possível de ser determinado?
-- A policia técnica faz milagres. Imagine você que conseguiram
tirar impressões digitais de uma folha de papel queimada --
acrescentou ele, procurando ser convincente.
Notara a palidez da noiva, seu nervosismo mal disfarçado e o
interesse súbito que demonstrara pela explicação.
Márcia, por seu turno, esforçava-se ao máximo para ser natural.
Sua mente estava confusa e mil e uma idéias vindas de filmes e
histórias policiais que conhecia vieram deixá-la ainda mais
perturbada. Teria Marcos utilizado luvas? Se não o fizera,
estariam perdidos. Ricardo descobriria tudo.
Ricardo, observava a noiva, notou que algo a incomodava. Alguma
coisa parecia perturbá-la. Decidiu, portanto, no dia seguinte
segui-la antes de ir a Faculdade. Um palpite...
No dia seguinte, logo cedo, foi esperar a uma boa distância, a
saída de Márcia. Seguiu-a durante todo o trajeto até a
Universidade, mas nada de suspeito constatou. Durante as aulas,
sempre que pôde, fez o mesmo e nada conseguiu apurar. À tarde,
porém, viu que ela saía apressada do edifício onde morava e se
dirigia para a praia. Não pretendia nada, pois usava o mesmo
vestido que utilizara para ir à Universidade. Na certa pretendia
ir a algum lugar, mas por que na praia? Observando-a, entretanto,
não foi difícil descobrir que, tentando fazer tudo para parecer
casual, encontrou-se com marcos, perto de um dos inúmeros
carrinhos de cachorro quente que andavam pela praia. Ricardo ficou
muito intrigado, mas o seu palpite se confirmava. Observou que
ambos gesticulavam, notou-os nervosos. De repente, ambos
separam-se afastando-se rapidamente.
Márcia havia ligado para Marcos, pedindo um encontro, pois tinha
algo importante a lhe dizer. Combinaram encontrar-se na praia.
-- Quer um cachorro-quente, professora?
-- Não, obrigada. Há algo de muito importante que preciso
perguntar-lhe.
-- Pode perguntar. O que foi/
-- Luvas! Você usou luvas quando tocou na prova de Eliane?
-- Luvas? Por que luvas?
-- Ricardo pediu para um amigo policial tirar as impressões
digitais da prova. Com certeza encontrará as nossas. Precisamos
descobrir uma boa maneira de explicar a existência delas.
-- Mas é possível tirar impressões digitais de uma folha de papel?
-- E não é?
-- Sei lá. Como vou saber? Não sou policial!
-- Mas...
-- Espere, agora estou entendendo tudo. Aquele ali na amurada não
é ele?
-- Onde?
-- Ali. É o professor Ricardo.
-- Rápido, vamos nos separar.
Mas já era tarde. Ricardo dirigia-se até eles. Marcos começou a
correr e o professor gritou por ele. Como este não parasse, correu
mais, até alcançá-lo. Com um formidável salto, agarrou-o pelos
tornozelos, sob os olhares espantados dos freqüentadores da praia.
Tentando soltar-se, Marcos atirou-lhe um punhado de areia nos
olhos, mas não pôde desvencilhar-se assim mesmo. Ofegante, Ricardo
segurou-lhe um dos braços torceu-os e prendeu-o às costas.
-- Vamos fale!
-- Não tenho nada a dizer. Solte-me.
Ricardo forçou-lhe ainda ,ais o braço, fazendo-o gemer.
-- Vamos, diga. Quem planejou tudo aquilo para incriminar-me?
-- Fui eu, fui eu e a professora Márcia -- gritou ele, com um
gemido de dor.
-- Ameacei publicar uma noticia no jornal da Universidade,
comprometendo-o. Ela não pôde recusar. Se não voltasse a
namorar-me, eu publicaria as noticias.
Uma onda de alegria invadiu o coração do professor. Eliane de fato
o amava. Amava-o o suficiente para sacrificar-se por ele. Soltou
Marcos, empurrando-o e fazendo-o cair sobre a areia.
De longe, Márcia observava a cena e se aproximava lentamente.
Ricardo descobrira tudo. Havia perdido o homem que amava. Nada lhe
foi mais duro, porém, que o olhar de rancor, e ao mesmo tempo de
piedade que ele lançou-lhe ao se afastar.
Marcos ofegava deitado na areia. Ela ajoelhou-se e falou-lhe:
-- Perdemos!
-- Sim, perdemos -- concordou ele.
-- Que faremos agora?
-- Ambos estamos desconsolados...
-- E sozinhos -- acrescentou ela.
-- Que tal nos consolarmos? -- propôs ele.
-- E por que não? -- ela respondeu, estendendo-lhe a mão e
ajudando a levantar-se.
***
Ricardo pensou em dirigir-se imediatamente para o apartamento de
Eliane, tal a sua ansiedade em rever a moça. Conteve-se, no
entanto e decidiu voltar para casa, trocar de roupa e comer alguma
coisa. A perseguição que iniciara logo cedo a Márcia não lhe
deixara tempo para uma refeição ligeira, sequer. Por isso foi para
o apartamento, trocou de roupa e comeu alguma coisa. Resolveu
ligar para ela.
-- Apartamento do Sr. Souza Marques. Com quem deseja falar?
-- Aqui é o professor Ricardo. Gostaria de falar com Eliane. Ela
está?
-- Um momentinho, vou verificar.
Pouco depois a voz tremula e suave de Eliane fez-se ouvir pelo
aparelho.
-- Eliane, amor, descobri tudo. Você não precisa mais se
preocupar. Marcos confessou tudo.
-- Como conseguiu descobrir?
-- Foi fácil. Inventei uma história e Márcia caiu, levando-me até
ele. Ambos estavam metidos nisso...
-- Eu sabia... -- confessou ela.
-- Sim, eu também tomei conhecimento disso. Obrigado, amor, por
tentar proteger-me.
-- Oh, Ricardo, felizmente tudo foi esclarecido. Eu estava tão
angustiada...
-- Posso imaginar.
Ficaram alguns instantes em silêncio. Suas respirações podiam ser
ouvidas de um lado e outro da linha. Ele rompeu o silêncio.
-- Venha encontrar-se comigo. Eu a esperarei em frente ao
edifício, na amurada da praia.
-- Estarei lá.
-- Até logo, amor!
-- Até logo, querido!
Eliane desligou o telefone, radiante de felicidade.
-- O que era, minha menina?
-- Oh, papei, estou tão feliz! -- disse ela, atirando-se nos
braços do pai. -- Ricardo esclareceu tudo.
-- E dai? Vamos, Conte-me.
-- Depois eu lhe explico tudo. Agora vou encontrar-me com ele --
acrescentou ela, saindo em disparada, rumo ao elevador.
Anoitecia. O sol deitava-se por trás do mar. Tingindo-o de
tonalidade avermelhadas. Umas e outras gaivotas passeavam pelo
céu. os banhistas se retirava, com grande ruído.
Aos poucos o barulho dos carros e conversas distanciou-se, até
cessar. Eliane ficou só, à espera dele. Chegara primeiro. Seu
rosto estava radiante e ela contemplava embevecida o pôr do sol.
Suas faces estavam rosadas e seus lábios tremiam de impaciência.
Pouco depois duas mãos grandes e suaves taparam-lhe os olhos por
trás e uma voz tão conhecida perguntou-lhe.
-- Advinhe quem é?
-- Um professor romântico que ama sua aluna.
-- Errou. Nada disso: um homem apaixonado que ama você.
-- Mentiroso -- falou ela, em tom de brincadeira, segurando-lhe um
dos braços e fazendo-o girar sobre seu ombro, indo estatelar-se
contra a areia.
-- Miserável! Garota maluca -- vociferou ele, caindo e olhando-a
rir a valer. Seu sorriso era puro, quase infantil. com um
movimento rápido, Ricardo puxou-lhe o tornozelo, fazendo-a cair
também. Depois atirou-se sobre ela e aplicou-lhe uma chave de
braço. Seus rostos ficaram bem próximos e ele perguntou-lhe
suavemente, enquanto beijava-lhe a nuca e o pescoço:
-- Então, rende-se?
-- Onde aprendeu a lutar assim? -- ela quis saber.
-- Quando estudava na Faculdade. Mas não tente mudar de assunto. É
minha prisioneira. Rende-se?
-- Nunca.
Com um movimento rápido de corpo. Eliane desvencilhou-se da chave
de braço e correu, gritando:
-- Só se você me pegar.
Ricardo correu o mais que pôde, alcançando-a logo adiante. O mar
lambia-lhes os pés na corrida. aproveitando-se de uma onda maior,
ele atirou-se no espaço, enlaçando-a pela cintura e fazendo-a
cair. Ambos rolaram pela areia, até que Ricardo a dominasse,
segurando-lhe as mãos riam. Ricardo aproximou vagarosamente a
cabeça e beijou-a nos lábios, suavemente, ternamente. Depois
enlaçou-a e beijou-a com mais impetuosidade, saboreando o gosto de
sal, mar e sol que havia naqueles lábios jovem e cheios de amor.
-- Eu a amo -- balbuciou ela.
-- Eu sei disso -- respondeu ele.
E abraçaram-se e beijaram-se sobre a areia, molhados pelo mar que
sensualmente os embalava.
A escuridão da noite já era quase total e a lua palidamente
iluminava o rosto da moça. Ricardo observou-o com bastante
atenção, depois comentou:
-- Seu rosto tem a fulguração pálida...
-- ... do ideal romântico -- completou ela, interrompendo-o.
-- Sim. É lindo. quando você chora, ri ou fica nervosa; quando o
sol ilumina ou quando a lua o empalidece. Lindo, lindo como nosso
amor...
-- ... que é eterno como o romantismo -- concluiu ela.
Ele se ergueu, tomou-a pelas mãos ajudando-a a levantar-se e
começaram a caminhar pela praia, sob a luz vacilante da lua que se
firmava no céu.
FIM.
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