sexta-feira, 19 de março de 2010

VAGAMUNDO.TXT

VAGAMUNDO
EDUARDO GALIANO

Nota: Este livro foi digitalizado por Joana Belarmino, em 6 de outubro
de 2000 e a sua distribuição com fins comerciais é proibida pela lei
brasileira de Direitos Autorais.
EDUARDO GALEANO
VAGAMUNDO
Contos
Tradução de
Eric Nepomuceno
3' Edição
PAZ E TERRA
(c) Eduardo Galeano
Traduzido do original em espanhol:
VAGAMUNDO
Capa: Mingo Ferreyra
Diagramação: Sheila Santos
Desenhos: Lajos Szalay
Editora PAZ E TERRA
Conselho Editorial
Antonio Cândido
Celso Furtado
Fernando Henrique Cardoso
Fernando Gasparian
Direitos desta edição reservados à
EDITORA PAZ E TERRA
R. Abade Ramos, 78 - Jardim Botânico
Rio de Janeiro

Impresso no Brasil
Printed in Brasil
a
Juan Carlos Onetti
Carlos Martinez Moreno
Mario Benedetti
Coleção: Literatura e Teoria Literária
Vol. 3
Antõnio Callado
Antônio Cândido

índice

garotos
segredo no cair da tarde 11
o monstro meu amigo 13
o pequeno rei vira-lata 14
o desejo e o mundo 15
gamados
homem que bebe sozinho 23
confissão do artista 24
garoa 24
mulher que diz tchau 25
andanças
ter duas pernas me parece pouco 29
noel 31
cerimônia 33
a terra pode nos comer quando quizer 35
os sóis da noite 39
tourist guide 45
o esperado 49
bandeira
as fontes 55
a iniciação
onde ela estava acontecia o verão 58
conto um conto de babalu 60
a cidade como um tigre
morrer
os sobreviventes 81
uma bala quente 84
a paixão 90
a rotos

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segredo no cair da tarde

Ele chegou a galope, num alazão que eu não conhe-
cia. Depois o alazão ergueu-se em duas pataS e desapa-
receu e meu irmão também desapareceu. Fazia tempo
que eu chamava ele e ele não vinha. Chamava e não o
encontrava. E ontem fui para o monte e ele veio e me fa-
lou como antes, só que no ouvido.
Eu cuido, para ele, das coisas que ele deixou. Es-
condi as coisas para que ninguém mexa nelas. A atira-
deira, a vara de pescar, o tambor, o revólver de madeira,
os preguinhos de fazer anzol. Tenho tudo isso escondido
e quando ele vem, sempre me pergunta pelas suas coisas.
Eu tenho medo da gente que passa e prefiro não sair.
Volto da roça ou de carpir a horta e fico aqui trancado,
no escuro, cuidando das coisas para ele. Quando acendem
a lâmpada de querosene fecho os olhos, mas deixo eles
um pouquinho abertos e a lâmpada vira uma linha bri-
lhante e toda peluda de luz. E às vezes converso com
meu amigo que não sabe falar porque é o cachorro. Con-
verso, para não dormir. Sempre que durmo, morro.
Já vão para cinco longos anos que em cima do Min-
go veio aquele caminhão na estrada. Estava cuidando
das duas vacas que nós tínhamos. Eu teria defendido
meu irmão, se estivesse lá com minha espada amarela. E
foi nesse dia que fiquei sem vontade de brincar, e para
nunca mais. Fiquei sem vontade de nada. Porque eu e o
Mingo sempre andávamos ao meio-dia como lagartos, e
íamos pescar e caçar passarinhos. Mas, depois, não
brinquei mais. Perdeu a graça.
Para mim, o que aconteceu com ele foi mau-
olhado. Alguém chegou e pôs um mau-olhado nele, jus-
to quando ele estava com a barriga vazia e depois veio o
caminhão e o esmagou. Nos gringos, nunca pega o mau-
olhado, me contaram. É que a gente daqui, de Pueblo
Escondido, a gente grande, tem a vista muito forte de-
mais. Aqui, toda a gente grande é má. Os grandes ba-
tem. Me batem quandodigo que posso conversar com o
Mingo sempre que quero, até hoje. Não deixam nem eu
falar o nome dele.
11
Por isso, nunca falo dele. Aqui em Pueblo Escondi-
do, eu não falo. Quando aconteceu aquilo, eu peguei e
meti na cara a máscara que o Mingo tinha feito para
mim no carnaval, que era um diabo com chifres de
trapo e a barba de verdade, e meti a máscara na cara para
que ninguém soubesse que era eu, e me atirei com a bi-
cicleta do Ivan turco a toda veloçidade contra a barran
queira, me atirei barranqueira abaixo, para me arreben-
tar lá embaixo contra o lixo. Mas deu tudo errado por-
que eu caí certo e não aconteceu nada. E aí me bateram.
E eu fiquei a noite inteira tremendo e de manhã acordei
todo mijado e me enfiaram num barril de água gelada.
Me deixaram na água gelada e eu não chorei nem pedi
que me tirassem. E na primeira vez que meu irmão apa-
receu, eu peguei e contei tudo para ele.
Eu contava tudo para ele. Contei que andávamos
comendo laranjas verdes porque não havia outra coisa.
E então mamãe vendeu as vacas e um dia me deu dinhei-
ro para ir comprar açúcar para enchermos bem a barri-
ga, porque quando se come pouco a barriga se fecha e
fifrca pequenininha e então a gente tem que enchê-la para
depois de pôr comida. E eu meti o dinheiro no bolso de
trás, que estava furado, e essa vez também me bateram.
Quando vou para o morro esperar o Mingo, tenho
medo que as pessoas me descubram. E tenho medo dos
urubus. Tenho medo também dos buracos, porque há
muitas armadilhas no morro e o diabo tem sua casa no
fundo da terra. É, preciso tomar cuidado para não cair
no fundo do mundo. E também tenho medo da tempes-
tade.Começam a cair em cima as primeiras gotàs gor-
das de chuva, e já saio em disparada. Tenho medo das
tempestades porque são muito brancas.
Estando meu irmão, é diferente. Estando ele, não
tenho medo de nada.
Ontem subi num braço de árvore e fiquei fumando
e esperando. Eu estava certo que ele não ia falhar. E o
Mingo apareceu a galope, bem no meio da imensa nu-
vem de pó, quando só restava um pouco de sol no céu.
Ele me pediu para chegar mais perto, me fez sinais com
o braço, e eu desci e embaixo de um espinheiro ele me
contou um segredo. O ar do morro tinha cheiro de la-
ranjas maduras. Não desceu do alazão. Abaixou o cor-
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po, e só. E me disse que eu vou ter dinheiro e vou pegar
e comprar um caminhão para mim e encher o caminhão
de palha e barba de milho para ter o que fumar para
sempre. E vou embora. E vou para o mar.
O Mingo me disse que passando o horizonte fica o
mar e que eu nasci para ir embora. Para ir, para isso nas-
ci. Pega o caminhão e vai embora, ele me disse. E aque-
les que não gostem disso, você passa por cima com o ca-
minhão. Quer dizer que eu vou embora. Para o mar. E
levo todas as coisas do meu irmão. Monto no cami-
nhão. e antes do mar eu não paro. Do mar sim, eu não
tenho medo. O mar estava me esperando e eu não sabia.
Como será? Como será o mar? - perguntei ao meu irmão.
Como será muita águajunta? É o mar respira? E respon-
de quando lhe perguntam? Tanta água no mar! E não
escapa, essa água do mar?

o monstro meu amigo
No começo eu não gostava dele, porque achava que
ele ia me comer um pé.
Os monstros são agarradores de mulheres, levam
uma mulher em cada ombro, e quando são monstros ve-
lhinhos ficam cansados e jogam uma das mulheres na
beira do caminho. Mas este de quem eu falo, o meu ami-
go, é um monstro especial. Mas nós nos entendemos
bem, apesar do coitado não saber falar e de todos senti-
rem medo dele. Este monstro meu amigo é tão, mas tão
grande, que os gigantes não chegam nem no seu torno-
zelo, e ele jamais agarra mulheres nem nada.
Ele vive na África. No céu não vive, porque se esti-
vesse no céu igual que Deus, cairia. É grande demais
para poder viver por aí pelo céu. Existem outros mons-
tros menores que ele, e então vivem no infinito, perto de
onde fica Plutão, ou mais longe ainda, lá no onfinito ou
no piranfinito. Mas este monstro meu amigo não tem
nenhum outro remédio a não ser viver na África.
Volta e meia ele me visita. Ninguém pode vê-lo,mas
ele pode ver todo mundo. Às vezes é um canguruzinho
que pula na minha barriga quando dou risada, ou é o es-
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pelho que me devolve a cara quando parece que estava
perdida, ou é uma serpente disfarçada em minhoca e que
monta guarda na minha porta para que ninguém venha
me levar-
Agora, hoje ou amanhã, o monstro meu amigo vai
aparecer caminhando pelo mar, transformado num
guerreiro que mais imenso não poderia ser, jorrando
fogo pela boca. Vaí dar um soprão e arrebentar a cadeia
onde meu papai está preso, e vai trazê-lo para mim na
unha do dedo minguínho, e vai enfiá-lo pela janela em
meu quarto. Eu vou dizer "olá", ele vai voltar para a Á-
frica, devagarinho, pelo m a r .
Então papai, meu papai, vai sair e comprar balas e
caramelos'para mim e uma garotínha e vai conseguir um
cavalo de verdade e vamos sair galopando pela terra, en
agarrado na cauda do cavalo, a galope, para longe, e de-
pois, quando papai ficar pequeno, eu vou contar as his-
tórias desse monstro meu amigo que veio da África,
para que meu papai durma quando a noite chegar.

o pequeno rei vira-lata
Todas as tardes, lá estava ele. Longe dos outros, o
garoto se sentava na sombra do arvoredo, com as costas
contra o tronco de uma árvore e a cabeça inclinada. Os
dedos de sua mão direita dançavam debaixo de seu quei-
xo, dançavam sem parar como se ele estivesse coçando o
peito com uma incontida alegria, e ao mesmo tempo sua
mão esquerda, suspensa no ar; se abria e fechava em
pulsações rápidas. Os outros tinham aceito, sem pergun-
tas, o hábito.
O cão se sentava, sobre as patas de trás, ao seu la-
do. E ali ficavam até a chegada da noite. O cão paralisa-
va as orelhas e o garoto, coma testa franzida atrás da
cortina de cabelos sem cor, dava liberdade aos seus de-
dos para que se movessem no ar. Os dedos estavam li-
vres e vivos, vibrando na altura de seu peito, e das pon-
tas dos dedos nascia o rumor do vento entre os galhos
dos eucaliptos e o repicar da chuva nos telhados, nas-
ciam as vozes das lavadeiras no río e o bater das asas
dos passarinhos que voavam, ao meio-dia com os'bicos
abertos pela sede. Às vezes, dos dedos brotava, de puro
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entusiasmo, um galope de cavalos; os cavalos vinham
galopando pela terra, o ruído dos cascos sobre as coli-
nas, e os dedos se enlouqueciam na celebração. O ar
cheirava a miosótis e ervilha de cheiro.
Um dia, os outros deram-lhe de presente um violão.
O garoto ácariciou a madeira da caixa, lustrosa e boa de
' se tocar, e as seis cordas ao longo do diapasão. E ele
pensou: que sorte. Pensou: agora, tenho dois.
o desejo e o mundo
São os últimos dias de agosto. Não muito longe da-
qui, sabe-se que o inverno começou a morrer. O frio está
impregnado pelo cheiro de flores amarelas das acácias
e se anuncia para breve o estalar das glicínias, as flores
azuis, as flores brancas; logo o ar terá o cheiro de glicí-
niás, não muito longe daqui, e terá cheiro de maçã e
diabruras. Os dias serão mais longos.
Se Gustavo pudesse, contaria que aqui os vidros
dasjanelas das celas foram pintados de branco, para que
os presos não vejam o céu. Contaria que isso é duro de
se deixar de lado, mas é duro somente enquanto dura o
dia. Durante a noite, não. A noite, aqui, de qualquer
maneira, é possível imaginá-la, com o Cruzeiro do Súl
ainda alto e as Três Marias sempre demorando para apa-
recer. Além disso, contaria Gustavo, é melhor não olhar
a noite daqui, não vale a pena. Para quê? Para ver os re-
fletores girando e girando das casamatas nas colinas?
Não. Se Gustavo pudesse, mais que contar perguntaria. .
E de qualquer maneira pergunta. Pergunta outras
coisas:
- Como vai indo na escola?
- Machucou a testa? Como foi?
- Você não trouxe agasalho?
- Cansou? São trinta quadras...
E difícil fazer-se ouvir no meio do vozerio de todos
os outros presos que, ávidos como ele, amassam seus
rostos contra os arames. Há duas telas de arame
separando-o de Tavito. Como telas de arame de gali-
nheiro.
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- Eu não me canso nunca. Caminho e caminho e
não me canso.
- Mas faz frio.
- Eu caminho e não sinto. Não é verdade, papai?
Quando a gente caminha, o frio se assusta e vai para
longe.
Gustavo permanece na ponta dos pés e Tavito, a
meio metro, também: não há outra maneira de ver as ca-
ras ou, pelo menos, adivinhá-las através dos arames: a
cara de Tavito aparece por cima da base de cimento da
tela de galinheiro. A cara, apenas.
Há muitas coisas para escutar e toda a gente fala e
as vozes se confundem. Às vezes, se abrem uns poucos
segundos de silêncio, como se todas as mulheres e os ho-
mens e as crianças se tivessem posto misteriosamente de
acordo para tomar fôlego ao mesmo tempo, e então fica
o fiapo de alguma frase desprendida no ar.
-E os desenhos? Voce não trouxe nenhum desenho?
- Não tenho desenhos, nenhum.
Tavito tenta meter um dedo através da tela de ara-
me, o dedo fica prisioneiro: não se pode.
- Como que não? E todos aqueles desenhos que...
- Rasguei.
- Que?
- Estava com raiva e rasguei tudo.
Gustavo pensa que as mãos de Tavito devem estar
frias. Gustavo acende um cigarro, sopra fumaça nas
mãos. Gostaria de ter umjeito de mandar calor a Tavito
através da tela de arame. Os desenhos. Um olho que ca-
minha com as pestanas. O doutor relógio usa os pontei-
ros como bigodes. Vem o leão e come todos. O leão
agarra a lua com uma pata. Vou explicar. Estes três pa-
lhaços batem no leão para que ele volte a lua e a lua cai
e... O cachorro morde a bunda de uma senhora gorda.
Está escutando? Escuta. A gorda está gritando guau,
guau, e o cachorro está dizendo ai, ai.
Agora Tavito tem as mãos abertas contra a tela de
arame e está soprando-as.
- A tia Berta está marcada. Marquei ela.
Atrás, há uma porta pesada, barras de ferro. Os sol-
dados apontam as metralhadoras e têm cacetetes e tam-
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bém revólveres nos coldres. Tavito diz:
- Ela me bateu.
O ar cheira a umidade e a coisa fechada.
- Deve ter sido por alguma razão.
Tavito chuta a mureta com a ponta do sapato. Em
seguida ergue os olhos. Esta maneira perigosa de olhar.
Aquela maneira. A cara de Carmen, cara de menina ávi-
da, quero tudo, quero mais, os olhos curiosos, famintos,
devorando o mundo.
- Está escutando?
- Sim, sim.
Gustavo sente um mal-estar na garganta. Carmen.
Levanta o olhar, o teto alto e cinza. Tavito diz:
- Escuta.
- Sim, sim. Que?
- A barriga. Está falando comigo.
Tavito faz caretas aos soldados, mostra a língua.
- Por que bateu em você?
- Quem?
- Berta. Você disse que ela tinha batido em você.
Tavito permanece em silêncio com a cabeça baixa.
Finalmente fala e Gustavo mal consegue escutá-lo:
- Ela fica zangada porque faço pipi na cama.
- E o Águia do Deserto sabe que você anda se mi-
jando?
O sangue sobe no rosto de Tavito, faz cócegas.
- Quando eu for grande, ela vai me pagar.
- O Águia do Deserto não vai querer ser seu amigo.
- O Águia não sabe que eu faço pipi na cama.
- Ah, ele fica sabendo de tudo.
- Claro que não. Você percebe que ele não vive na
mesma vida que eu? Ele vive na vida da guerra. Minha
vida é diferente. Na minha vida existe uma velha com
uma cara de Berta.
Gustavo não tinha querido que Tavito viesse. Vê-
lo, pensara, será pior. Mas no último domingo pedira a
sua irmã que o trouxesse, e que o esperasse fora.
- E esse curativo que você tem na testa? Que é is-
so... Não posso acreditar que... Mas... E o nariz? Você
está com o nariz inchado!.
- Você brigou com dez. No jornal dizia isso. Eu
também vou ser forte e brigar com todos eles.
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- Como foi?
- Na escola, foi lá, na escola.
- Eu não briguei com dez nem com nenhum. Você
está querendo é parecer com algum desses veados da te-
levisão.
- Eles estavam falando mal de você.
- Eles, quem?
- Eles, na escola.
- Falando o quê?
- Que os soldados vão matar você. Eles diziam isso
e eu bati neles e por pouco não mato todos.
Gustavo engole saliva. Sente uma opressão na ca-
beça. As orelhas ardem. Quer sentar-se. Estar longe. Es-
tar antes. Antes. como era?
Tavito está falando, está dizendo:
- A tia Berta me mostrou uma foto de quando você
era pequeno. Eu não tinha conhecido você pequeno.
Antes. eu não conhecia...
E então Gustavo sente que lentamente retrocedem
os rostos do filho e dos companheiros e dos soldados e
viaja, deste dia e desta cadeia, para outro tempo. O ve-
lho tempo regressa, o velho mundo, e antes de que fuja,
Gustavo está brincando na beira do mar, ao seu lado o
anão Tachuela está dançando, com uma vassoura para-
da na palma da mão: Gustavo perseguia a banda da ci-
dade, os quatro ou cinco velhos desarticulados que iam
desatando a bagunça dos tambores, e adiante de todos
marchava um negro de dentes brilhantes, que soprava a
corneta como ninguém; o negro parava, erguía a corneta
com uma mão e com a outra levantava Gustavo e ria,
gargalhada, e o sol, vendo aquilo tudo, também morria
de rir.
- (quis ficar com a foto, mas ela me tomou.
E vinte anos depois, Tavito perguntava por que os
pinguins vêm morrer na costa, e aprendia a pressentir a
chuva: canta o bem-te-vi seu canto quebrado e fugaz, os
passarinhos batem as asas contra a terra levantando pó;
as formigas atravessam, desesperadas, os caminhos.
- Quando você vai voltar para casa?
- Não sei. Logo.
O vento norte, o que bate nas suas costas, é vento
de terra, mas quando vem o pampero, Tavito, vem para
limpar o ar. Olha. Hoje, o mar tem espuma de cerveja.
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Uma gaivota roçou sua cabeça com uma asa. A espuma
se inchava, tremia, abria bocas, respirava. Subia a maré:
o tempo será bom, Tavito. A espuma voava, Tavito ti-
nha bigodes de espuma.
- Amanhã?
- Pode ser. Não sei.
Tavito perseguia as flores de cardo que subiam e
flutuavam e subiam pelo ar e Gustavo perguntava:
Quem canta? - e Tavito parava, aguçava o ouvido, dizia:
pintassilgo. Não, olha lá: e então Gustavo mostrava a
cabecinha amarela do picapau entre os galhos das árvo-
res.
- Quem é que sabe quando você vai voltar para ca-
sa?
- Ninguém sabe, Tavito.
Quantos dias se passaram? Quantos meses? Uma
noite, descobre-se que fazer a conta é pior. Antes, antes.
Gustavo olha sem ver. Abolir o tempo. Voltar atrás. Fi-
car, Carmen, ficar em você. Eu achava, Carmen, que
você não ia terminar nunca. Apertei sua mão e a mão la-
tejava, estava viva como um passáro. Antes, antes de tu-
do. E as estrelas, papai, que fazem durante o dia? Por
que puseram mosquitos na Arca de Noé? Por que a ma-
mãe morreu? Dois cachorros rodavam mordendo-se pe-
las dunas e Gustavo já tinha estado preso, não dormia
em casa, três vezes tinham vindo remexer nas coisas uns
caras de uniforme, estavam armados como os que traba-
lham na televisão, esses da série "Combate", remexiam
em tudo na casa e Tavito olhava para eles, sem pestane-
jar e sem abrir a boca, grudado na parede; o corpo tré-
mia até os dedos dos pés. Gustavo tinha dito a ele: há
tantas coisas que você vai ter que descobrir, Tavito. As
coisas invisíveis, as difíceis, a brecha que espera por você
entre o desejo e o mundo: você apertará os dentes, resis-
tirá, nunca pedirá nada. Não, não se vive para vencer os
outros, Tavito. Vive-se para se dar.
Tavito aponta, com o queixo, os soldados.
- E estes, não sahPm quando você vai voltar?
- Também não sabem.
Dar-se. Mas, e ele? Tenho direito? se pergunta
Gustavo agora. Ele, que culpa tem? Escolhi por ele sem
consultá-lo Me odiará, alguma vez? Gustavo vê quando
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ele se aproxima de um dos soldados. Tavito fala, o sol-
dado encolhe os ombros e em seguida estende a mão
para acariciar sua cabeça. Tavito salta, como se a mão
do soldado estivesse eletrizada.
Tenho direito? Decidi por ele. Havia outra manei-
ra? Gustavo olha para os lados, os companheiros, rosto
por rosto, os homens com quem divide a comida e a
pena e as palavras de ânimo que passam uns aos outros,
como o mate, de boca em boca. O tempo de agora e o
tempo de depois. Alguém atira para ele, do outro extre-
mo da fila, um maço de cigarros. Gustavo apanha-o em
pleno vôo. E então Tavito diz:
- Não se preocupe.
Diz:
- Quando eu for astronauta; vamos ir para a lua ou
vamos ir pescar.
Fora, o infinito caminho da terra se estende, pó e
frio, através dos cotos das árvores podadas. Há um sol
branco no céu. Tavito olha fixo para o sol, em seguida
fecha os olhos, sente o sol metendo-se, estremecedor, no
corpo. A luz o persegue e aquece suas costas. Entre o sol
e Tavito, caminha uma mulher que leva um pacote de
roupa pendurado em uma mão.
Do outro lado das colinas, as acácias cheiram a
mel. E na cidade, não muito longe daqui, o vento ergue
papéis velhos, em redemoinhos, pelas ruas. Nos merca-
dos, anunciam morangos de Salto. Os cachorros cochi-
lam, ao sol, junto dos mendigos. Sentado na beira da
calçada, um garotinho desenha o mundo com um palito.
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gamados
homem que bebe sozinho
As sentinelas vigiam, os revolucionários conspiram,
as ruas estão vazias. A cidade adormeceu ao ritmo mo-
nótono da chuva; as águas da baía, viscosas de petróleo,
lambem, lentas, o cais. Um marinheiro tropeça, discute
com um poste, erra o golpe. Nos pés do morro, arde
como sempre a chama da refinaria. O marinheiro cai de
bruços sobre um charco. Esta é a hora dos náufragos da
cidade e dos amantes que se desejam.
A chuva cresce, agora mais feroz. Chove de longe; a
chuva bate contra as janelas do café do grego e faz
vibrar os vidros. A única lâmpada, amarela, luz doentia,
oscila no teto. Na mesa do canto, não há nenhuma moça .
tomando café e fabricando barquinhos com o papel do
açúcar para que o barquinho navegue em um copo d'á-
gua e depois naufrague. Há um homem que vê chover,
na mesa do canto, e nenhuma outra boca fuma de seu ci-
garro. O homem escuta vozes que vêm de longe e dizem
que juntos somos poderosos como deuses, e dizem: quer
dizer que não valia a pena, toda essa dor inútil, toda essa
sujeira. O homem escuta, essa mentira, estátua de gelo,
como se as vozes não chegassem do fundo da memória
de ninguém e fossem capazes de sobreviver e ficar flu-
tuando no ar, no ar que cheira a cachorro molhado, di-
zendo: gosto de gostar de você, minha linda, minha lindís-
sima, corpo que eu completo, você me toca com os dedos e
sai fumaça. nunca aconteceu, jamais acontecerá, e dizen-
do: tomara que fique doente, que tudo dê errado na sua vi-
da que você não possa continuar vivendo. E também: obri-
gado, é uma sorte que você exista, que tenha nascido, que
esteja viva. e também: maldito seja o dia que lhe conheci.
Como acontece sempre que as vozes chégam, o ho-
mem sente uma insuportável vontade de fumar. Cada ci-
garro acende o próximo enquanto as vozes vão caindo
,
trepidantes, e se não fosse pelo vidro da janela com cer-
teza a chuva machucaria sua cara.
23
confissão do artista
Eu sei que ela é uma cor e um som. Se pudesse
mostrá-la a você!
Dormia ali, nua, abraçando as próprias pernas. Eu
amava nela a alegria de animal jovem e ao mesmo tem-
po amava o pressentimento da decomposição, porque
ela havia nascido para desfazer-se e eu sentia pena que
fôssemos parecidos nisso. Mostrava a pele do ventre,
que parecia raspada por um pente de metal. Essa mu-
lher! Algumas noites saía luz de seus olhos e ela não sa-
bia-
Passo as horas procurando-a, sentado na frente do
cavalete, mordendo os punhos, com os olhos cravados
numa mancha de tinta vermelha que parece ao entusias-
mo dos músculos e a tortura dos anos. Olho até sentir
que meus olhos doem e finalmente creio que começo a
sentir, no escuro, as pulsações da pintura crescendo e
transbordando, viva, sobre a tela branca, e creio que es-
cuto o ruído dos pés descalços. sobre a madeira do chão,
sua canção triste. Mas não. Minha propria voz avisa:
"A cor é outra. O som é outro".
Levanto, e cravo a espátula nessa víscera vermelha
e rasgo a tela de cima para baixo: Depois de matá-la,
deito de boca para cima, arfando como um cão.
Mas não posso dormir. Lentamente vou sentindo
que volta a nascer em mim a necessidade de pari-la. Po-
nho o casaco e vou beber vinho nos botecos do porto.
garoa
Tinha sido a última oportunidade. Agora, sabia.
De qualquer maneira, pensou, poderia ter me poupado
da humilhação do telefonema e do último diálogo, diá-
logo de mudos, na mesa do café. Sentia na boca um gos-
to de moeda velha e no corpo uma sensação de coisa
quebrada. Não só na altura do peito, não: em todo o
corpo: como se as vísceras se adiantassem à morte, antes
da consciência decidir. Sem dúvida, tinha ainda muito
que agradecer a muita gente, mas ele se lixava para isso.
A garoa molhava-o com suavidade, molhava seus lá-
24
bios, e ele teria preferido que a garoa não o tocasse da-
quelejeito tão conhecido. Ia descendo para a praia e de-
pois afundou lentamente no mar sem nem ao menos ti-
rar as mãos dos bolsos, e todo o tempo lamentava que a
garoa se parecesse tanto à mulher que ele havia amado
e inventado, e também lamentava entrar na morte com o
rosto dela ocupando a totalidade da memória de sua
passagem pela terra: o rosto dela com o pequeno talho
no queixo e aquele desejo de invasão nos olhos.
mulher que diz tchau
Levo comigo um maço vazio e amassado de Re-
publicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo
comigo as duas últimas passagens de trem. Levo comigo
um guardanapo de papel com minha cara que você dese-
nhou, da minha boca sai um balãozinho com palavras,
as palavras dizem coisas engraçadas. Também levo co-
migo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra
noite, quando caminhávamos separados pela multidão.
E outra folha, petrificada, branca, com um furinho
como uma janela, e a janela estava fechada pela água e
eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas
as coisas boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melho-
res que nos vão acontecer ).
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os
beijos de quando você partia (eu nunca estava dormin-
do, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma
carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o
que foi.
25
andanças
ter duas pernas me
parece pouco
Eu não sabia como era a fronteira. Como seria?
Nunca tiriha visto uma frontéira. Teria orquestra? Teria.
E baile e festa e tiro ao alvo. E circo? Orquestra, com
certeza. Circo, não sabia.
Já levava dias a cavalo, mas não estava cansado.
Comia o que podia e tinha fumo de sobra. Sabia que a
fronteira ficava no rumo norte e tocava em frente sem
medo nem pressa. As estrelas, de noitinha, Corrigiam
meu rumo. Na verdade, era o cavalo que sabia. Eu con-
versava, pedia para ele não se confundir: olha aí, vamos
p'ro norte. Ele ia ao sabor do vento.
Eu estava descalço e sem esporas, com as calças ar-
regaçadas acima dos joelhos e estava com minha perna
nua grudada no seu couro, como se fôssemos para a
guerra montonera.
Quando vinha a noite, desmontava. Debruçava na
beira de um arroio e os dois tomávamos água. Não o
amarrava nunca. Eu me estendia a picar fumo de corda,
debaixo de uma árvore, e via quando ele saía pastando
por perto. Nunca o vi dormir. Nem bem chegava a ma-
nhã, ele me despertava relinchando suave e empurrando
minhas pernas com o focinho, antes que o sol pudesse
espetar meus olhos por trás dos galhos. Então saíamos,
cedinho, trotando a trote longo.
Eu tinha ido embora porque queria mudar. Se rião,
no dia menos esperado ia estar dentro do caixão de mor-
to sem saber para que existira. Pensava nos caras que
não têm novidades novas para contar, e não sobra outro
jeito que contar novidades velhas ou pichar os outros.
Para mim, valia mais morrer que seguir vivendo assim,
carregando água para as casas e dá-lhe lustrar sapatos
na estação do trem e sempre com dor nos rins. Viver as-
sim, para quê? Claro que se todos começarmos a pensar
em morrer e começarmos a morrer estaremos fritos. A
gente tem que buscar um jeito de não morrer. Pensava
29
em Cristo, que há uns dois mil anos está na luta filosófi-
ca e na quantidade de dias que estavam me esperando
para que eu os vivesse. Pelo meio das orelhas daquele
cavalo, podia ver o mundo inteiro, que era enorme e não
era de ninguém e tinha um cheiro de capim e couro úmi-
do de montaria.
Pensava na sorte que tinha por ter nascido homem.
Pensava em minha irmã maior, que ferraram porque
não se casaram com ela, e em minha irmã menor, que
ferraram porque se casara. E em minha mãe, que quis
viver outra vida mas não sabia qual e dormia com os
olhos abertos desde a noite em que meu velho a roubou
dos ciganos. E em todas as mulheres de minha vida cur-
ta mas poderosa e tristemente célebre. Porque eu , mu-
lher que vejo, mulher que me dá vontade de botar na ho-
rizontal e meter-me lá dentro, eu levo para o morrinho
atrás do cemitério, ali entre a rua Domingo Petrarca e a
rua das Mulas, de onde antes saíam os carros do curral.
As mulheres nascem para isso, e por isso se enlouque-
cem sem precisar de vinho.
Eu queria conseguir tinta, embora não soubesse co-
mo, antes de chegar na fronteira. Gostaria de passar
para o outro lado com o cavalo verde e as crinas amare-
las, em homenagem ao país irmãoo, porque essas coisas
impressionam muito. Lá os pretos são todos doutores e
certamente estariam à minha espera com uma parrillada
gigante, Fechava os olhos e via as costelétas douradas
jorrando gordura e uma fogueira de troncos e um bra-
seiro desses lindos de se olhar de noite. Eu ia entrar a ga-
lope com o pingo colorido por baixo de uma arco de tre-
padeiras e haveria pelo menos uns 20 clarins chamando
para a festa.
Quanto mais me aproximava, mais contente estava.
Porque lá são as mulheres quem tiram as roupas dos ho-
mens, aos poucos, aos pouquinhos, como quem descas-
ca uma banana, e pintam paisagens de todas as cores nas
barrigas dos homens, o morro do Corcovado com Cris-
to e tudo, e depois tomar banho é uma lástima.
Andava por uma trilha estreita, louco por causa
dos espinhos, os mangangás zumbindo pertinho, e de re-
pente dei de cara com uma dessas planícies que a gente
vê no cinema, muito selvagem, com uns pastos do tama-
30
nho de uma pessoa que o vento movia em ondas bravas,
e debaixo deles andavam as lebres, no cio, perseguindo-
se como flechas. Cruzei todo esse campo e depois atra-
vessei um riacho cheio, e eu sempre com a impressão de
que um assunto muito importante estava espalhando-se
pela atmosfera.
Desci do cavalo, abri uma pdrteira e tornei a mon-
tar. Então, justo quando estava passando a perna para o
outro lado, vi que de longe vinha um cavaleiro atraves-
sando o campo. Esperei o cavalo, com toda a emoção.
O cavaleiro vinha para cá e eu ia para lá. Sentia
como se o campo estivesse adormecido e eu ia
despertando-o ao passar, com uma alegria sem fim. Até
aí, eu sempre fizera uma volta quando podia cruzar com
alguém; evitava o humano como se fosse onça ou cobra.
Mas esse tipo eu via, aproximando-se, com sua capa ne-
gra voando ao vento, envolvido na neblina vermelha
que as patas do caválo levatavam, e - como dizer? - éra-
mos como dois caudilhos que iam se encontrar. Assim
i era misteriosa minha vida naqueles momentos cruciais
da existência.
O coração batia com toda a vontade e eu não sabia
que iam me engaiolar por três anos por andar escapando
com cavalo alheio, embora soubesse que ele fosse pro-
priedade privada de outro. Eu estava louco de alegria e
não tinha nem idéia de que a fronteira tinha ficado para
trás, que tinha passado por ela sem perceber, nem sabia
que o homem de capa negra era um tira. Como ia saber?
Todos os policiais têm pinta de polícia, já nasceram as-
sim, e por isso não servem para outra coisa. Todos, me-
nos aquele cara, que na verdade, visto de longe, puxa...
parecia um tremendo justiceiro, como o Zorro.

Noel
A chuva tinha nos surpreendido na metade docami-
nho; tinha se descarregado, raivosa, durante dois dias e
duas noites.
Fazia já algumas horas que o sol tinha voltado, e as
crianças andavam ao pé do morro buscando o jacaré
caído do céu. O sol atacava as lamas das roças e a mata
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próxima, arrancando nuvens de vapor e aromas vege-
tais, limpos e embriagadores.
Nós estávamos esperando que um ruído de motores
anunciasse a continuação da viagem, e deixávamos pas-
sar o tempo, entre bocejos, sentados de costas contra a
frente de madeira do armazém ou deitados sobre sacos
de açúcar ou de milho moído.
Dos braços de uma mulher, ao meu lado, brotava,
contínuo, um gemido débil. Envolvido em trapos, Noel
gemia. Tinha febre; um mal tinha entrado pela orelha e
tomado a cabeça.
Para lá dos campos amarelos de soja, se estendia '
um vasto espaço de cinzas e tocos de árvores cortadas e
carbonizadas. Logo tornariam a se erguer, por trás des-
ses desertos, as espessas colunas de fumaça das fogueiras
que abriam caminho em direção ao fundo da mata invic-
ta, onde floresciam, porque era época, as campainhas
avermelhadas dos lapachos. Esperando, esperando,
adormeci.
Me despertou, muito depois, a agitação das pessoas
que grit'avam e erguiam pacotes, sacos e panelas. O ca-
minhão, vermelho de barro seco, tínha chegado. Eu es-
tava estendendo os braços quando escutei, ao meu lado
a voz da mulher:
- Me ajude a subir.
Olhei para ela, olhei para o menino.
- Noel não se queixa mais - disse.
Ela inclinou a cabeça suavemente e depois conti-
nuou com a vista sem expressão, cravada nos altos arvo-
redos onde se rompiam as últimas luzes da tarde.
Noel tinha a pele transparente, cor de sebo de vela;
a mãe já tinha fechado seus olhos. De repente, senti que
minhas tripas se retorciam e senti a necessidade cega de
dar uma porrada na cara de Deus ou de alguém.
- Culpa da chuva - murmurou ela. A chuva, que
fecha os caminhos.
Mais que a tristeza, era o medo que apagava sua
voz. Qualquer motorista sabe que dá azar atravessar a
selva com um morto.
Subimos na carroceria. Os contrabandistas, os
peõe's do mato, os camponeses celebravam com cachaça
a aparição do caminhão. Alguns cantavam. O caminhãc
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partiu e todos ficaram em silêncio depois dos primeiros
trancos.
- E agora, por que você continua?
Foi a primeira vez que olhou para mim. Parecia as-
sombrada.
- Aonde?
- Isso leva a gente para Corpus Christi.
- Para lá é que eu vou. Vou até Corpus rezar para
que chegue o padre. O padre tem que fazer o batismo.
Noel não está batizado e eu vou esperar até que chegue
o padre com as águas sagradas.
A viagem se fez longa. Íamos aos trancos pela pica-
da aberta na selva. Já era noite fechada e por aquela co-
marca também vagavam, disfarçadas em bichos espan-
tosos, as almas penadas.
cerimômnia
O diabo está bêbado e reumático e tem milhões de
anos de idade. Sentado em cima de uma fogueira de ca-
cos de vidro, envolvido em chamas, jorra suor. Reza a
missa com as costas apeadas no tronco daquela figueira
que, condenada por Cristo, não dá frutos.
"Que se estiver caminhando, veja minha sombra.
Que se estiver dormindo..." Sacode a cabeça. Os cornos
de trapo balançam sobre os olhos e um fio de baba des-
penca, trêmulo, de seu lábio; ao redor, estão pendurados
os santos do céu e do inferno. A fumaça ondula entre ca-
veiras e amuletos e oferendas; os bodes bebem vinho ne-
gro, os galos gritam, os sapos se incham de fumaça de
charuto. "Eu te esconjuro pelos nove meses que tua mãe
te carregou no ventre, pela água que tejogaram em cima
e pelo sal que te deram para comer. Osso por osso e
músculo por músculo, veia por véia, nervo por nervo..."
O diabo se levanta estalando e começa a caminhar
encosta acima, pelos arbustos. Um cetro de sete dentes
de ferro serve de bastão: os sete soldados, guardiões dos
portões do inferno, o guiam no negror da noite e lhe dão
forças para manter rijos os músculos enquanto dribla as
pédras e a ramagem do morro. Anda torto, enrolando-
se aos tropeções com sua própria capa rubro-negra, cha-
33
muscada e rota, e a cada passo uma dor aguda retorce
seus rins.
Pára na metade do caminho. Junto à cascata, uma
mulher, de pé, está esperando. Ela carrega uma menina
nos braços.
- Tem muita febre?
- Não.
A morte, sua longa língua:
- Está indo. É dor demais para seu pouco tamanho.
"Galo que canta, cão que late, passarinho que pia,
gato que mia, criança que chora, Satanás..." O diabo
coça a orelha ponteaguda:
- Não. Porque eu não quero.
Doze rosas brancas. Um punhal virgem. Sete velas
vermelhas, sete velas negras. Uma toalha intacta. Um
copo não tocado por nenhuma boca.
"A estrela e a Iua são duas irmãs
Cosme e Damião"
Acendem as velas. Lá embaixo, antes do mar, tre-
mem, fracas, as luzes da cidade. A madrugada começa a
desenhar sua linha no horizonte.
- Sonhei que ela morria.
- Quem dorme com a boca para baixo não sonha.
- Um cavalo apoiava as patas na minha barriga. E
depois, com mãos de mulher, me apertava a garganta.
Percebi que se eu dissesse o nome dela, ela morria.
- Qual é o nome?
- O nome de minha mãe.
O diabo coça a barbicha com a unha, longa, do po-
legar. O diabo não tem cheiro de enxofre. Tem cheiro de
cachaça.
- Quantos anos tem?
- Anos, não. Tem dias
- A avó vem buscá-la. É ela quem quer levar a me-
nina.
A menina está estendida sobre o pano branco, ro-
deada de flores e velas. O diabo se inclina, se ajoelha, e
com a ponta da adaga desenha dois talhos, em cruz, no
meio da cabeça. Apóia sobre a ferida suas gengivas sem
dentes e bebe o sangue. A menina não tem forças para se
queixar.
34
- Iara, que será chamada por outro nome, não vai
morrer. O dia que o mundo acabar ela se salvará num
carro de fogo. Os tempos mudam todos os dias, mas de
agora em diante, ela é minha neta.
Despeja as rosas nas águas da nascente do morro,
para que levem as desgraças e as atirem no mar.
- Oxalá, Deus das Alturas, Criador do Céu, do In-
ferno, do Mundo, dos filhos, da tristeza, me ajuda a
criar esta filha. Ela é tua filha e minha neta, e filha de
minha tristeza, ai.
Depois ergue o punho para as últimas estrelas do
céu e, apontando para ela com os sete dentes de ferro en-
ferrujado, clama, a voz rouca:
- Na hora em que te lembrares, Deus, que essa me-
nina existe sobre a terra, ela sofrerá. Tua vingança, que
os veados da igreja chamam de mistério! Mas por feitiço
ela não vai sofrer. Nem por mau-olhado. Nem por inve-
ja, nem por praga, nem por quebranto. Nem por maldi-
ção.
' Cospe no chão. E continua acusando as alturas e
sacudindo o punho peludo, enquanto a luz invade, len-
ta, o ar cinzento:
- Ah, velho carrasco! Carniceiro!
Ela entrará num jardim e deixará a criança na solei-
ra de uma casa de ricos. Depois continuará caminhando
até a costa, até chegar na praia do Diabo, que é pequena
mas engoliu muita gente. E começará a buscar, na areia
ainda fria e úmida, o cordãozinho com aquele talismã
que a protegia das penúrias durante o dia, e dos pesade-
los durante à noite. E se Iemanjá a chamar das lonjuras
do mar, ela se despirá e se deixará ir navegando como se
seu corpo fosse uma vela branca, atrás da voz da deusa.
a terra pode nos comer
quando quiser
Um pontinho vem crescendo pouco a pouco, da
lonjura. Nesta estepe gelada, sem pasto nem marcas, de
onde até os corvos fogem, a luz queima os olhos. A puna
é tão alta que se pode tocar o céu com as mâos: a luz cai
35
de muito perto, e arranca da pedra lisa brilhos de cor
púrpura ou de cor de enxofre.
O pontinho vai se convertendo, lentamente, em
uma mulher que corre. Usa um chapéu preto como os de
Potosi e um chale vermelho, tão amplo como sua vasta
saia. Ela corre deslizando no meio dessas desolações que
não começam nem terminam nunca, banhada pela lumi-
nosidade que sai do chão como se estivesse atrasada
para chegar a algum encontro.
Pelo que me contaram aqm, o yatiri virou yatiri
sem querer ou decidir. Foi escolhido. E nem as ovelhas
viram isso - não havia homens ou animais: não havia
ninguém. Uma voz o chamou do alto da noite quando
ele ainda não era yatiri e ele subiu atrás da voz cami-
nhando pela montanha até chegar lá em cima, muito
além das nuvens. Sentou ao pé da pedra e esperou.
Então caiu o primeiro raio e ele foi partido em pe-
daços. Depois caiu o segundo raio e os pedaços se reuni-
ram, mas ele não podia ficar em pé. Aí caiu o terceiro
raio que o soldou.
Assim foi quebrado e construído o yatiri, morto e
renascido, e assim foi sempre, pelo que me contaram
aqui, desde que Viracocha criou o mundo e o raio que
cai, as pedras que despencam, os rios que arrasam plan-
tações e currais, a inundação e a seca, as epidemias e os
terremotos. (E desde que criou a nós, os homens, ou nos
sonhou, porque aí ele já estava dormindo.)
Uma cortina de água apaga o vão alto e negro que
separa os picos altos no horizonte. Um relâmpago atra-
vessa esse vão. Está chovendo para os lados de Chayan-
ta.
Debaixo da terra, metidos nas grotas e nas fendas,
os homens perseguem os filões. Que aparecem, escor-
rem, se oferecem, se negam: é uma víbora cor de café e
em sua carne brilha, trêmula, a cassiterita. Uma caçada
que se faz em três turnos, bem no meio da montanha. E
onde participam milhares de homens armados de cartu-
chos de dinamite ou de anfo: essa manteiga que também
se usa para brigar em cima da terra e que os capatazes
desconfiam, quando vêem os pacotes que os mineiros
36
costumam levar debaixo de seus casacões de trabalho,
que são amarelos - de um amarelo raivoso.
Um rato agarrado num buraco fundo: uma opres-
são entre o peito e as costas, uma dor que caminha pelo
corpo: a vingança do pó de silícío: antes da tosse e do
sangue e da aniquilação temporã, os perseguidores do fi-
lão perdem o gosto da bebida e da comida e perdem o
cheiro das coisas.
Llallagua: deusa da fecundidade e da abundância.
Llallagua: um grande depósito de lixo cercado de potes
de chicha. Alguém cruza a ponte sobre o rio Seco, arras-
tando um carrinho de mão cheio de cachorros mortos,
com as bocas abertas.
Tenho, tenho, diz
e não tem nada
nem um tostão no bolso
para os cigarros...
O rio é um leito cinza e escasso que corre entre as
pedras. Todas as águas de Llallague acabam parecidas
com a areia espessa que brota da boca da mina e todas
as ruelas de Ltallagua, escorregadias de barro, levam
para o lixo.
Aqui, o sol incendeia, o vento arrebenta, a sombra
gela, o frio fere, a chuva cai como pedradas. Durante o
dia, o inverno e o verão cortam os corpos em dois - ao
mesmo tempo.
À luz de velas, uma mulher dança huayno no chão
de terra. As várias saias da mulher flutuam e a longa
trança negra voa para trás e para a frente, e ela acarícia
a trança com os dedos.
Alguém segreda: "A Hortênsia tem amor. Mas só
por um tempinho: só para um tempínho. Vai oferecer
maravilhas para ele. Mas depois..."
Todos bebem:
- Aqui! Aqui! Seco, fundo seco, mostrem os copos!
Sirva-se, sirva-se, não seja galinha, vamos ver!
- A gente tem de fuzilá-los, porra, todos, todinhos,
porra!
- Um trago por isso! Um brinde pelos que dançam!
Mas que seja forte!
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- Na nuca, porra, por tanta encheção de saco! E a
tiros, que é melhor! Ê além disso, mais pedagógico, por-
ra!
- Um brinde por Camacho! Brindemos por merda
nenhuma! Eu estou na rua, nesta merda de rua!
E! Lobo tem duas mulheres, mas todos sabem
que uma, a corcundinha, só serve como amuleto, e que a
outra quer tirar a roupa toda vez que fica bêbada.
Cantarei, e só,
Dançarei, e só
não sobrou nem água
para mim
Quem trabalha nas manhãs de segunda-feira? Os
distraídos e os suicidas. Nem os padres.
Meteram duas lhamas brancas, vivas, no fundo do
grotão. O yatiri afundou no pescoço delas seu punhal de
prata e bebeu a sangue quente na concha de sua mão, e
depois ofereceu sangue à terra, porque a terra pode nos
comer quando quiser. Com um chifre de caça, chamou
os inimigos dos mineiros e levou-os para longe.
- Irmãos, companheiros. Estamos oferecendo boa
presa para que apareçam bons filões nas minas, e a sorte
boa contra os desmoronamentos e contra os caminhos
perdidos. Agora estamos brindando pelos tios e tias e
neste instante eles estão fazendo o mesmo por nós. Eles
estão enchendo a cara no inferno, pela nossa saúde.
Os mineiros, sentados em roda, olhavam - sem fi-
xar os olhos - para o tio, em seu trono iluminado pela
luz das velas, suas sombras espantosas nas paredes das
grutas. Nas vasilhas, aos pés do tio, a aguardente ia bai-
xando de nível e desaparecendo, as vísceras das lhamas
sofriam dentadas invisíveis e as folhas de coca se conver-
tiam em polpa babada. O charuto virava cinza na boca
do diabo de barro.
- As duas lhamas que sacrificamos estão sendo de-
voradas pelos diabos, e todas as virgens, junto com eles,
também estão comendo a carne sagrada. E amanhã, ao
amanhecer, vamos recolher os restos que sobrarem, e
então vamos comer nós. E durante sete dias ninguém en-
trará aqui e ninguém trabalhará.
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Ainda que ele acreditasse, como todos, que tempos
idos não voltam mais, houve alguém que desejou que
aparecesse o Tio em pessoa, trabalhando ao meio-dia,
batendo com um martelo as paredes de uma lavra aban-
donada, uma lavra falsa, e batendo na pele de don Si-
món Patino, que tivera a sorte e o dinheiro e o poder.
Mas o que eles viam, quando fechavam os olhos, eram os
homens mortos a bala, bêbados ainda e luminosos pelas
fogueiras de São João.
Me perguntavam como era o mar. Eu contava que
na boca dos pescadores o mar é sempre mulher e se cha-
ma la mar. Que é salgado e muda de cor. Contava para
eles como as grandes ondas vêm rodando com suas cris-
tas brancas e se levantam e se estraçalham contra as ro-
chas e caem revolvendo-se na areia. Contavá para eles
da bravura do mar, que não obedece a ninguém a não
ser a lua, e contava que no fundo ele guarda barcos
mortos e tesouros de piratas.
os sóis da noite
O mineiro é um pássaro de plumas negras que os
mineiros perseguem e não vêem nunca. Voa muito alto e
vai alvoroçando com seu grito duro o topo das monta-
nhas. Sabe-se que descansa nos últimos galhos dos ce-
dros das farrobas.
Há outros pássaros, o capanero e a piscua, que tam-
bém anunciam o esconderijo dos diamantes. Quando a
piscua está muito alegre e canta püüscua, püüüscua, é
por alguma coisa boa, mas cuidado com esse passarinho
manso, de plumas cinzentas, quando fica triste e canta
baixo, como se estivesse com raiva: melhor é ir embora.
Em compensação, cada vez que o mineirinho arisco gri-
ta seu único grito, está mostrando o diamante que foge,
para que os homens se lancem sobre a pedra e a levan-
tem no punho. O mineiro conduz os mineiros até o fun-
do da selva de Guaniamo, onde vive. Quando sai na sa-
vana, mal começa a voar, morre, porque o ar da planura
bate em seu peito.
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O diamante é uma pedra que magicamente aparece
no meio das peneiras, desprendida de uma massa de pe-
dras inúteis e barro, depois de esconder-se nos leitos de
areia dos rios ou nas profundidades da terra, entre os si-
nais delatores: coisas que parecem grafite de lápis, lenti-
lhas, merda de papagaio, pedaços de metal e sementes
de romã. Para encontrar o diamante, este senhor, é pre-
ciso ter sangue nas veias.
O mineiro é um preto velho que protesta porque
são três da manhã e na rua da Salvação já não se pode
beber. O que é meu é meu, grita. Eu tenho reales, não
preciso pedir dinheiro a esses botequineiros. Somos gen-
te boa, mas quando dá raiva, dá raiva. Tenho um dia-
mante grande como o da África aqui no meu bolso, e
não me atendem. Que cantem as máquinas! Que saiam
as mulheres! Estão pensando que Marchán é algum vira-
latas, nesse negócio? Não me dêem nada. Eu tenho mais
reales, mais que esses que têm negócios e picas, eu tenho
reales no bolso e no banco de Caracas e em todos os lu-
gares. Aqui estou com meu burrico e quero que as mu-
lheres tirem a roupa e dêem banho no meu burrico com
brandy, porque é assim que ele gosta! Don Marchán é o
homem mais rico de todas as minas desse país, que cara-
lho, e eu me chamo Dionísio Marchán. Quem quiser
dormir nesse país que faça casa. Aqui tem muita madei-
ra. Você vai me fazer calar? Eu não tenho medo de você
nem de ninguém. Eu é que faço você calar. Faço você
calar a boca a machadada. Eu nunca, em nenhuma mi-
na, pedi esmola a ninguém. E quem tiver raiva de mim
eu me mato com ele, eu ou ele, a machado ou a bala ou
do jeito que for. E o homem que me venha, que me ve-
nha frente a frente, assim, porque mamãe não me pariu
escravo. Eu sou um homem sem amo! Um homem sem
medo! O tigre mais bravo que sair, já o amamentei. Eu
sou Marchán. Eu aprendi para saber. Que ninguém ban-
que o inimigo comigo. Uns quiseram, mas não pude-
ram. Que saiam as mulheres, todas as mulheres! Pela-
das, que Marchán paga esta noite a festa da mina! Que
saiam a Mena e a Turca e a Rosa! Aqui a máquina tem
de cantar! Seja doutor, capitão,seja o que for, ninguém
na Salvação vai fechar a porta para mim. Porque eu sou
40
T Marchán. Já estou passando dos setenta, mas sou como
burro bom, o brio eu não perdi, já conheço a vida! Eu
sou um homem que mata de frente! Hojejá não sobram
homens, isso sim. Hoje o que existe são punheteiros.
Que cantem as máquinas, eu falei! Vamos arrebentar o
pescoço das garrafas! As mulheres, que dancem! Hoje
sou o que ontem não fui e o que posso ser não sou, pois
esse dia de hoje é o que digo de mim. Que Dionísio Mar-
chán morreu de velho. Esse não foi morto, esse não!
O dlamante é uma planta que nasce em qualquer
parte, porque para existir não exige boa terra. Mas tem
seus mistérios. Se faz perseguir pelos túneis a golpes de
lança e apaga quando quer a vela ou os pulmões dos mi-
neiros.
O diamante está no topo de um morro invencível,
onde muitos quiseram subir e rodaram encosta abaixo
pelas pedreiras. O morro, que se ergue nas costas do
Caura, mostra, apesar disso, cicatrizes de escaladas que
se perdem de vista muito lá em cima, e do alto se des-
prende, pelas manhãs, uma cascata de laranias muito
doces (nestas terras onde só crescem a seringueira e a
sarrapia).
O diamante jaz no fundo do leito arenoso do rio
Paragua, no sítio exato e secreto onde uma mulher en-
controu, quando as águas baixaram, um canhão de
bronze com o suporte quebrado, um tremendo canhão
daqueles que os conquistadores carregavam pela boca e
punham fogo na mecha. O canhão estava ali, embora
fosse impossível estar ali, porque as cataratas do rio te-
riam sucumbido os galeões ou as corvetas e ninguém po-
deria ter aberto uma picada, de tão longe, através da
selva cerrada.
- Don Sifonte! Mandam-lhe lembranças.
- Como andam as coisas?
- Até o momento, não andam.
- Como vai você?
- Mais velho que ontem, mais perto da morte.
- Pasteizinhos quentes! Para velhos que não tem
dentes! Os caraquenhos são uns frescos.
As luzes que nascem do diamante cortam como fa-
ca. Os comerciantes os examinam com lentes grossas. Às
vezes o diamante não é um diamante: é um quase quase.
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O mineiro é um barulho que nasce pelas noites,
quando todos dormem, e levanta levemente e flutua
sobre o sonho de todos.
O mineiro é o murmúrio das surucas nas mãos dos
fantasmas; a surda agitação dos pedregulhos lavando-se
e filtrando-se por três peneiras sucessivas; o som quase
secreto da areia que, de filtro em filtro, vai caindo.
O mineiro é o ruído de ferro das pás e das lanças
que solitárias se erguem, dançam, se esfregam entre si e
se põem em movimento até os poços, e vão penetrando a
terra e cavam os socavãos enquanto todos dormem.
E é o eleito que escuta, com o rosto crispado e to-
dos os músculos em tensão, até que finalmente o ruído
cessa e fogem os fantasmas para que não os surpreenda
e os mate a luz do dia. E então, desesperadamente, o es-
colhido se afunda no grotão onde o diamante o espera.
O diamante é uma presa que se esconde debaixo da
língua de um homem muito magro, que treme de medo.
Outros homens tiraram sua roupa, arrancaram sua rou-
pa em farrapos. "Você roubou-nos cinco baldes", di-
zem. "Vimos quando você os roubou". Falam com os
dentes apertados. "Todo mundo viu", dizem.
O homem muito magro nega agitando a cabeça e
murmura algumas palavras sem que ninguém perceba
que tem o diamante debaixo da língua.
- Nadando, nessa água imunda? Nem você acredita
em você. Estava roubando. Isso é o que você estava fa-
zendo. Roubando. E isso não se faz. Isso é pecado. É
feio, muito feio, fazer isso.
O homem magro está rodeado por eles, um anel de
homens com olhares acesos. Um deles atira cuidadosa-
mente o nó escorregadio de uma corda longa que tem
numa das mãos para o galho alto de uma árvore, e o
homem muito magro engole o diamante e se condena.
O mineiro é um homem com um arco e uma flecha
tatuados no peito.
O mineiro fala, movimento de arco em tensão: Bar-
rabás abriu uma época. Lá pelos anos quarenta, diz,
Barrabás encontrou no Polaco um diamante do tama-
nho de um ovo de pomba, que valia meio milhão de do-
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láres. Essa manhã, diz, os comerciantes lhe haviam ne-
gado café com pão.
Vôo alto da flecha em direção ao alvo: o diamante
era perfeito, transparente e com reflexos azulados, ém-
bora tivesse as beiradas irregulares. Nunca visto.
Alegria da flecha no ar: Barrabás oferecia banque-
tes ao Presidente e dava grandes festas em Caracas. Pas-
seava pelas ruas e gostava das moças nas varandas: com-
prava delas um olhar e um copo d'água por cem bolíva-
res. Mandou arrancar todos dos dentes e fazer uma den-
tadura de ouro puro. Apaixonou-se pela filha do Presi-
dente.
A flecha bate: o mineiro diz que Barrabás ofereceu
dez mil bolívares para entrar nos salões do Tamanaco, e
que não deixaram, por ser preto. Mas o Tamanaco não
existia.
A flecha quebrada: Barrabás definha, pobre e 've-
lho, numa mina perdida da fronteira.
Aniquilação da flecha: quando voltou de Caracas,
não conseguia nem um quilo de arroz fiado. E já não
pode contar nem consigo.
O diamante é um espelho profundo onde os mortos
de fome acreditam encontrar seus verdadeiros rostos.
O diamante é um recém-nascido que se oferece às
putas colombianas da zona vermelha ou se evapora em
rum ou uísque escocês ou cai na emboscada dos bara-
lhos marcados nas vendinhas dos trapaceiros profissio-
nais. O diamante faz dançar os milhões à luz da lua, e
quando sai o sol, no bolso não sobra nem um trocado
para comprar a bala que faria falta.
O diamante espera, adormecido, entre as raízes de
uma gameleira que arde, ao pé das galhadas em chamas,
no centro do delírio de um homem que desesperadamen-
te sabe que não lembrará.
O mineiro é um corpo quente e gelado que treme
numa rede, à intempérie, com os olhos queimados pela
febre. O mineiro acha que chove. Mas a chuva é uma fo-
lha de palmeira que um homem arrasta porum caminho
poeirento, recém-aberto a machado e já rachado
pelo sol, e a folha avança e soa como uma chuva que ro-
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da. Se a chuva caísse, a verdadeira chuva, talvez alivias-
se os fervores da febre do mineiro que queria sair da
rede e da febre mas está preso, as pernas não respon-
dem, o queixo treme, os dentes se enlouqueceram e
chocam-se entre si, esse diamante é meu, uma mão na
garganta o afoga e resseca sua boca, esse diamante tão
grande como um penhasco, necessita vomitar o que não
comeu nem bebeu, lambido pelo fogo, eu, eu que me ba-
nhei a sexta-feira santa e não fui transformado em peixe,
aonde me vão levar, os poros se dilatam, estouram, aon-
de a transpiração salta a jorros, se aqui não temos nem
cemitério, o diamante reina no incêndio das raízes es-
pantosas das gameleiras e no incêndio da febre na cabe-
ça do mineiro, a cabeça se parte, eu que dormi com mu-
lher numa sexta-feira santa e não fiquei grudado, aonde
vão me levar, um alicate quente que tritura o crânio e
suprime a respiração, querem me despojar, querem me
roubar, a transpiração aos jorros, abusadores, filhos da
mãe, a pedra nascida para mim aí embaixo da árvore
que arde, a morte, quando os que não voaram voam,
aonde quando os que não correram correm, as flores
mudadas, os pássaros mudos, e bruscamente surge en-
tão a invasão de borboletas negras, grandes como uru-
bus, apagam o céu e cortam os caminhos e o mineiro
sente que está indo, abre caminho entre as borboletas a
machadadas invencível e veloz, a sopros de vento puro
abre caminho, deixa-se ir rumo à pedra que o chama,
fulgurante, da fogueira de árvores à beira do rio e do fim
de todas as coisas.
O diamante é uma pedra maldita. O diamante é
uma pedra só. Com suas línguas de diamante, as antigas
bruxas poderosas cortam o osso e o aço e atravessam a
carne dos planetas.
eles vinham de longe
Se tivessem conhecido o idioma da cidade, pode-
riam ter perguntado quem fez o homem branco, de onde
saiu a força dos automóveis, quem segura os aviões lá
no céu, porque os deuxes nos negaram o aço.
44
Mas não conheciam o ídioma da cidade. Falavam a
velha língua dos antepassados, que não tinham sido pas-
tores nem vivido nas alturas da serra nevada de Santa
Marta. Porque antes dos quatro séculos de perseguição
e expoliação, os avós dos avós dos avós tinham traba-
lhado as terras férteis que os netos dos netos dos netos
não puderam conhecer nem de vista nem de ouvir falar.
De modo que agora eles não podiam fazer outro
comentário que aquele que nascia, em chispas bem hu-
moradas, dos olhos: olhavam essas mãos pequeninas
dos homens brancos, mãos de lagartixa, e pensavam: es-
sas mãos não sabem caçar, e pensavam: só podem dar
presentes feitos pelos outros.
Estavam parados numa esquina da capital, o chefe
e três de seus homens, sem medo. Não os sobressaltava a
vertigem do trânsito das máquinas e das pessoas, nem
temiam que os edifícios gigantes pudessem cair das nu-
vens e despencar em cima deles. Acariciavam com a
ponta dos dedos seus colares de várias voltas de dentes e
sementes, e não se deixavam impressionar pelo barulho
das avenidas. Seus corações sentiam pena dos milhões
de cidadãos que passavam por cima e por baixo, de cos-
tas e de frente e de lado, sobre pernas e sobre rodas, a
todo vapor: "Que seria de todos vocês" - perguntavam
lentamente seus corações - "se nós não fizéssemos o sol
sair todos os dias'?"
tourist guide
Na outra margem do lago, o arcebispo clama: "U-
ma maldição ameaça a cidade!", denuncia: "Os filhos
renegam os pais!" Dois generais acompanham o arce-
bispo até o aeroporto e na sala de espera uma mulher
puxa a túnica do sacerdote: pede a bênção, padre, que as
iguanas abandonem o telhado da minha casa e aS dores
meu corpo. O fotógrafo dos jornais rodeiam o arcebis-
po, o arcebispo transpira, a mitra treme em sua cabeça.
Desta margem, vazia, ergo o olhar e vejo o avião
o arcebispo atravessa as nuvens e se perde no céu. Atrás
de mim, no lago, junto com as infinitas torres de ferro,
ardem as chamas de gás e as perfuradeiras continuam
45
seu cabecear eterno, os cabos pendem dos bicos como
baba de petrólea. Aqui o sol arde com fúria e arranca da
terra uma nuvem de óleo e fumaça, cada vez mais espes-
sa e mais difícil de atravessar. Neste deserto negro, bri-
lhoso de petróleo, não cresce pasto nem cresce nada,
não sobra nada: as solas das botas grudam no chão, mas
as marcas de meus passos se apagam, comidas pelo pe-
trólea, antes de fixarem sua impressão. Existem alguns
cartazes rasgados, restos de letras que disseram: "Cuida-
do. Não passe. Cachorro bravo", disseram: "É proibido
jogar lixo", disseram: "Terra Negra reclama do Prome-
tido".
Aquí, os pássaros não cantam: se queíxam. Uns
poucos patos flutuam, sem se mover, nos charcos panta-
nosos. Os corvos são a última coisa viva que restou para
as palmeiras.
Já estou completando noventa e sete. Estou chegan-
do no fim, mas quero ver - não é? - se falo com o Senhor
para conseguír mais um tempinho.
Como não vou lembrar de quando chegaram as
companhias. Foi quando começou a correr dinheiro. O
pessoal daquí ainda trabalhava na terra, naqueles anos,
eu esqueço das datas, mas isto era muíto bonito, os ho-
mens pescavam no lago, bebiam água do lago. Naquela
época, havia capitães e doutores, Lá no lamaçal comía-
mos ovos de jacaré; matávamos o jacaré, salgávamos
sua carne e fazíamos guisadinho de jacaré. Se éramos fe-
lizes? Ninguêm é feliz. E quanto mais posição tenha o
homem, pior. Mas todos tínhamos vida própria e havia
muita união. Agora, a água está envenenada e vivemos
encurralados entre o grotão e o díque. A gente nova não
fica por aqui, não cria raízes. A garotada vai crescendo e
indo embora.
Eu, irembora, não vou. Eu nasci aqui, me criei aqui
e aqui estou, sempre vendendo amendoim no estabeleci
mento "A Mão de Deus", como você está vendo, que "
antes era um lugarzinho que vendia comida e onde o
pessoal tinha seus bailinhos. Aqui eu fico. Minha filha
foi embora, ela sim, e é bem saídínha mínha fílha. Me es-
creveu um verso que diz: "É tanta a minha inteligência,
que minhas improvisações nascem das regiões azuis do
46
firmamento". Ela está na capital. Por que não? Cada um
vive da sua capacidade. E não me pergunte mais, porque
as escolas de antes só ensinavam a contar até cem.
Não há nem ao menos porcos escavando o chão in-
chado de lixo. As moscas me acossam, bêbadas de calor,
zunindo forte, as moscas batem contra minha cara, flu-
tuam em minha pele oleosa de suor. Gotas gordas de
suor pendem de minhas pestanas. Me deixo guiar pelo ol-
fato. Estas ruínas exalam um hálito de moribundo; os
odores, cada vez mais azedos, vão anunciando, enjoati-
vos, o lugar onde o primeiro jorro de petróleo brotou,
há sessenta anos: o buraco. Parece que se passaram sé-
culos desde que se escutou por aqui o rumor dos últimos
passos de um homem, e agora só persistem os ruídos da
demolição, o desmoronamento de todas as coisas, o ro-
dar das pedras caindo, mas lento, lentíssimo, o mori-
bundo está roncando e se escuta o cicio de dentes de ra-
tos que serrilham as madeiras e o muro, a lepra que
avança, lepra do tempo, o zumbido das moscas e o bor-
boleteio do sol que cozinha o lixo e faz ferver os charcos
de petróleo, o estalido das bolhas de petróleo inchando-
se e arrebentando nestas marmitas e ao redor dos char-
cos de sopa negra o chiar da terra que racha, em fendas
abertas pelo calor, como rugas, ao longo e ao largo e até
o osso da cara da terra.
O jorro brotara até as nuvens e o vento fez chover
petróleo sobre a comarca. Caía petróleo sobre os tetos
de folhas de palmeiras das casas e os lavradores e lenha-
dores e os caçadores se afogavam em petróleo, atônitos,
com os olhos fora das órbitas, porque nunca tinham sa-
bido que aquilo lhes fazia falta.
E veio gente do oriente, do sul e do centro. Os cam-
ponesesjogavam aos poços os laços e as foices e vinham
pelo rio e através das selvas. Os de Coro foram trazidos
para o monte, para devastar os bosques a golpes de facão
e machado, e a serpente guayacán e a malária acabaram
com eles; os da ilha Margarida arrebentavam os pul-
mões amarrando canos no fundo do lago.
47
Homens de todas as cores e de todos os idiomas
brotavam do mar em navios negros, de proas de ferro.
Apareceram as máquinas, de rodas dentadas e lâminas
brilhantes, melhores que os homens para resistir às mor-
didas da serpente e às febres. As torres eram de madeira
e depois foram de ferro e brotavam uma ao lado da ou-
tra. Também trouxeram automóveis, gramofones, me-
sas de pano verde e mulheres capazes de fazer o amor
vinte e cinco horas por dia: elas se chamavam Chavefixa,
Seteválvulas, Rompepregas, Tubulação. Depois da
guerra, os bares abandonaram Tasajeras e foram para
Alta Gracia, depois chamada Coréia, além de Lagu-
nillas. Para lá se mudaram os bares enormes, e lá estão;
parecem prisões ou fortalezas. Quando caiu a ditadura,
surgiram no país revolvido as juntas pró-melhoras e as
juntas pró-desenvolvimento e uma eqüatoriana, que ti-
nha sido dama de alto gabarito, organizou aqui uma
greve de pernas fechadas. Se chamava Monosábia. Elas
triunfaram.
Desprendeu-se, quebrou e se precipitou no vazio.
Estes são os pedaços de uma única coisa, hoje arrebenta-
da, mas que foi. (Havia existido entusiasmo, e luta, e
vida viva.) Os restos: como um arrependimento: dentes
de guindastes forrados de ferrugem, cadáveres de auto-
móveis, latas de leite em pó Milk, óleo Diana, mata-
baratas Efetan, suco de laranja Ella, montanhas de la-
tas, farrapos de um vestido de festa pendurados num
prego, cabines de camionetes sem camionetes, uma es-
puma de baba seca sobre madeirames verdolengos, lu-
vas de trabalho que perderam os dedos, pneus para me-
dir a pressão, sapatos afogados em barro, ossos de gali-
nhas e cachorros, seringas, um cadillac reduzido a mofo,
cascas de coco, fiapos de capas de chuva, um ônibus sem
rodas nem paralamas afundado contra um arbusto e que
agora forma parte desse arbusto com os tirantes do teto
ao vento como vértebras ou galhos secos, elásticos de
poltronas, garrafas com seus bicos em cacos, sucatas,
de guindastes e de perfuradeiras, monstros em papelão
cinzento que antes foram caixas de Veuve Clicquot ou
Ye Monks e agora têm mandíbulas e braços e estão en-
colhidos e à espreita, fios negros de cascas de banana,
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vegetação podre, peles de vacas sem vacas e acossadas
por exércitos de moscas, taladros abandonados com
suas bases de cimento como ruínas indígenas depois de
um incêndio, com hordas de vermes surgindo debaixo
de cada coisa, um letreiro de Cafenol, o camelo de Ca-
mel, a moldura de argamassa de um alto-relevo com três
dedos de uma mão e a boca de uma cara, pilares de estu-
que, um muro desfeito de onde pendura-se uma língua
de papel florido, um busto de manequim erguido sobre
os escombros, alçando-se, dessas de gesso, sem braços
nem pernas, com uma cara de despeito e os poucos cabe-
los ainda grudados no crânio: ela sorri.
É uma armadilha, penso. Não me movo. Estou ro-
deado de lixo pelo norte e pelo sul, o lixo me toma de as-
salto de leste a oeste. É o lixo que avança, não eu, ou tal-
vez, seja esse fedor a fermento e tripas em descomposi-
ção que me encurralam e me vão traçando para asfixiar-
me e eü penso que é uma cilada, o primeiro poço de petró-
leo não existiu nunca, nunca houve, nunca poderei sair
daqui, não sei por onde vim e não há estrelas para me
guiarem. Me deixo cair sob o sol em chamas e com a ca-
beça apertada entre o joelho rogo que caiam em cima de
mim a noite ou a chuva.
o esperado
Eu nasci no dia da invenção de Santa Cruz e por
isso me puseram o nome de Maria, Maria de la Cruz.
Foi aos 12 anos justos, no dia de meu aniversário, que a
planta cresceu e brotaram nela os frutos amarelos e fa-
lou comigo. E na noite desse dia sonhei o sonho bonito e
no dia seguinte me trouxeram para a cidade. Foi no ano
68 que me trouxeram, para cuidar das crianças. E na-
quela casa da rua Obispo fiquei 30 anos vendo passar os
homens e os cavalos por trás das grades das janelas.
Eram tempos de Espanha e por mais pobre que fosse um
branco, nenhum negro ou negra podia olhá-lo.
Eu nunca soube se fui vendida ou dada de presente.
Porque muitos negrinhos eram dados de presente, entre-
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gues numa bandeja: era uma festa de casamento, soava
um golpe de aldraba na porta e então entregavam um
negrinho pelado, com umas fitonas coloridas pendura-
das na bandeja de prata. Mas eu já era crescida quando
me trouxeram para cá, e a planta já tinha falado para
mim e eu já tinha tido o sonho.
Os amos me arrancaram um colar que eu tinha tra-
zido comigo da plantação, um colar grandíssimo, de se-
mentes de peônias. As peônias têm duas caras, uma cara
vermelha, grande, e outra cara negra, mais escondida.
As peônias, como as máscaras de Elegguá, têm a vida e
têm a morte. O colar pertencia a Santa Bárbara, era tão
lindo, tinha sido presente do moreno velho que tocava o
tambor no bembê do engenho. Ele dizia: "Eu toco quan-
do minha mão coça". Dizia: "Meu tambor acredita em
mim, acredita em tudo, tudo. Meu tambor acredita em
mim, mesmo quando eu minto." Ele tocava o tambor e,
quando a cerimônia estava boa, a música saía do tam-
bor e se metia nos corpos dos bailarinos e então a müsi-
ca nascia dos corpos dos bailarinos. Ao velho eu contei
meu sonho e também as palavras da planta e foi ele
quem me disse que eu não ia morrer sem ver o esperado.
Me deu o colar para que contasse os anos. Foi esse o co-
lar que me arrancaram. De qualquer maneira, as peô-
nias não teriam dado para contar quase um século.
A vez em que eu descobri a planta, lá no engenho,
ela estava pequenininha, e tocaram o sino e eu tive de ir
embora correndo. Todos nós conhecíamos o sino de cor,
os grandes e os pequenos. Porque antes não havia má-
quinas. Nem havia carvão. Os negros pequenos com ces-
tas grandes e os negros grandes com cestas enormes
fazíamos umas montanhas de bagaço e passávamos o
dia inteiro regando o bagaço para que secasse e ardesse
bem. As carretas levavam o bagaço e o jogavam na for-
nalha para que desse fogo e moesse a cana. Os machos
trabalhavam mais que nós, as fêmeas. Desde criança, os
machosjá serviam para guiar os bois das carretas. Havia
uma balança muito grande, grande como esta casa, e aí
entravam e pesavam as arrobas de cana. Quando toca-
vam o sino, era preciso chegar. Se não, eram 25 chicota-
das nas costas, com a chibata de couro cru. Para castigar
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as grávidas abriam um buraco e as deitavam com o ven-
tre dentro desse buraco. Depois do chicote pintavam as
costas delas com tintura da França. O amo queria todos
os anos um negrinho. Ou dois. Se saíam dois, melhor.
Tocava o sino e o maioral nos contava. Os negros
grandes estavam muito vigiados, porque fugiam: O ca-
pataz trazia cachorros e os soltava nas covas dos índios,
onde os negros se escondiam. Depois, batiam neles com
couro cru ou cortavam uma orelha.
A plantinha estava no meio de uma clareira e para
vê-la era preciso atravessar o matagal. Eu voltei. Morria
de medo, mas no dia seguinte voltei. Sozinha. Sentei
numa rocha e contemplei a plantinha. O ar estava clarís-
simo; quando o sol saía, já nos encontrava trabalhando.
De um dia para o outro, a planta tinha crescido. Tinha
todos os ramos cheios de botões com pontinhas amare-
las, inchadas, como se fossem arrebentar, e esse dia eu
fazia 12 anos e sentia um calor estranho, que não erà de
fome, dentro do corpo. Não respondi nada, mas eu esta-
va quieta e mesmo assim estava caminhando. Desde
aquele dia, tenho esse poder de caminhar quando quero
sem mexer um pé. E essa noite fiquei dormindo no bar-
racão e então de meu corpo brotaram folhas e caracóis.
Então eu sabia. Tantos anos que passaram desde os
tempos da Espanha e ninguém sabia, mas eu sim. Eu sa-
bia que ele ia chegar. Fiquei quase um século esperando
e sabendo. Eu estava esperando por ele mesmo sem
conhecê-lo. Sabia que faltava um e que ia chegar para
salvar-nos todos.
O dia em que ele chegou, eu estava vestida de bran-
co, um vestido comprido. Só gosto de vestidos longos:
acho mais majestoso. Eu ia caminhando e as pessoas co-
mentavam: "Olha, olha". Todo mundo dizia: "Lá vai".
Ele chegou da serra com uma barba negra e pombas nos
ombros. Antes tinham chegado muitos homens, com ca-
belos compridos e barbas como as dos profetas e dispa-
ravam tiros ao ar. Eu o vi chegando e para mim não foi
nenhum espanto.
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Agora penso na planta e não sei o que terá sido de-
la. Deve ter continuado a crescer, em álgum lugar. Uma
vez voltei para buscá-la, mas não a encontrei. Eu tinha
entendido tudo que ele me dissera. Mas não sei se depois
ele foi um famboyant, que tem essas flores que se incen-
deiam. Ou um cupey, que tem folhas para mandar reca-
dos, que a gente escreve com um pauzinho e não se apa-
gam. Ou uma guásimu, dessas que são boas para dar
sombra e para enforcar.
52
bandeiras
as fontes
Você podia ter ficado longe e sem correr riscos.
Mas voltou. Entrou sem bigodes, com os cabelos tingi-
dos e cortados curtos e óculos de mentira e um nome
qualquer. Tinham se passado dois longos anos. Você
pôde caminhar pelas ruas da cidade, embora pouco e
com cuidado, e o córação parecia dar murros no peito e
a cidade reconhecia você em segredo e o aceitava. E você
me disse, com voz de touro, enquanto mordia uma ma-
çã: "Tinha que voltar. Não se pode ficar sentado na pró-
pria segurança como se fosse a maior bunda do mun-
do". Você estava muito nervoso e queria rir e não conse-
guia.
Pouco depois veio o verão, você mandou um reca-
do, nos encontramos para tomar cerveja gelada. Você
falou na frente de um exército de garrafas vazias. Você
tinha podido mexer-se um pouco, quase nada, mas tinha
sido suficiente: suficiente para que você sentisse o cheiro
da fúria nos bairros, a cidade tinha os dentes apertados:
"Se demoro um ano a mais, só encontro cinzas. E ainda
não existem condições objetivas? Tem uns caras-de-
pau... Você quer contradições mais superantagônicas?
Daqui a pouco as pessoas vão brigar até pelo capim que
cresce nas calçadas".
As moscas passeavam, lentas, pelo ar pegajoso.
- Essa desgraça toda vem grávida - você disse.
Bebeu a cerveja de um gole só e limpou a espuma
da boca com as costas da mão.
Não quero dízer que seja tão fácil como soprar gar-
rafas. Já sei que a fome também produz faquires. Você
soma miséria e mais miséria e às vezes o resultado é ape-
nas maís míséria. Já sei, a gente tem que respeitar a reali-
dade. Foidifícil aprender isso. E mais difícil foi apren-
der que ela não tem nenhum motivo para nos respeitar.
E se tivermos de nos arrebentar, a solução é arrebentar-
se e pronto, não é? Foi difícil aprender isso.
Um ar úmido e quente pesava sobre as ruas. Cedo
ou tarde choveria, teria que chover, de repente estoura-
55
riam os ventres das nuvens paridoras de tormentas. Você
disse:
- Será certo que no fundo somos cristãos apressa-
dos? Baixar o céu com as mãos. Nós também trazemos a
boa notícia. O reino dos justos e dos livres... Juan teria
gostado da idéia. Quero dizer, se estivesse vivo.
A cerveja estava densa, a espuma era um creme
frio, era sentida na boca e na garganta e nas tripas. "As
coisas são fáceis - você disse - estão mais claras." E
em seguida você disse: "Mas serão mais difíceis para
mim, agora. Já estão sendo, sabe?" E em seguida:
- Foi muito duro para mim vir, sabe?
Você estava sentado, as costas contra a parede.
- Porque agora tenho mulher.
Você nunca dava as costas a ninguém.
- Nem mesmo podemos nos escrever. Não me quei-
xo. É um preço que se paga e está bem e acontece a mui-
tos outros.
Você falava com os olhos fixos na porta do bar, es-
tava tenso, não movia nem um único músculo:
- Quem sabe se vou vê-la de novo.
E em seguida, olhando para a palma da mão aber-
ta:
- São os riscos da profissão, como dizia um samu-
rai amigo.
Na janela, ondulava um bando de gaivotas. As gai-
votas se precipitaram sobre o porto; um alvoroço bran-
co entre mastros e fumaça e você dizia: "Eu tinha conse-
guido o que procurava e não me animava a lhe dizer.
Nunca lhe disse. Veja só. Devem ser problemas de cará-
ter. Ou talvez tenha sentido que não tinha esse direito.
Sei lá. É uma desgraça. Ou nem isso."
Calculou as palavras:
- Já sei que se não tivesse voltado, teria me sentido
um traidor.
As gaivotas levantaram vôo mais além das nuvens
que estavam, escuras de chuva, no céu.
- E já sei, também, porque soube, porque eu não
sabia, que não estamos brigando apenas por um montão
de coisas muito grandes e muito nobres. Não é que eu
queira nada para mim. Não. É muito mais simples. E
veja como foi besta, o tempo que demorei para saber.
Anos. Anos sem saber que também se podia estar nisso
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pelo sorriso triste de uma mulher e pela cintura livre de
pistolas.
a iniciação
Fernando tinha forçado a janelinha com a chave de
fenda e abrira a porta do Renault. Depois, apagara a
luz vermelha do freio e ligara o motor com um fio de
arame. Com fita isolante e esparadrapo, pedacinhos ne-
gros e pedacinhos brancos, Pancho mudara os números
da chapa: o cinco virou três, o oito virou seis, o seis vi-
rou nove.
O vento empurrava as ondas violentamente contra
o cais e multiplicava o ruído da maré alta por toda a Ci-
dade Velha. Uivou a sirena de um barco; por alguns
segundos, vocês ficaram paralisados e com os nervos à
flor da pele. O Gáto Romero olhou o relógio. Eram
duas e meia da manhã - em ponto.
Você não tinha comido nada desde o meio-dia e
sentia borboletas no estômago. O Gato explicara que é
melhor com a barriga vazia, e que convém também esva-
ziar os intestinos, porque pode entrar chumbo, e você
sabe... O vento, vento de janeiro, soprava quente, como
saído da boca de um forno, e todavia um suor gelado
grudava a camisa em seu corpo. A sonolência paralisava
sua língua e os braços e as pernas, mas não era sonolên-
cia de sono. A boca tinha ficado seca, e você sentia uma
móleza tensa, uma doçura carregada de eletricidade. Do
espelinho do Renault pendia um diabinho de arame, que
dançava com o tridente na mão.
Depois, você não reconheceu a própria voz quando
escutou-a dizer: "Se mexe, e eu te queimo", deixando
cair como marteladas uma sílaba atrás da outra, nem
seu próprio braço quando afundou o cano da Beretta no
pescoço do guarda, nem suas próprias pernas quan-
do foram capazes de sustentá-lo sem tremer e de
correr sem perceberem que uma delas, a perna esquer-
da, tinha um furo calibre trinta e oito que atravessava o
músculo e jorrava sangue. Você foi o último a sair, es-
vaziou três pentes de balas antes de se meter no automó-
vel em movimento e a cada curva tudo caía e levantava e
57
tornava a cair e a levantar, os pneus mordiam as sarje-
tas, ficavam atrás as fileiras de árvores e as caras dos
edifícios e os brilhos dos faróis; arrastados pelo vento,
os pedaços do mundo se atropelavam e se confundiam e
voavam em rajadas escuras. E só então, quando você fi-
cou enrolado como um novelo, arquejando no banco de
trás, descobriu, extenuado e sem assombro, que a pri-
meira vez da violência é como a primeira vez em que se
faz o amor.
onde ela estava acontecia
o verão
Onde ela estava acohtecia o verão.
Pensa que soam passos na escada e prega as costas
contra a parede. Prende a respiração: espera quatro gol-
pes espaçados na porta ou uma rajada de tiros. Passam
os segundos, tic-tac, tic-tac, tracatrac, enquanto sua ca-
misa azul clara se escurece nas axilas e as placas de plás-
tico duro do cabo do Colt 45 vão imprimindo marcas, a
pressão, contra a palma úmida de sua mão.
Em seguida suspira, com alívio, e deixa-se cair em
uma cadeira. Atira apistola namesa e se aproxima dela,
lento, como quem se aproxima de um bicho: apalpa,
acaricia, pega, confirma que a pistola pesa menos que
um quilo e que as sete balas dormem, limpas e ordena-
das, no pente.
Não pensa na revolução, embora ache que deveria.
Investiga as marcas do frio na pele eriçada. Não pensa
no que será dele sem cigarros, esse pânico, nem pensa
que tampouco sobrou comida para continuar esperan-
do, nem no que fará. Se o cercassem, não poderia esca-
par pelos telhados nem por nenhum porão com longos
túneis e corredores; está longe do último andar, e longe
do andar térreo.
Este é o último cigarro que sobrou. Fuma com uma
pressa que seria inexplicável, tragada após tragada, se
não fosse pela urgência que sente em inundar de fumaça
morna o corpo inteiro, da cabeça aos dedos entumeci-
dos dos pés.
Queria lembrar-se do filho, mas o filho é uma man-
cha branca, sem feições no fundo dos longos corredores
58
da memória. O filho já tinha três anos quando viu o pai
pela primeira vez. "Quem é este senhor?" perguntou, e
ele não se animou a dizer nada e os outros também não
disseram nada, porque estar ausente -já se sabe - é estar
morto.
Está encurralado, agora, entre quatro paredes mo-
fadas, e pela janela entreaberta só se vê um pedaço de
outro muro com sua baba de umidade. O ar fede a fu-
maça e a comida fermentada. Há quantos dias não vê
ninguém? Dá um abraço em seu próprio corpo, agora,
envolvido no cobertor úmido; tremendo por culpa do
frio e também, embora ache errado, por culpa do medo.
Tinha aprendido, tempos atrás, a ser mais forte que coi-
sas tão fortes como a necessidade de fumar e o medo de
morrer.
Olha para o paletó e a gravata, dependurados num
prego na frente de seus olhos, e olha a parede, gasta pe-
los anos e pelo descuido, mas que ainda não foi tritura-
da pelas balas. Olha a própria mão, ainda viva.
Olha a esferográfica entre os dedos, a necessidade
de escrever alguma coisa, o papel em branco, a impotên-
cia de escrever coisa nenhuma, a tampa da caneta mor-
dida por alguém que se chamava Lúcia. (A chuva soava
como um galope contínuo de cavalos que faziam o amoc
até serem recolhidos por uma colherona e depois sen-
tiam dores nos ossos durante três dias. Lúcia esperava,
apoiada no tronco de uma acácia, com meias marrons
até os joelhos, meias de menina de colégio, e um colar de
fios coloridos cheios de nós, para lembrar-se das coisas.
Lúcia se afastava, correndo, na neblina. Lúcia se descul-
pava: "Eu não choro nunca. Porque sou desidratada.
Nunca tomo água").
O homem desliza a língua por trás dos dentes resse-
cados e pensa naquele estado de graça, com Lúcia, mais
contagiosa que qualquer doença, e naquela maneira se-
creta de saber dos acontecimentos ainda não aconteci-
dos: aquela capacidade que tinham para recordar de an-
temão as horas e os dias que iam chegar, quando esta-
vam juntos e eram invencíveis.
59
conto um conto de babalu
Uma bruma fresca, o anúncío da madrugada, vai-
se desprendendo da terra e vaga, cínzenta, pelo ar. Ela
passou toda a noite com os olhos abertos. Finalmente
saíu do único lençol, tão suavemente como foi possível;
a cama uivou, como de costume, com toda essa grita de
velha louca das molas arrebentadas, mas ele não acor-
dou. É estranho que ele continue dormindo. Realmente
muito estranho que consiga. Ela olhou para ele, toman-
do distância; fez um longo ésforço para senti-lo longe ou
alheio ou não senti-lo. O ar estava um pouco frio e ela
envolveu-se na camisa dele, que encontrou tateando,
caída junto a uma das absurdas patas de bronze, patas
como garras, da cama. Neste casarão abandonado pelos
donos, as tábuas apodrecidas são armadilhas mortais no
chão ou lançam golpes súbitos no rosto dos incautos; os
ratos leram e esvaziaram toda uma biblioteca de livros
amarelecidos; os generais e coronéis, pintados a óleo
com monóculos, bigodões e medalhas, parecem ainda
acreditar em sua própria imortalidade, impávidos ape-
sar das manchas de bolor e umidade que os deixaram
aleijados ou manetas ou leprosos ejá não resta nenhuma
das molduras de bronze ao redor dos quadros antigos.
Ela nunca mais pisará, e sabe disso, este lugar onde
foi felíz. Este é o único típo de perigo que realmente te-
me: estará proibido olhar, proíbido retroceder até este
tempo que agora está terminando e até esta armação de
uma fazenda em ruínas. Começou a caminhar, descalça,
pelo terraço, até aborrecer-se dos passos de preso, cínco,
seis, ida e volta, e fícou sentada sobre a moldura dajane-
la aberta. No dormítório há uma poltrona de monarca,
com a heráldica ainda visível no encosto de caioba, mas
não tem assento; sobram uma ou duas molas soltas,
como de uma caixa de surpresas sem palhaço.
Ela apóia a cabeça, suavemeente, contra o marco
de madeira da janela. Olha em direção ao leste, lá em ci-
ma, em direção aos arvoredos que se erguem no hori-
zonte de montanhas. O bosque se confunde ainda com o
negror desafiante da noite; logo as primeiras estrias do
sol partirão as sombras em pedaços e a natureza re-
60
cobrará suas formas e seus limites. Ah, como gostaria de
deixar-se ganhar pela pulsação da terra, lenta, lenta.
Esfrega os olhos, acende o cigarro que tem há tempos
apertado entre os dentes: ah, se pudesse, o pulsar da ter-
ra que dorme, sem ansiedades nem ruídos, se pudesse
flutuar, fazer sua a profunda respiração da terra.
Ele continua dormindo. Éstranho que durma tan-
to. Não se consegue nunca dormir mais do que algumas
horas, e até isso é difícil, por culpa do maldito zumbido
que não se apaga nunca no centro de sua cabeça. A ca-
misa dele, aberta sobre os peitos dela, parece um cami-
solão de fantasma; chega até seus joelhos, ou quase. O
vento sopra, em rajadas leves, e então a camisa vira vela
de barquinho, e a pele dela se estremece pelo roçar do te-
cido: a camisa branca dele, que tem o cheiro dele e a for-
ma do corpo dele. Ela pensa que pedirá que deixe a ca-
misa. Não, um presente não, não quero que me dê como
presente; quero tê-la, mas que continue sendo sua. Ele
não a vê, não vê nada, nem ao menos sabe que pela pri-
meira vez desde aquela vez está conseguindo dormir lon-
gamente: dormir, que festa, parece mentira.
Ele abre, finalmente, os olhos, para fechá-los em se-
guida. Pisca, não quer acreditar: desapareceu essa fúria
de abelhas no crânio. A luz recorta o corpo dela contra
o vão da janela e acende uma aura dourada que faz com
que tudo fique mais baixo, ao longo do perfil de seu cor-
po. Está toda luminosa, do queixo erguido e do longo
pescoço em arco até os joelhos onde descansa a mão
com o cigarro abandonado entre os dedos. Osjasmins se
erguem ao lado do terraço. A camisa esvoaça; os jas-
mins balançam levemente. Ele escuta o silêncio, sente
seu gosto. Ela vira a cabeça, olha-o sem sorrir. Uma
suave rajada de vento empurra seu cabelo negro. É
como se estivesse vendo-a a galope, a primeira vez que a
viu, a galope lento com os cabelos negros também galo-
pando e o rosto que virou para olhá-lo, sem susto,
balançando-se ao ritmo do cavalo que ele não via, por
cima das pontas de lança ainda verdes do milho. Ele
sim, sorri. Estivera preso pelo som; recebe o silêncio
como a liberdade. Devora com os olhos esta imagem de-
brilhante de luz dourada, para imprimir este resplen-
61
dor por cima de todas as outras imagens da memória:
esta janela, esta boca do dia. Respira fundo, deixa-se in-
vadir pelo intenso aroma dos jasmins. Abre a boca mas
ela se adianta e, sem olhar para ele, diz:
- Já sei que você vai embora. Sei que você vai hoje,
agora.
Ele se assusta. Tinha esquecido. É incrível. A voz
baixa, quase rouca da mulher soa a notícia, não a recri-
minação. Mas, tinha realmente se esquecido? Esta mu-
lher, esta menina: deslizava nela como por uma veia.
Morde os lábios:
- Sabe? Não sinto nem um pouco a tortura do zum-
bido. Ia dizer isso para você. Não sinto nada. Entende o
que isso quer dizer? Agora posso pensar, posso falar,
posso... é como um presente!
Estava tão acostumado. Sempre despertava acossa-
do por esse rumor intenso, insuportável. Nos primeiros
témpos apertava os ouvidos com as mãos, grí-
tava. Tinha gritado no primeiro dia, quando despertou
naquela rede, com o corpo desfeito e uma dor como se
todos os nervos estivessem à mostra. Depois soube que
estava debaixo de uma cabana de folhas de palmeira,
longe de tudo, a salvo de tudo, e que aqueles rostos ne-
bulosos pertenciam à boa gente que o tinha recolhido,
meio morto, no aterro. Foram eles que o curaram. Du-
rante mais de dois meses, deram-lhe de beber, a água em
gotas, ajudaram-no a mover-se aos poucos, cobriram
sua pele, de acordo com a zona e com a ferida, com al-
gas, ungüentos e óleos vegetais. Desapareceram as cha-
gas, os ossos se recompuseram, e os dentes, que dança-
vam na boca, recobraram sua firmeza. Mas ficou o man-
car ao caminhar, lembranças das porradas que os solda-
dos lhe haviam dado às toneladas, e ficou o zumbido. O
zumbido o acompanhava dia e noite, às vezes muito in-
tenso, enlouquecedor, às vezes distante e quase imper-
ceptível, como se necessitasse dele para não esquecer as
sessões de dias e noites de interrogatórios, os fios amar-
rados às orelhas e aos testículos ou metidos até o fundo
dos ouvidos e do nariz e do rabo, as mordidas da eletri-
cidade arrancando-lhe as víceras aos pedaços a cada gol-
pe na alavanca da bateria manejada por um oficial de bi-
godes vermelhos.
62
Com as mãos na nuca, ele diz:
- Talvez não seja mais que uma trégua, não sei.
Mas me sinto tão bem. Tão diferente.
E diz:
- Sonhei com um pássaro gigante, que tinha uma
cidade dentro. O pássaro subia e subia...
Ela move a cabeça, os olhos tristes, a boca conten-
te. Tantas coisas que queria dizer.
- Você vai ficar doente, aí na janela.
Dizer-lhe: desde que conheço você, todos dizem
que estou mudada. Dizer-lhe: quero ter você como te-
nho minhas mãos e minhas pernas. Dizér-lhe: já sei que
para você também será difícil. Mas eu não sei o que que-
ro nem para que nasci, para que fui feita, porque....
E simplesmente comprova, sem o menor dramatis-
mo:
- Eu já sabia que você ia embora.
Ele franze o cenho, não diz nada. Olha para ela.
Queria lambê-la, como um sorvete. Nunca havia senti-
do, com ninguém, o que sente com ela. Seria possível,
agora, voltar a ser nada mais que a metade de alguma
coisa? Será necessário arrepender-se de ter sido feliz?
Ela, que nem ao menos conhece seu verdadeiro nome.
- Vou trazer café.
- Sobrou?
- Um pouco.
- Bom.
Escuta o breve ruído de cozinha, e em seguida ela
regressa, precedida pelo aroma do café e os rangidos do
chão, com duas xícaras fumegantes nas mãos. Se sentam
frente a frente, as pernas cruzadas, em cima da cama.
Ela, que talvez pense que seu crânio vibra porque vibra e
pronto. Ela, que nem sabe qual foi o lugar onde ele nas-
ceu. Ela, que não faz perguntas. Que aceita o que ele dis-
ser. `Venho da lua". Que faz cara de quem acredita,
quando ele conta: "Da lua, como aqueles índios de Zu-
lia. Lá de cima eu via a terra, os vales verdes, as árvores
cheias de frutas, uma mulher igual a você. E ficava ten-
tado e queria vir. Então me despedi de minha gente e me
pendurei por um cipó comprido, e quando eu estava
63
quase chegando na terra o cipó arrebentou. É por isso
que não posso voltar, e é por isso que fiquei assim, man-
co, com esta perna sempre atrasada, sempre atrás: por
causa do tombo". Ela, que diz: "Mago".
- Conta um conto para mim, MaQo.
Agora o dia avança como um trem desesperado. É
pouco o tempo que sobra. Semana passada recebeu a
notícia. Soube, além disso, dos companheiros mortos.
Soube, embora já o soubesse antes, que a dor se multi-
plica e a alegria não. Mário. Também chamado Jacaré.
Tratei de não lembrar-me dele nunca, porque não queria
trazer-lhe má sorte. E para que serviu isso? De que va-
leu?
Olha para o relógio e ela vê quando ele olha o reló-
gio: olha para ele com olhos opacos, apertando os den-
tes. Mudo, com a xícara de café vazia entre os dedos, ele
escuta os minutos caminhando, sente o passar implacá-
vel da manhã rumo ao meio-dia.
Não se anima a tocá-la, nem a dizer-lhe nada. Os
corpos nus nem ao menos se roçam. A cada pequeno
movimento, a cama protesta, range, geme. De qualquer
maneira, se ela conhecesse a verdadeira história ou a
loucura dos protestos, as coisas mudariam? Como? Já
não há tempo para nada. Poderia dizer-lhe: "Não é uma
vingança pessoal, entende? Esta raiva coincide com a ne-
cessidade de vingança de milhões de homens, embora
essa vingança não tenha ainda despertado. Entende?"
Poderia explicar-lhe que os companheiros caídos apare-
cem na sua frente o tempo todo. Poderia dizer-lhe que é
preciso nadar para não se afogar, e que não existe outra
maneira de faze-lo nem de explicá-lo. Volto a lutar con-
tra a corrente, poderia dizer isso, embora não veja ainda
a costa. Embora nunca, nunca veja a costa. Há anos es-
tou nisso, e devo a isso todos os anos que tenho pela
frente. Ou dizer-lhe qual foi meu nome, com o qual eu
nasci, dar-lhe um sinal de identidade anterior a tantos
passaportes falsos e a tantas fronteiras atravessadas?
Para quê? Você mesma contou-me que entre os índios
do Alto Orinoco é proibido mencionar os mortos: eles
sim, são sábios, você disse. Não vale a pena. Nem pedir
a você que me espere, embora morra de vontade de pe-
64
dir, voltarei para buscar você, não deixe de me esperar,
nunca, logo, quando: voltarei e... chegarão outros ho-
mens, ela os amará: esta certeza passa por sua cabeça
como uma sombra de asa de pássaro gigante, o mesmo
com o qual havia sonhado. Passa por sua cabeça e dói.
Calhorda - se acusa. Sente-se inútil. Tudo se faz tão difí-
cil. Ir embora, é um dever ou um furto? Pensa: será duro
partir e duro viver sem você: matar você na memória,
para que não doa. Poderei? E ela, como se tivesse escu-
tado, pensa que sente ódio dele porque ele poderá.
Ele percorre com os lábios o fio de umidade que
atravessa a face dela. Seqüestra seu dedo mindinho,
morde, lambe e propõe: "troco o dedo por uma história
que me contaram uma vez, em uma ilha".
Como nas mil e uma noites, pensa. Trocar uma his-
tória por um novo dia de vida. Um novo dia de vida sem
aqueles ruídos insuportáveis na cabeça. Um milagre.
Quer dizer que Chaplin tinha razão, quando dizia que o
silêncio é o ouro dos pobres. Estou salvo? Se durasse...
- Termina bem?
- Você vai ver.
- Se não terminar bem, não conte.
- Você conhece Babalu? E Olofi? Olofi é o deus
mais importante de todos. Fez o mundo com as mãos.
Fez também Babalu, Babalu-ayé, o negro lindo e forte
de quem todas as mulheres gostam. Deus lhe disse: "Vo-
cê pode fazer o amor quando quiser, Babalu". E Babalu
ficou muito contente. Dava pulos de alegria. Mas tam-
bém lhe disse: "Qualquer dia, menos nas sextas-feiras.
Nas sextas-feiras, nada". Babalú desobedeceu-o depres-
sa. E então Deus ficou furioso. Para castigá-lo,
condenou-o à lepra. Isolaram Babalu e Deus lhe disse:
"Você merece". E o pobre Babalu se queixava e Deus
não o escutava, e o corpo de Babalú foi caindo, pedaço a
pedaço.
- Não gosto dessa história. Não continue.
- Por que?
- Sou uma boba.
- Não, não. Você já vai ver. Porque então chegou
Oxum ao reino de Olofi. Oxum, você conhece? Não? É
65
a deusa da sensualidade e das águas doces. É uma mula-
ta pequeninha e tem os cabelos negros, ondulados e
compridos, como você. Usa um vestido amarelo, como
o seu, e gosta de comer fruta, como você. Também gosta
de tocar tambor e tomar cerveja e rum e comer batata-
doce .
- Proibido, como hoje.
- Que?
- Hoje é sexta-feira. Não tinha percebido?
Ele ri , e ela também ri. Agora se sentem melhor.
- Então, Oxum chegou ao reino de Olofi para sal-
var Babalu da lepra. Ela dançou a noite inteira em volta
da casa de Deus, e enquanto dançava ia regando em vol-
ta da casa com os sumos de seu corpo. Quando Deus
saiu, bem cedinho, provou aquele mel e se deliciou. São
tão saborosos os sumos de Oxum! Deus lambeu o chão
até que não ficou nenhuma gota. E quis mais, mais.
Quem trouxe esse mel tão delicioso? "Esse mel é meu",
disse Oxum. E disse que se quisesse mais, teria que per-
doar Babalu. Deus se negou. Dejeito nenhum, disse. Ele
foi castigado porque me desobedeceu. E Oxum disse:
"Babalu foi castigado porque gostava muito deste mel
de mulher. E agora você, Deus, você também quer desse
mel. Você também quer continuar comendo esse mel".
Então Deus compreendeu tudo. Creio que foi a única
vez que compreendeu tudo. E livrou Babalu de sua pe-
na. Devolveu-lhe o corpo e a saúde. Mas impôs, claro,
uma condição. Babalu curou-se da lepra mas ficou obri-
gado a levar todos os dias a carreta dos mortos para c
o semitério. Quem for ao cemitério de manhã, vai vê-lo
com a carreta.
- Oxum deve ter muitos poderes - diz ela.
- Todos os poderes. Não existe nenhuma mulher
que...
- Ela é sua amiga?
- Muito mais que isso. Sabe de uma coisa? Quando
o deus Olofi criou as outras divindades, deu a cada um
um lápis com uma borracha na ponta, para escrever de
um lado e apagar do outro. O lápis que ele deu a Oxum
estava incompleto. O que ela escreve, não se pode apagar
Mesmo que ela queirá, não pode. O que ela faz, não
é possível esquecer. Nunca se pode esquecer. O que ela
faz, faz para sempre.
66
Escutam as tosses do motor de um velho automó-
vel, que pára junto ao portão da casa.
E ela diz:
- Agora, você vai embora.
E ele diz:
- Agora, eu vou embora.
a cidade como um tigre
Tinham chegado cedo, depois de caminhar algumas
quadras, ao azar, debaixo da chuvinha fina que fazia có-
cegas em seus narizes.
Dave aspirou seu Camel sem filtro, sentiu a fumaça
invadindo, cálida, seus pulmões. Voltou a pendurar sua
mão direita no encosto da cadeira de Jimmy e passeou o
olhar, sem vontade, pelo lugar. As tiras de plástico pen-
duradas como baba colorida do forro de taquaras e os
gordos frutos de papel irradiavam uma luz vermelha e
fraca: em vez de atenuar a desolação do grande espaço
aberto onde ninguém dançava, os resplendores mortiços
faziam mais agudo o desamparo geral. As vibrações
com ritmo de fox-trot da orquestra permanente do El
Chiltepe - marimbas, rostos ossudos - pareciam procu-
rar um lugar e não encontrá-lo entre as mesas vazias de
clientes e a pista deserta.
No extremo oposto, um velho se deixava acariciar:
estava a quilômetros de distância. Dave sentia explodir
ao seu lado a rísada de Tom, sentia que Tom batia em
seujoelho com a mão, e tudo parecia ser de outro plane-
ta. Mergulhado na neblina de cores do bar e em sua pró-
pria tristeza, Dave ergueu os ombros. Amassou o cigar-
ro meio fumado sobre a mesinha de plástico. Pensou
que seria melhor estar longe dali, metido até os cabelos
na missão mais perigosa de todas, ou talvez fosse melhor
estar em nenhuma parte, com ninguém. Mas será que
Dave tinha nenhuma parte onde estar? Um dia, alguém
tinha dito: o que nos move é um secreto desejo de morte.
Nem bem o pacote da velha cai no chão, um pacote
embrulhado em jornais que caijunto à sarjeta, ela sente
um choque. Às suas costas, uma voz gritou "alto". A ve-
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lha não atina em virar a cabeça e fica com as mãos pará-
lisadas na atitude do abraço. Não sente a chuva fraca
saltando em seu corpo e deslizando, insidiosa, sob suas
roupas, mas escuta os passos do soldado de guarda que
cruza a rua, vindo da esquina oposta.
O soldado afasta-a com a arma e ela escorrega e
seus ossos vão dar no chão molhado. A baioneta destri-
pa o pacote. Restos de comida, trapos, lixo.
A velha se levanta como pode e se mete em casa; fe-
cha aporta com a tranca antes de começar a se queixar.
Não encontra quem a escute gemer pela humilhada sor-
te dos pobres. A manta de Sebastian, frouxa como uma
pele sem couro, está abandonada, sozinha, sobre a estei-
ra estendida no chão, ao lado de sua própria esteira. E
ela geme ái Jesuscristo, ele me abandonou outra vez, ge-
me ai, puríssima Virgem, guanta desgraÇa, veja, podem ma-
tá-lo, Deus meu, cuide dele, enquanto tremem as altas lu-
zes das velas, um filho meu, meu filhinho, o único, ai Jesus
cristo, e os brilhos avermelhados lambem seu rosto, que ,
não penso em outra coisa que nessa sepultura, Ave Maria
puríssima, estão cavando essa sepultura, ai Jesuscristo de
minhas angústias, meu filhinho, meu único filho, e uma
cortina de lágrimas separa os olhos da velha da fileira de
casas vizinhas, todas iguais entre si, chatas, gastas, e que
podem nada mais que serem adivinhadas na luz enevoa-
da que a lua, prisioneira de uma nuvem, projeta sobre a
cidade, ainda.
Enquanto escala a pequena encosta no Cerro del
Carmen, Sebastian percebe que já não chove e dobra o
jornal com que vinha cobrindo a cabeça. No topo, a
igreja não parece, como nas tardes, um brinquedo que
saltou da caixa de surpresas de um menino gigante. As
nuvens se retorcem contra a negrura do céu e da igreja
emana um resplendor branco e gelado.
Sebastian senta-se no paredão, com o olhar fixo,
através do arvoredo, na rua deserta e levemente ilumina-
da que abraça o morro. A brisa, que sopra suavemente,
desperta rumores na folhagem. Sebastian torna a olhar
o relógio, comprova que só passaram quatro minutos
desde que chegou, pensa que pode ter-se enganado: res-
ponde a si mesmo que não, já passou a hora do encon-
68
tro, passou há cinco minutos, e Sebastian torna a des-
cobrir, como em outras vezes, que a suspeita de um erro
no horário é melhor que outras suspeitas. Há uma sema-
na, Medio Litro apareceu ao pé deum barranco, com um
pedaço da cara devorado pelas formigas.
Os vagalumes semeiam chispas voadoras na escuri-
dão. As sombras se movem, mais negras que a noite. Se-
bastian apura o ouvido. Não se distingue o ruído de pas-
sos entre o cicio das folhas e o canto das cigarras. As
noites sem luz da infância no sul. O Cadejo tem cara de
morcego, orelhas de coelho, cascos de bode, rouba me-
ninas de tranças compridas e dá nós nas crinas dos cava-
los: seus olhos de brasa e seu cheiro de enxofre guiam os
caminhantes bêbados. Ele sorri. Será que o diabo prote-
ge os revolucionários? Coça a orelha. Marco Antonio
acredita. E já não há mais Marco Antonio. Toca os bo-
tões da camisa, um por um. Havia moscas na morgue, a
morte era uma tela de vidro cobrindo as pupilas de Mar-
co Antonio e até a roupa, dura de sangue e toda perfura-
da, parecia ter morrido também. Marco Antonio tivera
cara de índio e corpo de vulcão, uma quantidade inume-
rável de dentes no sorriso e dedos longos e chatos como
espátulas: tinha tido vinte anos: foi parado pelas balas e
continuou tendo seus vinte anos. Como Alberto. Alber-
to estendido com as pernas e os braços abertos. A polí-
cia amarrou em seu tornozelo um cartão com o nome de
seu documento falso. Tinha furos nas solas dos sapatos.
Baixou à fossa com nome de outro.
"Nenhum deles tem idade, agora. E eu, qual a mi-
nha idade? É mais velho um homem de cinqüenta que
vai morrer de câncer daqui a dez anos, ou um tipo de
vinte? Quero dizer: se esse tipo de vinte anos vai ser
morto dentro de dez minutos." Sebastian sente que
sobre suas costas existe o peso de um século. A seus pés,
a cidade, silenciosa, negra, está esparsa. Algumas pou-
cas luzes brilham, lá embaixo, como olhos amarelos. Se-
bastian prega as costas contra a parede fantasmagórica
da igreja. Tem as mãos muito afundadas nos bolsos e o
rosto erguido contra o ventinho molhado da noite.
- Meu amigo está um pouco amargurado. São os
nervos - disse Tom à menina. Ela sorriu porque não en-
tendia inglês.
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Tom tinha ido com
ela para uma mesa afastada e
havia instalado a moça sobre seus joelhos com o movi-
mento de um braço - não precisara do outro.
Um senhor bêbado, flutuando dentro de um smo-
king, piscava os dois olhos e anunciava "O Poder do
Amor", pelo grande Conjunto Trinidad, senhores e se-
nhoras, nesta noite inesquecível: os gorjeios voavam,
nascidos da fileira de tabuinhas das marimbas, ondula-
vam no ar morno de fumaça do salão e, ao ritmo das on-
das, desciam sobre a escassa platéia. Tom deslizava os
dedos através dos botões da blusa apertada e confirma-
va uma das mais importantes diferenças entre o Caribe e
a Ásia. A moça disse que se chamava Doris e se deixava
bolinar; mas para não roubar-lhes o prazer de vencer re-
sistências, mexia um pouco o corpo, entre uma risadi-
nha e outra.
- Dave.
- Sim.
Dave pestanejou, como se tivesse dormido e agora
despertasse em outra cidade. Liquidou de um trago o
resto da água gelada cheirando a uísque que tinha ficado
no fundo do copo. Acendeu outro cigarro, pausadamen-
te, e deixou uns dólares sobre a mesa. Disse a Jimmy:
"Vamos".
Tom alcançou-os antes de que chegassem à sáída.
Passou o braço ao redor dos ombros de Dave. Dave di-
rigiu um olhar opaco ao desertor.
- Posso pedir para você ir? Não é nada além de um
serviço de rotina. O cara... bem, você sabe. À uma, no
Pan Am Bar. O cara vai dar um jeito. Entrega a merca-
doria imunda e você diz que sábado que vem ele verá
mais dólares do que jamais havia sonhado. Se a infor-
mação merecer, claro.
Dave abriu a cortina. A música diminuía, às suas
costas. Da rua, chegava um cheiro agradável de asfalto
molhado. Encarou com alívio e lástima a cidade e a noi-
te, em silêncio. Atrás, a voz de Tom, novamente.
- Dave.
- Sim.
- Você se incomoda?
- De ir?
- Quero dizer: de eu não ir.
Virou-se para o rosto congestionado de Tom.
70
- Bem - disse É melhor você voltar, Tom.
- O que você quer dizer com isso?
- Que você deve voltar para a sua garota e ficar
com ela.
- Mas o que está acontecendo com você, porra?
Então, Dave fez pose de boxeador e Tom dobrou-
se agarrando a barriga. Riu.
Durante a noite, a cidade, encolhida sobre si mes-
ma, não oferecia outra coisa que um silêncio cheio de
rancor e freqüentemente rasgado pelos estampidos e os
ecos da violência. Quando chegasse a manhã, entrariam
nela as vozes gritando EI Gráfico e Prensa Libre, ofere-
cendo frutas de todas as cores e sucos tropicais, tortillas
cheirando a gordura. Um perfume adocicado, penetran-
te, andaria solto, balançando no ar, junto aos lentos re-
demoinhos de pó quente. Se escutaria o alvoroço dos
carrinhos de lixo e o estrépito dos ônibus quebra-ossos;
o colorido de caleidoscópio das roupas dos índios daria
de maneira tão intensa uma aparência de alegria, que
acreditar nela seria uma tentação: deixar-se enganar
pelo tecnicolor de um cartão postal tamanho gigante.
Mas logo a noite cairia sobre o espetá'culo, como uma
cortina metálica.
Dave e Jimmy subiram, lentos, a nona ladeira. Seus
passos retumbavam na calçada brilhante de chuva e
transmitiam um aviso ao sistema nervoso da cidade.
O Jicaque dirige sem deixar de olhar para trás pelo
espelhinho retrovisor. A trinta metros, vem o Volkswa-
gen de Miguel Angel, com as mãos da Aliança para o
Progresso pintadas nas portas. Sebastian pergunta:
- Você viu? Mário, você viu ele?
O Jicaque é magro e peludo como um morcego.
Vão pela sexta avenida. O automóvel atravessa brilhos
vermelhos, azuis, dourados; ainda existe iluminação em
algumas lojas; dentro de meia hora, as pessoas sairão
dos cinemas. A platéia de "O Direito de Nascer" aban-
donará a sala com os olhos chorosos: cada um irá dire-
tamente para sua casa, sem alterar esse sílêncio de funeral
71
com que a cidade pressente, noite a noite, seus próximos
mortos.
- Vamos agora mesmo. Não é longe
O automóvel vira à esquerda antes de chegar ao
mercado; atrás, o Volkswagen faz a mesma coisa. De re-
pente, uma luz branca atravessa o pára-bnsas e cega a to-
dos com a intensidade de cal viva. O Jicaque oprime o
freio até o fundo e a sacudida faz com que bata com o
peito no volante. Reprime a tempo o reflexo de levar a
mão para baixo da axila: ali, não tem agora outra coisa
que a chaga deixada pelo coldre. Os três policiais se apro-
ximam e Sebastian sente o coração chutando o peito por
dentro. O cano cheio de furinhos de uma metralhadora
entra pela janela. O automóvel de Miguel Angel passa,
lento, e continua seu caminho. Sebastian ordena a sua
mão que tire os documentos do bolso. A mão obedece.
O Jicaque brinca: "Não é dia de batizado, compadre -
diz -; grandinhos do jeito que o senhor vê". O guarda
olha os documentos, sorri e diz que não batizem com
cachaça, que essas são coisas de Deus, e onde manda ca-
pitão não manda marinheiro.
O automóvel começa a andar novamente e o sangue
torna a circular pelas veias de Sebastian. Algumas qua-
dras adiante, Miguel Angel espera em pé, apoiado no
muro. Sebastian reconhece sua pequena figura de longe:
os óculos grossos como fundo de garrafa, os dentes de
coelho, a eterna pasta de couro na mão direita.
- Já vi três placas de quarenta e dois e quarenta e
três mil por aqui perto - diz Miguel Angel. Melhor vou
eu primeiro. Subam, se ajanela do meio foriluminada.
Dave, homem de um único fósforo, fumava sem
tréguas; se envolvia em densas nuvens de fumaça como
uma aranha em sua teia. Ofereceu outro Camel a Jim-
my.
O Pan American Bar tinha poltronas realmente
confortáveis, dessas que dão vontade de despejar o cor-
po e esquecer o resto. Fazendo cruz com o balcão, al-
guém tocava, sem nenhuma vontade, Be Careful, it's my
heart. Sobre o piano, uma jarra grande como um barril
deixava escorrer espuma de cerveja.
72
Jimmy fazia comentários breves sobre qualquer as-
sunto, primeiras palavras que morriam sem resposta, e
Dave olhava um ponto fixo no ar. O uísque estava mui-
to frio e ligeiramente ácido, como se tivesse sido deixado
na geladeira antes de misturá-lo com o gelo. Um homem
bebia sozinho no balcão, e um casal se apertava no ex-
tremo mais escuro do bar.
- Quanto tempo ficaremos aquí, Dave?
Dave sacudiu a cabeça: "Você pode ir quando qui-
ser", disse.
- Não estou com sono. Quero dizer: quanto tempo
estaremos nesse país?
- Se dependesse de mim...
- Já sei, mas...
- Você está de férias, não é?
- Bem, até agora, na verdade...
- O que?
- Não sei muito bem pa ra que estamos aqui.
- Já repeti isso até o fim. Você deveria saber de cor.
Nossa missão consiste em treinar nossos aliados, dar
assessoria no...
- Mas concretamente...
- ... Kama Sutra: as cem posições para matar.
Jimmy sorriu. Dave olhou-o com olhos semicerra-
dos.
- Bem, suponho que Tom poderia explicar melhor.
Gritar e ensinar a gritar que somos os mais fortes e so-
mos os melhores. Tom tem culhões e está provando isso
o tempo todo, não é mesmo? Ele poderia contar a quan-
tidade de coisas que aprendeu no campo de batalha. Po-
deria dizer a você: "Estive no Vietnã dois anos, três me-
ses e seis dias, dedicado ao negócio de caçar homens e
matá-los quando era necessário (e algumas vezes, quan-
do não era). Trabalhei junto com alguns bons tipos.
Desfrutei minha cota de mulheres e provavelmente bebi
mais do que o estabelecido em minha cota de bebidas.
Aprendi a economizar os fundos públicos atirando vivos
os presos, lá de cima, lá dos helicópteros. Aprendi a usar
orelhas como amuletos".
Dave deixou cair a cinza do cigarro, pausadamente,
e esvaziou seu copo. Não se ouvia mais que acordes de
piano e a conversa do homem sentado no balcão, que
protestava contra seu automóvel.
73
Dave sorriu, mas os músculos de seu rosto conti-
nuavam contraídos e a boca endurecida. Murmurou:
- Esse homem não acredita.
- Quem? - perguntou Jimmy, sem entender.
- Esse homem. Não tem a menor vontade de tocar,
mas toca assim mesmo.
Em seguida, Dave falou do Vietnã. Falou e falou
do Vietnã. E do irmão Tri.
Lá fora, a chuva caía com violência.
O Jicaque fuma, de costas para os outros, najanela.
Miguel Angel está sentado à direita de Mário. Mário co-
loca o pente com suas sete balas na quarenta e cinco,
ajusta o silenciador e Sebastian recebe a pistola, acaricia
o gatilho, o polegar brinca com o ponto vermelho da
trava. O Jicaque sorri, sem virar: najanela da frente sur-
ge um vulto.
- Ponha a roupa.
Da pasta de Miguel Angel aparece um lenço negro,
cuidadosamente dobrado e passado. Há também um
missal e um rosário. O selo e a numeração da pistola fo-
ram limados. Mário diz que passou vaselina no cano,
mas que as balas talvez sintam falta de um banho de sol.
Depois diz:
- O nome é Thomas Vaughan. É um boina verde.
Um assassino. Veio do Vietnã. Um louro de cabelos cur-
tinhos e costas larguíssimas. Miguel Angel vai buscá-lo
para você. Já está tudo combinado.
Dave contava:
- Nos cercaram. Nos agarraram como ae fôssemos
ratos. Choviam balas de todos os lados. Tri estava ao
meu lado com os braços abertos e eu achei que estava
morto. Também achava que eu estava morrendo. O céu
era mais bonito que nunca e apesar disso, nesse momen-
to deixei de acreditar em Deus. Nesse exato momento
Deus foi embora para sempre. Quando eu mais precisa-
va dele, não é? É estranho. Soube de repente que tudo
morreria comigo.
Dave soprou uma nuvem de fumaça que ficou quie-
ta, como se tivesse sido amestrado, na altura de seus
olhos. O pianista sumiu.
74
- Não sentia medo. Sentia uma insuportável sensa-
ção de perda. Descobri pela primeira vez na vida, em
cada um dos pêlos da costa da mão a excitação dos po-
ros, via besouros circulando na areia e via as balas - en-
tende? - eu via as balas picando e levantando pó a milí-
metros da minha cara e me sentia nü.
Dave falava com os olhos fixos no copo. Sua voz
grave, gasta pelos cigarros e pela bebida, parecia estar se
revelando urrr segredo.
- Nos salvamos por engano - disse. Fomos os úni-
cos sobreviventes do grupo. E então voltamos e precisá-
vamos convencer-nos de que estávamos vivos, antes de ir
buscar mulheres rua abaixo. Precisávamos falar bem al-
to, escutar nossas vozes fortes de profissionais, depois
de termos ficado sussurrando tantos dias. E encher nos-
sas veias de álcool. E foi o que fizemos. Passamos da
conta, já tinha acontecido outras vezes, mas desta vez
Tri soltou a língua. Eu nunca tinha ouvido ninguém di-
zer aquelas coisas do nos.so lado, compreende? Coisas
que Tri dizia sobre seu país ocupado, ocupado por nós,
e toda aquela corja de ladrões que era o governo. De-
pois, Tri desapareceu. Ficou trancado em seu quarto, es-
perando a policia militar com uma faca na mão.
As palavras transmitiam eletricidade.
- Me apresentou à sua família. Comecei a sair com
a irmã. A mulher mais formidável que...
A tensão da voz aliviou, os nervos afrouxaram. Da-
ve negou com a cabeça, como respondendo a ele mesmo:
- Não tinha os cabelos cor de mel. Tinha os cabelos
morenos. Os cabelos morenos compridos e brilhantes.
Tinha sido posta para fora de seu emprego, no bar mais
luxuoso de Saigon.
Houve silêncio. Dave fumava. Dave continuou:
- Visitava-os todos os dias. Comia com eles peixe,
arroz, aqueles molhos. A família fez uma pequena ceri-
mônia para me aceitar como irmão.
rimmy tinha pedido mais uísque. Tinha os olhos vi-
drados. Dave encheu a boca com um trago gelado e
manteve-o até que passou-lhe o arrepio nos dentes.
Dave tinha ficado quieto novamente, as mãos afundadas
nos bolsos, as rugas na testa, os olhos fechadós. Jimmy
tinha dois copos cheios pela frente: não podia nem olhar
para eles. Sentia-se dominado pela náusea, mas acima
75
da náusea sentia-se dominado por uma espécie secreta
de respeito, que não havia sentido por ninguém antes, e
que era mais forte que sua necessidade de vomitar.
Dave disse:
- Bom. Havia um traidor. E era preciso matar o
traidor. Isso era tudo. O major mostrou-me o traidor.
Mas eu já o conhecia. Eu sabia quem era. Só faltava
prová-lo. E pôr um ponto final no assunto. Pôr um pon-
to final no assunto de uma vez por todas.
Dave bebeu de novo, mas empurrando o copo com
a mão. Os músculos do rosto se endureceram. Aspirou
profundamente a fumaça do cigarro, deixou-a escapar
entre os dentes apertados. As náuseas continuavam nas-
cendo da boca do estômago de Jimmy.
- A missão seguinte foi feita para isso. Tiramos os
pára-quedas no meio da selva inimiga e ele foi em uma
direção e eu em outra. Mas dei a volta e surpeendi-o por
trás. Vi. Era a prova. Em uma pequena clareira no meio
do mato, vi quando ele entregava informação ao inimi-
go. Voltei e esperei. Era a hora em que o sol morria e ha-
via o barulho de animais movendo-se e pássaros levan-
tando vôo. Ele vinha caminhando pelo mato e me viu. E
continuou caminhando. Não me traíram nem minhas
pernas nem meus braços. Estávamos a uns três metros
um do outro e ele olhou para mim e sorriu. Sorriu com
uma tristeza irremediável e fraternal, como dizendo: "já
sei que você tem de fazê-lo", como dizendo: "Já sei por-
que você vai fazê-lo". Olhei minha mão fechada e a faca
estava nela, embora eu não me lembrasse de tê-la tirado
da bainha amarrada em minha coxa.
Aos olhos de Jimmy, enevoados de vapores, Dave
se abria em dois, tornava a fechar-se, desdobrava-se e se
juntava consigo mesmo num ritmo balanceado. Aos ou-
vidos de Jimmy, a voz de Dave soava como um som re-
moto e ondulado.
- Ele mesmo o fez - disse Dave. Poupou-me disso.
Então houve um furtivo brilho de alarma nos olhos
ausentes de Jimmy.
- Aproximou-se de mim caminhando, com os bra-
ços abertos, sem tropeçar nem alterar nem um pouco 0
ritmo dos passos e eu com a faca erguida na mão. O ir-
mão Tri veio e me abraçou e fundiu-se comigo. Eu senti
seus dedos crispados contra minhas costas, senti a longa
76
lâmina que deslízava para cima, pelo ventre, e chegava
ao coração. Seu corpo se estremeceu contra meu corpo e
senti como tremia e a cara dele estava cravada em meu
ombro. Depois caiu, deslizou ao longo de meu corpo. O
sangue saía da barriga dele como uma maré. Abriu os
olhos no chão. Um trejeito retorcia sua cara. Olhava
como dizendo para mim: "Obrigado, filho da puta".
A mão de Dave crispou-se sobre o copo. Jimmy
levantou-se. A mâo de Dave quebrou o copo.
Na montanha, a gente pode tornar-se verde com os
infinitos verdes das plantas, escolher qualquer uma das
quatrocentas vozes do cenzontle e babar a baba que em-
baba, a baba da íguana; pode-se matar com a sombra
como os chinchintores, ou com o olhar, como matam os
basiliscos, contrair-se como a sensitiva, ante a menor ad-
vertência vinda pelo ar ou flutuar nas copas das árvores
e oferecer ao inimigo frutos que adormecem: ser como 0
rei quiché, sete dias águia e sete dias tigre, sete dias ser-
pente. A selva disfarça: a cidade despoja. Sebastian
' sente-se nu apesar da batina. A chuva precipita-se na
frente de seu rosto; às suas costas, o Edifício Horizontal
abriga, entre cristal e aço, centenas de olhos possivel-
mente curiosos, esconde centenas de bocas possivelmen-
te indiscretas: centenas de possíveis inimigos. No cam-
po, nas noites assim, as únicas testemunhas são os fan-
tasmas que saem dos rios quando chove muito.
O Jicaque não está, agora, ao seu lado. Sebastian
não escuta a voz cordial de Miguel Angel, nem tem pela
frente sua figura cômica baixinha e cabeçuda como um
fósforo, nem se sente guardado pela serenidade sem titu-
beios dos olhos de Mário. Na memória, é visitado -
como acontece sempre que está sozinho e em perigo -
pelos mortos: um exorcismo, talvez, para conjurar o me-
do, a antiga magia dos feiticeíros da fraternidade contra
o demônio do médo. Alberto dizia que um homem pode
considerar-se virgem até que tenha matado outro ho-
mem e criado outro: matar, ter um filho. É estranho não
íer matado como é estranho não ter morrido. Sebastian
queria ter duas pistolas e que o gringo escolhesse e ati-
rassem ao mesmo tempo. Mas coloca a primeira bala,
clic, na agulha.
77
r
Quando Jimmy voltou à mesa, muito pálido, com a
testa banhada de suor, encontrou um desconhecido que
acabava de entrar e se inclinava, solícito, sobre a mesa.
Estava empapado pela chuva. Tinha óculos de vidros
grossos e um sorriso agradável.
- O senhor sofreu um acidente - disse.
O sangue corria, abundante, da palma da mão de
Dave.
- Se me permite... - disse o desconhecido, des-
dobrando o lenço.
- Não tem importância - agradeceu Dave . Não
tem nenhuma importância.
- O tenente Thomas Vaughan?
Jimmy comprovou que o homem chegava na altura
de sua axila - e nada mais, apesar do chapéu. O chapéu,
dobrado para baixo como um sino, escorria água da
chuva. Rios de chuva. Jimmy sentia-se fraco:
- Faz um tempinho que Tom... - começou a dizer.
- Sou eu - interrompeu Dave, e levantou-se.
- Onde é que nosso amigo...?
- Na porta do Edifício Horizontal - respondeu o
desconhecido, apontando para a direita -.quarta aveni-
da, esquina com a sexta rua. A duas quadras daqui.
- Vou com você - disse Jimmy.
Dave negou, com a cabeça. Aproximou-se do bal-
cão para pagar.
Sebastian quisera poder ver além da noite e do ou-
tro lado da chuva, seguir vendo a partir do momento
exato em que o inimigo saísse do Pan American Bar:
Thomas Vaughan vindo rua acima, rumo à quarta ave-
nida, protegendo-se da chuva sob um guarda-chuva ou
debaixo das marquises dos edifícios ou debaixo do seu
próprio braço ou não protegendo-se da chuva em abso-
luto, abrindo a chuva com seus grandes passos de bruto -
virá, aí vem, Dave saiu do bar, entra na chuva, Dave ca-
minha, envolvido ainda nos efeitos de sua tristeza teimo-
sa, sem celebrar a frescura da chuva na cara e no corpo,
a camisa grudada na pele, a pela empapada, a densa cor-
tina de chuva fria se desloca, enquanto ele passa, junto
com ele, sobre ele, através dele: não desconfia da mistu-
ra escorregadia de barro e graxa que está pisando, não
78
descobre a ameaça vibrando na chuva, não adivinha que
há um enigma nesse encontro ao qual ele comparece em
lugar de outro: não sabe que ele está cumprindo, sem
possiblidade de traição ou renúncia, com um encontro
que estava marcado a esta determinada hora e nesse de-
terminado lugar - marcado para ele: Sebastian sente um
arrepio que atravessa seu crânio, escorre pela nuca e
pelo couro cabeludo: a história é assunto de dinâmica e
de machos, dizia Marco Antonio, e Alberto, que dizia?,
tantas coisas ele dizia, tantas coisas tinha para dizer, um
homem nasce com uma quantidade de palavras para di-
zer e de coisas para fazer ao longo da vida e Alberto ti-
j nha uma quantidade extra de palavras para dizer e coi-
sas para fazer e quando morreu pensei: talvez já tenha
dito todas as suas palavras, feito todas as suas coisas, e me
¡ respondi que não e soube que era um crime, que um cri-
me era exatamente isso: é ele, não é ele, Thomas não-sei-
¡ quê, não enxergo direito, se aproxima, cara de gringo ele
tem, mas quer dizer que era um tipo magro, este não é, é
¡ sim, vem para cá, na certa me viu,já me viu, a doze me-
tros, a dez; aliados piedosos como poucos, pensa Dave,
aliados de batina, quem diria, isto prova que Deus está
do nosso lado - não é? - a oito metros, a seis, é uma velha
convicção americana; uma onda ao mesmo tempo fer-
, vendo e gélida sobe e desce pelas costas de Sebastian e
, Dave a cinco metros, Dave a quatro, o dedo no gatilho
debaixo da batina, e oh, não tenho forças, não posso fa-
zer isso, não posso, mãos geladas, lábios ressecados,
dois metros, o terror nos olhos e boa-noite amigo e uma
detonação surda da bala no segundo em que Dave se ati-
ra sobre Sebastian e outra bala e Dave se retorce e cai e
Sebastian subitamente está seguro de que já tinha feito
isso antes, alguma vez, ainda que não soubesse, que ha-
via matado esse homem tempos atrás embora não sou-
besse e agora um cheiro acre de pólvora e sangue vai
atravessando, lentamente, o cheiro da chuva.
morrer
O corneteiro tocou a diana - o toque de silên.
cio - pouco antes da alvorada. Delfino chorava. Pe-
79
1
diu que trouxessem sua mulher, mas disseram que não.
Marcos tinha sido o primeiro a chegar ao pátio, escolta-
do pelos guardas. Perguntou: "E não veio aquele covar-
de do promotor? Ele não era todo macho?" Delfino
abraçou o sacerdote. Os caracóis perambulavam pelo
muro branco do quartel de Matomoros'. (Até esse mo-
mento, Suárez tinha pensado: que me fuzilar que nada.
Mas agora seus joelhos tinham afrouxado.)
Do lado de fora, um menino estava sentado de cos-
tas contra o muro, com a cabeça grudada no muro, os
olhos muito abertos, não podia piscar, não sentia o frio,
e ao seu lado havia um cachorro com as orelhas em pé.
Deram cigarros aos três. "Não chora, Delfino",
disse Marcos. Os sacerdotes da Ordem das Mercês se
despediram seis vezes.
- Não, padre - disse Marcos . De costas, não. De
frente.
Suárez achou que era melhor ajudar que lhe colo-
cassem a venda nos olhos. As lágrimas de Delfino cor-
riam por baixo da venda. Marcos não quis venda nenhu-
ma. Suárez nerguntou:
- Que rioras são? Quanto falta?
- Cinco minutos.
Um pássaro brincava no ceú escuro: abria e fechava
as asas, anunciava com alegria o nascimento do dia. Eles
viam o passarinho. Escutavam seu canto. Cantava
como se estivesse chamando os três. Antes, na cela,
MaTeos dois volta as pessoas e os lugases aos quais
pertencera, quando estava vivo; mas agora passeava os
olhos pelos rostos dos soldados do pelotão, as duas filas
de dez, um por um, todos iguais, e escutava gritar peloo-
tãão, füürmes, gritar füla da freeente, gritar joelhos no
chããão, via-os mover os ferrolhos das carabinas, os sol-
dados a um metro e meio prontos para abrir um rombo
no seu corpo, e o tempo todo se sentia longe dos solda-
dos e longe da cerimônia e de tudo, estivera longe desde
antes de xingar o promotor de filho da puta e de se plan-
tar na frente do muro com as mãos atadas: longe, ma;
muito longe, muito mais além do que qualquer viagem
de qualquer tempo ou qualquer destino. Olhou par
Delfino, que continuava chorando porque não entendia
Marcos tinha dito: "Os homens não choram", mas n
verdade tinha querido dizer: "Os mortos não choran
80
Delfino". Marcos escutou gritar apooontaaaar e a vida
não era um jogo de sombras na parede da memória,
nem era um calor de fumaça de cigarro no peito, nem
era nada. Então 0 oficial gritou fooogo e houve um silên-
cio longo e estúpido.
Quando explodiram os tiros, todos os tiros como
um único tiro, a primeira claridade do dia já se arrasta-
va, nebulosa, na altura do chão. O oficial disse termine e
o cabo se inclinou sobre o corpo de Marcos. Marcos
viu-o através da cortina de seus próprios cílios: víu-o
pelo espaço de dois segundos, e apesar disso poderia
descrevê-lo com todos os detalhes, como se tivesse olha-
do para ele durante anos. O cabo apertou os dentes e
apontou no coração.
os sobreviventes
Roberto quer saber quanto tempo falta para ficar
louco. Joel exala um cheiro acre. Longe dali, muito ao
norte da cidade, Flávia não chora. Flávia não se trancou
para chorar, mas para fugir das lágrimas dos outros.
Não há luz elétrica na cela onde Roberto afunda a
cara nas mãos, e é uma sorte. A noite despencou, violen-
ta, através das grades. Roberto está banhado de suor. O
calor arranca um cheiro insuportável do corpo de Joel.
Assim como está, Joel parece mais alto. Ainda que a caí-
da da noite não alivie a asfixia da umidade quente da ce-
la, ao menos serve para bonar os rasgos do rosto desola-
do estentido aqui no chão, ao alcance da mão, com a
mandíbula destroçada por um dos tiros. Desde que os
guardas atiraram o cadáver de Joel no chão de cimento,
Roberto, agachado contra a parede, não foi capaz de se
mover. "Aqui deixamos teu amigo, para te fazer compa-
nhia". Tinham moído os ossos de Roberto a porradas,
mas não é por isso que ele está paralizado.
Flávia não sabe onde está Joel. Reclamamos o cor-
po, Flávia. As vozes parecem trapos. Ela tampouco se
mexeu. Há horas permanece deitada sobre o altar, com
a testa afundada num buraco de pedra e os braços caí-
dos, inertes, junto ao corpo. Sobre a cabeça de Flávia
ergue-se a lança do santo guerreiro, relampejando à luz
das velas que trazem calor ao ar inchado de dezembro.
81
Atrás do cavaunno branco de São Jorge - patas voado-
ras, crinas flamejantes - há um porta-retratos de moldu-
ra dourada. Dentro do porta-retratos sorri, melancóli-
co, envolvido em barba rala e fumaça de um charuto
Partagás, o rosto de outro santo vingador muito mais
atual. A maré dos murmúrios surge sem descanso atra-
vés da parede de papelão, coitadinha, ave-maria, coita-
dinha, as orações e as queixas dos parentes e dos amigos
e dos vizinhos.
Roberto continua sentado no chão. As estrelas ar-
rebentam no céu e Roberto não as vê, os habitantes da
cidade se atropelam pelas avenidas e ele não os ouve. Os
habitantes da cidade estão sãos e salvos e lembram disso
uns aos outros, alguém vira porque alguém passa, cada
um sente as próprias pernas no ritmo das pernas dos ou-
tros: cada formiga toca as antenas de outra formiga.
Roberto escuta nada mais que o ir e vir dos passos do guar-
da, que não tem rosto nem responde perguntas. Escuta,
também, às vezes, chiado de uma centopéia que cai do
teto. Um retângulo de luz, cortado pelas sombras das
barras de ferro, se projeta na parede; de tanto em tanto,
é coberto pelo corpo do guarda que passa. Passou um
dia. Quanto falta, Roberto? Quanto tarda um homem
em ficar louco? Ontem à noite, a esta hora, Roberto es-
tava livre, o motor se negava a responder, uma sensação
de náusea subia do fundo do estômago de Roberto, e ele
preferia jogar a culpa sobre os cigarros. Antes dos tiros,
Joel tinha dito: "Não te desejo sorte, conspirador. Gen-
te como você não precisa de sorte". Tinham se abraça-
do, e depois Joel tinha tocado com o dedo indicador a li-
nha de vida de sua mão esquerda. Joel sempre fazia isso.
Tinha uma linha de sete vidas, longa e sem rachaduras.
Sorria com todos os dentes: "Coisa ruim não morre".
Fazia mais de um ano que Flávia não via Joel. Joel
nunca soube que seu filho dizia papai para o sapato. Flá-
via sim, sabe que nunca inventará com ninguém o que
inventara, era tanta a alegria, para Joel. Para quem,
agora? Para que, agora? Todos os quadrinhos vazios de
todos os futuros calendários... Todos os dias serão
quarta-feira de cinzas; dias de derrota. Um cara assim se
acaba e não há substituto. Joel, que era capaz de acen-
82
der o fogo com os olhos ou com as mãos. Flávia, que vai
precisar, mas não vai querer esquecer. Roberto, que se
pergunta se existe um ,jeito de defender-se da loucura,
quando a loucura avança na escuridão como um gato
que fede a coisa podre e tem lanternas nos olhos. Flávia
quebra as unhas corltra o altar de pedra e as gotas de
suor despencam, lentas, das sombrancelhas de Roberto.
Roberto morde os lábios até sentir o sabor do próprio
sangue. Sente prazer; e alívio. E se gritasse? Esse morto
está tomando meu lugar. Mas eu não sabia, Joel. Por
que você não saiu? Que culpa...? Foi uma loucura ficar,
Joel. O motor não pegava, Roberto triturava a chave do
carro e o motor não pegava. A bateria? As velas? O pla-
tinado? Você mesmo, Joel, tinha dito que esse carro não
servia. E soaram os primeiros tiros e finalmente o motor
pegou, Joel, a explosão da chispa, o rumor da salvação,
os quatro pístóes comprimindo e libertando toda aquela
força e eu esperava você, Joel, eu esperei durante um sé-
culo, os tiros estouravam na minha cabeça e eu não via
ninguém, nem você nem eles nem ninguém e o pé esma-
gou o acelarador por conta própria, o acelerador até o
fundo, e eu acreditei... Sim, eu, eu comecei a voar. Mas
o motor falhava. O motor estava morrendo, Joel.
Esvaziaram nele os carregadores de várias pistolas,
dessas de regulamento. Uma boa quantidade de chumbo
no corpo de Joel. As balas 45 são gordas como dedos. A
mão de Joel ficou ccispada no cabo do revólver que já
estava com o tambor vazio. Desenharam com giz os li-
mites do corpo no asfalto. O giz escorregava. Também o
crivaram os disparadores das máquinas fotográficas, os
polegares dos fotógrafos nos gatilhos das rolleys e das
leikas, antes e depois de que virassem o corpo e apare-
cesse este rosto que tinha sido tão simpático.
"Tem um homem morto ali. Tem nove furos de ba-
la". E Flávia não desmaiou nem chorou nem nada. Re-
cordou: "Feitiço, coisa feita... O fogo não sente frio. A
água não sente sede. O vento não sente calor. O pão não
sente fome". E Roberto despertou, depois do capuz e
dos choques e da surra, no chão da cela, e mesmo que
não tivessem ainda trazido Joel, os olhos abertos de Joel
já estariam acusando-o de continuar vivo.
83
uma bala quente
Eu não tinha nem idade. Menino fui para a serra e
menino vim de lá. Os guardas tinham dito ao meu padri-
nho:
- Escute, Tomazinho. Quer que ele dure? Não deixe
que saia.
Porque eu jogava garrafas neles e o diabo e eles nos
perseguiam a tiros. Todo mundo era inimigo.
E meu padrinho me disse:
- Vou mandar você para o campo, para Cárdenas.
Mas eujá tinha resolvido cair fora. Tinha resolvido
com o Conde e com Baltazar. Os três nos jogávamos da
amurada e como nadávamos! Por trinta centavos, que
os pescadores pagavam para a gente, íamos nadando até
o horizonte, com os anzóis entre os dentes. Então Balta-
zar arrebentou-se contra as rochas num mergulho e só se
viu dele foi o sangue que subia, nem os cabelos foram
encontrados.
- Vamos para Oriente, Conde. Num caminhão de
carga. Lá em Oriente sim, vamos poder inventar.
Poucos dias depois, encontramos as colinas onde
estava a guerra. O acampamento se mudava o tempo to-
do, e os guerrilheiros andavam para lá de Minas de Hue-
sito. E eu perguntei:
- Isso é um acampamento? E onde durmo? E o que
vou comer?
E o capitão me disse:
- Mas você está pensando que vai dormir? Está
achando que vai comer aqui? Aqui, o que se faz é dar ti-
ro. e muito.
- E com quê?
- Isso, você vai ter de conseguir sozinho.
E eu pensei: ui. Isso está ruim. Que ruim está isso.
Que culpa tenho eu, se eles resolveram fazer uma revolu-
ção sem armas?
Fiquei encarregado de contar caminhões com outro
garoto, Chavito era seu nome, que era ainda mais pe-
queno que eu mas muito duro, sério mesmo, já estava há
um bocado de tempo na coisa. Escondidos sobre um
aterro, num desvio da estrada, contávamos os cami-
nhões do exército da ditadura. Por ali eles traziam a co-
84
mida e as armas. Para Chavito era bom eu ter vindo
contar caminhões, por_ que quando ele chegava nos 13 ou
14 se perdia.
Passaram os meses nas colinas. Cada vez tínhamos
mais gente. Nossa bandeira aparecia nos povoados da
serra e os inimigos as descobriam nas sombras do ama-
nhecer e não sabiam como.
Um belo dia, perto de Uvero, o capitão nos cha-
mou e disse:
- Escuta, é preciso que vocês levem essa mensagem
para a planície.
Quem levava a mensagem era meu companheiro.
- Se agarram você, já sabe: engula o papel.
Levava a mensagem debaixo de um curativo na
sombrancelha. Tinham passado uma tintura vermelha
embaixo do curativo. Caminhamos e caminhamos, sem-
pre nos escondendo, e Bnalmente encontramos o pessoal
que buscávamos. Eram três companheiros que vinham
da cidade.
- Vamos entrar no monte, que aqui perto estão os
de capacete e com uma bateria de morteiro.
Um dos companheiros tinha uma Baby Thompson,
que tinha arrancado de um guarda. E eu apontava para
o céu, isso sim é bom, não vou devolver coisa nenhuma,
rapaz, uma Baby Thompson! A verdade é que os ian-
ques são uns filhos da mãe, mas lá sim fabricam coisas
gostosás, essa Thompson pequeninha e tão fácil de ma-
nejar: você mete fogo em alguém com a Baby Thompson
e nunca mais ele levanta. Essa sim, tranforma um ani-
mal em caçador. Eu já sabia distinguir o que é bom, en-
tre todas as armas. Sabia que a gente não ouve os estam-
pidos quando está combatendo, e sim o zumbido de abe-
lha das balas que passam roçando. Sabia atirar grana-
das. A granada é uma coisa perigosa, que você tem de
saber esticar o braço e flexionar o corpo para atirá-la
medindo justo a distância, porque depois que arrancam
o pino, a granada choca com um mosquito no ar e pode
ter certeza que acaba com você na hora. Tudo isso eu sa-
bia. Mas nunca tinha apertado o gatilho de um fuzil. E
aquela Baby Thompson! E apontava para as nuvens e as
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perseguia pela mira, sem pressa, e perdoava a vida das
nuvens enquanto me encantava com a Baby Thompson
apertada entre as mãos e contra a cara e erguia a mira,
ajustava, continha a respiração, me imaginava apertan-
do o gatilho e lançando balas quentes contra o céu com
aquela maravilha e até sentia o cheiro de pólvora no ar e
então, de repente, ocorreu uma explosão, a explosão nos
ouvidos, e quando tornei a abrir os olhos me disseram:
- Não ponha a mão aí, não toque nisso, você está
com as tripas todas de fora.
Estava num hospitalzinho improvisado, desses de
folhas de guano que tinham na serra. Me amarraram as
mãos no jirau de madeira. Eu não me lembrava nem de
meu nome, nem bem pude falar e o primeiro que me
ocorreu foi perguntar pela Thompson. Estava com ela
dentro do meu corpo. Tinham feito a gente voar aos pe-
daços com um tremendo morteiro e todos tinham morri-
do e a Baby Thompson tinha se metido, em pedacinhos,
por todo meu corpo. Ainda tenho uns ferrinhos metidos
entre os ossos. Imagine se eu teria gostado de ter aquela
arma.
No hospitalzinho o único desinfetante era a gasoli-
na dos caminhões. Esse era o cheiro que eu sentia, o
cheiro de gasolina, e também o cheiro de coisa podre
que me saía das feridas. Olhava para o céu e via os uru-
bus, com suas asas abertas, dando voltas e esperando.
Via suas cabeças chatas à espreita e os bicos abertos e
tão perto que até pareciam estar piscando um olho para
mim dizendo: "rapaz, como você é gostoso". Eu gritava:
- Desgraçado! Vocês não vão me comer, eu não.
Estava amarrado. Não podia atirar pedras neles,
nem ameaçá-los com o punho.
Estendido e amarrado, tinham que me dar comida
na boca. Dia e noite eu escutava as detonações e as ex-
plosões da guerra e pensava:
- Não,
pensava:
- Aqui eu não fico.
Nem bem me desamarraram, eu fui embora. Fui
com o Conde, que também estava ali porque tinham
voado com os dedos de sua mão. Roubamos um revól-
ver e fomos embora.
86
Chegamos à coluna de Raul. Nos levaram ao esta-
do maior e aí:
- Olha aí, uns fujões.
Nos mdandaram para a retaguarda. Eu só podia
manejar revólveres, e com muito cuidado. A mão estava
ficando inútil, com os dedos retorcidos que cada vez me
doíam mais. Com um braço arrastava o outro braço e
com uma perna a outra perna. Um dos olhos já não me
servia mais para piscar.
Um dia, me disseram:
- Escuta, fique sabendo que seu sócio caiu.
Quem? Como? Onde? Como estava vestido? Era o
Conde, não era o Conde: era. A cara branquinha, seu
cavanhaque e as costeletas muito fininhas, parecia um
tipo de teatro. Tinham metido um tiro de canhão em seu
peito, durante o assalto a um comboio.
Quando chegou a vitória, entrei grogue de sono
dentro de um tanque. Cheguei grogue e não vi nada.
Aquela gente toda, a alegria, as bandeiras: nada. Fui le-
vado direto para um hospital, para pôr platina nas ca-
deiras e umas injeções na nuca para mover as pernas. Lá
na serra tinham ligado mal minhas tripas, e eu vomitava
tudo.
E veio a limpeza de Escambray e lá fui eu. E acon-
teceu o da Praia Girón e Fidel ia em um tanque prague-
jando e gritando maldições. As pessoas marchavam
abraçando o tanque, toda a infantaria ali, para cobri-lo,
e isso era o contrário do que deveria ser. Eu via essas ca-
ras sem uso, todas aquelas crianças que não se sabia se
iam para a glória ou para a morte ou para onde, e não
me deixavam ir, um oficial me disse:
- Você não está em condições.
- E você, o que está pensando, que eu vim só para
olhar?
E disse mais para ele:
- Filho da mãe. Quer a guerra só para você?
E com a perna boa pisava duro nesta terra.
Na confusão toda, me incorporei ao pessoal de Efi-
gênio. Tivemos muitos mortos, porque sempre partía-
87
mos para lá das linhas. Esses vermes, dizíamos, era pre-
ciso esmagá-los bem, até acabar com eles. Eles atiravam
contra nós balas teleguiadas com os Garand, a gente ma
as centelhas na noite, e nós avançando quatro ou cinco
de cada vez e buscando aquelas chaminhas e depois não
se sabia quem derrubava quem. As nossas balas eram
normais, mas saíam as línguas de fogo das bocas dos
fuzis, por isso era preciso pular para o lado em seguida,
correndo do tiroteio de resposta. Nem bem dávamos um
tiro e eles já estavam disparando, bang bang, e eu esten-
dido no chão sem capacete, não sabia o que era lutar
com capacete, como é que vou enfiar um capacete na ca-
beça, se nem sei como se faz? Os tiros deles eram verda-
deiras rajadas e os nossos eram tiros mesmo, um a um,
para não desperdiçar e porque, além disso, não é nada
fácil correr depois de dar tiros depressinha, sério mes-
mo, ainda mais se você estiver atirando há tempo e o fu-
zil não estiver muito limpo, o coice tremendo que ele
tem, bup! bup! bup!, e que quantidade de granadas! As
granadas flutuavam nos pântanos, como os mortos e as
roupas. Eu me arrumava com a canhota. A mão direita
já tinha virado garra. Como agora, que quando deixo
cair alguma coisa, digo: esta mão de merda. Ainda que
nem sempre seja culpa da mão.
Esta mão já não me acompanha. A última vez que
fui ao hospital para que me fizessem uma mão de borra-
cha, os médicos queriam cortá-la aqui pela metade. Uns
queriam abrir-me por aqui, outros por este lado. Toma-
vam minhas medidas e discutiam entre eles o jeito que
iam me cortar a mão e eu saí correndo:
- Não sou cobaia, porra!
Enquanto eu tiver uma perna para correr, nenhum
médico me agarra. Já me operaram sete vezes, desde que
voltei da serra. Não é bastante, para eles?
Sei que não estou bem. Qualquer dia desses caio
dormindo e não acordo mais. Eu antes não sofria falta
de ar, não me afogava, e agora tem vezes que fico com o
pensamento em branco. Assim, como se me faltasse vi-
da. Para a safra, não volto. Comecei a cortar cana e me
amarraram. Não me deixam nem distribuir água. Uma
vez fugi para colher laranjas e a ferida em minha barriga
88
abriu, esta aqui que parece uma aranha gigante. Me aga-
cho, e sinto a folha de um facão entrando pouco a pouco
em mim.
Mas eu tenho medo que os médicos me digam:
- Você fica no hospital.
E eu me veja trancado e saiba que isso é o fim. Não,
eu não vou nem ao dentista, eu não. É só ver os apare-
lhos e os médicos e toda aquela gente com curativos, que
sinto arrepios. Eu morro com os pedacinhos da Baby
Thompson no corpo, que quando doem, mais que doer é
como se conversassem comigo. E se houver outra guer-
ra, eu vou para a briga com meus pedacinhos da Baby
Thompson no corpo.
Ruim mesmo, anda a mão. Dói e arde, uma vela
metida aqui dentro, e às vezes esfria e o braço termina
num bloco de gelo que não é meu. O ar condicionado
ataca muito minha mão. Eu gosto de ver os filmes umas
dez vezes, mas no cinema tenho de meter a mão no bolso
da calça e apertar com força, para dar-lhe calor e poder
aguentar.
À lVlariana, essa moça que é de Oriente, eu falei de
ir ao cinema e ela me diz:
- Agora não posso, porque estou trabalhando. Mas
olha, amanhã sim.
E então acontece que amanhã quem não pode ir
sou eu, porque sou eu quem está trabalhando e não vou
chegar para o administrador e dizer:
- Hoje não trabalho porque vou ao cinema.
Imagine só.
- Escuta, mas em que país você acha que está viven-
do?
De vez em quando fico louco por causa da Maria-
na, a vontade de dizer para ela duas ou três coisas do
muito que gosto dela, mas chego até onde está e fico mu-
do.
- Você ia me dizer alguma coisa. Você tinha algo
para me dizer.
E eu mudo de assunto.
Sei que tem uns sapos com os olhos vidrados na
89
menina, e eu: eu sou medroso. E mesmo assim, ela me
dá uma atenção especial. Mas eu penso: e se eu falhar?
E se ela não quiser nada comigo?
A última vez que me operaram, eu estava mal mes-
mo. Queria morrer porque a morte era o fim da dor que
eu sentia. E fechava os olhos e via Mariana parada aos
pés da cama, com as mãos apoiadas na grade de ferro, e
ela me dizia: vim, viu só?
- Soube que você estava doente. Não me pergunte,
como, mas eu soube.
E então ela fechava as mãos contra a grade de ferro
e seus dedos ficavam brancos:
- Vím para dizer que te quero.
Eu fechava os olhos e pensava nessa alegria.
Tenho certeza de que quando disser a ela, ela vai di-
zer:
- Mas, por que você não me falou antes?
Deve ser a falta de coragèm. Mas amanhã, eu falo.
Falo mesmo. Ou na segunda-feira. Segunda-feira, sem
falta, eu falo. E agora mesmo vou passar pelo trabalho
dela. Que horas são? Para ver ela. Para fazer uma graça
e esperar sua risada.
a paixão
Já não tinham lembranças para dividir, nem piadas
para contar, nem vontade de cavar túneis ou ficarem in-
visíveis ou atravessar os muros A cadeia tinha se trans-
formado em costume e a liberdade consistia, agora, em
perambular pelo pátio de baixo durante o tempo permi-
tido, os homens sós ou em pequenos grupos, dando puli-
nhos contra o frio, sem falar nada, torcendo de vez em
quando o pescoço para perseguir as nuvens que, lá em
cima, lá longe, também caminhavam. Mas as nuvens ca-
minhavam para onde o vento de inverno as levava.
Uma manhã, o garoto Oscar veio com a notícia. Ele
tinha sido agarrado: "É um dos chefes. Alguém o entre-
gou". Do quarto andar brotou, de repente, o estrépido
90
de uma música da moda, obrigaaado, senhoor, pelas es-
treelaas, o rádio chiava, obrigaaado, senhor, por mais
uuum düa, e todos os presos do pátio de baixo olharam
para a janela dessa cela do quarto andar, e uuumma veez
maaaaais, obrigaado senhoor, e em seguida se olharam
uns aos outros, longamente, tuuudo, tuudo vai melhoor,
bem melhoor com cooca-coooola, o interrogatório havia
começado, atlaaantic serviGo nota deeez, eles sabiam,
sóó esso dáá ao seu carro o mááximo, e pararam as ore-
lhas para distinguir o uivo de uma voz humana através
da salada de avisos e música, mas não,, era só um cantor
qualquer que gritava: não gueeero nuuuunca maaais
amaaar.
Estavam ali porque não havia lugar. O garoto Os-
car estava esperando, como todos os outros, a transfe-
rência de uma cadeia a outra. Faltavam ainda 1 1 anos
para que saísse, e contava os dias. O garoto Oscar estava
preso em lugar de outro, ou pelo menos tinha achado
isso no começo, e tinha aprendido, com o tempo, a não
protestar. O garoto comentou, erguendo os ombros:
"Este é um dos líricos. Não roubam para eles". Disse
que o conhecia dos velhos tempos, de antes da fuga, e
que era um homem que falava pouco. Imaginava-o, ago-
ra, de costas contra o chão gelado, com uma venda
sobre os olhos ou um capuz embolorado amarrado ao
pescoço, nu, os braços em cruz e as pernas atadas às es-
tacas surdo à música que os atordoava e surdo às vozes
dos homens qüe apagavam cigarros contra a sua pele.
Mas desta vez, vai cantar, pensou o garoto Oscar.
"Não vai aguentar. Todos cantaram. Já não é como an-
tes". O garoto Oscar, abraçado a si mesmo, massageava
as costelas para se esquentar e olhava, para não pensar,
os malabarismos que Sapato Usado fazia com quatro
moedas no ar.
Ao entardecer, no corredor que levava ao banheiro,
o garoto Oscar cruzou com o Zorro. O Zorro, antes, ti-
nha vivido bem, injetando chá em garrafas de puro uís-
que escocês. O Zorro comentou que este era um dos últi-
mos importantes que tinham ficado de fora, e que o mo-
vimento estava desfeito: "Nem eles se acreditam mais".
O Zorro sabia; ele lia osjornais. Havia coisas que osjor-
91
nais não publicavam, mas o Zorro tinha experiência: os
golpes na nuca como lâminas de navalha e nos rins
como balas de canhão e nos ouvidos como um estalo de
granadas, as perguntas e os insultos, as investidas contra
o fígado: vai cantar ou vai morrer? Sabia quejá estavam
há nove horas nesse assunto. "Vinham com a maquirn-
nha de choque e era como se arrancassem o meu braço".
Na manhã seguinte, no pátio, o garoto Oscar per-
guntou e o Zorro respondeu:
- Até agora, nem o próprio nome.
Sapato Usado os escutava como quem ouve chover.
Sapato Usado não falava nunca e os outros achavam
que era filho de um palhaço de circo: mantinha suas
moedas dançando no ar e isso era tudo que fazia, a úni-
ca coisa que sabia fazer, brincar com as moedas durante
todo o dia e também durante as muitas noites que passa-
va sem dormir. Se alguém contasse para ele o que sua
memória se negava a recordar, teria falado do pesadelo
de ser uma bola chutada por várias botas e a carne ar-
rancada aos pedaços pelas mordidas da eletricidade no
pescoço, nas axilas, no chamado ventre, e então, esse al-
guém teria dito a ele, você procurou uma gilete para
abrir as veias e bebia o próprio mijo e lambia o lodo do
chão da cela e quando abriram a porta você olhou para
eles e disse: "Estou morto", mas tudo recomeçou, Sapa-
to Usado, novamente. Até que uma noite, esse alguém
contaria, você se arrastou até o banheiro e abriu a tor-
neira e em vez de água saíam gritos e levaram você para
o hospício.
Jorge Martínez Días ou Eusébio Sosa ou Julián
Echenique (também conhecido como Pouca Roupa) que
tinha estrangulado uma bicha velha com uma meia de
seda, comentou em voz baixa: "Deve ter desmaiado.
Tem que ter desmaiado". Sapato Usado estava junto e
sorriu: não entendia nada. E Pouca Roupa, entendia?
Pouca Roupa pensava que já tinham sido vinte quatro
horas seguidas de tratamento no quarto andar e pensava
que aquele carajá deveria ter passado os limites, porque
tem de haver um limite, e este cara não pode contínuar
calado além desse limite, porque além do limite, pensava
Pouca Roupa, o cara diz o que querem que ele diga, fala
92
de pessoas que nem conhece, troca seu pai ou seu irmão
por umá trégua.
Durante a segunda noite, depois que desligaram o
rádio, os presos de baixo esperaram, em vão, uma voz
nova que sacudisse as paredes, entre os gritos roucos de
sempre que noite a noite diziam: me bateram, estou sem
roupa, morro de frio. filhos da puta, me arrebentaram.
"Se acabou", pensavam. Houve quem imaginou a
comunicação oficial, a tentativa de fuga, ou o suicídio
por um pulo de mais de quatro metros de altura, mas
muito antes da madrugada foram despertados nova-
mente pelo rádio a todo volume, música de dança, eee-
ra agueele cheeiro de saudaaaaaade, ressoando pelo cor-
redor, guee me traaz você a cada instaaaante, atravessan-
do as paredes, caboooclo, escorrendo pelos pátios,
êêêêta cajezinho boooooooom, e metendo-se nas celas e
nos calabouços, embora não fosse exatamente o barulho
do rádio o que tinha aberto os olhos de todos e os man-
teriam abertos pelo resto da noite.
- E? - se perguntaram, na terceira manhã.
- Dizem que continua mudo.
- Dizem que tirou o capuz e cuspiu na cara deles.
- Dizem que deu risada.
Este homem está louco, pensou o negro Viana. O
negro Viana tivera o braço forte e tivera um inimigo:
acabara com ele, com uma única punhalada deixara-o
pregado na carroceria de madeira de um caminhão: o
homem acara pendurado no caminhão, `com os olhos
abertos de assombro e um cabo de punhal duro em seu
peito e os pés balançando no ar. O negro Viana achava
que a política acaba enlouquecendo as pessoas, por me-
lhores que sejam essas pessoas. Tanta confusão por cau-
sa da política. O negro Viana pensava que o cara achava
que ia morrer: pensava que o cara pensava nos outros,
os que tinham soltado a língua, tinham apertado a pon-
ta de um lápis no peito deles e eles venderam o melhor
amigo, me venderam, me entregaram, e então, pensava
o negro Viana: Vale a pena? Para quê?
Ao seu lado, olhando para os próprios sapatos, o
garoto Oscar comentou:
- Esse cara... não sei não.
93
- Esquisito, não é?
- Sei lá.
- Estou querendo que ele morra, para que parem de
encher o saco.
O rádio continuava: meeu coraçãããão, não sei por-
queeee, baaaate felüüz.
O Zorro estava bem informado.
- Mas não disse nada? Nada?
- A cara dele está o dobro do tamanho.
Todos rodeavam o Zorro e ele garantia que daquela
cela do quarto andar não tinha saído nenhum preso, mas
ninguém acreditava nisso. Olhavam para as grades que
guardavam aquelajanelinha fechada de onde vinha o baru-
lho, o muro cinzento e muito alto escorrido de umidade, e
mais acima o céu que ia mudando de cor e ia mudando as
sobras de lugar.
- Era um lindo garoto. Parecia bem nascido.
E se está morto, pensavam, porque continuam ba-
tendo nele?
A quarta manhã nasceu nublada. Os presos do pá-
tio de baixo se apertavam uns contra os outros disputan-
do o raio de sol que abria caminho, aparecia e desapare-
cia, através dos fiapos de nuvens do céu de chumbo.
Então, trouxeram-no. Sem roupas.
Trouxeram-no arrastado e deixaram-no contra a pa-
rede. Puseram-no de costas contra a parede e ele escor-
regou e ficou deitado no chão, com a cabeça contra o
ombro: sem ossos, um boneco de trapo, um judas pron-
to para a malhação de aleluia.
Primeiro, foi o espanto. Olhavam para ele e conti-
nuavam, mudos, sem acreditar. Olhavam para ele de
uma certa distância, e ninguém se mexia. Ele não era
mais que um montinho de pele, todo cor de violeta por
causa das manchas e do frio, sem forças nem para tremer.
Finalmente, se mexeu. Apoiando-se nas costas e
nos cotovelos, tratou de se erguer e caiu. A cabeça caía
de lado, pendurada, balançando como se tivessem arre-
bentado sua nuca.
94
Várias vezes quis levantar e várias vezes ficou caí-
do, mas cada vez as costas avançavam um pouco mais
da parede acima; cada vez eram mais altas as manchas
de sangue que ia deixando.
Ninguém se animava a ajudá-lo porque ninguém
pode sentir pena de um cara assim e uns tinham vontade
de abraçá-lo mas não sabiam como se faz para abraçar
um cara assim. Havia um músculo secreto dentro da-
quele cara: o músculo secreto tinha despertado e se con-
traía e se esticava lutando a um ritmo furioso e
erguendo-o contra a morte, contra a puta morte: os po-
ros tínham-se aberto como bocas e a transpiração vinha
aos borbotõe's e era assustador que a transpiração pu-
desse mais que o ar gelado de uma manhã de inverno
dura como esta, e era assustador que ainda lhe restasse
suco para largar.
Antes do meio-dia, ficou em pé. Ficou lá, contra a
parede, com as pernas abertas e o queixo caído contra o
peito.
Foi levantando, pouco a pouco, a cara. Pôde en-
treabrir, ao poucos, os olhos inchados, enquanto aperta-
va os dentes num trejeito de dor. Não balançava mais.
Os minutos se esticavam como elásticos.
Percorre-o com os olhos a fila de presos que olha-
vam para ele sem pestanejar, cada am colado à sua própria
sombra. Olhou para eles que o olhavam, calados e
distantes, a cara torcida e a cor do sangue seco. Todos
olhavam sua cara, como esperando alguma coisa. Quis
falar e o coração deu um salto e atravessou-lhe a gargan-
ta. Mas finalmente pôde gritar: "Companheiros!", com
uma voz quebrada , e caiu.
Algumas noites depois, no hospital militar, uma
moça aproximou-se da última cama, onde ele estava.
Não havia nenhum enfermeiro na sala e os guardas esta-
vam adormecidos na porta, com os fuzis sobre os joe-
lhos.
A moça, inclinada, sussurava perguntas em seu ou-
vido. Ele respondia com os olhos, pequenas fendas aber-
tas entre os bolos inchados do rosto, e todas as imagens
de tudo que havia ocorrido se sucediam nos olhos dele e
a moça ia vendo elas passarem, como num filme. Os
olhos eram tudo de vivo que sobrava nele.
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