CEGUEIRA, UMA NOVA VISÃO DO MUNDO e
Jacques Lusseyran
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Editado pela Associação Beneficente Tobias
São Paulo
1ª edição - 1983
ïndice
Sobre o autor - 7
Apresentação - 9
Cegueira, uma nova visão do mundo - 11
O cego na sociedade - 25
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Sobre o autor
Jacques Lusseyran nasceu em Paris, no dia 19 de setembro de
1924. Em sua autobiografia, ele descreve sua infância como
feliz e seus pais como ideais. Aos oito anos de idade, ele
perde a visão num acidente na escola. Seus pais, no entanto,
resolvem conservá-lo no liceu regular, em vez de mandá-lo a
uma escola especial para cegos. Em seis semanas aprende a ler
e escrever em braille, é aceito condicionalmente pelas
autoridades escolares e se sai tão bem que, no fim do ano
letivo, lhe é concedido o primeiro prêmio da classe. O jovem
Lusseyran foi um estudante bem dotado. Sentia-se
especialmente atraído para a literatura e filosofia, mas
achava que "a matéria mais importante, o fato de que o mundo
não existe só fora de nós mas também dentro", faltava
inteiramente na classe. "Acumular conhecimentos era bom e
belo, mas a razão para os homens adquiri-los haveria de ter
maior significado, e ninguém falava disto."
Na primavera de 1941, durante a ocupação de Paris pelos
nazistas, Lusseyran
organiza "Os Voluntários da Liberdade", um grupo de
estudantes para a Resistência, o qual passa a publicar um
jornal clandestino chamado "O Tigre". Inicialmente, o membro
mais velho do grupo não tinha ainda vinte e um anos, e o
próprio Lusseyran, que havia sido eleito chefe, tinha apenas
dezessete. Sua principal tarefa era de administrar as
atividades do grupo e entrevistar candidatos potenciais,
porque ele possuía o que seus companheiros chamavam de "senso
para seres humanos". Ele podia "ver", em parte, através de
suas vozes, quem merecia confiança e quem revelar-se-ia
traidor. Em 1943, o grupo, que crescera ao ponto de ter 600
membros, se une à "Défense de la France", um dos cinco
grandes movimentos da Resistência na França. Lusseyran torna-
se membro de seu Comitê Executivo e fica encarregado da
distribuição maciça de seu jornal clandestino. Depois da
libertação da França, esse jornal se tornou o "France-Soir",
um dos mais importantes diários de Paris.
Em 20 de julho de 1943, Lusseyran é preso por agentes da
Gestapo. Ele e outros de seu grupo haviam sido traídos pelo
único homem que ele havia recrutado com desconfiança
desconfiança que ele havia ponderado e suprimido.
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Ele internado e interrogado em Fresnes e deportado em janeiro
de 1944 para Buchenwald, onde fica até ser libertado pelo
Terceiro Exército dos Estados Unidos, no dia 18 de abril de
1945. Dos 2.000 franceses que haviam ido com ele a
Buchenwald, ele foi um dos 30 sobreviventes.
Terminada a guerra, Lusseyran luta para obter um cargo de
professor na França. Apesar de haver completado "cum laude"
seus estudos na Sorbonne com uma licenciatura em Letras e
Filosofia, o ingresso na Ecole Normale Supérieure, onde
estudam funcionários públicos, tais como professores de curso
superior e diplomatas, é-lhe recusado por causa de uma lei
instituída pelo Governo Vichy, proibindo o ingresso de
"inválidos" em empregos públicos.
Tendo, eventualmente, vencido sua luta na França, torna-se
professor de curso superior e leciona durante a década de 50;
depois resolve mudar-se para os Estados Unidos.
Por vários anos leciona como conferencista convidado no
Hollins College e, em 1961 torna-se professor associado e,
depois, catedrático na Western Reserve University, de
Cleveland. Na época de sua morte, em 1971, ele estava
lecionando na Universidade do Havaí.
Em 21 de julho de 1971, Lusseyran morre num acidente de
automóvel, junto com sua terceira esposa, Marie, que era
pintora e escritora. O acidente aconteceu perto da casa de
sua mãe, em Juvardeil, na França, onde ele havia passado
muitos verões de sua infância.
Deixa quatro filhos.
Além de suas atividades normais como professor, Lusseyran fez
conferências por todos os Estados Unidos, Canadá e Europa,
falando sobre vários temas literários e filosóficos, muitos
dos quais relacionados com a cegueira. Foi também autor de
vários livros e artigos. Seu último trabalho, intitulado
"Conversations amoureuses" ainda não foi publicado.
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Apresentação
Os seguintes dois artigos relatam a experiência de um homem
com a cegueira, mas dizem respeito a questões de interesse
universal. Hoje, para muitos de nós, o mundo sensório é a
única realidade que predomina, e os nossos sentidos físicos
são os únicos canais através dos quais temos acesso a ele.
Procuramos captar a vida, o conhecimento e mesmo o amor
através dos nossos sentidos. Portanto, ser fisicamente
deficiente deveria significar uma privação dura, distorcendo
drasticamente nossa relação com o mundo e levantando
obstáculos à nossa capacidade de gozar a vida. Mas não para
Jacques Lusseyran.
Embora Lusseyran tivesse perdido a visão quando criança,
aquilo que poderia ser causa de desgosto, ele o transformou
em fonte de uma felicidade única. Através de constantes
esforços e descobertas, aprendeu que há muitas maneiras de
perceber o mundo e que a cegueira física pode levar a um
outro grau de percepção. Sua descoberta diz respeito a todos
que sofrem uma per da de qualquer natureza, sensória ou
outra. Ele achou que para cada perda pode haver um lucro
igual ou maior; para ele, a cegueira foi a portadora de
extraordinários dons.
Em sua autobiografia "Et la lumière fut", Lusseyran expressa
duas verdades que o ensinaram a amar a vida e a enfrentar
qualquer desafio que ela possa oferecer.
"A primeira verdade é que a alegria não vem de fora; pois
tudo quanto aconteça conosco, ela está lá dentro. A segunda é
que a luz não vem de fora. A luz está em nós, mesmo que não
tenhamos olhos." Para seus amigos, o mundo de alegria e luz
que ele descrevia era um belo sonho, um encantamento, como se
fosse mágica. Para ele, não era "mágica alguma, mas fato.
Nossa única mágica é a realidade."
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Cegueira - uma nova visão do mundo
Esta é a minha história: Eu via, via com meus olhos até à
idade de oito anos.
Há mais de trinta e cinco anos sou cego, completamente cego.
Sei que esta história, esta experiência, é a minha maior
felicidade.
Sei, também, o que se poderia dizer sobre isto: São só
palavras; é mero adorno poético; é um conto de fadas
consolador; é misticismo; é uma rebelião orgulhosa contra o
destino. Isto, no entanto, não é verdade para mim. Sei bem
demais que não alcancei esta felicidade lutando por ela,
senão que ela me foi presenteada, e isso de uma maneira muito
natural.
Sei também que ela não é um privilégio meu, uma propriedade
minha, e sim, uma dádiva que devo aceitar de novo todos os
dias, e que todos os cegos podem receber à sua própria
maneira.
Espero que me perdoem por começar com esta profissão de fé.
Porém, não sei dizer nada sobre cegueira que possa ser mais
importante. Estou pensando na ajuda espiritual e prática que
ela poderia dar a todos aqueles que a compartilham.
E agora me defronto com uma questão fundamental: Qual o valor
que a visão tem para nós? Ela visa a que fim? E observo que
ninguém tem uma resposta séria, nem os que vêem nem os cegos.
Bem, este silêncio é bastante natural. Por que questionar
algo que possuímos: a vida, a visão?
Aqueles que vêem não pensam nisso. Para eles, ver é um ato
simples, um bem inalienável.
Certamente eles aceitam a advertência dos filósofos que lhes
dizem: "Cuidado com a ilusão dos sentidos!" e
particularmente: "Cuidado com a ilusão dos olhos!". Porém,
aqui não é a visão que está sendo acusada, mas sim o uso que
se faz dela. Quem aceitaria a validade daquela outra
exortação: "Feche os olhos se quiser enxergar"?
Os cegos, por outro lado, poderiam fazer a si mesmos essa
pergunta; porém, não se atrevem. Eles acreditam que não têm
esse direito. Possuem, certamente, algumas respostas, mas as
escondem até para si próprios. Enterram no fundo de sua
consciência aquilo que lhes aparece como um mero sonho. No
que diz respeito à capacidade dos olhos, eles compartilham da
opinião dos que vêem, opinião em que estes os fazem crer de
novo todos os dias.
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A pressão da sociedade - daqueles que vêem - pesa duramente
sobre eles.
Qual é o valor da visão? Permitam-me que tente responder.
A visão é um sentido precioso. Aqueles que estão privados
dele bem o sabem.
Mas, antes de mais nada, a visão é um sentido prático.
Permite manejar formas e distâncias.
Todo objeto ela torna útil ou, pelo menos, usável.
A vista se nos apresenta como um prolongamento de nossas
mãos, como uma faculdade adicional de manipular. E graças aos
nossos olhos que seguimos adiante. Fazemos nossa uma parte
maior do universo. Podemos agir até mesmo onde nossos braços
e pernas não alcançam.
Por meio de nossos olhos, podemos fazer observações
simultâneas. Quando nos servimos deles, não nos é preciso
conhecer cada objeto em separado, medir as coisas em relação
às proporções de nosso corpo. Os olhos nos proporcionam
muitas vitórias magníficas sobre o tempo e o espaço. E é essa
a vantagem fundamental da visão: ela nos coloca no centro de
um mundo que é muito maior que nós.
Todavia, não são essas as qualidades de um instrumento ou
mesmo de uma ferramenta?
Suas vantagens são óbvias. Porém, não dependem inteiramente
do uso que fazemos delas?
Em resumo, possui a visão um poder próprio" ou é ela nada
mais que uma ferramenta?
É uma ferramenta muito preciosa, e os cegos que são privados
dela sofrem uma grave perda. Contudo, é apenas uma ferramenta
e, por isso, pode ser substituída.
Nisto, certamente, reside uma das maiores riquezas de nossas
possibilidades de conhecimento sensorial: não há uma
ferramenta que seja única e insubstituível. Cada sentido pode
tomar o lugar de um outro, se for usado em sua totalidade.
Agora, porém, estamos diante de uma grande dificuldade, pois
a visão é um sentido superficial.
Costuma-se dizer que a visão nos aproxima mais das coisas.
Decerto. Ela nos permite achar nosso caminho, orientando-nos
no espaço. Porém, a qual parte dos objetos ela mais nos
aproxima? Ela nos relaciona com a superfície das coisas. Com
os olhos, passamos pelos móveis, pelas árvores, pelas
pessoas.
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Este movimento ao longo das coisas, este deslizar, é
suficiente para nós.
Chamamo-lo cognição. E é aqui, creio eu, que reside um grande
perigo. A verdadeira natureza das coisas não é revelada pelo
seu primeiro aspecto. Sei que o pensamento pode corrigir a
informação que recebemos através dos olhos. Mas para esse fim
temos de pôr nosso pensamento em ação, e o turbilhão das
necessidades diárias nem sempre nos deixa tempo para isso.
A visão prefere a aparência externa; é parte de sua natureza.
Ela tende a considerar como causas, as conseqüências. Em
nossa estranha atitude para com a luz, acreditamos que nossos
olhos vêem o sol, embora percebam apenas objetos iluminados.
Por conseguinte, o perigo jaz na natureza da própria vista,
em sua rapidez, em sua utilidade. Isto é verdade
principalmente quando nos servimos dela para conhecer outras
pessoas. Pensem nos desastrosos erros de nosso julgamento,
quando o baseamos nas roupas, no penteado e no sorriso da
pessoa que encontramos. A maior parte de nosso amar e de
nosso odiar, assim como a maior parte de nossas opiniões,
depende dessas roupas, desse sorriso.
Uma pessoa se aproxima de nós. Que significa ela para nossos
olhos? Antes de mais nada, ela nos causa uma impressão
física, isto é, não existe relacionamento algum nem mesmo um
relacionamento fugaz - entre ela e nós, mas sim apenas entre
ela e a sociedade, pois é óbvio que vestuário, sorriso,
expressão facial e mesmo gestos, numa palavra, comportamento,
são patrimônio comum da sociedade.
Penso nesse jogo sem fim, um jogo que se tornou involuntário.
Nós o praticamos para chamar a atenção sobre nós mesmos. E a
arte de enganar os olhos dos outros, uma arte que toma tantos
minutos de nossas vidas. O que enganamos são os olhos. Para
eles é que trabalhamos. Sabemos muito bem que eles passarão
por nós rapidamente, e não levarão muito tempo nos
examinando.
Naturalmente, há olhos que examinam e não apenas vêem. São os
olhos de uma mãe ou de uma esposa ansiosa, os olhos de um bom
médico, de um homem sábio, de um artista e porque não - os
olhos de um humorista. Mas por que será que, no momento em
que esses olhos vêem, eles parecem meio fechados e voltados
para dentro?
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Este processo tem muitos nomes: refletir, concentrar-se,
lembrar-se. Pensando bem, é sempre um reflexo de defesa
contra a vista. Após termos recebido imagens através dos
olhos, é necessário reter essas imagens, explicá-las a nós
mesmos sem qualquer apoio visual, em resumo, dar-lhes uma
forma de existência amplamente nova: a existência interior.
Se não estivermos prontos para renunciar, pelo menos
temporariamente, às impressões que recebemos através dos
olhos, nenhuma cognição verdadeira, em minha opinião, será
possível.
Este simples fato deveria prevenir-nos contra uma grande
ilusão: a ilusão de que as formas são onipotentes.
Os seres humanos gostam de colecionar de tudo. Sonham em
multiplicar, infinitamente, fatos e experiências. Se querem
conhecer o mundo das plantas, eles então observam todas as
plantas, uma após a outra. Examinam todas as partes,
determinam divergências e similaridades; diferenciam e
classificam. Enumerar e classificar formas tornouse a função
mais importante da inteligência. O que é verdadeiro para a
pesquisa sistemática também é verdadeiro para nossa vida
diária. Para a maioria das pessoas, viajar significa ver
tudo: todas as paisagens, uma após a outra, cada paisagem em
sua particularidade, todos os recintos de uma casa. Quem não
viu todos os quartos, não viu a casa. Quem não viu todos os
advogados, todos os operários, não chegou a ver o homem que é
chamado advogado ou operário. Este é o princípio básico de
todas as enciclopédias, de todos os dicionários, de quase
todos os compêndios. Desta maneira faz-se pesquisa histórica,
pesquisa no homem e pesquisa na natureza. E depois nos
surpreendemos com sua pobreza e sua insuficiência.
Creio que a visão é responsável pela opinião predominante de
que podemos compreender o mundo e conhecê-lo completamente,
passando de uma forma à outra, de um fenômeno a outro.
Esquecemos que a própria força de movimento que conduz os
olhos de um objeto a outro não se pode realizar dentro dos
olhos. Ela, forçosamente, precede e dirige o seu
deslocamento.
Nos dias de hoje, estas observações adquirem uma importância
inteiramente nova, pois nosso mundo atual de cartazes,
anúncios luminosos, cinema e televisão se baseia inteiramente
na confiança nos olhos. Foi dito, com toda a razão, que
viemos hoje na era das imagens.
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Pois já não está na iminência de ser reduzida a imagens
externas a transmissão dos pensamentos7 Já não estamos a
caminho de um ensino inteiramente orientado para o visual?
Que um cego levante a voz, como estou fazendo, e previna os
que vêem para que se acautelem quanto ao uso de seus próprios
olhos, pode parecer descabido e até cômico.
Porém não é o processo de ver que estou atacando.
Acuso apenas uma certa idolatria. O ídolo é aquela convicção,
que é característica dos que vêem, de que a visão é a
atividade principal do espírito e suficiente para ele.
Naturalmente não se pode culpar os olhos. Pelo contrário,
eles são tão bons que deveriam mesmo ser melhorados mais
ainda.
O que, simplesmente, deve ser compreendido é que ver não é
exclusivamente trabalho dos olhos. A vista, a faculdade de
ver, existe antes do instrumento que são os olhos. Enquanto
os homens esquecerem esse fato, defrontar-se-ão
constantemente com ilusões e fracassos.
Ficarão impacientes. Hão de querer ver sempre mais e mais, e
não se reconhecerão mais no indivíduo que se encontra frente
a uma tal torrente de impressões e que as vê.
Tudo isso é do conhecimento de uma pessoa cega. Ela o sabe,
não por causa de um extraordinário dom da inteligência ou por
seu próprio mérito, mas sim naturalmente: despojado do
privilégio da vista, ele mede, ao mesmo tempo, sua perda e
seu ganho.
Sobretudo, continua a viver e a experimentar, com uma força
irresistível, esse maravilhoso intercâmbio que se realiza
entre o mundo interior e o exterior.
Deus nos concede sempre essa continuidade na vida. Quando
percebemos, em algum lugar, um muro, ou experimentamos uma
perda, uma desgraça, não foi Deus quem ergueu esse obstáculo,
mas sim nosso espírito. Ele brotou para fora da criação
perpétua. Por assim dizer, preferiu sua própria corrente de
força à corrente de força universal.
Na realidade, não existe nem muro nem perda. Tudo é
substituível e contínuo.
Assim acontece também com a luz para os cegos.
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Ouço, sempre com renovada surpresa, as pessoas mais sérias -
médicos, escritores, psicólogos - falarem da terrível "noite"
em que a cegueira nos atira. "Noite" é a palavra que todo
mundo usa, e não posso senão protestar contra ela, porque
essa palavra revela um julgamento estranho, um preconceito
ou, simplesmente, uma opinião superficial; pois como é
possível, especialmente para um médico ou um psicólogo, não
suspeitar, ao menos, do caráter principalmente relativo de
toda percepção?
Os fatos são bem diferentes de tudo o que realmente
imaginamos. Deixar de enxergar com os olhos não significa
entrar num mundo em que a luz deixou de existir.
No momento em que perdi a luz dos meus olhos, descobri que a
luz dentro de mim não diminuíra. Não era obrigado a lembrar o
que essa luz havia significado para os meus olhos, nem a
manter viva a memória desse fato: a luz estava ali em meu
espírito e em meu corpo.
Estava gravada neles integralmente. A luz estava ali,
acompanhada de todas as formas, cores e todos os contornos
visíveis, dotada do mesmo poder de aumentar, de diminuir e de
se deslocar, que possui no mundo dos olhos.
Repito: a experiência que me fora concedida não era a de uma
lembrança. A luz que eu continuava a ver sem meus olhos era a
mesma de antes. Porém, meu ponto de vista em relação a ela
havia mudado: eu me aproximara mais de sua origem.
Era como se a luz não fosse mais aquele objeto do mundo
exterior, aquela estranha iluminação, aquele fenômeno da
natureza que pode acontecer ou não, e sobre o qual temos tão
pouco poder. Em vez disso, era como se a luz, daí por diante,
envolvesse a mim e ao mundo exterior num único movimento,
abarcando-os de uma só vez.
Privado da luz dos meus olhos, eu não podia dizer que a luz
que eu via viesse de fora; tampouco podia dizer que viesse de
dentro.
E realmente: Dentro e fora tornaram-se conceitos inadequados.
Quando, muito mais tarde, durante o tempo de meus estudos,
ouvia falar da diferença entre fatos objetivos e subjetivos,
não fiquei satisfeito: via claramente que essa diferença se
baseava numa concepção errônea da percepção.
Já estamos agora bem longe da "noite" de que se costuma
falar. Aquilo que habita a cabeça de um cego é a luz.
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Devemos dizer: a sua cabeça, ou o seu coração? Ou até talvez
os seus olhos? Para que? Que diferença faz, já que a luz não
é algo nem interno nem externo, mas abarca todo o ser e
confunde as distinções que fazemos por causa do hábito. A luz
está aí! Esta é a única certeza.
Sei muito bem a objeção que poderia ser levantada: Não seria
a sua experiência uma ilusão? Você, tempos atrás, já havía
enxergado, havia conhecido cores e formas, podia nomeá-las.
Porém, o que acontece com aquele que nasce cego?
Admito que essa seja uma objeção de peso; e o seria ainda
mais, se não tivéssemos o testemunho dos cegos de nascença
que foram curados. Sem dúvida, todos afirmam que a luz, tal
como se revelou aos seus olhos, foi uma surpresa para eles,
uma nova descoberta.
Mas, ao mesmo tempo, confessam que antes de poderem ver com
seus olhos, traziam, dentro de si mesmos uma contrapartida
dessa luz.
E assim tudo é luz nesta cegueira; e essa luminosidade
manifesta ainda contém uma lição magnífica. Desde minha
infância, me impressionara com um fenômeno de uma nitidez
surpreendente: a luz que via se modificava conforme meu
estado interior.
Em parte, isso dependia de minha condição física; por
exemplo, cansaço, repouso, tensão ou relaxamento. Mas isso
era relativamente raro. As verdadeiras mudanças dependiam do
meu estado de alma.
Quando estava triste, quando tinha medo, todos os matizes
escureciam e todas as formas se tornavam indistintas. Ao
contrário, quando estava alegre e atento, todas as imagens
clareavam. Rancor ou escrúpulos mergulhavam tudo na
escuridão. Uma resolução magnânima, uma decisão, corajosa,
emitiam um claro raio de luz. Pouco a pouco, aprendi a
distinguir que amar significava ver e odiar significava
cegueira e noite.
Desta maneira compreendi que a moral (não a moral social, mas
a espiritual) não era simplesmente um conjunto de normas
abstratas, mas sim uma ordem bem disposta, uma seqüência de
fatos, como um manejar da luz.
Passei pela mesma aventura em relação ao espaço. Quando
fiquei cego, descobri que existia um espaço interior. Este
espaço também mudava suas dimensões conforme o meu estado de
alma.
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Tristeza, ódio ou medo não somente escureciam meu universo,
como também o reduziam.
O número de objetos que eu, com um olhar, podia abranger
dentro de mim diminuía.
No sentido exato da palavra, eu me chocava contra tudo. Seres
e coisas se tornavam obstáculos dentro de mim mesmo.
Externamente, não conseguia deixar de colidir com portas e
móveis.
Era castigado rapidamente e da maneira mais completa.
Entretanto, pelo contrário, coragem, atenção, alegria, tinham
o efeito imediato de alargar e clarear o espaço. Logo, tudo
dentro de mim existia em abundância: uma grande quantidade de
objetos, imagens, seres. Via diante de mim uma paisagem
grandiosa. Sabia que essa paisagem podia se expandir
indefinidamente; para conseguir isto, minha alegria tinha
simplesmente que aumentar.
Ao mesmo tempo, minha destreza física progredia; aprendi a me
orientar e a me mover com segurança. Em resumo, havia duas
possibilidades: rejeitar o mundo - e isto significava
escuridão, revezes -, ou aceitá-lo, o que significava luz e
força.
Acho que esta minha explanação não representa algo
particularmente novo, a não ser que se leve em conta o
caráter experimental, concreto e manifesto dos fatos
descritos. A descoberta que a cegueira possibilitou foi, sem
dúvida, a da existência de uma vida interior.
De inúmeros encontros com pessoas cegas e de inúmeras
perguntas que lhes fiz, fiquei sabendo que os outros haviam
tido experiências similares. Contudo, a maioria não fala só
bre elas.
Para poder descrever essas experiências é necessário, sem
dúvida, um certo material técnico; é preciso dominar uma
linguagem especial, a da psicologia, e estar habituado a um
certo tipo de análise. Mas isso não é assim tão difícil, e
muitas pessoas cegas têm essas possibilidades.
Todos nós sabemos o quanto nossas experiências, especialmente
nossas experiências internas, dependem da língua. No entanto,
a língua é, antes de mais nada, uma ferramenta da
coletividade. Pode-se dizer que ela é a ferramenta da
maioria.
As palavras de que os cegos se servem são as palavras dos que
vêem. Eles tomaram emprestado todas elas, e os que vêem não
aceitam de muito bom grado o fato de que os cegos fazem delas
um uso tão positivo. Os que vêem são dados à intolerância.
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Um cego é um inválido; é um incapacitado, ou seja, um
excluído da sociedade, e não é levado em conta. Ele recebe
compaixão e até ajuda, mas quase todo mundo prefere ouvi-lo
lastimar-se, revoltar-se, censurar-se por ser diferente, do
que ouvi-lo descrever, com segurança, o mundo que ele traz
dentro de si. Freqüentemente, os cegos sentem, de maneira
bastante dolorosa, a dúvida e a descrença com que sua
experiência pessoal é recebida.
Em conseqüência, ou os cegos se isolam do mundo e levam uma
vida cheia de hábitos estranhos, aumentando assim ainda mais
o abismo que os separa do mundo dos que vêem, ou dirigem seus
esforços no sentido de fazer com que os outros esqueçam sua
cegueira.
Raramente, muito raramente, eles se apresentam, realmente,
como cegos, e como quem deseja exercer sua função como cego.
Acredito que a cegueira tenha uma função própria. Ela tem a
tarefa de nos lembrar que o despotismo de um dos nossos
sentidos, a visão, não se justifica, e de nos acautelar
contra a forma de percepção que atualmente predomina. Mais
ainda: sua tarefa não é apenas a de evocar em nós a origem de
todo saber, mas também fazer com que nos lembremos do dom
maravilhoso que nos permite um intercâmbio entre outras
formas de percepção e imagens percebidas.
Os cegos sabem, por experiência direta, que o ato de ver tem
prioridade sobre a visão no sentido usual, a visão externa.
Acho importante que eles não escondam esse conhecimento.
Sobretudo, considero importante que o cego e aquele que vê
comparem o que vêem. Eles deveriam se reunir, antes de
pronunciar qualquer julgamento, e antes de estabelecer
qualquer regra de classificação para a visão interna e
externa; deveriam comparar suas experiências, ficar cientes
de sua mútua riqueza de experiências. E tanto um como o outro
deveriam aceitar suas respectivas limitações. Estou
convencido de que essa comparação efetuaria um valioso
trabalho. Estou convencido de que, depois de um tal
intercâmbio de pensamentos, os limites de ambos os tipos de
percepção, limites que deveriam ser conhecidos, surgirão com
uma nova claridade.
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Para que esta comparação, entre o mundo que os olhos vêem e o
mundo percebido sem olhos, ficasse perfeitamente
compreensível, deveria ser conduzida pelos dois lados.
Esperemos que um dia este diálogo seja levado a cabo com toda
franqueza!
Contudo, acredito que hoje já seja possível fazer uma relação
provisória das faculdades dos cegos. Hoje, em geral, se diz
que a perda da visão imediatamente faz com que os outros
sentidos se desenvolvam mais, e que haja uma compensação.
Isso é verdade. É verdade que os cegos ouvem melhor do que os
que vêem. Os sons lhes dão a possibilidade de perceber
distâncias e até vultos.
A sombra de uma árvore no caminho não constitui apenas um
fenômeno visual. É também audível. O carvalho, o choupo, a
nogueira, têm seus níveis específicos de som.
Penetra-se na tonalidade de um plátano como se penetra numa
sala. Reconhece-se nisto uma certa ordem do espaço, zonas de
tensão e zonas de livre passagem. A mesma coisa é válida para
um muro ou toda uma paisagem.
Todas as graduações da luz têm graduações correspondentes no
som. Aquilo que escuto, debruçado na minha janela, sob um
cinzento céu nublado, é indolente. Todos os sons se tornam
fracos. Movimentam-se em pequenos grupos desconexos. Circulam
num único plano espacial. Aquilo que escuto quando o sol
brilha possui uma vibração muito mais, intensa.
Objetos reais, emitindo sons, começam a aparecer. Os sons
vagueiam à vontade, encontrando-se de acordo com sua
afinidade, e se combinam em formas.
Uma pessoa cega ouve melhor, e isto é bom; pois ela ouve
aquilo que não vê. Um cego possui um melhor senso de sentir,
de paladar e de tato. Deveria ser-lhe dito o quanto os seus
sentidos guardam em reserva para ele. Contudo, me parece que,
antes de mais nada, deve-se chamar sua atenção para a
condição que leva a uma tal amplitude dos sentidos.
Essas condição não é simplesmente o fato de não mais poder
ver. Nem significa que seja dada, aos sentidos remanescentes,
uma nova estrutura. A condição necessária é muito mais
simples: deve-se estar atento. Uma pessoa realmente atenta
poderia identificar tudo. Para esse reconhecimento, ela não
precisaria de nada que tivesse ligação com os sentidos. Para
ela não existiria nem luz, nem som, nem a forma peculiar a
cada objeto, mas cada objeto se revelaria a ela em todos os
seus aspectos possíveis.
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Em outras palavras, ela penetraria completamente em seu mundo
interior.
Os sentidos continuariam a existir, porque seu papel como
intermediários naturais foi estabelecido pela própria ordem
da criação. Porém, eles não mais funcionariam
independentemente, uns separados dos outros, como erradamente
supomos que deveriam.
E justamente dessa "atenção total" que as pessoas que vêem se
desviam constantemente.
Assim também os cegos, porém não até o mesmo grau. É para
eles uma necessidade prática permanecerem atentos, e esse
simples fato constitui o primeiro dos seus dons.
A audição, o olfato, o tato! Sinceramente, hesito em fazer
essas diferenciações, pois receio que sejam arbitrárias.
Sabe o cego realmente o que percebe quando, caminhando pela
calçada, indica subitamente que reconheceu uma brecha num
muro ou numa construção, ou quando ele pára a pouca distância
de um obstáculo, sem tê-lo tocado nem mesmo de leve?
Pode ele expressar em palavras aquela experiência? Creio que
não. Se o perguntarmos, dirá que ouviu algo. Uma leve
ressonância, um movimento do ar, como a aproximação muito
vagarosa de um objeto. Mas essa explicação seria apenas uma
concessão à linguagem geralmente usada.
Ele não ouvia; tocava. A audição e o tato talvez sejam a
mesma percepção sensorial. O fato de ter o cego apontado a
brecha no muro significa que a área livre de cimento ou
pedras já se apoderara de todo o seu corpo; ou seja, que, com
toda a superfície de seu corpo, ele já havia experimentado
aquela forma e seu poder de resistência. Significa até que
ele já havia passado através da abertura.
Creio que todos os nossos sentidos se unem num só. Eles são
estágios sucessivos de uma única percepção, e essa percepção
é sempre apenas uma percepção de tato.
Portanto, a audição pode substituir a visão, e a visão, o
tato. Em conseqüência, nenhuma perda é irreparável.
-- Página 22
A essa altura me pergunto se é possível que aquilo que
chamamos de "atenção" seja a forma psicológica desse contato
fundamental, forma essa baseada tanto na sensação como no
intelecto. Em outras palavras: seria a atenção uma espécie de
tato?
Uma pessoa cega encontra-se numa sala; entra um homem, senta-
se e não fala.
Pode o cego chegar a conhecê-lo? O senso comum diria que não.
Mas não tenho certeza de que esse senso comum tenha razão. O
cego é capaz de intensificar sua atenção; ele pode se abrir a
tal ponto que esse homem imóvel chegue mais perto dele. Pouco
a pouco, silenciosamente e sem se mexer, ele pode remover
todos os recônditos obstáculos que o separam do outro e que
se encontram no interior de todos nós, e pode começar a
absorver a aparência desse homem.
Sei que uma tal experiência vai até os limites da cognição;
sei que ela quase nunca é realizada conscientemente. No
entanto, acredito que todo cego já a tenha tido, quer
estivesse cônscio disto, quer não.
O que se diria neste caso? Teria o cego desenvolvido um poder
superior? Com a ajuda do espírito, teria ele transcendido as
condições normais de percepção? Creio que se deveria dizer
simplesmente: Ele tocou.
Usei como exemplo uma pessoa cega. Da mesma forma eu poderia
ter falado de uma pessoa que vê, pois - repito - o mérito
especial da cegueira não consiste em criar uma experiência
diferente, mas sim em nos levar, por necessidade, a uma
experiência elevada.
Alguns chamaram este tato fundamental de "sentido de
obstáculos". Tentaram até atribuir-lhe uma determinada parte
do corpo. Uns queriam localizá-lo, de acordo com a tradição
da fisiologia esotérica, na região da testa, no "olho de
Shiva"; outros, seguindo uma hipótese puramente racional,
falaram de uma concordância, de uma mistura de sensações
elementares de caráter visual, as quais estariam situadas,
principalmente, em certos pontos de nossa pele.
Esta é a famosa tese de Jules Romain, formulada em sua
monografia sobre "Visão Paraótica" ou a "visão que ocorre
fora da retina".
No que me diz respeito, prefiro me restringir a uma
observação mais direta.
Aquilo que um cego sente na presença de um objeto é uma
pressão. Estando de pé diante de um muro que ele nunca tocou
e não está tocando no momento, ele sente uma pressão física:
o muro, por assim dizer, cai sobre ele.
-- Página 23
Uma emanação sutil se exala do muro e, no momento em que ela
se encontra com outra emanação que se origina no cego, tem
lugar a percepção consciente.
Por conseguinte, a percepção significaria entrar num
equilíbrio de pressão, num campo de forças. Assim que
prestamos atenção a esse fenômeno, o mundo se revela de uma
maneira surpreendentemente diferente. Nenhum único objeto,
nenhum só indivíduo permanece neutro. A unidade do mundo é
vivenciada como um acontecimento físico.
A pressão pode assumir todas as formas: absorção,
transferência, cooperação. Tudo entra num relacionamento
íntimo e ativo conosco - a janela, a rua, as paredes do
quarto, a mobília, o leve movimento do ar, os seres vivos.
Finalmente, até os próprios pensamentos adquirem peso e
direção.
Esta é a experiência do cego, mas é também - disto estou
convencido - uma experiência comum. As pessoas que vêem
também experimentam esses efeitos de pressão, mas não os
deixam entrar em suas consciências.
Todavia, parece-me que elucidariam um grande número de
estados de espírito, bastante vagos mais importantes:
simpatia, antipatia, sensação de mal-estar, boa-vontade, o
desejo de ficar ou de fugir, oposição, devoção.
Existe a tendência de explicar estes estados a todo custo
psicologicamente: considero-os como sendo muito mais simples.
Eu disse "pressão". Disse "emanação". Poderia também ter me
expressado diferentemente e falado sobre um "campo
vibratório". Essa vibração básica, que dá forma aos objetos e
revela os seres, é para mais perto dela que somos conduzidos
pela cegueira.
Não me parece conveniente levar mais longe esta análise,
porque penetramos no domínio da experiência pessoal. Quando
desejamos transmitir nossas experiências a outras pessoas, o
único modo é explicar e tornar a explicar, e com todos os
detalhes.
Quis chamar a atenção para o caráter estranhamente unilateral
de nossa psicologia da percepção. O preconceito que,
arbitrariamente, eleva a visão à sua posição todopoderosa
ocultou, à maioria dos pensadores, aquilo que torna possível
a visão, assim como todas as outras percepções sensoriais e,
de uma forma geral, nosso relacionamento com o mundo.
-- Página 24
Por todas essas razões, o cego tem o direito de dizer: A
cegueira alterou minha visão, mas não a extinguiu.
E agora espero que vocês possam aceitar com mais facilidade o
meu paradoxo, a profissão de fé que fiz no início: A cegueira
é a minha maior felicidade! A cegueira nos dá uma grande
felicidade. Ela nos dá uma verdadeira oportunidade, tanto
através da desordem quanto da ordem que ela cria.
A desordem é a peça que ela nos prega, a leve alteração que
causa: força-nos a enxergar o mundo de um ponto de vista
diferente. Essa desordem é necessária, pois a principal causa
de nossa infelicidade e de nossos erros é que nossos pontos
de vista são fixos.
Quanto à ordem gerada pela cegueira, ela é a descoberta da
criação constantemente presente. Acusamos sempre as condições
de nossas vidas; nós as chamamos de incidentes, acidentes,
doenças, obrigações, defeitos. Desejamos impor nossas
próprias condições à vida: é aí que reside nossa verdadeira
fraqueza. Nos esquecemos de que Deus nunca nos cria novas
condições sem nos dar a força para enfrentá-las. Sou grato à
cegueira que não me permitiu esquecer isto.
Gostaria de que esta atitude fosse considerada "otimista", se
bem que, hoje em dia, o otimismo não seja muito bem visto.
Este é o meu desejo, porque não posso admitir que se deprecie
o valor de uma experiência, somente por ser uma experiência
feliz.
Os cegos vêem à sua maneira, mas realmente vêem. Para eles
isso não é um consolo. É um fato que lhes acarreta tantos
riscos e obrigações quanto os que a visão acarreta para
aqueles que dispõem da luz de seus olhos.
-- Página 25
O cego na sociedade
A longa viagem que me trouxe do meio do Oceano Pacífico até à
Suíça e que me dá hoje a alegria de me encontrar com vocês se
realizou por causa de um livro. Escrevi esse livro
primeiramente na minha língua materna, o francês, e lhe dei o
nome "Et la Lumière Fut".
Depois, publiquei-o em inglês, nos Estados Unidos e na
Inglaterra. Finalmente, foi traduzido para o alemão, com o
título "Das wiedergefundene Licht". É a história de minha
vida ou, antes, daquilo que a vida me ensinou, desde a idade
de sete anos e meio, quando, num acidente, perdi, completa e
irreparavelmente, a visão - até a primavera de 1945, aquele
momento em que saí com vida do campo de concentração
Buchenwald, na Alemanha nazista.
Esse livro é, indubitavelmente, o mais pessoal de todos os
que escrevi até hoje - o mais pessoal e quase que o mais
íntimo. Contudo, é aquele que me tem dado até agora a
oportunidade de entrar em contato com o maior número possível
de meus semelhantes. Isto não me surpreende. Pois, sempre que
nos damos ao trabalho de sondar as profundezas de uma
experiência e extrair dela tudo o que ela contém, do mais
simples e do mais oculto, cessamos de falar só e unicamente
de nós mesmos: entramos nos domínios daquilo que é mais
precioso, nos domínios da experiência universal, aquela
experiência que compartilhamos com os outros.
Portanto, não vou pedir desculpas por lhes contar hoje um
pouco mais de mim.
Aquilo que um homem descobriu em sua vida - por mais singular
e única que ela seja pertence a todos.
E se suas descobertas podem elevar e enriquecer a vida de
outros, é sua obrigação falar delas.
Pois bem, é este o meu caso. O que trinta e sete anos de
cegueira me ensinaram - devo admitir - foi fazer grandes
esforços; porém, eles são mais do que esforços: são também
descobertas. Mal posso esperar para lhes contar algumas
delas.
Apenas dez dias após o acidente que me roubara a vista, fiz a
descoberta fundamental.
Estou ainda como enlevado nela. Só posso descrevê-la com
palavras claras e diretas: eu perdera totalmente a visão; não
podia mais enxergar a luz do mundo.
-- Página 26
Contudo a luz continuava ali.
Ela estava ali. Tentem imaginar como isto deve ter
constituído uma surpresa para mim, menino que ainda não tinha
oito anos. É verdade que não podia mais ver a luz fora de
mim, a luz que ilumina as coisas, que está associada a elas e
influi nelas; todo mundo estava convencido de que eu a
perdera para sempre; mas a reencontrei em outro lugar.
Encontrei-a dentro de mim mesmo, e - que milagre! - ela
estava intacta.
Contudo, este "dentro de mim mesmo" - onde se encontrava? Em
minha cabeça, em meu coração, em minha imaginação? Não sentem
vocês que tais indagações são de natureza puramente
intelectual e dignas somente daqueles que já esqueceram a
simplicidade e o poder indiscutível das experiências
genuínas? Para mim - eu tinha oito anos de idade e vivia em
vez de pensar para mim, a luz estava presente. Sua fonte não
cessara. Eu sentia que ela continuava jorrando a todo momento
e transbordando, sentia o quanto ela desejava espalhar-se
pelo mundo afora. Era só recebê-la. Ela estava
inevitavelmente presente. Estava toda lá, e eu reencontrei
seus matizes e movimentos, isto é, suas cores, as quais eu
havia amado tão apaixonadamente poucas semanas antes.
Vocês compreendem que isto era algo inteiramente novo, tanto
mais que contradizia tudo aquilo em que acreditavam aqueles
que têm olhos. A origem da luz não se encontra no mundo
exterior. Só acreditamos que esteja lá em virtude de uma
ilusão comum. A luz habita onde a vida também habita: dentro
de nós.
Contudo, tive de me esforçar para achar meu caminho entre as
portas, as paredes, os homens e as árvores. Como acontece com
todos os cegos, eu me machucava freqüentemente. Porém, não
demorei a aprender que esbarrava nas coisas unicamente quando
me esquecia da luz. Quando não deixava de prestar atenção à
luz, corria muito menos perigo. Quase que imediatamente
depois disto veio a segunda grande descoberta.
Havia apenas um meio de poder contemplar a luz interior:
amar.
Quando eu era vencido pela tristeza, quando me deixava
arrebatar pela cólera, quando invejava aqueles que possuíam a
luz de seus olhos, a luz imediatamente diminuía.
æs vezes se apagava por completo. Então, eu ficava cego.
Porém, esta cegueira era um estado de não mais amar, era
estar triste; não era ter perdido a visão.
-- Página 27
Falei-lhes de descobertas. Essa foi uma delas, e era tão
grandiosa que, muitas vezes, toda uma vida repleta de
Religião e Moralidade não basta para que os outros possam
realizá-la.
Em outro aspecto, também, desejo deixar dito, fui
extremamente afortunado.
Tive pais que compreenderam. Nem minha mãe nem meu pai
demonstraram, alguma vez, piedade pela minha sorte. Nunca
usaram em minha presença a palavra "infortúnio".
Especialmente meu pai que possuía uma profunda compreensão da
vida espiritual logo me disse: "Conte-nos toda vez que fizer
uma descoberta". Descobrir cada vez mais! Ele tinha razão.
Não se trata de consolar, nem aqueles que perderam a visão,
nem os que sofreram outras perdas - a fortuna, a saúde ou um
ente querido. Em vez disto é preciso mostrar-lhes o que essa
perda lhes traz, e quais as dádivas que recebem em lugar
daquilo que perderam. Porque sempre recebemos dádivas. Deus
assim o quer. A ordem se restabelece; nada jamais desaparece
completamente.
Eu soube disso aos oito anos de idade, porque havia
reencontrado a luz. Desde aquele momento, a cegueira se
tornou, para mim, uma experiência fascinante e uma tentativa
de viver uma vida nova.
Já não podia ler com meus olhos. Porém, que importava?
Desenhava, dentro de mim, letras e palavras numa tela, maior
e mais luminosa do que todos os quadros negros, e, dentro de
poucas semanas, pude aprender a escrever de novo, em Braille.
Com meus olhos, eu não via nem o sol, nem as plantas, nem os
rostos. Mas bastava que o calor do dia me tocasse, que uma
árvore aparecesse ao longo do caminho, que uma voz me
chamasse, e imediatamente aqueles seres e aquelas coisas
surgiam na minha tela interior. Só faltava aprender algumas
técnicas simples, a fim de enfrentar os problemas do dia-a-
dia - as únicas que ainda podiam ser consideradas
dificuldades: escrever em Braille, ler em Braille o mais
fluentemente possível, bater a uma máquina de escrever comum,
pois era necessário poder entrar em contato direto com os que
viam. Felizmente, aprendi tudo isto muito cedo em minha vida,
dos oito aos dez anos de idade.
-- Página 28
Além disto, meus pais haviam resolvido deixar-me ficar entre
meus colegas que viam. Foi uma decisão ousada. Uma escola
especializada para cegos teria oferecido maiores garantias, e
ainda hoje acredito que, para a maioria dos cegos, uma escola
especial seja mais eficiente e mais vantajosa. Contudo, a
obrigatoriedade de viver sob as mesmas condições que todos os
outros me ensinou muita coisa.
Eu tinha de esquecer que era cego. Tinha de parar de pensar
no assunto. Pude comparar minhas experiências com as dos
outros, e compreendi bem rapidamente que minha cegueira me
preservava de uma grande desgraça: a de conviver com egoístas
ou tolos.
Somente aqueles que eram capazes de ser generosos e
compreensivos procuravam minha companhia.
Para mim, a escolha de meus camaradas era bem mais fácil do
que para os outros.
Não conheci rapazes e moças que esperavam da amizade apenas o
lucro pessoal, porque esses nunca se aproximavam de mim.
Assim, conheci os melhores, tanto na escola primária, como
depois no ginásio, em Paris, sem jamais ter de me preocupar
com isto. Eles estavam ali, perto de mim, comigo. Eles me
interrogavam, e eu os interrogava de volta.
Ajudaram-me a viver como se tivesse olhos, ajudaram-me a
correr, a subir em árvores, andar de barco e, às vezes, a
furtar maçãs. E, para sua maior surpresa e, muitas vezes,
para surpresa minha, eu lhes ensinava a ver melhor.
Graças à minha cegueira, eu havia desenvolvido uma nova
faculdade. A rigor, todo homem a possui, mas quase todos se
esquecem de usá-la. Essa faculdade é a atenção.
Para poder viver sem olhos, é necessário estar muito atento,
ficar horas e horas num estado de vigilância e, ao mesmo
tempo, de receptividade e de atividade. De fato, a atenção
não é, simplesmente, uma virtude da inteligência ou resultado
de educação, e algo de que se pode prescindir com facilidade:
é um estado de ser. É um estado sem o qual nunca seremos
capazes de nos aperfeiçoar. No seu sentido mais exato, ela é
o posto de escuta do Universo.
Eu era muito atento. Era mais atento que qualquer um dos meus
companheiros.
Todos os cegos o são ou podem ser. Assim, adquirem o poder de
estar completamente presentes, às vezes até mesmo o poder de
transformar a vida ao seu redor, um poder que a civilização
distraída do século XX não possui mais.
Estar atento abre uma esfera da realidade de que ninguém
suspeita.
-- Página 29
Se eu, por exemplo, passeava por um atalho sem prestar
atenção, completamente imerso em mim mesmo, nem sabia se
havia árvores ao longo do caminho, ou qual o seu tamanho, ou
se elas tinham folhas. No entanto, quando despertava minha
atenção, cada árvore, imediatamente, se fazia presente. Isto
deve ser tomado bem ao pé da letra: cada uma das árvores
projetava sua forma, seu peso, seu movimento - mesmo quando
estava quase imóvel - em minha direção. Eu podia apontar o
seu tronco e o lugar de onde saíam os primeiros galhos, mesmo
quando estava a vários metros dela. Pouco a pouco, algo novo
se me tornava evidente, algo que nunca se encontra nos
livros: o mundo exerce de longe uma pressão sobre nós.
Aqueles que vêem cometem um estranho engano: acreditam que
conhecemos o mundo somente através de nossos olhos. De minha
parte, descobri que o Universo consiste de pressão, que cada
objeto e cada ser vivo se revelam a nós, em primeiro lugar,
por uma espécie de pressão muito suave e inequívoca, que nos
revela sua intenção e sua forma.
Passei por uma experiência maravilhosa que foi a seguinte:
uma voz, a voz de uma pessoa, faz com que ela apareça como
uma imagem. Quando a voz de uma pessoa me alcança, percebo
logo sua figura, seu ritmo e a maioria de suas intenções.
Mesmo as pedras pesam sobre nós à distância, e assim também
os contornos das montanhas distantes e a súbita depressão de
um lago no fundo de um vale.
Essa comunicação é tão exata que eu, passeando de braço dado
com um amigo pelos caminhos dos Alpes, sabia como era a
paisagem e, algumas vezes, era capaz de descrevê-la com uma
clareza surpreendente. Algumas vezes; sim, apenas algumas
vezes. Eu o conseguia quando convocava toda minha atenção.
Permitam-me que diga com toda franqueza: se todos os homens
fossem atentos, se encarregassem de sê-lo em todos os
momentos de suas vidas, redescobririam o mundo; veriam
subitamente que o mundo é inteiramente diferente do que
acreditavam que fosse. Toda a ciência se tornaria obsoleta
num instante, e nós penetraríamos no milagre da cognição
imediata.
Essa cognição imediata e completa, eu lhes asseguro, não a
possuo. Os cegos não a têm.
Todavia, têm uma chance adicional quando tentam aproximar-se
dela.
-- Página 30
Aos dezessete anos de idade, formei-me no colégio e entrei na
Universidade.
Porém, isto já não era essencial para mim. A falsa paz entre
as duas guerras tinha chegado ao fim. A Europa se lançara no
pior conflito de sua história, e minha pátria, a França, fora
conquistada em cinco semanas. Paris estava ocupada pelos
nazistas.
Como vocês podem imaginar, muitas vezes me perguntaram como
me fora possível participar da Resistência e prestar valiosos
serviços a ela. Com mais freqüência ainda me perguntaram por
que eu, um cego, escolhera fazer isso. Permitam-me que o
explique de uma maneira mais simples do que jamais o havia
explicado antes.
Durante os primeiros meses da ocupação, experimentei algo
como uma segunda cegueira.
Isso aconteceu embora eu não fosse nacionalista. A ocupação
da França fora um choque para mim; porém, pensava na opressão
de toda a Europa ainda mais do que no terrível e todo-
abrangente fato da ocupação em si. Além do mais, nem eu nem
minha família éramos anti-alemães. Eu tinha estudado, cheio
de respeito e fascinação, a cultura e a língua alemã.
Contudo, essa segunda cegueira, a ocupação nazista, eu a
experimentei tal como a primeira.
Nove anos antes, a luz externa me havia sido tirada. Desta
vez, tiraram-me a liberdade externa. Nove anos antes, eu
reencontrara, dentro de mim, a luz, intacta e até
fortalecida.
Desta vez, encontrei dentro de mim a liberdade, presente e
exigente como sempre.
Em poucas semanas, compreendi que o destino esperava de mim,
pela segunda vez, a mesma tarefa. Havia aprendido que a
liberdade era a luz da alma.
Ninguém tem o direito de interferir com o livre-arbítrio dos
homens ou com o seu autorespeito. Ninguém tem o direito de
assassinar em nome de uma idéia - muito menos em nome de uma
idéia insana. Lembrar-me sem cessar de que a liberdade
existia, e lembrar constantemente esse fato a todos que
encontrava, tornou-se para mim um dever, tão incontestável
quanto o de manter viva a luz atrás dos meus olhos fechados.
Não houve nenhuma outra razão para minha entrada no movimento
da Resistência. Mas houve a dificuldade de como consegui-lo.
-- Página 31
Já tinha resolvido muitos problemas, problemas relacionados
com meus estudos, com a inteligência e com a vida interior.
Porém, agora deparava com um muito difícil: como poderia eu
encontrar um lugar na sociedade dos outros, a fim de mostrar
que era útil e necessário a eles e com eles? Jamais um cego
seria admitido num grupo da Resistência.
Ninguém poderia visualizar um lugar para ele.
Por isso, na primavera de 1941, fiz aquilo que, sem dúvida,
tivesse eu ainda a luz dos meus olhos, nunca teria feito de
uma forma tão completa e repentina: Formei, eu mesmo, um
grupo no movimento de Resistência.
Em tomando a iniciativa, imediatamente invalidei todos os
preconceitos. Apenas pela minha resolução, já havia provado
que precisavam de mim. E isso, realmente, não foi difícil.
Um trabalho feito às ocultas requeria mãos e olhos, mas
também coragem e pensamentos claros. Também era necessária
uma convicção que não dependia de uma idéia, mesmo que fosse
uma idéia honesta, mas sim de uma experiência adquirida dia
após dia. Essa convicção, eu a possuía.
Tudo mais aconteceu como que por si mesmo. Reuni em volta de
mim várias centenas de jovens, na maioria estudantes.
Editamos e publicamos um periódico clandestino.
Formamos pequenos grupos de ação que pudessem tornar-se um
dia, os quadros de um movimento nacional. De fato, no começo
de 1943, eu e 600 dos meus camaradas pudemos, finalmente,
unir-nos ao movimento "Défense de la France", um dos cinco
mais importantes grupos não comunistas do movimento da
Resistência. Repito: Não tenho certeza de que me teria saído
bem sem minha cegueira. Foi o líder cego a quem todos os meus
camaradas escolheram e em que acreditavam. Desde a primeira
hora, assumi toda a responsabilidade pelo alistamento de
novos membros. Cada novo candidato era apresentado a mim, e
somente a mim. Eu conversava com ele bastante tempo. Dirigia-
lhe aquele olhar especial que a cegueira me ensinara. Era
muito mais fácil para mim do que para qualquer outra pessoa
despojá-lo de todas as aparências. Sua voz expressava seu
interior e, às vezes, o denunciava.
Finalmente, me era possível fazer uso daquela vida interior
que o destino me forçara a descobrir tão cedo e tão a fundo.
-- Página 32
Servia-me dela para saber melhor o que eu mesmo queria, e
para averiguar do que os outros eram capazes. A habilidade de
concatenar pensamentos e sentimentos, de ordenar, no meu
coração e meu espírito, o mundo sem a ajuda de objetos,
podia, finalmente, ser utilizada para uma tarefa, cujas metas
transcendiam a minha pessoa. Tenho certeza de que, durante
mais de dois anos, nenhum dos meus camaradas jamais pensou
nas limitações que a cegueira impunha ao meu trabalho. Eu não
podia andar armado, nem percorrer as ruas de Paris com um
saco de jornais clandestinos ao ombro, nem me pôr em campo
para descobrir uma base militar alemã. Meus camaradas iam em
meu lugar. Porém, antes de saírem, vinham a mim para saber o
caminho; depois voltavam a mim para relatar seus triunfos, e
era minha tarefa fazer um balanço dos resultados e decidir
sobre novas ações.
Em poucas palavras - perdoem-me esta declaração que faço
novamente contra minha vontade -, descobri que não existe
cegueira quando se trata de refletir, de querer, de planejar
alguma coisa, ou mesmo de ajudar os homens a viverem. E
quando, em 1943, unira meu pequeno pelotão à "Défense de la
France" e me tomara, de repente, um membro de seu "Comité
Directive Clandestine" e responsável pela distribuição de um
jornal que saía de 15 em 15 dias, com uma tiragem de mais de
250.000 exemplares, ninguém ao meu redor se surpreendeu
realmente.
O teste a que fui submetido um pouco mais tarde foi de
natureza inteiramente diferente.
Em julho de 1943, fui preso pela Gestapo. Isto aconteceu,
como no caso de quase todos os combatentes da Resistência,
por causa de uma traição; sem traidores, a Gestapo nunca
teria podido lançar sua rede sobre uma só organização
clandestina. Fui interrogado durante quarenta e cinco dias;
fiquei preso durante seis meses e, em janeiro de 1944, fui
levado para o campo de concentração de Buchenwald. Desta vez,
minha sorte não tinha nada de extraordinário.
É impossível dizer em poucas palavras o que era um campo de
concentração, e não tentarei fazê-lo. Além do mais, haveria
na Europa uma só pessoa que não o soubesse?
Porém, eu não era um preso igual aos outros, pois era cego.
Devo ao menos contar-lhes porque sobrevivi.
-- Página 33
Dos 2.000 franceses que chegaram em Buchenwald no mesmo dia
que eu, apenas trinta estavam vivos quando o Terceiro
Exército Norte-Americano libertou o campo. O fato de eu ainda
estar aqui é um daqueles trinta milagres. Meus 29 camaradas
não podem explicar melhor que eu.
Contudo, não hesito em dizer que devo à minha cegueira, mais
do que a qualquer outra coisa, o fato de ter sido capaz de
agüentar. Não tomem isto no sentido físico.
Se consegui ser tolerado num campo onde os nazistas
aniquilavam sistematicamente, todos aqueles que classificavam
como "incapazes para o trabalho", foi porque eu havia
encontrado uma maneira de ser útil à comunidade dos
prisioneiros. Tornara-me intérprete. E essa era uma função
real. Não agia como intérprete entre meus camaradas e os
nazistas - estes nos ignoravam, a não ser nas horas de
extermínio -, mas entre meus próprios camaradas. Nessa
comunidade internacional que vivia debaixo do terror era
muito importante falar francês, alemão e, mais tarde, um
pouco de russo. Eu estabelecia as comunicações, transmitia
notícias; conseguia escutar as falsas notícias do alto
comando da Wehrmacht e as explicava aos meus companheiros,
decifrando e corrigindo-as. Essa atividade assegurou-me um
lugar entre eles. Já não era mais um inválido.
Mas isso não foi o bastante. Para sobreviver num campo de
concentração, nenhum estratagema é suficiente, nenhuma forma
de inteligência é bastante. Quando a morte está presente a
todo minuto, quando todos aqueles que amamos desaparecem,
quando a dignidade humana se esvai, quando não existe mais um
motivo concreto, nem um só motivo razoável para se ter
esperança, então faz-se necessário um refúgio imediato, todo-
poderoso.
E esse refúgio é a fé. Todavia, freqüentemente, a fé mais
fervorosa não é mais que uma crença. É necessário um tipo de
fé que esteja enraizada em nosso ser, uma fé que, com o
tempo, se torne o nosso próprio eu. Em outras palavras: é
necessária uma experiência. Essa experiência, eu à adquirira;
a cegueira ma havia ensinado um dia.
Eu sabia que, quando a luz me fosse tirada, poderia fazê-la
reviver dentro de mim. Sabia que, quando o amor me fosse
tirado, sua fonte fluiria novamente dentro de mim.
Sabia até que, quando a vida está em jogo, é possível
encontrar sua fonte dentro do próprio ser.
-- Página 34
Sei que estas explanações podem parecer abstratas, e que não
se vive de consolo teórico.
Para mim, entretanto, não eram abstratas. Toda vez que a cena
e as provações do campo se tornavam insuportáveis, eu me
isolava do mundo. Penetrava naquele refúgio em que a SS não
me podia alcançar. Dirigia meu olhar para aquela luz
interior, que havia visto quando tinha oito anos de idade.
Fazia-a vibrar através de mim. E não tardei a descobrir que
aquela luz era vida, era amor. Agora podia abrir de novo os
olhos - e também os ouvidos e o nariz à matança e à desgraça.
Sobrevivi a elas.
Se existe alguém que não aceita esta explicação, que é a
única explicação correta, então me parece que esse alguém
ignora uma verdade mais importante do que todas as demais, a
saber: de que nosso destino se forma de dentro para fora,
nunca de fora para dentro. A cegueira, tal como qualquer
outra grande perda, física ou moral, ensina-nos essa verdade
de maneira tão cabal que, afinal, é impossível negá-la. Como
posso chamar ainda de "infortúnio" ao acidente que me trouxe
uma tal dádiva?
O infortúnio eu só vim a conhecer mais tarde. Chamo, aqui, de
infortúnio àquelas circunstâncias que nossos esforços
pessoais são incapazes de mudar; àquelas que nos são impostas
pelos preconceitos da maioria e pela indolência dos que estão
no poder.
Nunca esqueçamos que a sorte da comunidade dos cegos é a
sorte de todas as minorias.
Não importa se essas minorias são de origem nacional,
religiosa ou física.
Quando muito, elas são toleradas. Quase nunca compreendidas.
Quando terminou a guerra voltei à minha pátria, pronto para
concluir meus estudos e escolher uma das profissões para as
quais me considerava mais apto: a diplomacia ou o magistério.
Mas em 1942, o governo de Vichy, à imitação dos nazistas,
havia posto em vigor uma nova lei. Essa lei estabelecia as
qualificações físicas exigidas aos candidatos, para serem
admitidos às posições controladas pelo governo. Isto se
referia, especificamente, ao magistério e à diplomacia.
Hoje, essa lei absurda não existe mais. Porém, foram
necessários dezessete anos de esforços infindos para aboli-
la. E naqueles dezessete anos, descobri o abismo que separa
os que vêem daqueles que não possuem a luz dos seus olhos.
-- Página 35
Sei que a esse respeito, a França se mostrou de uma
estreiteza e de uma obstinação que não existem em outros
países. Mas o exemplo francês continua muito significativo:
os que vêem não crêem nos cegos.
Essa dúvida injusta e tola orientou minhas ações durante
todos aqueles anos.
Resolvi não lutar contra a lei diretamente, mas sim,
apresentar provas. Queria lecionar. E lecionei, por assim
dizer, à força. Tomei a meu cargo lecionar sem garantias, sem
emprego fixo, sem direito a pensão e sem ordenado durante as
férias. Ofereci meus serviços com uma teimosia persistente.
Apenas exigi que eles fossem julgados pelo seu valor real, e
não pelo que supunham que valessem. Levei avante uma batalha
longa e solitária que, sem dúvida, foi a mais dura de minha
vida. Mais uma vez, a história de minha luta não é minha
pessoal: é a mesma luta que todos os cegos têm de empreender.
Estou convencido de que chegou a hora de mostrar ao mundo a
cegueira tal como ela é: não uma enfermidade que os que dela
sofrem tentam compensar constantemente de acordo com suas
capacidades - isto é, sempre de maneira imperfeita -, mas,
sim, um estado diferente de percepção. Esse estado tem as
dificuldades práticas que lhe são inerentes. Um professor
cego precisa de uma secretária para obter o material
necessário ao seu trabalho.
O diretor cego de uma companhia comercial precisa de alguém
que o acompanhe aonde quer que vá.
Porém, nas condições da vida moderna, tais obstáculos
dificilmente são dignos de nota. Qual o advogado, e mesmo
qual o engenheiro que, hoje em dia, poderia levar a cabo seu
trabalho sem a ajuda de alguns auxiliares competentes? Tomada
realmente a sério, a cegueira é um estado de percepção que -
se for aceito e utilizado - é capaz de desenvolver muitas
faculdades extremamente necessárias para toda atividade
intelectual e organizacional. Entre duas pessoas de igual
talento, a memória de um cego é melhor que a de uma pessoa
que vê.
E quando dizemos "memória", nos referimos, ao mesmo tempo,
àquela outra valiosa habilidade: a habilidade de associar
fatos e idéias, de compará-los, e de perceber novas
combinações. Não existe um motivo misterioso para a memória
melhor. Acontece simplesmente que os cegos, no decorrer do
tempo, são forçados a memorizar mais do que aqueles que vêem.
-- Página 36
Por conseguinte, um cego - como já o disse várias vezes -
descobre imediatamente o âmbito todo-poderoso e inteiramente
inexplorado da atenção.
Em outras palavras, ele sofre menos a distração do mundo. Por
que não tirar proveito disso? Por que não destinar aos cegos
aquelas tarefas que, no mundo, requerem esse raro talento?
Permitam-me fazer uma sugestão prática. Já que é uma
realidade o fato de serem fortes os preconceitos contra os
cegos - e preconceito é aquilo que o ser humano tem mais
dificuldade de superar -, eu gostaria de sugerir a seguinte
norma: Cada vez que um cego se candidate a um trabalho, que
lhe seja dada uma chance. Que ele seja empregado com um
período de experiência! Poderíamos planejar um estágio de
seis ou doze meses, durante o qual a escola, o escritório ou
a firma que o contratou não teria compromissos com ele.
De dez cegos, a nove tem sido negado emprego, não porque se
mostrassem incapazes, mas porque nem mesmo lhes foi permitido
dar provas de sua capacidade. Vamos consentir que eles
trabalhem! Confiemos neles por algum tempo! Os resultados
seriam provavelmente espantosos.
Estou sugerindo exatamente aquilo que consegui para mim
mesmo. (Na verdade só conhecemos realmente aquilo que
experimentamos em nós mesmos). Aconteceu que, a despeito das
leis feudais do meu país, eu me tornara professor de
universidade, e continuo exercendo minha profissão há vinte e
quatro anos, sem me defrontar com dificuldade alguma, a não
ser aquelas relacionadas com a profissão em si.
Atrevo-me a dizer: muitas vezes, lecionar é menos difícil
para um cego do que para uma pessoa que enxerga. Quando esse
ponto de vista é contestado, sempre se alude à delicada
questão da disciplina. Contudo, eu lhes pergunto: nenhum
professor que enxerga é incapaz de manter o respeito dos seus
alunos? E óbvio que a disciplina depende da autoridade
natural do professor, de sua força moral, de sua habilidade
em dar vida à sua matéria. A autoridade moral não tem nada a
ver com o fato de poder enxergar.
Tenho sido professor há vinte e quatro anos, sem que me tenha
defrontado com qualquer dificuldade causada pela falta de
visão.
-- Página 37
De fato, o oposto é verdadeiro. Uma preleção é um exercício
do espírito e do caráter.
Baseia-se inteiramente em nossa capacidade de plasmar nossa
vida interior e de transmiti-la a outros. Quanto a isso a
cegueira é uma escola sem igual.
Por que haveria de ser necessário, quando me encontro diante
de meus alunos, observar a posição de seus braços e pernas?
Por que deveria eu espreitar a vaga expressão de suas faces
que transmitem apenas sua distração ou sua curiosidade? A
cegueira me revelou um outro espaço que não o físico, que só
serve para separá-los de mim e me separar deles.
Esse outro espaço é aquele onde nascem as atividades da alma
e do espírito. Eu o conheço graças a uma longa experiência
prática. E o silêncio, um certo tipo de silêncio me mostra
muito melhor o grau de compreensão, de interesse ou de
objeção que causo em meus alunos, do que o conseguiria
qualquer ampliação de um filme que mostrasse sua presença
física em câmara lenta.
O que causa, hoje em dia, o fracasso de tantos professores -
e na Europa como nos Estados Unidos está se fazendo um grande
alarido desse fracasso - é a sua incapacidade de sair de suas
próprias cabeças. Muitos professores são competentes, muitos
se esforçam de maneira louvável; mas bem poucos são capazes
de penetrar no único domínio em que o ensino pode prosperar:
o espaço comum entre os espíritos. Nisto a cegueira me tem
ajudado. Eu praticara, por longo tempo, as técnicas de uma
troca direta entre seres humanos: a avaliação das vozes, a
avaliação do silêncio. Graças à cegueira, aprendi a decifrar
muitos sinais que me vinham de outras pessoas, e que,
comumente, escapam à observação dos que vêem. Se existe um
domínio em que a cegueira nos torna peritos, é o domínio do
invisível.
Um auditório não é um inimigo para mim; é uma entidade nova.
Muitas conexões novas se formam, subitamente, dentro de mim.
E como não tenho de abranger o auditório com a vista e
dividir sua presença em percepções isoladas - o que
resultaria num empreendimento infrutífero - , ele me fala
como um todo, como uma unidade que pode comunicarse.
Não vou esconder de vocês o fato de que amo minha profissão.
Ela me permite, todos os dias, participar algo da riqueza
inesperada, inquietante que a cegueira me trouxe.
-- Página 38
É preciso terminar. E realmente, há mais alguma coisa que eu
possa acrescentar? Talvez isto: se a cegueira é tida como uma
privação, ela se toma uma privação. Se pensamos na cegueira
como uma deficiência que deve ser compensada a todo custo, um
caminho talvez se abra, mas não vai longe. Quando, pelo
contrário, se considerar a cegueira como um outro estado de
percepção, como um outro âmbito de experiência, tudo se
tornará possível.
Continuar a ver, se bem a seu modo, é, sem dúvida, o mais
importante para um cego. Eu não lhes disse que possuo olhos
como vocês; disse que tenho olhos diferentes.
Não lhes disse que minhas experiências são mais verdadeiras
ou mais completas. Seria uma presunção ridícula, e até mesmo
uma mentira. Disse-lhes que chegou a hora de comparar nossas
experiências. Quando minha esposa pinta, eu lhe pergunto o
que seus olhos vêem, indago cerca de todas as linhas que eles
seguem, de todas as cores que eles encontram: Ao mesmo tempo,
pinto mentalmente, dentro de mim, um outro quadro. Sei que é
ela quem vê o quadro real, mas eu o vejo tão bem quanto ela.
Não é um grande milagre que haja tantas maneiras de perceber
o mundo e não apenas uma?
Sim, vocês me ouviram bem: muitas maneiras de perceber - e é
justamente esta a nossa chance!
-- Final do livro
1 arquivo anexado:
O CEGO NA SOCIEDADE.txt
--
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