"O odor de suas madrugadas não era fantasia, nem era o mundo que cheirava mal devido à corrupção: era o chão de seus lares e seus sonhos apodrecendo havia anos
debaixo
de seus pés"
Na coluna passada, de título Os Filhos do Lixo, comentei uma reportagem em que apareciam crianças nossas catando lixo com suas mães, que, por sua vez, o tinham
aprendido
com suas mães e avós. A coluna foi enviada para a revista horas antes de iniciar-se a tragédia dos deslizamentos no Rio de Janeiro, em Niterói, em São Gonçalo.
Niterói
tornou-se emblemática. Talvez porque ali não se tratava apenas de casas e de centenas de pessoas instaladas em locais altamente perigosos – coisa sabida pelas autoridades
havia anos e repetidamente informada –, mas porque ali, no chamado Morro do Bumba, o terreno era um lixão. Lixo. Nem ao menos um relativamente higiênico aterro
sanitário,
que, mesmo assim, só poderia ser usado como assento de moradias décadas depois. Lixo amontoado, nada mais. Podridão que o tempo foi disfarçando com terra e algumas
plantas.
Hoje, falando em "pais do lixo", não me refiro aos que o produziram, mas aos que ali o deixaram, ou mandaram jogar e, em lugar de cuidar, vigiar, manter higienizado
e isolado, ignoraram, permitindo que o recanto emporcalhado se cobrisse de casas, de lares. Produzir lixo é inevitável. Tratar o lixo de maneira científica, técnica
e civilizada, que o torne inofensivo ao ser humano, é dever básico de qualquer autoridade. E raramente é feito com correção e eficácia. Em Niterói, gerações de
prefeitos
e outros foram até enfeitando a imundície: luz ali, quem sabe um caminhozinho asfaltado aqui; enfim, facilidades para os moradores do lixo – que de nada sabiam.
Todos ignoravam que o odor de suas madrugadas e noites não era fantasia, nem era o mundo que cheirava mal devido à corrupção, impunidade, desinteresse e cinismo
– era o chão de seus lares e seus sonhos apodrecendo havia muitos e muitos anos debaixo de seus pés. A água que escorria ali não era algum romântico olhinho-d'água,
era a exsudação desse apodrecimento, que tem o nome repulsivo de chorume. Pois no chorume viviam, caminhavam, brincavam, os moradores desse conjunto de casas. Ali
havia igrejinha, pizzaria, bares. Gente. Humanidade florescia ali, aos vapores do lixo, e – repito ainda outra vez – sem saber disso.
Mas as autoridades sabiam. E nenhuma, que se saiba, fez nada de efetivo, talvez porque neste país gente no lixo não é novidade, centenas e milhares de casinholas
se enfileiram entre colinas de imundície e detritos a céu aberto. Recebo a notícia de bairros inteiros de condomínios, edifícios de muitos andares, construídos
sobre
lixo, talvez aterro sanitário, mas sem os muitos anos devidos para que tudo se solidifique e quem sabe seres humanos possam então viver lá em cima. Resultado: paredes
rachadas, assoalhos afundando, o mundo afundando. Quem reclama é apontado com o dedo: esse perturba a ordem, sopra vento na calmaria, faz espalhar o mau cheiro
e
a má fama, está incomodando. Fora com ele. Nós queremos continuar sendo a oitava economia do mundo, ou algo parecido. Queremos ser os bacanas.
Espero que o lixão de Niterói seja convertido, de um lado, em um monumento à dor e, de outro, em um lembrete da cruel omissão dos que deveriam cuidar do seu povo.
Que os que ali tudo perderam sejam verdadeiramente orientados, amparados pelo tempo necessário. Que não se romantizem mais as favelas, onde estariam a verdadeira
raça brasileira, a verdadeira música, a verdadeira comida, a verdadeira beleza: tudo isso seria bem mais saudável, feliz e bem aproveitado em condições de vida
civilizadas,
sem violência, sem encostas periclitantes, sem jovens e pais de família assassinados nem famílias desaparecidas. Sem tanta dor desnecessária.
Não vamos esquecer a tragédia, nós que esquecemos tão depressa. Nem vamos enfeitar a desgraça, disfarçar a omissão. Vamos ser pais de coisas positivas, mesmo produzindo
lixo. Vamos nadar contra a correnteza. Vamos agir com eficiência e honradez. Vamos honrar nossos cargos públicos, nossos nomes, nossos ofícios. Vamos colocar o
bem
público acima do nosso bolso, da nossa cobiça, do nosso desejo de mais poder. Vamos cuidar da nossa gente. Vamos ser gente.
Lya Luft é escritora
Renata Coutinho
"Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera;
esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora."
(Rabindranath Tagore)
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