Cartas de Paris
Sob sete véus
A França vive a tensão das turbulências na zona euro, iniciadas pela crise econômica na Grécia, que já atinge Portugal e ameaça se espalhar pelo continente.
Internamente, um dos principais setores produtivos do país mostrou todo seu descontentamento com a atual política do governo em uma manifestação que reuniu dez
mil
produtores agrícolas em Paris esta semana, clamando por uma revisão da carga tributária imposta ao setor.
Enquanto isso, na Assembleia francesa... o tema na ordem do dia é a interdição do porte da burca no país.
O projeto de lei do governo Sarkozy, apresentado no ano passado e reapresentado no início deste ano como prioridade absoluta, voltou a ser assunto quando o líder
do Partido Socialista na Assembleia se disse pronto a votar o projeto.
Dito isso, ele explicou a posição do PS, um tanto contorcionista: a favor de uma resolução que se diga contra o uso do véu total, o partido subscreve as ressalvas
feitas pelo Conselho de Estado, de que a interdição completa do uso da vestimenta em público põe em risco o cumprimento dos direitos de defesa da liberdade do homem.
Ou seja, o PS é contra o porte da burca mas não completamente a favor de uma lei que proíba integralmente seu uso.
A discussão é mesmo ingrata. Entre os argumentos de defesa do projeto de lei, os mais fracos são os dizem respeito à segurança - alegando que os sete véus das muçulmanas
podem esconder armas, explosivos e sabe-se lá mais o quê. Seguindo por esta linha, em pouco tempo pode-se querer vetar que casacos volumosos, ponchos, hábitos de
padres, monges e freiras passeiem pelas ruas.
O argumento mais forte da lei é mesmo o aspecto moral. Acho que é consenso entre nós, ocidentais - mais ainda entre nós, ocidentais, mulheres, brasileiras - o descabimento
de se impor às mulheres uma vestimenta que as cubra dos pés à cabeça, deixando só os olhinhos de fora.
No ano passado, sob os quarenta graus do verão de Atenas, enquanto eu me valia de garrafas de água para refrescar meus filhos que brincavam de sunga em um parquinho,
fiquei estupefata ao ver chegar uma família muçulmana com três mulheres integralmente cobertas - e dois homens de camiseta, calça e sandálias.
Acontece que, como eu disse, isso é revoltante para nós, ocidentais. O que fica bem claro na cobertura do projeto de lei feito pela imprensa francesa é que muitas
são as mulheres muçulmanas que são contra a proibição.
Umas, claro, porque fazem parte dos grupos extremistas que adotam a burca. Seja porque são impelidas a se manifestar dessa maneira, seja simplesmente porque os
véus
fazem parte de uma cultura inculcada na cabeça delas desde o berço, elas não se imaginam vestidas de outra forma.
Outras são contra porque acreditam que a lei reforça o preconceito contra o islamismo de uma maneira geral - quando são apenas alguns grupos radicais que pregam
o uso do véu integral.
É o que eu acho mais claro em toda essa discussão: que essa confusão que a lei promove não é por acaso.
Que a luta do governo Sarkozy contra a burca é menos uma defesa aos direitos das mulheres e mais um ataque o maior grupo de imigrantes que existe dentro da França
- magrebinos originários das antigas colônias, com quem a elite francesa mantém uma relação explosiva.
Travestido de defesa dos direitos humanos, o projeto da burca trata, no fundo, de xenofobia.
- Carolina Nogueira é jornalista e mora há dois anos em Paris, de onde mantém o blog Le Croissant (www.le-croissant.blogspot.com)
Renata Coutinho
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