Entrevista com Ana Beatriz Barbosa Silva- Psiquiatra Best-Seller
Livro Mentes Inquietas:
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Psiquiatra, best-seller e "TDAzéssima"
Com dois livros entre os mais vendidos, Ana Beatriz Barbosa Silva, 43, escreve usando o próprio diagnóstico de transtorno de deficit de atenção
Luciana Whitaker/Folha Imagem![]() |
Formada pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Ana Beatriz Barbosa Silva, 43, teve diagnóstico de TDA (transtorno de deficit de atenção) aos 19 anos, quando cursava medicina. "Desde a infância, sempre fui muito desorganizada, queria fazer tudo para ontem. Aí eu começava a fazer, me irritava e largava tudo no meio. Quando fiz o vestibular, prestei para medicina, história e física. E achava que iria fazer os três". A inspiração para o primeiro best-seller ("Mentes Inquietas", 200 mil cópias vendidas), veio em 2003. Depois disso, escreveu sobre transtornos alimentares, manias e medo. Para 2010, prepara um novo livro, sobre bullying. A seguir, trechos da entrevista à Folha.
FOLHA - A sra. esperava esse sucesso todo ao decidir escrever sobre transtornos mentais?
ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA - Comecei sem nenhuma pretensão. Aliás, o diretor da primeira editora que procurei, quando viu o livro ["Mentes Inquietas"], disse que o tema deficit de atenção não vendia e queria me convencer a escrever sobre compulsão por compras. Fiquei muito brava e, de maneira impulsiva, rasguei o contrato que já havia assinado. Decidi vender meu Peugeot 205 e mandei fazer 3.000 exemplares do livro. Minha ideia era colocar no site da clínica e vender pela internet. Em um mês o livro vendeu 20 mil cópias.
FOLHA - A escolha do tema tem alguma relação com sua vida pessoal?
SILVA - Sim. O primeiro caso descrito no "Mentes Inquietas", o da fonoaudióloga, sou eu. E vários outros sou eu. Foi uma maneira de dar uma explicação para muitas coisas que, mais nova, eu não podia explicar. Coisas que passaram pela minha vida e que eu não fiz por maldade ou por ignorância.
FOLHA - Que coisas são essas?
SILVA - Além do TDA, tenho dislexia. Quando eu era pequena, tinha um diário, mas escrevia tudo errado. Trocava ou repetia as sílabas. Eu adorava escrever na máquina Olivetti. Meu pai, que era professor de português, vinha e corrigia tudo. No final, o texto só tinha vermelho. Ele brincava: "Filhinha, ainda bem que você não vai ser escritora". Minha mãe já era o contrário. Ela dizia: "Adorei o conteúdo, mas, filha, você precisa prestar atenção nas palavras, nos acentos".
FOLHA - Quando você teve o diagnóstico de TDA?
SILVA - Aos 19 anos, já na faculdade, fiz minha primeira viagem ao exterior para assistir a um congresso de psiquiatria em Chicago. Claro que eu peguei o roteiro e vi tudo errado. No dia em que ia começar o curso, sobre depressão em adolescentes, cheguei atrasada e não me deixaram entrar. Chorei tanto que me falaram de um curso que ainda tinha vaga. Era sobre TDA. Quando vi o professor John Ratey explicando o que era, pensei: caramba, estão falando sobre mim. Acabou a palestra, fui atrás do médico e marquei uma consulta. Quando terminou, ele disse: "Ana Beatriz, você é TDAzéssima." Comecei o tratamento imediatamente e foi uma coisa absurda. Era como se eu fosse míope e, de repente, colocasse um óculos e começasse a ver os detalhes. Minha vida ficou muito mais simples. Conseguia planejar as coisas, ter o mínimo de organização. Usei a medicação por cinco anos. Hoje, quando escrevo um livro, volto a tomá-la no processo de finalização.
FOLHA - Como é possível diferenciar uma situação normal da vida de uma outra que caracteriza o TDA?
SILVA - Qualquer pessoa sob estresse tem as três características do TDA: desatenção, impulsividade e hiperatividade física. A grande diferença é que o TDA já nasce com essas características. A criança com distúrbios de comportamento sinaliza um sofrimento. Uma criança que levanta para ir à escola e começa a passar mal tem alguma coisa. Quando se trata de nota, é preciso ver se ele se esforça e não tem resultado.
FOLHA - Hoje, fala-se muito de um excesso de diagnóstico e de tratamento do TDA. O que a sra. acha?
SILVA - Eu concordo. Recebo muitas crianças cujos pais chegam ao consultório dizendo que os filhos têm TDA. Teve uma mãe que dizia que o filho tinha TDA porque era muito "criativo". E citou o fato de ele ter ateado fogo em pererecas para parecerem fogos de artifício. Aquilo não era criatividade, e sim perversidade. Também tem pai achando que o filho tem TDA porque está disperso na época do vestibular. Mas ele pode estar apaixonado ou usando drogas. Há exames que mostram se a pessoa usou drogas nos últimos três meses. Ela não precisa dizer.
FOLHA- Mas esses exames são bem polêmicos, especialmente quando feitos sem autorização. A sra. acha que valem a pena?
SILVA - Depende. Se o pai desconfia de alguma coisa, mas isso não está prejudicando a rotina do adolescente, se ele vai bem na escola e está levando a vida direitinho, aí não tem problema. Mas se tem mudança de comportamento, fica trancado dentro do quarto, rebelde, é preciso avaliar. A questão não é em que ele mudou, mas quanto ele mudou. Nesses casos, vale a pena [fazer os testes].
FOLHA - O que a levou a escrever um livro ("Mentes Perigosas") sobre psicopatas ?
SILVA - A gente precisa entender que o psicopata nasce com o sistema afetivo funcionando menos ou não funcionando. Ele não consegue enxergar o sofrimento do outro. Para o psicopata, as pessoas são meros instrumentos em um jogo em que ele quer conseguir três coisas: status, poder e diversão.
FOLHA - Seu próximo livro será sobre bullying. Também foi uma experiência pessoal?
SILVA - Sim. Sofri bullying tanto por parte de alunos quanto de professores. Os professores achavam que eu errava de propósito porque era protegida, porque meu pai era professor. Os alunos me chamavam de "troca-letras" e de Bia "Sid", de espaço sideral, por causa da minha distração. Hoje você precisa ter a mochila da marca tal, o tênis da marca tal e não tê-los significa ficar excluído. Pensando assim, o bullying que eu sofri foi bobo. Hoje, seria pior.
SILVA - Eu não conseguiria negar isso tudo que eu vivi e sofri. Essa coisa de a gente ser falível e poder ser feliz dá aos pacientes uma coisa do tipo: "Eu não sou só coisa ruim". Teve um menino de 11 anos que um dia me disse: "se você deu certo, por que eu não posso dar?". Eu não saberia fazer medicina de outra forma. Eu me ponho na condição da pessoa.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1001201001.htm
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