segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

{clube-do-e-livro} Livro: O Último Jantar - Vera Lúcia M. de Carvalho




O Último Jantar
Espírito Antônio Carlos
Psicografia de Vera Lúcia Marinzeck de
Carvalho


Sinopse
Um apetitoso prato de sopa de cogumelos foi
o último jantar de Lia. Do outro lado da vida,
aflita, ela quer descobrir o assassino. No
mundo espiritual, Mary - que na última
encarnação escrevia livros policiais -, ouve
gritos angustiados: é Lia, acusando-a de ser a
inspiradora do crime. Seu refúgio é um paiol,
sombrio depósito de cereais e ferramentas,
por onde passam outros espíritos sofredores.
Mary, a escritora, agora um espírito socorrista,
recebe permissão para auxiliar Lia a desvendar
o crime do qual foi vítima. Na perseguição ao
assassino, intrigantes revelações irão
surpreender o leitor. Mas, afinal, quem matou
Lia? O mistério está servido...






Sumário
Mary
O Paiol
Os Cogumelos
A Tentativa
Zé Grilo
História de Isaura
Sabendo de Fatos
Visitando Edson
Centro Espírita
A Investigação
Esclarecendo os Fatos
Tempos Depois




MARY


"Mary quando encarnada, foi uma escritora de
Entretenimento, sempre gostou de literatura,
amava imaginar histórias e colocá-las no
papel. E, quando se ama o que se faz, realiza-
se bem-feito. O período encarnado acabou,
seu corpo físico morreu e a mudança e plano a
perturbou. O que encontrou na Espiritualidade
era muito diferente do que pensava. Ela foi,
após o sepultamento do seu envoltório carnal,
levada a um posto de socorro, porém não quis
ficar e voltou ao seu antigo lar. ¹.

1 - Somos livres para permanecer nos locais
de socorro. Não querendo ficar, podemos sair
com permissão, ou então por uma vontade
forte somos atraídos para onde desejamos ir.
(Nota do Autor Espiritual.).

O sofrimento a fez querer o auxílio dos bons
espíritos, e foi novamente ajudada. Aceitando
então a mudança de plano, adaptou-se à nova
maneira de viver. Ativa, quis ser útil, aprendeu
e passou a servir, foi trabalhar num posto de
socorro. Uma tarefa especial despertou sua
vontade de trabalhar com a literatura e pediu
então para estudar sobre o assunto e foi
estagiar na Colônia Casa do Escritor. ²
Ela estava amando estar ali, achou a colônia
linda, tudo era simples e prático. Gostava de
maneira especial do vasto jardim bem
cuidado, onde a maioria de seus moradores,
professores e estudantes, gostava de ficar
conversando, trocando informações entre os
canteiros floridos e os bancos confortáveis.
Fez novos amigos, e todos ali tinham o
mesmo objetivo: ser útil, fazer algo de bom na
tarefa de instruir pessoas por meio de
escritos, palestras e filmes. Surpreenderam-se
com a maneira simples e sábia com que os
orientadores da casa ensinavam, e os novos
conhecimentos a fascinavam. Mary estava
sempre dizendo:


2 Mary narrou esse trabalho especial, sua
aventura, no livro O Mistério do Sobrado. Vera
Lúcia Marinzeck de Carvalho. Petit Editora:
São Paulo/SP E a Colônia Casa do Escritor,
esse maravilhoso local de estudos, foi muito
bem descrita por Patrícia no livro A Casa do
Escritor. Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho.
Petit Editora: São Paulo/SP (N.A.E.)


"Como podemos ajudar, esclarecer com a boa
literatura! Não usei bem meu talento, sinto por
isso. Alegro-me por saber que terei outras
oportunidades e, para aproveitá-las melhor,
quero aprender e me preparar".
E, como não devemos ficar remoendo o
passado, mas sim aproveitar bem o presente,
Mary resolveu estudar bastante, aprender,
para ser útil da melhor maneira possível. Não
queria adiar o que tinha de fazer para o futuro,
compreendera que o que importa é o presente,
é fazer, realizar no momento atual.
A literatura era o assunto preferido da colônia
de estudos e também de Mary, que estava
sempre conversando, principalmente com
pessoas que, quando encarnadas, dedicaram-
se a instruir, educar e ensinar pela escrita.
Mary amava assistir a palestras, comparecia a
todas que eram realizadas na colônia e
almejava um dia poder ensinar daquele modo.
Em uma tarde, ela se dirigiu a um dos salões
para ouvir um orador que há algum tempo
estava no plano espiritual e, em sua opinião,
tratava-se de um exímio palestrante.
A sala de palestra era grande, tinha poltronas
confortáveis de cor bege claro e somente
alguns quadros nas paredes; na frente havia
uma pequena mesa enfeitada com flores cor-
de-rosa. A colônia recebe muitos convidados
para essas palestras de espíritos que
trabalham em outras casas e até em outros
países.
Recebe também alguns encarnados, que
deixam o corpo físico adormecido e vão
acompanhados de seus espíritos protetores.
Após uma rápida oração, o orador falou sobre
as parábolas de Jesus:
"As parábolas têm dois sentidos: o material e
o espiritual. O material é de fácil
entendimento; são os fatos do dia-a-dia das
pessoas, da natureza. Mas, o espiritual
depende da evolução, da capacidade de
assimilação de cada indivíduo. Por isso é que
vemos até hoje pessoas darem explicações
para esses ensinamentos de formas tão
diversas, interpretando-os conforme o
entendimento que possuem. Nós mesmos já
os interpretamos de muitos modos e
certamente o faremos futuramente de outras
formas."
"As parábolas nos convidam a uma profunda
meditação. Devemos senti-las e vivê-las para
compreendermos os ensinamentos contidos
nessas preciosidades."
Depois de uma ligeira pausa, o orador falou
dos ensinamentos de Jesus: "O amigo
importuno e o juiz iníquo". ³


3 Lucas, 11: 5 e 18: 1. (N.A.E.)

"Ao meditar sobre essas duas parábolas,
Compreendemos que Jesus insistiu em que
devemos orar sempre, que jamais, em
nenhuma circunstância, devemos deixar de
fazer com sinceridade nossas Preces."
"Pedi e recebereis; batei abrir-se-vos-á;
buscai e achareis. Tudo o que pedirdes ao Pai,
Ele vo-lo dará... E, orai não vos deixei de
orar".
"Podemos achar no Evangelho vários textos
incentivando-nos a não perder a esperança e a
fazer o que nos cabe para receber o que
almejamos."
"E nessas duas parábolas os pedintes chegam
ser impertinentes, insistem", continuou o
orador.
"Deus não deve se sentir importunado com
nossos pedidos importunos nem nos atende
para ficar livre". E, se Ele sabe do que
necessitamos até antes de pedirmos, por que
a necessidade de fazê-lo? A finalidade do
pedido, da oração, é nos levar a crer em nós
mesmos, é nos fazer agir de forma que Deus
possa nos atender.
"Quando pedimos e nos preparamos para
receber, nos tornamos receptivos a esse
recebimento. Por isso Jesus recomendou:
busque, bata, faça sua parte, prepare-se para
receber."
"Torne-se receptivo"! Todos nós temos
capacidade para receber. Muitos imprudentes
obstruem esse recipiente; outros o alongam. E
o pedir, orar, buscar etc., alongam essa
capacidade de receber o dom do Doador
Divino.
"E recebe-se de acordo com a capacidade que
se tem para receber."
"Quem for a uma fonte de água pura e
cristalina com um dedal irá trazer um dedal
com água". Quem for com um copo trará um
copo com água. Assim acontece com quem
leva um balde ou um recipiente maior. E o
importante é quem vai buscar, caminha para
chegar lá, bate, pede e recebe, faz sua parte.
E para chegar à fonte ele deve ter trabalhado e
estudado a melhor forma para ir, lá bateu,
insistiu em pedir etc. Não ficou parado
esperando, e com tudo o que fez o pedinte,
tornou-se receptivo.
"Pedir para alguém fazer o que nos compete é
receber a água que a pessoa foi buscar na
fonte. Jesus, porém, recomendou que
fizessemos, nós mesmos, o que nos compete,
busquemos, criemos um ambiente de
receptividade com nosso esforço."
Mary escutava atenta. De repente sentiu que
alguém em algum lugar falava dela, e não era
algo bom. Ficou inquieta e ouviu: "Maldita
escritora!" Olhou um tanto assustada à sua
volta. Ficou aliviada, pois ninguém escutara.
Entendeu que a voz estava se referindo a ela,
portanto apenas ela a sentira, ouvira ou
recebera por sintonia.
Tentou prestar atenção no fabuloso orador do
qual era fã. Admirava-o por ele ter voltado ao
plano espiritual com seu objetivo cumprido e
por ter feito o que planejara.
O orador logo terminou a palestra com uma
linda oração e as pessoas foram se retirando
maravilhadas pelo que ouviram. Era de
madrugada. Palestras com convidados
encarnados são realizadas em horários em que
normalmente o corpo físico dorme.
Mary saiu do salão e foi para o jardim. Preferiu
ficar sozinha olhando o firmamento. Ficou
pensando na palestra que ouvira,
memorizando-a, e concluiu que temos sempre
de fazer o que nos compete, ser auto-
suficientes, aproveitar as oportunidades de
aprender, praticar o bem para um dia sermos
bons. Logo o Sol (4) despontou no horizonte e
a nossa aprendiz se encantou com a beleza do
astro rei. Meditou e concluiu que do Sol
podemos tirar um grande exemplo. Silencioso,
ele dá luz e calor a todos igualmente. Faz
simplesmente o que tem de ser feito: existe, é
útil. "E por que não sermos assim: Fazermos
por amor a todos e sem alarde; sermos uma
fonte de luz e calor?", pensou ela.



4 - Colônias e locais de socorro que recebem a
visita de encarnados ou em que seus
moradores desencarnados trabalham, seguem
o horário do plano físico. Ver o nascer do Sol
nesses lugares é um espetáculo de rara
beleza. (N.A.E.)


No período da manhã, ela tinha aulas e foi
assistir a elas. Nessa colônia de estudos, havia
muitas salas e elas eram bem confortáveis.
Sua turma tinha vinte e oito estudantes e
todos com vontade de aprender tornaram-se
bons amigos. A maioria das aulas era nesse
período, o que fazia a colônia ser agitada
nesse horário; professores e estudantes
tinham muito que fazer.
Quando terminaram as aulas, ela dirigiu-se à
biblioteca da colônia, um lugar muito
freqüentado pelos moradores e visitantes.
Espaçosa, ela tinha muitas estantes repletas
de livros. Um local maravilhoso para os
amantes da literatura.
Mary cumprimentou Cecília, que estagiava na
biblioteca, e foi para uma das estantes pegar
um livro para fazer uma consulta.
"Maldita! Mil vezes maldita!"


Sentiu novamente as palavras na sua mente,
bem como a raiva de quem as dizia. Mary
sentiu tontura, agachou-se num canto,
colocou as mãos na cabeça e pronunciou:
"Não! Não sou maldita! Pare com isso!"
"Mary! Acalme-se, por favor! O que você
tem?", perguntou Cecília, erguendo-a do chão.
"Não sei Cecília", respondeu Mary com
dificuldade. "Alguém me amaldiçoou e senti
tudo rodar."
Cecília chamou telepaticamente o orientador
da colônia, que era responsável pelos
estudantes da casa, e ajudou Mary a sentar-se
numa poltrona. Logo Carlos Augusto entrou na
biblioteca e dirigiu-se a elas, indagando: "O
que aconteceu?".
"Mary sentiu alguém amaldiçoá-la e teve um
ligeiro mal-estar", respondeu Cecília.
"Desculpem-me", falou Mary. "Não queria
causar nenhum transtorno. Não sei o que
aconteceu. Nunca pensei que estando aqui, na
colônia, pudesse sentir alguém, que não sei
quem é nem onde está, falar ou pensar em
mim de maneira tão negativa. Não entendo o
que está se passando."
Carlos Augusto deu um passe em Mary e,
quando ela melhorou, lhe falou:
"Mary vai até o meu gabinete para
conversarmos".
Mary o acompanhou e sentou-se em frente a
uma escrivaninha. Carlos Augusto acomodou-
se ao seu lado, dirigindo-se a ela de forma
carinhosa:
"Querida Mary somos responsáveis pelo que
fazemos. Se alguém se sentir prejudicado por
um de nossos atos, mesmo que não o
tenhamos feito com má intenção, podemos de
alguma forma sentir pelo sofrimento ou
dificuldade que causamos. E, se pudermos,
devemos ajudar quem se sente prejudicado
direta ou indiretamente pelo que fizemos.
Você, minha amiga, quando encarnada, foi
autora de muitos livros. Por intermédio deles,
você não fez o mal, não teve em momento
algum intenção de prejudicar ninguém.
Mas, se alguém se sentiu prejudicado e a
amaldiçoa, e como estamos de certa forma
ligados aos nossos atos, sejam eles bons ruins
ou neutros, você sente e ouve.".


5 - Para o mesmo local, são dados muitos
nomes. Gabinete é uma salinha em que os
orientadores recebem as pessoas em
particular para uma conversa, uma orientação
etc. (N. A. E.).
"O que faço agora? Fico indiferente a essas
palavras?", perguntou Mary.
"Você não sabe mesmo o que fazer?", indagou
Carlos Augusto, olhando-a carinhosamente.
"Devo ir ver o que se passa? Mas e meus
estudos? Estou amando muito tudo aqui.
Alegro-me em conviver com outros autores,
participar desse aprendizado que tanto está
me esclarecendo", falou Mary suspirando.
"Se não for, não ficará sabendo o que
acontece", opinou o orientador. 6
"Que tristeza! Terei de deixar esta casa", disse
Mary, suspirando.


6 - Carlos Augusto tinha como saber o que
estava acontecendo, talvez já soubesse, mas,
como o fato se referia a Mary e era assunto
particular, sabiamente ele motivou-a a
resolvê-lo, ensinando que cabe a cada um de
nós esclarecermos o que nos compete e
resolver os nossos problemas. (N.A.E.)

"Mary", disse Carlos Augusto, calmamente,
"lembre-se de que Jesus recomendou que
fizéssemos primeiro a reconciliação com o
nosso próximo para depois fazermos nossa
oferta ao altar. No seu caso, faça esse ser lhe
querer bem, resolva esse caso, para depois
fazer outras tarefas. Você não conhece essa
pessoa, talvez nem ela a você, mas, pelos
seus livros ou por algum outro motivo, ela a
amaldiçoa. Será que você terá condições de
continuar estudando ao deixar que essa
pessoa se sinta assim? Deve procurá-la e
auxiliá-la para que não a maldiga mais".
"Como vou achá-la? Saberei ajudá-la? Irei
sozinha?", indagou Mary.
"Para encontrá-la, é só seguir a voz, pensar na
pessoa e ir ao seu encontro. Saberá auxiliá-la.
Você é inteligente e capaz. E deve ir só",
respondeu o orientador.
"Fiz a ação sozinha, não é?", indagou Mary.
Carlos Augusto sorriu e respondeu:
"Quando resolvemos problemas, sejam nossos
ou de outros, aprendemos muito. Você irá
sozinha, mas estaremos aqui para orientá-la.
Pode contar comigo. Vá,
Mary, resolva, auxiliando quem, em aflição,
está dizendo essas palavras".
"Só eu escutei porque a pessoa se referiu a
mim, não é?"
"Sim, nossos atos e ações a nós pertencem, e
você se sente responsável pelos livros que
escreveu.".
"Se estivesse no umbral (7), eu me sentiria
pior?", perguntou Mary.
"Benção e maldição com fundamento",
respondeu Carlos Augusto, "são sentidas em
qualquer lugar. No seu caso, não tem
fundamento, não foi culpada e não deve
sentir-se assim. Talvez, se estivesse
encarnada ou desencarnada no umbral, por
não ter feito as coisas com intenção de
prejudicar, você não iria sofrer. Como você
está bem, consciente de tudo o que fez, sentiu
por entender que é responsável. Para
esclarecer essa situação, eu a aconselho a ir
até essa pessoa, verificar o que aconteceu e
ajudá-la".
"Quando devo ir?", perguntou Mary com
expressão aborrecida, sentindo como se
estivesse sendo obrigada a fazê-lo.
"Mary, só a estou orientando. Você tem o
livre-arbítrio, que é respeitado. Não está
sendo obrigada a nada."
"Desculpe-me", disse Mary, de cabeça baixa.
"Ao fazermos algo, não imaginamos quanto
nos prendemos às nossas ações e que os seus
reflexos nos acompanham. Você tem razão.
Não conseguiria continuar aqui sabendo que
alguém se sente prejudicado pelo que fiz,
mesmo que eu tenha feito sem a intenção de
causar danos. Devo ser grata pela
oportunidade de poder procurá-lo e tentar
mudar sua maneira de pensar a meu respeito,
e certamente para isso tenho de ajudá-lo a
resolver o que o aflige. Vou confiante, sabendo
que posso contar com você.
Ainda bem que meus livros não se espalharam
muito, não foram tão publicados, porque,
senão eu teria problemas maiores.".


7 - Umbral: ambiente espiritual trevoso e
infeliz criado pela força do pensamento de
milhares de criaturas em desajuste.
(N.A.E.)


"Amiga", falou Carlos Augusto,
tranqüilamente, "não os veja como problemas.
Porém, se os vir assim, saiba que pode achar
soluções para cada um".
"Você, Carlos Augusto, já sentiu alguém
amaldiçoá-lo?", perguntou Mary.
"Sim, e ainda bem que ele não encontrou em
mim erros ou motivos. Porque, Mary, para
sentir ressonância, tem de haver a maldade
feita. Mas, pode acontecer de uma ação bem-
feita ser mal interpretada e vista como uma
maldade por alguém e por isso sermos
amaldiçoados. Uma vez, quando estava
encarnado, ajudei com conselhos e orientação
uma pessoa obsedada e ela passau a proceder
corretamente, saindo da faixa vibracional do
obsessor, porém este me amaldiçoou.
Certamente, ele não me prejudicou, em
primeiro lugar porque eu não estava na
sintonia dele e depois porque quis o bem dele
também e tentei ajudá-lo. Outra da qual me
lembro foi quando já estava no plano
espiritual. Socorri um desencarnado que
estava no umbral como escravo e orientei-o,
ele recebeu o socorro e se esforçou para se
modificar e melhorar. Esse espírito era
talentoso na literatura e estava sendo obrigado
a motivar encarnados a escrever o que um
grupo queria. Esses moradores da zona
umbralina me amaldiçoaram. Também não
encontraram ressonância. Mas, mesmo assim,
fui até eles, marquei uma entrevista e
conversamos. Entenderam que tanto eles
quanto eu trabalhava cada qual com um ideal.
Desse encontro vieram comigo dois deles, que
resolveram mudar, para viver para o bem. O
resto do grupo não me amaldiçoou mais.
Muitos dos meus companheiros e eu, ao
receber uma maldição, tentamos resolver a
questão ajudando, esclarecendo. Embora isso
não nos incomode, é um prazer fazer quem
não gosta da gente nos querer bem.".
"Carlos Augusto, se a maldição encontrar
ressonância, como fica o indivíduo que a
recebe?", perguntou Mary.
"Ao fazermos mal a alguém", respondeu o
orientador, "primeiramente o fazemos a nós
mesmos. Quando estamos errados, vibramos
de tal modo que recebemos as energias
negativas. Expressar maldições é muito triste,
porque quem amaldiçoa não perdoa e quem
recebe sente bastante. Por outro lado, temos
as bênçãos, que são energias benéficas, que
tanto bem fazem para quem é grato como para
quem recebe. Minha mãe é uma pessoa
maravilhosa que, quando encarnada, fez muito
o bem. Uma vez um irmão dela lhe disse:
"Irmãzinha, você coleciona Deus lhe pague e
obrigado!' Ela sorriu.
"Um dia, minha mãe me contou que, em
muitas situações difíceis, ela pedia a Deus e
pensava nos agradecimentos que recebia.
Esses fluidos a fortaleciam, e certamente
alguns desses beneficiados intercediam por
ela. E ela nunca ficou sem receber que pedia,
usando da energia da gratidão. Pelo visto,
meu tio tinha razão. Mamãe colecionava "Deus
lhe pague e obrigado". Quando seu corpo
físico estava morrendo, foram centenas de
amigos ajudá-la, lhe dar boas-vindas. Nesse
dia, estávamos meus dois irmãos, uma tia e
eu ao seu lado. Mamãe sorriu e disse: "Deus
lhe pague! Obrigado!". E tranqüilamente partiu
com seus inúmeros amigos para o plano
espiritual. Ela me disse depois, quando nos
encontramos no plano espiritual, que foi isso
que escutou quando seu envoltório carnal
morria, e ela repetiu. Mary, como seria bom se
todos colecionassem essas duas formas de
agradecer e de receber bênçãos.".
"Acho que vou começar a colecionar
agradecimentos, como sua mãe, mas antes
disso vou animada me entender com essa
pessoa que não gosta de mim e que, com
certeza, transformarei em uma amiga."
"Mary, saia da colônia e vá para onde se
encontra essa pessoa. Não se apresse em
voltar: estará fazendo uma pausa nos seus
estudos. Deverá sentir como se estivesse em
férias escolares. Com certeza irá aprender
muito."
"Será que saberei mesmo auxiliá-la? Serei
bem recebida?"
"Quando queremos ajudar e solucionar um
problema, devemos conhecer a pessoa e sua
dificuldade. E você não precisará dizer quem é
realmente. Fale que é uma amiga, é isso que
deverá ser: uma amiga. Quando usamos da
amizade, sempre encontramos um jeito de
ajudar o outro. Lembro a você, Mary, que são
muitos os postos de socorro espalhados pela
Terra e que certamente encontrará um perto
de aonde irá. Logo que possível, visite-o,
identifique-se e conte a eles o que está
fazendo. Peça ajuda se necessitar e receberá
auxílio."
Mary abraçou Carlos Augusto, agradeceu e
saiu do gabinete. Foi para seu quarto e olhou
seus pertences:
"Vou levar só o necessário!", exclamou.
Pegou uma mochila e colocou dentro uma
lanterna e alguns livros.
"Talvez tenha tempo para lê-los!", voltou a se
expressar.
Foi para o jardim da colônia com a mochila e
escutou novamente: "Maldita!".
Seguiu a sintonia de quem se expressava.
Volitou...


8 - Em Nosso Lar, obra psicografada por
Francisco Cândido Xavier, edição da Feb -
Federação Espírita Brasileira, seu autor, o
Espírito André Luiz, no capítulo 5 "Recebendo
Assistência", também se refere a um espírito
com uma bolsa portando objetos, tratava-se
de Lísias, espírito visitador dos serviços de
saúde,
prestando atendimento a André Luiz. (N.A.E.)"


"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho





O PAIOL



"Mary foi para uma chácara, perto de uma
cidade de porte médio. A casa era grande:
tinha à frente um jardim; nos fundos à
esquerda ficava um pomar, e à direita, um
paiol, um galpão não muito grande onde eram
guardados os cereais e os alimentos para os
animais. Foi para lá que ela se dirigiu.
O local estava quase vazio: alguns sacos de
milho e ração estavam num canto,
instrumentos de trabalho no campo, em outro;
muita sacaria vazia e alguns móveis velhos.
Mary observou tudo com curiosidade e
encostou-se numa escada, fazendo um
barulho que só podia ser ouvido por
desencarnados, e foi isso que aconteceu.
"Quem está aí? É você Zé Grilo?", perguntou
uma voz feminina.
Mary reconheceu a voz que a maldizia. Olhou
para a direção de onde vinha o som e viu uma
mulher saindo de trás de alguns sacos vazios,
ajeitando a roupa. Ela aparentava ter
desencarnado com cinqüenta anos; era
robusta e trajava um conjunto: calça comprida
e blazer pretos, que estavam um pouco sujos.
A desencarnada sentou-se num banquinho.
Bastou Mary olhar para ela e querer que esta a
visse para tornar-se visível. ¹ A senhora a viu
e a observou com curiosidade.
"Bom dia! Sou Mary. Estava passando e resolvi
entrar. Posso?"
"Depois que entra é que pede?", falou a
senhora.
"É que julguei não ter ninguém", disse Mary.
"Está bem, entendo. Você achou que não tinha
nenhum morto por aqui, não é isso?"


1 - Tornar-se visível: sublimamos ou
desequilibramos o delicado agente das nossas
manifestações, o perispírito, conforme o tipo
de pensamento que emitimos. Quanto mais
nos elevamos, no sacrifício pessoal da
renovação moral e no trabalho construtivo,
maior a sutileza do nosso perispírito. Os
espíritos de ordem elevada apresentam um
corpo perispiritual mais sutil. Para se fazerem
visíveis, eles se utilizam de fluidos densos,
extraídos do ambiente terrestre, modificando,
provisoriamente, a condição do seu perispírito
e dando a ele a forma que melhor lhes
convém. (N.A.E.)


"É...", respondeu Mary.
"Você sabe que já morreu?", perguntou à
senhora.
"Sei que meu corpo morreu e que continuo
viva", respondeu Mary.
"Você disse que estava passando por esses
lados? Não tem onde ficar? Não! Se quiser,
pode permanecer aqui, desde que não me
incomode. Mary? Você se chama assim? Sou
Liliana, mas pode me chamar de Lia",
apresentou-se a senhora.
"Obrigada!", Mary finalmente conseguiu falar,
pois até aquele momento estava só
respondendo com a cabeça.
Liliana, ou seja, Lia, continuou olhando para
Mary. Depois de tê-la examinado bem, ela
falou:
"Você com esse conjunto de saia e casaco
cinza parece ter saído do século passado! E
essa blusinha branca enfeitada com renda que
veste por baixo! Deve ser muito antiga."
Mary se olhou, sempre gostara de sua roupa.
No plano espiritual, nas colônias, nos postos
de socorro, ninguém repara nesses detalhes, e
ela nunca pensara em se vestir de maneira
diferente. Depois, se acostumara a ver na
Espiritualidade espíritos vestidos de muitas
maneiras.
Como Mary ficou quieta e se observando, Lia
disse em tom mais gentil:
"Não se melindre, você deve ter sido enterrada
com essa roupa. Só falta o chapeuzinho para
ficar com o traje completo. Vou recomendar ao
Zé Grilo para não rir de você. Afinal, não tem
culpa de estar vestida assim, ainda bem que
você tem sapatos. Eu fui enterrada sem eles e
não consigo calçar nenhum. Vê? Estou
descalça!"
Mary passou as mãos pelos seus cabelos que
estavam presos num coque e pensou que,
quando encarnada, gostava de usar chapéus.
Depois, olhou para os seus pés, estava
calçada com seus sapatos cinza de salto
médio. Observou Lia e viu que ela estava
descalça. Ficaram alguns instantes em
silêncio. Depois Lia falou:
"Você parece ser educada, espero que seja
instruída e que possamos conversar. Estar
morta é muito chato: os vivos não nos
escutam. Eu só tenho falado com Zé Grilo, e
ele não tem uma conversa interessante".
Levantou-se do banquinho e começou a
arrumar os cabelos. Queria prendê-los, mas
não conseguia.
"Quer que eu a ajude? Sei fazer isso", falou
Mary, prestativa.
"É mesmo? Não consigo prendê-los por não
ter grampos."
Mary fingiu que tirava grampos dos seus
cabelos, plasmou alguns, limpou os cabelos
dela e os prendeu. Lia olhou-se num espelho ²
que estava num dos móveis, gostando do
resultado:
"Obrigada! Venha comigo a casa. Eles vão
almoçar e quero ver a minha filha, que ficou
de vir".
Mary a seguiu e elas saíram do paiol. Andaram
alguns metros e a socorrista viu um vulto, um
desencarnado, que passou correndo.
Lia explicou:
"Não se assuste. É o Zé Grilo, ele é anão.
Quando era vivo, ele era anão, e continua
sendo depois de morto."
"Lia", disse Mary, "aprendi que estamos
sempre vivos. Quando estamos vivendo num
corpo físico, estamos encarnados; quando
este morre, estamos desencarnados".
"Gostei!", exclamou Lia. "Na carne,
encarnados, e sem o corpo de osso, pele etc.,
com o prefixo negativo 'des', desencarnados.
Essas pessoas que a ensinaram isso devem ter
razão, é coerente. Entendo as coisas com
facilidade, tenho instrução, pois estudei."
Chegaram a casa, que era toda rodeada por
uma varanda.


2 - Os desencarnados vêem todos os objetos
materiais como os encarnados, porém sua
imagem não se reflete no espelho físico. Ao
plasmar um objeto e sendo este Um espelho,
ele reflete a imagem do desencarnado. Lia
plasmou sem saber, por sua vontade, junto ao
espelho material, um espelho em que ela se
via. (N.A.E.)


"Que casa bonita!", exclamou Mary.
Lia sorriu apontando com a mão para uma
porta e falou:
"Aproveite que está aberta e entre".
A casa era limpa, com bons móveis antigos e
com muitos enfeites. Ao ver Mary se admirar,
Lia explicou:
"A decoração foi modificada após a minha
morte. Está diferente. A segunda esposa do
meu marido, intrusa e invasora, modificou-a
muito, enchendo de vasos, flores e enfeites.
Venha por aqui".
Chegando à sala de refeições, encontraram
dois casais almoçando. Lia falou, indicando-
os:
"Este é Willian, meu marido ou ex, porque o
ingrato já se casou de novo. Esta é Aidê, sua
esposa. Esta moça linda é Giovana, a Gina,
minha filhinha, e este é Agenor, seu esposo".
Mary observava tudo atentamente. Willian
estava bem vestido, elegante; aparentava ter
quarenta anos. Aidê era morena, alta, magra,
tinha cabelos compridos bem cuidados e devia
ter trinta e cinco anos. Agenor, o genro, era
moreno e tinha cabelos e bigodes pretos; era
um homem muito bonito. A filha, Gina, era
robusta e tinha cabelos castanhos como os
olhos. Lia continuou a falar:
"Gina casou-se muito nova, com dezessete
anos, faz dois que está casada. Na época
fiquei receosa por ela ser muito jovem, mas
ainda bem que deu certo. Agenor é bem mais
velho e a trata muito bem, é discreto e
conversa pouco. Não estranhe ao ver minha
filha triste, ela está aborrecida com o pai por
ele ter se casado novamente e com tão pouco
tempo de viuvez".
- Recebi uma carta de Jorge Luís! - exclamou
Gina.
"Jorge Luís é meu filho mais velho. Mora em
Londres", explicou Lia. "É filho do meu
primeiro casamento. Willian não gosta dele
por ele ser homossexual. Gina é minha filha e
de Willian."
- Como ele está? - perguntou Willian.
- Jorge Luís está bem - respondeu Gina.
"Lia! Lia! Venha cá! Rápido! Corra!"
As duas escutaram o anão chamar Lia do lado
de fora da casa. Saíram correndo e foram para
o paiol. Lia perguntou:
"O que foi Zé Grilo? O que aconteceu?"
O anão saiu de trás dos sacos de milho e
observou Mary, e esta a ele. Sua estatura era
pequena: media cerca de noventa e cinco
centímetros. Era estranho, tinha os olhos
saltados e os lábios grossos e sorria
mostrando ter poucos dentes estava sujo e
tinha as unhas grandes.
"Não se assuste, Mary Este é o Zé Grilo, um
desencarnado, como você costuma chamar,
ou seja, um vivo sem o corpo de carne. Ele
mora na chácara ao lado e vem muito me
visitar. Zé, esta é Mary, uma desencarnada
perdida por aí que não tem onde ficar.
Convidei-a para se hospedar aqui por alguns
dias. Não ria dela, não tem culpa de estar
vestida assim."
"Oi!", exclamou Zé Grilo, esforçando-se para
não rir.
"Diga logo o que tem para me dizer! Por que
me chamou tão aflito? O que aconteceu?",
perguntou Lia curiosa.
"É que eu tinha visto esta aí", respondeu ele,
apontando para Mary, e queria avisá-la que
havia uma pessoa estranha por aqui, mas pelo
visto você também a viu e já sabe quem é."
"Claro que eu a vi! Escutem... É o barulho do
carro de minha filha. Eles foram embora e eu
não escutei as notícias de Jorge Luís",
reclamou Lia.
"Gina falou que ele estava bem", disse Mary.
"Foi só isso que eu soube. Faz tanto tempo
que não o vejo! Estou com muita saudade
dele", suspirou Lia.
"Será que ele continua a gostar de homens?",
Perguntou Zé Grilo.
"Não ofenda meu filho!", gritou Lia, exaltada.
Zé Grilo assustou-se e tratou de se desculpar:
"Não quis ofender! Longe de eu xingá-lo! Eu o
conheci pequenino. Só queria saber.
Desculpe-me".
"Está bem, desculpo, tenho estado muito
nervosa. Jorge Luís deve estar como sempre.
Como disse, mora muito longe, não tenho
como saber dele."
"Como você se chama?", perguntou Mary a Zé
Grilo.
"José Ari. Zé Grilo é o apelido que tenho desde
garoto", respondeu ele.
"Recebeu esse apelido porque era chato e
gostava de incomodar as pessoas", falou Lia.
"Você, Lia, fica aqui neste paiol?", indagou
Mary.
"Fico. Zé Grilo não, ele mora na chácara ao
lado. Durmo ali!" Apontou para alguns sacos.
"Não gosto de ficar dentro da casa, eles
fecham as portas e eu não tenho como sair, O
paiol está sempre aberto. Depois, fico com
muita raiva ao ver a intrusa no meu lar, toda
dengosa com meu marido. É melhor ficar aqui
mesmo."
"Você morreu há muito tempo?", perguntou Zé
Grilo à Mary.
"Sim", respondeu ela.
"Fale desencarnou, Zé Grilo, é melhor do que
dizer morreu", disse Lia. "É tão triste falar eu
morri!". Desencarnei há onze meses e meu
marido já se casou de novo".
"Eu não sei quanto tempo faz que 'bati as
botas', que morri", suspirou Zé Grilo.
"Já lhe falei muitas vezes que faz treze anos",
disse Lia alterada.
"Não seja metida a saber de tudo", respondeu
Zé Grilo. "Você só sabe por que escutou
muitas vezes Gina falar: Mamãe morreu há
onze meses e papai já se casou de novo!"
"É verdade! Perturbei-me quando meu corpo
morreu. Eu me sentia e me sinto viva. Você
não se sentiu confusa quando aconteceu com
você?", perguntou Lia à Mary, que confirmou
com a cabeça. Lia continuou a falar: "E você,
Zé Grilo, está perturbado até hoje. Se, quando
morri, fazia doze anos que você tinha falecido,
então, agora, faz treze anos. Não se esqueça
mais!".
"Eta, mulher brava!", exclamou Zé Grilo.
Nesse momento um encarnado entrou no paiol
devagar e, olhando tudo atentamente, pegou
uma ferramenta.
"Não me ofenda, Zé Grilo. Você está na minha
casa! Anão retardado!", gritou Lia, não se
importando com a entrada do homem.
"Você, dona Lia, é insuportável! Seu primeiro
marido deve ter morrido de desgosto. E não
foi a toa que o segundo a matou. Ninguém a
suporta!", respondeu Zé Grilo, também
gritando.
Lia pegou um vaso de metal e o atirou em Zé
Grilo, que deu uma risada e saiu correndo. O
homem que havia entrado ouviu o barulho e
teve a sensação de ter ouvido uma
gargalhada. Com a ferramenta nas mãos, ele
saiu correndo, falando depressa e repetindo:
- Ave, Maria! Deus seja louvado! Cruz credo!
Fora, satanás!
Mary compreendeu que Lia não pegara o vaso
material, não conseguiria pegá-lo e atirá-lo.
Num instinto, no momento da ira, ela
imaginou fazê-lo para atingir Zé Grilo. Pensou
que o pegara, o jogara e plasmou o barulho, a
situação. O fato aconteceu na imaginação
dela. Isso não é ouvido pelos que estão na
carne a menos que tenham sensibilidade, isto
é, mediunidade. Espíritos que estão no plano
físico podem fazer barulhos que outros
espíritos escutam e onde fluidos físicos de
pessoas no envoltório carnal que tenham
mediunidade mais acentuada podem ser
usados. Desencarnados que sabem manipular
isso podem produzir barulhos iguais aos que
são ouvidos por todos os encarnados. E isso
também pode ser feito por espíritos que não
sabem fazê-lo, mas que usam sua vontade.
Lugares assim são quase sempre denominados
assombrados.
Lia estava só um pouco perturbada, embora
tivesse onze meses de desencarnada. Esse
período de perturbação é relativo e depende
de muitos fatores. Os que não aceitam a
mudança de plano perturbam-se muito e se
iludem, achando que estão encarnados. Lia
aceitara o fato, e isso a fizera ter consciência
de que seu corpo físico morrera e de que
continuava viva, embora não soubesse viver
desse modo e não entendesse ao certo o que
estava acontecendo.
Lia riu e depois mudou de humor: ficou triste e
sentou-se em alguns sacos. Enxugou algumas
lágrimas, olhou para Mary que a observava
quieta e falou:
"Sente-se aqui, colega de desencarnação, e
não se assuste. Essa pessoa que entrou aqui é
o Adelino, um empregado da chácara que vê e
escuta a gente. Essas pessoas são chamadas
de algo parecido com médicos".
"São médiuns", corrigiu Mary.
"É isso", disse Lia. "Esse empregado às vezes
escuta os barulhos que fazemos. Já espalhou
por aí que este paiol é assombrado, mas
poucos acreditam nele, pois Adelino costuma
mentir. É assim: quem mente não é acreditado
quando fala a verdade. O anão é fofoqueiro, foi
nosso vizinho. Não gostávamos dele, mas
agora, como não tenho com quem falar, aceito
suas visitas. Porém, com você por perto, não
precisarei mais dele."
"Lia, é verdade o que o Zé Grilo falou?",
indagou Mary.
"Sobre meus maridos? Meu primeiro esposo
era uma pessoa muito boa, casamos jovens e
apaixonados, tivemos dois filhos e ele morreu.
Ficou doente e sofreu muito. Fiquei viúva
jovem. Era bonita e rica, então conheci
Willian, apaixonei-me, casei e tivemos
Giovana, a meiga Gina. Éramos muito mais
ricos, meu primeiro esposo sabia lidar com as
finanças. Willian nunca fez nada, deixou tudo
para que os outros administrassem e com o
tempo a nossa fortuna diminuiu. Mas ainda
somos ricos, ou seja, eles são. Quanto à outra
maldade que Zé Grilo disse, pode ser verdade.
Acho que fui assassinada."
"Tem certeza ou acha?", perguntou Mary.
"Queria não ter sido", respondeu Lia, triste,
"mas fui, e deve ter sido meu marido o
assassino. Foi ele! Desconfiava que ele tivesse
uma amante. Essa Aidê deve tê-lo incentivado
a me matar para casar-se com ele e ser a dona
de tudo".
"A herança, com sua desencarnação, não foi
repartida?", indagou Mary, querendo saber
mais sobre o assunto.
"Foi. Quando meu primeiro marido morreu,
fiquei com quase tudo, a terça parte foi
repartida entre meus dois filhos. Quando
Edson, meu segundo filho, faleceu, a parte
dele ficou para mim. Com a minha
desencarnação, tudo o que estava em meu
nome foi dividido entre Willian e minha filha,
porque Jorge Luís doou o que tinha direito
para Gina. Willian havia passado alguns
imóveis para seu nome com o meu
consentimento. Não foram muitos, mas
mesmo assim ele ficou um viúvo rico.
Agora chega de falar. Vou descansar um
pouco. Deite-se também por aí e sinta-se à
vontade.".
Lia deitou-se e Mary transmitiu fluidos
benéficos a ela, que adormeceu tranqüila.
Mary ficou observando por alguns minutos o
local. Depois orou pedindo a Deus que a
iluminasse e a ajudasse a ser útil. Resolveu
então visitar o posto de socorro da região
como Carlos Augusto havia recomendado.
Concentrou-se, sintonizou-se, desejando ir até
lá, e volitou devagar, atraída para a casa. Isso
pode ocorrer conosco, desencarnados:
concentramos-nos e somos levados para onde
desejamos ir. É à força da atração, do
pensamento. Quando em estudo na
Espiritualidade aprendemos a viver como
desencarnados, recebemos instruções sobre
como localizar, ou ir sem conhecer, postos de
socorro, colônias e como sentir as vibrações
desses locais.
Mary logo encontrou o posto de socorro.
Ficava próximo à cidade, cercado por muros
altos. Achou o portão, bateu e mentalizou que
queria conhecer o lugar. A porta foi aberta e
uma servidora a atendeu:
"Saudações em Cristo! Bem-vinda! Entre e
converse conosco".
"Sou Mary. Atualmente faço estágio numa
colônia de estudos. Estou no plano físico, aqui
na região, para resolver um problema."
"Venha. Vou levá-la até o nosso orientador."
Mary achou o posto de socorro muito bonito,
simples e acolhedor. Seguiu sua cicerone, que
a levou a uma sala particular.
"Este é Orestes, nosso orientador!"
Após cumprimentos, que são sempre muito
agradáveis Mary ficou quieta, constrangeu-se.
Não tinha o que falar sobre o que estava
fazendo ali. O orientador a compreendeu:
"Mary conte conosco se precisar de alguma
coisa".
"Obrigada! Acho mesmo que irei precisar.
Estou aqui perto, numa chácara, e não sei bem
o que terei de fazer, porém estou disposta a
fazê-lo a contento."
"E com certeza o fará!", exclamou Orestes,
sorrindo.
"Está na hora de nossa oração", disse à moça
que a recepcionara. "Não quer vir ao jardim e
participar?"
"Quero! Obrigada!"
Mary despediu-se, agradecendo a Orestes e
acompanhando a moça, que lhe explicou:
"Todas as tardes neste horário, fazemos uma
oração conjunta, e trabalhadores e internos
que se encontram em melhores condições vêm
ao jardim. As preces feitas são ouvidas por
todos do posto e até pelos que não
conseguem escutar; os que se agitam no leito
acalmam-se com o poder benéfico da oração.
Orestes tem incentivado todos a orar, a
tornar-se receptivos para receber as graças
pedidas. Entendemos que é pela Oração
sincera que nos ligamos às forças benéficas e
às energias restauradoras".
Mary viu um grupo de doze pessoas rezando.
Não precisou indagar, sua cicerone
esclareceu:
"Aqui todos têm liberdade para rezar como
quiser. Somos cristãos, estudamos os
Evangelhos e somos esclarecidos para que
sigamos os ensinamentos do Mestre Jesus.
Apenas algumas orações são transmitidas, e
são normalmente feitas por três pessoas: um
trabalhador e dois internos. Essas orações
devem ser breves, normalmente de três
minutos. Antes é lido por Aparecida, uma
trabalhadora que tem a voz muito bonita e
muito conhecimento, um texto do livro O
Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan
Kardec, sempre seguido de uma explicação.
Mas nada impede que grupos religiosos se
reúnam para fazer suas preces antes ou depois
do horário marcado. Você está vendo ali
abrigados que, quando encarnados, oravam o
terço. Aqui eles oram também. Aqueles três do
outro lado farão depois suas orações. Eles
pertenciam a outras religiões".
"Aqui não se discute religião, como às vezes
se faz no plano físico?", quis saber Mary.
"Não é permitido. Se isso acontece, um
trabalhador interfere, chamando a atenção dos
envolvidos com firmeza."
"São muitos os religiosos que estranham a
mudança de plano?", indagou Mary.
"A maioria estranha, revolta-se, não quer
aceitar por encontrar a Espiritualidade
diferente do que pensavam e imaginavam. Os
únicos que não estranham e não discutem,
aceitando agradecidos o socorro que recebem,
são os que foram esclarecidos quando
encarnados, são os que viveram aprendendo a
amar todos como irmãos."
Aparecida, uma senhora de aspecto agradável,
acomodou-se no centro do jardim, abriu o
Evangelho e leu um trecho de Mateus: ³.


3 - Mateus, 7: 24-27. (N.A.E.)


"Todo aquele, pois, que ouve estas minhas
palavras e as observa será semelhante ao
homem sábio, que edificou a sua casa sobre
rocha; e caiu a chuva, e transbordaram os
rios, e sopraram os ventos, e investiram
contra aquela casa, e ela não caiu, porque
estava fundada sobre a rocha. E todo o que
ouve estas minhas palavras e não as pratica
será semelhante ao homem louco, que
edificou a sua casa sobre areia; e caiu a
chuva, e sopraram os ventos, e investiram
contra aquela casa, e ela caiu, e foi grande a
sua ruína".
Aparecida fechou o livro e falou com emoção:
"Prudentes e imprudentes ouvem as palavras
de Jesus que foram escritas nos Evangelhos.
Esse texto maravilhoso, que encerra o Sermão
da Montanha, nos mostra que muitos sabem o
que Jesus ensinou e que a diferença está na
realização. Ter boas idéias, dizer que é lindo,
fazer planos e não realizá-los; são como os
que fizeram sua casa sobre a areia da ilusão,
são os muitos que dizem: irei fazer e não
fazem. É prazeroso ouvir os ensinamentos do
Mestre Nazareno, mas só isso não resolve.
Quando tudo está bem para nós, a construção
na areia parece firme; porém, quando nos
vemos em dificuldades, com problemas
dolorosos, ela desaba, não resiste ao
sofrimento, à tempestade. Idéias, ideais,
planos são necessários, mas é preciso que se
concretizem que se tornem obras. Só na
prática dos ensinamentos de Jesus, com boas
ações, com amor verdadeiro, é que
construímos nossa casa na rocha, onde as
adversidades não a derrubam. A casa que não
cai é a construção que fazemos em nós e que
nos acompanha na Espiritualidade".
Após a breve explanação, um trabalhador fez
sua prece:
"Senhor, que tuas bênçãos caiam sobre nós,
iluminando nossos caminhos, para que
possamos seguir teu exemplo Divino de
trabalho. Porque Jesus disse: meu Pai trabalha
O Mestre Nazareno também e nós devemos
seguir seus exemplos e ser úteis. Obrigado
pelas oportunidades que nos dá de reparar
nossos erros e aprender servindo. Assim
seja!"
Depois foi até o centro uma abrigada, uma
senhora que Mary vira no grupo que estava
orando. Ela fez sua oração:
"Maria, mãe de Jesus, rogai por nós, que tanto
pedimos para ser auxiliados na hora da nossa
morte. Pai ajudai-nos a aceitar essa mudança
diferente do que pensávamos. Suaviza essa
saudade tão dolorosa que sentimos dos
nossos familiares. Sabemos que eles
sofrem...".
Ela chorou emocionada. Aparecida a acalentou
e as duas terminaram com uma Ave-Maria,
mudando a segunda parte para: "Maria, mãe
do nosso Mestre Amado Jesus, esteja sempre
nos amparando". (4)
A terceira oração foi feita por outro abrigado,
um rapaz que aparentava estar bem. Ele fez
sua prece com tranqüilidade:
"Obrigado, Senhor, por tudo o que nos dá.
Agradeço a estes irmãos que trabalham para o
nosso bem-estar. Que bons fluidos caiam
nesta casa, dando-nos consolo e alegria.
Ajude-nos a compreender nossa situação de
desencarnados e a aceitar a nova maneira de
viver. Que possamos passar de servidos a
servidores. Ensine-nos a amar e a estender
esse carinho ao próximo e a esta casa que nos
abriga. Ajude-nos a ser gratos e a suportar a
saudade, e que possamos compreender que
em momento algum podemos sair daqui sem
permissão. Nossa forma de viver mudou, mas
continuamos vivos. Graças a Deus!"
Mary emocionou-se. A transmissão findou e
alguns grupos ficaram pelo jardim, orando. Ela
despediu-se da moça que a recepcionara com
um abraço e volitou de volta à chácara. Entrou
no paiol, Lia continuava adormecida. Minutos
depois, entrou Adelino, o empregado médium,
acompanhado de uma outra moça:

4 - Como se trata de um posto de socorro que
está próximo do plano material, as pessoas
ainda têm muitos reflexos desse plano,
inclusive o hábito de orar com mensagens
decoradas. E só aos poucos as pessoas vão
modificando isso, com estudo e entendimento.
(N.A.E.)

— Eva, eu escutei um barulho como se um
objeto de metal tivesse sido jogado e ouvi
uma gargalhada - disse ele.
—Adelino - falou a moça -, você está falando
isso só para me deixar com medo. Coloque aí
a ferramenta e pegue a que precisa. Tenho
muito que fazer. Vou passar roupa e dona Aidê
é exigente. Não posso ficar vindo aqui com
você! Deixe de ser medroso!
—Medroso! Não é você que vê e escuta os
defuntos! - exclamou Adelino.
—Por que não vai ao centro espírita e pede
ajuda a eles? - perguntou a moça.
—Eu já fui lá. Eles me falaram que eu tenho de
freqüentar a Casa e trabalhar, ajudando essas
almas penadas. Mas eu não quero!
—Então não reclama! - exclamou a moça.
Os dois saíram. Lia levantou-se, reclamando:
"Nem aqui no paiol eu posso dormir
sossegada! Esses dois me acordaram. Essa
moça é Eva, uma das empregadas. Temos
uma outra, a Isaura, que faz muito tempo que
está conosco. Já que acordei, vou lhe mostrar
o local. Venha!"
Mary a seguiu. Entraram na casa e Lia foi lhe
mostrando tudo:
"Aqui é a cozinha! A sala de estar, a de
jantar... Ali é o escritório. Tem muitos livros!"
Mary olhou para a estante, havia realmente
muitos livros e diversos seus, que escrevera
quando encarnada. Lia os apontou:
"Willian gosta muito de ler. Veja estes!
Conhece? Ensina como assassinar sem ser
descoberto".
"Mas no final os criminosos são castigados",
falou Mary.
"Pode ser, mas a infeliz que escreveu isso deu
idéias ao meu marido de como me matar.
Venha! Vamos ao andar de cima. Lá estão os
quartos."
Lia a puxou. Subiram as escadas e ela foi lhe
mostrando tudo:
"Aqui era nosso quarto. Willian preferiu ficar
agora no que era de Jorge Luís, decorou-o
todo. É lá o quarto do casal, está trancado.
Pena que as portas estão fechadas. Eu os
mostrarei a você numa outra hora, quando Eva
os estiver limpando. Só que temos de ficar
espertas para não ficar presas neles, pois ela
os limpa duas vezes por semana.
Desceram as escadas devagar e Lia voltou a
falar:
"Estou gostando de você, sabe escutar. Achou
a casa interessante? Não é própria para um
assassinato?"
"Lia", disse Mary, "você deduziu que foi
assassinada e acha que foi seu marido. Como
foi isso? O que aconteceu para seu corpo
morrer? Alguém está preso pelo crime?".
"Vou lhe contar tudo. Venha!", falou Lia,
convidando-a a sair da casa."

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho



Os Cogumelos


"Lia dirigiu-se ao pomar e lhe mostrou um
galpão pequeno, uma construção que se
encontrava quase toda destruída embaixo de
algumas árvores grandes, mangueiras e
jabuticabeiras. A antiga construção devia ter
dez metros de comprimento por quatro de
largura.
"Aqui era onde eu fazia meu cultivo de
cogumelos. Com a minha morte, Gina quebrou
e destruiu tudo."
"Por quê?", perguntou Mary.
"Ela não quer mais esse tipo de cultivo aqui na
chácara. Acabou com os meus cogumelos.
Vamos ao paiol, lá contarei tudo o que
aconteceu."
Depois que se acomodaram, sentadas em
alguns sacos vazios, Lia começou a falar:
"Estava casada com Willian, Gina já era uma
menina, quando tomei pela primeira vez uma
sopa de cogumelos. Gostei demais, resolvi
cultivá-los aqui na chácara, assim, não
precisaria comprá-los. Eram muito caros.
Paguei para um japonês vir aqui me ensinar. Li
bastante sobre o assunto. Willian era contra,
dizia que era arriscado ter algum venenoso.
Mas eu sabia distingui-los e me gabava disso.
Aprendi a fazer várias sopas, e duas vezes por
semana meu jantar era sopa de cogumelos.
Willian enjoou, dificilmente ele as provava.
Adelino, que às vezes fazia as refeições aqui,
também não gostava, dizia ter gosto de mofo.
Isaura as fazia sem experimentar e Eva dizia
também não tomá-las por ter enjoado. Gina
gostava, quando vinha jantar conosco, ela
tomava a sopa comigo. Meu genro não
apreciava.
Então, normalmente só eu tomava a sopa. Era
para mim uma distração cuidar deles, colhê-
los, lavá-los e então levá-los para Isaura
preparar a sopa. E foi depois de ter tomado
uma sopa de cogumelos que morri, ou seja,
que meu corpo de carne e osso morreu".
"Seu corpo físico morreu por isso? Tem
certeza? Poderia ter tido um enfarte", falou
Mary.
"Poderia, mas não tive. Soube disso ao
escutar dias atrás uma conversa entre Isaura e
Gina. Como lhe disse, Isaura está conosco há
muito tempo. Ela me ajudou a criar meus
filhos, gosta deles, e eles dela. As duas
falavam que fizeram à autópsia e que meu
falecimento se deu por envenenamento por
cogumelos. Por isso Gina destruiu meu
cultivo. Todos pensaram que eu não soube
distinguir algum cogumelo venenoso. Só que
tenho certeza de que não havia nenhum
tóxico. Sabia distingui-los, tinha
conhecimentos sobre eles."
"Não pode ter se enganado?", perguntou Mary.
"Infelizmente, não! Alguém colocou na minha
sopa o veneno. Fui assassinada! Não é tudo
simples? Criativo foi Willian, e ele tinha
motivos para me matar! Era mais velha do que
ele, estava gorda e feia. E talvez Zé Grilo
tenha razão: era ciumenta, ranzinza,
mandona. Willian já não me queria mais. Com
a minha morte, ele ficaria livre, rico e poderia
casar com sua amante. Gostava tanto desse
saboroso prato! E foi meu último jantar!",
suspirou Lia, tristemente.
"Algum encarnado desconfia disso?", indagou
Mary.
"Não, ninguém. Só Gina sentiu minha morte,
como também o fato de o pai ter se casado tão
depressa. Ela acredita como todos que peguei
um cogumelo venenoso por engano. Você está
com dó de mim?"
"Se quiser, eu a ajudo a desvendar esse
mistério", falou Mary, sem responder o que Lia
lhe perguntara.
"Se descobrir o que aconteceu e o culpado for
punido, terei paz", suspirou Lia.
"Você quer se vingar?", perguntou Mary.
"Não. Eu só quero que, como nos livros, o
assassino seja preso", respondeu Lia.
"Lia, há outras formas de os desencarnados
viverem, em que podem ser felizes morando
em locais bonitos", expressou Mary, mudando
de assunto e tentando orientá-la.
"Deve haver mesmo. Não vejo por aqui
Geraldino, meu primeiro esposo, nem Edson,
meu filho que desencarnou. Mas, eu não saio
daqui sem descobrir o que aconteceu. Se você
quiser me ajudar, aceito, só não sei como o
fará. Desculpe-me, não quero ofendê-la, mas
você não parece ser esperta para isso. E uma
senhora um tanto bobinha, digo, educada
demais."
Mary sorriu, achando graça. Lia realmente
pensava isso dela. Mary então disse:
"Vamos investigar! Voltaremos a casa e
escutaremos as conversas. Poderemos
descobrir alguma coisa com os comentários".
"Está bem! Vamos!"
Encontraram o casal na sala de estar. Tinham
feito à sesta no aposento deles e estavam
esperando pelo chá que à empregada fora
providenciar.
"É por isso que não gosto de ficar por aqui,
para não ver o comodismo deles nem o jeito
dengoso como Willian trata esta mulher", falou
Lia, com desprezo.
"Lia, vamos ficar quietas e escutá-los."
— Querida - disse Willian para Aidê —, você
melhorou dos enjôos?
— Melhorei, obrigada - respondeu Aidê. — Sua
filha não gostou da notícia de que vai ganhar
um irmãozinho. Ela até engasgou!
"Você tem razão, Mary", falou Lia, baixinho.
"Podemos saber muito escutando, embora
seja um hábito feio. Mas vou esquecer a minha
esmerada educação! Então esta mulherzinha
está grávida! Foi por isso que convidaram
minha filha e meu genro para almoçar, para
lhes dar a notícia. Gina até engasgou! Ela é
como eu: engasga sempre quando recebe uma
notícia inesperada e importante. Vamos ficar
em silêncio para escutá-los."
Mary sorriu, pois era Lia quem falava. Ficaram
ouvindo.
— Levaram dois sustos, ou melhor, três -
disse Aidê. O primeiro quando você voltou da
viagem casado. O segundo quando, ao chegar,
disse aos dois que eu era rica, o terceiro foi
esse, que um nenê está a caminho. Achei
engraçado o espanto do Agenor quando soube
que eu não me casei por interesse. Seu genro
é muito quieto, não é? Acho-o estranho.
— É uma boa pessoa! - exclamou Willian. — É
mais velho que Gina, trata-a muito bem e faz
todas as suas vontades. É quieto mesmo, não
se envolve com os nossos problemas. Lia
gostava dele.
Eva, a empregada, entrou com a bandeja,
levando o chá e a correspondência.
— Senhor Willian, Adelino trouxe as cartas.
Querem mais alguma coisa?
— Não, obrigada! - respondeu Aidê.
Eva saiu e Aidê falou baixinho para o marido:
— Seus empregados, meu querido, não têm
modos educados. Necessito orientá-los ou
trocá-los.
Cada um abriu a sua correspondência. Lia
virou-se para Mary e indignada também falou
baixinho:
"Petulante! Trocar meus empregados! Isaura
nos serve desde que me casei pela primeira
vez e Eva veio para cá meninota".
— O dinheiro está depositado em minha conta,
querido - disse Aidê.
As duas se inclinaram para ver o valor. Lia
abriu a boca. Mary pensou que ela fosse
engasgar. Lia então suspirou e exclamou:
"Ela é rica mesmo!"
— Você está sentindo falta da escola, querida?
-perguntou Willian para Aidê.
— Não - respondeu ela. — Deixei Márcia
tomando conta de tudo, ela é uma boa
funcionária, responsável e de confiança. Eu
precisava descansar, depois, estou grávida,
realizando um sonho. Queria tanto ter um
filho! Agora só quero curtir a gravidez e depois
o nenê. No futuro, vou abrir uma escola nesta
cidade e você, meu querido, irá me ajudar
com as finanças.
— Será um prazer, meu amor! - exclamou
Willian.
— Veja meu bem - disse Aidê —, um folheto
de propaganda daquele restaurante à beira do
lago, onde nos conhecemos. Como será que
descobriram meu novo endereço? E está com
meu nome de casada!
— Deve ter sido alguma de suas amigas que
deu a eles nosso endereço - respondeu
Willian. — Como aquele restaurante é
encantador! Nunca vou esquecer aquela noite
em que a conheci. Você estava linda com
aquele vestido preto. Quero minha querida,
festejar lá quando fizer um ano que nos
conhecemos.
— Não aconteceu tudo depressa demais? Não
faz nem mesmo um ano que nos conhecemos
e já estamos casados e eu esperando um filho!
— Não acho que foi rápido - respondeu
Willian. — Amei você logo que a vi, estava
triste com a viuvez. Viajei por insistência de
Gina, para me distrair. Encontrei você,
namoramos. Quando soube que você estava
grávida, fiquei muito feliz e quis casar logo.
Obrigado, querida, por ter me devolvido a
tranqüilidade e a felicidade!
Willian beijou a mão dela, sorriram felizes. Lia
fez um sinal para Mary, para se afastarem.
Foram à varanda e a ex-proprietária da casa
falou muito triste:
"Você viu como ele a trata? Com todo dengo e
carinho! Comigo ele não era assim!"
"Nem no começo do casamento?", perguntou
Mary.
"É... No começo ele era assim!", expressou-se
Lia, suspirando. "Mary, a Aidê corre perigo.
Não gosto dela, é uma assanhada que se
casou com um recém-viúvo. Só que Willian vai
matá-la! Os acontecimentos estão mudando.
Não era ela a amante dele, porque eles se
conheceram depois que eu morri, ou seja,
desencarnei. Então quem era sua amante?
Aidê não casou com ele por dinheiro. Pelo que
vimos ela é mais rica do que Willian. Foi ele
quem se casou por interesse."
"Pode ser que Willian goste dela de verdade",
falou Mary.
"Não seja uma velha boba! Desculpe-me,
Mary! Você é a única que me escuta. Não
quero ofendê-la! Vamos raciocinar: se Willian
tinha uma amante, será que ele ainda a tem?
Não gostava dela? Deve ter se casado com
Aidê por interesse. E, se foi isso, irá matá-la,
como fez comigo, para herdar seus bens. Se
ele foi fingido comigo, pode também estar
sendo com ela."
"Lia, quanto tempo você ficou casada com
Willian?", perguntou Mary.
"Vinte anos", respondeu Lia.
"Não acha que ficaram juntos tempo demais?"
"Você quer dizer que ele esperou muito para
me matar? Pode ser, mas foi só quando ele se
apaixonou por outra que quis me descartar, e
para herdar minha fortuna me assassinou.
Quando ele encontrou a coitada da Aidê, que
estava louca para casar e ter filhos resolveu
dar o segundo golpe. Ele é um criminoso!"
"Você mudou seu conceito sobre Aidê muito
rapidamente", comentou Mary.
"Claro, soube agora de fatos que desconhecia
que ela não era a amante dele e que é rica.
Arrepio-me só de pensar que logo Aidê estará
entre nós: Desencarnada, e por assassinato",
falou lia.
"Você tem certeza mesmo de que não se
enganou com os cogumelos? Será que não foi
uma distração sua e não houve crime
nenhum?", perguntou Mary falando devagar,
com receio de deixar Lia nervosa.
"Você não entende nada de assassinatos!",
respondeu Lia. "Deve ter sido quando
encarnada uma dessas mulheres que nunca
ouviu falar de crimes. Não deve entender
desse assunto. Vou responder a você pela
última vez: não me enganei! Colocaram em
minha sopa um cogumelo venenoso. Fui
assassinada! E pelo meu marido! Entendeu?"
"Sim, entendi", respondeu Mary. "É que Willian
não me parece um criminoso."
"E assassino tem cara diferente? Que bom
seria se todos os criminosos fossem diferentes
das outras pessoas, se tivessem, para
distingui-los, uma marca ou até mesmo um
escrito na testa dizendo o que fizeram de
errado. Se assim fosse, não precisaria ter
investigadores, e o trabalho da polícia seria
mais fácil. Estou com dó da minha filha! Vai
ter um irmão com idade de ser mãe. Também
estou com dó dessa criança. Terá como minha
Gina, um pai assassino da própria mãe. Que
vou fazer? Que vamos fazer?"
"Vamos escutar mais. Devemos ir até a
cozinha e ouvir os empregados", respondeu
Mary.
"É isso! Empregados escutam muito e falam
mais ainda. Vamos à cozinha!"
As duas empregadas estavam na lavanderia
cuidando das roupas.
"Esta é Isaura", disse Lia a Mary. "Logo que
casei com Geraldino, ela veio trabalhar
conosco, é honesta, trabalhadeira e gosta
muito de todos nós. Eva, que você já conhece,
ficou órfã aos doze anos e não tinha para onde
ir. Isaura a trouxe para cá e ficou com ela no
seu quarto. Fiquei com pena dela e coloquei-a
na escola, pois era analfabeta, levei-a ao
médico, ao dentista, comprei roupas e ela
passou a ajudar nos trabalhos da casa. É uma
mulata bonita, não é?"
Mary fez um sinal para Lia se calar e escutar.
— Eva, cuidado com o que faz! - disse Isaura.
— Isaura, você sempre foi boa para mim, mas
não enche! Já lhe disse e afirmo que não estou
mais interessada no patrão. Tenho saído com
o Nelson, o mecânico!
"O quê?", disse Lia, que se assustou e
engasgou.



1 - Desencarnados como Lia, que preferem
continuar vivendo como encarnados, têm os
reflexos do físico, sentem como se ainda
usassem a roupagem de carne. Engasgar, fato
que acontece com os encarnados, se dá com
eles também. Continuam com outros
costumes que tinham como falar baixo para
não serem ouvidos. (N.A.E.)


Mary a ajudou lhe dando tapinhas nas costas e
pediu para ficar em silêncio:
"Lia, vamos ouvir!"
— Espero que você esteja falando a verdade,
Eva! - expressou-se Isaura, contrariada. —
Senti muito quando soube que você era
amante do Sr. Willian, e não me venha dizer
que foi depois que dona Lia faleceu. Vocês já
tinham um caso antes.
— Isaura, não seja intrometida! Gostei do Sr.
Willian, já não gosto mais, ele me
decepcionou. Fui amante dele, tivemos alguns
encontros, e foi só! - disse Eva, ficando triste
por alguns momentos.
— Você sonhou em se casar com ele! Ser a
dona desta casa! Confessa! - falou Isaura,
enérgica.
— Está bem, é verdade! - exclamou Eva,
suspirando. — Quando ele voltou da viagem
casado, sofri, até chorei. Mas sou muito nova,
bonita, e Nelson está interessado em mim,
quer até se casar comigo. Ele tem a oficina
mecânica e uma casa na cidade. Vou me casar
com ele e me dar bem, não serei mais
empregada.
— Eva, por favor, não faça nada errado! Eu lhe
peço! - expressou-se Isaura, em tom
carinhoso.
— Chega de me amolar! O que pensa que sou?
Uma assassina? Está achando que matei dona
Lia? Não entendo nada de cogumelos nem
gosto deles. É um absurdo você achar que
quero matar dona Aidê. Pare Isaura, de pensar
isso! Por favor!
— Eva, na noite em que dona Lia morreu, eu
tomei um pouquinho de sopa e não aconteceu
nada comigo.
— Tomou pouco! Dona Lia sempre tomava
muito! Eu não fiz nada! Não matei ninguém! -
exclamou Eva, nervosa.
A bonita mulata estava suando, ela passou a
mão na testa e ajeitou os cabelos, estava
muito nervosa. Isaura a olhou com carinho.
Gostava dela e estava realmente preocupada.
— Não falei a ninguém que tomei a sopa
naquela noite. Pensei como todos que dona Lia
morrera do coração. Quando veio o resultado
da autópsia, levei um susto, eu também
poderia ter morrido.
— Já falamos sobre isso - disse Eva. — Se a
sopa foi envenenada depois que estava na sala
de jantar, não pode ter sido eu. Eu estava com
você na cozinha.
— E o carro da dona Aidê? - perguntou Isaura.
— Não entendo de mecânica! - respondeu Eva.
— Mas está saindo com um mecânico! - disse
Isaura, suspirando.
— Só pode ter sido um acidente! Por favor,
Isaura, não pense isso de mim. Gosto de
você! Meu erro foi ter dado atenção ao Sr.
Willian, não ter resistido à sua sedução e ter
sido amante dele. Chega de conversa. Vou
passar roupa!
Isaura foi para a cozinha. Lia estava com os
olhos muito abertos, bem como com a boca.
De repente deu alguns gritos e pegou Eva pelo
pescoço.
"Sua ordinária! Ingrata! Traiu-me depois de
tudo o que lhe fiz!"
Eva não ouviu nem a viu, sentiu um ligeiro
mal-estar e passou as mãos pelo pescoço. ²
Mary segurou Lia e falou com firmeza:
"Calma, amiga! Calma! Venha comigo!"
Lia se deixou levar e chorou de soluçar. Foram
para o paiol. Mary a fez sentar-se nos sacos
vazios e sentou-se junto. Colocou a cabeça
dela no seu colo e passou as mãos com
carinho nos seus cabelos. Ela chorou por
alguns minutos em desespero, depois foi se
acalmando e falou em desabafo:
"Eva me traiu! Sinto mais por isso! Sou
inteligente e sabia que Willian, mais novo do
que eu, bonito e charmoso, tinha outras
mulheres. Ultimamente sentia que ele estava
com alguém especial. Nunca poderia imaginar
que fosse Eva. Que tristeza! Que decepção!
Viu no que deu investigar, escutar conversas
alheias?", falou Lia, suspirando tristemente.



2 - Nem todo mal-estar de encarnados se dá
por esse motivo. Naquele momento, pela
conversa com Isaura, Eva sentiu-se culpada e
Lia criou uma energia forte de raiva e rancor.
(N.A.E.)


"Mas agora sabe de mais coisas!", expressou-
se Mary, sem saber o que falar.
"Você tem razão. Já sei de tudo! Willian e Eva
eram amantes e resolveram me matar. Ele
quis ficar livre, viúvo, para casar-se com ela,
que é novinha bonita e magra. Quando morri,
eles resolveram esperar um pouco para
assumir o romance. Aí ele viajou e teve
oportunidade de dar outro golpe: conheceu
Aidê e se casou. Ele me matou e a matará
também. Ficará mais rico e casará com Eva.
Que moça ingrata! Sempre a tratei bem,
permiti que viesse para cá quando não tinha
para onde ir! Como a ingratidão dói!"
"Será que Eva a matou ou ajudou a matá-la?",
perguntou Mary.
"Até você começa a achar que fui realmente
assassinada. Não sei! Não creio que ela fez
sozinha. Embora tenha estudado, ou melhor,
freqüentado a escola, ela tem pouca cultura e
não é inteligente para ter planejado tudo isso,
ou seja, ter elaborado meu assassinato de
forma a parecer um acidente, um engano
terrível de minha parte. Depois, se ela estava
na cozinha, só sobrou uma pessoa na sala:
Willian. Ele é instruído, esperto e sempre leu
aqueles livros de mistério."
Mary entristeceu-se, esforçou-se para
tranqüilizar-se e, quando conseguiu, orou. E,
como sempre quando oramos recebemos
energias benéficas, ela as sentiu e as
transmitiu para Lia, que adormeceu. Devagar,
Mary acomodou a cabeça dela e saiu. Foi para
o jardim e rogou ajuda a Carlos Augusto. Não
tardou muito e ele foi até ela, beijou-lhe as
mãos e indagou com carinho:
"Mary, por que está insegura?"
Ela lhe contou tudo, falando depressa e
finalizando:
"Não é mais fácil saber logo se houve
assassinato e quem o praticou?"
"Você sabe fazer isso? Não! Então continue
aqui com Lia e a ajude, foi para isso que veio.
Você, minha cara Mary tentará viver um fato
que por muito tempo só imaginou."
"Fui culpada? Meu Deus! Nunca quis isso!",
exclamou Mary.
"Não foi culpada! Não é! E não se sinta
assim!", disse Carlos Augusto, com carinho.
"Pode acontecer de alguém fazer algo com boa
intenção e outros o usarem para o mal. Por
exemplo: a faca foi feita para facilitar a tarefa
do ser humano, e esse instrumento foi e é
muitas vezes utilizado para matar e ferir.
Medicamentos que pessoas passaram anos
estudando para diminuir dores são usados
para outros fins. Há abusos quando deveria
haver usos. Errados são os que os utilizam
para o mal, e não quem os fez. Você não errou
Mary, e não pode ter responsabilidades se
alguém utilizou erroneamente suas idéias.
Mas, se não ajudar a esclarecer esse fato,
nunca saberá se o criminoso usou de suas
idéias, de seus livros. Tenha calma! Confio em
você, minha cara detetive."
"Será que nesta casa acontecerá outro
crime?", perguntou ela.
"Como interferir no livre-arbítrio de alguém?
Como impedir nosso próximo de fazer algo
errado? Como seria bom se pudéssemos evitar
que as pessoas cometessem maldades, como
assassinatos. Você poderá auxiliar Lia, e, se
puder ajudar mais alguém, será ótimo."
"Lia não sabe quem sou eu. Devo falar?",
indagou Mary.
"Não, é melhor não falar que foi você quem
escreveu os tais livros. Seja aqui uma
socorrista, uma pessoa que presta auxílio."
"E se eu não souber ajudar?", perguntou ela.
"Saberá, sim!", falou Carlos Augusto, com
convicção. "Mas, se tiver dúvidas, ore, Mary.
Pela oração recebemos orientações dos bons
espíritos, inspirações do alto, divinas. Ame
todos os envolvidos, quando amamos,
sentimos as dificuldades dos outros como se
fossem as nossas e ajudamos com mais
precisão. Poderíamos levar Lia para um
socorro. Mas ela ficaria? Já esteve em um
abrigo. Enquanto ela não souber de tudo, não
sossegará nem deixará de maldizer a
escritora. E você, agora também com dúvidas,
não ficará sem receber os clamores dela e se
sentirá mais incomodada."
"Você tem razão, Carlos Augusto. Vou tentar
desvendar esse mistério, ajudar os envolvidos
e confiar mais.".
"E pode contar comigo, tentarei vir todas as
vezes que me chamar. Devo ir. Até logo!"
Carlos Augusto volitou e Mary sentiu-se
envergonhada por tê-lo chamado, sabia que
ele tinha atividades vinte e quatro horas por
dia. Sentiu-se confiante por ter falado com ele
e entrou na casa"."

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho




A Tentativa



"Mary foi para a sala, Willian estava sozinho
lendo um jornal. Ela aproveitou para ver se
conseguia induzi-lo a pensar no ocorrido e
escutar seus pensamentos. Ele largou o jornal
e pensou:
"Casei muito novo com Lia, encantei-me com
ela, uma viúva bonita e rica. Da nossa união
nasceu Giovana que tanto amo. Fiquei viúvo,
fiz aquela viagem e encontrei Aidê: bonita,
elegante e muito rica. Tive sorte, estamos bem
e vamos ter um filho".
Por mais que Mary tentasse, ele não pensava
mais em Lia. Estava empolgado com a nova
esposa e fazia planos para um futuro feliz. Ela
desistiu e voltou para o paiol. Olhou para Lia,
que estava dormindo, e a chamou baixinho.
Lia acordou, sentou-se e exclamou:
"Nunca pensei que mortos dormissem! E eu o
faço sempre. Acho que tive um pesadelo! Ou
não? Foi verdade? Eva era a amante de
Willian. Os dois me traíram! Qual deles me
assassinou? Foram os dois juntos? Que
tragédia que ocorreu comigo!"
Antes que Lia começasse a se lamentar ou
chorar, Mary a convidou:
"Willian e Aidê já devem ter jantado. Vamos
ouvir o que eles conversam?"
"É perigoso! Se eles fecharem as portas,
ficaremos lá dentro, e eu não quero ficar na
casa com eles", respondeu Lia, com ar de
preocupação.
"Isso não é problema, sei abrir as portas da
casa dos encarnados. Aprendi e posso fazer
isso."
"É mesmo? Você sabe? Isso é incrível! Bem,
se você consegue, podemos ir. Vamos
bisbilhotar!"
Escurecia, ao sair do paiol, elas viram Eva
saindo da casa e indo a direção à cidade. Lia
explicou:
"Eva tem ido freqüentemente pernoitar na
cidade. Tem amigos por lá e, se for verdade
que está namorando esse mecânico, vai
dormir na casa dele."
Mary fingiu que abriu a porta e empurrou Lia
para dentro. Esta passou pela porta fechada
sem perceber que ela não fora aberta.
Os Desencarnados que têm conhecimentos
fazem isso facilmente. E alguém como Mary
pode fazer com que outros que não os tenham
passem pela porta. Lia teve a sensação de que
ela abriu e fechou a porta. Mas, isso não
aconteceu. Desencarnados podem atravessar
objetos materiais.
"Você sabe mesmo! Que bom!", exclamou Lia.
Passaram pelas salas e foram encontrá-los na
varanda, na frente da casa, sentados em
cadeiras que rodeavam uma pequena mesa.
"Se soubéssemos que estavam aqui, você não
precisaria ter aberto a porta. Era só contornar
a área externa. Vamos ficar perto deles", disse
Lia.
O casal falava entusiasmado, faziam planos
para quando o filhinho nascesse, escolhiam
nomes, padrinhos etc. Não diziam nada que as
interessassem. Lia ficou impaciente e
reclamou:
"Willian não me tratava assim, eram raros os
momentos em que conversávamos.
Normalmente era eu quem falava. Como dá
atenção a ela! Mas será que planeja matá-la?
Estará pensando nisso?"
Mary estava desistindo de ficar ouvindo-os e
pensou em sugerir à sua companheira que
voltassem ao paiol, quando viu algo se
movendo na sacada acima.
"O vaso!", gritou Mary. Ela gritou com tanta
convicção que seu grito foi sentido por Willian,
este instintivamente olhou para cima e
percebeu que o vaso ia cair. Ele se levantou
rapidamente, empurrou para o lado a cadeira
onde Aidê estava sentada e a protegeu com
seu corpo. O vaso caiu, espatifando-se bem no
local em que Aidê estava sentada antes de
Willian empurrá-la.
— Você está bem, querida? Machucou-se? -
perguntou Willian, assustado e ofegante.
— E... Eu... - Aidê não conseguia falar.
"O vaso ia cair em cima dela", falou lia para
Mary "Vamos acudi-la, parece que ela vai
desmaiar.".
Mary ficou na dúvida. Não sabia se ia ao andar
de cima tentar ver quem estava lá ou se
acudia Aidê, que estava branca, tremendo,
suja da terra que se espalhara e com um
pequeno corte na testa, pois fora atingida por
um dos pedaços do vaso de cerâmica.
— Isaura! Isaura! - gritou Willian.
Ele estava sujo, fora atingido por muitos
pedaços do vaso, mas não se machucara. A
empregada chegou logo e assustou-se.
— Ajude-me a levar Aidê para dentro da casa!
- pediu ele.
Subiram até o quarto. Isaura foi buscar água
com açúcar. Aidê a tomou tremendo. As duas
os acompanharam. Lia olhava tudo espantada.
Mary tentou auxiliar Aidê, fazer com que ela se
acalmasse. Aidê foi se tranqüilizando e aos
poucos se sentindo melhor.
— Willian - finalmente Aidê conseguiu falar —,
o vaso quase caiu em cima de mim! Se não
fosse você, eu teria morrido! Aquele vaso era
grande e com certeza era pesado!
— Como foi cair? Há anos estava lá - falou
Isaura.
— Talvez tenha ficado mal colocado, foi
escorregando e caiu - disse Aidê.
— Por favor, Isaura, faça um chá calmante
para nós - pediu Willian.
Ficando a sós, Willian segurou com carinho às
mãos da esposa e lhe falou:
— Querida, você se lembra do Reginaldo?
Aquele meu primo que encontramos quando
viemos para cá? Ele me disse que estaria de
férias. Vou telefonar para ele e convidá-lo a vir
para cá, ficar alguns dias conosco.
— Por que, Willian? Ele trabalha na polícia. É
investigador, não é? Por que esse convite? Por
causa do vaso que caiu? Acha que ele não caiu
sozinho?
— Não sei querida. Estou confuso. Eu me
sentirei mais calmo com ele aqui.
Isaura chegou. Os dois tomaram o chá e
Willian pediu à Isaura:
— Vá com Aidê ao banheiro e a ajude a tomar
banho. Nós nos sujamos muito com a terra do
vaso. Depois, fique a seu lado. Vou à sala
telefonar e já volto.
Ele desceu e foi para a sala, Mary e Lia o
acompanharam. Willian pegou o telefone,
discou e ficou satisfeito por conseguir seu
objetivo. As duas escutaram:
— Reginaldo? Você está bem? Estamos
precisando de você. Por favor, aproveite suas
férias e venha até aqui ajudar-me a resolver
um problema. Não sei se é grave. Acho que
estão tentando matar minha esposa. Teve o
acidente com o carro. Agora um vaso quase
caiu em cima dela. Não dá para lhe passar
mais detalhes. Você vem? Amanhã estará
aqui? Espero ansioso! Tchau!
Willian desligou o telefone e falou baixinho:
— Vou ao terraço!
Lia puxou Mary e as duas subiram as escadas
com ele. Entraram num dos três quartos que
davam para frente da casa, ele acendeu a luz e
abriu a porta-balcão. Os três aposentos eram
parecidos: todos tinham o mesmo tipo de
porta que dava para a sacada, que tinha por
volta de três metros de largura e era cercada
por uma mureta de cimento de um metro de
altura. Em cima da mureta, três vasos grandes
com folhagem. Willian examinou o local onde,
até poucos minutos atrás, estivera o vaso que
caiu. Observou tudo e não achou nada que
merecesse atenção, fechou a porta e foi para o
seu quarto. As duas ficaram no corredor e o
ouviram falar:
— Isaura, pode ir descansar. Quero que
amanhã, logo cedo, você arrume o quarto de
hóspedes. Meu primo Reginaldo virá nos
visitar.
— O Reginaldo não é aquele que trabalha
polícia? - perguntou a empregada.
— É! Boa noite!
"O vaso não deve ter caído sozinho", falou Lia.
"Estão ali há muito tempo, e o que caiu estava
bem em cima de Aidê. Que faremos agora,
minha amiga?"
"Vamos para o paiol", respondeu Mary.
Mary sabia que não tinha mais ninguém na
casa. Quem tentara matar Aidê já tinha ido
embora.
Isaura passou por elas preocupada e foi para
seu aposento, um quarto grande que ficava ao
lado da lavanderia. Mary empurrou Lia e elas
passaram pela porta.
"Você não a abriu! Agora eu vi direito. Você
passou por ela e me fez passar. Como
consegue fazer isso?"
Mary balançou o ombro, Lia não insistiu por
uma resposta, estava muito confusa com o
que vira. Chegaram ao paiol, estava muito
escuro e Lia reclamou:
"Não gosto de sair à noite. Não enxergo nada".
Mary ligou uma pequena lanterna que trazia no
seu bolso. Na verdade, muitos objetos que
desencarnados usam no plano espiritual têm
um nome específico.
Alguns são parecidos com os que os
encarnados usam. Esse pequeno objeto que
ilumina é visto somente por desencarnados ou
por alguns encarnados sensitivos. A energia
usada pode ser mentalizada por quem o
segura, pode ser solar e até produzida por
outras fontes.
"O que é isto? Uma lanterna? Como você tem
uma?", perguntou Lia.
"Ganhei de um amigo, ele me ensinou a usar.
Guardo-a no bolso", respondeu Mary sorrindo.
"É muito estranho mortos, desencarnados
terem uma!", disse Lia, com ar de espanto.
"Você não está vestida?", indagou Mary.
"É mesmo! Como você a tem não me
interessa. Para mim é ótimo! Não ficaremos no
escuro."
"Dona Lia!", disse Zé Grilo, entrando
apressado e tropeçando. "Que claridade é
esta? O paspalho do Adelino deixou a luz
acesa?"
"É uma lanterna que Mary tem. Sente-se
aqui", convidou Lia.
Zé Grilo olhou curioso e sentou-se perto das
duas. Esqueceram da briga.
Ele falou devagar, não tirando os olhos do
pequeno objeto que iluminava e estava na
mão de Mary:
"Vim procurá-la à tarde, mas não a encontrei.
Fiquei preocupado e curioso. Voltei agora
porque sei que tem medo de andar por aí no
escuro. O que aconteceu?"
"Muitas coisas", respondeu Lia. "Vou lhe
contar. Ficamos sabendo de novidades que
mudam os fatos. Primeiro.. Lia contou toda a
história com detalhes, Zé Grilo arregalou os
olhos, ficando mais estranho ainda do que já
era. Prestou muita atenção e, quando ela
finalizou, exclamou:
"Puxa! Que ingrata e desavergonhada é essa
Eva! Quem será seu assassino? Depois disso
tudo que ouviram à senhora sabe o que
aconteceu?"
"Willian me matou", respondeu Lia.
"Certamente prometeu casar-se com Eva e ela,
ou eles, quer agora se livrar da Aidê, matá-la."
"Tem certeza?", perguntou Zé Grilo.
"Como posso ter certeza? Estou deduzindo. É
o que parece estar acontecendo", respondeu
ela.
"Lia, lembro você que vimos Eva indo para a
cidade", falou Mary, entrando na conversa.
"Ela pode ter voltado. Será que não foi Isaura?
Bem, pelo que me contaram, ela foi
rapidamente ao local quando o Sr. Willian a
chamou", expressou-se Zé Grilo.
"Isaura? Por que ela faria isso?", indagou Lia.
"Estou pensando... Se o Sr. Willian tinha
muitas amantes, será que Isaura também não
era ou é uma delas?", perguntou Zé Grilo,
baixinho.
"Não creio", respondeu Lia. "Isaura tem a
minha idade, não tinge os cabelos nem se
cuida. Porém, não duvido de mais nada.
Será?"
"Lembro à senhora, dona Lia, que eu já vi um
vulto todo de preto entrar na casa pela porta
de vidro da sala", falou Zé Grilo.
"Era encarnado ou desencarnado?", perguntou
Mary.
"Não sei!", respondeu ele.
"Já lhe falei, Zé Grilo, que encarnado é quem
vive no corpo de carne e desencarnado é
quem vive sem o corpo, como nós. Oh, anão
burro!", exclamou Lia.
"Eu já entendi isso! Mas não sei mesmo!",
respondeu Zé Grilo, falando alto. "Vi o vulto e
temi. Sabe que eu tenho medo dos espíritos
maus, pois muitos deles gostam de se vestir
de preto. Não sei se esse vulto era de carne e
osso ou não. E não comece a me ofender,
senão eu xingo você."
"Está bem. Peço desculpas", disse Lia.
"Estou lembrando de um fato!", exclamou Zé
Grilo, contente e já esquecendo a ofensa. "A
senhora recorda do dia em que recebeu a
visita daqueles rapazes homossexuais?"
"Você é intrometido mesmo!", expressou-se
Lia. "Isso aconteceu há algum tempo e você
estava já desencarnado."
"Sei que faz tempo", falou Zé Grilo. "E não sou
intrometido. Só que não tenho nada para
fazer, por isso sempre gostei de observar os
acontecimentos da região, das chácaras."
"Deveria ter visto quem me matou. Aí sim teria
feito algo de útil", disse Lia.
"Sabe muito bem que não gosto de entrar nas
casas, tenho medo de ficar preso", respondeu
Zé Grilo.
"Que grupo era esse? O que veio fazer aqui?",
perguntou Mary.
"Jorge Luís é homossexual, foi difícil para nós
aceitar esse fato. Willian, mais preconceituoso
ainda, o detestava e se envergonhava dele.
Mas meu filho é dócil, educado e bondoso."
"Como uma mocinha", interrompeu Zé Grilo.
"Não me interrompa!", gritou lia, continuando:
"Agora acho que não fui uma boa mãe para
Jorge Luís. Geraldino, quando encarnado,
cuidava dele. Depois que fiquei viúva, era
Isaura. Quando me casei com Willian, ele
queria toda a minha atenção. Eu o amava e
deixei comodamente para Isaura cuidar de
Jorge Luís. Willian tinha muito preconceito,
brigava com ele, o ofendia, e eu nunca o
defendi. Jorge Luís vendeu uma propriedade
que herdou do pai, saiu de casa e foi para
Londres. Foi um alívio para mim, às brigas em
casa cessaram. Dava-nos poucas notícias, nas
cartas, queixava-se de solidão. Willian dizia
que ele se acostumaria, que seria bom para
ele morar longe de nós, que iria aprender
muito etc. Foi depois de um tempo, que não
me recordo quanto, que meu filho havia
partido que recebemos a visita daqueles
rapazes. Eram seis moços. Vieram num carro
e em duas motocicletas, a maioria deles
estava de jaqueta preta".
Lia fez uma pausa e suspirou. Mary e Zé Grilo
estavam atentos. Ela continuou:
"Willian ficou nervoso ao vê-los. Disseram que
eram amigos de Jorge Luís, que moravam na
cidade vizinha, que sabiam que meu filho
sofria longe deles e de nós e que deveríamos
ser compreensivos e aceitá-lo como ele era
chamá-lo de volta e muitas outras coisas.
Willian os tratou com muita indelicadeza e
falta de educação. Eles nos xingaram e um
deles, que estava todo vestido de preto e que
viera numa das motos, virou-se para mim e
disse: 'A senhora ainda irá se arrepender! '
Meu marido os expulsou e eu chorei muito.
Depois disso, nunca mais os vimos. Como ele
disse, me arrependi agora que desencarnei,
devia ter ajudado meu filho, tê-lo chamado de
volta, o protegido. Quando Zé Grilo disse que
viu o vulto de preto, também lembrei desse
fato, porém ele não sabe se essa pessoa era
um encarnado ou não. Estive pensando se não
seria um deles que entrou na casa, se não
seria o homem que falou que eu iria me
arrepender se ao dizer isso ele não teria me
ameaçado...".
"Pode ser que o moço disse isso pensando em
lhe dar uma lição ou falou achando que o
tempo a faria compreender e sentir remorso
pelo que fez com o coitado do Jorge Luís. Você
não foi boa mãe", falou Zé Grilo.
"Meu amigo de infortúnios, embora me chateie
com o que você fala dessa vez tem razão!",
exclamou Lia.
"Não falo por mal, é que não sei me expressar
direito. Como à senhora sabe, eu também
senti falta de uma boa mãe para me defender",
disse Zé Grilo, suspirando tristemente.
"O que você acha Mary?", indagou Lia. "Será
que um desses moços quis se vingar e me
matou? Ou tentou matar eu e Willian?
Colocaram o veneno na sopa quando ela
estava na sala de jantar. Deviam saber que os
empregados fazem as refeições na cozinha.
Lembro do olhar daquele rapaz, era de ódio e
raiva."
"Não sei", respondeu Mary. "Talvez os rapazes
tenham ficado ofendidos, com raiva na hora, e
depois tenha passado. Não quero crer que isso
seja motivo de vingança."
"Vi um vulto, não sei se era homem ou
mulher, todo vestido de preto entrando pela
porta de correr da sala. Ele não passou por
ela, ele a abriu", falou Zé Grilo. "Talvez eles
quisessem assassinar vocês dois e, na
tentativa, quando envenenaram a sopa,
morreu só a senhora. Depois, teve o acidente
com o carro do Sr. Willian, pode ter sido um
defeito, mas pode não ter sido. Não podemos
também descartar a possibilidade de ter sido o
próprio Jorge Luís. Ele foi ofendido, maltratado
e, se guardou rancor, pode ter querido se
vingar. E pode estar querendo matar Willian, e
não Aidê."
"Nunca meu filho iria me assassinar. Depois,
está longe", falou Lia.
"A senhora tem certeza?", indagou Zé Grilo,
que com um gesto de cabeça negativo de lia
continuou: Jorge Luís pode muito bem estar
com esses amigos e ter pedido para que eles
os matassem ou até que contratassem alguém
para fazê-lo".
"Você é um anão maldoso! Meu filho não faria
isso!"
"Não está falando com muita convicção!",
exclamou ele.
Mary preferiu mudar de assunto e pediu:
"Não briguem! Sejam amigos! É tão bom
conversar sem discutir!"
Os dois suspiraram e aquietaram-se por
alguns minutos. Ficaram de cabeça baixa,
estava infelizes.
"É muito triste ter sido assassinada! Queria
saber quem foi e por quê."
"A senhora não tem certeza de que foi o Sr.
Willian", perguntou Zé Grilo.
"Não amole, seu grilo chato! Tenho e não
tenho! Você me confundiu. Estou revoltada!",
exclamou Lia.
"E desconta em mim?", indagou-o. "Também
morri. Não fui assassinado. Lembra quando
meu corpo físico morreu? Fiquei doente por
vários dias. Fui levado para o hospital. Tive
leptospirose, doença transmitida por animais.
Sofri muito, morri e padeci mais ainda. Foi um
castigo ter pegado essa doença!".
"Chega, Zé Grilo, já escutei essa história
muitas vezes!", falou Lia.
"Mas a Mary não!", exclamou ele.
"Fale Zé Grilo. Quero escutar você", falou
Mary.
"Fui adotado!"
"Ninguém sabe essa história direito!",
interrompeu Lia. "Para muitos daqui,
Esmeralda, a mãe dele, teve-o solteira e disse
a todos que o adotara."
"Não sei se isso é verdade", falou Zé Grilo.
"Sempre me disseram que fui adotado, largado
na porta da casa de minha mãe Esmeralda. Ela
me tratava bem, mas às vezes se embriagava
e por qualquer motivo me surrava. Cresci
revoltado por ser anão. É triste ter deficiência.
Na escola, as crianças me batiam, zombavam
de mim, e eu sofria muito. Aí descarregava
meu ódio, minhas mágoas nos animais, tinha
prazer em maltratá-los. Minha mãe Esmeralda
faleceu, eu fiquei sozinho e acabei morrendo.
A chácara em que morávamos fica ao lado
desta, ficou para um primo meu, sobrinho da
mamãe, que logo depois da minha morte a
vendeu. Os donos vêm de vez em quando e
limpam a casa. Não entro nela, não gosto de
ficar trancado. Certa vez, fiquei quinze dias
fechado porque eles foram embora e
trancaram tudo. Fiquei lá sozinho. Foi horrível!
Agora moro num buraco!"
"Zé Grilo" interrompeu Lia. "Mary é minha
visita. Por favor, não a amole! Ela é uma
senhora educada, que não está a fim de
escutar histórias desagradáveis. Você foi
cruel, matava os animais aos poucos, gostava
de furar seus olhos."
"Chega, dona Lia! Não fale de mim! A senhora
foi traída e a mataram. Certamente tiveram
motivos para isso!"
Lia levantou-se e ergueu a mão para lhe dar
um tapa. Ele deu uma gargalhada e saiu
correndo do paiol.
"Desculpe-me, Mary. Meu vizinho é terrível! Só
converso com ele por me sentir muito
sozinha", falou Lia.
"Minha amiga, me fale de você. Viu seu corpo
morrer?", perguntou Mary.
"Não", respondeu Lia. "O que lembro daquela
noite é que jantei como sempre tomei a minha
sopa de cogumelos, e fui me deitar. Senti
dores fortes, não consegui gritar, senti frio,
fiquei dura, e ouvi Willian ir se deitar. Ele
acendeu a luz, percebeu que eu não estava
bem e chamou os empregados. Não vi mais
nada. Quando acordei, estava num hospital
que ficava dentro de outro. Estranhei tudo,
não recebia visitas, ouvia sem compreender...
algo como minha filha chorando e falando que
eu havia morrido. Acabaram me confirmando.
Quis voltar para casa e eles devem ter me
trazido. Fiquei aqui no paiol."
Mary deduziu que Lia teve morte súbita por
envenenamento, sendo levada para o hospital
e lá desligada, isto é, seu espírito foi separado
do corpo físico morto e ela continuou vivendo.
Isso foi realizado pela equipe desencarnada de
servidores do bem que auxilia os médicos e
enfermeiros encarnados. Ela ficou realmente
num hospital dentro de outro, ou seja, num
posto de socorro no espaço espiritual. Não foi
levada para a chácara, foi por impulso, pela
sua forte vontade de querer ir. Volitou sem
saber, sem entender o que ocorria. Isso
acontece muito com desencarnados que não
querem ficar em abrigos.
Lia continuou a falar:
"Ouvi uma conversa e soube que tomei a sopa
com cogumelos venenosos. Eu não me
enganei. Isso é impossível, pois eu mesma os
havia colhido e não existia na minha plantação
nenhum cogumelo venenoso. Deduzi que fui
envenenada, assassinada."
"O que você acha desse primo do Willian?",
perguntou Mary.
"Reginaldo deve ter a idade dele, estudaram
juntos, ele nos visitava raramente. Não me é
simpático. Por que será que Willian o chamou
aqui? Será que ele não tem medo de que o
primo descubra seu crime?
Meu esposo deve ter certeza de que é mais
esperto que o primo e deve ter planos. Mary
acho que ele está querendo se livrar de Eva e
fazer tudo para incriminá-la. Só não entendo
por que impediu que o vaso caísse na coitada
da moça grávida. Pode ser que Willian e Eva
tenham me matado e, agora que ele não a
quer mais, ela o esteja chantageando, por isso
ele chamou o Reginaldo, e o fará crer que foi
Eva que me matou. Ela vai para a prisão e
pronto. Estou cansada, vou descansar. Hoje o
dia foi muito movimentado!"
"Lia, você sabe para onde foi o Zé Grilo?",
indagou Mary.
"Não se preocupe com ele", respondeu ela.
"Sempre brigamos, nos ofendemos, mas não
guardamos mágoa. Ele deve ter ido para o seu
buraco, é uma pequena gruta, fica na chácara
onde ele morou quando estava encarnado, O
lugar é feio, no meio das árvores. Ele fica lá,
gosta do escuro, fala que na escuridão não
enxerga nada. Ele diz, não sei se é verdade,
que na gruta, ou buraco como ele chama,
ficam os animais que ele matou. Não sei se
isso é possível. Mas tenho visto tantas coisas
que não duvido de mais nada! Veja o que
aconteceu comigo! Meu corpo morreu e eu
continuo viva."
Lia passou as mãos nos pés e continuou:
"Meus pés estão doendo por andar descalço.
Como gostaria de ter sapatos!"
"Veja, Lia o que achei ali no canto: um par de
sapatos!", falou a socorrista.
"Mary meu bem", disse Lia, "sei que você não
é esperta, que é só uma velha, digo, uma
senhora que tem boa vontade para ajudar...
Aqui tem coisas que só encarnados podem
pegar.".
"Mas estes sapatos eu peguei. Veja! São como
nossas roupas!"
Mary plasmou um par de sapatos confortável.
Desencarnados que sabem podem plasmar, ou
seja, fazer objetos que só os espíritos podem
ver ou usar. Lia os pegou e os experimentou.
Mary fez com que eles servissem nela.
"Mary, que beleza! Como foi isso? Não, não
precisa explicar. Aconteceu e pronto! Que
bom! Tenho sapatos! Se eu não estivesse com
tantos problemas, ficaria alegre. Nem vou tirá-
los para dormir. Não quero perdê-los! Quero
que esta noite passe depressa, estou curiosa
para ver o que Willian fará amanhã. Aquele
maldito! E também é maldita a escritora
daqueles livros dos quais ele tirou idéias para
me assassinar sem deixar pistas."
"Você leu esses livros?", perguntou Mary.
"Alguns. As histórias são fantásticas e sempre
têm os investigadores que descobrem tudo.
Talvez seja por isso que Willian chamou o
primo."
"Se os investigadores descobrem tudo e se
Willian é o assassino, ele não deveria trazê-lo
para cá", disse Mary.
"Nas histórias dela, eles desvendam o
mistério, só que o Reginaldo não desvendará
esse. Certamente ele culpará Eva. Agora chega
de conversa. Boa noite!"
"Você não vai rezar?", perguntou Mary.
"Vou... Faz tempo que não oro. Fazia isso
raramente quando estava encarnada. Estou
com vontade de rezar. Você ora comigo?"
Fizeram à prece. Lia acomodou-se e dormiu.
Mary levantou-se e foi à procura de Zé Grilo.".

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho



ZÉ GRILO



"Mary não acendeu sua lanterna, aprendera a
enxergar no escuro. Para desencarnados que
se esforçam em aprender, existem
oportunidades de adquirir muitos
conhecimentos. A visão perispiritual pode ser
ampliada, tanto que muitos estudiosos, ao
olharem um encarnado, vêem seus órgãos
internos e detectam doenças. Muitos
trabalhadores que prestam socorro no umbral
só usam essa luminária quando no grupo há
integrantes que não desenvolveram a
capacidade de enxergar no escuro. Mary sabia
muito bem usar essa facilidade. Trabalhara
como socorrista por muito tempo, servindo
num posto de socorro do umbral.
Ela caminhou devagar para o lado indicado por
Lia, passou para a chácara vizinha e entrou no
pomar onde deveria estar o tal buraco. Logo o
achou. Os encarnados enxergavam ali
somente o tronco de uma árvore antiga. Mary
e todos os desencarnados viam que ao lado do
tronco havia uma entrada para o interior da
terra. Ela ia entrar quando ouviu um barulho
do lado direito, alguns metros à frente.
Chamou baixinho:
"Zé Grilo!"
Como ninguém respondeu, ela foi até o local
de onde veio o barulho. Viu uma mulher
desencarnada sentada num tronco de árvore
de cabeça baixa, chorando.
"Precisa de alguma coisa? Por que está
chorando?", perguntou Mary.
A mulher levou um susto, levantou-se e ia
correr, mas Mary a segurou pelo braço e falou
com carinho:
"Desculpe-me. Não quis assustá-la. Não
precisa ter medo".
"Está sozinha?", perguntou a mulher, olhando
para os lados e tentando ver se havia mais
alguém. "Não preciso de nada, não me faça
mal, por favor. Sou do bando do Gordo Leitão.
Só estou de passagem."
"Eu me chamo Mary! Também estou só
passando por aqui, estou sozinha e não faço
mal a ninguém. Só queria ajudar se possível."
"Anda por aí sozinha, à noite, só para
ajudar?", indagou, observando-a bem. "Você é
desencarnada! É uma socorrista? Trabalha
para o bem?"
"Sim", respondeu Mary. "Estou indo visitar o
Zé Grilo. Você o conhece?"
Ela sentou-se de novo e Mary acomodou-se ao
seu lado. A mulher suspirou, enxugou as
lágrimas e falou:
"Sou a mãe do Zé Grilo. Às vezes venho aqui
para vê-lo, mas não tenho coragem de entrar
no buraco em que ele mora, lá dentro é
horrível. Já pensei em levá-lo comigo, mas
não o faço porque sou tratada como escrava
pelo bando do Gordo Leitão. Eles iriam
maltratá-lo por ser anão. Será que não tem
ninguém nos vendo? Terei problemas se
alguém do bando me vir falando com a
senhora".
"Não há ninguém por perto. Só o Zé Grilo no
seu buraco. Por que, Esmeralda, continua
vivendo assim se é tão infeliz?", indagou Mary,
carinhosamente.
"Como sabe meu nome?"
"O Zé Grilo me disse", respondeu Mary.
"Esmeralda, você não me parece satisfeita
com o seu modo de viver. Por que não se
arrepende de seus erros, pede perdão a Deus
e clama por ajuda?"
"Eu já me arrependi e sofri mais ainda. Acho
que não mereço ajuda e não sei viver com
pessoas boas e educadas", falou Esmeralda.
"Quem não sabe pode aprender com pessoas
boas que gostam de ensinar. Morar com os
bons é receber respeito, com eles se vive com
dignidade. Zé Grilo sabe que você está aqui?"
"Não. Eu o vi chegar rápido, e estava
chorando, nem olhou para os lados e entrou
no buraco. Sinto muita pena dele. Visito-o
raramente, pois me acusa de muitas coisas e
acabamos brigando na maioria das vezes que
nos encontramos."
"Vou entrar e conversar com ele", disse Mary.
"Por favor, me espere aqui. Vou trazê-lo para
que conversem e se entendam."
Mary entrou no buraco. ¹
Estava escuro e, para que Zé Grilo a visse, ela
acendeu a lanterna. Ele esfregou as mãos nos
olhos e exclamou:
"Mary, você aqui!"
"Vim visitá-lo. Posso me sentar?"
"Sentar-se?", indagou-o.
Ficaram em silêncio por instantes, Mary deu
uma olhada. Esmeralda tinha razão de não
querer entrar e Lia de ter medo do local. Era
um buraco debaixo do solo, com cerca de sete
metros de diâmetro, cheio de animais mortos.
Eram cadáveres: alguns sangrando, outros
quebrados. Não havia um espaço vazio. Zé
Grilo estava com uma raposa no colo que
tinha os olhos perfurados. O cheiro era
insuportável. Na verdade, não eram cadáveres
materiais, estes já haviam virado pó, voltado à
natureza, como toda a vestimenta física
morta. Eram corpos de animais plasmados por
ele.


1 - O buraco pode ser feito de matéria do
plano físico. Uma construção de matéria
perispiritual é vista pelos desencarnados e por
alguns encarnados que têm a mediunidade de
vidência. Espíritos que sabem fazem locais
assim. Podem ser feitos por desencarnados
como Zé Grilo, que não tem conhecimento.
Muitos fazem por uma vontade forte, podendo
criar lugares, objetos, volitar. O ex-morador
da chácara o fez para se castigar, por sentir-se
culpado. (N.A.E.)


"Não tem lugar nem para eu sentar. Tive até
que pegar esta raposa no colo" o justificou.
Mary fez um sinal com a mão e os animais se
amontoaram, abrindo espaço e deixando o
chão livre. Ela sentou-se e perguntou-lhe,
calmamente:
"Por que está aqui com estes animais?"
"É castigo! Meu terrível castigo! Se você
limpou o ambiente para se sentar, não dá para
tirar esta raposa de cima de mim? Com esta
claridade, vejo-os, e ela me repugna."².


2 - Como já foi explicado, desencarnados
podem plasmar objetos e lugares. Zé Grilo, ao
ter consciência do que fizera, pensou nos
animais que maltratara e matara. Esse
pensamento tomou forma e ele plasmou os
animais, mesmo sem saber. Isso,
infelizmente, é comum no plano espiritual. A
culpa faz com que o espírito veja, sem parar,
seus erros, os objetos usados em assassinatos
e os ferimentos do corpo perispiritual. Como
Zé Grilo disse, é um castigo, mas ele mesmo o
impôs. (N.A.E.)



"Tudo bem!"
Mary fez um gesto com a mão e a raposa
juntou-se aos outros. Ele sentiu-se aliviado.
"Vê isto, Mary? São os animais que maltratei e
matei. 'Não matarás' fala o mandamento, e eu
matei. Não o fiz para comer nem por estar
sendo prejudicado por eles. Eu o fiz por raiva,
crueldade, torturando-os. É justo meu
castigo!"
Ele suspirou tristemente e ficou quieto de
cabeça baixa. Mary pensou:
"A crueldade deve ser um dos maiores erros
que uma pessoa pode cometer contra outra. E
como o carma da pessoa cruel se torna
pesado, mesmo quando a maldade é feita a
um animal!"
Ela entendeu que Zé Grilo não tinha
conhecimento de que estava sendo cruel, e
isso amenizou seu padecimento. O que fizera
foi para descontar os maus-tratos que recebia.
Como não podia maltratar quem o fazia sofrer,
ele maltratava os animais. Mas, como isso não
está certo, ele sofria havia vários anos numa
prisão imposta por ele mesmo, porque um dia
nossa consciência nos cobra.
"Por que você não pede perdão, meu amigo?",
perguntou Mary.
"Como? Falando assim: 'me perdoa, senhora
galinha! ' 'Meu perdão, raposa! ' Tenho
chorado e os acariciado, e eles nem se
mexem. Acha que animais podem perdoar? E
para eles que devo pedir perdão?"
"Não, é para Deus! Você, Zé Grilo, deve
perdoar a si mesmo", falou Mary,
carinhosamente.
"Será que Deus me perdoará? Ele também
criou os animais, O que fiz foi errado,
descontava minhas frustrações maltratando-
os. Estava sempre com raiva. Em todos os
lugares que ia me chamavam de anão,
banquinho, corrimão de escada, etc., riam de
mim, e aí eu descontava no primeiro animal
que conseguia pegar. Por que será que as
pessoas criticam as outras?"
"Ninguém deveria fazer isso", disse Mary.
"Não se deve criticar as deficiências. Se a
pessoa tem o corpo sadio nessa encarnação,
pode não ter tido no passado ou poderá não
ter no futuro. É um erro fazer críticas assim. É
uma maldade."
"Eu entendo um pouco disso, de ter
deficiências no passado ou tê-las no futuro",
disse ele. Já estive num lugar que era
chamado de umbral. Lá diziam que já
vivemos muitas vezes em corpos diferentes e
que eu havia nascido anão por ter abusado de
um corpo físico grande. Disseram-me que já
fui alto, forte e maltratei pessoas. Se isso for
verdade, não mudei muito. Nasci anão e,
como não pude maltratar pessoas, eu o fiz
com animais. Sou um caso perdido!"
"Não acho!", expressou-se Mary. "Deus nos
perdoa sempre quando estamos realmente
arrependidos. E você está não é? Se pudesse
voltar no tempo, você maltrataria os animais?"
"Não, de jeito nenhum!", exclamou Zé Grilo.
"Então, meu amigo, peça perdão. Quando
queremos ser perdoados, nós somos, e temos
oportunidades de reparar nossos erros e
melhorar nossa vida."
"Quero isso, Mary! Se eu tiver oportunidade de
nascer de novo em outro corpo, gostaria de
ser veterinário e ajudar os animais, sendo eu
deficiente ou não. Mas como faço para ser
ajudado?"
"Peça auxílio, Zé Grilo! Mas me diga: você
gosta de sua mãe?"
"A única que conheço é mamãe Esmeralda",
falou ele, suspirando. "Gosto dela, só que,
quando nos encontramos, brigamos muito. Ela
nunca me defendeu nem me repreendeu.
Talvez, se tivesse me orientado, me explicado
na primeira vez em que maltratei um cão, eu
teria aprendido e não estaria aqui com estes
animais a me torturar."
"Não podemos colocar a culpa dos nossos
erros em outras pessoas, meu amigo",
explicou Mary. "Você está se auto-punindo.
Estes animais podem sumir caso você se sinta
perdoado. Vamos tentar? Ore e peça perdão a
Deus!"
Zé Grilo duvidou, porém resolveu tentar e
orou:
"Pai do Céu, fui mau com os animais. Mereci
ser castigado e fui. Perdoe-me, por favor!
Prometo nunca mais maltratar ninguém. Vou
amar os animais! Amém!"
Mary desfez a forte impressão que Zé Grilo
tinha e sustentava daquelas figuras de animais
mortos. ³
Ele olhou encantado e passou a mão pelo
chão: só havia terra; os animais haviam
sumido.
Gritou feliz:
"Deus perdoou-me! Perdoou-me!"
Virou-se então para Mary e perguntou:
"Quem é você? Uma bruxa?"
"Sou só uma pessoa que tenta fazer o bem
para ser boa um dia", respondeu Mary. "Agora,
venha, tem uma pessoa aí fora querendo falar
com você."
"É dona Lia! Eu a desculpo e vou lhe pedir
perdão. Brigamos à toa", falou Zé Grilo.


3 - Pode-se plasmar num impulso, por uma
vontade forte e por muitos outros motivos,
mas desfazer é mais complicado. Dificilmente
o indivíduo desfaz algo que ele plasmou por
impulso. Se Zé Grilo não voltasse mais ao
buraco, os animais plasmados ficariam ali por
algum tempo e depois, por não serem
mantidos pela mente dele, desapareceriam.
Desencarnados que estudam e aprendem
desfazem qualquer coisa plasmada. Esse
conhecimento não é só dos bons. (N.A.E.)


Ele saiu rápido e rindo, deparando com
Esmeralda. Então parou e ficou olhando-a,
quieto.
Mary saiu atrás dele e comentou:
"Vocês dois têm muito que conversar. Vamos
sentar no tronco. Zé Grilo lembre-se da oração
que fez em que pediu perdão e o obteve.
Somos perdoados apenas quando
perdoamos".
"A benção, mamãe!", exclamou ele.
"Deus o abençoe, meu filho!", respondeu
Esmeralda. "Por que você está tão contente?"
"Aqueles animais sumiram porque eu pedi
perdão a Deus", respondeu ele.
"Sei que fui culpada por você sofrer tanto
assim", disse Esmeralda, suspirando triste.
"E eu nunca lhe perguntei se a senhora
sofreu", falou Zé Grilo.
"Pois eu também padeci muito!", exclamou
Esmeralda. "Sabe, meu filho, eu errei
bastante. Você tem razão em me acusar. Sou
sua mãe mesmo, você não foi adotado."
"Não fui? Por que me escondeu isso? Soube
pelos falatórios, mas a senhora sempre
desmentiu. Riram tanto de mim por isso.
Diziam que eu era tão feio e pequeno que
minha mãe, ao me ter, me abandonara para
não morrer de susto, que nem minha própria
mãe me amara. Sentia tanto ao ouvir esses
comentários. Por que fez isso comigo?"
Ele se levantou e ia se exaltar. Mary olhou
para ele e em seguida para o buraco. Zé Grilo
se acalmou e sentou-se novamente.
Esmeralda falou baixo, com a voz triste:
"Eu era jovem quando meus pais morreram,
tinha dois irmãos mais velhos e casados que
exigiam muito de mim. Eles queriam que eu
fosse muito honesta, mas não me davam
nenhum carinho ou atenção. Morava aqui na
chácara com uma velha empregada.
Apaixonei-me por um homem e só depois de
algum tempo descobri que ele era casado. Ao
ficar grávida, ele me abandonou, foi um
período difícil. Tentei abortar, mas não
consegui, escondi a gravidez, só à empregada
sabia. Você nasceu no tempo certo e o
escondemos. Era bem pequenino. Depois de
dois meses dissemos para todos que o
encontramos na porta de casa. Algumas
pessoas desconfiaram, houve falatório, mas
não puderam afirmar nada com certeza. Nós o
levamos a um médico e ele constatou que
você era anão. Apiedamo-nos e tentamos
cuidar bem de você. Quando essa senhora,
que era para mim uma segunda mãe, faleceu,
ficamos só nós dois. Não tive coragem de
enfrentar a sociedade e meus irmãos e preferi
mentir. Perdoe-me, meu filho!
Tive medo e preferi dizer que você fora
adotado"
"Deve ter sido difícil tudo isso para você, não
é Esmeralda?", perguntou Mary.
"Foi, sim, sofri bastante e, quando meu corpo
físico morreu, padeci mais ainda", respondeu
ela. "Quando encarnada, não tive religião, fui
revoltada, viciei-me em bebida alcoólica e,
pior, não eduquei bem José Ari. Quando
desencarnei, fui para o umbral e acabei
fazendo parte de um bando. Agora vago por
aí. Venho aqui quando a saudade aperta,
queria sofrer em seu lugar. Amo você, meu
filho!"
"Não ama nada!", exclamou Zé Grilo, que,
olhando para Mary que o observava
tranqüilamente, resolveu mudar o tom de sua
voz. "Está bem! Acredito que gosta de mim,
pois eu a amo! Acho que nós dois fomos
parecidos: descontamos nossas frustrações
nas pessoas que amávamos ou que estavam
próximas. Eu a perdôo e até a entendo.
Naquela época o preconceito contra mãe
solteira era bem maior."
Ficaram por instantes em silêncio. Mary
pensou:
"Muitas vezes fazemos algo que não queremos
por temer a opinião alheia. 'Um erro não
conserta outro. ' Esta frase é dita por todos
nós e muito pouco praticada. Se Esmeralda
tivesse tido coragem de assumir o filho, José
Ari não teria, certamente, ganhado o apelido
de Grilo, porque não seria chato como dissera
Lia. Não teria sofrido com as críticas,
escutando que a mãe o abandonara. Ela não
sentiria tanto remorso nem se amarguraria
tanto, não teria se viciado em bebida
alcoólica. Tudo teria sido mais fácil. O
preconceito sempre traz conseqüências
dolorosas. As pessoas ainda vêem o cisco no
olho do próximo e não se dão conta da trave
no seu. Vive-se em uma sociedade em que se
tem normas, direitos e deveres e deve-se, em
primeiro lugar, estar em paz com a
consciência. As pessoas que costumam cobrar
bons procedimentos dos outros normalmente
são aquelas que nem auxílio oferecem. Porque
aquelas que ajudam não têm tempo para
criticar. Os pais deveriam educar seus filhos
para não diferenciar crianças com deficiência.
Deveriam ensiná-los a ser caridosos e corrigir
suas tendências viciosas e maldosas. Talvez,
se todos compreendessem a Lei da
Reencarnação, não haveria distinções entre
nós. E eu estou aqui, ao lado de duas pessoas
que erraram, sofreram e não souberam lidar
com o preconceito".
"E você também sofreu, meu filho, por ter sido
anão. Deus é injusto por ter feito você assim",
falou Esmeralda, suspirando profundamente.
"Zé Grilo, Esmeralda, meus amigos", disse
Mary.
"Deus não é injusto. Vocês viram que
sobrevivemos à morte do corpo físico. A vida é
única. Estagiamos no plano físico e voltamos à
Espiritualidade. A vida continua! Já vivemos
muitas vezes num corpo carnal, tivemos
muitos nomes e aparências, fomos de muitos
jeitos. Deficiências físicas são quase sempre
reações a atos indevidos. Também podem ser
provas escolhidas, para demonstrar a nós
mesmos que, embora deficiente, podemos agir
corretamente."
"Não é o meu caso!", expressou-se Zé Grilo.
"Sinto que já fui mau. Tive algumas
lembranças do meu passado, de outras
existências, e vi os erros cometidos. É uma
pena!"
"Remoer erros não serve para nada", falou
Mary. "Temos de aproveitar as oportunidades
do presente e ter esperanças no futuro. E o
propósito de vocês agora deve ser aproveitar
para se reconciliarem, pedir perdão, perdoar e
rogar ajuda a Deus."
"É Deus mesmo que nos acode?", perguntou
Esmeralda.
"É um filho Dele ajudando a outro", respondeu
Mary.
"São as pessoas boazinhas que fazem isso,
não é?", quis saber Esmeralda.
"São aqueles conscientes de que o mundo só
melhorará se as pessoas forem úteis, se
deixarem de ser servidas para servir", explicou
a socorrista.
"Será que os bons nos aceitarão? Achamos
que eles são chatos e que castigam", falou
Esmeralda.
"Não, minha amiga", falou Mary, "os que você
chama de bons não são chatos nem castigam.
Disseram isso a você para que não pedisse
ajuda, para que ficasse longe deles e
continuasse sendo escrava, servindo-os. Você
já viu um socorrista? Prestou atenção nele?".
"Você é uma socorrista?", perguntou Zé Grilo.
"Sinto que é diferente, tem o olhar tranqüilo e
parece feliz."
"Sou uma trabalhadora que aspira fazer o
bem. Sou feliz! As pessoas que querem ser
boas não castigam, e sim auxiliam. E é isso
que estou tentando fazer com vocês. Existe
outra forma de viver desencarnado, há locais
bonitos e limpos. Só que, para serem assim,
tem de haver ordem e disciplina. Os que
necessitam recebem ajuda e, quando estão
bem, aprendem a ser úteis."
"Mary, você acha que eles darão um jeito na
minha aparência? Poderei crescer?",
perguntou Zé Grilo.
"Tenho certeza de que sim. Você também
receberá auxílio nesse sentido", respondeu a
socorrista.
"Quero ir para um lugar desses, Mary!",
exclamou Zé Grilo. "Estou cansado de sofrer.
Quero aprender a ser bom, a fazer o bem.
Mamãe, por favor, peça para ir também, para
ficarmos juntos."
"Tenho medo! Receio que não me aceitem,
afinal agi de maneira muito errada", disse
Esmeralda.
"Para onde irá, as pessoas compreendem e
ajudam. Elas seguem o exemplo de Jesus,
nosso Mestre Amado, que muito nos ama",
falou Mary. 'Jesus perdoou Madalena. Ele não
deixou que apedrejassem a mulher adúltera. '
"Vou pedir perdão!"
"Vamos ajoelhar, meu filho", disse Esmeralda.
Mary ia dizer que não precisava ajoelhar, mas
os dois o fizeram e pediram perdão, rogando
que fossem levados para um lugar bom. A
socorrista também orou e mentalizou o posto
de socorro que havia visitado. Minutos depois,
dois jovens trabalhadores chegaram, deram as
mãos para Esmeralda e Zé Grilo e os ergueram
do chão.
"Vamos, amigos! Vocês irão conosco para um
abrigo!"
"Até logo, Mary, e obrigado!", exclamou Zé
Grilo.
"Deus lhe pague, doce senhora!", expressou-
se Esmeralda.
Os socorristas volitaram com eles. Mary olhou
para o local onde antes havia o buraco, ele
tinha sumido. Ela voltou para o paiol
devagarzinho"."


"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho




HISTÓRIA DE ISAURA



"Mary entrou no paiol e viu Lia dormindo, seu
sono era agitado. Aproximou-se e orou,
impondo as mãos sobre sua cabeça e
acalmando-a.
A socorrista recordou que, numa aula do curso
que desencarnados fazem para aprender a
servir, o orientador explicou por que as
pessoas sem o envoltório físico também
dormem. Quando o corpo carnal morre, temos
de aprender a viver no plano espiritual com o
perispírito, que é a cópia do corpo físico. E,
enquanto não aprendemos, temos os reflexos
do corpo material, que podem ser mais fortes
em alguns e mais fracos em outros,
dependendo do apego à matéria. Como
dormimos quando estamos encarnados, no
momento em que desencarnamos
continuamos sentindo o reflexo do corpo e
dormimos também. Para alguns, o sono é
reparador, para outros, o sono é perturbado
por pesadelos. Conforme os desencarnados
vão entendendo e adaptando-se, eles vão se
livrando desses condicionamentos e, não os
tendo mais, param de dormir. Ficar acordado
para os bons é ter mais tempo disponível para
trabalhar, auxiliar, aprender e progredir, e
para os maus, para agir imprudentemente.
Espíritos que cometem erros acabam sentindo
um vazio que dói. Eles sentem as horas passar
devagar e pensam no sono como uma bênção
que não merecem.
Normalmente têm medo de dormir e serem
atacados, não podem confiar em ninguém.
Tudo isso é um sofrimento que a maioria deles
não admite. Desencarnados como Lia, que
vive como se fosse encarnada, embora saiba
que seu corpo físico morreu, dormem como se
estivessem no corpo carnal.
Mary saiu do galpão. Ficou na varanda da
casa, olhou para o firmamento e se pôs a
admirar as estrelas.
"Como é linda a obra do nosso Criador!",
balbuciou.
Depois, começou a pensar na história das
pessoas envolvidas com aquela casa e orou.
"Meu Deus me ilumine me esclareça para que
eu possa ajudar do melhor modo possível!"
Lágrimas escorreram pela sua face. Receou
novamente não conseguir auxiliar.
"Mary!"
"Carlos Augusto! Que bom vê-lo!", exclamou
Mary, sorrindo.
Ela refugiou-se nos braços do orientador e ele
carinhosamente afagou seus cabelos.
"Vim conversar um pouco com você", disse
ele, gentilmente.
Mary contou tudo o que acontecera e do receio
que estava sentindo.
"Acho que não irei conseguir ajudar Lia", disse
Mary.
"Mas você já a está ajudando. São amigas,
você a tem escutado. É tão bom quando temos
alguém para nos ouvir", disse Carlos Augusto.
"Como gostaria de levá-la para uma colônia!"
"Lia como já lhe expliquei, não ficará bem em
nenhum lugar se não resolver o que a aflige."
"Você sabe o que aconteceu aqui?", perguntou
Mary.
"Sei", respondeu o orientador.
"Não é melhor me falar e eu dizer a Lia?",
indagou Mary.
"Temos encarnados envolvidos no caso que
também necessitam de auxílio. Fique e faça o
que lhe for possível para ser útil."
"Ajudar encarnados me parece tão difícil",
expressou-se Mary.
"Confiamos esse socorro a você. Não
desanime e esclareça esse caso para você
mesma."
"Nunca pensei que alguém pudesse tirar dos
meus escritos idéias para um assassinato",
suspirou Mary, aborrecida. "Nunca iria
imaginar quando encarnada que, ao ter meu
corpo físico morto, me envolveria numa
história de crimes e seria uma detetive. É...
Você, meu amigo, tem razão: não posso voltar
para a colônia, para os meus estudos, e deixar
Lia achando que sou culpada. Seus maldizeres
me incomodam."
"Até logo, Mary! Que Deus a abençoe!"
Carlos Augusto se despediu, abraçando-a com
carinho. Mary sentiu-se melhor. O carinho de
uma amizade sincera nos faz muito bem. Ela
ficou ali na varanda, meditando, orando e
pensando em tudo que vira e ouvira, o dia
clareou e ela foi acordar Lia:
"Acorde! O dia está lindo!"
Lia levantou-se, passou a mão pelos cabelos e
pela roupa se arrumando, olhou para os pés
calçados e disse:
"Que bom estar de sapatos! Onde está o Zé
Grilo? Ele ainda não veio?"
"Não. Acho que nosso amigo está dormindo
tranqüilamente", respondeu Mary.
"Vamos entrar na casa e ver Isaura fazer o
café. Sinto-me bem quando faço isso."
Mary foi com ela. Compreendeu que Lia sentia-
se bem porque sugava as energias de Isaura
quando ela se alimentava. Era como se Lia se
alimentasse também. Tendo reflexos do físico,
ela sentia fome. Enquanto a encarnada
alimentava-se, ela sugava seus fluidos e,
tendo a impressão de que comia, sentia-se
saciada.
Entraram na cozinha e lá estavam Isaura e Eva
conversando. Lia sentou-se numa cadeira e
Mary ficou perto delas. Escutaram as duas
empregadas:
— É isso mesmo Eva, foi assim que aconteceu.
O Sr. Willian e a dona Aidê estavam na
varanda. Um vaso que ficava na mureta caiu e
por pouco não espatifou em cima dela. O Sr.
Willian chamou o primo dele que é
investigador da polícia para vir até aqui. Ele
acha que alguém está querendo matar sua
esposa. Primeiro o acidente com o carro e
ontem à noite com o vaso.
— Não estou gostando dessa história! -
expressou-se Eva.
— Você não está mentindo? Será que você não
voltou para cá ontem à noite? - perguntou
Isaura.
— Por que eu faria isso? Por que eu voltaria?
Está duvidando de mim? Acha que sou capaz
de assassinar alguém? - indagou Eva,
exaltada.
— Você tem motivos para tentar matar a dona
Aidê. Era amante do Sr. Willian e queria se
casar com ele - respondeu Isaura.
— Queria! Pensava! E daí? Eu me iludi! Willian
nunca me disse que ia se casar comigo. Eu é
que sonhei! Quando ele voltou da viagem
casado, fiquei decepcionada. Mas foi só. Não
vou ficar chorando por isso a vida toda. Sou
nova, bonita e já arrumei outro namorado. Se
estiver preocupada com esse investigador, é
porque sempre sobra para os pobres, para os
empregados.
— Eva, naquela noite em que dona Lia faleceu,
eu tomei um pouco de sopa. Não aconteceu
nada comigo. Se tivesse cogumelos
envenenados, eu também teria morrido.
— Isaura, por favor, não fale isso! Você me
prometeu! - exclamou Eva.
— Por que teme que eu conte? Foi você, Eva,
quem colocou o veneno na sopeira que estava
na sala? - perguntou Isaura, em tom baixo.
— Não! Não fui eu! Mas, se souberem da sua
história, serei acusada! Isaura, se você falar
que tomou a sopa, direi a todos o seu
segredo. Sim, eles saberão que você não é
essa santinha que parece ser. Falarei a Gina,
escreverei ao Jorge Luís... Contarei que você
amou e foi amante de Geraldino, o primeiro
esposo de dona Lia!
Lia engasgou. Ela prestava atenção na
conversa das duas e, ao ouvir a revelação,
ficou transtornada. Mary ajudou-a, segurando
sua mão com força. Ela melhorou
rapidamente e continuaram escutando.
— Sabe bem que amei Geraldino e que ainda o
amo! - exclamou Isaura.
— Foi e ainda é a legítima esposa dele! A sua
viúva! - expressou-se Eva.
— Conheci Geraldino quando vim trabalhar
nesta casa. Era jovem, bonita e o amei assim
que o vi. Ele me disse que seu casamento fora
um erro e que só não se separava de dona Lia
pelo menino, o Jorge Luís. Logo depois nasceu
o Edson. Nós nos amávamos muito e tínhamos
planos de ficar juntos assim que os meninos
crescessem. Só que ele morreu!
— E você ficou aqui cuidando dos garotos
como se eles fossem seus filhos - disse Eva.
— Eram filhos dele, e eu prometi a Geraldino
que cuidaria dos meninos. Não sei por que
contei isso a você. Segredo não se conta!
— Contou porque isso a incomodava. Fomos
amantes dos maridos de dona Lia. E ninguém
precisa ficar sabendo disso. Para isso, basta
você não dizer que experimentou a sopa.
Isaura, você provou só um pouquinho, dona
Lia tomou a sopa toda. Tinha cogumelos
venenosos, fez mal a ela porque foi em grande
quantidade.
Isaura enxugou as lágrimas e falou:
— Está bem! Não falarei e você também ficará
quieta!
Lia saiu correndo. Foi para o paiol. Mary foi
atrás dela.
"Mary como sou infeliz! Que traição! Nunca
pensei que Geraldino me traísse. E com
Isaura! Uma empregada que era tratada como
se fosse da família! Meus filhos a amam.
Quero morrer! Morrer mesmo! Ai, meu Deus!"
Mary a abraçou e ela foi se acalmando.
"Será que foi Eva quem me matou?",
perguntou Lia, ainda chorando.
"Não sei! Ela me pareceu muito suspeita!",
respondeu a socorrista.
"Ainda acho que não!", exclamou Lia. "Eva não
é inteligente o suficiente para ter planejado o
crime. Certamente nunca leu um livro!"
"Muitos criminosos não lêem livros. Alguns
são até analfabetos!", expressou-se Mary.
"Não nesse caso!", falou Lia. "O meu
assassinato foi planejado por Willian, que leu
aqueles livros e elaborou com inteligência um
crime perfeito. Mary acabei por descobrir fatos
que nem queria saber que meus maridos me
traíram com minhas empregadas, pelas quais
tinha muita consideração. Isaura foi minha
melhor amiga, talvez a única. As outras que
denominava amigas eram minhas conhecidas.
Estou começando a achar que Willian também
matou Edson. Não deve ter sido acidente! Ele
afastou meu filho mais velho, Jorge Luís, de
casa, dando a desculpa de que ele nos
envergonhava. Deve ter assassinado meu
caçula e depois a mim, recebeu mais herança
e agora quer dar um fim em Aidê."
"Será que ele fez tudo sozinho ou Eva foi sua
cúmplice?", perguntou Mary.
"Tudo leva a crer que Eva o ajudou. Ele casou-
se com outra mulher rica e, se ficar viúvo,
herdará a fortuna dela. Assim poderá casar-se
com Eva", disse Lia.
"Eva deve ser a assassina", opinou Mary.
"Sabe o que estou pensando?", indagou Lia,
continuando a falar sem esperar resposta:
"Estou com saudade dos meus filhos. Faz
tempo que não vejo Jorge Luís, e desde que
Edson morreu não o vi mais. Acho que meu
menino foi para um lugar bom.
"Lia, conte-me como foi que ele desencarnou",
pediu Mary.
"Quando fiquei viúva com os dois filhos
pequenos, Isaura me ajudou muito. Agora sei
o porquê: cuidou dos filhos de Geraldino como
se fosse a viúva dele. Eu já conhecia Willian,
que logo depois do falecimento do meu esposo
me cortejou. Namoramos e nos casamos.
Tivemos Giovana, a fofinha da Gina. Ainda
bem que ela se casou e não mora mais aqui!
Jorge Luís é muito inteligente, desde garoto
tinha um modo estranho de agir. Willian queria
que ele fosse mais masculino e os dois
brigavam muito. Após muitas desavenças, ele
resolveu ir embora: estudar e trabalhar no
exterior. Foi para a Inglaterra e não voltou
mais. Edson era levado. Willian também
implicava com ele, pois faltava às aulas, não
gostava de estudar e era briguento. Um dia,
ele saiu para passear a cavalo, como fazia
sempre, porém demorou a voltar. Adelino foi
atrás dele e o achou caído na pedreira. Ele
estava morto. Foi muito triste!"
"Pedreira? Onde é esse lugar?", perguntou
Mary.
"Do outro lado da estrada, fica aqui perto. É
uma pedreira desativada. Lá tem um buraco
profundo. Depois do acidente, cercaram-na.
Não sei por que Edson foi lá e como caiu."
Lia voltou a chorar e Mary a consolou.
Quando ela se acalmou, a socorrista a
convidou:
"Vamos voltar para dentro da casa e continuar
escutando as conversas?"
"Não, vá você. Depois você me conta, se
escutar algo interessante. Estou muito triste!"
"Você ainda está com muita raiva de Isaura?",
perguntou Mary.
"Como falei, estou triste, infeliz. Mas a raiva
está passando", respondeu Lia.
"Admiro você, minha amiga. É incapaz de
guardar mágoas."
"Nunca odiei ninguém nem quero ter esse
sentimento, principalmente agora depois de
morta."
"Às vezes uma pessoa nos faz muitos favores
e, por uma ofensa, não a queremos mais como
amiga. Temos facilidade de ver mais os
defeitos do que as qualidades" expressou-se
Mary.
"Suas palavras são sábias", disse lia devagar.
"Desejo continuar querendo bem Isaura. Ela
errou ao me trair, ao se envolver com um
homem casado. Mas, ela foi muito boa para
mim, foi uma mãe, talvez mais do que eu,
para os meus filhos. É essa lembrança que
quero guardar dela. Quero ter sempre na
memória os favores que ela me fez! Também
não sinto raiva de Eva por ter me traído.
Embora tenha sido ingrata! Quando órfã, ela
não tinha nem para onde ir. Nós a acolhemos
e aqui nada lhe faltou, foi bem tratada. Acho
que não resistiu aos encantos de Willian. Vou
entristecer-me mais ainda se descobrir que foi
ela quem me assassinou ou que foi cúmplice
de Willian. Vá, Mary. Tente descobrir mais
alguma coisa. Vou chorar sozinha. Talvez
consiga dormir."
Mary a abraçou e sentiu que valia a pena estar
ali e ajudá-la. Lia demonstrara ser uma boa
pessoa.
A socorrista entrou na casa e foi procurar
Isaura, que estava no quarto chorando e
olhava com carinho fotos antigas. Passava a
mão carinhosamente numa fotografia em que
estavam retratados dois garotos e
um moço, que Mary deduziu ser Geraldino,
Jorge Luís e Edson.
"Que faço?", pensava Isaura. "Falo que tomei
a sopa na cozinha naquela noite ou não? Se
falar, Eva contará a todos meu segredo. Gosto
dessa menina. Lembro quando Eva veio para
cá, era frágil e muito sofrida. É doloroso
admitir, mas a assassina é Eva! Matou dona
Lia e agora quer assassinar dona Aidê! Ela está
com medo. E, se me está chantageando, tem
culpa. É culpada! Cometeu o crime para que o
Sr. Willian ficasse viúvo.
Como ele casou-se com outra, quer matar
essa coitada para que ele fique de novo viúvo.
Aí, certamente Eva irá chantageá-lo para que
se case com ela. Dona Lia já morreu, mas
dona Aidê ainda não. Se eu me calar e dona
Aidê morrer, vou ser cúmplice e ficarei com
remorso. Que devo fazer?"
"Fale Isaura!", expressou-se Mary, olhando-a.
Isaura não a ouviu nem sentiu seu apelo e
continuou pensando:
"O que Jorge Luís irá pensar de mim se souber
que fui amante de seu pai? Amo-o como se ele
fosse meu filho. Meu menino já sofreu muito,
o Sr.Willian ofendia-o por ele ser
homossexual, e tanto brigaram que ele saiu de
casa. Dona Lia amava o filho, mas ficava
sempre a favor do esposo. Agora Jorge Luís
está bem melhor: tem um bom emprego, mora
num lugar bonito e não quis nada disto aqui,
tanto que deixou sua parte da herança de sua
mãe para a irmã Gina".
"Fale, pense um pouco sobre você!", disse
Mary.
Isaura já estava pensando. Assim, bastou a
socorrista induzi-la para que ela se
recordasse. Isaura não escutou o que ela
disse. Só sentiu vontade de pensar. Mary
acompanhou seus pensamentos:
"Sou filha de lavradores, meus pais eram
pobres. Trabalhavam num sítio vizinho daqui.
Geraldino era rico, tinha estabilidade
financeira. Ele casou-se com dona Lia e vieram
morar na chácara. Eu vim ser empregada
deles, tinha dezesseis anos e só tinha tido um
namoradinho. Sempre fui bem tratada, dona
Lia sempre foi boa comigo. Nasceram os
meninos e os amei como também amei
Geraldino. Creio que ele também me amou,
confiava mais em mim para cuidar dos filhos
do que na esposa. Pedia para que eu o
esperasse até os meninos crescerem, iríamos
ficar juntos, casar. Lembro com detalhes de
quando ele ficou doente. Foi ao médico, que
lhe pediu para fazer alguns exames em um
hospital mais bem aparelhado. Quando ele
obteve o resultado, veio aqui no meu quarto,
sentou-se nesta cama e muito triste falou:
'Isaura, estou com uma doença séria no
coração. Vou me internar. Se eu morrer, cuide
dos meninos por mim, por favor!' Eu prometi e
ele não voltou. Dona Lia ficou viúva por pouco
tempo. Eva tem razão: sou eu a viúva de
Geraldino. Nunca mais me interessei por outra
pessoa. Sempre o amei e cumpri o prometido:
cuidei
dos filhos dele. Pena que Edson morreu!"
"Fale de Edson!", pediu Mary.
"Edson", Isaura continuou pensando, "era
revoltado. Não aceitou o novo casamento da
mãe e estava sempre nervoso. Eu não
conseguia acalmá-lo, vivia constantemente
agitado. Sofri muito quando aconteceu o
acidente e ele faleceu".
— Vou fazer o almoço! - exclamou Isaura
baixinho, saindo do quarto.
Mary viu espalhadas pela cama muitas cartas
de Jorge Luís. Ele escrevia muito para Isaura e
lhe mandava dinheiro, que ela colocava numa
caderneta de poupança.
O moço contava para a sua ex-babá, que
amava como mãe, seus anseios e tudo de
importante que acontecia com ele. Tornou-se
espiritualista, conforme escrevera, estudava a
Bíblia e amava ler os Evangelhos.
Participava de um grupo de estudos que
acreditava na reencarnação. Tentou explicar
para Isaura numa longa missiva essa lei que
nos faz compreender a Justiça de Deus. Não
tinha parceiros nem os queria. Desejava ser
útil e fazer o bem. Trabalhava como voluntário
em um hospital infantil, onde três vezes por
semana vestia-se de palhaço e alegrava
crianças doentes. Mandava fotos em que
aparecia vestido dessa maneira sempre ao
lado de crianças com aspecto doentio, mas
que sorriam alegres. Jorge Luís contava que
preenchia sua vida dessa forma. Dera à sua
existência um significado, direcionara seu
afeto a quem dele precisava e não sentia
carência afetiva.
Mary compreendeu que Isaura orgulhava-se
daquele jovem e tinha medo de decepcioná-lo,
caso ele soubesse a verdade sobre ela e o pai
dele. Entendeu que ela sofria e estava indecisa
sobre o que fazer. Achou que ela ficaria
calada."

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho





SABENDO DOS FATOS




"Mary voltou ao galpão e encontrou Lia
sentada num canto, triste. Ao vê-la Lia disse:
"Amiga, foi Willian quem me matou! E acho
que o acidente em que Edson morreu não está
bem explicado. Ele não gostava do Jorge Luís
e, quando este foi embora, passou sua
implicância para o Edson, que era um garoto.
Eu achava, naquela época, que meu marido
queria educá-lo. De fato meu filho não estava
bem, era um adolescente rebelde, não queria
estudar e saía com más companhias. Mas, foi
um acidente estranho! A polícia achou o cavalo
pastando por perto. Dizem que investigaram,
mas eu nunca fiquei sabendo o que aconteceu.
Willian cuidou de tudo. Achei que era uma
demonstração de carinho de sua parte. Agora
que sei que foi ele quem me assassinou,
desconfio também que matou Edson. Vou
gritar para ele saber que descobri!"
Lia saiu correndo em direção a casa e Mary
correu atrás dela. Entraram na sala e
encontraram Willian lendo um jornal.
'Assassino! Você é um criminoso cruel!",
gritou Lia, com raiva.
Willian parou de ler, deixou o jornal cair,
recebeu fluidos negativos, passou a mão pela
testa e falou baixinho:
— Assassinato! Não deve ter ocorrido nada
disso nesta casa! Estou com medo à toa! Lia
morreu por imprudência dela mesma, por sua
mania de tomar sopa de cogumelos. Foi um
acidente! Gostava dela e senti sua morte. Amo
Aidê como nunca amei alguém. Devo estar
estressado e imaginando coisas. Ninguém
quer matá-la!
"Você foi amante de Eva! Traiu-me sem pudor.
Você não presta!", gritou Lia, olhando-o
fixamente.
— Eva! - falou Willian baixinho. — Será? Eu
sempre disse a ela que não a amava que era
só uma aventura. Quando Lia morreu, tive
remorso por tê-la traído, e justamente com a
empregada que ela acolheu quando ficou órfã,
por isso acabei com o relacionamento. Falei
até que nunca me casaria com ela. Meu Deus!
Será que Eva está tentando matar Aidê?
Tomara que Reginaldo não demore a chegar!
"Você me queria bem? Teve remorso?",
indagou Lia, já mais calma.
Willian sentiu-se incomodado e desabotoou os
primeiros botões da camisa, aliviando o
pescoço. Ficou quieto. Lia percebeu que ele
estava pensando e indagou à Mary:
"Você consegue saber o que ele pensa?"
"Sim", respondeu a socorrista. "Vou dizer a
você: seu ex-esposo está pensando que a
queria bem e a seus filhos também.
Lia torceu as mãos, dizendo para Mary:
"Posso até perdoá-lo por ter me matado, mas,
se ele assassinou Edson, não sei o que faço."
Ela virou-se para Willian, aproximou-se e
gritou:
"Assassino! Você matou Edson!"
— Não e não! Edson suicidou-se! Ele mesmo
se matou! - resmungou Willian, sentindo um
mal-estar.
"Como é? Do que você está falando? Pense
nisso! Quero saber!", falou Lia, autoritária.
Willian pensou. Mary ouviu seus pensamentos
disse para Lia:
"Edson tinha doze anos quando Willian ficou
sabendo que o menino estava usando drogas.
Não contou a você para não magoá-la nem
preocupá-la, porque você estava sofrendo com
a partida de Jorge Luís. Era ele que resolvia os
problemas do garoto na escola e até com a
polícia. Edson roubou uma quantia grande de
dinheiro. E, quando o encontraram morto, foi
achado junto dele um papelote de cocaína. A
autópsia revelou que ele tomara uma
overdose. Ninguém ficou sabendo se ele caiu
por acidente ou se suicidou. Willian acredita
que Edson se matou!"
"É isso mesmo que ele pensou? Meu Deus!",
exclamou Lia, apertando a mão de Mary.
"Agora estou confusa! Será verdade?"
"Lia", disse a socorrista, "vá para o paiol. Irei
em seguida".
A ex-dona da casa saiu devagar, com a cabeça
baixa. Mary deu um passe em Willian, tirando
a energia de raiva, nociva que Lia jogara nele.
Ele melhorou, pegou o jornal e tentou ler.
Estava cansado, preocupado e ansioso para
que o primo chegasse logo.
"Willian", disse Mary mentalmente, "pense
sobre você. Como foi a sua vida?".
Mary pediu, e ele podia ou não atendê-la.
Temos o nosso Livre-arbítrio.
Nesse caso, como Willian estava apreensivo,
com vontade de falar, ele pensou, e foi como
se desabafasse com alguém.
Atendeu ao pedido de Mary, embora não
soubesse dessa possibilidade nem acreditasse
ser isso possível.
Os fatos acontecem independentemente de se
acreditar ou não. Sentimos energia de raiva,
ódio, bem como de amor e carinho. A
socorrista transmitiu calma a ele,
que suspirou aliviado e se pôs a pensar:
"Sou de família pobre, sempre quisera ser
rico, era ambicioso. Aproveitei que era bonito
e esforcei-me para ser agradável. Estudei com
vontade, fui bom aluno.
Terminei a oitava série e não consegui
continuar os meus estudos. Fui trabalhar em
um escritório de advocacia, e foi lá que
conheci Lia. Ela ia lá às vezes com Geraldino
e, quando ficou viúva, passou a ir com mais
freqüência, para fazer o inventário. Uma tarde
vim até aqui na chácara trazer alguns
documentos e ficamos conversando. Comecei
a arranjar desculpas para vir visitá-la. Meu pai
me dizia: 'Se você quer ser rico, case-se com
essa viúva'. Fiz tudo para conquistá-la. Lia
resistiu, mas acabou se apaixonando por mim
e nos casamos. Tentei ajudá-la na
administração dos bens e com os filhos.
Nasceu Giovana, minha filha, que só me deu
alegrias. Quis educá-los igualmente. Não
queria que Jorge Luís fosse homossexual, e foi
um alívio quando ele foi embora. Edson só me
deu preocupações. Tive esperança de
recuperá-lo, e então aconteceu a tragédia.
Escondi a verdade de Lia, deixei que ela
pensasse que fora acidente. Evitei que minha
esposa sofresse. Agora estou preocupado com
Gina, ela não gostou de me ver casado com
Aidê. Será que foi ela quem tentou matá-la?"
Willian suspirou, balançou a cabeça e
balbuciou:
— Não! Gina, não!
— O que foi Sr. Willian? Que falou? Não
escutei - disse Isaura, que entrara na sala.
— Nada, Isaura - respondeu ele —, estava
pensando que Gina não gostou de me ver
casado com Aidê.
— O senhor não esperou nem um ano para se
casar! Magoou a menina, que é muito delicada
e sensível. Mas, bondosa como é, ela logo
esquecerá a mágoa e será amiga de dona Aidê
- disse a empregada.
— Você acha mesmo, Isaura? Queria muito
isso. Amo minha filha.
— Com o esposo dedicado que ela tem que lhe
faz todas as vontades, não ficará triste por
muito tempo.
— É verdade. Agenor faz tudo para agradá-la.
Espero que continue assim - expressou-se
Willian.
— O senhor desconfiou dele no começo do
namoro, mas dona Lia gostava do Agenor -
falou Isaura.
— É que ele era muito farrista e mulherengo
quando solteiro. Pensei que iria nos pedir
muito dinheiro. Mas Agenor arrumou um bom
emprego, ganha bem e nunca nos pede nada.
Minha implicância com ele deve ser ciúme de
pai. Continuo não gostando dele, só que lhe
sou grato por fazer Gina feliz.
— Vim saber se o senhor quer algo diferente
para o almoço. Será que dona Aidê quer fazer
o cardápio? - perguntou Isaura.
— Cuide você disso. Aidê está indisposta,
enjoada e não quer nem ouvir falar em comida
- disse Willian.
Isaura foi para a cozinha, Willian passou a ler
o jornal e Mary foi ver Aidê, que estava no seu
aposento, deitada. A futura mamãe sentia os
enjôos provocados pela gravidez.
Aidê estava triste e pensativa. Mary
acompanhou seus pensamentos:
"Não sei se agi certo casando com Willian.
Estou com receio das coisas que têm
acontecido. Primeiro foi o carro, se eu tivesse
ido viajar, talvez tivesse morrido. Eu tinha de
levar alguns documentos numa cidade
próxima e, como estava indisposta, Willian
pediu para Adelino levá-los para mim.
Disseram que o freio estava danificado. O
empregado habilidoso e bom motorista, ao
descer a serra, quando percebeu que estava
sem freio, virou o carro, entrou numa estrada
secundária e depois em um campo. Será que
eu faria isso? Certamente eu me apavoraria e
tentaria continuar descendo, o acidente
poderia ser fatal. Depois o vaso! Como caiu?
Quero voltar a morar na minha cidade, no meu
apartamento. Vou pedir isso ao meu esposo.
Lá tenho segurança e amigos. Parece que
atraio acontecimentos estranhos. Tantas
coisas já aconteceram comigo... Fiquei órfã
adolescente, recebi de herança um bom
patrimônio e com o meu trabalho dedicado o
multipliquei. Tenho a escola, de que gosto
muito, e começo a sentir falta dela. Hoje estou
com saudade de Dirceu, o homem que amei".
Aidê suspirou e uma imagem veio à sua
mente. Era a de um moço muito bonito, que
sorria amorosamente. Ela continuou a pensar:
"Namoramos quatro anos, ficamos noivos e,
quando íamos nos casar, ele faleceu naquele
acidente de carro. Sofri muito. Prometi a ele e
a mim que nunca mais teria outro namorado,
que nunca me casaria, O tempo passou, senti
falta de companhia, queria ter filhos e não
conseguia namorar ninguém. Muitos homens
se interessavam por mim, saíamos algumas
vezes e logo eles sumiam, não queriam me ver
mais. Isso ocorreu muitas vezes e me deixava
triste. Aí, uma professora me convidou a ir a
um centro espírita com ela para receber
passes. Fui, melhorei e percebi que naqueles
anos eu não estivera bem. Indaguei a uma
senhora médium que lá ajudava o que se
passava comigo. Ela me explicou que meu ex-
namorado, o Dirceu, estivera ao meu lado
àqueles anos todos. Ele, com ciúme, não
deixava ninguém se aproximar de mim,
cobrava a promessa que eu fizera. Foi muito
bom para eu ter ido àquele centro espírita, e
foi também para o Dirceu, pois ele
compreendeu que tinha de viver como o
desencarnado que era. Conheci Willian e achei
que poderíamos dar certo, éramos ricos e
viúvos... Eu sempre me considerei viúva.
Tínhamos chances de ser felizes e eu de
realizar o sonho de ser mãe. Será que a
primeira esposa de Willian está aqui e por
ciúme quer me prejudicar? Estou com medo".
Mary deu um passe em Aidê, que se acalmou e
dormiu. A socorrista ficou olhando-a e
pensando no que acontecera com ela. Muitas
pessoas se confundem e, ao desencarnar, não
querem admitir que o corpo físico morra.
Muitos se iludem e não aceitam o inevitável,
ficando perto de afetos. Em alguns casos, isso
pode resultar em obsessão, isto é, o
desencarnado permanece ao lado de um
encarnado, participando de sua vida e
podendo até interferir nos acontecimentos
diários. Há uma troca de energias entre os
dois, o espírito absorve, retira para si energias
do que está na matéria para sentir-se
alimentado. E o que está no invólucro físico
sente as sugestões e angústias do
desencarnado. Essa troca de fluidos existe
porque os imprudentes e os iludidos não
querem aceitar a mudança de plano. Há
infelizmente os que obsedam por ódio e
vingança. Esses casos são mais complicados
de ser resolvidos, porque tem de haver a
reconciliação e o perdão. Às vezes, basta
orientá-los, como aconteceu com Aidê e
Dirceu. Muitos desencarnados não têm
intenção de prejudicar os afetos nem querem,
e, quando compreendem, aceitam o socorro e
vão para um abrigo. Os dois se amaram
muito, eram noivos. Ele desencarnou
tragicamente num acidente, não aceitou a
mudança de plano e ficou ao lado dela, que
num momento de dor, no velório, prometeu
que não teria mais ninguém, que não amaria
nenhum outro homem. Não se deve fazer
promessa, principalmente em momento de
desespero. Mesmo junto dela, Dirceu foi aos
poucos entendendo o que acontecera, porém
não quis afastar-se de sua amada, cobrando-
lhe a promessa e fazendo tudo o que estava ao
seu alcance para afastar seus pretendentes. Ao
ir pedir auxílio em um centro espírita, eles
certamente o orientaram numa reunião de
desobsessão e o encaminharam para um local
de socorro. Esse esclarecimento o fez
compreender que a vida continuava para ele e
para ela. Essas elucidações fazem bem tanto
para os que vão para a Espiritualidade como
para os que ficam no plano físico.
Mary desceu as escadas e viu Eva limpando a
sala de jantar. Ela estava nervosa e gerava
uma energia negativa por estar com muita
raiva.
Aproximou-se da empregada e ouviu-a, em
pensamento:
"Willian é cafajeste! Malandro! Só se casou
com Aidê por dinheiro! Primeiro enganou dona
Lia, foi fácil se casar com ela, uma viúva com
dois filhos. Sei muito bem o que ele faz! Com
sua conversa agradável, ele ilude as mulheres.
Não sei por que fui envolver-me com ele. Esse
investigador vai descobrir tudo. É culpa dele!
Odeio você, Willian! Tenho vontade de matá-
lo.
"Descobrir o que, Eva? Pense! O que teme ser
descoberto?"
Mary induziu Eva a pensar, mas esta não
aceitou a sugestão dela e ficou só xingando
Willian em pensamento.
A socorrista tentou passar energias benéficas
para acalmá-la. Eva não as aceitou, repeliu-as
e continuou no seu baixo padrão vibratório,
com seus pensamentos de raiva. Querendo o
mal do próximo, a empregada criou para si
uma couraça que não permitia que nenhum
fluido benéfico entrasse. Isso acontece muito.
Às vezes, as pessoas não recebem energias
restauradoras, nem em câmaras de passes,
por causa de seus maus pensamentos. Raiva,
ódio e rancor barram as energias boas, e elas
voltam à origem. Algumas pessoas não se
tornam receptivas para receber essas
vibrações benéficas. Isso ocorre até com
médiuns, que às vezes se queixam que seu
protetor não está presente, pois deixou que
coisas ruins lhe acontecessem. Em primeiro
lugar, nem tudo o espírito pode fazer pelo
encarnado. Em segundo, muitas vezes
imprudentemente o médium cria uma energia
negativa por atitudes indevidas, formando
essa barreira. É claro que ela se desfaz assim
que a pessoa se acalma, ora, pensa diferente,
mas às vezes ela pode ficar no físico, dando
ao indivíduo algum mal-estar. E, se persistir,
pode se acumular e adoecer o físico. Fluidos
gerados como os de Eva incomodam espíritos
bons, que quase sempre preferem afastar-se.
Já os espíritos maus, infelizmente, gostam de
aumentá-los. Mary sentiu Lia chorar e foi para
o paiol.".

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho




VISITANDO EDSON




"Se estivesse viva, diria que iria morrer de
tanto chorar. Mas já morri!", exclamou Lia,
sentida.
"Só o corpo físico morre", disse Mary.
A vida continua após a morte carnal. Somos
sobreviventes da tragédia que é o falecimento
do corpo físico. Sofreríamos menos se
compreendêssemos mais esse fato natural.
Porque todos que nascem morrem; quem
encarna desencarna. Acho minha cara, que, ao
termos o corpo morto, sentimos de imediato
os reflexos de nossa existência carnal. Para
aqueles que viveram sem apego, fazendo o
bem, não se deixando escravizar por coisas
materiais e se ligando às espirituais, a
desencarnação é tranqüila. Não existe a morte
que acaba com tudo.
Só existe a vida. E essa mudança para ser boa
ou má, depende só de nós.".
"Zé Grilo me disse uma vez que só morre
quem é vivo, mas isso não me serviu de
consolo", disse Lia, suspirando.
"Continuamos vivas Lia a morte do corpo só
nos leva a viver de outro modo."
"Estou com saudade do Edson", falou Lia,
enquanto lágrimas escorriam abundantemente
pelo seu rosto. "Sofri muito quando ele
desencarnou e ainda sofro. É muito triste ver
alguém que amamos falecer. Quando vi meu
filho no caixão, pensei que fosse morrer
também. A dor é muito grande."
Lia chorou alto, Mary também chorou só que
baixinho. A socorrista sentiu a dor da
companheira.
"Querida!", exclamou Lia. "Você é minha
amiga! Porque podemos dizer que alguém é
nosso amigo quando este sofre conosco!
Estamos chorando juntas!"
"O pranto nos dá alívio!", esclareceu Mary.
"Minha amiga, eu não tenho muito a oferecer.
Você quer dormir neste canto? Cedo-lhe o meu
lugar. Quer meus sapatos?"
"Não quero nada Lia, obrigada. Estou bem
sentada neste banco e tenho os meus sapatos.
Você não quer descansar um pouco? Dormir?"
"Tenho receio de dormir a essa hora",
respondeu Lia, "e não conseguir fazê-lo à
noite. Passar a noite acordada é muito triste. E
agora parece que não terei mais o Zé Grilo
para conversar. Ele sumiu! Enquanto você
estava lá na casa, fui atrás dele, não o
encontrei e não vi mais o buraco em que
dormia. Ele desapareceu. Acho que foi viver
onde os desencarnados moram. Deus deve ter
tido pena daquele anão. Quando encarnado,
ele fez atos errados e seu castigo foi grande.
Tomara que esteja bem".
"Certamente está", respondeu Mary.
"Descanse Lia, caso fique acordada à noite, eu
lhe faço companhia."
A socorrista fez com que Lia dormisse. Ficou
por minutos pensando onde estaria o filho dela
que desencarnara e o que teria de fato
acontecido.
Resolveu ir ao posto de socorro que havia
visitado e onde Esmeralda e Zé Grilo foram
abrigados. Volitou até ele, no portão, disse
que queria informações e foi convidada a
entrar. Atendida novamente pelo orientador da
casa, Mary foi direto ao assunto e pediu:
"Gostaria de obter informações sobre uma
pessoa: Edson, filho de Lia, que desencarnou
há alguns anos".
Mary continuou a conversa dando mais
detalhes.
"Recordo-me desse fato, o mocinho estava
com dezesseis anos. Ele atualmente está
numa colônia que abriga suicidas", esclareceu
o orientador.
"Meu Deus! Ele se matou! Então é verdade o
que Willian pensou. Quero ir lá. Como faço?",
indagou Mary.
"Vou pedir para um socorrista de a casa levá-
la", respondeu o orientador, gentilmente.
Não é porque desencarnamos que sabemos
tudo, como também os socorristas não
conhecem todos os lugares do plano
espiritual, que é tão extenso quanto o plano
físico ou mais. Desencarnados com mais
conhecimento e experiência, ao terem
referências sobre determinados lugares,
podem se sintonizar e ir sozinhos. Mary ainda
não os tinha o suficiente para isso. Ela só foi
ao posto de socorro porque ele era perto.
Carlos Augusto havia lhe falado e dado
referências sobre o local onde estava
localizado, como era etc.
Logo foi até eles um senhor de agradável
aspecto.
"Este é Josemar, um trabalhador que conhece
bem a região e a casa de socorro em que quer
ir."
Após os cumprimentos, eles saíram do posto
de socorro. Josemar pegou delicadamente na
mão de Mary e eles volitaram. Logo estavam
em frente a uma colônia de porte pequeno,
perto do umbral, em que eram abrigados
imprudentes que deserdaram da existência no
físico.
Há muitas dessas casas de auxílio ou socorro
pela Terra, pelo Brasil. São singelas, simples,
com jardins floridos e com grandes
enfermarias, que estão sempre com muitos
abrigados. Eles foram recepcionados por uma
moça muito bonita: Nelma.
Após escutar Mary, ela os conduziu para uma
ala onde estavam em tratamento, em
recuperação jovens que fugiram da vida física
e encontraram muitas decepções e
sofrimentos na continuação da vida, na
espiritualidade.
Entraram numa enfermaria com tudo muito
limpo e com doze leitos. Nelma aproximou-se
de um leito e disse:
"Aqui está o Edson. Vou acordá-lo para que
você, Mary, converse com ele. Edson! Acorde!
Você tem visita!"
O jovem abriu os olhos e observou bem os
dois, Mary e Josemar, tentando reconhecê-los.
"Você não nos conhece, Edson", disse Mary.
"Sou amiga de sua mãe, de Lia."
"Como mamãe está? Ela ainda sofre muito
pela minha morte? Hoje cedo eu a senti
chorando por mim", falou ele.
"Sua mãe desencarnou e...", disse Mary.
"Desencarnou? Como? Por quê? Ela se
suicidou?", perguntou o garoto.
"Lia não se suicidou", respondeu Mary.
"Ainda bem!", exclamou Edson, aliviado.
"Como ela está?"
"Querendo vê-lo", respondeu Mary.
"Ela sabe o que aconteceu comigo?", indagou-
o.
"Encarnada, ela acreditava que fora um
acidente. Só agora ficou sabendo de tudo,
depois de ouvir os pensamentos de Willian,
mas não sabe dos detalhes", respondeu Mary.
"Queria lhe pedir perdão", disse Edson.
"Vou sair um pouco e já volto", falou Mary.
Mary chamou Nelma com a mão e elas saíram
do quarto. Foram ao jardim e Mary pediu:
"Será que não podemos trazer a mãe para vê-
lo? Lia ainda não foi socorrida, mas será, com
certeza, em breve. Se os dois se virem e se
entenderem, será bom para ambos."
"Podem", respondeu Nelma. "Vai ser muito
bom para ele pedir perdão à mãe por tê-la
feito sofrer tanto. Uma grande angústia que
sentem os que imprudentemente deserdaram
da vida encarnada é o remorso por ter
causado transtornos e padecimentos a entes
queridos. Saber da dor dos pais e senti-la os
amargura, e eles sentem uma grande vontade
e necessidade de serem perdoados. Traga a
mãezinha do Edson. Vou prepará-lo e o trarei
para cá, para o jardim, onde os dois
conversarão."
"Você me ajuda, Josemar?", perguntou Mary
ao socorrista, que a acompanhava.
"Ajudo!"
Volitaram até o paiol.
"Lia acorde! Temos visita!", exclamou Mary.
Ela acordou, sentou-se e observou o
socorrista. Mary explicou:
"Este é Josemar, um senhor desencarnado
como nós que pode nos levar até Edson".
"Para ver meu filho?", perguntou Lia,
espantada.
"Sim", respondeu Mary. "Ele veio aqui para
nos levar. Você chorou, pediu a Deus para vê-
lo e o Pai Amoroso permitiu que alguém viesse
ajudá-la."
"Muito obrigada! Primeiro a Deus e depois a
você, Josemar. Quero ir!"
Lia levantou-se e Mary ajeitou-a. Passou as
mãos por sua roupa, limpando-a, e arrumou
seus cabelos.
"Pronto! Você está bem! Lia, aproveite a
oportunidade dessa visita e entenda-se com
seu filho, escute-o. E não chore, para não
deixá-lo triste", recomendou Mary.
"Quero abraçá-lo e dizer que o amo!",
exclamou Lia.
Os três deram as mãos e Mary pediu para a
amiga que fechasse os olhos. Volitaram,
quando abriu os olhos, Lia estava no jardim da
colônia, próxima a Edson, que estava sentado
num banco. Lia ficou parada por um instante,
olhando-o. Depois correu até ele, abraçou-o e
beijou-o:
"Edson, filho do meu coração!"
"Mamãe! Minha mãe!"
Os dois choraram abraçados. Josemar disse
que ia aproveitar para visitar um amigo ali na
colônia e Nelma falou que ia esperá-los
sentada num banco não longe deles.
Mary acomodou-se perto dos dois e ficou
quieta, escutando-os.
"Mamãe, perdoe-me! Agi errado!", exclamou
Edson.
"Perdôo meu filho! Conte-me o que aconteceu.
Por que agiu inesperadamente?", pediu Lia.
Edson pegou na mão da mãe e falou
calmamente, explicando tudo. Não era fácil
para ele confessar seus erros, mas sentia-se
aliviado por fazê-lo:
"Como Jorge Luís era homossexual, éramos
ridicularizados pela turma da escola. Fiquei
com medo de ser também. Meus colegas
zombavam de mim e criticavam-me, eu sofria
com a situação e odiava meu irmão por isso.
Conheci um grupinho que me entendeu, eles
se drogavam e passei também a fazer uso de
drogas".
Edson fez uma pausa, suspirou tristemente e,
sentindo o olhar amoroso da mãe, continuou a
falar.
"A diretora da escola descobriu e conversou
com Willian. Ele resolveu me corrigir,
conversou comigo, explicou os inconvenientes
que os tóxicos me trariam. Seu marido foi bom
comigo. Só que naquela época achei que ele
estava se intrometendo na minha vida, afinal,
ele era só meu padrasto. Discutimos, Willian
me vigiava, mas mesmo assim fui me
envolvendo cada vez mais com as drogas.
Percebi que era um dependente e que não
conseguiria mais ficar sem elas e precisava
cada vez mais de dinheiro para sustentar o
meu vício. Então, roubei o talão de cheques de
Willian, falsifiquei sua assinatura e comprei
drogas para mim e para o meu grupo. O
gerente do banco telefonou para Willian, ouvi
atrás da porta ele falando sobre os cheques.
Temi ser desmascarado, certamente dessa vez
ele ia lhe contar tudo. Estava apavorado e
achei que não valia a pena viver. Saí a cavalo,
parei na pedreira, tomei uma overdose,
esperei alguns minutos e pulei lá de cima,
como se fosse sair voando, como um pássaro.
Caí e meu corpo morreu, permaneci, em
espírito, junto ao invólucro sem vida. Vi de
forma confusa quando me acharam à dolorosa
autópsia, o velório e a senhora chorando em
meu enterro. A escuridão do túmulo me
apavorou. Depois me tiraram de lá. Hoje sei
que foram os socorristas que auxiliam no
cemitério que me ajudaram. Fui para um lugar
triste, o umbral, onde outros como eu me
reúnem para se queixar. Foi tudo muito
confuso e triste, arrependi-me e sofri demais.
Fui trazido para cá, onde estou me
recuperando. Sei que a fiz sofrer e seu perdão
para mim é muito importante".
"Edson, Willian não foi mau com você!",
exclamou Lia.
"Não, ele tentou ajudar-me. Willian contou
tudo isso para a senhora?"
"Ele não me falou nada, para mim você havia
desencarnado por um acidente. Depois, até
desconfiei que ele o tivesse matado",
respondeu Lia.
"Willian foi bom comigo", repetiu Edson. "Ele
fez de tudo para que eu não me viciasse nem
saísse com más companhias. Se não lhe
contou a verdade, é porque quis poupá-la.
Mamãe, meu pai tem vindo me visitar, ele
também sofreu com a desencarnação. Não
estava preparado e revoltou-se com a
mudança de plano que foi obrigado a fazer
com a morte de seu corpo físico. Arrependeu-
se por tê-la traído e por ter feito Isaura
prometer que cuidaria de nós. Ele acha que
estragou a vida dela. Aborreceu-se muito
quando a senhora casou-se novamente. Agora
está numa colônia, aprendendo a viver como
um desencarnado. A senhora já sabia que meu
pai foi amante de Isaura?"
"Soube há pouco tempo", respondeu Lia,
suspirando.
"Mamãe, lembre-se de que Isaura foi sempre
boa conosco e que a ajudou demais. Gosto
dela!"
"Você tem razão, Edson. Isaura foi muito boa
conosco. É disso que devemos lembrar.
Continuo gostando dela!"
"Ainda bem!", exclamou o garoto.
Ficaram conversando e lembrando de fatos
agradáveis. Mary levantou-se e foi sentar-se
junto a Nelma, deixando-os juntinhos e à
vontade.
"Nelma, você trabalha aqui há muito tempo?"
"Há sete anos. Gosto muito desta colônia."
"Teve algum motivo especial para você
escolher esse trabalho?", quis saber Mary.
Nelma sorriu, compreendendo a curiosidade
dela, e respondeu:
"Na minha penúltima encarnação, desencarnei
por imprudência, suicidei-me. Achei que
estava apaixonada, fui desprezada e tomei
veneno. Sofri por muito tempo e fui socorrida
por bondade do Pai Maior, por dedicação de
pessoas que ajudam os que sofrem. Irmão
auxiliando irmão. Estive abrigada numa
colônia igual a esta e depois tive o
esquecimento com a bênção da reencarnação.
Voltei a vestir um corpo físico, esquecer
aquele ato insensato me fez bem! No físico, fui
deficiente, surda-muda. Era filha de mãe
solteira, nós nos amávamos muito. Minha
mãezinha tomou conta de mim com amor e,
quando adulta, fui eu quem cuidou dela, que
ficou doente. Um dia, ao ir à padaria, olhei o
semáforo, que estava aberto para os
pedestres, e pus-me a atravessar a
movimentada avenida, tranqüilamente. Um
caminhão, que estava com o freio avariado,
descia em alta velocidade. Pessoas gritaram
só que, como eu não ouvia, fui atropelada,
desencarnei. Dessa vez foi diferente, mereci
ser socorrida imediatamente. Tive uma
existência exemplar: não me revoltei, fui boa
filha e fui religiosa. Minha mãe sofreu muito
com a morte do meu corpo físico. Dois anos
depois ela veio se encontrar comigo. Hoje ela
mora em outra colônia e nos visitamos
sempre".
Nelma fez uma pausa, sorriu de modo delicado
e continuou a falar:
"Ao vir para o plano espiritual, adaptei-me
rapidamente, dias depois estava falando e
ouvindo. Aprendi a viver na Espiritualidade,
passei a ser útil. Tinha horror só em falar em
suicídio e, como esse assunto me
incomodava, recordei que já me suicidara.
Pedi para trabalhar auxiliando ex-suicidas,
estudei para servir com sabedoria e vim para
esta colônia. E aqui estou agradecida por
poder ajudar num local parecido com aquele
onde fui ajudada".
"Aqui há muitos abrigados?", perguntou Mary.
"Sim, há muitos", respondeu Nelma. "Nossos
socorridos normalmente ficam aqui por muito
tempo. Temos deste lado às enfermarias. Do
lado esquerdo temos as salas de aula, as
bibliotecas, a área de lazer, onde os que se
encontram melhor têm a oportunidade de
aprender a viver como desencarnados, de
fazer o bem, de ser úteis à comunidade que os
abriga. Eu leciono no período da manhã, à
tarde auxilio nas enfermarias, onde estão os
jovens. Tenho folga um dia na semana, e hoje
é minha folga. Normalmente prefiro ficar aqui
fazendo alguma tarefa extra, como agora, que
estou acompanhando Edson nessa visita tão
importante de sua mãe."
"São muitos os jovens socorridos aqui?", quis
saber Mary.
"Infelizmente, sim", respondeu Nelma.
"Não entendo como alguém pode ter coragem
de matar seu próprio corpo. A morte é sempre
tão temida!", exclamou Mary.
"É difícil julgá-los, seja de corajosos, seja de
covardes. Para muitas pessoas, os suicidas
são covardes ao querer abandonar a vida física
fugindo dos problemas. E você tem razão,
temos medo de morrer. Assim, muitos os
tacham de corajosos. Para mim, são infelizes,
porque a vida não acaba e eles não
conseguem fugir dos problemas, que não são
resolvidos no plano material, mas se agravam
no plano espiritual. Mesmo os que são
socorridos padecem, pois sentem remorso, e a
maioria tem os reflexos do corpo e das dores
que passaram. É muito pior o estado deles
quando estão vagando. E padecem muito
quando estão no Vale dos Suicidas, lugar em
que se reúnem no umbral. E, como Edson, são
muitos os jovens que matam a si mesmos.
Aqui temos alas só para eles. Gosto muito de
estar aqui, amo o que faço e cada jovem que
auxilio. Penso no quanto eu já fui auxiliada."
"Você tem planos para o futuro?", perguntou
Mary.
"Tenho, quero ajudar suicidas por mais uns
vinte anos. Depois vou estudar me preparar
para reencarnar e, no corpo físico, trabalhar
em favor da vida. Quero tentar impedir que
pessoas matem seu próprio invólucro carnal",
respondeu Nelma, entusiasmada.
"Você conseguirá! Sabe por quê? Porque você
ama o que faz!", expressou-se Mary.
"Nelma, notei que Edson não se levantou e
permanece sentado. Ele não consegue fazê-
lo?"
"Não", disse Nelma. "Edson se pune. Ele não
consegue mexer as pernas e sente dores
atrozes quando pensa na sua queda. Está
fazendo tratamento, e creio que por muito
tempo ainda se sentirá assim. Disse a você
que ia prepará-lo e o fiz. Fortifiquei-o, para
que não sentisse dores, e o coloquei sentado.
Espero que a mãe não perceba, vê-lo tranqüilo
é melhor para ambos. Ela pensará no filho
sadio e ele se esforçará para ficar como a mãe
o imagina."
O socorrista Josemar que as levara foi até
Mary e disse a ela:
"Está na hora de voltarmos"
Aproximaram-se dos dois, mãe e filho estavam
abraçados. Beijaram-se emocionados na
despedida. Agradeceram à Nelma. Os três
saíram da colônia, deram as mãos e volitaram.
Em instantes estavam no paiol.
"Obrigada, Josemar! Deus lhe pague!",
exclamou Lia, agradecida.
"Por nada! Agora vou embora. Tenho muito
que fazer", falou o socorrista.
"Será que você não pode me levar?",
perguntou Lia. "Não quero mais saber quem
me matou nem por quê. Perdôo todos, quero
recomeçar."
"Fico contente por você pensar assim, Lia",
disse Mary. "Mas, há um assassino ou uma
assassina na chácara que está querendo
cometer outro crime. A vida de Aidê corre
perigo. Você deve ficar mais um pouco aqui e
tentar ajudá-la."
"Você tem razão", falou Lia. "Não é estranho?
Eu ajudar a esposa do meu marido? Pensando
bem, não é tão estranho assim. Eu também
fiquei viúva e casei logo em seguida. Está
bem, Mary. Eu fico, e vou esforçar-me para
ajudá-la a não ser assassinada."
Josemar despediu-se e as duas ficaram
sozinhas no galpão.
"Estou contente por ter visto meu filho", disse
Lia. "E confusa! Willian o ajudou, cuidou de
tudo, me poupou. Ele não matou Edson!
Quanto a mim, já nem sei o que pensar. Será
que foi ele? Eva? Os dois? Alguém do grupo
homossexual que nos visitou? Não tenho raiva
de quem fez isso. Willian me ajudou, Eva foi
criada na casa conosco. Queria ir embora, mas
não é certo deixar à coitada da Aidê que está
grávida ser assassinada. Só tem um
inconveniente. Não sei o que fazer para evitar
um crime. Você sabe?"
"Vamos vigiar e tentar descobrir quem quer
assassiná-la", respondeu Mary.
"E, se descobrirmos, o que iremos fazer?
Iremos à polícia, contaremos ao delegado?
Eles nos escutarão?", indagou Lia.
Mary compreendeu que era bem complicado e
respondeu, sorrindo:
"Vamos confiar! Se aqui estamos para fazer
isso, devemos fazê-lo da melhor maneira
possível, e dentro das nossas possibilidades."
"Mary, você acha que um dia eu poderei ficar
perto do meu filho Edson?"
"Sim, mas pode demorar um pouco",
respondeu Mary. "Você deve ir primeiro para
outro lugar, para uma colônia, isto é, uma
cidade espiritual. Deve aprender a viver como
desencarnada, a ser útil, e aí poderá pedir
para trabalhar onde seu filho estiver."
"Não ficaremos juntos porque ele se suicidou,
não é?", indagou Lia. "O que ele fez foi uma
grande imprudência. Ainda bem que não existe
castigo eterno e o sofrimento não é para
sempre. Deus é bom demais! Vou fazer tudo
isso que você disse e mais. Vou dar valor ao
auxílio recebido e esforçar-me para aprender.
E, quando for possível, cuidarei dele e de
outros."
"Esta manhã foi movimentada!", exclamou
Mary, suspirando.
"Se foi! Descobrimos muitos fatos e fizemos
muitas coisas", disse Lia, concordando.
Lia suspirou. Aquietaram-se por alguns
instantes. Então escutaram um barulho: era
um carro se aproximando.".


"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho



CENTRO ESPÍRITA



Deve ser o Reginaldo que chegou. Ele é
pontual. Disse ontem a Willian pelo telefone
que viria hoje e veio", falou Lia.
"Ele é o tal investigador?", perguntou Mary.
"Sim, o primo de Willian que trabalha na
polícia. Não o acho uma pessoa agradável nem
me parece inteligente. Se pelo menos ele lesse
aqueles livros, entenderia que tiraram deles a
idéia de me assassinar."
"Por que você não gosta do Reginaldo?", quis
saber Mary.
"Ele é mulherengo e, quando vinha em casa,
eu tinha a impressão de que ele queria levar
meu marido para encontros com mulheres.
Mas acho que não era nada disso, já que
Willian era amante de Eva, que morava em
nossa casa. Vamos lá vê-lo?"
As duas saíram do paiol e foram para frente da
casa. Um senhor gordo, aparentando ter cerca
de quarenta anos, desceu do carro com uma
maleta. Abraçou Willian e cumprimentou
educadamente Aidê. Entraram e sentaram no
sofá da sala de estar. Reginaldo indagou a
Willian:
— O que acontece, meu primo? Você me
parece preocupado.
— Estou achando que algo estranho está
acontecendo aqui em casa. Tome seu refresco.
Depois vou acompanhá-lo ao seu quarto. Não
quer descansar primeiro? Temos tempo para
conversar!
— Tenho somente mais alguns dias de férias.
Terei de voltar logo para casa.
Reginaldo tomou o refresco e subiu com
Willian, que o conduziu ao seu quarto.
As duas, Mary e Lia, ficaram observando-os
subir e permaneceram na sala com Aidê, que
chamou Isaura e lhe passou algumas ordens e
o cardápio para o jantar. A empregada
resmungou por não ter os ingredientes para
determinados quitutes.
Resolveram escolher outros.
"Ela é esnobe", falou Lia. "Isaura é uma boa
cozinheira, mas não sabe fazer essas comidas
diferentes. Se esta moça ficar por aqui, vai
modificar tudo."
"Vamos subir e ouvir o que Willian está
falando com Reginaldo", convidou Mary.
A porta do quarto estava fechada e Lia pediu:
"Faça como da outra vez: empurre-me para eu
entrar".
Quando as duas entraram no quarto, Willian
tirou um maço de dinheiro do bolso e deu ao
primo.
— Reginaldo, aceite isto! E resolva o caso para
mim!
— Não é fácil trabalhar nas férias! - o
comentou.
— Você já me fez alguns favores, sei disso,
como sei também de muitos outros fatos.
Além do mais, estou pagando e, se tudo der
certo, receberá outro tanto. E você gosta de
dinheiro, não é? Irá recusar esse favor?
— Não! - exclamou Reginaldo. — Agora me
conta o resto. O que aconteceu por aqui e o
que tenho mais de saber.
As duas se olharam, mas não falaram nada.
Queriam escutar tudo.
— Meu primo, quero lhe falar longe de Aidê.
Acho que alguém quer matá-la - falou Willian.
— Acha ou tem certeza? Como? Por quê? -
perguntou Reginaldo.
— Isso é você que vai ter de descobrir. Na
semana passada, Aidê tinha de levar alguns
documentos numa cidade próxima, que fica a
cem quilômetros daqui. Você sabe que para ir
lá existem trechos perigosos, sobe e desce de
serra. Minha esposa acordou naquele dia
passando mal, vomitando muito, e eu pedi
para Adelino, nosso empregado, levar os tais
documentos. Ele é meu funcionário há anos,
dirige bem e devagar, era motorista de Lia e
das crianças. Ele foi e, na primeira descida da
estrada, notou que o carro estava sem freio,
não se apavorou, e essa foi sua sorte.
Conhecendo bem o caminho, ele desviou o
carro para uma vicinal e jogou o veículo no
pasto, só danificando a lataria. Ele não se
machucou. Levei o carro na oficina mecânica
para consertar e eles não notaram nada de
anormal. Achei que fora um mero acidente.
Depois, ontem à noite,
estávamos Aidê e eu na varanda quando um
vaso pesado de cerâmica, um dos que estão
há anos na mureta, caiu. Se eu não a tivesse
empurrado para o lado, ele teria se espatifado
em cima dela. Foi então que desconfiei que
alguém quisesse matá-la. Pode ser só
impressão, coincidência, mas pode não ser.
— Willian - disse o investigador —, ainda não
entendi como Lia morreu. Ela era conhecedora
de cogumelos e tomou uma sopa com um ou
alguns venenosos. Como foi isso?
— Pois foi isso que aconteceu! - exclamou
Willian. — A morte da minha primeira esposa
nada tem a ver com o que acabei de narrar.
Lia se enganou, e seu erro foi fatal.
— Será mesmo, Willian? - perguntou
Reginaldo, olhando fixamente para o primo.
— Não quero que verifique nada sobre a morte
de Lia. Ela já morreu, está enterrada e pronto -
respondeu Willian.
— Bem, vou começar investigando esse tal de
Adelino. Mande chamá-lo e peça que espere na
sala. Já vou descer.
Willian saiu deixando Reginaldo no quarto.
As duas se olharam e Mary falou:
"Parece que seu ex-marido chantageia o
primo".
"Pois eu tenho certeza!", exclamou Lia.
"Você sabe por quê?", indagou a socorrista.
"Reginaldo era tão pobre quanto Willian. Ele
ganha um ordenado que dá para viver
modestamente, entretanto mora numa mansão
grande e bonita, tem casa de veraneio e dois
apartamentos. Meu esposo uma vez me disse
que o primo estava envolvido com traficantes
de droga. Acho que não está mais. Willian
sabia desse fato e deve ter provas, agora o
está chantageando. E coitada da Eva! Acho
que os dois vão culpá-la de tudo!"
Já não sei o que pensar", falou Mary. "Se
Willian chantageia Reginaldo, ele está
escondendo algo. Pelo menos essa é a
impressão que dá".
"Como dizia minha avó", falou Lia, suspirando,
ninguém é bom o suficiente que não tenha
feito uma maldade. Como também uma
pessoa não é só má, pois os maus podem
fazer coisas boas. A maioria de nós faz o bem,
mas também pode fazer atos ruins. Já estava
achando que Willian não tinha nada a ver com
o meu assassinato, mas agora volto a ter
certeza de que foi ele".
Reginaldo abriu a mala, guardou algumas
roupas no armário e pegou uma caderneta, um
bloco de anotações. Depois, desceu até a sala.
Adelino já o esperava. Após os cumprimentos,
o investigador pediu:
— Conte-me com detalhes como foi o acidente
na serra.
— O carro do Sr. Willian é novo, só tem dois
anos e pouco de uso. Levo-o para as revisões,
parecia estar tudo bem. Naquela manhã, meu
patrão pediu-me para levar alguns papéis a
uma cidade vizinha. Na primeira descida,
percebi que não havia freio, saí da estrada,
peguei uma outra de terra que vai para uma
fazenda, assim que foi possível saí para o
pasto e o carro parou.
— Você teve medo? - perguntou Reginaldo.
— Não, agi normalmente - respondeu o
empregado.
— Em sua opinião, se isso tivesse ocorrido
com seus patrões, o que teria acontecido?
Adelino pensou um pouco e respondeu:
— O Sr. Willian conhece a estrada, só que
dirige em alta velocidade, talvez fizesse o que
eu fiz. Ele pediu-me para fazer esse serviço
porque, como me disse, tinha de ir a uma
audiência de uma ação movida por um ex-
empregado da chácara. Agora, se fosse dona
Aidê, eu não sei. Ela não conhece a estrada e
parece que não é boa motorista. Se
acontecesse com alguém que se apavorasse,
acho que poderia ocorrer um acidente fatal. A
estrada é muito perigosa.
— Audiência com ex-empregado! - expressou-
se Reginaldo. — Quem é esse ex-empregado?
Por que foi dispensado? Houve brigas?
— É o Douglas, um moço arrogante. Ele não
gostava de receber ordens minhas, reclamei
para o patrão, que lhe chamou a atenção. Dois
dias depois, por pirraça, ele arrancou do
jardim as roseiras que dona Lia havia
plantado. Isaura ficou nervosa e queixou-se ao
Sr. Willian, que o mandou embora por justa
causa e não pagou o que era devido. Douglas
xingou muito, falou até demais. Disse que iria
se vingar e cumpriu: fez uma reclamação
trabalhista!
— Você acha que ele seria capaz de fazer
alguma outra maldade? - quis saber
Reginaldo.
— Não sei! - respondeu Adelino, sem muita
convicção.
"Lia, você conheceu esse empregado?",
perguntou Mary para a amiga.
"Conheci. Sempre me pareceu uma pessoa
normal. Acho que seria incapaz de matar
alguém. Esse desentendimento deve ter sido
depois de minha desencarnação, pois estou
sabendo disso agora."
Reginaldo continuou a inquirir o empregado:
— Douglas conhecia a casa por dentro?
— Sim - respondeu o empregado. — Às vezes
Isaura pedia para que ele fizesse algumas
limpezas mais pesadas dentro da casa.
Lia falou para Mary:
"Será que meu assassinato nada tem a ver
com esses atentados contra Aidê? Ou estão
querendo é matar Willian? Será que Douglas
está envolvido? Ele era casado, mas estava
sempre tentando conquistar Eva".
Reginaldo fez várias perguntas. Algumas sem
sentido. Quis saber até sobre os cogumelos.
Quando falou para Adelino que ele podia ir
embora, este saiu nervoso.
"Lia", pediu Mary "fique por aqui e acompanhe
o primo do seu ex-marido. Eu vou acompanhar
Adelino. Preste atenção em tudo e fique bem
atenta a todas as conversas".
O empregado foi para o pátio aborrecido. Mary
escutou seus pensamentos:
"Não estou gostando disso! Se emprego não
estivesse tão difícil, eu me demitiria. Mas, se
eu sair agora, vão achar que sou o culpado!
Será que tem culpado nesse caso? Ricos
pensam sempre diferente, têm mania de
perseguição. E a corda arrebenta sempre do
lado mais fraco. Será que dona Lia foi
assassinada? E o Sr. Willian será o próximo? A
vingança de Douglas não ficou só na
reclamação? Pareceu que o Sr. Reginaldo está
achando que estão querendo matar a dona
Aidê. Se isso for verdade, com a história do
carro, quase que sou eu quem morre! Quem
se beneficiaria com essas mortes? Só se...
Quem receberia a herança? Senhor Willian?
Giovana e Jorge Luís? O filho da dona Lia é
estranho! Não estou mais gostando deste
lugar. Tenho visto vultos, ouvido risadas... E
ainda tem aquela assombração do paiol. É lá
que ficam os espectros. Será que dona Lia foi
assassinada e vaga por lá, sem descanso?
Arrependi-me de ter falado para as pessoas
dessas visões. Serei tachado de mentiroso ou
de louco. E poderão achar que sou um
assassino! Só falta eu ser suspeito! É bem-
feito para mim. Neguinha, minha esposa, já
me pediu tanto para ir novamente ao centro
espírita... Ela tem tentado explicar-me que lá
eles me ajudarão a compreender porque ouço
vozes e vejo vultos. Sábado passado quase
morri de medo. Estava no bar e ia colocar uma
pinguinha na boca quando escutei
sussurrarem ao meu ouvido: 'Toma devagar
que quero beber junto! ' Larguei o copo cheio
no balcão e fui embora. Não é coisa de louco?
É isso que vão achar que sou".
Adelino pensava e às vezes resmungava.
Estava chateado e preocupado:
"Por que tenho de ver almas do outro mundo?
Deus podia dar essa tal de mediunidade, que
faz as pessoas verem defuntos, para quem
quisesse. Estou com medo de ir ao paiol!"
Nisso Eva chegou com Reginaldo na horta
onde Adelino estava. Lia estava com eles e
disse à Mary:
"Estou atenta. Reginaldo pergunta demais e
escreve muito no caderno".
— E então Adelino? Você acha que o paiol é
assombrado? - perguntou Reginaldo.
O empregado olhou feio para Eva, que deu
sorriso forçado e disse:
— Estou acompanhando o Sr. Reginaldo em
um passeio em volta da casa. Ele quer rever
tudo.
— Você não respondeu Adelino. Você acredita
que o paiol é assombrado? Já viu fantasmas? -
insistiu o investigador.
"Que insolente!", exclamou Lia. "Referir-se a
mim e ao Zé Grilo dessa forma, chamando-nos
de fantasma!"
Adelino encabulou-se, ficou vermelho e
respondeu, em tom baixo:
— Senhor Reginaldo, sou médium, vejo
espíritos e...
— Já sei - interrompeu o investigador. —
Médiuns são pessoas que têm sensibilidade
para sentir quem já teve o corpo morto. Sei
disso!
— Então por que pergunta? - censurou o
empregado.
— Perguntei se você via espíritos - disse
Reginaldo, dando uma risadinha.
— Vi alguns vultos no paiol ou acho que vi.
Pode ter sido impressão - falou Adelino.
— Não pode ser que tenha visto um ser vivo?
Uma pessoa como nós, que entrou na chácara
e se escondeu lá?
— Não sei! - exclamou Adelino, não gostando
do interrogatório.
Reginaldo olhou-o bem, deixando o
empregado mais nervoso ainda. Ele fez uma
pausa e falou:
— Você ouviu barulhos, viu vultos, pôs na
cabeça que eram fantasmas e por medo não
foi verificar o que era. Você não está fazendo
seu trabalho direito, que é vigiar a chácara.
— Senhor Reginaldo, tenho certeza de que no
paiol não entraram pessoas como nós -
defendeu-se Adelino.
— Você procurou? Olhou direito? - insistiu o
investigador.
— Não!
— Eva, vamos continuar nosso passeio -
convidou Reginaldo.
Os dois caminharam rumo ao paiol sem sequer
despedir-se de Adelino, que pensou:
"Tomara que eles vejam os vultos! Como Eva
é faladeira! Já me dedurou! Hoje vou embora
mais cedo. Vou sair quietinho".
Lia acompanhou os dois, que olharam o paiol
e o antigo cultivo de cogumelos.
Depois, voltaram para a casa. Adelino guardou
as ferramentas e foi para a sua residência,
Mary o acompanhou. Ele foi resmungando:
— Maldito paiol assombrado! Acho melhor eu
ir ao centro espírita hoje!
Em casa, sua esposa, Neguinha, foi recebê-lo
carinhosamente:
— Adelino, por que você veio mais cedo?
— Hoje vou ao centro espírita com você. Estou
cansado de não entender essas visões de
defuntos. Estou com medo que as pessoas me
achem louco.
— Não é defunto, Adelino. Pessoas que tem o
corpo físico morto são desencarnados -
corrigiu Neguinha.
— Pior! Desencarnado é um ser sem carne.
Não faz diferença como eu os chamo. São
todos feios!
— Você um dia irá morrer - disse a esposa.
— Se isso acontecer, vou ser mais um defunto
e não terei medo dos outros. Vou ao centro
espírita porque estou cansado, ou eles tiram
isso de mim, ou me fazem compreender para
eu não ter mais medo.
Adelino foi tomar banho. Minutos depois os
dois saíram de casa em direção ao centro
espírita.
Mary foi junto.
Era um salão grande, com cento e cinqüenta
lugares, e quase todas as cadeiras estavam
ocupadas. Os dois acomodaram-se e Adelino
observou tudo e todos.
Mary cumprimentou dois trabalhadores da
casa, do plano espiritual, que ficavam
recepcionando e encaminhando os que ali
chegavam sem o invólucro físico. Foi
convidada a ficar numa parte reservada para
visitantes. Entretanto, ficou atenta ao casal
que acompanhava.
Uma senhora encarnada fez uma oração muito
bonita. Depois um senhor que era médico, o
Dr. Lúcio, fez a palestra.
Neguinha explicou, falando baixinho ao
marido:
- Ele vai falar sobre Jesus!
Doutor Lúcio leu um texto do livro O
Evangelho Segundo o Espiritismo em que
Jesus amaldiçoa a figueira por não ter
encontrado frutos nela. Depois explicou com
voz agradável.
— Essa parábola causa indignação em muitas
pessoas. Certo dia, Jesus estava com seus
discípulos e passaram perto de uma figueira.
Como estavam com fome,
aproximaram-se da árvore e procuraram
frutos. Não encontraram, porque não era
tempo de ela produzir. O Mestre, vendo que a
figueira estava cheia de folhas e sem frutos,
disse:
"Jamais coma alguém fruto de ti"
"Podemos achar que Jesus não foi justo. Por
que fazer isso com a inocente árvore, se não
era época de ela dar frutos? Jesus fez isso se
aproveitando, como sempre, de um fato
ocorrido para ensinar, nos legando um
precioso ensinamento. Ele comparou a figueira
a nós, seres humanos. Muitos de nós têm
abundante folhagem sem fruto algum e vários
atos externos sem nenhuma utilidade, o perigo
está em sermos espiritualmente estéreis. Nós
somos dotados de livre-arbítrio. Podemos
escolher ser ou não ser frutíferos em todos os
tempos, nos propícios e nos desfavoráveis.
Nós, humanos, devemos ser espiritualmente
úteis, mesmo em épocas difíceis ou em
situações adversas.


O leitor poderá encontrar essa parábola nos
Evangelhos de Mateus (21: 18 a 19) e de
Marcos (11: 12 a 14). (N.A.E.)


"Sei que é fácil doarmos algo quando o temos
em abundância, quando estamos alegres,
felizes e sem impedimentos, sendo mais
complicado doarmos quando temos
problemas, estamos em dificuldades e nos
parece difícil ser úteis. Quem faz o bem em
período de facilidades não deixa de ser útil,
mas quem o faz em período ruim é realmente
bom. Quem produz frutos quando não é tempo
é bom! Ser generoso com pessoas boas é
fácil. Prazeroso é fazer o bem aos que
amamos!
Agora, ser caridoso com os maus é mais
difícil. Ser puro entre os impuros, luz no meio
das trevas é dar frutos o tempo todo.
Devemos entender o sentido espiritual
dessa parábola, em que Jesus quis nos dizer
que nós, seres humanos, temos e devemos
produzir frutos sempre, nas adversidades e
nas épocas propícias.
"Espiritualmente, temos a possibilidade de
sempre dar frutos. Esse fruto é o alimento!
Quem produz dá frutos, que são os atos
benéficos, e primeiro alimenta a si mesmo e
depois o próximo."
"Vocês podem dizer: 'Só tenho momentos
complicados! ' De fato, não deixam de ter
razão. É muito difícil estarmos totalmente sem
problemas. Por isso, vemos muitos se
lamentando e dizendo:
'Não faço o bem, não sou útil porque... ', e a
lista de obstáculos é enorme. Como já disse,
quem produz dá frutos e alimenta-se primeiro.
Observem amigos: quando não comemos nem
bebemos, o corpo físico degenera, perde sua
função e morre. Se não usamos nossa mente,
ela atrofia. E, se não temos dificuldades,
estacionamos. Desenvolvemo-nos resolvendo
problemas. Progredimos quando os
solucionamos para o bem. E muitas vezes
achamos soluções para os nossos
problemas quando ajudamos outras pessoas
com os delas.".
"Ontem mesmo encontrei uma jovem. Ela me
falou que sabia que tinha mediunidade, mas
por estudar e trabalhar não tinha horário para
vir ao centro espírita. Disse a essa moça:
'Converse com Deus, chame nosso Pai para
uma conversa séria. Explique-lhe
detalhadamente sua falta de tempo e peça que
adie para o futuro o seu trabalho com a
mediunidade'. Ela ficou séria e me respondeu
após pensar alguns segundos. 'Vou sábado ao
centro espírita! ' Acho que ela conseguiu
organizar seus horários. Temos aqui aos
sábados, às dezenove horas, palestras, passes
e, após, estudo da Doutrina Espírita. Dia e
hora acessíveis a muitos. Quando deixamos de
lado o comodismo, a preguiça e outros
motivos, nossa conversa com Deus leva-nos a
ver e a sentir que a figueira cheia de folhas e
força pode dar frutos. Convido vocês, meus
amigos, a pensar sobre isso e a fazer o que
compete a cada um enquanto realmente se
pode, porque pode ser que adversidades
sérias nos levem a não poder mais ser úteis,
embora para algumas pessoas não exista
dificuldade que as impeça de fazer o bem.
Conheci um moço espírita convicto, que era
cego. Isso para muitos seria desculpa mais do
que suficiente para não fazer nada. Mas ele
produzia e doava frutos. Jerônimo Ribeiro
Mendonça, assim o chamavam. Doente, tinha
muitas dores. Era tetraplégico, só movia a
cabeça, e excursionava pelo Brasil, dando
consolo e alegria com sua voz forte e bonita. E
pasmem: ele cantava. Falava de Jesus, do seu
Evangelho, consolando as pessoas. Se ele
encontrou uma maneira de ser útil, por que
nós não podemos encontrar? Se podemos
fazer o bem, façamos, porque quem pode e
não faz acumula débitos que causam
sofrimentos.
"Agora vamos nos preparar para receber o
passe, energias benéficas que nos
fortalecerão. Que Jesus nos abençoe e nos
ajude a dar bons e saborosos frutos!"
Adelino sentiu vergonha. Ele, que até então
havia pensado que Jesus faria com todos que
não acreditassem nele o que fez com aquela
árvore, sentiu-se como a figueira: era forte,
sadio e nada fazia de bom para si mesmo nem
para os outros.
"É melhor eu dar frutos antes que Jesus me
peça conta de tudo o que deveria ter feito e
não fiz!", pensou Adelino, arrepiando-se.
Adelino ficou olhando todos os que estavam
ali. Viu dona Eny, a professora da escola do
bairro, ela lecionava o dia todo e dava aulas
particulares à noite. Seu marido encontrava-se
desempregado e doente, tinha três filhos, e
estava ali, dando passes. Neguinha lhe dissera
que ela ensinava, aos sábados à tarde, alguns
adultos a ler numa das salas do centro
espírita, onde funcionava uma escolinha. Viu
Waldomiro, seu amigo, que trabalhava de
bóia-fria, fazendo trabalho pesado. Viu
também dona Augusta, uma viúva que fazia
faxinas; o Dr. Lúcio, que trabalhava muito e
atendia no posto de saúde depois do seu
horário normal de trabalho, e sua esposa,
Cleuza, que trabalhava na prefeitura e fazia
enxovais para crianças pobres.
Adelino recebeu o passe e sentiu-se bem.
Mary ficou observando tudo. É sempre
prazeroso ir às reuniões de um centro espírita.
"Boa noite!"
Uma das trabalhadoras desencarnadas da casa
cumprimentou-a sorridente.
"Sou uma das servidoras deste local de
socorro. Se Adelino realmente resolver
trabalhar sua mediunidade, seremos
companheiros de trabalho."
"Você o protegerá?", perguntou Mary.
"Estarei mais tempo com ele. Tentarei orientá-
lo sem, porém, fazer o que lhe cabe."
"As pessoas confundem seu trabalho? Isto é,
acham que o desencarnado que trabalha junto
do médium tem de fazer tudo para ele? Evitar
que tenha problemas ou resolvê-los?", quis
saber Mary.
"Há essa confusão, esse engano", explicou a
trabalhadora da Casa. "Nós, desencarnados,
também temos limitações e devemos obedecer
a certos critérios. Nosso maior trabalho junto
aos encarnados é orientá-los e motivá-los a
continuar no bem. Eles, porém, têm o livre-
arbítrio de atender-nos ou não. Somos
companheiros de trabalho, parceiros que
planejam fazer algo de bom juntos."
Ela despediu-se de Mary e foi continuar sua
tarefa. Nossa amiga ficou observando o lugar,
acima da construção material, havia uma
outra, no plano espiritual: um posto de
socorro para abrigar desencarnados. Grande,
de agradável aspecto, ele tinha biblioteca, um
pequeno hospital e moradias para os
trabalhadores desencarnados. Muitos
socorridos foram assistir à palestra, após a
reunião, eles voltaram para o abrigo.
Com uma linda oração, foi encerrado o
encontro da noite. Todos saíram. Adelino foi
embora com sua esposa e no caminho
comentou:
— Neguinha, de hoje em diante vou ao centro
espírita com você. Irei às quartas-feiras
estudar e, se Deus quiser, logo estarei dando
passes. Quero dar frutos e não ter mais de me
envergonhar por ser uma figueira só com
folhas!
Isso deixou Neguinha feliz. Mary também ficou
contente. Quando o casal chegou a casa, ela
volitou para o paiol.".

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho







A INVESTIGAÇÃO






"Mary não encontrou Lia no paiol, foi
rapidamente para a casa, temendo que a
amiga tivesse ficado presa lá dentro. Se eles
fechassem as portas, ela não saberia passar.
Mas as portas estavam abertas e o casal
tomava chá na sala de estar com a visita. Lia
estava atenta e sorriu ao ver à amiga. O trio
conversava sobre viagens e, após alguns
minutos, resolveu ir dormir. Isaura fechou a
casa. A socorrista passou Lia pela porta
fechada e foram para o galpão.
"Mary, onde você esteve?", quis saber Lia.
"Com Adelino", respondeu ela.
"Você suspeita dele? Ficou vigiando-o?",
perguntou a ex-dona da casa.
"Acho que não foi ele. Nada notei de suspeito",
respondeu Mary.
"Foram bem interessantes às conversas que
ouvi", disse Lia. "Willian disse a Reginaldo que
foi amante de Eva e que teme por Aidê. Pelo
jeito que falou, meu ex-marido suspeita de
Eva. Para ele é a empregada que está fazendo
esses atentados. E você nem vai acreditar no
que ocorreu depois! Aidê falou que iria ao
médico amanhã cedo. Willian disse que não
poderia ir com ela por ter uma audiência no
fórum e xingou Douglas. Pelo que ele disse o
empregado é um mau caráter, e a entrada dele
aqui na chácara foi proibida. Logo após essa
conversa, meu ex-esposo foi ao escritório dar
alguns telefonemas e Reginaldo ficou a sós
com Aidê, dizendo-lhe:
"Aidê, estou aqui para protegê-la. Espero
contar com a sua colaboração para
desempenhar bem meu trabalho'.
"Se você acha que estou correndo perigo, vou
embora daqui ainda hoje!", exclamou Aidê,
assustada.
"Você não deve ficar nervosa, claro que não
corre nenhum perigo. Como já disse, estou
aqui para protegê-la! Nunca aconteceu nada
com os meus protegidos. Tenho um plano e
vou dizê-lo a você. Mas, será segredo, não
deve falar nem para o Willian. Promete? '.
"Nem para o meu esposo? Por quê? ', indagou-
a, arregalando os olhos.
"Se mais alguém souber, deixará de ser
segredo. Concorda?", falou Reginaldo devagar,
enquanto abria e fechava a tampa da caneta
que estava em suas mãos.
"Está bem, guardarei segredo. Pode falar."
"Você irá ao médico e dirá a todos que está
doente do coração e que terá de tomar um
remédio, um tônico para não ter um enfarte.
Darei a você um vidro que parecerá remédio.
Você dirá que terá de tomá-lo quatro vezes ao
dia, seis gotas, e, se não o fizer, poderá ser
fatal. Dentro desse vidro só haverá água, pode
tomá-la despreocupada. Aqui está o vidro,
amanhã você misturará com os outros.
Deixará aqui na sala, porque terá de tomar
antes das refeições."
"Você acha que, se alguém quiser me matar,
tentará trocar o remédio? ', perguntou Aidê.
"Esse plano é simples demais, se for alguém
mais inteligente, não irá cair na sua
armadilha.".
"Ainda não sei se tem ocorrido tentativas de
assassinatos e se querem matar você ou
Willian. E muitas vezes planos simples dão
resultados. Se o alvo não for você, nada
acontecerá se for nosso plano pode ser uma
tentação para esse criminoso!"
"Estou confusa! ', expressou-se Aidê. "Estava
pensando que era a alma da falecida esposa
de Willian que estava querendo prejudicar-
me".
Lia parou por um instante de falar, suspirou,
olhou para Mary e disse:
"Veja que injustiça! Achar que sou eu que
quero prejudicá-la! No começo não gostei
dela, senti até raiva, mas depois compreendi
que Aidê não merece nada de ruim. Ela só
quer ser feliz, ter filhos".
Reginaldo a acalmou e ela resolveu fazer tudo
como planejado.
"Como vê, minha amiga, o investigador
suspeita do primo, senão não ia pedir à Aidê
para não dizer nada ao marido. Tudo me
parece perfeito: meu ex-esposo matou-me
para receber a herança; aí surgiu essa moça
mais rica do que eu querendo casar, e ele o
fez pensando em assassiná-la e ficar mais rico
ainda. É simples demais, só que há alguns
detalhes. Por que ele foi bom comigo? Por que
tentou ajudar Edson? Por que chamou o primo
para investigar? Só se for para ter um álibi.
Willian suspeita de Eva ou quer jogar a culpa
na empregada, que foi sua amante?"
"Vamos descansar, Lia. Tenho uma intuição de
que amanhã descobriremos mais detalhes."
"Estou muito apreensiva para dormir, mas vou
tentar", expressou-se a ex-dona da chácara.
Lia ficou quieta e de repente começou a
chorar. Mary foi até ela e abraçou-a:
"O que se passa agora?"
"Estou com medo de que Jorge Luís esteja
envolvido nessa história de crimes. Ele tem
motivos para ter mágoa de mim e de Willian.
Isaura o ama muito e pode ser sua cúmplice.
Não é difícil para meu filho estar pagando
alguém para matar meu ex-marido. Ou... Pode
até ser que Gina tenha algo a ver com os
fatos, ela ama muito o irmão. Ele sempre
cuidou dela, foi amigo, companheiro,
confidente, era ele que a ajudava nas lições da
escola, a levava onde queria, eram muito
unidos. Gina sofreu quando ele partiu
magoado."
"Gina é tão sensível!", exclamou Mary.
"Sim, é. Mas tem um marido que faz tudo por
ela. Agenor não é um rapaz sem defeitos.
Minha filha o amou assim que começaram a
namorar. Não era o genro ideal, o que
imaginei para minha menina, mas, como ela o
queria, fiz de tudo para que se casassem. Até
o eduquei, ele não sabia nem se alimentar
com educação, não falava corretamente. Acho
que é por isso que, aqui em casa, fala pouco.
Fui eu quem lhe arrumou o emprego que
possui e dei várias vezes dinheiro para que
comprasse roupas. Sem Willian saber, dei a
eles os móveis para montarem a casa e o
dinheiro para a viagem de núpcias. Minha filha
nunca se queixou dele, e por isso acho que
valeu a pena. Analisando friamente, Gina é
feia, sem graça, e Agenor é muito bonito."
Lia fez uma pausa, suspirando profundamente.
Mary pensou que, quando conheceu Agenor,
não viu amor em seus olhos. Talvez o moço
casara por interesse.
A socorrista não quis falar o que pensava para
a sua amiga, nem o que achava de Agenor
nem que suspeitava de Eva e a julgava
culpada. Ela assassinara Lia com a ajuda de
William e agora queria se livrar da outra
esposa. Devia estar chantageando Willian, e
este planejava culpá-la por tudo ou talvez
fazer com que a empregada fosse acusada só
de tentar assassinar Aidê. Se o crime de Lia
não fosse descoberto, ele sairia ileso.
"Se um dos meus filhos estiver envolvido
nesses atentados ou com a minha morte, vou
sofrer muito! E a lição será dolorosa por eu ter
querido investigar! Ai, meu Deus. Dai-me
forças!"
Mary pensou que infelizmente existem muitos
assassinos em família. Pais que matam filhos,
e estes, os genitores.
"É falta de amor!", exclamou a socorrista.
"Tem razão!", expressou-se Lia, suspirando.
"Talvez eu não tenha dado amor aos meus
filhos como deveria. Se eles tiverem algo a ver
com a minha desencarnação, vou sofrer mil
vezes mais do que sofri por ter morrido."
Mary a acalmou e ela adormeceu. A socorrista
sentou-se, pegou a mochila que havia levado e
que estava em um canto escondida, um livro e
começou a ler. Era O Livro dos Espíritos, de
Allan Kardec, uma edição especial para
desencarnados.
Logo que amanheceu, Mary chamou Lia:
"Acorde, amiga! Tem movimento na casa.
Vamos lá".
Isaura preparava o café. As duas acharam a
empregada abatida, com olheiras. Logo
desceu o casal, que tomou o desjejum e saiu.
Aidê foi ao médico, e Willian, como dissera, à
audiência.
Minutos depois, Reginaldo também desceu e
tomou o desjejum. Depois foi para a sala de
estar e ficou alguns minutos a examinar a
porta de correr.
"O que será que ele olha tanto nesta porta?",
perguntou Lia para Mary.
"Será que o danado do Zé Grilo tem razão? Ele
diz ter visto um vulto de negro entrando na
casa por aí. Será verdade? Esse vulto seria
encarnado?"
Mary pensou que Zé Grilo tinha motivos para
temer vultos vestidos de preto, pois ele fora
maltratado por desencarnados maus que se
vestiam assim. Pena ele não ter observado
melhor e descoberto se o vulto era
desencarnado ou não.
"Mary, você acha que Eva pode ter voltado
vestida de preto e entrado por esta porta para
fazer algo escuso? Será que esse vulto é
alguém desconhecido ou alguém que
conhecemos e que eu gosto? Será que o
criminoso entrou na casa por aqui?", indagou
Lia.
"Parece que Reginaldo acha que isso pode ter
ocorrido, já que esta porta pode ser aberta
facilmente", opinou Mary.
O investigador andou pelo jardim, deu voltas
pela redondeza e entrou e saiu pela porta de
correr da sala de estar várias vezes.
Conversou com Isaura e com Eva novamente.
Depois, sentou-se em uma poltrona que ficava
na sala e fez anotações em seu caderninho. Lia
e Mary aproximaram-se para ler.
"Veja, amiga, o que ele escreveu!", expressou-
se Mary, indignada. "Estou achando que ele é
menos inteligente ainda do que eu pensava.
Acima das suspeitas é Isaura!"
De fato, o investigador escrevera o nome da
empregada como suspeita. E colocara na
frente:
"Ela esconde algo, e pelo jeito é grave".
"A outra é Eva", leu Lia.
"Ele tem razão em desconfiar dela", opinou
Mary. "Leia o que Reginaldo escreveu: "Foi
amante de Willian. Talvez ainda o ame e
queira ser esposa dele!
"Não foi nada esperto ao desconfiar de
Adelino", falou Lia. "O empregado também é
suspeito. Veja o que ele escreveu:
"Empregado antigo, talvez tenha sido
apaixonado por Lia e a matou por esse motivo.
Não me parece saudável!"Absurdo! Adelino é
bem-casado com Neguinha, que é bonita,
dedicada, e ele sempre a amou.
Nunca ocorreu nada entre nós, ele sempre foi
respeitador. E, mesmo se tivesse me
assassinado, porque estaria tentando matar
Aidê?"
"Ele colocou na lista o ex-empregado Douglas
e o advogado de Willian. Você conhece esse
profissional?", perguntou Mary.
"Quando estava encarnada, eu o conheci
socialmente. Willian precisou de seus serviços
para fazer o inventário. Acho que ele não tem
motivo nenhum para atentar contra Aidê",
respondeu Lia.
"Reginaldo também anotou que Gina está
triste. Ele questiona se não seria remorso?",
leu Mary.
"Se eu estivesse encarnada, daria um tapa no
rosto dele. Este sujeito não investiga nada.
Ontem desconfiei do meu filho, de Gina e do
marido dela. Foi tolice! Não penso mais nisso!
Eu posso ter desconfiado, mas ele não tem
esse direito. Esqueci de lhe falar: ontem,
enquanto você foi investigar Adelino,
Reginaldo fez uma visita rápida para Gina e
eles conversaram por alguns minutos.
Giovana, minha filhinha, está triste porque me
amava e eu desencarnei e porque o pai casou-
se logo com outra. Precisa de mais motivos
para se entristecer? Gina não tem de ter
remorso, sempre foi uma boa filha. Não sei
por que Reginaldo não colocou como suspeito
o nome de Willian. Será pela chantagem? Pelo
que já recebeu e receberá?"
Reginaldo fechou o caderninho, examinou de
novo a porta e falou baixinho sua conclusão:
— Alguém tem aberto esta porta pelo lado de
fora. Faz isso para entrar na casa? Por quê?
Quem? Certamente o assassino! Será alguém
de fora? É ajudado? Ou quer que se pense que
é de fora!
"O que você acha Mary?", perguntou Lia. "Que
é alguém da casa que faz isso para despistar
ou é realmente alguém que não pertence à
chácara? Eva? Ela sai para voltar? Estou
achando que pode ser Eva a assassina. Mas
como essa menina pode ser a criminosa, se foi
criada em minha casa? Mas, se for levar em
consideração que Eva foi amante de Willian e
que me traiu, ela pode muito bem ser a
assassina. Matou-me e agora quer o amante
mais rico e viúvo de novo."
Mary nada respondeu. Ficaram na casa
observando Reginaldo, que foi ler o jornal.
No horário do almoço, Willian chegou com
Aidê, ele estava muito preocupado.
A dona da casa mandou servir o almoço, pediu
para Isaura ir com Eva servir a mesa e, como
Reginaldo havia recomendado, comentou:
— Estou doente - falou Aidê, com calma. — O
médico diagnosticou uma doença séria em
meu coração, por isso tenho passado tão mal.
Tenho de tomar uma medicação em horário
certo, e conto com vocês para me lembrar.
— Por que você não coloca o remédio aqui na
sala de estar? Assim é mais fácil lembrar-se -
destacou Reginaldo.
— Tem razão - falou Aidê. — Vou colocá-lo
aqui, neste aparador. Tenho de tomá-lo quatro
vezes por dia: após o desjejum, no almoço, no
jantar e à noite, antes de dormir.
— Querida, estou preocupado com você -
disse Willian.
— Não precisa se preocupar. Tomando a
medicação corretamente, nada me acontecerá
- respondeu Aidê.
Almoçaram em silêncio. Aidê logo depois foi
descansar e Willian foi para o escritório.
Reginaldo olhou para o remédio e sorriu. O
vidro continha só água. No rótulo estava
escrito o nome Cardiuna e a indicação para
tomar quatro vezes por dia. Lia falou, rindo:
"Veja Mary que nome estranho Reginaldo
colocou no remédio".
Reginaldo balbuciou baixinho:
— Armadilhas simples são as que pegam
supostos inteligentes. Se alguém estiver
querendo matar Aidê, a troca do remédio
facilitará seu crime. Agora, se estiver
querendo eliminar Willian, certamente tentará
outra coisa. Aí terei de pensar em outro plano.
Esta sala é muito exposta, há sempre pessoas
por aqui para que alguém, durante o dia, faça
a troca sem correr o risco de ser visto. Se esta
porta é usada, como diz a minha intuição, o
criminoso ou a criminosa virá à noite. E aí... -
Ele sorriu.
O investigador foi para a cozinha e as duas
desencarnadas o acompanharam. As
empregadas se assustaram quando ele entrou
sem fazer barulho. Ele sorriu cinicamente e
falou com voz pausada, olhando-as fixamente:
— Quero lhes recomendar que fiquem atentas
com dona Aidê, ela está realmente doente. Se
não tomar o remédio direito, pode morrer. Sua
doença é grave!
Isaura arregalou os olhos e exclamou:
— Ave, Maria! Nesta casa já ocorreu desgraça
demais! Que dona Aidê não morra!
— Mas infelizmente é o que pode ocorrer se
ela não tomar o remédio. Por isso recomendo
a vocês que não a deixem esquecer de tomá-lo
- falou Reginaldo, com seu sorriso cínico.
Ele saiu da cozinha e Isaura se benzeu,
fazendo o sinal da cruz. Eva pensou tão
fortemente que Mary e Lia a ouviram, como se
ela tivesse falado:
"Bem-feito! Tomara que morra!"
"Maldosa!", exclamou Lia. "Como pode desejar
que ela morra? Você é má, Eva!"
"Não sou má!", pensou Eva, sentindo as
palavras de Lia, embora não as tivesse ouvido,
e sim as sentido como se fossem seu
pensamento. "Willian merece ficar viúvo de
novo. Deixou-me sem explicações. Eu que
sentia remorso por trair dona Lia! Que ele
sofra! Parece tão apaixonado. Irá sentir a
morte dessa mulher! E aí estarei vingada!"
Eva saiu da cozinha e foi limpar a sala. As
duas desencarnadas foram atrás de Reginaldo,
que foi falar com Adelino. Ele contou ao
empregado sobre a suposta
doença de Aidê e voltou para a casa.
As duas ficaram um pouquinho com o
empregado e o ouviram pensar:
"Vou orar para dona Aidê, como também
colocar o nome dela no caderno de vibrações
do centro espírita. Coitada, é tão nova! O Sr.
Willian não tem sorte: primeiro dona lia
morreu ao comer a sopa de cogumelos
venenosos e agora a segunda esposa que é
doente! Se me comparar com ele, eu é que
tenho sorte! Neguinha é uma esposa nota mil".
Depois de ouvirem Adelino, elas foram atrás
de Reginaldo, que foi conversar com o primo
no escritório:
— Willian, meu caro, você deveria convidar
Gina e Agenor para jantar aqui conosco.
Gostaria de vê-los, e acho que você deve
contar-lhes sobre a doença de Aidê.
— Não sei porque contar a eles - disse Willian.
— Estou preocupado demais, e talvez Gina
ache bem-feito.
— Por que ela pensaria assim? - perguntou o
investigador.
— Minha filha não me perdoou por eu ter me
casado tão depressa. Ela não gosta de Aidê -
respondeu Willian.
— Será que não é uma boa hora para que elas
fiquem amigas? Talvez Gina fique comovida
com a doença da madrasta - falou Reginaldo.
— Pode ser que você tenha razão. Vou
convidá-los - disse Willian, determinado.
— Aproveite e convide também seu advogado
- sugeriu o visitante.
— Por quê?
— Nada como um jantar para acertar negócios
- respondeu o investigador.
— Não tenho nada pendente com ele, mas vou
chamá-lo.
Willian pegou o telefone e fez as ligações.
Depois falou para o primo:
— Agenor e Gina virão, mas o advogado não.
Ele já tem outro compromisso. Vou à cozinha
dizer para Isaura que teremos convidados para
o jantar.
Reginaldo ficou sozinho no escritório e fez
uma ligação. Lia e Mary escutaram-no
conversando com uma pessoa e recebendo
informações sobre Douglas. Pelo que
ouviram, o ex-empregado estava trabalhando
em uma outra chácara, não muito longe dali.
Quando desligou o telefone, ele saiu sem fazer
barulho, subiu as escadas devagarzinho,
entrou no seu quarto, deitou-se e logo
adormeceu.
Mary disse à Lia:
"Vou procurar esse Douglas e ver se descubro
algo suspeito sobre ele. E você fique aqui
atenta".
A socorrista volitou até a chácara onde
trabalhava o ex-empregado de Willian. Lera o
endereço que Reginaldo tinha anotado. Achou
a localidade facilmente, bem como o rapaz,
que estava na horta regando as plantas.
Por mais que ela tentasse, ele não queria
pensar no seu antigo emprego nem nos seus
ex-patrões.
Voltou e encontrou Lia sentada no sofá.
"Estou vigiando o vidro de remédio. Ninguém
mexeu nele. E você? Achou o Douglas?"
"Não descobri muito. Só acho que o moço é
incapaz de matar alguém e não é muito
inteligente", respondeu Mary, indagando:
"Onde está o Reginaldo?".
"Ainda dormindo! Mary aconteceram aqui
alguns fatos suspeitos. Eva entrou escondida
no escritório, isto é, observou bem se não
tinha ninguém por perto, deu um telefonema e
falou baixinho. Como ela entrou e fechou a
porta, não pude entrar. Encostei o ouvido na
porta e só consegui entender uma palavra que
ela falou: noite. Willian também se trancou no
escritório. Falou duas vezes ao telefone. E
Isaura também veio observando, não vendo
ninguém, entrou lá e telefonou. Antes, porém,
ela foi ver se Reginaldo estava no quarto. Eu a
vi espiando pelo buraco da fechadura."
"Eva e Isaura costumavam usar o telefone?",
indagou Mary.
"Eva raramente o usava. Isaura telefonava, às
vezes, para a irmã. Quando eu estava
encarnada, ela me pedia. Eu sempre dizia que
nem precisava pedir que poderia telefonar
quando quisesse."
"Você não escutou nada do que Isaura falou?"
"Escutei ela falar sobre a doença de Aidê",
respondeu Lia.
No horário marcado, Gina e Agenor chegaram
para o jantar. Ela abraçou Reginaldo e
cumprimentou friamente o pai e a madrasta.
Após se sentaram à mesa, Isaura foi dar o
remédio para Aidê. Deu-lhe as gotas
observando se ela realmente às tinha tomado.
Willian também ficou olhando. Foi Aidê quem
explicou:
— Não estava me sentindo bem, fui ao médico
e ele diagnosticou uma doença em meu
coração. Tenho de tomar esse remédio nos
horários certos.
— É grave? - perguntou Agenor,
educadamente.
— É - respondeu Reginaldo. — Se Aidê não
tomar esse remédio, corre risco de vida.
Willian suspirou triste.
— Sério? - perguntou Gina. — E você ficará só
com a opinião de um médico? Deve ir a outros
e...
— Querida - interrompeu Agenor —, não
devemos nos intrometer.
— Ah, sim. Desculpe-me - disse Gina.
— Talvez você tenha razão, filha. Vou levá-la à
capital, em um centro médico especializado -
expressou-se Willian.
— Não precisa. Confio em meu médico - falou
Aidê.
— Sei por informações que esse médico que
cuida de Aidê é o melhor da região - disse
Reginaldo. — É conhecido internacionalmente,
vêm pessoas de todos os lugares para
consultar-se com ele. Nesse centro médico
que quer levá-la, é provável que eles a
mandem para ele.
— Desconhecia esse fato - falou Gina.
— Talvez porque não tenha precisado de um
especialista - esclareceu o investigador. — Se
você, Gina, adoecer, procure esse profissional.
— Sempre morei aqui e nunca ouvi falar que
ele era tão bom assim - retrucou Gina, que ia
continuar falando quando Agenor a cutucou
com o pé.
— De qualquer forma, vou levá-la para ser
examinada por outros médicos - falou Willian,
determinado.
— Vamos primeiro aguardar, meu querido -
expressou-se Aidê. — Quero fazer esse
tratamento e não estou com vontade de viajar,
ir à capital. Confio nesse médico e vou tomar
o remédio corretamente.
Conversaram sobre outros assuntos.
Reginaldo foi o que mais falou, tentando
alegrar o ambiente. Depois do jantar ficaram
sentados na sala de estar. Logo após o café,
Gina quis ir embora. Agenor, ao despedir-se
de Aidê, falou gentilmente:
— Se precisar de alguma coisa, pode contar
comigo.
Gina olhou feio para ele. Quando saíram,
Willian perguntou:
— Aidê, você ficou triste por Gina rejeitá-la?
— Ainda seremos amigas. Você verá! Estou
cansada e vou descansar. Boa noite!
Aidê subiu depois de tomar um remédio. Além
do vidro de Cardilina, a gestante estava
tomando uma vitamina própria para o seu
estado, que o médico havia realmente
receitado. Ela deixou um vidro ao lado do
outro. Willian ficou um pouco mais na sala e
depois foi dormir também. Reginaldo foi à
cozinha despedir-se de
Isaura, que estava acabando de lavar a louça
do jantar.
—Boa noite, Isaura. Vou dormir. Você também
irá? Eva está aqui ou foi para a cidade?
— Eva foi para a casa do noivo na cidade. Vou
só verificar se a casa está fechada e também
vou dormir. Boa noite!
Reginaldo subiu para o seu quarto. Isaura
fechou a casa, mas nem chegou perto da porta
de correr da sala de estar.
Lia comentou com Mary:
"Não é estranho Isaura não verificar se esta
porta está fechada?"
"Não será porque raramente a abrem?"
Lia balançou os ombros. As duas ficaram na
sala. Isaura foi dormir. Fez-se um grande
silêncio na casa.
"Vamos para o paiol?", convidou Lia.
"Prefiro ficar aqui, é limpo e posso sentar no
sofá", respondeu Mary.
Escutaram um barulho e viram Reginaldo
descendo as escadas devagar, no escuro.
Ele sentou-se numa poltrona em um canto. De
onde estava, via bem a porta e o aparador
onde ficavam os remédios. Acomodou-se e
ficou atento.
"Será que ele vai ficar a noite toda vigiando?",
perguntou Lia baixinho.
"Não precisa falar baixo. Ele não nos escuta",
respondeu a socorrista.
"Acho que Reginaldo acredita que o criminoso
virá aqui e tentará substituir o remédio. Vamos
ficar também."
Lia acomodou-se no sofá e disse:
"De fato, aqui é melhor do que o paiol. Não
estou com sono, sinto-me agitada e aflita para
que tudo termine logo."
Mary foi rapidamente ao paiol e pegou de sua
mochila dois livros. Deu um para a amiga ler,
O Evangelho Segundo o Espiritismo, e pegou o
outro para si.
"Vamos ler. A leitura acalma e ensina. Pegue a
lanterna para clarear", orientou Mary.
As duas puseram-se a ler. Eram duas e meia
da madrugada quando os três ouviram um
barulho fora da casa, perto da porta de correr,
e logo esta foi aberta. Ficaram atentos.
Reginaldo ficou imóvel, parecia nem respirar.
Um vulto todo de preto entrou cautelosamente
na sala. Tinha uma pequena lanterna que
iluminou o aparador. Abriu o vidro que
continha as vitaminas e colocou dentro uma
cápsula igual às demais. Depois, fechou-o,
colocando-o no mesmo lugar.
— Não se mexa assassino! - gritou Reginaldo."

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho




ESCLARECENDO OS FATOS



"O vulto assustou-se, vacilou por segundos e
correu para a porta na tentativa de fugir. O
investigador pulou sobre ele, lutaram,
esbarrando nos móveis e fazendo muito
barulho. Lia e Mary estavam atentas, tensas,
sem, contudo poder fazer nada. De repente o
vulto de preto tirou do bolso um revólver.
Reginaldo pegou-o pelo braço, forte e
treinado, o investigador continuou calmo,
segurando com firmeza o seu braço. Um tiro
saiu da arma, atingindo o teto.
Willian, assustado, ao escutar o barulho, foi
para a sala logo após o tiro e acendeu a luz.
Reginaldo tomou o revólver da pessoa de
preto e levantou-se. Apontando-lhe a arma, o
invasor ficou sentado no chão.
— Não se mexa bandido, senão eu atiro e o
mato! - gritou o investigador, com firmeza.
O vulto ficou quieto. Willian aproximou-se e
tirou da sua cabeça o capuz, que só tinha dois
furos para os olhos.
— Você?! - exclamou Willian.
Lia engasgou e Mary ficou sem saber se a
acudia ou ajudava Aidê, que estava na metade
da escada, segurando-se no corrimão, branca
e tremendo, olhando para a sala. Com receio
de ela cair, Mary correu em sua direção,
tentando acalmá-la. Mary pediu com firmeza e,
embora Aidê não a escutasse, ela sentiu a
vontade firme da socorrista:
"Sente-se, Aidê! Sente-se, por favor!"
— Preciso me sentar! - balbuciou Aidê,
sentando-se no degrau e segurando firme no
corrimão.
Isaura, assustada, entrou na sala e Willian, ao
vê-la, pediu-lhe:
— Isaura, fique com Aidê!
A empregada rapidamente foi até a patroa,
sentou-se ao seu lado e a amparou. Mary foi
até Lia, que ainda estava engasgada, bateu em
suas costas e soprou seu rosto. Lia acalmou-
se e disse, tristemente:
"Coitada de minha filha!"
— Por que fez isso? - perguntou Willian.
— Por dinheiro certamente - opinou Reginaldo.
Agenor ficou quieto. O investigador tirou da
cintura uma algema, foi até ele, puxou seus
braços para trás e o algemou.
— Você matou Lia? Responda-me! Você a
assassinou? - gritou o dono da casa.
Agenor não respondeu. Willian levantou a
mão, ia dar um soco no genro, mas Reginaldo
o impediu.
— Miserável! - gritou novamente Willian,
exaltado. — Por que tudo isso? Por que
assassinou Lia, que sempre foi como uma mãe
para você? E Aidê? Ela nada lhe fez de mal.
Covarde! E eu que pensei que Lia se enganara
com os cogumelos. Foi você! Assassino! Fale
alguma coisa, infeliz!
— Vocês não têm provas contra mim! -
exclamou Agenor.
— Temos, sim! - retrucou Reginaldo. — Tenho
provas de que você comprou cogumelos
venenosos e de que obteve folhetos sobre o
assunto. Aqui também tenho o vidro em que
colocou a cápsula que certamente, ao ser
analisada, saberemos o que é.
Agenor deu um salto, querendo ir para perto
do aparador, numa tentativa de destruir a
prova. Foi barrado por Willian e acabou
perdendo o equilíbrio e caindo, por estar
algemado com as mãos para trás.
— Fique aí, assassino! - ordenou Reginaldo.
O investigador pegou o telefone, discou para a
delegacia e em seguida deu a notícia:
— Logo os policiais estarão aqui!
Fez-se silêncio. Willian e o primo ficaram
atentos em Agenor, que ficou sentado no chão
com o investigador lhe apontando a arma.
"Mary, que tristeza! Estou muito infeliz!",
exclamou Lia.
A socorrista a abraçou e Lia chorou sentida.
A polícia chegou e levaram o suposto
assassino para a delegacia. Reginaldo os
acompanhou, levando o vidro de remédio.
Quando saíram, Willian fechou a casa e
abraçou a esposa.
— Querida, tudo acabou!
— Ele queria me matar! - exclamou ela,
chorando.
— Vou fazer um chá calmante - falou Isaura.
— Faça para todos nós, Isaura - pediu Willian.
O dono da casa pegou o telefone e discou.
Demorou em ser atendido:
— Filha, desculpe se a acordei, mas houve um
imprevisto e Agenor não deve retornar para
casa.
Fez uma pausa, em que Gina certamente falou
algo, e respondeu carinhosamente:
— Sim, venha para cá logo cedo.
Conversaremos com você. Não fique
preocupada. Eu amo você! - disse Willian,
desligando o telefone.
Isaura chegou com o chá, tomaram em
silêncio, O casal subiu para o quarto e Isaura
foi para o seu aposento. Lia convidou Mary:
"Vamos para o paiol? Agora, amiga, que
descobri tudo, o que irei fazer?"
No paiol, as duas acomodaram-se num canto.
"Vamos aguardar o desenrolar dos fatos",
falou a socorrista. "Depois iremos embora,
levarei você para uma colônia, um lugar onde
aprenderá a viver no plano espiritual."
Tentaram descansar.
Logo que o dia clareou, Reginaldo voltou e
Mary e Lia correram para a casa. Isaura servia
o café e os três, Willian, Aidê e o investigador,
estavam sentados conversando sobre os
acontecimentos.
— Reginaldo, você sabia que era meu genro o
assassino? - perguntou o dono da casa.
— Não! - respondeu o primo.
— Você não disse que tinha provas de que ele
havia adquirido folhetos sobre cogumelos
venenosos?
— Blefei! Achava que era Eva a criminosa -
respondeu Reginaldo.
— Por que tudo isso? Não entendo! -
expressou-se Aidê.
— É simples - esclareceu o investigador. —
Agenor confessou na delegacia que se casou
com Gina por interesse. Só que não lhe
bastava os bens que ela possuía: ele queria
mais. Resolveu assassinar Lia e tinha planos
para matá-lo, Willian. Como você viajou e
voltou casado, e ele investigou e descobriu
que Aidê era rica, Agenor resolveu deixá-lo
viúvo, para que herdasse a fortuna dela, e
matá-lo em seguida. Com sua morte, Gina
seria a herdeira.
— Será que esse criminoso mataria minha
filha? - perguntou Willian.
— Talvez, mas certamente só o faria depois de
algum tempo - respondeu Reginaldo. — Fomos
agora pela manhã ao departamento onde
Agenor trabalha, abrimos duas gavetas de sua
escrivaninha que estavam trancadas e
obtivemos muitas provas. Nome e endereço
do local onde ele comprou o cogumelo
venenoso e o outro veneno. Também havia
uma investigação completa sobre Aidê. Achei
que o criminoso ou a criminosa, já que julguei
ser Eva, tentaria trocar o remédio para o
coração. Mas ele já havia preparado tudo e
veio colocar no vidro de vitaminas uma
cápsula a mais, que continha um veneno que
causa enfarte. Pelo que dissemos, tudo se
tornou ainda mais fácil para ele.
— Gina deve estar chegando, escuto o barulho
do carro. No telefone, esta madrugada, ela me
pareceu sonolenta demais. Nem perguntou
onde estava Agenor e o que ele estava
fazendo.
— Agenor disse no depoimento que sedava a
esposa quando tinha de sair - explicou
Reginaldo.
— Vocês não obtiveram essas confissões
depressa demais? - indagou Aidê.
— Levamos Agenor preso e o ameacei com
tortura. Certamente não ia usar esse método.
- Reginaldo sorriu cinicamente. — Mas o
amedrontamos, e ele preferiu nos dizer tudo.
Queria resolver o caso logo, pois tenho de ir
embora.
— Tenho vontade de surrá-lo, de bater nele
até ficar exausto. Ainda bem que ele não
conseguiu fazer o que planejara que não
conseguiu assassinar Aidê nem fazer uma
maldade maior com Gina.
Giovana entrou na sala, ainda estava
sonolenta. Cumprimentou-os, sentou-se e
serviu-se do café.
"Mary" expressou-se Lia, sentida, "coitadinha
de minha filha! Não me importo de sofrer, mas
não queria que ela sofresse".
— Papai, não entendi bem o que me falou
nesta madrugada. Acordei e não vi o Agenor,
lembrei vagamente que me dissera para não
me preocupar, que ele não iria dormir em
casa. Por favor, me explique o que está
acontecendo.
— Acho que ele irá demorar a voltar para casa
- disse Reginaldo, devagar.
— Por quê? O que aconteceu? - quis saber
Gina.
— Ele está preso! - respondeu o investigador.
Gina engasgou. Isaura correu para acudi-la.
— Papai, por favor, me explique o que está
acontecendo - pediu Gina novamente, assim
que conseguiu falar.
— Filhinha, tenha calma, vou lhe falar tudo. Eu
tinha certeza de que sua mãe se enganara e
tomara a sopa naquela noite com algum
cogumelo venenoso. Senti a
morte dela. Quando viajei e conheci Aidê,
senti que poderia recomeçar minha vida ao
seu lado e ser feliz. Quando aconteceu o
acidente de carro com Adelino, achei que fora
sorte não ser Aidê quem dirigia. Mas, quando
o vaso caiu da sacada, desconfiei que alguém
queria matá-la, pois, se eu não a tivesse
empurrado, ela certamente teria morrido. Por
quê? Para quê? Tive a idéia, inspirada por
Deus, de chamar o Reginaldo. Ele veio,
investigou e inventou a doença da Aidê e o
remédio que ela tinha de tomar.
— Achei - explicou Reginaldo — que, se
alguém queria matá-la, essa seria uma
oportunidade. A pessoa tentaria trocar o
remédio. Só que ele foi mais esperto, não
pensou como eu. Veio realmente de
madrugada e colocou uma cápsula no vidro de
vitaminas que Aidê está tomando.
— E Agenor os ajudou, não é? - perguntou
Gina, baixinho.
Ninguém respondeu. Todos a olharam com
piedade, parecia que Gina não tinha ouvido
que eles disseram que seu esposo estava
preso. Ela virou-se para a
empregada, que permanecia ao seu lado, e
indagou:
— Isaura, por que vocês estão me olhando
assim? Por Deus! Foi Agenor? É ele o
assassino?
— Filha - respondeu Willian —, sinto dizer-lhe,
mas foi seu marido que veio aqui e colocou a
cápsula no vidro de remédio de sua madrasta.
Gina abraçou fortemente Isaura e ficou quieta.
O telefone tocou. Reginaldo levantou-se e o
atendeu, ele conversou por um instante e, ao
desligar, falou para todos:
— Foi confirmado! Agenor confessou! Na
cápsula havia veneno. Ao tomá-lo, a pessoa
tem uma morte rápida e parece ser vítima de
um enfarte. Já prenderam na capital a pessoa,
o farmacêutico especializado em venenos, ele
os fazia por um preço exorbitante. Agenor, ao
vir aqui, viu o remédio que Aidê estava
tomando, comprou um vidro do mesmo, tirou
o conteúdo de uma das cápsulas e colocou
dentro o veneno. Seria questão de dias, ela o
tomaria e morreria.
Gina começou a chorar e Isaura a consolou.
Willian levantou-se e foi abraçar a filha,
quando ela acalmou-se, seu pai lhe contou
tudo.
— O que faço agora? - perguntou Gina.
— Por que você não vai para Londres e fica um
tempo com Jorge Luís? Ele gosta tanto de você
- opinou Isaura.
— Isaura tem razão, minha filha, o melhor é
você viajar. Seu irmão cuidará de você, como
ele sempre fez. Vou agora mesmo me
encontrar com nosso advogado, pedirei a ele
para fazer uma procuração, para que eu possa
cuidar do seu divórcio. Quero que Agenor
fique muitos anos na prisão, e acho que ficará.
— Papai, é muito triste pensar que morava,
amava o assassino de minha mãe! - exclamou
Gina, chorando. — Odeio-o! Vou fazer isso
mesmo: viajar, ficar com meu irmão. E o
senhor fará meu divórcio. Quero que cuide de
tudo para mim. Não quero nunca mais ver
esse traidor!
— Faço tudo o que você quiser filhinha!
Lia chorava. Aproximou-se da filha, que
passou a chorar mais ainda. Afastou-se e
comentou:
"Acho que Gina me sente. Vou ficar calma",
disse a mãe desencarnada.
— Vou telefonar para Jorge Luís - falou Gina.
— Irei agora para o meu apartamento arrumar
minhas malas. Isaura venha comigo, por
favor. Ela pode ir, não é, papai? Não quero
ficar sozinha aqui nesta cidade para não
escutar os comentários maldosos que vão
aparecer. Foram muitas as minhas amigas que
me avisaram para ter cuidado com o Agenor.
Eu não lhes dei atenção, as considerei
invejosas. Não quero escutar: "Eu não avisei?"
Se tudo der certo, vou hoje mesmo para a
capital, me hospedo num hotel e embarco logo
que possível para Londres.
— Faça isso, filhinha. Isaura irá com você. Ela
lhe fará companhia.
As duas saíram. Aidê perguntou a Reginaldo:
— Como Agenor vinha aqui?
— Ele disse no depoimento que sedava Gina
todas as vezes que queria sair. Para vir à
chácara, ele usava uma pequena moto que
guardava na garagem do prédio, deixava-a
escondida numa curva da estrada e continuava
a pé até aqui.
— Você fez guarda esta noite. Como sabia que
o criminoso entraria por esta porta? -
continuou a inquirir Aidê, curiosa.
— Acho minha cara, que Deus me instruiu.
Deu-me vontade de examinar a porta e,
quando o fiz, percebi que ela se abria
facilmente pelo lado de fora. Então fiz meu
plano. - Reginaldo suspirou, sorriu e
completou: — E deu certo!
Agenor era muito observador. Aproveitou que
Isaura gostava muito dele e, quando ela ia
visitá-los, conversava muito com ela,
induzindo a conversa para os assuntos da
chácara. Chegava até a telefonar para a
ingênua empregada com o pretexto de lhe
falar de Gina. Foi assim que ele soube que
Aidê tinha de viajar e que o casal gostava de
sentar-se, após o jantar, na varanda. Naquela
noite, na véspera da viagem, ele veio e com
habilidade danificou o carro. Também veio e
colocou a mesa com as cadeiras na posição
ideal para que ele pudesse empurrar o vaso.
Isaura lhe havia dito que Aidê gostava de
sentar-se ali e ficar observando o jardim.
O investigador fez uma pausa e falou,
decidido:
— Willian, vou embora. Já resolvi o caso e
devo ir para casa. Volto logo a trabalhar,
minhas férias estão acabando. Espero que não
venha a precisar mais de mim.
Willian o convidou para ir ao escritório. Pagou
o que combinaram e ainda lhe deu uma
gratificação. Reginaldo despediu-se e partiu.
"Os telefonemas que Isaura, Eva e Willian
fizeram e dos quais suspeitamos não tiveram
nada a ver com o caso", expressou-se Lia,
dirigindo-se à Mary.
"Acho que Eva telefonou para o namorado,
Isaura deve ter falado com a irmã e Willian
deve ter resolvido algum problema", opinou a
socorrista.
Eva chegou e foi Aidê, que estava na sala, que
lhe contou.
— O Sr. Agenor? Incrível! Como ele pôde
assassinar a dona Lia? Que pessoa cruel! Dona
Aidê, agora que está tudo resolvido, quero me
despedir. Meu namorado Nelson, o mecânico,
convidou-me para morar com ele, e eu aceitei.
Fiquei com medo de sair antes e o Sr.
Reginaldo pensar coisas erradas a meu
respeito. Mas, agora que descobriram o
criminoso, não quero mais trabalhar aqui.
— Claro! Pode ir embora. E, se quiser, agora!
Depois você acerta tudo com o advogado de
Willian - falou Aidê, suspirando aliviada por se
livrar da ex-amante do marido.
Eva não se fez de rogada e foi arrumar suas
coisas, quando acabou, despediu-se
rapidamente do casal e foi embora. No
caminho encontrou com Adelino e contou a
ele, que também se assustou:
— Coitadinha da dona Gina! - o comentou.
Na sala da chácara, Mary e Lia continuavam
com o casal. Aidê pediu ao marido:
— Willian, vamos embora daqui? Você não tem
motivos para ficar nesta chácara. Sua filha irá
viajar e você pode deixar seu advogado
administrando os bens que tem.
Tenho um apartamento montado, mas
podemos nos mudar para uma casa quando
nosso filho nascer. Tenho minha escola para
cuidar.
— Mas, querida, o que eu farei lá? - perguntou
ele.
— Você me ajudará na administração. Não
gosto de ir a bancos e não entendo de
aplicações financeiras - respondeu Aidê.
— Posso fazer isso mesmo? Não quero ficar
ocioso - retrucou Willian.
"Que mentiroso!", exclamou Lia, rindo. "Nunca
trabalhou! Aqui não fazia nada. Mas, acho
melhor eles irem. Quem sabe com Aidê ele
aprenderá a trabalhar?"
Willian continuou a falar com a esposa:
— Você tem razão de não se sentir bem nesta
casa depois de tudo o que se passou. Eu
também já não gosto daqui. Você espera um
filho, e é justo que eu a acompanhe para onde
quiser morar. Deixo tudo por você, querida.
Vou ajudá-la, depois, quero ter tempo para
cuidar do nosso nenê. Podemos nos revezar:
quando você for à escola, eu fico com ele;
quando eu tiver de sair, você fica. Assim
nosso bebê não ficará sozinho com as
empregadas.
— Estamos só nós dois em casa. Vou à
cozinha fazer algo para almoçarmos - falou
Aidê.
— Não precisa. Vou agora à cidade encontrar
com o advogado. Não demoro. Já acertei com
ele por telefone. Vou somente para pegar
documentos. Trarei nosso almoço. E hoje à
tarde levo você para o seu, ou seja, o nosso
apartamento. Volto para cá amanhã e acerto
tudo definitivamente. Voltarei aqui só quando
necessário.
— Ah, Willian! Que bom ter um marido que faz
as minhas vontades! - exclamou Aidê, alegre.
— Vou ser sempre assim, querida! Amo você -
expressou-se ele, apaixonado.
Willian saiu e Aidê foi para o quarto arrumar as
malas.
"Acho que devemos ficar aqui. Não é bom
deixá-la sozinha", concluiu Lia.
Willian logo chegou com o almoço. Depois
também retornaram à chácara Gina e Isaura.
O dono da casa pediu para a empregada
permanecer na sala. Eles sentaram-se no sofá
para conversar:
— Giovana, minha filha, assine a procuração
para fazermos o seu divórcio. Cuidarei de tudo
o que é seu.
Ela assinou e disse:
— Conversei com Jorge Luís pelo telefone, ele
ficou triste por saber dos acontecimentos, mas
alegre com a minha ida. Vou partir às duas
horas da tarde, o senhor me leva para a
rodoviária? - Com a afirmação de Willian, ela
continuou a falar, tristemente: — Vou de
ônibus e ficarei num hotel. Amanhã eu compro
a passagem de avião para Londres e parto.
Com tudo assinado, o senhor tem a
procuração para resolver o divórcio. E já sabe:
quero a separação o mais rápido possível.
Willian contou a elas que também ia se mudar
e finalizou:
— Gina, vou desocupar seu apartamento e
trarei os móveis para esta casa. Vou cobri-los
e depois resolveremos o que fazer. Alugarei
seu apartamento. Deixarei Adelino cuidando
de tudo aqui. Pedi ao advogado para arrumar
sua aposentadoria, Isaura, e você pode
escolher: se quiser ficar aqui, poderá; se
preferir e quiser morar na cidade, temos um
apartamento pequeno e desocupado. Para
mobiliá-lo, poderá pegar os móveis que quiser
daqui, e não precisa pagar nada.
— Não quero ficar aqui, Sr. Willian -
respondeu Isaura. — Agradeço-lhe por
arrumar minha aposentadoria e por oferecer o
apartamento e os móveis, porém vou morar
com minha irmã na cidade. Ela ficou viúva,
sozinha e precisa de mim. Não se preocupe
comigo, tenho minhas economias e, depois,
Jorge Luís sempre me manda dinheiro. Ajudo o
senhor a arrumar tudo, e, quando partir, eu o
faço também.
Acertaram todos os detalhes. Chegou à hora
de Gina partir. Ela abraçou Aidê, que lhe falou,
carinhosamente:
— Gina, nossa casa é sua também! Não se
esqueça disso, como também que este nenê
que eu espero é seu irmão. Aproveite para
aprender bem o inglês e volte para lecionar em
minha escola.
— Obrigada, Aidê! Desculpe-me se fui
indelicada com você. Faça papai feliz!
Gina abraçou demoradamente Isaura e Willian
foi levá-la à rodoviária. Lia chorou:
"E agora, Mary. O que eu faço?"

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho




TEMPOS DEPOIS



"Com tudo resolvido, Mary abraçou Lia e falou,
carinhosamente":
"Que tal você ir para um local onde aprenderá
a viver como desencarnada? Vamos orar
agradecendo a Deus por tudo ter terminado
bem e pedir ao Josemar para vir buscá-la".
Lia abaixou a cabeça e orou com fé e
sinceridade. E melhor: perdoou Agenor.
Naquele momento, ela não tinha raiva de
ninguém. Mary pediu mentalmente ajuda a
Josemar, que, podendo ir, logo estava ali na
sala:
"Vamos, Lia! Vou levá-la para o nosso posto
de socorro".
"E Mary? Ela não pode ir também? É uma boa
pessoa, merece", pediu Lia.
"Obrigada, amiga", disse Mary, "porém não
irei com vocês. Vou embora também, mas
para onde moro. Estarei bem. Não se
preocupe".
Lia deu um abraço apertado na amiga,
agradeceu comovida e partiu com Josemar.
A socorrista olhou pela última vez a casa,
agradeceu a Deus pela oportunidade de ter
sido útil e volitou.
Chegando à Casa do Escritor, onde estava
para estudar, Mary foi agradecer ao orientador
Carlos Augusto e voltou aos seus afazeres.
Tinha muito que fazer e tinha de colocar a
matéria em dia.
O tempo passou rapidamente. Meses depois,
ao ter dois dias de folga, Mary foi visitar Lia no
posto de socorro onde ela estava abrigada. Lia
a recebeu com alegria:
"Mary, que bom vê-la! Queria agradecê-la
mais uma vez e desculpar-me. Josemar me
disse que você estava ali para ajudar-me. Nem
percebi, achei que era tão necessitada quanto
eu. Agora sei que Reginaldo recebeu sua
intuição. Foi você que o orientou, não foi?
Você sabia quem era o assassino?"
"Não", respondeu Mary "Achei que Zé Grilo
tinha visto realmente alguém entrar pela porta
de correr da sala e que essa pessoa não
perderia a oportunidade de trocar os remédios
para matar Aidê".
"José Ari e Esmeralda também querem vê-la.
Agora o chamamos pelo nome, o grilo chato
ficou no passado. Os dois e eu estamos
aprendendo muito, já faço pequenas tarefas.
Vou chamá-los. Espere-me aqui."
Lia deixou Mary sozinha no banco do jardim.
Ela aproveitou para admirar as flores e pensar:
"É incrível alguém não querer ficar abrigado
aqui, entretanto, são muitos os que saem".
Lembro de uma vez que estava servindo num
posto de socorro e preocupei-me com esse
fato, porque eu também logo que desencarnei
saí de uma casa de auxílio. Uma orientadora
me convidou para ir com ela entrevistar uma
socorrida.
Ela a indagou:
"O que você deseja realmente? Quer receber
ajuda? O que almeja para você?" E a socorrida
respondeu, deixando-me indignada:
"Quero estar bem. Almejo ser uma pessoa
como você. Quero ter um cargo importante
aqui dentro."
A orientadora calmamente tentou esclarecê-la:
"Para ser útil, tem de aprender, para conhecer
e saber fazer tem de estudar. Aqui há ordem e
disciplina e temos normas a serem seguidas.
Faça o que for recomendado e poderá, um dia,
trabalhar aqui dentro." E a mulher respondeu:
"Acho que não entendeu. Não quero trabalhar.
Quero mandar como você."
Ao que a orientadora respondeu:
"Eu trabalho! A orientação que faço é parte da
minha tarefa."
A socorrida fez uma expressão de desdém e
falou:
"Aqui pelo visto é como em muitos outros
lugares! Quando estava no corpo carnal,
encarnada era médium e fui a vários centros
espíritas. Eles me aconselhavam sempre à
mesma coisa. Diziam que eu precisava estudar
aprender e recomendavam que eu procurasse
um tratamento, uma ajuda médica. Resultado:
ninguém deixava que eu mandasse. Queria
dizer às pessoas para elas fazerem isso ou
aquilo, mandar até em espíritos. Morri,
desencarnei e escuto a mesma coisa."
A orientadora respondeu:
"Filha, o que temos para oferecer aqui é isso:
ajuda ao próximo. Estude e trabalhe, e comece
pelas tarefas simples."
A socorrida respondeu:
"Então eu não fico! Vou embora, ouviu? Vocês
não são caridosos! Recusam auxílio! Vou
embora mesmo! Vou vagar, sofrer!"
A orientadora abriu o portão e ela saiu.
Explicou-me em seguida:
"Entendeu Mary? Essa mulher quer o que não
temos para dar. Esta casa tem objetivos a
cumprir, tarefas a realizar, sem esquecer da
ordem e da disciplina. Ela já foi orientada
diversas vezes. Na enfermaria em que estava,
passou a ser um problema, era exigente,
queria mandar. Até os outros socorridos
queixavam-se dela. Essa pessoa não sofreu o
suficiente para aceitar com humildade o que
temos a oferecer. E ainda tentou fazer
chantagem, como se nós fôssemos culpados
por seus padecimentos, como se estar
socorrida aqui fosse um favor que ela estava
nos fazendo, e não recebendo. Quando essa
senhora estava encarnada, era obsedada. Por
suas peregrinações pelos centros espíritas, os
espíritos foram doutrinados e socorridos. Mas,
pelas suas ações erradas do passado e por seu
orgulho, ela adoeceu e foi recomendado a ela
um tratamento médico. Ela se recusou a fazê-
lo. Queria nas reuniões dos centros espíritas
ser digna de piedade e fazia tudo para chamar
a atenção, perturbando a ordem e a harmonia
dos trabalhos. Não queria estudar, mas sim
ser importante e mandar. Desencarnou e não
mudou. Aqui também não temos o que ela
quer."
O trio aproximou-se e despertou a socorrista
de seus pensamentos:
"Mary, aqui está José Ari!", exclamou Lia.
Mary os observou e deparou com eles
diferentes. Esmeralda estava vestida
discretamente, sem o excesso de maquiagem,
estava muito bem. José Ari, um homem com
um metro e cinqüenta centímetros, sorria.
Tinha todos os dentes sadios, estava bonito e
feliz.
"Que bom revê-la, Mary", expressou-se ele.
"Estou fazendo um tratamento para não ter
mais o reflexo do corpo físico que tive. E,
como queria crescer, o estou fazendo aos
poucos. Vou ficar com um metro e setenta e
cinco centímetros."
Mary os abraçou.
"Obrigada, Mary", disse Esmeralda. "José Ari e
eu muito lhe devemos. Estamos tão bem aqui!
Aprendemos, trabalhamos e temos planos de
ser úteis com conhecimento."
Conversaram por alguns minutos. Depois os
dois voltaram aos seus afazeres. Lia ficou a
sós com a amiga e comentou:
"Vou contar a você as novidades de minha
família". O filho de Aidê nasceu, é um lindo
menino, o casal é feliz. Tenho visitado sempre
Edson, que melhora a cada dia.
Agenor foi julgado e condenado. Tentou
desmentir seu depoimento, disse que o fizera
sob tortura, mas havia provas contra ele.
"Ficará doze anos na prisão, e espero que se
regenere".
"E seu outro filho, o Jorge Luís? Ele está
bem?", perguntou Mary, educadamente.
"Sim, está", respondeu Lia, sorrindo. "Meu
filho é um ser humano maravilhoso. Não tem
parceiro e não sente falta. Está aprendendo a
amar todos como irmãos que somos. É um
ótimo profissional e é reconhecido pelo
trabalho que faz. Dá valor às amizades e tem
muitos amigos. O Evangelho é seu livro de
cabeceira, e está se esforçando para vivenciá-
lo. Continua com seu trabalho voluntário em
hospitais e participa de um grupo de apoio aos
familiares dos doentes. Estou muito contente
com ele."




1 - Não seria difícil orientadores,
trabalhadores do posto de socorro
modificarem o perispírito de José Ari, assim
como de qualquer socorrido. Mas, para que o
necessitado dê valor, se esforce para melhorar
e com isso se eduque, são feitos tratamentos
que duram meses e até anos. (N.A.E.)


"E Giovana? Como ela tem passado? Quis
saber Mary.
"Gina emagreceu, fez plástica, está linda.
Jorge Luís e ela continuam grandes amigos.
Minha filha pensa em voltar e trabalhar com a
madrasta na escola. As duas têm se falado
muito por telefone e tornaram-se amigas.
Willian está bem, cuida do filho, da casa e faz
pequenos trabalhos para a esposa. Eva foi
morar com o mecânico, mas não deu certo,
agora ela está namorando outra pessoa.
Isaura está contente, está morando com a
irmã. Meu ex-esposo pensa em vender a
chácara.
Adelino ainda trabalha lá cuidando de tudo e
não deixou mais de ir ao centro espírita.
Geraldino, meu primeiro esposo, veio visitar-
me, nós nos entendemos e nos desculpamos
nos tornamos amigos. Só uma coisa me
intriga: por que você foi ajudar-me?"
"Lembra, Lia que você achava que Willian a
havia assassinado e que havia tirado a idéia
dos livros lidos?"
"Lembro. E quem me assassinou nunca os
lera", respondeu Lia.
"Você amaldiçoou a escritora", completou
Mary.
"Fui injusta com ela", falou Lia, olhando bem
para a amiga. "Mary você é essa escritora?"
"Sou!"
"Meu Deus! Que vergonha! Eu a xinguei e você
não tinha nada a ver com isso. Por favor, me
desculpe!", pediu Lia.
"Tenho, Lia responsabilidades por aquelas
obras. Quando fazemos algo, somos
responsáveis. Ao escrever esses livros quando
encarnada, eu não o fiz para as pessoas
tirarem idéias e praticarem o mal. Eu os
escrevi para entreter, porque amava fazê-los.
Essa ação me pertence. Você, achando-se
prejudicada, clamou por justiça e foi-me
pedido para ver o que acontecia e para ajudá-
la. Porque, amiga, se alguém nos amaldiçoa e
se temos condição, devemos reverter à
situação."
"E você a reverteu. Hoje a bendigo! Oro todos
os dias pedindo a Deus para abençoá-la."
"É bem melhor receber bênçãos!", exclamou
Mary, alegre.
Abraçaram-se emocionadas e despediram-se.
"Uma vez amigas, sempre amigas!",
expressaram-se as duas juntas, rindo.
Mary voltou à Casa do Escritor agradecida pela
oportunidade que Deus nos dá de reparar
nossos atos, mesmo os que fazemos sem a
intenção de prejudicar.
O palestrante preferido dela foi como
convidado à Casa do Escritor falar de Jesus e
do seu Evangelho. Entusiasmada, ela chegou
bem antes do horário marcado e sentou-se na
frente. E, como sempre, foi muito proveitoso.
Mary narrou-me o que ouviu o que lhe foi mais
importante. Assim, há no texto frases
profundas, que merecem meditação. E, se fez
bem a ela, certamente fará a nós.
O esmerado senhor com sua voz agradável e
forte leu o seguinte texto do Evangelho de
Mateus: 2
Não acumuleis tesouros na Terra, onde a
ferrugem e os vermes os consumirão, onde os
ladrões os desenterram e os roubam;
acumulai tesouros no Céu, onde nem a
ferrugem, nem os vermes os consumirão;
onde os ladrões não penetram nem roubam,
pois, onde está vosso tesouro, também está o
vosso coração.


2 - Mateus, 6: 19-21, 25-34. O leitor poderá
encontrar mais explicações sobre esse bonito
ensinamento em O Evangelho Segundo o
Espiritismo. Allan Kardec - Capítulo 25 -
Buscai e Achareis, nos itens 6, 7 e 8 -
Observai os Pássaros do Céu. Petit Editora:
São Paulo/SP (N.A.E.)


É por isso que vos digo: Não vos inquieteis
por encontrar o que comer para o sustento de
vossa vida, nem por terdes roupas para cobrir
vosso corpo. A vida
não é mais do que o alimento, e o corpo mais
do que a roupa? Observai os pássaros do céu:
eles não semeiam e não colhem, e não
guardam nada nos celeiros; mas vosso Pai
Celeste os alimenta; vós não sois muito mais
do que eles? E quem é aquele dentre vós que
pode, com todos os seus cuidados,
acrescentar à sua estatura a altura de um
côvado?
Por que também vos inquietais pela roupa?
Observai como crescem os lírios dos campos;
eles não trabalham, nem fiam; e, entretanto,
eu vos declaro que nem mesmo Salomão, em
toda a sua glória, nunca se vestiu como um
deles. Se, pois, Deus tem o cuidado de vestir
desse modo uma erva dos campos, que hoje
existe e que amanhã será lançada na fornalha,
quanto mais cuidado terá em vos vestir,
homens de pouca fé!
Não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos
ou o que beberemos, ou com o que nos
vestiremos? - como fazem os pagãos os que
procuram todas essas coisas; vosso Pai sabe
que tendes necessidades delas. Buscai, pois,
primeiramente o reino de Deus e sua justiça, e
todas essas coisas vos serão dadas de
acréscimo. Por isso, não fiqueis inquietos pelo
dia de amanhã, pois o amanhã cuidará de si
mesmo. A cada dia basta a sua aflição.
E após ensinou:
"Contemplai as aves do céu! Não semeiam
nem ceifam, nem recolhem em celeiros...
Contemplai os lírios do campo como crescem
como são belos! A nossa Terra é tão linda!
A natureza está em perfeita harmonia com o
Criador, embora a harmonia seja instintiva.
Devemos, com nosso esforço, estabelecer em
nós essa harmonia consciente com Deus,
nosso Pai.
Existe uma profunda afinidade entre o ser
humano espiritualista e a natureza.
JESUS chamou a atenção dos seus discípulos,
legando-nos um precioso ensinamento sobre
as preocupações e as inquietações do ser
humano com o dia-a-dia, com o amanhã,
levando-nos a meditar sobre a serenidade, a
beleza e a quietude da natureza.
"Quando vivemos no estreito círculo só de
nossa vivência, seja ela encarnada ou
desencarnada, vemos só as nossas
necessidades diárias. E são muitos os
encarnados que só fazem isso, não dormindo
direito, chegando a abreviar a vida física, e
preocupando-se tanto que se tornam
infelizes."
"E essas preocupações dos encarnados não
são só dos pobres, que às vezes não têm o
necessário para uma existência decente. Os
que julgam possuir riquezas também se
preocupam com o que têm e com o que
desejam ter."
"Pelo que sabemos o Mestre Jesus não foi
milionário nem mendigo e nunca lhe faltou
nada."
"Para que tantos cuidados com supérfluos
perecíveis? Por que não pensarmos em nos
harmonizar com as Leis Divinas?"
"Quando encarnado, eu achava que só os que
viviam no corpo físico tinham preocupações
excessivas com o que faziam com o que
comiam etc. Aqui na Espiritualidade
compreendi que ninguém muda só porque
troca de plano. Sobre os moradores do umbral
eu não ouso falar, eles nem percebem ainda a
necessidade de fazer o bem. Abrigados e até
moradores das colônias, muitos ainda, fazem
as coisas para receber algo em troca,
desejando ter, e não ser."
"O ser humano espiritualizado se harmoniza
com o Deus do mundo e entra em grande
harmonia com o mundo de Deus."
"Os grandes mestres espirituais não nos
recomendam não ter nada, mas sim o
necessário para uma existência decente. Eles
ensinam a não ter posses, e sim a usufruir
com sabedoria."
"O indivíduo esteja ele encarnado ou não, que
se harmoniza com Deus contempla suas obras
e por elas sentem Sua paz."
"Aquele que vive os ensinamentos de Jesus
não necessita de rótulos, elogios, não espera
louvores nem teme censuras, porque tudo o
que faz é sem interesse.
Realiza com amor e entusiasmo as tarefas que
compreende que têm de ser realizadas, não
esperando resultados.
Após ouvir a palestra, Mary ficou no pequeno
jardim da colônia olhando as flores, que eram
belas. Maravilhas da natureza que não revelam
vestígios de excesso de cuidado, afobação,
nervosismo e que não visam resultados, mas
que realizam inconscientemente com a
máxima perfeição cada obra, a vontade de
Deus, e o fazem sem interesse, sem temer
censura. É o que o ser humano deveria fazer
conscientemente: obras lindas e perfeitas,
somente porque lhe compete fazer isso.
E o Evangelho de Jesus Cristo é o caminho
mais seguro para uma existência no bem em
todos os planos da vida.

Fim

"O último Jantar" – Vera Lúcia M. de Carvalho

 

Olá, pessoal:

                 Trago para todos mais um bom livro espírita

 

Muita paz !

 Bezerra

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'TUDO QUE É BOM E ENGRADECE O HOMEM DEVE SER DIVULGADO!

PENSE NISSO! ASSIM CONSTRUIREMOS UM MUNDO MELHOR."

JOSÉ IDEAL

' A MAIOR CARIDADE QUE SE PODE FAZER É A DIVULGAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA" EMMANUEL

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