domingo, 11 de agosto de 2013

{clube-do-e-livro} Mônica de Castro : De Todo Meu ser, Giselle a Amante do Inquisidor e Até que a Vida nos Separe em txt

DE TODO O MEU SER
Mônica de Castro
Pelo espírito Leonel

Mônica de Castro


Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina. Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manoel Bandeira que lapidei ainda mais a sensibilidade da minha alma. Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade do Rio de Janeiro, onde nasci, em 1962. Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adotei o espiritismo como bálsamo do meu coração.
Meu desejo sempre foi o de ser escritora, mas a vida nos leva por caminhos diferentes, sempre em nosso benefício, e acabei me formando em direito e passando num concurso para o Ministério Público do Trabalho. Anos depois, após o nascimento do meu filho, senti a primeira inspiração. Foi uma coisa estranha. Uma voz ficava na minha cabeça, repetindo esse nome: Rosali, e a ideia de fazer um romance brotou na mesma hora. Rejeitei a ideia e pensei: "Quem sou eu para escrever um romance?".
Por outro lado, a mesma voz também me dizia: "Não custa nada tentar. O máximo que pode acontecer é não dar em nada." Aceitei a sugestão do invisível, acreditando ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador. Na mesma hora, a inspiração para Uma História de Ontem surgiu espontânea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho. Até então, eu não sabia psicografando.
Foi só quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, onde ele se apresenta e dá o seu nome. Mas foi preciso uma boa dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferência do Espírito. Hoje, posso dizer, Leonel é parte fundamental da minha vida.
Não escrevo para viver. Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas. E é esse sentimento que me faz querer escrever cada vez mais. É pelas pessoas que vale a pena escrever. Pelos leitores, que estão em busca de algo, além do aqui e agora, e que acreditam no poder da fé, do autoconhecimento e do amor, como caminhos seguros para a transformação do ser.
Acredito que nós todos podemos trabalhar pelo aperfeiçoamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.

Leonel é um Espírito muito querido do meu coração. Já em nosso primeiro romance, ele me deu uma ideia do que teria sido em sua vida passada: escritor.
Sei que nasceu e viveu na Inglaterra, em sua última encarnação, assim como nas anteriores. Em Segredos da Alma, ele narra um pouquinho da sua história, juntamente com a da mulher que foi o grande amor da sua vida. Foi um escritor dos mais famosos. Era um boêmio, mas alguém com tanta dignidade que despertou para os verdadeiros valores do Espírito, e hoje está em condições de transmitir mensagens de otimismo e amorosidade. Eu mesmo percebi isso no contato quase diário com ele e nas comunicações que transmite, sempre de forma mental.
Há algum tempo, ele me permitiu conhecer sua aparência. Leonel mostrou-se para mim na casa Espírita, em um momento de profundo reconhecimento e reflexão. Fisicamente, é um rapaz bonito. Cabelos negros, cheios, com feições delicadas e olhos azuis. Estatura mediana, magro, veio vestido com calça e bata brancas, descalço e com ar tranqüilo. Tinha um rosto tão sereno que me contagiou. Ali, ele me disse coisas que modificaram para sempre o meu modo de encarar certos aspectos da vida.
Sua proposta é a do crescimento e da disceminação do amor. É para isso que trabalha, e nisso que acredita e me faz também acreditar. Sem a esperança e a certeza na consolidação do amor, a vida não tem razão de ser. E o instrumento que ele encontrou para a realização desse propósito, no momento, foi a psicografia. Assim como eu, Leonel escreve por amor a si mesmo e ao próximo.
Considero Leonel mais um batalhador do invisível. Um espírito com enorme sabedoria e inigualável capacidade de amar. Um ser em evolução que conhece o caminho para o crescimento e sabe onde está a fonte do discernimento e da moral. Uma alma que cresce por meio do esforço próprio, do reconhecimento de suas imperfeições e da busca incessante do domínio sobre si mesmo. E é nisso, acima de tudo, que rezide o seu valor.

Mônica de Castro.

2010, por Mônica de Castro

Direção de arte: Luiz Antônio gasparetto
Projeto gráfico: Priscila Noberto
Diagramação: Andreza Bernardes
Revisão: Maria Glória Nola Pires e Ivânia Paula Leite Barros Almeida

1ª Edição
Junho de 2010
20000 exemplares.

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro – SP, Brasil)
Leonel (Espírito)
De todo o meu ser / Pelo Espírito Leonel (Psicografado por)
Mônica de Castro – São Paulo: Centro de Estudos Vida & Consciência Editora.
ISBN 978-85-7722-101-1
1. Espiritismo 2. Psicografia 3. Romance espírita 1. Castro, Mônica de. 2. Título

10-06002 – CDD-133.9
Índice para catálogo sistemático:
1. Romance Espírita: Espiritismo 133.9

Publicação, distribuição, impressão e Acabamento
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Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa do editor (Lei no. 5.988, de 14/12/73).

PRÓLOGO
O sol mal acabara de nascer e Marianne já estava de pé, fitando com olhos marejados a imensa bola alaranjada que surgia no horizonte. Pela janela aberta, entrava uma brisa suave, trazendo o doce aroma do jardim, que a menina inspirou com prazer. Foi soltando o ar aos pouquinhos, sentindo imenso bem-estar.
Apanhou a túnica branca que passara a usar desde que chegara ali, vestiu-a com cuidado e penteou os cabelos, bem mais compridos. Olhou-se no espelho e sorriu. Nunca antes se julgara bonita. Agora, contudo, seu semblante havia adquirido um brilho e uma suavidade que até então não existiam.
Quando acabou de se vestir, ouviu batidas leves na porta e virou-se, no exato instante em que um rapaz alto e muito claro entrou.
- Bom dia, Marianne — cumprimentou, endereçando-lhe um sorriso jovial. — Como se sente hoje?
— Bem — respondeu ela, dando-lhe um beijo delicado nos lábios. — Graças a você, já consegui me reequilibrar.
- Graças a mim, não, graças a você mesma. —Percebendo o seu embaraço, ele prosseguiu com ternura. — O que foi?
Ela apertou as mãos dele e confessou:
— Em minha confusão mental, não lhe disse coisas que gostaria de ter dito...
— O que, por exemplo?
— Eu o amo. Sabia disso?
Ele sorriu e respondeu com emoção:
— Sabia sim. Não precisava dizer.
Era verdade. Pela primeira vez em muitos anos, Marianne dizia a Ross que o amava. E como o amava! Não fosse por ele, sua vida teria sido muito mais difícil. Aliás, a última encarnação de Ross teve praticamente uma finalidade: seu amor por Marianne era tanto que ele pedira para reencarnar ao seu lado, só para ajudá-la a atravessar o tortuoso caminho que escolhera. Fora o único.
— Estou muito feliz por ter você — tornou Marianne, também emocionada. — Hoje posso compreender muitas coisas. Principalmente a importância do amor.
Ross não disse nada. Sorriu e estendeu-lhe a mão, convidando-a para sair. Fazia já algum tempo que haviam chegado àquele lugar e se preparavam para uma nova jornada na terra, dessa vez, no Brasil. Estavam em uma cidade invisível, localizada no espaço astral situado bem acima de Londres, preparada para receber espíritos que, a exemplo de Ross e Marianne, haviam perdido suas vidas na guerra.
De mãos dadas, os dois saíram para o jardim. Marianne andava descontraída, como nunca pudera caminhar na Terra, a toda hora inspirando aquele ar revigorante. Sua aparência era a de uma menina de dezesseis anos, ao passo que Ross mantivera as feições do jovem maduro e muito seguro de si mesmo que já era aos vinte anos.
— O que será de mim agora? — questionou ela, ainda incomodada pela dor das muitas lembranças.
— Você sabe que vai reencarnar em breve.
— Não sei se terei coragem.
— Terá sim. Já passou pelo pior.
— Acho que não quero mais voltar. Quero ficar aqui. É tão bom...
— Você não pode, não deve. E os seus projetos de vida? Quer adiá-los?
Marianne olhou-o indecisa. Sua última encarnação, bastante difícil e dolorosa, fora uma escolha sua para acelerar a recomposição de seu corpo fluídico, tão comprometido pelos excessos do passado. Aquela vida não era nem de longe a vida que sonhara para si mesma. Era como uma encarnação intermediária, na qual fizera uma espécie de limpeza em seu corpo espiritual, preparando-o para uma outra jornada, dessa vez mais prazerosa e alegre.
Com os olhos úmidos, respondeu convicta:
— Não quero adiar nada. Já perdi muito tempo. Não vou mais desperdiçar a vida.
— Ninguém perde tempo. O tempo é o mestre dos nossos destinos, porque é através dele que vamos coletando experiências para o nosso crescimento. Ninguém desperdiça tempo. Nós o aproveitamos com maior ou menor intensidade, mas nunca de forma inútil.
— Tem razão. Só que, quando penso no que já fiz... Fui tão ruim... A vida toda, fui uma pessoa má.
— Não diga uma barbaridade dessas! Você sabe que não era má. Era apenas descontrolada, em virtude de suas dificuldades mentais e espirituais. Mas maldade... essa é uma palavra muito forte que, decididamente, não se aplica a você.
— Que bem fiz nessa encarnação?
— Transformou a si mesma e salvou a vida de seus irmãos. Só isso já é o suficiente.
Ela não respondeu. Sentaram-se na grama do jardim para trocar idéias com uns amigos, e Marianne pousou a cabeça no ombro de Ross, distanciando-se da conversa. Não estava triste, mas seu olhar, de repente, começou a divagar pelo horizonte, evocando lembranças dos últimos tempos.
Duas grossas lágrimas surgiram em seus olhos, e ela apertou o braço de Ross. O rapaz afagou os seus cabelos, e ela questionou:
— Como será a vida no Brasil?
— Deve ser boa, não sei. Dizem que é um país muito bonito.
— Vou deixar todo mundo aqui.
— Ao contrário, todos já foram para lá.
— Menos minha mãe.
— Você sabe que ela pertence a outra realidade. Vocês formaram elos poderosos e perpétuos, que a distância não poderá desfazer.
Marianne calou-se acabrunhada. Partiria em breve para uma nova encarnação no Brasil, junto daqueles que a vinham acompanhando por muitas vidas. Kate, contudo, não fazia parte desse grupo. Conhecera-a naquela vida quando ela se dispusera a recebê-la como filha, não fazia muito tempo. Com o tempo, aprendera a gostar dela. E quem poderia não gostar de Kate?

Primeira Parte

1
Tudo começou quando Marianne completou sete anos. Corria o mês de janeiro, e fazia bastante frio naquela época do ano. Ainda assim, seus pais haviam lhe preparado uma bonita festa. Ela era a mais velha de quatro filhos, com olhos expressivos que variavam do verde para o azul e cabelos negros que lhe caíam fartamente sobre os ombros. Não era feia, contudo, sua beleza não era algo que impressionasse ou detivesse a atenção de alguém por muito tempo.
Morava numa casa grande e confortável, em um bairro da periferia de Londres. O pai era engenheiro e tinha um emprego razoável numa construtora local, e a mãe ocupava os dias cuidando da casa e das crianças. Marianne não era muito sociável e quase não brincava com os irmãos, preferindo a companhia do primo, que morava na casa ao lado da sua.
Quatro anos mais velho, Ross era filho único do irmão de seu pai, que perdera a mulher alguns anos atrás, vítima da tuberculose. Sozinho com uma criança, Nathan mudou-se para perto do irmão, onde a cunhada poderia ajudar na criação do menino.
Às três horas em ponto, os convidados começaram a chegar. Não havia muitos; apenas algumas coleguinhas da escola, cujos pais haviam aceitado o convite após exaustiva insistência, e outros primos que moravam mais distante. Marianne recebia os abraços e os presentes com indiferença e não disfarçava a irritação quando solicitavam a sua presença, privando-a da companhia do primo.
— Não sei o que se passa com essa menina — queixou-se a mãe. — Fazemos de tudo para agradá-la, mas parece que nada a satisfaz.
— Não ligue — contestou a irmã. — Criança é assim mesmo.
— Sei o que estou dizendo, Jane. Marianne sempre foi esquisita, desde pequenina.
— Não devia falar assim da sua filha.
— Mas é verdade. Ela nunca foi afetuosa nem sociável. E receio que não seja muito inteligente também.
— Marianne é apenas uma menina. Só precisa de amor.
— Você pensa que David e eu não lhe damos amor?
— Sinceramente? Acho que não o bastante.
— Como você pode dizer uma coisa dessas? Fazemos tudo por nossos filhos. Por todos. Veja só a festa que preparamos para Marianne!
— Acha mesmo que é disso que Marianne precisa?
— Toda criança gosta de festas, doces, brinquedos...
— Crianças precisam é de amor!
— Você está sendo injusta. Nós amamos muito Marianne.
— Pois então, deviam demonstrar-lhe mais. Só o que vejo são cobranças. Vocês cobram de Marianne um comportamento que ela não sabe ou não pode ter. Por que não a aceitam do jeito que é e param de exigir que ela seja do jeito como vocês gostariam que ela fosse?
- Por que está falando dessa maneira? — tornou Kate, ressentida. — Sabe que nos esforçamos para que nada falte a nossos filhos. David tem trabalhado muito para lhes dar uma vida melhor. As coisas não são fáceis.
Na mesma hora, Jane se arrependeu do que dissera. Não tinha o direito de julgar a irmã.
— Perdoe-me — falou. — Não queria magoá-la. É que me preocupa o temperamento de Marianne.
— Todo mundo já notou, não é mesmo? — Jane titubeou. — Vamos, pode falar. Todos já perceberam que Marianne não é uma garota normal.
— Não sei se normal é bem o termo. Marianne é muito calada, quieta, triste. Não é como as meninas da sua idade.
— David e eu também já percebemos isso.
— Por que não experimentam levá-la a um médico?
— Para que médico? Marianne é uma menina saudável.
— Não me refiro a esse tipo de médico.
— A que tipo se refere então? Não vá me dizer que acha que eu deveria levar Marianne a um psiquiatra.
— Qual o problema?
— Minha filha não é maluca.
— Não estou dizendo que é. Mas talvez precise de ajuda. Alguém que a entenda e fale com ela.
— Por que não eu? Sou a mãe dela.
— Não é a mesma coisa. E não era bem a psiquiatra que me referia, mas a um psicólogo. Uma amiga minha foi e gostou muito.
— Mas que ideia, Jane! Levar minha filha a um médico de loucos?
— Não é médico de loucos. Os psicólogos ajudam as pessoas a compreenderem-se a si mesmas.
— O que é que uma menina de sete anos precisa compreender de si mesma? Não entende nem o mundo ainda.
— Por isso mesmo. Talvez ela não esteja conseguindo uma boa compreensão do mundo, de si própria, de sua vida.
— Besteira! Marianne não precisa de nada disso. Ela é esquisita porque tem um gênio ruim e não é muito inteligente. O que podemos fazer? Foi Deus quem quis assim.
Era inútil discutir com Kate, e Jane silenciou.
A irmã não entendia ou preferia não entender. Qualquer observador mais atento teria notado que Marianne possuía mesmo algo estranho. Não o temperamento ou a estupidez, como pensava Kate, mas, provavelmente, algum problema psicológico. Quem sabe alguma experiência traumática? As crianças costumam ser muito impressionáveis, e talvez Marianne tivesse visto ou vivido alguma coisa difícil que não contara aos pais.
Estavam em 1931 e, naquela época, as coisas não eram assim tão fáceis. O medo e a ignorância elevavam os problemas psicológicos ao patamar de verdadeiras desgraças, temidas e negadas por quase toda a sociedade. Ninguém sabia lidar com os
distúrbios da mente, e qualquer comportamento que fugisse aos padrões de normalidade corria o risco de ser taxado de loucura, e a pessoa, levada a tratamento em hospícios sombrios onde a doença tendia a piorar.
Jane pediu licença à irmã e foi ver os filhos. As crianças brincavam no jardim em frente da casa, construindo um boneco grande e gordo e atirando bolas de neve umas nas outras. Encostada numa árvore, Marianne espremia a neve com as mãos, fazendo pequenas bolas que ia jogando no chão. Do outro lado, Ross corria com os demais meninos, parando de vez em quando para olhar para ela.
No meio da brincadeira, Paul, filho mais velho de Jane, aproximou-se por detrás dela. Sem fazer barulho, deu um salto e agarrou a cintura da prima, dizendo com uma voz que, propositalmente, tornou rouca e fantasmagórica:
— Peguei você, Marianne.
Na mesma hora, Marianne pôs-se a gritar e chorar, enquanto ia andando para trás, tentando fugir para a rua.
— Não! Não! Saia daqui! Afaste-se de mim! Vá embora! Vá embora!
Assustado com a reação da prima, em quem apenas pretendia dar um susto, Paul foi seguindo-a para desculpar-se. Quanto mais perto ele chegava, mais ela se apavorava e gritava:
— Saia daqui, demônio! Não o chamei! Mamãe! Mamãe!
Ouvindo aquela gritaria, Kate correu para ela e sacudiu-a pelo ombro, exclamando preocupada:
— Marianne! O que houve? O que aconteceu?
— Mamãe! — continuava ela a berrar. — Quero minha mãe!
— Estou aqui, tenha calma.
Marianne olhou-a como se não a conhecesse, imaginando quem seria aquela mulher que lhe falava como se fosse sua mãe. Debatia-se desesperadamente, na tentativa de desvencilhar-se, ao mesmo tempo em que gritava aterrada:
— Não! Você não é minha mãe! Não conheço você. Onde está minha mãe? Onde está?
Alguns parentes tentaram acalmá-la com palavras doces e, ao mesmo tempo, carregadas de uma repreensão velada:
— Já passou. Foi só um susto. Foi brincadeira.
— Que brincadeira? Quem são vocês?
Todos se entreolharam atônitos. Ela parecia delirar. Foi então que David veio lá de dentro, gritando com ela:
— Se isso é alguma piada, não tem a menor graça. Está assustando sua mãe. Pare já com isso!
— Onde está, mamãe? Não posso vê-la. Mãe! Mãe!
— Quieta, Marianne! — esbravejou David, agora bastante enfurecido. — Onde já se viu estragar assim a sua própria festa?
Presa pelas mãos da mãe, Marianne se debatia e urrava feito louca, até que o pai, não aguentando mais aquela balbúrdia, desferiu-lhe uma bofetada no rosto, e ela desabou no chão, chorando convulsivamente.
— Não faça isso — queixou-se a cunhada. — Não vê que ela é apenas uma criança?
— Não se meta — rilhou entre os dentes, sentindo raiva da vergonha a que ela o expusera. — Marianne precisa 2 de umas boas palmadas,
Jane retrocedeu. Não queria brigar e não tinha o direito de se intrometer. Buscou com os olhos o marido, que lhe fez um sinal quase imperceptível, e foi para junto dele.
— O que David está fazendo não está certo —comentou baixinho.
— Ele é o pai — tornou Bill. — É melhor não nos metermos.
Enquanto isso, David continuava a berrar:
— Levante-se, vamos! Ou quer realmente apanhar diante de todos os seus convidados?
Encolhida no chão, Marianne não ousava levantar os olhos. Chorava descontrolada, sem entender o que estava acontecendo. Tinha medo daquelas pessoas e não queria ficar com elas.
Conhecendo-a como a conhecia, Ross resolveu agir. Abrindo caminho entre os convidados, alcançou-a e pediu licença ao tio para se ajoelhar ao lado dela. Percebendo-lhe a presença, Marianne, como que atingida por um raio de lucidez, retornou à consciência e recordou-se de onde estava e quem eram aquelas pessoas. Envergonhada, esticou os braços e atirou-se no colo do primo, desabafando num lamento:
- Ross... ajude-me... Não sei o que me deu...
- Está tudo bem. Não foi nada. Já passou. Agora vamos, levante-se ou vai ficar gripada.
Em silêncio, Marianne se levantou e deixou-se conduzir por Ross, que a levou para dentro, com Kate logo atrás.
- O que foi que deu em você? — indagou a mãe, totalmente aturdida. — Ficou maluca?
Marianne não respondeu. Nem ela sabia por que tinha feito aquilo. Só o que sabia era que, ao ouvir aquela voz, dentro dela despertara um medo inexplicável, como se um inimigo há muito perdido a tivesse, finalmente, reencontrado.

2
Enquanto se desenrolava o drama de Marianne, um espírito sombrio comemorava sua vitória. Aproveitando-se da mediunidade de Paul, aproximara-se dele e inspirara-lhe a ideia do susto, das palavras e do tom de voz que deveria usar. Sem de nada desconfiar, Paul seguiu a sugestão do invisível, realizando exatamente o que o ser das trevas desejava.
Finalmente conseguira se aproximar. Até então, Marianne estava guardada por defensores iluminados que o mantinham afastado. Durante muito tempo, ele a seguia e a vigiava de longe, sempre acompanhado por aqueles seres que se faziam propositadamente visíveis, como se desejassem ostentar sua superioridade moral.
Como aquele era o dia do sétimo aniversário de Marianne, ele comparecera à festa, mesmo sem ser convidado, na esperança de que um descuido dos protetores lhe facilitasse, ao menos, uma pequena aparição. Todavia, ao chegar à casa dela, notou, surpreso, que os espíritos de luz não estavam ali. No começo, desconfiou e permaneceu afastado, acompanhando os passos da menina. Mas as horas foram passando, e nada de os espíritos aparecerem. Finalmente, reuniu coragem para agir.
Foi assim que se aproveitou de Paul. Menino dado a travessuras maldosas, à primeira sugestão, acedeu à sua vontade, executando o plano que ele idealizara para assustá-la. O resultado foi excelente, melhor do que o esperado. E qual não fora a sua surpresa ao perceber que Marianne o vira através dos olhos do primo. Não só o vira, como também, inconscientemente, o reconhecera!
Quase não conteve a euforia. Ainda percorreu todos os cantos da casa, para se certificar de que nenhum ser iluminado o incomodaria. Vendo-se sozinho, sentiu-se confiante. Os anjos protetores de Marianne haviam ido embora1.
O espírito acompanhou-a até o quarto, para onde Ross e a mãe a haviam levado a fim de trocar as roupas molhadas. Ao ver o seu corpinho nu, não pode deixar de fazer uma observação sarcástica:
— Ora, ora, Marianne. Você está muito magrinha agora. Nem parece aquela mulher exuberante que foi um dia.
Soltou estrondosa gargalhada, que Marianne ouviu nitidamente, embora não conseguisse ainda vê-lo.
— Quem é? — indagou temerosa. — Quem está aí?
— Não há ninguém aqui — respondeu a mãe de má vontade, enquanto enfiava uma blusa pela cabeça da filha.
— Mas eu ouvi alguém rindo.
— Devem ser seus amigos lá embaixo.
Ela se aproximou da porta do quarto, que estava fechada, e chamou:

1. É aos sete anos que a criança inicia o seu processo de individualização, passando a direcionar-se pelo caminho espiritual, de acordo com suas tendências e assumindo suas próprias responsabilidades. Por isso, até essa idade, os espíritos superiores se mantiveram mais próximos de Marianne, a fim de evitar que inimigos astrais conseguissem abalar a formação de suas bases para a vida física e a espiritual, que se formam durante os primeiros sete anos de vida (Nota da Autora).
- Rossi! É você?
Do outro lado, o primo respondeu:
— O que foi, Marianne?
— Foi você quem deu essa risada?
— Que risada?
A menina fitou a mãe, que a olhava com ar recriminador.
— Pare com essa besteira e venha terminar de se vestir. Já não basta o que aprontou hoje?
Em silêncio, Marianne voltou para junto dela e terminou de se trocar. Por prudência, não fez mais nenhuma pergunta, pois a mãe estava visivelmente aborrecida, e era melhor não a provocar. Em seu íntimo, porém, continuava a indagar quem dera aquela risada. Ouvira nitidamente. Tinha certeza de que não haviam sido as outras crianças. Era uma risada cínica, ruidosa, maléfica. Sim. Aquela gargalhada tinha algo de maligno que a assustara, e ela se arrepiou toda.
— Fui eu, Marianne — respondeu o espírito. — Seu amigo Luther, não se lembra? Bonito nome, esse que escolheram para você. Marianne...
Ela deu um salto para trás. Ouviu claramente o que ele dissera e se assustou. Conhecia aquela voz e sentiu uma presença familiar. Era de alguém que representava uma ameaça.
— O que foi? — tornou Kate. — Ainda ouvindo vozes?
Apavorada, Marianne abriu a porta do quarto e correu para fora, encontrando Ross no corredor, parado perto da escada.
— Puxa! — exclamou ele. — Até que enfim... Ela não lhe deu tempo de terminar. Atirou-se em seus braços, toda trêmula, e começou a chorar baixinho.
— Vamos embora logo — chamou a mãe. — Todos devem estar preocupados. Também, onde já se viu fazer o escândalo que você fez só por causa de uma brincadeira? Vamos, Ross, traga sua prima para baixo.
Ross percebeu que havia algo errado com a menina, mas preferiu silenciar. Se dissesse alguma coisa, a tia ficaria ainda mais zangada. Kate passou por eles e foi descendo as escadas, murmurando o que deveria ser uma recriminação.
— Não quero ir — protestou Marianne. — Tenho medo.
— Medo de quê? — retrucou Ross.
— Não sei. De Luther.
O nome brotou espontaneamente de seus lábios, como se ela já o tivesse ouvido muitas e muitas vezes, embora não se lembrasse onde nem quando.
— Luther? — tornou Ross, em dúvida. — Quem é Luther?
— É alguém que apareceu...
— Não diga isso — censurou ele, colocando os dedos sobre seus lábios. — Quer que sua mãe fique zangada?
— Como é que é? — era a voz de Kate, chamando do pé da escada. — Vocês dois vêm ou não vêm?
Ross lançou um olhar encorajador a Marianne, segurou-lhe a mão com firmeza e desceu com ela. No andar de baixo, as crianças já estavam na sala, esperando para cantarem o Parabéns. Havia começado a nevar, e algumas pessoas queriam ir embora, com medo de que a neve aumentasse e os retivesse ali.
A aniversariante tomou lugar atrás do bolo, sempre com Ross a seu lado, alguém acendeu as velas e todos começaram a cantar:
— Parabéns pra você...
De onde estava, Marianne via os rostos ao seu redor. A mãe fingia que nada havia acontecido. O pai estava carrancudo, tentando disfarçar o mau humor. Os pais de suas colegas de escola estavam meio sem jeito, querendo arranjar uma boa desculpa para ir embora.
Enquanto as vozes prosseguiam cantando, ela passou os olhos pela sala. Ao fundo, perto da porta, um homem estranho a olhava fixamente. Era alto, magro e vestia roupas negras. Batia palmas vagarosamente e sorria um sorriso irônico e debochado. Uma sensação de familiaridade a invadiu, e ela o encarou, a pele se arrepiando toda quando ele lhe atirou um beijo.
— Quem é você? — pensou.
— Sou seu amigo Luther — respondeu o homem em voz alta e soltando nova gargalhada.
Aquilo foi o suficiente para descontrolá-la. Completamente aterrada, Marianne fez menção de fugir, mas o olhar severo dos pais a impediu. Parecia que uma multidão gritava sem parar, e ela foi se sentindo invadida por aquela gritaria, como se centenas de vozes clamassem ao mesmo tempo por vingança.
A seu lado, o primo percebeu que havia algo errado. Seguiu o olhar apavorado da prima, mas não viu nada perto da porta. Ficou olhando para ela, tentando entender a sua angústia, até que ela levou as mãos aos ouvidos, e o corpo todo amoleceu. Segundos depois, desabou no chão, desmaiada, e as vozes silenciaram.
David ergueu a filha no colo e deitou-a no sofá. Como ardia em febre, ele estacou alarmado. Pediu ao irmão que fosse chamar o médico e mandou que a mulher servisse bolo aos convidados. Kate, agora seriamente preocupada, ia cortando o bolo e distribuindo as fatias, enquanto se desculpava:
— Sinto muito, minha gente. Marianne não está bem. Deve ser gripe. Está fazendo muito frio.
Os convidados, mais por educação do que por desejo, aceitavam a fatia de bolo, comiam-na rapidamente e, pedindo licença, iam-se retirando, com a desculpa de que seria melhor deixar que Marianne descansasse. Quando o médico chegou, examinou-a detidamente. Ela estava com muita febre e a garganta parecia inflamada.
— Não se preocupem — disse ele, ao final do exame. — Ela está com uma gripe muito forte, mas vai ficar boa. Deem-lhe xarope e essas pílulas, façam-na ficar em repouso, e ela logo voltará ao normal.
— Doutor... — gaguejou Kate. — Será que é só isso mesmo? Ela hoje falou coisas sem sentido, nem parecia nos reconhecer.
— Sintomas da febre alta, minha senhora. A menina estava tendo alucinações.
Kate e David agradeceram e pareceram satisfeitos. Levaram-na de volta para o quarto e a puseram na cama.
— Posso ficar aqui com ela, tia Kate? — pediu Ross.
— Isso é com seu pai — respondeu David.
Ross encarou o pai com ansiedade. Nathan coçou o queixo e piscou para ele, acrescentando com bonomia:
— Está bem. Se sua tia não se importar...
— Não me importo — falou Kate. — Vai fazer bem a Marianne.
Nathan se foi, e Kate tratou de cuidar dos outros filhos. Com aquela confusão, haviam ficado de lado, e eram ainda muito pequenos para se arranjar sozinhos. Mais novos que Marianne, havia Roger, com cinco anos, em seguida Kevin, com três, e, por último, a pequena Suzie, de apenas um ano.
Kate apanhou Suzie no colo e chamou os outros dois, que saíram atrás dela. Depois de acomodá-los na cama, foi ver como Marianne estava passando. Abriu a porta do quarto vagarosamente, e Ross levantou a cabeça. Estava ajoelhado ao lado dela, o rosto pousado sobre o colchão, quase adormecido.
. Puxando-o pela mão, Kate ajudou-o a se levantar. Em silêncio, estendeu um cobertor no chão, colocou sobre ele um lençol e um travesseiro e mandou o menino se deitar, cobrindo-o com uma grossa manta de lã. Já bastante sonolento, Ross tornou a se deitar e imediatamente adormeceu, somente despertando no dia seguinte, com Marianne sentada a seu lado.
— Bom dia, amiguinho — cumprimentou ela, dando-lhe um beijo na face.
— Como está? — retrucou o primo carinhosamente. — Melhor?
— Não sei. O que foi que tive?
— Não se lembra? Ela estreitou a vista, puxando pela memória, e respondeu hesitante:
— Lembro...
Aos poucos foi recobrando a lembrança daquele ser maligno, e seu coração disparou.
— O que foi? — preocupou-se Ross.
— Aquele homem...
— Que homem?
— Não sei. Era feio, esquisito. Falou comigo.
— Quem? Não vi ninguém.
— Eu vi. Disse que seu nome era Luther e que era meu amigo.
— Você está imaginando coisas.
— Não estou não. Eu o vi, tenho certeza. — Ela levou a mão à boca e acrescentou espantada: — Será que era um fantasma?
— Credo, Marianne! A porta do quarto se abriu, e Kate apareceu com um frasco de vidro e uma colherzinha. Experimentou a testa da filha, entornou o xarope na colher e fez com que ela o bebesse.
— Vejo que está melhor, graças a Deus.
— Estou sim.
— Ótimo. Que susto nos deu, hein? Falando aquelas coisas...
Marianne encarou o primo e disse, sem desviar os olhos dos dele:
— Mamãe, acho que vi um fantasma.
Kate pousou o vidro de xarope na mesinha, colocou a mão na cintura e repreendeu com uma certa impaciência:
— Deixe de bobagens. O doutor Brown disse que foi tudo alucinação. Você estava com muita febre. E agora, chega dessa tolice — encerrou o assunto e virou-se para o sobrinho.
— Vamos, Ross, levante-se e vá se lavar. Já está na hora do café.
— Ah! titia, deixe-me ficar aqui.
— Nada disso. Você não está doente. Desça e tome seu café.
— E Marianne? Não vai comer nada?
— Não estou com fome... — protestou ela.
— Você também precisa se alimentar — objetou a mãe. — Depois que Ross terminar de tomar o seu café, poderá lhe trazer uma bandeja. Está bem assim?
Não havia como contestá-la. Em silêncio, Ross se levantou e fez como ela lhe ordenou. Terminado o desjejum, pegou a bandeja e levou-a para a prima, com leite, pão, manteiga, queijo e uma fatia do bolo de aniversário. Como gostava de Marianne! Ela não era sua irmã, mas bem que poderia ter sido. Ou, quem sabe, mais tarde poderia ser sua namorada? Será que poderiam? Eles eram primos, e ele não sabia se primos podiam namorar.
Mas ele a amava tanto!

3
Como Marianne era uma menina fisicamente saudável, logo se recuperou da gripe, e a vida retomou a normalidade. Ou quase. Na escola, as crianças a olhavam com desconfiança. Se antes já não simpatizavam muito com ela, agora então, passaram a achá-la deveras esquisita. Ela entrou, cabisbaixa como sempre, e foi sentar-se em seu lugar habitual. O professor ensinava as primeiras letras, mas Marianne não parecia muito interessada. Ficava rabiscando o caderno, fazendo desenhos estranhos, linhas desconexas. Em dado momento, o professor olhou para ela, bateu com a varinha na mesa e exclamou em tom severo: Marianne! Onde é que está com a cabeça?
A menina olhou-o assustada. Por que estava gritando com ela? Permaneceu em silêncio, encarando-o com ar de espanto, enquanto ele a fuzilava com os olhos e continuava a lição. Ao término da aula, Marianne arrumou o material e saiu sem dizer uma palavra.
Do lado de fora, Ross já a aguardava, como sempre. Ele e Marianne estudavam em escolas diferentes: uma para meninos, e outra só para meninas. Como, porém, as duas escolas ficavam próximas, costumavam ir e voltar juntos todos os dias. Assim que o viu, Marianne correu para ele e tomou-lhe a mão.
— Demorei muito? — indagou, visivelmente feliz.
— Não. Cheguei ainda agora.
Seguiram de mãos dadas e conversando. Ross era a única pessoa com quem Marianne conversava. Não tinha amigos. À exceção do primo, todas as outras crianças lhe pareciam sem graça e aborrecidas.
Ross abriu a porta de casa, dando-lhe passagem. Como de costume o pai dele saía bem cedo para trabalhar, e o menino ficava aos cuidados da tia, até que Nathan voltasse, no começo da noite.
— Olá, tia Kate - cumprimentou ele amistosamente.
— Boa tarde, crianças. Como foram na escola?
— Bem...
Marianne passou por ela sem lhe prestar muita atenção e subiu para o quarto. Ia trocar-se e lavar as mãos, e só então desceria para o almoço. Apanhou um vestido velho no armário, estendeu-o sobre a cama e começou a desabotoar a blusa do uniforme. Ao se virar na direção da janela, aquele homem lhe surgiu novamente. Sentado no parapeito, balançava as pernas e sorriu para ela. Marianne sufocou um grito de pavor e recuou dois passos. Pensou em fugir correndo, mas algo nele a deteve. Ergueu os olhos, assustada, e o encarou. Enchendo-se de coragem, balbuciou:
— O... o que... quer, moço? Quem o deixou entrar? Ele saltou da janela, passou por ela e sentou-se na cama, que não afundou nem fez qualquer barulho.
— Quero ser seu amigo — respondeu com ironia. Ela se afastou um pouco mais, aproximando-se da porta, e retrucou temerosa:
— Vá embora... Por favor...
— Por quê? Não gosta de mim?
— Você me assusta.
— Não quero assustá-la. Sou seu amigo, e você devia confiar em mim.
— Como posso confiar em alguém que me dá medo?
Ele soltou nova gargalhada e acrescentou:
— Sou o único que a entende. Sei o quanto você sofre.
— Sabe?
— Sei sim. Ninguém a compreende, não é mesmo? Todos a acham estranha, chamam-na de esquisita. E as outras crianças não gostam de você. Você não tem amigos, e sabe por quê? — ela fez que não. — Porque as outras crianças são todas umas idiotas.
— São?
— É claro. Não sabem de nada. Não têm o seu dom especial.
— O que é isso?
— Um dom é um presente...
— Presente? — repetiu desconfiada. — Quem me daria um presente?
— Hum... deixe ver... no seu caso... bem, isso não importa. O que importa é que você recebeu esse... presente e deve usá-lo.
— Usá-lo como, se nem sei de que presente se trata?
Ele soltou nova gargalhada, cruzou as pernas e fitou-a com profundidade, deixando-a incomodada com a insistência de seu olhar.
— Você fala com os mortos, Marianne — revelou friamente.
Ela abriu a boca, aterrada, e encostou-se na parede, pensando que ia desmaiar.
— Você está morto?
— Bem, sim e não. Digamos que estou morto para o seu mundo. Mas no meu, continuo bem vivo.
— Não acredito em você.
— Não acredita? Pois olhe.
Luther levantou-se da cama, aproximou-se da parede em que ela estava encostada e atravessou para o outro lado, voltando em seguida e parando bem junto a ela. Pelo seu ar apavorado, ele podia perceber que ela se convencera. Quem não se convenceria?
— Não se assuste nem fique triste — prosseguiu ele. — Esse seu dom é especial.
— Mas... não o quero, tenho medo... Minha mãe... quero minha mãe.
Ela começou a choramingar e fez menção de sair, mas ele a deteve com um gesto.
— Não precisa ter medo de mim. Não estou aqui para lhe fazer mal.
— Por que me escolheu?
— Eu não escolhi você. Foi você quem me escolheu.
— Mas eu nem conheço você!
— Conhece sim. Só que não se lembra. Vamos, não se assuste comigo. Afinal, não sou tão feio assim, sou?
Marianne começou a se acalmar. Realmente, ele não era feio nem tentara lhe fazer nenhum mal. Será que era mesmo seu amigo como lhe dizia? Mas por que isso tinha que acontecer com ela? Nunca havia ouvido falar que qualquer de suas colegas da escola conversasse com fantasmas.
— Você é diferente — respondeu Luther, que mentalmente ouvira a sua pergunta. — Quantas pessoas você conhece que falam com os mortos? Provavelmente, nenhuma. E sabe por que você consegue? — Ela meneou a cabeça. — Porque você também é uma menina especial. Tem uma coisa aí dentro da sua cabecinha que funciona de maneira diferente e faz com que você veja coisas que ninguém mais vê. Não é verdade?
— É... — respondeu hesitante.
— Pena que ninguém vai conseguir compreender... E sabe o que vai acontecer? Eles vão pensar que você é louca.
— Eu não sou louca!
- Não, não é... ou quase.
— Não quero que você se zangue, Luther, mas não preciso de você. Eu tenho o Ross. Não quero ser amiga de nenhum fantasma.
— Tem certeza?
— Tenho.
Luther a mirava fixamente e falou com voz sonora:
— Olhe, para provar que sou seu amigo, vou fazer um trato com você. Não vou mais aparecer para você, a menos que me chame.
— Não vou chamar você.
— Vai sim. Quando as coisas ficarem ruins, vai ver que sou o único amigo capaz de entendê-la. E aí então, vai me chamar.
Ela estava realmente confusa, sem entender por que aquele espírito fora ali para atormentá-la. Talvez fosse melhor pedir ajuda à mãe, que já era grande e sabia resolver muitos problemas.
— Eu não faria isso se fosse você — prosseguiu ele.
— Fazer o quê?
— Contar à sua mãe.
— Como é que sabe que estou pensando em contar à minha mãe?
— Sei muitas coisas.
— Você não conhece minha mãe. Ela vai mandar você embora.
— Ela vai chamá-la de louca ou mentirosa.
— Não vai, não!
— E vai precipitar as coisas.
— Que coisas?
Fazendo ar de mistério, ele não respondeu. Marianne estava muito confusa e assustada. Ficara tanto tempo no quarto, conversando com Luther, que nem percebeu a hora passar. Demorou tanto que a mãe, da cozinha, pôs-se a gritar o seu nome, sem que ela ouvisse. Kate teria mandado Ross ir buscá-la, mas o menino estava comendo, e ela resolveu ir pessoalmente chamá-la.
Já na porta do quarto, parou com a mão na maçaneta. Ouviu a voz de Marianne do lado de dentro, conversando sabe-se lá com quem, e levou um susto. Encostou o ouvido à porta e pôs-se a escutar. Ela falava sozinha!
— Por que não me responde? — indagou Marianne, em seu aparente monólogo.
Pausa... Kate não escutou a resposta de Luther. Só o que ouviu foi a voz da filha:
— Não entendo você. Fala de coisas estranhas.
Novamente a resposta silenciosa, e a voz de Marianne se fez ouvir outra vez:
— Amigo... Você quer é me enganar. Pensa que não sei?
Silêncio. Depois de uma breve pausa, Marianne falou de novo:
— Se é meu amigo como diz, por que não para de me assustar?
Nova pausa, novo monólogo:
— Eu preferia que você fosse embora...
Kate não suportou mais. Escancarou a porta e entrou feito um furacão, assustando ainda mais a menina.
— Muito bem, Marianne! — esbravejou. — Com quem está falando?
Aturdida, ela olhou para Luther, que lhe sorria com ar irônico. Ele continuava ali sentado, mas a mãe, com certeza, não o via.
— Estou esperando uma resposta! — prosseguiu Kate. — Com quem estava falando?
Apesar do medo, Marianne resolveu contar a verdade. Afinal, Luther estava mesmo ali, e não era culpa dela se ele resolvera assombrá-la.
— Com Luther... — respondeu ingenuamente. —Ele é um fantasma e quer ser meu amigo.
— Como? Fantasma? Que história é essa?
— E... Ele está morto.
— Deixe de besteiras. Não acha que já está ficando grandinha para inventar essas bobagens?
— Não estou inventando. Luther é de verdade.
Kate a fitou desconfiada, imaginando se ela não estaria com febre novamente. Aproximou-se e experimentou-lhe a testa. Estava fria.
De onde estava, Luther soltava gargalhadas diabólicas, e Marianne contestou:
— Não sei qual é a graça...
— Com quem está falando? — indagou a mãe, bastante aborrecida. — Você não está com febre. Não pode estar tendo alucinações.
— É o Luther, já disse. Ele está rindo de mim.
— Ele está aqui? Onde?
— Bem ali, sentado na cama.
Marianne apontou para a cama, e Kate olhou abismada. Não havia nada ali. Apenas o vestido que Marianne retirara do armário e se esquecera de vestir. Luther, invisível, dobrava o corpo de tanto rir.
— Deixe dessas bobagens. Não tem ninguém ali.
— Tem sim. Eu o estou vendo. Ele agora está rindo de você.
— Você não pode estar vendo o que não existe. Não tem ninguém ali, não existe nada ali. Pare de inventar essas coisas!
— Mas mãe...
— Basta, Marianne! Não quero mais escutar essas sandices. Trate logo de se trocar e desça para o almoço. Fantasmas não existem, e se você está vendo um, é porque ou está louca, ou está mentindo!
Saiu batendo a porta, furiosa, e Marianne começou a chorar, ocultando o rosto no vestido. Impassível, Luther levantou-se da cama e ajoelhou-se ao lado dela, cochichando bem baixinho ao seu ouvido:
— Eu não falei?
Desapareceu, sem que Marianne percebesse por onde. Ela se espantou, procurando-o por todo o quarto. Como não o viu, ficou cismada. Será que a mãe tinha razão? Será que fantasmas não existiam realmente, e ela...
Teve medo até de pensar. Ela não era mentirosa, então, será que não estaria mesmo ficando louca?

4
Daquele dia em diante, Luther desapareceu, e Marianne começou a desconfiar que ele não existia no mundo real. O doutor Brown dizia que as crianças tinham uma imaginação muito fértil. Ross lhe explicou que aquilo queria dizer que as crianças costumavam imaginar coisas estranhas e fantásticas, como, de certo, acontecia com ela. Era uma menina normal, só que com uma mente fértil e muito criativa.
Mas a vida de Marianne estava longe de ser normal, e era na escola, principalmente, que seu comportamento estranho se revelava. Naquele momento, o professor desenhava algumas consoantes no quadro-negro, e as crianças acompanhavam na cartilha. Todas prestavam atenção, e muitas já conseguiam formar as primeiras sílabas. Apenas Marianne parecia alheia. Rabiscava o caderno com o lápis, desenhando formas desconexas, e só de vez em quando olhava para o professor.
O senhor O'Neill era um homem austero e não permitia desrespeitos em sua sala. E uma aluna que não prestava atenção à aula, para ele, era uma falta imperdoável. Ainda mais se a faltosa fosse reincidente. Ante a distração de Marianne, bateu com a varinha na mesa, como fazia sempre, e foi-se aproximando dela, enquanto falava com raiva:
— Divagando de novo, Marianne? A aula está muito aborrecida para você? Gostaria de algo mais divertido? Que tal... aula de desenho?
Bruscamente, arrancou-lhe o caderno, e Marianne levou um susto. Olhos baixos, sentiu que ia chorar. Parado a seu lado, o senhor O'Neill parecia maior do que realmente era, e ela encolheu-se toda. Cada vez mais empertigado, ele não parava de recriminá-la:
— Seu comportamento está ficando deveras impertinente. Não vejo outro jeito. Terei que lhe aplicar um corretivo — ergueu a varinha bem diante de seus olhos e ordenou: — Vamos, estenda as mãos!
Apesar do medo e da revolta, Marianne fez como ordenado. Estendeu as mãos para a frente, e o professor desferiu-lhe um golpe moderado com a varinha, fazendo surgir linhas vermelhas na alvura de suas palmas.
— Espero que tenha aprendido a lição — falou secamente.
Recolocou o caderno na frente da menina e voltou para o seu lugar. As outras crianças nem respiravam. Apesar do medo que todas sentiam dele, ninguém se condoeu de Marianne. Acharam até bem feito. Não gostavam mesmo dela. Era esquisita, carrancuda, não se dava com ninguém. Bem que merecera.
Marianne, por sua vez, sentia-se triste e humilhada. Olhou para a vermelhidão em suas mãos e sentiu que lágrimas quentes deslizavam pelo seu rosto. Engoliu o choro. Se o senhor O'Neill escutasse o seu pranto, lhe daria outra bronca e poderia até bater-lhe de novo.
Quando a aula terminou, Marianne recolheu o material e saiu. No corredor, algumas meninas conversavam e cochicharam algo quando ela passou. Depois, começaram a rir, olhando-a com ar de sarcasmo. Sentiu vergonha e raiva. Teve vontade de esganá-las, mas fingiu que nada percebeu e seguiu adiante.

Do lado de fora, Ross a aguardava, como sempre. Ela chegou cabisbaixa, e ele logo percebeu que algo havia acontecido. Tomou-a pela mão, que ela puxou com um ai quase inaudível, escondendo-a dentro do bolso do casaco.
— O que foi que houve? — indagou Ross, puxando a mão dela do bolso e espantando-se com o tênue vergão que ainda a manchava. — Você apanhou?
— Não foi nada.
— Como não foi nada? Então não estou vendo? O que foi que aconteceu?
Ela estacou debaixo de uma árvore, soltou os cadernos no chão e agarrou-se a ele, chorando copiosamente:
— Ah! Ross, não gosto da escola nem do senhor O'Neill! Ele me bateu só porque eu estava desenhando... Eu o odeio! E as outras meninas riram de mim...
Seu corpo frágil foi sacudido pelos soluços, e Ross a estreitou com ternura, alisando seus cabelos compridos.
— Não chore, Marianne. Eu estou aqui. Gosto de você.
— Só tenho você no mundo... — balbuciou.
— Não diga isso. Você tem os seus pais e seus irmãos. Eles a amam.
— Não é verdade. E eu também não os amo. Sinto como se eles fossem estranhos para mim.
— É impressão. Eles são a sua família, assim como eu também sou.
— O que será que meus pais vão fazer quando souberem que o senhor O'Neill me bateu? São capazes de me castigar de novo.
— Não diga nada. É melhor. Se o senhor O'Neill contar, não tem jeito, mas você não precisa se antecipar. E procure prestar mais atenção às aulas. Assim, você satisfaz o senhor O'Neill, não volta a apanhar e seus pais não brigarão com você. Não é melhor?
Marianne não sabia o que era melhor, todavia, seguiu os conselhos de Ross e não disse nada. A partir daquele dia, passou a abrir o caderno e a cartilha, fixando os olhos no senhor O'Neill. Enquanto ele falava e gesticulava, pensava na inutilidade de tudo aquilo. Os olhos, aos poucos, iam adquirindo uma expressão de alheamento, e o professor imaginava se ela realmente entendia o que ele ensinava. Não raras eram as vezes em que lhe fazia perguntas, porém, Marianne não respondia nenhuma. Abaixava e balançava a cabeça, deixando o senhor O'Neill sem saber o que fazer para que ela aprendesse.
Faltavam três meses para o término do ano letivo, e Ross estava sentado à mesa da sala, fazendo a lição de casa. A seu lado, Marianne fingia estudar, mas o que fazia na verdade era olhar o rosto dele, seus cabelos, seu queixo, seus olhos. Ross era um menino muito bonito, e ela iria se casar com ele.
Percebendo que ela o encarava, Ross levantou o rosto dos livros e sorriu para ela. Em que estaria pensando? Tinha vezes em que Marianne lhe parecia tão distante... Por que será que era assim?
No final da tarde, Ross fechou os livros e os cadernos. Já havia estudado demais. Kate saíra e não dissera aonde ia, levando consigo os outros filhos. Somente Ross e Marianne haviam ficado em casa.
— Sua mãe está demorando — observou, enquanto ela desenhava numa folha solta de papel.
— Já deve estar chegando - disse despreocupada.
Meia hora depois, Kate entrou em casa em companhia de David e das crianças. Entrou carrancuda e foi ajeitar os filhos no quarto. O pai veio vagarosamente, acomodou-se no sofá e cruzou as mãos sobre o colo, olhando fixamente para Marianne. Pouco depois, Kate apareceu com uma carta na mão. Parou diante da filha e estendeu-lhe o papel, que ela apanhou mecanicamente.
— Sabe o que é isso? — indagou zangada.
— Não — respondeu ela com indiferença.
— Leia!
Marianne encarou-a aturdida, sem saber o que fazer.
— Tia Kate — interveio Ross -, Marianne ainda não sabe ler. Está aprendendo...
— Aprendendo o quê?
— A ler... — respondeu o menino, certo de que o assunto dizia respeito ao senhor O'Neill.
— É verdade, Marianne não sabe ler, embora já devesse ter aprendido.
— Se quiser, posso ler para você... — ofereceu-se o menino.
— Não é preciso. Eu já li. Mas vou ler para Marianne. — Ajeitou os óculos, pigarreou e prosseguiu: — É uma carta da senhora Plumer, diretora da escola: Meu caro senhor Landor. Sua presença está sendo solicitada na escola com urgência, para tratar de assuntos pertinentes à sua filha, Marianne, que está tendo problemas com as aulas. O senhor O'Neill, nosso mais competente professor, já esgotou todos os recursos para fazer Marianne aprender a ler, sem sucesso, contudo. Como último recurso, não vejo outra alternativa, senão chamá-los, ao senhor e à sua esposa, para uma reunião em particular, onde serão discutidas as medidas que devem ser tomadas com relação à sua filha. Atenciosamente, Jessica Plumer. Kate abaixou a carta e encarou Marianne, que não entendera muitas daquelas palavras difíceis e desconhecidas. Em seu íntimo, contudo, sabia bem do que se tratava.
— Não estou entendendo bem — desculpou-se. —Não fiz nada. O senhor O'Neill não gosta de mim...
— Cale a boca! — berrou o pai, subitamente. — Quando quiser que diga alguma coisa, eu perguntarei.
Marianne se encolheu toda e buscou Ross com os olhos. Ele quis abraçá-la para protegê-la, mas o olhar reprovador do tio o paralisou. Feito o silêncio, David prosseguiu em tom de furiosa cobrança:
— Eu trabalho o dia inteiro, dou duro para sustentar esta casa e pagar-lhe uma boa escola, porque mulheres instruídas têm mais chance de fazer um bom casamento. E para quê? Para você ficar pensando em suas fantasias e fazendo rabiscos no papel!
— Papai...
— Silêncio! Não mandei você falar! — ela engoliu em seco e abaixou a cabeça. — Pois fique sabendo que isso não vai continuar assim. Como pensa que nos sentimos, sua mãe e eu, quando lemos a carta da senhora Plumer? Ficamos envergonhados. Já não basta você ser a esquisita da escola? Tem que ser também a mais estúpida?
Marianne desatou a chorar, magoada pelo jeito como o pai a recriminava. Afinal, não tinha culpa se não se interessava pelas lições sem graça do senhor O'Neill.
— Tio David — intercedeu Ross -, Marianne é ainda muito pequena. Vai aprender.
— Não se meta, Ross! Isso não é problema seu. Ross calou a boca e encarou Marianne, que chorava de olhos baixos. Como gostaria de puxá-la pela mão e tirá-la dali, levá-la para outro lugar, onde ninguém a importunasse! Era por isso que ele seria alguém na vida. Se, por um lado, Marianne não aprendia a ler, por outro, ele tinha muita facilidade com os estudos. Pois iria se formar, talvez como advogado, e ganhar muito dinheiro. Casar-se-ia com ela, e Marianne jamais seria repreendida novamente.
Naquele momento, porém, era apenas uma criança e nada podia fazer.
— Isso não é coisa que se faça, Marianne — acrescentou a mãe. — Fui obrigada a perturbar seu pai no trabalho, ele pediu licença para sair mais cedo só para ir comigo à escola. O chefe não gostou, mas consentiu. Sem contar que tive que incomodar sua tia Jane e pedir a ela que cuidasse dos seus irmãos enquanto íamos conversar com a diretora. Se seu pai perder o emprego, a culpa será sua!
— Minha? Mas o que foi que eu fiz?
Sem prestar atenção ao que ela dizia, Kate continuava a falar:
— E tudo por quê? Porque você não consegue aprender. Todas as suas colegas já aprenderam. A turma toda sabe ler. Menos você.
— Não tenho culpa...
— Tem sim! — esbravejou o pai. — O senhor O'Neill estava lá também e nos contou que você não presta atenção. Disse até que já a castigou com a vara, mas você não toma jeito. Parece alheada, fica com a cabeça no ar, não ouve o que ele diz, não se concentra. Como espera aprender assim?
— Ela não aprende porque é burra! — disparou Kate.
— Marianne não é burra! — defendeu Ross.
— Se não fosse burra, aprenderia como as outras.
— Ah! meu Deus — queixou-se Kate —, o que foi que fiz para merecer uma filha assim? Uma filha estúpida, que nem consegue aprender as primeiras letras!
— E como pensa que irá fazer um bom casamento? — tornou o pai. — Que tipo de marido acha que encontraremos para você? Com certeza, algum operário bronco e pouco instruído. Sim, porque os bons partidos querem moças cultas, que saibam conversar e não façam feio em sociedade.
Marianne não estava entendendo nada. Agora já pensavam até em casamento. Mas como, se ela ia se casar com Ross? Em sua ingenuidade, tentou expor aos pais a situação:
— Papai, se o problema é esse, não precisa se preocupar. Quando crescer, vou me casar com Ross...
— Sua tola! — vociferou David, completamente irado. — Ross é seu primo!
— É verdade — confirmou o menino. — Marianne e eu já combinamos tudo...
— Casar — desdenhou David. — Você não sabe o que diz, Ross. Pensa que seu pai vai permitir que você se case com a prima estúpida? Logo você, que é tão inteligente?
As crianças, com medo de David, se calaram, enquanto Kate continuava em seu ataque:
— Escute aqui, Marianne, você vai aprender a ler de qualquer jeito, ou o castigo vai ser severo.
— É isso mesmo — concordou David. — Não vou permitir que os outros digam por aí que David Landor possui uma filha analfabeta porque não consegue entender a cartilha. De jeito nenhum! Ou você aprende, ou mando você para um colégio interno em Newcastle, e você só vai nos ver nas férias. Entendeu?
Marianne nem de longe imaginava onde ficava Newcastle, mas desconfiava que deveria ser muito longe de Londres. Vencida e humilhada, ela soluçou e, com o pranto a embargar-lhe a voz, respondeu sentida:
— Sim, papai...
A conversa estava encerrada. Pouco depois, o pai de Ross chegou e ele foi para casa, deixando Marianne sozinha. Subiu para seu quarto e fechou a porta, atirando-se na cama para chorar. Sentia-se só e amedrontada. Não queria sair dali. Se os pais a separassem de Ross, seria melhor que estivesse morta.

5
Ao entrar na escola naquele dia, Marianne sentiu algo diferente no ar. As meninas todas olharam para ela ao mesmo tempo e cochicharam, algumas rindo, outras balançando a cabeça. Em seus rostos, Marianne podia ler a reprovação e o sarcasmo.
Sentada em sua carteira, livro aberto à sua frente, esforçava-se para entender o que o professor dizia. O senhor O'Neill a olhava como se ela fosse uma aberração. Já não lhe dava mais muita importância. Estava certo de que ela não era inteligente e não estava disposto a perder seu tempo com quem não tinha condições de aprender.
Durante os dias que se seguiram, Ross entregou-se à difícil tarefa de ensinar Marianne a ler. Apanhou a cartilha, sentou-se com ela à mesa e tornou-se seu professor. No começo, não foi fácil. Ela não conseguia se concentrar, pois a mente não se fixava na lição.
— Escute, Marianne — disse—lhe Ross, certa vez —, você tem que se esforçar. Ou quer se mudar para Newcastle e nunca mais me ver?
A ameaça fora proposital, para deixá-la chocada. Ross dissera que Newcastle ficava perto da fronteira com a Escócia. Ela também não sabia onde ficava a Escócia, mas ele lhe mostrou no mapa, e pela distância que seu dedo percorrera, indo de uma cidade a outra, percebeu que deveria ser mesmo muito longe. Não queria ir. Morreria se fosse.
— Não quero ficar longe de você...
— Pois então, tem que se esforçar. Se não, seus pais mandam você para lá e nós não nos veremos mais. Não é isso o que quer, é? — ela balançou a cabeça. — Pois então vamos. Tente. Sei que pode.
Marianne concentrou a atenção no papel e no que Ross dizia. De repente, tudo lhe pareceu fácil. O a ficou familiar, assim como as demais vogais. Em poucas horas, já memorizara todas. Nos dias seguintes, Ross lhe ensinou as consoantes e formou as primeiras sílabas, sempre acompanhando a cartilha. Marianne ia aprendendo com facilidade, lendo as palavras simples que compunham as primeiras lições. Em pouco tempo, já conseguia ler algumas frases, até que, finalmente, alcançou o nível da turma.
A pouco menos de uma semana dos exames finais, Marianne já estava pronta. Fez a prova com capricho, esforçando-se para não errar. O resultado foi brilhante, e até o professor se espantou.
Marianne aprendia. Quando queria, era capaz de aprender qualquer coisa. O que acontecia era que, na maioria das vezes, não tinha vontade. Era difícil se concentrar, porque sua mente não se fixava em nada por muito tempo, já que nada prendia seu interesse. Distraía-se com qualquer coisa, principalmente quando voltava os pensamentos para Ross.
O senhor O'Neill, apesar de rigoroso, era um homem justo à sua maneira e não pôde deixar de elogiar o resultado de Marianne. Ao entregar-lhe a prova corrigida, a única nota dez da turma, fez grandes elogios, não só ao seu desempenho, como à sua enorme força de vontade, que acabara por contrariar todas as expectativas que tinha a respeito dela.
Quando saiu da escola, Ross a estava esperando e correu para ela assim que despontou no topo da escada.
—E então? — indagou ansioso. — Como foi?
—Tirei dez, Ross. Dá para acreditar?
Duas meninas vinham descendo as escadas. Ao passarem por eles, ouviram o comentário de Marianne, e uma disse bem baixinho à outra:
—Não dá para acreditar mesmo.
Apesar do cochicho, Ross escutou. E Marianne também. Ela ficou parada no meio da escada, vendo as meninas se afastarem. Não sabia se chorava ou se corria para esbofeteá-las. Ross, contudo, não lhes deu importância. Puxou a prima pela mão e finalizou:
— Deixe-as para lá. Estão com inveja. Vamos correndo contar a novidade a tia Kate.
A felicidade que sentira havia poucos minutos súbito se esvaíra. Parecia que aquelas meninas, com seu comentário maldoso, haviam despertado uma raiva desconhecida dentro dela. Sentia raiva de tudo e de todos: dos pais, dos irmãos, do professor, das colegas. Só não sentia raiva de Ross.
A seu lado, Luther caminhava com eles. Mãos para trás, ia mentalmente falando para Marianne:
Droga, cansei de esperar! Está certo que prometi não aparecer para você e não pretendo quebrar a minha promessa. Afinal, sou um homem de palavra — riu debochadamente e continuou: — Mas é que está demorando muito. Pensei que você fosse logo chamar por mim. Acontece que esse aí não deixa, não é mesmo?
Apontou para Ross, que não percebia a sua presença. Só Marianne percebeu. Não estava vendo o espírito, mas começou a sentir uma estranha sensação de torpor, e todos os seus pelos se eriçaram.
— Por isso — prosseguiu ele —, resolvi dar um empurrãozinho. Sabe, Marianne, as pessoas não gostam de você, e você se irrita à toa. Veja que ótima combinação! Você nem imagina como podemos nos utilizar de pessoas que nem conhecemos, mas cujas vibrações de menor lucidez facilitam o nosso acesso — riu novamente. — E depois... tem a sua... dificuldade.
Bateu com a ponta do dedo na cabeça de Marianne que, sentindo o cutucão, gritou espantada:
— Ai!
— O que foi? — indagou Ross a seu lado.
A menina olhou ao redor, desconfiada. Sentira nitidamente alguém bater em sua cabeça. No entanto, como não via nenhum espírito, achou melhor repetir para si mesma que aquela voz e a sensação que a acompanhava eram fruto da sua imaginação. E a cutucada... era impressão.
Luther soltou uma gargalhada e foi embora. Tinha outras coisas a fazer e voltaria mais tarde, quando fosse a hora.
Finalmente, as férias de verão chegaram, e Marianne se viu livre das maçantes lições. Podia passar os dias todos ao lado do primo querido, sem ter que se ocupar com coisas inúteis.
Sentada à mesa da varanda, construía um castelinho de cartas com Ross. Os dois estavam distraídos, colocando as cartas umas sobre as outras, entusiasmados com a altura da construção. O irmãozinho de Marianne, Kevin, de apenas três anos, puxou uma cadeira e, auxiliado por Ross, sentou-se à mesa para olhar. Estava admirado. O castelo ia subindo cada vez mais, e ele olhava, extasiado, as cartas que balançavam sem cair.
De tão admirado, estendeu a mãozinha para a frente, na esperança de apanhar alguma. Como Marianne não permitia, fez um gesto mais brusco e acabou por esbarrar no castelo, que se desmanchou com leveza. Ross riu e gentilmente puxou a mão do menino, falando com brandura:
- Seu danadinho. Entregou o castelo do primo.
Kevin riu gostosamente e olhou para Marianne, que o fuzilava com o olhar:
- Seu garotinho intrometido! – gritou ela, apertando a mão dele. – Quem mandou?
Na mesma hora, Kevin desatou a chorar, tentando soltar a mão que Marianne apertava.
- Solte-o, Marianne – pediu Ross. – Ele não tem culpa. É pequenino.
- É um idiota, isso sim! Por que não se mete com os seus brinquedos?
Kevin esperneava, tentando livrar-se das garras da irmã. A mãe, ouvindo o choro do filho, veio correndo lá de dentro e parou estupefacta.
- O que está fazendo, Marianne? – censurou aborrecida. – Largue já o seu irmão!
- Não largo! Ele é um intrometido!
Deu-lhe um beliscão no braço, e Kevin soltou um grito estridente, deixando Kate pálida de horror e indignação. Não podia permitir que a filha machucasse os menores. Sem nem pensar, desferiu uma bofetada no rosto de Marianne, que começou a chorar também.
- Isso se faz com seu irmão? – esbravejou Kate. – Uma menina desse tamanho! Que covardia!
Marianne encarou-a com raiva. Aquele tapa doía-lhe imensamente, e ela retrucou, com a mão no rosto:
- Você me bateu!
- Bati e bato de novo, se você não se comportar. Não vou permitir que maltrate seu irmão, que é muito menor que você.
Com olhar ensandecido, Marianne começou a se levantar e teria avançado na mãe de Ross não a impedisse.
— Nem se atreva! — zangou ele.
— Mas Ross, ela me bateu! Você viu.
— Ela é sua mãe, e você não tem o direito de desafiá-la.
— Você também está contra mim?
— Ninguém está contra você.
— Está sim! Vai trocar de lado, é? Vai defender essa mulher?
— Isso lá é jeito de se referir a sua mãe, menina? — objetou Kate indignada.
— Você não é minha mãe!
Kate perdeu a cabeça. Colocou Kevin no chão e desferiu novo tapa no rosto de Marianne, dando-lhe violento puxão de orelha.
— Vá já para o quarto, de castigo! E hoje, não tem jantar!
Saiu puxando Marianne pela orelha, com Ross atrás, tentando contornar a situação. Kate, contudo, estava perplexa e furiosa. Arrastou Marianne pelas escadas e trancou-a no quarto. Do lado de fora, Ross ainda ponderava:
— Por favor, tia Kate, ela não fez por mal.
— Ela tem que me respeitar.
— Sei que ela errou, mas foi sem maldade. Por favor, deixe-me ficar com ela.
— Não! Marianne precisa aprender. E vou contar tudo ao seu pai, Marianne, está ouvindo? — berrou, com a boca encostada na porta.
Barulhos no corredor e na escada indicavam que a mãe havia ido embora, levando Ross com ela. Sozinha, veio o arrependimento. Marianne não compreendia por que dissera aquelas coisas nem por que beliscara o irmão. Não queria fazer nada daquilo, mas de repente, não conseguiu se controlar. Uma fúria desmedida se apoderou dela, despertando o desejo de maltratar o menino. Não faria mais aquilo.
Da próxima vez, conseguiria se controlar. Se não por ela, ao menos por Ross, que era seu amigo e não merecia passar por aquela situação.
Marianne não sabia, mas, a partir daí, dificilmente conseguiria se controlar outra vez.

6
Com as mãos mergulhadas na bacia, Kate esfregava as roupas, pensando no que fazer com a filha. A cada dia, Marianne se tornava mais estranha. No começo, era só arredia. Agora demonstrava uma agressividade crescente. O episódio com Kevin fora preocupante, mas ela não comentara nada com David, com medo da sua reação.
Estava ficando difícil controlar Marianne. O verão ainda não havia terminado, e ela passava os dias em casa, brincando sozinha ou com Ross. Kate não entendia por que Ross era o único a quem ela escutava. Parecia mesmo ser o único de quem gostava. Levantou os olhos da bacia e vistoriou o quintal, onde as crianças brincavam.
Do outro lado, Roger atirava pedras com um estilingue, tentando acertar as frutas maduras que pendiam dos galhos mais altos. Como não conseguia sucesso, resolveu subir na árvore. Lá em cima, esticou-se o mais que pôde, na tentativa de apanhar as frutas. Mas elas estavam fora de seu alcance, e ele foi se esticando mais e mais, sem perceber que o galho em que deslizava era muito fino e não aguentaria seu peso. Não demorou muito, e este se partiu. Roger caiu em queda livre, soltando um gemido de dor quando bateu no chão.
Vendo o filho caído, chorando e gemendo, Kate largou a bacia e o sabão e correu, ao mesmo tempo que Ross, que também escutara os gritos do primo. Marianne estava com ele, desenhando num caderninho branco, e nem se mexeu. Apenas levantou os olhos e espiou na direção do barulho para, em seguida, concentrar sua atenção nos desenhos novamente.
Kate e Ross alcançaram Roger quase ao mesmo tempo, e a mãe falou afobada:
— Roger, meu filho, o que foi isso? Machucou-se?
— Ai, ai, mamãe, ai!
O menino chorava, segurando o braço arranhado, onde um calombo crescia na altura do cotovelo.
— Depressa, Ross — falou Kate. — Vá chamar o doutor Brown.
Na mesma hora, Ross saiu desabalado a caminho do consultório médico.
— Ele está atendendo um paciente — informou uma senhora na antessala. — Vai ter que esperar.
Ross acomodou-se na poltrona para esperá-lo. Quando, por fim, ele apareceu, foi logo falando:
— Doutor Brown, doutor Brown! Tia Kate o está chamando. Foi o Roger... Caiu e machucou o braço.
O doutor Brown passou a mão na cabeça de Ross e falou bondosamente:
— Diga a sua tia Kate que agora não posso ir. Ainda tenho alguns clientes para atender. Fale para ela colocar o menino na cama e fazer-lhe uma compressa com água fria. Mais tarde, irei vê-lo.
Enquanto isso, Kate já havia colocado Roger na cama e pusera-se à espera do médico. Por momentos, esquecera-se dos outros filhos, que continuavam sozinhos no quintal. Pela janela, ouviu-os choramingar lá embaixo, chamando por ela. Mais adiante, Marianne continuava com seus lápis e papéis, sem se importar com o que faziam.
— Marianne! — chamou Kate. A menina ergueu os olhos e encarou a mãe, sem responder. — Traga seus irmãos para cima. Precisamos esperar o doutor Brown.
De forma mecânica, Marianne se levantou, apanhou Suzie no colo de qualquer jeito, pegou Kevin pela mão e saiu puxando-o. Fazia algum tempo que o menino sentia medo da irmã, e foi esse temor que fez aumentar o seu pranto. Marianne não tinha a menor paciência com ele nem era carinhosa. Obedecia ao comando da mãe, sem se dar conta de que puxava o garoto como se ele fosse um fardo, ao invés de uma criança.
Os gritos de Kevin chegaram aos ouvidos de Kate, que foi para a janela novamente, deparando-se com uma cena que julgou revoltante.
— Tenha calma, Roger — disse para o filho machucado. — Mamãe vai lá embaixo e já vem.
Rodou nos calcanhares e desceu as escadas feito uma bala, alcançando Marianne quando ela já estava na porta da cozinha.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou zangada.
Marianne não entendeu bem a pergunta e respondeu com simplicidade:
— Estou levando os dois para cima.
Kate sentiu o sangue subir-lhe às faces. Marianne parecia estar debochando dela, o que lhe causou imensa irritação. Na verdade, Marianne estava apenas obedecendo. Recebera ordens de subir com as crianças, e era isso o que fazia. Por sua cabeça não passava que deveria ser carinhosa ou cuidadosa. Tinha que fazer o que a mãe mandava.
Ela também era pequena e procurou segurar os irmãos da melhor forma possível, de um jeito que seu corpo franzino suportasse. E o melhor jeito era aquele. Para a mãe, parecia que segurava e arrastava dois fardos. Para ela, simplesmente obedecia, e o fazia da única maneira que conseguia.
Inesperadamente, Kate partiu para cima dela, arrancou-lhe Suzie do colo e puxou Kevin de sua mão, acomodando os dois no chão, perto da pia. Em frações de segundo, voltou e acertou sonora bofetada em Marianne, causando-lhe genuíno espanto.
— Sua desaforada! — vociferou Kate. — Isso é jeito de falar com sua mãe? Onde foi que aprendeu esse cinismo?
Marianne nem sabia o que era cinismo e, por isso, não respondeu. Ficou parada no mesmo lugar, com a mão sobre a face, encarando a mãe com frieza. Cada vez mais irritada, Kate continuava a esbravejar:
— Não estou aguentando mais os seus desaforos! Isso não vai ficar assim. Alguém precisa dar um jeito em você!
A menina não dizia nada. Continuava olhando para a mãe com cara de quem não a conhecia. Achava mesmo que aquela mulher não era sua mãe, mas uma estranha, que gritava com ela sem motivo algum.
— Peça desculpas, Marianne!
Desculpas por quê? Ela não sabia. Não havia feito nada de errado. Por que haveria de se desculpar?
— Peça desculpas, ande! Estou lhe avisando: ou pede desculpas, ou vai apanhar novamente!
Marianne nem piscava. Furiosa, Kate segurou-a pelos braços e arrastou-a até a poltrona da sala. Sentou-se apressadamente e virou a menina de bruços sobre suas pernas, acertando-lhe diversas palmadas nas nádegas.
— Sua pirralha malcriada! Vai ter o que merece!
Sentindo a dor das palmadas, Marianne começou a gritar e a se remexer, tentando se desvencilhar do jugo da mãe. Kate, contudo, não aliviava. Continuava a bater com força, sem nem se importar com os gritos amedrontados de Kevin e Suzie.
— Peça desculpas, vamos! — gritava, cada vez mais zangada. — Estou mandando, peça desculpas!
Marianne berrava de dor. Parecia mesmo um animal ferido. Mas não pedia desculpas. Ao contrário, começou a xingar a mãe com selvageria:
— Cretina! Miserável! Desgraçada!
Kate saiu do sério. Era muita falta de respeito. Em dado momento, Marianne conseguiu se desvencilhar e correu para a porta, e Kate partiu em seu encalço. Apanhou-a pelos cabelos, dando-lhe tapas a esmo. Os golpes acertaram-na no rosto, nos braços, no peito, em todo lugar.
Foi quando Ross chegou. Vendo aquela cena horrorosa, correu em direção a elas e segurou o braço da tia, implorando em desespero:
— Pelo amor de Deus, tia Kate! Solte-a! Ela é apenas uma menina!
Ele tinha razão. Marianne era apenas uma criança, mas fazia coisas que crianças normais não eram capazes de fazer. Os gritos desesperados do sobrinho a trouxeram de volta à razão, e Kate soltou os cabelos da filha, cessando os golpes. Marianne, aos prantos, foi escorregando até o chão, ocultando o rosto entre as mãos e dando livre curso às lágrimas.
Já arrependida, Kate tentou erguê-la, em vão. Marianne não queria sua ajuda e se desviou dela, estendendo as mãos para Ross, que a ajudou a se levantar. Os dois subiram as escadas lentamente, e Ross ainda teve tempo de lançar um olhar de conforto para a tia, ao passo que Marianne evitou encará-la.
No quarto, Marianne não disse nada. Foi para a cama, deitou-se e esperou até que as lágrimas secassem. Enquanto Ross lhe alisava os cabelos, foi-se acalmando e, poucos minutos depois, adormeceu. De vez em quando, agitava-se no sono, sacudida por um soluço perdido.
Certificando-se de que ela dormia profundamente, Ross beijou-lhe os cabelos e saiu, fechando a porta sem fazer barulho. Pegou a direção do quarto dos primos, onde a tia estava, apalpando o braço de Roger. Os outros dois, sentados no chão perto dela,
se distraíam com alguns bichinhos de pano.
— Tia Kate... — chamou baixinho.
A tia fez sinal para que ele entrasse e, tentando não pensar em Marianne, indagou:
— Onde está o doutor Brown?
— Está atendendo uns clientes. Disse para você fazer compressas de água fria no braço de Roger até que ele possa vir vê-lo.
— Muito bem. Fique aqui e tome conta deles.
O menino sentou-se ao lado de Roger, que acabara adormecendo, o braço, roxo e inchado, apoiado num travesseiro. Kate acariciou a testa do filho e, antes de sair, perguntou meio sem jeito:
— E Marianne?
Havia tanta angústia no olhar do sobrinho que ela quase chorou. Ross abaixou os olhos com tristeza e respondeu num sussurro:
— Está bem. Está dormindo.
Kate balançou a cabeça e saiu para o corredor Parou em frente à porta do quarto da filha e colou o ouvido à porta. Silêncio. Vagarosamente, rodou a maçaneta e entrou. Marianne dormia profundamente, o rosto e os braços cheios de hematomas. Sentiu o remorso corroer-lhe a alma. A filha podia ser meio esquisita, mas era ainda uma criança e não tinha culpa de ser do jeito que era.
O médico veio mais tarde e examinou o garoto. Não fora nada de mais, apenas uma pequena torção. Enfaixou o braço de Roger e receitou arnica para diminuir a dor e a inflamação. Em pouco tempo estaria bom.
Ao cair da noite, David chegou e foi colocado a par do acidente com Roger e do incidente com Marianne.
— Temos que tomar uma providência — comentou David. — Isso não pode ficar assim.
— Eu sei. Ela está se tornando cada vez mais agressiva e debochada.
— Onde será que anda aprendendo essas coisas? Será que é com Ross?
— Não creio. Ele é um menino muito educado e cortês. Jamais me respondeu mal ou fez qualquer má-criação.
— Na escola não deve ser. É um dos melhores colégios para meninas da região.
— Não sei não... Às vezes fico pensando. Será que ela não tem nenhum problema mental?
— Não diga besteiras. Marianne é rebelde e malcriada. Só isso. Mas não se preocupe. Eu mesmo darei um jeito nela.
— Não faça nada por enquanto. Já basta a surra que lhe dei. Sei que me excedi e acho que não deveríamos puni-la outra vez.
Kate encerrou o assunto, mas David não se convenceu. Alguma coisa dentro dele o deixou inquieto. No fundo, não achava nenhuma besteira a possibilidade de Marianne ter mesmo algum problema mental. Já havia reparado nisso. Nos últimos dias, olhando para a filha, ficou imaginando se ela não seria meio retardada. Marianne fazia coisas muito estranhas. Era rebelde, não se relacionava com ninguém. E agora, Kate lhe dizia que estava ficando agressiva e debochada. Além de tudo, parecia não se importar com nada. Os problemas da família não a afetavam, e ela não se interessava pelos irmãos. Podiam estar bem ou doentes. Para ela era indiferente. Marianne não era uma menina afetiva. À exceção de Ross, não se dava com ninguém.
David virou para o lado e tentou dormir. Se suas desconfianças estivessem corretas, seria muito doloroso para todos. Sem falar na vergonha. Ter uma filha maluca não era do agrado de ninguém. Poderia até comprometer o seu cargo na empresa e o futuro dos outros filhos. Mas o que poderia ele fazer? Levá-la ao tal psiquiatra? Interná-la? Talvez fosse a melhor ou a única solução.
O difícil seria convencer a mulher, que era muito apegada aos filhos. Precisava dar tempo ao tempo. Mais tarde, tomaria as providências que se fizessem necessárias.

7
O verão havia chegado ao fim e, com ele, também as férias escolares. Apesar de nada animada com a volta às aulas, Marianne foi para a escola como sempre. Conseguira passar de ano, e o senhor O'Neill, que as acompanharia durante todo o curso primário, deu as boas-vindas à turma.
No final das aulas, Ross lá estava para acompanhá-la. De mãos dadas, seguiam seu caminho, como sempre faziam. Naquele dia, porém, algo estranho acontecera. O pai de Ross voltara mais cedo do trabalho e deixara ordens para que ele fosse imediatamente para casa.
Ross entrou devagarzinho. O pai estava sentado na sala, anotando números num papel. Quando viu o menino, soltou o lápis e sorriu, fazendo sinal para que ele se aproximasse.
— O que foi, papai? — indagou desconfiado. — Foi despedido?
Nathan deu um sorriso maroto, apertou de leve o nariz do filho e respondeu bem humorado:
— Não, meu filho, não fui despedido. Fui promovido.
— Promovido?
— É. Agora sou chefe de produção. Vou ganhar mais e poderei lhe dar uma vida melhor.
- Que bom, pai! Você merece.
- O senhor Bradley, meu patrão, está tão satisfeito com o meu trabalho que me promoveu e me deu um aumento, deixando-me o resto do dia de folga. Por isso, vim logo para casa, a fim de lhe contar as novidades.
- As novidades? Tem outra?
Nathan pigarreou e começou a falar, cautelosa e pausadamente:
- Já faz alguns anos que sua mãe morreu... Sua tia Kate tem sido muito boa para você, e eu lhe serei eternamente grato. Contudo, creio que chegou a hora de você ter uma mãe de verdade.
- Mãe de verdade? Como assim? Já tenho tia Kate.
- Eu sei... – balbuciou, evitando encará-lo. – Como disse, serei eternamente grato a sua tia. Entretanto, ainda sou jovem, e você, uma criança.
- O que está tentando me dizer?
Ele pigarreou novamente, sentou o menino em seu colo e disparou:
- Faz algum tempo que conheci uma moça... Seu nome é Lilian, e... vamos nos casar.
Ross não sabia o que dizer. Não sabia se a novidade era boa ou ruim.
- O que isso vai mudar em nossas vidas?
- Não vai mudar nada. Lilian é uma boa moça. Tenho certeza de que você vai gostar muito dela. Essa semana pretendo apresentá-la a você e ao resto da família. Já falei com David e Kate, e sua tia concordou em preparar um jantar aqui em casa, no sábado. Assim, todos poderão se conhecer.
- Por que não me contou antes? – rebateu ele magoado. – Por que não me disse que estava saindo com alguém?
- Bem, esses não são assuntos que se converse com crianças.

- Sou seu filho.
— Ainda assim. Mas não se preocupe. Tenho certeza de que vai gostar dela, e ela de você.
Lilian era uma mulher muito esnobe e antipática, e ninguém simpatizou com ela. Tinha idéias extravagantes sobre a criação dos filhos e não achava certo misturarem-se crianças de sexos diferentes. Era uma clara referência à amizade entre Ross e Marianne, com quem implicara desde o início.
— Meninos são diferentes de meninas. Pensam coisas diferentes, agem de forma diferente, gostam de coisas diferentes. Não fica bem meninos e meninas dormirem no mesmo quarto, por exemplo.
— Nem quando são primos? — quis saber Ross, preocupado.
— Nem assim. Quando bem pequeninos, ainda vá lá. Mas depois que entram para a escola, suas cabecinhas começam a se modificar, e sabe-se lá o que pode vir a acontecer.
Kate tossiu de leve e indagou:
— Não acha que está sendo severa demais, Lilian?
— Lilian teve educação muito rígida — explicou Nathan.
— É verdade — acrescentou Lilian. — Fui criada num dos bairros mais tradicionais de Londres e duvido que lá um filho não se refira ao pai como senhor. De onde vim, as coisas são diferentes.
Outra clara alusão a eles. As famílias de Ross e Marianne não eram muito ligadas a formalidades, o que parecia aborrecer Lilian.
— Mas aqui também é Londres! — cortou Ross, indignado com aquela exclusão.
— É, mas é diferente — respondeu Lilian, de má vontade. — As crianças de lá não andam soltas como as daqui.
— Perdão, Lilian — era Kate novamente. — Fala em lá e aqui como se estivesse se referindo a cidades diferentes, como se fôssemos provincianos ou roceiros. E depois, nossas crianças não andam soltas. Do jeito como fala, parece que as criamos em meio à promiscuidade.
Sentindo o rubor cobrir-lhe as faces, Lilian tratou de se desculpar:
— Não foi o que quis dizer.
Percebendo o mal-estar que se instalara, David mudou de assunto:
— Confesso que foi uma surpresa para nós esse noivado assim tão repentino. Nathan nunca nos falou nada a respeito.
— É que não queria precipitar as coisas — esclareceu Nathan. — E depois, tinha o Ross. Não queria que ele ficasse preocupado.
Ross não conseguia ver onde estava o problema em saber, mas não disse nada. Não gostou de Lilian e olhou discretamente para Marianne, que comia um pedaço de pudim e parecia nem se dar conta do que estava acontecendo. Mera ilusão! Marianne se roia por dentro, certa de que aquela mulher ainda acabaria lhe causando problemas.
— Como foi que se conheceram? — tornou David, fingindo interesse.
— Depois que meus pais morreram, tive que me arranjar — esclareceu Lilian. — Procurei emprego, mas não consegui nada. Até que uma amiga me falou de uma vaga de fiandeira.
— Trabalha na mesma fábrica em que Nathan? — indagou Kate.
— Sim — respondeu ele. — No mesmo setor. Lilian é uma de minhas subordinadas.
Estava tudo explicado. Kate olhou de soslaio para o marido e percebeu que ele também compreendera. Aquela Lilian era uma interesseira. Estava só no mundo, sem ninguém que a amparasse, e viu em Nathan um homem tolo o bastante para sustentá-la. Nathan não quisera estudar feito David. Podia não ser rico, mas agora, com a promoção, melhoraria um pouco de vida.
— E você pretende continuar trabalhando depois do casamento, Lilian? — tornou David, em tom de malícia.
— Não! — exclamou Nathan. — Imagine se vou deixar minha mulher trabalhar fora! Lilian não vai mais precisar disso. O que vou ganhar será suficiente para nos sustentar com um certo conforto.
Nathan segurou a mão de Lilian por cima da mesa, e ela lhe endereçou um sorriso em que apenas ele não identificava a farsa. Marianne achou que aquela mulher sorria feito uma bruxa, e em sua cabeça já se delineava o rosto enrugado e o nariz pontiagudo, coberto de verrugas. Precisava ter cuidado com as vassouras. Se não, correria o risco de vê-la voando defronte a sua janela numa noite de lua cheia.
Nada do que ninguém dissesse teria demovido Nathan da ideia de se casar. Os planos já haviam sido feitos, e tudo estava devidamente arranjado, de forma que, em três meses, o casamento se realizou. O casal seguiu em viagem de lua de mel para Canterbury, deixando Ross hospedado na casa dos tios. Foi uma alegria para os dois. Se antes já não se largavam,
falou agora então, iam dormir juntos e acordavam juntos. Ao contrário de Lilian, Kate não se importava que ele dormisse no quarto da filha. Ambos eram primos, e ninguém levava a sério aquela história de casamento. E depois, que mal poderia haver?
Kevin e Roger dormiam em outro quarto, e Suzie, por ser ainda muito pequenina, dormia junto com os pais. David montou uma cama de armar no quarto de Marianne, e Ross quase se mudou para lá. No fundo, até que apreciavam a companhia do menino. Além de muito educado, a presença de Ross fazia um grande bem a Marianne. Desde a sua chegada, sua melhora era visível. Apesar de ainda continuar meio alheia a tudo, já não estava tão agressiva e passou a se interessar mais pelos estudos.
A lua de mel durou apenas uma semana. Fora o máximo que Nathan conseguira junto ao patrão, e até que fora muito. De volta ao lar, retomou suas obrigações e deixou Lilian à vontade para cuidar da casa e do filho. A curta estada de Ross em casa de Marianne havia terminado, e a melhora que ela experimentara naquela semana desapareceu em poucos segundos. Quando viu Ross atravessar o quintal rumo à sua própria casa, Marianne caiu em profunda depressão.
— Não fique triste — consolou a mãe. — Tudo vai continuar como antes. Ross só foi para casa, que é logo aqui ao lado. Daqui a pouco ele volta, você vai ver.
Não foi o que aconteceu. A ida à escola seguiu como sempre, contudo, na volta, veio a primeira surpresa. Em casa de Marianne, a mesa estava posta apenas para dois, e não para três, como era de costume. Roger, Kevin e Suzie, como eram pequenos e não precisavam ir à escola, comiam mais cedo, e Kate deixava para almoçar em companhia da filha e do sobrinho.
— O que foi que houve, tia Kate? — indagou Ross preocupado. — Almoçou mais cedo hoje, foi?
Kate fitou-o com desgosto e respondeu desanimada:
— Não. Lilian veio aqui e deixou ordens para você ir para casa assim que chegasse. Disse que, de hoje em diante, não preciso mais cuidar de você.
— O quê? — indignou-se Marianne.
— Isso é ridículo — observou Ross irritado. —Não vou.
— Lamento, mas você tem que ir. Lilian agora é quem manda.
— Não quero. Ela não é minha mãe. Você é que é.
— Não posso fazer nada — retrucou Kate emocionada, esforçando-se para não chorar.
— Eu tentei argumentar, dizendo que você e Marianne estavam acostumados a almoçar e estudar juntos. Mas ela disse que não, que você deveria ir e que, daqui para a frente, as coisas seriam diferentes.
— Ela não pode mandar em mim assim.
— Pode sim. Ela é a mulher do seu pai. Sua madrasta. Tem mais direitos sobre você do que nós.
Ross olhou para Marianne com imenso desgosto e percebeu que seus olhos iam se enchendo de lágrimas. A menina agarrou-se a ele e começou a gritar:
— Não vou deixar, Ross! Não vou! Ela não pode levá-lo embora!
— Solte-o, Marianne! — ordenou a mãe.
— Não solto! Aquela bruxa...! Vai ver só uma coisa!
— Não fale assim de sua nova tia.
— Ela não é minha tia! Não é nada minha! Nem de Ross também! É apenas uma bruxa velha, feia e horrorosa...!
— Você não tem mesmo nenhuma educação, menina!
Ouvindo essa voz estranha, todos se voltaram ao mesmo tempo. Parada na porta da cozinha, Lilian encarava Marianne com ar de censura. Como Ross demorava a aparecer, resolvera ir, ela mesma, cuidar daquele assunto. Marianne era uma péssima influência para o menino. Pelo que Nathan contara, era agressiva e mal-educada, fato que agora constatava pessoalmente.
— Ross já estava de saída — disse Kate, sem graça — Não é mesmo, Ross?
Ele encarou a tia com ar de súplica, e Marianne respondeu com raiva:
—Não estava não. Ele não vai!
— Ah! vai sim — contestou Lilian. — E não vai ser uma menina mal-educada feito você quem irá impedir.
Lilian adiantou-se e colocou a mão no braço de Ross, tentando puxá-lo para fora. O menino enrijeceu o corpo e fez uma cara de zanga, enquanto Marianne soltava gritos esganiçados:
— Solte o Ross, sua bruxa! Você não é a mãe dele! Minha mãe é que é!
— Fique quieta e não se meta! — respondeu Lilian, furiosa. — Você não é boa companhia para Ross!
— Espere um momento! — intercedeu Kate, enfurecida. — Sei que você tem idéias diferentes sobre como educar os filhos, mas isso não lhe dá o direito de vir aqui insultar a minha filha. Marianne é apenas uma criança.
— Que não tem um pingo de educação. É no que dá, deixar os filhos largados por aí.
— Não vou permitir que você venha a minha casa me destratar ou a minha família. Aliás, não me lembro de havê-la convidado.
— Vim buscar o Ross. Ele tem que me obedecer. Kate estava furiosa. Fitou o menino com ar de autoridade a falou decidida:
— Vá com sua madrasta, Ross.
— Mas mãe... — contestou Marianne.
— Deixe — cortou Kate. — Depois teremos uma conversa com seu tio Nathan.
— Eu não quero ir — rebateu o menino. — Ela não manda em mim.
— Mando sim, seu atrevido — repreendeu Lilian. — Não aprenda a ser malcriado também.
— Vá, Ross, estou dizendo — insistiu Kate. — Depois conversaremos.
Vendo que não tinha saída, Ross obedeceu. Lilian tentou segurar-lhe a mão, mas ele a puxou bruscamente. Esperou que ela passasse e saiu atrás dela.
— Até logo — falou ela secamente.
Kate não respondeu. Segurou a filha, que chorava descontrolada, e estreitou-a contra o peito. Talvez aquele tenha sido um dos poucos gestos de carinho de Kate para com Marianne, e a menina, sentindo-lhe o afeto, agarrou-se a ela e desabafou confiante:
— Ah! Mãe... mãe! Ross é tudo o que tenho.
— Sossegue, Marianne. Seu pai dará um jeito.
Só muito tempo depois foi que Marianne se acalmou, embalada pelo amor da mãe. Todavia, recusou-se a comer, deixando Kate preocupada e cheia de raiva de Lilian e de sua incompreensão.

8
Quando David entrou na cozinha da casa do irmão, a havia acabado de jantar.
— À noite, Nathan... Lilian...
— Ah! David, boa noite — respondeu o irmão. Entre, entre. Acabamos de jantar. Aceita uma xícara de café?
— Não, obrigado... Será que poderíamos conversar um instante?
Nathan assentiu e levantou-se da mesa, indo com ele para a sala. David seguiu-o em silêncio e sentou-se no sofá, olhando-o sem saber por onde começar.
- Muito bem — falou Nathan. — O que foi que houve?
Davi pigarreou e olhou na direção da cozinha, onde Lilian tirava a mesa do jantar, atenta às vozes do marido e do cunhado.
— Bem começou David —, é sobre o Ross.
- O que tem ele? Fez alguma coisa errada?
- Não se trata disso. Ross sempre foi um menino muito educado. E você sabe o quanto ele é amigo de Marianne.
- Sei...
- Quando sua mulher morreu e você veio para cá, Rossi era pouco mais do que um bebê, e Kate cuidou cuidou dele como se fosse seu próprio filho. Mesmo depois que as crianças nasceram, Kate continuou se dedicando a ele.
— Eu sei. Ninguém é tão grato a Kate como eu. Ela foi uma verdadeira mãe para Ross durante todos esses anos.
— Você sabe o quanto as crianças se apegaram a ele. Principalmente Marianne.
— Eu sei. Eles são como irmãos.
— Pois é. Por isso é que não entendo por que agora você pretende afastá-los.
— Quem disse que quero afastá-los?
— Da forma como sua esposa agiu hoje, nem foi preciso dizer.
— O que tem Lilian a ver com isso?
— Ela não lhe contou?
— O quê?
À sua maneira, Lilian contara a Nathan sobre o episódio embaraçoso na casa de Kate. Fora apenas um leve desentendimento, ela dissera, nada com que devesse se preocupar. Pequenas divergências na educação do menino, de que ela agora pretendia, pessoalmente, cuidar.
— Caso não saiba — prosseguiu David —, Lilian foi hoje à nossa casa buscar Ross na hora do almoço e não o deixou ficar...
— Ora, isso não é nada. Lilian está apenas assumindo seu papel de esposa e mãe. Não há mais motivos para que Ross continue dando trabalho a Kate.
— Não foi isso que pareceu. Lilian foi muito arrogante com Kate e Marianne, insinuando que ela não é companhia para Ross.
— Ela disse isso?
— Disse.
— Kate não deve ter entendido direito.
— Entendeu sim. Lilian chamou Marianne de mal-educada. O que ela pensa? Que não damos educação a nossa filha?
— Você tem que concordar que Marianne não é lá nenhum exemplo de boa educação, não é mesmo?
David sentiu o rosto arder. Era a primeira vez que o irmão se referia à sobrinha daquela maneira. Até então, nunca dissera nada. Ao contrário, parecia até gostar da menina e nunca se importou com a amizade entre ela e Ross.
— Você sabe que Marianne é uma menina diferente — prosseguiu David, tentando conter a indignação. —E sabe o quanto a amizade de Ross é importante para ela. Se os afastar, estará condenando Marianne.
— Condenando Marianne a quê?
— Ela é nervosa e agressiva. Ross é o único a quem ela escuta. O que poderá acontecer se Ross desaparecer de repente?
— Acho que você está exagerando. Lilian foi apenas buscá-lo para almoçar em nossa casa, a refeição que ela própria preparou para ele.
— E não deixou que voltasse à tarde.
— Porque tinha que estudar.
— Por que não permitiu que ele estudasse lá em :asa, como sempre fez? Você sabe que ele também ajuda Marianne com os deveres.
— Talvez esteja na hora de Marianne aprender a se virar sozinha. Ela é muito dependente de Ross, e isso não é bom para nenhum dos dois. Afinal, Ross também é apenas uma criança. Não deveria ficar com essa responsabilidade toda.
- Se você pensa assim, então não vejo mais motivo para continuarmos essa conversa.
Ele foi-se levantando para sair, mas Nathan ergueu-se diante dele, barrando-lhe a passagem.
— Ora, vamos, David. Não vamos brigar, não é mesmo? Somos irmãos. Não, ficar desse jeito. Olhe, não se preocupe. É claro que Ross não vai se afastar de Marianne. Eles apenas não se verão tanto. Ross vem da escola, almoça, faz seus deveres e depois, à tardinha, vai visitar vocês. Então? O que acha?
David não respondeu. Empurrou o irmão para o lado e murmurou um boa—noite, que ele retribuiu apenas com um aceno. Depois que ele se foi, Nathan foi até a cozinha, onde Lilian acabava de enxugar a louça do jantar. Sentou-se, serviu-se de uma xícara de café frio e ficou vendo-a cuidar de seus afazeres.
— Onde está Ross? — indagou após alguns minutos.
— Já foi se deitar.
— Tão cedo?
— Isso não é mais hora de criança estar acordada. Francamente, Nathan, você acostumou muito mal esse menino.
Ele deu um suspiro e coçou a testa. Ao final de alguns segundos, considerou:
— Será que é certo o que está fazendo?
— Como assim?
— Você sabe, o Ross... Ele e Marianne estão acostumados um com o outro.
— Ela não é boa companhia para ele.
— Por que diz isso? Ela é só uma menina.
— Uma menina mal-educada e arrogante. Aposto como exerce uma influência daninha sobre o Ross.
— Não sei não. Eles foram criados juntos. São muito apegados. Não sei se é certo separá-los assim.
— É para o bem de ambos, você vai ver. Daqui a pouco, Marianne já vai estar uma mocinha. O que pensa que os outros dirão, vendo-a o tempo todo agarrada à barra da calça do primo?
— David e Kate não gostaram.
— Eles também se acostumarão. Estão com ciúmes, só.
— Gostaria de lhe pedir uma coisa.
— O que é?
— Não impeça Ross de ver Marianne. A menina é meio esquisita.
— Mais um motivo para afastá-los.
— Não, falo sério. Marianne sempre foi uma menina estranha. Não tem amigos, não brinca com as outras crianças, não gosta de festas nem de folguedos. Só gosta do Ross.
— Ela está é mal-acostumada, isso sim. Gosta de Ross porque ele faz todas as suas vontades.
— De qualquer forma, não gostaria de separá-los. Não se esqueça de que devo muito a Kate, que foi uma verdadeira mãe para ele.
— Ele não precisa mais de Kate.
— Mas eu não posso ser ingrato. Kate fez por ele muito mais do que qualquer madrasta faria.
Lilian encarou-o com mágoa e, voltando as costas para ele, respondeu com dissimulado rancor:
— Já entendi tudo. Não sou páreo para Kate, não é? Ela é a mãe perfeita, a mulher ideal. Pena que já é casada com o seu irmão, ou vocês poderiam juntar as duas famílias.
— Jamais repita uma infâmia dessas! — aborreceu-se Nathan. — Kate é minha cunhada, merece todo o meu respeito.
— E eu sou sua mulher. Não mereço também o seu respeito?
— Não se trata disso.
— Você não confia em mim.
— É claro que confio!
— No entanto, não me dá autoridade sobre seu c. Que confiança é essa?
— Não quero desautorizá-la nem impedi-la de dar ao menino o tratamento que julgar mais adequado. Só o que lhe peço é para ir com calma. Traga-o para casa após as aulas, faça-o almoçar e estudar aqui. Mas depois, deixe-o ir. Até a hora do jantar, pelo menos.
Ela fitou-o novamente, respirou fundo e retrucou
— Está bem. Farei como você quer porque o amo e quero evitar discussões. Mas fique sabendo que não concordo com isso!
No dia seguinte, Ross apareceu para buscar Marianne para irem à escola. Ela nem podia definir a alegria que sentiu. Passara todo o dia anterior mais triste do que o habitual, mais acabrunhada e arredia, com medo de haver perdido Ross para sempre.
Marianne se despediu da mãe e desceu as escadas de mãos dadas com o primo, saindo com ele para a rua. Logo ao darem o primeiro passo na calçada, tiveram desagradável surpresa. Lilian estava parada no portão de casa, pronta para sair.
— Bom dia, Marianne — cumprimentou ela secamente.
— Aonde você vai? — retrucou a menina, ignorando o cumprimento da outra.
— Vou acompanhá-los até a escola.
— Não precisa, Lilian — cortou Ross.
— Dona Lilian — corrigiu ela. — Respeito é sempre bom, Ross. Não se esqueça disso.
Marianne sentiu o sangue ferver. Se aquela bruxa pensava que iria mandar nela e em Ross como se fosse sua mãe, estava muito enganada. Olhou-a com ar de desdém e foi tomando a dianteira, puxando Ross pela mão. Até que ouviu a voz de Lilian mais atrás:
— Mais devagar, crianças. Não é preciso correr tanto.
Sem lhe dar atenção, Marianne apertou a mão de Ross e disparou pela calçada, puxando-o com toda força. O menino, assustado, a princípio fez força para parar, mas depois, ouvindo os gritos histéricos de Lilian, achou graça e correu com ela. Em poucos segundos, sumiram no fim da rua. Ross deixou Marianne na porta da escola, e a menina subiu ofegante. Em seguida, tomou a direção de seu colégio e partiu desabalado, não dando a Lilian tempo de alcançá-lo nem de vê-lo desaparecer.
No começo da tarde, quando Marianne e Ross voltaram para casa, encontraram Lilian sentada à mesa da cozinha de Kate. As crianças hesitaram ao vê-la, mas, ante o olhar severo e nada satisfeito de Kate, tiveram que entrar.
— Muito bem, Marianne — começou a dizer. — Lilian está aqui para fazer queixa de você.
— De Marianne? — indignou-se Ross. — Por quê? Ela não fez nada.
— Não adianta tentar defendê-la — repreendeu Lilian. — Sei que foi ela que o puxou hoje cedo. Estou aqui para exigir de Kate uma atitude. O que ela fez foi uma falta de respeito.
Kate sentia ganas de estrangular aquela esnobe. Ela era metida e arrogante, mas Marianne a havia afrontado, e ela não podia permitir que sua filha faltasse com o respeito aos mais velhos. Não fora essa a educação que lhe dera.
— Por que fez isso? — perguntou Kate, dirigindo-se à filha.
Com um sorriso maroto nos lábios, Marianne deu de ombros e não respondeu, irritando ainda mais Lilian, que retrucou furiosa:
— Sua mãe lhe fez uma pergunta, menina! Responda!
— Por favor, Lilian — interrompeu Kate de má vontade. — Deixe que eu mesma cuidarei disso.
— Essa menina é impossível.
— Lilian... — cortou Ross.
— Dona Lilian, já falei.
— Dona Lilian, Marianne não fez nada. Fui eu que a puxei.
— Muito louvável essa sua atitude de defendê-la — tornou Lilian entre os dentes — Mas não me convence. Eu vi!
Ainda com ar de deboche, Marianne revidou:
— Você anda vendo demais.
— Você não — recriminou Lilian. — A senhora.
Kate estava abismada. Aquela mulher era insuportável. Não entendia o que dera no cunhado para casar-se com ela. Nathan sempre fora um homem simples e gentil, e não tinha nada a ver com aquela metida.
— Escute aqui, dona Lilian — falou Kate com ironia —, já estou farta das suas sugestões de como devo educar meus filhos. Se Marianne fez alguma coisa errada, deixe que eu mesma tratarei de castigá-la.
— Só estava tentando ajudar — respondeu Lilian, rubra de vergonha.
— Não preciso de sua ajuda. E agora, se não se importa, está na hora do almoço — e, virando-se para a filha: — Marianne, suba e vá se lavar.
Marianne obedeceu. Quando voltou, Lilian e Ross já não estavam mais ali. Ela olhou em todos os cantos da cozinha, mas não o avistou. A mãe já estava sentada à mesa, onde apenas dois pratos haviam sido colocados, e começou a servi-la assim que ela entrou.
— Onde está o Ross?
— Foi com Lilian.
De forma abrupta e inesperada, Marianne virou a toalha da mesa, jogando pratos e copos para longe. Assustada, Kate deu um salto e levou a mão ao coração, instintivamente olhando pela porta da sala, onde os outros filhos brincavam no tapete.
Marianne, descontrolada, atirava longe tudo o que via. Talheres, panelas, tigelas. Olhar vidrado, parecia não ouvir os gritos aflitos da mãe:
- Pare com isso! Pare! Marianne, por Deus!
A menina estava enlouquecida. Em sua fúria descontrolada, continuava a atirar longe tudo o que lhe aparecia na frente. Kate acercou-se dela e, pelas costas, tentou contê-la, segurando-lhe os braços com força. Vencida pela superioridade física da mãe, ela começou a gritar e a espernear, atirando as pernas para a frente e dando pinotes no ar.
Kate estava apavorada. Jamais havia visto algo semelhante. A muito custo, conseguiu virar Marianne de frente para ela e deu-lhe uma bofetada no rosto. A menina respondeu com selvageria e pôs-se a arranhar os braços da mãe, Kate, cada vez mais aterrada, deu-lhe nova bofetada, e outra, e mais outra, até que Marianne, vencida pelo cansaço, desabou no chão e foi rastejando até a parede.
Seus olhos corriam de um lado a outro, como se visse alguém percorrendo a cozinha. Não havia ninguém. Ninguém que Kate pudesse ver. Mas Marianne via. Caminhando a passos largos, um espírito ria, com as mãos apoiadas nas cadeiras. Era uma mulher. Vestia uma roupa estranha, muito antiga, e trazia na cabeça uma espécie de touquinha de lã.
Ao ouvir a mãe dizer que Ross havia partido com Lilian, Marianne quase desesperou. O ódio que sentiu foi tão grande que, imediatamente, atraiu para junto de si o espírito que acompanhava a madrasta de Ross. Era uma mulher vingativa, que queria desesperadamente prejudicar Lilian e descobrira em Marianne o instrumento perfeito. A menina era extremamente sensível. Muito mais do que qualquer outro que já vira fora dos hospícios. Aliada a essa sensibilidade, a raiva que nutria por Lilian serviu de excelente condutor para os fluidos de ódio e vingança do espírito.
Marianne gostava de Ross. Por ele, seria capaz de odiar, com todas as forças, qualquer um que se interpusesse em seu caminho. E Lilian se interpusera. Ela era mesmo autoritária e pedante, mas tudo poderia ter sido contornado se o espírito não tivesse incutido na mente da menina a imagem da bruxa em que Lilian havia se transformado. Marianne estava certa de que a mulher era mesmo uma bruxa. Via-a com cara de bruxa, roupas de bruxa, chapéu de bruxa. Tudo obra daquele espírito que pretendia usar Marianne em sua vingança.
— Sou Margot — disse ela ao ouvido da menina. — Guarde bem o meu rosto e o meu nome. Vamos nos ver muitas e muitas vezes.
Soltou uma gargalhada histérica e sumiu, e Marianne encarou a mãe, que, sentada na cadeira, rosto afundado entre as mãos, só fazia chorar.

9
A partir daí, tudo se desenvolveu rapidamente. Não havia um só lugar em que Marianne não visse espíritos ao seu redor. Falava com eles como se fossem encarnados, sem se dar conta de que já não pertenciam mais a esse mundo. Vivos e mortos, para ela eram todos iguais.
Para piorar, a já difícil convivência com Lilian foi-se tornando insuportável. A pedido de Nathan, Ross continuava indo e voltando da escola com Marianne, mas, depois disso, só se viam vez ou outra, antes do jantar. Nos fins de semana, Lilian sempre arranjava um jeito de impedir que ficassem juntos. Ou Ross tinha que estudar, ou iam sair e Marianne não podia acompanhá-los.
Certo dia, quando Marianne chegou da escola, trazia nas mãos uma carta lacrada, com o timbre da escola, endereçada ao pai. Entregou a carta à mãe displicentemente e foi para o quarto se trocar. Quando voltou, Kate estava sentada à mesa, olhando-a com cara de poucos amigos.
— O que significa isso? — indagou Kate zangada.
— O quê?
— Esta carta. Marianne pegou e desdobrou a carta que ela lhe estendeu. Passou os olhos pelas letras e encarou a mãe, desanimada.
— Leia — foi a ordem seca.
Os olhos de Marianne encheram-se de lágrimas, e Kate arrancou a carta das suas mãos com raiva.
— Você não pode ler, não é, Marianne? Não pode porque não sabe! Como fomos estúpidos, seu pai e eu. Pensamos que você havia se emendado. No ano passado, quando tirou aquele dez, achamos que você não era burra e que estava aprendendo. Mas agora vejo que não aprendeu nada!
— Mãe...
— Não! Deixe-me terminar. O que foi que aconteceu? Você não estava aprendendo a ler? Por que não desenvolveu a leitura? Por que não consegue acompanhar a turma? Seu professor diz que você continua alheia e agressiva. Disse que nem pode falar com você. Que você responde mal. Que implica com as outras meninas.
— Não é verdade! Elas é que implicam comigo! Vivem me chamando de esquisita.
— E do que você quer que a chamem? Você não aprende, não se relaciona com ninguém. Nunca convidou uma amiguinha para vir brincar com você. Eu é que as convido, ou melhor, imploro, para que venham aos seus aniversários. Pois agora acabou! Não tem mais festa, ouviu?
Marianne deu de ombros. De que lhe importavam as festas? Quem gostava de festas era a mãe, não ela. Deu as costas a Kate e foi para a porta da cozinha. Desceu dois degraus e espiou para o quintal vizinho, na esperança de avistar Ross, enquanto a mãe continuava a repreendê-la. Marianne, contudo, já não ouvia mais. Desinteressada daquele assunto, desceu as escadas e se aproximou da cerca que separava os quintais das duas casas, enquanto a mãe esbravejava:
— Volte aqui imediatamente! Ainda não terminei!
A voz de Kate caiu no vazio, porque Marianne já havia deslocado a tábua da cerca que servia de passagem entre as duas casas e entrara no quintal da casa de Ross. Em silêncio, coração aos pulos, foi-se aproximando da porta da cozinha. Ross estava sentado de costas, comendo, e a bruxa estava no outro canto, mexendo uma panela no fogão. A seu lado, Margot a viu e sorriu para ela, passando a mão de leve sobre a testa de Lilian.
— Ross... — Marianne chamou baixinho.
O menino se virou ao mesmo tempo em que a madrasta. Vendo Marianne ali parada, Lilian não se conteve. Com a colher de pau ainda na mão, aproximou-se dela.
— O que está fazendo aqui? —indagou com raiva. Ela fitou a mulher e respondeu com mal contida fúria:
— Preciso falar com Ross.
Na mesma hora, o menino se levantou, mas foi impedido de se aproximar pela voz histérica da madrasta:
— Fique onde está, Ross! Você ainda não terminou de almoçar.
— Já acabei sim, dona Lilian.
— Então, está na hora de estudar.
Calmamente, Ross olhou para ela e, sem alterar o tom de voz, respondeu mansamente:
— Agora não posso. Marianne precisa falar comigo.
Virou-se para Marianne e sorriu, e ela sorriu de volta, agradecida.
— Estou lhe avisando — gritou Lilian. — Se não me obedecer, vai ficar de castigo!
— Lamento, dona Lilian. Mas a senhora não é minha mãe.
— Ora, seu...

De forma mecânica, Lilian desceu a colher de pau sobre a boca de Ross, com força, e esta imediatamente se avermelhou. O menino soltou um grito de dor e levou a mão amos lábios, que já começaram a inchar.
Ao lado de Lilian, Margot balançava a cabeça e dizia com voz de malícia:
- Ora, ora, ora... Vai deixar isso ficar assim, Marianne? Vamos, ataque a bruxa!
Não precisou de mais nada. Marianne partiu furiosa para cima de Lilian e mordeu-a na barriga, apertando bem os dentes e causando-lhe imensa dor. Lilian soltou um grito agudo e olhou para baixo. Marianne estava grudada à sua barriga, apertando-a com os dentes, sem soltar. Tentou empurrar a menina, mas ela se colara a seu ventre feito um parasita.
Imediatamente, pôs-se a gritar, e gritou tanto, que Kate, do outro lado ouviu a berraria e apareceu esbaforida. Vira a filha atravessar a cerca, mas teve que dar a volta pela frente. Diante daquela cena horrorosa, o sangue de Lilian já se espalhando pela blusa branca, Kate começou a berrar:
- Solte-a! Por Deus, Marianne, solte!
Marianne não soltava. Margot, encostada à parede, dava gargalhadas enquanto Ross, atônito, esquecera-se até de sua boca machucada.
Kate tentava puxá-la por trás, mas quanto mais puxava, mais ela apertava os dentes em volta da carne de Lilian que ia se abrindo numa enorme ferida. Desesperada, Kate começou a bater-lhe, sem sucesso, contudo. No auge do desespero, implorou ao sobrinho:
— Pelo amor de Deus, ajude-me!
Ross saiu de seu torpor e aproximou-se de Marianne. Colocou a mão em seu rosto e pediu com ternura:
— Por favor, Marianne, solte dona Lilian.
Ela não soltou, embora parasse de apertar. Sentindo as mãos do primo em sua face, aos pouquinhos foi-se acalmando, até que afrouxou a boca e Lilian tirou o corpo, correndo para o outro lado da cozinha e gritando:
— Tirem essa louca daqui! Essa menina é uma selvagem! Maluca! Doida!
Margot ficou furiosa e tentou investir contra Ross, sendo detida por Marianne:
— Se você fizer alguma coisa a ele, vai se arrepender! Mordo você também.
O amor da menina pelo garoto assustou o espírito, que se afastou temeroso.
— Com quem está falando? — indagou Kate.
— Com Margot. Ela quis bater no Ross.
— Saia! — a voz esganiçada de Lilian as interrompeu. — Leve essa fera daqui!
Kate estava aturdida. Tão aturdida que não sabia o que fazer. Não sabia se ralhava com Marianne ou se a levava a um médico. Decididamente, Marianne não estava bem. Sua agressividade estava passando dos limites. Parecia mesmo uma louca.
— Sinto muito, Lilian... — balbuciou Kate.
— Saia daqui! E leve esse monstrinho com você! Ela já ia saindo quando ouviu a voz de súplica do sobrinho:
— Por favor, tia Kate, deixe-me ficar com Marianne.
— Depois.
Saiu puxando Marianne pelo braço, que se deixou conduzir passivamente para casa. Assim que entraram, escutaram choro de criança, e Kate subiu para o quarto. Deixara os filhos dormindo, e Kevin acordara e chamava pela mãe. Ela retirou o menino do berço, embalou-o e colocou-o de volta, distraindo-o com alguns bichinhos de pelúcia. Depois que ele sossegou, saiu à procura de Marianne.
Ela estava onde a havia deixado, sentada no sofá da sala, sem expressar qualquer reação. Com um certo receio, Kate aproximou-se e sentou-se diante dela, perguntando com voz sofrida:
— Por que você fez isso?
Ao final de alguns segundos, Marianne respondeu impassível:
— Isso o quê?
— Por que mordeu Lilian? Você quase arrancou um pedaço da barriga dela.
Marianne deu de ombros e, fazendo beicinho, respondeu com simplicidade:
— Margot me mandou atacá-la.
— Margot?
— É. Ela estava lá e me mandou atacar Lilian. Ela bateu em Ross. E depois, Margot quis bater nele também...
— Basta! — exaltou-se. — Deixe de inventar histórias! Não havia ninguém lá além de nós.
— Havia sim! Margot estava lá.
Kate respirou fundo e acrescentou:
— Sei que você não gosta de Lilian. Eu também não gosto. Mas não foi nada bonito mordê-la. E também não é bonito ficar inventando coisas.
— Não estou inventando nada. Margot estava lá...
— Se não parar com essa mentira agora mesmo, serei obrigada a tomar uma medida mais drástica!
Pronto. Lá vinha a mãe com suas palavras difíceis. Marianne não sabia o que era uma medida, muito menos drástica.
— Não estou mentindo. A culpa toda foi de Margot...
Kate já estava cansada daquelas histórias insanas. Levantou-se furiosa e segurou Marianne pelo braço, dando-lhe forte beliscão. A menina não gritou, limitando-se a olhar para a mãe sem entender. Kate puxou-a furiosamente, e foi só então que Marianne reagiu. Começou a espernear e a gritar, dando socos e chutes, tentando morder as mãos da mãe.
— Pare! — gritou Kate.
Marianne não parava. Parecia totalmente fora de si, tomada por um descontrole sobrenatural. Kate tentou contê-la o quanto pode, mas ela estava ficando incontrolável. Não viu outra saída, senão prender os braços dela e imobilizá-la. Assim tolhida, Kate conseguiu subir com ela.
Com tanta gritaria, era natural que as crianças acordassem, dando início a um berreiro sem fim. O choro das crianças fez crescer o desespero de Kate, que queria conter a filha e atender aos demais. Marianne era uma criança, contudo, os outros eram praticamente bebês. Kate queria que ela parasse, mas a menina atirava as pernas a esmo, espumando de um ódio assustador. Não podia entrar com ela no quarto dos outros filhos, que se apavorariam vendo a irmã naquele estado de aparente demência.
Sem perder tempo, abriu a porta do quarto com o pé e atirou Marianne lá dentro. Rapidamente, retirou a chave da fechadura e bateu a porta, trancando-a pelo lado de fora. A menina, descontrolada, dava investidas contra a porta, gritando para que a mãe a soltasse:
— Solte-me! Deixe-me sair!
Tomada pela exaustão, com o corpo dolorido e roxo, Marianne deixou-se cair rente à porta e pôs-se a chorar. Nunca se sentira tão só em toda a sua vida. Daria um braço ou uma perna para ter Ross ali junto dela. A mãe não entendia, a bruxa a odiava. E Margot? Enganara-se ao pensar que Margot era sua amiga. Se fosse, não teria mandado que ela atacasse a bruxa na hora em que sua mãe vinha chegando. E ainda tentara agredir Ross.
Não podia se iludir. Estava sozinha.


10
- Não quero mais essa menina aqui! — esbravejava Lilian. — Ela é uma selvagem, um animal!
— Marianne é apenas uma criança — Nathan tentava defender.
— Não interessa! Veja só o que ela fez! — levantou a camisola e exibiu o curativo na barriga, ainda sujo de sangue. — Ela é uma doida, isso sim!
Nathan levou a mão à testa, desanimado. Lilian, no fundo, tinha razão. Marianne estava se tornando uma menina difícil de se controlar, o gênio irascível aumentava cada dia mais. No entanto, tinha uma dívida de favor para com Kate e não podia, simplesmente, ignorá-la.
— Talvez seja melhor deixar Ross lá com eles —sugeriu Nathan.
Lilian considerou durante alguns segundos, e uma nova ideia se delineou em sua mente. O menino não era seu filho, e ela já estava se enchendo de tantos transtornos. Sem contar que a situação agora havia mudado e não lhe interessava mais ocupar-se com o garoto. Olhou para o marido com ar de dúvida e indagou:
— Você quer dizer, morando lá?
— Não exatamente. Ross é meu filho, e eu prometi à mãe dele que jamais nos separaríamos. Mas podemos deixar tudo como estava antes. Aposto como Marianne iria até melhorar.
— Não sei. Não me agrada a ideia de que seu filho, meu enteado, fique indo e vindo daquela casa. Ou vai de vez, ou não vai.
— Isso é um absurdo. Está sugerindo que eu me desfaça de meu filho? Que abra mão dele de vez? Não foi isso o que você me disse quando nos casamos. Prometeu cuidar dele.
Ela abaixou os olhos, visivelmente confusa e arrependida. É claro que prometera tomar conta do menino. Só não levou em conta que, de quebra, teria que enfrentar uma garota louca e mal-educada. Além do mais, não pensou que as coisas mudariam tão de repente.
— Não é isso — desculpou-se. — É que você não tem ideia do que passei hoje, com aquela menina grudada na minha barriga e me mordendo feito uma fera.
Lilian jogou-se na cama, chorando nervosamente, até que Nathan a abraçou e tentou consolá-la:
— Eu sei, querida, posso imaginar. Mas Marianne é uma criança... não tem noção do que faz.
— Diz isso porque não a viu. Ela estava transtornada, enlouquecida... Não sei não. Se eu fosse Kate, levaria aquela menina a um médico de doidos. Ela tem alguma coisa de loucura... pode-se ver pelo seu olhar. E depois, as coisas que faz... Que criança daquela idade você conhece que agride os outros com tanta fúria?
— Sei que tem razão, querida. Mas Kate tem sido tão boa para mim e para Ross...
— O fato de você ser-lhe grato não significa que tenha que se sujeitar a tudo. Ela o ajudou? Ótimo. Agradeça-lhe. Nós, no entanto, não podemos continuar vivendo assim. Essa menina ainda vai acabar estragando o nosso casamento.
— Você está exagerando.
— Não estou não. Até quando acha que irei suportar? Ela não é minha filha. Não tenho obrigação de tolerar os seus ataques.
— O que quer que eu faça? Que proíba Ross de vê-la? Isso seria muito pior.
— Pior para quem?
Durante alguns minutos, Nathan permaneceu em silêncio, tentando imaginar algo para dizer. Sabia, contudo, que qualquer coisa que dissesse não faria Lilian mudar de opinião. A mulher, por sua vez, regozijava-se. Aquela era a chance de dar início ao novo plano que idealizara. Aproveitando-se da situação, adoçou a voz e considerou:
— Você está certo. Afastar Ross de Marianne só serviria para piorar as coisas. Eu, todavia, não estou mais disposta a tolerar as suas sandices. Por isso, vamos nos mudar...
— Mudar? Para onde? E o meu trabalho?
— Vamos para outro bairro, um bairro melhor, mais elegante.
— Não vejo nada de errado com este. É um lugar muito bom de se viver.
— Não está sendo bom para nós.
— Ross não vai querer.
— Ele não tem querer. É criança, e crianças não têm vontade. Têm que obedecer.
— Marianne vai fazer um escândalo. Vai dificultar as coisas.
— Ela não precisa saber. Nem ela, nem ninguém. Por enquanto, vamos deixar as coisas como estão. Deixemos que Ross volte a conviver com Marianne como antes. Eu não vou interferir nem vou querer saber de nada. Ele que fique por lá o quanto quiser. Enquanto isso, vamos procurando uma outra casa. Quem sabe até não podemos comprar uma, ao invés de alugar? Você agora não está ganhando mal.
Nathan ficou em dúvida. Não lhe agradava fazer as coisas às escondidas. Sabia o quanto Ross e Marianne iam sofrer, e até Kate, que criara o menino como se fosse seu próprio filho. Lilian, porém, estava certa. Não tinha que se sujeitar às humilhações de Marianne. Soltou um suspiro prolongado e retrucou vencido:
— Está certo. Convenceu-me. Acho mesmo que tem razão. Já está na hora de vivermos a nossa própria vida. Kate e David vão entender.
— E Ross fará novos amigos. Com o tempo, nem se lembrará mais de Marianne.
Lilian queria subir na vida, e aquele bairro não estava à sua altura nem condizia com a nova condição social que pretendia adquirir. Graças a ela, Nathan agora ganhava bem. Podia comprar uma casa num bairro mais elegante. E Marianne acabara se tornando um ótimo pretexto para convencê-lo a se mudar.
Não disseram nada a Kate ou a David, muito menos às crianças. Fariam tudo às escondidas. Quando a casa estivesse comprada e a mudança acertada, Nathan participaria ao irmão e à cunhada, e pediria que saíssem com Marianne por um tempo. Se ela não visse nada, não sofreria tanto nem faria escândalos desnecessários. E, quando soubesse, seria tarde demais.
Naquela noite, Lilian foi dormir mais tranquila, sem desconfiar de que, a seu lado, o espírito de Margot a acompanhava furiosa. Não era possível que Lilian se livrasse da menina e estragasse seus planos de vingança. Lilian pensava que ficaria livre, mas estava enganada. Ela iria contar tudo a Marianne.
Já ia saindo quando deu de cara com outro espírito, parado na porta a olhá-la com ar aterrador:
— Eu não faria isso se fosse você — falou ele, em tom assustadoramente ameaçador.
Margot levou um susto e parou no meio do quarto, com a boca aberta, tentando adivinhar de onde havia surgido aquele desencarnado.
Quem é você? — indagou receosa, com medo de que alguém o houvesse mandado para levá-la dali.
Não sou nenhum mensageiro de luz, se é o que pensa — respondeu ele, lendo-lhe os pensamentos. — Acha mesmo que me pareço com um?
Margot olhou para ele, para seus trajes negros e seus olhos vítreos, e respondeu um pouco mais tranquila:
- Não. Ao contrário.
Luther soltou uma gargalhada e se aproximou da cama, onde o casal dormia despreocupadamente:
- Não deve se meter com Marianne, Margot.
- Você me conhece? — tornou ela surpresa, já que nunca o havia visto por ali.
- Digamos que eu sei das coisas.
- Sabe?
- Sei muito a seu respeito. Sei que você fugiu há muitos anos e vem acompanhando Lilian desde a encarnação passada.
- Você não sabe o que ela me fez.
- Já disse que sei muito sobre você, logo, sei o que ela lhe fez. Por causa dela, você foi presa, acusada de bruxaria, e a ignorância do povo a colocou sob uma placa de madeira, cobrindo-a com pedras até que seu pulmão estourasse e você morresse, afogada em seu próprio sangue. Não é verdade?
Margot começou a chorar e retrucou:
- Você não imagina o que ela me fez passar. E para quê? Para ficar com o meu homem! E ainda se dizia minha amiga.
- Para você ver. Não podemos confiar em ninguém hoje em dia, não é mesmo? — ela não respondeu, limitando-se a encará-lo com um certo temor. — Mas eu tenho uma amiguinha, sabia? Uma amiga de verdade. O nome dela é Marianne.
— Marianne?
— Exatamente. A mesma que você está querendo utilizar na sua vingança.
— E daí? Não vá me dizer que quer protegê-la.
— Sim e não. Marianne é minha, caso não saiba.
— Nunca o vi ao lado dela.
— Estou afastado por razões que não lhe dizem respeito. Mas não a abandonei. Sei de tudo o que se passa com ela. Sei até de você, como pode perceber.
Margot escutava aquele espírito das sombras que lhe parecia extremamente poderoso, dono de um ar de superioridade e uma imponência que a assustavam, como se ele fosse um imperador ou coisa parecida.
- Quem é você? — quis saber ela, algo confusa.
— Meu nome é Luther.
— De onde vem?
— Das profundezas do inferno — disse em tom maroto, soltando uma gargalhada cínica. — Estou brincando. Sou o dirigente de uma pequena cidade do astral inferior — ante o seu olhar de espanto, ele acrescentou: — Você deve estar se perguntando o que uma pessoa tão importante como eu faz por aqui, não é mesmo? Pois vou lhe dizer. Marianne é especial. Há muitos anos, ela fugiu de mim, levando muitos outros com ela. Passei um longo período sem vê-la, até que a encontrei nesse estado. Caso você não tenha percebido, ela é o que se pode chamar de maluca. Ela ainda não sabe, mas está enlouquecendo.
— O que você pretende com ela? Vingança?
— De uma certa forma, sim. Ela foi uma peste e, apesar disso, não posso trazê-la para o lado de cá. Seus amigos são poderosos, bem mais do que eu. Só que esse amigos estão do lado de lá, você entende?
— Quer dizer, do lado da luz?
— Isso mesmo.
— Então, por que não aparecem para livrá-la de sua loucura?
— Como você é tolinha, Margot. Se eles montassem guarda à cabeceira dela, de que adiantaria ser louca? Aliás, ela seria tudo, menos louca. Só que ela quis ser doida, pediu, implorou para ser doida varrida. Esse pedido já demonstra que não é normal. Pedi e obtereis2 — ironizou. — Não é assim?
— Não compreendo...
— Será que você é tão estúpida quanto ela? Marianne escolheu ser louca, ou melhor, ter uma sensibilidade muito acima do normal. É como se ela não tivesse qualquer barreira separando o mundo visível do invisível. Dá para imaginar? Ela pode ver e ouvir todo tipo de espíritos. Será que você não percebeu?
— Percebi.
— Só que há seres iluminados que a vigiam o tempo todo, interessados em assegurar que se cumpra o que tem de ser, ou seja, que ela fique, literalmente, louca.
Margot sentiu uma pontada de tristeza. Afinal, não era ruim. Queria se vingar de Lilian porque ela fora má, enganara-a para tomar-lhe o homem amado e ainda a levara àquela morte horrenda. Marianne, contudo, era apenas uma menina e não lhe fizera nenhum mal.
— Ela não tem como evitar essa triste sina?
— Talvez, se tivesse escolhido pais mais esclarecidos e amorosos. Mas, cá entre nós, eles são umas pestes também, e isso é ótimo para nós. Facilita o nosso acesso.
— Pobre Marianne...
— Não pense assim. Ela sempre soube que seria muito provável me reencontrar. Somos amigos de
2. Trata-se de uma ironia ao capítulo XXVII do Evangelho Segundo o Espiritismo, que os espíritos das trevas consideram contrário aos seus interesses (N.A.).
longa data. Gostaria muito de trazê-la para o meu lado, mas não posso. Como lhe disse, ela tem amigos muito mais poderosos do que eu, contra os quais não tenho forças para lutar. Quando ela desencarnar, eles correrão para buscá-la, e eu não terei a menor chance. A não ser que ela se suicide... Mas não, acho que não...
— Não estou entendendo.
— O tempo de que disponho é muito curto, e quero aproveitá-lo ao máximo. Marianne precisa enlouquecer, e sou eu que vou ajudá-la nesse processo. Para isso, não vou aceitar nenhum tipo de intromissão.
— Quem é que está se intrometendo?
— Você. Não a quero interferindo em meus planos.
— Eu? Não vou fazer isso. Não quero nada com Marianne. Meu negócio é com Lilian. É com esta aqui que tenho contas a acertar.
— E para isso, usa Marianne?
— Sim, mas não pretendo fazer-lhe mal.
— Sei que não. Só que os seus planos esbarraram nos meus.
— Como assim?
— Vou ser claro com você, Margot. Não é de meu interesse que Marianne saiba a respeito da mudança de Ross. Quero que tudo saia conforme eles planejaram. Por isso, vou dar-lhe um aviso. Faça com Marianne o que quiser. Use-a em sua vingança enquanto puder. Faça com que ela agrida Lilian, que a morda e a arranhe. Mas jamais lhe diga que Ross vai se mudar. Nem de longe sugira isso. Sequer a deixe desconfiar ou imaginar uma coisa dessas. Se o fizer, vai ter que se entender comigo depois. Compreendeu?
A superioridade dele era patente, e Margot simplesmente assentiu, com medo de despertar-lhe a fúria.
— Não ousaria desobedecer-lhe — tornou com reverência. — Mas posso perguntar por que é tão importante essa mudança?
— Pense, Margot, pense. Quem é o queridinho de Marianne? Não é o bobalhão do Ross, com sua vozinha de pederasta e seus gestos de bom moço? — ela assentiu. — Pois então, como acha que ela vai ficar quando ele, de repente, desaparecer?
— Maluca?
— Quase. Esse é o estopim que irá acender a bomba da loucura plantada na cabeça dela.
Margot ficou abismada. Aquele Luther era mesmo infernal. Contudo, por mais piedade que sentisse de Marianne, não tinha nada com isso. A menina não era problema seu. Só podia lamentar. Ela era um instrumento muito bom, mas Margot não ousaria contrariar as ordens de Luther. Não queria, ela também, integrar as suas hordas.

11
A noite caiu, e Kate terminou de colocar as crianças na cama, para só depois ir para seu quarto, passando antes pelo de Marianne. A menina passara o dia todo ali e mal se alimentara. Embora Kate não julgasse aquela a melhor solução, não via outra saída. Marianne passara dos limites.
A filha havia adormecido encostada à porta, de forma que foi preciso empurrá-la. Marianne, todavia, não despertou. Permaneceu deitada na mesma posição em que estava, e Kate abaixou-se ao lado dela. Alisou seus cabelos e engoliu um soluço. Cuidadosamente, apanhou-a no colo e deitou-a na cama, cobrindo-a com o cobertor.
Fechou a porta com cuidado, deixando-a destrancada. Já em seu quarto, conferiu se Suzie dormia e, retirando o robe, deitou-se ao lado de David.
— Não sei mais o que fazer com Marianne — comentou ela após alguns minutos. — Ela hoje se superou.
— Como assim?
— Ela mordeu a Lilian.
— Como é que é?
— Você ouviu. Marianne mordeu Lilian hoje cedo, em sua casa.
— Por que não me disse antes?
— Não queria que as outras crianças ouvissem.
— Por isso ela não desceu para o jantar?
Ela assentiu e enxugou as lágrimas, que não conseguiu evitar que caíssem.
— Eu a deixei trancada no quarto. Levei comida para ela, mas ela não quis...
— Isso é muito grave.
— Não sei mais o que fazer. Marianne não é como as outras crianças. Nunca foi muito sociável, mas agora está se tornando exageradamente agressiva. Bate nos irmãos, já me bateu também, e agora, mais essa com a Lilian. Imagine só o que ela deve estar falando nesse momento.
David virou o rosto para a janela, acabrunhado. Não sabia que as coisas estavam ficando tão sérias assim.
— E isso não é tudo — continuou Kate. — Hoje veio outra carta da escola. O professor reclama que ela não aprende. Voltou a ficar alheada e a não prestar atenção às aulas. Está tendo dificuldades com a leitura e não se interessa em aprender.
— Como pode ser isso, se no ano passado ela tirou até uma nota dez?
— Para você ver. Foi só daquela vez. Depois, voltou a ser a mesma estúpida de sempre. O professor acha que ela não vai passar de ano. As amiguinhas já estão lendo tudo, e ela não consegue sair das primeiras letras.
David levou a mão ao rosto e desabafou angustiado:
— Oh! Deus! Por que tivemos que ter uma filha assim? Logo nós, que nunca fizemos mal a ninguém.
— Também já me fiz essa pergunta. Mas Marianne é nossa filha, e precisamos cuidar dela. Isso não pode continuar assim.
— O que faremos?
— Não sei. Jane disse...
— O que Jane disse não interessa — rebateu ele, sem muita convicção, mais para impressionar a mulher do que para expressar o que realmente sentia. — Ela tem aquelas idéias extravagantes sobre psiquiatras, psicólogos ou seja lá como se chamam.
— Pense bem, David. Talvez ela tenha razão. Marianne anda mesmo muito esquisita. Faz coisas que ninguém normal faz. Será que um psiquiatra não resolveria o problema?
— Não sei.
— Marianne não é mais um bebê, já deveria ter ultrapassado essa fase de morder. E ela mordeu por raiva, com força, tirou muito sangue de Lilian. Não sei mais o que fazer com ela.
Há muito David sentia vontade de levar Marianne ao psiquiatra, todavia, algo dentro dele o fazia relutar. Não era o medo da reação de Kate, e sim um certo incômodo, uma sensação de estar fazendo algo errado. Queria levá-la, mas que a ideia partisse de Kate, para que ele não tivesse que assumir aquela responsabilidade. Como, porém, a mulher não se resolvia, talvez coubesse a ele o dever de dar-lhe um pequeno incentivo.
— Talvez devêssemos mesmo consultar o tal psiquiatra — disse ele com cautela.
Na mesma hora, Kate reconsiderou. Falara aquilo por falar, para desabafar, mas não estava pensando seriamente em levá-la ao médico.
— Não vamos nos precipitar — tornou insegura. — Acho que devemos esperar um pouco mais. Talvez você deva falar com Nathan e Lilian, desculpar-se e pedir para que Ross venha visitá-la. Quem sabe ela não melhora?
Mesmo não lhe agradando, David fez como Kate sugeriu e, no domingo seguinte, foi novamente bater à porta da casa do irmão.
— Tio David! — exclamou Ross, que abrira a porta. — Vamos entrando.
— Seu pai está?
Antes que o menino lhe respondesse, Nathan veio de lá de dentro, estendendo a mão para o irmão.
— Olá, David. O que veio fazer aqui?
David passou para o lado de dentro meio sem jeito. Não sabia ao certo o que dizer e começou a falar baixinho:
— Você é meu irmão... não gostaria que nos desentendêssemos.
— Quem falou em desentendimentos?
— Não gostaria que a atitude de Marianne abalasse a nossa amizade. Tente compreender.
— Então é isso? Está preocupado com o que Marianne fez? Ora, vamos, isso é coisa de criança. Deixe para lá, já passou.
— Quer dizer que você não está aborrecido?
— De jeito nenhum! Lilian me contou tudo. Marianne a atacou, é verdade, só que Lilian não ficou zangada.
— Mas...
— É claro que, na hora, ela ficou com raiva. Afinal, ninguém gosta de ser mordido, não é mesmo? Mas depois, até que achou graça.
— Achou?
— Claro! Quem pode se zangar com as diabruras de uma criança? Para falar a verdade, esse episódio serviu para nos mostrar o quanto estávamos sendo injustos com Marianne e Ross.
— O que quer dizer?
— Lilian e eu concordamos que não vimos agindo direito com os dois. Afinal, são primos, foram acostumados juntos desde pequeninos.
— É verdade...
— Por isso, achamos que não devemos mais interferir.
- Como assim?
— Bem, Ross pode ir ver Marianne quando quiser.
— Eu posso? — pulou Ross de seu canto, onde permanecera quieto, sem ser notado, só prestando atenção à conversa do pai e do tio.
Nathan se assustou. Nem se dera conta de que o filho estava ali e respondeu com uma certa irritação:
— É feio ficar escutando a conversa dos mais velhos, Ross.
— Eu vim apenas abrir a porta para o tio David...
— Não brigue com o menino, Nathan. Afinal, ninguém o mandou sair.
— Hum... está bem. Você tem razão. Ross sempre foi um menino muito gentil e educado.
— Posso ir ver Marianne? — era o garoto, transbordando de ansiedade.
— Pode... — titubeou o pai.
— Oba! Vou lá agora mesmo!
David notou o ar de contrariedade de Nathan, que parecia pensar o contrário do que dizia.
— Tem certeza? — indagou ele, e o irmão assentiu. — E Lilian? Não vai se zangar?
— Como lhe disse, Lilian concordou que seria o melhor. Fique sossegado, ela não vai se importar.
— Gostaria de falar com ela primeiro. Pedir-lhe desculpas.
— Não precisa. Lilian não está aborrecida. Realmente. E depois, está descansando. Acha mesmo que deveríamos importuná-la por tão pouco?
David meneou a cabeça e despediu-se, voltando para casa com o sobrinho. Depois que eles se foram, Nathan fechou a porta lentamente e virou-se na direção da cozinha, de onde Lilian escutara tudo. Ela apareceu e deu um sorriso de triunfo.
— Será que estamos agindo corretamente? — indagou Nathan confuso, sentindo que o remorso o corroía.
— É claro que sim. Ross vai visitar aquela selvagem. Não era isso que todos queriam?
— Não é a isso que me refiro, e sim ao fato de estar enganando meu próprio irmão.
— Em que você o enganou? Você apenas lhe omitiu certos fatos.
— Isso não é verdade. Disse a ele que você não estava zangada quando, na verdade, está furiosa. Também não é verdade que concordamos que Ross e Marianne voltem a se ver. Esta é uma farsa elaborada para encobrir as nossas reais intenções.
— E daí? O que você queria? Abrir-se com David? Dar-lhe a chance de contar tudo a Marianne e de ela vir aqui de novo me afrontar?
— Marianne é apenas uma criança.
— Ela é louca!
— Não diga isso.
— É verdade. Só não vê quem não quer. Marianne é louca e devia estar num hospício.
— Você está exagerando.
— Será que estou? Quer arriscar? O que ela fez comigo foi apenas uma pequena amostra do que é capaz. Não se iluda, Nathan, se Marianne precisar, vai enfrentar qualquer um, inclusive você e o próprio David. — Ante o desânimo dele, ela afagou os seus cabelos e acrescentou: — Não fique triste. Tenha certeza de que você está fazendo o melhor para todos nós. Pense no seu filho. Marianne é possessiva. O que fará a Ross quando estiver mocinha? Não vai deixá-lo um minuto sequer. Vai aterrorizar suas namoradas e prejudicar o seu futuro. É isso o que quer?
— Não, mas...
— Nada de mas. Você mesmo falou que eles pensam em se casar.
— Isso é coisa de criança.
— É coisa de criança agora. E mais tarde? Marianne vai arruinar a vida dele, vai espantar todos os bons partidos que você lhe arranjar. E capaz até de nem o deixar estudar direito. Imagine-a seguindo-o por toda parte, na universidade, nas festas, nos pubs3. E se ela resolver engravidar? É esse o futuro que espera para o seu filho?
— Não.
— Então, deixe de ser tolo e se aquiete. Vai dar tudo certo. Quando comprarmos nossa casa e nos mudarmos daqui, Ross vai ficar livre da influência perniciosa dessa menina.
— Você se esquece de que Ross também gosta dela.
— Porque não tem opção. Ele não sai, não vai a lugar nenhum. Marianne não deixa. Aposto que nem o deixa ter amigos.
David calou-se. O filho era um menino muito sociável e se dava com todos na escola. Os professores viviam a elogiá-lo. Era inteligente, estudioso, interessado. Cordial com os colegas e muito educado. A verdade, no entanto, era que preferia a companhia de Marianne.
A semana que se passara fora péssima para Marianne, sem notícias do primo, que sequer a acompanhara à escola. Sua ausência fora deixando-a cada vez mais triste e acabrunhada. Já nem se alimentava direito. Andava tão deprimida que os pais nem tiveram coragem de repreendê-la pelo fracasso com a leitura.
David entrou com Ross e subiu direto as escadas, indo bater à porta do quarto da filha. Ela estava sentada na cama, fitando o vazio pela janela aberta, e não se interessou pela entrada do pai. Nem levantou os olhos. Apenas ouviu a voz dele, exclamando com euforia:
3. Pub — espécie de bar no Reino Unido, onde se servem bebidas alcoólicas (N.A).
— Adivinhe a surpresa que trouxe para você!
Marianne se voltou sem nenhum entusiasmo. David entrou primeiro e chegou para o lado, tornando Ross visível aos olhos dela. Ela mal podia crer. De um salto, pulou da cama e atirou-se ao pescoço dele.
— Não acredito! — exultou ela. — E você mesmo, Ross?
O menino estreitou-a com carinho e beijou o seu rosto, enquanto David completava:
— Lilian não vai mais impedir que se vejam, Marianne. Por isso, seja boazinha com ela e não a destrate.
Marianne nem ouviu o que ele disse. Puxou Ross pela mão e desceu correndo as escadas, saindo com ele para o quintal.
— Vamos tomar um sorvete? — sugeriu ele. — Meu pai me deu dinheiro.
Da porta dos fundos, Kate os observava e consentiu que ela fosse. De mãos dadas, os dois ganharam a rua. Sua felicidade era tanta que nem imaginavam o que estava por acontecer.
Da janela da casa vizinha, Lilian os seguia com o olhar. Desde que Ross saíra com David, ocultara-se atrás da cortina para esperar a reação de Marianne. Assim que eles passaram defronte à sua casa, a caminho da sorveteria, ela sibilou entre os dentes:
— Aproveite enquanto pode, sua pirralha maldita. Seus dias com Ross estão contados.
Soltou a cortina com fúria e foi para dentro, rindo de sua própria malícia e do destino que esperava por Marianne.

12
A vida na casa de Marianne parecia haver retomado a normalidade, e a menina se encontrava bem mais calma na companhia de Ross. Depois de se certificarem de que ela já estava melhor, Kate e David chamaram-na novamente para uma conversa a respeito da escola.
— O senhor O'Neill se queixou de você novamente — falou Kate, sentada em frente a ela no sofá. —Disse que você não aprende.
Marianne olhou para Ross de soslaio e não respondeu, limitando-se a ouvir as queixas dos pais.
— O que há, Marianne? — acrescentou o pai. —Pensei que pudéssemos confiar em você.
— Isso não se faz — prosseguiu a mãe. — Como foi que esqueceu tudo o que Ross lhe ensinou? E por que não presta atenção às aulas?
— Será que as aulas são muito aborrecidas? O professor O'Neill não é bom o bastante?
- Pelo visto, vai perder o ano. O que faremos se você for reprovada?
— Se isso acontecer, serei obrigado a mandá-la para aquela escola de Newcastle, da qual já lhe falei. É isso que quer?
— É claro que não, não é mesmo? Ainda mais agora, que conseguimos trazer Ross de volta.
— Contudo, não terei outra alternativa. Se você não passar de ano, serei mesmo obrigado a enviá-la para lá.
Marianne estava confusa. Os pais falavam sem parar e nem lhe davam tempo de pensar. De tudo o que diziam, pouco ela apreendia. Apenas uma coisa conseguira entender: eles a ameaçavam com uma escola distante. Por quê? Seria um castigo pelo que havia feito à bruxa? Mas a culpa não era dela. Tudo o que fizera fora seguir as ordens de Margot.
Ross também não dizia nada. Olhava para Marianne, tentando adivinhar no que estaria pensando, certo de que estava confusa. Ela sempre ficava.
— Estamos entendidos, Marianne?
Era a voz do pai, dando por encerrado o sermão. Marianne, no entanto, não se lembrava mais do que ele dissera no começo. Para não levar bronca nem apanhar, balançou a cabeça afirmativamente e tornou a olhar para Ross, que piscou um olho e sorriu.
— Não se esqueça — disse a mãe, aproximando-se dela, depois que o pai saiu: — estamos confiando em você.
— Pode deixar, tia Kate — intercedeu Ross. — Eu lhe ensinarei de novo.
Kate fitou o menino com emoção, grata por ele gostar tanto de Marianne. Apenas Ross sabia lidar com ela e tinha o poder de acalmá-la. Já nem sabia mais como lhe agradecer as horas roubadas da infância, cuidando de sua filha. Era um menino tão jovem e inteligente e, ao mesmo tempo, abnegado de sua própria vida e dedicado à prima.
As coisas sucediam conforme o planejado. Todos os dias, Ross se dedicava à difícil tarefa de ensinar Marianne. Cada vez mais, ela parecia desinteressada da lição, deixando o menino apavorado.
— Você não quer ir morar em Newcastle, quer? — dizia ele, tentando assustá-la para que prestasse atenção aos estudos.
— Não.
— Então, tem que se esforçar.
Marianne olhava do papel para Ross, tentando entender por que aquilo era tão importante. Não compreendia.
Em certa ocasião, apanhou o lápis da mão dele e aproximou-o do caderno. Ross suspirou aliviado, pensando que ela ia, finalmente, copiar as frases que ele escrevera. Ao invés disso, Marianne desenhou um coração e escreveu dentro dele as letras R e M. Apesar de emocionado, Ross sentiu o desespero tomar conta dele e, com os olhos cheios de lágrimas, suplicou:
— Será que você não entende? Tio David não está brincando. Se você não passar de ano, ele vai mandar você para bem longe daqui. Você quer ir para o internato e me deixar? — Ela meneou a cabeça e ele prosseguiu: — Então tente. Sei que pode. Você já aprendeu a ler uma vez, não pode ter esquecido. Já tirou até um dez. Lembra-se do dez, Marianne?
— Lembro — respondeu ela com um certo orgulho.
— Então vamos. Pelo amor de Deus, se você não ler, não poderemos mais ficar juntos.
Vendo o desespero dele, Marianne compreendeu como era importante para Ross que ela lesse. Mas o que podia fazer se não gostava e não via utilidade alguma nas letras? Ele dizia que ela se esquecera, o que não era verdade. Apenas não se interessava.
Como Ross ficaria feliz se ela lesse aquelas linhas, foi o que fez. Afagou o rosto do menino e apanhou o caderno, onde ele havia escrito as frases que ela deveria copiar. Com voz pausada e sonora, foi lendo:
— Mamãe vai às compras no mercado; Papai saiu para o trabalho; O gato do vizinho subiu na árvore...
Ross sentiu a pele se arrepiar e suspirou aliviado. Ela estava lendo! Marianne sabia ler. Não se esquecera. Estava atrasada na escola porque queria. Sua teimosia, contudo, acabaria lhe custando o ano letivo. Tentou expor-lhe o problema:
— É claro que você sabe ler. Por que não acompanha o resto da turma? O senhor O'Neill está muito zangado com você.
Ela deu de ombros e respondeu com desinteresse:
— Não gosto de ler. Não acho que seja importante.
— Como não é importante? Se você não aprender a ler, vai ficar ignorante para sempre e perderá muitas coisas boas na vida. E isso o que você quer? Ser burra?
Ela deu de ombros novamente e retrucou:
— É importante para você?
— É muito importante para mim. E deveria ser para você também. Se você não acompanhar a turma, seu pai vai mandá-la para o internato em Newcastle.
— Não quero ir.
— Sei que não. Nem eu quero que vá. Por isso, trate de prestar atenção às aulas e fazer tudo direitinho como o senhor O'Neill mandar. Se ele mandar você ler, leia. Se a mandar escrever, escreva. Se lhe perguntar alguma coisa, responda.
— Está bem. Se é o que você quer...
Era ela quem deveria querer, para o seu próprio bem. Mas exigir dela essa consciência seria irreal e cruel. Por isso Ross contentou-se em ser a causa de seu interesse. Desde que ela aprendesse a ler, estava tudo bem.
— Vamos continuar então — animou-se ele. —Copie essas frases.
Com o lápis na mão, Marianne começou a copiar cada uma das frases que ele escrevera. Quando chegou na metade, sua paciência já havia se esgotado, e ela escreveu: Marianne ama Ross.
O menino a encarou com os olhos cheios de água. Não só porque ela criara uma frase sozinha, mas porque lhe fizera uma declaração muito bonita. Beijou-a discretamente no rosto, tentando ocultar as lágrimas, e disse baixinho em seu ouvido:
— Ross também ama Marianne.
No dia dos exames, Marianne conseguiu tirar uma boa nota. Embora não fosse outro dez, um oito e meio foi considerado mais do que satisfatório pelo senhor O'Neill. No dia da entrega das provas, o professor acercou-se dela e falou:
— Muito bem, Marianne. Sua nota foi muito boa. Excelente mesmo. Demonstrou que você não é uma menina estúpida. Por que se recusa a aprender?
— Estou aprendendo, senhor O'Neill — respondeu ela friamente.
A menina na carteira da frente virou-se para trás e fez uma careta, deixando Marianne indignada. Pensou em puxar-lhe as tranças, mas uma outra menina se aproximou e falou carinhosamente:
— Não ligue não. Ela ainda tem muito que aprender.
Havia tanta doçura na voz daquela menina, que Marianne respondeu, tentando parecer doce também.
— Tem razão. Ela não sabe de nada.
— Com quem está falando, Marianne? — era a voz do professor.
— Com essa menina aqui — respondeu, apontando para o lado. — Não sei o seu nome.
— Nikita — respondeu a outra com um sorriso.
— Com a Nikita — repetiu Marianne.
O professor a olhava como se ela fosse louca, assim como as outras meninas, que pareciam meio assustadas.
— Que Nikita ?
— A Nikita, ora. Essa aqui. Fale com eles, Nikita.
— Não posso. Eles não podem me ver ou ouvir.
— Por quê?
Antes que Nikita respondesse, o senhor O'Neill já havia se levantado e se aproximado da menina da carteira da frente, que se chamava Anne.
— Por que está chorando, Anne? — perguntou ele. Em lágrimas, Anne, balbuciou:
— Nikita... Era assim que a chamávamos... Era minha irmãzinha... Morreu afogada no verão passado...
— Oh! — fizeram as outras meninas, ao mesmo tempo.
— Acha engraçado debochar do sofrimento de sua colega? — zangou-se o professor, batendo com a varinha na carteira de Marianne.
— Eu não fiz isso.
— Quem lhe contou sobre Nikita?
— Ela mesma.
— Você a conheceu?
— Conheci-a agora. Ela está bem aqui ao meu lado. Anne desatou a chorar convulsivamente, e o senhor O'Neill, cada vez mais indignado, continuou a recriminar:
— Pare já com isso, está me ouvindo? Ou serei obrigado a tomar medidas mais drásticas.
— Marianne é malvada — falou uma outra menina. — Só porque Anne lhe fez uma careta...
— Não foi! — berrou Marianne, já impaciente. —Não foi nada disso. Nikita está aqui ao meu lado. Só não a vê quem não quer!
— Não diga mais nada — aconselhou Nikita, penalizada. — Você é a única que pode me ver e ouvir.
— Mas... — balbuciou Marianne — ... elas estão me chamando de malvada.
— Não ligue. Faça de conta que eu não existo.
— Não posso. Você está aqui. E foi tão simpática!
Ninguém nunca é simpático comigo. Só o Ross. Às vezes, tia Jane também é.
— Não fale mais nada. Pelo seu próprio bem, fique quieta.
Marianne deu de ombros e acrescentou com voz chorosa:
— Se é o que quer...
Olhou para a frente novamente. Todos os olhares estavam cravados nela, inclusive os do professor que, de boca aberta, a varinha parada no ar, não sabia o que pensar daquele monólogo.
— Seus pais vão saber disso, pode estar certa —replicou ele, recuperando o autocontrole — É muito feio tripudiar sobre o sofrimento alheio.
Embora Marianne não entendesse bem o que ele dizia, sabia que seus pais receberiam uma nova carta. Nova carta, nova bronca, nova ameaça. E tudo porque uma menina idiota resolvera inventar aquela história de irmã afogada. Então não percebiam que aquela Nikita não podia ser a irmã de Anne?
Aos pouquinhos, a raiva e a indignação foram tomando conta de Marianne, que via os ombros de Anne sacudidos pelos soluços. Um ódio feroz e irracional se apoderou dela, fazendo-a perder o domínio de si mesma. Subitamente, deu um salto para a frente e agarrou os cabelos da menina, batendo com a testa dela diversas vezes na carteira.
O professor O'Neill mal acreditava no que estava acontecendo. Ouviu os gritos agoniados de Anne e, mais que depressa, agarrou Marianne pela cintura e lutou com ela, forçando-a a soltar os cabelos da outra. Gritando feito louca, foi arrastada pela porta, enquanto Anne soluçava, um galo crescendo na testa ferida.
A própria diretora foi acompanhar Marianne até em casa. Deixou Anne e as demais alunas aos cuidados dos professores e da secretária e saiu com a menina.
Não dava mais para aguentar aquela criança descontrolada e maluca. Era obrigação dos pais cuidarem dela, não sua. Ela dirigia uma escola, não um asilo de loucos.
Colocada a par da situação, Kate pensou que fosse morrer de vergonha. Ouviu as queixas da diretora em silêncio, interrompido apenas por desajeitados pedidos de desculpas. Marianne também não disse nada. Nem se defendeu. De que adiantaria? Ninguém acreditava mesmo nela.
— Que fique bem claro — disse a diretora em tom intimidador — é a última vez que Marianne apronta na escola. A última vez, eu juro. Da próxima, terei de expulsá-la.
Depois que a diretora foi embora, exigindo providências enérgicas, sob pena de expulsão, Kate se virou para a filha com ar ameaçador. Estava furiosa. Não suportava mais tanta vergonha. Agarrou a menina pelos cabelos, desferindo-lhe diversos tapas nas faces, e saiu arrastando-a escada acima. Marianne chorava e esperneava, mas Kate não amolecia. Precisava dar-lhe uma lição. Abriu a porta do quarto e atirou-a lá dentro, fechando a porta com estrondo.
— Você vai ver só quando seu pai chegar! — berrou Kate do lado de fora. — Vai levar uma surra da qual jamais irá se esquecer!
Marianne se jogou na cama e desatou a chorar, sentindo-se em completa solidão. Ross nada sabia do ocorrido. O que pensaria quando passasse na escola e não a visse?
Medo, foi o que ele sentiu. Como Marianne não apareceu, Ross temeu por ela e correu à sua casa o mais rápido que pode.
— Tia Kate, tia Kate! — chamou ele preocupado. — Marianne... Ela sumiu!
— Não sumiu não. Está no quarto dela.
— Ela voltou mais cedo? Por quê? Está doente?
— Não. Ela passou dos limites. De novo.
Brevemente, Kate narrou a Ross o que havia acontecido. A história não lhe pareceu tão fantasiosa como a tia dissera. Ele acreditava em Marianne.
— E se Marianne não estiver mentindo? — sugeriu ele. — Ela pode mesmo ter visto o fantasma da menina.
— Não me venha com essa você também. Fantasmas não existem.
Não adiantava argumentar com Kate, nem Ross estava disposto a isso. Só queria saber de Marianne.
— Posso vê-Ia? — pediu.
— Hoje não. Ela está de castigo. Só sai depois que o pai deixar.
Marianne passou o resto do dia trancada no quarto e não saiu nem para almoçar. Depois, veio a hora do chá, e nada. A hora do jantar já estava se aproximando, e Kate não aparecia. Ross também não. Só muito mais tarde foi que a porta se abriu com um estrondo, e o pai entrou, fuzilando de raiva.
— Muito bem, Marianne Landor! — esbravejou. —Isso é coisa que se faça? Bater em sua colega?
- Pai...
David nem quis escutar. Tirou o cinto, esticando-o pelas pontas, e aproximou-se de Marianne, que se encolheu toda. O primeiro golpe acertou-a no braço, que ela erguera para se proteger. Outros dois a atingiram nos flancos e, quando ela se virou, mais um acertou-lhe em cheio as costas. Tudo aconteceu muito rápido. Com apenas quatro vergastadas, David abrira enorme ferida no coração de Marianne. Depois que terminou, apontou o dedo para ela, caída no chão com a carne ardida, e vociferou:
— Isso é para você aprender a não agredir mais suas colegas. Da próxima vez, tenha respeito, se não quiser que eu a mate!
As palavras de David arderam como ferro em brasa nos ouvidos de Marianne, que ergueu o corpo alquebrado e, olhando bem fundo nos olhos do pai, disparou com toda a força de seu ódio:
- Odeio você! Você não é meu pai! Animal, monstro, demônio! Eu o odeio! Odeio! Saia daqui, demônio, saia! Eu o odeio!
David nunca vira tanto ódio nos olhos de uma criança. Tomado de surpresa, rodou nos calcanhares e saiu em desabalada carreira pelas escadas, até onde Kate o aguardava em companhia dos outros filhos, que choravam assustados. Abraçou a mulher e chorou também. Não sabia mais o que fazer. Marianne os estava consumindo e, naquele momento, ele pensou o quanto seria bom se ela jamais houvesse nascido.

13
Marianne voltou à escola acabrunhada. Assim que despontou na soleira da porta, as colegas começaram a cochichar entre si e a dar risadinhas abafadas. Rosto ardendo, entrou a passos vagarosos e foi sentar-se no lugar de sempre. À sua frente, Anne mal disfarçava a raiva. Acompanhou a entrada da outra e, depois que ela se acomodou, falou entre os dentes:
— Isso não vai ficar assim, sua maluca. Minha mãe disse que você é uma doida perigosa, e o melhor é manter distância das suas esquisitices.
— Ela tem razão — rebateu Marianne, mal contendo a raiva. — Se não quiser que eu a morda.
— Até parece...
Marianne chegou o corpo para a frente e mordeu Anne no ombro. Enquanto a menina gritava, as outras, assustadas, fizeram menção de se levantar, mas o professor entrou e todas se calaram, com medo.
— Bom dia — cumprimentou ele, carrancudo como sempre.
Antes que Anne se levantasse para fazer queixa dela, Marianne soprou em seu ouvido:
— Se disser uma palavra, vai se ver comigo. Vou lhe mostrar o quanto sou perigosa.
Pela primeira vez em sua vida, Marianne ameaçou alguém. E o mais surpreendente foi o resultado. O tom ameaçador de sua voz intimidou não apenas Anne, mas a menina do lado e outras que se encontraram próximas. Logo Marianne percebeu que causava medo nas colegas, e essa descoberta representou uma arma poderosa para sua defesa.
Na saída da escola, contou a Ross sobre o ocorrido e a ameaça que fizera a Anne. Os tios certamente, não aprovariam aquela conduta, mas Ross viu nela uma forma de Marianne se manter em segurança. Deixou-a em cãs e seguiu mais feliz.
Ao amanhecer, Ross notou algo estranho no ar. Lilian parecia diferente. Exibia um ar de triunfo que o incomodou.
- Como está Marianne hoje? – indagou com ironia.
- Bem – respondeu ele, desconfiado. – Por que?
- É bom que esteja bem, porque essa alegria vai durar pouco.
- Por que faz isso, Lilian? – respondeu Nathan. – Deixe Marianne em paz.
Ross não entendeu nada. Passou por eles e foi para o quarto, enquanto escutava a voz da madrasta:
- Vá se lavar. O jantar será servido em breve. Um dos últimos...
- Pare com isso! – tornou Nathan. - Quer estragar tudo?
Lilian antegozava sua vitória. Depois de quase um ano de buscas, encontrava a casa de seus sonhos. O preço era razoável, e a casa, muito boa; ampla, com quatro quartos espaçosos e um jardim maravilhoso. Ficava num bairro distante, numa rua muito distinta, onde ela não seria obrigada a conviver com aquela família insossa e sem modos que o marido lhe arranjara.
Ao ouvir Ross fechar a porta do quarto, ela se aproximou do marido e falou com euforia:
— A casa é uma beleza. Já nos vejo morando lá.
— Por que a pressa?
— Você sabe que não gosto daqui. E depois, você prometeu.
— Eu sei. Mas eu ainda nem vi a casa.
— Tenho certeza de que vai adorar. É ideal para nós.
— Não acha que o preço é um tanto alto?
— Não vá me dizer que ficou sovina de repente!
— Não se trata disso. Temo apenas não poder pagar.
— Deixe de bobagens. Já conversei com o proprietário, e ele sugeriu uma hipoteca. Disse que todo mundo faz assim.
— De qualquer forma, preciso pensar. Não posso tomar nenhuma decisão antes de ver a casa.
— Amanhã podemos passar lá antes de você ir para o trabalho. O proprietário vai estar nos esperando.
Não havia mais meios de dissuadir a mulher daquela ideia de mudança. Nathan protelara o quanto pudera e agora não tinha mais jeito. Podia dizer que não gostara da casa, contudo, não suportava mais a pressão para se mudarem. E ele não aguentava mais a mulher se queixando de Kate e Marianne. Talvez o melhor mesmo fosse se mudarem para longe, um lugar onde encontrasse um pouco de sossego. Sentiria falta do irmão e da família, mas tinha que pensar na felicidade da esposa e na sua própria paz.
A seu lado, invisível, Margot acompanhava o desenrolar dos acontecimentos.
— Pois é — suspirou o espírito. — Vai ser uma pena. Já tinha feito planos para você, Lilian, mas com Marianne longe, vai ficar difícil. Quem mais vou encontrar com a sensibilidade dela?
Margot saiu desanimada e foi até a casa de Marianne. A menina e os irmãos estavam brincando no chão da sala, embora ela mantivesse uma brincadeira isolada com sua boneca.
— Olá, Marianne — cumprimentou ela, sentando-se a seu lado, e Marianne respondeu com um aceno de cabeça. — Gosta de bonecas?
Marianne deu de ombros e respondeu sem muito interesse:
— Gosto. Pelo menos elas não falam.
— Entendo o que quer dizer. As pessoas às vezes são bem chatas, não são?
— São sim.
— Com quem está falando, Marianne? — interrompeu Roger, olhando para os lados.
— Com Margot.
— Onde ela está?
— Bem aqui ao meu lado.
— Não vejo ninguém.
— Isso é porque você é um menino muito tolo.
— Mas...
Irritada, Marianne deu-lhe um tapa na mão, e Roger começou a choramingar, voltando sua atenção para o cavalinho de pau que tinha a seus pés.
— Vou contar para a mamãe — queixou-se ele.
— Se contar, vai apanhar!
O tom incisivo de Marianne, mais uma vez, intimidou o interlocutor e, a exemplo do que ocorrera na escola, Roger também não disse nada. Margot, já impaciente com a intromissão do menino, aproveitou que ele havia se calado e continuou:
— Veja Lilian, por exemplo.
Marianne desviou a atenção do irmão e retrucou friamente:
— O que tem ela?
— É uma verdadeira bruxa.
— Engraçado... até que ela não tem implicado comigo.
** — Sabe por quê?
— Não.
Não fosse a lembrança da figura aterradora de Luther, Margot lhe teria contado sobre a mudança.
— Lilian é uma fingida — acrescentou ela. — Finge-se de amiga de Ross, mas não gosta dele nem um pouquinho.
— Ela tem nos deixado em paz.
— Não se iluda. Ela está lhe aprontando uma falseta.
— Como assim?
— Está preparando um novo bote.
— Não entendo. O que você diz não faz sentindo algum.
— Agora mesmo, Lilian está lá na casa dela implicando com Ross. Por que não vai lá ver?
Marianne estava em dúvida. A mãe mandara que ela olhasse os irmãos enquanto preparava o jantar.
— Não posso ir lá — protestou hesitante. — Minha mãe pode não gostar.
— Desde quando você tem medo de sua mãe? Pensei que fosse mais esperta.
Roger a olhava pelo canto do olho, intrigado com aquela conversa com o invisível e temeroso em fazer perguntas.
— Não posso ir — insistiu Marianne. — Minha mãe vai me bater.
— Se ela quiser bater em você, prometo ajudá-la.
— Como?
— Você vai ver — como a menina hesitava, Margot praticamente implorou: — Por favor, Marianne, só dessa vez.
— Mentirosa! Como é que vai me ajudar se minha mãe nem consegue ver você?
— Confie em mim. Prometo que nada vai lhe acontecer. Agora, quanto a Ross...
Uma suposta ameaça a Ross era algo muito sério, e Marianne resolveu verificar o que estava acontecendo. Soltou a boneca no sofá e saiu pela porta da frente, a fim de que a mãe não a visse. Deu a volta na casa até a tábua na cerca e passou para o quintal vizinho.
Ross jantava em companhia do pai e da madrasta quando ouviram batidas na porta da cozinha.
— Quem poderá ser? — indagou Lilian surpresa.
— Deve ser Marianne — respondeu Nathan. — Ela sempre vem pelos fundos.
Ante aquela possibilidade, Ross correu a abrir a porta antes que Lilian pensasse em impedi-lo. A prima estava ali parada, com Margot, invisível a seu lado, soprando-lhe coisas ao ouvido.
— Está tudo bem, Marianne? — indagou Ross, após efusivo abraço.
— Está — respondeu ela, espichando o pescoço para espiar do lado de dentro. — Vim apenas ver como você está passando.
— Que bobagem é essa agora? — cortou Lilian, que surgira atrás do menino.
— Por que você está implicando com ele? — redarguiu Marianne, encarando Lilian com ar gélido.
— Em primeiro lugar, não é você, é senhora. Em segundo lugar, não tenho tempo para ficar de implicância com crianças.
— Mas estava. Não estava, Ross?
Sem saber o que dizer, ele deu de ombros e não respondeu.
— Venha terminar o seu jantar, Ross — ordenou Lilian.
— Entre, Marianne — convidou o menino.
— Ah! isso é que não! Essa selvagem não entra mais em minha casa!
Lilian colocou a mão na frente de Marianne, impedindo sua passagem, e Nathan interveio:
- Vá com calma, Lilian. Ela não está fazendo nada.
Embora contrariada, Lilian saiu da frente e Marianne entrou, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Ross.
— Já jantou? — indagou o tio.
— Ainda não.
— Quer jantar?
— Não, obrigado — ela se esforçava ao máximo para parecer educada. — Minha mãe está preparando minha comida.
— Ótimo! — cortou Lilian. — Por que não vai logo para casa?
— Está vendo só? — instigou Margot, parada ao lado de Marianne. — Ela quer que você vá embora só para continuar a maltratar o seu primo. Não gosta dele. Até a ouvi dizer que vai fazer uma poção mágica para transformá-lo em sapo.
— Que horror! — indignou-se Marianne, acreditando integralmente nas palavras de Margot. — Não vou deixar!
— O que houve? — perguntou Nathan.
— Tio... Essa mulher — apontou para Lilian — é uma bruxa. Quer enfeitiçar Ross, transformá-lo num sapo.
— Ora, sua atrevida... — rebateu Lilian furiosa, levantando a mão para bater nela.
— Quem lhe disse isso? — interrompeu Nathan, segurando a mão da esposa.
— Foi a Margot.
— Quem é Margot?
— Ela.
Apontou para o espírito, que ficou indeciso. Percebendo o rumo que a conversa tomava, Ross soltou a colher no prato, levantou-se correndo e tomou a mão de Marianne, puxando-a em direção à porta.
— Venha, Marianne, vamos embora. Sua mãe deve estar preocupada.
— Você ainda não respondeu — insistiu Nathan. — Quem é Margot?
— É uma colega da escola de Marianne — intercedeu Ross. — Vive fantasiando e inventando coisas.
Marianne nem teve tempo de protestar, pois Ross já corria com ela pelo quintal. Ao mesmo tempo, em sua casa, Kate ajeitava as crianças à mesa, enquanto perguntava a si mesma:
— Aonde será que foi essa menina? Mandei que tomasse conta dos irmãos.
— Acho que ela saiu com Margot... — contou Roger de forma inocente.
Kate fez cara de espanto. Será que o filho também estava dando para ver coisas? Já ia perguntar quando Ross entrou correndo na cozinha, trazendo Marianne pela mão.
— Onde foi que você se meteu? — indagou o pai com aborrecimento. — Sua mãe não lhe mandou olhar seus irmãos?
— Não briguem com ela, por favor — pediu Ross.
— Fui eu que pedi a Marianne para ir levar-me um livro.
Obviamente, nem Kate, nem David acreditaram, contudo, preferiram não fazer perguntas. Era até bonito o esforço de Ross para proteger Marianne. Ela passou pelos pais e sentou-se em seu lugar, lançando ao primo um sorriso de cumplicidade, que ele devolveu com outro, carregado de amor.

14
Os dias transcorriam normalmente. Marianne se encontrava bem mais calma, livre, inclusive, da influência de Margot, que não conseguia mais atingir Lilian por seu intermédio. Por mais que tentasse, não tinha sucesso, já que Ross estava sempre por perto e impedia. E a própria Marianne perdera muito de seu interesse em Lilian, desde que o primo voltara ao convívio de sua casa.
Lilian, por sua vez, só pensava na casa nova. Finalmente encontrara uma que era exatamente o que procurava e combinou de passar pela fábrica e pegar o marido, para irem vê-la juntos. Terminado o almoço, Nathan foi falar com o senhor Bradley, que, com excessiva simpatia, autorizou-o a sair.
Dentro de cinco minutos, Lilian apareceu eufórica, passando as luvas de uma mão à outra. Recebeu o beijo discreto do marido e foi com ele descendo a rua.
— E agora? — indagou ele. — Para onde vamos?
— Vamos tomar o metrô — respondeu ela bem-humorada.
Sem que Nathan percebesse, o senhor Bradley os acompanhava com olhar enigmático, até que eles sumiram de vista. Em breve chegaram à casa, e um senhor idoso veio atender.
— Bom dia, senhora Landor — cumprimentou ele polidamente.
— Bom dia, senhor Carlson — respondeu ela, acenando com gestos aristocráticos. — Este é meu marido, Nathan Landor.
— Muito prazer — acrescentou o homem, estendendo a mão para Nathan, que a apertou indeciso. — Entrem e fiquem à vontade.
Lilian tomou o braço do marido e seguiu com ele para o interior da casa, com o proprietário logo atrás.
— A casa é muito bonita, toda em estilo vitoriano. Apesar de ser uma construção de quase cinquenta anos, está muito bem conservada, como pode ver.
Nathan, olhar crítico, balançou a cabeça afirmativamente e encarou a mulher, que sorria encantada, mal conseguindo ocultar o entusiasmo.
— E então, meu bem? — tornou eufórica. — O que me diz?
O olhar discreto de Nathan fez o senhor Carlson perceber que o casal precisava conversar a sós, e ele disse polidamente.
— Podem ficar à vontade. Se precisarem, estarei lá embaixo.
Assim que ele saiu, Nathan foi logo falando para a mulher:
— Esta casa está muito acima de nossas possibilidades.
— Mas ela é tão bonita! Não podemos pensar na hipoteca?
— Não sei. Tenho medo de não conseguir pagar.
— Acho que está com medo à toa. Nem é tão cara assim. Tenho certeza de que, com esforço e economia, conseguiremos resgatar a hipoteca em pouco tempo. Pense em Ross. Ele está crescendo. Não acha que merece viver num lugar melhor? A vizinhança aqui é muito seleta.
— Por Ross, continuaríamos em nossa casa, tenho certeza.
— Mas aquela casa não é nossa! É alugada.
— Que diferença faz? Quase todo mundo vive de aluguel, não é nada de mais. Não somos felizes ali?
Lilian colocou as mãos na cintura e, batendo o pé no chão, retrucou em tom de zanga:
— Mas que falta de ambição! Como pode se contentar em viver num imóvel que não lhe pertence, quando pode ter a sua própria casa?
— Não sou ganancioso e estou preocupado com meu filho. Não quero que ele sofra.
— Você está é preocupado com aquela maluca da Marianne!
— Não é bem assim.
— É assim, sim. Você prometeu que iríamos nos mudar e agora está querendo mudar de ideia. Tudo por causa daquela doida!
— Talvez devêssemos esperar um pouco mais. Procurar algo mais em conta, talvez.
— Nada disso. Sei muito bem que você tem condições de pagar essa hipoteca. Ou está com medo de Kate?
— Não é isso...
— É isso mesmo. Será que se tornou um covarde de repente? Com medo da cunhada? Ou você hesita em deixá-la porque se apaixonou por ela? É isso, Nathan? Você ama a mulher de seu irmão?
— Não me venha com esses disparates! — indignou-se. — Você sabe que não é nada disso.
— Pois então, qual o problema?
Nathan não sabia o que dizer. Se pudesse, daria o que tinha para voltar atrás na promessa que lhe fizera, contudo, não podia. Ainda mais porque não queria que Lilian fizesse mau juízo de Kate. Ele gostava muito da cunhada, mas jamais pensara nela como mulher. Ela era a esposa de seu irmão.
— Está certo — sussurrou vencido. — Seja como você quiser. Vamos chamar o senhor Carlson e acertar tudo.
Como Nathan não encontrou dificuldade em conseguir a hipoteca, marcaram para breve a data da assinatura da escritura. Apesar da tristeza em deixar a família, agradava-o a euforia da mulher. Lilian não era tola. Percebia nitidamente a contrariedade do marido. Sabia, porém, que a propositada suspeita sobre sua paixão por Kate seria motivo mais do que suficiente para ele manter a promessa.
— Não fique triste — falou ela com voz melíflua. —Estamos fazendo o melhor. E Ross poderá vir visitar Marianne quando quiser.
— Será que não é melhor contarmos a Kate e David? Para irem preparando o espírito de Marianne?
— Se contar, ela vai estragar tudo.
— Mas a casa já está praticamente comprada. Pense em Marianne. Ela é uma criança...
— Uma criança mal-educada e atrevida. Vai ser bem feito para ela.
Ao lado de Lilian, o espírito de Margot se remoía de raiva. Como gostaria de contar tudo a Marianne! Não apenas para insuflar a menina contra Lilian, mas porque, inesperadamente, acabara se afeiçoando a ela e não queria que sofresse. No entanto, a só lembrança de Luther a paralisava.
Com um suspiro doloroso, saiu pela parede e foi ao encontro de Marianne. Ela estava deitada em sua cama, pronta para dormir, quando Margot entrou.
— Olá, Marianne — cumprimentou com um sorriso amargo.
— Como vai? — respondeu Marianne, sonolenta. — O que foi que houve? Está triste?
Margot se sentou na beira da cama e respondeu quase num lamento:
— Deu para perceber?
— É claro. O que foi que aconteceu?
— Não gosto de Lilian...
— Nem eu. Não gosto de Lilian porque ela vive implicando comigo e tentando me afastar de Ross. E você? Por que não gosta dela? O que foi que ela lhe fez?
— Digamos que ela destruiu a minha vida.
— Como?
— Roubando-me o homem amado.
As duas se entendiam muito bem, e Marianne comentou como se falasse a uma amiga:
— Quase ninguém fala comigo do jeito como você fala. As pessoas, em geral, não gostam de mim e procuram se afastar. Mas você não. Conversa comigo normalmente, entra em minha casa como se fosse da família. Por quê?
— Gosto de você — respondeu com cautela.
— Deve ser a única, além de Ross.
— Seus pais não a amam?
Ela chegou o rosto para a frente e falou bem baixinho:
— Vou lhe confessar uma coisa.
— O quê?
— Eles não são meus pais.
— Não?!
— Eles dizem que são, mas sei que não são.
— Como assim?
— Fui deixada aqui na casa deles, mas eles não são meus pais.
— Onde estão seus pais verdadeiros?
Marianne fez um gesto de dúvida, e Margot compreendeu tudo. Em sua confusão mental, ela ainda retinha na memória a lembrança de seus pais na última encarnação, que não eram os mesmos da atual. Por isso não os reconhecia.
Ela olhou de soslaio para a porta e acrescentou:
— Procuro não falar nada. Eles ficam zangados à toa, e eu tenho medo.
— Eles a maltratam?
— Às vezes. Minha mãe me bate e me tranca no quarto, sem comida. Meu pai também me bate. Só que com mais força.
— Ora, vamos, eles não são assim tão ruins. Sei que foi seu pai quem convenceu seu tio Nathan a permitir que Ross voltasse a frequentar sua casa.
— Isso às vezes acontece.
— E você não gosta deles?
— Não sei. Eles são estranhos. Não veem as pessoas ao seu redor. Não entendo como pode.
— Como assim?
— Ora, eles nem conseguem ver você! Não compreendo isso. Por que existem pessoas que ninguém vê?
Margot sentiu imensa tristeza. Marianne não desconfiava que falava com espíritos e, para completar, havia aquela coisa em seu cérebro, invisível aos olhos humanos, mas que, energeticamente, lhe tolhia a razão.
— Luther me disse que eu posso falar com os mortos — acrescentou ela, para surpresa de Margot.
— Conhece Luther?
— Esteve aqui algumas vezes. Mas não sei se acredito nele. Ninguém parece morto. Você está morta, Margot?
Cada vez mais compadecida de Marianne, Margot abaixou a cabeça e não respondeu. Se, por um lado, tinha vontade de esclarecê-la, por outro, não pretendia assustá-la. Apesar de movida pela vingança, Margot não era má, e em seu coração brotou uma compaixão genuína e uma ternura sincera.
Tal rompante de lucidez e de sentimentos nobres desanuviou o coração do espírito, permitindo a proximidade de seres sábios e iluminados. Sem que ela percebesse, os amigos invisíveis irradiavam sobre sua mente a luz da sensatez, de forma que ela começou a refletir sobre a própria vida, espelhado-se em Marianne.
Se estava naquela situação, não era por culpa de ninguém, e sim por escolha dela mesma, que se recusava a tomar outros rumos e preferia permanecer na crosta terrestre, como se dela ainda fizesse parte. Marianne, por sua vez, não tinha escolha. Por mais que houvesse um plano divino por trás de tanto sofrimento, naquele instante, quem sofria era a menina que desconhecia os comprometimentos da própria alma.
A comparação lhe pareceu injusta, e sua ação sobre Marianne tomou ares de crueldade. Será que tinha o direito de utilizar-se da sensibilidade da criança só para empreender sua vingança pessoal? Pensando melhor, não lhe parecia correto debruçar-se sobre o fardo de Marianne para acrescentar-lhe mais peso. A garota não tinha escolha. Ela, sim.
E havia algo que Margot reconhecia em Marianne e que ela jamais possuíra: coragem. Não devia ter sido fácil aceitar aquela reencarnação de loucura, porém, Marianne a enfrentava com persistência. Mesmo que a mente consciente estivesse distante daquela verdade, a alma da menina resistia ao aparente infortúnio, quando bem podia desistir e desencarnar.
Marianne era realmente corajosa. E ela? Tinha coragem para quê? Vingar-se? Não era preciso coragem para se vingar. Qualquer um podia fazer o que ela fazia. Difícil mesmo era perdoar, desistir da vingança e olhar para dentro de si, reconhecendo que a causa da dor estava em si mesma.
Constatar a verdade foi um choque para Margot. De repente percebeu não apenas que não tinha o direito de usar Marianne, mas também que Lilian não era responsável pelo seu sofrimento. A rival estava numa situação melhor que a dela, de volta à vida e casada com outro homem. E ela? De que valia o seu ciúme se Lilian não se lembrava do passado nem de quem era ela? Não teria sido melhor, ao invés de persegui-la pelos séculos, tomar coragem e reencarnar junto dela para buscarem um entendimento?
Mas havia o outro lado. Margot fora condenada àquela morte horrenda em virtude da acusação infundada de Lilian. Só que havia se esquecido, e agora se lembrava, de que, numa existência ainda anterior, havia lhe tirado tudo, inclusive a vida, só para ficar com o marido dela. Então, não devia ter-se queixado quando Lilian lhe dera o troco.
E era por isso que ela agora se vingava. Porque Lilian se vingara por algo que ela fizera, e talvez, numa próxima encarnação, viesse a vingar-se de novo, por causa do que ela agora fazia. Então, ela se vingaria outra vez, e Lilian novamente... E quando é que aquela vingança ia acabar? A ideia de uma vingança eterna a incomodou, provocando o questionamento sobre a utilidade da tudo aquilo. A conclusão a que chegou foi de que, quanto mais se vingassem, mais estariam presas uma à outra.
Lilian, apesar de tudo, não parecia mais presa a ela. Era ela que se prendia a Lilian. A outra nem ao menos sabia da sua existência, não lhe registrava a presença e, não fosse por Marianne, continuaria em seu mundinho de ilusões e futilidades.
Ilusões... Ela também alimentava uma ilusão, só que muito pior. Iludia a alma com a satisfação da vingança. Mas que alma se deixa iludir para sempre, quando a verdade eterna não é um sentimento mesquinho e fugaz, incapaz de gerar felicidade? Vive para sempre o amor que floresce no coração. E que amor Margot havia plantado no seu?
Margot sentiu-se mais sozinha do que nunca. Olhando ao redor, não viu ninguém a quem pudesse chamar de amigo, já que o espírito de luz continuava invisível. Só havia Marianne, pequenina e indefesa ante o poderoso ser das sombras. Por um momento, Margot esqueceu-se de si mesma e fitou a menina, cujas pálpebras pesadas iniciavam o processo de adormecimento.
— Você não está morta — afirmou Marianne, praticamente adormecida. — Não pode estar...
Os olhos de Marianne se fecharam lentamente, liberando seu corpo fluídico, igualmente adormecido, no espaço invisível do quarto. Margot deu um suspiro de alívio, sem saber que o ser de luz que a acompanhava interferira no sono de Marianne, para que as duas não se encontrassem no astral. Podia ir embora tranquilamente, sem se ver obrigada a mentir ou a lhe contar uma dolorosa verdade.

15
O tempo foi passando, e com a chegada do verão e das férias, as duas crianças se aproximaram ainda mais e passavam o dia todo juntas, conversando ou brincando. Ross ainda não sabia da casa nova, já que Lilian atrasara um pouco a mudança por causa das muitas reformas que planejara.
Tudo era feito em absoluto sigilo. Lilian cuidava pessoalmente das obras, deixando Ross aos cuidados de Kate. Nos finais de semana, Nathan a acompanhava, abismado com a grande soma de dinheiro que ela gastava no que ele considerava futilidades e caprichos.
— Não acha que está exagerando? — indagou ele preocupado. — Como pensa que vou pagar por tudo isso?
— Não seja mesquinho — rebateu ela com azedume. — Você agora está ganhando muito bem.
Era verdade. Logo após a promoção, o chefe de Nathan lhe oferecera o cargo de gerente, pois o anterior falecera num acidente de trem, deixando o lugar vago de uma hora para outra.
— Tem razão — concordou ele, pensando em sua imensa sorte —, embora ache tudo muito estranho. Foi muita coincidência e muito azar para o Clayton.
Era tão jovem! Perder a vida num acidente de trem foi uma fatalidade terrível.
Na segunda-feira, como sempre, Lilian saiu para a casa nova logo depois do almoço. Cuidou pessoalmente de cada detalhe, deu ordens e sugestões e, cerca de uma hora depois, tornou a sair. Foi caminhando pela rua, nariz empinado, com ares de grande dama, até que alcançou um automóvel estacionado bem perto da esquina.
A porta do carro se abriu e ela entrou, orgulhosa por poder andar num carro moderno e luxuoso feito aquele. Sentou-se toda coquete e encarou o homem que a esperava e, sorrindo, falou com paixão:
— Olá, Richard. Demorei muito?
Ele a tomou nos braços e deu-lhe um beijo prolongado.
— Sua espera é sempre demorada— disse com voz melosa, pondo o carro em movimento. — Você sabe que sinto saudades.
— E Nathan? — sondou ela.
— Trabalhando, como sempre.
— O idiota... — desdenhou. — Não desconfia de nada.
— Não entendo por que se casou com ele. Eu não havia lhe prometido uma casa, roupas, joias, dinheiro...?
— Prometeu-me tudo, menos o que eu mais queria, que era o casamento.
— Você sabe que não posso. Sou casado...
— Por isso acabou me deixando, e eu tive que arranjar a minha vida. Nathan apareceu e, com a promoção, surgiu uma boa oportunidade.
— Ainda assim, não precisava ter feito isso.
— Queria que eu ficasse à sua espera a vida inteira? Você mesmo me disse que jamais deixaria sua esposa.
— O que tivemos foi apenas uma briguinha sem importância. Devia saber que logo acabaríamos voltando. Não precisava ter-se casado por isso.
— Precisava sim. Era a única maneira de salvar a minha reputação e o meu futuro. Nathan não é tão mau partido assim.
— Ainda mais agora que, providencialmente, inventei um acidente para o Clayton e o despedi, deixando o lugar vago para ele.
— É o mínimo que pode fazer por mim. Se me quer a seu lado, não vá esperando que me contente com migalhas. Trate de gratificar muito bem o meu marido, para que eu possa ter tudo do bom e do melhor. Se não, pode voltar para sua mulherzinha.
Richard apertou o volante, mordeu os lábios com força e retrucou:
— Eu amo você, Lilian...
— Então, continue pagando um bom salário a Nathan. É a única forma de me compensar por tudo a que tenho que me sujeitar para estar com você.
— Não me agrada que você tenha que dormir com outro — reclamou acabrunhado.
— E você? Também não dorme com outra?
— Sara é minha mulher.
— E Nathan é meu marido. Pronto.
— Mas é diferente. Sou homem...
— Não é diferente nada. E você devia se dar por satisfeito por eu ainda continuar com você.
— Você não me deixaria. Sou eu quem sustenta seus caprichos.
Lilian apertou o braço do amante e deu-lhe um beijo na face, enquanto o automóvel continuava seguindo em direção ao pequeno apartamento que ele comprara só para se encontrar com ela.
— Detesto esse lugar — falou Lilian, já dentro do quarto. — Não tem o mínimo de conforto e classe.
— Ao menos aqui não corremos o risco de que alguém nos veja.
— Não vejo a hora de poder encontrá-lo em minha própria casa.
— Ficou louca? Quer que Nathan descubra?
— Nathan é um idiota e não vai descobrir nada.
— E o menino? E se ele falar alguma coisa?
— Estou arranjando isso também. Mais um pouco e convenço Nathan a deixar Ross com a tia Kate e a priminha maluca.
— Não sei, não. As pessoas comentam...
— Ninguém vai ver. E você é o chefe de Nathan. Não é difícil encontrar uma desculpa convincente para ir à minha casa.
Ele fez um muxoxo e retorquiu:
— Não sei qual é o problema com esse apartamento...
— Não é um apartamento! É um buraco sujo, feio e sombrio. Francamente, Richard, pensei que merecesse coisa melhor.
— Ao menos, não levanta suspeitas. Ninguém de minhas relações frequenta esse bairro.
— As pessoas de suas relações são finas e elegantes, assim como eu. Não mereço esse apartamento.
Lilian encerrou o assunto com um beijo, e ambos entregaram-se ao sexo. Ao mesmo tempo, na fábrica, Nathan não sabia o que pensar. Ficara muito penalizado com a morte de Clayton, ainda mais porque tudo acontecera de repente, e ninguém fora nem avisado do enterro. O mais estranho, contudo, eram os olhares que o seguiam. Todo mundo o encarava
como se ele fosse culpado pela morte do outro.
Apenas os mais próximos sabiam que Clayton havia sido despedido, e ninguém entendia por que o patrão tivera que inventar aquela história só para colocar Nathan no lugar dele, ameaçando dispensar o primeiro que desse com a língua nos dentes. Como ninguém queria ou podia perder o emprego, seguiram-se o silêncio e os olhares indagadores. E Nathan, que nunca recebia uma promoção, de repente se vira agraciado com duas sucessivas, e em tão curto espaço de tempo.
À noite, Lilian preparava o jantar e recebeu-o com o beijo frio de sempre, a mente ocupada com projetos mesquinhos. Havia muitos planos a executar, mas a prioridade agora era Ross. Logo após o casamento, ainda brigada com Richard, Lilian quisera afastar o menino daqueles vizinhos horrorosos. Reatado o antigo caso com o amante, a situação mudou, passando Ross a representar um empecilho e um perigo para ela e Richard. Agora, o que precisava era dar um jeito de Nathan deixar o filho em casa do irmão.
— Como está Ross? — perguntou ela ao marido, logo após servi-lo de um prato de sopa.
— Bem.
— Ele quase não para mais em casa. Passa o tempo todo em companhia de Marianne. Nem vem mais para jantar.
— Não vamos retomar esse assunto, por favor. Sabemos que ele está em casa de David.
— Eu sei. E é por isso que estou comentando. Só agora, com a convivência, é que estou me convencendo de que Ross e Marianne sofreriam muito se fossem afastados.
— Agora é um pouco tarde. Gastei quase todo o meu dinheiro com a casa e a reforma. Sem contar que já comuniquei a mudança ao senhorio.
— Não pense que desisti de me mudar. Vai ser o melhor para nós. Só não sei se será o melhor para Ross. Ele vai sentir muita falta de Marianne, e ela dele. Nathan fitou-a incrédulo e tornou desconfiado:
— Pensei que não gostasse de Marianne.
— E não gosto. Mas não sou nenhum carrasco. Posso ver o sofrimento da menina.
— Hum...?
— Estive pensando. Talvez seja melhor que Ross vá morar com Kate.
— Em absoluto! Você sabe que não abro mão de meu filho. Kate tem sido muito boa para ele, e Marianne é como sua irmã, mas não posso viver sem Ross. Prometi à minha querida esposa Evelyn...
Lilian mordeu os lábios e virou-lhe as costas, para que ele não visse sua careta de raiva.
— Você é quem sabe — tornou entre os dentes. — Só falei porque me preocupo. Estou pensando no melhor para Ross.
— O melhor para ele seria que não saíssemos daqui.
— Você mesmo sabe que agora não tem mais jeito. Mas ainda é tempo de poupar o menino dessa tristeza. Ross não precisa ir, se não quiser.
— Já disse que Ross fica comigo. Não vou quebrar minha promessa.
— Você fala em promessas feitas a uma morta. Faz parecer que você mesmo não se importa com seu filho. É isso, Nathan? Por você, ele ficaria com Kate?
— Não. Por Evelyn e por mim, ele vai conosco.
Os argumentos haviam se esgotado, e Lilian teve que engolir a derrota. Se pudesse, gritaria com o marido para impor sua vontade, contudo, tinha medo de que ele desconfiasse de alguma coisa e acabasse descobrindo seu caso com Richard. Por isso, achou melhor silenciar e buscar outro meio de se livrar do garoto.

16
No final de agosto, tudo estava pronto para a mudança. Na véspera, Lilian embrulhava, com um entusiasmo irritante, louças, cristais e porcelanas. Sem saber o que se passava, Ross ficou zanzando pela casa, tentando descobrir o significado de tudo aquilo. Por fim, não aguentou mais a curiosidade e resolveu descobrir:
— O que está fazendo, Li... — ela o repreendeu com o olhar, e ele corrigiu-se: — dona Lilian? Vai vender nossas coisas? As coisas de minha mãe? Lilian fuzilou-o, mas conseguiu conter a raiva e respondeu com fingida cordialidade:
— Não é nada disso. Estou apenas tirando as coisas dos armários. Amanhã vamos começar a pintar a casa e não queremos que nada se quebre, não é mesmo?
— A casa vai ser pintada?
— O proprietário achou que já estava na hora.
— Mas papai não disse nada...
— Seu pai é muito esquecido. Pensei que soubesse.
— Não.
— Não tem importância. Agora suba para seu quarto e vá se deitar. Amanhã cedo eles estarão aqui. Ah! já ia me esquecendo. Coloquei as suas coisas na mala. Os homens precisarão arrastar os móveis, e as roupas pesam muito.
Apesar da sombria desconfiança, Ross não contestou. Por mais que sentisse algo estranho no ar, não sabia definir do que se tratava e só imaginava que Lilian, maldosamente, pretendia livrar-se das coisas que haviam pertencido a sua mãe.
Propositadamente, Nathan chegou mais tarde do trabalho naquela noite, evitando, assim, encontrar-se com Ross, que já estava dormindo. Jantou sozinho e dirigiu-se à casa do irmão. David atendeu, já de roupão, e indagou alarmado:
— O que faz aqui a uma hora dessas? Aconteceu alguma coisa?
Nathan entrou com uma expressão dolorosa. Passados alguns segundos, Kate desceu as escadas, também assustada com a presença do cunhado.
— O que foi que houve? — perguntou surpresa. — Alguma coisa com Ross?
— Não. Ross está bem. Vim aqui porque preciso conversar com vocês.
— Muito bem — falou David. — Venha sentar-se.
Sentado no sofá, Nathan permanecia de olhos vidrados no chão, sem coragem de encará-los. Olhava do irmão para a cunhada, sem coragem de iniciar uma conversa que lhes revelaria um ato de traição.
— Estamos esperando, Nathan — encorajou Kate. Ele olhou para a cunhada e o irmão e, finalmente, venceu o constrangimento e iniciou a conversa:
— O motivo que me traz aqui não é dos mais agradáveis. Como vocês sabem, Lilian não se adaptou bem aqui e...
Parou de falar, a voz embargada denunciando o nervosismo.
— E o quê? — incentivou Kate.
— Pelo amor de Deus, homem! — exclamou David, já irritado. — Diga de uma vez. O que foi que houve com Lilian?
Nathan sentia o embaraço como uma navalha cortando sua garganta e afogando suas palavras. Apertando as mãos nervosamente, continuou:
— Lilian não se adaptou aqui. Sabem como é, foi criada no centro de Londres e está acostumada a outros ares.
— Não sei que ares — ironizou Kate. — Até parece que é uma dama da alta sociedade.
David lançou-lhe um olhar de reprovação, e ela se calou. Nathan tossiu de leve, cada vez menos à vontade, e prosseguiu:
— Na verdade, não foi por causa de Lilian que vim até aqui. O assunto é grave e envolve as nossas famílias. A minha e a de vocês.
— As nossas famílias? A minha e a de vocês? — repetiu David, agora prevendo um desfecho desagradável para aquela conversa. — Pensei que fôssemos todos parte de uma família só.
— Não foi isso que quis dizer — contestou Nathan com rubor. — E claro que somos parte da mesma família. Mas é que agora estou casado, e é natural que Lilian queira constituir sua própria família.
— Isso não significa que tenha que nos excluir da sua vida — acrescentou Kate com frieza.
— Não os estou excluindo. É só que... como disse, Lilian não se adaptou, e nós estivemos pensando... Talvez seja melhor morarmos em outro lugar e...
— Está tentando nos dizer que pretendem se mudar? — interrompeu Kate perplexa. — É isso?
— É.
Kate balançou a cabeça, já sentindo as lágrimas forçarem seus olhos, enquanto David se esforçava para conseguir entender.
— Quando é que isso vai acontecer? — questionou ele, lutando para não demonstrar a decepção.
Nathan engoliu em seco e retrucou em tom quase inaudível:
— Amanhã...
— O quê? — explodiu Kate, dando um salto da poltrona. — Como assim, amanhã?
— Amanhã. Amanhã nos mudaremos para outro bairro
— Você quer dizer, no dia seguinte a esta noite?
— Exatamente.
— Mas como? Assim, de repente?
— Não foi de repente.
— Para onde vão? Sua casa é aqui!
— Essa casa nunca foi minha.
— Como não? É o seu lar. Sempre foi!
— Agora não é mais. Comprei uma outra casa para mim, para Lilian e para Ross.
— Você comprou uma casa e não nos disse nada?
— Estou dizendo agora.
— Planejou tudo isso pelas nossas costas? — acrescentou David com raiva.
— Por quê? — exasperou-se Kate. — Pensei que fôssemos amigos.
— Nós somos. Vocês sabem o quanto são importantes para mim...
— E Ross, o que diz disso? — questionou David.
— Ele também não sabe.
— Está se mudando sem o conhecimento do seu filho?
—Compreendam... — retrucou Nathan, sentindo o rosto arder — Não quis prejudicar ninguém.
— Oh! não — concordou Kate em tom mordaz. — Você apenas quis nos poupar dos dissabores que sua partida traria a nossas vidas...
— E isso mesmo. Não queria preocupá-los à toa.
— Agradeço a consideração.
— Por favor, Kate, sem sarcasmos. Não sabe o quanto está sendo difícil para mim...
— O que está sendo difícil para você? — enfureceu-se ela. — Assumir que nos traiu, que não confiou em nós e que não tem um pingo de gratidão pelo que fizemos a você e ao seu filho?
— Não é nada disso. Eu não queria... Mas Lilian insistiu.
— Lilian, sempre Lilian. Por que permite que ela mande na sua vida?
— Não se trata de mandar.
— Não. Trata-se de desprezo e indiferença, que é o que você sente por nós.
— Não coloque as coisas dessa forma. Não é justo...
— Não pense que achamos que esteja preso a nós só porque Kate cuidou de Ross a vida inteira — contemporizou David.
— É claro que não — concordou Kate. — Você é livre para fazer o que quiser de sua vida. Só achei que merecíamos um pouco mais de consideração, e o mínimo que você devia ter feito seria nos contar o que pretendia fazer.
— Eu não podia. Lilian me pediu...
— Por quê? — rebateu David. — Que mal poderia haver?
— Já sei — adivinhou Kate. — Lilian tem medo de que Marianne atrapalhe, não é?
— Marianne... — repetiu David, agora compreendendo tudo. — Tem razão. Marianne não vai aceitar essa separação.
— Foi por isso que não quis nos contar, não foi, Nathan? — ele permaneceu calado, sem coragem de encará-los. — Para que Marianne não faça uma cena e torne tudo mais difícil, não é mesmo?
Sem poder suportar a pressão, Nathan acabou confessando:
— Foi pelo bem da menina. Marianne é um pouco nervosa. Já imaginaram o que poderia fazer?
— Estavam com medo de uma criança? — indignou-se Kate. — O que Marianne poderia fazer de tão horrível? Tocar fogo na casa?
— Não duvidaria nada — defendeu-se Nathan. —Bem sabem que ela é capaz de tudo.
— Pelo amor de Deus, Nathan! — exasperou-se David. — O que pensa que Marianne é? Alguma selvagem? Ela é uma criança!
— Uma criança louca... totalmente desequilibrada.
Chamar sua filha de louca já era demais, e Kate, olhos chispando fogo, deu uma bofetada na face do cunhado e rugiu colérica:
— Saia daqui! Nunca mais quero tornar a vê-lo! Podia aceitar isso de qualquer um, menos de você! De você, não! Você viu Marianne nascer, sabe o que temos passado. Ela é sua sobrinha!
Tomado pela surpresa, Nathan não reagiu, mas sentiu o peso da humilhação. Levantou-se magoado e olhou para a cunhada e o irmão, que permaneciam sentados, paralisados pela indignação.
— Lamento que tenham entendido tudo errado —atalhou ele com frieza. — Ainda assim, vou lhes dar um conselho: tirem Marianne daqui amanhã. Levem-na para passear e só voltem ao cair da noite. Será menos doloroso do que ver o primo partir.
Saiu apressado, batendo a porta, e Kate desabou nos braços do marido:
— Oh! David, o que será de Marianne?
— Ela vai ficar arrasada. Só Deus sabe qual será sua reação.
— Como faremos para lhe dar essa notícia?
— Não sei, mas concordo com Nathan. Não podemos deixá-la presenciar a partida de Ross. Será muito doloroso para ambos. É melhor sairmos pela manhã e só voltarmos à noite.
— Para onde iremos?
— Vamos visitar sua irmã.
Combinavam tudo e •oram arrumar algumas coisas para o dia seguinte. Prepararam uma bolsa com roupas para as crianças e alguns brinquedos. Naquela noite, nenhum dos dois conseguiu conciliar o sono, até que Kate se levantou e foi até o quarto da filha. Marianne dormia tranquilamente. Vendo o sono inocente da filha, Kate ajoelhou-se a seu lado e, sufocando o pranto, sussurrou sentida:
— Perdoe-nos pelo que vamos fazer, Marianne. Por favor...
Alisou os cabelos da filha, engoliu as lágrimas e saiu do quarto dela, desejando nunca ter tido filhos.

17
O dia mal acabara de nascer, e todos já estavam prontos para a partida. As crianças se mostravam eufóricas, principalmente porque a tia Jane morava longe e era necessário cruzar boa parte da cidade, o que transformava o passeio numa pequena viagem.
Somente Marianne não demonstrava tanto entusiasmo. Gostava da tia e de passear, todavia, separar-se de Ross era sempre um problema.
— Não podemos levar Ross, papai? — indagou ela, os olhos voltados para a casa do primo.
— Infelizmente, não — respondeu David penalizado. — Seu tio tem outros planos para ele.
Marianne queria perguntar que planos seriam aqueles, mas a mãe a chamou para ajudar a descer as bolsas. Terminou rapidamente a tarefa e, sem que ninguém percebesse, passou pela cerca e correu à casa de Ross, com tempo apenas de enfiar um pedaço de papel por debaixo da porta e voar de volta.
Da casa vizinha, Nathan observava a movimentação com olhar sentido. Desde a véspera, não conseguia conciliar o sono, lamentando o futuro do filho e da sobrinha. Sentia-se um covarde, contudo, não se atrevia a contrariar a mulher, que dormia despreocupada.
Quando Lilian acordou, lançou um olhar significativo para Nathan, que respondeu com um aceno de cabeça, sem ânimo para encará-la. Ela aquiesceu com arrogância e desceu para fazer o café. Sua vitória era quase completa. Mais um pouco e, com certeza, convenceria o marido a deixar o filho com a tia perfeita.
Pouco depois, Nathan acordava o menino. Ross abriu um olho, depois outro, espreguiçou-se e, bocejando, indagou:
— Por que me acordou tão cedo? Estou de férias...
— Levante-se — cortou Nathan, de má vontade. — Vista-se depressa e desça. Precisamos sair.
— Aonde vamos? — retrucou sonolento.
— Você vai ver.
Sem nada entender, Ross espreguiçou-se e foi-se aprontar. Na cozinha, Lilian arrumava a mesa, e ele a cumprimentou sem muito interesse:
— Bom dia, dona Lilian.
Ela sorriu exultante. O menino estava aprendendo a respeitá-la.
— Bom dia. Sente-se e tome seu café.
Nathan já estava sentado, tendo nas mãos uma xícara de café fumegante, e evitava olhar para ele. Ross deu a volta na mesa para ocupar seu lugar habitual. Puxou a cadeira pelo encosto e já ia se sentar quando percebeu um papelzinho branco enfiado por debaixo da porta. Abaixou-se e o apanhou, reconhecendo a letrinha miúda e indecisa de Marianne.
— O que é isso? — perguntou Lilian, curiosa.
— É para mim — respondeu Ross, de forma inocente. — De Marianne.
Lilian e Nathan se entreolharam preocupados, mas não tiveram tempo de retirar o papel das mãos do menino, que já o havia desdobrado e começara a ler:
Querido Ross,
Fui com papai e mamãe visitar tia Jane. Volto de noite.
Nada mais. Não estava nem assinado. Aquele bilhete deveria ter exigido muito esforço de Marianne, e Ross sentiu imenso orgulho dela.
— Aconteceu alguma coisa? — indagou Nathan, tentando aparentar um ar casual.
— Marianne foi visitar tia Jane.
— Tia Jane? — surpreendeu-se Lilian, mal-humorada.
— Jane é irmã de Kate — esclareceu Nathan.
— Então não é sua tia — objetou ela, fuzilando Ross com o olhar.
— É como se fosse — protestou o menino aborrecido.
— Ross sempre a chamou de tia — explicou Nathan em tom de desculpa.
— Pois não devia — zangou-se ela. — Não quero mais isso. Essa tal de Jane não é tia de Ross.
— Pelo amor de Deus, Lilian! — exasperou-se Nathan, já bastante agastado. — Não tem nada de mais. Deixe de implicar com o menino e vamos logo com isso.
Lilian fez beicinho e não respondeu, enquanto Ross a fitava com ar de vitória. Não estivesse tão atenta aos ruídos externos, teria lhe dado um tapa. Um barulho de motor veio se aproximando da frente da casa, e ela correu pela sala bagunçada, para anunciar eufórica:
— São eles! Finalmente!
Nathan limpou a boca com o guardanapo e se levantou, seguido de Ross, que subitamente se lembrara de que Lilian lhe havia dito que iriam pintar a casa.
— São os pintores? — indagou, ingênuo.
Ninguém respondeu, mas Lilian abriu a porta, dando entrada a três homens mal-encarados. Do lado de fora, um imenso caminhão estacionava junto ao meio-fio, provocando uma admiração sem igual no menino.
— Uau! — exclamou Ross. — Um caminhão! Nunca havia visto um de tão perto. Posso ir lá fora ver?
— Fique quieto — repreendeu Lilian, — Não atrapalhe.
Com um leve cumprimento de cabeça, os homens arregaçaram as mangas e começaram a arrastar os móveis. Ergueram o sofá da sala e saíram com ele, depositando-o na carroceria aberta. Em seguida, voltaram e saíram com a mesa, depois com as cadeiras, e assim por diante.
Ross assistia a tudo com ar aturdido, tentando imaginar por que era preciso esvaziar a casa só para pintá-la. Pensou em perguntar, mas o pai não lhe dava atenção, e Lilian nem se lembrava de que ele existia. Quando começaram a descer com as camas e as malas, ele se convenceu de que algo muito errado estava acontecendo.
— Pai... — arriscou timidamente, puxando a barra do casaco de Nathan. — Não compreendo... por que estão tirando tudo? Para onde estão levando nossas coisas? E onde estão os baldes de tinta?
Não dava mais para enganá-lo. Nathan puxou-o para um canto, segurou-o pelos ombros e, olhando fixamente em seus olhos, disparou:
— Acho que você já tem idade suficiente para compreender as coisas. Não vamos pintar a casa. Estamos nos mudando.
— Mudando? — repetiu atônito.
— Exatamente. A partir de hoje, não moramos mais aqui.
— Como não? Esta é a nossa casa!
— Não é mais. Vamos para outra, maior e mais bonita.
— Não quero ir para outra. Gosto desta aqui.
— Gosta porque nunca conheceu outros lugares. Nossa nova casa fica num bairro elegante, e você vai fazer novos amigos.
— Não quero novos amigos. Aqui tenho a escola e... Marianne.
— Sinto muito. Marianne terá que entender.
— Você não está falando sério, não é? Vamos apenas pintar a casa, você falou...
— Não é verdade — sussurrou ele, abaixando os olhos, envergonhado.
— Você mentiu para mim?
— Foi preciso, para que você e Marianne não criassem problemas.
Ninguém disse nada a Marianne? — ele meneou a cabeça. — Foi por isso que ela foi para a casa de tia Jane?
— Achamos que era o melhor.
— O melhor? Pois fique sabendo que eu não vou. Vou esperar tia Kate voltar e vou pedir para morar com ela.
— Isso está fora de cogitação. Você é meu filho e tem que me acompanhar. Além do mais, prometi a sua mãe.
— Por favor, pai, não... Deixe-me ficar aqui...
O sofrimento de Ross era tão real que Nathan sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Como desprezava a si mesmo por aquela covardia! Devia ter sido homem suficiente para recusar-se a fazer a vontade de Lilian e mandar aqueles carregadores embora dali, levando consigo o caminhão de mudança.
Num gesto de desespero e arrependimento, Nathan puxou o filho para si e balbuciou sentido:
— Ah! Meu filho, não posso. Quisera eu poder mudar de ideia...
O menino se agarrou a ele, soluçando, e Nathan chorava também. Estavam tão envolvidos naquele momento de ternura que nem ouviram Lilian se aproximar. Ao ver os dois ali abraçados, ela se deixou invadir por uma onda de irritação e censurou com desprezo:
— Parem com isso e saiam do caminho. Não veem que estão atrapalhando?
Eles se separaram, e Nathan enxugou as lágrimas discretamente, afagando de leve os cabelos do filho. Ross, contudo, não sentia os afagos do pai. Tomado por um ódio descomunal de Lilian, pôs-se a gritar colérico:
— Megera! Bruxa! Marianne tinha razão: você não passa de uma bruxa e faria mais bem ao mundo se estivesse morta!
A surpresa só não foi maior do que a raiva, e Lilian, mordendo os lábios, ergueu a mão e desferiu violenta bofetada no rosto de Ross, que se desequilibrou e teria ido ao chão, não fosse o amparo do pai.
— Isso é para você aprender a me respeitar —desafiou ela.
— Por que bateu nele? — retrucou Nathan.
— Ele está ficando muito abusado. E a culpa é sua! Sua e de Kate, que só fazem mimá-lo e tratá-lo feito um maricas. Aprenda a ser homem, Ross!
— Cale a boca, Lilian! — esbravejou Nathan. —Deixe que eu cuido do meu filho.
— Muito bem — tornou ela com desdém. — Mas depois não venha pedir a minha ajuda quando não puder mais controlá-lo.
Saiu sem dizer mais nada, fuzilando de ódio daquele garoto malcriado.
— Não devia ter dito isso, meu filho — ralhou Nathan, sem convicção. — Lilian é sua madrasta.
— Eu odeio aquela mulher — rosnou Ross entre os dentes. — E sei que ela me odeia também.
— Lilian não o odeia. Quer o melhor para você.
— Foi o que ela disse? — Nathan não respondeu.
— E você acreditou? Ela o está enganando. Será que só você não percebe?
— Lilian é geniosa e um pouco deslumbrada, mas quer o seu bem.
— Cadela... — balbuciou baixinho.
— O que foi que disse? — revidou Nathan, que não havia ouvido direito. — O que disse de sua madrasta?
Durante alguns minutos, Ross permaneceu olhando para ele, com medo de repetir o que havia dito. Aos poucos, o medo cedeu lugar à revolta, e ele pensou como seria bom agredir e ofender aquela mulher que ele tanto detestava, além de mostrar ao pai que não era um covarde feito ele. Por isso, Ross empinou o nariz o mais que pôde e, sem titubear, confessou com arrogância:
— Disse que ela é uma cadela.
O tapa veio espontâneo e doeu mais do que o recebido por Lilian, porque partira do pai.
— Lilian não devia ter feito o que fez, mas não vou permitir que você a desrespeite — repreendeu ele.
— Você é uma criança, e ela é como sua mãe.
— Ela não é minha mãe!
Ross começou a chorar e levou a mão ao rosto, esfregando-o no local onde a vermelhidão começava a se espalhar.
— Por Deus, Ross, tente compreender — tornou Nathan, mais calmo. — Você precisa aceitar que Lilian agora é minha esposa.
— Eu aceito. Mas deixe-me ficar com tia Kate.
— Não posso. Você é meu filho. Prometi a sua mãe cuidar de você.
— Não quero me separar de Marianne.
— Lamento, mas já está decidido. Você vai comigo e ponto final. Marianne vai acabar aceitando. Enquanto falavam, a casa ia sendo esvaziada, e Lilian dava ordens para que não estragassem nada. Desembaraçando-se de Nathan, Ross subiu ao seu antigo quarto, agora vazio. Recostou-se na parede em frente à janela e fitou o céu, magoado com a bofetada do pai e imaginando o que aconteceria a Marianne quando descobrisse aquela traição. Pensou em escrever-lhe um bilhete, contudo, os homens da mudança já haviam levado todos os seus lápis e cadernos.
No andar de baixo, Lilian exultava. De longe, ouvira praticamente toda a conversa, quase se atirando sobre Ross quando a chamara de cadela. Nathan acompanhava a mudança, sem dizer nada, os pensamentos presos ao filho e ao tapa que lhe dera. Nunca, em toda a sua vida, levantara a mão para bater-lhe, e agora perdia a cabeça por causa de uma mulher.
— Como está Ross? — indagou Lilian, tocando o ombro de Nathan com fingida doçura.
Havia mágoa no olhar de Nathan, e uma acusação muda se insinuou no tom de sua voz:
— Ele vai superar. Tem que superar.
— Você não devia se sentir culpado. Está fazendo o que é melhor para ele.
— Não, Lilian. Estou fazendo o que é melhor para você.
Deu-lhe as costas e foi andando pela sala, olhando bem para cada canto vazio, como se quisesse reter nos olhos as lembranças da felicidade que vivera ali.
— Não entendo você — insistiu ela, indo atrás dele com irritação. — Pensei que tivéssemos decidido que era o melhor para todos. Você concordou porque quis. Não tem o direito de colocar em mim a culpa pela infelicidade do seu filho.
— Não estou colocando a culpa em você.
— Mas é como se estivesse. Ross está infeliz porque vai ser obrigado a se separar daquela maluquinha. E de quem é a culpa por querer dar a ele amizades mais saudáveis? Minha, é claro. — Como ele não respondesse, ela prosseguiu: — É claro que você podia evitar isso, se quisesse. Bastava deixá-lo ficar...
— Chega, Lilian! Sei que é isso que você quer, mas está fora de cogitação.
Lilian achou melhor se calar. Apesar da raiva e do arrependimento visíveis, não havia mais como voltar atrás. Ela vencera, e Nathan não lhe importava, desde que continuasse o cordeirinho de sempre.
Em pouco tempo, a mudança havia terminado. Quando Nathan bateu a porta, pela última vez deu uma olhada na casa em que vivera boa parte de sua vida. Na casa ao lado, não havia nenhum movimento. David, na certa, só chegaria tarde da noite, a fim de evitar explicações dolorosas.
O caminhão partiu, e quando, finalmente, a última peça do mobiliário foi instalada na nova residência, Nathan suspirou aliviado. Lilian caminhava de um lado a outro pela casa, mudando os móveis de lugar a toda hora, causando irritação nos homens, cansados de carregar peso.
— Não nos leve a mal, dona — queixou-se um deles. — Já transportamos tudo. Agora, se a senhora não sabe onde colocar cada coisa...
Calou-se, ciente da ousadia que poderia lhe custar o emprego. Percebendo o mastar e a iminente explosão de ira de Lilian, Nathan sacou a carteira e, colocando o dinheiro na mão do homem, arrematou:
— Pode deixar conosco agora. Estão dispensados, obrigado.
— Por que fez isso? — censurou Lilian. — E agora, quem é que vai ajeitar os móveis?
- Pelo amor de Deus, Lilian! Será que você não percebeu que os homens estavam esgotados?
— E daí? Não foram pagos para isso?
Nathan não respondeu. Apanhou o casaco e saiu.
— Aonde você vai? — questionou ela da porta.
— Comprar umas rosquinhas — respondeu com pesar. — Não temos jantar.
O desgosto era tanto que, se pudesse, Nathan sumiria dali com Ross. Toda a esperança do casamento, os sonhos, os planos com Lilian se esvaíam aos poucos, à medida que ela ia revelando seu temperamento fútil e arrogante. Quanta decepção! Não era à toa que o filho não gostava dela, e era óbvio que tampouco Lilian gostava dele.
Como se não bastasse a decepção do menino, Lilian ainda o punira por seu atrevimento, colocando-o de castigo no quarto. Na hora, Nathan pensou em contestar. Quem lhe dera autoridade para colocar seu filho de castigo? No entanto, não se sentia com ânimo para enfrentar a discussão que a contrariedade causaria na mulher.
Queria sair dali, fugir daquele lugar, fugir daquela vida. Uma vida que não era a sua. Jamais seria.

18
Alheia ao drama de Ross e Nathan, Marianne seguia no táxi acompanhando as árvores que passavam apressadas pela janela. Apesar da falta que sentiria de Ross, uma mudança de ares até que a animou, e ela continuava, sonhadora, imaginando o dia em que ela e Ross poderiam viver a sua liberdade.
Chegaram à casa da tia, e Marianne acompanhou os pais e os irmãos sem expressar qualquer emoção. Bateram à porta, e Jane levou um susto ao vê-los ali.
— Kate! — exclamou ela. — O que foi que houve? Está tudo bem?
Meio sem graça, Kate encarou a irmã e falou com hesitação:
— Perdoe-nos por vir sem avisar. Não tivemos tempo... Precisamos de sua ajuda. Será que podemos passar o dia com você?
O olhar de súplica de Kate denunciava a gravidade da situação, e Jane, cheia de compreensão, apanhou Suzie no colo, deu a mão a Kevin e fez com que todos entrassem. David não os acompanhou. Ficou parado na porta e disse para a mulher:
— Preciso ir trabalhar. Volto no final do dia para buscá-los. — E, com ar de gratidão, arrematou: —Obrigado, Jane.
Logo que a porta da sala se fechou, Jane levou a irmã e os sobrinhos para uma enorme varanda que ficava na parte de trás da casa. Colocou Suzie no chão e foi buscar uma cesta de palha, onde guardava alguns brinquedos antigos de seus filhos.
As crianças sentaram-se à volta dos brinquedos e puseram-se a desvendar a misteriosa cesta. Inclusive Marianne, que parecia encantada com tantas coisas diferentes e fantásticas. Certificando-se de que os filhos não lhe prestavam atenção, Kate fez sinal a Jane, e ambas foram se sentar num banco mais afastado, de onde podiam vigiá-los.
— Muito bem — iniciou Jane, preocupada. — O que foi que aconteceu para você vir à minha casa em plena segunda-feira pela manhã?
— Onde estão os meninos? — perguntou Kate, procurando pelos sobrinhos.
— Ainda estão dormindo. E Bill está no trabalho. Não se preocupe, ninguém irá nos incomodar.
Com um suspiro doloroso, Kate desviou os olhos para as crianças, demorando-se um pouco mais em Marianne. Engoliu em seco e começou a chorar baixinho.
— Estou apavorada... — calou-se, a voz embargada, e fixou-se em Marianne outra vez.
— É algo com Marianne, não é?
— Sim — hesitou por uns instantes, até que revelou com sofrimento: — Ah! Jane, você nem imagina. Nathan foi a nossa casa ontem à noite nos avisar que hoje iriam se mudar...
— Mudar? Você quer dizer, para outra casa?
— Exatamente. E o pior foi que fez isso às escondidas. Tramou tudo pelas nossas costas e nos fez tirar Marianne de casa, para que não os visse partir.
— Marianne não sabe?
— Não tivemos coragem de lhe contar. Você já imaginou como ela vai reagir?
— Nem quero pensar! Vai ser doloroso, e você sabe como Marianne reage à dor.
— É isso que nos preocupa, a David e a mim — ela olhou para a irmã com os olhos rasos de água e desabafou: — Nathan não podia ter feito isso. Foi uma traição. Preparar a mudança sem nos dizer nada! Se nos tivesse dito antes, teríamos arranjado um jeito de ir preparando o espírito de Marianne. Mas agora, confesso-me perdida. Não sei o que fazer. E Marianne anda tão calma! Passou de ano na escola, está feliz ao lado de Ross. Quando souber que não vão mais se ver, vai se descontrolar.
Jane pensou durante alguns minutos e retrucou:
— Sei que é horrível, mas uma mudança não é o fim do mundo. Marianne vai sofrer, mas acabará se acostumando. O principal agora é encontrarmos um meio de lhe contar sem provocar uma crise.
— Mas nós nem sabemos para onde eles foram! Nathan não nos contou. Acho que não quer mais que as crianças se vejam.
— Ele não lhes deu o novo endereço?
— Não. Tudo por culpa de Lilian. Foi ela quem influenciou Nathan para nos deixar.
— Espere um pouco, Kate, você não sabe disso.
— Tenho certeza. Ele mesmo falou. Lilian não gosta de Marianne e quer afastá-los a qualquer custo. Você se lembra do que aconteceu quando ela proibiu Ross de ir lá em casa, não se lembra?
— Vagamente. Na época, você não quis se abrir comigo.
— Eu tinha vergonha. Desculpe-me se deixei de procurá-la, mas é que David ficou tão zangado com a história do tal psiquiatra!
— Sugeri um psicólogo. Ele poderia ajudá-los.
— David não acredita. Acha que o único remédio para a loucura é o hospício.
— Eu nunca disse que Marianne é louca.
— Também eu gostaria de acreditar que não é. Deus sabe o quanto fingi que não há nada de errado com a cabeça de Marianne. Mas todos nós sabemos que ela não é normal.
— Isso não significa que tenha que ser internada.
— Tenho medo de David — confidenciou Kate. —Se ele se convencer de que Marianne é louca, tenho certeza de que irá colocá-la num hospício.
— Que horror! Hospício não é a solução. E não pense que sua filha é louca. Ela tem problemas que talvez possam ser sanados no consultório de um moderno psicólogo.
— Não sei, Jane. Tenho medo. David não vai concordar. E se insistir na internação?
— Por que fica tão submissa a David? Não é porque ele é seu marido que pode mandar em você. Marianne é sua filha. Não permita que ele faça com ela o que quiser> passando por cima da sua vontade.
— E fácil falar... Mas David não é homem de se deixar contrariar. E não é culpa dele. Não é por culpa de David que Marianne está assim. É por causa daquela sirigaita esnobe e metida a grande dama.
— Acha mesmo que Lilian é a culpada?
— Não tenho dúvidas! Até ela aparecer em nossas vidas, estávamos muito bem.
— Isso não é verdade. Marianne já tinha problemas muito antes de Lilian se casar com Nathan.
— Mas nós a controlávamos. Sempre dávamos um jeito de remediar a situação. Agora que Lilian levou Ross embora, não sei o que será de Marianne.
— Não é justo culpá-la. Afinal, por que Nathan permite que ela faça o que quer?
— Porque ele é um frouxo. Nunca teve fibra, nem quando a mulher morreu. Ficou desesperado, sem rumo, pensando no que fazer para criar sozinho uma criança. Não fosse por mim, sabe-se lá o que teria acontecido.
Jane fitou Marianne, que brincava com uns soldadinhos de chumbo velhos, e sentiu um aperto no coração.
— Pobre Marianne... — lamentou. — E pobre Ross também. São os dois que mais irão sofrer com essa mudança.
— Tudo por causa daquela mulher. Nathan foi muito ingrato. Não quero mais relações com ele.
Em silêncio, Jane tornou a olhar para a sobrinha. Ela era tão jovem, tão inocente. Será que merecia aquele sofrimento? Tentando segurar o pranto, acrescentou com voz sentida:
— Sei que não há muito que eu possa fazer, mas pode contar comigo para o que precisar. Gosto de Marianne e farei o que estiver ao meu alcance para ajudar. Seja o que for, pode pedir.
Kate apertou as mãos da irmã emocionada, sentindo-se reconfortada por não estartão só naquela batalha. Durante o resto do dia, não tocaram mais no assunto da mudança. Aproveitaram para passear e levar as crianças ao parque. Só voltaram ao final da tarde, exaustas e felizes. Tomaram banho, vestiram roupas limpas e desceram para esperar o jantar.
Quando o marido de Jane chegou, ficou deveras surpreso com a presença da cunhada e dos sobrinhos. Colocado a par da situação, não disse nada. Bill era um homem compreensivo e generoso, e muitas foram as conversas que havia tido com a mulher sobre a esquisitice de Marianne, concordando que a melhor solução seria levá-la ao psicólogo.
— Podemos ir — disse David a Kate, logo após o jantar. — Passei por lá antes de vir para cá, e eles já foram.
— Não acha melhor contar a Marianne antes? —sugeriu Bill.
— Não — contestou David, mais que depressa. —Não saberia o que lhe dizer.
— A verdade. Será melhor do que a surpresa.
— Não sei... Acho que a surpresa será menos dolorosa. Ao menos não precisaremos nos confundir com desculpas esfarrapadas. O vazio da casa lhe dirá tudo.
— Será menos dolorosa para quem? — tornou Bill perplexo. — Para vocês ou para ela?
D David engoliu em seco e, olhos pregados no chão, acabou por confessar:
— Para mim, Bill. Não tenho coragem de lhe dizer.
— Quer que eu conte? — ofereceu-se Jane.
— Não. Agradeço, mas não creio que seja o mais conveniente.
Kate suspirou e foi buscar os filhos. Suzie e Kevin já estavam dormindo, e Roger, sonolento, começou a choramingar. Apenas Marianne estava desperta. Passara o dia todo longe de Ross e mal podia esperar a hora de vê-lo.
— Ross já deve estar dormindo — avisou David. — Amanhã poderá vê-lo.
A mentira desagradou Kate, que olhou para o marido com ar de repreensão. Já bastava a falseta que lhes haviam aprontado. Não era necessário inventar mentiras que, muito em breve, seriam desmascaradas, e da forma mais traumática possível.

19
Logo que o sol nasceu, Marianne deu um pulo da cama e desceu correndo as escadas. Passou pela mãe feito uma bala, sem dar ouvidos aos seus chamados angustiados. Atravessou a cerca às pressas e correu para a entrada da cozinha da casa de Ross. A porta ainda estava fechada, e ela bateu eufórica. Nada. Nem um som ou movimento. Bateu novamente, mas ninguém veio atender. Tornou a bater, sem sucesso, porém.
Desceu os degraus e afastou-se um pouco da casa, olhando para o alto contra o sol, na esperança de avistar Ross na janela de seu quarto. O vidro da janela estava fechado, e a cortina, imóvel. Reparando melhor, percebeu que todas as cortinas permaneciam paradas, algumas cerradas, outras abertas, mas, invariavelmente, imóveis, porque todas as janelas, estranhamente, estavam fechadas.
Apesar de assustada, não lhe passou pela cabeça que Ross tivesse se mudado. Nem sabia o que era uma mudança. Nunca se mudara, nem ninguém que conhecesse. Correu para a varanda da frente. O tapete havia sido retirado, e as plantas que guarneciam o alpendre já não estavam mais lá.
A porta estava trancada, de forma que ela não teve sorte com a maçaneta. Bateu repetidas vezes sem obter sucesso. A porta nem se mexia. Começou a sentir um pânico desmedido, um medo atroz de que algo terrível tivesse acontecido a Ross, como um feitiço que o houvesse aprisionado para sempre. Apavorada ante a ideia, correu para a lateral da casa, em busca de uma janela aberta. Encontrou uma, com as venezianas encostadas na parede, fechada apenas com o vidro. Na ponta dos pés, espiou para dentro, passando os olhos pala sala desocupada. Todos os móveis haviam sido retirados.
O vazio da casa a sobressaltou de tal forma que ela rodou nos calcanhares e correu, gritando espavorida:
— Mamãe! Mamãe! Aconteceu alguma coisa com Ross! Roubaram tudo da casa dele!
Parada no meio da cozinha, Kate esperava a volta da filha, sem coragem de ir atrás dela. Estava sozinha, pois David saíra cedo para o trabalho, para não ter que presenciar a confusão. Agora cabia a ela, somente a ela, a tarefa de colocar Marianne a par do acontecido.
Vendo Kate paralisada, olhos rasos de água, Marianne teve certeza de que algo muito grave havia acontecido a Ross e começou a chorar e a gritar feito louca:
— Ele morreu! Ross está morto! Você sabe! Foi a bruxa! Ela o matou e o comeu! Cadê o meu Ross? Quero o meu Ross!
Era o início de uma crise violenta. Kate teve vontade de virar as costas à filha e correr, para não ser obrigada a acompanhar seu desespero. Não podia. Era mãe. Era dela a tarefa mais dolorosa. Dela e de mais ninguém.
— Marianne — chamou com voz incisiva, provocando um susto na filha, que parou de gritar e a fitou. — Você precisa ser forte. Ross não morreu. Foi embora. Mudou-se. Seu tio Nathan e Lilian o levaram. Ele não vai mais voltar.
A notícia foi rápida como um furacão, tão rápida que a mente de Marianne não a acompanhou.
— Não compreendo... — gemeu ela, confusa. — O que está dizendo?
— Exatamente o que você ouviu. Ross se foi e...
— ela engoliu em seco e teve dificuldade em repetir a última frase: — não vai mais voltar.
— Não pode ser. Você está enganada. Ross não faria isso. Ele me ama. Nós vamos nos casar...
— Não crie ilusões desnecessárias — cortou Kate com angústia. — Seu pai e seu tio brigaram. Não estão se falando mais. Por isso, foram embora e levaram seu primo.
— Se eles brigaram, o que Ross e eu temos a ver com isso?
— Estou lhe dizendo que ele foi embora. Acredite em mim.
— Por que está fazendo isso comigo, mãe? O que foi que eu fiz?
— Não fez nada. Quero apenas que você entenda.
— O quê?
— Você foi lá, não foi? — ela assentiu. — E o que viu?
A mente confusa de Marianne agora começava a compreender.
— Não vi nada — balbuciou incrédula.
— A casa está vazia. Não está? — ela fez que sim.
— Pois então? Não estou mentindo. A casa está vazia porque não há mais ninguém morando lá. Ross foi embora, mudou-se. Levaram todas as coisas dele. Ross não mora mais aqui. Não é mais nosso vizinho. A casa está vazia, outras pessoas vão morar lá.
— Mas... para onde ele foi?
— Não sei. Só o que sei é que seu tio se mudou, e Ross não vai mais voltar. Você precisa aceitar isso, para o seu próprio bem. Ele não vai mais voltar.
Marianne olhava para a mãe com estupor, mentalmente repetindo aquela frase estúpida. Subitamente, entendeu tudo. Começou a tremer, a respiração a lhe faltar, a cabeça a rodar. Seu corpo todo foi tomado por um acesso de fúria, e ela balançava a cabeça de um lado para outro, repetindo maquinalmente:
— Não vai mais voltar... não vai mais voltar... não vai mais voltar...
A razão parecia haver desaparecido do cérebro de Marianne. Não via mais nada. A única coisa em que podia pensar eram naquelas últimas palavras da mãe: não vai mais voltar, que ela ficava repetindo insistentemente. De repente, tentou fugir. Precisava encontrar Ross o mais rápido possível, antes que a bruxa o desintegrasse.
Não foi possível. Com medo do que ela poderia fazer, Kate agarrou-a com força, impedindo-a de se mover. O jugo a enfureceu de tal forma, que ela começou a gritar e a se debater, aumentando a força de Kate sobre seus ombros, na tentativa de contê-la a todo custo. Quanto mais Kate apertava, mais recrudescia a fúria, até que Marianne, na iminência de ser dominada, lançou mão do único recurso de que dispunha para tentar se soltar.
Com gestos estabanados, começou a morder e arranhar. Kate fez força, contudo, a dor e o sangue em seus braços fizeram com que ela afrouxasse as mãos o suficiente para Marianne escapar. Livre, a menina pôs-se a correr sem rumo, puxando louças, talheres, panelas, qualquer coisa que estivesse na sua frente e que pudesse atirar ao chão.
Não havia nem tempo para pensar. Kate a apanhou por trás e empurrou-a de encontro à parede. Foi pior. Gritando feito um animal, Marianne batia com a cabeça na parede, levando a mãe a retroceder e fazer força, dessa vez para trás, agora lutando para afastá-la. Não conseguia, pois Marianne, de repente, parecia ter adquirido a força de dez homens. Ela continuava batendo com a testa na parede, ao mesmo tempo em que sussurrava:
— Não vai mais voltar... não vai mais voltar... não vai mais voltar...
Num último e desesperado esforço, Kate conseguiu derrubá-la ao chão, imobilizando-a de barriga para cima, e ela direcionou as batidas da cabeça para o piso frio.
—Marianne, pelo amor de Deus! — gritou Kate desesperada. — Pare com isso! Pare!
Sem lhe dar ouvidos, Marianne continuava a investir contra os ladrilhos frios da cozinha, até que Kate, num esforço supremo, conseguiu erguer-lhe a cabeça e colocar a mão sob sua nuca. Foi então que viu os seus olhos. Havia tanto ódio no olhar de Marianne que Kate se sentiu invadida por uma onda maligna que a fez recuar. Assustada, soltou um grito e largou Marianne, que se voltou para ela, atacando-a com uma fúria impossível de se imaginar numa criança daquela idade, dando-lhe tapas e unhadas ferozes. Kate se defendia como podia, revidando os golpes com outros, que a filha parecia nem sentir.
Supondo uma possível e violenta reação de Marianne, Kate deixara os outros filhos no quarto, para sua segurança. Mas as crianças, ouvindo aquela gritaria, assustaram-se e começaram a chorar, levando Roger, o mais velho dos três, a abrir a porta e descer as escadas para ver o que estava acontecendo.
— Mamãe... — choramingou.
Ao dar de cara com o menino, Marianne rosnou feito uma fera diante da presa. Sua boca espumava de um ódio irracional, e ela correu para ele, indo alcançá-lo no meio da escada, antes que a mãe pudesse detê-la. Puxou-o pelos cabelos com força, fazendo-o rolar pelos degraus, sob os gritos apavorados de Kate.
Por sorte, o tapete lhe amortecera a queda, e o menino se levantou sem um arranhão, embora chorando e gritando pela mãe. Surpreendentemente, Marianne não voltara para novo ataque, dando a Kate tempo de pegar o menino e acalmar o seu pranto. Pensava que, com a queda do irmão, Marianne houvesse se assustado e se aquietado. Todavia, ao procurá-la no alto da escada, não a encontrou mais.
Prevendo o pior, Kate disparou escada acima, atrás de Marianne, que, a essa altura já havia entrado no quarto dos outros irmãos e se dirigia para o berço, onde a pequena Suzie também chorava, braços estendidos, gritando pela mãe entre soluços. Marianne estava fora de si. O ódio que sentia era tanto que só pensava em destruir. Aproximou-se e tentou puxar a irmã por cima das grades, mas, como também era pequena, não conseguiu, e Suzie, por intervenção divina, arriou o corpinho no berço, ficando fora de seu alcance.
Voltou-se para o outro lado e viu Kevin encolhido a um canto, tremendo de pavor. Partiu para cima dele e agarrou seus cabelos com força. Foi nessa hora que Kate chegou. Prendeu Marianne por trás e puxou-a violentamente, fazendo-a recuar, ainda agarrada à cabeleira do irmão.
— Solte-o, Marianne! — gritou Kate desesperada, enquanto a sacudia. — Solte-o!
Marianne não soltava. Rugia e grunhia feito um animal, deixando Kate apavorada. Kate colocou a mão sobre a da filha e fez força para abri-la, até que conseguiu levantar-lhe os dedos e soltar Kevin. Saiu arrastando Marianne porta afora, em meio à gritaria das crianças. Ela resistia, aos gritos e tapas, e Kate se viu obrigada a esbofeteá-la para tentar contê-la.
— Tranque a porta, Roger! — berrou. — Tranque a porta!
O menino, de apenas sete anos, fez como a mãe ordenara. Rodou a chave na fechadura e trancou a porta, para alívio de Kate, que agora os sentia em segurança.
Marianne não parava de se debater e de rugir. Kate pensou que jamais havia visto algo semelhante em toda a sua vida. Surpreendendo-a ainda mais, Marianne começou a xingá-la com ira:
— Vagabunda! Ordinária! Cachorra! Solte-me, bruxa!
— Pare com isso! Respeite sua mãe!
— Você não é minha mãe! Não sou filha de uma porca! De uma cadela! De uma diaba! Solte-me! Solte-me!
Kate a havia envolvido num abraço paralisante, e Marianne mordia seu braço com toda força. A despeito da dor, Kate continuou a arrastá-la pelo corredor, certa de que, se a soltasse, ela acabaria matando uma das crianças.
— Catada, criatura infernal! — esbravejou Kate, coberta de horror. — Você é que não é minha filha! Não posso ter gerado um monstro! É o que você é! Monstro!
Tentando ignorar as imprecações de Marianne, e abstraindo-se da dor de suas mordidas, Kate continuou a empurrá-la em direção .ao quarto. Parecia que nunca chegava. Por fim, depois de minutos de extrema agonia, conseguiu alcançá-lo. Escancarou a porta e tentou empurrar Marianne para dentro. A menina logrou soltar os braços e fincou as unhas nos portais, lutando para não entrar, mas Kate a esbofeteou diversas vezes e deu-lhe socos nas mãos, quase esmagando seus dedos.
Mesmo não sentindo dor, os dedos de Marianne foram amolecendo, até Kate conseguir puxá-los e soltá-los dos portais. Finalmente, atirou Marianne para dentro com força, e ela caiu no chão. Rapidamente, antes que se levantasse, Kate retirou a chave do lado de dentro da fechadura e puxou a porta, ao mesmo tempo em que Marianne a segurava pelo outro lado, tentando impedir que se fechasse.
— Não vai me prender aqui, megera!
No auge do desespero, Kate enfiou o pé na altura do estômago de Marianne, jogando-a ao chão novamente. Puxou a porta com violência, enfiou a chave com mãos trêmulas e conseguiu trancá-la, enquanto Marianne a esmurrava pelo lado de dentro, forçando a maçaneta, que já não cedia mais.
— Deixe-me sair! — gritava enfurecida. — Cadela! Vagabunda! Vaca! Deixe-me sair!
Kate não ficou para escutar suas imprecações. Guardou a chave no bolso do avental e correu para o outro quarto, batendo na porta com ansiedade.
— Roger! Abra, meu filho. É a mamãe!
O menino entreabriu a porta devagarzinho. Vendo a mãe parada do lado de fora, chorando copiosamente, escancarou-a de vez e Kate entrou, abraçando-o com fervor. Kevin imediatamente acercou-se dela, abraçando-a também. Agarrada aos filhos, ela correu para o berço e ergueu Suzie, que soluçava sentida.
Abraçada aos três, Kate permaneceu ali, chorando a sua dor e a sua frustração. Lutara com Marianne como se ela fosse um demônio forte e poderoso, e não uma menina de apenas nove anos. Ela estava louca. Se chegara a ter dúvidas, agora tinha certeza de uma loucura visível, amaldiçoada e, acima de tudo, perigosa.
O que poderia fazer? Marianne era sua filha, mas não podia esquecer que tinha ainda outros três, que nada sabiam das loucuras dela. Quanto mais pensava nisso, mais se angustiava. Estreitando as crianças cada vez mais de encontro ao peito, deu vazão a toda sua angústia, confundindo com o dos filhos o seu pranto de desilusão.

20
Ao entrar em casa naquela noite, David encontrou a mulher sentada no sofá, com Roger, Kevin e Suzie a seu lado. Da cozinha, um cheiro de carne refogada recendia no ar, atingindo-lhe em cheio as narinas, e ele comentou num gracejo:
— Hum... que cheirinho bom. Até abre o apetite.
Por uns breves segundos, o aroma do assado desviara sua atenção do problema do qual fugira pela manhã, mas que agora, inevitavelmente, teria que enfrentar. O olhar sofrido e acusador de Kate, por si só, já dizia tudo. As crianças tinham um ar assustado e mudo, e Marianne não estava entre eles.
— Está tudo bem? — foi só o que conseguiu perguntar.
— Onde esteve o dia inteiro? — redarguiu ela, os lábios trêmulos de revolta. — Por que não ficou aqui para me ajudar?
— Tive que trabalhar...
— Muito conveniente para esconder a sua covardia. Preferiu fugir a enfrentar sua filha. Marianne é sua filha também. Era seu dever estar ao meu lado, apoiar-me e transmitir-lhe segurança. Mas o que você preferiu? Fugir feito um fraco.
David engoliu em seco e perguntou baixinho:
— O que aconteceu?
— Será que você não pode imaginar? Não é capaz de adivinhar a reação de Marianne ao constatar que Ross não está mais aqui?
Ela apertou os lábios, tentando conter as lágrimas, e estreitou Suzie contra o corpo, lembrando-se do episódio da manhã.
— Lamento... — murmurou.
— Lamenta? É só o que você tem a dizer? Faz ideia do que eu passei com aquela menina? Do que fui obrigada a fazer para proteger os nossos filhos? Como se Marianne não fosse nossa filha também?
Consciente de sua covardia, David abaixou os olhos e exprimiu com dor:
— Conte-me o que aconteceu.
— Marianne tentou nos matar — revelou Kevin em sua simplicidade infantil, e os três começaram a chorar.
David não conseguiu articular nenhum som. O pouco que lhe disseram, aliado ao visível estado de exaustão e medo da mulher e dos filhos, era mais significativo do que todas as palavras juntas. Ainda assim, Kate juntou as forças que ainda lhe restavam e contou tudo ao marido, sem omitir ou suavizar qualquer detalhe. Ao final da narrativa, ele estava com os olhos úmidos, sentindo desprezo por si mesmo, pela sua covardia, pela escolha da saída mais fácil.
— Perdoe-me, Kate — conseguiu balbuciar. —Perdoe a minha covardia, minha fraqueza...
— Nem você, nem ninguém jamais poderá imaginar o que passamos aqui. Marianne parecia outra pessoa. Não sei onde conseguiu tanta força. E as imprecações então? Pergunto-me onde aprendeu tantos palavrões. Uma menina de nove anos! Minha filha... Tive que esmurrar e chutar minha própria filha. Como poderei me perdoar por isso...?
Kate começou a chorar descontrolada, e David, sem saber o que fazer, tomou a única atitude que lhe pareceu possível no momento, abraçando-a com força e chorando junto com ela. As crianças nada diziam, ainda assustadas e traumatizadas com a violência da irmã. Suzie, muito pequenina, adormecera no sofá, e apenas Roger e Kevin acompanhavam o sofrimento da mãe.
— Não se culpe — ele tentou confortar. — Você fez o que era certo.
— Será que fiz? Meti o pé em minha própria filha! Sabe o que é isso? Sabe o que é, para uma mãe, lutar com sua filha? Uma criança! Mas eu tinha que proteger os outros. Não podia deixar que Marianne os machucasse.
— Você não teve escolha. Oh! Deus, como me arrependo de minha covardia! Mas tive medo... medo de que nossa filha fosse louca. O que faremos se ela for louca?
Uma fumaça cheirando a queimado elevou-se da cozinha, e Roger comentou sonolento:
— Estou com fome...
Kate enxugou os olhos, afagou a cabeça dos meninos e falou sem entusiasmo:
— Preciso ir ver a carne. Deve estar queimando.
David ficou olhando a mulher ir para a cozinha e abrir a porta do forno para espiar o assado. Fazia aquilo mecanicamente, e ele sentiu o peso da culpa e da traição por tê-la abandonado naquela hora tão difícil. Fora trabalhar, deixando em casa seus problemas para serem solucionados por Kate.
Os meninos saíram do sofá e foram sentar-se à mesa da cozinha, para esperar a comida. De onde estava, David continuava observando-a e sentiu imenso orgulho dela. Ela, sim, era uma mulher de fibra, uma mulher de verdade, não uma fraca feito ele.
Devia-lhe, ao menos, uma reparação pelo que a fizera sofrer. Enquanto ela cozinhava, daria um jeito de minorar o seu sofrimento. Levantou-se lentamente, e ela, percebendo o seu movimento, indagou da cozinha:
— Aonde vai?
— Vou ver Marianne.
Kate nada disse, e o seu silêncio levou até ele a súplica de compreensão. David entendeu seu pedido mudo, balançou a cabeça e se virou, subindo as escadas vagarosamente. Queria chegar e não queria.

21
Em seu quarto, Marianne permanecia sentada no chão, corpo encostado na parede, exausta de tanto gritar. Durante muito tempo, ficara esmurrando a porta, na tentativa de se soltar. Seus músculos pareciam não se importar com os movimentos repetitivos, e ela permaneceu horas a fio dando socos na madeira, sempre com o mesmo gesto mecânico. No fim, após imenso esgotamento emocional, foi preciso parar.
A crise passara. Ela estava agora mais calma e mais lúcida. Em sua confusão mental, lembrava-se de que brigara com a mãe por causa de Ross. Aquela bruxa da Lilian o havia levado embora, e ela agora não podia mais vê-lo. Recordava-se vagamente de haver agredido a mãe e gritado com ela, assim como de ter tentado atacar os irmãos.
Não entendia direito por que havia feito aquilo. Queria parar, mas não conseguia. As vozes... de repente, sussurros invencíveis começaram a ecoar em sua cabeça, mandando que ela fizesse aquelas coisas. Deixara-se envolver e dominar pelo seu comando, e logo estava fazendo exatamente o que lhe diziam.
Não fosse por essas vozes, teria gritado e esperneado, talvez até batido com a cabeça no chão, unhado e mordido a mãe. Até então, estava sozinha. Todavia, ao ver o irmão descendo as escadas, algo despertou dentro dela. As vozes começaram a soar, a princípio baixinho, depois recrudesceram até se tornarem gritos ecoando dentro da sua cabeça. E lhe diziam apenas uma coisa: Acabe com eles. Dê o troco nessa intrometida.
As vozes pareciam anônimas e sinistras, uma força surgida do lado oculto, sobre a qual ela não tinha conhecimento nem domínio. Eram consciências externas à de Marianne, seres do invisível atraídos pela força dos sentimentos inferiores. Espíritos envolvidos pelas brumas do medo, da inveja, do ódio e da vingança. Criaturas relacionadas ao passado de Marianne e outras, atraídas pela desordem das vibrações de mãe e filha. Antigos inimigos de Kate, que se aproveitaram da oportunidade para atingi-la também.
Em seu estado de confusão, Marianne via sombras ao seu redor, sem saber que eram espíritos. As sombras-espíritos falavam, e as vozes eram nitidamente audíveis, impositivas e imperativas, retirando de Marianne a força de vontade para resistir. Terminada a luta, o silêncio foi se insinuando em seus pensamentos. Aos poucos, as vozes foram-se afastando e diminuindo, tornando-se esparsas até silenciarem por completo, deixando-a só com seus pensamentos, os únicos que ainda ouvia naquele oceano de ecos distantes.
A solidão do quarto a envolvia num calor sufocante. Ela agora chorava de mansinho, como se as lágrimas, conspirando contra ela, fizessem menção de abandoná-la também. Pensou que poderia morrer sozinha com sua dor. O pensamento da morte era sedutor, uma fuga daquele mundo de pessoas estranhas e incompreensivas, pessoas que pareciam viver na fantasia das regras e da perfeição.
A janela, com suas cortinas esvoaçantes, pareceu-lhe tentadora, uma passagem para a dimensão sem dor. Sentado no parapeito, propositadamente oculto aos olhos de Marianne, Luther comandava sua horda de assassinos e suicidas astrais, que tentavam transmitir a ela idéias fascinantes de morte.
O assédio quase surtiu efeito. Em dado momento, contudo, algo aconteceu. Uma pequenina luz começou a brilhar acima da cabeça de Marianne, que a percebeu de forma indistinta. Seu corpo fluídico fora tão embebido em vibrações maléficas que ela não conseguia divisar com clareza a transparência do astral superior.
Apesar de o caminho da loucura ter provocado um rompimento parcial com o mundo sutil mais depurado, o fato é que Marianne tinha amigos entre os seres iluminados. Não estava sozinha. Espíritos esclarecidos a acompanhavam dia e noite, embora sem intervir, cuidando para que ela não se tornasse presa dos inimigos das sombras.
Foi assim que neutralizaram os pensamentos de suicídio e espargiram no ambiente partículas minúsculas de uma luminosidade suave e refrescante. Aos poucos, Marianne foi sendo envolvida por aquela luz de calma, até suas pálpebras pesarem e buscarem o sono. A exaustão física, finalmente, se abateu sobre ela, trazendo a bênção do repouso.
Despertou muito mais tarde, com o ruído de chave girando na fechadura. Alguém abria a porta do seu quarto. De olhos parcialmente descerrados, viu um vulto que se esgueirou para dentro, indiscernível contra a luz do corredor. Julgando tratar-se de novos espectros assustadores, Marianne se pôs de quatro e engatinhou pelo chão, até a parede do outro lado.
Sentou-se, toda encolhida, e quando a luz do quarto se acendeu, pôde enfim distinguir a silhueta austera do pai. Um arrepio explorou cada canto da sua pele, derramando em sua mente o pavor de uma nova surra. O rosto de David defrontava o seu, indecifrável. Ele se aproximou e parou em frente a ela, a sombra aumentada pela projeção da luz que vinha por trás. Quando a sombra do pai encobriu-lhe o corpo, ela chorou baixinho.
Para sua surpresa, o pai se ajoelhou ao seu lado e passou a mão sobre os seus cabelos, dizendo com uma ternura cuidadosamente calculada:
— Venha, Marianne, vamos jantar.
Os olhinhos dela brilharam, e Marianne esboçou um sorriso. De repente, descobriu que estava com fome. O estômago, subitamente, começou a doer. Não havia comido nada o dia todo e, até agora, não tivera apetite algum. Feita a limpeza espiritual, inclusive no campo energético de David, o corpo de Marianne começou a responder, e logo veio o significativo e salutar sinal da fome. Comer, contudo, não era o mais importante. Principal mesmo era que o pai fora gentil e não ia bater nela. Sem nem se dar conta, David também fora envolvido pelos fluidos iluminados deixados no ambiente, que o faziam ver em Marianne apenas a menina assustada e vulnerável que era sua filha.
Marianne aceitou a mão dele com uma felicidade desconhecida. Nunca o pai fora carinhoso com ela, e era preciso aproveitar bem aquele momento. David ajudou-a a levantar-se, e ela deixou escapar um gemido descuidado, que imediatamente tratou de reprimir, com medo de que o pai percebesse o seu corpo dolorido e se afastasse dela.
De mãos dadas, pai e filha saíram do quarto e desceram as escadas. Na cozinha, as crianças já haviam começado a jantar, e Kate dava de comer a Suzie. Quando viu David e Marianne entrarem juntos, seu coração de mãe se confrangeu. Como gostaria que fosse sempre assim! Com os olhos rasos de água, soltou por instantes a colher com que alimentava a filha e puxou uma cadeira para Marianne.
Era impossível não perceber que os irmãos haviam se encolhido e endereçado à mãe um pedido de socorro. Tinham medo de que Marianne os machucasse novamente. O olhar confortador de Kate, entretanto, deu-lhes segurança, e eles continuaram a comer, embora com uma certa apreensão.
Sem dizer nada, Kate serviu a filha e o marido, voltando para junto de Suzie, que espalhava a comida pelo chão, tentando comer sozinha. Marianne encarou a mãe com olhos expressivos, e Kate lhe retribuiu com um sorriso afável. Com voz carinhosa, recomendou:
— Coma, Marianne, vai lhe fazer bem.
A menina segurou o garfo e começou a comer. A cada vez que engolia, o estômago, ferido pelo golpe do pontapé, se contraía todo, mas ela se forçou e conseguiu comer quase tudo. A comida estava gostosa, e ela estava com fome. Quando terminou, levantou-se em silêncio e foi ajudar a mãe a recolher os pratos. Era sua maneira de pedir desculpas. Esperou até que a mãe lavasse a louça, apanhou um pano e pôs-se a enxugá-la, colocando-a cuidadosamente sobre a mesa, para que Kate a guardasse depois.
Sem saber o que fazer ou dizer, Kate aceitou sua ajuda, permanecendo calada enquanto trabalhavam. O mutismo da mãe não foi bem recebido por Marianne, que esperava um sinal, por menor que fosse, de que ela a amava e não estava zangada. Sendo ainda tão pequena, não compreendia o significado do silêncio, que lhe soou como indiferença.
Tudo terminado, Marianne abaixou os olhos e deixou a cozinha. Os irmãos, sentados na sala em companhia do pai, olhavam-na desconfiados, torcendo para que ela não se aproximasse. Ela não se aproximou. Tomou a direção das escadas e subiu para o quarto. No meio do caminho, ouviu a voz da mãe.
- Boa noite, Marianne.
Parou para ouvir o que a mãe dissera, na esperança de que fossem palavras de carinho. Como estas não vieram, galgou os degraus sem se voltar. Lá em cima, correu para o banheiro, trancou a porta e vomitou. No quarto, atirou-se na cama sem nem mesmo trocar de roupa e, em instantes, adormeceu.
Depois que ela subiu. Kate apanhou os outros filhos e, ajudada por David, levou-os para o quarto. Suzie agora dormia com os meninos, pois era impossível acomodá-la com Marianne. Depois que eles adormeceram, ela encostou a porta do quarto e foi ver a outra filha.
Encontrou-a adormecida e sentiu, forte em seu coração, um misto de repulsa, compaixão e amor. Quase a matara, mas ela estava doente e era sua filha. Andando na ponta dos pés, retirou uma camisola do armário e trocou Marianne que, de tão cansada, nem percebeu a presença da mãe. Ajeitou-a cuidadosamente sobre o travesseiro, cobriu-a com a manta, acariciou seus cabelos e saiu.
Em seu quarto, David a aguardava.
- Como está Marianne? – perguntou interessado.
- Está dormindo.
- Trancou a porta do quarto dela?
- Acha necessário?
- Não sei se é seguro deixá-la solta por aí. E se ela tiver outra crise e atacar os irmãos?
- Isso não vai acontecer.
- Como é que você sabe?
- Marianne só age por impulso, quando provocada.
- Você não pode ter essa certeza. E o que a provoca?
Kate fez ar de dúvida, e ele mesmo respondeu: — Tudo. Qualquer coisa é capaz de provocá-la.
Kate deitou-se na cama e apagou o abajur. Com o rosto voltado para a parede, considerou:
— Ela está doente.
— Fico me perguntando se já não é hora de a levarmos ao psiquiatra. Não me agrada essa ideia, mas que outra saída temos?
Embora Kate soubesse que era o que tinham que fazer, ainda se mostrava resistente. Esfregou a testa, empertigou o corpo e, mudando de postura, respondeu incisiva:
— Ainda não. Vamos esperar para ver o que acontece. Quem sabe ela melhora?
— Sem o Ross? Acho difícil.
— Vamos dar tempo ao tempo. O tempo cura todas as feridas. Há de curar também as de Marianne.
— Você mesma disse que temia pelas crianças. Se esperarmos mais, não estaremos pondo em risco a segurança delas?
— Posso controlar Marianne, sei que posso. Ela é uma criança, minha filha. Tenho que manter o domínio sobre ela.
— Não sei se as coisas são bem assim.
— Não posso fazer isso com minha filha. Tenho medo de que o psiquiatra recomende a internação. Como irei suportar?
— Sei que isso não agrada ninguém, mas será que não seria melhor?
— Nunca!
Na mesma hora, David se arrependeu do que dissera, imaginando que males um hospício seria capaz de produzir na mente de uma criança. Todavia, a insanidade de Marianne precisava ser considerada. Se ela era mesmo louca, talvez o sanatório fosse o lugar certo para ela. Havia, contudo, a resistência de Kate. Como mãe, não seria fácil tomar uma decisão como aquela.
Então, se ficasse provado que Marianne era mesmo louca, caberia a ele, no papel de pai e chefe de família, cuidar da mulher e dos demais filhos, protegendo-os de agressões externas. Naquele momento, tendo já se dissipado as vibrações que captara no quarto de Marianne, David voltava a raciocinar sob a influência de seres malignos, que se aproveitavam de sua repulsa à loucura para incutir nos pensamentos dele o único destino possível para Marianne.

22
Quando Nathan chegou a Lilian estava em seu quarto, sentada em frente ao toucador, penteando os cabelos. Olhou para o marido pelo espelho, sorriu e, sem se voltar, cumprimentou:
- Olá, querido. Como foi o seu dia?
— Bom...
Ele pousou o chapéu em cima da poltrona, sentou-se na cama e ficou olhando-a pelo espelho. Ela terminou a maquiagem e tornou a olhar para ele.
— Aconteceu alguma coisa? - Fitando-a com ar enigmático, ele respondeu:
— Fui promovido.
Lilian soltou o vidro de perfume que espargia pelo colo e virou-se abruptamente:
— Promovido? Isso é maravilhoso!
Nathan se sentia pouco à vontade. Não entendia por que, de uma hora para outra, recebera tantas e sucessivas promoções. No começo, pensou que fosse um acaso da sorte ou do destino. Agora, porém, não tinha tanta certeza. Os olhares dos antigos companheiros o incomodavam, como se o acusassem de deslealdade e oportunismo.
— Eles estão com inveja – disse Lilian. – Não ligue. Você não precisa mais deles.
Mas ele ligava, e as justificativas dela não o convenciam. Conhecia aquela gente desde sua admissão na fábrica, havia quase quinze anos. Sempre foram amigos até que, de uma hora para outra, todos passaram a ignorá-lo e se calavam toda vez que ele se aproximava, como se ele fosse um traidor ou espião.
Revendo seus passos na fábrica, lembrou-se que todos acharam justa sua promoção a chefe de produção, Era um empregado antigo, muito responsável e conhecia o serviço como ninguém. Logo depois, quando fora chamado a ocupar o cargo de gerente, a reação foi de desconfiança. Mas ele não era culpado pela morte de Clayton, o gerente anterior, e não pode recusar a promoção. Ninguém recusaria.
E agora, passados poucos meses desde a última vez em que fora promovido, o chefe o chamara e lhe oferecera o cargo de diretor de vendas. Trocara-o de setor. Já não trabalharia mais na produção, e sim nas vendas. Seria encarregado de contatar os clientes, oferecer seus produtos, discutir preços e elaborar cláusulas de contratos favoráveis à fábrica. Coisas com as quais Nathan, absolutamente, não estava familiarizado.
A única coisa de que entendia era de produção. A indústria têxtil havia crescido muito nos últimos anos, e Nathan se tornara um especialista em tecelagem. Não compreendia por que tinha que ser desviado para um setor burocrático para o qual nem se achava preparado.
Além do mais, o senhor Jack White, antigo diretor de vendas, estava no cargo havia muitos anos, e sua aposentadoria fora motivo de estranheza. Ele sempre dissera que gostava do seu trabalho e queria morrer trabalhando. E então, de uma hora para outra, resolvera se aposentar.
O pior de tudo era que ele estaria obrigado a constantes viagens. A fábrica do senhor Bradley era muito grande e próspera, e seus tecidos eram comercializados por todo o país e até no exterior. Ele lhe dissera que teria que viajar muito, inclusive para a América, onde as vendas começavam a disparar.
Nada daquilo o agradou. Não queria se afastar da família e não estava à altura do cargo que lhe ofereciam. Tentou dizer isso ao patrão, mas ele não aceitou suas desculpas.
— Nem pense nisso! — dissera. — Você é meu homem de confiança. Conhece a fábrica como ninguém.
— Mas senhor Bradley — rebateu Nathan, confuso —, tenho família. Não poso me ausentar. E depois, não entendo nada de vendas.
— Isso não é problema. É claro que não vou atirá-lo aos leões sem qualquer defesa. Você vai se preparar adequadamente, aprender a função. Vou lhe mostrar tudo e, em breve, você será um excelente diretor.
— Mas...
— Nada de mas, Nathan. E depois, o salário é excelente.
— Sei disso e não quero que pense que sou mal-agradecido. Mas é que, como disse, a minha família...
- Que eu saiba, sua esposa é uma mulher jovem e saudável, que, inclusive, já trabalhou aqui. E seu filho já é um rapazinho.
— Eles precisam de mim. — Precisam. E de dinheiro também. Pense em tudo que poderá lhes proporcionar com o salário que estou lhe oferecendo. Você comprou uma casa nova, não 'oi? — ele assentiu. — E num bairro elegante, não é?
— Sim. Mas está hipotecada...
— Mais um motivo para aceitar, pois o novo salário lhe assegurará o pagamento da hipoteca. Vamos, homem, deixe de sentimentalismos. É uma proposta irrecusável, e você vai se surpreender com a realidade de que todos podem passar muito bem sem você.
Pensando no quanto Lilian ficaria furiosa se ele recusasse o novo cargo, Nathan se deu por vencido:
— O senhor tem razão. Sua proposta é mesmo irrecusável.
- Quer dizer então que aceita?
— Aceito.
— Excelente! — exclamou exultante. — E não pense que está me fazendo um favor. Você mereceu essa promoção. Esteja certo de que não vai se arrepender.
Já estava arrependido. Agora, fitando a mulher, envolta em rendas e fitas, imaginou se havia mesmo agido corretamente. Ela era ambiciosa e não ligava a mínima para ele ou para seu filho. Só pensava em roupas e joias, que ele vinha comprando com sacrifício. E de uma hora para outra, milagrosamente, tinha condições de satisfazer seus caprichos mais extravagantes.
— Agora sim, serei uma dama de verdade — comentou ela, sonhadora. — Para começar, podemos dar uma festa. Toda a alta sociedade londrina estará presente.
— Devagar, Lilian. Só fui promovido. Não fiquei rico.
— Como não? Você agora vai ganhar bem. Não é mais um operário. É diretor, está ingressando na elite industrial...
— Vou ter que viajar — cortou ele.
- Viajar? Para onde?
— Não sei. Pelo país e pelo exterior.
Um brilho de vitória despontou no rosto de Lilian, e ela sorriu intimamente. Enquanto ele viajasse a negócios, ela e Richard estariam livres para se encontrar e, quem sabe, viajar também. Fora uma grande prova de amor. Por que outro motivo Richard teria obrigado Jack White a requerer a aposentadoria, sob pena de despedi-lo, para dar o cargo a Nathan? Por ela. Pensando nisso, sorriu maliciosamente e elogiou com disfarçado fingimento:
— Ah! Nathan, fico muito feliz por você. Foi merecido.
— Não está aborrecida por eu ter que viajar?
— É claro que não!
Pensei que sentiria minha falta.
Ela tossiu levemente e se aproximou dele, segurando suas mãos com fingida ternura:
— É claro que sentirei a sua falta, mas será um sacrifício que terei que fazer em benefício do seu sucesso.
— Tem certeza?
- Absoluta. Prometa-me apenas que não irá me trair com nenhuma americana. Ouvi dizer que elas têm modos muito despojados.
Se lhe dar tempo de contestar, começou a morder seu pescoço, deixando-o louco de desejo. Lilian sabia como dobrá-lo. Conhecia seus abraçou-o e pontos fracos e aqueles que lhe davam mais prazer.
Na hora do jantar, Nathan estranhou a mesa posta para dois e indagou preocupado:
— Onde está Ross?
— Trancado no quarto — respondeu ela secamente. — Não quis sair nem para almoçar.
— E você deixou?
— O que queria que fizesse? Que o arrancasse de lá à força e o arrastasse até aqui? — Como ele fizesse menção de sair, ela segurou sua mão e falou com voz melíflua: — Deixe-o. Ele ainda está chateado por causa da mudança. Depois passa.
— Ross é uma criança e precisa se alimentar.
— Vou mandar Nora levar-lhe algo para comer. Tocou a sineta e a empregada apareceu. Deu-lhe ordens para que fizesse um prato e o levasse ao quarto de Ross. A criada obedeceu e preparou a refeição. Bateu de leve na porta, mas o menino não escutou, perdido que estava olhando pela janela, o coração oprimido pela saudade de Marianne. Como ele não atendia, Nora abriu a porta e entrou.
— O que quer? — indagou ele de má vontade, ao vê-la com a bandeja na mão.
— Sua mãe mandou trazer-lhe a refeição.
— Ela não é minha mãe! — esbravejou. — E leve isso daqui. Não estou com fome.
A criada pousou a bandeja na mesa e saiu devagarinho. Assim que chegou de volta à sala, Nathan indagou ansioso:
— Ele comeu?
— Não, senhor. Deixei a bandeja lá, mas ele nem olhou para ela.
Nathan balançou a cabeça e dispensou-a. Não estava acostumado à presença de estranhos às refeições e queria ficar a sós com Lilian.
— Não sei o que fazer com Ross — desabafou ele, levando o copo de vinho aos lábios. - Ele está ficando rebelde.
— Influência de Marianne. Aquela menina é uma praga.
— Ela é prima dele... Ross sente a falta dela.
- Quanto a isso, não há nada que possamos fazer.
— Talvez eu deva ir falar com David. Somos irmãos e nunca havíamos brigado antes.
— Para dizer-lhe o quê? Que está arrependido?
— Poderia pedir-lhe desculpas, para começar.
— Vai se desculpar por ele ter uma filha doida varrida?
— Não se trata disso. Preocupo-me com meu filho. Marianne e Ross foram criados juntos. A separação está sendo difícil para ambos.
Lilian enxugou os lábios com o guardanapo e rebateu friamente:
— E você pretende reaproximar os dois.
— Acho que não seria má ideia.
— Faça isso e transforme nossa casa num hospício.
— Você está exagerando. Marianne é dócil quando bem tratada.
— Está querendo dizer que eu a trato mal?
— Não é isso...
— É isso sim. Pois deixe que lhe diga: não gosto de Marianne e não a quero entre nós. Não vou tolerar a presença de uma doida nesta casa.
Nathan ficou alguns minutos pensativos, até que sugeriu:
— Talvez Ross é que possa ir visitá-la.
— Se consentir nisso, ele vai perder de vez o respeito por mim.
— Não creio...
— Já se esqueceu das imprecações que ele falou de mim?
— Ele estava com raiva, perdeu a cabeça.
— E vai perder de novo se continuar a se encontrar com aquela pirralha maluca. Ela é uma péssima influência para ele.
— Você está se dando muita importância. Marianne só quer saber de Ross. Se os deixarmos em paz, ela nem se lembrará da sua existência.
— Tem razão, precisamos deixá-los em paz. E é por isso que insisto que o melhor para ele seria morar de vez com a adorada priminha.
— Por favor, Lilian, não recomece com isso. Você sabe que eu não vou permitir.
— Ross gosta mesmo é de Kate e de Marianne. Não gosta de mim. Por que não satisfazer a sua vontade?
— Está enganada. Conheço o amor do meu filho por mim. E eu o amo também.
— Chama isso de amor? Veja como ele está! Trancado no quarto feito um bicho do mato.
— Não compreendo você. Não quer permitir que ele vá visitar Marianne, mas sugere que eu o deixe morar com ela. Não vai nisso uma grande contradição?
— De jeito nenhum! Se permitirmos que ele a visite, corremos o risco de chegar a casa um dia e termos a desagradável surpresa de encontrar Marianne aqui. Agora, se ele for morar com ela, não terá motivos para trazê-la a nossa casa, você não acha?
— O que acho é que você está tentando me afastar do meu filho, mas não vou permitir. Proíbo-a de tocar novamente nesse assunto. Já está decidido: Ross fica comigo e pronto.
A discussão tirou o apetite de Nathan, que se levantou aborrecido e saiu para a rua. A pressão de Lilian estava se tornando insuportável. Agora percebia tudo. Como fora idiota! Lilian queria se livrar de Ross a todo custo. Não gostava dele, talvez não gostasse de ninguém além de si mesma. Interessava-se apenas pelas futilidades que o dinheiro podia comprar.
O pior não era ela. Era ele. Lilian era interesseira e fútil, provavelmente sempre fora assim. Kate tentara avisá-lo, no entanto, não lhe dera ouvidos, surdo pelas falsas palavras de amor com que Lilian o enfeitiçara. Jamais devia ter-se afastado da família por causa de mulher alguma. Como fazer agora para voltar atrás?
Nathan chutou uma pedra e atravessou a rua, admirando a casa grande e bonita pela qual se endividara tanto. Tudo para satisfazer os desejos e os gostos de Lilian. Ela estava satisfeita em sua vaidade, e para isso, tanto ele quanto o filho tinham que ser infelizes. Era preciso reagir e impor a sua vontade. Mas como, se não tinha coragem de contrariá-la? Perguntava-se por que era tão covarde e não encontrava a resposta.
Deu uma última olhada para a casa e soltou um suspiro profundo, descendo a rua a passos lentos. Uma mulher passou ao seu lado, e ele se deteve impressionado. Seria mesmo Kate? Não podia ser. Ela estava muito longe, feliz com o amor de sua família.
Instintivamente, voltou-se e viu a mulher se afastar. Tão diferente e, ao mesmo tempo, tão semelhante à cunhada. Kate era uma mulher bonita. Será que tinha consciência de sua beleza? Provavelmente não, sufocada pelos afazeres domésticos e os cuidados com os filhos, principalmente com Marianne e seu enorme problema.
Como gostaria de, naquele momento, estar ao lado de Kate! Só ela saberia compreendê-lo e confortar o sobrinho, a quem criara como filho. Sim, para Ross, ela sempre fora sua verdadeira mãe. E para ele, o que ela realmente seria?

23
Foi na noite imediata ao acesso de loucura de Marianne que Luther deu um ultimato aos espíritos das trevas. Reunidos nas profundezas do astral inferior, ouviam com revolta as imprecações e ordens do espírito, que caminhava de um lado a outro com visível impaciência.
— Seus incompetentes! — vociferou. — Deixei-a aos cuidados de vocês, e o que fizeram? Divertiram-se e aproveitaram bastante, mas nada de trazê-la para cá. Será que é tão difícil assim levar uma louca ao suicídio? Agora chega. Ninguém mais mexe com ela. Cuidarei de Marianne pessoalmente, que era o que deveria ter feito desde o início.
— Mas Luther — tentou protestar um espírito —, isso não é justo. Você não tem o direito de impedir nossa vingança.
— E você não tem o direito de impedir a minha. Já não tiveram sua chance? Agora é a minha vez, seus inúteis.
Um dos espíritos, de rosto cadavérico e olhar assustador, encarou Luther com raiva e disse entre os dentes:
— E se nós não obedecermos?
— Vocês é que sabem. Mas depois, não digam que não avisei.
- Quem é você para nos ameaçar? Vociferou outro.
Luther lançou-lhe um olhar sarcástico, acercou-se dele e segurou-o pelo colarinho, cravando as garras em seu pescoço:
— Eu sou aquele que manda e que você não gostaria de enfrentar — rosnou com ar aterrador.
O outro, sentindo o poder de Luther, engoliu em seco e tentou retirar as mãos de seu pescoço. Luther apertou um pouco mais e, em seguida, empurrou-o com violência de encontro à parede.
— Será que preciso lembrar a todos que eu sou o chefe aqui? Conquistei esse posto por mérito, graças a muita dedicação e paciência. Aprendi a me defender e, principalmente, a saber o momento certo de atacar. Quem quiser me contestar, vai ter que me enfrentar e provar que é mais forte e mais poderoso do que eu. Alguém quer experimentar? — Ninguém se atreveu, e Luther prosseguiu: — Muito bem. Assim está melhor.
— Por que a defende? — arriscou uma mulher toda rota.
— Defendo a minha presa e, consequentemente, a mim mesmo e os meus interesses.
— Por quê?
— Isso, só a mim diz respeito.
— Você tem contas a acertar com ela — aventou uma velha desgrenhada. — Assim como nós.
— Muito justo. Todavia, como disse, vocês tiveram a sua chance e a desperdiçaram.
— Achei bonito o seu pequeno discurso de poder — desdenhou um espírito grandalhão e com cara de mau, que não era dali. — Todavia, não me convenceu. Você é um só, e nós somos muitos. O que nos impede de atacá-lo e tomar o seu posto?
— Bem se vê que você é um estranho nas minhas terras — retrucou Luther com frieza. — E é só por isso que não vou destruí-lo.
O outro soltou uma gargalhada tenebrosa e, de forma inopinada, avançou em cima de Luther com uma adaga, derrubando-o ao chão e montando em cima dele, com a faca encostada em seu pescoço.
- Quem vai destruir quem agora?
Luther não se deixou intimidar. Permitiu que o outro o ameaçasse por alguns instantes, até que, segurando a mão da faca, atirou para longe a criatura que o dominava, sem qualquer esforço. Os outros, impressionados, quedaram-se boquiabertos, incapazes de emitir qualquer som. Como se nada houvesse acontecido, Luther levantou-se, espanou a poeira astral e continuou a falar, alheio ao estado de quase demência em que deixara seu agressor:
— Lembrem-se de que só estão aqui porque eu consenti. Muitos de vocês já me conhecem e até trabalham para mim. Para aqueles que são novos e nunca ouviram falar de mim, como nosso amigo ali — apontou, sem emoção, para o espírito caído —, saibam que toda essa região está sob o meu domínio, e tenho um exército ao meu dispor. Quem quiser tomar o meu lugar, vai ter que lutar por ele, assim como eu lutei para estar aqui. Só que, ao contrário do meu antecessor, não estou enfraquecido pelo deslumbramento de uma dissimulada iluminação. Não acredito no poder da luz. Creio na potência das trevas, na soberania da força e na propagação do medo para a conquista e a imposição do poder absoluto. O poder é tudo que importa.
O episódio era mais do que suficiente para provar a todos a superioridade de Luther. Os espíritos não ousaram mais enfrentá-lo nem com palavras, nem com gestos, e limitaram-se a olhá-lo com ar resignado. O silêncio era total, até que, por fim, uma mulher levantou um dedo hesitante e, após o consentimento de Luther, perguntou com timidez:
— Não poderemos fazer nada?
Luther fez um ar de mistério e retrucou bem-humorado:
— Vamos ver. Aqueles de vocês que quiserem me seguir e obedecer poderão me auxiliar... E, auxiliando-me, terão novas oportunidades.
— Você quer nos escravizar? — perguntou, perplexo, o espírito de rosto cadavérico, procurando ficar fora do alcance de Luther, temendo que lhe acontecesse o mesmo que acontecera ao companheiro atacado.
Luther fitou-o com desdém e respondeu entre os dentes:
— Não gosto de você, animal. Mesmo assim, vou responder a sua pergunta. Não tenho necessidade de escravizar ninguém. Só se tornam meus escravos aqueles que me devem alguma coisa — disse isso olhando bem fundo nos olhos do outro, que se encolheu assustado. — Aos demais, dou a oportunidade de me servirem. Se quiserem, poderão conseguir sua vingança pessoal, desde que executem minhas ordens. Se não quiserem, podem partir e buscar outra vítima.
— Não queremos outra! — protestou alguém. — Temos contas a ajustar com Marianne.
— Pois então, pensem bem. Se quiserem chegar até Marianne, eu sou o caminho. Se não forem a ela através de mim, desistam. Ela se tornou inacessível a vocês. A decisão é sua — Luther nem lhes deu tempo de responder. — E agora, vão dando o fora. Só quero aqui os que me são fiéis.
Alguns espíritos, atraídos pelas vibrações de ódio, de vingança, de medo e de desarmonia, mas que não estavam ligados energeticamente a Marianne, foram saindo de fininho, sem dizer nada. Queriam apenas se alimentar daqueles fluidos sem se prender a ninguém. Muitos, contudo, permaneceram. Espíritos presos a ela por vidas passadas, e ainda outros ligados a Kate e David, cujo propósito era atingi-los através da menina. Todos em busca de algum tipo de vingança.
As criaturas ligadas a Kate e David guardavam ressentimentos e ódios amealhados em sua última encarnação. Marido e mulher, na outra vida, foram homens, irmãos e médicos de loucos. O exercício da medicina nos séculos passados constituía uma tarefa árdua, e a loucura, em especial, era vista com muito mais medo e preconceito do que na época de Marianne.
Kate e David não fugiam à regra da ignorância. Loucura era sinônimo de vergonha para as famílias, e sempre que um paciente com problemas mentais ou simples ideias extravagantes lhes era apresentado, aconselhavam os familiares a interná-lo no hospício e esquecer-se dele. Que nem fossem visitá-lo. Deixassem-no entregue à disciplina dos hospitais, com suas pancadas, grilhões e torturas.
Loucos não tinham sentimentos, inteligência ou vontade. Por isso, não era preciso dispensar-lhes consideração. Sempre que algum pai mais zeloso os contradizia, argumentando com a desculpa do amor, eles o criticavam e acusavam de impedir o tratamento, insistindo na perpetuação de uma doença incurável e altamente perniciosa, não apenas ao enfermo, mas a toda a família e à sociedade.
Com o diagnóstico precipitado da loucura, muitos doentes foram atirados aos hospícios e lá esquecidos, levando uma vida de maus tratos, de sujeira, de humilhações e falta de amor. Desencarnados, muitos seguiram com enfermeiros do espaço, para serem tratados no astral e recompostos no equilíbrio da mente.
Outros, contudo, principalmente os que não eram realmente loucos, encheram-se de tanto ódio que a morte lhes surgiu como oportunidade de vingança. Invisíveis, podiam perseguir seus algozes sem qualquer tipo de empecilho ou controle. Os médicos estavam à mercê de sua sanha, indefesos ante os ataques obsessivos.
Quando Kate e David desencarnaram, viram-se diante de muitos cobradores, que exigiam reparação pelos anos de tortura nos hospícios. Foi difícil a prisão no astral inferior, sob o ataque constante de espíritos dementados. Por fim, lembraram-se da existência de Deus e, sinceramente arrependidos, buscaram auxílio.
Uma nova chance lhes foi concedida, dessa vez para reencarnarem em sexos diferentes e, casados, receberem como filha um espírito mentalmente desequilibrado e facilmente sugestionável pela influenciação do invisível. Com o cérebro assim predisposto e impressionável, Marianne retornou ao mundo da matéria, carregando consigo o espinho cerebral que a impediria, por toda a vida, de raciocinar com clareza e controlar suas emoções, dificultando, com isso, sua interação com o mundo físico.
Logo nos primeiros anos de vida, nada de anormal podia ser notado no comportamento de Marianne. As lesões cerebrais de que era portadora não eram visíveis aos encarnados, já que situadas para além da matéria densa. Tratando-se de uma desordem do veículo mental, incapaz de controlar a dilatação destemperada do emocional, gravitavam mais em torno desses corpos, inacessíveis à razão humana de então.
Desorganizadas as emoções, com intensa vibração e alargamento do condutor astral, ficou mais fácil para os espíritos, soltos e à vontade em seu próprio mundo
captarem-lhe a confusão e, aliando tudo isso a uma mediunidade sem controle e sem limites, puderam facilmente aumentar-lhe o distúrbio da mente.
4 O mundo astral também é o das emoções e é onde se situa a mediunidade. E acessível pela morte, sonho ou qualquer estado de transe. Como os desencarnados vivem e se locomovem nesse mundo, é muito mais fácil para eles perceberem as vibrações emocionais dos encarnados, visto que estão, eles mesmos, vivenciando intensamente suas próprias emoções (N.A.).
Ao final do terceiro ano, Marianne foi-se modificando. De um temperamento gracioso e alegre, passou a se tornar desconfiada e arredia, falando e agindo de forma estranha e pouco comum a crianças da sua idade. Não raras eram as vezes em que via seres imaginários ao seu redor, a princípio, fadas e duendes, depois pessoas nada amistosas.
Elementais5 e espíritos pouco a pouco foram se tornando recorrentes e indistinguíveis, partes inseparáveis da realidade de Marianne, que não discernia entre o corpóreo e o não corpóreo. Até os sete anos, sob a proteção de espíritos amigos, conseguiu manter a lucidez, apesar das esquisitices. Após essa idade, iniciada a individualização de seu ser, reuniu condições para enfrentar o próprio destino, seguindo sozinha em sua caminhada terrena.
Na verdade, Marianne não estava sozinha de todo. Embora não tivesse qualquer relação pretérita com seus pais, contava com a companhia de Ross, o único que se dispusera a acompanhá-la, movido pelo amor genuíno. Todos os que a ela se haviam ligado em outras vidas não necessitavam passar por aquela experiência, de forma que Marianne foi entregue aos cuidados de pais totalmente estranhos a ela. Foi uma combinação de necessidades entre ela, Kate e David. Se, por um lado, Marianne precisava vivenciar a loucura, por outro, seus pais tinham que aprender a lidar com a doença de forma amorosa e compreensiva. Com uma diferença fundamental: o germe da insanidade estava instalado em Marianne, não em seus pais, que, além disso, não possuíam nenhum dom mediúnico extraordinário, além do normal humano. Nem todos os espíritos eram amigos de Marianne.

5. Elementais são seres da natureza que habitam o mundo astral, como duendes, silfos, ondinas e salamandras (N.A.).
Assim como havia aqueles interessadas em seu progresso e na vitória sobre seu passado, outros clamavam por vingança. E não foram poucos os inimigos que Marianne conquistara em suas outras vidas. A exemplo de Luther, muitos outros aguardavam o momento de empreender a cobrança que tanto desejavam. E ela ia lutando, consigo mesma e com seus demônios, para sobreviver em seu universo selvagem.
Como seu maior e mais feroz inimigo, Luther conhecia todas essas histórias. Mesmo porque Marianne, um dia, fizera parte de seu séquito. Ele a mantivera presa por muito tempo, porque ela muito lhe devia. Todos os que lhe deviam eram cobrados, e o pagamento era a escravidão, servindo em suas hordas de assassinos astrais.
Só que Marianne lhe dera um golpe. As escondidas, sem que ele percebesse ou sequer desconfiasse, conseguira ludibriá-lo e se bandear para o lado inimigo das sombras. Como Luther se enfurecera ao descobrir que ela o deixara! Urrara e se debatera em fúria, mas em vão. Inexplicavelmente, ela escapara e fora recolhida em algum dos muitos centros de reabilitação espalhados por ali, lugares protegidos aos quais ele não tinha acesso. Dali para algum posto de socorro acima da crosta terrestre não era difícil. As vibrações luminosas da esquadrilha do bem era salvo-conduto mais do que suficiente para conduzir as almas até paragens mais límpidas.
Assim, ele a perdera, mas não inteiramente. Ainda podia sentir os fluidos de medo que partiam dela. Ficou à espera. Não foi difícil perceber o seu retorno nem localizá-la no meio de pessoas estranhas. Ao contrário, tudo ficou mais fácil. A família não a amava, e a falta de amor lhe facilitava as investidas. Além disso, seus pais tinham lá os seus comprometimentos e não eram dados a orações nem coisas do gênero, facilitando ainda mais o seu acesso a Marianne.
E agora, ele se encontrava ali, na iminência de efetivar sua vingança. Não havia mais espíritos bonzinhos nem a boa vontade da mamãe. O único e possível obstáculo era o garoto intrometido, que agora estava fora. Luther estava praticamente sozinho, sem nada que lhe dificultasse os planos.
Então agora, era só concretizá-los.

24
Não foi possível para as crianças tornarem a se ver. Durante um bom tempo, permaneceram afastadas, cada qual em sua casa, imersas na saudade e na dor. Não passava um dia em que ambos não pensassem numa maneira de fugir e se ver. Todavia, a vigilância era constante e, principalmente para Marianne, tudo era muito mais difícil, não apenas pela pouquíssima idade, como também pela dificuldade de tomar decisões e cuidar de si mesma.
Marianne mal se alimentava. Passava os dias à janela, sonhando com Ross, imaginando sua chegada em um cavalo branco, tal qual os príncipes dos contos de fadas que ele costumava ler para ela. Nada do que os pais faziam para animá-la surtia efeito, o que também não era muita coisa. Marianne não tinha amigos, e, desde sua última crise, os irmãos a evitavam, com medo. Nem Margot a visitava mais. Apenas de vez em quando, via um elemental ou outro subindo pelas árvores, mas eles nunca falavam com ela. Estava mais só do que nunca.
O verão passou correndo, anunciando o fim das férias, e os ventos gelados do outono trouxeram à Marianne um novo ânimo. As aulas iam começar, e ela encheu-se de esperança de que Ross viria buscá-la para irem à escola juntos.
Naquela tarde escura de domingo, Marianne esperava ansiosa pelo dia seguinte, quando, finalmente, encontraria Ross. Desconhecia a surpresa que a aguardava. Logo ao amanhecer do dia, saltou da cama, exibindo uma animação comedida, e esmerou-se no penteado, colocando, inclusive, uma fita cor-de-rosa no cabelo. Tudo para agradar Ross.
Depois de pronta e perfumada, apresentou-se para o café, a toda hora olhando pela janela da cozinha. Kate e David se entreolhavam preocupados. Ao matricular Roger, que, naquele ano, iniciaria os estudos, ficaram sabendo que Ross não renovara a matrícula. Deviam ter contado logo a Marianne, todavia, foram adiando a notícia, a fim de evitar-lhe maiores sofrimentos.
Na hora de sair, Marianne ainda não se convencera de que o primo não iria aparecer. Enquanto Kate ajeitava a fita em seu cabelo, perguntou:
— E o Ross, mamãe? Cadê ele?
David havia acabado de sair, como sempre antes das tempestades, de forma que caberia a ela, mais uma vez, cuidar daquele assunto sozinha.
— Não sei de Ross — respondeu sem encará-la.
- Ele não vem me buscar?
— Ele não mora mais aqui.
- Mas a escola dele fica perto da minha! Pensei que fôssemos juntos...
A hora de contar era aquela, contudo, Kate não conseguia. Roger, a seu lado, demonstrava toda a ansiedade do primeiro dia de aula, e ela não queria desapontá-lo. Aquela, decididamente, não era a hora mais apropriada para uma cena. Talvez mais tarde, quando estivessem de volta, ela levasse a filha para o quarto e, sozinha com ela, lhe contasse tudo.
— Ross deve ter ido direto de sua casa - mentiu. — Vai encontrá-lo depois.
Marianne não disse nada, embora não conseguisse ocultar a decepção. Saiu com a mãe e os irmãos, inclusive os pequenos, que não tinham com quem ficar. Naquele momento, Kate não podia prestar muita atenção a Marianne, ocupada com a euforia de Roger e em cuidar dos menores. Com Kevin em uma mão e Suzie no colo, Roger ia ao seu lado tagarelando, enquanto Marianne seguia mais à frente, alheia à conversa deles, embora sob o olhar atento da mãe.
Na escola, Kate se despediu dela com um beijo e seguiu apressada para a de Roger, que também fora a de Ross. Marianne demorou-se um pouco mais, vendo a mãe e os irmãos se afastarem, sobressaltando-se a cada automóvel que parava por perto. Todos os meninos se pareciam com Ross, e quando ela estava prestes a gritar o nome dele, confundindo-o com outro garoto que passava, ouviu uma voz familiar atrás de si:
— Pode entrar que ele não vem.
Virou-se bruscamente, mas não viu ninguém. A despeito de conhecer aquela voz, deu de ombros e procurou o garoto, que agora ia longe, e escutou novamente:
— Está perdendo seu tempo. Já disse que ele não vem.
Dessa vez, ao se voltar, enxergou o espírito atrás dela, sentado no corrimão de pedras da escada.
— Como é que você sabe? — rebateu de má vontade.
— Simplesmente sei.
- Quem lhe disse?
— Ninguém precisa me dizer nada, pois sei de muitas coisas.
— Sabe onde ele está? — animou-se.
O espírito não respondeu e ficou observando duas meninas que passavam. Vendo Marianne parada no alto da escada, falando sozinha, elas não resistiram e começaram a rir.
— Acho que estão rindo de você — anunciou ele.
Marianne deu de ombros outra vez e afirmou sem interesse:
— Problema delas. Eu não ligo.
Impressionadas e assustadas com a atitude de Marianne, foram chamar o professor. O senhor O'Neill foi-se aproximando lentamente e parou no corredor, de onde podia avistá-la no patamar de cima. Ela parecia mesmo falar com alguém, contudo, não havia ninguém ao lado dela. Resolveu aproximar-se.
— Bom dia, Marianne — cumprimentou em tom severo.
A menina se calou e fitou o espírito, que escorregou pelo corrimão. Seguiu-o com o olhar, acompanhada pelo senhor O'Neill, que não via nada nem ninguém.
— Algum problema? — continuou ele, tentando chamar sua atenção.
Ela olhou-o em silêncio, abraçou a pasta da escola e passou para o lado de dentro, seguida de perto pelo professor. Sem dizer nada, tomou o rumo da sala e entrou. Como, porém, uma menina que ela não conhecia ocupava o lugar que costumava ser dela, escolheu outra carteira e sentou-se.
- Quem lhe deu autorização para trocar de lugar esse ano, Marianne? — era o senhor O'Neill.
— Tem uma aluna nova no meu lugar — esclareceu ela mal-humorada.
- Que menina? — retrucou, perplexo, o professor. As outras crianças se entreolharam e começaram a dar risinhos abafados. Não viam ninguém no lugar de Marianne.
- Que menina? — repetiu ele.
O tom de voz do senhor O'Neill lhe causou muito medo, e ela deduziu que levaria uma advertência. Tudo porque aquela menina estúpida resolvera se sentar no seu lugar. Quando ia responder que não conhecia aquela aluna nova, a outra se virou para ela com ar zombeteiro e, sem dizer nada, simplesmente esvaneceu no ar.
Melhor assim. Marianne levantou-se e foi para o seu lugar, e o professor deu início às lições. Ninguém sabia o esforço que ela fazia para aguentar a aula até o fim. À hora da saída, como a mãe ainda não havia chegado, deduziu que Ross é quem iria buscá-la, e uma alegria espontânea iluminou o seu rosto. Olhava, impaciente, na direção da escola dele, mas nada. Ross não aparecia.
Cerca de dez minutos depois, Kate surgiu, com Roger e Kevin de um lado, e Suzie no colo. A um olhar seu, Marianne desceu as escadas, segurando a vontade de chorar.
— O Ross não vem? — perguntou.
Kate não respondeu. Pôs-se a caminho de casa com as crianças em seu encalço, ouvindo as novidades que Roger contava e preocupada com a aparência derrotada de Marianne. Como uma criança tão jovem podia estampar tanto sofrimento nos olhos? Engoliu em seco e soltou a mão de Kevin, estendendo-a para a filha, que a tomou mecanicamente.
— Segure a mão de seu irmão — disse baixinho, e Marianne obedeceu.
Seguiram entre a tagarelice de Roger, os risos dos outros dois e o mutismo de Marianne. A medida que iam se aproximando de casa, foram notando uma movimentação diferente em frente à casa de Ross. Um caminhão de mudanças descarregava móveis e caixas, num vaivém de pessoas que pareceram a Marianne aquelas que ela queria ver. Mais que depressa, soltou-se da mão da mãe e do irmão e disparou pela rua gritando:
- Ross! Você voltou! Eu sabia, Ross...
O nome do menino morreu em seus lábios, na presença de uma mulher jovem que, parada no meio da escada, olhava-a com ar de espanto. O susto de Marianne não foi menor, julgando, em sua mente confusa, que a casa do primo havia sido invadida por pessoas estranhas.
Kate chegou em seguida, com Suzie no colo e os outros dois, de mãos dadas, em carreirinha. Soltou os meninos no pé da escada e galgou os degraus de par em par, chegando à varanda suada e esbaforida, com Suzie ameaçando chorar.
— Meu Deus, Marianne! — exclamou arfando, quase sem conseguir respirar.
A falta de ar era tanta que a moça se preocupou:
- Está tudo bem, senhora?
— Eu... perdoe-me... Marianne não queria aborrecê-la.
— Ora, não foi nada — retrucou a outra com simpatia.
— É que o primo morava aqui, e ela ficou muito triste quando foi embora. Pensou que fosse ele. Não foi, Marianne?
A menina não respondeu. Com ar magoado, virou as costas e disparou a correr novamente, passando direto para o quintal, nos fundos de sua casa.
— Não se preocupe — sossegou a mulher, notando o embaraço de Kate. — Criança é assim mesmo. Eu sou Laura Hyde. Acabamos de nos mudar para cá.
— Muito prazer — respondeu Kate, estendendo-lhe a mão livre, que a outra apertou. — Meu nome é Kate Landor, mas pode me chamar de Kate.
- Prazer, Kate.
A mulher falava sobre a nova casa e suas expectativas de recém-casada, mas Kate mal lhe prestava atenção, de tão preocupada que estava com Marianne. Por fim, cortou o assunto com uma certa impaciência:
— Seja bem-vinda, Laura. Desculpe-me, mas preciso levar as crianças...
— Oh! claro, claro. Foi um prazer.
— O prazer foi todo meu.
— Apareça quando quiser.
Kate sacudiu a cabeça e quase voou para casa. Deixou as crianças na sala e abriu a porta que dava para o quintal. Marianne estava deitada de bruços na grama, chorando. Movida pela compaixão, aproximou-se vagarosamente e chamou com carinho:
— Marianne...
Ela levantou os olhos, assustada, e encarou a mãe, que se ajoelhara ao seu lado. Kate engoliu em seco e sentiu vontade de tomá-la nos braços, mas um certo temor a deteve. Marianne estava tão só, tão perdida e carente, que só o que queria era sentir o acolhimento materno. Dando livre curso às lágrimas, agarrou-se à mãe em desespero e deixou-se dominar pelo pranto convulso e pelos soluços sentidos. Desconcertada, Kate afastou gentilmente os braços da menina de seu pescoço, fez-lhe um afago sem jeito e balbuciou:
— Não chore, Marianne. Eu estou aqui...
A filha tentou abraçá-la novamente, mas Kate se sentiu estranha recebendo-a em seus braços. A lembrança da última briga tolhia seus gestos, reacendendo a dificuldade e o preconceito do passado. Queria abraçá-la, porém, não conseguia. Achou melhor se levantar e puxou Marianne pela mão, passando os braços da menina ao redor de sua cintura. Era o máximo que conseguia fazer.
— Venha me ajudar, Marianne. O que acha de fazermos uma torta de maçã?
Ela foi. Não pensava em tortas nem em comer. Queria apenas o carinho da mãe, que, naquele momento, seria a única coisa capaz de acalmar seu coração abatido. Kate serviu o almoço e a torta de sobremesa, mas Marianne recusou ambos. Terminada a refeição, ajudou a mãe a lavar a louça em silêncio e subiu para o quarto, atirando-se na cama para chorar.
Depois de acomodar as outras crianças para a soneca da tarde, Kate foi bater à porta de Marianne. Encontrou-a deitada, de bruços, o corpo estremecendo a soluços esparsos. Aproximou-se cautelosa e sentou-se ao lado dela. Fez um pequeno esforço e alisou seus cabelos.
- Marianne — chamou baixinho. — Precisamos conversar.
- Sobre o quê? — retrucou ela, sem interesse.
- Sobre Ross.
Todas as atenções de Marianne se voltaram para Kate ao ouvir o nome do primo. Ela se sentou, enxugou os olhos e olhou para a mãe.
- Você sabe por que ele não foi à escola?
Kate queria desistir, mas não podia. Aquele era o momento e, por mais doloroso que fosse, ambas teriam que enfrentá-lo. Marianne teria que assumir a decepção e ela, como mãe, tinha que suportar o que quer que viesse dela, ainda que uma nova e gigantesca crise.
Enchendo-se de coragem, Kate inflou os pulmões e, olhando diretamente nos olhos da filha, disparou.
- Ross foi transferido para outra escola.
- Como assim?
- Ele não estuda mais aqui.
- Não? Mas onde é que estuda?
- Não sei.
- Como? A escola dele é aqui.
- Há outras escolas, Marianne. Escolas maiores e melhores. E Ross foi para uma delas.
- Onde?
- Não sei.
- Quando é que vai voltar?
- Não vai mais voltar.
Aquela conversa a estava confundindo, e Marianne começou a se exaltar, na tentativa de entender o que a mãe dizia. O rosto foi ficando vermelho, os lábios trêmulos, e uma agitação dominou os seus membros, que gesticulavam e chutavam em todas as direções. Estava à beira de uma crise, e Kate se encolheu temerosa.
No mesmo instante, Marianne deu um salto da cama e correu para o corredor, julgando ter ouvido a voz de Ross partindo de um dos quartos. A voz vinha do quarto dos irmãos, e foi para lá que ela correu, ansiosa e eufórica. Em tom audível e claro, a voz sem rosto, imitando a de Ross, acabou por revelar:
— Estou aqui. Escondido no berço de Suzie.
Então era lá que ele se ocultara. Muito inteligente da parte de Ross esconder-se num lugar em que ninguém pensaria em procurar. Com a imagem do primo preenchendo todos os seus pensamentos, Marianne correu de braços estendidos para o berço. Antes de alcançá-lo, sentiu-se puxar violentamente para trás, e um grito agudo trespassou-lhe os ouvidos:
— Marianne, não! Deixe-os em paz!
O brado despertou as crianças, e Suzie começou a chorar. As mãos que se agitavam, em busca da mãe, pareceram a Marianne o apelo de Ross, implorando para que ela o salvasse da bruxa. E ela precisava, a qualquer custo, libertar o menino da sanha maléfica de Lilian.
Correu de novo para o berço, sem alcançá-lo, contudo. Mãos firmes e poderosas haviam-na puxado para trás novamente, dessa vez com mais força, e ela caiu no chão. Ainda aturdida, conseguiu levantar-se, tentando imaginar de onde partira aquela agressão, que só podia ser obra da feitiçaria de Lilian.
Sua mente não conseguia se fixar na realidade presente. As imagens e sons que Luther lhe dirigia eram de uma história fantástica e fantasmagórica, em que Lilian perseguia Ross, que, por encanto, conseguira ocultar-se no berço de Suzie, onde somente ela poderia salvá-lo. Não via Suzie, nem os irmãos e, naquele momento, nem a mãe. Só Ross em perigo.
Na hora em que ela caiu ao chão, Luther retirou de sua mente as impressões equivocadas, e a realidade que ela viu foi a mãe estreitando Suzie no colo e abraçando os meninos com força, bem junto ao seu corpo. Passado o efeito da alucinação produzida pelo espírito, Marianne se deparou com a própria lucidez, recobrando, ainda que transitoriamente, a capacidade de enxergar e avaliar as coisas.
O que ela via, e conseguia compreender muito bem, era o gesto de proteção e amor com que a mãe cuidava dos irmãos. Sentimentos que nunca foram oferecidos a ela, principalmente naquele dia, naquela hora, em que a dor da ausência de Ross havia aberto uma ferida tão grande em sua alma que ela nem se importaria de morrer. E como gostaria que a mãe a tivesse acariciado e protegido, como fazia agora com os irmãos, ajudando-a a enfrentar a solidão e o vazio que a falta de Ross lhe fazia.
Ao invés disso, Kate a excluía de seu afeto. Subitamente compreendendo, com uma clareza surpreendente, que Ross não se encontrava ali, percebeu que o que a mãe temia era que ela ferisse a irmã. Mas ela não ia atacar Suzie nem qualquer dos irmãos. Enganara-se, iludira-se, pensando ouvir o que nunca existira.
E Kate parada ali, abraçada aos irmãos, lhe dava a certeza de seu desamor. A mãe jamais a abraçara como abraçava a eles, nem quando, momentos antes, sua súplica silenciosa implorara um gesto de afeto. Por que não a abraçava também?
— Porque ela não gosta de você — foi a resposta do espírito, invisível atrás de Marianne.
Ela tomou um susto. A revelação da verdade era mais dolorosa quando pronunciada por outro. A mãe não a amava, nem o pai, nem os irmãos. A família dela não eram eles. Nunca a mãe ou o pai a haviam incluído entre os filhos, não de forma física, mas no amor. O amor deles era para os irmãos, jamais seria para ela.
Aquela certeza foi por demais penetrante, e Marianne não conseguiu lidar com ela. Presa de uma sensação de vazio e solidão imensurável, sentiu que os olhos falhavam, os membros a traíam e a alma fugia de seu corpo como alguém que escapa de uma prisão.
Sem emitir qualquer som, tombou desmaiada.

25
A mudança de escola não foi surpresa apenas para Kate e Marianne. Ross também só descobrira no início do ano letivo, quando o pai lhe apresentou o novo uniforme, na véspera do primeiro dia de aula. Sua surpresa só não foi maior do que a raiva que sentiu de Lilian naquele momento. Tinha certeza de que aquilo só podia ser obra dela.
Nos primeiros dias, Lilian foi pessoalmente levá-lo até a nova escola, que distava umas quatro quadras de sua casa. Mais tarde, aprendido o caminho, Ross conseguiu convencer o pai de que podia ir sozinho, como sempre fizera no outro bairro. Foi um alívio até para Lilian, que não se sentia à vontade em seu forçado papel de mãe.
Aos poucos, Ross foi-se familiarizando com as ruas e começou a empreender incursões pelas redondezas. O pai ficava o dia todo ausente, no trabalho, e a madrasta não se importava com ele. Passava as horas fazendo compras e ajeitando os cabelos, sem nem se dar conta de sua existência. Não fosse por Nora, a nova criada, ninguém lhe dirigiria a palavra.
Era graças à sua ajuda que Lilian mantinha seus encontros com Richard. Tudo era feito dentro de sua própria casa. De manhã, logo após a saída de Nathan e de Ross, Nora o introduzia furtivamente na casa, levando-o até o quarto de Lilian. Durante algumas horas, ficavam ali trancados, se amando.
Como todos os outros dias, aquele não era diferente, e Lilian, deitada na cama em roupas íntimas, examinava o anel que ele pusera em seu dedo logo após o ato de amor.
— Será que Nathan não vai desconfiar? — indagou Richard.
— Nathan é um tolo — desdenhou ela. — Não entende nada de coisa nenhuma. Nem sabe que joias possuo. É só dizer que já a tinha, e pronto.
Richard suspirou e deu o último nó na gravata, virando-se para ela em seguida.
— Essa situação tem que acabar — alertou ele. — Sua casa não é o melhor lugar para nos encontrarmos.
— Enquanto você não alugar um apartamento decente, recuso-me a sair daqui. Para aquela pocilga de antes, não volto mais.
— Não é assim tão fácil. Lugares elegantes custam dinheiro e atraem a atenção dos vizinhos. Você conhece a minha popularidade e o gosto das pessoas por mexericos. Não posso arriscar me encontrar com algum conhecido.
— Então não reclame da minha casa.
— Não estou reclamando. Só que você prometeu que, com Nathan no trabalho, teríamos o tempo todo para nós. E não é isso que está acontecendo.
— Eu não contava com o garoto. Nathan insiste em não se livrar dele. O que posso fazer?
— Por que não o manda a um colégio interno?
— Duvido que Nathan concorde. Pois se não quis deixar o filho nem com a cunhadinha do coração, não vai querê-lo longe por meses a fio.
— É diferente. Uma boa escola é sempre um argumento poderoso. Ele pode não querer se separar do menino, contudo, quer para ele uma boa educação.
— Falando assim, parece uma boa ideia.
— É uma excelente ideia. Ele pode resistir no princípio, mas acabará concordando que é melhor para o filho. Ainda mais agora, que está terminando o treinamento e logo vai ser mandado ao exterior.
— O que devo fazer? Se Nathan notar o meu interesse em mandar Ross embora, não vai concordar.
— Você não precisa fazer uma abordagem direta. Comece falando da rebeldia do garoto e da dificuldade de controlá-lo sozinha. Então, comente sobre o colégio interno. Sem pressão, apenas um breve comentário.
— Não sei se isso vai dar certo...
— Você tem que tentar! Estou investindo muito alto em Nathan para poder tê-la só para mim. Você está me saindo muito cara, e estou no direito exigir o que é meu.
Lilian sentou-se na cama e estendeu as pernas, calçando as meias com ar sedutor.
— O que é seu, Richard? — provocou. — Meu corpo?
— Você por inteiro.
Ela sorriu maliciosamente e recebeu-o para novo e rápido ato de amor. Enquanto o mantivesse satisfeito, podia contar com valiosas recompensas.
— Sou toda sua — sussurrou ela. — Você é o único homem que me satisfaz.
Por mais que Richard soubesse que Lilian estava com ele pelo dinheiro, o prazer que lhe dava em troca valia cada libra gasta com ela.
— Nathan não é mais um homem pobre — declarou ele, demonstrando sua superioridade. — E enquanto você for minha, ele ganhará um bom dinheiro. Se você me deixar, terá que se acostumar a viver com pouco ou ele terá que encontrar um emprego que o remunere com o salário exorbitante que lhe pago, o que duvido.
— Eu nunca vou deixá-lo. Dinheiro pode ser bom, mas é a você que amo.
Aquela era uma mentira que, efetivamente, fazia bem aos seus ouvidos e a seu ego. Richard beijou-a ardorosamente, ajeitou as calças e o paletó e já ia sair, quando leves batidas na porta o detiveram.
— O que é? — irritou-se Lilian.
- Desculpe-me, senhora — replicou Nora do lado de fora. — Mas é que já está quase na hora do almoço, e o menino Ross não tarda a chegar. Pela janela o vi, agora mesmo, subindo a rua.
— Maldição! — esbravejou Lilian.
Foi o tempo exato de Richard apanhar o chapéu e sair pelos fundos, na mesma hora em que Ross entrava pela porta da frente. Para surpresa do menino, Lilian estava diferente naquele dia, mais bem-humorada e falante, arriscando, inclusive, uma pequena conversa com ele.
— Está gostando da nova escola? — questionou interessada.
— Não — respondeu ele secamente.
— Que pena... Ouvi dizer que os melhores colégios estão em Oxford, onde fica, inclusive, a universidade.
Ross a olhou desconfiado e respondeu com cautela:
- E daí?
— E daí nada. Foi apenas um comentário.
Era óbvio que aquele comentário não fora gratuito. Ross podia ser criança, mas não era tolo. Terminou de comer, pediu licença e se levantou, remoendo a raiva que sentia de Lilian. Como se ele não soubesse que era muito fácil para os pais livrarem-se dos filhos sem culpa, bastando apenas mandá-los estudar em internatos. Exatamente como o tio David pensara em fazer com Marianne.
Sem chamar a atenção ou fazer ruídos excessivos, saiu sem dizer nada a ninguém, em direção à estação do metrô que, segundo suas pesquisas, o deixaria mais ou menos próximo à casa de Marianne. Chegara o momento de ir vê-la. Já se sentia seguro andando pelas ruas do bairro, certo de que não iria se perder.
Deu tudo certo. Pouco depois, entrava na rua de Marianne, e seu coração disparou. Passou pela antiga casa, onde a movimentação indicava a presença de novos moradores, e seguiu direto para o portão de Kate. Deu a volta na casa e foi até a porta dos fundos, que não costumava ficar trancada.
Com o coração aos saltos, rodou a maçaneta e empurrou a porta, que cedeu sem ruído. Entrou na cozinha clara e asseada, direcionando-se para a sala, onde a tia auxiliava Roger com o dever de casa. Ao vê-lo, Kate levou a mão ao coração e soltou um grito de espanto, mas largou o lápis e correu para ele, recebendo-o em seus braços como uma verdadeira mãe.
— Quantas saudades, meu menino! — exclamou ela emocionada. — Por que não veio nos ver?
— Não pude... — balbuciou sentido. — Morria de saudades de vocês e me esforcei para aprender os caminhos.
Ela o afastou um pouco e o encarou.
— Seu pai sabe que você veio?
— Se soubesse, eu não estaria aqui.
— Lilian também não sabe, suponho.
— Ela, principalmente, é que não pode saber.
— Isso não está certo, Ross. Você pode não gostar, mas Lilian é sua madrasta, e você deve obediência a ela.
— Sei que o que fiz é errado, mas por acaso é certo me afastar de vocês e, principalmente, de Marianne? Tem ideia da saudade que sinto dela?
— Posso imaginar.
Por mais que não aprovasse a atitude do sobrinho, não se atrevia a mandá-lo de volta. Não apenas pelo esforço que ele devia ter feito para chegar até ali, mas, principalmente, por Marianne. A lembrança do dia em que lhe contara sobre a mudança de escola de Ross ainda estava vívida em sua mente. Marianne correra para o quarto dos irmãos e desmaiara, felizmente, antes de lhes fazer qualquer mal. Daquele dia em diante, tornara-se ainda mais taciturna, evitando encarar os pais, tratando-os feito dois estranhos. Sem dúvida, a presença de Ross ali só podia fazer-lhe bem.
— Onde ela está?
A voz do menino puxou-a de volta ao presente, e ela respondeu com ternura:
— Lá em cima.
Mal contendo a ansiedade, Ross se desvencilhou da tia, correndo escada acima feito uma bala. Atravessou o corredor às pressas e rapidamente alcançou o quarto da prima. Nem perdeu tempo batendo. Escancarou a porta e irrompeu pelo meio do aposento.
Sentada na cama, Marianne trançava os cabelos de uma boneca e quase desfaleceu de susto. Vinha passando por tantas angústias, levava tantas repreensões e surras, que um rompante daquele só podia sinalizar nova reprimenda. Mas, ao invés da mãe, a imagem do primo apareceu nítida à sua frente, e ela demorou ainda alguns segundos para se convencer de que a presença de Ross era real. Largou a boneca em cima da cama e saltou no pescoço dele, ao mesmo tempo em que exclamava:
— Ross! É você mesmo! Não é um fantasma!
— Não sou nenhum fantasma. Estou aqui, vivo e cheio de saudades de você.
A voz embargou, e ela não respondeu. De tão emocionada, só o que conseguiu foi dar vazão ao pranto. Só depois que as lágrimas deixaram de consumir-lhe as palavras foi que ela, com uma certa dificuldade, conseguiu articular:
— Pensei que fosse morrer quando você foi embora. Por que me abandonou?
Ross estreitou-a de encontro ao peito e retrucou sentido:
— Não a deixei. Jamais a deixaria.
— Mas você foi embora...
— Fui obrigado. Mas isso agora não importa. Vamos aproveitar que estou aqui.
— Você fugiu?
— Mais ou menos.
— Fugiu da bruxa? — horrorizou-se ela.
Com um sorriso que misturava compaixão e amor, Ross alisou os cabelos de Marianne e aconselhou:
— Quero que você pare de pensar em Lilian como uma bruxa. Ela é só uma mulher má.
— Dá no mesmo...
— Tudo bem então, Marianne, deixemos isso para lá. Quero que você me conte como tem passado, como tem ido na escola, o que tem feito. Quero saber tudo.
Com um riso de satisfação, Marianne contava tudo à sua maneira, omitindo os acontecimentos ruins que passara com a mãe. Não queria falar de nada que deixasse Ross chateado. Mais tarde, Kate apareceu. A cena que viu a deixou emocionada e triste ao mesmo tempo. Os dois haviam adormecido nos braços um do outro.
Kate suspirou e se aproximou deles, tocando Ross gentilmente no ombro.
— Acordem, crianças — chamou baixinho.
Marianne despertou primeiro, e Ross, logo em seguida. Os dois se sentaram na cama, esfregaram os olhos, e o menino falou em tom de desculpa:
— Acho que adormecemos.
— Não tem problema. Vim chamá-los para ui lanche. Fiz aqueles biscoitinhos de manteiga de que você tanto gosta, Ross.
Juntos, os três desceram para a cozinha, onde outras crianças já estavam acomodadas. Kate servil os de biscoito e leite, e uma conversa trivial, porém feliz, se iniciou. Todos contavam histórias e riam, ai Marianne, que achava graça nas novidades de Roger sobre a escola. Ross respirou profundamente o ar c casa da tia. Aquela sim era sua família de verdade!
Ao final do lanche e da agradável conversa, Kate começou a recolher a louça, auxiliada por Marianne e por Ross.
— Como foi que chegou até aqui, Ross? — questionou Kate.
— Peguei o metrô.
— O metrô? — admirou-se Marianne. — Sozinho'
— Ross já é um rapaz, Marianne. Pode muito bem andar sozinho.
Ela o fitou com embevecimento e orgulho, ouvindo parcialmente as palavras da mãe:
— Seu pai deve estar preocupado. Não devia sair sem falar com ele ou com Lilian.
— Eu sei, tia Kate, mas não pude evitar.
— Não quero que eles pensem que tive algo a ver com isso.
— Não vão pensar.
— Isso não está certo, Ross. Sabe disso, não sabe?
— Eles não sabem que estou aqui e nem precisam saber. É só você não contar.
— Como poderia contar? Nem sei onde vocês estão morando.
— Se quiser, posso deixar-lhe o endereço.
— Prefiro que não. Se seu pai quisesse que soubéssemos, ele mesmo teria nos dado.
- Ross não vai mais poder voltar? — indignou-se Marianne.
— Não é isso — desculpou-se Kate. — Preferia que ele viesse com o consentimento de David.
— Meu pai não vai dar consentimento. Não enquanto estiver casado com Lilian. E se souber que vim aqui, vai acabar me mandando a um internato.
— Credo! — surpreendeu-se Marianne, para quem internato tinha sentido de punição.
— Não quero ir para nenhum colégio interno nem sair de Londres. Aqui é a minha casa.
Depois de refletir alguns minutos sobre o que ele dissera, Kate acabou concordando:
— Tem razão. Não é certo vir aqui às escondidas, mas muito mais errado é querer levá-lo para longe. Contudo, não me agrada a mentira.
— A mim também não. Mas Lilian veio com umas idéias esquisitas sobre Oxford. Fiquei desconfiado.
— Por favor, mamãe — pediu Marianne com sua vozinha miúda. — Não conte nada à bruxa. Deixe que Ross venha me visitar. Por favor!
A súplica da filha foi suficiente para convencê-la. Kate não estava acostumada a mentir, mas o que era uma mentira em troca da felicidade de Marianne?
— Está certo, Ross. Mas quero que saiba que não acho certo enganar seu pai. No entanto, não vou dizer nada, por ora.
— Oh! — exultou Marianne, com genuína e rara alegria. — Obrigada, mamãe!
A animação da menina dava-lhe a certeza de que havia feito a coisa certa, contudo, não podia descuidar de Ross, a quem indagou, entre curiosa e preocupada:
— O que vai dizer em casa?
— O que quer que diga, Lilian não vai se importar. Kate o fitou com pesar. Consultou o relógio da cozinha e, dado o avançado da hora, aconselhou com firmeza.
— Já está ficando tarde. É melhor você voltar.
— Ah, não! — queixou-se Marianne.
— É preciso — afirmou Kate. — Se gosta de seu primo e quer o melhor para ele, deixe-o ir.
— Amanhã eu volto, Marianne — assegurou Ross. — Prometo.
Mesmo contra a vontade, Ross viu-se obrigado a partir. Caminhou até a estação do metrô e embarcou de volta. Já estava escurecendo quando ele chegou, mas, por sorte, seu pai ainda não havia voltado do trabalho. Apenas Lilian estava em casa, toda emperiquitada, derramando na sala vazia sua faceirice afetada e artificial.
— Onde esteve? — perquiriu, assim que ele abriu a porta.
— Saí com uns amigos — foi a resposta seca.
— Que amigos?
— Da escola.
— Onde foram?
— À confeitaria.
Como não estava com disposição para conversas, Ross rodou nos calcanhares e subiu correndo para o quarto, deixando Lilian desconfiada a fitá-lo pelas costas. Mais tarde, à hora do jantar, ficou à espera de uma reação do pai, que não veio. Lilian não havia comentado de sua ausência, ou porque acreditava nele, ou porque realmente não se interessava, ou porque estava tramando alguma coisa. Das três opções, Ross sabia, a terceira era a mais provável. E a pior.
Ross não podia imaginar o quanto estava certo. É claro que a saída dele fora notada por Lilian, assim como a dos dias posteriores, sempre à mesma hora. Todas as vezes, ela perguntava aonde ele fora, e ele sempre lhe dava a mesma resposta. Ótimo para ela, pois o menino, sem saber, colocava nas suas mãos a arma que a faria vitoriosa.

26
Marianne aguardava com impaciência a chegada da mãe à saída da escola. Desde que Ross voltara a visitá-la, não pensava em outra coisa, a não ser no momento em que o encontraria novamente. Com a volta dele, as coisas pareciam haver retomado a normalidade, e uma calma há muito perdida tinha retornado ao lar da menina.
Mal Kate despontou na esquina, Marianne desceu correndo as escadas, disparando ao seu encontro. Tinha a impressão de que, se corresse, as horas correriam também, e o momento de rever o primo chegaria mais depressa. Juntou-se ao grupo familiar e seguiu em silêncio, enquanto Roger, como sempre, não parava de tagarelar, contando as novidades de sua turma, e os pequenos seguravam, cada um, uma das mãos de Kate.
Contagiada pela alegria dos irmãos, Marianne deu a mão a Kevin, causando enorme estranheza e, ao mesmo tempo, felicidade em Kate. O menino, no entanto, acostumado a levar beliscões e tapas da irmã, puxou a mão e a escondeu atrás do corpo, tornando visível o ar de mágoa de Marianne.
Já haviam ultrapassado quase toda a extensão do muro da escola quando alguém chamou bem próximo:
— Senhora Landor!
Virando-se abruptamente, Kate deu de cara com o senhor O'Neill a fitá-la meio sem jeito. A visão do professor provocou conhecido mal-estar, e ela procurou Marianne com os olhos. A menina, de cabeça baixa, não ousava encará-la.
— Sim? — respondeu ela com ar vago.
— Será que a senhora pode me acompanhar até a escola por uns minutos? Preciso falar-lhe com urgência.
Estava claro que o assunto só podia ser Marianne. Kate sentiu um mau pressentimento, a certeza de que Marianne havia feito algo errado e estragaria todo aquele momento de alegria e paz, provocando a necessidade de nova repreensão e castigos.
Na sala da diretora, Kate sentou-se com Suzie no colo e Marianne a seu lado, enquanto os meninos tomavam assento em um banco mais atrás.
— O que foi que aconteceu? — perguntou Kate desanimada, no fundo, sem querer saber.
— Vou ser franco e direto com a senhora — adiantou-se o professor. — Mesmo porque essa situação está se tornando insustentável. A cada dia, fica mais difícil lidar com Marianne.
— Como assim?
— Desculpe-me a franqueza — interrompeu a diretora —, mas sua filha não tem inteligência suficiente para estar nesta escola.
— O quê?
Kate levantou-se de um salto e entregou Suzie aos cuidados de Roger. Olhou para Marianne que, rosto vermelho, não ousava levantar os olhos.
— Por acaso está chamando minha filha de burra? — retorquiu com raiva.
O professor pigarreou e lançou um olhar de súplica à diretora, que continuou sua fala cortante:
— Não quero que pense que estamos sendo intolerantes ou exigentes demais. Mas a situação alcançou o seu limite. E depois, a senhora não respondeu a nenhum de nossos comunicados.
— Que comunicados? Não recebi nenhum.
— Mandamos diversos por Marianne. Ela não lhe entregou? — Kate balançou a cabeça. — Foi o que imaginamos, já que não houve resposta a nenhuma de nossas cartas. Por isso resolvemos abordá-la à saída da escola.
— Marianne está criando muitos problemas —acrescentou o senhor O'Neill, visivelmente irritado. — É agressiva com as colegas, não presta atenção às aulas e vive inventando histórias.
— A senhora ainda deve se lembrar do caso da garotinha morta — esclareceu a diretora.
— Lembro-me perfeitamente — disse Kate com frieza.
— A menina ficou muito abalada — comentou o professor. — Também, não era para menos.
— Se não me engano — rebateu Kate —, esse assunto já foi resolvido. Ou não foi?
Não suportando mais que falassem dela como se ela não estivesse ali, Marianne ergueu os olhos e tentou se defender:
— Ela falou comigo...
— Ela não pode ter falado com você! — censurou o professor. — A menina está morta!
— Não vejo porque reviver essa história — exasperou-se Kate. — A não ser que estejam tentando encontrar algum motivo para acusar e punir Marianne.
— Isso não é tudo — acrescentou a senhora Plumer, não querendo perder a oportunidade de expor todas as esquisitices de Marianne. — Ela parou de aprender. Não evolui, não acompanha a turma. Estagnou no primeiro ano.
— Mas ela faz os deveres de casa. Eu mesma a supervisiono.
— Os deveres não parecem feitos por ela — irritou-se o professor. — Ultimamente, têm vindo todos corretos. Mas quando lhe pergunto algo, ela faz cara de espanto e não sabe responder.
Tudo ficou claro na cabeça de Kate. Era óbvio que era Ross quem fazia os deveres para ela.
— Lamento informá-la, senhora Landor — tornou a diretora, tentando ocultar o alívio por trás da máscara do desgosto —, mas Marianne terá que deixar a escola. Não podemos permitir que comprometa a qualidade de nosso ensino.
— Não podem fazer isso! — objetou Kate. — Meu marido paga a escola em dia. Não podem expulsar Marianne.
— Não a estamos expulsando. Se ela ainda aprendesse...
Enquanto continuavam discutindo, Marianne, sem que ninguém percebesse, abriu a pasta e retirou um livro de geografia. Abriu-o ao acaso e começou a ler com voz nítida e pausada:
— Os rios europeus são, em geral, de pequena extensão, mas desempenham um papel de grande importância na vida humana e econômica das regiões por onde circulam. Os principais rios europeus são: o Volga, na Rússia, o Danúbio, que atravessa diversos países, e o Reno, que nasce nos Alpes suíços e deságua na Holanda — com o livro ainda aberto sobre o colo e, ante o ar embasbacado dos presentes, fitou um ponto perdido na parede e foi falando: — Lisboa é a capital de Portugal, Berlim é a capital da Alemanha, Atenas é a capital da Grécia...
— Marianne! — exclamou Kate, tomada pela surpresa.
E Marianne prosseguiu:
— Dois vezes um, dois; dois vezes dois, quatro; dois vezes três, seis...
Com os olhos rasos de água, Kate abraçou Marianne e, virando-se para a diretora, falou vitoriosa:
— O que dizia mesmo sobre Marianne não aprender, senhora Plumer?
A diretora e o professor O'Neill se olharam embasbacados. Mal podiam crer no que estavam ouvindo. Marianne lia fluentemente, sabia as capitais dos países da Europa e recitava até a tabuada. Estavam confusos, mas era óbvio que a menina aprendia.
— Não compreendo — gaguejou o senhor O'Neill. —Por que ela finge que não sabe? Por que não responde corretamente quando lhe faço alguma pergunta?
Nem Kate sabia a resposta. Tampouco ela entendia por que Marianne agia de forma tão estranha. Ao menos agora tinha certeza de que ela não era estúpida. Podia ser desatenciosa e desinteressada, mas burra, definitivamente, não.
— Responda ao senhor O'Neill, Marianne — incentivou Kate. — Por que é que não responde quando ele a questiona?
Marianne deu de ombros. Achava aquilo tudo uma inutilidade e, por isso, preferia ficar olhando o nada, fitando o vazio, sonhando acordada. A mente, no entanto, captava tudo o que o senhor O'Neill ensinava. Quando ele a arguía, não via sentido em responder, por isso, não respondia. Só o fazia agora porque o semblante da mãe lhe pareceu bastante aborrecido, e ela sentiu medo de ser proibida de ver Ross.
— Bem, senhora Plumer — considerou Kate —, creio que o problema não existe. Como vê, Marianne aprendeu, e muito bem.
— Isso não exclui o fato de que ela é agressiva e mentirosa — insistiu o senhor O'Neill em tom irritado.
Ante o olhar interrogador de Kate, Marianne deu de ombros novamente e respondeu acanhada:
— Elas é que implicam comigo... E não sou mentirosa. Falo com pessoas que são gentis...
O professor fuzilou-a com o olhar. Estava ficando cansado das esquisitices de Marianne e a queria fora de sua aula. A diretora, porém, não parecia assim tão convencida e interveio a favor da menina:
— Acho que podemos contornar isso. Talvez Marianne tenha a mente excessivamente fantasiosa. Coisa normal em crianças da sua idade.
— Normal? — contrapôs o professor, visivelmente irritado. — Considera normal a agressividade?
— Minha filha, por acaso, bate em alguém? —contrapôs Kate de má vontade.
O professor O'Neill foi categórico:
— Bate.
Kate calou-se, sem saber o que dizer, e fitou a filha novamente.
— São elas que me provocam... — desculpou-se a menina.
— Mesmo assim — tornou o professor, de cenho franzido. — Não é motivo para agredi-las.
— Isso é um problema, realmente — concordou a diretora.
— Por favor, senhora Plumer, pense bem. Marianne acabou de demonstrar que é uma menina inteligente. Quanto à agressividade, não se preocupe. Conversarei com ela e garanto que ela nunca mais vai bater em ninguém.
Por causa do senhor O'Neill, a diretora não queria mais Marianne entre suas alunas. No entanto, o sofrimento daquela mãe a tocou profundamente. E depois, tinha pena da menina. Achava mesmo que ela era desequilibrada e talvez até representasse um perigo para as demais crianças. Todavia, era uma criança também. Merecia uma segunda chance.
— Está certo, senhora Landor — admitiu ela. —Vou dar outra oportunidade a Marianne. A última. Se ela me decepcionar, não terei outra escolha, a não ser convidá-la a se retirar desta escola.
Kate suspirou aliviada. Conversar com Marianne pouco ou nada adiantaria, mas ela podia contar com Ross. Só ele conhecia o método adequado para lidar com a menina. E, se não por ela, por ele, tinha certeza de que Marianne mudaria de comportamento.

27
A noite avançava lentamente, e o pio das corujas, postadas na árvore em frente à janela do quarto de Lilian, deixava-a irritada e sem sono. Não gostava de aves, muito menos de seu jeito ruidoso e sujo. Tentou não prestar atenção, à espera do marido, que se preparava para deitar.
Quando a cama afundou ao seu lado, Lilian virou-se para ele. Ocultando a repulsa, deu-lhe um beijo de leve nos lábios e perguntou com fingido interesse:
— Como vai indo o treinamento?
— Bem. O senhor Bradley quer me enviar em viagem já na semana que vem.
— Tão cedo? Pensei que pudesse ficar um pouco mais, até as coisas se ajeitarem por aqui.
— Que coisas?
— Olhe, querido — pronunciou em tom excessivamente adocicado —, é o Ross. Você sabe que ele não me obedece, e fico imaginando como vai se comportar na sua ausência, sem alguém para controlá-lo.
— Ross é um menino sensato e obediente. Não precisa ser controlado.
- Tem certeza? — ele a olhou curioso, e ela acrescentou com malícia: — Por acaso ele lhe conta aonde vai todas as tardes?
— Ele sai todas as tardes? — ela assentiu. — Para onde?
— À confeitaria com os amigos. Ao menos é o que ele diz, embora eu não acredite.
— À confeitaria... Será que não é verdade?
— Pode até ser, mas eu duvido. Quem lhe dá dinheiro? Você?
— Não creio que a mesada que lhe dou seja suficiente para frequentar a confeitaria todos os dias — refletiu Nathan.
— Foi o que pensei. Então, ele está mentindo.
— Você devia ter-me contado isso antes.
— Não contei porque, para mim, ele tinha sua autorização.
— Será que vai à casa de Marianne? — arriscou ele.
— Pode ser. Ou então, está metido com más companhias.
— Você acha? — horrorizou-se ele.
— Tudo é possível.
— Não acredito nisso. Ross sempre foi um menino ajuizado. O mais provável mesmo é que esteja indo ver Marianne.
— E você vai tolerar isso? Vai permitir que seu filho saia furtivamente, contra as nossas ordens, para se encontrar com aquela maluca?
Após um breve momento de reflexão, Nathan considerou:
— Acho que já está na hora de pormos um ponto final nessa briga. Sinto falta de David e Kate.
— Isso é que não! — bradou ela, tentando imprimir à voz um tom de ciúmes. — Não quero aquela mulher em minha casa.
— Por que não? David é meu irmão, e Kate...
— Kate, Kate, sempre Kate! Então é isso, não é? Está sentindo saudades da cunhadinha!
— Estou, mas não do jeito que você está insinuando. Kate, David e as crianças são a minha família. Devo muito a Kate.
— Já ouvi essa história mais de mil vezes e sei que o motivo não é gratidão. A quem quer enganar? Quer esconder de mim e de si mesmo sua paixão mal resolvida por Kate?
— Nunca mais repita uma coisa dessas! — censurou veemente. — Jamais tive por Kate qualquer sentimento que não fosse uma forte amizade. Ela é a mulher do meu irmão.
Temendo haver ido longe demais, Lilian reconsiderou:
— Perdoe-me, Nathan, sei que não devia ter dito isso. Mas é que o seu interesse por Kate me enlouquece. Que mulher não sentiria ciúmes ao ouvir o marido defender outra com tanto ímpeto?
— Então é isso? — retrucou ele, entre incrédulo e feliz. — Tudo não passa de ciúmes?
— Precisa ver a forma como fala de Kate. Você nunca falou assim de mim.
— Ora, Lilian, o que é isso? — replicou ele mansamente, acercando-se dela e acariciando seus ombros.
— Sabe que é a você que amo.
Lilian fez beicinho, para ocultar a careta de nojo que o hálito dele provocava, e tornou melosa:
— Eu sei. Mas é que Kate me deixa louca. E ela me desfeiteou...
— Será que você não pode esquecer isso?
— Ainda tem Marianne. Aquela garota me odeia —ele suspirou, e ela prosseguiu: — Por favor, Nathan, não me obrigue a receber aquela gente em minha casa. Se Kate se meter na nossa vida, imiscuindo-se em nossos assuntos, aí é que nunca conseguirei controlar Ross. Quero o melhor para ele, contudo, por causa de Kate, ele não me respeita.
— Talvez você tenha razão — considerou pensativo.
— Acho melhor falar com ele.

— Faça isso. Pelo amor que me tem, dê um basta nessa situação. Não aguento mais sentir-me uma estranha dentro de minha própria casa, como se eu estivesse usurpando o lugar de mãe de que Kate se apoderou.
Nathan se levantou e foi apanhar o roupão no encosto da poltrona, reparando num pequeno panfleto cuidadosamente pousado no chão, ao lado. Curioso, apanhou o papel e leu. À medida que lia, Lilian acompanhava seus olhos, fingindo não lhe prestar atenção.
— O que é isso? — perguntou ele.
— O quê? — disfarçou ela, e ele exibiu-lhe o folheto. — Ah! Isso! É o panfleto de um colégio em Oxford.
— O que está fazendo aqui?
— Não sei. Uma amiga me deu, e devo tê-lo largado por aí.
Nathan guardou o folheto dentro de uma gaveta e anunciou:
— Vou ver Ross.
Encontrou o menino recostado na cama, lendo um livro de aventuras.
— Ainda acordado a essa hora?
— É cedo. Não estou com sono.
— O que está lendo? — Ross levantou para ele Moby Dick, e Nathan continuou — Está gostando?
— Sim.
Nathan balançou a cabeça e sentou-se ao lado dele na cama.
— Será que pode me dar atenção um minuto? Preciso falar com você.
Ross pousou o livro no colo e encarou o pai, sentindo estranheza em sua voz.
— O que foi?
— Sua madrasta me contou que você sai todas as tardes sem lhe dizer aonde vai.
- Vou à confeitaria. Ela sabe disso.
— Será que vai mesmo?
Ele encarou o pai e revidou, deixando crescer dentro do peito a raiva que tinha da madrasta:
— E daí se não for?
— E daí que você é um menino. Sabe que não deve mentir e tem de obedecer.
— Obedeço você. Ela não é minha mãe.
— Ela é sua madrasta. Tem autoridade sobre você.
Ross saiu da cama, aproximou-se da janela e retrucou irritado:
— Acontece que eu não reconheço a autoridade dela.
— Está sendo rebelde, coisa que nunca foi. Por quê?
O olhar dele foi deveras penetrante quando revidou:
— Não sabe mesmo?
— Você tem ido ver Marianne, não tem?
— E se tiver ido? Qual o problema?
— Sabe que eu briguei com o pai dela.
— E daí? Isso é problema de vocês. Marianne e eu não brigamos com ninguém.
— Não fale comigo dessa maneira! — ralhou Nathan, e Ross lançou-lhe um olhar de desafio.
— Não sei por que deixa Lilian se intrometer em nossas vidas — rebateu ele com raiva. — Ela pode ser sua mulher, mas não é minha mãe. Você a escolheu, não eu. Foi por causa dela que você e tio David tiveram aquela briga idiota.
— Está enganado. Sua tia e Marianne não gostam de Lilian e a desrespeitaram.
— Marianne não raciocina direito, e tia Kate sempre foi gentil com todos. Por que será que só com Lilian é que não é?

— Isso não vem ao caso — desculpou-se ele. —Não foi para falar de sua tia e sua prima que vim aqui. Preocupo-me com você e com a harmonia da nossa família.
— Nós não temos mais família. Vivemos sob o mesmo teto, é só. Minha família ficou lá, na outra rua, na outra casa, onde deixei meu coração.
As palavras de Ross soaram pungentes, e Nathan engoliu em seco.
— Sei que está sendo difícil, mas, com o tempo, isso vai passar. Você pode fazer outras amizades.
— Não quero outras amizades! Não, se para isso tenho que abrir mão da minha verdadeira família.
— Você não pode ir até lá contra as minhas ordens! — explodiu Nathan, cujos argumentos já haviam se esgotado.
— E quem vai me impedir? Você? Ou dona Lilian? —frisou bem aquele dona e encarou o pai com ironia.
— Você é meu filho. Deve-me respeito.
— Eu o respeito. E respeitaria Lilian também, se ela não fosse a pessoa horrível que é.
— Não quero mais que vá à casa de Marianne —ordenou ele, tentando firmar uma autoridade que não possuía.
Ante o olhar frio de Ross, Nathan se encolheu. O menino o encarou com desdém e respondeu calmamente:
— Não sou mais criança. Tenho vontade própria. E nem você, nem ninguém vai me impedir de visitar Marianne e tia Kate.
— Lilian vai tomar conta de você. Se me desobedecer, ela irá me contar.
— Não coloque aquela mulher perto de mim! —esbravejou ele, cada vez com mais raiva.
— Ela é sua madrasta. Quantas vezes tenho que repetir isso?
- Não quero uma prostituta por madrasta – rosnou entre os dentes.
Foi uma ousadia insensata e impensada, e Nathan perdeu a cabeça. Estalou-lhe uma bofetada na face, causando espanto e uma ira descomunal no menino. Não era a primeira vez que o pai lhe batia por causa daquela mulher. Não fosse o respeito filial, teria revidado. Seus olhos, porém, diziam tudo o que lhe ia no coração. Engolindo a raiva e o choro, Ross rodou nos calcanhares e, sem dizer nada, saiu batendo a porta.
Na mesma hora, veio o arrependimento em Nathan, que partiu atrás do filho, ignorando a presença de Lilian, que, no corredor, ouvido colado à porta, não perdera uma parte sequer da conversa.
— Ross! — chamou desesperado. — Espere, meu filho...
Ross não deu atenção. Alcançou a porta da frente e ganhou a rua, sumindo na primeira esquina. Aturdido, Nathan permaneceu parado na soleira, pensando se devia ou não segui-lo. A resolução veio rápida, e ele já ia fechando a porta quando a mão de Lilian o segurou.
— Aonde você vai de pijamas? — indagou, enérgica.
— Preciso ir atrás do meu filho — balbuciou Nathan.
— Não faça isso — disse ela em tom imperativo.
— Como não? Já é noite. E se alguma coisa lhe acontecer?
— Nada vai lhe acontecer. Não vê que é isso que ele quer?
Como assim, o que ele quer?
— Ross quer provocá-lo. Quer medir forças comigo.
— Você não entende... Bati nele de novo.
— Pois foi muito bem feito. Ele mereceu apanhar.
Apesar de indeciso, Nathan acabou concordando. Era o que sempre fazia. Só o que o acalmava era a certeza de que o filho seguiria direto para a casa de David.
Na rua, Ross tomou a direção da casa dos tios. Não havia metrô àquela hora, mas ele conseguiu apanhar um táxi. Saltou em frente à casa de Marianne e pediu ao motorista que aguardasse. Não tinha dinheiro nem para pagar a viagem. Bateu na porta diversas vezes, e foi David quem atendeu.
— Meu Deus, Ross! — exclamou alarmado. —Aconteceu alguma coisa?
Engolindo as lágrimas, o menino respondeu:
— Tive que vir.
Do lado de fora, o motorista pigarreou, com cara de poucos amigos, esperando que alguém lhe pagasse. David correu para dentro e apanhou o dinheiro para pagar a corrida.
A hora já ia avançada, e a casa estava praticamente às escuras, pois todos já haviam ido se recolher. Como David se demorava em voltar, e preocupada com aquela visita inesperada, Kate resolveu descer.
— Quem é, David? — perguntou ela, do alto da escada.
— É o Ross — esclareceu ele, levando o menino para dentro.
Kate desceu às pressas e abraçou o sobrinho com efusão.
— O que foi que houve? — questionou. — Brigou com seu pai?
Ele assentiu e contou tudo, deixando Kate indignada e David, surpreso. Não sabia que Ross ia todos os dias à sua casa. Apesar do olhar interrogador que deu a Kate, ela não ousou encará-lo.
— Não devia ter desobedecido a seu pai — censurou David.
— Meu pai só faz o que Lilian quer, e ela não me deixa ver Marianne.
— Ela é sua madrasta, a mulher que seu pai escolheu para ocupar o lugar de sua mãe.
— Isso nunca! A única mulher que pode ocupar o lugar de minha mãe é tia Kate!
Kate mordeu os lábios, emocionada sentindo as lágrimas lhe aflorarem aos olhos.
- De qualquer forma – prosseguiu David, a voz também embargada -, isso não está certo. E você também, Kate. Não devia ter permitido isso.
- Tia Kate não tem culpa de nada – objetou o menino. – Teria dado um jeito de vir mesmo que ela não quisesse.
— E fez tanto bem a Marianne... — acrescentou ela, quase como se desculpando pela sua falta.
— Mas está errado — protestou David, dando mostras de aborrecimento. — E agora, vejam só no que deu.
— O que vamos fazer?
— A única coisa certa, que é levar Ross de volta para casa imediatamente.
— Não adianta, tio David, eu não vou! — objetou o menino.
— Seu pai deve estar preocupado com você —considerou Kate.
— Eu não me importo. E duvido que ele também se importe.
— Está sendo injusto — cortou David. — Seu pai sempre gostou muito de você.
- Até se casar com aquela megera. É ela quem o proíbe de vir vê-los.
Kate pigarreou e rebateu em tom áspero:
— Desculpe, Ross, mas não creio que Lilian tenha o poder de proibir seu pai de alguma coisa. Ele não vem porque não quer.
— Sua tia tem razão. Se seu pai quisesse mesmo, já teria vindo nos procurar. — David espalmou as mãos nos joelhos e finalizou: — Bem, agora chega. Vou subir e me trocar para levá-lo em casa.
— Por favor, tio, deixe-me ficar — implorou ele.
— Não posso. Por mais que queira, não é direito.
— Posso, ao menos, ver Marianne?
— Melhor não. Ela está dormindo, e é melhor que não saiba de nada disso. Pode provocar outra crise.
Ele se levantou e deixou Ross ajoelhado aos pés de Kate, com a cabeça pousada em seu colo, chorando de mansinho. Assim que colocou o pé no primeiro degrau, ouviu a vozinha fina de Marianne:
— Quem está aí, papai? É o Ross?
Não adiantava mentir, porque Marianne, no meio da escada, ouvira nitidamente a voz do primo e já começava a saltar os degraus de par em par, correndo ao encontro dele.
— Veio me visitar? — perguntou ela, em sua peculiar inocência.
— Ross já está de saída — esclareceu Kate. — Veio apenas nos dar um beijo de boa—noite. Não é, Ross?
— É, sim.
— Não quer passar a noite comigo? Deixo você dormir na minha cama.
Ross sentiu a garganta estrangular. Daria tudo para ficar com ela, não apenas naquela, mas em todas as noites de sua vida. Deu-lhe um beijo amistoso na testa e abraçou-a com ternura, tentando ocultar-lhe as lágrimas.
Logo David reapareceu, já vestido, emocionando-se com a cena de genuíno afeto entre a filha e o sobrinho.
— Venha, Ross — chamou baixinho. — Temos que ir. Ele se separou de Marianne e soprou-lhe baixinho ao ouvido:
— Não fique triste. Amanhã estarei de volta. Marianne fez beicinho e ameaçou chorar, mas Kate a segurou pelos ombros e concordou:
— É isso mesmo, Marianne. Ross virá de novo amanhã.
Nem ela acreditava em suas palavras. Dissera aquilo só para confortar a filha e evitar nova crise. Ou melhor, adiar. Quando Lilian soubesse que Ross estivera ali, faria um estardalhaço sem tamanho e obrigaria Nathan a encerrar aquelas visitas. E então, o pior estaria por acontecer.

28
O novo bairro em que Nathan vivia causou um choque em David, que jamais poderia supor que seu irmão tivesse condições de comprar uma casa num lugar daqueles. A rua elegante, de jardins imensos e bem cuidados, chamou-lhe a atenção, dando-lhe o efeito de que entrava num mundo de sonhos. Em frente à casa que Ross indicara, estacou boquiaberto. Tocou a campainha e esperou alguns minutos, até que uma criada veio atender.
Já era tarde, e Nora, ao ver Ross em companhia daquele homem de aparência grosseira, apertou o roupão em volta do pescoço e soltou uma exclamação de susto, ao mesmo tempo em que berrava pelo patrão:
— Senhor Landor! Senhor Landor!
Nathan desceu correndo, seguido por Lilian. Empurrou Nora para o lado e escancarou a porta, puxando Ross para dentro de seus braços. O menino se deixou abraçar friamente, e Lilian surgiu atrás do pai. Exibia um nervosismo e uma preocupação que, decididamente, não sentia.
— Meu filho! — murmurou ele. — Quase morri de preocupação.
A visão de Lilian reacendeu a raiva de Ross, que se soltou do abraço do pai e o encarou, guardando frio silêncio. Não estava com disposição para conversar. Nem do tio se despediu. Ergueu a cabeça com altivez e passou rente à madrasta, ostensivamente ignorando sua presença.
Depois que ele se foi, Nathan estendeu a mão para David, que a tomou meio sem jeito.
— Seja bem-vindo, meu irmão — cumprimentou Nathan, com sincera alegria.
— Perdoe-me a intromissão — desculpou-se ele. —Mas Ross foi a minha casa, e achei que seria melhor trazê-lo. Não queria deixar você preocupado.
Nathan ia dizer-lhe que não havia o que perdoar, que estava feliz por aquilo ter acontecido, pois só assim tinha chance de reencontrá-lo. Só que Lilian não lhe deu chance. Com ar aborrecido, tomou a dianteira e foi falando de um jeito pedante:
— Nós lhe agradecemos muito, David. Realmente. Mas agora, se nos der licença, precisamos descansar. Nathan levanta cedo amanhã. Tem um cargo muito importante e não pode se atrasar. Sabe como é, precisa dar exemplo aos subordinados.
Com a mão, foi enxotando-o devagarzinho, e Nathan ainda tentou intervir:
— Espere, Lilian, não podemos deixá-lo sair assim. David veio de longe só para nos trazer o Ross.
— Ah! meu Deus, certamente. Como não havia pensado nisso? A periferia fica bem distante daqui, não é? Vamos, querido, dê-lhe um trocado para a volta.
A despeito do olhar embasbacado de Nathan, David empertigou-se e virou-lhes as costas, murmurando da porta:
— Não preciso de dinheiro. Passar bem.
Saiu a passos rápidos, e Nora, seguindo a orientação de Lilian, que fazia gestos com o queixo, fechou a porta mais que depressa.
— O que foi que deu em você? — esbravejou Nathan. — Isso lá é coisa que se diga ao meu irmão?
Fingindo-se de desentendida, Lilian arregalou os olhos e retrucou com indignação:
— O quê?
— Como pode ter-lhe oferecido uns trocados?
— Oh! Perdão — ironizou. — Se soubesse que era pouco, teria lhe oferecido mais.
Era inacreditável. Aquela não era a mulher com quem se casara. Quando a conhecera, era meiga e carinhosa. Agora transformara-se numa criatura sarcástica e cruel. E ele não reagia. Podia muito bem impor a sua vontade e sair atrás do irmão. Se ao menos tivesse coragem...
Com profundo desgosto, Nathan olhou para a porta e depois para a esposa. Deixou caírem os braços ao longo do corpo e seguiu vagarosamente para o quarto, sem ânimo de confrontar o filho.
David, por sua vez, saiu da casa do irmão espumando de raiva e humilhação. Aquela mulher o tratara como se ele fosse um serviçal. E Nathan não fizera nada para impedir. Seu próprio irmão! Como estava mudado!
Chegou a casa abatido e encontrou Kate esperando-o no sofá da sala, com a cabeça de Marianne pousada em seu colo.
— Foi tudo bem? — sussurrou ela, para não acordar a menina, e ele fez que sim.
Depois de ajeitar Marianne de volta em sua cama, David contou à mulher:
— Você não faz ideia do que aquela mulher fez. Lilian teve coragem de me oferecer dinheiro para voltar para casa.
— O quê? — indignou-se Kate, mal acreditando no que ouvia.
— E Nathan ficou parado lá, sem fazer nada.
— Ele não o recebeu bem?
— Recebeu, sim. Vi em seus olhos a alegria. Mas Lilian praticamente me expulsou. Para mim, está mais do que claro que ela não quer manter relações conosco.
— Marianne vai sofrer. Logo agora que tudo parecia voltar ao normal!
— Tinha que ver a casa em que eles moram —divagou ele. — Parece até um palacete.
— Verdade? Será que o salário de Nathan dá para tudo isso?
— Lilian disse que ele agora tem subordinados. Deve ter recebido outra promoção.
— Isso não lhe dá o direito de destratar os parentes. E logo você, que acolheu Ross como um filho. Quanta ingratidão!
— Sim, Nathan está sendo muito ingrato. Nem se lembra do que fizemos pelo filho, e a única coisa que eu pediria em troca seria que tratasse bem de Marianne.
— Vai ser difícil para ela.
— Eu sei. Mas ela vai ter que se acostumar. Falaremos com ela.
— Você quer dizer, eu vou falar. Você nunca está presente quando o pior acontece.
— Tenho que trabalhar — objetou, em tom de desculpa.
— Você tem que trabalhar e larga tudo na minha mão. Pensa que é fácil?
— Não posso faltar ao trabalho para paparicar Marianne.
Aquela discussão não levaria a nada. David e Nathan, cada qual a sua maneira, eram dois covardes. Um não tinha coragem de enfrentar a filha. O outro morria de medo da mulher. Não negavam que eram irmãos.
No dia seguinte, como esperado, Ross não apareceu, nem no outro, nem nos próximos. Pressionado pelo pai, que lhe cortara a mesada, foi obrigado a permanecer em casa. Embora não estivesse disposto a se submeter para sempre àquela proibição, esperaria até a poeira assentar, para então retornar à casa de Marianne.
A prima, por sua vez, começava a inquietar-se, pois a mãe lhe dissera que Ross estava estudando para os exames finais e voltaria assim que terminasse o ano letivo. David também tiraria umas férias e todos iriam para a praia, levando Ross com eles.
— Pode demorar, mas vai valer a pena — afirmava Kate. — Mas você tem que estudar. Se não passar de ano, não tiraremos férias.
Rodeada de livros e cadernos, Marianne punha-se a estudar, na esperança de passar o verão inteiro na praia, ao lado de Ross. Os dias iam passando, e a ansiedade da menina aumentava cada vez mais. A espera se demonstrava muito longa, e ela queria ver Ross apenas uma vez antes do fim das aulas. Não entendia por que ele não podia visitá-la ao menos uma vez.
Kate tentava distrair a sua atenção, mas estava ficando difícil. Uma nova e violenta crise era só questão de tempo. Ela havia contado uma mentira à filha que não poderia sustentar eternamente. Não estava longe o dia em que Marianne perceberia que Ross não iria voltar, e sua reação seria das mais coléricas. Como mãe, seu coração se apertou, e ela tomou uma decisão.
Após deixar Marianne e Roger na escola, Kate levou os menores para a casa de Jane e tomou o metrô rumo à casa do cunhado. Conseguira, a muito custo, que David lhe desse o endereço, e partiu para lá, vestida em suas melhores roupas.
Espírito preparado pelo marido, não sentiu o impacto do luxo desconhecido. Subiu a rua resoluta e tocou a campainha da casa de Nathan, evitando maravilhar-se com a elegância do bairro. Como sempre, Nora veio atender:
- Pois não?
- Por favor, mocinha, gostaria de falar com sua patroa. Ela está?
Com ar desconfiado, Nora indagou:
- A quem devo anunciar?
- Diga-lhe que é Kate Landor, sua concunhada.
Nora abriu a boca, estupefacta. Pediu licença e encostou a porta, subindo desabalada até o quarto de Lilian. Ela e Richard se amavam loucamente, e foi com extrema má vontade que ela respondeu às batidas na porta:
- O que é?
- Dona Lilian, depressa. Está aí uma mulher que diz ser a sua cunhada...
- Era só o que me faltava – praquejou.
Muito contrariada, Lilian saiu de debaixo de Richard, apanhou um penhoar e jogou-o displicentemente sobre os ombros.
- Vai recebê-la? – quis saber Richard.
- Já que ela está aqui, não posso perder a chance de lhe mostrar o seu devido lugar. – Terminou de se ajeitar diante do espelho e gritou para a criada: - Mande-a entrar... pela porta da cozinha.
Realmente, a oportunidade de humilhar a concunhada era por demais tentadora. Lilian
e Kate não mantinham vínculos do passado, no entanto, o orgulho desmedido da primeira despertou a animosidade entre elas. Lilian via em Kate um possível obstáculo a seus planos, pois tinha certeza de que o que Nathan sentia pela cunhada ia muito além de uma simples amizade. E Marianne a havia afrontado, coisa que jamais aceitaria de ninguém. Por isso, incapaz de dominar o orgulho, não tolerava as duas.
Embora jurasse a si mesma que não se deixaria humilhar pela outra, a primeira sensação de Kate foi, efetivamente, de humilhação. A empregada a introduzira pela entrada de serviço e a fizera aguardar na cozinha, sem nem indicar-lhe uma cadeira. Teve que esperar em pé, remoendo o mal-estar, até que Lilian apareceu, toda coquete em seu penhoar cor-de-rosa. Entrou com ar de grande dama, apanhou uma uva sobre a fruteira e disse asperamente:
— O que deseja? Sou uma mulher ocupada.
Kate esforçava-se ao máximo para não partir para cima da outra e esbofetear-lhe as faces. A esnobe! Pensava que podia tratá-la feito lixo só porque agora tinha dinheiro. Encarando-a com frieza e altivez, Kate começou a dizer:
— Imagino o quanto você é ocupada, por isso, vou direto ao assunto. Estou aqui para falar de Ross.
— Ross não é problema seu.
— Ele deixou de ir à minha casa.
— Já não era sem tempo.
— Você sabe o quanto isso é importante para Marianne.
Do alto de sua soberba, Lilian sustentava o olhar de Kate e disparou com arrogância:
— Francamente, Kate, não estou nem um pouco interessada no que é importante para Marianne.
Era preciso fazer surdos os seus ouvidos se quisesse obter um resultado positivo. A empáfia de Lilian a levava ao extremo da tolerância, no entanto, a filha era mais importante do que qualquer aviltamento a que fosse obrigada a se submeter.
— Você não pode ser tão insensível. Sabe o quanto Marianne está sofrendo. E Ross também.
— Ross não precisa de Marianne, e se ela sofre, o problema é seu, não meu.
Kate sentia ganas de matá-la, mas ainda conseguia se conter.
— Não vim aqui para brigar com você — contemporizou.
— Imagine se eu ia me dar o trabalho de ter uma briga com você.
— Por que está sendo sarcástica? Vim aqui em paz.
— Veio aqui porque a sua filhinha maluca está endoidando de vez, não é?
— Marianne tem problemas. Nunca escondi isso.
— Chama de problema a loucura dela? Aquela menina é louca, e não digo isso no sentido figurado. Seu lugar é no hospício.
Lilian estava espezinhando-a, mas Kate estava disposta a não se deixar abater. Tudo pela estabilidade de sua filha.
— Não seja tão dura, Lilian Vim aqui em paz, estendendo-lhe minha mão...
— Quem foi que disse que preciso de sua mão calejada e encardida? Você não passa de uma dona de casa de subúrbio que não sabe o que é viver. Pensa que o mundo se resume aos seus probleminhas quotidianos? Aos seus filhinhos subnutridos e emporcalhados? À sua casa de aluguel barato e sem classe? Ora, Kate, francamente! Não percebe o quanto está sendo ridícula, vindo aqui implorar a minha compaixão?
Kate não ouviu mais nada. O sangue subiu-lhe às faces, toldando-lhe a visão e o raciocínio, e ela partiu para cima da outra, agarrando-a pelos cabelos e arranhando-lhe o rosto.
— Maldita! — berrava Kate fora de si. — Demônio, cadela!
Diante daquela cena insólita, Nora tentou segurar Kate por trás, lutando para afastá-la de Lilian. Kate, contudo, não largava a presa. Desesperada, a criada subiu ao andar de cima e foi chamar Richard, que, deitado na cama, só em mangas de camisa, cochilava de vez em quando.
— Senhor Bradley! Acuda! Ela vai matá-la!
Richard deu um pulo da cama e correu para a porta, perguntando aflito:
— O que foi que houve? Por que essa gritaria?
— É a cunhada de dona Lilian... Vai matá-la!
Ele ainda pensou duas vezes. Corria um risco muito grande expondo-se a estranhos. Mas não podia deixar que uma louca matasse Lilian. Vestiu as calças às pressas e saiu no encalço de Nora. Ao entrar na cozinha, as duas estavam engalfinhadas, rolando pelo chão. A cena não deixou de lhe parecer engraçada, porém, foi forçado a tomar uma atitude. Com cuidado, meteu as mãos entre Lilian e Kate e puxou, prendendo a segunda firme com os braços.
— Solte-me! — gritava Kate furiosa. — Vou acabar com você!
Lilian se levantou toda descabelada e rasgada, derramando sobre Kate fagulhas de seu ódio. Aproveitando-se de que ela estava presa, preparava-se para atacar quando se deu conta de que era pelas mãos de Richard que Kate fora imobilizada.
— Senhor Bradley... — balbuciou confusa. Kate continuava a se debater, e ele a apertou com força, falando com severidade:
— Acalme-se, madame, ou quebro o seu braço.
Sem chances de se mover, Kate segurou as lágrimas e se aquietou, enquanto ele a conduzia para a porta, que Nora abriu rapidamente. Sem nenhum cuidado, empurrou-a para fora, derrubando-a ao chão, e a empregada bateu a porta com estrondo. Kate pensou em investir contra a porta aos murros, mas mudou de ideia. Nunca, em toda a sua vida, passara por tanta humilhação. Tinha a roupa rasgada, os cabelos em desalinho, tão envergonhada que não se importaria de morrer.
Mas dera uma surra em Lilian. Não fosse aquele homem, teria acabado com ela. Pensando no estranho que a segurara, Kate estacou embasbacada. Quem era aquele homem que aparecera na casa de seu cunhado, em mangas de camisa, na companhia de Lilian, que a recebera de penhoar? Como Lilian disse que era mesmo seu nome? Senhor Bradley, era isso. Quem seria aquele homem, que tão providencialmente caíra do céu para salvá-la?
Uma certeza foi tomando conta de Kate, e ela sorriu para si mesma, desfrutando o doce sabor da descoberta. Agora estava tudo explicado. Aquele homem não podia ser outra coisa a não ser o amante de Lilian. Por que outro motivo estaria na casa dela, àquela hora, em trajes menores, junto com ela? Pobre Nathan! Enganado e traído dentro de sua própria casa. Por isso Lilian queria mandar Ross para longe, porque ele representava uma ameaça à sua sem-vergonhice.

29
A caminho de casa, Ross ia refletindo sobre os últimos acontecimentos. Mal via a hora de reencontrar Marianne, mas não podia. Lilian o estava vigiando, controlando seus horários, marcando a hora em que saía de casa e a hora em que voltava. Caso se atrasasse um minuto, lá vinha repreensão. O pai era um covarde e fazia tudo o que ela queria, sempre cedendo aos seus caprichos. E ele, apesar do ímpeto de desobedecer, não o fazia. Não por medo de Lilian ou do pai, mas de ser mandado para Oxford. Aquela conversa de Lilian sobre as maravilhosas escolas de Oxford fora a única coisa que, realmente, o havia assustado.
Assim que entrou, percebeu uma movimentação diferente. Nora estava na cozinha preparando um chá, enquanto Lilian berrava ao telefone:
— Você precisa vir para casa agora! — pausa —Não tem ideia do que ela fez... Não me interessa se está trabalhando! Sou sua mulher...
Furiosa, Lilian bateu o telefone e fitou Ross, que passou por ela indiferente. Os arranhões no rosto e a boca inchada eram sinais de que ela havia se metido em alguma confusão. Provavelmente, algum chilique por causa de um vestido novo que viu na vitrine.
Sem demonstrar interesse, Ross apenas a olhou e relance e começou a subir a escada, quando, inesperadamente, foi surpreendido com os gritos esganiçados da madrasta:
— E você, seu pirralho! Venha já aqui!
O menino se voltou contrariado e a encarou com olhar hostil.
— O que você quer? — exasperou-se.
— Você tem ido ver Marianne? — ele não respondeu. — Porque se tiver, vai se arrepender!
— Deixe-me em paz.
Sem esperar resposta, Ross se voltou e recomeçou a subir as escadas, deixando Lilian a esbravejar furiosa no meio da sala.
À hora do almoço, ela não desceu, e Ross comeu sozinho, dando graças a Deus que ela estivesse aborrecida. Nora começou a lhe servir um bolo de carne quando ele indagou com ar displicente:
— O que foi que aconteceu aqui, Nora?
Sem desviar a atenção do prato que servia, ela respondeu:
— Sua mãe brigou...
— Ela não é minha mãe — cortou ele calmamente.
— Que seja. Sua madrasta, então. Brigou feio com a cunhada.
— Tia Kate, você quer dizer?
— Essa mesma.
— Tia Kate esteve aqui?
— Esteve.
— Por quê? O que ela queria?
— Não sei bem. Algo sobre você e a filha dela.
— O que foi que Lilian fez?
Nora deu de ombros e acrescentou com cautela:
— Na verdade, nada. Sua tia foi que ficou zangada
E a agrediu.
— Minha tia bateu em Lilian? — Nora fez que sim,
E Ross começou a rir. — Bem feito.
— Não tem graça. Essa tal de Kate é maluca. Sem mais nem menos, começou a bater em dona Lilian.
— Duvido que tenha sido sem motivo. Pelo que conheço das duas, imagino que Lilian deve ter ofendido minha tia ou Marianne.
— Está errado — mentiu. — Dona Lilian foi até gentil. Sua tia foi que não quis ouvir. Saiu logo agarrando-lhe os cabelos e dando-lhe beliscões.
Ross jogou o corpo para trás numa gargalhada espontânea e acrescentou de bom humor:
— Daria tudo para ter visto essa cena... Aposto que tia Kate levou a melhor.
— Qual! Aquela mulher é um horror...
— Não fale assim de minha tia, Nora.
A criada silenciou e continuou a servir o jantar, até que ele tornou a indagar, curioso:
— Como você conseguiu apartá-las?
Nora ruborizou. Não sabia se devia falar do senhor Bradley. Terminou de servi-lo, depositou a terrina sobre a mesa e finalizou:
— Coma.
Saiu para a cozinha, e Ross não se deu conta de que ela não havia respondido a sua pergunta. Acabou de comer e foi para o quarto. Dez minutos depois, saía para a rua. O pai que o perdoasse, mas ele precisava ver a tia e Marianne.
Catou no bolso alguns trocados que juntara e tomou o metrô. Quando chegou, Kate estava na sala com as crianças, ensinando a lição a Roger. Apenas Marianne não se encontrava ali. Ele entrou sem bater e cumprimentou meio sem jeito:
— Olá.
A tia ergueu a cabeça e, apesar da surpresa, sorriu, levantando-se para abraçá-lo.
— O que está fazendo aqui?
Seu abraço era sincero e confortador, e ele se aninhou em seus braços.
— Precisava vê-la — anunciou ele, perscrutando seu rosto ferido.
— Seu pai e Lilian sabem que está aqui?
— Não, mas não me importo. Vim porque precisava saber o que aconteceu entre você e Lilian. Nora me disse que vocês brigaram.
— Aquela mulher é um demônio. Não tem alma nem amor no coração.
— Por que fez isso, tia Kate? Por que foi até lá? Foi por causa do outro dia?
— Isso não tem mais importância agora. Mas sabe o que achei mais estranho? — ele a fitou curioso. — Um tal de senhor Bradley apareceu do nada para defender Lilian. Agarrou-me por trás e me expulsou de casa.
— Senhor Bradley? — surpreendeu-se ele.
— Você o conhece?
— É o patrão de meu pai. Que covarde!
— Tem ideia do que ele podia estar fazendo em sua casa, àquela hora da manhã?
— Não posso imaginar. Se tivesse assuntos urgentes a tratar com papai, seria mais fácil conversar com ele no escritório. Mas na nossa casa? E na ausência dele? Muito estranho.
Fez-se um silêncio constrangedor, e a desconfiança precipitou-se pela mente de Ross. A presença de um homem em sua casa, numa hora em que o pai não estava, não podia significar muitas coisas. Principalmente se aquele homem era seu chefe e deveria estar com ele no trabalho.
O olhar de Ross para Kate traduzia sua dúvida, e ela balançou a cabeça, dando mostras de que havia compreendido. Contudo, preferia não se meter. Já tinha coisas demais com que se ocupar, e Nathan não era problema seu. Alertar o sobrinho era o máximo a que se permitia.
— Quer ver Marianne? — Kate falou, para desviar a atenção do menino.
Ele assentiu e foi vagarosamente para o quarto da prima, o coração consumido pela nova suspeita. Marianne estava deitada na cama, de olhos fechados. Ele se aproximou na ponta dos pés, afastou o cabelo dela para o lado e deu-lhe um beijo amoroso na face.
— Ross! — exultou ela. — É você mesmo?
— Em pessoa.
Os dois se abraçaram felizes, Marianne já com as lágrimas despontando nos olhos. Ross abraçou-a diversas vezes e puxou-a para fora do quarto e pelas escadas.
— Aonde vão? — questionou Kate, assim que eles passaram por ela apressados.
— Dar uma volta.
Passaram o resto do dia juntos. Na hora do lanche, Kate lhes deu dinheiro para tomarem um sorvete, causando uma alegria inenarrável em Marianne. Estavam tão entretidos e felizes que nem viram a hora passar, e só muito mais tarde foi que ele voltou para casa, o coração dividido entre a alegria e a raiva.
Lilian nem se deu conta da ausência de Ross. Trancada em seu quarto, maldizia a cunhada e o marido, que não atendera o seu chamado e só veio para casa no horário de costume.
— A culpa é toda sua! — berrou ela. — Devia ter-me dado apoio.
— Estava trabalhando — desculpou-se Nathan. —Não posso sair a cada vez que minha mulher tiver um chilique.
— Chilique? Como se atreve? Aquela louca quase me matou!
— Essa história está muito estranha. Kate nunca foi uma mulher violenta.
— Não. Eu é que sou, não é? Por acaso tenho o costume de ir à casa dos outros agredi-los?
- Kate deve ter vindo aqui por algum motivo, e posso bem supor por quê.
- Não me interessa por quê! O caso é que ela veio sem ser convidada e avançou em mim. Veja só o que fez no meu rosto.
Exibiu o rosto ferido, causando um certo mal-estar em Nortan, que deduzia o motivo pelo qual Kate fora a sua casa. Com certeza, tinha relação com o dia em que Ross fugira e Lilian oferecera dinheiro a David por tê-lo levado de volta.
- Isso tudo é muito estranho. Será que você não a humilhou, como fez com David?
- Eu?! Imaginei! Ainda consenti que Ross fosse visitar Marianne de vez em quando.
- Você o quê?
- Fiquei com pena da menina. Você sabe que não gosto dela, mas a piedade falou mais alto. Afinal, Marianne é uma criança, e Jesus nos ensinou a amar as criancinhas. Só que Kate é orgulhosa e não aceitou meu gesto de caridade. O que queria era vingança.
- Nathan mantinha o olhar cético, e Lilian prosseguiu: - Se não acredita, vamos perguntar à Nora.
- Não precisa...
Lilian, contudo, já havia aberto a porta do quarto e se dirigia para a cozinha, onde Nora terminava de dar os últimos retoques no jantar. Ao vê-la, com Nathan atrás, a criada estremeceu, temendo esquecer alguma coisa do que Lilian lhe mandara dizer.
- Nora – começou ela com fingido ressentimento -, o senhor Landor não acredita que fui agredida por Kate. Diga a ele o que viu.
Nora abaixou os olhos e começou a guaguejar:
- É verdade... Aquela mulher...
- Não precisa ficar nervosa – interrompeu Lilian, fuzilando-a com o olhar. – Diga apenas o que viu.
Ela inspirou fundo, fixou os olhos no bico dos sapatos de Nathan e disparou:
— Aquela mulher entrou aqui, e dona Lilian foi gentil com ela. De repente, começou a esbravejar e partiu para cima de dona Lilian feito uma fera. Foi horrível... — pôs-se a chorar baixinho, e Lilian deu um risinho de satisfação.
— Eu não disse? — exultou. — Kate é uma doida. Por muito pouco não me mata.
— Quer me convencer de que Kate simplesmente veio aqui, xingou você, agrediu-a e depois foi embora? Assim, sem mais nem menos?
Era agora. A desculpa havia sido muito bem ensaiada, e Lilian exprimiu com cautela:
— Ué...! O senhor Bradley não lhe contou?
— Não me contou o quê? O que tem ele a ver com isso?
— Foi graças a ele que aquela louca não me matou. Ele passou aqui para deixar um presente para você, disse que era uma surpresa...
— Que história é essa de surpresa? Vi o senhor Bradley na fábrica, e ele não me disse nada.
Lilian deu de ombros e procurou por Nora, que vinha chegando com um embrulhinho na mão e estendeu-o a Nathan, que o apanhou desconfiado.
— O que é isso? — perguntou Nathan.
— Não sei. Abra. Também estou curiosa.
Sem dizer nada, ele rasgou o papel de seda azul e exibiu uma caixinha de veludo, com um cartão preso a ela. Abriu a caixa, surpreendendo-se com seu conteúdo. Um par de abotoaduras de ouro, com as iniciais de seu nome gravadas em alto relevo, luziu diante de seus olhos perplexos. Ele despregou o cartão e leu:
Ww Meu caro Nathan,
Peço que me perdoe a ousadia, mas, como logo você estará empreendendo importantes viagens em nome da minha companhia, achei que seria justo que se apresentasse condignamente. Por isso, resolvi presenteá-lo com as abotoaduras. Optei por entregá-las em sua casa para não despertar inveja nos demais empregados. Espero que não se importe.
Um grande abraço,
Richard Bradley.
Fora a única saída em que Lilian conseguira pensar. Temendo que Kate comentasse com alguém que vira um estranho em sua casa, mandou Richard à joalheria mais próxima comprar as abotoaduras. Apesar de contrariado com a despesa desnecessária, ele concordou que seria uma boa solução. E se alguém perguntasse por que se apresentara em mangas de camisa, outra desculpa estaria arranjada, mas ninguém perguntou nada, e ela preferiu não se antecipar.
— Que gentil! — exclamou Lilian, fingindo surpresa. — Foi a minha sorte. Se ele não tivesse vindo pessoalmente trazer-lhe esse presente, não sei o que seria de mim agora. Veja, Nathan, não é lindo? Faz até a gente esquecer os problemas e a sua cunhadinha maluca.
O presente era mesmo maravilhoso, todavia, não agradara Nathan. A visita do patrão, na sua ausência, era algo que não soava bem. Em silêncio, guardou o cartão e a caixa e foi sentar-se no sofá, deixando o olhar perdido vaguear pela sala luxuosa.
— Quer que mande servir o jantar? — perguntou Lilian com voz melosa.
Ele acenou com a cabeça e redarguiu fatigado:
— Onde está o Ross?
— Deve estar no quarto.
— O menino saiu logo depois do almoço — esclareceu Nora, que vinha chegando com uma travessa.
— Não disse aonde foi? — quis saber Lilian.
— Não, senhora.
Enquanto tomavam a sopa, Lilian continuava suas reclamações:
— Agora veja só. Como se não bastasse o que Kate me fez, tenho certeza de que Ross foi vê-la. Aposto como está do lado dela e daquela estúpida da prima.
— Já estou cansado dessa história. Kate e Marianne são pessoas importantes na vida de Ross.
— E nós não somos, não é mesmo? Para a tia e a prima, tudo. Para seus pais, nada.
— Ross está passando por um período difícil.
— E eu também! Ao menos ninguém ainda o atacou. Nem ele atacou ninguém, o que também não vai demorar muito.
— Não fale assim. Ross nunca foi violento.
— Como Kate.
Nathan soltou um suspiro de desânimo. Aquela situação estava ficando insustentável.
— Já não o proibi de ir até a casa de Kate?
— E você acha que ele obedece? — Nathan não respondeu. — Onde está ele? Nós dois sabemos que ele está lá, não é mesmo?
— O que você quer que eu faça, Lilian? — ele explodiu de repente, dando um soco na mesa que fez chocalhar toda a louça. — Quer que eu lhe dê uma surra? Que o coloque de castigo? Ross já não é mais um garotinho. Não posso tratá-lo feito um bebê.
— É por isso que ele está do jeito que está. Porque não tem limites nem sofre qualquer punição. Está livre para ir à casa de Kate quando bem entender, especialmente para apoiá-la quando ela me desafia.

— Se você não tivesse implicado com Marianne, nada disso teria acontecido.
— Ah! Agora a culpa é minha. Marianne me morde, e eu é que sou a culpada. Kate me agride, e a culpada ainda sou eu. Quando Ross perder a cabeça e me bater, a culpada serei eu também.
— Ross jamais faria uma coisa dessas!
— É você quem diz. Gostaria que visse os modos com que ele me trata, sua arrogância, seu olhar hostil. Talvez assim acreditasse em mim.
Nathan enfiou a colher na boca, dando o assunto por encerrado. O resto do jantar transcorreu em clima tenso, com palavras indizíveis consumindo a paz de Nathan. Quando a sobremesa foi servida, ele deu graças a Deus por ver próximo o fim daquele suplício. Recusou o café e, levantando-se, anunciou com pesar:
— Vou dar uma volta.
Na rua, olhou para os lados, procurando um sinal do filho, que não apareceu. A situação em sua casa estava se tornando insustentável. Desde que se mudara, vivia um verdadeiro inferno. No trabalho, as acusações silenciosas o perseguiam a todo lugar. Em casa, a mulher e o filho se digladiavam feito inimigos ferrenhos, e, para completar, fora obrigado a afastar-se da família. Por quanto tempo mais iria suportar?
A caminhada longa não diminuiu a espera de Ross, e Nathan resolveu entrar. Saíra sem agasalho e sentia frio. Logo que se tornou visível pela janela da sala, Nora, postada de vigília atrás da cortina, gritou eufórica para Lilian:
— É agora, dona Lilian! Ele está voltando.
Na mesma hora, Lilian largou o jornal, que folheava sem interesse, e correu para o telefone. Retirou o fone do gancho, sentou-se de pernas cruzadas e esperou. Assim que Nathan abriu a porta, iniciou uma conversa consigo mesma, fingindo que falava com uma amiga:
— Não, claro... Você está coberta de razão... Fez bem em mandá-lo para Oxford. Claro, claro... Dizem que são ótimos... Ele vai ter uma educação primorosa... E, e vai se afastar das más companhias...
Por mais que Nathan não quisesse prestar atenção, foi impossível não ouvir. Lilian não gritava, mas usava um tom de voz moderado e perfeitamente audível. Nunca lhe passara pela cabeça mandar Ross estudar em outra cidade, contudo, talvez aquela fosse a única solução para seu problema. Contentaria Lilian, e o filho estaria em casa nas férias e feriados. Sem contar que teria garantido o seu futuro, com vaga em uma boa universidade, quem sabe, na própria Oxford?
Era algo em que valeria a pena pensar.

30
O quarto de Ross estava vazio, e Nathan entrou meditativo. Sentou-se na cama para esperá-lo, e Lilian ficou à espreita. Não demorou muito para o menino aparecer, e antes que ele abrisse a porta da frente, Lilian entrou em seu quarto e anunciou com fingido alívio:
— Graças a Deus! Ross está chegando.
Nathan estranhou a preocupação dela, mas não disse nada. Andava pensando em muitas coisas. Quando o menino se aproximou pelo corredor, logo percebeu a porta aberta e constatou, com desagrado, que o pai e a madrasta estavam à sua espera.
— Onde esteve, filho? — indagou Nathan aflito. Ross entrou cauteloso e respondeu vagamente:
— Fui dar uma volta.
— Onde?
— Acho que você já sabe.
— Foi à casa de sua tia? — ele assentiu.
— Eu não falei? — interrompeu Lilian, desafiadora. O olhar de Ross atravessou-a c como uma adaga afiada, todavia, ela não se deixou intimidar.
— Pensei que o tivesse proibido de ir lá — prosseguiu Nathan.
— Não quero lhe faltar com o respeito nem ser desobediente, mas não vejo razão para não visitar minha família.
— Sua família somos seu pai e eu — provocou Lilian.
— Cale a boca, sua vadia — rosnou Ross entre os dentes. — Não lhe perguntei nada.
Por pouco Nathan não lhe acertou nova bofetada. Conseguiu se segurar a tempo, mas repreendeu com veemência:
— Jamais torne a falar assim de novo de sua madrasta! Se não quiser levar uma surra da qual nunca irá se esquecer!
Lilian sorriu vitoriosa, enquanto Ross mordia os lábios, de ódio.
— Ela não é minha mãe — grunhiu contendo a cólera.
— Você lhe deve respeito.
— Como, se ela é a primeira a não respeitar ninguém? Viu o que ela fez a tia Kate?
— Sua tia exagerou. Não tinha o direito de vir aqui e agredir Lilian.
— Foi o que ela lhe contou? E você, o tolo, acreditou, não foi?
— Estou avisando, Ross! Você está passando dos limites! Não me obrigue a tomar medidas drásticas!
— Deixe-o, Nathan — interrompeu Lilian com ironia. — Sei que ele não gosta de mim. Não sou igual à tia perfeita, que é tão louca quanto a priminha feiosa.
— Vadia! — descontrolou-se ele. — Falsa, cínica, mentirosa! Por que não conta que está traindo meu pai?
— Basta! — bradou Nathan. — Não vou permitir essa afronta!
— É verdade! Você pode não saber, mas o senhor Bradley esteve aqui hoje, sozinho, na sua ausência. Pergunte a ela!
Nathan olhou para o filho e revelou com desgosto:
— Eu sei. Lilian me contou — meteu a mão no bolso, retirando o cartão e as abotoaduras de ouro, que exibiu para Ross. — Veio me trazer isto.
O menino recuou aturdido. Não era possível, não acreditava naquilo. Olhou para o pai como a pedir-lhe socorro e compreensão, mas Nathan recusou-se a encará-lo. Nem ele sabia em que acreditar.
— Não fique contra mim, querido — ironizou ela, tentando abraçá-lo. — Quero ser sua amiga.
Ross deu um salto para trás, enojado, e disparou irado:
— Nunca! Jamais seria amigo de uma mulher mentirosa, falsa e maquiavélica feito você. Cadela!
Ele estava tão fora de si que não media as palavras. Dominado pela raiva, prosseguiu com suas imprecações, provocando a reação de Nathan, que ergueu a mão para bater-lhe. Ross, contudo, com um gesto rápido e preciso, aparou o golpe no ar e retrucou revoltado:
— Com todo respeito que lhe devo, jamais permitirei que você encoste a mão em mim outra vez.
Havia em Ross uma superioridade moral difícil de se confrontar. A despeito das vibrações de raiva e indignação, que tingiam sua aura de um vermelho rubro e vivo, Ross era uma criatura normalmente calma e, acima de tudo, digna. Tão digna que nem o pai foi capaz de enfrentá-lo.
Nathan saiu vencido, sem ter o que dizer. Jamais deveria ter levantado a mão para ele novamente. Atrás dele, Lilian seguia sem saber exatamente a favor de quem seria o resultado final daquela briga.
— Eu não disse? — falou ela, á em seu quarto — Ross não respeita mais ninguém. Nem você.
— Não sei mais o que fazer — confessou ele - Sinto-me impotente para lidar com ele.
— Aposto como ele está pensando em fugir —envenenou. — Com aquela doida.
— Fugir?!
— Como ele mesmo disse, não se julga mais criança. Pensa que é autossuficiente e pode cuidar de si mesmo e de Marianne. Na primeira oportunidade, vai fugir e levá-la com ele.
— Mas eles são duas crianças...
— Que estão crescendo. E Marianne logo vai ficar mocinha. Com que olhos você pensa que ela vai olhar para um rapaz atraente feito Ross?
— Você está exagerando. Ross já tem quatorze anos, mas Marianne só tem dez. Ainda pensa em brincar de bonecas.
— Até quando?
— Falta muito para ela se interessar por esses assuntos.
— Caso não saiba, eu fiquei mocinha aos onze anos. Marianne está bem perto disso. E você sabe como as garotas mudam quando ficam mocinhas. Não demora muito, e seus seios brotarão por debaixo do vestido. Pensa que Ross não vai ser o primeiro a notar e, pior, a tocar? Vai, e vai se encher de desejo.
— Pare com isso! Ross é inteligente e responsável, não seria capaz de fugir com ela.
— Mesmo que não fuja. Você acredita que ele não vai burlar a nossa vigilância para ir à casa de Kate? E sua cunhada, com tantos filhos que tem, não vai tomar conta dos dois, como nunca fez, aliás. Imagine-os à vontade, com um quarto e uma cama só para eles.
— Você acha que eles seriam capazes?
— Imagine dois jovens que pensam que se amam dormindo na mesma cama, se tocando e compartilhando da própria nudez. Em breve, Marianne será uma mulher, e se você não tomar cuidado, ela vai estragar a vida de Ross. Pense no desastre que seria se ela engravidasse.
- Deus me livre! – horrorizou-se.
- Quem tem que livrar o seu filho dessa desgraça é você. Se depender de Kate, eles podem
dormir juntos à vontade. Aposto como ela até deseja isso, como forma de empurrar para Ross os cuidados com Marianne. Seria bom para ela, não seria, se eles se casassem?
- Você está fantasiando. Ross é apenas um menino.
- E rico. Pense, Nathan, pense! Kate asseguraria o futuro de Marianne.
- Ela não seria capaz. Não a Kate que eu conheço.
- Você não a conhece de verdade. Nem eu a conhecia. E pensar que cheguei a sugerir que você deixasse Ross morando com ela. O que seria dele no futuro? Um derrotado feito o tio.
- David não é um derrotado. É engenheiro, ganha bem.
- Não tão bem quanto você. E Ross não seria nada além das babá de sua filha. E sem ganhar salário!
Nathan caminhava de um lado a outro no quarto, passando a mão pelos cabelos em busca de uma solução. Lilian exagerava em algumas coisas, menos no perigo que a amizade entre Ross e Marianne poderia representar dali para a frente. Kate e David podiam não estimular, mas quem seria capaz de controlar dois adolescentes descobrindo a sexualidade e dormindo juntos com a conivência da família?
Parou em frente à cômoda e abriu a gaveta, vislumbrando a ponta do panfleto que guardara no outro dia. Apanhou-o relutante e tornou a ler as informações sobre a escola.
- É essa a escola para onde sua amiga mandou o filho? – perguntou de repente.
- O que? – fez Lilian, como se não houvesse entendido. – Ah! Foi essa mesma. Engraçado, estive falando com ela há pouco no telefone, e ela me disse que o menino está adorando o colégio.
— Se eu mandar Ross para lá... — hesitou —você acha que Evelyn consideraria uma quebra na promessa que lhe fiz?
— Sua primeira mulher está morta. Não vai considerar nada. Mas, se estivesse viva, aposto como aprovaria sua decisão. Como mãe, ela também haveria de querer o melhor para o filho.
— Tem razão.
Olhando do folheto para Lilian, Nathan se decidiu. Não queria que o filho estragasse seu futuro para cuidar de Marianne. Acostumara-se a olhar a menina como uma criança, porém, Lilian tinha razão. Ela estava crescendo, se tornando mulher, e Ross já era praticamente um homem. Melhor seria separá-los antes que uma tragédia acontecesse.
Evelyn, com certeza, aprovaria. E depois, não estava realmente se afastando do filho. Mandá-lo a uma escola de qualidade só podia fazer-lhe bem. O único problema era que Ross não aceitaria. Por isso, precisava agir rapidamente e sem que o menino soubesse, ou se recusaria a ir. Ainda estavam no meio do ano letivo, mas não fazia mal. Trataria de arranjar a mudança sem participar nada a Ross.
Logo no dia imediato, conseguiu uma licença no trabalho, pegou o trem e foi visitar a tal escola. O colégio era caro, mas muito bem conceituado. De volta a Londres, comentou o assunto com o patrão, que lhe garantiu uma ajuda de custo, pois era muito importante investir no futuro dos filhos. Nathan não teve dúvidas. Era lá que seu filho iria estudar.
Todo processo de mudança de escola não levou mais do que duas semanas. Nathan, sozinho, organizou tudo, providenciando, inclusive, o alojamento que ele iria dividir com outros três estudantes.
Comprou uniforme e material, tudo às escondidas do filho, que, igualmente às escondidas, continuava a visitar Marianne quase diariamente.
No dia da partida, o senhor Bradley, gentilmente, lhe concedeu nova licença para acompanhar o filho até a nova escola em Oxford. Ross não sabia de nada. Para todos os efeitos, iria com o pai numa viagem de negócios para ajudá-lo e, ao mesmo tempo, espairecer. O menino nem de longe desconfiou da farsa. Aprontou uma pequena valise, com roupas básicas para alguns dias, que, na escola, seriam trocadas pelo uniforme colegial.
Chegando em Oxford, Ross estranhou imensamente quando o pai entrou com ele na gigantesca e rica escola. O que faria um vendedor de tecidos numa instituição de ensino, ao invés de oferecer seus produtos no mercado têxtil? Uma sensação de desconforto o invadiu e, à medida que caminhava pelos corredores, sentia a garganta estrangular.
Nathan seguiu sem responder. Chegou à sala da diretoria e bateu.
— Sei que vai me odiar — falou finalmente. — Mas é para o seu bem.
Tudo ficou claro de repente. O diretor lhe deu as boas-vindas e pôs-se a explicar-lhe as regras da escola, que Ross ouvia sem entender, os olhos ardendo de decepção e revolta. Encarou o pai diversas vezes, mas Nathan mantinha a atenção presa no diretor, que, após as primeiras orientações, chamou um auxiliar para levar Ross a seu novo quarto.
O auxiliar entrou sorridente, convidando Ross a segui-lo.
— Despeça-se de seu pai agora — aconselhou o diretor. — De agora em diante, não irá vê-lo todos os dias.
— Não — objetou Ross. — Meu lugar não é aqui.
— Por favor, Ross, não me crie problemas — recomendou Nathan. — Não vai adiantar.
— Por que fez isso comigo? — revidou em lágrimas.
— Como pôde me trair dessa forma?
— É para o seu bem.
Ross ia protestar, mas o diretor interferiu solícito:
— Tenho certeza de que vai gostar daqui, meu jovem. E terá uma instrução como poucos.
— Vá com ele, meu filho — Nathan quase implorou.
— Não é para sempre. Poderá voltar para casa nas férias e feriados.
Engolindo em seco, Ross não protestou mais. De nada adiantaria sua revolta nem sua rebeldia. Estava diante do inevitável e não tinha como fugir. O pai era quem detinha poder sobre ele, e só lhe restava obedecer.
Engolindo as lágrimas, Ross lhe virou as costas e saiu seguindo o auxiliar. Nem conseguiu se despedir. Achava mesmo que jamais tornaria a falar com o pai enquanto vivesse. E a única coisa em que conseguia pensar, ao atravessar de volta aquele corredor, era na consequência funesta que seu desaparecimento repentino traria a Marianne.

31
Agora livres, Lilian e Richard passavam longas horas juntos, aproveitando a primeira viagem de Nathan à América. Sua felicidade era tanta que resolveram viajar também. Lilian aprontou as malas, e partiram para um fim de semana na praia.
Era de tarde ainda, e os dois haviam acabado de se amar, sem nem se dar conta de que um espírito acompanhava todos os seus movimentos. Margot presenciava aquelas cenas sem ter como intervir. Marianne ficara distante, e Lilian não era uma boa receptora. Acompanhar os amantes começava a lhe causar desgosto e repulsa.
— Ah! Richard — gemeu Lilian, toda melosa. —Acho que nada no mundo poderá estragar essa nossa felicidade.
— Foi a melhor coisa que fizemos, querida. Com Nathan longe e Ross no internato, ficamos com o tempo todo para nós.
Era verdade. A mulher de Richard era uma ingênua, ou então, se fazia de ingênua, fingindo nada perceber. Richard se casara por interesse, porque o dinheiro e a fábrica eram do pai dela. Com a morte do sogro, ele assumira tudo. Por isso, não podia se separar da mulher.
— Fico imaginando a reação da doida da Marianne ao descobrir que o adorado priminho foi para bem longe — comentou Lilian.
— Isso agora não nos importa mais — encerrou ele, dando-lhe ardoroso beijo na boca.
Margot, enojada, virou o rosto para não ver e pensou em Marianne. Será que já sabia que Ross fora mandado a um colégio interno? Uma saudade súbita da menina a invadiu, e ela resolveu ir ao seu encontro. Encontrou-a em sua cama, prostrada e abatida como sempre, acompanhando o revoar dos passarinhos pela janela.
— Olá, Marianne — cumprimentou o espírito, sentando-se ao lado dela.
Marianne olhou para ela sem interesse e deu de ombros, voltando a centrar a atenção nos pássaros.
— Como vão as coisas? — prosseguiu Margot, e a menina não respondeu. — Tem visto o Ross?
O nome do primo atraiu sua atenção, e ela desviou os olhos da janela, fixando-os na interlocutora.
— Não — respondeu com amargura. — Ele sumiu de novo.
— É por isso a sua tristeza? — ela assentiu. — Sentir-se-ia melhor se eu lhe dissesse onde ele está?
— Você sabe?
— Sei, sim — apesar da dúvida, Margot resolveu revelar: — Ele foi mandado para o internato em Oxford.
Marianne franziu as sobrancelhas algumas vezes, tentando concatenar os pensamentos:
— Não entendo... Não pode ser verdade. Você está enganada, Margot. Ross prometeu que nunca ia se separar de mim.
— Infelizmente, ele não teve escolha.
— Não acredito que tio Nathan faria isso.
— Lilian o convenceu. Ela não gosta dele.
Ainda confusa, Marianne tentava não acreditar nem se deixar convencer:
— Será que você não se enganou?
— Não há engano algum. Tenho certeza.
— Mas ele vai voltar. Sei que vai.
— Pobre Marianne — lamentou ela. — Imagino o quanto deve estar sofrendo. E foi por isso que vim. Não quero que fique alimentando ilusões desnecessárias, que vão fazê-la sofrer ainda mais.
Marianne fixou em Margot os olhos questionadores, mentalmente remontando o diálogo insólito que encenara com ela. Aos poucos, foi juntando os pedacinhos da verdade, tentando imaginar quanto tempo fazia que Ross não ia vê-la. Muito tempo. A conselho da mãe, ficara esperando, e só o que fazia era esperar. Ross, contudo, não aparecia. Indagou de si mesma o porquê, mas não obteve resposta. E agora, olhando diretamente para os olhos diáfanos de Margot, a resposta lhe pareceu óbvia e devastadora.
Subitamente, uma onda ígnea atingiu o corpo de Marianne, como se uma tempestade solar eclodisse em sua mente. O coração descompassado parecia que ia provocar uma explosão. A cabeça doía e rodava, como um rodamoinho de fogo embebendo em chamas cada pensamento seu. A raiva incendiou seu corpo emocional, liberando flâmulas pontiagudas que eram atiradas no ambiente astral como dardos incandescentes.
O espanto de Margot só não foi maior do que a surpresa causada pela horda de espíritos que afluiu ao quarto de Marianne, atraídos pelas ondas chamuscantes e poderosas do ódio. Sem nenhuma cerimônia, empurraram Margot para o lado e envolveram a menina num abraço espectral e sufocante, falando e xingando ao mesmo tempo.
Marianne quis fugir, contudo, seus pés haviam se colado ao chão. Ela ainda tentou pedir auxílio a Margot, que, desesperada, viu-se impotente diante da malta furiosa. Tentou tapar os ouvidos, mas continuou escutando as vozes alteradas. Diziam coisas terríveis, mandavam-na fazer coisas que ela não queria: derrubar os livros no chão, bater na parede, espalhar as roupas.
Embora não quisesse, Marianne não tinha forças para resistir. A mente naturalmente fraca, logo ela perdeu o eixo da realidade física e mergulhou fundo na outra realidade, agora mais visível e palpável a seus sentidos astrais. Veio a fúria incontrolável, e ela começou a atirar coisas longe e bater com a cabeça na parede.
Foi um caos. Margot tentava intervir, contudo não conseguia romper a barreira energética formada pelo ódio de tantos espíritos. Olhando ao redor, em busca de um meio para romper aquela sintonia tenebrosa, encontrou os olhos vermelhos e malignos de Luther. Sentado no parapeito da janela, balançando as pernas, ele ria cheio de satisfação. Olhou para ela e cumprimentou-a com um aceno de mão, demonstrando, naquele gesto, o quanto estava grato. Só então Margot compreendeu o que fizera. Sem saber, servira de instrumento aos propósitos de Luther. Na tentativa de ajudar, acabou disparando a bomba da loucura na cabeça de Marianne.
Os ruídos produzidos pela sanha descontrolada de Marianne chegaram até o andar de baixo, onde Kate se ocupava com seus afazeres domésticos. Prevenida pelos espíritos das sombras e pelas próprias experiências com a filha, soltou o que estava fazendo e disparou escada acima. De chofre, abriu a porta e parou estarrecida. Marianne se jogava de corpo inteiro contra a porta do armário, provocando um barulhão infernal.
A tempestade estava começando, e Kate olhou assustada para o corredor, temendo pela segurança dos outros filhos. Precisava pensar na escolha que deveria fazer e não podia errar. Nem teve tempo. Marianne decidiu por ela. Seguindo os conselhos de antigos desafetos de Kate, levados ao hospício pela sua intolerância, Marianne partiu para cima dela com fúria redobrada.
Kate recebeu o impacto como uma pedrada no estômago. A dor causou-lhe ânsias de vômito, mas ela conseguiu se controlar e agarrou a filha pelos ombros, lutando com ela como se lutasse com um gigante. Não entendia como uma criança tão pequena podia reunir a força de muitos homens. Não sabia que eram os espíritos a seu redor que a envolviam numa nuvem negra de poder revigorante e de sustentação.
Quanto mais Kate tentava contê-la, mais a menina se debatia e gritava, visivelmente fora de si. Só pensava nos outros filhos e no que Marianne, naquele estado, poderia lhes fazer. Com o pé, bateu a porta do quarto, sufocando os gritos causados pelas mordidas e arranhões que Marianne lhe dava.
— Pare com isso! — gritou Kate. — Pare! Sossegue!
Marianne nem se abalava. Pulava e grunhia feito um bicho, deixando Kate cada vez mais apavorada. Nem parecia que era sua filha que estava ali. Sentiu-se diante de uma criatura saída das selvas ou das profundezas do inferno. Precisava agir de forma mais drástica. Não queria bater na menina, mas não via outro jeito. De forma desajeitada, conseguiu desferir-lhe diversos tapas na face, ao mesmo tempo em que se defendia das violentas investidas de Marianne. Depois de muita luta, conseguiu derrubá-la ao chão e empurrou-a com o pé, saindo para o corredor e passando a chave pela fechadura do lado de fora.
Respirou ofegante, entre aliviada e pesarosa, e correu a ver os outros filhos. Roger, já acostumado àquelas crises, trancara-se com os irmãos no quarto e só abriu quando ouviu a voz da mãe do outro lado. Foi preciso muito custo para acalmá-los, e Kate os levou para baixo, na esperança de que ouvissem menos a barulheira de Marianne.
Quando David chegou do trabalho, tudo parecia calmo, a não ser pelo fato de que Marianne não se encontrava entre as crianças. Já conhecia aquele sinal. Kate contou-lhe o ocorrido, embora não soubesse precisar o que provocara aquela crise.
O jantar transcorreu envolto numa aura de pesaroso silêncio. Quando terminaram de comer, Kate preparou uma bandeja e a levou para a filha, depositando-a no criado-mudo. Marianne estava sentada no chão, toda encolhida a um canto, e falava sozinha:
— Por que você não impediu?
Ao que Margot respondia, sem que Kate pudesse escutá-la. Os outros espíritos já haviam se retirado, satisfeitos com o resultado de sua empreitada, e apenas Margot ficara, compadecida de seu sofrimento.
— Ele tem que voltar — prosseguia Marianne. — Para onde foi?... Minha mãe me disse que fica longe... Tudo por culpa daquela bruxa... Ah! Margot, vá buscar Ross para mim...
— Com quem está falando, Marianne? — indagou Kate, sem ânimo.
A menina teve um sobressalto. Não ouvira a mãe entrar.
— É a Margot — respondeu como num sonho. —Disse que Ross foi para Oxford...
Kate fitou-a com angústia, sem saber o que fazer ou pensar, e disse simplesmente:
— Trouxe o seu jantar.
Marianne se levantou e passou por ela, olhar perdido no vazio. Dirigiu-se até a mesinha, apanhou a bandeja e a atirou longe. A bandeja passou raspando pelas pernas de Kate, que chegou para o lado bem a tempo de vê-la estatelar-se no chão.
— Saia daqui! — começou a gritar. — Saia daqui!
Kate rodou nos calcanhares e saiu correndo, trancando a porta novamente. Ao pé da escada, David a aguardava, com as crianças agarradas aos seus joelhos.
— O que aconteceu? — questionou amedrontado.
— Não aguento mais — desabafou Kate, desmoronando nos ombros do marido.
As crianças choravam assustadas, e Kate se desvencilhou do marido para cuidar delas. Depois de acalmá-las, subiram juntos ao quarto de Marianne. Com uma vassoura e um balde na mão, Kate limpou o chão, enquanto David a segurava para que não os atacasse.
No dia seguinte, o mesmo sucedeu. Quando Kate abriu a porta, Marianne começou a gritar e tentou agredi-la, só não conseguindo porque David a segurou firmemente. A mãe colocou a bandeja na mesinha e foi buscar balde e panos para limpar a sujeira que Marianne fazia pelo chão.
No outro dia, nada se alterou, como nos outros também. Kate e David mostravam desânimo e cansaço, sem saber o que fazer, pois agora o estado de fúria de Marianne era quase constante.
— Não podemos mais continuar assim — queixou-se Kate. — Não aguento mais. Você sai para trabalhar e eu fico aqui com as crianças, sempre com medo de que Marianne faça alguma coisa. Tenho medo até de que pule da janela.
— Queria poder dizer alguma coisa. Fazer alguma coisa. Mas o quê?
— E se trouxéssemos Ross aqui? Se falarmos com Nathan, a sós, tenho certeza de que nos atenderá.
— Pensa que já não fiz isso? — Kate fez cara de espanto. — Ontem mesmo fui procurá-lo no trabalho e me disseram ele está em viagem de negócios pela América. Não satisfeito, fui pessoalmente à casa dele, para falar com Ross. Só que Ross também não está. Foi mandado para um internato, em Oxford.
— Em Oxford? — ele assentiu. — Mas como Marianne sabia disso?
— Não sei e não creio que isso seja importante agora. O principal, no momento, é resolvermos o problema da menina.
— Como?
— Andei pensando... E se chamássemos aquele psiquiatra de que sua irmã falou?
— Não, David, isso não!
— Não podemos ficar com Marianne presa no quarto para sempre. Ela nem tem ido à escola.
— Ela vai melhorar. Você vai ver.
Kate encerrou o assunto. Não queria ver sua filha tratada feito uma louca. Nos dias que se seguiram, Marianne teve uma súbita melhora. David e Kate foram levar-lhe a bandeja de comida, e ela parecia mais calma. Chegou mesmo a lhes endereçar um sorriso tímido e não fez força quando David a segurou, sem fazer menção de ataque.
Na manhã seguinte, Kate e David se surpreenderam com a sua melhora. Ela havia usado o urinol, e o quarto estava limpo. Certos de sua recuperação, deixaram-na sair para tomar café da manhã com o resto da família, o primeiro em muitos dias.
Na cozinha, Marianne sentou-se, e a mãe serviu-a de uma xícara de leite. Começou a tomar o café da manhã calmamente, alheia ao mundo ao seu redor. Tudo parecia calmo, tranquilo, sereno. O ruído infantil dos irmãos não a incomodou, nem ela se importou com os olhares enviesados e temerosos que, por vezes, lhe dirigiam.
Foi quando a pequena Suzie, inadvertidamente, esbarrou com a mãozinha na alça do bule de café, entornando o líquido quente sobre a mão de Marianne. A reação foi imediata e inesperada. Rosto em fogo, Marianne deu um salto da cadeira e agarrou a irmãzinha pelo pescoço, torcendo-o com o máximo que suas forças permitiam.
Saindo de seu torpor inicial, David segurou as mãos de Marianne e soltou-as do pescoço de Suzie, que começou a tossir e logo foi acolhida pela mãe. Dominado pela indignação e a revolta, David cerrou os punhos e, sem pensar, desferiu um murro no rosto da filha, e um filete de sangue começou a escorrer de sua boca.
— Demônio! — gritou Marianne descontrolada. —Cafajeste! Cretino! Porco!
As imprecações deixaram David atônito. Marianne se debatia e tentava mordê-lo, a boca inchada e roxa, e ele saiu arrastando-a escada acima, puxando-a sem piedade pelos cabelos. Com o pai, Marianne não tinha muitos recursos. Por mais que naqueles momentos de crise redobrassem-lhe as forças, ele era mais forte do que ela e menos piedoso do que Kate.
Trancada no quarto, Marianne dava chutes na porta, e David a ignorou, voltando correndo para a cozinha. Kate, com Suzie no colo, tentava fazê-la parar de chorar.
— Como está ela? — perguntou ele, examinando o pescoço da filha.
— Está bem. Marianne não conseguiu machucá-la. Foi só o susto.
De repente, um grito agudo partiu do andar de cima, e um baque abafado fez com que todos corressem ao mesmo tempo. Sobre o gramado, o corpo de Marianne jazia desfalecido. Sem ter como sair, buscara a única forma possível de se libertar. Sem nem pensar nas consequências, muito menos na morte, Marianne subiu no parapeito da janela e se precipitou pelo ar, seguindo a sugestão do invisível de que pousaria no chão com a leveza de um passarinho.
Obviamente, não foi o que aconteceu. O mundo das sombras, contudo, não contava com a participação dos seres que se movimentavam na luz invisível do bem. Emitindo fluidos de proteção que eles não podiam ver, direcionaram o salto de Marianne para a esquerda, onde um grupo de arbustos aparou-lhe a queda, provocando-lhe escoriações leves e algumas costelas quebradas, sem comprometimento de nenhum órgão vital.
Levaram-na às pressas ao hospital, onde ela foi tratada, ocasião em que Kate e David tiveram que ouvir a reprimenda do médico sobre deixar crianças pequenas sozinhas num quarto no segundo andar. Por sorte não havia morrido nem sofrera lesões graves que lhe deixassem sequelas. Ouviram tudo sem protestar ou se justificar. Era desnecessário que aquele médico, ou qualquer outra pessoa, fosse colocado a par de seus problemas. O que interessava era que ambos agora concordavam e já sabiam o que fazer.

Segunda Parte


1
Marianne levantou os olhos e fitou o menino que tentava subir numa árvore próxima, dando socos no enfermeiro que lutava para controlá-lo. Durante alguns minutos, permaneceu a olhá-los sem muito interesse, mais interessada no anãozinho que, ao lado deles, não parava de gargalhar.
Aproximou-se. Com a mão, tocou gentilmente o ombro do anão, que se virou abruptamente para ela.
— Ah! é você? — exclamou, sossegando o espanto. Já ia revidar.
— Saia daí, Escobar. Está chateando ele.
— Por que o interesse?
Marianne deu de ombros. Achava o anão pedante e atrevido.
— Porque você é irritante e mau — respondeu de má vontade.
— E daí? O que você tem com isso?
Marianne levantou a mão e bateu nele, sem perceber que havia atravessado o rosto do anão. Ao mesmo tempo, o enfermeiro, finalmente, conseguiu dominar o menino. Aplicou-lhe uma injeção e esperou até que se acalmasse, quando então se voltou para ela:
— Vá andando você também, Marianne.
Ela deu de ombros e se afastou. O enfermeiro não vira Escobar, mas já estava acostumado ao fato de as crianças falarem sozinhas. Ajudou o menino a ficar de pé. Dera-lhe uma dose leve de láudano, apenas o suficiente para que ele parasse de se agitar.
Vagarosamente, conduziu o menino trôpego a um banco do jardim. Com ar alheado, o garoto fitava Escobar, que os seguira também. Fora inútil tentar subir naquela árvore. Aquele anão maldito o acompanhava aonde quer que ele fosse. Teve vontade de gritar com o anão, mas algo em sua mente o confundiu. Foi piscando os olhos, mas suas pálpebras custaram a descer e a subir. Envolvido por uma sonolência gostosa, por instantes, fechou os olhos e adormeceu.
— Aquele James é uma besta — disse Marianne a seu lado, mas o menino não respondeu. — Eric! Eric!
Não adiantava. Ele havia ferrado no sono, e Marianne suspirou com pesar, indo para o outro lado do jardim. Gostava de Eric. Desde que chegara ali, havia pouco mais de três anos, ele tinha sido seu único amigo. Eram poucas as crianças no hospital. Em sua maioria, os internos eram adultos e adolescentes. Crianças eram raras, e a maioria parecia completamente abobada.
Marianne espichou o pescoço e fitou o horizonte à distância, por cima do muro de pedras. Fazia um bonito dia de fim de verão e, em breve, as árvores começariam seu bailado de lamento. Ouviu um gemido ao lado e olhou. Uma menina completamente retardada havia acabado de urinar nas calças, e o enfermeiro ralhava com ela. Que coisa inútil, pensou. A menina não entendia uma palavra do que ele dizia.
Quando Marianne chegou ao hospício, em companhia do pai e da mãe, nem sequer suspeitava do que estava para lhe acontecer. Havia acabado de sair do hospital, e os pais lhe disseram que a levariam a outro lugar para tratamento de possíveis lesões na coluna. Como não entendia nada daquilo, não protestou. Até físicos aparentes, era praticamente impossivel, para os médicos, constatarem qualquer anomalia cerebral. Os casos que envolviam lesões ou más-formações cerebrais eram mais facilmente diagnosticados, mas ninguém sabia explicar por que determinadas pessoas, aparentemente sem causa alguma, ingressavam naquele processo degenerativo e perdiam o contato com a realidade da matéria, mergulhando num inexplicável mundo de sombras e vultos.
Por razões diversas, espíritos buscam a loucura como subsídio no aprimoramento de suas aptidões morais. Através da sutilização de suas faculdades sensórias, colocam-se em contato direto com vários mundos e outras dimensões, permanecendo acessíveis a toda sorte de seres que transitam no invisível, desde os mais iluminados aos mais empedernidos.
Com tratamento espiritual adequado, associado a maciças doses de amor, muitos loucos poderiam ter sido curados, e o sofrimento, evitado. Não era o que acontecia, porém. Todo aquele que fugia ao padrão de normalidade imposto pelos valores sociais da época era atirado nos hospícios para experimentar as precárias drogas que, na época, eram ministradas para induzir o choque e a convulsão, com a única finalidade de acalmar os mais furiosos.
Nada disso, contudo, curava. E Marianne, como os demais loucos, não encontrou a cura entre as paredes do sanatório, que isolavam os loucos do mundo, nem com o uso constante de drogas que a colocavam cada vez mais em contato com esses seres do invisível. Por essa época já eram conhecidas, dentre outras obras importantes, todas as da Codificação de Allan Kardec, que muito auxiliaram no conhecimento e reconhecimento dos processos mediúnicos e suas consequências.
Alheios ao surgimento dessa e de outras ciências do espírito, Kate e David buscaram na ciência dos homens explicação para os males da alma. Não a encontraram, e uma promessa de paz lhes pareceu suficiente e adequada.
Depois que David conseguiu libertar o médico, veio o diagnóstico irreversível. Kate chorava amargurada, e Marianne, presa ainda pelas mãos do pai, não compreendia o que eles diziam. A seu lado, um espírito conversava com ela, contando-lhe as maravilhas que encontraria ali.
— Mas doutor, deve haver outro jeito... — soluçava Kate.
O médico a encarou por cima dos óculos e, lançando um olhar de esguelha para Marianne, esclareceu:
— Entendo como a senhora se sente, mas veja bem. Olhe para sua filha e me diga, a senhora mesma, se ela lhe parece normal.
Kate fitou David com angústia. Ele permanecia segurando os pulsos de Marianne. Na cabeça, um mundo de pensamentos indizíveis. Ele não tinha coragem de dar a palavra final, e Kate não queria se convencer. Em seu íntimo, refazia os gestos do passado que não queria mais repetir. Por isso, relutava em desfazer-se de Marianne, que, além do mais, era sua filha.
— A senhora tem mais três filhos — continuou o médico. — Quer arriscar a vida deles por causa de uma criança que não tem mais solução? Sei que é triste, mas não se iluda: sua filha é louca e altamente agressiva. Representa um perigo para os outros e para ela mesma. Imagine que, um dia, a senhora pode encontrar seus outros filhos mortos, ou a própria Marianne, que já tentou se suicidar uma vez.
— O doutor tem razão, Kate — estimulou David. — Imagine se uma desgraça dessas acontecer. Não podemos ficar com ela. Você sabe que eu também era contra essa internação. Mas o doutor vem com argumentos poderosos. Temos que pensar em nossos outros filhos e na segurança da própria Marianne.
— Ela não tentou se matar — desculpou-se. — Tenho certeza de que ela caiu da janela por acidente.
— Acredite em mim, senhora Landor — intercedeu o médico. — Não há outro remédio. Marianne nunca vai se recuperar. Ao contrário, sem tratamento, vai piorar cada vez mais.
— Tudo porque Ross partiu — lamentou Kate. — Se o encontrássemos... poderíamos trazê-lo para junto de nós. Tenho certeza de que, ao lado dele, Marianne iria melhorar.
Ao ouvir o nome do primo, Marianne se empertigou e olhou para a mãe.
— Você está se iludindo, Kate — alertou David. —Ross não vai mais voltar. Já esqueceu o que houve?
— Volte para casa e conforte-se com seus outros filhos — insistiu o médico. — Esqueça Marianne. Ela só lhe trará problemas e desgostos.
— O senhor fala como se Marianne fosse uma coisa. Ela é uma criança e é minha filha! Acha que é assim tão fácil descartar-se de uma filha?
— Sei que não. Mas a senhora vai se acostumar. Quando a paz voltar ao seu lar, vai me dar razão. Acha que vale a pena destruir a felicidade de sua família só por causa de uma menina que, com o tempo, não vai nem reconhecê-la mais? Marianne, aos poucos, vai perder o contato com a realidade e com as pessoas que a cercam. Já perdeu a afetividade pelos pais e pelos irmãos. Logo, logo, vai estar agindo como se vocês fossem seus inimigos.
— Ele tem razão — concordou David. — Pense nas crianças. Já se esqueceu do que aconteceu a Suzie? E se nós não estivéssemos lá? Teríamos hoje o cadáver de nosso bebê nas mãos.
Kate abaixou a cabeça e assoou o nariz, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Não queria se separar de Marianne, mas reconhecia que ela representava um perigo para si mesma e os outros filhos. Sentindo-se impotente e vencida ante aquela situação, fitou a menina com piedade e tristeza. A contragosto, balançou a cabeça e assentiu com voz sumida, carregada de dor:
— Tem razão. Podem levá-la.
— Excelente! — exultou o médico, encarando Marianne de forma estranha. Parecia exagerada-mente satisfeito com aquilo. — Vocês não têm com o que se preocupar. Nossa instituição é muito bem conceituada, e tenham certeza de que Marianne será muito bem tratada aqui.
Percebendo uma movimentação diferente, Marianne começou a se agitar. O médico apertou um botão e, pouco depois, dois homens vestidos de branco apareceram, tirando-a das mãos do pai e segurando-a pelos braços. Ela começou a se debater e mordeu os enfermeiros, correndo para junto da lareira. Os homens se acercaram dela novamente, mas Marianne gritava e os ameaçava com o atiçador de chamas, que conseguira pegar imperceptivelmente.
Os homens pararam indecisos e olharam para o psiquiatra, que ordenou frenético:
— A camisola! Rápido!
Um dos enfermeiros saiu e foi buscar a camisola. O espírito ao lado de Marianne ria e lhe dizia para não se assustar, porque eles iriam vesti-la para uma bonita festa, onde todos teriam que ir de branco. Sem que ninguém entendesse, Marianne soltou o atiçador no chão e se voltou para o espírito. Ia lhe perguntar se já era o aniversário de Ross, mas não teve tempo. Os homens a dominaram brutalmente, derrubando-a no chão. Enquanto ela gritava e esperneava, eles a imobilizaram e conseguiram vestir-lhe a camisola, puxando as mangas para trás e prendendo seus braços.
— O que é isso? — gritou, entre furiosa e indignada. — Por que estão fazendo isso comigo? Soltem-me! Deixem-me ir!
Chocada com a forma como tratavam sua filha, Kate se adiantou, mas foi contida por David.
— Marianne... — balbuciou pesarosa.
— Mãe! — gritou a menina. — Ajude-me! Não deixe que façam isso comigo! Por favor, mamãe, prometo que vou ser boazinha. Eu prometo...!
Os homens a suspenderam e a levaram para fora, deixando Kate aos prantos, fortemente segura pelo marido.
— Minha filha! — agonizou Kate. — O que foi que fiz à minha filha?
Não foi possível acompanhá-la nem voltar atrás.
O desespero tomou conta de Kate de tal forma que ela queria desistir. Queria dizer ao marido e ao médico que não pretendia deixar sua filha naquela casa de loucos, que iria levá-la para casa e cuidar dela com carinho. Mas David não permitiu. Sem dizer nada, apertou o seu braço, fazendo-a calar os protestos e engolir o pranto.
Kate nunca se perdoou por ter-se submetido à decisão do marido, culpando-se, e a ele, pelo destino da filha. É claro que nenhum dos dois era culpado de nada. Cada um agia de acordo com o seu amadurecimento, e Marianne ia pintando a tela de sua vida com as tintas de sua escolha.
De toda sorte, a culpa não pode ser explicada pela mente racional. E foi assim que Kate realmente se sentiu: culpada por não ter sido forte o suficiente para resistir à tentação do passado, que se repetia sem que ela dele tivesse conhecimento ou forças para lhe resistir.

2
Três anos haviam se passado desde esses acontecimentos. No começo, fora difícil, mas agora Marianne já se acostumara ao lugar. Ao menos ali não precisava enfrentar os olhares de estranheza das outras pessoas quando falava com criaturas que somente ela podia ver. Em geral, relacionava-se bem com os demais internos e nem tanto com os enfermeiros, cuja brutalidade era constante e incentivada pelos médicos.
Mas o pior mesmo era o dirigente do hospício. Carrasco e torturador em sua última existência, ainda vibrava em sua alma o prazer de causar dor. Oto Kramer era um psiquiatra sádico e frio, partidário da loucura institucionalizada. Fascinado pela sensação de poder do torturador, encontrou, no reduto quase esquecido dos manicômios, um vasto campo para infligir toda sorte de suplícios a seres humanos que, segundo ele, não possuíam serventia alguma. Com isso, alimentava sua sede de violência sem medo de represálias, pois contava com o respaldo da lei e o silêncio dos enfermos. Ninguém falava, e os poucos que se atreviam eram desacreditados por suas próprias alucinações. Depois da tentativa frustrada de se fazerem entender, os loucos eram punidos com os mais variados métodos de tortura, sempre sob a argumentação do condicionamento que poderia disciplinar sua mente. Mas, na verdade, o que Oto Kramer desejava era simplesmente infligir dor e medo.
Naquele domingo, como sempre acontecia nesse dia, os detentos eram deixados livres no jardim, à espera de visitantes ou simplesmente para se distrair ao sol. Alguns recebiam visitas constantes, outros, esporádicas, outros não recebiam visita nenhuma.
Da família de Marianne, apenas Kate costumava ir. David sempre se desculpava, alegando que não tinha estômago nem estrutura para frequentar aquele lugar horroroso. Jane também aparecia de vez em quando, e Ross vinha sempre que podia, mesmo contra as ordens do pai. Embora estivesse estudando em Oxford, visitava-a nas férias e feriados, dizendo-lhe para ter calma. Em breve alcançaria a maioridade e a tiraria dali. Casar-se-ia com ela, e seriam felizes para sempre.
Já acostumada à rotina de entrada e saída do hospício, Kate deu o nome na recepção, que o atendente anotou mecanicamente, e passou para o lado de dentro. Desde que Marianne fora internada, não havia um só domingo em que não fosse visitá-la, levando-lhe sabonetes e algumas guloseimas, que eram confiscados pelos enfermeiros logo que ela saía. Naqueles três anos, tornara-se bastante conhecida por sua assiduidade e persistência. Ninguém compreendia por que ela insistia em visitar e conversar com aquela criança que mal lhe prestava atenção. Por várias vezes, fora aconselhada a esquecer a menina e viver a vida, mas Kate jamais assentiu a essas sugestões. Marianne era sua filha e jamais desistiria dela.
Assim que chegou ao jardim, um dos enfermeiros a cumprimentou com um aceno de cabeça e foi chamar a menina:
— Marianne. Sua mãe chegou.
Ela olhou adiante e viu a mãe se aproximar com sua cesta de presentes. Kate sentou-se ao lado dela, beijou-a no rosto e alisou seus cabelos curtos e irregulares. A visão de sua menina, tão maltratada e desleixada, no princípio lhe causou imenso choque. A indignação fora tanta que levara o caso à diretoria, contudo o doutor Kramer a convencera de que o tratamento era adequado, e a aparência ora relaxada, ora repugnante, desvia-se à dificuldade que os enfermeiros encontravam em aplicar-lhes cuidados pessoais mais esmerados, pois os doentes não permitiam que lhes escovassem os cabelos nem que se lhes desse banho. Ante as dificuldades, faziam o melhor que podiam.
Kate encara o médico com estupor e raiva. Protestou, reclamou, ameaçou relatar tudo às autoridades competentes. No entanto, o marido a dissuadira da idéia, alegando que ela estava se metendo em assuntos dos quais não tinha o menor conhecimento, que o tratamento era satisfatório, e o doutor Kramer, muito competente. Sem ter como reagir, Kate, muito competente. Sem ter como reagir, Kate silenciou e, aos poucos, foi-se acostumando com o aspecto descuidado de Marianne.
E agora, sentada ao lado da filha, após três anos de lutas, lágrimas e revolta, Kate finalmente se rendera à realidade de que Marianne era irremediavelmente louca.
- Como estás, Marianne? – perguntou ela, e a menina não respondeu. – Trouxe algo para você.
Kate colocou a cesta em cima do banco, desembrulhou um lindo bolo de nozes, todo enfeitado, e apanhou duas caixas de sabonete perfumado, Marianne olhou para tudo sem interesse e voltou os olhos para o horizonte, enquanto Kate ia dizendo:
- Seu pai mandou lembranças. E seus irmãos também. Sua tia Jane não pôde vir essa semana, mas disse que virá domingo que vem.

Ela não estava interessada. Desde que fora para ali, parecia-lhe que havia perdido o contato afetivo com a família. Mesmo Kate, que a visitava regularmente, não lhe parecia mais familiar. Era uma estranha. Só conseguia mesmo pensar em Ross. Com a imagem dele a povoar-lhe por inteiro a mente, ergueu os olhos para a entrada, na esperança de que ele aparecesse.
— Cadê o Ross? — indagou.
— Está no colégio, mas virá assim que puder.
Com um suspiro de frustração, Marianne abaixou a cabeça e chorou baixinho. Apesar da vontade de estreitá-la, Kate se controlou, pois a filha sempre se retraía quando ela tentava abraçá-la. Para desviar sua atenção, continuou falando sobre a família, o progresso dos irmãos na escola e outras coisas sem a menor importância para Marianne. Depois calou-se e limitou-se a contemplar o horizonte com ela, fazendo-lhe companhia, como sempre fazia, ficando, muitas vezes, até o término do horário de visitas.
— Até domingo que vem — despediu-se Kate, quando o enfermeiro lhe acenou, indicando que era hora de ir embora.
Marianne lançou à mãe um apelo mudo, que Kate não compreendeu. Tinha vontade de contar a alguém o que acontecia ali, mas de que adiantaria? Como o próprio doutor Kramer dissera, ninguém acreditaria nela. E depois, talvez a mãe não estivesse mesmo interessada em ouvir, pois não existia nada que a convencesse a levá-la embora. Apenas Ross acreditaria nela e a tiraria dali, para poderem se casar e viver longe de tudo e de todos.
Depois que Kate se foi, uma sirene estridente soou por todo o pátio: era o toque de recolher dos doentes. Marianne se levantou como um autômato, deixando no banco as coisas que a mãe lhe trouxera, e pôs-se a caminhar sozinha para o enorme prédio branco que agora lhe servia de lar. Uma enfermeira mal-encarada recolheu os presentes, e os enfermeiros foram conduzindo os doentes que não sabiam ou não podiam se locomover ou chegar sozinhos. Marianne foi para onde Eric estava sentado, cabeça tombada sobre o peito.
— Eric — chamou ela, sacudindo o seu ombro. —Acorde, Eric, já é hora de entrar. Eric! — berrou ao seu ouvido.
O menino estremeceu e abriu os olhos lentamente, murmurando:
— Hum...?
O efeito do láudano parecia estar passando, e Marianne deu um sopro em seu ouvido, despertando os seus sentidos.
— Eric — chamou baixinho. — Sou eu. Acorde ou James virá cutucá-lo.
Eric tossiu, esfregou os olhos e bocejou, fixando-os em Marianne.
— Eu dormi? — rumorejou.
— Dormiu. James lhe deu aquela injeção...
Ele esfregou o pescoço, sentindo ainda a dor da picada, e Marianne se arrepiou toda, levando a mão ao próprio pescoço. Podia sentir, ela também, os efeitos das muitas agulhadas que, constantemente, levava ali.
— Vamos entrar — falou Eric, levantando-se meio trôpego, ao avistar James vindo em sua direção.
De mãos dadas, foram para dentro, direto ao refeitório, fazer a refeição noturna. Sentaram-se todos ao redor das imensas mesas de madeira tosca e uma sopa indigesta lhes foi servida, acompanhada de um pão dormido. O estômago de Marianne deu uma reviravolta, e ela se lembrou do bolo que a mãe trouxera e que ela abandonara no banco. Nunca podia comê-lo. Mesmo quando se lembrava de levá-lo com ela, alguma enfermeira o apreendia, de forma que ela era sempre obrigada a comer aquela comida sem gosto.
Sentada ao lado de Eric, Marianne ia se alimentando sem nenhum prazer, até que sentiu que alguém a observava. Instintivamente, levantou os olhos e olhou na direção certa. Parado perto da porta, um dos enfermeiros, de nome Mike, olhava-a fixamente, exibindo nos olhos aquele estranho brilho que ela, algumas vezes, surpreendera voltados para outras garotas mais velhas.
Marianne corou. Era a primeira vez que ele a olhava assim. De cabeça baixa, tentou captar a intenção dele, tão visível que ela imediatamente compreendeu. Mike não estava olhando propriamente para ela. Mirava o decote de sua camisola, cujo botão superior havia desabotoado, deixando à mostra parte de seus pequeninos seios. O rubor duplicou, e uma raiva desmedida fez acelerar seu coração. A seu lado, invisível, um espírito lhe soprava ao ouvido palavras obscenas, e ela, apesar de não as conhecer, entendia-lhes o sentido.
Ela estava crescendo. No ano anterior, ficara mocinha, confusa e assustada com o sangue da primeira menstruação. A partir daí, os seios desabrocharam, o corpo foi-se arredondando, tomando as formas da menina-moça, e Marianne nem se dava conta dessas transformações.
Com a colher na boca, fitou Mike pelo canto do olho. Ele a olhava insistentemente e, ao perceber que ela também olhara para ele, fez um gesto obsceno com a língua que deixou Marianne furiosa. Embora não entendesse o significado do gesto, o espírito a seu lado o traduziu. Com o coração aos pulos, Marianne ocultou a colher na mão, levantou-se calmamente do banco e aproximou-se do enfermeiro, que se abriu todo num sorriso lúbrico.
Sem dizer palavra, Marianne esticou o braço e acertou a colher no rosto de Mike, que soltou um uivo de dor. O golpe e o instrumento não eram fortes o suficiente para rasgar-lhe a pele, mas deixaram um vergão comprido e vermelho sobressaindo de suas bochechas.
— Sua ordinariazinha! — bradou ele, tentando segurá-la.
Marianne saiu correndo pelo refeitório, causando uma balbúrdia geral. Todos começaram a gritar e atirar coisas, enquanto ela corria por entre as mesas, com Mike em seu encalço. Percebendo a confusão, outros enfermeiros se aproximaram, e um apito soou. Sinal de que alguém iria responder por aquilo.
Por fim, Mike a alcançou. Derrubou-a ao Chão, atirando-se sobre eia, e, puxando seus braços para trás, imobilizou-a. Logo, outros enfermeiros apareceram e lhe vestiram a camisola, conduzindo-a à ala de isolamento.
Na manhã seguinte, logo que o doutor Kramer entrou em seu consultório, foi colocado a par do episódio da noite anterior. Mandou que buscassem Marianne. Assim que Mike abriu a porta da pequenina cela, a menina começou a gritar, ciente do que estava por vir. Presa na camisola, sem poder reagir, foi levada aos berros e pontapés.
O enfermeiro arrastou-a por um corredor escuro, descendo com ela por uma escada suja e mal iluminada, que ia dar no porão. Marianne começou a chorar, enquanto Mike dava risinhos debochados:
— Não adianta chorar. Não soube criar confusão? Agora, aguente.
Tomaram um corredor igualmente sujo e escuro, até que pararam diante de uma grande porta de ferro. Com seu sorriso sarcástico, Mike empurrou a porta, que se abriu com um rangido. No mesmo instante, o som da música atingiu seus ouvidos. O fonógrafo do doutor Kramer tocava a Sonata ao Luar, de Beethoven, sua música preferida.
Ladeado por dois enfermeiros, Oto Kramer fitou Marianne com uma certa euforia, fazendo sinal para que Mike se aproximasse. Aterrorizada, ela começou a chorar e a implorar:
— Não... por favor...
Suas palavras eram interrompidas por soluços agoniados, que só faziam aumentar a sanha desvairada do médico. Ele se virou de costas e apanhou algo em cima de um carrinho de ferro, que ela reconheceu como uma seringa.
— Muito bem, Marianne — começou ele, com voz terrível, aplicando-lhe uma injeção no pescoço. —Soube que você foi uma menina muito má ontem e, por isso, sou obrigada a puni-la.
— Por favor... — choramingou ela, já sentindo o efeito estonteante da medicação. — Não vou fazer mais... não vou...
A um sinal do doutor, Mike desamarrou a camisola, e ela permaneceu paralisada pelo terror. Olhou para a maca com a visão embaciada, e seus soluços redobraram. Em cima dos lençóis encardidos, as tiras de couro já se encontravam dispostas, esperando que ela se deitasse para serem atadas ao seu corpo.
O remédio lhe tirava parcialmente a vontade e a força para resistir, e ela se entregou passivamente. Mike ergueu-a no colo e deitou-a sobre a cama, enquanto ela, sem se mover, via as coisas rodarem. Mais que depressa, os outros enfermeiros ataram as correias em seus tornozelos, punhos e ao redor do pescoço. Sentiu quando umedeceram sua testa e viu os fios na mão do doutor Kramer. Logo os eletrodos se grudaram a suas têmporas, e ela chorou, quase inconsciente, implorando, em vão, que a perdoassem.
- Espero que isso a ensine a se controlar — disse o médico, denotando sádico prazer.
— Não... — balbuciou com a língua enrolada. — Por favor, doutor... não...
— É para o seu bem — ele olhou para Mike, que aumentou o volume do fonógrafo, e sorriu prazeroso. A orquestra disparou pelo ambiente enchendo seus ouvidos com aquela lúgubre sinfonia, a sonata do terror. — E agora, relaxe e deixe a música penetrar em seus ouvidos. Vai acalmá-la, você vai ver.
Diante do inevitável, Marianne apenas soluçava de mansinho, sem forças para soltar-se das amarras. Quando a onda de choque percorreu o seu corpo, sacudindo-o horrivelmente, um grito agudo partiu de sua garganta, e a mente começou a embaralhar, as imagens a sumir, e a única coisa que ainda pôde reter na memória, no breve instante que precedeu à inconsciência, foi o som da música de Beethoven se espalhando pelo ambiente e abafando seus gemidos e os risinhos de satisfação de toda a equipe médica.

3
Faltava pouco para os feriados de Natal, e Ross já estava de malas prontas para partir para Londres. Mal podia esperar a hora de rever Marianne. Em sua última carta, ela havia escrito coisas horríveis sobre o hospital. Ross sabia que aquela carta só havia chegado a suas mãos porque Marianne conseguira passá-la a Kate às escondidas, já que toda correspondência era submetida à censura do diretor do hospício. Precisava muito falar com a tia sobre o que estava escrito ali.
Apanhou o casaco no armário, calçou as luvas, enrolou o cachecol no pescoço e saiu para a friagem da rua. Estava nevando, e o frio era cortante. Entrou no ônibus da escola que levaria todos os alunos à estação de trem e sentou-se cabisbaixo perto da janela. Em poucos segundos, os outros alunos entraram, e seu amigo Vincent foi sentar-se ao lado dele.
Vincent era um dos melhores amigos de Ross na escola. No dormitório, sua cama ficava ao lado da dele, e Arnold, também seu amigo, dormia do outro lado. Era com eles que Ross dividia os seus anseios e temores, e contara-lhes tudo sobre Marianne e sua vida no hospício.
Os três moravam em Londres e só voltariam a Oxford após o Ano Novo. Ross se lembrou de que o aniversário de Marianne estava se aproximando. Ela faria quinze anos e estava ficando uma mocinha muito bonita. Assim que atingisse a maioridade e terminasse os estudos, trataria de tirá-la de lá e casar-se com ela, para que ninguém mais pudesse feri-la.
— A situação na Ásia está cada vez pior... — dizia Arnold, que havia acabado de chegar e se sentara no banco de trás. — O último incidente japonês levou à queda de Nanquim.
Incidente... — desdenhou Vincent no banco da frente, virando-se para ele. — Eufemismo para guerra, isso sim.
— Os japoneses têm medo de que os Estados Unidos e a Inglaterra entrem no conflito — acrescentou Ross. — Temem a derrota.
— Já imaginou? — tornou Vincent. — Sermos convocados para a guerra?
— Pena que não somos ainda maiores de idade... — lamentou Arnold — Se fôssemos, estaríamos sendo convocados pelo Exército.
— Vocês acham que esse conflito pode chegar até a Europa?
— Com Hitler no poder, tudo é possível — admitiu Ross, acabrunhado.
— A guerra é apenas questão de tempo — concordou Vincent. — Meu pai, que é da Marinha, está muito preocupado.
O assunto da guerra continuou até o desembarque em Londres. Na estação, Nathan já estava à espera de Ross. Viera sozinho, alegando que Lilian não se sentia bem por causa do mau tempo. Ross apertou o sobretudo, despediu-se dos amigos e foi seguindo o pai até o automóvel.
— Como está indo na escola? — indagou Nathan, para puxar assunto.
— Bem — respondeu Ross laconicamente.
Seguiram em silêncio até sua casa, e Ross se perguntava quando foi que aquele abismo se abrira entre eles. Se antes eram amigos, agora pouco se falavam. Era como se Ross não possuísse mais qualquer afinidade com o pai, que se tornara um estranho em seu coração. Não sentia a menor vontade de ficar em casa com ele. Queria mesmo era ver Marianne e a tia. E, embora nada pudesse fazer até domingo, no dia seguinte trataria de fazer uma visita a Kate.
Quando o dia amanheceu, Ross se aprontou e desceu para o café. Lilian já estava sentada à mesa, com aquela cara de antipática de sempre. Ele puxou uma cadeira e se sentou ao lado do pai, cumprimentando a todos sem muito interesse.
— Vai sair com um tempo desses? — perguntou Nathan.
— Vou.
— Pode-se saber aonde é que vai? — era Lilian, com sua voz esganiçada e seu jeito petulante.
Ross olhou bem fundo nos olhos dela e respondeu calmamente:
- Vou ver tia Kate.
Na mesma hora, um rubor esquentou as faces de Lilian. Ross fazia aquilo só para desafiá-la, mas ele iria ver quem podia mais. Com a arrogância de sempre, lançou a Nathan um olhar de intimidação, e ele tornou sem muita convicção:
— Não, Ross, não posso permitir. Não seria conveniente...
— Você não está entendendo, pai — cortou ele com irritação. — Não estou pedindo sua autorização. Antes você podia mandar em mim. Agora, não. Tenho quase dezoito anos e posso tomar minhas próprias decisões.
— Mas meu filho, não se trata disso...
— Não me interessa do que se trata. Kate é minha tia, gosto dela e não vou deixar de vê-la, ou a Marianne, só porque vocês não querem.
— Não fale assim com seu pai! — censurou Lilian.
— E você não se intrometa onde não é chamada — rebateu ele friamente.
Lilian enrubesceu e retrucou com indignação:
— Como se atreve?
— Estou decidido a ir visitar tia Kate e Marianne, e ninguém vai me impedir. Não sou mais criança, e vocês não podem mais me trancar no quarto.
- Ora, seu moleque — enfureceu-se Lilian. — Mal saiu dos cueiros e já pensa que é dono do seu nariz. Pois não é, ouviu? Você ainda é um fedelho e deve obediência a seu pai.
Ross sentiu que o sangue começava a subir-lhe às faces. Atirou o guardanapo sobre a mesa, levantou-se e, com ar gélido, disparou:
— Pois fique sabendo, dona Lilian, que a obediência que devo a meu pai não se estende a você nem às ordens que você dá a ele. Se meu pai é um tolo que se deixa dominar por uma mulher fútil e vazia, o problema é dele. Não tenho nada com isso. Mas digo e repito que vou visitar minha família, quer vocês queiram, quer não.
— Basta, Ross! — intercedeu o pai.
O rapaz fuzilou o pai com o olhar, rodou nos calcanhares e saiu a passos decididos. Estava cheio de Lilian. Ela se julgava grande coisa, distribuindo ordens a todos, mandando no pai como mandava em Nora, como devia mandar também no amante. O pai era um tolo. Ross não podia provar, mas estava certo de que Lilian mantinha um romance secreto com o senhor Bradley. Ainda não se havia esquecido de que a tia lhe dissera que o encontrara em sua casa. O pai, contudo, não acreditara. Preferira acreditar naquela história idiota de abotoaduras.
Tomou o metrô e foi direto para a casa de Kate, sentindo saudades da rua onde vivera por quase toda sua vida. Parou e fitou as casas, todas iguaizinhas , dispostas simetricamente de ambos os lados da rua. Permaneceu parado em frente à porta da tia, pensando que havia três anos não aparecia por lá. Durante esse período, encontrava-se com Kate rapidamente no hospício, todas as vezes em que ia visitar Marianne. Seu lar, contudo, continuaria sempre sendo aquele.
Sem saber se batia na porta ou não, ficou parado com a mão na maçaneta. Nunca, em todos anos em que morara ali, precisara bater para entrar. Não bateria agora. Decidido, rodou a maçaneta e abriu a porta bem devagar.
Suzie estava sentada na sala, brincando perto da lareira, e foi a primeira que o viu. Em seus quase oito anos, poucas lembranças guardava de Ross.
— Mamãe! — exclamou ela assustada. — Tem um homem aqui.
Kate veio correndo da cozinha, empunhando um facão de cortar carne, pronta para agir caso algum malfeitor houvesse penetrado sorrateiramente em sua casa. Ao dar de cara com Ross, mal podia acreditar. Largou a faca no chão, enxugou as mãos no avental e abriu os braços para recebê-lo. Ele se aninhou naquele abraço de mãe e permaneceu entregue àquele momento de carinho.
Depois de muito tempo, ela se afastou dele e alisou o seu rosto.
— Você não para de crescer! — observou maravilhada. — E está um rapaz cada vez mais bonito.
— Você é que continua linda — elogiou ele. — Linda e corajosa. A mulher mais maravilhosa que um dia pisou na face da Terra.
Kate sorriu satisfeita e chamou a filha com a mão.
A menina se aproximou, e ela foi logo esclarecendo:
— Esse é seu primo Ross, Suzie. Lembra-se dele?
— Mais ou menos — confessou ela, cativada pelo sorriso do rapaz.
— Suzie era muito pequena quando parti — observou ele.
— É verdade — concordou Kate. — Faz muito tempo que você não vem a minha casa.
— Três anos...
— Seu pai sabe que veio aqui?
— Não tenho motivos para esconder. Não sou mais criança, e ele não pode me impedir. Lamento apenas pela discussão.
— Vocês discutiram?
— Como sempre. Meu pai precisa se acostumar ao fato de que já não tem mais domínio sobre mim. Em breve farei dezoito anos.
— Dezoito anos... Quem diria?
Ross beijou a mão de Kate e foi com ela sentar-se no sofá.
— E Marianne, titia? — indagou ansioso. — Como é que ela está?
— Do mesmo jeito, suponho. Não recebeu sua última carta?
— Recebi. E foi justamente para falar dela que vim aqui.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele balançou a cabeça e tirou do bolso a última carta de Marianne, estendendo-a para a tia.
— Você leu?
— Não. Marianne me entregou fechada, e eu a enviei do jeito que estava.
— Leia.
Kate apanhou a carta e começou a ler. Com sua letra miúda e insegura, Marianne narrava as barbaridades cometidas pelo doutor Kramer: as injeções, os banhos gelados, os choques. Sem falar na brutalidade dos enfermeiros, que tratavam os doentes feito trapos. Kate leu avidamente, sentindo o coração disparar a cada linha. Quando terminou, encarou o sobrinho e confessou com pesar:
— Eu não sabia.
— Foi o que imaginei.
— Marianne nunca me contou nada. Ela mal fala comigo quando vou visitá-la. Sei que, em silêncio, me culpa por tê-la deixado lá.
— Acho que você se culpa mais do que ela. Só que não foi culpa de ninguém. Você não teve saída.
— Se pudesse, voltaria atrás.
— Voltar atrás, não pode. Mas acho que já é hora de tirar Marianne de lá.
— Não sei se David irá concordar. Ele teme pelas crianças...
— As crianças estão maiores agora, e Roger já é um rapazinho. Pode tomar conta dos menores.
— David não vai consentir...
— Você tem que tentar convencê-lo. O que se passa lá dentro é cruel e desumano.
— Será que é verdade? Será que Marianne não está inventando isso só para que a tiremos de lá?
— Acha mesmo que Marianne teria imaginação suficiente para criar uma história tão bem elaborada como essa? E de onde ela tiraria a ideia de banhos gelados e choques elétricos, coisas com as quais nunca esteve familiarizada?
— Pensando por esse lado, acho que tem razão. E nada me agradaria mais do que ter minha filha aqui de volta, comigo. Você não faz ideia do quanto me arrependi de tê-la internado lá.
— Pois agora é a hora de reverter essa situação. Já estou crescido e poderei vir mais vezes.
— De Oxford?
— Virei todo fim de semana, direto para sua casa.
— Seu pai não vai gostar. E você sabe que não gosto de fazer nada escondido.
— Quem falou em se esconder? Não tenho medo do meu pai nem de Lilian. Já disse que eles não podem mais me impedir de fazer o que quero. Se digo que virei, é porque virei.
— Com certeza, Marianne iria até melhorar.
Então, tia Kate? Vamos trazê-la de volta. Prometo ajudar.
— Se dependesse só de mim, ela já estaria aqui. Mas tem o seu tio. Ele insiste que o melhor é deixá-la lá.
— Você sempre foi mais forte do que tio David. Aposto como conseguirá enfrentá-lo e convencê-lo.
— Sabe de uma coisa? — tornou ela decidida. —Você tem razão. Vou falar com David e exigir que traga Marianne de volta.
Tiveram que esperar até o anoitecer, quando David chegou do trabalho. A presença de Ross foi motivo de muita surpresa e preocupação, mas tanto o rapaz quanto Kate não tinham tempo para maiores explicações. Ross entregou-lhe a carta, que ele leu com ar incrédulo. Quando terminou, encarou a mulher e o sobrinho e ponderou convicto:
— Isso é fantasia da cabeça daquela menina. Muito me admira vocês acreditarem numa baboseira dessas. Imaginem se o doutor Kramer, um psiquiatra de alto gabarito e reputação, ia fazer um absurdo desses. Logo se vê que isso só pode ser imaginação da mente distorcida de Marianne.
— Mas tio David — contrapôs Ross —, não acha que deveria ao menos investigar?
— Para quê? Marianne está sendo muito bem tratada lá.
— Como é que sabe? — indignou-se Kate. — Você nem sequer a visita. Nunca se deu ao trabalho de ir vê-la.
Ele abaixou a cabeça, envergonhado. Era verdade. Desde que Marianne fora internada, jamais a visitara. No princípio, fora muito difícil aceitar a vergonha de ter uma filha louca. Contudo, passado o trauma do primeiro momento, começou a se acostumar. As pessoas já não tocavam mais no assunto, e a paz voltara a reinar em sua casa. Os outros filhos cresciam alegres e saudáveis e, não fosse pelos domingos, em que Kate insistia em ir ver Marianne, ele até já se teria esquecido daquela filha.
— Você sabe que não posso ir — desculpou-se ele. — Alguém tem que ficar cuidando das crianças.
— Isso é uma desculpa muito da esfarrapada! —Kate irritou-se. — Você não vai visitá-la porque não quer, porque tem vergonha dela.
— Não vou visitá-la porque assim posso ao menos fingir que tenho uma família normal. Ou vai negar que Marianne transformou a nossa casa num inferno?
— Ela não tem culpa de ser doente — rebateu Kate furiosa.
— E nós muito menos. Ninguém aqui tem culpa da loucura de Marianne.
— Ela é sua filha! — gritou Kate descontrolada.
O olhar que David lhe deu naquele momento foi tão devastador, que Kate sentiu o mundo ruir. E as palavras que se seguiram revelaram uma indiferença muito maior do que a que transparecia nos olhos dele:
— Antes não fosse.
Tia e sobrinho se entreolharam atônitos. Kate quis protestar, contudo, a indignação atravessou um espinho em sua garganta, e ela se calou, os olhos ardendo, transbordando de lágrimas de revolta. A reação dos dois deu a perceber que David havia ido longe demais. No entanto, o orgulho lhe toldou qualquer esboço de reação, e ele simplesmente entregou a carta a Ross, para depois se levantar em silêncio e subir as escadas num caminhar arrastado e pesaroso.
Depois que ele se foi, Ross encarou a tia, que chorava de vergonha e decepção.
— Sempre soube o que ele achava de Marianne —desabafou ela. — Mas nunca pensei que fosse capaz de renegá-la como filha.
— Ele não a renegou.
— Mas é como se tivesse renegado.
Ross continuou encarando-a, buscando na mente uma solução rápida e segura. Quando falou, foi com profunda angústia na voz:
— E agora, tia, o que vamos fazer?
— Não sei. Sem a autorização do seu tio, nada poderei fazer.
— Pois então, eu mesmo vou tirá-la de lá — afirmou Ross, resoluto. — Darei um jeito de ajudá-la a fugir.
— De que adiantaria uma fuga? Seu tio a mandaria de volta.
— Você não está entendendo, tia. Vou fugir com Marianne de Londres.
— E a escola?
— Largo a escola, minha casa, largo tudo. Em breve terei dezoito anos e posso muito bem arranjar um emprego.
— Você está se iludindo. Marianne precisa de cuidados. E quem cuidará dela quando você for trabalhar?
Visivelmente desorientado, Ross passou a mão pelos cabelos e fixou na tia seus olhos de súplica:
— Tem que haver um jeito. Não podemos simplesmente deixá-la nas mãos daquele monstro.
Kate estava desalentada. Não sabia o que fazer. Há muito se arrependera de haver internado Marianne naquele lugar. Para tirá-la de lá agora, seria muito difícil. No entanto, precisava fazer alguma coisa. Sua filha estava sofrendo, e era tudo culpa sua. Sua e de David. Jamais se perdoaria se alguma coisa de muito ruim acontecesse a ela.
— Espere-me aqui, Ross. Vou subir e falar com David. Ele vai ter que me ouvir.
Em poucos segundos, Kate alcançou o quarto, onde David, sentado a uma escrivaninha, ocupava-se em fazer algumas contas domésticas. Ela se aproximou e nem esperou que ele se voltasse. Foi logo dizendo:
— O que você disse agora há pouco foi inadmissível — surpreso com a voz dela, ele se virou, enquanto ela prosseguia: — Você pode até não gostar, mas Marianne é tão sua filha quanto minha. E não vou permitir que você a trate como uma estranha indesejável, porque ela não é. Nossa filha precisa de nós, e vamos ajudá-la. Ela está sendo maltratada naquele lugar, e você sabe disso. Só não quer admitir, porque é mais fácil calar do que enfrentar o problema. Pois bem, David, vou lhe dar um aviso: ou você vai lá e toma uma providência, ou vou embora daqui levando comigo as crianças.
— Isso é um disparate! — protestou ele. — Você é minha mulher e não pode sumir com meus filhos.
— Por que não, se você está sumindo com Marianne de nossas vidas?
— É diferente.
— Não é. Ela nasceu da mesma forma que os outros.
— Marianne está louca..
— Mais loucos fomos nós quando a deixamos naquele lugar! Estou lhe avisando, David: ou você a tira de lá, ou eu peço o divórcio.
— Está brincando.
— Você duvida? Pois então, experimente não fazer nada.
— Você se deixou impressionar pela carta de uma louca!
— Não vou mais discutir com você. Minha última palavra já foi dada. Se quer salvar o nosso casamento, tire Marianne de lá.
Ela se virou furiosa, mas, antes que alcançasse a porta, David a segurou pelo braço, fazendo com que ela se voltasse para ele. Arrependera-se do que falara lá embaixo, não propriamente por Marianne, mas pelo desgosto que causara à mulher. Queria remediar a situação, principalmente porque não podia permitir que ela o deixasse.
— Está bem — disse vencido. — Se é o que você quer, irei pessoalmente falar com o doutor Kramer. Mas vou sozinho. Não quero que ele pense que deixo minha mulher mandar em mim.
Embora Kate não compreendesse nem aceitasse a última sugestão, achou melhor se calar. Ao menos ele concordara em ir, enchendo-a de esperança.

4
O silêncio reinava no dormitório das meninas, onde Marianne, amarrada ao leito, começava finalmente a pegar no sono. Passara um dia agitado, e os enfermeiros ataram seus punhos às grades da cama, para que ela não saísse perambulando à noite e lhes desse trabalho. Ela já se acostumara àquilo, e seus pulsos, apesar de doloridos, não se ressentiam tanto da aspereza das correias.
As pálpebras, cansadas de lutar com os olhos para manter a consciência, por fim renderam-se ao silêncio e à escuridão. Marianne adormeceu num sono ainda leve, seus ouvidos captando, à distância, os sons abafados da noite. Tudo se foi aquietando aos poucos, e seu corpo todo começou a relaxar, os pensamentos se aprofundando mais e mais no mundo dos sonhos. De repente, um peso sobre seu corpo fez a cama afundar, dando-lhe a perceber que não estava sonhando. Abriu os olhos assustada, e mãos ásperas e firmes apertaram sua boca, impedindo-a de gritar.
— Sh — sussurrou o enfermeiro. — Nem um pio, ou leva uma surra.
Marianne estremeceu, reconhecendo, no escuro, o rosto medonho de Mike. Não estava sozinho. A seu lado, um outro enfermeiro, conhecido apenas por Grandão, dado o seu tamanho descomunal, olhava para ela com ar de cobiça. Grandão era um dos enfermeiros encarregados da vigilância dos internos e costumava usar métodos nada amistosos com os mais difíceis e violentos.
Sentiu medo. A princípio, não entendeu o que eles queriam, mas, aos poucos, foi-se dando conta. Grandão tirou do bolso uma gaze e a amordaçou, enquanto Mike afastava suas pernas, amarrando-as na cama. Estava completamente imobilizada e começou a chorar.
— Não adianta chorar, sua ordinariazinha — disse Mike em tom maldoso. — Vai ver no que dá ficar me provocando.
— Aposto até que ela vai gostar — desdenhou Grandão. — E vai pedir mais.
Os dois soltaram uma gargalhada abafada, e Mike levantou a camisola de Marianne, rasgando suas roupas de baixo com violência, deixando-a constrangida e assustada. Ainda com seu riso debochado, deitou-se sobre ela, possuindo-a com golpes violentos que lhe causaram imensa dor. Contidos pela mordaça, os gritos morriam na garganta de Marianne, que chorava de dor, medo e humilhação. Mike ficou ali por um bom tempo, violentando a menina e regozijando-se com o sofrimento que lhe causava e que só fazia aumentar o seu prazer.
Quando Mike finalmente se saciou, foi a vez de Grandão. Com a mesma selvageria, deitou-se sobre ela e a possuiu, machucando-a com mordidas e beliscões. Marianne virou a cabeça para a esquerda, tentando não ver a cara horrenda de Grandão nem sentir-lhe o bafo da bebida. Na cama ao lado, dois olhos pesarosos a fitavam, transmitindo-lhe empatia e compreensão. Sua vizinha de cama parecia partilhar seu sofrimento.
Foi então que Marianne se lembrou de que um dia, muito tempo atrás, percebera uma movimentação parecida na cama da outra garota e só agora entendia o que havia acontecido. Como custara um pouco a desenvolver as formas femininas, os enfermeiros, até então, não a haviam notado. Mas repararam na menina ao lado, cujos seios volumosos e os quadris largos haviam despertado neles o sentimento nefasto da luxúria. E agora voltavam também para ela a sua lascívia desenfreada.
Grandão terminou, e Mike possuiu-a ainda uma segunda vez. Marianne não parava de chorar, o corpo todo dolorido, como se alguém lhe houvesse triturado as entranhas. Tomada pela exaustão e a dor, ainda conseguiu ouvir as últimas palavras de Mike, ao repreender Grandão, que ameaçava subir em cima dela novamente:
— Agora chega. Ela é muito pequena e pode não aguentar.
Desmaiou. Quando acordou no dia seguinte, não estava mais amarrada. Sentiu uma dor lancinante no ventre e apalpou a barriga. Logo, a porta da enfermaria se abriu e James, outro enfermeiro, entrou. Aproximou-se dela, levantou o lençol e espiou.
— Bem que Mike avisou — disse com rispidez. — O que andou fazendo, hein, Marianne?
Ela se encolheu toda, sentindo o sangue seco a engrossar o lençol. James, sem nenhum cuidado, levantou-a da cama e saiu arrastando-a para fora. Marianne pulava e gritava, contudo, James conseguiu dominá-la facilmente. Além de franzina, o episódio da noite anterior a esgotara inteiramente.
Foi descendo com ela pelas escadas escuras que levavam ao porão, e ela pôs-se a gritar com mais força ainda. Conhecia aquele caminho e sabia onde é que ia dar. Ao final da escada, James virou para a esquerda, tomando a direção oposta à da sala dos castigos.
Ao se aproximar do fim do corredor, a música, novamente, atingiu os seus ouvidos, mas dessa vez era a Quinta Sinfonia de Beethoven, anunciando outra terapia. O fonógrafo do doutor Kramer era um coadjuvante em todas as suas técnicas e, para cada tratamento, como ele chamava, tocava uma música diferente de Beethoven. Só Beethoven, o que fez Marianne passar a odiar esse compositor em particular.
James abriu a porta com o pé e entrou com Marianne. O doutor Kramer lá estava e olhou para ela com ar de reprovação. Mike, parado do outro lado, sorria seu sorriso debochado de sempre.
— Ora vejam só, Marianne — censurou, como sempre fazia. — O que fez dessa vez? — ela não respondeu, não sabia o que dizer. — Quem foi visitá-la em sua cama ontem à noite?
Ela olhou para Mike e esboçou uma resposta, mas James não lhe deu tempo. Ergueu-a no colo novamente e foi com ela para o meio da sala, onde uma espécie de banheira circular havia sido encravada no chão de ladrilhos brancos. Marianne gritava feito louca:
— Não! Não! Está frio!
Mais que depressa, James deitou-a dentro da banheira de água gelada, ainda vestida com a camisola de dormir. Marianne começou a tiritar, até que um entorpecimento foi-se espalhando pelo corpo, primeiro pela pele, até atravessar a carne e penetrar nos ossos, como se o sangue congelasse nas veias.
— Isso vai acalmá-la — prosseguiu o doutor Kramer. — Você está ficando muito agitada. Assim não é possível. E agora que descobriu os prazeres do sexo, não sei onde vai parar. Aposto que foi para aquele idiota do John que você se entregou. Foi ou não foi?
John era um paciente completamente retardado. Não entendia nada do que falavam com ele e fazia tudo o que lhe mandavam. Se era para ficar deitado, ele ficava. Se era para balançar a cabeça, ele balançava. Se era para ficar parado na mesma posição o dia inteiro, ele ficava. E tudo isso sem se queixar ou reagir. Realmente, era o culpado perfeito.
Marianne ouvia o que o doutor Kramer dizia, porém, não conseguia responder. Era óbvio que John nada tinha a ver com aquilo, e sim Mike e Grandão, habituados a estuprar as internas. O doutor Kramer, contudo, jamais recriminaria aquelas práticas. Ao contrário, incentivava-as, como forma de manter os enfermeiros atentos e satisfeitos com o trabalho. Era um meio de compensá-los pela árdua tarefa que executavam.
Apesar de estimular os estupros, o doutor Kramer não podia simplesmente fingir que nada havia acontecido. Precisava fazer seus relatórios, para apresentá-los às autoridades competentes em dias de inspeção. Se Marianne aparecesse grávida algum dia, teria que ter uma desculpa convincente para dar a seus superiores. A culpa não podia recair sobre seu corpo de enfermagem, e um detento abobado e estúpido como John, sem condições de contestar, seria o culpado perfeito.
Era preciso também controlar e acalmar Marianne, que andava muito inquieta ultimamente. Daí o banho frio, que era considerado um ótimo tratamento para tranquilizar os doentes mais agitados. Na verdade, os banhos gelados eram mais uma das formas de entorpecer os detentos, que iam perdendo as forças e se entregando ao desânimo. Era uma terapia de choque, o choque térmico, que causava uma inércia dos sentidos e retardava os movimentos, tornando os enfermos momentaneamente dóceis e fáceis de controlar.
Imersa em água gelada, os olhos de Marianne começaram a fechar lentamente, e o doutor Kramer, percebendo a roxidão em seus lábios e ao redor dos olhos, decidiu que já era hora de tirá-la dali. James ergueu-a novamente e foi apanhar o cobertor, enrolando-a toda molhada e saindo com ela de volta para o quarto.
Deitou-a novamente na cama, sobre os lençóis ainda sujos, e saiu, deixando-a sozinha com sua dor. Ela não havia desmaiado, mas permanecera de olhos cerrados, com medo de que eles a imergissem outra vez. Muito lentamente, o efeito do frio foi passando, e o corpo retomando o calor.
Em lágrimas, Marianne olhou pela janela cheia de grades. Do lado de fora, o anão Escobar ainda perturbava Eric. Ele era o único de quem ela gostava, só que agora vivia a maior parte do tempo dopado ou amarrado na cama. Muito violento, era constantemente punido. Ainda assim, Eric tinha Escobar. O anão podia ser alguém irritante, mas, pelo menos, era alguém. Ela, por outro lado, não possuía ninguém.
Margot aparecia de vez em quando, dizendo coisas que ela não entendia. Contou-lhe uma história muito triste, algo sobre Lilian e um tal de Richard, e disse que não queria mais se vingar. Havia recebido ajuda e ia embora. Marianne ainda perguntou se ela não poderia ir embora também, mas Margot lhe dissera que só quando desencarnasse. Ela não entendeu, todavia, não disse nada. Compreendera o suficiente: não poderia sair dali. De qualquer forma, Margot prometera vir visitá-la, e era o que fazia, embora muito raramente e, assim mesmo, ficava apenas alguns poucos minutos.
Foi nesse momento de solidão e angústia que se lembrou de Luther. Por onde será que ele andava? Desde aquele dia, em seu quarto, Luther nunca mais aparecera. Uma vez ele lhe dissera que, se quisesse, poderia chamá-lo. Ela ficou em dúvida. Será que deveria? Por que não? Ele não disse que era seu amigo?
— Luther... — arriscou timidamente.
Não foi preciso chamar outra vez. Na mesma hora, Luther como que se materializou na frente dela, parado aos pés de sua cama.
— Como vai, amiguinha? — cumprimentou com voz sarcástica.
— Bem...
— Que bom que me chamou. Estava com muitas saudades.
Sufocada pelo pranto, Marianne não conseguiu responder. Luther se aproximou e colocou a mão em seus cabelos, falando com voz melíflua:
— Ora, Marianne, o que é isso? Não está contente em me ver?
— Ah! Luther, estou me sentindo tão sozinha! —disparou num desabafo. — Todo mundo me trata mal aqui. Queria tanto ver o Ross! Só ele me compreende.
— Acho que Ross não se lembra mais de você.
— Não é verdade. Ele é meu amigo.
— Se é seu amigo, por que não está aqui?
— Porque não pode.
— Por que não experimenta chamá-lo?
— Ele não pode me ouvir.
— Viu? Só eu posso ouvi-la e atendê-la. Logo, só eu sou seu amigo.
— É diferente. Você é um fantasma.
Luther soltou uma gargalhada. Para todos os efeitos, ele era o único fantasma que ela conhecia e, assim mesmo, porque ele lhe dissera. Como Marianne não sabia distinguir entre encarnados e desencarnados, os demais espíritos que via lhe pareciam tão vivos quanto ela.
— Se você não gosta de mim, por que resolveu me chamar? — retrucou ele, provocador.
— Não é isso. Gosto de você. E só que, às vezes, você me assusta.
— Oh! — debochou. — Desculpe-me, queridinha, não faço isso por mal. Mas é que já estou tão acostumado a ser mau...
Abafou um risinho sarcástico, e ela retrucou amuada:
— Se continuar assim, mando você embora outra vez.
— É mesmo? E quem mais, além de mim, vai querer ser seu amigo? Aquele retardado do Eric e seu anão idiota? Acho que não. No fundo, você sabe que sou o único aqui que pode defendê-la.
— Pode me defender do doutor Kramer e de Mike?
Se você quiser...
— Não gosto do doutor Kramer. Ele me lembra o professor O'Neill, só que é muito pior. Livrei-me do professor para cair nas garras desse médico...
Nesse momento, Mike entrou no dormitório. Vinha buscá-la para almoçar.
— Com quem está falando, sua doida?
Marianne olhou para Luther, que fez um sinal afirmativo com a cabeça, aproximando-se de Mike, e ela respondeu:
Com Luther.
— Luther? Esse é novo.
— Diga-lhe que vou lhe dar um tombo — tornou Luther.
— Ele disse que vai lhe dar um tombo — repetiu Marianne.
— É mesmo? E posso saber como é que ele pretende fazer isso?
Ao se aproximar da cama, Luther enfiou o pé na frente de Mike, e o enfermeiro, tropeçando nas próprias pernas, saiu cambaleando todo trôpego, tentando se segurar em qualquer lugar. Inútil, porém. Mike veio ao chão com estrondo, sob as gargalhadas sonoras de Luther e de Marianne.
O enfermeiro levantou-se aparvalhado e encarou Marianne, que ria sem parar. Não conseguia entender como tinha tropeçado. Olhou para o chão por onde passara, imaginando se Marianne não teria colocado ali algum objeto para que ele tropeçasse, mas não viu nada.
— Do que é que está rindo, imbecil? — revidou ele com raiva, dando-lhe uma bofetada no rosto.
Marianne levou a mão à face e olhou para Luther, na esperança de que ele fizesse alguma coisa para defendê-la. Luther, porém, ergueu as mãos para o alto, num gesto de desânimo, e afirmou:
— Lamento, Marianne, isso não é assim tão fácil. Tive que retirar uma boa dose de fluido desse idiota aí. Agora, não dá mais.
Ela não entendeu muito bem, mas não respondeu. Achou que era melhor não confiar tanto assim no auxílio de Luther. Sem dizer nada, suspirou e apanhou a camisola que Mike lhe estendia. Trocou-se e foi para o refeitório. Subitamente, sentiu que estava com fome, porque Luther lhe dera um passe que reequilibrara um pouco as suas energias.
O passe de Luther era algo bastante peculiar. Há muito aprendera a manipular certos fluidos a seu favor, de forma a injetar no indivíduo boas doses de ira, desânimo, ódio, ciúmes e toda sorte de sentimentos menos dignos. Esses fluidos, comumente, eram retirados dos próprios encarnados que, abarrotados de sentimentos difíceis, acabavam por fornecer a matéria-prima com que eram moldados seus próprios pensamentos destrutivos.
Luther também sabia reconfortar. Muitas vezes, é preciso reanimar um espírito, encarnado ou não, a fim de que ele possa cumprir o papel que lhe foi destinado pelas autoridades das sombras. E era desejo de Luther que Marianne ficasse bem e disposta, porque só assim ele poderia provocar ainda mais o seu sofrimento, com o qual pretendia levar a termo sua vingança. Se ela adoecesse, tinha certeza de que seus amigos do outro lado logo acorreriam, e isso não era de seu interesse.
Por isso, com a mesma eficiência com que manipulava fluidos pesados e densos, engendrava energias neutras da natureza para delas extrair os elementos que lhe favorecessem a aplicação de passes com resultados altamente benéficos e reconfortantes.

5
Muito pouco à vontade na sala de espera do doutor Kramer, David se remexia sem parar. Só estivera ali uma única vez, quando levara Marianne para a internação, e aquele retorno não lhe agradava em nada. Contudo, tinha que fazer a vontade da mulher, ou ela se divorciaria dele. A ameaça fora explícita, e ele conhecia Kate o suficiente para acreditar que ela cumpriria sua promessa.
Com medo de perdê-la, tomara aquela decisão. Marcara uma hora com o psiquiatra para esclarecer os fatos. Não acreditava nas palavras de Marianne e não temia pela sua segurança. Embora Kate e Ross acreditassem que o doutor Kramer puniria a menina se soubesse da carta, ele estava certo que não.
Esperou cerca de quinze minutos até que o médico aparecesse. Kramer estendeu-lhe a mão, que ele apertou timidamente, e se sentou do outro lado de sua pesada mesa. David pigarreou, completamente sem jeito, e começou a dizer:
— Lamento vir incomodá-lo, doutor Kramer, mas Kate insistiu... — o médico permanecia parado, olhando-o com ar frio, impassível. David pigarreou novamente e continuou: — E Marianne, como vai?
— Sua filha está indo muito bem — respondeu o médico de forma impessoal. — Tem feito excelentes progressos.
— Foi o que disse a Kate, mas ela insistiu...
— Insistiu em quê? Por favor, seja mais claro. Novo pigarro, e ele meteu a mão no bolso do sobretudo, retirando a carta de Marianne, toda amassada.
— Bem, doutor, é que Marianne escreveu essa carta ao meu sobrinho...
— Carta? — indignou-se Kramer, imaginando como a menina fizera para burlar a vigilância do hospital e passar, clandestinamente, uma missiva.
David estendeu a carta ao médico, que a apanhou rapidamente. Ajeitou os óculos e pôs-se a ler a letrinha miúda e insegura de Marianne. Estava tudo ali. Todos os castigos, desde os banhos gelados até os choques, as injeções, as camisolas, as correias de couro, as bofetadas, tudo, à exceção do estupro. Kramer pousou o papel sobre a mesa e, com um tremor que soube muito bem disfarçar, contemporizou:
— Não posso crer que o senhor tenha dado ouvidos a uma louca. Nossos métodos são os mais modernos em psiquiatria. Confesso que algumas terapias aqui descritas são realmente utilizadas, mas não da forma como Marianne descreve. Não são dolorosas nem têm intuito de punição. São elas que causam a melhora dos pacientes e aproximam sua filha da cura.
— Então é verdade? — surpreendeu-se David. — O senhor usa mesmo choques, injeções e bofetadas?
— São métodos terapêuticos. Menos as bofetadas, que são invenção da mente fantasiosa de sua filha. Posso assegurar-lhe que ela não sente nenhuma dor, a não ser uma sensação de indizível bem-estar. Após as terapias, os doentes apresentam visível melhora. O que acontece é que sua filha, como muitos outros, não quer ser controlada, não quer se submeter às regras do hospital. Prefere ficar solta, sem controle, para fazer o que bem quer.
— Foi o que imaginei. Minha mulher e meu sobrinho, contudo, ficaram muito impressionados com o que Marianne descreve na carta.
— Pois pode voltar para casa e tranquilizá-los. Marianne, como os demais internos, é muito bem tratada aqui. Distorceu a verdade só para impressioná-los e provocar, quem sabe, a sua compaixão. Os enfermeiros nunca maltrataram os pacientes. São até bem cuidadosos. Mas o senhor há de convir que temos loucos muito violentos aqui e que precisam ser contidos, para sua segurança e dos demais. Os enfermeiros são enérgicos, sim, mas violentos, jamais.
— Tem razão...
— Os banhos são uma forma de tratamento que acalma o paciente. E, cá entre nós, água nunca matou ninguém, não é verdade? — ele fez uma expressão de regozijo e acrescentou em tom sarcástico: — Só se os afogássemos, o que não é o caso.
— Marianne fala de choques e injeções.
— O senhor não é médico e não está a par dos recentes avanços em psiquiatria. O eletrochoque é uma invenção moderna, amplamente utilizado nos mais conceituados hospitais de toda a Europa. E indolor, totalmente indolor.
— Sim...
— Quanto às injeções... bem, essas são, realmente, necessárias para aplicação dos medicamentos. Mas quem é que gosta de levar umas espetadelas, hein? Com certeza, ninguém. Nem o senhor.
- É verdade.
Durante mais de uma hora, o doutor Kramer explicou a David a finalidade e a função de cada terapia. Não estivesse David tão apressado em deixar o hospital e se livrar daquela situação, teria percebido o ar de insanidade que acompanhava os gestos do médico. Ao final da entrevista, David se deu por satisfeito.
— Bem se vê que o senhor é um psiquiatra muito competente — afirmou. — Tenho certeza de que tudo o que faz é para o bem de Marianne.
— Sem dúvida! Se quiser, pode constatar por si mesmo.
— Não precisa, obrigado. Confio inteiramente na sua palavra.
— Não vai se arrepender por essa confiança, asseguro-lhe.
— Quanto à carta, posso confiar também que Marianne não sofrerá nenhum tipo de punição.
— Por Deus, é claro que não!
— Ótimo. Só mais uma coisa. Minha mulher está arrependida de ter internado Marianne e pode tentar soltá-la sem o meu consentimento. O senhor, por favor, não permita, a menos que eu autorize.
— Fique tranquilo. Marianne só sai daqui com a sua autorização pessoal.
Exibindo um sorriso forçado e falso, o doutor deu por encerrado aquele encontro. Esperou até que David saísse e apanhou a carta de Marianne, que ele esquecera de pegar de volta. Picou-a em vários pedacinhos e saiu feito uma bala.
Ela estava na pequena sala de jogos, em companhia de Eric, enquanto o anão Escobar tentava atirar uma bola plasmada na cabeça do menino. O médico se aproximou e, com semblante endurecido, ordenou:
— Venha comigo.
Marianne levantou-se de um salto e saiu correndo para o outro lado, com medo da incomum aparição do médico, que não podia significar boa coisa. Os enfermeiros saíram atrás dela e a dominaram, levando-a até ele.
Lá se foi Marianne de novo para o porão, para a sala dos castigos, onde seria amarrada e levaria choques e injeções, ao som da Sonata ao Luar. Terminada a sessão, Marianne voltou para o dormitório, completamente aturdida, e foi amarrada na cama. Acordou horas mais tarde e, ao abrir os olhos vagarosamente, viu Luther sentado na cama ao lado.
— Viu o que aconteceu? — indagou Luther com ar mordaz.
— Não entendo — choramingou ela. — O que foi que eu fiz dessa vez?
— Você foi traída.
— Como assim, traída?
— Lembra-se da carta que escreveu para Ross? Aquela que mandou pela sua mãe? — ela assentiu.
— Pois o seu queridinho entregou-a ao médico.
— Não acredito — protestou ela com veemência.
— Ross não faria uma coisa dessas.
— É o que você pensa.
— Pode ter sido minha mãe.
— Não foi ela, tenho certeza. Foi o Ross. Ele é falso, não gosta de você.
— Está mentindo, Luther. Por que está fazendo isso? Vá embora, vá!
Ouvindo as acusações de Luther, Marianne sentiu imensa raiva do espírito. Por mais que ele tentasse ser convincente, o amor e a confiança que ela e Ross nutriam um pelo outro era a única coisa que não fazia sua mente vacilar. Ninguém jamais conseguiu ou conseguiria envenenar o sentimento que os unia. Ao perceber que havia dado um passo errado, Luther achou melhor não insistir. Simplesmente esvaneceu no ar, deixando no ambiente resquícios de uma vibração densa e sufocante.
Em casa, David contou a Kate parte da conversa que tivera com o doutor Kramer, omitindo que havia lhe revelado a existência da carta.
— Por que não a trouxe de volta? — vociferou ela, mal contendo a decepção por não ver Marianne chegar com ele.
- Ela está muito bem lá.
- Você a viu? – ele meneou a cabeça. – Então como sabe? E os castigos?
- Que castigo? Não há castigo algum. O doutor Kramer foi muito gentil em perder o seu tempo comigo e me explicar cada uma das terapias. São métodos modernos utilizados em toda a Europa.
- E você acreditou?
- Por que não acreditaria? Vamos, Kate, deixe disso. Fiz como lhe prometi: fui ver o dr. Kramer e posso lhe assegurar eu Marianne está em muito boas mãos.
Kate estacou desanimada. Se quisesse salvar sua filha, não podia contar com o marido. Estava tão decepcionada com ele que nem conseguiu mais conversar. Afastou-se acabrunhada e só recuperou um pouco da animação quando Ross chegou, no dia seguinte, para irem juntos visitar Marianne.
- E agora, tia? O que vamos fazer?
Kate não sabia. Foi com ele para o hospício, levando presentes de Natal para a filha. Para fugir do frio, as visitas foram transferidas para o salão de jogos, onde a maioria dos internos recebia os visitantes sem muito interesse. Marianne, como muitos outros, estava sentada em frente à janela, observando os primeiros flocos da neve que começava a cair.
- Olá, Marianne – disse uma voz atrás dela.
Reconhecendo aquela voz, ela se virou abruptamente, atirando-se no pescoço de Ross e cobrindo-o de beijos.
- Eu sabia! – exclamou. – Você veio.
- Está se tornando uma moça muito bonita, Marianne – elogiou ele.
- Você é lindo. Meu príncipe...
Kate permanecia parada mais atrás, olhando-os com admiração e discretas lágrimas nos olhos.
— Não vai falar com sua mãe? — indagou ele.
— Para quê? Você está aqui.
— Tia Kate tem sentido muito a sua falta.
— Mentira. Primeiro, ela me colocou aqui. Depois, entregou a carta ao doutor Kramer.
— Sei que você não é uma menina rancorosa. Vamos, ao menos diga-lhe alô.
Ela não queria. Mas também não queria contrariar Ross. Por isso, olhou para a mãe e sorriu, o que estimulou Kate a ir em sua direção. Marianne se arrependeu. Queria ficar a sós com Ross, e a mãe agora ia atrapalhar tudo.
Kate não fez nada do que Marianne esperava, dando-lhe apenas um beijo carinhoso na face. Alisou os seus cabelos e perguntou como estava. Marianne deu de ombros, e Kate, virando-se para o sobrinho, finalizou:
— Espero você lá fora.
Saiu a passos vagarosos. Sofria muito também. Sofria por ter colocado a filha ali e sofria pela sua indiferença. Depois que ela sumiu de vista, Ross olhou para os lados e perguntou:
— Não quer dar uma volta?
Ele queria sair das vistas dos enfermeiros. Marianne assentiu e se levantou, e os dois foram se encaminhando para a porta que levava ao jardim. Na mesma hora, Grandão os deteve e indagou carrancudo:
— Aonde é que pensam que vão?
— Lá fora — respondeu Ross firmemente, sustentando o seu olhar de mau. — Vamos dar uma volta, tomar um pouco de ar.
— Está fazendo frio.
— Trouxe um casaco para Marianne.
Mesmo a contragosto, Grandão não os impediu. Não era aconselhável provocar a família de Marianne, uma das poucas que podiam trazer problemas ao doutor Kramer. A neve caía bem fininha, e eles saíram para a friagem, seguidos pelo olhar do enfermeiro. Ross ajeitou o casaco sobre os ombros de Marianne, e foram para o jardim.
— Luther me contou da carta — confessou ela. — Disse que foi você que a entregou, mas sei que você não faria isso. Desconfio que foi aquela mulher, minha... mãe.
Embora Ross não soubesse quem era Luther, achou melhor não perguntar.
— Não foi sua mãe — afirmou. — Foi seu pai. Tio David acreditou na palavra do doutor Kramer.
— Ele me castigou. Fez aquelas coisas comigo de novo...
Ross parou no meio do jardim e olhou para o edifício, onde Grandão permanecia observando-os.
— Vou tirar você daqui, Marianne. Daqui a pouco, faço dezoito anos. Vamos fugir e nos casar.
Num impulso de amor genuíno, Ross puxou-a para si e, pela primeira vez, beijou-a com paixão, como um homem beija uma mulher. Ela correspondeu ao beijo com ardor e se apertou contra ele, mas logo ouviram a voz estrondosa de Grandão, gritando da soleira da porta:
— Vamos parar com essa sem-vergonhice, vocês dois! Ou querem que eu vá até aí?
Afastaram-se, Ross com medo do que pudesse acontecer a Marianne. Ela, em sua inocência e temor, não teve coragem de contar a ele o que Mike e Grandão haviam feito. Escutara os enfermeiros conversando sobre virgindade e ouvira um deles dizer que homem decente não se casava com mulher que não fosse mais virgem. Ela não entendia muito sobre virgindade, até que uma das internas mais velhas lhe explicou. Temendo que Ross não a quisesse por não ser mais virgem, preferiu guardar segredo.
Aproveitaram ao máximo o tempo de visitas.
Quando Ross foi obrigado a partir, Marianne se atirou na cama e chorou. Ross, por sua vez, seguiu contrariado, um aperto no coração causado pela revolta de ver Marianne naquele lugar horroroso. Tinha que fazer alguma coisa para libertá-la. Se pudesse, libertaria todos os enfermos. Não era crível que pessoas pudessem dar tratamento tão indigno a seus semelhantes. Pensar nos internos do hospício causou-lhe grande revolta e a certeza de que seria capaz de mover céus e terra para tirar Marianne dali.
No dia seguinte, Kate foi sozinha falar com o doutor Kramer. Pretendia, ela mesma, libertar Marianne. Não dissera nada a ninguém, nem a Ross. Kramer a recebeu com cerimônia e frieza. Esperou até que ela dissesse tudo o que tinha a dizer e, no final, rebateu com ar gélido:
— Lamento, senhora Landor, são ordens expressas do seu marido. Marianne só sai daqui com a autorização dele.
Arrasada, Kate não tinha como contra-argumentar. O doutor Kramer foi categórico e muito pouco amigável. Ela voltou para casa remoendo a desilusão e, quando David chegou do trabalho, despejou sobre ele toda a sua raiva e frustração:
— Você não tem o direito de me impedir de levá-la!
— Fiz isso para a proteção de todos.
— Mentira. Fez isso porque é egoísta, mesquinho e cruel.
— Pouco importa, Kate! — esbravejou ele, já cansado daquele drama. — Marianne é louca e vai ficar onde está.
— Acho que você não se lembra do que lhe disse.
— O quê? Que vai me deixar? Essa ameaça não me impressiona mais. Você não tem como sustentar três crianças sozinha.
Kate sentiu a mágoa e a raiva inflarem seu peito, remoendo o desejo de cumprir a promessa e partir dali com os outros filhos. Todavia, ele tinha razão. Quando fizera aquela ameaça, não falava realmente a sério. Era uma mulher sem posses. Não tinha como trabalhar com três crianças para cuidar e ainda se preocupar com Marianne.
Com um olhar glacial, Kate foi dormir no quarto vazio de Marianne. A partir daquele dia, nunca mais voltou a dormir com David. Naquele momento, algo dentro dela se rompeu, como se os vínculos que a ligavam ao marido houvessem se partido.
O arrependimento levava-a a compreendera necessidade de amor e a reformular sua antiga opinião sobre a loucura. Os procedimentos do passado não mais encontravam eco na mente ou no coração de Kate. Estava agora distante das crenças do passado, vendo a loucura e os loucos com outros olhos, sensível ao seu sofrimento e desejosa de possuir meios para ajudá-los a todos.
Foi essa dissociação que provocou um rompimento entre ela e o marido. Enquanto David permanecia ainda arraigado aos sentimentos do passado, Kate já começava a se libertar e, em seu íntimo, começou a idealizar um plano para salvar Marianne... sua filha.

6
Os feriados de Natal haviam terminado, e Ross acabou de arrumar as malas para voltar à escola. Partiria no dia seguinte, bem cedo, não sem antes falar com Kate. A tia o recebeu com um entusiasmo exacerbado e o levou para o quintal, onde poderiam conversar mais à vontade. Apesar do frio, não estava nevando, e o sol se insinuava pelas nuvens, deitando um pouco de calor sobre a cidade gélida.
Tomei uma decisão, Ross — afirmou ela com segurança. — Vou soltar Marianne.
— Como, se tio David não consente?
— Não preciso do consentimento dele. Vou usar meus próprios métodos.
— Que métodos?
— Tenho tudo planejado. Vamos tirar Marianne de lá... você e eu.
— Impossível. Pensa que já não pensei nisso? Observei bem o hospício e posso lhe garantir que ele é muito bem vigiado.
— Pois vamos burlar essa vigilância. Basta que prestemos um pouco de atenção aos controles de entrada e saída e ajamos com rapidez. Não pode falhar.
Em detalhes, Kate contou a Ross o seu plano. A ideia era simples e arriscada, mas podia dar certo.
Depois que ela terminou, Ross segurou sua mão e exprimiu com profundo respeito:
- Você é uma mulher de muita fibra, tia Kate. Estou orgulhosa de você.
Ela enrubesceu e enxugou duas discretas lágrimas que insistiam em cair.
- Sou mãe. Jamais deveria ter consentido em submeter minha filha a tratamento tão desumano.
- Ainda há tempo de consertar isso. Sua idéia é boa e vai dar certo. Pode deixar que falarei com meus amigos da escola. Tenho certeza de que concordarão em ajudar.
- Ótimo.
- Difícil vai se esperar até o fim das aulas.
- Precisamos ter calma. Se nos precipitarmos, poderemos pôr tudo a perder. Em breve você fará dezoito anos, terminará a escola e ninguém mais poderá mandá-lo para longe.
-Papai quer que eu faça faculdade. Se eu for, levarei Marianne comigo, como minha mulher.
Kate sorriu agradecida e admirada com tanta maturidade num moço tão jovem.
- É isso mesmo o que quer? Casar-se com Marianne.
— Minha vida sem ela não tem sentido algum.
— É muito bonito esse seu amor por Marianne. Qualquer outro, no seu lugar, não estaria mais pensando nisso. Ainda mais porque não sabemos se o problema dela é hereditário.
— Que seja. Não me importo. Contento-me com o que Deus tiver reservado para mim.
Ela deu um beijo discreto na face de Ross e finalizou:
— Obrigada, meu filho. Sem você, eu não conseguiria enfrentar a minha culpa.
Ross foi para casa. Ao chegar, o pai e Lilian estavam reunidos para o jantar. Cumprimentou-os brevemente e tomou a direção do quarto.
— Não vem jantar? — indagou Nathan.
— Não estou com fome.
Depois que ele se foi, Lilian queixou-se ao marido:
— Esse menino anda muito estranho. Aposto que Kate coloca uma porção de bobagens na cabeça dele.
— Ross já é um rapaz. Não se deixaria influenciar por ninguém.
— É um rapaz tolo e sentimental. Ainda pensa que gosta de Marianne.
— Mas ele gosta.
— Que rapaz bonito e rico feito Ross vai querer perder seu tempo com uma louca? Kate é que deve estar fazendo alguma chantagem com ele. Você não devia permitir que ele a visite.
— Perdi o controle sobre Ross. Ele não me obedece mais.
— E por causa disso permite que ele e Kate falem de mim pelas costas?
— De onde tirou essa ideia? Aposto como eles nem tocam no seu nome.
— Duvido. Aquela mulher me odeia.
— Como se você gostasse dela — murmurou.
No dia seguinte, bem cedo, Nathan foi levar Ross de volta à estação de trem. Os feriados tinham terminado, e havia ainda um semestre inteirinho de aulas antes da formatura. Era preciso paciência e uma boa dose de sangue frio para, sabendo o que ele sabia, aguardar o momento oportuno para agir.
O plano para libertar Marianne parecia perfeito, contudo, a espera é que seria longa demais, inclusive para Kate. Daquele dia em diante, ela e David se tornaram praticamente estranhos, e todo cuidado era pouco para que ele não descobrisse suas intenções.
No domingo seguinte, quando Kate chegou ao hospício, foi informada de que Marianne estava doente e não podia receber visitas.
— Quero ver minha filha — disse imperiosa ao atendente na mesa de recepção, de onde não lhe permitiram passar.
— Lamento, senhora, mas tenho ordens para não deixá-la entrar — avisou o atendente.
— Como assim? Sou a mãe dela.
- Marianne não está bem. E, no estado em que se encontra, está impossibilitada de receber visitas.
— Não me interessa. Quero vê-la agora.
— Sinto muito...
— Escute aqui, rapaz! Ou você me deixa ver Marianne , ou vou daqui direto para a polícia e digo que vocês sumiram com a menina. Vocês têm que me dar conta da minha filha!
O atendente não estava gostando nada daquilo. Recebera ordens de não deixar ninguém passar para ver Marianne e nem sabia por quê. Entretanto, não lhe disseram que teria que lidar com a polícia.
— Aguarde só um minuto. Vou ver se o diretor pode atendê-la.
Saiu apressado, deixando Kate furiosa no saguão de entrada. Prevenido, o doutor Kramer quis ignorar a presença dela, só não o fazendo porque não queria a polícia bisbilhotando em seus assuntos. Marianne não estava realmente doente. Recebera uma forte dose de láudano e entrara em choque. Por pouco, não a perdia.
Minutos depois, ele apareceu. Veio com um sorriso idiota no rosto e mandou que a deixassem entrar. Kate teve que se conter para não esbofetear a sua cara macilenta e vermelha.
— Senhora Landor — disse ele com disfarçada cortesia —, lamento o transtorno. É que não são permitidas visitas na ala das enfermarias, para evitar qualquer tipo de contaminação.
— Só o que quero é ver minha filha. Tenho esse direito. Não sou visita, sou a mãe dela. Ou o senhor me deixa entrar, ou vou à polícia.
Ele balançou a cabeça e indicou-lhe o caminho da enfermaria. Kate seguiu em silêncio, rezando para que Marianne estivesse bem. Enquanto seguiam, o médico ia falando:
— Marianne teve um choque súbito. Talvez tenha sido algo que comeu.
— Desde quando comida causa choque súbito? Francamente, doutor, posso não entender nada de medicina, mas não sou estúpida.
Alcançaram a enfermaria, e ele empurrou a porta vagarosamente, dando-lhe passagem. Foram andando pelo corredor formado entre as camas, e a visão lastimável dos vários doentes jogados ali lhe causou imenso mal-estar. Contendo a revolta, a indignação e a compaixão por toda aquela gente, Kate foi caminhando, até que chegaram ao leito de Marianne. Ao vê-la, Kate levou um susto. Ela estava pálida feito cera, os olhos cerrados circundados por imensas e fundas olheiras.
— O que há com ela? — indagou assustada. A enfermeira não sabia o que dizer e fitou o médico, que respondeu com aparente calma:
— Como lhe disse, ela teve um choque súbito. Parecia estar bem, até que começou a gritar e desmaiou. Foi trazida para cá e medicada, mas ficou assim.
Kate examinou bem o rosto de Marianne, que mais parecia uma morta-viva.
— Que espécie de profissionais vocês têm aqui, doutor Kramer, que não sabem cuidar de uma doente? — tornou ela com raiva.
O sangue subiu às faces de Kramer, mas ele disfarçou e retrucou com voz que mal continha a ira:
— Nossos enfermeiros são muito capazes e treinados. Contudo, lidam com loucos, que, como a senhora sabe, são imprevisíveis.
Kate virou-lhe as costas e aproximou-se da cama da filha, sentindo-lhe a fraca respiração. Com lágrimas nos olhos, abaixou-se perto dela e beijou-a na face, surpresa com a frieza e a aspereza de sua pele.
— Não se preocupe, Marianne — sussurrou bem baixinho em seu ouvido, de modo que somente ela pudesse ouvir. — Ross e eu vamos tirá-la daqui.
Ela pareceu compreender, porque um leve tremor agitou os seus lábios, mas não pôde falar. Kate afagou seus cabelos e se virou para sair, lutando para conter o pranto. Já no corredor, encarou o doutor Kramer e disparou:
— Não pense que me convenceu com a sua história, doutor, porque não convenceu. Por ora, contudo, não há nada que eu possa fazer além de lhe dar um aviso: cuidado com seus métodos. Se alguma coisa acontecer a minha filha, venderei tudo o que tenho para pagar o melhor advogado da Inglaterra e me certificar de que o senhor seja preso por tempo suficiente para que nunca mais possa atingir ninguém. Entendeu?
Sem esperar resposta, rodou nos calcanhares e saiu a passos firmes, deixando Kramer indignado e furioso com o seu atrevimento. Naquele momento, veio-lhe a certeza: não podia libertar todos os loucos do hospício, mas poderia, ao menos, livrá-los do doutor Kramer.

7
Os seis meses seguintes pareceram a Ross uma eternidade. Em meados de abril, completou dezoito anos, satisfeito com a maioridade, que, finalmente, lhe permitiria casar-se com Marianne. O fim do ano letivo também se aproximava, e a formatura não tardaria. Quando saísse da escola, arranjaria um bom emprego, talvez num banco, onde ganhasse o suficiente para sustentá-la. Mais tarde, quem sabe, ingressaria na universidade.
Um dia, logo após a prova de matemática, Ross chamou os rapazes para uma conversa.
— Vocês são meus amigos? — perguntou.
— Você sabe que sim — respondeu Vincent.
— Por que a pergunta? — estranhou Arnold.
— Todos sabem de meu amor por Marianne, não sabem? — eles assentiram. — Pois vou precisar da ajuda de vocês.
— Que espécie de ajuda? — tornou Arnold, inquieto.
— Tia Kate e eu temos um plano para tirar Marianne do hospício. Só que, sozinhos, não conseguiremos realizá-lo.
— Você ficou louco? — objetou Arnold. — Quer que sejamos presos?
— Ninguém vai ser preso. Se fizerem tudo direitinho, todos sairemos muito bem.

—- E se alguém descobrir? — opôs Vincent.
— Ninguém vai descobrir — continuou Ross. — Tia Kate planejou tudo direitinho. Nada pode dar errado.
— Quero primeiro saber que plano é esse — pediu Arnold.
— Tudo bem. O plano de tia Kate é muito simples, porém, seguro. Todos os domingos, dia de visita, os visitantes são obrigados a dar seus nomes na entrada, e um atendente vai anotando num livro, junto com a hora de chegada. Na saída, dão o nome de novo, e ele anota a hora de saída na coluna ao lado do nome respectivo. É assim que controlam quem entra e quem sai.
Quando Ross terminou de contar o plano de Kate, os amigos o fitaram com admiração e respeito. Era uma ideia ousada, que tinha tudo para dar certo. Se cada um cumprisse bem o seu papel, nada poderia sair errado.
— Muito bem — falou Arnold. — Conseguiu me convencer. Vou adorar participar da encenação. Acho que vai ser divertido.
— Eu também — concordou Vincent. — O plano é arriscado, mas é o perigo que traz a emoção. Pode contar comigo.
Com a concordância dos amigos, Ross dedicou-se às provas, riscando no calendário os poucos dias que faltavam para o término das aulas.
Rapidamente, Marianne se recuperou da superdose da droga e voltou ao dormitório. Registrara na mente algumas palavras, que pareciam ter sido ditas num sonho: Ross e eu vamos tirá-la daqui. Era a voz da mãe. Marianne animou-se com aquela promessa e tentou conversar com Kate, que não lhe deu chance de falar, temendo que ela estragasse tudo. E como Kate não voltara a tocar no assunto, ficou imaginando se não teria sido obra de algum de seus amigos invisíveis, como os enfermeiros os chamavam. Por isso, em pouco tempo, a promessa caiu no esquecimento, e ela retornou à indiferença.
Os amigos invisíveis também haviam escutado aquela história e não estavam nada satisfeitos. Principalmente Luther. Não era de seu interesse que Marianne saísse do hospício, onde eles tinham livre acesso a ela, principalmente para ir viver com Ross. O amor do menino era suficiente para estragar seus planos. Com a insuportável onda de amor que emanava do coração de Ross, ficaria praticamente impossível, para eles, atuarem sobre ela.
Não foi por outro motivo que Luther intensificou seu assédio. Não podia facilitar, e estar junto dela, sempre que possível, era essencial naquele momento. Com esse intuito, aproximou-se novamente.
— Olá, Marianne — cumprimentou, sentando-se ao lado dela e de Eric no jardim.
Eric também já se acostumara com Luther e não estranhou sua presença ao lado de Marianne.
— Olá, Luther — respondeu ela, sem muito interesse. — Andou sumido.
— É verdade. É que sou um homem muito ocupado e tenho uma cidade inteira para comandar.
— Você comanda uma cidade? — espantou-se Eric.
— Luther é uma pessoa importante — esclareceu Marianne.
— Quero falar com você a sós, Marianne — continuou o espírito.
— Agora não estou com vontade. Eric e eu estamos observando os pássaros. Temos que aproveitar enquanto Escobar não está aqui. Daqui a pouco ele volta...
Não lhe deu tempo de concluir. A um gesto seu, duas sombras que os olhavam à distância se aproximaram de Eric e colocaram a mão em sua nuca.
Na mesma hora, o menino começou a espernear e a xingar, atraindo a atenção dos enfermeiros. James e Grandão, a muito custo, conseguiram contê-lo, e Mike lhe aplicou uma injeção calmante. O menino foi-se acalmando e adormeceu, até que os enfermeiros o ergueram e o levaram para dentro.
— Isso não se faz, Luther — censurou Marianne.
Os enfermeiros a ouviram repreender o invisível e deram um riso debochado. Marianne não se cansava. Sempre falando com seus fantasmas.
— A culpa foi sua — objetou ele. — Eu disse que queria falar a sós com você.
— O que é?
— Não quero que você saia daqui.
— Quem disse que vou sair daqui?
— Você não pode me deixar — prosseguiu ele, após alguns segundos em que permaneceu encarando-a. — Não depois do trabalho que tive para encontrá-la.
— Você não me respondeu — tornou ela desconfiada. — Quem disse a você que vou sair daqui?
— Ninguém me disse nada. Só que quero lhe dar um aviso. Não posso levar você comigo, mas posso fazer com que jamais se esqueça de mim.
Afastou-se aborrecido. Estava prestes a perdê-la, o que o irritava sobremaneira. Logo em seguida, dois outros vultos apareceram e se colaram a Marianne. Ela os viu se aproximar e tentou fugir.
— Por que é que não me deixam em paz? — esbravejou ela — Não estou com vontade de companhia hoje.
Os vultos nada disseram. Colados a ela, começaram a sugar as suas forças e a dominar os seus centros nervosos. Em breve, a subjugaram. Quase inconsciente, Marianne saiu correndo pelo jardim e foi ao encontro de Mike, que já havia voltado lá de dentro. De frente para ele, Marianne rasgou a roupa e começou a gritar-lhe palavras obscenas, que nem conhecia.
Mike se assustou. Era a primeira vez que ela fazia aquilo. Marianne costumava ser uma menina tímida. Agressiva, porém, tímida, e nunca se comportara de maneira a chamar a atenção. Ao contrário, vivia quieta e calada, e só reagia quando provocada.
Confuso, Mike tentou contê-la, segurando-a pelos punhos. Ela se debateu e falou espumando:
— O que há, covardão? Perdeu o desejo por mim, foi?
Atirou-se contra ele, tocando em suas partes íntimas e tentando lamber o seu pescoço, mas ele conseguiu afastá-la.
— Acalme-se, Marianne! — repreendeu ele, em tom ameaçador.
Desvencilhando-se dele, Marianne saiu correndo pelo jardim, com a camisola rasgada, e aproximou-se de outro doente. Era John, o menino retardado com quem disseram que ela havia feito sexo. Ele estava sentado na grama, e ela saltou em cima dele, fazendo-o deitar-se de costas. Sentada sobre ele, levantou a camisola rasgada e começou a esfregar os seios em seu rosto, enquanto ele tentava afastá-los, para não sufocar. Os enfermeiros, achando a cena engraçada e picante, diminuíram o passo, rindo e já começando a ficar excitados. John soltava grunhidos estranhos, feito um animal, deixando Marianne cada vez mais irritada.
John começou a se debater e, à medida que se agitava, Marianne pulava sobre ele, como se o estivesse cavalgando. Mike e Grandão riam cada vez mais, pensando em qual dos dois, naquela noite, seria o primeiro a se aliviar com Marianne. Estava claro que a menina tomara gosto pela coisa e tentava provocá-los para que eles a possuíssem.
— Muito bem — disse Mike a Grandão. — Se é disso que ela gosta, faremos a sua vontade. A noite hoje vai ser quente, meu amigo. Que tal se a levarmos para a lavanderia? Lá, a farra pode ser muito melhor. Podemos até arrumar uma outra para incrementar a coisa.
Grandão ria gostosamente, levando a mão à barriga, quando escutaram gritos agoniados. Olharam ao mesmo tempo e desataram a correr. Completamente fora de si, Marianne batia com a cabeça de John no chão, gritando e xingando-o dos palavrões mais feios.
Logo, os dois enfermeiros chegaram com a camisola e a prenderam. Com medo de dopá-la em demasia, ergueram-na e saíram com ela, ainda se debatendo.
— O que faremos? — indagou Grandão. — O doutor Kramer está lá embaixo com Eric.
— Vamos amarrá-la na cama e esperar. Ele nos dirá o que fazer.
Duas horas depois, Marianne entrava de novo no quarto do porão, ao som da Sonata ao Luar. Assim que entrou, Eric saiu na outra maca, e os espíritos se descolaram dela, provocando uma lucidez súbita. Ela ainda os via, contudo, não sentia mais vontade de fazer aquelas coisas e logo se deu conta do que estava para acontecer. Começou a chorar e a se debater.
— Não adianta chorar — repreendeu um dos espíritos. — São ordens de Luther. Você tem que pagar!
— Pagar...? — balbuciou ela. — Não lhe devo nada.
— Cale a boca, Marianne! — esbravejou o doutor Kramer, impaciente. — Não tem ninguém aí. Você já me causou problemas demais. Quem vai me pagar é você. E nem um pio a sua mãe, ouviu? Ou dou um jeito de acabar com a sua vida sem levantar suspeitas.
Marianne olhava do médico para os espíritos, que riam sarcasticamente. De repente, Luther surgiu diante dela, rindo também.
— Não adianta, Marianne — falou ele com ar aterrador. — Não vou deixar você sair impunemente. Quer ir embora? Que vá. Mas não sem antes passar por toda sorte de sofrimentos que eu puder lhe impingir.
— Por que está fazendo isso? — tornou ela magoada. — Pensei que fosse meu amigo.
— Amigo? Besteira! Você é minha inimiga. Sempre foi! E agora chegou a hora de me pagar!
— Não, não! — gritava ela, enquanto os enfermeiros passavam as correias ao redor de seus punhos. —Não vou pagar nada, não vou!
Pensando que Marianne se referia a ele, Kramer respondia com ar de mofa:
— Ah! vai sim. Vai me pagar por toda humilhação que me fez passar diante de sua mãe.
— Não! Não!
Enquanto ela gritava, o doutor Kramer mandou que aumentassem o volume do fonógrafo, dando início a mais uma de suas sessões de tortura. Marianne sentiu uma picada no pescoço, e tudo a sua volta começou a rodar. Como se isso não bastasse, veio a violência do choque em sua cabeça, e ela foi perdendo a consciência, enquanto a música estourava em seus ouvidos e as gargalhadas de Luther e dos outros vultos invadiam a sua mente.
— Bem feito! — rugia Luther. — Quis se livrar de mim? Pois agora vai ver só! Prometo muitas sessões diárias de castigos. Eu prometo... prometo...
A voz de Luther foi sumindo, sumindo, até que cessou por completo. Marianne cerrou os olhos e apagou, pensando se não seria melhor morrer.

8
A formatura de Ross transcorreu em clima de entusiasmo e muitos planos para o futuro, dos quais Nathan não tinha conhecimento. Somente o pai estivera presente à cerimônia e voltara às pressas para Londres, pois teria que partir em viagem de negócios a Southampton na segunda-feira de manhã.
— Mal vejo a hora de voltar para casa — anunciou Ross eufórico, enquanto acompanhava o pai à estação de trem.
— Espere eu voltar de Southampton — contrapôs Nathan.
— Por quê? Agora que as aulas terminaram, não tenho mais motivos para permanecer em Oxford.
— E a universidade?
— Já conversamos sobre isso. Para o ano, quem sabe?
— Não devia estragar a sua vida por causa de Marianne.
— Você não entende mesmo, não é, pai? Não percebe que, sem Marianne, minha vida já está estragada?
— Não compreendo. Um menino que tem tudo. Como foi se apaixonar pela prima louca?
— Quem disse que estou apaixonado por ela?
— Ninguém precisa dizer. Sou um homem experiente, sei das coisas. E é por isso que lhe digo que esse romance com Marianne não vai levar a lugar nenhum. Ela é doente, e você, muito jovem para cuidar de uma menina assim. Não é possível que não tenha conhecido outras garotas.
— Outras garotas não me interessam. Você tem razão, sou mesmo apaixonado por Marianne. É algo que não posso explicar.
— Vocês foram criados juntos. Não está misturando os sentimentos? Não é porque é mais velho e, por isso, sente-se responsável por ela?
Ele pensou durante alguns momentos, até que meneou a cabeça e considerou:
— Não é que me sinta responsável. Sinto-me protetor e sei que essa proteção vem do amor que tenho por ela. Quando estamos juntos, tenho vontade de beijá-la e estreitá-la. Isso não é amor?
Nathan não respondeu. Não conseguia compreender aquele sentimento e era melhor não questionar. O que o preocupava naquele momento era a reação de Lilian quando Ross voltasse para casa. Sem ele para contornar as coisas, temia uma catástrofe em seu lar. Ao menos fora o que Lilian lhe dissera. Planejando um fim de semana a sós com o amante, convencera o marido a impedir a volta de Ross até que ele retornasse de sua viagem de negócios cuidadosamente arranjada para Southampton.
— Você já está um homem — afirmou Nathan após alguns minutos de reflexão. — Não posso mais mandar em você. Nem Lilian.
— Ela nunca mandou em mim — revidou ele com raiva. — Francamente, pai, não sei como suporta aquela mulher mesquinha e fútil.
— Sou casado com ela.
— Isso não é desculpa. Devia se impor, ao invés de permitir que ela lhe dê ordens e faça exigências. Lilian é insuportável. Por causa dela, tive que me afastar de tia Kate.
— Também sinto falta de meu irmão, contudo, não posso contrariar minha esposa. Não se esqueça de que sua tia a desfeiteou.
— Só você para acreditar numa infâmia dessas.
— Não importa, Ross. Isso tudo é passado. A situação entre você e Lilian permanece a mesma. E é para evitar desavenças que peço a você que aguarde a minha volta. São só cinco dias.
— Posso ficar com tia Kate.
— Por favor, não...
— Pensando bem, acho que é isso mesmo que vou fazer. Vou tomar o trem direto para a casa dela.
— Não faça isso, eu lhe imploro — suplicou Nathan, com angústia na voz. — Não posso perder o meu filho.
— Passar uns dias na casa de meus tios não vai fazer você me perder.
— Tenho medo de que, acostumando-se ao ambiente de sua tia, você não volte mais para casa.
— Você está é com ciúmes.
— Que seja. Mas você não pode, ao menos uma vez, fazer a vontade de seu pai? Depois que eu voltar, você poderá fazer o que quiser da sua vida. Por favor... Você é tudo que me resta.
— E sua mulher? — tornou com desdém.
— Não é a mesma coisa. Lilian é minha esposa. Você é meu sangue. Conto com você para me ajudar a suportar os meus dias.
— Você não quer admitir que sua vida com Lilian está se tornando insuportável, não é? Do contrário, por que me diria essas coisas?
— Por favor, meu filho, é só o que lhe peço. Você não sabe o quanto tenho sentido a sua falta.
— Entendo os seus argumentos, mas isso não é motivo para me reter aqui. Vou ficar com tia Kate e depois, quando você voltar de Southampton, volto para casa.
— Promete?
— Prometo. Não se preocupe.
Despediram-se com abraços efusivos, e Ross percebeu o quanto era importante para o pai. Aquela mulher estava acabando com ele, sugando tudo o que podia. Não era justo. Ele e Nathan haviam se distanciado por causa dela. No entanto, ainda havia um forte sentimento de pai e filho unindo os dois. Não teve coragem de dizer-lhe que pretendia fugir com Marianne. Faria isso quando ele voltasse, pois não queria que Nathan partisse em uma viagem de negócios levando tantos problemas na mala.
Era uma segunda-feira nublada quando Nathan partiu para Southampton, contrariado por ter que deixar Londres justo no retorno do filho. Mas alguns clientes naquela cidade pareciam insatisfeitos, ameaçando fechar negócios com uma empresa concorrente, e ele precisava resolver a questão, levando-lhes amostras de novos tecidos de qualidade, a preços de ocasião.
Apanhou o trem das seis horas e recostou-se no banco, adormecendo em seguida. Por cerca de meia hora, o trem percorreu os trilhos com suavidade, exalando sua fumaça cinzenta no céu enevoado da manhã. Nathan sentia o balanço ritmado do vagão a embalar-lhe o sono, desviando de seus pensamentos todas as preocupações. Tudo corria bem, até que os freios foram subitamente acionados, sacolejando toda a composição e atirando pessoas e coisas para a frente e para o chão. Foi uma gritaria geral. Os que estavam dormindo acordaram apavorados, imaginando em que terrível acidente haviam se envolvido.
Finalmente, o comboio parou, e todo mundo se levantou, tentando ajeitar-se da melhor forma. Algumas pessoas estavam um pouco feridas, embora não gravemente. Quase ao mesmo tempo, todos correram para a janela, a fim de verificar o que havia acontecido. Num cruzamento de nível próximo, duas composições haviam se chocado, fechando as linhas de acesso. O auxílio começava a chegar, com sirenes estridentes e pessoas gritando, dando início à retirada dos corpos e feridos, muitos dos quais ainda presos nas ferragens.
Fechada a linha, ninguém podia passar. Nathan ainda tentou argumentar, no entanto, não houve jeito. Era impossível atravessar de trem por ali. O jeito era voltar e tentar no dia seguinte. Mais aborrecido do que nunca, Nathan voltou para casa, sob ameaça de perder o negócio e, pior, o emprego. O senhor Bradley realmente ficaria muito insatisfeito com aquele contratempo, contudo, não era culpa sua. Subiu no ônibus posto à disposição dos passageiros pela companhia ferroviária, retornou à estação de trem e dali tomou um bonde para sua casa.
Enquanto isso, Ross fazia a viagem de volta a Londres em companhia dos amigos, cuidadosamente repassando o plano de fuga. Vindo de ramais distintos, os comboios de pai e filho não se cruzaram, percorrendo, cada um, direções diferentes. Ao passo que o trem em que Nathan estava ia para o sul, o de Ross vinha do norte, de forma que o rapaz não ficou sabendo do acidente que fez o pai retornar.
Enquanto o trem de Ross chegava a Londres, Nathan já subia a rua a passos lentos. Vinha alquebrado, preparando-se para o interrogatório a que Lilian o submeteria quando chegasse. Deixaria a mala em casa e iria para o trabalho conversar com o patrão. O senhor Bradley haveria de entender que, se perdesse o negócio, não seria culpa sua.
Na porta de casa, parou, reunindo ânimo para entrar e enfrentar o mau humor usual da mulher. Olhou para os dois lados da rua, desejando que o filho despontasse em uma das esquinas, arrependido por não ter consentido que fosse para casa. Como gostaria que Ross estivesse ali! Mas ele não estava, e era preciso dar continuidade à vida. De cabeça baixa, pisou no pequeno caminho de pedras que cortava o gramado, conduzindo à porta da frente. Ao segundo passo, estacou. Bem na entrada, um automóvel estacionado lhe causou imensa sensação da familiaridade. A lembrança despontou com a rapidez do pensamento, e ele se virou de forma abrupta, fixando o olhar no colorido desmaiado e inconfundível do veículo.
Com a quase certeza da traição, que a teimosia do medo pretendeu rechaçar, abriu a porta e entrou em silêncio, depositando a mala no vestíbulo. A mansão estava quieta, sem sinal visível de habitante, a não ser por Nora, que cantava baixinho na cozinha. Com todo cuidado para não emitir nenhum som, Nathan foi seguindo pela sala. O mais silenciosa e mansamente que podia, subiu as escadas, evitando o ranger dos degraus. Pé ante pé, chegou à porta do quarto. Colou o ouvido à porta e escutou. De dentro, vinham risinhos abafados, gemidos e suspiros carregados de êxtase.
O sangue de Nathan ferveu. Quis irromper porta a dentro e flagrar a mulher e o amante em seu ato nojento de amor, porém, não conseguiu se mover. O medo e a vergonha o paralisaram, causando terrível hesitação. Será que deveria mesmo surpreendê-los? Ou não seria melhor voltar pelo mesmo caminho, fingindo que nada havia acontecido? Assim poderia continuar levando sua vidinha insossa, sem que Lilian soubesse o que ele sabia dela.
Arrasado, retirou a mão da maçaneta e se voltou, no exato instante em que Nora vinha subindo as escadas, com a vassoura e o espanador na mão. Ela soltou um grito agudo e largou tudo no chão. Em poucos instantes, a porta do quarto se escancarou e Richard saiu, em mangas de camisa e ceroulas, seguido por Lilian, que vestia apenas um penhoar fino e transparente, sem nada por baixo para encobrir-lhe a nudez.
Os três se olharam perplexos, e Richard começou a gaguejar:
— Nathan... o que... que faz aqui...?
A visão quase desnuda da mulher, na companhia de seu chefe, trouxe Nathan de volta à realidade e fez dissipar sua covardia. Saltou em cima de Richard e pôs-se a esbofeteá-lo, ao mesmo tempo em que gritava:
— Cachorro! Canalha! Cafajeste! Como se atreve a trair-me debaixo de meu próprio teto?
Richard revidou e, em breve, sobraram socos e pontapés para todos os lados. Lilian, boquiaberta, não tinha coragem de falar, e Nora voltou correndo pelas escadas, com medo de ser responsabilizada por não ter dado o sinal. Em determinado momento, Richard se desvencilhou e, evitando os golpes desencontrados do outro, conseguiu dominar Nathan. Empurrou-o de encontro à parede, espremendo sua face na aspereza do reboco, e torceu-lhe o braço para trás.
— Devia me agradecer, Landor! — vociferou, entre colérico e sarcástico. — Você não era nada até eu aparecer. Eu o transformei num homem rico. Foi graças a mim que conseguiu tudo o que tem. Inclusive a mulher!
Sem poder se mexer, Nathan gritou vencido:
— Solte-me!
O outro deu uma gargalhada irônica e prosseguiu:
— Por que acha que ela se casou com você? Poramor? É claro que não, e você seria muito estúpido se acreditasse nisso. Ela só se casou com você porque não podia se casar comigo. Você foi o nosso disfarce, uma forma de manter Lilian perto de mim sem levantar suspeitas.
Foi um raio fulminante a cortar o coração de Nathan, imprimindo-lhe a dor da humilhação e da revolta. Agora compreendia tudo: o mau humor de Lilian, as viagens, as promoções sucessivas. Nathan percebeu o quanto fora idiota e sentiu raiva de si mesmo. Brigara com o irmão, afastara-se da família, privara o filho do convívio com os seus. E tudo por quê? Por uma mulher que nada valia e que o usara para acobertar seu romance espúrio.
Vencido e humilhado, Nathan choramingava baixinho. Satisfeito com a derrota moral do outro, Richard soltou-lhe o braço, e o corpo alquebrado de Nathan, sem forças para lutar ou resistir, deslizou até o chão, onde permaneceu, rosto colado na parede, engolindo o pranto e a vergonha.
— Se quer continuar a ocupar o importante cargo que ocupa na minha fábrica — advertiu Richard —, finja que não houve nada aqui hoje. Esqueça o que viu, e tudo voltará ao normal. Caso contrário, vá—se acostumando a viver na miséria, que é para onde você e o seu filhinho hão de voltar.
Como Nathan se odiou naquele momento por não conseguir reagir. Sentia desprezo de si mesmo, de sua incompetência e covardia. Por que não encarava o rival e tomava uma atitude?
— Levante-se, Nathan — ordenou Lilian friamente —, e pare de fricotes. Você é um homem ou um maricas?
Nesse momento, de forma inesperada, um vulto surgiu no alto da escada. Ross nem sabia ao certo por que mudara o rumo no último instante, tomando a direção de sua casa, ao invés da casa da tia. Só o que sentiu foi que precisava ir para lá. Não entendia por que nem questionara a si mesmo, dando vazão ao pensamento intuitivo de que sua presença seria de fundamental importância naquela hora.
Ao despontar no final do corredor, o que viu o encheu de indignação e revolta: o pai, sendo humilhado pelo amante da madrasta, em sua própria casa! Seu sangue jovem e indomado borbulhou a tal ponto que, cego de ódio, investiu contra Richard e, interpondo-se entre este e o pai, disparou com assustadora fúria:
— Saia daqui, verme! Ou serei capaz de matá-lo.
Apesar da vontade de contestar, Richard sentiu a superioridade moral do outro, incapacitando-o de reagir. Por pouquíssimos segundos, seus olhos se cruzaram, provocando um calafrio na pele do homem mais velho, que recuou com medo. Dono da situação, Ross agarrou-o pelo colarinho e saiu arrastando-o pelo corredor e escada abaixo, sem se deixar abater pela resistência de Richard, que, sentindo-se preso, lutava para se soltar.
— Largue-me, moleque! — conseguiu falar.
Alheio aos protestos dele, Ross continuou a puxá-lo, forçando-o a segui-lo aos tropeções. Com uma das mãos, escancarou a porta com estrondo e empurrou Richard de qualquer jeito para fora, fazendo com que ele rolasse os degraus e se estatelasse no chão, esfolando as faces nas pedras da entrada.
— Nunca mais ouse voltar a esta casa — ameaçou, fremente de ódio. — Se não quiser que o mate com minhas próprias mãos.
Bateu a porta com força, e Richard se viu a sós no jardim, em mangas de camisa e ceroulas. Pouco depois, suas roupas voaram pela janela, e ele as recolheu apressadamente, apanhando as chaves do carro e disparando para o interior do automóvel.
Do lado de dentro da casa, Lilian tremia de medo de Ross. Nunca o vira dominado por tanta ira e violência. Toda encolhida a um canto, pôs-se a chorar e a se justificar com fingido arrependimento:
— Não foi culpa minha. O senhor Bradley me obrigou. Fez chantagem. Disse que ia despedir seu pai...
- Cale-se, vadia! — berrou ele, transtornado.
— É verdade... Por favor, acredite!
Sentada na beira da cama, com parte do corpo à mostra, as mãos postas em sinal de súplica, ela lhe pareceu patética. Teria sido melhor se não tivesse dito nada e assumido sua culpa. Ao menos, seria mais digno. Ela começou a agitar os braços, implorando perdão, e o penhoar se abriu quase todo, causando tamanha fúria em Ross que, por pouco, não a agrediu também.
—Cubra-se, ordinária! — esbravejou o rapaz.
— Não nos embarace ainda mais com a sua falta de vergonha!
— Deixe-a, Ross — interrompeu Nathan, com voz que o sofrimento tornava fria. — Ela não merece a sua raiva.
— Não vá me dizer que ainda pretende ficar com ela! — indignou-se.
— Lilian não é digna do nosso perdão ou respeito
— Ross sorriu vitorioso, e ele continuou: — Vamos, mulher. Apronte suas coisas e saia daqui!
— Nathan... — choramingou ela. — Você não pode. Se fizer isso, vai perder o emprego, vai perder tudo. Do que é que vai viver?
— Pensa que me importo? — respondeu Nathan, cada vez mais gélido. — Não me importo. Comecei de baixo e posso voltar para lá. E Richard fez um trabalho bem feito. Ensinou-me tudo que eu precisava saber para me tornar um bom diretor de vendas. Tenho recebido várias propostas de emprego e só não aceitei antes por fidelidade ao senhor Bradley.
— O que está esperando, Lilian? — vociferou Ross, interrompendo o desabafo de Nathan. — Não ouviu meu pai mandar você pegar suas coisas e sair?
— Você não pode fazer isso comigo! Sou sua mulher...
— Saia daqui! — esbravejou Nathan. — Vá procurar seu amante e peça a ele que a ajude! De mim, não terá nada!
— Não, Nathan, escute-me...
Ela tentou segurá-lo pelos braços, mas ele se desvencilhou e a empurrou, deixando-a aos prantos no chão. Lilian sabia que, sem o disfarce de Nathan, Richard também lhe voltaria as costas. Não iria comprometer o casamento e a fortuna.
Nathan saiu do quarto, com Ross atrás dele. Desceu as escadas às pressas e irrompeu na cozinha feito uma bala.
— Você também, Nora — disse em tom imperativo para a criada. — Apanhe suas coisas e suma. Está despedida.
Pouco depois, Lilian apareceu toda chorosa, vestida e carregando duas pesadas malas. Parou na sala, onde Nathan e Ross aguardavam, e lançou ao marido um olhar esperançoso. Nathan, contudo, levantou-se furioso e subiu correndo para o quarto, sem olhar para ela. Lilian enxugou os olhos e ergueu as malas, esticando o pescoço para olhar a cozinha. De Nora, nem sinal. À primeira ordem de Nathan, tratara logo de sumir.
Ela pousou uma das malas no vestíbulo e abriu a porta. Quando se voltou para pegá-la, deparou-se com Ross, encarando-a com tanta frieza que ela se arrepiou toda.
— Mande-nos depois o endereço... E aguarde a visita do advogado.
De Ross, não podia esperar mesmo nada. Lilian mordeu os lábios e engoliu o ódio que sentia dele. Nem sabia para onde ia, como podia ele pretender que lhe mandasse o endereço? E para quê? Para receber a visita de um advogado que, muito provavelmente, a obrigaria a assinar o divórcio?
O carro de Richard não estava mais parado ali. Com certeza, ele se fora, temendo ser descoberto ou visto por alguém. Era apenas ela, agora. Não contar com mais ninguém, apenas consigo mesma. Permanecera, sozinha, presa ainda às ilusões transitórias do mundo.

9
Depois que Lilian e Nora se foram, pai e filho se sentiram unidos como há muito não acontecia. Nathan não voltou mais ao emprego, mas enviou uma carta de demissão. O estado dele era de visível abatimento, e Ross preferiu adiar o momento de lhe contar sobre seus planos a respeito da libertação de Marianne. Ia, todos os dias, visitar os tios e os primos, mantendo contato quase diário com os amigos que iriam ajudá-lo. Em casa de Kate, repassaram o plano várias vezes, até que cada um ficasse bem seguro do que deveria fazer.
A execução do plano teve que ser adiada várias vezes, já que Marianne era agora usualmente conduzida à enfermaria, devido à forte reação ao láudano e outras drogas calmantes. Sabedor dos planos de Kate e Ross, Luther tudo fazia para impedir a sua concretização, e como não podia atingi-los diretamente, direcionava seus fluidos malignos para a menina, que, associando-os ao efeito dos narcóticos, tornava-se presa de torpores quase invencíveis.
Chamar a polícia, naquele momento, podia comprometer o doutor Kramer, mas, certamente, não livraria Marianne dos grilhões do hospício e atrairia, para ela, a atenção das autoridades. Kate não podia pôr em risco a fuga da filha. De qualquer jeito, precisavam libertá-la. Desesperada, Kate e Ross fizeram a única coisa possível naquela situação: rezaram.
Setembro entrou com a deflagração da guerra e a rápida entrada do Reino Unido no conflito, decidindo o rumo dos acontecimentos. Ross e seus amigos ainda não haviam sido convocados, mas, de qualquer forma, Vincent e Arnold tiveram que retornar a Oxford, para o início das aulas.
— Voltaremos no próximo fim de semana —prometeu Vincent. — E tiraremos Marianne de lá de qualquer jeito. Ainda que tenhamos que arrombar a enfermaria.
— Está certo — retrucou Kate em tom agradecido. — Acho que estamos todos prontos. Deus há de nos ajudar, e Marianne estará em condições de seguir conosco.
— Não se preocupe — recomendou Arnold. —Faremos tudo direitinho. Não haverá erros.
— E estaremos lá no domingo, sem falta —acrescentou Vincent. — Pode contar conosco. Não faltaremos.
Kate os abraçou e finalizou emocionada:
— Para serem amigos de Ross, vocês só podiam ser pessoas de bem. Nem posso lhes dizer o quanto fico grata pelo risco que estão correndo para salvar uma menina que nem conhecem.
Todos se abraçaram com muita emoção. Kate não sabia explicar, mas tinha certeza de que, daquela vez, não encontraria Marianne na enfermaria. Suas preces, realmente, haviam alcançado o resultado desejado, e espíritos luminosos intervieram em favor da menina, cuidando para que, no dia, Marianne estivesse bem e não precisasse ser dopada pelos enfermeiros.
A espera chegara ao limite e, com ela, a hora de Ross revelar ao pai o que pretendia fazer. Não podia esperar mais nem desaparecer de uma hora para outra. O amor reconquistado exigia confiança, que levava a explicações sinceras.
— Como está se sentindo? — começou ele, à hora do jantar.
— Estou superando. O novo emprego está me ajudando muito.
— Fiquei impressionado com a rapidez com que conseguiu uma nova colocação.
— Como disse, aprendi muito com o senhor Bradley.
— É verdade — fez uma pausa sugestiva e mudou de assunto: — Tenho algo a lhe contar.
— Vai para a faculdade?
— Não é isso. É um assunto sério e tem a ver com Marianne. — Nathan tomou um gole de vinho e encarou o filho, à espera de que ele prosseguisse: —Tia Kate e eu tomamos uma decisão. Vamos tirá-la daquele lugar.
— Seu tio consentiu?
— Ele não sabe.
Nathan levantou as sobrancelhas e retrucou, deveras surpreso:
— Está querendo me dizer que vão ajudá-la a fugir?
— ele assentiu. — Vocês enlouqueceram?
— Precisamos fazer alguma coisa, ou ela vai acabar morrendo lá.
— Não faça nenhuma besteira, filho. Dar fuga a um louco é um crime muito sério.
— Marianne é só uma menina! — contrapôs ele.
— E você não faz ideia do quanto está sofrendo. Apesar de não querer contrariar o filho, Nathan não conseguia ocultar a preocupação:
— Você e sua tia devem estar mais loucos do que ela. Estão querendo o impossível.
— Não é impossível. Temos tudo planejado. Vai dar certo.
- Posso saber como pretendem fazer isso sozinhos?
— Não estaremos sozinhos. Meus amigos da escola vão me ajudar.
— Acha prudente comprometer seus amigos numa aventura insana feito essa?
— Não é aventura, muito menos insana. O plano tem tudo para dar certo, e ninguém vai poder provar que fomos nós. A não ser que alguém conte.
— Você sabe que eu jamais o delataria.
— Sei disso. E por isso que estou lhe contando. Você é meu pai e precisa saber o que irá acontecer. Quando tirarmos Marianne de lá, vou fugir com ela.
— Fugir? — surpreendeu-se. — Para onde?
— Para a Escócia, talvez.
Nathan balançou a cabeça, contrariado, e tornou aflito:
- E quando vai ser isso?
— No próximo domingo, dia de visita.
— Será que é prudente? Estamos em guerra contra a Alemanha.
- Se tudo correr bem, estaremos longe antes que possamos sentir seus efeitos.
Nathan não disse mais nada. Abraçou-se ao filho em lágrimas, como se quisesse prendê-lo para sempre em seus braços, evitando que sofresse. Contudo, tinha consciência de que Ross era dono de seu destino.
— Faça o que tem que fazer — disse por fim. — Só não se esqueça de seu velho pai. E você sabe que pode contar comigo, seja para o que for, não sabe?
— Sei, sim, e sou-lhe grato por isso.
— Não se agradece o amor. Amo você e tudo farei para ajudá-lo a ser feliz. Acho uma loucura libertar Marianne, mas se é o que você quer, tem o meu apoio.
Na véspera da visita, quando Ross entrou em casa, vindo de seu último encontro com Kate antes da execução do plano, Nathan o aguardava na sala, andando de um lado a outro, preso de uma preocupação extrema.
— Pai? — chamou Ross, apreensivo. — Aconteceu alguma coisa?
— Estou muito preocupado com essa guerra —confessou aflito.
— Tenha calma.
— E se convocarem você, meu filho? O que é que eu vou fazer se você for para o front?
— Isso não vai acontecer.
— Você não sabe. Faz tempo que jovens estão sendo convocados para o alistamento militar. E agora, ouvi dizer que qualquer um pode ser recrutado.
— Ninguém vai me recrutar.
— Hoje mesmo, o filho de nosso vizinho recebeu a convocação. Um jovem pouco mais velho do que você. Fiquei apavorado. O que será de nós se você for?
Confuso, Ross começou a andar pela sala, tentando concatenar as idéias. Não podia ir para a guerra. Não que tivesse medo do combate ou de morrer. O que temia era deixar Marianne presa naquele hospício.
— Não posso ir para a guerra — objetou ele. — E Marianne? Ela precisa de mim. Vamos tirá-la de lá no domingo e vamos fugir...
Para Nathan, a ideia da fuga, repentinamente, pareceu a única salvação, e ele lhes facilitaria a escapada. Tinha dinheiro e poderia comprar-lhes passagens para a França. Lá, onde a Linha Maginot 6, certamente, manteria os alemães à distância, não recrutariam um estrangeiro, e Ross estaria em segurança. E essa seria também uma excelente oportunidade para se reconciliar com Kate e o irmão.
6. A Linha Maginot foi uma linha defensiva de fortificações construída pela França, entre 1930 e 1936, ao longo das fronteiras com a Alemanha e a Itália. Apesar de poderosa, não conseguiu impedir a invasão, em maio de 1940, quando as tropas alemãs a contornaram e invadiram a França pela região de Sedan, onde sua construção havia sido interrompida (N.A.).
— Vou ajudá-los, Ross — disse ele por fim. — Vou tirá-los da Inglaterra. Os dois.
Às oito horas em ponto de domingo, Kate e Ross estavam parados no saguão do hospício, enquanto Arnold e Vincent, sem serem vistos, os observavam do lado de fora.
— Não vai entrar, senhora Landor? — indagou o atendente, que anotava os nomes dos que chegavam.
Kate já era conhecida e, olhando para ele com simpatia, respondeu calmamente:
— Daqui a pouco. Estou esperando minha irmã.
O homem não disse nada e voltou a atenção para o serviço, anotando o nome de um recém-chegado, também conhecido, e o horário de entrada. Kate viu quando ele entrou e fingiu que olhava para fora, à procura de alguém. Precisava esperar até que algum estranho passasse por ali. Não podia correr o risco de usar o nome de um frequentador costumeiro.
Cerca de vinte minutos depois, finalmente surgiu o visitante ideal. Kate jamais o havia visto e imaginou que deveria ser parente de algum novo interno. Fez um sinal imperceptível para os rapazes e entrou com Ross atrás do homem.
— Acho que ela não vem — anunciou de forma displicente. — Não vou mais esperar, ou perderei todo o horário de visita.
O rapaz balançou a cabeça e sorriu com simpatia. Tomou nota do nome do homem à sua frente, da hora, e deixou-o passar. Na vez de Kate, o atendente foi logo escrevendo seu nome na lista. Enquanto ele anotava, ela deu uma espiada no livro e leu o nome imediatamente anterior ao seu, que era do homem que acabara de passar: George Phillips.
Entrou apressada, seguida pelos rapazes. À exceção de Ross, que ali estivera outras vezes, todos declinaram nomes falsos.
— Seu nome, por favor?
— Bob Smith — mentiu Vincent.
— E o seu?
— John White — falou Arnold.
Como o homem não os conhecia, não suspeitou de nada. Admitidos ao interior do sanatório, Kate e Ross suspiraram aliviados ao receber a notícia de que Marianne se encontrava no jardim. Nada de enfermaria, como os amigos invisíveis e silenciosos haviam providenciado. O grupo seguiu para lá ansioso, procurando por ela, e encontrou-a parada de costas, ao pé de uma árvore, aparentemente espanando alguma poeira invisível. Kate percebeu o olhar de espanto dos outros rapazes, que nunca antes haviam entrado num hospício, e afirmou, segurando as lágrimas:
— É o resultado das drogas.
Ross engoliu em seco, lutando para não chorar nem esmurrar os enfermeiros. Não tinha permissão para visitar Marianne na enfermaria e, por isso, não sabia de seu real estado. Presa em sua fantasia, ela agora tentava espantar pássaros negros que esvoaçavam à sua frente. Essa era uma das figuras que os espíritos plasmavam para ela. Podiam ser morcegos, insetos, cobras ou qualquer outra coisa repugnante.
— Deixem que eu vou chamá-la — anunciou Ross, tentando não demonstrar tristeza.
Kate mandou que os rapazes não tirassem os olhos do tal George Phillips, e Arnold ficou encarregado de vigiar os seus passos. Ele estava sentado ao lado de uma mulher jovem, que Kate não conhecia, provavelmente, uma recém-chegada.
Ross chegou por detrás dela e chamou baixinho:
— Marianne.
Ela parou de súbito, a mão ainda suspensa no ar, afugentando o vazio. Aos poucos, foi-se virando, e Ross levou um susto. Seu rosto estava extremamente pálido, sulcado por olheiras, e os cabelos, cortados bem curtinhos, exibiam falhas e pontas irregulares. Todavia, não tinha tempo para perder com a surpresa.
— Sou eu, Marianne, o Ross — disse ele, tentando não demonstrar desespero. — Não me reconhece?
Ela ficou parada, olhando para ele, balançando a cabeça de um lado para outro. Em algum lugar de sua mente confusa, a imagem de Ross ainda estava guardada. Sorriu e estendeu as mãos para ele. Ross a puxou para si e abraçou-a com força, transmitindo tanto amor naquele abraço, que os pássaros se desmancharam e os espíritos se afastaram acabrunhados, sem entender que estranha força era aquela que os repelia.
— Vim buscá-la — sussurrou ele.
Ela se deixou conduzir. Ao passar perto de uma pequena fonte, viu Luther sentado, olhando para ela com ar diabólico. Ela estacou e tentou recuar. Luther deixara de ser seu amigo e passara a aterrorizá-la, tornando-se a causa de vários de seus castigos.
— Aonde pensa que vai, Marianne? — perguntou entre os dentes, exibindo seus olhos rubros.
— Não, não! — gritou ela aterrorizada, agitando-se freneticamente e tentando recuar.
Parecia que ela ia se descontrolar, e os enfermeiros, de longe, olharam para ela, prontos para uma nova injeção. Na mesma hora, Ross abraçou-a de novo, falando bem baixinho ao seu ouvido, mas, com tanto sentimento, que até Luther conseguiu escutar:
— Eu a amo. Confie em mim. Deus está do nosso lado. Nada pode ser mais forte do que Deus e o nosso amor.
Era verdade. O amor transcende qualquer obstáculo, e mesmo o mal, por mais empedernido que seja, enfraquece ante o seu inigualável poder. Luther sentiu isso, porque uma estranha fraqueza começou a tomar conta dele. Aquele calor, que partia dos corpos de Marianne e Ross, atingiu-o em cheio, e ele foi recuando, sentindo-se incomodado por aquela onda de amor que não podia suportar.
Marianne ganhou forças e foi aos poucos recobrando a consciência de si mesma. Fitou Luther pelo canto do olho e passou por ele, sustentada pelos braços e pelo coração de Ross. Em poucos minutos, alcançaram Kate e os demais. Sentaram Marianne num banco e fingiram conversar. Os enfermeiros desviaram a atenção dela, deixando Kate livre para agir.
— Venha comigo, Marianne — falou com ternura.
— Não — respondeu ela secamente.
— Por favor, Marianne, vá com ela — pediu Ross com carinho.
Marianne obedeceu. Levantou-se feito um autômato e seguiu a mãe para dentro. Permaneceram na sala de visitas até que não houvesse ninguém por perto, quando, então, Kate entrou com ela no banheiro.
Do lado de fora, Ross dizia para os rapazes:
— É hora de distrair a atenção dos enfermeiros.
— Deixe comigo — falou Vincent, preparado para aquele momento.
De forma imperceptível, apanhou uma pedrinha no bolso, esperou até que ninguém estivesse olhando e lançou-a com força, acertando a cabeça de um dos internos, gordo e de ar mais enfezado. O homem se empertigou, levou a mão à nuca e olhou para trás. Vincent, que já esperava por isso, piscou o olho para ele e apontou para o outro lado, onde um jovem alto e forte falava sozinho. Deu certo. O homem, furioso, saiu de onde estava e agarrou o outro, dando início a uma briga que logo atraiu os enfermeiros.
No mesmo instante, Arnold se levantou e foi caminhando calmamente em direção à saída. Deu uma última olhada no senhor Phillips, certificando-se de que ele ainda estava ocupado com a mulher, e passou pela porta que dava acesso ao saguão do prédio. Do lado de fora, o atendente ainda estava sentado na cadeira, e ele deu o nome ao rapaz, torcendo para que ele não se lembrasse:
— George Phillips.
O atendente o olhou por um momento, sentindo alguma coisa errada que não soube definir, mas balançou a cabeça e procurou na lista. Anotou o horário de saída ao lado do nome indicado e mandou que ele passasse. Mais que depressa, Arnold ganhou a rua e sumiu.
A balbúrdia era grande, e Kate aproveitou para sair com Marianne, que havia trocado de roupa, vestindo calças de homem, camisa, suspensório e um imenso boné que lhe cobria parte do rosto. Ela olhou de um lado a outro no corredor vazio. Empurrou Marianne gentilmente e saiu mais atrás, cuidando, à distância, de seus passos, rezando para que ninguém as notasse.
Na porta da sala de visitas, adiantou-se e procurou o sobrinho com os olhos. Ross estava atento e, na mesma hora, chamou Vincent, seguindo em direção à tia. Os enfermeiros, ainda ocupados com a briga, nem se aperceberam de sua saída.
Rapidamente, Ross segurou o braço de Marianne e saiu com ela e Vincent, enquanto Kate permanecia olhando a confusão, pronta para responder que a menina se encontrava no banheiro, caso alguém lhe perguntasse. Se ela saísse junto, poderia levantar suspeitas. Enquanto caminhavam a passos rápidos, Ross dizia para Marianne:
— Seu nome é Bob Smith...
— É Marianne.
— Por favor, Marianne. Diga que é Bob Smith. Por mim, diga que é Bob Smith. E Bob Smith.
Bob Smith era o falso nome que Arnold havia dado ao atendente quando entrara e sob o qual Marianne iria sair. Escolheram um nome fácil, para que ela o memorizasse sem problemas.
— Depressa — Kate sussurrou para si mesma, de olho no verdadeiro George Philips.
Chegaram à porta. O enfermeiro do lado de dentro, sem desconfiar de nada, franqueou-lhes a passagem para o saguão.
— Seus nomes? — perguntou o atendente do outro lado, sem nenhum interesse.
— Ross Landor.
— Você não é o sobrinho da senhora Landor? —indagou ele, levantando os olhos e estudando Ross cuidadosamente.
— Sou.
— E ela não vem com você?
— Não. Minha tia vai ficar um pouco mais. Tenho coisas a fazer.
Novamente aquela sensação de estranheza cujo sentido o rapaz não conseguiu captar. Ele localizou o nome de Ross, tomou nota do horário de saída, e voltou-se para Marianne. Parada logo atrás, ela o encarava por debaixo da aba do boné, tentando se lembrar do que deveria dizer. Havia esquecido. Ross, aterrado, lançou para ela um olhar de súplica, enquanto o atendente indagava:
— Qual o seu nome, moço? Não se lembra? Se esqueceu, esse é o lugar certo para você.
Riu da própria piada, e Ross quase desmaiou. Foi Vincent, que vinha logo atrás, que salvou a situação:
— Ande logo, Bob. Deixe de namorar o moço. Ele não é disso.
O atendente, pensando tratar-se de um homem feminado, contraiu o rosto e olhou para a lista, perto de onde marcara o nome de Ross.
— É Bob Smith? — indagou, rubro de raiva e vergonha.
Marianne assentiu, e ele tomou nota da hora na coluna apropriada. Depois foi a vez de Vincent, que repetiu o falso nome e acrescentou para o atendente em tom jocoso:
— Não ligue para ele, não. Já o mandamos largar essa vida, mas não tem jeito. É um caso perdido.
O atendente balançou a cabeça em sinal de assentimento e concluiu de má vontade:
— Deviam era fuzilar esses homossexuais. Onde já se viu? Deixe a polícia descobrir...
Vincent assentiu de bom humor, bateu com os dedos na ponta do boné e saiu atrás de Ross e Marianne, que já estavam quase na esquina. Pouco depois, Kate saía também e nem precisou dar o nome ao atendente. Passou por ele e lançou-lhe um sorriso amistoso, como sempre fazia, e ele respondeu:
— Até domingo que vem, senhora Landor.
Kate saiu para a rua. Olhou ao redor, e nem sinal de Marianne. Dera certo. Àquela altura, ela já devia estar a caminho da casa de Jane. Haviam conseguido enganar todo mundo. Por sorte, ninguém percebera nada.
O que Kate chamava de sorte nada mais era do que a força do amor e da fé, que a levaram e a Ross a acreditar que conseguiriam. Os amigos espirituais de Marianne, conhecedores e inspiradores do plano, enviavam a todos ondas energéticas de força e coragem, fazendo vibrar o poder pessoal e interior de confiança que cada um possuía em si mesmo. Foi assim que conseguiram fazer com que todas as coisas se encaixassem e tudo saísse conforme o esperado. Ninguém desconfiou, nem fez perguntas, nem atrapalhou. Não foi a sorte ou o acaso que lhes facilitou. Foi a própria determinação.

10
Seguindo o combinado, Ross levou Marianne para a casa de Jane. O ar triste e derrotado da menina lhe causou espanto e compaixão. Ouvira falar dos maus tratos aos doentes dos hospícios, mas pensara que aquilo havia ficado no passado. Jamais poderia imaginar que médicos civilizados pudessem utilizar métodos tão cruéis no tratamento de seres humanos que precisavam, acima de tudo, de amor.
Quando os dois lá chegaram, Nathan já estava à sua espera e abraçou o filho demoradamente, sentindo imenso alívio por vê-lo de volta são e salvo. Cumprimentou Marianne, que pareceu não o reconhecer, e sentiu um bolo no estômago ao imaginar o que seria a vida de Ross dali em diante. Tentava desviar o pensamento e centrar-se na segurança do filho quando a porta da frente se abriu.
Kate entrou apressada, levando um susto ao dar de cara com Nathan. Procurou o sobrinho e a filha com os olhos, temendo que o cunhado os houvesse delatado. Notando a sua preocupação, Ross se adiantou e, colocando as mãos em seus ombros, anunciou:
— Está tudo bem, tia Kate. Meu pai está aqui para ajudar.
Mesmo sem entender, Kate relaxou, sentindo que podia confiar nas palavras de Ross. Não tinha tempo para se ocupar com Nathan naquele momento, preocupada que estava com Marianne. Ao vê-Ia, seu coração se enterneceu. Aproximando-se dela, passou a mão em seus cabelos ralos e irregulares, acariciou seu rosto sulcado e desceu a mão pelo seu pescoço, sentindo a aspereza que as muitas picadas lhe haviam deixado na pele.
Para que ela não desabasse em prantos, Ross interveio com estudada jovialidade:
— Gostaria de ver a cara do tal George Phillips quando sair e descobrir que seu nome já foi riscado.
— É mesmo — concordou Kate. — O atendente vai pensar que cometeu algum engano.
— Isso até descobrirem que Marianne sumiu —falou Bill, marido de Jane.
— Vai custar um pouco até acreditarem. Marianne já estava lá há tanto tempo!
A referência ao hospício fez tremer todo o corpo de Marianne, que começou a chorar baixinho.
— Tenha calma — confortou Ross, abraçando-a.
— Está tudo bem. Eu estou aqui. Vou cuidar de você. Vou fazê-la esquecer-se de tudo. A cena os comoveu a todos, e Kate e Nathan se entreolharam com lágrimas nos olhos. Para cortar a tensão, Jane sugeriu:
— Não quer tomar um banho, Marianne?
A palavra banho tinha um significado horrendo para Marianne, que voltou a se debater e retrucou angustiada e aflita:
— Não... Banho não...
— É com água quente — esclareceu Ross, sabendo que o terror de Marianne decorria dos banhos gelados.
— Vai lhe fazer bem. Você vai ver.
Confiante nas afirmações de Ross, ela assentiu, mas pediu em tom de súplica:

— Fica comigo?
Ross questionou a tia com o olhar. Afinal, Marianne era uma moça, e ele era um homem. Apesar de não possuir qualquer outra intenção além de auxiliar Marianne no que fosse preciso, ele não podia olvidar o fato de que os costumes não permitiam que dois jovens solteiros ficassem sozinhos e nus num banheiro. Kate, contudo, nem de longe se preocupava com isso. Só lhe interessava o fato de que Marianne confiava em Ross e de que ele a amava acima de qualquer desejo da carne.
— Creio que não haverá problema se Ross ajudar Marianne — afirmou. — Vocês não vão se casar?
Envergonhada, Marianne abaixou os olhos e apanhou a mão de Ross, levando-a aos lábios. O que faria quando ele descobrisse que ela não era mais virgem? Ela não sabia como os homens conseguiam descobrir aquelas coisas, mas não seria ela que iria contar. Se Ross a abandonasse, seria preferível se matar.
Minutos depois, Jane anunciou que o banho já estava pronto. Gentilmente, Ross conduziu Marianne até o banheiro. Despiu-a carinhosamente, lutando para não chorar ante a visão de seu corpo esquálido, a pele macilenta, sem vida, os hematomas...
Ela estava com medo da água, e Ross apanhou um pouco em concha, despejando sobre seus punhos. Ela se retraiu toda, mas o contato do líquido morno fez abrandar o seu temor. Aos poucos mais confiante, entrou na banheira, ajudada por Ross, e foi arriando o corpo lentamente, até imergi-lo quase todo e recostar a cabeça na borda da banheira. Com uma esponja, Ross foi alisando sua pele, o mais gentilmente possível. Aos pouquinhos, ela foi relaxando, até que as pálpebras pesaram, e ela adormeceu. Há muito tempo não se sentia tão bem e em paz consigo mesma.
Despertou quando a água começou a esfriar. Com o susto, quis saltar da banheira, mas o olhar carinhoso de Ross a acalmou, e ela conteve o pânico, ciente de que não estava no porão do hospital. O rapaz deu-lhe uma saia e uma blusa novas e muito bonitas, compradas especialmente para ela. Penteou seus cabelos curtos e ralos, e ela se olhou no espelho, chorando ao se deparar com seu rosto transfigurado. Não havia espelhos no hospício, e o pouco que ela conhecia de suas feições de moça provinha da sombra inexata refletida nos vidros sujos das janelas.
Enquanto Ross ajudava Marianne, Nathan aproveitou para contar a Kate tudo o que havia lhe acontecido desde que partira. Contou do mau humor de Lilian e de sua covardia ao consentir que Ross fosse mandado a estudar em Oxford, sentindo-se culpado, inclusive, pela piora no estado de Marianne. Falou das promoções, das viagens, da formatura do filho e da derradeira viagem a South Hampton, quando fora obrigado a voltar por causa do acidente. E, por fim, assumiu a vergonha ao descobrir o caso de Lilian com Richard e a humilhação que o ex-patrão o fizera passar, concluindo com a chegada de Ross e sua atitude, ao mesmo tempo digna e firme, de expulsar o senhor Bradley e Lilian. Depois veio a guerra, e o temor de perder o filho no campo de batalha foi conclusivo para que ele pusesse uma pedra no passado e procurasse se reconciliar com a família, de quem jamais deveria ter-se afastado.
Kate, Jane e Bill ouviam em silêncio, incapazes de interromper ou contestar aquela narrativa tão pungente e sincera. Quando ele terminou, Jane achou que deveria dar-lhes uns minutos a sós e foi para a cozinha terminar o almoço, enquanto Bill foi fazer uns reparos na garagem.
— Não sei o que dizer — considerou Kate, confusa.
— Diga apenas que me perdoa — ela não respondeu, e ele insistiu: — Será que o que fiz foi tão terrível que você não pode me perdoar?
— Não se trata disso. É que você se tornou praticamente um estranho para nós.
— Sou seu cunhado, não posso ser um estranho. Amo-a como a uma irmã...
Ao pronunciar a palavra irmã, Nathan engoliu em seco e fitou a cunhada, que o encarava com espanto. Pela primeira vez, percebera uma entonação diferente na voz dele, algo que provinha da incerteza do que dissera, pois Nathan, no fundo, tinha sentimentos contraditórios para com ela. Tentando não pensar naquilo, ela abaixou os olhos e ponderou:
— Não sou sua irmã. Seu irmão está em casa, louco por uma palavra sua.
— Eu sei. Também gostaria muito de me reaproximar dele, mas não posso fazer isso antes de me reconciliar com você.
— Eu nunca briguei com você — afirmou peremptória, encarando-o com firmeza e ternura. — Foi você que me afastou da sua vida.
— Só Deus sabe o quanto me arrependo disso! E como gostaria que você me perdoasse.
— Você sabe que não sou mulher de guardar ressentimentos...
— Você me perdoa?
— Por certo. Tudo o que mais quero, nesse momento, é reunir novamente a família. Principalmente agora, que nossos filhos vão fugir juntos, precisamos estar mais unidos do que nunca.
Movido pela emoção, Nathan se ajoelhou aos pés dela e tomou-lhe as mãos, levando-as aos lábios em sinal de gratidão e afeto. Confusa e atordoada, Kate puxou as mãos de volta no exato momento em que Ross chegava com Marianne.
Jane havia acabado de pôr a mesa e chamado o marido e os filhos, convidando-os a se sentaram. Caprichara ao máximo na refeição, preparando os pratos de que Marianne mais gostava. A menina começou a comer vagarosa e prazerosamente, instigada pelo aroma e o sabor agradáveis da comida, dos quais já havia praticamente se esquecido.
Depois da sobremesa, com a qual se deliciou, Nathan se adiantou preocupado:
— Acho que já é hora de Marianne partir — ela o olhou surpresa, com medo de que a levassem de volta ao hospital, mas o gesto do tio a tranquilizou:
— Fiz reservas para os dois em um hotelzinho perto do cais. Nada de luxo, que é para não chamar a atenção.
— Pensei que Marianne e Ross pudessem ficar aqui
— interveio Jane.
— É perigoso. Quando descobrirem a fuga, irão direto à casa de Kate. De lá até aqui, será questão de tempo.
— Tem razão — concordou Bill. — Se a pegam aqui, será o seu fim.
Não foi difícil convencer Kate, que se levantou às pressas:
— Vamos, então. Não temos tempo a perder.
— Você não, Kate — objetou Nathan. — Precisa ir para casa deter David.
— Acha que é necessário?
— Você, melhor do que ninguém, pode dizer qual será a reação dele quando souber da fuga.
Apesar da tristeza, Kate concordou. Realmente, se David aparecesse ali, todo o plano iria por água abaixo. Doía-lhe muito ver Marianne partir sem que tivessem a oportunidade de conversar fora dos muros do hospício. Havia tantas coisas que gostaria de dizer! Explicar por que a internara e falar-lhe de seu arrependimento e amor. Agora, porém, era tarde demais. A urgência era tirar os dois dali.
— Você está certo — concordou ela, olhos banhados em lágrimas. — Faço qualquer coisa para ver minha filha em segurança e feliz.
Afagou o rosto de Marianne, deu-lhe um beijo, outro em Ross e murmurou:
— Obrigada. Cuide bem dela.
Remoendo a tristeza da separação, Kate apanhou a bolsa e encaminhou-se para a porta, sentindo a quentura das lágrimas que se derramavam de seus olhos. Não queria olhar para trás, com medo de fraquejar, e colocou a mão na maçaneta, disposta a abrir a porta com decisão. Já ia girá-la quando a vozinha infantil de Marianne a alcançou em cheio:
— Mamãe... sei o que você fez. Obrigada... Vou sentir saudades.
Kate largou a maçaneta e virou-se para a filha, puxando-a para envolvê-la num abraço terno e transbordante de amor. A muito custo soltou-a. Acariciou seu rosto novamente, enxugou as lágrimas dela e sussurrou com emoção:
— Amo você, Marianne. Sabe disso, não sabe?
Marianne apenas assentiu, e Kate se forçou a sair, ou não conseguiria mais deixá-la. No trajeto para casa, a certeza de que fizera a coisa certa a acalmou. Ainda mais agora, que Nathan se juntara a eles, nada podia dar errado. Com as passagens compradas, em breve estariam na França.
Antes de ir para casa, passou na confeitaria e comprou uma torta de maçãs. Queria ter algo que justificasse sua demora. Assim que chegou, o perambular nervoso de David, que caminhava de um lado a outro na sala, foi o sinal de que ele já sabia.
— Até que enfim! — exclamou ele. — Onde é que esteve?
Ela largou a bolsa sobre a poltrona, tirou o chapéu e respondeu com cautela:
— Fui visitar Marianne, como sempre faço aos domingos.
— Por que demorou tanto?
— Passei na confeitaria para comprar uma torta. Tive que esperar até que ficasse pronta e...
— Marianne fugiu! — gritou ele, esfregando as mãos nervosamente.
— O quê? — balbuciou ela, fingindo-se surpresa. — O que foi que disse?
— Disse que Marianne fugiu. Acabaram de avisar.
— Deve haver algum engano. Deixei-a, agora mesmo, no hospício.
— Não há engano nenhum. Ela fugiu!
— Mas como?
— Não sabem ao certo. Parece que ela usou um nome falso.
— Um nome falso? Ora, não me diga.
Kate não fazia muito esforço para mentir de forma convincente, e David olhou-a em dúvida.
- Você tem algo a ver com isso?
- Eu?! É claro que não.
A boca dizia uma coisa, mas os olhos e, principalmente, o sorriso de vitória em seus lábios, diziam outra bem diferente.
— Está mentindo — afirmou David. — Sei que está.
— Se sabe, por que me pergunta?
— Pelo amor de Deus, Kate, você sabe o que fez? Soltou no mundo uma louca!
— Essa louca é sua filha. E depois, eu não disse que a soltei. Como poderia?
— Você tramou tudo direitinho. Onde ela está? Onde a escondeu? Na casa de Ross não pode estar, seria óbvio demais. Então, só pode estar na casa de Jane.
— Não sei de nada. E se soubesse, não lhe diria.
— O diretor do hospício disse que Ross esteve lá hoje, em companhia de uns amigos desconhecidos. Quem são esses amigos?
— Eu é que vou saber?
— Vocês entraram juntos.
—Não fiz perguntas a Ross. Aliás, mal falei com ele.
— Está mentindo, Kate, sei que está. Vocês entraram e saíram juntos, só que um dos amigos de Ross não era o verdadeiro. Era Marianne, não era?
— Quer saber, David? Não tenho nada com isso. Se eles são desorganizados lá no hospício, o problema é deles. E agora, com licença. Preciso ver as crianças.
David tinha certeza de que Kate e Ross haviam ajudado Marianne a fugir. Contudo, não a levaram nem para casa, nem para qualquer lugar conhecido. Se fosse desse jeito, então talvez não fosse tão ruim. Desde que Marianne não voltasse para sua vida, não tinha por que se preocupar com ela.
As crianças brincavam no quintal, e Kate foi ao encontro delas. A cerca que dava acesso à casa vizinha, por onde Marianne e Ross costumavam passar, há muito fora consertada. Quando os novos vizinhos fizeram o conserto, ela se ressentira. Era como se houvessem fechado uma porta em seu coração. Agora, porém, a cerca fechada tinha um outro significado. Aquela não seria mais a porta de fuga do sofrimento de Marianne. Aquele era o passado que ela deixara para trás, partindo em busca de um futuro mais feliz. Muito provavelmente, ela e Ross se casariam, e Kate ficaria à espera de que eles voltassem um dia, com seus netos, trazendo de volta a felicidade ao seu lar.

11
Não muito depois de Kate deixar o sanatório, o verdadeiro senhor Phillips resolveu ir embora. Despediu-se da irmã, que fora visitar, atravessou o saguão e foi apresentar-se ao atendente.
— Nome, por favor? — perguntou o rapaz.
— George Phillips — respondeu o homem, sem qualquer tipo de preocupação.
O atendente correu a lista com a ponta do lápis até parar no nome que o homem lhe dera, já marcado com o horário da saída. Pensando que havia entendido errado, o rapaz tornou a indagar:
— Seu nome?
— É George Phillips, já disse.
O outro o fitou com um assombro mudo, tentando compreender o motivo daquele engano.
— Perdão, senhor, mas George Phillips já foi embora. Saiu faz tempo.
— Isso é alguma brincadeira? George Phillips sou eu.
Confuso, o atendente espetou o lápis em cima da anotação e exibiu o livro ao homem:
— Veja o senhor mesmo. George Phillips, entrada às 8h45 e saída às 9h10.
— Meu jovem, por acaso está insinuando que não sei quem sou? — aborreceu-se o homem.
— Vai ver é alguém com o mesmo nome — sugeriu o senhor de trás, louco para passar.
— Impossível — declarou o atendente. — Só um George Phillips entrou aqui hoje.
— E fui eu. Vim visitar minha irmã.
— Mas... George Phillips já saiu... — insistiu o atendente.
— Ouça aqui, rapaz! — berrou o senhor Phillips. —Sei que isso é um hospício, mas se alguém aqui fora está ficando louco é você! Sei muito bem quem sou!
— Será que vocês podem andar logo com isso? — queixou-se alguém.
O atendente não sabia o que fazer, mas não estava disposto a deixar ninguém passar. Alguma coisa estava errada, e, enquanto tudo não se esclarecesse, permaneceriam todos ali.
— Isso é um absurdo! — indignou-se o senhor Phillips.
Percebendo a movimentação na mesa da entrada, um supervisor apareceu:
— O que está acontecendo aqui?
— Senhor Waldo... — balbuciou o atendente — não sei o que houve. Este senhor aqui diz que se chama George Phillips, mas George Phillips saiu há muito tempo...
O supervisor não esperou resposta. Em segundos, compreendeu tudo. Soprou um apito com estridência, e guardas acorreram de todos os lados.
— Fechem todos os portões! — ordenou ele, correndo de volta para dentro do edifício. — Ninguém sai!
Enquanto todos na fila se queixavam, exigindo passar, o senhor Waldo foi chamar o doutor Kramer e iniciou a contagem dos internos. Um a um, os doentes foram identificados, até que Mike deu o sinal:
— É Marianne! Está faltando Marianne!
— Procurem-na! — berrou o doutor Kramer, o rosto vermelho e afogueado de tanta raiva. — Não vou admitir nenhuma fuga nesta instituição!
Seguiu-se imenso alvoroço. As pessoas na fila foram identificadas e liberadas, e todos os cantos do hospício, do jardim e até mesmo das redondezas foram revistados pelos enfermeiros e pela polícia, chamada às pressas para ajudar nas buscas. Os demais enfermos, ao saberem que Marianne havia fugido, puseram-se a gritar e a espernear, e foram necessárias doses maciças de láudano para controlar a situação.
Por fim, a notícia se confirmou: ao que tudo indicava, Marianne havia fugido usando o nome de outra pessoa, embora ninguém soubesse precisar como aquilo sucedera.
— Ela teve ajuda externa — rosnou o doutor Kramer. — Marianne não tem inteligência para idealizar um plano desse porte.
— O senhor sabe quem foi? — indagou o supervisor.
— Sei — afirmou ele entre os dentes, um estranho brilho despontando no olhar. — A mãe. Só pode ter sido ela.
Imediatamente, a polícia partiu para a casa de Kate, não a encontrando. Apenas David estava em casa, e o ar de espanto que fez foi tão genuíno que convenceu as autoridades de sua ignorância a respeito da fuga.
— Tem ideia de onde ela possa estar? — questionou o oficial de polícia.
David deu o endereço de Jane e, por via das dúvidas, também o de Nathan. Como a casa do irmão ficava mais próxima, foram primeiro para lá, mas não havia ninguém. Em casa de Jane, só a família, que afirmou não ter notícias da menina há muito tempo. Sem ter mais onde procurar, a polícia encerrou as buscas.
A fuga de Marianne provocou uma reação inquietante em Kramer. Era óbvio que Marianne contaria a todos o que se passava ali. Ele não fazia nada que não tivesse o apoio da comunidade psiquiátrica, e alguns dos seus métodos, se bem que ultrapassados, ainda produziam resultados altamente satisfatórios. A terapia do eletrochoque, recentemente desenvolvida na Itália, era o que havia de mais moderno no tratamento aos doentes.
Se era assim, por que então se demonstrava tão aflito? Se não fizera nada que não merecesse aprovação de seus colegas psiquiatras, de onde provinha o seu medo? Não sabia explicar. Não conseguia compreender que era sua própria consciência quem o acusava de crueldade. Para o mundo, podia justificar suas atitudes com a intenção da cura. Mas, e para si mesmo? Que desculpas tinha para dar quando sabia do prazer que sentia ao causar dor aos doentes? Como enganar a alma que reconhecia o sadismo de seus métodos?
O medo foi, cada vez mais, tomando conta de Kramer, que passou a temer os próprios enfermos. Aos poucos, começaram a parecer pessoas assustadoras e acusadoras. Sem se dar conta, o médico via além do físico dos loucos: enxergava seus corpos fluídicos maltratados, acusando-o de tirania e crueldade.
Passou a ser assaltado por sonhos que denominava malditos. Marianne e os outros viviam a acusá-lo em pensamento, cobrando-lhe coisas que ele não compreendia. Esses sonhos o atormentavam dia após dia. Kramer julgava-se vítima da vingança dos loucos, que se recusavam a compreender o sacrifício que lhes era exigido. Sofriam em nome de um bem muito maior, que era a descoberta da cura. Da cura! Será que não entendiam? Se ele descobrisse uma cura, se tornaria o médico mais bem conceituado do mundo!
Resolveu tentar não pensar mais naquelas bobagens. Sim, eram bobagens. Marianne fugira, mas sua fuga não abalaria em nada sua vida no hospício. Ela não era ninguém importante, ninguém por quem valesse a pena brigar. Ninguém se importava com ela. Ninguém, além daquela mãe igualmente louca e estúpida.
Estava enlouquecendo e nem sabia. Não compreendia nem se dava conta, mas estava tão louco quanto os internos. Um dia, sua loucura o dominou. Estava agitado, descontando nos pacientes a raiva que ainda sentia pela fuga de Marianne. Foi quando, numa sessão de choques, ao som da Sonata ao Luar, exagerou na voltagem e acabou eletrocutando Eric. O rapaz, acompanhado pelo espírito do anão Escobar, veio a desencarnar, acelerando o processo de loucura do médico.
Daí em diante, Kramer passou a tomar atitudes cada vez mais estranhas, cruéis e autoritárias. Mandava espancar os doentes e ameaçava dispensar os enfermeiros por qualquer motivo. Xingava os visitantes, maldizia as autoridades, mandava que Eric levasse dali aquele anão maldito. Atravessava graves crises e esbravejava para as paredes, amaldiçoando a todos que encontrava.
Para piorar a situação, Kate e Ross levaram a público as atrocidades por ele cometidas, com o auxílio de alguns enfermeiros. A notícia foi manchete nos jornais, e a acusação levou as autoridades a intervirem no hospício, iniciando-se uma sindicância. Os aparelhos utilizados por Kramer em seus tratamentos foram encontrados e transferidos à administração de outros médicos. Muitos enfermeiros foram dispensados, alguns até submetidos a investigação, acusados pelas internas de amarrar as moças à cama e violentá-las.
O cerco em torno de Kramer foi-se fechando. As autoridades o submeteram a rigorosa investigação, e choveram acusações sobre ele. Acuado e desesperado, tomou a única decisão que lhe pareceu digna naquele momento. Numa noite chuvosa, enforcou-se no sótão do hospício, sendo arrastado pelos espíritos das sombras, que, sem qualquer discernimento ou sentimento de perdão, puderam enfim aprisioná-lo.

12
Em setembro de 1939, Ross e Marianne chegaram a Paris em meio a forte comoção. Tendo declarado guerra à Alemanha, os franceses contavam com a linha Maginot para manter o inimigo longe de sua pátria. Confiante em sua segurança, Ross alugou um pequeno apartamento num bairro ao sul de Paris com o dinheiro que o pai lhe dera, suficiente para manter a ambos durante alguns meses. Embora Nathan prometesse enviar mais quando necessário, Ross pretendia arranjar um emprego. Era jovem, inteligente, bem apessoado e tinha um bom domínio do francês. Nos primeiros tempos, contudo, não deixaria Marianne sozinha. Somente depois que ela se acostumasse, e estivesse pronta para se cuidar sozinha, é que partiria em busca de trabalho.
Apesar das dificuldades, estavam felizes. Sentiam-se livres e em paz, e poderiam enfim viver o verdadeiro amor. Na primeira noite em sua nova casa, Ross deitou-se ao lado de Marianne e pôs-se a alisar seus cabelos ralos e curtos, beijando-os com ternura, sentindo-se inebriado pelo seu aroma suave.
Conhecera Marianne a vida inteira e sempre a vira como menina. Mesmo quando lhe dera banho, não sentira o despertar do desejo, talvez devido às circunstâncias em que tudo acontecera. Agora, porém, via-a com outros olhos. Ela não era dotada de nenhuma beleza clássica ou que chamasse a atenção, mas tinha um rosto regular, feições delicadas, olhos profundos que variavam constantemente do azul para o verde. Ross pensou no quanto a achava bonita e teve a certeza de que jamais poderia amar outra mulher em toda a sua vida.
Ao sentir que Ross a acariciava, Marianne encolheu-se toda na cama, com medo de que ele descobrisse que ela não era mais virgem e desistisse de se casar havia passado por maus momentos, e ele compreendia sua reação. Aconchegou a cabeça dela em seu ombro e continuou a afogá-la, ouvindo-a chorar baixinho.
- Está tudo bem agora. Estamos juntos. Nunca mais vou me separar de você nem deixar que lhe façam mal.
Marianne chorava agarrada a ele, tentando se esquecer de tudo por que havia passado. Tinha vontade de contar-lhe a verdade, mas não conseguia.
Adormeceram. No dia seguinte, fizeram compras e Ross lhe deu roupas novas e bonitas. Fazia muito tempo que não se vestia adequadamente. Acostumara-se aos roupões do hospício, aqueles camisolões brancos, retos e compridos, que nada tinham de agradável. Também foram ao mercado e compraram frutas, legumes, carne e doces.
Iam aprendendo juntos as tarefas do lar, e Ross acabou por se revelar um exímio cozinheiro, enquanto Marianne cuidava da casa. Aos poucos, foi tomando gosto pelas coisas belas e distraía-se plantando flores em pequeninos vasos que Ross lhe comprava, ajeitando um enfeite aqui e ali, pendurando quadros nas paredes. Logo a casa tomou um ar agradável e aconchegante, levando confiança e paz a Marianne. Pela primeira vez, sentia que tinha um lar.
Após quatro meses, ainda viviam como irmãos. Várias foram as vezes em que Ross tentara um contato mais íntimo, contudo, Marianne sempre se encolhia e começava a chorar. Ele então a afagava e soprava palavras de amor aos seus ouvidos, procurando transmitir-lhe confiança. Marianne também sentia o desejo, que acabava sendo sufocado pela lembrança atroz da brutalidade dos enfermeiros e pelo medo de perdê-lo.
Mesmo que ela não dissesse nada, Ross tinha quase certeza de que algo acontecera no sanatório. Não foram poucas as vezes em que surpreendera os olhares lúbricos que os enfermeiros lançavam a algumas pacientes mais jovens e bonitas. Não havia garantias de que eles não molestassem as moças, ainda mais porque o doutor Kramer não parecia o tipo que se importava com o que acontecia às doentes.
Aos poucos, Marianne foi substituindo o medo pela confiança e a certeza de seu amor. Ele se aproximava com carinho e a acariciava com ternura, sem tentar forçá-la a nada, sempre dizendo o quanto a amava. Até que um dia, enchendo-se de coragem, Marianne indagou de súbito:
— É verdade que os homens não se casam com mulheres que já não são mais virgens?
A ingenuidade da pergunta o comoveu, e ele a abraçou com efusão antes de retrucar:
— Quem lhe disse isso?
— Ouvi os enfermeiros comentando — revelou ela, cheia de medo.
— Pois eles estão enganados. Quando há amor, tudo o mais perde a importância.
— Virgindade não é importante?
— Não.
Ela se calou, refletindo no que Ross dissera, enquanto ele se convencia do fundamento de suas desconfianças. Queria, porém, fazer com que ela compreendesse que nada faria diminuir o seu amor por ela.
— E se eu não fosse mais virgem? — arriscou ela timidamente. — Você se importaria?
— Não — respondeu ele de imediato, encarando-a com seriedade.
Com os olhos abaixados e úmidos, Marianne acabou revelando numa voz quase inaudível:
— Não sou mais virgem, Ross. Os enfermeiros fizeram isso comigo...
Os soluços a fizeram calar-se, e Ross a estreitou o mais que pôde. Todo o corpo de Marianne estremecia, e ele foi beijando-a suavemente, dizendo com o máximo de ternura que conseguiu reunir:
— Tudo se acabou agora. Eles não podem mais lhe fazer mal, e eu farei de tudo para fazer você esquecer o que houve.
— Eu não queria... — gemeu baixinho. — Mas eles me obrigaram... me amarraram na cama... subiram em cima de mim... fizeram coisas horríveis...
O pranto agora a dominava por completo, e Ross a tomou nos braços como um bebê, embalando-a com sua voz doce e carregada de amor:
— Está tudo bem. Chore, minha querida, e descarregue sua dor. Eu estou aqui e nunca vou deixar você.
— Não está zangado?
— Com você, nunca! Eu a amo, não entende? Mas fico triste e com raiva das pessoas que fizeram você sofrer. Perdoe-me por não ter podido evitar. Devia ter tirado você de lá há mais tempo, mas não pude.
Ele chorou também, e ela sentiu fluir do corpo dele uma energia de compreensão e amor que lhe trouxe serenidade. Aos poucos, sentiu-se descontrair em seus braços e alisou-lhe o rosto, molhando suas mãos com as lágrimas do rapaz. Ross beijou as pontas de seus dedos e puxou seu rosto, recebendo os lábios entreabertos de Marianne como um doce presente para os seus. O beijo que se seguiu não foi carregado de volúpia nem de ardor, mas tinha uma dose tão grande de amor que fez com que Marianne se entregasse sem medo ou hesitação.
Depois de consumado o ato de amor, os dois estavam seguros e felizes. Marianne se abraçou a ele, sentindo esvair-se o temor e a lembrança da brutalidade, substituída agora pelos momentos de carinho e afeto que vivera com Ross. Nada é mais poderoso do que a vivência do amor, que supera todos os traumas e os faz pequenininhos diante de sua beleza.
— Ainda seremos muito felizes — comentou ele, acariciando suas faces. — Vamos nos casar e ter muitos filhos.
Ela desviou os olhos dele e balbuciou sentida:
— Ross...
— O que é?
— Não quero ter filhos. Tenho medo de que eles sejam como eu.
— Não tem importância, Marianne — afirmou compreensivo. — Quero apenas estar com você.
Finalmente, haviam conquistado a felicidade. Estavam em paz com eles mesmos. Até que o tempo passou, trazendo para mais perto os horrores da guerra.

13
Em Londres, quando as buscas por Marianne haviam cessado, Kate resolveu revelar a verdade ao marido. David recebeu a notícia sem entusiasmo. Apesar de ela ter demorado a lhe contar, ele tinha certeza de que fora ela a responsável pela fuga da filha.
— Pensou bem no que fez? — censurou ele. —Deixou fugir uma louca que não tem a menor condição de cuidar de si mesma. E ainda envolveu um rapaz que mal começou a viver.
— Não envolvi ninguém — defendeu-se. — Ross é adulto e sabe cuidar de si. E ama Marianne de verdade, ao contrário de você, que deveria amá-la tanto quanto eu.
— Ah! Agora o seu amor é o maior do mundo. Mas não pensou assim quando a internou.
— Vi o que Marianne sofreu.
— Ela não sofreu nada além do necessário ao tratamento.
— Acha necessário ela tomar choques na cabeça?
— O doutor Kramer me afirmou que o método é novo e foi muito bem aceito na comunidade médica. Acalma os doentes.
— O doutor Kramer é um louco. Aquele lugar é todo de gente louca. A única diferença que separa os doentes dos médicos e enfermeiros é a posição que cada um ocupa. Os doentes são os loucos, assim declarados pelos que vivem a liberdade para exercer a loucura com o respaldo da lei e da justiça.
— Não devia falar assim. O doutor Kramer fez de tudo para ajudar Marianne.
— Você não sabe o que diz — rebateu ela com profundo desprezo. — E não sabe porque não quis ver. Mas eu vi. Vi em que Marianne se transformou. Você não. Quando foi visitá-la...?
— Ela não queria me ver.
— A mim também não e, mesmo assim, não deixei de visitá-la um domingo sequer. E sabe por quê? Porque ela é minha filha e, haja o que houver, nunca vai deixar de sê-lo.
A acusação na voz dela era facilmente perceptível, e David retrucou com uma certa raiva:
— Sinto muito se não fui o pai e o marido que você esperava. Mas, se fiz o que fiz, foi pensando no bem-estar da família.
— Essa desculpa já não convence mais a nenhum de nós. Por que não assume que não gosta dela, que tem vergonha de sua loucura e, por isso, preferiu jogá-la no hospício e esquecer que ela existe?
— Você está sendo injusta. Ela agrediu você e tentou matar os irmãos. Era meu dever proteger a todos da fúria incontrolável de Marianne.
— Se desde cedo a tivéssemos tratado com amor e respeito, ela jamais teria atacado ninguém. Poderíamos tê-la controlado, assim como Ross sempre o fez.
— Isso são conjecturas. Ninguém sabe por que ela agia de forma diferente com Ross. Mas loucos são imprevisíveis, não raciocinam, não agem pela lógica, não tomam atitudes sensatas. Não precisam de motivos nem de explicação para nada. São apenas... loucos.
— São seres humanos. Precisam de amor. E Marianne... é apenas uma criança. Tão jovem e já tão carregada de sofrimentos.
— Ora vamos, Kate, ela não sofreu tanto assim. As terapias eram necessárias...
— Ela foi estuprada, David! — irritou-se Kate, interrompendo-o. — Várias vezes. Isso também é uma terapia necessária?
David encarou-a perplexo:
— Estuprada? Por quem? Alguém entrou no hospício sem que vissem? Foi outro doente?
— Foram os próprios enfermeiros! Eles a amarraram na cama e a violentaram. Várias vezes!
— Como é que sabe disso?
— Ross me contou.
Ela desdobrou uma carta que trazia guardada dentro do corpete e exibiu-a a David, que a tomou e leu brevemente.
— Será? — duvidou. — Talvez isso seja mais uma de suas invenções.
Ela arrancou a carta das mãos de David e rebateu furiosa:
—Marianne pode ser louca, mas estava dizendo a verdade quando nos contou todas aquelas coisas. Você não a viu, não viu os hematomas pelo seu corpo. Não viu o medo em seus olhos, não sentiu o tremor de seu coração. Como pode dizer que ela inventou todo aquele sofrimento? E agora isso!
Sem conseguir se conter, Kate atirou a carta em cima de David e saiu batendo a porta. Estava arrasada. Sentou-se no degrau da varanda e ficou pensando em sua vida. Os outros filhos cresciam saudáveis e quase já não se lembravam mais de Marianne. Nem sabiam que ela tinha sido internada. Eles haviam inventado uma desculpa de que ela ficara doente e fora para outra cidade se tratar. Depois disso, o assunto foi morrendo, até que a lembrança de Marianne quase se esvaneceu por completo da cabeça das crianças.
Não era certo que os filhos esquecessem a irmã. Marianne podia estar longe, mas tinha o mesmo sangue que eles, era tão sua filha quanto os outros. Decidida a não deixar a memória de Marianne desaparecer daquela casa, partiu para o quintal atrás da casa, onde os outros estavam brincando. Contou-lhes tudo. Roger e Kevin compreenderam bem, mas Suzie ainda ficou um pouco confusa. Era a mais nova e não se lembrava muito bem da irmã. Os três, porém, lamentaram profundamente a sorte de Marianne. Não lhe guardavam raiva, ainda mais porque Kate lhes dissera o quanto ela era doente.
— Onde é que ela está agora? — quis saber Roger.
— Na França. Com Ross.
Não disseram nada. Fizeram algumas perguntas a respeito do hospício e da fuga, e acharam genial a ideia e a coragem da mãe.
— Libertei Marianne porque a amo — respondeu ela emocionada. — Assim como a internei por amor a vocês. Posso não ter feito a coisa certa, mas pensei estar ajudando a todos.
David ouviu a conversa sem dizer uma palavra. Começava a se arrepender do que fizera, mas o orgulho o impedia de se retratar. Era-lhe difícil reconhecer o erro. Muito mais difícil pedir perdão.
Na semana seguinte, assim que voltou do trabalho, David percebeu que havia vizinhos novos na casa ao lado. A movimentação de mudança era familiar e corriqueira, pois, desde que Nathan se mudara, a casa já devia ter sido alugada umas três vezes.
— Temos vizinhos novos outra vez — anunciou ele, sentando-se à mesa para jantar. — Será que estes vão ficar mais tempo?
— Algo me diz que sim — afirmou ela em tom misterioso.
Apesar de perceber o ar de mistério, David não lhe deu importância, tentando evitar, ao máximo, desavenças com a mulher. Kate terminou o jantar, e ele estranhou imensamente quando ela reapareceu na cozinha, segurando nas mãos um prato de bolo coberto por um pano.
— O que é isso? — indagou com curiosidade.
— Fiz um bolo de boas-vindas para o novo vizinho.
— Novo vizinho? É um homem solteiro? — ela assentiu. — Não tem família?
Ela simplesmente sorriu e retrucou de bom humor:
— Não quer vir?
Era a primeira vez que Kate lhe pedia que a acompanhasse à casa vizinha. Aliás, ele não se lembrava de nenhuma outra vez em que ela levasse bolo para os novos moradores. Alguma coisa estava acontecendo, e ele não sabia o que era. Resolveu acompanhá-la, não apenas pela curiosidade, como também para não desfazer o ar de felicidade que ela exibia no rosto, algo que ele não via há muito tempo.
— Está bem. Vamos.
Foram, em companhia das crianças, para a casa vizinha, causando uma estranheza ainda maior em David. Kate tocou a campainha e aguardou com expectativa o novo morador. Segundos depois, a porta se abriu, e David estacou, mudo de emoção, mal acreditando no que via.
— Nathan! — exclamou surpreso, sem saber se o abraçava ou se permanecia onde estava.
— Meu irmão — sussurrou Nathan, a voz embargada. — Não sabe o quanto esperei por esse dia.
Abraçaram-se meio constrangidos, e Nathan olhou para Kate por cima do ombro. Ela permanecia parada, olhos rasos de água, segurando na mão o prato de bolo. Nathan separou-se de David e convidou-os para entrar. Beijou os sobrinhos, surpreendendo-se com o quanto haviam crescido. Roger estava um meninão e fez com que se lembrasse de Ross. Eram bastante parecidos, assim como ele e David se pareciam também. Entraram todos e se sentaram ao redor da mesa. Nathan apanhou vinho para eles e refresco para as crianças, enquanto Kate servia o bolo. Faltavam-lhes Ross e Marianne, mas se haviam tornado de novo uma família.
A família era o que de mais caro havia para Nathan. Depois do divórcio e da ida de Ross para Paris, sentira-se mais solitário do que nunca. Apenas Kate o visitava de vez em quando, tentando estimulá-lo à reconciliação. Nathan, contudo, temeroso de que David o rejeitasse, ia adiando o reencontro. Até que a casa vizinha tornou a ficar vaga. Com a mudança dos inquilinos, veio a ideia de Kate. Por que Nathan não comprava a casa em que passara os anos mais felizes de sua vida?
A ideia ganhou forma, e Nathan concretizou a transação. Com o que lhe restou do dinheiro da venda da mansão, fez uma proposta ao proprietário, que, após certa relutância, aceitou. A casa precisava de pintura, mas Nathan preferiu deixar a reforma para depois da mudança. E agora, ali estava ele, junto da família que jamais devia ter abandonado.
Durante muito tempo, ficaram entretidos em amistosa conversa, até que Kate foi para casa com os filhos, deixando o marido e o cunhado a sós. Já era tarde, e os dois permaneceram bebericando vinho. A certa altura, levemente estimulado pela bebida, Nathan disse:
— David, eu... nem sei como começar...
— Começar o quê?
— A me desculpar pelo que fiz... — Nathan engoliu em seco, e David apertou a sua mão.
— Não precisa — confortou ele. — Somos irmãos, e desculpas não são necessárias.
— São sim. Sinto-me péssimo pela forma como o tratei.
— Você estava envolvido por aquela mulher. E eu não consegui compreender os seus motivos.
— Mas eu estava errado.
— Não fique se culpando pelas atitudes que tomou — cortou David, reflexivo. — Todos nós fazemos coisas das quais nos arrependemos depois.
— É verdade.
— Veja eu, por exemplo. Quando internei Marianne, achei que era o certo. Hoje não estou mais tão seguro.
— Nós dois tomamos caminhos errados. Será que ainda temos como voltar?
— Acho que sempre podemos voltar. O caminho que vai é o mesmo que vem. Basta dar meia-volta.
— A meia-volta é o mais difícil.
— Creio que é mais difícil por causa do orgulho. Aceitar que falhamos e retornar fere a imagem de altivez que construímos a nosso respeito. É um problema que temos que resolver conosco. Não diz respeito a mais ninguém.
Nathan ficou algum tempo pensativo, até que considerou:
— Você está mudado. Mais maduro, sei lá.
— É o que Kate faz por mim. Não posso dizer que foi ela que me mudou, mas, com certeza, é graças a ela que hoje penso essas coisas. Kate é uma mulher e tanto,
— Tem razão. Não fosse por ela, eu não estaria aqui hoje. Foi ela que me incentivou a comprar a casa, depois que Ross se foi.
— Você sabia que ele estava envolvido no plano para libertar Marianne?
— Ross me contou tudo. E fui eu que dei dinheiro para eles viajarem para a França.
— Você fez por minha filha o que eu, como pai, jamais a aproximação de um velho conhecido seu, até então afastado pelas ondas de amor provenientes de Ross.
Mesmo sem poder se aproximar, Luther acompanhava de longe todos os passos de Marianne. Muitas vezes, ela o via sentado no parapeito da janela, como ele gostava de fazer, e se assustava. Logo reagia. Parava o que estava fazendo e começava a gritar:
— Ele está aqui! Luther quer me pegar! Não deixe, Ross! Não deixe!
Embora Ross não visse nada e julgasse tratar-se de mais uma de suas muitas alucinações, não fazia qualquer comentário que a embaraçasse. Nunca a contrariou ou tentou convencê-la de que não havia ninguém ali. Aos poucos foi percebendo que, se rezasse, as alucinações sumiam e, abraçado a ela, costumava sintonizar com vibrações mais elevadas, atraindo espíritos amigos que espargiam no ambiente partículas invisíveis de amor e luz, tão poderosas que enfraqueciam o poder de Luther.
Certa manhã, em fins de novembro de 1941, Ross recebeu uma carta de Kate, contando-lhe que o pai e o tio haviam sido convocados pelo exército. Já não havia muitos jovens que pudessem atender às necessidades militares, e a conscrição se voltou para os mais velhos, homens de até cinquenta anos, com força e saúde suficientes para lutar.
A notícia foi causa de imenso desgosto para Ross. Seu pai o enviara a Paris para fugir do alistamento. No entanto, ele mesmo acabara ingressando no exército, ao lado do tio, ambos enviados para o campo de batalha. Mesmo seus amigos, Vincent e Arnold, haviam-se alistado espontaneamente. Apenas ele fugira covardemente e se refugiara em Paris, onde pensara que a guerra jamais iria chegar. Por mais que justificasse sua vinda com a necessidade de proteger Marianne, o que era inteiramente verdade, a alma do jovem indócil e indomado começou a incomodar, e Ross sentia, mais do que nunca, a necessidade de retornar a seu país e participar dos eventos.
Com o pai ausente, na guerra, o dinheiro começou a escassear. Ross economizou o mais que pôde, até que lhe sobraram apenas alguns poucos francos, suficientes para a viagem de volta. Não havia oportunidades de emprego, e a escassez era geral. Na Inglaterra talvez não fosse tão diferente, no entanto, era o seu país e não estava ocupado pelos nazistas.
— Precisamos voltar — informou a Marianne. —Nosso dinheiro acabou.
— Não quero ir — choramingou ela. — O doutor Kramer vai me encontrar e me levar de volta. Se tiver que voltar para aquele lugar, eu me mato. Você vai ver.
— Isso não vai acontecer — assegurou ele com firmeza. — Vamos voltar porque nosso dinheiro acabou. É a guerra, Marianne, você tem que compreender isso.
— Tenho medo... Tenho mais medo do doutor Kramer do que das bombas.
— Estaremos juntos, e o doutor Kramer não vai encontrá-la. Eu prometo. E mesmo que a encontre, mato-o antes de encostar as mãos em você.
— Você promete?
— Prometo, já disse. Mas você tem que confiar em mim. Se continuarmos aqui, vamos morrer ou ser presos. Você não quer ir para um campo de concentração, quer?
— Não sei...
— Você não sabe o que diz. Campo de concentração é um lugar horroroso. Matam as pessoas lá.
— Não quero ir.
— Então, vamos voltar. Na Inglaterra, ninguém poderá nos prender nem mandar embora.
Finalmente, ela concordou. Auxiliado por seus amigos na resistência, Ross comprou passagens para ele e Marianne. Apesar dos riscos, conseguiram chegar a Londres em segurança.
A rua onde Kate morava vivia agora praticamente deserta. Toda a população masculina com capacidade de combater havia sido recrutada, e os empregos antes destinados aos homens passaram a ser ocupados pelas mulheres. Kate era uma mulher por demais corajosa e decidida para ficar em casa lamentando a fome e a falta de tudo.
Conseguiu emprego numa fábrica de armas. Não que aquilo a agradasse, mas não podia se dar ao luxo de escolher. Roger, agora com quatorze anos, conseguiu emprego na mesma fábrica, enquanto Kevin e Suzie faziam o serviço de casa. Foram tempos difíceis. As notícias que recebia do marido e do cunhado eram poucas e nada animadoras, contudo, lhe davam ânimo, pois sabia que, ao menos, estavam vivos. As cartas de Ross, por outro lado, haviam cessado após a invasão alemã, o que a deixava em constante sobressalto.
Naquela noite, Kate e Roger chegaram a casa à hora de costume. Caía uma chuva fininha e soprava um vento frio e cortante. Suzie, agora com dez anos, cedo aprendera a cozinhar e a fazer algumas tarefas domésticas, auxiliada por Kevin, que cuidava dos serviços mais pesados.
Kate entrou em silêncio, seguida pelo filho, e foi-se sentar à mesa. Já nem sentia mais fome. Comia porque precisava, porque não podia desistir da vida enquanto tivesse seus filhos para cuidar. Terminado o jantar, ainda reuniu forças para ajudar Suzie com a louça. Faziam o trabalho em silêncio, ambas exaustas, sem querer admitir, quando ouviram batidas na porta. Apesar do susto, Roger foi atender. Era o homem da casa agora e se sentia responsável pela segurança de toda a família.
Atrás dele, Kate seguiu apreensiva. Assim que ele abriu a porta, ela se adiantou e soltou um grito de surpresa, passando por Roger com rapidez. Parados do lado de fora, Ross e Marianne, molhados da chuva, tiritavam de frio.
— Meu Deus! — exclamou Kate. — São vocês. Depressa, entrem!
Os dois passaram para o lado de dentro, causando enorme estranheza nos filhos de Kate, para quem a irmã e o primo haviam-se tornado dois estranhos.
— Tia Kate... — balbuciou Ross, a voz embargada.
Kate mal conseguia falar. Abraçou os dois ao mesmo tempo, chorando de alegria. Com as mãos postas sobre os lábios, abafando os soluços, fitou Marianne admirada. Ela estava bonita, como nunca antes lhe parecera. Os cabelos haviam voltado a crescer e a palidez cedera lugar a um rosto corado e viçoso. Estava diferente. Engordara, ganhara formas de mulher. Já não era mais uma menina.
— Marianne... — sussurrou, tentando conter as lágrimas. — Como está bonita!
— Senti saudades — disse ela, fitando as quase esquecidas feições da mãe.
Passado o impacto do primeiro momento, Kate enxugou os olhos e chamou os filhos.
— Venham cumprimentar sua irmã.
Os três se aproximaram acanhados. Marianne também se sentia pouco à vontade na presença deles, envergonhada pela forma como os tratara no passado. Suzie, percebendo o seu mal-estar, ergueu-se na ponta dos pés e deu-lhe um beijo no rosto, acrescentando com genuína emoção:
— É muito bom tê-la de volta, Marianne. Mamãe sempre nos fala de você.
Fitando-a por uns momentos, Marianne sentiu o coração se apertar. Suzie era uma menina muito bonita, assim como os irmãos. Os dois se aproximaram também e a beijaram, e Marianne se espantou com o tamanho de Roger. Era um homem e se parecia muito com Ross.
Sentiu-se feliz e reconfortada. Estava em casa, sua antiga casa e, de repente, era como se nunca tivesse saído dali. Lembrou-se de que, nos primeiros tempos, antes de tudo acontecer, formavam uma família feliz. Os pais eram dedicados e, apesar de ela sempre ter sido uma menina calada e arredia, sua primeira infância foi bastante agradável.
Afastou aqueles pensamentos. Fazia um bom tempo que ganhara lucidez e não tinha nenhuma crise. Não era agora que pretendia ter.Durante o tempo em que permaneceram ali, ninguém relembrou aqueles tristes episódios. A loucura e o hospício se tornaram assuntos proibidos naquela casa. Não lhe perguntaram nada e, seguindo a sugestão de Ross, não a contrariavam quando ela dizia ver alguma pessoa invisível ou ouvir alguma voz inaudível por perto.
O principal e mais temido assunto agora era a guerra. Era com esse terror que precisavam se preocupar. Com Marianne e Ross em casa, um pouco de alegria voltou ao coração de Kate. O marido e o cunhado estavam longe, e a presença dos filhos reunidos, inclusive Ross, que sempre considerara seu próprio filho, era o que a mantinha viva e confiante.

15
Kate terminou de se aprontar e desceu para tomar café, que Marianne havia feito caprichosamente. Ela estava mudada, mais madura, perdera os gestos infantis e assumira atitudes de mulher. De forma óbvia, ela e Ross levavam uma vida de casados, fato que não incomodou Kate. Naqueles tempos de guerra, onde o futuro era incerto e tenebroso, o importante era viver.
Sentada ao lado de Roger, Kate engolia a refeição, com medo de se atrasarem para o trabalho.
- Ande, filho – apressou ela. – Não temos muito tempo.
Roger assentiu e enfiou um pedaço de pão dormido na boca. Antes que terminassem o desjejum, Ross comentou:
- Preciso arranjar um emprego. Não posso continuar assim.
- Se puser a cara para fora de casa, será imediatamente convocado – alertou Kate, dando mostras de que aquela possibilidade a amedrontava terrivelmente.
- Sou homem, não posso viver às custas de minha tia e de meu primo menor.
- Não é hora para orgulho – censurou ela. – Não se esqueça de que, para todos os efeitos, você está fora da lei.
- Mamãe tem razão — concordou Marianne preocupada, tremendo só de pensar em perdê-lo. — Você fica aqui e cuida de nós.
— Sei que a situação não é das mais agradáveis e entendo a sua preocupação — acrescentou Kate. — Mas é só por uns tempos, até a guerra acabar.
— E até lá, fico fazendo o quê?
— Fica comigo — falou Marianne. — Podemos passear juntos.
— Não podemos — objetou ele.
— Estamos em guerra, Marianne — disse Kate com paciência. — Ross não pode ficar perambulando por aí. Você não quer que ele seja convocado, quer?
— Não.
— Pois então, vocês têm que ficar em casa. Tenho certeza de que Ross vai encontrar alguma coisa para fazer.
Saiu com Roger, e Ross permaneceu em casa, fazendo companhia a Marianne e aos demais. Ajudava na arrumação, cozinhava com Marianne, cortava a grama do quintal. Mas não saía. Era como uma prisão que já o estava enervando. Não estava acostumado a ficar escondido e sentia-se um inútil dentro de casa. Roger, seis anos mais novo, trabalhava para ajudar no sustento da família, enquanto ele, um homem, ficava em casa ajudando as crianças com as tarefas domésticas. Era humilhante.
Quis ir à sua antiga casa e soltou a madeira da cerca por onde costumavam passar. Precisava fazer alguma coisa para ajudar. Em companhia de Marianne, abriu a porta dos fundos e entrou. A casa estava escura e cheirando a mofo. Com o trabalho na fábrica, Kate não tinha tempo de arejá-la nem de limpá-la. Ross reconheceu alguns móveis que o pai trouxera da outra casa e viu que ele havia comprado outros, mais modestos e discretos. Subiu ao seu antigo quarto e encontrou ali todos os pertences que havia deixado.
— O que está procurando? — indagou Marianne, interrompendo as suas lembranças.
— Não sei. Algo para vender.
Vasculhou todos os cômodos e fez uma trouxa com algumas peças de maior valor. Juntou tudo e saiu, fechando a porta com cuidado.
— Aonde vai com isso?
— Vou vender. Mas não se preocupe. Logo, logo estarei de volta.
— Mamãe mandou você não sair.
— Você não entende, Marianne. Preciso colaborar com alguma coisa. Se não posso trabalhar, essa vai ser a minha colaboração.
Apertando o saco na mão, deu um beijo em Marianne, sorriu e ganhou a rua, imaginando onde poderia vender aqueles objetos, suas coisas e de seu pai. Com aquela escassez de comida, ninguém pensaria em comprar objetos de valor e obras de arte.
Ninguém, exceto os novos ricos. Se, por um lado, a guerra gerara muitos miseráveis, por outro, enriquecera muita gente, como os fabricantes de armas e munições. Pensando nisso, tomou uma resolução. Sabia onde ficava a fábrica em que a tia trabalhava e se dirigiu para lá, evitando as ruas de maior movimento. Não queria ser surpreendido por nenhum oficial do exército nem por alguém que pudesse denunciá-lo.
Chegou aos portões da fábrica e pediu para falar com o dono. O vigia, um senhor de seus sessenta anos, olhou-o com desconfiança e indagou bruscamente:
— Por quê?
— Tenho algo que talvez possa lhe interessar.
— Hum... Não sei o que um pobretão como você pode ter a oferecer ao senhor Wood.
Ross refreou a ânsia de esbofetear o sujeito e insistiu:
— Diga-lhe que tenho objetos de valor... Obras de arte por uma ninharia.
O velho considerou por alguns instantes. Podia ser que o senhor Wood tivesse algum interesse naquilo, afinal. Coçou a barba mal feita e mandou que Ross esperasse. Pouco depois, ele entrava no escritório do senhor Wood.
— Muito bem, meu rapaz — disse o homem, também já de uma certa idade. — Carl disse que você tem alguma coisa a me oferecer.
— Sim, senhor.
Abrindo a trouxa sobre a mesa, Ross exibiu seu conteúdo. O senhor Wood levantou as sobrancelhas e segurou uma das peças na mão. Era um castiçal de prata maciça, com acabamentos em ouro, muito bonito. Colocou-o sobre a mesa e foi examinar o restante. Havia bandejas, talheres, pratos, tudo de prata. O senhor Wood ficou impressionado. Tinha em mãos uma pequena fortuna.
— Onde arranjou isso? — indagou desconfiado. —Por acaso você roubou?
— Não, senhor. Veio tudo da minha casa.
— Da sua casa? Por quê?
— Precisamos comer. Ninguém se alimenta de prata.
— Entendo...
Ele balançou a cabeça e ficou estudando o menino, até que perguntou novamente:
— Por que não está no exército, rapaz?
— É Ross. Meu nome é Ross.
— Está certo, Ross... Mas você não respondeu a minha pergunta. Por que não está no exército, como os outros jovens de sua idade?
Ross engoliu em seco e respondeu acabrunhado:
— Acabei de chegar da França.
— Da França? Sei... E por que não foi alistar-se?
— Por quê? Ora, porque... porque... Olhe, senhor Wood, vim aqui lhe oferecer mercadorias de muito valor, não para falar da minha vida. Se não está interessado, tudo bem. Posso procurar outro.
Rapidamente, Ross começou a recolher os objetos, mas o senhor Wood segurou a sua mão.
— Não precisa ficar nervoso, rapaz... Ross. Quanto quer pelas peças?
Vendeu tudo pela metade do que valiam, mas pelo menos conseguiu vender. Foi correndo para casa, feliz da vida e, quando Kate chegou, entregou-lhe todo o dinheiro.
— Como conseguiu isso? — inquiriu ela, perplexa.
— Vendi umas peças valiosas de minha casa.
— Não devia ter feito isso. Seu pai não vai gostar.
— Meu pai vai ficar feliz se souber que tivemos com o que nos alimentar.
— Arriscou-se desnecessariamente. Alguém podia tê-lo visto.
— Fique sossegada. Ninguém me viu.
— Onde foi que conseguiu comprador para isso? Ele piscou um olho e colocou o dedo nos lábios da tia, respondendo num cicio:
— É segredo.
Ross não queria lhe contar que vendera as peças ao seu patrão. Kate não iria gostar e, se o senhor Wood descobrisse, poderia fazer alguma coisa contra ela e Roger. Apesar da curiosidade, Kate não perguntou mais. Confiava nele o suficiente para saber que ele jamais se envolveria em alguma atividade ilegal.
Na semana seguinte, Ross reuniu novas peças e voltou ao escritório do senhor Wood, que o recebeu com uma certa cortesia. Comprou o que ele levara, sempre pela metade do preço. Aos poucos, Ross foi vendendo tudo. Quadros, vasos, pratarias. Qualquer coisa que tivesse algum valor. Graças ao dinheiro dessas vendas foi que conseguiram uma vida um pouco melhor. O salário de Kate e Roger mal dava para sustentar cinco pessoas, que dirá agora, com mais duas bocas para alimentar.
Graças ao dinheiro que Ross apurou, o Natal não foi tão ruim. Conseguiram comprar um peru magrinho e presentes singelos para toda a família. A época lhes trouxe um pouco mais de conforto, renovando a esperança do fim da guerra. O conflito, todavia, estava longe de terminar. Poucos dias depois, iniciaram-se os ataques aéreos, com bombas incendiárias e explosivas, provocando o Segundo Grande Incêndio de Londres.
Mesmo com os bombardeios, Ross continuou a vender os objetos de sua casa. Quando estes terminaram, Kate pediu que vendesse também os dela. Algumas jóias, louças e prataria foram aos poucos passando às mãos do senhor Wood. Durante um bom tempo, seus pertences renderam um bom dinheiro. Tudo foi vendido, desde a prataria até toalhas de renda e colchas.
Quando, por fim, já não havia mais nada de valor que pudesse ser vendido, Ross começou a juntar algumas roupas em melhor estado. O senhor Wood deu uma boa examinada no material e encarou Ross. À exceção de um casaco de peles, nada o agradou.
— O que houve, rapaz? — perguntou irônico. —Acabou o seu estoque?
— Infelizmente, senhor Wood, já vendi tudo o que tinha de mais valor.
— Entendo...
Sem dizer nada, ele abriu a gaveta e tirou um maço de notas, atirando-o para Ross. Ele contou o dinheiro e ficou desapontado. Não era nem a quarta parte do que o casaco valia.
— Só isso? — queixou-se.
— Dê-se por satisfeito, rapaz. As roupas não servem para nada, e o casaco já está velho e puído.
Era mentira, mas ele não estava em condições de barganhar. Apanhou o dinheiro e foi embora. Depois que ele saiu, o senhor Wood tocou uma sineta, e Cari apareceu:
— Pode dar o alarme — disse Wood friamente. —Não preciso mais dele.
Na semana seguinte, quando Ross apareceu com algumas poucas camisas, foi surpreendido por um oficial do exército, que parecia estar à sua espera. Imediatamente, compreendeu tudo. O senhor Wood já não precisava mais dele e fez um favorzinho ao exército, esperando cair nas boas graças dos oficiais. Afinal, era comerciante de armas.
O oficial deu ordens para que os dois soldados que o acompanhavam prendessem Ross, e foi o que eles fizeram.
— Deveria mandá-lo à corte marcial. — disse o oficial com aspereza— Contudo, a Inglaterra precisa de homens, e você tem mais valor na batalha do que na prisão.
— Vai me mandar para a guerra?
— O que você acha?
O senhor Wood nem apareceu para ver o que estava acontecendo. Ross foi levado à força pelos soldados e deixou cair no chão o embrulho com as camisas, que Carl imediatamente apanhou. Não faria mal se ficasse com aquilo. O senhor Wood não estava mais interessado nas ofertas do rapaz, contudo, ele precisava se vestir.
Sem alternativa, Ross foi conduzido pelos soldados. Não tinha medo da guerra e, não fosse por Marianne, teria sido o primeiro a se alistar. Contudo, o que seria dela se ele fosse embora? Tinha certeza de que ela voltaria a ter aquelas crises e aqueles ataques. As alucinações retornariam com mais violência, e a ameaça do hospício, para onde ele prometera que ela jamais voltaria, o aterrorizou.
— Por favor, senhor — suplicou. — Deixe-me ao menos passar em casa para me despedir. Moro com minha tia e meus primos. Meu pai e meu tio estão na guerra. Titia vai ficar preocupada.
Apesar da má vontade, o oficial consentiu. Afinal, o rapaz não estava sendo sequestrado, e sim mandado para a guerra. Era natural que a família soubesse de seu paradeiro.
— Está bem — falou com frieza. — Vamos. E que seja rápido.
Kate não estava em casa, mas Ross não queria dizer que ela trabalhava na fábrica do senhor Wood. Falaria com Marianne que teria que se ausentar por um tempo e que logo voltaria. Pediria a Kevin que cuidasse dela até que Kate chegasse e deixaria uma carta à tia, explicando tudo. Quando a guerra terminasse, voltaria são e salvo.
O carro do oficial estacionou em frente à casa de Kate. Sentado ao lado dele, Ross foi o primeiro a descer. O guarda, que já o aguardava na calçada, prendeu seu braço com firmeza. Ross ia protestar quando um zumbido de máquinas passou por eles, vindo do alto. Olharam todos ao mesmo tempo, aterrados com a visão dos aviões que cruzavam o céu enevoado. Instantes depois, um zunido agudo pareceu descer das nuvens, e várias bombas foram caindo em direção à terra, pontilhando o espaço aéreo com pequenos cilindros metálicos. Instantes depois, seguiram-se várias explosões, o fogo levantou do solo e ouviu-se o barulho de vidros que se partiam em mil pedacinhos.
Daí em diante, foi um estouro atrás do outro. Em meio ao bombardeio, os soldados saíram arrastando Ross rua abaixo, enquanto ele lutava para se soltar. Queria ir para casa, precisava ver Marianne. Logo depois, uma outra bomba explodiu e depois outra, e mais outra, cada vez mais perto. Ross e os militares haviam-se refugiado num pequeno pub que ficava no fim da rua, ocultando-se atrás do balcão, e ele tentava se desvencilhar.
— O que há com você? — esbravejou o oficial. —Não vê que estamos sendo bombardeados?
Em casa, Marianne e os irmãos não sabiam o que estava acontecendo. Quando ouviram os zunidos, correram para o quintal e olharam. A visão dos aviões e das bombas caindo do céu foi aterrorizante. Marianne sentiu o sangue gelar. Não sabia o que fazer. Ross não estava ali para lhe dizer. Pensando o mais rapidamente que pôde, pensou apenas em salvar os irmãos. Apanhou-os pelas mãos e disparou com eles para a cozinha, abrindo de chofre a porta do porão. Empurrou-os para dentro e bateu a porta, correndo para a rua feito louca. Precisava encontrar Ross e avisá-lo do bombardeio.
Nesse instante, atendendo a um impulso da intuição, Ross ergueu o corpo e espiou por sobre o balcão, fitando a rua pelos quadradinhos de vidro que formavam a janela do pub. O que viu deixou-o mais apavorado do que as bombas. Descendo a rua em desabalada corrida, vinha Marianne, aflita e desnorteada, chamando-o pelo nome e agitando os braços feito louca.
Ao vê-la, Ross não conseguiu se conter. Deu um soco no soldado que o segurava, meteu o pé no outro, empurrou o oficial e saiu correndo. Foi tudo tão inesperado que ninguém conseguiu evitar. Ross ganhou a rua com a velocidade de um relâmpago, correndo em direção a Marianne com o desespero estampado no olhar.
A primeira bomba que atingiu a rua atirou Ross a alguns metros de distância, emborcando-o numa poça de sangue, bem diante dos olhos de Marianne. Sem acreditar que ele havia tombado, ela correu para ele, alheia aos estrondos e estilhaços que voavam por toda parte.
— Ross! Ross! — chorava.
Aproximou-se rapidamente, coração aos pulos, rezando para que ele estivesse vivo. Ajoelhada ao lado dele, segurou sua cabeça entre as mãos e tentou fazê-lo responder aos seus apelos. Foi quando o oficial, apavorado dentro do pub, gritou para ela:
— Saia daí, menina. Saia daí, vamos!
Como Marianne não se movia, o oficial saiu de seu esconderijo e foi em direção a ela, desviando-se das explosões que aconteciam por toda parte. Nem teve tempo de alcançá-la. Uma nova sucessão de bombas caiu em derredor, jogando pelos ares casas, carros e pessoas. O oficial sumiu no meio do fogo e, no lugar em que Marianne estava, uma nuvem de poeira e uma pilha de destroços ocultavam seu corpo agora inerte, atirado para longe do corpo de Ross.

16
Foi preciso esperar até o término do bombardeio para que Kate pudesse ir para casa. A destruição que foi encontrando pelo caminho fez estremecer o seu corpo. Passava por ruas incendiadas, ao lado de pessoas mortas e mutiladas, sensível ao desespero dos sobreviventes, que procuravam por seus entes queridos em meio aos destroços.
A exemplo das demais, a rua em que morava também fora atingida. Muitas construções haviam sido destruídas, e vários homens tentavam conter o fogo que ainda se alastrava. Em companhia de Roger, Kate desatou a correr pela via interditada, saltando os destroços até se aproximar de sua casa. Quando a viu, foi como se levasse um soco na boca do estômago. A casa viera quase inteira abaixo. O segundo andar não mais existia, e um monte de tijolos e vigas de madeira se acumulara no que antes eram a sala e a cozinha.
As ruínas ainda fumegavam quando Kate e Roger pisaram o chão, levantando o que podiam na esperança de encontrar sobreviventes. Paredes e tetos haviam desabado, e tudo estava ainda quente, dificultando a procura. Kate sentiu o desespero tomando conta dela e começou a chorar.
— Meus filhos! — suplicou em lágrimas. — Onde estão os meus filhos?
— Tenha calma, mãe — Roger procurou confortar. — Vamos encontrá-los.
Com um gosto amargo na boca, Kate ia revirando os destroços, na esperança de encontrá-los vivos. Mas tudo fora destruído. Ou quase tudo. A porta que dava acesso ao porão estava bloqueada, mas havia uma chance de os filhos terem se refugiado ali. Com essa esperança, Kate começou a retirar as pedras, ajudada por Roger.
— Marianne! — gritou. — Ross! Tem alguém aí? Pouco depois, ouviram uma vozinha abafada, que ela reconheceu como sendo de Suzie.
— Socorro! — gemia.
Na mesma hora, Kate começou a arrancar os destroços, atirando-os para longe feito uma louca. Algumas pessoas que estavam próximas, vendo o seu desespero, juntaram-se para ajudá-la, e em breve a porta estava desobstruída. Suzie apareceu toda suja e ensanguentada, e Kate a abraçou com desespero, apalpando-a por todos os lados para certificar-se de que El a estava bem. O corte era leve, e ela não parecia seriamente ferida.
— Onde estão os outros? — questionou ela, vendo que ninguém mais aparecia.
—Kevin está lá embaixo — falou assustada.
Imediatamente, Kate desceu as escadas semidestruídas do porão. Saltando os degraus faltantes, ingressou na escuridão, tateando em busca de corpos.
— Kevin — chamou. — Pode me ouvir?
— Estou preso, mamãe.
Ela o localizou a um canto, preso sob as ferragens. Com a ajuda de Roger, conseguiu soltá-lo. Kevin sofrera apenas algumas escoriações leves na perna, onde ficara preso.
— E os outros? — indagou, logo após se certificar de que os dois não corriam perigo.
— Não sabemos — respondeu Kevin. — Quando as bombas começaram a cair, Marianne nos colocou no porão e saiu.
— Para onde ela foi?
O filho deu de ombros, e Kate saiu com Roger, procurando entre os escombros. Quase todas as casas das redondezas haviam sido total ou parcialmente destruídas, e com uma estranha sensação de perda, um pesar indescritível no coração, Kate foi caminhando entre elas, procurando sem esperar encontrar.
Subitamente, coração aos pulos, sentiu, mais do que viu, um rostinho muito semelhante ao de Marianne parcialmente soterrado pelos escombros. Aflita, encaminhou-se para onde ele estava. Foi o caminho mais longo que já percorrera em toda sua vida. Queria aproximar-se e não queria, tentando negar para si mesma que era a sua filha soterrada ali. Seu coração sofreu a dor da perda, ainda que aquela não fosse Marianne. Seria a filha de mais alguém, e uma tristeza inenarrável se apoderou dela, por saber que haveria, dali a instantes, uma mãe chorando a perda da filhinha amada.
Descobriu com pesar que aquela mãe era ela própria, pois foi a sua filha que encontrou ali, mutilada e sem vida. Sentindo uma dor que jamais pensou existir, Kate parou, o corpo vergando para o chão, até se ajoelhar ao lado de Marianne. Juntou as mãos sobre a boca, curvou-se para a frente e pôs-se a chorar de mansinho. Perdera sua filha. A filha por quem tanto lutara. A filha que tanto fizera sofrer e por quem teria dado a própria vida, para salvá-la. A filha por quem conseguira reconhecer um inesgotável amor.
Roger viu a mãe tombar no chão de joelhos e correu ao seu encontro. Ao dar de cara com o rosto sem vida da irmã, começou a chorar também. Por uma estranha razão, o rosto de Marianne permanecera intacto. Apenas seu corpo sofrera lacerações, e parecia a Kate que ela dormia. Roger colocou a mão no ombro da mãe, apertando-o emocionado. Foi seguindo com os olhos pelos escombros, até que encontrou o corpo de Ross. Apesar do sangue e das feridas, conseguiu reconhecer o seu semblante.
Ela acompanhou o olhar do filho e encontrou o sobrinho morto. Auxiliada por Roger, levantou-se e foi até ele. A dor era tamanha que ela nem conseguiu falar. Abaixou-se e ficou ali, alisando o rosto dele, sem se importar com o sangue que lhe manchava os dedos.
— Mamãe — chamou Roger baixinho, em lágrimas. — Vamos para casa.
— Não, Roger — falou ela com pungente dor. —Vou apanhar os meus filhos. Não podemos deixá-los ao relento.
De tão comovido, Roger não conseguiu responder. Nem percebeu quando um soldado se aproximou.
— Senhora — disse ele com profundo pesar —, meus homens farão esse serviço.
Kate ergueu para ele os olhos cheios de dor, tentando compreender o que dizia. O sofrimento era tanto que ela não conseguia concatenar as idéias. Ajudada pelo soldado e por Roger, levantou-se. Olhou mais uma vez para Ross, depois para Marianne, virou-se com pesar e se deixou conduzir pelo menino. Precisava cuidar dos filhos. Chorar a perda de uns, agradecer a Deus a sobrevivência de outros.
***
No momento em que a bomba estourou, uma forte pressão no peito deu a Marianne a sensação de que ele explodia. A dor e a violência mostravam que ela havia morrido, contudo, estranhou ao perceber que continuava vendo paredes e vidros voarem pelos ares. Enquanto o peito ardia em chamas, seus olhos acompanhavam os acontecimentos. Ouviu e viu a sucessão de bombas e, sem compreender, procurou Ross. Num minuto, ele estava em seu colo e, no minuto seguinte, havia desaparecido.
Descobriu que o corpo dele havia sido atirado a alguns metros de distância. Tentou se levantar, mas a dor no peito a impediu. Olhou para baixo e viu o corpo coberto de sangue. Olhou para baixo e viu o corpo coberto de sangue. Parecia mesmo que lhe faltava alguma coisa. Pernas, braços, não sabia. Confusa, olhou para a frente e, por uma fração de segundos, julgou ter visto um homem parado a seu lado, todo vestido de branco. Ele lhe estendeu a mão num chamado carinhoso e quase irresistível, mas que ela recusou por não estar com Ross. Não iria a lugar nenhum sem ele.
Uma outra bomba estourou mais além, sem que o homem se incomodasse. Continuava parado a sua frente, estendendo-lhe a mão com ar bondoso e gentil. Uma dor aguda quase a sufocou, e ela levou a mão ao peito, esforçando-se para respirar. Espantou-se com a ausência de suas mãos, e então, tentou caminhar. Só que não tinha mais pernas. O ar foi se foi escasseando, e nova onda de dor percorreu o seu corpo como uma torrente de choque. Tudo começou a girar ao seu redor, enquanto a dor foi aumentando, aumentando, até se tornar insuportável. Já não podendo mais se conter, na iminência de cair sem sentidos, quis correr em direção ao homem vestido de branco, o que não foi possível, já que não tinha pernas. Seu corpo se projetou parra a frente, e ela se sentiu despencar num abismo sem fim. Desmaiou.
Quando acordou, estava limpa e medicada, o corpo coberto de bandagens. O que primeiro veio a sua mente foi a lembrança dos membros faltantes, e olhou para suas pernas e seus braços. Estavam todos ali.
O quarto em que se encontrava era, visivelmente, um quarto de hospital, só que bem diferente daquele em que passara boa parte de sua vida. Não, aquele lugar não tinha nada a ver com o hospício do doutor Kramer. Era limpo, claro e perfumado. Muito aconchegante e agradável. Por uma estranha razão, Marianne sabia que não se encontrava em nenhum hospital do mundo visível. Tinha certeza da morte de seu corpo, assim como estava certa de que sobrevivera a ele, e aquele fato não a assustava.
Uma porta lateral se abriu e o homem de branco que lhe estendera a mão apareceu.Como está? — perguntou gentil.
— Bem.
Ele olhou as bandagens e trocou alguns curativos, acrescentando satisfeito:
— Já está quase bom.
Marianne esperou até que ele terminasse e só então perguntou:
— Eu morri?
O homem deu um risinho simpático, bateu de leve em sua mão e respondeu com naturalidade:
— Você desencarnou.
Marianne não parecia surpresa, mas continuou a perguntar:
— E Ross?
— Desencarnou também. Em breve, virá vê-la.
A mente de Marianne parecia haver entrado no eixo. Era como se um espinho houvesse sido arrancado de seu cérebro, algo que o emperrava e lhe dificultava o raciocínio. Após o breve repouso que se seguiu ao seu desenlace, retomou o controle sobre si mesma, inevitavelmente lembrando-se de muitas coisas passadas em outras vidas.
Ross foi o primeiro a visitá-la. Estava muito bem, vestido em uma túnica branca, alegre e sorridente. Nem parecia vítima da guerra. Seu corpo fluídico não guardava nenhuma sequela do bombardeio, e ele pareceu ainda mais bonito do que costumava ser.
Os amigos, aos poucos, foram aparecendo, parabenizando-a pela vitória que alcançara. Marianne se lembrava de todos, inclusive daqueles com quem mantivera relações difíceis no passado. À exceção de Ross, nenhum deles a acompanhara. Todos haviam permanecido no mundo espiritual, alguns à espera de que ela retornasse daquela curta encarnação para empreenderem uma programação de vida conjunta.
Charles, o espírito amigo que a ajudara, fora uma pessoa muito querida em uma encarnação bem anterior e já estava livre do círculo reencarnatório. Durante todo o período em que ela vivera na terra, fora ele o responsável por sua proteção e pela manutenção de seus projetos.
Tudo porque Marianne precisava dar um salto em sua ascensão espiritual. Durante muitas vidas, perdera-se no vício e nos prazeres fáceis, deixando-se seduzir pelos excessos da matéria e levando uma existência distante do bem e da moral. Tantos desregramentos acabaram imprimindo marcas em seu próprio corpo astral, cujos reflexos persistiriam na formação dos seguintes, caso uma medida de impacto não fosse logo tomada. Isso, aliado à necessidade de contenção de seus impulsos, fez da deficiência mental um ótimo facilitador. Marianne poderia, ao mesmo tempo, cicatrizar a ferida deixada pelos excessos e limitar suas atitudes, para que neles não reincidisse.
Havia também os inimigos espirituais, que Marianne fora colecionando ao longo dos séculos. Sanguinária e cruel, teve amplo domínio das ciências ocultas, direcionando seus conhecimentos para práticas perversas e nocivas, cujo único propósito era o domínio da fortuna e do poder, destruindo todos que a ela se opusessem. Muitos desses espíritos faziam agora parte do círculo pessoal de Marianne, dispostos a reencarnar com ela para vivenciarem o amor e fazerem dissipar as névoas da antiga inimizade. Outros, porém, apegados ainda ao desejo de vingança, iam se arrastando na ignorância e não perdiam a oportunidade de assediar Marianne de todas as formas possíveis, ganhando espaço e força através da mediunidade indisciplinada e da loucura da menina.
De todos, Luther era seu pior inimigo, o mais audaz, o mais feroz. Ainda longe de enxergar as verdades da alma, só se sentia bem quando em contato com vibrações inferiores, além de não desejar abrir mão do poder que conquistara na hierarquia das sombras.
***
Em maio de 1945, finalmente, a Alemanha assinou o tratado de rendição com os aliados, e Kate aguardava, ansiosamente, a volta do marido e do cunhado. Recebera uma carta de Nathan anunciando seu retorno para aquele dia e, desde cedo, preparou tudo. Com a destruição de sua casa, o proprietário retomou o imóvel, e Kate se mudou com os filhos para a casa de Nathan. Arrumou o ambiente como pôde e cozinhou um jantar razoável, considerando a precariedade em que se encontravam.
Todos reunidos, puseram-se à espera na varanda, mal contendo a ansiedade. A cada um que passava, Kate se sobressaltava, mas nada de avistar o marido e o cunhado. No final da tarde, finalmente, um homem de farda apareceu no fim da rua. Vinha mancando, trazendo ao ombro um saco do exército sujo e manchado. Kate e as crianças se levantaram correndo, ao mesmo tempo felizes e em dúvida.
Era apenas um. Um homem quando deveria haver dois. À distancia, não dava para dizer quem era. Ele foi-se aproximando devagar, arrastando a perna e, de vez em quando, trocando o saco de ombro. Kate aper tava as mãos nervosamente, certa de que a alegria pela volta de um seria ofuscada pela morte do outro.
Finalmente a proximidade do homem tornou possível, a ela e as crianças, identificar-lhe as feições. Magro, maltratado e ferido, vinha Nathan, dando a todos a certeza de que David havia perecido. Ela desceu correndo a rua em sua direção, e ele soltou o saco no chão e a recebeu num abraço emocionado, de uma efusão comedida.
Sem saber se ria ou se chorava, Kate se afastou dele e, com uma certa angústia, perguntou, já sabendo a resposta:
— Nathan... O que foi feito de David?
O olhar do cunhado traduzia sua dor. David fora atingido por uma granada na última batalha e não ar resistira aos ferimentos.
— Queria dizer-lhe pessoalmente — desabafou ele. — Achei que lhes devia isso.
Kate sofreu a sua dor em silêncio. Não podia fraquejar diante dos filhos, que dela retiravam sua coragem. E Nathan também sofria. Desde que recebera a notícia da morte de Ross, nunca mais fora o mesmo. Lutava na guerra, ora como se quisesse morrer, ora como se desejasse desafiar a morte. Os soldados o chamavam de louco suicida, mas o fato é que sua ousadia intrépida lhe valeu uma condecoração por bravura, tendo ele salvado vários de seus companheiros na batalha em que David perdera a vida. Mesmo assim, conseguira resgatá-lo ainda vivo, não sendo capaz, contudo, de curar-lhe os ferimentos.
O sofrimento indizível os uniu ainda mais. Nathan conseguiu de volta seu antigo emprego, embora com salário reduzido, e arranjou uma colocação para Roger. Aos poucos, foi refazendo sua casa, que não sofrera muita destruição, dividindo espaço com a cunhada e os sobrinhos. Como era de se esperar, Kate e Nathan acabaram se casando, formando uma união que, embora pouco calorosa e sem paixão, era pontilhada de amizade e respeito, suficientes para auxiliar na construção de um novo lar.
Algum tempo depois, Nathan soube, por um antigo colega de trabalho, que a fábrica de tecidos do senhor Bradley fora à falência, levando-o a uma associação com um fabricante de armas e munições. Desde a eclosão da guerra, o caso entre ele e Lilian tornou-se público, para desgosto da esposa de Richard, que se suicidou pouco tempo depois. Atormentado com a morte da mulher, ele deixou Lilian, casando-se com a filha de seu sócio. Abandonada e sem dinheiro, Lilian passou a sobreviver dos favores que fazia aos soldados, vindo a desencarnar doente e em completa solidão.
Por seu turno, David foi recebido no astral por espíritos encarregados de orientar as vítimas da guerra. A princípio, permaneceu no abrigo astral de recuperação, até sentir-se livre da sensação das feridas. Quando, finalmente, acreditou-se curado, saiu espontaneamente do abrigo e, não conseguindo lidar com a culpa pelo que fizera a Marianne e a Kate, deixou-se prender pelos inimigos, que o levaram para o astral inferior.

Epílogo
Marianne retornou de suas reminiscências e fitou o semblante tranquilo de Ross. Fazia cinco anos que estava ali, aprendendo com ele sobre as coisas do espírito. Lembrar-se do passado lhe causara imenso bem, pois conseguira revivê-lo sem dor, e as lembranças, sobretudo, fizeram nascer uma admiração até então desconhecida por Kate.
— Minha mãe é uma mulher de muita coragem — observou com respeito. — Você não acha?
— É claro. Sempre tive a maior admiração por tia Kate.
— Como será que anda a vida dela agora?
— Não gostaria de ir até lá e ver por si mesma?
— Gostaria sim.
— Então venha. Vamos pedir permissão a Charles.
Mais tarde, Ross e Marianne entraram no quarto de Kate, no exato momento em que ela acabara de adormecer. Esperaram um pouco até que seu corpo astral se desprendesse parcialmente do corpo e se tornaram visíveis.
— Marianne! Ross!— exclamou ela surpresa. —Quantas saudades!
Beijou e abraçou os dois, que corresponderam com afeto.
— Como está, tia Kate?
— Bem, na medida do possível.
Kate abaixou os olhos e começou a chorar de mansinho.
— Por que está chorando, mamãe?
— Faz muito tempo que vocês se foram. Mas, para uma mãe, o tempo nunca apaga a dor da perda de seus filhos.
— Nós não nos fomos — esclareceu Ross. — Não está nos vendo?
—É diferente. Vivemos em mundos distintos.
— Distintos, mas que se intercalam. E é por isso que estamos aqui e poderemos vir sempre.
— Sei que Deus faz as coisas certas, mas é tão difícil compreender e aceitar a perda! Além de vocês, perdi também meu marido.
— Estamos livres, mãe — esclareceu Marianne. — Eu, principalmente.
Kate fitou a filha com atenção, e seu rosto lhe pareceu mais iluminado e sereno.
— Você está muito bonita — elogiou, alisando-lhe os cabelos compridos e lisos.
Marianne deu-lhe um beijo na palma da mão e acrescentou emocionada:
— Obrigada. Por tudo que fez por mim.
— Só o que fiz foi lhe causar sofrimento.
— Não pense assim. Foi graças a você e papai que tive a chance de reencarnar como louca, que era o que eu precisava. Ninguém, a não ser vocês, estava disposto a me aceitar.
Pelos olhos de Kate passou uma sombra de tristeza, e ela considerou:
— Você sabe o quanto me arrependo pelo que lhe fiz.
— Não precisa. Você, papai, o doutor Kramer, todos foram instrumentos para que eu conseguisse voltar os olhos para mim mesma e aceitar a mediunidade e a doença como fatores de crescimento.
- E essa guerra? – tornou ela em lágrimas. – Todos perdemos com ela. Vocês perderam a vida. Eu perdi vocês, perdi meu marido. Quantas pessoas, assim como nós, sofreram e sofrem as conseqüências desses terrível flagelo?
- A guerra é umas calamidade lamentável, mas também serve a seus propósitos – esclareceu Ross.
- Que propósito pode haver na guerra além da ambição do homem?
- O progresso. Precisamos destruir para, através da reconstrução, impulsionar o progresso.
- Não pode haver progresso no meio da maldade.
- O que você chama de maldade nada mais é do que a condição do próprio homem. A humanidade caminha a passos vagaroso porque se perdeu nas ilusões do mundo, transformando a riqueza e o poder em instrumentos da vaidade e do orgulho. Tudo é permitido dentro dos princípios divinos, mas aquele que afeta o equilíbrio do mundo de alguma forma terá que recuperá-lo.
- Ou seja, aqueles que fazem a guerra são gananciosos, e os que nela perecem estão sendo punidos.
- Nem uma coisa, nem outra. Os que promovem a guerra estão tão distantes do amor cósmico que se esqueceram completamente de sua natureza divina, ao passo que as chamadas vítimas são apenas espíritos em crescimento que não aprenderam a transformar suas culpas em nome desse mesmo amor. Tanto uns quanto outros se predispõem ao renascimento e à renovação, assim como os povos e o próprio planeta, que atravessam guerras, catástrofes e cataclismos para provocar uma reestruturação de princípios e valores. E tudo isso sempre para melhor.
- Será? Já tivemos tantas guerras e o mundo ainda esbarra na carnificina de sempre.
- Como disse, o avanço da humanidade é vagaroso, contudo, ele existe. Em breve todos os espíritos desse planeta serão forçados à transformação ou ao exílio. Por ora, as modificações ainda se fazem com aproveitamento dos potenciais destrutivos e de reconstrução que todo ser humano possui.
— Sim, a guerra nos modifica. Somos hoje criaturas muito mais amargas e sem esperança do que fomos ontem.
— Lance sua visão para o futuro, tia Kate, e verá que tenho razão. Aposto como o planeta inteiro vai passar por uma transformação, não só no campo político e econômico, mas também no tecnológico, no social, no moral e no espiritual. Essa é a inevitável lei do progresso, que há de se impor de uma maneira ou de outra. Com a guerra, novas necessidades vão surgindo, e o homem é obrigado a trabalhar por si mesmo e pela coletividade da qual faz parte. Da destruição, novas idéias se materializam, e a renovação acontece.
— E quem é que garante que vamos mudar para melhor?
— Toda renovação é para melhor. Veja esta casa, por exemplo. Como foi parcialmente destruída na guerra, vocês tiveram que reformá-la, e aposto como aproveitaram para consertar o que já estava estragado. Trocaram canos, puseram fiação nova, ampliaram a cozinha, mudaram a cor das paredes, deixando-a mais confortável e mais bonita. Agora, se ela não houvesse sido destruída, vocês continuariam na acomodação e a casa não teria sofrido nenhuma melhora. E vocês teriam deixado passar a chance de realização das boas possibilidades que possuem.
Ross fitou-a atentamente, vendo o efeito que suas palavras causavam nela. Kate parecia muito impressionada com a sabedoria do sobrinho.
— O que você diz é muito bonito e faz sentido — rebateu ela, ainda não totalmente convencida. —Mas e a paz? Não conta?
- Conta, e muito. Cada vez que se deflagra uma guerra, mais se valoriza a paz e mais cresce na consciência do homem a certeza de que a violência não é nem nunca será o melhor caminho para a solução de desavenças, que podem ser resolvidas, todas elas, pela via do amor.
— Se é assim, não deveria haver mais guerra. Onde está essa consciência de que você falou?
— Em alguns homens que se opõem aos conflitos, não em todos. E são eles que têm a tarefa de contaminar o mundo para que, no futuro, ninguém mais pense em armas para matar seu semelhante e conquistar o poder. O que falta à humanidade é compreender que o poder só a Deus pertence, e o que se exerce aqui não passa de mais uma ilusão criada pelos sentidos para dar satisfação à alma que só faz priorizar seus desejos. É um processo lento, que não vai acontecer agora nem nos próximos anos, e sim nas décadas que virão. Para isso, é preciso ação e coragem, não para matar ou morrer, mas para empreender a mudança, que é pessoal e única. Muitos já deram o primeiro passo e estão ligados nessa corrente de. amor e fraternidade que vai aumentando dia após dia, toda vez que um espírito se modifica e a eia naturalmente se liga. Ainda não são muitos, mas poucos é melhor do que nenhum.
Os olhos de Kate agora estavam secos, e ela parecia finalmente assimilar as explicações do sobrinho.
— Também pensa assim, Marianne? — indagou, e a filha assentiu.
Nesse momento, Nathan se remexeu na cama, e Ross aproximou-se dele, dando-lhe um suave beijo na testa. Nathan se virou para o outro lado e continuou a dormir, com o corpo fluídico pairando poucos centímetros acima do físico.
— Você e tio Nathan estão se dando bem? — quis saber Marianne.
- Não nos amamos propriamente, mas nos entendemos e nos respeitamos – esclareceu Kate.
- Não seria isso amor?
A pergunta causou um sobressalto em seu peito, e ela fitou o marido com ternura, pensando se a filha não teria razão. Era algo em que ela mesma jamais pensara.
- E seu pai? – redargüiu. – Tem tido notícias dele?
- Papai não está conosco. Mas não se preocupe, em breve iremos resgatá-lo.
Ross acercou-se da tia e envolveu-a num abraço caloroso.
- Agora precisamos ir. O dia já está amanhecendo, e vocês logo vão retornar ao mundo físico.
- Prometem vir visitar-me sempre?
- Sempre que pudermos.
Enquanto Ross se despedia da tia, Marianne foi para a janela, vendo os quintais das duas casas pelo lado oposto ao que se acostumara em vida. A casa vizinha fora totalmente reformada e alugada a uma nova família.
- Solte a tábua da cerca, mamãe – aconselhou ela enigmaticamente. – Seus netos em breve estarão passando por ali...
Aos poucos, os espírito de Ross e Marianne foram esvanecendo, e Kate retornou ao corpo físico. Quando despertou, o sol já ia alto. Era domingo, e Nathan ainda dormia a seu lado. Levantou-se e consultou o relógio, surpreendendo-se com a proximidade das dez horas. Nunca dormira tanto em sua vida. Sentindo um bem-estar indescritível, espreguiçou-se com vontade e abriu a janela. Fazia um bonito dia de verão, e um vento suave amenizava o calor do sol, tornando a manhã mais agradável.
Já ia sair da janela quando notou o esvoaçar de uma saia, acompanhando o compasso da brisa. Parou e olhou detidamente. Alguns lençóis muito alvos e limpos haviam sido estendidos no varal e, por detrás deles, a silhueta de uma moça se delineou. Kate não precisava ver o seu rosto para saber que se tratava de Suzie. Agora com quinze anos, tornara-se uma moça muito bonita e alegre. Encostada na cerca, conversava com alguém. Pelo vaivém dos lençóis, Kate conseguiu vislumbrar o rosto do novo vizinho, um rapazinho de seus dezoito anos, que recentemente se mudara com a família para sua antiga casa.
De onde estava, Kate apenas pôde perceber que Suzie parecia muito interessada no rapaz, e ele nela. Em dado momento, suas mãos se tocaram por cima da cerca, mas ela não conseguiu ver o rubor repentino que subiu pelo rosto da filha. Apenas percebeu que ela se debruçava sobre a cerca para ouvir algo que o rapaz lhe sussurrou ao ouvido. Enquanto ele falava, os lábios de Suzie iam gradativamente formando um sorriso espontâneo e cheio de prazer. Quando ele se calou, as faces dos dois estavam afogueadas, e Suzie apertou a extremidade superior da cerca, permitindo que Kate antevisse o ar de paixão com que o rapaz a olhou. Suzie sentiu o nervosismo e apertou ainda mais a cerca. Tanto que a tábua, muito fina, não resistiu. Com um estalido, soltou-se das demais e projetou-se para o outro lado, levando com ela a menina, que só não caiu porque o rapaz conseguiu amparar o pedaço de madeira e segurar a moça ao mesmo tempo.
A cena causou imensa emoção em Kate, que reconhecia os primeiros sinais da paixão adolescente. Não querendo ser intrometida, voltou-se para dentro, não antes que uma sombra de reconhecimento passasse pela sua mente. Lembrou-se de que havia sonhado com Marianne e Ross, e que a filha lhe havia dito alguma coisa. O que era mesmo? Puxando pela memória, Kate se lembrou: Solte a tábua da cerca, mamãe. Seus netos em breve estarão passando por ali...
Com um gritinho abafado, correu de volta para a janela. O rapaz agora havia passado para o seu lado da cerca e ajudava Suzie a encaixar a tábua no lugar. Naquele momento, sem saber como, seu coração compreendeu tudo: seriam Suzie e aquele rapaz que trariam o novo para suas vidas? Seus netos iriam encher aquela casa com seus risos alegres e suas brincadeiras inocentes? Por alguns momentos ainda, acompanhou a luta de Suzie e do rapaz para recolocar a tábua, até que gritou lá de cima:
— Deixe, Suzie! Para que prender, se terei que despregar depois?
Suzie e o rapaz a olharam espantados, sem entender o que ela queria dizer. Constrangidos por terem sido surpreendidos naquele momento de tanta intimidade, obedeceram e soltaram a cerca. O rapaz voltou para sua casa, e Suzie apanhou o cesto vazio de roupas, voltando para a cozinha.
Nesse momento, o sol iluminou a cerca, e a passagem que se abrira resplandeceu com o verde da grama que brilhava do outro lado. Kate sentiu o perfume das flores e a suavidade da brisa. Pensou nos filhos. A saudade de Marianne e Ross era tremenda, e ela pensava que jamais conseguiria superar aquela perda. Os vivos, porém, lhe davam muitas alegrias. Roger acabara de ingressar na universidade de Oxford, e Kevin se preparava para o próximo ano. Ambos se haviam tornado rapazes bonitos e inteligentes, além de honestos e estudiosos. E Suzie, uma menina educada e gentil, estudava em um bom colégio e, ao que parecia, iria iniciar seus sonhos de moça.
Kate olhou para Nathan, ainda adormecido, e duas lágrimas escorreram de seu rosto. Não chorava de tristeza. Pela primeira vez em sua vida, sentindo-se uma mulher completa e plena, corava de alegria.
Tornou a olhar para a cerca, lembrando-se de algo que alguém havia lhe dito num sonho, e sorriu para si mesma.
Não seria isso amor...?
FIM

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DE TODO O MEU SER

Tudo na vida trabalha para que cada pessoa desenvolva suas capacidades. Por isso, Marianne, com muita coragem, decide reencarnar e viver em meio à loucura. Numa jornada cheia de obstáculos e desafios, ,busca superar seus pontos fracos.
Marianne conta com o auxílio de seus guias espirituais que lutam para que a jovem entenda que, o maior desafio da vida não é o confronto com as situações do mundo, mas o esforço para que viva a verdade de todo o seu ser.






Giselle - A amante do inquisidor
Autor: Espírito Leonel
Médium: Mônica de Castro
Páginas: 384


Sinopse:

Na Espanha, no tempo da Inquisição, quando o poder da Igreja era quase absoluto, um inquisidor, em sua luta para obter mais poder, e a pretexto de "salvar as almas
do pecado", pratica toda sorte de crimes. Sua amante, uma linda e ambiciosa mulher, une-se a ele, urdindo ciladas para as pessoas a quem ele deseja condenar.
Assim tornou-se cúmplice dos crimes que o amante praticava. Encontrou, porém um homem que a despertou para um grande amor, inspirando-a a mudar de vida.
Haveria tempo para ela fazer isso ou seria tarde demais?
Você encontrará a resposta na emocionante história de Giselle (a amante do inquisidor).


PREFÁCIO

Todos nós temos algo de bom. Por pior que alguém possa parecer, basta que lhe prestemos atenção para descobrirmos que ninguém é totalmente despido de bondade. Alguns
se afeiçoam apenas aos animais, outros amam tão somente os filhos, outros ainda procuram proteger seus comparsas. Todo sentimento sincero, ainda que direcionado
aos mais empedernidos, revela a semente de bondade latente dentro de nós.
Não existe no mundo quem não tenha praticado uma ação digna, por menor e mais insignificante que possa parecer. Não há aquele cujos pensamentos e sentimentos, por
uma fração de segundo que seja não se tenha voltado para seu irmão com uma pontinha de piedade ou arrependimento.
E isso porque todos nós, sem exceção, somos dotados da centelha divina que nos acompanha desde a nossa criação. Alguns, mais ávidos e mais corajosos, aprendem com
maior rapidez essa verdade e logo alcançam a paz interior, alçando planos mais elevados de compreensão. Outros, mais embrutecidos, teimam em persistir apegados a
falsos valores de felicidade e se perdem nas vias do terror, infligindo-se sofrimentos e vicissitudes que poderiam ser contornados.
Mas todos, inexoravelmente, estamos caminhando em direção ao mesmo objetivo. Todos almejamos crescer, aprender, ascender ao invisível de uma forma plena e segura,
mais consciente, menos sofrida, mais verdadeira e amorosa. É para isso que lutamos, caímos e nos levantamos. É com esse objetivo que enveredamos pelo espinhoso caminho
da descrença, da culpa, do orgulho, do desamor, da crueldade. Não são esses sentimentos aspectos negativos do caráter humano. São meras etapas necessárias à compreensão
do verdadeiro amor. Muitas vezes, é preciso conhecer o mal para que possamos valorizar o bem e aceitá-lo como verdade absoluta em nossos corações.
Assim é a vida, desde seus primórdios. Em todos os tempos, todas as eras, todos os lugares, o homem vem travando furiosa batalha consigo mesmo, contra seus instintos,
seus temores, seu orgulho. É uma luta constante, porque o maior inimigo do homem é ele mesmo, contra quem precisa constantemente lutar para impor, não pela força,
mas pelo amor, a compreensão verdadeira da vida.
É com esse sentimento que devemos entender as épocas mais negras da História, aquelas cuja lembrança nos causa arrepios e em que pensamos nada existir de bom. Em
tudo na vida há um bem, ainda que só apareça o mal, porque o mal é mera ilusão. O que vulgarmente chamamos de mal não passa de uma falsa compreensão das verdades
divinas. Quando realmente conseguirmos alcançar a magnitude dos desígnios de Deus, estaremos prontos para olhar o mal como algo que ainda é necessário, ao menos
por enquanto, para que possamos realmente compreender o bem. Porque o bem nada mais é do que uma singela consolidação das leis da natureza. A natureza não erra nem
é má. Ela simplesmente existe, simplesmente acontece. Assim também o bem. Ele existe dentro de nós desde a nossa criação e está apenas à espera do momento em que
o façamos acontecer.
Deus está sempre conosco, ainda que não o desejemos, ainda que não acreditemos nele. Porque é infinito em amor e sabedoria, em compreensão e benevolência, sabe de
tudo o que necessitamos, antes mesmo que pensemos em lhe pedir. E sabe que não somos, em essência, nem maus, nem cruéis. Somos ignorantes e imaturos, mas inteligentes
o bastante para reconhecermos quando é chegada à hora de abandonar a infância das trevas e aprender.

Leonel



PRÓLOGO


À medida que a chuva desabava pesada e grossa, Giselle subia a colina verdejante e escorregadia, parando por vezes para enxugar as pequeninas e abundantes gotas
de suor, misturadas aos pingos da chuva que desciam pelo seu rosto cansado. O vento soprava insistente e veloz, fazendo com que o corpo de Giselle envergasse para
trás, dificultando-lhe a caminhada. Ao longe, trovões ribombavam furiosos, acompanhando os raios que faiscavam no céu tempestuoso. Efetivamente, Giselle estava no
meio de uma tormenta e não tinha certeza se conseguiria seguir adiante.
Em dado momento, parou e olhou para baixo, espantada com o tanto que já havia subido, sem nem se dar conta. Suas pernas começavam a doer, talvez em função do sofrimento
que lhes fora impingido, e uma forte exaustão começou a tomar conta de todo o seu corpo. Só agora seus músculos e ossos se ressentiam de tudo por que já haviam passado.
Mas não podia desistir. Não agora. Diego lhe dissera que aquele era o caminho. Do outro lado da colina, o mar lhe acenaria com a liberdade. Abaixou a cabeça, contendo
as lágrimas, e avançou mais um pouco. Não faltava muito, agora, e tinha que prosseguir. Já perdera muito em sua vida, mas precisava viver. Devia isso a Ramon, que
morrera para não ter que matá-la.
Parou por instantes, olhos enevoados pelo pranto e pela chuva, e tornou a subir. Sentia-se só e desamparada. Mais até do que quando estivera presa. Ramon estava
morto, e ela não podia mais contar com Esteban. Ele a abandonara. O homem que fora o primeiro amante em sua vida, e a quem chegara a amar como pai, virara-lhe as
costas covardemente. Ou será que ele tinha algo a ver com tudo aquilo? Teria sido Esteban quem a delatara e depois, por medo e covardia, não ousara mais encará-la?
Não sabia ao certo. Por diversas vezes Esteban a alertara de que, se ela fosse presa, nada poderia fazer para salvá-la. Não. Ele não a traíra. Acovardara-se, temendo
manchar seu nome e sua reputação. Mas não acreditava que houvesse sido ele o autor daquela denúncia infame.
Finalmente, alcançou o topo da colina e ficou estarrecida com a visão do outro lado. Era uma encosta íngreme e rochosa, nada parecida com a grama verdejante por
onde acabara de subir. Ao fundo, um imenso mar de águas revoltas se chocava contra as pedras, jogando a espuma branca a muitos metros de distância. A maré ia e vinha
numa cadência aterradora, como se quisesse sugar todos os grãos de areia, as pedrinhas e as conchas que, inutilmente, lutavam para se agarrar às pedras incrustadas
no chão arenoso.
Por alguns momentos, Giselle ficou parada no alto da colina, paralisada ante aquela visão. Como é que Diego pretendia que ela entrasse naquele mar? O tempo não a
estava ajudando e havia encapelado o mar de tal forma que seria praticamente suicídio aventurar-se por aquelas ondas. As vagas eram gigantescas e se chocavam com
violência contra as pedras, arrastando qualquer coisa que se insinuasse por ali.
Durante alguns minutos, permaneceu estudando o local. As ondas não conseguiam chegar até o pé do rochedo, perdendo força poucos centímetros antes. Mas seria uma
travessia arriscada até a ponta do promontório, onde Diego lhe dissera que haveria um barco à sua espera. Giselle teria que conter o medo ante as gigantescas muralhas
de água que as ondas formariam bem diante de seus olhos.
Inspirou profundamente, tomando coragem, e pôs-se a descer, quase que rastejando pelas rochas. Ao menos, parará de chover. Apesar de íngreme, a descida não era tão
difícil como pensara, pois havia uma espécie de trilha natural marcando o caminho por onde deveria passar. Em poucos instantes, alcançou a praia. Não era propriamente
uma praia, mas uma estreita faixa de terreno arenoso e, mais à esquerda, as pedras que separavam a terra do mar. Subindo por elas, chegava-se a um caminho apertado
e pedregoso, ladeando o penhasco e protegido pelas rochas à frente, que terminava num cabo largo e alto, fazendo como uma plataforma adentrando o mar. Se conseguisse
chegar ao final da montanha, teria que dar um jeito de subir pelas pedras e se abrigar na plataforma, onde então ficaria à espera do barco que a iria resgatar.
De um lado e de outro, imensas paredes de pedra, com uma espécie de gruta mais ao fundo. Aquilo mais parecia uma garganta. Giselle ficou pensando que seria muito
fácil armar-se uma emboscada ali e começou a sentir medo. Por que é que Diego a enviara para um lugar tão perigoso? Não teria sido mais fácil marcar o encontro numa
praia mais afastada? Mas ele dissera que não, que seria arriscado. Miguez então já teria descoberto a fuga e teria colocado todos os soldados em seu encalço. E depois,
como poderia ele prever aquela tempestade?
Mesmo assim, algo não lhe soava bem. Olhando para a ponta do cabo, ficou pensando no barco que conseguiria chegar até ali com aquele tempo. O mar estava muito revolto,
era mesmo uma ressaca impiedosa. Que embarcação se atreveria a aproximar-se das pedras com aquelas ondas, arriscando-se a ser atirada contra as rochas e naufragar?
Apurou os ouvidos, tentando escutar algum som. Nada. Não ouvia nada, a não ser o barulho do vento e das ondas estourando com violência nas pedras. Começou a ficar
nervosa, pensando no que deveria fazer. Subitamente, a ponta de um barco surgiu por detrás do morro, e Giselle suspirou aliviada. Era um barco pequeno, e ela imaginou
que a nau que a levaria embora devesse estar ancorada um pouco mais além, fora da influência daquela maré traiçoeira. Não sabia como faria para alcançar o barquinho,
mas imaginou que alguém deveria lhe jogar uma corda ou algo parecido, puxando-a a bordo antes que as vagas a atirassem contra as rochas do cabo. De qualquer forma,
teria que saltar ao mar.
Não teve tempo de pensar em muita coisa. Enchendo-se de coragem, deu dois passos em direção às pedras. Ia começar a subir quando ouviu um estalido do outro lado.
Olhou na direção daquele ruído e estacou abismada. Do fundo escuro da gruta, dezenas de homens apareceram, apontando para ela suas espadas ameaçadoras.
Giselle não teve dúvida. Agarrou-se às pedras o mais que pôde e começou a subir, rezando para chegar ao barco antes que os soldados a alcançassem. Quando ergueu
os olhos, outra surpresa. Ao invés de o barco se aproximar do promontório, começou a se afastar em direção ao alto-mar, e foi então que ela compreendeu tudo. Diego
a traíra. Esperara até que ela lhe revelasse onde escondera seu tesouro, facilitara-lhe a fuga e a entregara a Miguez.
Ficou desesperada. Não havia para onde fugir. Pensou em voltar pelo mesmo lugar por aonde viera, mas não havia tempo. Os homens se aproximavam cada vez mais e conseguiriam
facilmente detê-la naquela subida íngreme. Não tinha escolha. Ou ia avante, ou seria capturada e morta.
Começou a subir pelas pedras, em direção à parede do penhasco, rumo à ponta do cabo. Quem sabe não poderia atirar-se ao mar e nadar até o outro lado da montanha?
Não sabia o que encontraria lá, mas deveria haver uma praia ou uma baía. Quando atingiu o caminho que circundava o morro, ergueu o corpo e levantou os olhos mais
uma vez. Sentiu medo. Tanto medo que pensou que fosse desmaiar. Vistas de baixo, as ondas pareciam ainda maiores e engoliam as pedras com uma fúria sem igual, respingando
o caminho por onde ela teria que passar. Se fosse apanhada por uma onda, ser-lhe-ia impossível escapar.
Mesmo apavorada, seguiu em frente. Era sua única saída. Os homens de Miguez também já começavam a subir nas pedras e logo a alcançariam. Uma onda estourou a poucos
centímetros e o repuxo quase a arrastou, mas ela conseguiu se sustentar e correr. Giselle deu um passo trôpego para junto da parede de pedras, aí colando seu corpo
e experimentando nas pernas a friagem da água. Coração aos pulos sentiu na pele a iminência da morte.
Os soldados pareciam temerosos e recuaram, hesitando em seguir avante. Era loucura demais. Estacaram onde estavam e ficaram apenas olhando, como se esperassem que
algo acontecesse e a levasse de volta para eles. Sem lhes prestar mais atenção, Giselle, corpo ainda colado nas pedras frias do penhasco, foi-se arrastando lentamente,
sentindo as pernas tremerem com o estrondo das vagas diante de seus olhos.
Já ultrapassara a metade do caminho quando ouviu um novo alvoroço. Olhou novamente para a praia e notou que os homens haviam recuado e que outros se aproximavam.
Giselle percebeu que eram arqueiros. Iam atirar nela! Com o corpo trêmulo, começou a chorar e continuou a arrastar-se, tentando não encarar as ondas que se agigantavam
diante de seus olhos, avançando cada vez mais por cima das pedras à frente, que agora começavam a declinar para dentro da água cinzenta.
A primeira flecha passou zunindo pelo seu ouvido e quase a acertou, mas foi desviada a tempo pela ventania. Os arqueiros, porém, não se deram por vencidos. Armaram-se
novamente e tornaram a atirar, mas as flechas não conseguiam alcançá-la, perdendo força ante o vento que soprava em direção contrária. Sua pele já estava ferida
e sangrando, esfolada que fora pelas rochas pontiagudas do penhasco. Giselle parecia nem sentir a dor. Depois de tudo por que passara, até que aquilo não era tão
mau. Apesar das feridas que trazia e do corpo dolorido, ainda conseguira juntar forças para fugir e chegar até ali. Não iria desistir agora.
Cada vez mais se afastava dos homens. As flechas não a atingiam, e Giselle pensou mesmo que estivesse fora de seu alcance. De repente, cessaram por completo. Os
arqueiros pareciam haver desistido e aguardavam em posição de ataque. Mas alguém não desistira. Giselle já o havia visto uma vez, há muito tempo, quando ele a fora
buscar para ir à masmorra ver Manuela. Era homem da confiança de Esteban, estava certa. Aquilo a encheu de tristeza. Então, aqueles soldados estavam ali não a mando
de Miguez, como a princípio pensara, mas do próprio Esteban.
O soldado olhou para onde Giselle estava, estudando rapidamente o local, e soltou a armadura e a espada no chão. Começou a subir pelas pedras, com habilidade e destreza,
esgueirando-se com cuidado e evitando o encontro com as ondas, logo chegando à encosta por onde ela se arrastava. Sem nem olhar para o mar, encostou-se à parede
e começou a arrastar-se também. Giselle se apavorou. Estava claro que ele a alcançaria em pouco tempo, antes mesmo que ela pudesse atingir a ponta do promontório
e subir na plataforma. Tentou andar mais rápido, mas as ondas a detinham. Elas pareciam estourar cada vez mais perto agora, e não foram poucas às vezes em que tivera
que parar para não ser atingida pela sua fúria incontida.
Quase no final, estacou novamente. As pedras adiante, que protegiam a pequenina trilha encostada na montanha, praticamente desapareciam sob a água, e as ondas ganhavam
força, chocando-se contra o promontório com mais violência. Se conseguisse ultrapassar esse ponto, poderia começar a subir para a plataforma, de onde se atiraria
ao mar. Seria preciso esperar o repuxo e atravessar depressa. Giselle parou. As ondas espocavam com furor, arrastando tudo, e ela voltou a tremer. Sentia o perigo
bem abaixo de seus pés e se deu conta de que não havia nada que a sustentasse se caísse.
Ela olhava do homem para as pedras, enquanto ele ia se aproximando cada vez mais. Começou a se desesperar. As vagas não davam trégua, estourando uma atrás da outra,
e o intervalo entre elas não era suficiente para que atravessasse. Seria atingida em cheio e arrastada antes que pudesse começar a subir para a plataforma.
Foi quando o homem chegou mais perto. Tão perto que seus dedos roçaram nos dela, e Giselle não teve mais dúvidas. Ou atravessava, ou ele a agarrava. De qualquer
forma, iria morrer. Tomou uma decisão. Esperou até que a última onda explodisse contra a rocha e recuasse, e avançou rapidamente. Mas não tão rápido a ponto de evitar
o choque com a nova onda que estourou em seguida à primeira, tão grande que logo a encobriu.
Apesar de atirada contra a parede com força descomunal, Giselle ainda teve forças para se segurar nas pedras. Mas o repuxo foi tão violento que ela não conseguiu
manter-se agarrada, sentindo-se arrancada do chão e envolvida pela espuma branca e gelada da onda. Subitamente, seu corpo todo estremeceu como se estivesse sendo
embrulhada e sacudida por imensa massa cinza. Estendeu os braços para frente e percebeu que não alcançava nada além da parede líquida e cinzenta que a ia tragando.
Sentiu-se arrastada esticou ao máximo a ponta dos pés, tentando tocar algo sólido. Em poucos instantes, viu-se coberta pelo mar, sendo levada cada vez mais fundo.
Seu corpo, apanhado pela correnteza, era agora levado para longe.
Não teve tempo de chorar. Já havia engolido muita água e começou a sufocar. Não lutava mais. Era inútil. Seu corpo continuava sendo arrastado pela correnteza, e
ela sabia que o fim era inevitável. Tentou não abrir a boca, para não engolir água. Em dado momento, sentindo-se asfixiar, inspirou profundamente pelo nariz e sentiu
a corrente de água invadindo os seus pulmões, ao mesmo tempo em que fragmentos de sua vida lhe vieram à mente em questão de segundos.
A última coisa em que pôde pensar foi na solidão. Nunca antes, em toda a sua vida, Giselle havia se sentido tão só. Deixou-se dominar por profunda tristeza, vendo-se
na iminência da morte, sozinha no fundo do oceano, sem ninguém com quem compartilhar a sua dor. As testemunhas silenciosas de seu suplício jamais poderiam atestar
a dor daquele momento. Giselle sentiu-se morrer em completa solidão, o corpo livre e solto no mar, distante de tudo o que um dia representara a sua vida.
Com um movimento mecânico, parou onde estava e ficou olhando seu corpo sendo arrastado para o fundo do oceano. Como é que aquilo podia estar acontecendo? Não havia
morrido? Morrera. Giselle não sabia explicar, mas estava quase certa de que havia morrido. Seu corpo, provavelmente, se fora, e o que permanecia ali era tão somente
o seu espírito. Desgrudara-se da matéria e continuava boiando na água, ainda imersa, confusa demais para entender o que estava acontecendo. Será que ainda respirava?
Aterrada, balançou a cabeça de um lado para outro e percebeu que ainda continuava no fundo do mar. Corpo ou espírito, o fato é que não estava mais sendo arrastada.
Teria tudo sido ilusão e ela ainda permanecia viva? Subitamente, sentiu que o ar lhe faltava. Estava viva! Os mortos não precisavam respirar. Então, não morrera.
Desmaiara, talvez, mas estava viva. Viva...!



CAPÍTULO 1


Já passava já das oito da manhã quando Esteban acordou. Tinha tido um dia cansativo na véspera, foram muitos os interrogatórios que tivera que presidir. O último,
de um camponês acusado de pacto com as trevas, deixara-o particularmente esgotado. Fora difícil fazer o homem confessar, mas Esteban acabara convencendo-o. Não conseguira,
porém, misericórdia para o seu crime. O homem seria executado na fogueira dali a alguns dias, como forma de purificação de sua alma possuída.
Inspirou profundamente o ar da manhã e deixou que o sol atingisse seu rosto. Gostava de sol. Passava grande parte do tempo no calabouço, interrogando os prisioneiros,
e sua vista já começava a se ressentir da escuridão. Esperou mais alguns minutos até se levantar. Em breve teria que acompanhar o arcebispo de Madri em uma importante
visita às masmorras de Sevilha.
Havia terminado de se vestir quando ouviu suaves batidas na porta, que se abriu devagarzinho. Um rapaz entrou e falou baixinho:
- Sou eu, monsenhor, Juan. Não queria acordá-lo. Mas é que está aí a senhorita Giselle...
Esteban não lhe deu tempo de terminar e respondeu apressadamente:
- Diga-lhe que me encontre na antiga capela.
Juan saiu sem dizer nada. Era apenas um menino de seus dezoito anos, salvo pela bondade e generosidade de Esteban Navarro. Os pais haviam morrido quando ele tinha
apenas três anos, vítimas do Santo Ofício, acusados de bruxaria. Navarro, por piedade, havia intercedido pelo menino e pedido para tomar a frente em sua educação,
o que lhe foi permitido graças ao enorme prestígio de que gozava na Igreja. Criou o menino como se fosse seu filho, dedicando-lhe um amor sincero e paternal.
A passos rápidos, Juan correu a avisar Giselle e seguiu a seu lado, em silêncio. Giselle era uma moça muito bonita, e Juan estava apaixonado, embora não ousasse
partilhar seus sentimentos com ninguém, principalmente com monsenhor Navarro. Se ele soubesse, era bem capaz de castigá-lo. Em silêncio, abriu a porta para que Giselle
pudesse passar e tornou a fechá-la. A moça se virou lentamente, sem lhe dirigir a palavra, e foi andando em direção ao altar de imagens velhas e descascadas. Fitou
o semblante suave da Virgem Maria, ajoelhada aos pés da cruz, e desviou o rosto, acabrunhada. Não queria nada com santos e virgens.
Esperou por cerca de vinte minutos até que Esteban aparecesse. Ele entrou apressado, e Giselle logo se atirou em seus braços, beijando-o com impetuosidade. Esteban
correspondeu ao beijo sem muito ardor, mas, ainda assim, amaram-se ali mesmo, no chão, sob os olhos marejados da Virgem. Depois que terminaram, Giselle vestiu-se
às pressas, de costas para a imagem, e esperou até que ele falasse:
- Lamento tê-la feito vir aqui, mas espero a visita do arcebispo de Madri e não pude me ausentar. Tenho uma nova missão para você.
- De quem se trata? - tornou ela sem muito interesse.
- Dom Fernão Lopes de Queiroz.
- O comerciante de sedas?
- Esse mesmo. Desconfio de seu envolvimento com uma descendente de mouros.
Envolvimento com mouros era considerado uma alta traição à Igreja. Os mouros eram hereges, uma vez que não professavam os sacramentos romanos, mesmo aqueles que
haviam se convertido ao cristianismo, os chamados mouriscos.
- O que quer que eu faça?
- O de sempre. Não será muito difícil. Ouvi dizer que dom Fernão, apesar de apaixonado pela tal moura, tem uma queda especial por mulheres bonitas.
- E a moça?
- Quero-a também. Prendendo-o, não será difícil chegar a ela. Afinal, foi ela quem o seduziu com suas heresias e costumes profanos.
Esteban se retirou, e Giselle esperou cerca de cinco minutos para sair também. Do lado de fora, oculto atrás do muro, Juan já a aguardava. Depois que ela saiu, foi
trancar a porta. Do alto das escadas, ficou vendo-a afastar-se, pensando em como seria bom poder estar com ela, fazer com ela as coisas que monsenhor Navarro fazia.
Já em sua casa, Giselle pôs-se a pensar. O que faria para se aproximar de dom Fernão? Giselle era o que se poderia chamar de espia. Amante de Esteban Navarro, cardeal
inquisidor do Santo Ofício, tornara-se sua delatora oficial. Monsenhor Navarro, como era conhecido pelos fiéis, era ardoroso defensor da fé católica e não permitia
que ninguém a ela se opusesse, lutando com todas as suas armas e forças contra o que ele chamava de herege. Qualquer um podia ser herege. Qualquer um que não professasse
a ideologia católica da época incorria no grave crime de heresia: judeus, mouros, feiticeiros, sodomitas, bruxos, qualquer um.
Esteban envidara as mais ferrenhas perseguições contra os hereges, acreditando estar defendendo e preservando a verdadeira fé cristã. Julgava-se juiz da vontade
divina, a quem fora outorgado o direito de reprimir e punir todo aquele que tentasse macular os dogmas católicos. Seus métodos, embora cruéis, eram considerados
adequados para a salvação das almas caídas no pecado, e a tortura nada mais era do que instrumento divino de purificação. Essa era sua crença. Os artifícios utilizados
para prender os hereges, por mais desleais e sórdidos que pudessem parecer, eram justificados pelo bem que ele julgava fazer àqueles apanhados em pecado.
Para prender os hereges, Esteban contava com o concurso dos delatores. Qualquer um podia denunciar uma heresia, sendo mesmo um dever de todo cidadão temente a Deus.
E era exatamente isso que Giselle fazia. Dona de uma beleza exótica, além de profunda conhecedora de magia negra, era-lhe muito fácil atrair e seduzir os suspeitos
indicados por Esteban, deles obtendo as duvidosas confissões que serviam de base à instauração dos processos.
Os hereges, em sua maioria, eram pessoas muito ricas, cujos bens eram logo confiscados pela Igreja. Como prêmio ao delator, cabia-lhe metade do patrimônio do acusado,
ficando a outra metade em poder do clero. Nessas circunstâncias, Giselle enriqueceu. Juntou uma boa soma em ouro e jóias e comprou uma bonita e confortável mansão
nos arredores de Sevilha, onde vivia em companhia de duas escravas negras, Belita e Belinda, compradas de um mercador português.
Entrando em casa, Giselle seguiu direto para o porão. Abriu a pesada porta e entrou. Era ali que se dedicava à arte da magia. Havia vidros com líquidos estranhos,
raízes de plantas desconhecidas, caixas com insetos e aranhas, ossos e caveiras, sangue de diversos animais engarrafado em pequenos frascos e cuidadosamente dispostos
sobre uma prateleira. Mais ao fundo, encostado à parede, uma pesada estante de livros, repleta de volumes sobre magia e conhecimentos ocultos.
Tudo ali tinha sua serventia. Sempre que se deparava com um caso importante ou difícil, recorria a seus apetrechos de bruxaria. Era o caso de dom Fernão. Embora
Esteban lhe garantisse que o homem tinha lá as suas fraquezas por mulheres bonitas, era bom não facilitar. Ele podia estar muito apaixonado pela tal moura, e ela
talvez encontrasse alguma dificuldade para seduzi-lo.
Juntou alguns ingredientes, apanhou um livro de capa negra e abriu-o sobre a mesa. Escreveu o nome completo de dom Fernão com sangue de bicho e pôs-se a preparar
seu feitiço. Ela não tinha nenhum objeto que lhe pertencesse, o que teria facilitado as coisas, visto que dele poderia extrair sua própria energia. Mesmo assim,
preparou tudo. Invocou os espíritos das trevas, ofereceu-lhes presentes e sangue de animais, prometendo-lhes carne fresca de bode, caso conseguisse alcançar o seu
intento.
Depois que terminou, saiu e foi para a floresta, onde costumava colocar essas oferendas. Escolheu um canto mais escuro e afastado e depositou tudo no chão, invocando
novamente os espíritos das trevas, que logo acorreram sequiosos de sangue. Recitou algumas palavras extraídas do livro, espargiu pó de ervas e minerais poderosos
pelo chão e voltou para casa. Já estava pronta para se encontrar com dom Fernão.



CAPÍTULO 2


Lucena pousou o bordado que tinha nas mãos sobre o colo e olhou para o portão. Uma carruagem acabara de atravessá-lo. Vinha calma e serena, e ela sorriu para si
mesma. Levantou-se apressada, depositou o bordado sobre a cadeira e ajeitou o vestido, preparando seu melhor sorriso para receber o visitante.
A porta da carruagem se abriu e um jovem extremamente atraente desceu, estirando as mãos para a moça.
- Minha doce Lucena - disse ele em tom jovial.
- Ah! Ramon - respondeu ela lacrimosa -, por que demorou tanto? Quase morro de preocupação e saudade!
Ele deu um sorriso maroto e apertou sua bochecha, acrescentando com compreensão:
- Eu sei, mas os negócios me impediram de partir mais cedo. E depois, sabe como são os compromissos sociais.
- Espero que nenhuma portuguesa tenha se engraçado com você.
- Minha querida, o que é isso? - gracejou. - Sabe muito bem que só tenho olhos para você.
- Assim espero...
- E seu pai, onde está?
- Foi a uma reunião com Monsenhor Navarro.
- Monsenhor Navarro? Por quê?
- Não sei. Coisas das quais não devo me ocupar, segundo ele.
- Então, não se ocupe com elas. Temos coisas mais importantes em que pensar.
- É verdade. Nosso casamento, por exemplo. Já pensou numa data?
Ramon tossiu meio sem jeito e tentou desculpar-se:
- Sabe que ainda é cedo para isso...
- Por quê? Você já me faz a corte há quase um ano. Não sei por que esperar mais. Mês que vem completo dezoito anos. Já estou ficando velha.
- Deixe de tolices, Lucena, você ainda é muito jovem.
- Mas vou acabar ficando velha se você não se resolver logo.
- Você sabe que não quero me precipitar. Seu pai é um homem rico e poderoso, e eu jurei a ele que não deixaria faltar nada a você. Enquanto não me igualar a ele
em fortuna, não poderemos nos casar.
- Não acha que está exagerando? Você também é rico. Não precisa ter a fortuna de meu pai.
Com um sorriso forçado, Ramon não respondeu. Puxou-a pelo braço e saiu caminhando com ela pelo jardim, pensando que não tinha mais nenhuma desculpa para dar. Homem
rico? Só podia ser piada. Há muito Ramon deixara de ser rico. Seu patrimônio estava praticamente dilapidado, comprometido pelos vícios e exageros. Aos poucos ia
vendendo suas propriedades, sem que Lucena ou seu pai soubessem. Se dom Fernão descobrisse, era bem capaz de obrigá-lo a terminar tudo com ela. Não podia permitir
isso. Precisava dar um jeito de salvar alguma coisa antes que ele percebesse.
- E o romance de dom Fernão? - mudou de assunto. - Como vai?
- Você sabe tão bem quanto eu que papai evita falar nisso. Só o que sei é que está apaixonado.
- Quando é que vamos ter o prazer de conhecer a felizarda?
- Isso eu não sei. Papai faz tanto mistério que, se Consuelo não a tivesse visto, eu não acreditaria.
- Estranho, não é, Lucena? Por que ele não lhe contou? O que tem de mais um homem viúvo contrair novas núpcias?
- Não sei.
- Será que ela não é de boa família? Será alguma pobretona ou cortesã?
- Que horror! Deus me livre de tamanha desgraça!
- Tratando-se de seu pai, tudo é possível. Sua fama de conquistador é bastante conhecida.
- Não fale assim - tornou amuada. - Respeite meu pai.
- Desculpe-me, minha querida, não quis ofender. Vinham voltando para casa quando Consuelo os interpelou:
- Senhorita Lucena, quer que mande tirar o jantar?
- Meu pai já chegou?
- Ainda não.
Lucena inspirou profundamente, olhou para Ramon, que permaneceu impassível, e respondeu:
- Agora não, Consuelo. Vou esperar por papai.
A criada fez uma reverência e voltou para dentro.
- Acho bom entrarmos também - sugeriu Ramon. - Já está escurecendo.
- Você sabe que papai não gosta que nos encontremos a sós dentro de casa. Não fica bem.
- Mas Consuelo não está?
- Consuelo está ocupada com suas obrigações. Não vai ficar nos vigiando.
Virou-lhe as costas e começou a caminhar em direção ao banco em que estivera sentada antes que ele chegasse, mas Ramon segurou a sua mão e a puxou.
- Espere... - balbuciou a voz trêmula demonstrando emoção. - Para onde vai?
- Vamos para o jardim, esperar...
Não lhe deu tempo para concluir. Tapou sua boca com um beijo ardoroso, que ela correspondeu a princípio. Aos poucos recobrando o domínio sobre si mesma, afastou-se
dele e empurrou-o com brusquidão, ao mesmo tempo em que censurava:
- Por quem me toma Ramon? Por alguma ordinária?
- Minha querida, não diga isso. Você sabe o quanto a amo...
- Mas não devia ter feito isso. Não fica hem.
- Não tem ninguém olhando. Que mal pode haver?
- Não está direito.
- Somos noivos, vamos nos casar. Isso não conta?
Ela hesitou. Seu pai vivia lhe dizendo que não deixasse nenhum homem encostar-lhe a mão. Mesmo Ramon. Os homens eram todos iguais; só pensavam em sexo. Se algum
homem a desonrasse antes do casamento, estaria perdida.
Lucena não respondeu e afastou-se dele acabrunhada, indo sentar-se no banco e apanhando o bordado.
- Está escuro para bordar - ponderou Ramon. - Por que não conversamos?
Ela tornou a pousar o bordado no colo, encarou-o com olhos penetrantes e retrucou friamente:
- Só se você prometer que não vai mais me beijar.
Ramon engoliu a raiva. Gostava de Lucena e pretendia se casar com ela. Contudo, todas as vezes que tentava se aproximar, ela o repelia, sempre com a mesma desculpa:
não ficava bem. Aquilo o irritava deveras. Ainda que Lucena resistisse em se entregar a ele, podia ao menos permitir-lhe beijos e carícias, mas até isso ela lhe
negava.
- Creio que já é hora de ir - tornou de má vontade. - Está ficando tarde e seu pai pode não gostar...
Fingindo não perceber a ironia em seu tom de voz, Lucena segurou-lhe as mãos e considerou:
- Não fique bravo, Ramon. Eu o amo.
- Mas você me trata como se eu fosse um aproveitador! Faz com que eu me sinta mal.
- Perdoe-me, mas é que não tenho mais mãe. Temo não saber me conduzir adequadamente pela vida.
- Mas não tem pai, ora essa? E ele não a orienta? Não cuida para que nada de mal lhe aconteça? - Ela assentiu. - Pois é. Tanto que deu permissão para que eu lhe
fizesse a corte. Já estamos noivos, Lucena, noivos!
- Eu sei...
- E depois, não estamos fazendo nada de mais.
- Por favor, perdoe-me. Não falemos mais sobre isso. Tente entender. Eu o amo e quero que tudo dê certo entre nós.
Fitando-a com um misto ele paixão e raiva, ele acabou por concordar:
- Está certo, não vamos mais discutir. Mas é que também a amo e quero-a só para mim. É natural...
- Sei que é. Mas podemos esperar até o casamento, não podemos?
Ele assentiu contrariado. Nesse instante, a carruagem de dom Fernão cruzou os portões e, em poucos segundos, parava defronte a eles. Dom Fernão saltou e os cumprimentou
formalmente:
- Está tudo bem, papai? - arriscou Lucena.
Apesar do ar de preocupação, Fernão conseguiu responder com aparente naturalidade:
- Está tudo bem, minha filha.
- O que monsenhor Navarro queria com o senhor?
- Nada de mais. Queria tratar de uma doação.
- Se puder ajudá-lo em alguma coisa, dom Fernão... - acrescentou Ramon com fingido interesse.
- Não, meu jovem, obrigado. Deixe que eu mesmo cuido disso. E depois, como disse, não é nada de mais. Monsenhor Navarro espera mais dinheiro. Como se o que lhe dou
fosse pouco...
Passou por eles cabisbaixo e foi subindo as escadas do alpendre.
- Já jantou papai? - era Lucena novamente.
- Ainda não.
- Quer que mande servir?
- Por favor. - Virou-se para Ramon e indagou de forma cortês - Acompanha-nos ao jantar, Ramon?
- Se não for incomodar...
- Não é incômodo algum. A propósito, chegou hoje de viagem?
- Sim.
- E como foram os negócios?
- Bem...
- Excelente. Folga-me saber que o futuro marido de minha filha é um rapaz sensato e comedido.
Ramon deu um sorriso amarelo e não disse nada. Acompanhou Lucena até o interior da casa e aguardou até que desse as ordens a Consuelo. Ela daria uma excelente esposa.
Era linda e culta, e sabia lidar com os empregados muito bem. Que homem não ficaria feliz em tê-la por mulher?
Durante todo o jantar, dom Fernão permaneceu calado e pensativo. O diálogo que tivera com Navarro não fora dos mais animadores. Ele não falara claramente, mas viera
com uma estranha conversa sobre hereges muçulmanos. Dissera-lhe que qualquer um que se associasse a um mouro seria considerado herege também, e dedicara grande parte
de sua entrevista a digressões sobre o Santo Ofício.
Embora a conversa não encerrasse nenhum tipo de ameaça, Fernão achou tudo muito estranho. Inspirou profundamente e fitou a filha e o futuro genro. Estava apenas
à espera que eles se casassem para se casar com Blanca. Seria mais fácil para Lucena aceitar seu casamento se já estivesse casada. Só que Fernão não sabia que forças
ocultas já se haviam derramado sobre ele. Sem que percebesse, duas sombras haviam se postado a seu lado, prontas para executar o trabalho pelo qual haviam sido pagas.
Muito bem pagas por Giselle.



CAPÍTULO 3



Sentado à sombra de uma figueira, Juan pensava em sua vida. Estava prestes há fazer dezenove anos e ainda não conhecera mulher. Mas não queria uma mulher qualquer.
Queria Giselle. Aquilo já estava virando uma obsessão. Giselle era seu último pensamento à noite e o primeiro pela manhã. Dormia e acordava com Giselle todos os
dias, sentava-se à mesa ao lado dela, beijava o espelho imaginando beijá-la. Mas Giselle, além de mais velha, era concubina de monsenhor Navarro. Isto sim é que
era um empecilho. Esteban jamais permitiria que ele se aproximasse da amante.
- Juan! - o grito repentino despertou-o de seus devaneios, e ele se empertigou, respondendo apressado:
- Sim?
- Monsenhor Navarro o está chamando - um dos padres veio avisar. - Disse para ir agora!
Juan ajeitou o hábito e tomou o caminho da abadia, rumo aos aposentos particulares de Esteban. Bateu à porta e entrou, indagando de forma humilde:
- Mandou chamar, monsenhor?
- Onde estava, Juan? Por que não atendeu ao meu chamado?
- Desculpe, eu estava lá fora...
- Bem, bem, não importa. Tenho uma tarefa para você - foi até a mesa e retirou um papel, colocando-o na mão do rapaz.
- Quero que leve isso à senhorita Giselle.
Esteban nem notou o ar de felicidade de Juan, que retrucou com jovialidade:
- Devo ir à sua casa?
- Não. Giselle está na taverna.
Para encobrir seus negócios escusos, Giselle comprara uma taverna do outro lado da cidade, onde costumava se apresentar dançando. A clientela era muito boa. Vinha
atraída não só pelo excelente vinho que se servia, mas também pelas apresentações de Giselle.. Muitas pessoas acorriam a sua taverna apenas para vê-la dançar, e
ela se deliciava com o efeito que a sua figura causava, principalmente nos homens.
Quando Juan chegou, ela estava dançando sobre uma mesa, rodeada de vários homens. Ele ficou admirado. Além de linda, ela parecia despida de qualquer tipo de pudor.
Enquanto dançava, Giselle levantava a saia até a altura dos joelhos, levando os homens ao delírio. Como é que monsenhor Navarro não se importava com aquilo?
Monsenhor Navarro não era um homem ciumento. Podia ser possessivo e orgulhoso, mas não sentia ciúmes de nada. Por isso, não se importava que Giselle dançasse. Até
gostava. Agradava-lhe ver que outros cobiçavam o que era dele. E depois, ela trabalhava para ele. Já dormira com vários homens, e até com algumas mulheres, para
atender aos seus propósitos.
Juan sentou-se a uma mesa e ficou esperando até que ela terminasse o seu número, encantado com sua graça e beleza. Giselle era uma mulher exuberante, de formas perfeitas,
tez morena clara e cabelo negro, olhos de um verde escuro e penetrante. Não havia quem não se interessasse por ela. Ela percebia isso, porque também se deliciava
em provocar os homens e colocá-los a seus pés. Só não dormia com ninguém. Além de Esteban, Giselle só se deitava com os suspeitos de heresia que ele lhe indicava.
Quando terminou de dançar, desceu da mesa e foi na direção de Juan. O rapaz sentiu que o coração disparava, mas tentou se controlar.
- Boa tarde, Juan - cumprimentou ela, com um sorriso malicioso.
Ele sorriu de volta, embevecido, e não conseguiu responder. Percebendo o seu embaraço, Giselle puxou-o pela mão e levou-o para um pequeno aposento situado na parte
de trás da taverna, que servia de escritório e gabinete particular. Trancou a porta e fê-lo sentar-se.
- Muito bem - prosseguiu ela. - O que o traz aqui?
Voltando de seu devaneio, Juan se ajeitou na cadeira, retirou a carta do bolso e estendeu-a para ela. Giselle desenrolou o papel e pôs-se a ler, seu semblante se
contraindo de vez em quando. Terminou de ler e guardou a carta entre os seios.
- Diga monsenhor Navarro que está tudo acertado. Já dei início aos preparativos e estou pronta para agir.
Juan memorizou o recado e se foi, ainda sob o efeito que a visão estonteante de Giselle lhe havia causado. Depois que ele saiu, ela pegou novamente a carta e a releu.
Esteban lhe dizia que havia tido uma conversa com dom Fernão e que o homem parecia assustado. Era hora de agir. Havia lhe pedido, como um favor especial, que fosse
à taverna buscar um pequeno donativo de Giselle para a igreja. Dissera-lhe que, como o lugar não era bem freqüentado, não podia, ele mesmo, comparecer, mas não seria
direito ignorarem-se as contribuições de pessoas simples, mas de boa fé. Por isso lhe pedira que fosse. Dissera-lhe que a moça estivera doente e fora curada pelas
suas orações, e que agora pretendia retribuir a graça obtida com uma pequena doação particular.
Giselle riu e rasgou a carta. Aquele Esteban era um demônio. Inventava as histórias mais estapafúrdias só para conseguir o que queria. Ainda que ninguém acreditasse
nelas, não ousariam contestá-lo. Quem se atreveria a questionar a palavra do inquisidor?
Ela deu ordens para que mantivessem tudo em ordem e foi para casa. Precisava se aprontar. Tinha em mente algo especial. Em casa, trancou-se no porão e foi mexer
com seus feitiços. Nada poderia dar errado, ou Esteban ficaria furioso.
Por volta das oito da noite, voltou à taverna. Estava linda em seu vestido vermelho, que realçava ainda mais a sua tez morena. Pouco depois, dom Fernão entrou. Ela
não o conhecia, mas praticamente adivinhou que era ele. De onde estava ele não podia vê-la e se encaminhou diretamente para o balcão.
- Onde posso encontrar a senhorita Giselle? - perguntou, passando os olhos pelo recinto.
Sanchez, empregado que servia as bebidas, apontou com o queixo para um canto da taverna, onde Giselle estava sentada em companhia de um homem, fingindo prestar atenção
a sua conversa enfadonha. Viu quando dom Fernão se aproximou e olhou para ele.
- Senhorita Giselle? - indagou, com visível admiração.
- Sim? - tornou ela, com voz açucarada.
- Meu nome é Fernão...
Ela fez um gesto com a mão, fazendo com que ele se calasse, levantou-se e disse bem baixinho:
- Aqui, não. Siga-me.
Saíram pela porta dos fundos, onde uma carruagem os aguardava. Giselle entrou com dom Fernão e deu ordens para que o cocheiro seguisse.
- Para onde vamos?
- À minha casa. Não posso arriscar-me a comprometer o bom nome de monsenhor Navarro. Alguém poderia ouvir, e isso não seria bom. Nos dias de hoje, é bom não facilitar,
não é mesmo?
Fernão deu um sorriso sem graça e não respondeu. Fizeram o resto do percurso em silêncio, até que a carruagem parou alguns minutos depois. A casa de Giselle não
ficava longe da taverna, e Fernão achou-a muito grande e bonita para uma simples dona de taverna. Pensou que talvez Giselle possuísse algum amante rico, mas não
disse nada. Não era problema seu e não queria se meter nos assuntos alheios.
Ela abriu a porta da frente e chegou para o lado, dando-lhe passagem. Ele entrou primeiro e estudou a sala, admirado com o bom gosto da decoração.
- Devo confessar que estou impressionado, senhorita Giselle. Além de linda, a senhorita é muito fina e requintada. Veja essas obras de arte!
Giselle deu um sorriso maroto e foi apanhar duas taças de vinho, servindo dom Fernão e postando-se ao lado dele, diante de um pequeno vaso que ele admirava.
- É chinês?
- É sim.
- Como o conseguiu?
Ela deu de ombros e voltou para ele os olhos escuros, que a luz das tochas tornava quase negros, e ele sentiu estranha emoção. Nem percebia que duas sombras de mulher
haviam se colado a ele, inspirando-lhe toda sorte de pensamentos lúbricos. Os espíritos chegavam mesmo a masturbá-lo, e, embora ele não sentisse os toques fisicamente,
foi sendo invadido por um desejo incontrolável e, em poucos instantes, já estava excitado aos extremos. Sentindo a proximidade do corpo de Giselle, soltou a taça
sobre o aparador e fixou os seus olhos nela.
- Senhorita Giselle... - balbuciou aturdido.
Ela colocou sua taça ao lado da dele, aproximou bem o rosto do seu e, com os lábios quase roçando os dele, sussurrou:
- Giselle... Para você, sou apenas Giselle.
Fernão não resistiu. Dominado pelo desejo, tomou-a nos braços e beijou-a ardentemente. Ela correspondeu ao beijo com ardor, fazendo-lhe carícias nunca antes experimentadas.
Em poucos minutos estavam na cama. Amaram-se loucamente, e Fernão chegou mesmo a se assustar com algumas práticas de Giselle. Embora perplexo, ficou encantado. Aquela
mulher não tinha pudor algum, e apesar do medo que isso lhe causava, dava-lhe também imenso prazer.
Dom Fernão só saiu da casa de Giselle altas horas da madrugada, sem levar a pequena doação, que havia até ficado esquecida. Depois que ele se foi, Giselle desatou
a rir. Fora muito mais fácil do que imaginara. O homem não oferecera nenhuma resistência. No primeiro impulso, cedera. Pensou no quanto ele era idiota e se felicitou.
Naquela noite, não havia perguntado nada. Era preciso primeiro ganhar a sua confiança para só então iniciar a investigação.
Na manhã seguinte, Esteban foi bater à sua porta. A casa de Giselle ficava do outro lado da cidade, longe das residências nobres e bem distante da abadia. Navarro
tinha medo de ser visto em sua companhia e costumava visitá-la disfarçado. Apenas seu criado Juan sabia e o ajudava. Era ele quem dirigia a carruagem, certificava-se
de que Giselle estava sozinha e ficava à espera do lado de fora, alerta a qualquer movimento suspeito.
- E então, minha querida? - perguntou ele, assim que entrou. - Como foi com dom Fernão?
- Melhor do que o esperado. O homem caiu direitinho na armadilha.
- Vocês dormiram juntos?
- É claro! Não perco tempo com tolices.
Esteban sorriu vitorioso. Giselle sempre se saía bem em suas missões.
- Ele já confessou alguma coisa?
- Ainda não toquei nesse assunto. Mas não se preocupe. Tenho certeza de que logo vai falar.
- Teve que utilizar algum artifício?
- Você sabe que não faço nada sem os meus amigos das trevas. Como pensa que consigo tudo?
Navarro sentiu um calafrio e não respondeu. Não queria se envolver com bruxaria. Aquelas práticas heréticas eram duramente combatidas, e a punição, por demais severas.
Giselle não devia mexer com aquelas coisas, mas ele acabou tolerando-as em razão de sua finalidade. Não as estimulava, mas também não as reprimia. Tudo era permitido
para prender um herege.
Dom Fernão voltou para casa sentindo o arrependimento corroer-lhe a alma. Traíra sua Blanca com aquela ordinária, sem pensar nas conseqüências. Aquela mulher era
terrível. Envolvera-o com seus gestos sensuais e atrevidos, e ele acabara caindo em sua armadilha. Por que fizera aquilo? Fora a sua casa buscar uma doação que ela
faria a monsenhor Navarro. E onde estava a doação? Ela não lhe dera nada, e ele se esquecera de pedir. Esteban ficaria furioso ao descobrir que ele não cumprira
a missão para a qual fora destinado.
E Blanca? Se soubesse, ficaria arrasada. Ela era tão linda e tão pura... Não merecia ser traída. Mas não lhe diria nada. Ela nem desconfiaria. Não pretendia tornar
a se encontrar com Giselle, e não haveria com o que se preocupar. Mas, e a doação? Pensando melhor, voltaria à taverna na noite seguinte, apenas para apanhar o dinheiro,
e nunca mais apareceria.
Ao entrar em casa, Lucena veio logo ao seu encontro, exclamando alarmada:
- Papai! Onde passou a noite? Fiquei preocupada.
Ele sorriu meio sem jeito. Não podia lhe dizer que passara a noite nos braços de uma cortesã, mas também não podia deixar que pensasse que dormira em casa de Blanca.
Não queria lhe dar a idéia de que sua noiva era uma mulher qualquer.
- Dormi em casa do senhor Valência - mentiu. - Ficamos conversando sobre negócios, tomamos muito vinho e, quando dei por mim, já estava adormecido sobre as almofadas.
- Ah! Pensei que tivesse passado a noite com a moça...
- Não passei a noite com moça nenhuma.
Ela fez silêncio durante alguns segundos, até que indagou cautelosamente:
- Será que já não está na hora de apresentar-me sua noiva?
Tomado de surpresa, dom Fernão virou as costas para a filha e cerrou os olhos, tentando pensar em algo. Não havia nada a dizer, porém. Consuelo os havia visto juntos
e contara a Lucena. Todos sabiam de seu romance com Blanca, e sua filha não compreendia por que ele a mantinha em segredo.
- Quando é que você e Ramon vão se casar? - desconversou.
- Casar...? - confundiu-se a moça. - Não sei ao certo. Ramon ainda está preso aos negócios...
- Pois quero falar com ele ainda hoje. Ou marca logo a data do casamento, ou eu mesmo rompo esse noivado de vocês.
- Papai! Não pode fazer isso.
- Posso, sim. Esse noivado já está se demorando demais. Faz quase um ano que ele me pediu para lhe fazer a corte, com promessas de casamento. Ficaram noivos há seis
meses. Por que não se casaram ainda?
Lucena não sabia o que dizer. Também ela não entendia por que Ramon adiava tanto o casamento. No fundo, até que apreciara a impaciência do pai. Só assim Ramon seria
forçado a tomar uma decisão.
- Não sei por que Ramon insiste em não marcar a data. Confesso que também eu já lhe fiz essa mesma pergunta.
- Pois vou mandar chamá-lo aqui agora mesmo. Depois que vocês se casarem, também eu e Blanca nos acertaremos.
- Blanca? É esse o nome da moça?
Fernão hesitou. Havia deixado escapar o nome de sua noiva e agora não tinha mais como esconder. Pensando bem, que mal haveria se a filha soubesse o nome de sua futura
madrasta? Já era mesmo hora de se conhecerem. Por quanto tempo mais poderia ocultar de Lucena a origem de Blanca? Ela era filha de um mouro e de uma espanhola, ambos
já falecidos. Blanca crescera entre a fé católica e a muçulmana, mas, após a morte dos pais, acabara por se decidir pela Igreja.
Ele encarou a filha com ternura, segurou as suas mãos e acabou por revelar:
- Sim, minha filha, o nome dela é Blanca. Blanca Vadez. É uma moça honesta e de boa família, e penso em apresentá-la a você o mais breve possível.
- Fico muito feliz com isso, papai. Tinha medo de que ela não fizesse parte da boa sociedade.
- Não precisa se preocupar com isso. Blanca é pessoa da mais alta distinção.
Lucena pareceu feliz. Finalmente ia conhecer a noiva do pai. Além disso, Ramon receberia um ultimato. Ela estava certa de que ele não teria como fugir e ver-se-ia
forçado a marcar a data do casamento.
Ramon chegou pouco depois da hora do almoço. O mensageiro apenas lhe dissera que dom Fernão o chamava a sua casa com a máxima urgência, sem declinar, contudo, o
motivo de tanta pressa. Acomodado no imenso salão da casa de dom Fernão, ficou à espera que lhe dissessem o motivo daquele chamado súbito.
- Muito bem, Ramon - começou Fernão -, o assunto que me fez chamá-lo aqui é deveras grave. Trata-se de seu noivado com minha filha.
- Ah! Dom Fernão, não precisa se preocupar. Nosso noivado vai indo muito bem...
- Não se trata disso. E que penso que já está na hora de oficializarmos o matrimônio.
- Mas já? Ainda é cedo.
- Não é não. Minha Lucena já esperou demais. Ou vocês se casam logo, ou o compromisso entre vocês está desfeito. A escolha é sua.
Notando a indecisão nos olhos de Ramon, Lucena pôs-se a chorar.
Você não me ama, Ramon?
- Não é isso... - balbuciou. - É que considero essa decisão prematura. Ainda temos tanto que fazer...
- Não há nada que fazer - cortou Fernão impaciente. - Lucena não pode esperar mais. Ou será que existe algo a seu respeito que eu não saiba?
Ramon sentiu o rosto arder e abaixou os olhos, confuso e envergonhado. Se dom Fernão soubesse que estava praticamente falido, jamais permitiria que aquele casamento
se concretizasse. Mas já que as coisas estavam tomando aquele rumo, era melhor mesmo casar-se logo, antes de ficar inteiramente arruinado. Ao menos ainda possuía
alguns poucos imóveis para apresentar, além de algumas jóias que herdara da mãe. Em breve, porém, com os cobradores batendo à sua porta, não lhe sobraria mais nem
sombra de sua fortuna.
Ele fitou Lucena discretamente, pigarreou e começou a dizer:
- O senhor tem razão, dom Fernão. Já está mesmo na hora de marcarmos a data. Por que não escolhe o senhor?
O brilho nos olhos de Lucena o comoveu, e ele foi a sua direção, tomando as suas mãos e beijando-as delicadamente. Gostava da moça. Podia ser interesseiro e quase
um pobretão, mas nutria uma afeição sincera por Lucena.
- Muito bem - alegrou-se Fernão. - Escolho eu, então. Que tal dia 30 de julho? Ainda estaremos no verão e poderemos organizar uma bonita festa ao ar livre.
- Para mim está ótimo - concordou Ramon com alegria. - E para você, Lucena?
Mal contendo a felicidade, Lucena concordou:
- Para mim, também. Quanto antes, melhor.
- Excelente! Deixem tudo por minha conta. Eu mesmo tratarei a igreja e providenciarei os convites para a festa. Vai ser um banquete luxuoso, como nunca antes visto
em Sevilha.
Dom Fernão sentiu-se mais animado. Depois do casamento da filha, trataria de arranjar o seu. Blanca já não era mais nenhuma menina, mas ficaria feliz com um casamento
no estilo tradicional. Afinal, optara por seguir a religião da mãe, deixando de lado os velhos costumes da crença paterna. Não merecia a pecha de moura. Blanca era
cristã e merecia integrar-se no seio da comunidade católica, e era o que ele pretendia ajudá-la a fazer.



CAPÍTULO 4



Era quase meia-noite quando Giselle fechou a porta de casa e tomou a direção da floresta. Envolta em seu manto negro, caminhou evitando os raios da lua, ocultando-se
na escuridão da noite. Foi andando apressadamente, arrastando um bode que mandara comprar logo pela manhã. Finalmente, atingiu uma clareira, o local aonde sempre
ia para fazer seus sacrifícios, sem que ninguém a visse. As pessoas eram muito impressionáveis e tinham medo da floresta à noite, o que conferia a Giselle certa
aura de proteção.
No centro da clareira havia uma pedra grande e muito lisa, que servia de altar. Arrastando o animal, Giselle se dirigiu para lá. Amarrou-o num galho de árvore que
descia ao chão e ajoelhou-se diante do altar de pedra, proferindo estranhas palavras em latim. Abriu um pano negro aos pés da pedra, nele depositando algumas moedas
de prata, um punhal e uma pequena bacia. Em seguida, continuou a fazer suas evocações, chamando os espíritos que a haviam ajudado para o banquete que lhes oferecia.
Pouco depois, apanhou o animal. O bode tremia todo, talvez ciente do destino que lhe fora reservado. Giselle ergueu-o cuidadosamente e deitou-o sobre a pedra, segurando-o
firmemente pelo pescoço com uma das mãos. Com a outra, levantou o punhal, sempre proferindo palavras estranhas, encostou-o na carne do animal e, num gesto rápido
e preciso, cortou sua garganta, mantendo-o preso de encontro à pedra, enquanto seu corpo estremecia sob o estertor da morte.
Giselle parecia em transe. Revirava os olhos e cantarolava baixinho, chamando aqueles que costumavam servi-la. Os espíritos das trevas, que aguardavam ansiosamente
por aquela oferenda, logo se aproximaram. Alguns encostaram a boca na ferida do bode, sugando-lhe o fluido vital, enquanto outros disputavam o sangue derramado na
bacia.
Quando o animal soltou seu derradeiro estertor, e a última gota de sangue pingou na bacia, Giselle abriu os olhos com um sorriso de triunfo. Acomodou o corpo do
bicho morto sobre a pedra, espargiu sobre ele uma mistura de ervas e apanhou a bacia. Levou-a aos lábios vagarosamente, sorvendo o sangue do bode em pequenos goles.
Em seguida, depositou-a novamente aos pés do altar de pedra, sobre o manto negro, e terminou com uma frase:
- Deliciem-se, meus servos. Vocês mereceram.
Jogou o manto novamente sobre os ombros, virou as costas ao pequeno altar e tomou o caminho de volta. No dia seguinte, apanharia o corpo do bode, as moedas e a bacia,
e jogaria tudo no rio mais abaixo, onde ninguém poderia ligá-los a ela. Por ora, tudo pertencia aos espíritos das sombras, que retirariam o máximo da energia que
pudessem extrair daqueles elementos.
Quando já estava quase em casa, viu uma pequena claridade perto de uma árvore e se voltou assustada. No meio da escuridão, um homem a fitava com olhar triste, envolto
num halo de luz.
- Pai...? - balbuciou ela, assustada.
- Giselle - respondeu o espírito -, o que é que está fazendo com o conhecimento que lhe dei?
Giselle levou a mão à boca, aterrada, e, na mesma hora, a imagem se desvaneceu. Completamente aturdida, desatou a correr. Como aquilo fora acontecer com ela? Seu
pai estava morto. Por que aparecia na sua frente de uma hora para outra? Era a primeira vez que o via. Sabia que possuía uma sensibilidade acima do normal, mas nunca
antes havia visto qualquer espírito, nem mesmo aqueles que trabalhavam para ela.
O pai, contudo, não só se aparecera diante dela, como lhe falara também. Parecia não zangado, mas triste. Por mais que dissesse não entender a razão de sua tristeza,
Giselle sabia. Sabia que estava utilizando os conhecimentos que ele lhe dera de forma inadequada. Antes de morrer, o pai a fizera prometer que jamais se utilizaria
da sabedoria para destruir.
- O conhecimento deve ser usado na prática do bem - dizia ele. - Jamais permita que a ganância, o orgulho e a vaidade afastem você do caminho da retidão.
Giselle ouvia seus conselhos sem lhes dar atenção. Em seu íntimo, sabia que faria exatamente o contrário do que o pai lhe dizia. Para que tantos conhecimentos se
não podia utilizá-los em benefício próprio? Quem era ela para se preocupar com o bem-estar alheio? A Virgem Maria? Não, pensava. Deixaria aquelas tarefas para os
santos e anjos. Ela precisava cuidar de sua própria vida, e foi exatamente o que fez depois que o pai morreu.
O pai de Giselle, Ian MacKinley, era um druida escocês, que veio parar na Espanha fugindo da perseguição cristã aos praticantes da antiga seita da deusa-mãe. Não
tencionava fixar residência na Espanha, temendo a Inquisição, mas, de passagem por Cartagena, acabou conhecendo Pilar, por quem se apaixonara e com quem se casara.
Dessa união, nasceu-lhes a única filha, batizada com o nome de Giselle, que era a alegria do pai.
Desde a mais tenra infância, Ian ensinou a Giselle os mistérios da sabedoria druida. A menina demonstrava grande interesse por aquela magia, embora não comungasse
dos ideais do pai. Podia amá-lo profundamente, mas tencionava usar aqueles conhecimentos para conseguir algumas vantagens pessoais. Sua família era pobre, e ela
pretendia enriquecer.
Quando Ian morreu, Giselle contava apenas quinze anos e já era uma bruxa praticamente feita. A mãe morria de medo, temendo que alguém a denunciasse aos padres, mas
Giselle a tranqüilizava, dizendo que ninguém sabia nada de sua vida.
Um ano depois, a mãe contraiu novas núpcias. O padrasto de Giselle era um bêbado preguiçoso, que ficava em casa enquanto a mãe se matava de trabalhar para sustentar
a família. Giselle o odiava. Um dia, quando ele tentou estuprá-la, decidiu-se. Não podia mais viver ali. Precisava partir o quanto antes. Arrumou suas trouxas e
fugiu, levando livros perigosos e proibidos na bagagem.
Foi para Sevilha. Apesar do Tribunal do Santo Ofício, a cidade a atraía. Por uma estranha razão, Giselle não acreditava que tivesse saído de sua terra para cair
nas garras de algum inquisidor idiota. Não tinha medo, e foi a sua audácia que a aproximou de monsenhor Navarro. Esteban era então um jovem padre, recém-nomeado
inquisidor para atuar no Tribunal de Sevilha. Giselle não o conhecia, mas sabia que muitos inquisidores tinham suas concubinas particulares, e o que ela mais queria
era tornar-se amante de um inquisidor. Pôs-se à espera da melhor oportunidade.
Desde que chegara, havia se hospedado em uma estalagem fétida e pouco iluminada, com carrapatos na cama e ratos que passeavam pelo quarto logo que a vela se apagava.
Era um horror. No quarto ao lado, viviam duas moças que se diziam irmãs. Uma noite, Giselle ouviu um estranho ruído. Do outro lado da parede, alguém gemia. Encostou
o ouvido à parede e escutou. Efetivamente, eram gemidos que escutava. Levantou-se na ponta dos pés e foi para o corredor, na esperança de ver alguma coisa. Espiou
pelo buraco da fechadura, mas não conseguiu ver nada.
No dia seguinte, foi direto ao Tribunal do Santo Ofício. Naquela época, Navarro era apenas um padre em início de carreira como inquisidor e integrava as Mesas Inquisitoriais.
Embora hesitante Giselle se aproximou.
- O que deseja senhorita? - indagou Esteban, fixando-a admirado.
Assumindo um ar inocente, Giselle tornou com voz melíflua:
- Com quem poderia falar sobre... Bem, sobre algo que vi?
- O que foi que viu? - tornou Esteban interessado. - Vamos, pode falar. Você está diante de um juiz investido de autoridade divina pelo Criador.
Ela fez ar de dúvida. Na verdade, todos os seus gestos eram estudados e cuidadosamente preparados para impressionar o inquisidor. Ela queria parecer ingênua e preocupada
com a moral cristã, e não ser tomada por uma devassa invejosa ou algo parecido.
- Bem... - continuou ela em tom hesitante - não sei se é apropriado falar.
- Pode falar criança. Não tenha medo. Estou aqui para ajudá-la. Diga-me: o que foi que viu?
- Bem, padre, é que não sei se o que vi é pecado.
- Mas o que é menina? Do que se trata?
Esteban já estava ficando impaciente, e ela achou que já era hora de contar. Chegou o corpo para frente, expondo os seios mal cobertos pelo vestido, e começou a
sussurrar:
- É que onde moro há duas moças que... Bem... O senhor sabe... - calou-se envergonhada.
- O quê? - tornou Esteban, já dominado pelas entidades que acompanhavam Giselle. - Pode falar senhorita...
- Giselle.
- Pode falar Giselle. Lembre-se de que está num lugar santo. Pecado é calar sobre algo que pode ser uma heresia.
Giselle inspirou profundamente, chegou o rosto bem perto do seu e tornou a sussurrar:
- Bem, padre, como eu ia dizendo, moro numa pequena estalagem nos arredores da cidade. Nada de luxo, porque não posso pagar. Acontece que, na outra noite, ouvi um
gemido estranho. Fiquei assustada, pensando que as moças que vivem no quarto ao lado estivessem passando mal. Pensando em oferecer-lhes ajuda, fui até seu quarto.
Bati na porta, mas ninguém respondeu. Então, fiz algo que nunca antes havia feito: olhei pelo buraco da fechadura. Sei que é errado, padre, mas minha intenção era
ajudar. As moças podiam estar doentes, impossibilitadas de abrir a porta.
- Sei, sei - tornou Esteban, cada vez mais impaciente. - Mas, e daí? O que foi que viu?
- Jura que nada vai me acontecer se falar?
Ela fingia tão bem que Esteban realmente acreditou na sua inocência e no seu medo. Já magnetizado por ela, respondeu com doçura:
- Um padre não precisa jurar minha filha, pois sua palavra já é a palavra de Deus. Contudo, se isso a faz sentir-se melhor, juro, não só que nada lhe irá acontecer,
mas que irei ajudá-la no que for preciso.
Ela sorriu intimamente, exultando com sua vitória. Sabia que o havia conquistado e falou bem baixinho:
- Quando espiei pelo buraco da fechadura, vi que estavam nuas, agarradas, fazendo coisas estranhas na cama, esfregando seus corpos, tocando-se de maneira pouco digna
- o padre abriu a boca, estupefato, e ela prosseguiu: - Fiquei apavorada. Nunca antes havia visto nada semelhante. Sufoquei um grito de pavor e voltei ao meu quarto,
pensando no que deveria fazer. Aquilo não estava nada certo. Foi então que me ocorreu procurar o Tribunal. Não sei se isso é heresia, mas achei que era minha obrigação
contar o que vi.
Giselle não havia visto nada. Mas mentia tão bem que qualquer um acreditaria. Contudo, tinha certeza de que as moças estiveram mesmo se amando. Escutara aqueles
gemidos muitas vezes, quando sua mãe e o padrasto faziam sexo. Não tinha dúvidas.
Esteban tomou nota de tudo o que ela dizia e logo procedeu à abertura do processo inquisitorial. Giselle não sabia o nome das moças, mas deu o endereço a Esteban
e voltou para a estalagem. Naquela mesma noite, soldados invadiram o quarto ao lado do seu, e as moças foram surpreendidas nos braços uma da outra. Giselle escutou
barulho de luta, gritos desesperados, choros convulsos. A voz de Esteban se elevava furiosa, excomungando as moças. Riu vitoriosa.
Voltou para sua cama e aguardou. Poucos minutos depois, ouviu batida na porta. Levantou-se e foi abrir.
- Senhorita Giselle - começou Esteban a dizer -, tinha razão. O demônio habita o corpo daquelas duas.
- Elas foram presas?
- A essa altura, já devem estar nas masmorras.
- Pobres moças...
- Não se lamente. Você fez o que era certo. Deus deve estar muito satisfeito com você - fez uma pausa e ficou olhando para ela, até que acrescentou embevecido: -
Você é tão linda...
Ela abaixou os olhos, fingindo-se envergonhada, e retrucou com voz sumida:
- Padre... Nem sei o seu nome...
- Esteban. Esteban Navarro.
Ela soltou um suspiro e deixou que duas lágrimas caíssem de seu rosto. Esteban estava encantado. Ela era uma jovem muito sensível e atraente, e não merecia
viver naquela espelunca.
- Onde estão os seus pais? - tornou ele com genuína preocupação.
- Morreram.
- E você ficou só?
- Sim, meu senhor. Não tenho ninguém por mim.
- Pois agora tem. Não se preocupe, vou ajudá-la.
- Vai? Por quê?
- Porque sou um homem generoso, e você, uma criança desamparada. É meu dever cuidar de você.
Era tudo o que Giselle esperava ouvir. No dia seguinte, Esteban tirou-a da estalagem e acomodou-a numa pequenina casa, um pouco afastada da cidade. Logo a tomou
por amante e ficou encantado com o fato de ela ainda ser virgem. Aquilo era uma prova de que ela era uma criança inocente e pura, assustada com o mundo ao seu redor.
Com o tempo, o romance entre os dois foi se intensificando. Sempre que aparecia, Esteban lhe contava sobre seus casos, falando que havia muitos hereges que ainda
conseguiam escapar do poder do Santo Ofício. Foi quando a idéia lhe surgiu, e Giselle se ofereceu para ajudar. Era uma mulher bonita e não lhe seria difícil obter
uma confissão dos suspeitos ou reunir elementos que os incriminassem. Bastava que os seduzisse, e eles acabariam por se entregar.
Foi exatamente o que aconteceu. Utilizando-se de seus conhecimentos de magia das trevas, Giselle atraía os suspeitos, ganhava sua confiança e fazia com que lhe contassem
tudo sobre suas vidas. Diante das informações que ela lhe passava, Esteban avaliava se havia algo herético na vida dos suspeitos, e todos eram conduzidos ao calabouço,
torturados, espoliados e mortos.
Esteban sentiu-se gratificado. Logo honrado com o título de monsenhor, em breve foi sagrado bispo, para depois receber o título de cardeal, e passou a presidir os
processos de inquisição, abandonando as Mesas Inquisitoriais e dedicando-se à prática da tortura para obter a confissão. Giselle também foi gratificada.
Tornou-se uma mulher rica, e Esteban lhe comprou a taverna, para acobertar o seu ofício.
Aos poucos, Esteban foi tomando conhecimento das práticas de magia de Giselle. Embora assustado a princípio, acabou se acostumando. Era graças aos conhecimentos
de Giselle que conseguiam prender muitos hereges. Poucos eram os que lhe escapavam, e quando isso acontecia até Esteban os acreditava inocentes, desistindo de persegui-los
e acusá-los.
Ele não sabia o quanto estava certo. Por mais que Giselle soubesse manipular os espíritos das sombras, nada do que fizesse surtiria efeito nas almas dignas, íntegras
e bondosas. Os trabalhadores do mal, muitas das vezes, nem conseguiam chegar perto dessas pessoas, barrados que eram antes mesmo de adentrarem suas casas, pelos
espíritos de luz encarregados de zelar pela sua segurança. Outras vezes, as vítimas chegavam a titubear. Mas a fé em Deus e a oração sincera acabavam por reequilibrar
os seus pensamentos, e os espíritos das trevas eram afastados após curto período de perturbação.
Giselle sabia que seu maior inimigo era a fé que algumas pessoas possuíam em Deus. A princípio, sempre que encontrava resistência de alguém, desdobrava-se em oferendas,
certa de que acabaria conseguindo minar a força do inimigo. Mas o amor e a fé em Deus se sobrepõem a todo e qualquer malefício, por mais poderoso e sombrio que seja,
e Giselle acabou se convencendo de que não possuía poder algum contra os mais religiosos, como ela, em sua ignorância, os compreendia e os chamava.



CAPÍTULO 5



Os sinos da abadia acabavam de dobrar, anunciando às seis horas da tarde, quando Esteban e Miguez cruzaram a imensa porta de cedro que dava acesso aos aposentos
particulares dos padres.
- Meu caro Esteban - disse Miguez vagarosamente - sabe que não tenho nada com a sua vida nem pretendo me intrometer em seus assuntos. Mas não acha que seu romance
com Giselle está indo longe demais?
- Por que diz isso? - tornou Esteban assustado, certo de que era discreto o bastante para não permitir falatórios.
- Porque já estão começando a comentar.
- Comentar o quê? Quem?
- Outro dia mesmo ouvi uma conversa entre padre Valentim e padre Donário. Diziam que você deveria ser mais cauteloso e não trazer a moça aqui.
- Mas eu não a trouxe!
- Não é o que dizem. Vocês foram vistos saindo da antiga capela.
Esteban fez um ar de contrariedade e desabafou:
- Por que não cuidam de suas próprias vidas?
- Não que isso vá prejudicá-lo... Não creio mesmo nisso.
Afinal, que inquisidor não possui a sua amante, não é mesmo? - deu um sorriso mordaz e prosseguiu: - Eu mesmo tenho lá os meus encontros.
Haviam alcançado o corredor principal, onde ficavam os aposentos mais luxuosos, e Esteban parou. Fitou o interlocutor com ar maroto e indagou:
- Suas virgens?
Miguez olhou de um lado a outro e falou bem baixinho:
- Só gosto das virgens. E assim mesmo, das bem novinhas. Pode ser uma preferência um tanto quanto bizarra, mas depois que as defloro, perco o interesse por elas.
O que me agrada, meu caro, é o medo das meninas, a sensação de poder ao senti-las trêmulas sob o meu corpo, a dor da penetração, as lágrimas de desespero, o sangue
jovem a lhes escorrer do sexo. Está certo que faço tudo isso em nome do Senhor... - elevou as mãos aos céus e fez o sinal da cruz, logo retomando seu discurso: -
Mas não é pecado ter prazer com o próprio trabalho, é?
- Por que está me dizendo isso, Miguez?
- Nunca me envolvi com nenhuma dessas mocinhas. Mas você... Está por demais envolvido com Giselle.
- Giselle trabalha para mim. Foi graças a ela que consegui prender e acusar tantos hereges.
- Sei disso e não quero que pense que o estou recriminando. Como disse você não é o primeiro nem será o último a ter uma concubina. Mas sou seu amigo e sinto-me
no dever de alertá-lo. Giselle ainda pode lhe causar problemas.
- Não vejo que problemas ela possa me causar. É apenas uma mulher...
- Uma mulher é sempre perigosa. É através delas que o diabo costuma tentar os homens.
- Giselle é diferente. É muito dedicada a mim e só faz aquilo que eu mando.
- Ainda assim, meu amigo, tenha cuidado. Se o Tribunal se voltar contra ela, não a defenda. Deixe que a acusem.
- O que você sabe que eu não sei?
- Nada. Não sei de nada. Mas algo me diz que ela ainda vai acabar mal.
- Não entendo por que a preocupação, Miguez. Giselle não representa nenhuma ameaça.
- Eu não teria tanta certeza. Ela é traiçoeira e perigosa.
- Está enganado. Giselle me é extremamente fiel. É você que não gosta dela, embora ela nunca lhe tenha feito nada. E você sabe o quanto eu gosto dela.
- Por isso mesmo. Não me agradaria nada vê-lo às voltas com os inquisidores.
- Está se preocupando à toa. Não há nada contra mim. E, mesmo que houvesse, ninguém ousaria me acusar. Seria uma vergonha para a Igreja. Tenho certeza de que o arcebispo
logo daria um jeito de acobertar tudo, como já fez outras vezes. E depois, sempre cumpri fielmente a minha missão. Devo ser o inquisidor com o maior número de confissões
e condenações. Ninguém se atreverá a me acusar de nada.
Miguez suspirou profundamente e deu-lhe uma tapinha nas costas, seguindo para seus aposentos. Deitado em sua cama, ficou pensando no amigo. Ele e Esteban eram amigos
há muitos anos. Juntos, já haviam feito centenas de condenações, presidido muitas torturas, presenciado várias execuções. Miguez sabia que Esteban era muito bem
conceituado na Igreja, tinha fama de excelente inquisidor. Assim como ele. Miguez ansiava ser sagrado bispo, o que não deveria tardar.
Mais tarde, em seu quarto, Esteban apagou a vela, mas não conseguiu dormir. Pensava nas palavras de Miguez. Não acreditava que alguém tivesse algo contra ele ou
Giselle. A não ser o próprio Miguez. Desde que a conhecera o amigo não simpatizara com ela.
Ouviu um ressonar e espiou. No aposento contíguo, Juan dormia a sono solto, despreocupado da vida. Seria uma pena despertá-lo, mas precisava dele naquela noite.
Era imperioso que fosse ver Giselle ainda hoje. A conversa com Miguez o deixara preocupado, e ele queria se certificar de que tudo estava bem.
- Juan - chamou baixinho, cutucando o noviço.
- Hum...? O que é?
- Acorde, Juan, precisamos sair.
O rapaz se empertigou e esfregou os olhos, tentando espantar o sono e fitando o interlocutor:
- Monsenhor Navarro! Aconteceu alguma coisa?
- Preciso sair. Vamos, levante-se.
Rapidamente, o rapaz se levantou e vestiu-se às pressas. Em silêncio, saíram para o pátio da abadia, dirigindo-se para a cavalariça.
- Aonde vamos? - indagou, enquanto abria a porta da carruagem para Esteban entrar.
Ele se sentou rapidamente e disse com voz rouca:
- A casa de Giselle. E rápido.
O coração de Juan estremeceu. O que será que Navarro iria fazer em casa de Giselle àquelas horas? Não perguntou nada, porém. Era seu dever obedecer, não fazer perguntas.
Quando chegaram, Juan bateu à porta e esperou. Poucos minutos depois, uma das negras veio atender, e Esteban entrou apressado, ordenando ao noviço que o esperasse
na carruagem.
- Vá chamar à senhorita Giselle - ordenou de má vontade.
A escrava não disse nada. De olhos baixos, saiu e foi buscar sua senhora. Voltou cerca de cinco minutos depois e, parada diante dele, sem ousar levantar a cabeça,
falou com voz humilde:
- A senhorita Giselle não está em seu quarto.
- Onde está?
- Não sei senhor. Talvez esteja no porão.
Sem dizer nada, Esteban dirigiu-se para lá. Não gostava daquele porão cheio de ervas e coisas esquisitas, com cheiro de enxofre e inferno, mas estava com pressa.
Escancarou a porta com estrondo. Giselle estava parada em frente a uma espécie de fogão a lenha, mexendo um caldeirão, e levantou os olhos assustada:
- Esteban! - exclamou surpresa. - O que faz aqui há essas horas?
Encarando-a com desconfiança, ele redargüiu em tom de censura:
- O que está fazendo aí, Giselle? Outro de seus feitiços?
- Nada de mais - tornou ela, dando de ombros. - Apenas uma infusão para aborto. Por quê?
- Está grávida de novo?
- É o que parece.
Vendo-a ali parada, mexendo o caldeirão feito uma bruxa, o coração de Esteban se apertou. Ainda a amava. Não sentia mais arder em seu corpo o fogo da paixão, mas
gostava dela o suficiente para tentar protegê-la. Ela se arriscava demais, guardando em sua própria casa aqueles objetos profanos e demoníacos. Se alguém descobrisse,
seria o seu fim.
Giselle soltou a colher com que mexia o caldeirão e aproximou-se dele, tentando beijá-lo na boca. Ao ver que ele se esquivava, perguntou com voz amuada:
- O que há Esteban? Não me deseja mais?
- Não se trata disso. Mas é que vim aqui para falar de um assunto importante.
- Que assunto?
- Essas práticas nefastas.
- Por que está dizendo isso agora? Nunca se queixou quando elas o auxiliaram.
- Isso é bruxaria.
- Chame como quiser. Mas é com essa bruxaria que consigo praticamente tudo o que quero. E depois, se quer mesmo saber, acho que não tem nada de mais nisso que faço.
Os druidas, de quem aprendi esses segredos, tratavam esses mistérios com muita naturalidade. Meu pai dizia que eles estavam acostumados a utilizar as forças ocultas
da natureza, manipulando energias e fazendo contato com os espíritos...
- Isso é blasfêmia! É coisa do diabo!
- Que eu saiba você também já andou estudando essas blasfêmias.
- Não nego. Mas foi apenas para conhecê-las e poder combatê-las. Não me dedico a essas práticas. E você também deveria parar com isso.
Giselle abraçou-o e beijou o seu rosto, acrescentando com voz melíflua:
- Quer mesmo que eu pare Esteban? Sem a minha magia, talvez você não fosse o homem poderoso que é hoje. Quer jogar tudo isso para o alto?
Ele a encarou confuso e começou a dizer:
- Não... Não se trata disso.
- De que se trata, então? Nunca vi você preocupado com minha magia.
- Você sabe que eu jamais gostei dessas práticas.
- Mas nunca as condenou nem me pediu que parasse. Por que isso agora? Por que se deu ao trabalho de vir até aqui no meio da noite, só para me alertar sobre algo
que você já está cansado de saber?
- Não sei. Estou confuso. Miguez veio com uma conversa estranha hoje. Algo sobre você ser acusada de heresia.
- Padre Miguez não sabe de nada. No fundo, está é com inveja, porque você subiu mais rápido do que ele.
- Não creio. Miguez e eu sempre fomos muito amigos.
- Está certo, Esteban - assentiu Giselle, tentando desviar o assunto. - Mas não se preocupe. Se depender de mim, ninguém nunca vai ficar sabendo de nada. Vou tomar
mais cuidado. Escolherei até outro local para minhas oferendas. Está bem assim?
Ele sorriu meio sem jeito e assentiu. Em seguida, Giselle terminou de preparar a infusão e bebeu a goles largos. Já estava acostumada àquilo. Sempre que engravidava,
preparava o chá abortivo e se livrava da criança. Não queria filhos. Nem Esteban. Ele tremia só de pensar que pudesse vir a ser pai. Ainda mais porque o filho poderia
não ser dele. Do jeito que Giselle trabalhava para ele, aquela criança bem poderia ser de qualquer um. Ainda assim, a presença de uma criança só serviria para atrapalhar
os seus planos e os de Giselle, e era de comum acordo que os abortos eram realizados.



CAPÍTULO 6



Em seu gabinete particular, Esteban ouvia as explicações de dom Fernão, que não tivera ainda tempo de buscar a tal doação que Giselle pretendia fazer à igreja.
- Pois é monsenhor Navarro - ia se desculpando -, ainda não pude encontrar a senhorita Giselle. É que andei ocupado, muitos negócios a resolver, o senhor entende.
E depois, tem a minha filha. Lucena está noiva, e foi preciso ter uma conversa com o rapaz. Sabe como são os jovens, não é mesmo? Ramon de Toledo, um bom rapaz,
embora um tanto quanto imaturo. Mas não se preocupe. Voltarei hoje mesmo à taverna da senhorita Giselle e resolverei tudo.
Esteban batia com os dedos na mesa e o fitava com ar incrédulo. Dom Fernão mentia descaradamente, mas ele não diria nada. Era preciso dar-lhe bastante corda para
que se enforcasse. Quando ele terminou de falar, Esteban, olhando diretamente em seus olhos, tornou em tom veladamente ameaçador:
- Dom Fernão, não quero que pense que o estou obrigando a abandonar suas obrigações para me prestar esse favor. Pensei no senhor para essa missão porque é meu amigo
e sei que tem prazer em ajudar a Santa Madre Igreja, principalmente nas tarefas mais difíceis. Mas se não puder ir, deixe por minha conta. Arranjarei outra pessoa.
- Não, não, é claro que poderei ir. Como lhe disse ainda hoje me desincumbirei dessa missão.
Naquela mesma noite, dom Fernão voltou à taverna. Giselle estava dançando sobre a mesa, como sempre fazia cercada de homens que a admiravam. Dom Fernão pretendia
ser rápido. Escolheu uma mesa mais ao fundo e sentou-se, aguardando até que ela terminasse o seu número.
Giselle o havia visto entrar, embora fingisse não ter visto nada. Terminou a dança e desceu da mesa, encaminhando-se diretamente para onde ele estava sentado, com
uma caneca de vinho à frente.
- Boa noite, dom Fernão - cumprimentou com um sorriso sedutor. - Pensei que não viesse mais.
Fernão pigarreou meio sem jeito e retrucou encabulado:
- Perdoe-me, senhorita Giselle, mas é que nosso encontro passado foi... Um tanto quanto incomum... E, por isso... Bem, esqueci a missão que me foi confiada.
Com um riso maroto, ela se sentou ao lado dele, pedindo que lhe trouxessem uma caneca de vinho também. Apanhou-a e bebeu avidamente, estalando a língua ao final.
- Excelente vinho o meu! - disse ela com entusiasmo. - Não concorda dom Fernão?
- Sim... - balbuciou ele - Muito bom, realmente.
- E francês; excelente safra. Doce, puro, aromático. Uma beleza!
- Senhorita Giselle, perdoe-me... Mas não foi para falar de vinho que vim aqui.
Ela colocou a caneca sobre a mesa, passou a língua nos lábios e tornou com suavidade:
- Não. Foi para falar de sua missão. Contudo, o que o impede de saborear um bom vinho?
- Nada me impede. Mas é que não posso me demorar. Minha família me aguarda.
- Ah! A família. Essa nobre instituição criada por Deus...
Havia tanta ironia em sua voz que Fernão se assustou. Por que ela estava falando daquele jeito? Precisava logo apanhar o dinheiro e sair dali. Tentando ignorar o
seu sarcasmo, replicou:
- Perdão novamente, senhorita...
- Pensei que tivéssemos dispensado essas formalidades. Já não somos íntimos?
Sem que ele tivesse tempo de responder, ela se levantou de onde estava e se abaixou perto dele, deixando os seios na altura do seu rosto. Na mesma hora, Fernão começou
a sentir que a excitação o dominava. Ela se abaixou ainda mais e tocou sua orelha com os lábios, soprando com voz doce e suave:
- Por que não vamos a minha casa cumprir... A sua missão?
Ao sentir o hálito quente de Giselle em seu ouvido, Fernão teve um arrepio de prazer. O peito da moça subia e descia, acompanhando a respiração que ela, propositadamente,
tornara ofegante, o que foi instigando-o ainda mais. Ainda assim, ele tentava resistir:
- Eu... Não posso... Gostaria, mas preciso apanhar o dinheiro...
Sem lhe dar tempo de concluir, Giselle tapou a sua boca com um beijo, e ele foi se levantando vagarosamente, apertando seu corpo contra o dela. Em seguida, saíram
pela porta dos fundos e tomaram a carruagem, indo direto para sua casa. Amaram-se a noite toda. Giselle já estava cansada, mas ele parecia tomado de uma disposição
fora do comum. Mesmo assim, não o rejeitou. Quanto mais ele se prendesse a ela, mais cedo alcançaria seu objetivo.
Depois que ele se saciou, recostou a cabeça sobre o seu colo e pareceu adormecer. Giselle esperou alguns minutos e, acariciando seus cabelos, começou a indagar:
- Fernão...
- Hum?
- Está dormindo?
- Não.
Ela deixou escapar um suspiro de prazer e acrescentou com voz estudadamente carinhosa:
- Há pouco falou em família. Você é casado? Ele se empertigou na cama e fitou-a espantado.
- Por que pergunta?
- Por nada. Gosto de conhecer os homens com quem me relaciono.
- Perdoe-me, Giselle, mas não creio que nos relacionemos. Você é uma mulher muito bonita e sensual, mas não pretendo tornar a vê-la.
- Não? Por quê?
- Por que... Porque não. Como disse, tenho a minha família e não posso me afastar dela.
- Então você é casado...
- O que há? Por acaso sou o único homem em sua vida?
- Não. Mas é que gostei de você. Ao contrário dos outros, é gentil, carinhoso, educado. A maioria dos homens que conheço é arrogante e grosseira.
Sentindo o peito inflamado de orgulho, Fernão retrucou:
- Sou um cavalheiro. Jamais trataria mal uma mulher.
- Eu sei, e foi por isso que me interessei por você. Hoje, quando o vi entrar na taverna, senti uma enorme alegria. Gosto de você e ficaria feliz se nos víssemos
mais vezes.
Fernão estava confuso. Gostava de Giselle, mas amava Blanca. Giselle era uma rameira, ao passo que Blanca era uma mulher pura e virtuosa, aquela que escolhera para
ocupar o lugar de sua falecida esposa. No entanto, por que não poderia ter Giselle como amante? Blanca, apesar de mais velha, ainda era uma moça solteira, e ele
não poderia contar com suas carícias. Mas era homem. Não era obrigado a satisfazer o seu desejo nos leitos das meretrizes? Giselle não era propriamente uma meretriz,
mas era quase isso. Mulheres feitas Giselle não serviam para esposas. Só serviam para concubinas. Que mal poderia haver se a tomasse por amante enquanto não se casasse?
Ele beijou os seus cabelos e tornou com doçura:
- Também gosto de você. Por isso, não vejo mal algum em que nos encontremos de vez em quando.
- Que maravilha! - exclamou ela, beijando-o de leve na boca. - E sua mulher? Não vai desconfiar de nada?
- Quem foi que lhe disse que sou casado?
- Não é? Mas eu pensei...
- Pensou errado. Eu não disse que era casado. Disse que tenho família.
- Não estou entendendo...
- Sou viúvo e tenho uma filha, que está noiva. Além disso, também tenho uma noiva, e é com ela que pretendo me casar logo após o casamento de minha filha.
Era agora. Ele ao menos já confessara que estava noivo, coisa que ninguém antes conseguira apurar. Mais um pouco e ele falaria sobre a fé que a moça professava.
- Você está noivo? - tornou ela, fingindo-se surpresa. - E vai se casar?
- Sim. Lamento se a decepciono, mas não posso enganá-la. Você perguntou se eu era casado, e estou lhe dizendo que não. Mas não posso fingir que não há ninguém em
minha vida.
- E claro que não.
- Não está zangada?
- Por que estaria? Só o conheci outro dia. Não podia esperar que fosse exclusividade minha.
- Quer dizer que não se importa?
- Não é bem assim - fez uma pausa estudada e prosseguiu: - Só duvido que sua noiva possa fazer o que eu faço por você.
- Minha noiva ainda é virgem.
- Foi o que pensei... E sua filha? Como se chama?
- Lucena. É uma linda moça.
- Imagino. Se sair ao pai, deve ser mesmo muito bonita. Ele a abraçou e replicou com ternura:
- Bonito, eu? Imagine...
- Pois fique sabendo que eu o acho muito atraente. E sua noiva também deve achar, ou não teria aceitado a sua corte.
Fernão não respondeu.
Por mais que puxasse assunto, ele nada dizia sobre a moça, e Giselle não quis pressioná-lo muito.
Ele deu por encerrado o assunto e começou a acariciá-la novamente. Giselle estava cansada. Não sentia a mínima vontade de fazer sexo com ele mais uma vez. Contudo,
era preciso fingir e se submeter. Precisava acabar com aquele caso o mais rápido possível. Quanto antes ele revelasse a heresia da moça, mais cedo ela se livraria
dele. Dom Fernão não era um homem feio, mas ela não sentia a menor atração por ele. Seu único desejo era fazer com que ele confessasse. Nada mais.



CAPÍTULO 7



Nada do que Ramon fizesse poderia convencer Lucena a adiar o casamento. Ela estava decidida, não podia mais esperar. Além disso, já estava passando da hora, e acabaria
se tornando uma solteirona ranzinza. Não. Decididamente, o momento era aquele. O pai o estava pressionando, e Ramon também não encontrava mais desculpas para dar.
Sentados lado a lado no imenso jardim da casa de dom Fernão, Lucena, com o bordado no colo, ia dizendo:
- Hoje teremos visita para o jantar. Papai, finalmente, decidiu-se a nos apresentar sua noiva.
- É mesmo? O que o fez mudar de idéia?
- Nós.
- Nós? Não entendi.
- Ele quer que nos casemos para se casar logo em seguida. Por Isso, vai trazer a moça hoje.
Ramon guardou silêncio. Não tinha mesmo como adiar aquele casamento. Dom Fernão parecia decidido, e Lucena, mais decidida ainda. O jeito era rezar para que o futuro
sogro não descobrisse nada sobre sua real situação financeira. Se isso acontecesse, Ramon se sentiria extremamente humilhado e teria que enfrentar a repulsa de dom
Fernão e de toda a sociedade espanhola.
Os dois estavam sozinhos no jardim, e nuvens cinzentas começaram a se formar no céu. De vez em quando, um raio caía à distância, e trovões estouravam enfraquecidos.
- Acho que vai chover - observou Lucena displicente.
Sem prestar atenção a suas palavras, Ramon tentou nova investida. Não havia nenhum empregado olhando, e o momento era propício. Já não agüentava mais. Lucena sempre
o evitava, o que o deixava louco. Quanto mais ela o repelia, mais ele a desejava. Com gestos delicados, segurou a sua mão e beijou-a com gentileza, fitando-a com
um ar proposital de adoração.
- Lucena - começou a dizer com voz açucarada -, sabe o quanto a amo, não sabe?
Ela retirou a mão e respondeu as faces coradas:
- Não recomece Ramon.
- Mas Lucena, não entendo você. Seu pai quer que nos casemos logo. Por que não posso tocá-la?
- Por que não podemos esperar até a noite de núpcias?
- Porque você me enlouquece.
- Não diga essas coisas. Você sabe que não gosto de atrevimentos.
- Não é atrevimento. E amor. Eu a amo, Lucena. Deixe-me provar isso.
Tornou a beijar sua mão, olhando para os lados para ver se havia alguém observando. Levantou-se e puxou-a vagarosamente, e puseram-se a caminhar de braços dados
pelas alamedas do jardim. Lucena sabia onde ele a estava levando, mas não disse nada. Pensou em contestar e exigir que voltassem, mas desistiu. Que mal faria? Iriam
apenas conversar. Se Ramon pensava que iria conseguir alguma coisa, estava muito enganado.
Mais um pouco e alcançariam o caramanchão. Foi quando começou a chover. Era verão, e grossos pingos despencaram do céu, obrigando-os a correr para se abrigarem.
Entrou ofegante no caramanchão, Lucena toda encharcada, o peito arfante, quase sem conseguir respirar. Vendo-a parada, toda molhada, o vestido colado ao corpo, a
mão suavemente pousada sobre o seio, que se insinuava alvo sob o decote, Ramon não conseguiu se conter. Arrebatou-a com furor e beijou-a com paixão.
Assustada, Lucena tentou lutar. Dava-lhe tapas e tentava empurrá-lo, mas Ramon a prendia com força. Já não conseguia mais raciocinar. Deitou-a no chão e pôs-se
a acariciá-la, sussurrando-lhe palavras de amor, carregadas de desejo. Aos poucos, Lucena deixou de resistir. O contato de Ramon despertara-lhe sentimentos nunca
antes experimentados, e ela foi se entregando. Que mal haveria? Não ia mesmo se casar?
Amaram-se com loucura. Ramon parecia um animal, tamanho o desejo reprimido. Ao final, ele a beijou nas faces, feliz e extasiado, e declarou solenemente:
- Oh! Lucena, não sabe como a amo. Juro que farei de você a mulher mais feliz e realizada do mundo.
Lucena exultou. Entregara-se antes do casamento, mas não estava arrependida. Ramon a amava e se casaria com ela, e tudo ficaria em seu devido lugar. Ninguém precisaria
ficar sabendo do que acontecera, e o casamento trataria de colocar uma camada de tinta sobre aquela mácula.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Blanca foi apresentada a Lucena e a Ramon. Era uma moça fina e delicada, embora não muito bonita, já perto da casa dos trinta anos.
Apesar de não ser mais nenhuma jovenzinha, parecia perfeita para seu pai. Era prendada, recebera boa educação e se mostrava cordata e gentil com todos, até mesmo
com os serviçais. Já não tinha pais. Eles haviam falecido havia cerca de dois anos, e Blanca vivia só, em companhia de alguns poucos empregados.
A única coisa que não haviam contado a Lucena fora acerca de sua origem. Dom Fernão temia que a filha não a aceitasse ou ficasse preocupada, e não julgou conveniente
revelar a verdade naquele momento. Contaria mais tarde, após o casamento, se Blanca insistisse.
Depois que o jantar terminou, dom Fernão pediu licença para levá-la em casa. Já era tarde, e Blanca não estava acostumada a ficar acordada até altas horas.
- Você também, Ramon - acrescentou. - Não se demore muito. Já está na hora de Lucena se recolher.
- Não se preocupe papai. Ramon já estava mesmo de saída, não estava?
- Estava sim
Blanca se despediu dos dois. Simpatizara muito com Lucena, e a moça ficou satisfeita com a futura esposa do pai. Temia que fosse alguma doidivanas ou interesseira,
mas Blanca era uma moça fina e educada, o que a agradou bastante. Assim que eles saíram, Lucena virou-se para Ramon e considerou:
- Lembre-se do que papai falou. Já está na hora de me deitar.
Corpo ardendo de desejo, Ramon puxou-a para si e pousou-lhe um delicado beijo nos lábios, que ela correspondeu com frieza. Aos poucos, porém, aquele beijo foi se
intensificando, até que Ramon passou a beijá-la com ardor, tentando acariciar seu corpo. Ela, assustada, deu-lhe um empurrão e uma leve bofetada no rosto, dizendo,
coberta de horror:
- O que deu em você, Ramon? Enlouqueceu?
- Não, Lucena. O que deu foi em você? Por que agora me repele? Há pouco não concretizamos o nosso amor?
- Já não chega?
- Por quê? Não gostou? Não quer mais? Confusa e envergonhada, Lucena objetou:
- Aquilo não deve se repetir. Precisamos esquecer o que houve.
- Como posso esquecer o seu corpo, os seus beijos, o seu sexo?
- Não fale assim - retrucou indignada, cheia de pudor. - É pecado.
- Mas que pecado? Eu a amo e vamos nos casar em breve. Que mal há em nos amarmos?
- Podemos esperar.
Ramon abaixou os olhos, contrariado, tentando conter o ímpeto de jogá-la ao chão e possuí-la novamente. A muito custo, refreou o desejo e saiu, dando-lhe um boa
noite carregado de frustração. Do lado de fora dos imensos jardins da mansão, foi caminhando a passos vagarosos, pensando aonde ir. Ouviu o ruído de cascos de cavalo
estalando no chão de pedras e parou, meio encoberto pelas sombras. Era a carruagem de dom Fernão. A carruagem freou em frente aos portões, mas, ao invés de entrar,
o cocheiro deu meia-volta nos cavalos e tornou a descer a rua, passando por Ramon sem notar a sua presença.
Num impulso, Ramon correu atrás da carruagem e agarrou-se a ela, prendendo pés e mãos nas ferragens traseiras. Aonde será que dom Fernão ia àquelas horas? Durante
cerca de uma hora, Ramon permaneceu agarrado à traseira da carruagem, as mãos e os pés já dormentes, esforçando-se ao máximo para não cair. Se não chegassem logo
ao seu destino, não saberia mais o quanto poderia se segurar.
Quando a carruagem parou em frente à casa de Giselle, Ramon deu um salto de felino e foi para o outro lado. Protegido ainda pelas sombras, abaixou-se o mais que
pôde, colocando-se fora das vistas do cocheiro. O homem desceu e abriu a porta para dom Fernão, que saltou apressado.
Fernão caminhou a passos largos para a porta da frente e bateu. Minutos depois, uma negra veio atender e fê-lo entrar. Cada vez mais curioso Ramon esperou até que
o cocheiro cochilasse no assento, para só então sair de onde estava. Vagarosamente, foi caminhando para a casa, na esperança de encontrar alguma janela por onde
pudesse espiar. Mas a casa estava às escuras, e não havia janelas abertas no andar de baixo.
Ramon escondeu-se entre os arbustos do pequeno jardim da casa de Giselle. A fama de dom Fernão já era conhecida, e o rapaz estava certo de que ele possuía uma amante
secreta. Duvidava muito que aquela Blanca fosse uma mulher despojada. Mais parecia uma freira, assim como Lucena, e Ramon podia entender muito bem o gesto de dom
Fernão.
Do lado de dentro, dom Fernão envolvia Giselle num abraço lúbrico, levando-a para a cama sem dizer nada. Precisava desesperadamente de seu corpo. Rasgou sua camisola
com fúria e jogou-a na cama, possuindo-a com um quase desespero. Em silêncio, Giselle se submeteu, tentando não pensar na repulsa que aquele homem começava a lhe
causar, resfolegando sobre ela feito um animal. Quando ele terminou, ela deu um sorriso e acariciou o seu rosto, empurrando-o gentilmente de cima de seu corpo.
- O que foi que houve? - indagou, tentando parecer interessada e carinhosa. - Por que não avisou que vinha?
- Não pude. Nem eu sabia. Deixei Blanca em casa e senti o desejo a me consumir. Por isso, resolvi vir vê-la.
- Blanca?
- Minha noiva...
Sorrindo intimamente, ela fingiu-se compreensiva e tornou com doçura:
- Não lhe disse que ela não lhe pode dar o que lhe dou?
- É verdade, Giselle. Ninguém ama feito você. Mas também, você há de convir que, aos olhos de Deus, é um erro entregar-se antes do casamento.
- Sua noiva é muito religiosa? - ele não respondeu. - Deve ser. Mulheres beatas só pensam em Deus e acham que sexo é pecado.
- O que não é o seu caso, não é mesmo?
Ela riu e considerou:
- É claro que sou temente a Deus, como todo mundo. Mas se ele me reservou esse destino, o que fazer? Melhor aproveitar os atributos que ele me deu, não acha?
Ele sorriu e a beijou. Gostava de Giselle. Além de excelente amante, ela era inteligente e tinha senso de humor.
- Você vai à igreja? - perguntou ele, só agora se lembrando da doação que tinha que levar para monsenhor Navarro.
- Às vezes. Vou escondida. As pessoas não gostam muito de mulheres como eu, você sabe.
- Ainda assim, você conheceu monsenhor Navarro.
- Conheci. Ele me salvou. Há alguns meses, estive muito doente, e foi graças a suas orações que me curei. Monsenhor Navarro me encontrou sozinha na igreja e me ofereceu
ajuda. Foi a sua fé que me salvou, e, por isso, eu lhe serei eternamente grata.
- Grata ao ponto de lhe oferecer uma pequena doação...
- Que você ainda não levou para ele, não é mesmo? - Giselle riu e continuou: - Daqui a pouco, ele vai começar a desconfiar.
- É verdade. Foi até bom nos lembrarmos. Não saio hoje daqui sem a sua doação.
Giselle se levantou e foi apanhar uma bolsinha com algumas moedas de ouro, que colocou nas mãos de dom Fernão.
- Aqui está. Há muito reservei essa quantia para a igreja. Não se esqueça de levá-la.
Fernão apanhou a bolsinha, experimentou-lhe o peso e foi amarrá-la na cinta de sua calça. Voltou para a cama em seguida e beijou Giselle novamente. A moça observou:
- Apesar de tudo, sou muito grata a Deus. Posso não ser um exemplo de virtude feito a sua Blanca, mas sou uma mulher de fé.
- Blanca é uma moça muito virtuosa, é verdade. E tem muita fé, embora...
Parou de falar abruptamente, já arrependido de ter começado. Mas Giselle atenta a todas as suas palavras viu ali a oportunidade que há tanto esperava.
- Embora o quê? - redargüiu com fingida inocência. - Não vá me dizer que ela pensa em ir para algum convento e deixá-lo!
- Não... Não... Ela... Bem... Blanca é uma boa cristã agora...
Calou-se. Não sabia se podia confiar em Giselle e temia pela vida de Blanca. Giselle, por sua vez, não queria pressioná-lo muito. Ele era inteligente e acabaria
suspeitando de algo. Pensou em insistir para que ele continuasse a frase, mas sentiu o seu ar de desconfiança.
- Isso não importa - arrematou Giselle, dando-lhe um beijo na boca. - O que importa somos nós.
Fernão suspirou aliviado. Não lhe agradava muito ver o nome de sua noiva nos lábios de uma meretriz. Depois do beijo, levantou-se e aprontou-se para sair, e Giselle
foi levá-lo até a porta.
Do lado de fora, Ramon se impacientava. O cocheiro agora dormia a sono solto, e ele perdera a conta do tempo em que ficara ali esperando. Finalmente, depois de quase
duas horas, a porta tornou a se abrir, e Ramon encolheu-se todo atrás dos arbustos. Dessa vez, porém, não foi à escrava que abriu, mas uma moça linda, envolta apenas
numa manta de lã que lhe deixava à mostra os ombros morenos e bem torneados. Ramon fixou o seu rosto e ficou impressionado com a sorte de dom Fernão. Como conseguira
uma amante daquela? Na certa, dava-lhe muito dinheiro.
Rapidamente, Fernão voltou para a carruagem e acordou o cocheiro, dando-lhe ordens de ir para casa. Giselle ficou vendo a carruagem afastar-se e só então fechou
a porta, nem percebendo que havia alguém a espreitá-la. Ramon voltou para casa com os pensamentos voltados para ela. Quem seria? Provavelmente, alguma meretriz de
luxo que dom Fernão descobrira. Sentiu-se tomado de imensa curiosidade e não conseguiu dormir o resto da noite. A imagem de Giselle não lhe saía do pensamento e,
no dia seguinte, bem cedo, partiu de novo para a sua casa.
Parou do outro lado da rua e ficou à espreita. Viu quando as janelas se abriram e as escravas começaram a limpar a casa. Uma das moças saiu para fazer compras, e
ele pensou em abordá-la quando voltava. Mas o que iria dizer-lhe? Que vira sua senhora na noite anterior e queria saber se ela era amante de dom Fernão? Até porque,
isso parecia óbvio.
Giselle só saiu de casa depois do meio-dia, e Ramon foi atrás dela. Viu quando ela entrou na taverna e entrou atrás. O lugar não lhe causou muito boa impressão.
Não era o tipo de lugar que Ramon costumasse freqüentar. Apesar de tudo, era um nobre. Podia estar falido, mas tinha berço e não estava acostumado a tavernas feito
aquela.
Ainda assim, procurou uma mesa e sentou, acompanhando Giselle com o olhar. Ela sumiu por uma porta atrás do balcão, e ele pediu vinho e um assado. Ainda não havia
se alimentado e estava com fome. Pouco depois, Giselle reapareceu. Vinha passando por entre as mesas, falando com um ou outro freqüentador, até que deu de cara com
Ramon, que a fitava pelo canto do olho.
A figura de Ramon não passou despercebida a Giselle, e ela deteve o olhar nele por uns instantes. De onde surgira aquele rapaz tão bonito e distinto? Bem se via
que não era dali. Talvez fosse algum viajante. Já estava se encaminhando para sua mesa quando sentiu que alguém a segurava pelo braço.
- Ei, Giselle! - era um dos homens. - Dance um pouco para nós.
- Agora não - respondeu ela, sem tirar os olhos de Ramon.
- Ora, vamos, Giselle - pediu outro. - Estamos esperando.
- É isso mesmo, Giselle - concordou um terceiro. - Por que acha que viemos aqui?
O homem a puxou, enquanto outros limparam a mesa do centro do salão e a ergueram, colocando-a gentilmente sobre a mesa. Giselle não contestou. Seria até bom exibir-se
para o desconhecido. Ergueu as mãos acima da cabeça, preparando-se para começar, e lançou-lhe um olhar penetrante. Ramon sentiu um arrepio e se empertigou todo na
cadeira, agora vidrado na figura esguia de Giselle.
Começou a movimentar os dedos com agilidade e destreza, estalando-os com graciosidade e ritmo. Com movimentos cadenciados e sensuais, pôs-se a executar sua dança.
Dançava especialmente para ele, fazendo propositalmente a saia levantar, deixando à mostra seus tornozelos e joelhos. De vez em quando, olhava em sua direção, para
se certificar de que ele acompanhava os seus passos. Quando terminou, explodiram palmas ao seu redor, e os homens começaram a bater nas mesas, elogiando com entusiasmo:
- Muito bem, Giselle!
- Foi perfeita, Giselle!
- Caprichou dessa vez, hein?
Sim, Giselle havia caprichado. Mais do que o habitual. Desceu da mesa e, sob os aplausos dos fregueses, caminhou em direção à mesa de Ramon. Parou em frente a ele
e, depois que os homens silenciaram e voltaram suas atenções para a bebida, curvou o corpo e indagou com voz sonora:
- Você é novo por aqui? - ele assentiu. - Está de passagem?
Ramon não respondeu. Seu olhar não se desviava de Giselle, e ele chegou a sentir uma pontinha de inveja de dom Fernão. Notou os seus seios subindo e descendo sob
o vestido, o peito ainda arfante dos movimentos que executara. Em sua testa, algumas gotículas de suor emprestavam à sua pele um brilho especial, e os olhos verdes
e profundos pareciam penetrar até o fundo de sua alma.
- O que há com você? - tornou ela. - Por acaso é mudo?
Ramon sacudiu a cabeça e sorriu, levantando-se e puxando a cadeira a seu lado, ao mesmo tempo em que dizia:
- Perdoe-me a indelicadeza, senhorita. A fascinação diante de tão linda dama tirou-me os gestos e a educação e, por instantes, só o que pude foi admirar a sua beleza.
Pela primeira vez em sua vida, Giselle corou. Ninguém nunca havia lhe dito palavras tão doces. Aquilo a encantou, e ela se sentou na cadeira que ele lhe oferecia.
- Muito bem, senhor...
- Ramon de Toledo, sem o senhor.
Giselle riu encantada com o seu charme natural, e retrucou:
- Muito bem, Ramon, pode-se saber de onde é que veio?
- De onde vim? Na verdade, daqui mesmo.
- E de Sevilha?
- Sou.
- E o que faz por estas bandas? Na certa, não mora por aqui.
- Não. Estou apenas de passagem.
- Entendo...
- E você é Giselle...
Ela deu um sorriso encantador e completou:
- Giselle Mackinley - ante o seu ar de espanto, ela esclareceu:
- Meu pai era escocês.
Ramon e Giselle ficaram toda à tarde na taverna, conversando. A curiosidade do rapaz logo cedeu lugar ao encantamento, e ele percebeu que relutava em deixá-la. Pensou
em Lucena e sentiu uma pontada de remorso. Sua noiva, tão pura, esperando-o em casa para salvar-lhe a honra maculada. E ele ali, preso ao magnetismo daquela mulher
vivida e experiente. Já não estava mais curioso para saber sobre a relação de Giselle com dom Fernão. Pensava mesmo em tê-la em seus braços. Ao menos uma vez. Depois,
satisfeito o desejo primitivo, voltaria para Lucena.



CAPÍTULO 8



O Tribunal do Santo Ofício realizava outro auto-de-fé, encerrando mais um dos muitos processos de heresia. O acusado não ousava levantar os olhos para seus inquisidores.
Já quase não tinha mais consciência de si mesmo, tamanho o estado de flagelo em que foram colocados seu corpo e sua mente. A morte, naquele momento, seria para ele
uma bênção.
O processo havia transcorrido rapidamente. Alinhados à pesada mesa que formava a tribuna, os padres escutaram as acusações contra o réu. Era um homem ignorante,
iletrado e nem sabia por que estava ali. Na verdade, o motivo era que olhara de forma comprometedora para uma freira. A religiosa, sentindo-se ofendida com os seus
olhares lúbricos, tratara de denunciá-lo às Mesas Inquisitoriais, e logo o processo fora aberto por padre Miguez, que cuidara pessoalmente do interrogatório do acusado.
- Senhor Julião Ortiz - começara então padre Miguez -, não é verdade que o senhor, possuído pelo demônio, ousou conspurcar a imagem imaculada de irmã Maria? - o
homem não respondera. - Pois foi isso mesmo o que aconteceu. Como podem ver, tenho aqui um documento assinado pelo acusado, reconhecendo-se presa de espíritos infernais,
que dele se utilizaram para tentar violar a castidade de irmã Maria, uma freira cuja vida sempre foi dedicada a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Exibira o papel aos outros padres, que o leram atentamente, passando-o de mão em mão. Efetivamente, o acusado havia confessado o seu crime, e a heresia estava mais
do que provada. As marcas em seu corpo davam provas da eficácia do interrogatório a que fora submetido, e a sentença fora prolatada sem qualquer tipo de controvérsia.
O homem havia sido condenado a morrer queimado na fogueira, e, agora, o público que assistia ao auto-de-fé era levado ao delírio.
Imediatamente, o homem foi levado para o lugar da execução. Começou a chorar, sentindo a iminência da morte, embora ainda sem entender o que havia feito para merecer
tão duro castigo. Foi amarrado ao poste, e os carrascos, com as tochas na mão, atearam fogo à palha cuidadosamente disposta a seus pés. Na mesma hora, as chamas
o consumiram, e ouviram-se seus gritos agudos e desesperados.
O inquisidor-geral estava muito satisfeito, e Padre Miguez foi parabenizado pelo excelente trabalho que realizara. Obtivera a confissão do homem após longas sessões
de tortura. Terminada a execução, os padres começaram a se retirar, e o auto-de-fé foi dissolvido. Os espectadores retornaram a seus lares, felizes com o espetáculo
macabro que haviam acabado de presenciar.
Esteban desceu da tribuna e foi juntar-se a Miguez, que recebia os cumprimentos dos demais padres. Um pouco mais atrás, Juan o seguia, atento a todos os seus gestos.
- Está de parabéns, como sempre, Miguez - elogiou Esteban. - Em breve será sagrado bispo.
- Acha mesmo?
- Ouvi algo a respeito. O arcebispo tem andado muito impressionado com a sua atuação.
Miguez sorriu intimamente orgulhoso de si mesmo. Apanhou o braço de Esteban e foi caminhando com ele em direção à abadia, seguidos por Juan, que vinha em silêncio
mais atrás.
- E você, meu caro Esteban? Como vai indo o caso de dom Fernão?
- Por enquanto, não temos nenhuma novidade. Giselle ainda não conseguiu apurar nada.
- Acha mesmo necessário utilizar Giselle? Poderíamos mandar prendê-lo e fazer uma acusação formal.
- Como? Ninguém o denunciou, não há testemunhas. Com que elementos poderão instaurar a denúncia?
- Você é muito meticuloso. Eu, no seu lugar, não me preocuparia tanto com isso.
- Você sabe que não gosto de cometer injustiças.
- Mas afinal, quem lhe contou que dom Fernão anda metido com uma moura?
- Ninguém me contou. Fui eu que, ao acaso, o vi saindo furtivamente da casa de uma moça, que eu não conhecia. Indagando aqui e ali, descobri que ela se chamava Blanca
Vadez e que os pais morreram há cerca de dois anos. Aquele nome ficou ressoando na minha cabeça, e fiquei tentando lembrar onde já o havia escutado. Foi quando me
lembrei que dom Fernão tinha negócios com um comerciante em Granada, que lhe vendia peças de seda trazida do oriente.
- E daí?
- E daí que ele era muçulmano. Ele e a mulher morreram quando a Espanha reconquistou o Reino de Granada, há pouco mais de dois anos.
- E o que isso tem a ver com Blanca?
- Desconfio que esse homem fosse seu pai. Chamava-se Hamed Kamal e era casado com uma espanhola, de nome Engrácia Vadez. Os dois eram muito ricos, e o avô de Engrácia
foi um grande comprador de indulgências. Mas Kamal era muçulmano e não pôde salvar-se, nem a esposa, quando o exército espanhol retomou Granada.
- Como foi que conseguiu descobrir tudo isso?
- Tenho amigos em Granada. Contaram-me que Hamed e Engrácia possuíam uma filha, embora desconhecessem o seu paradeiro. E, por coincidência, pouco depois da morte
de ambos, Blanca apareceu por aqui...
- Tem certeza de que ela veio de Granada?
- Não. A não ser pelo nome, nada sei a seu respeito. Ela é muito reservada, quase não sai de casa. E, à exceção de dom Fernão, ninguém vai visitá-la. Não é estranho?
- Deveras...
- A moça, provavelmente com medo de ser descoberta, adotou o nome da mãe e passou a chamar-se Blanca Vades, em lugar de Blanca Kamal. Creio que isso tudo foi idéia
de dom Fernão. A essa altura, já apaixonado por ela, deu um jeito de tirá-la de Granada e trazê-la incógnita para cá.
- Você tem certeza disso? Pode ser mera coincidência.
- É por isso que preciso reunir elementos.
- E acha que pode conseguir esses elementos através de Giselle?
- Ora, vamos, Miguez, sei que não gosta de Giselle, mas tem que concordar que ela é eficiente.
- Ela é uma meretriz, isso sim.
- E daí? Desde quando você se importa com isso? Você não é o primeiro a se deitar com qualquer moça?
- Com qualquer moça, não. Só gosto das jovens virgens. Não ousaria macular o meu corpo santo no leito de uma meretriz.
- Está bem, não falemos mais nisso. E depois, não sou o único.
- Sei que não é. Mas é que não gosto de Giselle. Não confio nela.
- Você não tem motivo nenhum para não gostar dela. Ou será que a cobiçou também?
- Eu?! Já lhe disse meu amigo, que não me interesso por meretrizes.
- No entanto, Giselle veio a mim quando era jovem...
- Giselle veio a qualquer um. Por acaso, foi você quem a atendeu. Mas poderia ter sido eu, ou Valentim, ou Pedro, ou Donário. Qualquer um.
- Está certo, Miguez, perdoe-me. Não quis ofendê-lo. Sei que você é meu amigo e não sentiria ciúmes de Giselle. Mas é que essa sua antipatia por ela me deixa inquieto.
- Não. Sou eu que devo lhe pedir perdão. Não tenho nada com a sua vida e não tenho o direito de me intrometer em seus assuntos pessoais.
- Você é meu amigo, e eu sempre respeitei muito a sua opinião. Mas está enganado sobre Giselle. Ela me ama, fui eu quem cuidou dela praticamente a vida inteira.
Desde que ela chegou aqui, com pouco mais de dezesseis anos, tenho sido a única pessoa a cuidar dela. Sou seu amante e um pouco seu pai também.
- Giselle não precisa mais de pai. Já está com trinta e dois unos.
- Mas é uma mulher solitária. Conhece muitas pessoas, mas amigo mesmo, não tem nenhum.
Alcançaram os aposentos pessoais de Esteban, e Juan abriu-lhes a porta. Os dois padres entraram e foram para o gabinete, onde se sentaram, um defronte do outro.
Juan correu a servir-lhes vinho e foi sentar-se numa poltrona perto da porta, permanecendo o mais quieto possível.
- Miguez - começou Esteban -, está enganado sobre Giselle. Ela é uma mulher muito eficiente.
- Não digo o contrário. Mas tanta eficiência dá para desconfiar.
- Por que diz isso? Com que direito a acusa?
- Com o mesmo direito que você acusa Blanca Vadez. Veja bem. Não quero defender ou acusar Blanca. Se ela é culpada, tem que pagar. Assim como Giselle. Não é porque
é sua amante que vamos fechar os olhos ao que ela faz.
- Mas o que ela faz, além de me servir? Giselle me é fiel. Você é que anda cismado com ela.
Miguez preferiu não dizer nada. Nem ele saberia explicar por que não simpatizava com Giselle. Não se sentia atraído por ela, nunca se sentira. Desde que ela aparecera
nas Mesas Inquisitoriais pela primeira vez, não gostara dela. Não era ciúme ou despeito. Giselle poderia aparecer nua para ele, que ele não se interessaria. Ela
era ordinária, vulgar, sem classe. Muito diferente das moças a que estava acostumado.
Miguez procurou mudar o rumo da conversa, e Esteban deu graças a Deus por não precisar mais falar de Giselle. Apenas Juan não parava de pensar no que ouvira. Será
que padre Miguez tinha razão, e Giselle andava metida com heresias? Se assim fosse, seria muito perigoso. Monsenhor Navarro gostava dela e parecia querer protegê-la.
Mas o que faria se ela fosse presa e acusada?
No dia seguinte, logo após servir o desjejum de Esteban, Juan selou um cavalo è foi sozinho ter com Giselle. Precisava alertá-la. Bateu à sua porta e esperou. Belita,
uma das escravas, veio abrir e se surpreendeu imensamente com a presença de Juan. Era a primeira vez que o via desacompanhado de monsenhor Navarro.
- O que deseja? - indagou desconfiada.
- Sua senhora está? Tenho urgência em falar-lhe.
Belita chegou para o lado, dando-lhe passagem. Mandou que ele se sentasse e foi ao quarto de Giselle, que ainda não havia despertado. Bateu à porta gentilmente,
e ela abriu os olhos, piscando-os diversas vezes para espantar o sono e entender o que estava acontecendo.
- Senhora Giselle! Senhora Giselle! - chamava Belita do lado de fora.
- Hum... - espreguiçou-se Giselle. - Pode entrar.
Belita abriu a porta vagarosamente e entrou. Giselle, nua sob os lençóis, a fitava sonolenta, com Ramon a seu lado, dormindo a sono solto.
- Senhora Giselle - falou Belita em tom de desculpa -, Juan está aí e pede para falar-lhe. Disse que é urgente.
Mais que depressa, Giselle se levantou. Se Esteban mandara Juan até ali, era porque o assunto deveria ser muito grave. Vestiu-se às pressas, lavou-se correndo na
bacia e, enquanto penteava os cabelos, disse para Belita:
- Não deixe que o senhor Ramon desça. Juan não pode vê-lo aqui.
A escrava assentiu, sentou-se em uma poltrona, em frente a ele, e Giselle saiu. Juan estava sentado na sala, olhos fechados, parecendo adormecido. Ela chegou vagarosamente
e o tocou de leve nos ombros.
- Juan...
Ele abriu os olhos lentamente, fixando-os nos dela por alguns instantes. Sentiu o coração disparar e teve um estremecimento, ainda sentindo as mãos de Giselle sobre
os seus ombros.
- Senhorita Giselle - falou meio sem jeito -, perdoe-me a intromissão há essas horas. Sei que a senhorita trabalha até tarde, mas precisava falar-lhe.
- Algum recado de Esteban?
Ele pareceu engasgar e respondeu hesitante:
- Não... Monsenhor Navarro nem sabe que estou aqui. Giselle ergueu as sobrancelhas e sentou-se a seu lado.
- Não? Por que foi então que você veio?
Pouco à vontade, Juan remexeu-se na poltrona, pigarreou e, olhos pregados no chão, começou a dizer:
- Não quero que pense que sou atrevido, mas é que ontem ouvi uma conversa...
Calou-se, temendo a sua reação. Tinha medo de que ela se zangasse e o expulsasse dali sem nem lhe dar chance de contar o que havia acontecido.
- Que conversa? - tornou Giselle, já demonstrando impaciência.
- Uma conversa entre monsenhor Navarro e padre Miguez.
- Padre Miguez não gosta de mim. Não é segredo nenhum.
- Por isso mesmo. Padre Miguez pode causar-lhe algum tipo de... Embaraço.
- Como assim? Seja mais claro, Juan, não estou entendendo aonde quer chegar.
Embora envergonhado, Juan narrou-lhe toda a conversa que ouvira entre os dois padres, culminando com as desconfianças de padre Miguez. Giselle ouviu tudo atentamente.
Se ele descobrisse as suas magias, não hesitaria em denunciá-la.
- Padre Miguez é perigoso - completou Juan. - Pode prejudicá-la seriamente, e tenho medo de que monsenhor Navarro não faça nada para impedir.
- Por que está me contando isso? - o rosto de Juan se avermelhou, e ele sentiu as faces em fogo. - Por acaso você não é fiel a Esteban?
- Sim, senhorita - respondeu ele com voz sumida. - Mas é que lhe sou fiel também.
Giselle riu intimamente. O tolo do rapaz estava apaixonado por ela. Não podia descartar-se dele. Viviam em um mundo perigoso, os tempos eram difíceis e ninguém era
digno de confiança. Ainda mais com aquele Miguez sempre a acusá-la. Por isso, precisava de Juan. O rapaz seria seu informante e a manteria a par de tudo o que acontecesse
na abadia e no Tribunal.
-Juan - sussurrou ela com voz doce e melosa -, você foi muito corajoso, vindo aqui para contar-me isso. Nem sei como poderei retribuir esse favor.
Apanhou a sua mão e colocou-a sobre o seio, e o rapaz, rosto ardendo de desejo e vergonha, puxou-a apressadamente, com medo até dos pensamentos que o assaltavam
naquele momento.
- Senhorita, eu... - balbuciou.
Giselle colocou os dedos sobre seus lábios, chegou mais para perto dele e ciciou em seu ouvido:
- Você pode me chamar de Giselle. De hoje em diante, seremos amigos.
Deu-lhe um beijo na ponta da orelha, e ele se arrepiou todo, levantando-se apressado e aproximando-se da parede.
- Giselle... Eu... Não sei o que dizer... Estou confuso... Perdoe-me...
Ela se levantou e acercou-se dele, segurando novamente sua mão e levando-a aos lábios. Juan sentiu que o corpo todo tremia e foi acometido de um desejo louco de
arrebatá-la em seus braços e beijá-la, mas conseguiu se conter.
- Não precisa ficar confuso - tornou ela com voz sensual. - Não vou lhe fazer nenhum mal.
- Não... Sei que não... Como poderia? Uma moça tão linda...
- Gosta de mim, não é, Juan? - ele assentiu. - Também gosto de você.
- Você gosta?
- É claro. Você é um rapaz bonito, inteligente, corajoso. E demonstrou ser meu amigo. Por isso, quero ser sua amiga também.
- Jura?
- Será que preciso jurar? Você não vê? - ele assentiu novamente. - Ótimo. E como amigos, você tem que me prometer que vai me manter informada de tudo o que acontecer
naquela abadia. Absolutamente tudo o que me disser respeito. Você promete?
- É claro. Não gosto que padre Miguez fale aquelas coisas de você. Não são verdades, são?
Ela sorriu sedutoramente, tornou a beijar suas mãos e retorquiu:
- E se fossem? Também me acusaria por isso?
Juan abriu a boca, estupefato, e asseverou:
- Nunca! Sei que você não está envolvida com nada de bruxaria, mas, se estivesse, eu não a acusaria.
- Ficaria do meu lado?
- Sempre.
Com um sorriso vitorioso, Giselle pousou de leve os seus lábios sobre os de Juan, e o rapaz recebeu o beijo entre atônito e extasiado, sem conseguir articular nenhum
som ou esboçar qualquer reação. Depois disso, despediu-se. Não podia se demorar muito, ou Esteban acabaria desconfiando de algo. Giselle abriu-lhe a porta e apertou
a sua mão.
- Adeus, Juan, e obrigada. Venha quando quiser.
Juan sorriu meio sem jeito, virou-lhe as costas e foi apanhar seu cavalo, certo de que havia percebido em seu olhar uma sombra de reconhecimento e paixão.
- O que foi que houve? - quis saber Ramon, assim que ela voltou para o quarto.
Desde aquele dia em que ele a seguira até a taverna, havia se tornados amantes, e o que deveria ter sido apenas uma aventura passageira logo passaram à paixão, daí
à afinidade e, pouco depois, ao amor verdadeiro. Aos pouquinhos, o sentimento de Ramon para com Giselle foi se intensificando, e Lucena passou a ser uma sombra em
seu coração. Agora reconhecia que nunca a havia amado. Impressionara-se com a sua beleza, a sua juventude, a sua elegância. Deixara-se levar pelo desejo, mas não
a amava.
Ramon e Giselle tinham muitas afinidades. Companheiros de outras vidas, suas almas logo se reconheceram e se aproximaram. Agora encarnados em sexos diferentes, podiam
dar vazão a um sentimento antigo, que tanto os atormentara em existências passadas. Ramon e Giselle há muito se conheciam e se amavam, mas jamais haviam conseguido
manter uma relação considerada normal para os padrões da época. Ou eram ambos homens, ou ambos mulheres, e um encontro sexual entre os dois jamais foi permitido.
Por essa razão, muitas vezes amaram-se platônica ou secretamente, remoendo no íntimo a autocensura e o remorso.
Em vista disso, agora, reconhecendo-se livres das amarras do medo e do preconceito, aproximaram-se naturalmente, ansiosos por poderem viver tudo aquilo que lhes
fora anteriormente vedado. Consideravam-se isentos de quaisquer compromissos, pois suas mentes estreitas, naquele momento, somente conseguiam enxergar a anterior
barreira do sexo, esquecendo-se da série de equívocos e desenganos com os quais se haviam comprometido em suas sucessivas encarnações.
Giselle despediu a escrava e sentou-se ao lado dele na cama. Precisava contar-lhe tudo sobre sua vida, inclusive sobre Esteban e até sobre dom Fernão. Inspirou profundamente
e começou a dizer:
- Sabe Ramon, não sou exatamente como você pensa que sou.
- Como assim? Você não me ama?
- Amo. E talvez seja essa a única coisa verdadeira em mim.
- Não estou entendendo Giselle. Aonde quer chegar?
Ela tornou a suspirar e continuou:
- Você sabe que sou uma mulher livre, não sabe? - ele fez que sim. - Pois é. Há muitos anos, quando cheguei a Sevilha, conheci monsenhor Navarro, cardeal do Santo
Ofício...
- Sei quem é monsenhor Navarro.
- Pois é. Monsenhor Navarro e eu somos... Bem... Amantes...
Ele a fitou deveras espantado. Julgava-a amante de dom Fernão, e não de monsenhor Navarro.
- Amantes? - tornou perplexo. - Mas eu pensei...
- O que você pensou?
- Pensei que você fosse... Que você fosse... Amante de dom Fernão.
Giselle recuou, cheia de horror e indignação.
- Como é que sabe de dom Fernão?
Lembrando-se da noite em que o seguira, Ramon contou tudo a Giselle, sem omitir nenhum detalhe. Ela o escutou em silêncio, espantada demais para falar.
- Por que não me disse antes? - indagou amuada.
- Tive medo de que você me repelisse. Afinal, sou noivo da filha de dom Fernão.
- Noivo...
Era a primeira vez que Giselle sentia ciúmes de alguém. Não que não sentisse ciúmes de Esteban. Mas ele era um cardeal e nunca tivera outras amantes além dela.
O que Ramon lhe dizia era diferente. Outra mulher o tocara, outra mulher o beijara. Sentiu a fragilidade que a acometia. Se Ramon a deixasse, seria bem capaz de
se matar. Já o amava com todas as suas forças e sabia que não poderia viver sem ele.
- Ramon - choramingou -, você não pode se casar. Amo você. Não posso mais viver sem você.
- Eu sei Giselle. Também não penso mais em me casar.
- Verdade?
- Sim. Pensei um dia que amasse Lucena. Mas hoje sei que jamais poderei ser feliz ao lado de outra mulher.
- Mesmo que sua noiva seja uma moça jovem, fresca e pura?
- Amor nada vem a ver com juventude, frescor e pureza. Amamos aqueles por quem bate o nosso coração. E hoje posso lhe assegurar que o meu bate apenas por você.
Ela o fitou emocionada, cada vez mais envolvida pelo seu romantismo e pelas palavras doces que dizia. Com os olhos úmidos, indagou apaixonada:
- Está dizendo a verdade? Não diz isso só para me agradar?
- Por que faria isso? Será que não percebe o quanto já a amo? Também eu não poderia viver sem você.
- Tem certeza?
- Tenho. Você vai ver. Hoje mesmo, vou terminar tudo com Lucena e vou me casar com você.
- Não posso me casar.
- Por quê? Já é casada? - recordando de dom Fernão, mudou o tom de voz e observou com ironia: - Ou será que não quer perder a boa vida que seus amantes lhe dão?
Sim, porque, pelo visto, você é amante de muita gente...
Giselle a fitou magoada e retrucou com voz sentida:
- Você está sendo injusto. Por que não me deixa falar sobre a minha vida?
Giselle contou tudo. Falou de seu pai, de sua mãe, de seu padrasto. Contou-lhe de quando chegara a Sevilha e de como granjeara a confiança e a proteção de monsenhor
Navarro.
Contou-lhe dos serviços que lhe prestava e de como dom Fernão passara a ser alvo das desconfianças de Esteban. Contou-lhe que só se tornara sua amante para poder
denunciá-lo. Contou-lhe até de suas bruxarias. Ao final, havia lágrimas em seus olhos e, com voz cansada, argumentou:
- Percebe por que não posso me casar? Estou presa a Esteban e creio que ele jamais permitiria.
Ramon balançou a cabeça, pensativo. Não podia esconder a decepção. Esperava que se casassem e fossem felizes juntos. Nem ligava mais para o dinheiro e sua posição
social. Estava disposto a abrir mão de tudo só para poder ficar com ela. Passaria por cima de qualquer coisa, até da repulsa que lhe causava aquele ofício.
- Sei que não tenho o direito de lhe pedir isso - prosseguiu Giselle. - Mas gostaria que entendesse e aceitasse.
- Eu entendo. Quanto a aceitar, não tenho alternativa.
Ela o beijou apaixonadamente e, após alguns minutos, tornou a perguntar:
- Você não sabe nada sobre a noiva de dom Fernão? Afinal, é noivo de sua filha.
- Não. Ele nos apresentou a moça outro dia, mas nada disse sobre sua vida. E depois, se você não se importa, preferia não me envolver nesse assunto. Causa-me calafrios.
Ela silenciou. Em seguida, levantou-se da cama e fez sinal para que ele a seguisse:
- Venha comigo.
De mãos dadas, desceram as escadas e foram até o porão. Giselle empurrou a porta e Ramon passou, impressionado com a quantidade de coisas que havia ali.
- É aqui que faz suas magias? - indagou curioso.
- Sim - ela seguiu direto até outra porta, na parede oposta, e a abriu, desvendando uma escada estreita e escura, ao final da qual havia outra pesada porta. - Por
aqui.
Saíram para a floresta. Ainda de mãos dadas, foram seguindo por uma trilha, até que alcançaram a rua, um pouco mais abaixo.
- Onde estamos? - tornou ele, olhando ao redor.
- Na rua onde moro. Como pôde perceber, não há muitas casas por aqui. A vizinhança é escassa e ninguém vem muito por essas bandas. Basta você entrar na floresta
e pegar a trilha que lhe mostrei, e ela o conduzirá direto a minha casa. Entendeu?
- Entendi.
- Então vamos voltar.
Fizeram o caminho de volta e tornaram a entrar pela pesada porta. Desceram a escada e alcançaram o porão.
- A partir de agora, você deve sempre entrar e sair por essa porta. Não quero correr o risco de você se encontrar com Esteban ou dom Fernão.
Naquele mesmo dia, Ramon rompeu seu noivado com Lucena. Chegou a sua casa logo depois do almoço, quando sabia que dom Fernão não estaria, levou-a para o jardim e
terminou tudo, sem dar maiores explicações. Lucena ficou indignada a princípio. Mas, depois, sentiu-se dominada por uma raiva imensurável.
- Você tem outra mulher? - perguntou furiosa. - É isso, Ramon? Existe outra mulher em sua vida?
- Lucena, por favor, não se trata disso.
- Trata-se de quê, então? Você me usou, abusou de mim e agora me joga no lixo? E isso o que sou para você? Lixo?
- Não dificulte as coisas. Nosso casamento jamais daria certo.
- Por quê? Porque você já conseguiu o que queria? Já se deitou comigo, e agora não sirvo mais? E isso?
- Sinto muito se a deflorei...
- Sente muito? Você me desonrou. Como espera que eu me case daqui para frente? Que homem acha que irá me querer?
- Sei que isso é difícil, mas eu também não planejei nada. Simplesmente aconteceu.
- Aconteceu o quê? Você me desonrou e depois perdeu o interesse por mim? Por quê? Quem foi à meretriz que o atraiu?
- Não há meretriz alguma. Não há outra mulher.
- Não acredito! Seu verme! Bastardo! Cretino!
Estava descontrolada. Partiu para cima dele com fúria e pôs-se a arranhá-lo. Ramon defendeu-se o melhor que pôde. Podia ser um canalha, mas não era covarde e não
pretendia bater em uma mulher. Segurou - à pelos punhos com força e, olhando fundo em seus olhos, disparou:
- Perdoe-me pelo que lhe fiz Lucena. Pensei que a amasse, mas estava enganado. Não posso me casar, você não é a mulher da minha vida.
Soltou os seus pulsos e rodou nos calcanhares. Lucena sentiu vontade de matá-lo. Tivesse uma arma ao seu alcance, teria atirado nele. Não conseguia chorar. A raiva
era tanta que lhe toldava a visão. Em silêncio, ficou vendo-o afastar-se, remoendo seu ódio, pensando num jeito de fazer com que ele lhe pagasse a vergonha e a humilhação
que a fizera passar.
Quando Fernão chegou a casa naquela noite, encontrou Lucena envolta numa aura negra de raiva e despeito.
- O que houve minha filha? - perguntou alarmado.
- Ramon rompeu o noivado.
- Como assim? Já não havíamos marcado a data do casamento?
- Parece que isso o intimidou. Ele veio aqui e terminou tudo.
- Mas por quê?
- É o que gostaria de saber. Desconfio de outra mulher.
- Outra mulher?
- Sim. Alguém deve estar lhe dando certas facilidades que comigo não obtém.
- Isso não é motivo para romper com você. Meretrizes há muitas por aí, mas ninguém desfaz um noivado por causa disso. Deve ter havido alguma coisa.
- Não houve nada, já disse.
- Mas nenhum cavalheiro pode voltar assim com a palavra empenhada. Ramon se comprometeu.
- Ramon é um canalha. Só eu que não consegui ver isso.
- Ah! Mas isso não vai ficar assim. Vou apurar essa história direitinha. Seja o que for que tenha acontecido, Ramon vai me pagar. Ninguém descarta a filha de Fernão
Lopes de Queiroz e sai impune para contar vitória. Vou descobrir o que aconteceu, minha filha, não se preocupe. E Ramon vai ter que pagar por toda a humilhação que
a está fazendo passar.
Lucena estava com tanta raiva que nem conseguia chorar. Tinha como certo que a causa daquele rompimento fora outra mulher. Mas aquilo não ficaria assim. Seu pai
era um homem extremamente influente e daria um jeito de se vingar. Só que Lucena nem de longe imaginava que o pai estava sendo investigado justamente pela mulher
que lhe arrebatara o homem amado...



CAPÍTULO 9



Ao final da missa de domingo, Juan estava calado e pensativo, o que chamou a atenção de Esteban. Fazia já alguns dias que o rapaz andava estranho, cabisbaixo, sempre
com olhar perdido. Até mesmo os outros padres já haviam notado, e muitos chegaram a indagar a razão daquele ar taciturno.
- Não é nada - respondeu Juan, tentando mudar de postura. - Ando um pouco cansado.
- Não está doente, está? - tornou Esteban com visível preocupação, o que encheu Juan de remorso.
- Não, senhor. É apenas cansaço mesmo.
- Olhe lá, hein, rapaz? Não me vá ficar doente. Se estiver sentindo alguma coisa, fale.
- Não se preocupe monsenhor, não é nada. Passa logo.
A afeição de Esteban por Juan era legítima. Afinal, recolhera o rapaz ainda em tenra idade e, desde então, passara a ser a única família que possuía. Juan também
gostava dele. Navarro sempre o tratara bem e cuidara para que nada lhe faltasse. Tinha-o em conta de verdadeiro filho.
No começo, Juan não simpatizara muito com Giselle. Ela era uma moça arrogante e não gostava de crianças. Não que o tratasse mal. Mas nunca lhe fizera um afago ou
lhe dirigira uma palavra de carinho. À medida que ele foi crescendo, Giselle começou a dispensar-lhe um pouco mais de atenção, o que foi despertando no menino uma
paixão muda e cada vez mais intensa. Ela era linda, e ele não podia deixar de pensar nela. Ainda mais agora, que ela lhe acenava com a possibilidade de um romance.
Na cabeça de Juan, Giselle estava interessada nele, e ele nem de longe imaginava que o único interesse que ela possuía era nas informações que ele poderia lhe dar.
Àquela hora da manhã, Giselle, provavelmente, ainda estaria dormindo. Pensou em fazer-lhe uma surpresa.
- Aonde vai? - indagou Esteban, desconfiado.
- Se não se importa, gostaria de dar uma volta.
O cardeal fitou-o com curiosidade, mas não o questionou. Limitou-se a assentir com a cabeça e concluiu:
- Não, meu filho. Vá.
Juan se despediu com um aceno e saiu. Quando chegou à casa de Giselle, ela ainda estava dormindo, mas ele não quis ir embora sem falar com ela.
- Vou esperar - disse a Belita.
A escrava fitou o noviço com certa contrariedade. Sabia que sua ama estava no quarto com o senhor Ramon e não ficaria nada satisfeita em vê-lo ali outra vez. Pediu
licença e foi direto ao quarto de Giselle. Bateu de leve algumas vezes, mas ninguém respondeu. Vagarosamente, abriu a porta e entrou. Giselle e Ramon dormiam abraçados,
e Belita tocou-a de leve no ombro.
Aos poucos retornando do sono, Giselle esfregou os olhos e piscou várias vezes, encarando Belita como se ela fosse uma assombração. Quando finalmente a reconheceu,
ergueu-se na cama e indagou num sussurro:
- Belita! O que há?
- Perdoe-me, senhora, mas está aí novamente aquele moço, o senhor Juan.
- O que ele quer?
- Pede para falar-lhe. Eu disse que a senhora estava dormindo, mas ele não quis ir embora.
- É algum recado de monsenhor Navarro?
- Não sei senhora. Ele não quis dizer.
- Diga-lhe que já vou.
Depois que Belita saiu, Giselle virou-se para Ramon. Ele dormia despreocupadamente, e ela sentiu o coração disparar. Como ele era bonito! Pela primeira vez olhava
para um homem que achava bonito sem pensar em sexo. Pensava em amor. Giselle amava Ramon verdadeiramente. Por mais que dormisse com outros homens, nenhum seria igual
a Ramon. Nem Esteban, que fora sua primeira paixão e seu primeiro amor.
Como que sentindo o coração de Giselle, Ramon despertou. Espreguiçou-se gostosamente e sorriu para ela.
- Essa é a melhor visão que um homem pode ter na primeira hora do dia - disse galante.
Giselle puxou o seu rosto e beijou-o de leve nos lábios.
- Preciso descer - retrucou. - Juan está aí novamente.
- Quem é Juan?
- O pupilo de Esteban.
- O que ele quer?
- É o que vou descobrir - levantou-se, lavou o rosto na bacia e vestiu-se. - Por favor, Ramon, não saia daqui.
Atirou-lhe um beijo da porta e desceu as escadas, indo encontrar Juan sentado na sala, dedilhando uma pequena citara que encontrara a um canto. Giselle aproximou-se
em silêncio e postou-se defronte a ele. Na mesma hora, Juan largou o instrumento, levantou-se e pigarreou, desculpando-se meio sem jeito:
- Senhorita Giselle... Perdoe-me. É que vi a citara ali no canto e...
- Não precisa se desculpar, Juan. Gosta de tocar? - ele assentiu. - Quem o ensinou?
- Padre Donário me dá aulas ao órgão. O resto é fácil.
- Sei...
- E você, Giselle? Também toca?
- Não. A citara era de um antigo trovador, que Esteban já executou faz tempo. Ele a esqueceu em minha taverna. Gostaria de ficar com ela?
- Sério? - ela balançou a cabeça, e ele exclamou radiante: - Muito obrigado. Adorei o presente.
Juan não estava propriamente interessado na citara. Havia algumas na abadia que ele poderia usar se quisesse. Embora preferisse o órgão, aquele era um presente de
Giselle, e ele tencionava guardá-lo pelo resto de sua vida.
- Muito bem - continuou Giselle, sentando-se a seu lado.
- O que o traz aqui no domingo, logo pela manhã? Algum recado de Esteban?
Juan enrubesceu. Não sabia o que dizer. Fora até ali atendendo a um impulso de seu coração, mas agora se sentia um verdadeiro idiota. Rosto ardendo em fogo, ele
abaixou os olhos e balbuciou:
- Eu... Vim aqui por que... Porque precisava lhe dizer uma coisa - fez uma pausa, inspirou profundamente e prosseguiu: - E que há muito... Há muito tempo
não consigo... Parar de pensar em você... Você... Você é... Quero dizer, eu...
Não conseguiu concluir. Percebendo o que ele queria dizer, Giselle ficou alguns instantes pensativa. Não tinha interesse no rapaz, mas não podia repeli-lo. Precisava
dele para mantê-la informada. Fazendo ar de compreensiva, ela se aproximou e segurou a sua mão, acrescentando num sussurro:
- O que foi Juan? O que está tentando me dizer?
Cada vez mais vermelho, Juan sentiu vontade de fugir correndo dali. Estava confuso, embaraçado com os gestos despojados de Giselle. A presença dela lhe causava arrepios,
e ele só conseguia pensar no seu corpo de encontro ao dele. Horrorizado ante aqueles pensamentos pecaminosos, tentou se levantar, mas Giselle segurou-o pela mão
e fê-lo sentar-se novamente, encarando-o com seus olhos verdes penetrantes. Juan não se conteve. Num ímpeto desesperado, atirou-se nos braços de Giselle e buscou
a sua boca, beijando-a com sofreguidão.
- Giselle, eu... - sussurrava baixinho, ao mesmo tempo em que lhe beijava a boca e o pescoço - sinto que a amo...
Soltou-a apavorado e saiu correndo. Era tanto o seu desejo que tinha medo até de pensar. Se monsenhor Navarro descobrisse, acabaria com ele. Mas o que poderia fazer?
Passara anos vendo Giselle nos braços de monsenhor. Vira-os até mesmo na cama, se amando, embora fingisse nada ver. E ela sempre linda, exuberante, sensual. Era
praticamente impossível para alguém não se apaixonar por Giselle.
Quando chegou de volta à abadia, Esteban se encontrava no jardim, cuidando de algumas flores que plantara. Viu quando Juan passou apressado e chamou-o diversas
vezes, mas o rapaz não respondeu. Preocupado, largou o que estava fazendo, limpou as mãos e foi atrás dele.
Juan entrou no quarto feito um furacão e se atirou sobre a cama, queimando de febre e de desejo. Quando Esteban chegou, estava deitado de costas, olhos fechados,
rosto afogueado e vermelho. Experimentou-lhe a testa. Estava ardendo em febre.
- Juan! - chamou alarmado. - O que você tem?
Como o rapaz não respondesse, saiu a chamar o médico da abadia. Padre Valentim entrou, seguido por padre Miguez, e foi examiná-lo.
- O que foi que aconteceu? - perguntou Miguez espantado.
- Não sei meu amigo. Ele me pediu para sair e voltou nesse estado. Ignoro o que tenha acontecido.
Silenciaram. Padre Valentim o examinava superficialmente. Abriu os seus olhos para ver-lhe as pupilas, colou o ouvido em seu peito, apalpou sua garganta. Não encontrou
nada de anormal.
Mas Juan, ao sentir as mãos de padre Valentim sobre ele, julgando tratar-se das mãos de Giselle, girava a cabeça de um lado para o outro, enquanto murmurava delirante:
- Giselle... Giselle... Amo...
Ao ouvir o nome da amante, Esteban e Miguez arregalaram os olhos, ao mesmo tempo em que Valentim, virando-se para eles, falou abruptamente:
- O rapaz está enfeitiçado. Isso é obra dos súcubos. Esteban levou a mão à boca, aterrado.
- Tem certeza?
- Tenho. Veja como ele está. Balbuciando o nome daquela mulher blasfema!
Percebendo o mal-estar de Esteban, Miguez tratou de intervir. Podia não gostar de Giselle, mas sua afeição por Navarro era genuína, e pretendia ele mesmo, resolver
aquele assunto sem precisar recorrer ao Santo Ofício.
- Obrigado, padre Valentim, sua ajuda foi muito útil. Pode deixar que cuidaremos dele agora.
Padre Valentim deu de ombros, recolheu o seu material de médico e se foi. Juan, alheio ao que acontecia, continuava delirando, falando coisas sem nexo, suspirando
e gemendo, por vezes chamando o nome de Giselle.
- Acha que ela o seduziu? - perguntou Miguez.
Esteban trincava os dentes. Recusava-se a crer que Giselle fosse capaz de tamanha baixeza.
- Miguez - ciciou em tom de súplica -, peço-lhe, por favor, que não leve esse caso ao conhecimento de ninguém. Deixe que resolva isso à minha maneira.
- Você sabe que sou seu amigo e que tudo farei para protegê-lo.
- Eu sei.
- Por que Giselle tinha que se envolver com Juan? Será que já não tem homens suficientes?
- Não fale assim de Giselle - revidou Esteban, entre zangado e magoado.
- Está certo, perdoe-me. Mas é que me preocupo. Você sabe o quanto é invejado pelos outros padres. Muitos gostariam de estar no seu lugar. Você é um dos melhores
inquisidores que o Santo Ofício já teve, e isso causa despeito em muita gente.
- Você tem razão, mas não sei o que fazer. Não posso simplesmente entregar Giselle às Mesas Inquisitoriais.
- Não estou dizendo para fazer isso. Mas você precisa tomar alguma providência. Não pode mais continuar a vê-la.
- Já não a vejo mais com tanta freqüência.
- Ela ainda está trabalhando para você, não está?
- Sim. Está investigando dom Fernão.
- Deixe dom Fernão para lá. Suas suspeitas não são do conhecimento de ninguém.
- Mas ele é muito rico... Pense no bem que a sua fortuna faria à Igreja.
Um gemido mais alto de Juan chamou sua atenção, e Esteban aproximou-se dele. Experimentou-lhe a testa novamente e percebeu que a febre ainda não havia cedido.
- Pobre rapaz - lamentou-se. - Eu deveria ter percebido o que estava se passando. Devia ter imaginado que isso acabaria acontecendo algum dia.
- Aquela mulher é um demônio! - esbravejou Miguez, com tanto ódio que Esteban se assustou.
- Não entendo você, Miguez. Por que a odeia tanto? O padre deu de ombros e balançou a cabeça, declarando desanimado:
- Não sei dizer. Ela não me agrada. A presença dela me faz mal.
- Não pode negar a sua beleza.
- Não consigo vê-la bela. Para mim, ela é e sempre foi uma bruxa. Aposto como tem pacto com as trevas.
Esteban não disse nada. Não pretendia agora expor as habilidades de Giselle com o mundo das sombras. Já bastavam os problemas que tinha no mundo visível.
- Será que dormiram juntos? - retrucou, apontando para Juan.
- É bem possível. Pelo estado em que ele se encontra algo de muito grave deve ter acontecido.
Ante o silêncio do outro, Miguez prosseguiu:
- Sei que não é agradável, mas será que não está na hora de você considerar a hipótese de padre Valentim? Talvez ele tenha razão.
- Não vá me dizer que você também acha que Giselle está possuída por algum demônio.
- Os súcubos podem se manifestar de diversas formas. Será que não a utilizam para seus propósitos? Giselle tem muitos amantes. Não estaria servindo de instrumento...?
- O diabo não precisa de instrumentos. Íncubos e súcubos agem a seu bel-prazer. Não têm necessidade de se utilizar de ninguém.
- Mas podem fazê-lo, não podem?
- Sim... Creio que sim.
- Pois então?
- Não é o caso de Giselle. Você sabe tão bem quanto eu que Giselle só se deita com quem eu ordeno.
- Deita-se até com mulheres, se for necessário. Nem o diabo faz isso, Esteban! Você não vê? Todos os demônios abominam o ato sexual antinatural. Não percebe o quanto
é grave o pecado de Giselle? Até os demônios consideram uma vergonha pecar contra a natureza!
- Pare! Não posso acusar Giselle! Será que você é que não consegue perceber?
- Você a ama...!
- Não da forma como você pensa. Sinto-me grato e responsável por ela. Não posso agora me voltar contra quem me serviu fielmente durante tantos anos.
- Não quero que pense que estou contra você. Não estou. Estou do seu lado, sou seu amigo. E é por isso que insisto com Giselle. Ela ainda vai acabar prejudicando
você.
- Em nome da nossa amizade é que lhe peço: não faça nada contra Giselle. Deixe-me resolver isso à minha maneira.
- Que maneira?
- Vou encontrar um jeito.
Com um gesto de mãos, deu por encerrado o assunto e foi postar-se à cabeceira de Juan. O rapaz agora parecia mais calmo, a febre começara a ceder. Ajeitou-lhe as
cobertas e foi para a igreja. Precisava rezar, pedindo a Deus forças e inspiração para ajudar Giselle. Para ajudar a si mesmo.



CAPÍTULO 10



Andando de um lado a outro no imenso salão de sua casa, Lucena esbravejava. Desde que Ramon a abandonara, seu humor havia se alterado consideravelmente.
- Como ainda não descobriu nada? Que espécie de pai é você?
- A única coisa que consegui apurar é que Ramon está quase falido.
- Mais um motivo para querer se casar. Você é um homem rico. Poderia ajudá-lo.
- Talvez ele estivesse envergonhado.
- Envergonhado? Ramon? Não acredito. Quero saber o que houve papai. Exijo que você descubra o nome da sem-vergonha que o tomou de mim!
- O que você quer que eu faça?
- Mande alguém segui-lo! Não deve ser assim tão difícil.
Dom Fernão suspirou desanimado. Desde que descobrira que Ramon perdera todos os seus bens em dívidas, deixara de ter interesse nele. Lucena que o perdoasse, mas
ele não poderia permitir que sua filha se casasse com um pobretão. Sua família podia ser tradicional e nobre, mas Ramon estava falido. Aos poucos ia vendendo suas
propriedades. Perdia tudo no jogo de dados, gastava fortunas em jóias e roupas, e descuidava das terras. Em breve não teria mais nem onde morar.
- Minha filha, pense bem. Ramon está falido. Esqueça-o. Posso arranjar-lhe coisa melhor.
- Quem foi que disse que ainda quero Ramon?
- Não quer? - tornou, com genuíno assombro.
- Não. Não quero mais um homem que se suja com meretrizes. Quero vingança. Ramon me usou, tentou abusar de minha pureza. E tudo isso para quê? Para acabar me trocando
por uma vagabunda, ordinária!
- Acalme-se, Lucena. Você não sabe se ele tem outra mulher.
- Tem! Tenho certeza de que tem. E você vai descobrir. Vai descobrir e me contar. Eu exijo! Você prometeu!
Dando-se por vencido, dom Fernão saiu, deixando Lucena entregue a seu ódio. Ela não podia se controlar. Ramon a seduzira num dia para, poucos dias depois, terminar
tudo com ela. Era um canalha. Dizia-se apaixonado, jurara-lhe eterno amor, prometera torná-la a mulher mais feliz do mundo. Tudo mentira. Só o que queria era enganá-la
para seduzi-la. Agora que já conseguira o que queria, ela não tinha mais serventia.
Por que se deixara convencer? Tornara-se, ela também, uma das vagabundas com quem ele se deitava. Ramon lhe dissera que não a amava mais e que, por isso, não podia
se casar com ela. Mas aquilo não ficaria assim. Vingar-se-ia dos dois. Descobriria quem era a mulher e daria um jeito de vingar-se. Seu pai tinha dinheiro, não lhe
seria difícil arranjar alguém que os matasse.
Enquanto isso, dom Fernão seguia em silêncio para a casa de Blanca, mas não a encontrou. Precisava se consolar nos braços de alguém e pensou em Giselle. Já não tinha
mais motivos para procurá-la, pois entregara a Esteban a doação que ela fizera. Ainda assim, sentiu que só ela poderia confortá-lo naquele momento. Depois de refletir
por alguns segundos, deu ordens para que o cocheiro o levasse até a taverna.
Giselle, como sempre, dançava sobre a mesa e sorriu quando ele entrou. Ao final da dança, foi ter com ele.
- Que prazer, dom Fernão! Estava com saudades!
Ele sorriu e sentou-a em seu colo, beijando o seu pescoço.
- Vamos sair daqui.
Ela se levantou e foi puxando-o pela mão. Saíram, tomaram a carruagem e, dentro em pouco, estavam nus sob os lençóis. Giselle já não agüentava mais aquele porco
resfolegando sobre ela, mas tinha uma tarefa a cumprir. Seria a última. Depois diria a Esteban que era hora de parar. Já estava ficando velha demais para aquilo.
Dom Fernão não tocou no assunto da filha. Giselle não tinha nada com aquilo, e ele não fora ali em busca de conselhos. Só o que queria era sexo. O sexo que Blanca
ainda não podia lhe dar.
Passando os dedos sobre seu peito, Giselle observou com fingido ressentimento:
- Pensei que não o veria mais...
- Na verdade, não veria mesmo. Afinal, já cumpri a missão que monsenhor Navarro me confiou e não tinha mais motivos para procurá-la.
- Ainda assim, você veio.
- Senti a sua falta.
Ela o acariciou novamente e indagou em tom casual:
- E o casamento? Já marcou a data?
- Ainda não. Mas vai ser para breve.
Giselle suspirou fingida e acrescentou com ar sonhador:
- Vou sentir saudades.
- Virei vê-la vez por outra - mentiu.
- Gostaria de conhecê-la.
- Minha noiva? - ela assentiu. - Isso é impossível.
- Por quê?
- Blanca é uma moça direita. Não vai aos lugares que você freqüenta.
Giselle ficou indignada. O cretino ainda a humilhava. Bem merecia a fogueira.
- Sei que Blanca não é como eu - revidou, tentando conter a raiva. - Deve ser uma moça bastante prendada, para conquistar o seu afeto assim dessa maneira.
Percebendo que a havia ofendido, Fernão deu-lhe um beijo na testa e ponderou:
- Não se ofenda Giselle, não é nada pessoal. Gosto de você, mas você é uma mulher da vida.
- Não precisa lembrar-me disso. Sei muito bem o que sou e conheço o meu lugar. Só falei que gostaria de conhecer Blanca por curiosidade, para ver a mulher que arrebatou
o seu coração.
Com um sorriso maroto, ele a abraçou e prosseguiu:
- Blanca é uma boa moça, mas não sai muito.
- Já sei. Só sai para ir à igreja. É beata mesmo, não é?
- Mais ou menos - respondeu cauteloso.
Ela fez uma pausa estudada e prosseguiu em tom de confidência:
- Sabe Fernão, resolvi me afastar da igreja. Não gosto dos olhares que as mulheres me lançam. Só porque não sou feito elas, pensam que são melhores cristãs do que
eu.
- Entendo o que quer dizer. É muito ruim ser diferente, não é? Ser incompreendido.
- Isso também acontece com você?
- Mais ou menos. É... Pode-se dizer que sim.
- Por quê? O que foi que aconteceu?
- Não aconteceu nada - respondeu cauteloso. - É que Blanca...
- O que tem Blanca?
- Nada... Nada que lhe interesse.
- Por que não se abre comigo? Talvez possa ajudá-lo.
- Não pode.
Não estava funcionando. Giselle precisava mudar de tática. Já estava ficando cansada de se deitar com aquele porco, que só a usava sem nada dizer. Começou a acariciá-lo
novamente e foi falando em seu ouvido:
- Posso fazer por você muito mais coisas do que imagina.
Continuou a acariciá-lo e a beijá-lo, deixando-o louco de desejo.
- Você é uma mulher e tanto, Giselle - murmurou ele, quase explodindo de prazer.
- No entanto, você não confia em mim - disse ela com voz sedutora, sem parar de acariciá-lo.
- Confio...
- Então, por que não me fala de Blanca?
- Por que insiste tanto em falar de Blanca?
- Porque quero conhecer melhor a mulher que vai tirá-lo de mim.
- Ela não vai me tirar de você...
Giselle intensificou seus movimentos, levando-o quase à loucura. Ele, já não agüentando mais, tentou acariciá-la também, mas ela se esquivou e continuou a falar:
- Não é o que parece. Você dorme comigo, mas não confia em mim o suficiente para me contar seus segredos. Será que tudo o que faço não demonstra o quanto gosto de
você?
Louco de vontade de acabar com aquela conversa e possuí-la, Fernão não se conteve. A mente toldada pelo desejo deixou escapar a confissão:
- Blanca é uma moça honesta e pura. Só que é metade moura.
É isso, Giselle. Está satisfeita? Blanca é filha de um mouro.
Esforçando-se para não dar a perceber seu ar de satisfação, Giselle continuou a conversa, tentando fazer com que ele lhe contasse tudo.
- Como assim, filha de um mouro? Seus pais não são daqui?
- Sua mãe era espanhola, mas seu pai era mouro. Durante a guerra pela retomada de Granada, que era onde ela vivia, os mouros foram executados ou expulsos. Seus pais
foram mortos, mas eu consegui trazê-la para cá.
- Quer dizer que você lhe salvou a vida? - arregalou os olhos, dando mostras de profunda admiração. - Trouxe-a para cá, arriscando-se a ser descoberto e preso? Fernão,
você é um herói!
Cheio de si, dom Fernão inflamou o peito e contou-lhe tudo, até o nome dos pais de Blanca. Giselle exultou. Conseguira, finalmente! Aquele porco nojento havia confessado
que sua querida Blanca era moura, dando-lhe os elementos com que faria a denúncia contra ambos. Bem feito. Já não suportava mais vê-lo babando atrás dela. Ele lhe
dava nojo, e só o que pensava agora era em sua liberdade. A liberdade que Esteban lhe daria.
Quando dom Fernão chegou a casa naquela noite, Lucena estava sentada na sala, à sua espera, e se levantou apressada, logo que o ouviu entrar.
- Lucena! - exclamou ele assustado, levando a mão ao coração. - Quase me mata de susto!
- Já é tarde, papai. Onde esteve?
- Vai tomar conta da minha vida agora, vai?
- Não se trata disso. Mas o senhor sumiu... Até Blanca estava preocupada.
- Blanca esteve aqui?
- Veio à sua procura.
- O que disse a ela?
- O que poderia dizer? Que não sabia onde estava.
Ele balançou a cabeça e foi caminhando em direção ao corredor. Já passava da meia-noite e, no dia seguinte, precisaria levantar-se cedo.
- Vou me deitar. Boa noite.
- Não vai me dizer onde esteve?
Fernão parou no meio do corredor e olhou para ela com ar enigmático, dizendo com voz de cansaço:
- Estive em reunião com umas pessoas. Negócios...
- Até a essa hora?
- Por que está me vigiando?
- Por causa de sua promessa. Quero saber se já descobriu alguma coisa sobre Ramon.
- Não acha que está sendo muito insistente? Não tive nem tempo de tomar as devidas providências.
- De quanto tempo ainda vai precisar? Até que eu morra, consumida pelo ódio?
Fitando-a com ar de espanto, Fernão se aproximou e perguntou perplexo:
- Ódio... É isso que não entendo. Por que todo esse ódio?
- Já não lhe disse?
- Ramon tentou alguma coisa com você?
- Como assim?
- Você sabe. Tentou alguma intimidade?
Coberta pelo rubor, Lucena escondeu o rosto entre as mãos e virou-se de costas para ele, sentindo o rosto arder diante da chama que bruxuleava na tocha presa na
parede.
- Não, pai... Odeio Ramon porque ele me enganou. Sei que tem outra mulher.
Havia tanto ódio na voz de Lucena que Fernão titubeou. Parecia-lhe mesmo que algo havia acontecido. A transformação da filha fora muito rápida, e Fernão sabia que
só um motivo muito poderoso poderia causar tanta mudança. Ele inspirou profundamente, deu-lhe uma tapinha no ombro e finalizou:
- Vá dormir minha filha. Deixe Ramon comigo.
Foi para seu quarto, bocejando, os olhos já pesados de tanto sono. Só muito depois Lucena o seguiu. O dia estava quase amanhecendo quando ela conseguiu pegar no
sono. Mal conseguira fechar os olhos quando pesadas batidas na porta a despertaram. Ouviu quando a criada foi abrir, e o ruído de botas batendo no chão irrompeu
na casa. Vozes se altearam, vindas da sala, e o pai acordou. Lucena escutou quando ele saiu do quarto e foi para a sala, e ainda pôde ouvir suas palavras de indignação:
- Mas o que é que está acontecendo aqui?
No mesmo instante, foi agarrado por dois homens, que o prendiam com força, enquanto um terceiro desenrolava um pergaminho e começava a ler:
- Por ordem de sua eminência, o cardeal Esteban Navarro, inquisidor do Tribunal do Santo Ofício de Sevilha, fica dom Fernão Lopes de Queiroz, neste dia de 28 de
maio de 1495, intimado a comparecer à sua presença no Tribunal, onde será recolhido à masmorra por tempo indeterminado, até que sejam apurados os fatos da mais alta
heresia contra ele denunciados...
- O que... - balbuciava dom Fernão -... O que está acontecendo? Heresia? Como se atrevem?
Parada na porta da sala, Lucena os fitava sem nada entender, tentando imaginar o que estaria sucedendo. Como é que monsenhor Navarro ousava acusar seu pai de heresia?
Pensou em intervir, mas o medo a paralisou. E se a ordem também a alcançasse? Indignada com o que se passava, ficou olhando sem nada dizer, respiração suspensa,
à espera que o homem desenrolasse outro pergaminho e lesse o seu nome também. Mas isso não aconteceu. A ordem se referia apenas a seu pai, e ele foi sendo levado
sob protestos. Em meio ao medo e ao desespero, Lucena ainda conseguiu perguntar:
- Do que acusam meu pai?
- Lamento senhorita, mas não posso dizer mais nada. Seu pai é acusado da prática de atos heréticos, e isso é só o que sei.
Empurrou-a para o lado e os homens passaram, arrastando dom Fernão, que esbravejava e reagia.
- Isso não vai ficar assim! - vociferava. - Monsenhor Navarro vai me pagar! Soltem-me! Não fiz nada! Soltem-me!
De nada adiantaram suas súplicas. Fernão foi arrastado e levado à força para a masmorra, sem nem saber do que estava sendo acusado. Somente dois dias depois, quando
já havia sido submetido a toda sorte de torturas, foi que Esteban apareceu.
- Monsenhor Navarro - suplicou humilde. - Por que estão fazendo isso comigo? O que foi que fiz?
- Dom Fernão - declarou o outro, solene -, está sendo acusado da mais alta heresia por se envolver com uma mulher que adota práticas contrárias aos costumes de fé
da Igreja. É de nosso conhecimento que sua noiva, Blanca Vadez, é filha de um mouro nojento, chamado Hamed Kamal. A limpeza de sangue é necessária, e não podemos
permitir que a descendência moura continue a espalhar seu sangue profano por nossa terra santificada...
Apavorado, dom Fernão começou a chorar e a gemer em desespero:
- Onde está Blanca? O que fizeram com ela? Blanca! - pôs-se a gritar. - Blanca! Onde está? Pode me ouvir?
Na mesma hora, sentiu uma dor aguda nos pés e soltou um grito de pavor. O carrasco acabara de queimar a sola de seus pés, causando-lhe imenso sofrimento.
- Não adianta gritar, dom Fernão. Blanca não pode ouvi-lo de onde está. Por que não confessa logo o seu crime, como Blanca já o fez, e acaba logo com o seu suplício?
- Blanca confessou?
- É claro. Arrependeu-se e quis salvar sua alma. Por que não faz o mesmo?
Embora seu sofrimento fosse imenso, dom Fernão não se deu por vencido. Se confessasse, aí sim é que estaria tudo acabado.
- Não tenho o que confessar. Não fiz nada.
- Não é o que parece. A denúncia contra o senhor foi bastante clara.
- Que denúncia? Quem fez essa denúncia?
- Isso não importa. Seus atos foram testemunhados por alguém que veio às Mesas Inquisitoriais e o denunciou. E o quanto basta.
Tentando imaginar quem teria sido capaz de uma coisa daquelas, dom Fernão pôs-se a pensar. Até que a imagem de Giselle surgiu espontânea em sua mente. Teria sido
ela? Seria possível? Na véspera, contara-lhe sobre Blanca, confessando que ela era filha de um muçulmano. Giselle teria sido capaz de traí-lo? Mas por quê? Não dizia
que o amava? Ou tudo não teria passado de um embuste?
Pensando melhor, fora monsenhor Navarro quem os aproximara, mandando-o a sua taverna para buscar a tal doação. E Giselle parecera mesmo muito receptiva, apaixonando-se
por ele logo de início. Como é que uma mulher linda feita Giselle, com todos os homens a seus pés, fora se apaixonar logo por ele? Só então compreendeu. Quando ela
se confessara apaixonada, seu orgulho e sua vaidade não deixaram que percebesse que aquilo não passava de fingimento. Giselle queria iludi-lo para conseguir fazer
com que ele lhe desse informações sobre Blanca. E conseguira. Ele, tolamente, contara-lhe tudo. Ela era uma mulher sensual e ardilosa, e não fora difícil arrancar-lhe
a confissão sob os lençóis de sua cama. Como fora estúpido!
- Foi Giselle, não foi? - tornou com raiva. - Aquela vagabunda, meretriz, ordinária! Como se atreve a dar ouvidos a uma vadia feito Giselle, em lugar de acreditar
na palavra de um nobre honrado feito eu?
- A palavra de um nobre de nada vale se fere as leis de Deus.
- Não devia fazer isso, monsenhor. Sou um homem rico, influente. Giselle... Não é nada. É uma vagabunda delatora.
- Qualquer vagabundo pode ser testemunha de heresia. E é dever de todo homem ou mulher temente a Deus denunciar os delitos de que tenha conhecimento, sob pena de
tornar-se cúmplice do crime.
- Giselle é uma meretriz. Isso não é crime também?
Esteban não respondeu. Com um aceno de cabeça, chamou o carrasco, para dar início a nova sessão de torturas. Dessa vez, participaria, ele mesmo, do processo inquisitorial.
Precisava arrancar a confissão daquele herege, para depois purificar sua alma. Era seu dever de ofício.
Em outra masmorra, Blanca era também supliciada. Logo após a prisão de dom Fernão, ela fora presa também e levada ao calabouço, onde fora interrogada e torturada.
Ainda não vira monsenhor Navarro, mas sabia que ele apareceria. Haviam- lhe dito que Fernão a traíra e a delatara, mas ela não acreditara. Pois se fora ele mesmo
quem a tirara de Granada, por que agora a entregaria aos padres? Não. Fernão nada tinha a ver com aquilo. A não ser pelo fato de que a amava, Blanca não podia ver
nele nenhuma ofensa às leis da Igreja.



CAPÍTULO 11



Giselle sentiu imensa alegria ao ver Esteban descer da carruagem, diante de sua casa. Fazia já algum tempo que não o via e sentia sua falta. Seus sentimentos para
com ele eram puros e verdadeiros, e, por mais que estivesse apaixonada por Ramon, amava Esteban como se fosse seu pai.
- Agiu muito bem com dom Fernão, Giselle - elogiou-o, após abraçá-la. - Sua confissão é questão de tempo.
- E a tal de Blanca? Também já confessou?
- Não. Blanca parece uma moça ingênua, mas confia no tolo. Se ela soubesse...
Giselle deu de ombros e foi puxando-o pela mão em direção a seu quarto. Não tinha muito interesse em dom Fernão ou qualquer outro acusado. Executava sua missão sempre
da melhor forma possível, mas o destino daqueles a quem delatava não lhe interessava muito.
Esteban deixou-se conduzir passivamente ao quarto da moça, embora não houvesse ido ali para aquilo. Giselle já não lhe despertava tanto desejo. Apesar de bonita
e esbelta, não tinha mais o frescor da juventude, e seu corpo também não guardava mais a rigidez da mocidade. Ainda assim, seguiu-a sem dizer nada e aceitou o amor
que ela lhe oferecia.
- Por que está tão calado? - a indagou, logo após se amarem.
Ele a olhou mansamente, tentando encontrar um jeito de lhe dizer o motivo que o levara até ali.
- Estou cansado - deixou escapar num suspiro.
- De mim?
- Da vida.
- Da sua vida ou da minha?
- Da de nós dois.
- Não estou entendendo, Esteban. Pensei que você me amasse.
- Gosto de você, mas acho que já está na hora de pararmos com isso.
- Por quê? - tornou ela, entre decepcionada e contente.
- Já estou ficando velho, e você também não é mais nenhuma garotinha. Você tem me servido com extrema fidelidade e eficiência durante todos esses anos, mas agora,
não preciso mais desses serviços.
- Como assim? Quer dizer que não lhe sou mais útil?
- Não é isso. Mas creio que, hoje, posso prender os suspeitos de heresia sem o seu concurso.
- Como fez com dom Fernão? - ironizou.
- Dom Fernão foi o último.
Giselle silenciou. Por que estava discutindo com ele? Não era isso mesmo o que queria? Sua liberdade? Encerrar sua carreira de delatora e meretriz? Não pretendia
agora se dedicar exclusivamente a Ramon? Pensando nele, considerou:
- Acho que está certo Esteban. Também estou ficando cansada.
- E já está rica, não é? Não precisa mais de mim nem do dinheiro que lhe dou. O que juntou durante todos esses anos é o suficiente para levar uma vida tranqüila
e sem preocupações, não é mesmo?
Algo no tom de voz de Esteban chamou sua atenção. Ele devia saber de alguma coisa que ela não sabia. Cuidadosamente escolhendo as palavras, redargüiu:
- Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba?
Ele soltou um profundo suspiro, alisou os seus cabelos e respondeu com fingida displicência:
- Não está acontecendo nada. O que eu quero é evitar que venha a acontecer. Miguez está me pressionando...
- Miguez, Miguez... Sempre Miguez. Aquele padre me odeia. Não entendo o que ele tem a ver com isso.
- Nada. Não se impressione. Miguez apenas se preocupa demais. Tem medo dos comentários dos outros padres.
- É só isso?
- O que mais poderia ser?
- Sei que muitos delatores acabaram também sendo delatados. Acha que corro esse risco?
- Você está sob a proteção de Esteban Navarro. Ninguém ousaria tocá-la.
- Tem certeza?
- Absoluta. Nem sequer se cogita de uma coisa dessas. O que acontece é que estou preocupado com a minha imagem. Não fica bem para um cardeal ser alvo dos comentários
alheios. Sossegue minha querida, ninguém jamais ousaria associar o seu nome à heresia. Sou um inquisidor influente, talvez o melhor que Sevilha já tenha visto. Ninguém
tem tantas condenações como eu, esteja certa. Meu nome goza de prestígio e respeito por toda a Espanha, até mesmo pela Europa. Quem pensaria em me enfrentar?
As meias verdades de Esteban acabaram por tranqüilizá-la. Do jeito como falava, parecia que ele estava acima de qualquer suspeita e jamais constituiria alvo do Santo
Ofício. Realmente, seria muito difícil provar algo contra ele. Mas aqueles que o serviam poderiam facilmente ser atingidos.
Embora Navarro tivesse esse medo, não deixou transparecer nada a Giselle. Sabia que ela corria grandes riscos, mas não queria alarmá-la. Se tudo corresse bem, conseguiria
contornar aquela situação e controlar o ódio de Miguez. E ela estaria a salvo. Ao menos, era o que esperava.
- E você? - prosseguiu Giselle. - Não o verei mais?
- Acho que você deve se afastar de Sevilha.
- Ficou louco? Sevilha é o meu lar. Para onde espera que eu vá?
- Estive pensando... Creio mesmo que já chegou a hora de você se casar.
- Casar...? - tornou sonhadora, já antevendo sua felicidade ao lado de Ramon.
- Sim, casar. Será o melhor para você e para mim. Não concorda?
- Concordo... Sim, casar... Um homem maravilhoso, um lar de verdade... O respeito da sociedade...
- Que bom que concorda, porque já escolhi o seu noivo.
- Como assim, escolhi o seu noivo. O que quer dizer?
- Exatamente o que você ouviu. Já escolhi um noivo para você.
- Mas Esteban, você não pode... Não quero... Isto é, eu nem o conheço!
- Mas vai conhecer. Creia-me, ele é o melhor para você nesse momento. É um senhor viúvo muito rico, que mora em Cádiz. E aceitou desposá-la. Já está ficando velho
e ficou feliz em poder ter uma esposa mais jovem.
- Não, Esteban, não quero me casar...
- Você acabou de concordar que seria o melhor.
- Mas não com esse noivo que você escolheu. Posso eu mesma, escolher o meu marido.
- Sinto, mas já está tudo acertado.
- Tudo acertado? Quer dizer que você tramou isso pelas minhas costas?
- Fiz o que era melhor para você.
- Não vou me casar com esse velho, não vou!
- O nome dele é Solano Díaz e é muito rico...
- Não me interessa! Não vou me casar com ele e pronto!
- Não entendo por que a recusa. Há pouco concordou que o casamento seria uma boa idéia. Pareceu-me mesmo bastante feliz.
- A idéia é excelente, mas quero me casar com o homem que eu escolher.
- Quem poderia ser esse homem? Que eu saiba você não tem ninguém... Ou será que tem?
Ela ficou confusa. E se lhe contasse sobre Ramon? Talvez ele aceitasse. Já que estava tentando arranjar-lhe um marido, não lhe custaria nada casá-la com o homem
que ela amava.
- Esteban... - começou a balbuciar - há pouco conheci um homem... Ele é maravilhoso... É tudo com que sempre sonhei...
- Um homem...? - tornou desconfiado. - Você conheceu? Onde?
- Na taverna.
- Quem é esse homem?
- Chama-se Ramon de Toledo.
Durante alguns minutos, Esteban permaneceu remoendo aquele nome, tentando se lembrar de onde é que o conhecia. Por fim, deu um sorriso sarcástico e desdenhou:
- Ramon de Toledo é um vagabundo falido.
- Isso não me importa. Eu o amo.
- Ama? Será que foi por isso que trabalhou tão bem com dom Fernão? Queria o caminho livre para você?
- Se está se referindo ao fato de que ele e a filha de dom Fernão foram noivos, saiba que está enganado.
- Será mesmo? Foi o próprio dom Fernão quem me disse que eles iam casar-se.
- Iam, mas não se casaram. Ele me ama e, por isso, rompeu o noivado.
- Ramon de Toledo... Quem diria?
- Por favor, Esteban - suplicou Giselle, atirando-se a seus pés -, deixe que me case com Ramon. Prometo que você nunca mais ouvirá falar de mim.
Naquele momento, Esteban sentiu imensa piedade de Giselle. Sentia-se responsável por ela, fora por ele que ela ingressara naquela vida. Que culpa tinha de ser uma
mulher bonita e ambiciosa? Quando chegara a Sevilha, Giselle era quase uma menina, pobre e inexperiente, cheia de sonhos e fantasias. Vivera na pobreza durante muitos
anos, era natural que almejasse uma vida melhor.
O casamento com Ramon talvez resolvesse seus problemas. Solano era um homem idoso e não saberia satisfazê-la. Quanto tempo decorreria antes que ela arranjasse um
amante?
Ele alisou os seus cabelos e ergueu-a pelos ombros. Ela estava chorando, e ele enxugou as suas lágrimas. Apertou o seu queixo e concluiu:
- Está certo, Giselle. Se for o que quer, que seja.
- Oh! Esteban! Nem posso acreditar que seja verdade!
- Aguarde alguns dias até que dom Fernão seja executado. Não quero que a filha dele cause problemas. Depois, eu mesmo providenciarei tudo. Como um presente de casamento.
- Por que não a prende também?
- Não temos nada contra Lucena. Mas não se preocupe com ela. O processo de expropriação de bens não é demorado e logo, logo, ela não será ninguém.
Depois que ele se foi, Giselle pôs-se a gritar pelas escravas. Belinda correu a atender, e Giselle foi logo perguntando:
- O senhor Ramon já chegou?
- Já, senhora. Belita está lá no porão com ele.
- Pois o que está esperando para chamá-lo? Vá, vá!
Aos tropeções, Belinda saiu em busca de Ramon. Quando monsenhor Navarro chegara, Belita, já orientada por Giselle, correra ao porão para esperá-lo. Assim que ele
entrou, contou-lhe que o cardeal se encontrava em companhia de sua senhora, e Ramon foi obrigado a esperar. Já estava impaciente quando Belinda entrou.
- Senhor Ramon, a senhora Giselle o chama com urgência.
- Monsenhor Navarro já se foi?
- Já, sim.
De um salto, Ramon correu ao quarto de Giselle. Escancarou a porta e, sem lhe dar chance de dizer qualquer coisa, apertou-a de encontro a si e beijou-a sofregamente.
Ao saber que Esteban estava com ela, tinha-se visto dominado por louco ciúme, imaginando-a nos braços do outro.
- Tolinho - gracejou Giselle, percebendo o seu ciúme. - Esteban agora é como um pai para mim.
- Pai... Sei. Que pai dorme com sua filha?
- Deixe de bobagens e sente-se. Tenho algo importante a lhe contar.
Curioso, Ramon sentou-se na cama, com Giselle a seu lado. Ela tomou a sua mão e acariciou-a, levando-a aos lábios e fitando-o com ar enigmático.
- O que houve? - tornou Ramon. - Por que tanto mistério?
- O que acha de se casar comigo?
- Casar-me com você? Seria a felicidade suprema.
- Pois pode ir-se acostumando a essa felicidade. Em breve, estaremos casados.
- Como assim?
Em minúcias, Giselle contou-lhe a conversa que tivera com Esteban, e Ramon exultou. Já estava começando a gostar dele.
- Esteban é um homem maravilhoso - elogiou Giselle. - Só o que quer é o meu bem. Você e eu vamos ser muito felizes, você vai ver.
- Não vai mais dormir com ninguém, vai?
Ela riu gostosamente e apertou suas bochechas.
- Só com você, meu amor. De hoje em diante, serei exclusivamente sua.
Entregaram-se ao amor. Estavam realmente felizes, certos de que poderiam levar uma vida tranqüila e sem preocupações. Naquele momento, era o que mais desejavam:
viver em paz, um para o outro.



CAPÍTULO 12



Com a chegada do inverno, as ruas de Sevilha começaram a esvaziar-se, e as pessoas evitavam sair e enfrentar os ventos frios que sopravam com a nova estação. Já
passava de meio-dia, e Giselle deixara Ramon em casa, adormecido, partindo apressada para a taverna. Agora, mais do que nunca, precisava cuidar dos negócios. Ramon
dissera que iria ajudá-la, mas ficara dormindo em seu primeiro dia de trabalho. Agora viviam juntos. Desde que contara a Esteban sobre seu envolvimento, não tinham
mais por que esconder que estavam apaixonados. Esperariam até que dom Fernão fosse executado e se casariam de verdade.
O dia estava escuro, e as nuvens cinza anunciavam que uma tempestade em breve iria desabar. Giselle saltou da carruagem em frente à porta da taverna e, envolta em
grosso manto de veludo, pôs-se a caminhar apressada, tentando fugir da ventania. Foi quando algo lhe chamou a atenção. Toda encolhida num canto da parede, uma mulher
chorava baixinho. Giselle parou por alguns segundos e olhou para ela. A moça estava de cabeça baixa, mas percebeu que alguém a observava. Ao levantar o rosto, Giselle
se surpreendeu. Jamais havia visto uma mulher tão bonita. Sua pele morena parecia de veludo, seus cabelos negros eram como seda, seus olhos escuros brilhavam feito
duas contas de ébano. Ficou impressionada. Curiosa para saber o que uma moça tão bonita fazia atirada na calçada, aproximou-se.
A outra se encolheu toda à sua chegada. Tentou levantar-se e fugir correndo dali, mas Giselle a deteve com um aceno de mãos.
- Por favor, espere - disse em tom cordial. - Não vou lhe fazer mal.
A moça foi se levantando vagarosamente, apoiada à parede, e parou de frente para ela. De perto, era ainda mais bonita.
- O que faz aí? - tornou Giselle interessada. Como a outra não respondesse, prosseguiu: - Está ferida? Alguém lhe fez algum mal? Não pode falar?
A moça balançou a cabeça e respondeu entre soluços:
- Perdoe-me, senhora. É que estava com fome...
Desatou a chorar descontrolada, ameaçando tombar no chão novamente. Foi então que Giselle percebeu o quanto ela devia estar fraca e com frio. Com cuidado, ajudou-a
a erguer-se novamente e levou-a para dentro. Fazia muito frio, e a coitada estava quase congelando.
Do lado de dentro da taverna, Giselle levou-a para perto da lareira, já acesa para espantar o frio.
- Sanchez! - gritou para o empregado. - Traga uma caneca de vinho e um bom assado para a moça comer.
Logo a comida e a bebida chegaram, e a moça devorou a perna de cordeiro que Sanchez lhe estendera. Bebeu o vinho a grandes goles e, aos poucos, foi sentindo que
recobrava forças. Lambia os dedos de satisfação e virou-se para Giselle, acrescentando com timidez:
- Nem sei como lhe agradecer, senhora. Giselle sorriu e retrucou:
- Qual é o seu nome?
- Manuela.
- De onde você vem, Manuela?
- De Madri.
- Bem se vê que não é daqui. Tem um jeito de falar diferente.
Manuela deu um sorriso encantador e, já mais refeita, acrescentou:
- E você, como se chama?
- Giselle. Sou a dona deste lugar.
Rapidamente, Manuela passou os olhos pelo interior da taverna e considerou:
- Será que não está precisando de uma ajudante?
- Depende - respondeu Giselle, já imaginando onde gostaria de colocá-la. - O que sabe fazer?
Ela deu de ombros e respondeu timidamente:
- Posso arrumar as mesas.
- Sanchez já faz isso.
- Posso ajudar Sanchez.
Giselle balançou a cabeça negativamente e continuou:
- Sabe dançar?
- Sei, sim.
- Poderia dançar para mim?
- Agora?
- Por que não? A taverna está vazia.
Meio sem jeito, Manuela postou-se no meio do salão.
- E a música?
- Sanchez, cante uma canção para a moça dançar.
O empregado soltou uma risada debochada e pôs-se a cantar com sua voz de barítono desafinada, fazendo com que Manuela levasse a mão aos ouvidos e fizesse uma careta.
- Pode deixar que me arranjo sozinha - protestou.
Sanchez deu de ombros e foi lavar as canecas. Quando Manuela começou a dançar, ficaram admirados. Ela dançava tão bem quanto Giselle. Ao final da apresentação, Manuela
olhou para Giselle e indagou com um sorriso, já sabendo o efeito que havia causado sobre ambos:
- E então? Gostaram?
Sanchez bateu palmas e assobiou, enquanto Giselle fazia com que ela se sentasse a seu lado.
- Gostei muito, Manuela. O que acha de um emprego de dançarina?
- Fala sério?
- Falo, sim. Quem dança aqui é eu, mas já estou ficando cansada. Não sou mais nenhuma menininha e quero me dedicar a outras coisas. Quando a vi, fiquei impressionada
com a sua beleza e imaginei se não poderia me ajudar. Agora, vendo-a dançar, tive certeza de que você é a pessoa ideal para me substituir. Então? O que acha? Aceita
o emprego?
- Se aceito? E claro que aceito!
- Enquanto não estiver dançando, você pode auxiliar Sanchez com as mesas - ela concordou e Giselle prosseguiu: - Tem algum lugar para ficar?
- Não. Acabei de chegar de Madri.
- Vou lhe indicar uma estalagem. Chama-se O Mascate. É bem perto daqui.
Giselle apanhou uma pena e escreveu o endereço num pequeno pedaço de papel, estendendo-o para Manuela, que o leu e retrucou emocionada:
- Obrigada.
Giselle limitou-se a sorrir e continuou:
- Por que você veio para Sevilha?
Ela abaixou os olhos, olhou de um lado para outro e confessou:
- Tive que fugir. Estava sendo perseguida.
Giselle sobressaltou-se. A última coisa que queria era uma fugitiva da Inquisição.
- Quem a estava perseguindo?
- Andei me metendo com gente importante em Madri. Um jovem conde, muito rico e bonito. Só que era casado...
- E a mulher dele descobriu e quis matar você - completou Giselle, num gracejo.
- Pior. Ela se suicidou, e o pai dela colocou todos os seus homens atrás de mim. O jeito foi fugir.
- E o tal conde?
- Sofreu muito... Ele me amava realmente, sabe?
- E você? Também o amava?
Ela deu de ombros e respondeu com certo alheamento:
- Não sei. Ele era bom para mim, tratava-me feito uma rainha. Dava-me jóias e sedas, que tive que deixar para trás. Não tive nem tempo de apanhar minhas coisas.
Ou voltava para buscar minhas jóias, ou salvava a pele. Preferi salvar minha vida. Posso começar de novo do nada. Homens há muitos por aí.
Giselle se calou. Manuela tinha um jeito doce e meigo, mas parecia já haver sofrido bastante na vida. Contudo, sua beleza ser-lhe-ia muito útil naquele momento.
Ela precisava descansar e dedicar mais tempo a Ramon. Mas não podia abandonar os negócios. Muitos homens iam ali para vê-la dançar e acabariam se afastando se ela
simplesmente parasse. Mas se lhes apresentasse outra moça, linda e mais jovem, sensual e excelente dançarina, tinha certeza de que conseguiria manter a clientela.
Afinal, não fora por outro motivo que a tirara do frio.
Realmente, Manuela agradou. No dia seguinte, quando os clientes começaram a chegar à taverna, ficaram impressionados com tanta graça e beleza. Ainda gostavam muito
de Giselle, mas não foi difícil fazê-los acostumarem-se a Manuela. Além de dançar muito bem, ela possuía um encanto natural que cativava os homens. Nas horas vagas,
auxiliava Sanchez com as mesas, para alegria dos fregueses, que lhe davam palmadinhas e beliscões, sem que ela reclamasse, coisas que jamais ousariam fazer com Giselle.
Até então, Ramon ainda não havia aparecido. Por mais que Giselle insistisse, ele não se animava a ir à taverna.
- Ramon, meu querido - disse ela certa vez. - Não se esqueça de que agora teremos que viver dos meus negócios. A taverna será minha única fonte de renda. E sua também.
Você já vendeu tudo o que possuía, não tem mais nada. Não acha que já está na hora de se interessar pelo que é seu também?
Com um profundo suspiro, Ramon a abraçou e acabou concordando:
- Tem razão. É que não estou acostumado a trabalhar.
- Pois trate de ir se acostumando. A taverna até que é divertida. E depois, tem a Manuela. Quero que você a conheça. Vai ver se tenho ou não razão quando digo que
ela é linda e que foi a pessoa ideal para me substituir.
No dia seguinte, ao meio-dia, Ramon entrava com Giselle na taverna. Sanchez arrumava as mesas, enquanto Manuela limpava o chão. Ramon cumprimentou Sanchez e foi
apresentado a
Manuela.
- Tem razão, Giselle - concordou admirado. - Manuela é mesmo uma moça muito bonita.
Ela deu um sorriso brejeiro e continuou a trabalhar, fingindo que não lhe prestava atenção. Ramon a observava atentamente, com olhar embevecido, acompanhando o molejo
do seu corpo enquanto esfregava o chão. Essa admiração não passou despercebida a Giselle. Queria apresentar-lhe Manuela para que ele visse como era bonita. Não para
que ficasse caído por ela. Ramon, percebendo o seu ciúme, puxou Giselle e sentou-a em seu colo, beijando-a com paixão.
- Não há mulher feito você, Giselle. Por mais linda que sejam as outras, jamais serão como você.
Ela sorriu satisfeita e apertou-se a ele. Entretanto, algo em seu olhar lhe dizia que tomasse cuidado, embora Giselle soubesse que jamais permitiria que Manuela
lhe tomasse Ramon. Nem Manuela, nem qualquer outra mulher. Porque Ramon lhe pertencia. Somente a ela.



CAPÍTULO 13



Sentado diante da janela, Juan lia um trecho da bíblia para monsenhor Navarro, sem prestar a menor atenção a suas próprias palavras. Sem que percebesse, Esteban
o observava. Desde o dia em que chegara com febre e delirando, chamando o nome de Giselle, não haviam conversado sobre o ocorrido. Juan não se lembrava de nada do
que dissera no delírio, e Esteban achara melhor não tocar no assunto.
Juan, em seu mutismo, pensava numa maneira de rever Giselle. Não sabia que Esteban havia terminado tudo com ela e pretendia casá-la com Ramon. O cardeal, não querendo
fazê-lo sofrer, nada dissera a respeito, e o noviço alimentava a ilusão de que Giselle também gostava dele e que sentia a sua falta.
- Juan! - chamou Esteban. - Juan! Onde está com a cabeça, menino?
O rapaz havia interrompido a leitura e perdera-se em sua saudade. Precisava ver Giselle o quanto antes ou acabaria adoecendo.
- O quê...? - respondeu ele, em tom apalermado. - Chamou monsenhor Navarro?
- Por que parou de ler?
Juan olhou para a bíblia pousada sobre seu colo e segurou-a novamente, recomeçando a leitura. Se Juan não prestava atenção no que lia, Esteban também não entendia
o que ouvia. Ambos estavam com o pensamento preso na mesma pessoa, embora por motivos diferentes.
Subitamente, alguém bateu à porta. Era outro noviço, que vinha chamar monsenhor Navarro, dizendo que uma dama estava ali para vê-lo. Seria Giselle? Não, pensou Esteban.
Giselle podia ser tudo, menos uma dama. Mandou que Juan continuasse a leitura e foi atender o chamado da tal dama. Ela havia sido introduzida em seu gabinete particular
e, assim que ele entrou, correu ao seu encontro e beijou-lhe o anel, fazendo profunda reverência.
- Monsenhor Navarro - disse com voz sonora -, é um imenso prazer conhecê-lo.
Esteban recolheu a mão gentilmente e foi sentar-se em sua poltrona, mandando que ela se sentasse à sua frente.
- Em que posso servi-la, senhorita...?
- Lucena... Lucena Lopes de Queiroz.
Ele levou um susto, mas conseguiu controlar-se. Conhecia-a apenas de nome; jamais a havia visto pessoalmente. Ela era uma moça muito bonita, o que o deixou surpreso.
Ramon trocara uma moça tão linda e fresca por Giselle. Por mais bela que Giselle fosse já não era mais uma mocinha.
- Muito bem, senhorita Lucena - prosseguiu ele, sem demonstrar surpresa -, o que posso fazer pela senhorita?
- Monsenhor Navarro, não quero que pense que sou atrevida ou desrespeitosa. Mas gostaria de saber o que foi que meu pai fez para ser preso.
A moça tinha coragem, era preciso reconhecer. Ir até ali, correndo o risco de ser acusada também, era realmente um ato de bravura. Esteban se levantou da poltrona
e dirigiu-se para a janela, respondendo sem se virar:
- Seu pai é acusado de heresia.
- Isso, eu já entendi. Mas o que foi que ele fez?
Voltou-se para ela abruptamente e respondeu incisivo:
- Andou conspirando contra a Igreja, senhorita Lucena, envolvendo-se com uma mulher moura.
- Refere-se à Blanca Vadez?
- Ela mesma. Não sabia?
- Não, não sabia.
- Pois fique sabendo. E é muita sorte sua não estar ao lado dela no calabouço.
Lucena sentiu um arrepio de terror e quis fugir. Contudo, se saísse dali agora, deixaria a suspeita de que também estava envolvida com os mouros, se é que Blanca
fosse moura, como ele dizia.
- Monsenhor Navarro, sou uma moça direita e temente a Deus, vou à igreja todos os domingos, faço minhas orações e comungo regularmente. Que motivos teriam o senhor
para me atirar no calabouço junto de hereges que não respeitam a palavra de Deus?
Ele a olhou perplexo. Ela era uma moça muito corajosa e atrevida, realmente. Fitando-a com ar ameaçador, revidou austero:
- O que pretende senhorita Lucena? Libertar seu pai? Ou aquela mulher?
- Vim apenas lhe pedir, ou melhor, implorar pela vida de meu pai. Ele sempre foi um homem digno, não merece esse fim.
- Seu pai foi acusado de heresia.
- Quem o acusou?
- Isso não importa. O fato é que as acusações contra ele são gravíssimas e estão sendo devidamente comprovadas e apuradas. Não há nada que eu ou a senhorita possamos
fazer.
Ela começou a chorar e atirou-se ao chão, beijando seus pés.
-Por favor, monsenhor Navarro - suplicou em lágrimas. - Eu lhe imploro. Tenha misericórdia. Meu pai é um homem digno.
- Ele foi denunciado.
- Quem o denunciou só pode ser seu inimigo.
- Engana-se. Ele foi denunciado por pessoa que nada tem contra ele. Ela apenas ouviu a sua confissão e nos contou. Era seu dever, assim como é o seu, não se intrometer
nos assuntos da Inquisição.
- Por favor, reconsidere. Meu pai é um homem rico, pode recompensara sua misericórdia.
- Seu pai não é mais rico, senhorita Lucena, e nem você. Seus bens estão sendo confiscados pela Igreja.
- O que foi que disse? - murmurou atônita. - Confiscados? Não pode ser... O senhor... Não pode fazer isso. O que será de mim?
- Sinto muito, mas isso não é problema meu. Dê-se por satisfeita de não ter sido acusada também - Lucena chorava descontrolada, e ele aconselhou: - Quer ajudar o
seu pai?
- É claro que quero. Diga-me o que é preciso, e eu farei.
- Pois então, aconselhe-o a confessar.
-Isso salvará a sua vida?
- Salvará a sua alma. Sua vida já está condenada, mas sua alma ainda tem salvação.
Rosto ardendo em fogo, Lucena levou a mão aos lábios, sufocando um grito de angústia.
-Monsenhor... - implorou, à beira do desespero - não faça isso, eu lhe suplico. Meu pai é inocente.
- Sou um homem justo, senhorita. Se seu pai não se tivesse envolvido com aquela falsa cristã, eu seria o primeiro a proclamar-lhe a inocência.
Lucena silenciou. Não sabia nada sobre Blanca ser moura, mas não queria acabar caindo na armadilha de Navarro. Se ele estava tentando usá-la para que entregasse
o pai, era preciso ter muito cuidado. Com os olhos vermelhos de tanto chorar, ela engoliu em seco e finalizou:
- Lamento tê-lo incomodado. Vejo que o senhor está ainda bem longe de saber o que realmente significa justiça.
Virou-lhe as costas abruptamente para sair. Quando ia abrindo a porta, alguém a empurrou pelo lado de fora, e ela levou um tremendo susto ao sentir a batida da porta
em sua cabeça. Na mesma hora apareceu um galo em sua testa.
- Meu Deus! - exclamou Miguez com perplexidade. - Perdoe-me, senhorita. Não sabia que estava do outro lado.
- Não foi nada - contestou Lucena, esfregando a testa, ao mesmo tempo em que se dirigia novamente para a saída.
Passou por ele e saiu para o corredor, caminhando apressada, sem olhar para trás. Ainda atônito com o incidente, Miguez fitava Esteban, tentando adivinhar o que
havia acontecido. Mas a imagem de Lucena ficou martelando em sua cabeça, e ele foi atrás dela sem dizer uma palavra ao amigo.
- Senhorita! - chamou, vendo-a virar à esquerda, no fim do corredor.
Sem lhe prestar atenção, Lucena continuou caminhando a passos cada vez mais largos. Será que aquele homem queria prendê-la? Vendo que ela não parava, Miguez disparou
a correr atrás dela, alcançando-a já no limiar do portão.
- Senhorita - falou ofegante, puxando-a pelo braço. - Um momento...
Ela foi obrigada a se voltar. Vendo os seus olhos inchados, o nariz vermelho, a testa ferida, Miguez sentiu que seu coração se apertava. Ela era linda e pura, exatamente
como ele gostava.
- Perdão, padre - disse ela, entre um soluço e outro. - Preciso sair.
- Por que a pressa? - tornou Miguez, encantado com sua voz doce.
- É que tenho um compromisso...
- Será que não pode esperar?
- Por quê?
- Para que possamos conversar.
- Não tenho mais nada para conversar. Monsenhor Navarro disse tudo...
- Não sou monsenhor Navarro. Talvez possa ajudá-la. Por que não me conta o que a aflige?
Lucena podia sentir o seu olhar lúbrico e pensou que talvez ele pudesse ser de alguma valia. Imediatamente mudou de postura. Fez um beicinho gracioso e pôs-se a
chorar de mansinho, agarrada à sua mão.
- Oh! Padre, não sei mais o que fazer! Estou desesperada!
Com os braços ao redor de seus ombros, Miguez foi conduzindo-a para o seu gabinete.
- Venha comigo, criança, e abra o seu coração. Deixe-me ser seu confessor.
Ela se deixou conduzir com passividade, a mente já tramando o que deveria-fazer. Entrou no gabinete de Miguez de cabeça baixa, agarrada ao braço que ele lhe estendera,
sentou-se na poltrona e ficou olhando para ele com ar de súplica. Aquilo quase o levou à loucura. Seria ela virgem? Só podia ser.
- Muito bem, minha filha, agora que estamos sós, por que não me conta o que a está perturbando?
- Padre... Nem sei o seu nome.
- Miguez. Miguez Ortega, a seu dispor.
- Padre Miguez, meu pai foi preso e atirado ao calabouço, mas sei que é inocente.
- Quem é seu pai?
- Dom Fernão Lopes de Queiroz.
Com ar compreensivo, Miguez fez com que ela lhe contasse tudo. Sabia que seria impossível salvá-lo, e ele não queria se indispor com Esteban, mas precisava conquistar
a sua confiança. Pousou a cabeça de Lucena sobre o seu colo e, acariciando seus cabelos, redargüiu em tom paternal:
- Não se preocupe criança. Verei o que posso fazer por você.
- Vai me ajudar? - ele assentiu. - Promete?
- Prometo tentar. E agora vamos, pare de chorar.
Com o lenço, enxugou as lágrimas de Lucena e apertou o seu queixo, forçando-a a um sorriso. Ela sorriu meio sem jeito e sussurrou:
- Obrigada.
- Deixe tudo por minha conta - levantou-se e abriu a porta. Era perigoso demais investir contra ela ali, em seu gabinete, e àquela hora. - Agora, vá para casa e
aguarde meu chamado. Quando voltar, terei notícias para lhe dar.
Mais animada, Lucena se foi. Sabia que impressionara o padre e estava disposta a usá-lo e a deixar que ele a usasse para conseguir o que queria. Pretendia salvar
o pai e, se possível, Blanca também. E queria saber o nome de quem o havia delatado. Era o mínimo que poderia fazer para vingar o suplício a que estava sendo submetido
e a espoliação que ela mesma estava na iminência de sofrer.
Quando Esteban chegou de volta a seus aposentos, Juan já não estava mais lá. A bíblia, pousada sobre a poltrona, continuava aberta na página onde haviam interrompido
a leitura. Logo depois que Navarro saiu, Juan tomou uma decisão. Precisava ver Giselle o quanto antes. Saiu sem ser percebido e foi à casa da moça. Foi informado
por Belinda que ela não estava que já havia partido para a taverna, e ele foi ao seu encontro.
Na taverna, procurou Giselle por todos os cantos. Ela não estava dançando, e havia outra moça ajudando a servir as mesas. Ele se sentou a um canto, acabrunhado,
e Manuela veio servi-lo.
- Ora, ora, ora - exprimiu em tom maroto. - Não é um noviço que temos aqui?
- Quero falar com a senhorita Giselle - anunciou Juan apressadamente, desviando o rosto das mãos de Manuela, que tentava beliscar-lhe as bochechas.
Com um sorriso irônico, Manuela se afastou. Será que Giselle andava seduzindo até noviços imberbes? Deu de ombros e foi para o quarto atrás da taverna, que também
servia de escritório, onde Giselle fazia algumas contas em companhia de Ramon.
- O que é Manuela? - indagou, logo que a viu despontar na porta.
- Está aí um padreco querendo falar-lhe.
- Quem? - interveio Ramon, com medo de que se tratasse de monsenhor Navarro.
- Um noviço. Não sei o nome.
- Deve ser Juan - esclareceu Giselle. - O que será que quer dessa vez?
Levantou-se, e Ramon foi atrás dela. Saíram abraçados e foram em direção à mesa a que Juan estava sentado. Vendo-os juntos, o rapaz sentiu uma opressão no peito.
Na mesma hora, o ciúme o corroeu, e ele pensou que fosse pular no pescoço de Ramon. Como aquele homem se atrevia a tocar o corpo de Giselle?
- O que faz aqui, Juan? - perguntou Giselle, tentando disfarçar a má vontade. - Algum recado de monsenhor Navarro?
Encarando Ramon com raiva, Juan replicou entre dentes:
- Nenhum recado. Passei aqui apenas para buscar a citara que a senhorita me deu e que, na pressa, deixei em sua casa naquele dia.
Era verdade. Juan ficara tão confuso com a proximidade de Giselle que fora embora, deixando à pequena citara que ela lhe dera caída no chão. Fora esse o pretexto
que arranjara para procurá-la novamente.
- Se é só isso, podemos ir buscá-la agora - declarou Ramon.
- Não precisa se incomodar, senhor. Voltarei outro dia. Levantou-se apressado para sair, e Giselle foi atrás dele. Não podia perdê-lo. Contava com ele para mantê-la
informada sobre os passos de Miguez.
- Juan - chamou-o, já na rua.
Reconhecendo a sua voz, o rapaz parou abruptamente.
- Giselle... - suspirou embaraçado. - Desculpe-me...
- Não precisa se desculpar. Você não fez nada de errado.
- Não devia ter vindo aqui.
- Não devia mesmo. Isso não é lugar para você. Se Esteban descobre que esteve aqui sem a sua ordem, vai ficar zangado.
- Eu... Vim aqui por que... Queria vê-la...
Calou-se ruborizado, e Giselle tornou com ar sedutor:
- Está tudo bem, não precisa se explicar.
- É que naquele dia, saí correndo e...
- Eu compreendo. Você se assustou.
Juan se aproximou dela e segurou a sua mão, levando-a aos lábios e beijando-a com paixão.
- Aquele moço lá dentro... - balbuciou -... É seu amante?
- Por que quer saber?
- Porque eu o odeio.
- Deixe isso para lá, Juan. Você é apenas um garoto.
- Eu a amo, Giselle. Não consigo mais parar de pensar em você. Lembro-me daquele dia, do seu beijo, do seu corpo quente de encontro ao meu. Penso que vou enlouquecer.
- Pare com isso. Você é apenas um menino.
- Não me importo. Eu a amo, Giselle!
- Se me ama de verdade, então tem que me prometer que não fará mais isso. Pode acabar me comprometendo. Se alguém descobrir que você vem a minha taverna, posso ser
acusada de estar aliciando um jovem noviço e acabarei sendo presa. É isso o que você quer?
- Meu Deus, é claro que não!
- Pois então, não venha mais aqui. Pode ser perigoso para mim e para você.
- Está bem, Giselle.
- E preste atenção a tudo o que acontece naquela abadia. Padre Miguez quer a minha caveira.
- Não se preocupe. Se depender de mim, nada acontecerá a você.
Giselle beijou-o de leve nos lábios e o despachou. Podia ser que não precisasse dele, mas era bom não facilitar. Do jeito que Esteban falava, padre Miguez continuava
instigando-o contra ela. Aquele padre era um demônio, e ela precisava de alguém que lhe desse notícias, caso algo acontecesse.
Quando voltou para a taverna, Manuela estava sentada à mesa com Ramon, ambos às gargalhadas. Sentiu uma pontinha de ciúme, que procurou disfarçar, e foi em direção
a eles.
- Posso saber o que é tão engraçado? - perguntou, tentando parecer natural.
- Ah! Giselle - fez ele, olhos lacrimejantes de tanto rir. - Manuela estava me contando alguns casos. Não sabia que era tão engraçada.
Giselle forçou o riso e sentou-se no colo de Ramon, beijando-o com ardor.
- Agora chega de conversa - murmurou em seu ouvido. - Vamos para casa.
Sem responder, Ramon se levantou e foi embora com ela. Já era noite, e o movimento na taverna havia aumentado. Ainda assim eles se foram. Em casa, Giselle explodiu:
- O que deu em você, Ramon? Pensa que sou cega ou idiota? Fazendo ar de espanto, Ramon contestou com ingenuidade:
- Nossa, Giselle, por que está tão zangada?
- Então não sabe? -Não.
- Você e Manuela, contando historinhas engraçadas!
- Então é isso? - contestou Ramon num gracejo. - Está com ciúmes de Manuela? Ora, mas que tolice. Então já não lhe disse que você é a única que me interessa?
- Seu cínico. Eu bem percebi os seus olhares para ela.
- E o que tem? Manuela é uma mulher bonita, e eu seria um louco se negasse. Nem você acreditaria em mim. Mas isso não quer dizer que eu esteja interessado nela.
- Não está?
- Não - aproximou-se dela e tomou-a nos braços, beijando-a com paixão. - Quando é que você vai compreender que eu jamais poderei amar outra mulher além de você?
As palavras e as carícias de Ramon a convenceram. Realmente, Ramon não poderia amar mais ninguém. Manuela o impressionava pela beleza, sensualidade e graça. Mas,
até então, não havia nada que o fizesse trair Giselle. Seu amor por ela era forte e verdadeiro, e ele lhe garantiu que ela não tinha motivos para sentir ciúmes.
Manuela, contudo, não pensava assim. Não que estivesse apaixonada por Ramon, mas estava acostumada a seduzir. Sua própria mãe lhe ensinara. Filha de uma meretriz
acostumara-se a ter todos os homens que desejava, e a indiferença de Ramon a incomodava. Por mais que ela se insinuasse, Ramon não a queria. Só pensava em Giselle,
só tinha olhos para Giselle. Por mais que Manuela fosse grata a Giselle, não conseguia parar de pensar em Ramon. Ao menos enquanto não conseguisse seduzi-lo.



CAPÍTULO 14


Estava ficando cada vez mais difícil para dom Fernão resistir às torturas que lhe eram impingidas. A dor, a humilhação, o medo, faziam-no enfraquecer a cada dia.
Mas ele não confessava. Seu corpo já estava todo flagelado, ossos esmagados, costelas partidas. Já nem conseguia mais falar direito. Contudo, ainda resistia. Apenas
duas coisas o faziam não ceder: o amor por Blanca e o ódio por Giselle. Monsenhor Navarro não falara claramente, mas dera a entender que fora realmente ela a responsável
por sua prisão. Estava tão certo da condenação de dom Fernão que nem se preocupava com uma possível vingança. Mas para este a vingança era certa. Fosse vivo ou morto,
vingar-se-ia de Giselle com todas as forças de seu ódio.
Enclausurado entre as frias paredes de pedra da masmorra, não sabia se era dia ou noite. Podia supor quando anoitecia, porque o movimento de torturadores diminuía
bastante, e os guardas cochilavam em seus postos. Ele também sentia as pálpebras pesarem. Naquele dia, o corpo todo lhe doía, após intensa sessão no balcão de estiramento,
ao qual permanecia ainda amarrado, braços e pernas dormentes.
Após breve cochilo, foi despertado pelo ranger da porta de ferro, que se abriu vagarosamente. Com extrema dificuldade, viu quando dois vultos cobertos de negro entraram.
Um deles permaneceu parado perto da porta, enquanto o outro se acercou do balcão. Na mesma hora, lágrimas começaram a escapar de seus olhos. Será que iriam iniciar
uma nova sessão de torturas?
O vulto vestido de negro se aproximou, e Fernão sentiu duas mãos macias apertarem a sua, presa às correntes que a atavam ao balcão. O vulto se curvou sobre ele e
beijou de leve o seu rosto, e o capuz que lhe encobria as faces deslizou por seus ombros, revelando o rosto de Lucena, lívido e coberto de lágrimas.
- Lu... Lu... Lucena... - foi somente o que conseguiu balbuciar, o pranto dominando o seu peito.
- Oh! Papai! - gemeu ela baixinho, tomada pela dor. - O que foi que lhe fizeram?
Dom Fernão não conseguia falar. A emoção, as lágrimas, o desalento haviam embargado a sua voz de tal forma, que só o que podia era chorar. Somente depois de muito
tempo, em que ele permaneceu chorando, com Lucena a seu lado, a chorar junto com ele, foi que conseguiu dizer:
- E... E... Blanca...?
- Ainda não pude vê-la. Quis primeiro vir até você.
Fernão fechou os olhos e soltou diversos soluços doloridos, fazendo com que Lucena também chorasse ainda mais.
- Salve... Por favor... Salve-a...
- Não posso. Se pudesse, salvaria você.
Juntando ao máximo as forças, dom Fernão conseguiu retrucar com certa clareza:
- Minha filha... Já estou... Estou perdido... Sei que vou... Morrer...
- Não diga isso!
- É verdade... Ninguém poderá me tirar daqui... Mas Blanca... Faça o que for necessário... Salve-a...
- Vou tentar.
- E Giselle...
- Quem é Giselle?
- A mulher... Que me colocou aqui...
- Que mulher é essa?
- Giselle... Mac... Mackinley... Tem uma taverna... Do outro lado da cidade... A dama... Da noite... Foi ela... Ela me traiu... Denunciou-me...
- Por quê? Como? O que fazia o senhor com essa Giselle?
- Isso... Não importa... Mas você... Você deve prometer... Que irá vingar a minha morte... Você tem que me prometer... Salvar Blanca... Vingar-me... Destruir Giselle...
Os olhos de dom Fernão começaram a revirar nas órbitas e sua boca começou a espumar, enquanto balbuciava coisas sem sentido. Lucena afastou-se horrorizada. Sentiu
que uma mão a tocava no ombro, mas não conseguiu tirar os olhos do pai.
- Venha, Lucena - disse Miguez com piedade. - Ele está delirando.
Coberta de pavor, Lucena levou a mão aos lábios e sufocou o grito, enquanto Miguez a puxava para fora. Amparando-a, foi com ela para seus aposentos. Era alta madrugada,
e não havia ninguém nos corredores. Não corriam o risco de ser surpreendidos. Rapidamente, Miguez abriu a porta de seu quarto e empurrou-a gentilmente para dentro.
Lucena desabou sobre a cama e chorou por quase meia hora, sem que Miguez ousasse interrompê-la. Ao final, indagou em desespero:
- Por que não o deixam logo morrer?
- Não podemos. Há um médico que acompanha as sessões de tortura, para assegurar que ele viva. O suplício é que está depurando a sua alma.
Totalmente transtornada, Lucena enxugou os olhos, encarou Miguez e disse com ódio:
- Quero encontrar essa tal Giselle Mackinley e destruí-la.
Quero fazê-la sofrer tudo o que meu pai está sofrendo nesse momento.
Miguez exultou. Tudo o que mais queria era uma aliada. O ódio de Lucena bem poderia ajudá-lo a acabar com Giselle.
- Minha querida - tornou ele com ternura -, Giselle é uma mulher difícil de apanhar. É protegida de monsenhor Navarro.
- Protegida? Como assim?
- Bem - prosseguiu ele, aproximando-se dela na cama e acariciando a sua mão -, ela é, ou melhor, ela foi amiga íntima de nosso bom cardeal, se é que me entende.
- E daí? Quando foi que ela conheceu meu pai?
- Seu pai e ela eram amantes.
- Amantes? Mas papai estava noivo de Blanca Vadez... Iam se casar!
- Seu pai ia se casar com Blanca, mas dormia com Giselle. Isso não é nada de mais, minha querida. Giselle é uma meretriz, é para isso que serve.
- Mas como foi que papai foi se envolver com uma mulher dessas? Espere... Ele falou numa taverna. Como era mesmo o nome?
- Dama da Noite.
- Isso, Dama da Noite. Você conhece? Pode me levar até lá?
- O que você poderia fazer indo até lá?
- Vou matá-la.
- Quer ser presa? Quer juntar-se a seu pai e a Blanca? - ela não respondeu, mordendo os lábios, de ódio. - É claro que não quer, não é mesmo? Quer vingança, mas,
para se vingar, deve ter paciência e esperar. O tempo irá nos ajudar.
- Nos ajudar! O que quer dizer?
- Vou ajudá-la, minha querida. Sozinha, será praticamente impossível conseguir atingi-la. Navarro a apanharia antes disso. Mas com a minha ajuda, tudo será mais
fácil. Vou ajudá-la a se vingar de Giselle de tal forma que você se sentirá não apenas vingada, mas compensada de todos os seus sofrimentos. Giselle é uma vagabunda
e não merece viver. Nem morrer. Merece sofrer, agonizar...
- O que você tem contra ela?
- Eu? Particularmente, nada. É que não gosto de ordinárias. Gosto de moças puras e castas feito você.
Com a respiração ofegante, Miguez aproximou o rosto do de Lucena, quase roçando seus lábios, mas ela se levantou apressada, suando frio e sentindo falta de ar. Levou
a mão ao peito e, sem coragem de encará-lo, disse com voz miúda:
- Padre Miguez, por favor...
Ele não a seguiu. Permaneceu sentado onde estava olhando para ela com ar de paixão. O corpo todo ardia de desejo, e ele mal podia esperar a hora de tocá-la, de beijá-la,
de possuí-la. Quanto mais pensava em seu corpo virgem tremendo sob o seu, mais o desejo o consumia. Contudo, tinha que admitir que ela fosse diferente das outras.
As moças com quem se deitava eram acusadas de heresia, e ele apenas cumpria a sua função de verificar se eram virgens ou não. Jamais mantivera qualquer conversa
com nenhuma delas. Deitava-se com elas por uma noite e enviava-as de volta para as masmorras, onde os carrascos cuidariam delas.
Mas seu interesse por Lucena ia, além disso. Chegou mesmo a pensar se já não estava na hora de ter sua amante particular, como muitos outros inquisidores faziam.
Lucena seria uma excelente concubina. Pura, prendada, culta, sozinha no mundo. E grata. Muito grata a ele pelo apoio que lhe estava dando para enfrentar a prisão
do pai.
Lucena, por sua vez, sabia no que ele estava pensando. Ele era como todos os outros, que só pensavam em sexo. O fato de ser padre não o eximia daquele desejo imundo.
Entretanto, precisava dele e faria o que ele quisesse. Ao contrário do que ele pensava, ela não era nem pura, nem casta. Só que ele não sabia. Não sabia nada de
seu envolvimento com Ramon. Pensava que ela era virgem, e ela saberia muito bem se aproveitar daquela situação.
- Perdoe-me, Lucena - redargüiu-o em tom de desculpa.
- Não foi minha intenção ofendê-la. Sei que você é pura, e eu não deveria ter feito isso. Não quero que esse infeliz episódio estrague a nossa amizade.
Suspirando aliviada, Lucena retorquiu:
- Não se preocupe padre. Sua amizade já é para mim de grande valia.
Deu-lhe um sorriso sedutor, e ele quase saltou sobre ela, mas conseguiu se conter. Precisava ter cuidado ou estragaria tudo. Lucena era uma dama e não estava acostumada
a ser tratada como uma ordinária feito Giselle.
- Sente-se aqui a meu lado - chamou ele, disfarçando os pensamentos lúbricos.
Lucena se aproximou e sentou-se, mantendo cautelosa distância. Olho pregado no chão implorou sentida:
- Não há meios de salvá-lo?
- Infelizmente, minha querida, não há nada que eu possa fazer. Se houvesse, creia-me que o faria sem titubear. Lucena engoliu os soluços e continuou:
- E Blanca?
- Ela é a causa dessa situação. Não se esqueça de que seu pai só foi preso por se envolver com uma moura.
- Mas quem disse que ela é moura? De onde foi que surgiu essa história?
Miguez suspirou e contou-lhe tudo o que sabia sobre a procedência de Blanca, o que deixou Lucena deveras impressionada. Sabia que seu pai tinha negócios em Granada
e até já ouvira falar num tal de Hamed Kamal. Mas jamais poderia suspeitar que ele tivesse uma filha, que essa filha fosse Blanca e que seu pai estivesse apaixonado
por ela. Ainda assim, não via motivos para fazerem o que fizeram a ambos. Não eram criminosos, e só porque Blanca provinha de uma linhagem oriental não significava
que fosse ruim ou herege.
- Não é possível salvá-la? - indagou com fraca esperança.
- Ao menos ela?
- Minha querida, se Blanca confessar, será a primeira a morrer. Não só porque descende de mouros, mas também porque aliciou seu pai para que traísse a verdadeira
fé católica. Por isso, esqueça Blanca. Ela não tem salvação.
- Mas prometi a meu pai...
- Concentre-se em Giselle. É através dela que poderá vingar os dois. E estará cumprindo a sua promessa, de um jeito ou de outro.
- E os meus bens? Monsenhor Navarro está confiscando todas as minhas propriedades. Em breve, estarei na miséria.
- Não se preocupe com isso. Verei o que posso recuperar. E depois, Giselle é uma mulher rica.
- E daí?
- Ao longo de todos esses anos, vem prestando valorosos serviços a monsenhor Navarro, dividindo com ele o patrimônio dos condenados.
- E tudo poderá ser meu! - um brilho estranho perpassou os olhos de Lucena, e ela se levantou excitada. - Depois que Giselle for presa, sob a sua orientação, você
poderá dar um jeito de transferir-me tudo o que lhe pertence.
- É o que quer?
- É claro. Quero tudo o que é dela. Inclusive sua alma.
- Você a terá. Farei o possível e o impossível para conseguir-lhe isso.
- E monsenhor Navarro? Não disse que ela é sua protegida?
- Monsenhor Navarro nada poderá contra as irrefutáveis provas de heresia que apresentarei contra ela. Nem ele se atreverá a defendê-la diante de tanto sacrilégio.
- Em que está pensando?
- Sei que Giselle anda metida com bruxarias...
- Meu Deus, que horror!
- Sim, é um horror, mas vai nos ajudar. Quando descobrir onde é que ela faz os seus trabalhinhos de magia, tratarei de prendê-la. Não vai ser difícil, você vai ver.
- Oh! Padre, nem sei como lhe agradecer!
Olhos brilhando de sensualidade, Miguez finalizou com voz vibrante de desejo:
- Volte amanhã, minha querida. Há mesma hora.
Quando Lucena saiu dos aposentos de padre Miguez, o dia já estava quase amanhecendo e, em breve, toda a abadia já estaria desperta. Ele se despediu dela a contragosto
e foi deitar-se, pensando em dormir ainda por algumas poucas horas. Mas não conseguiu conciliar o sono, de tanto pensar em Lucena. Subitamente, percebeu que não
ansiava só pelo seu corpo. Gostava de estar junto dela apenas para poder desfrutar de sua companhia. Aquilo era novo para ele. Miguez jamais havia sentido a falta
de nenhuma mulher. Mas então, por que pensava tanto em Lucena? A resposta deixou-o estarrecido. Não queria apenas dormir com ela. Queria para sempre estar a seu
lado. Porque a amava. Pela primeira vez em sua vida, Miguez sentiu que amava uma mulher.
O sol já ia alto quando Miguez escutou fortes batidas invadindo seu quarto. O som vinha à distância, e ele pensou que ainda estava sonhando. Aos poucos, porém, as
batidas foram se intensificando, e percebeu que havia alguém à porta. Abriu os olhos lentamente e olhou para a janela. Apesar de fechada, podia ver o sol se insinuando
pelas frestas. Pigarreou diversas vezes, cocou a barba por fazer e ergueu-se com dificuldade, caminhando para a porta a passos vagarosos.
- Já vou, já vou! - esbravejou, ante as batidas cada vez mais insistentes.
Abriu a porta de chofre e deu de cara com Juan, que o olhava espantado.
- Padre Miguez, perdoe-me. É que monsenhor está preocupado. O senhor não apareceu ao desjejum, e ele mandou-me para ver se está tudo bem. Está tudo bem?
Juan tentava olhar por cima de seus ombros, para ver se havia alguma mocinha ali com ele. Mas Miguez se colocou à sua frente, impedindo-lhe a visão, e retrucou de
mau humor:
- Diga a monsenhor Navarro que já irei ter com ele.
Fechou a porta na cara de Juan e voltou para dentro. Já eram quase nove horas, tarde demais para a abadia. Precisava arranjar uma desculpa para seu atraso. Arrumou-se
às pressas e foi ter com Esteban, que já o aguardava para irem juntos ao Tribunal.
- Miguez! - exclamou o outro, com genuína preocupação ao ver as profundas olheiras que lhe sulcavam a face. - O que houve meu amigo?
Miguez sentiu uma pontada de remorso. Esteban gostava muito dele e era realmente seu amigo. Sua aflição era sincera, e ele quase desistiu de seu plano de apanhar
Giselle. Mas logo se recuperou. A visão de Lucena e a certeza de que faria um bem ao outro lhe deram ânimo, e ele tornou, ainda com certa sonolência:
- Perdoe-me, Esteban, dormi demais. É que não passei bem à noite. Acho que foi algo que comi.
- Sente-se melhor agora?
- Sim... Não foi nada, já passou. Apenas um leve mal-estar, uma indisposição. Nem consegui comer nada ao desjejum.
- Não se esqueça de que hoje teremos outro auto-de-fé. Será que conseguirá comparecer?
- É verdade... Havia mesmo me esquecido.
- Hoje serão quatro executados. Três homens e uma mulher. Todos de padre Valentim. O processo inquisitório foi um sucesso, e os quatro confessaram...
Miguez já não ouvia mais o que ele dizia. Seu estômago doía, mas de fome, e ele teve que fingir que não sentia nada. Precisava sustentar sua mentira. Além disso,
pensava em Lucena. Ela era linda e pura, e ele se reconhecia apaixonado.
Enquanto conversavam, Juan não perdia uma palavra do que diziam. Padre Miguez estava muito esquisito, alheio, sonhador. Tinha certeza de que ele passara a noite
com uma mulher. Mal-estar, pois sim! Podia apostar que padre Miguez estivera com alguém. Não vira nem ouvira nada, mas sua intuição lhe dizia que havia algo errado
naquela história.
Durante todo o dia, não voltaram a tocar no assunto. Era domingo, dia de execução, e todos estavam por demais ocupados, principalmente Esteban. Recebera a incumbência
de substituir o inquisidor-geral, ausente em mais uma de suas muitas viagens a Madri. Ao final do auto-de-fé, Miguez pediu licença para se retirar. Estava muito
cansado e precisava de repouso. Dormiu o resto da tarde e não apareceu para o jantar.
- Quer que vá chamá-lo, monsenhor? - indagou Juan, todo solícito.
- Não, Juan, deixe-o descansar. Ou melhor, prepare uma bandeja e leve a seus aposentos. Deve estar com fome.
Depois que terminou de comer, Juan fez como Esteban lhe ordenara. Preparou a bandeja e foi levá-la a padre Miguez. Como de manhã, teve que bater diversas vezes até
que ele viesse atender. Miguez abriu a porta com brusquidão e já ia dar uma bronca em Juan, que tratou logo de se justificar:
- Perdoe-me, padre, mas foi o monsenhor quem me mandou aqui. Pensou que talvez estivesse com fome.
Estendeu-lhe a bandeja, e Miguez chegou para o lado, mandando-o entrar. Juan pousou a bandeja sobre a mesinha, fez uma reverência e saiu. Miguez estava com fome.
Por causa de sua mentira, fora obrigado há passar o dia praticamente em jejum. Nem sabia por que Esteban lhe mandara aquela comida, mas sentiu-se confortado e comeu
tudo.
Como o dia fora particularmente exaustivo, Esteban apareceu mais tarde, apenas para ver como ele estava passando. Ficou alguns minutos e foi para seus aposentos.
Também queria descansar. Por volta das dez horas, a abadia já estava em silêncio. Juan esperou até ouvir os roncos de Esteban, que dormia no quarto contíguo, levantou-se
e foi espiar. O cardeal dormia a sono solto.
Pé ante pé, abriu a porta e meteu a cabeça para o lado de fora. Olhou de um lado para outro no corredor às escuras. Nem sabia por que estava fazendo aquilo, mas
algo lhe dizia que alguma coisa iria acontecer. Os espíritos a serviço de Giselle o estavam intuindo e direcionando. Giselle precisava saber da nova amizade entre
Lucena e Miguez, e Juan era o único que poderia descobrir este fato.
Com a porta entreaberta, Juan sentou-se no chão e pôs-se a esperar, cochilando de vez em quando. Já era quase meia-noite quando sentiu, mais do que ouviu, alguém
chegar pelo corredor. Ergueu-se parcialmente e espiou. Viu quando um vulto negro se aproximou do quarto de padre Miguez, e a porta logo se abriu. Juan esperou alguns
minutos e foi até lá, sem fazer qualquer ruído. Ouvido colado à porta escutou vozes no interior. Não conseguia perceber o que diziam, mas sabia que a outra voz era
de uma mulher. De vez em quando, as vozes se elevavam, e ele ouvia algumas palavras soltas: meu pai... Vingança... Giselle...
Ao ouvir o nome de Giselle, Juan apurou ainda mais os ouvidos. Teria sido mesmo o nome de sua amada que ouvira dos lábios de outra mulher? Mas quem seria aquela
mulher e por que falava em Giselle? Seria mesmo a sua Giselle ou outra? Cada vez mais curioso, tentou espiar pelo buraco da fechadura, mas, à meia-luz, era-lhe difícil
identificar a mulher.
Depois de algum tempo, as vozes se aproximaram da porta, e Juan fez menção de fugir. Se padre Miguez o surpreendesse ali, seria o seu fim. Os espíritos a seu lado,
porém, cuidaram para que ele permanecesse, enchendo-o de coragem e determinação, ao mesmo tempo em que trataram de levar Miguez e Lucena para perto da porta, sem
que ele a abrisse.
Agora mais confiante Juan encostou novamente o ouvido à porta. As vozes soaram mais nítidas, e o noviço escutou claramente o que diziam:
- Você prometeu ajudar!
- E o que estou fazendo.
- Não está! Não o bastante. Meu pai continua preso naquela masmorra infecta, enquanto Giselle anda por aí, espalhando sua luxúria para destruir homens de bem!
- Tenha calma, Lucena.
Do lado de fora, Juan afastou-se aterrado, abafando um grito de horror. Lucena? Então aquela era a filha de dom Fernão e parecia estar de caso com padre Miguez!
Aquilo era extremamente perigoso. Aquela moça, pelo visto, já descobrira quem delatara o pai e tinha fortes motivos para odiar Giselle. E fora aliar-se justo a padre
Miguez, que vivia à espera de uma oportunidade para destruí-la. Precisava apressar-se e contar tudo a Giselle.
Somente na noite seguinte foi que Juan conseguiu despistar Esteban e ir à casa de Giselle. Mas já era tarde, e foi informado por Belinda que Giselle estava na taverna
e só voltaria ao amanhecer. Não tinha remédio. Precisava ir ao seu encontro na taverna mesmo. Envergou um manto negro e partiu apressado.
Quando entrou, Manuela dançava sobre a mesa, tendo a seus pés diversos homens, que gritavam e aplaudiam. Não viu Giselle e sentou-se para esperar. Sanchez foi caminhando
em sua direção, mas Manuela já havia parado de dançar e descera da mesa, alcançando-o primeiro.
- Olá, rapazinho - cumprimentou ela, apertando-lhe o queixo. - O que faz aqui à uma hora dessas? Não devia estar na cama?
Juan afastou a mão dela com irritação e indagou exasperado:
- Onde está à senhorita Giselle?
Encarando-o com certa ternura, Manuela respondeu com ar materno:
- Sabe mocinho, não tenho nada com sua vida, mas vou dar-lhe um conselho: esqueça Giselle. Ela não é mulher para você.
Juan sentiu o rosto arder, e a raiva foi tomando conta de seu peito. Encarou Manuela com ódio e disparou:
- O que você tem com isso? Não tem nada com a minha vida nem com a de Giselle. Você tem é inveja dela.
Manuela ergueu o corpo e deu de ombros, acrescentando com frieza:
- Pense como quiser. Mas depois, não diga que não avisei. Giselle só tem olhos para Ramon...
- É mentira!
Nesse momento, Giselle e Ramon vinham vindo lá de dentro. Percebendo o ar exaltado de Juan, a moça fez sinal para Ramon, que se afastou, sob o olhar hostil do noviço.
Manuela, por sua vez, deu de ombros novamente e foi servir as mesas do outro lado.
- Muito bem, Juan - falou Giselle sedutora. - O que o traz aqui dessa vez?
Juan procurou Ramon com os olhos, mas não o encontrou e respondeu taciturno:
- Aquele é Ramon?
- É sim. Por quê? Quem foi que lhe contou?
- Sua nova dançarina. A intrometida.
- É mesmo? - tornou Giselle irritada. - O que mais ela lhe disse?
- Disse que você só tem olhos para Ramon.
- Ela deve estar com ciúmes. Afinal, você é um rapaz bonito...
Sentou-se a seu lado e pousou a mão sobre o seu joelho, fazendo-lhe uma carícia discreta. Juan enrubesceu e quase caiu da cadeira, enquanto Giselle o fixava com
um olhar cada vez mais sedutor.
- Giselle, eu... Eu...
- Não precisa ficar nervoso. Agora me diga. Tem alguma novidade para me contar?
Rosto coberto de rubor, Juan aquiesceu, o que causou certo sobressalto em Giselle. Embora mantivesse o noviço sob seu controle, confiava na palavra de Esteban de
que nada lhe aconteceria. Em silêncio, apanhou a sua mão e puxou-o para dentro, indo com ele para o quarto que ficava nos fundos da taverna. Acomodou-o numa cadeira
e sentou-se na mesa, balançando as pernas diante dele e fazendo com que o vestido se levantasse propositalmente até a altura dos joelhos.
Juan não conseguia despregar os olhos das pernas de Giselle. Por mais que tentasse, havia nela um magnetismo que o atraía cada vez mais.
- Muito bem, Juan. Agora me conte o que aconteceu.
Prolongando-se o mais que pôde, Juan lhe contou sobre a visita da mulher a padre Miguez, que descobrira ser Lucena, filha de dom Fernão. Giselle ficou alarmada.
Todos os seus sentidos se aguçaram, e ela teve certeza de que aquela amizade seria extremamente perigosa, não só para ela, mas também para Ramon. Se Lucena soubesse
que Ramon a deixara por ela, seu ódio seria ainda maior.
- Por favor - implorou Juan -, não diga nada a monsenhor Navarro. Se ele descobrir que fiquei escutando, vai me castigar.
- Não se preocupe, não pretendo dizer nada. E agora vá. Preciso pensar no que fazer.
Juan se levantou timidamente e ficou parado diante dela, pensando no que lhe dizer.
- Senhorita Giselle... - balbuciou.
- O que foi?
- Sabe o quanto gosto de você, não sabe?
- Sei sim.
- E você disse que também gostava de mim...
- Ah! Mas eu gosto.
- Não está apenas me usando?
- Eu? Imagine Juan. Gosto de você. Só que não quero prejudicá-lo.
- Então, afaste-se desse tal de Ramon.
Aquele era um terreno perigoso. Juan morria de ciúmes de Ramon e, se descobrisse quem ele era, poderia traí-la e colocá-los em sério risco. Precisava fazer alguma
coisa. Ao invés de responder, desceu da mesa e aproximou-se dele. No mesmo instante, o coração de Juan disparou. Calmamente, Giselle apanhou a sua mão e levou-a
aos lábios, puxando-o para si com ar de paixão. Beijou-o com ardor, e Juan tentou fugir. Mas Giselle não permitiu. Com mãos hábeis, pôs-se a acariciar o seu corpo
todo, até que ele não pôde mais resistir. Juan agarrou-a com volúpia e levou-a ao chão, desajeitadamente deitando-se sobre ela. Auxiliado por Giselle, Juan teve
sua primeira noite de amor. Se antes já estava apaixonado por ela, agora, então, sentia que não poderia mais prescindir de seu corpo.
- Agora volte, para a abadia - falou Giselle, ao mesmo tempo em que o beijava. - Não queremos que Esteban dê pela sua falta, não é?
- Não... - calou-se envergonhado. - Posso vir vê-la amanhã?
- É perigoso.
- Darei um jeito.
- Não sei se seria prudente.
- Por que não quer que eu venha?
- Não é isso...
- É por causa de Ramon?
- Esqueça Ramon. Ele é apenas um amigo.
- De onde foi que surgiu esse amigo tão repentino?
- Não interessa. Ramon é meu amigo e pronto. Não é como você.
- Como eu?!
- Você é o meu menino, meu amor. Mas agora deve ir.
A muito custo conseguiu convencê-lo. Apesar de contrariado, Juan se foi, morto de ciúmes. Vendo-o afastar-se no fim da rua, Ramon voltou para a taverna. Ficara do
lado de fora, à espera que o rapaz saísse, para não lhe despertar ainda mais ciúmes.
- Puxa! - exclamou, fechando a porta do pequeno gabinete onde Giselle se encontrava. - Pensei que ele não fosse mais embora!
Percebendo a cara de preocupação de Giselle, Ramon estacou alarmado.
- Você nem pode imaginar o que aconteceu.
- O que foi?
Ao saber que sua ex-noiva estava se encontrando com padre Miguez e que pretendia vingar-se de Giselle, Ramon sentiu um frio na espinha. Sabia que ela não era mais
virgem, e tornar-se amante de Miguez era apenas questão de tempo. Quando descobrisse a verdade, não hesitaria em liquidá-los.
- Esteban está do nosso lado - Giselle procurou tranqüilizar. - Eu acho...
- Então, sugiro que vá falar com ele.
- Farei isso.
Ainda que Juan lhe pedisse que não contasse nada a Esteban, ela não podia permitir que Miguez tramasse a sua destruição junto com aquela Lucena, que ela sequer conhecia.
Precisava agir antes deles. Padre Miguez era influente, mas Esteban era muito mais. Encontraria um jeito de protegê-la.



CAPÍTULO 15



Esteban conversava animadamente com um rapaz recém-chegado. Alto, moreno claro, olhos castanhos suaves, tipo galante e sedutor. Tratava-se de seu sobrinho, Diego
Morales, que acabara de chegar de Madri. Diego era filho de sua única irmã, Marieta, que o mandara para Sevilha devido a complicações financeiras. O rapaz tinha
um temperamento estouvado e vivia se metendo em encrencas. Marieta, uma respeitável senhora viúva, já não sabia mais o que fazer com ele, e uma viagem a Sevilha,
aos cuidados do tio cardeal, pareceu uma boa saída para seus problemas.
- Então, Diego - dizia Esteban, segurando nas mãos a carta que a irmã lhe enviara -, continua fazendo das suas, hein, meu rapaz?
- Pois é, tio. Para o senhor ver.
- Quando é que vai tomar juízo? Sua mãe já não sabe mais o que fazer com você.
- Na verdade, tio Esteban, mamãe se preocupa demais. Não fiz nada.
- Não é o que ela conta aqui na carta. Sua mãe diz que você leva uma vida desregrada e está se enchendo de dívidas. O que espera da vida, meu filho?
- Minha mãe exagera. Eu apenas gosto de gozar a vida, e não há motivos para alarme. Meu pai nos deixou muito bem, embora minha mãe controle todo o nosso patrimônio.
- Tem se ausentado muito. Sua mãe se preocupa...
- Pois não devia. Ela sabe aonde vou.
Esteban balançou a cabeça, contrariado. Aquele rapaz não tinha juízo algum. Já estava beirando os trinta anos e não se emendava. Bem fizera o pai quando constituíra
aquele usus et fructus(1) em favor da esposa. Não fosse assim, Diego, na certa, já teria dilapidado todo o patrimônio da família. Ao menos, com o gravame, ele só
poderia livremente dispor dos bens após a morte da mãe.

Usus et fructus = do latim, usufruto (N.A.)

- Você não se emenda, rapaz - repreendeu Esteban severamente.
Diego já ia retrucar quando bateram à porta e Juan entrou a cara mais branca do que nunca.
- O que é Juan? Por que nos interrompe assim?
Sem que tivesse tempo de responder, Giselle empurrou-o para o lado e entrou apressada, postando-se diante de Esteban. Sem nem se dar conta do ar embasbacado de Diego,
foi falando em tom nervoso:
- Preciso falar-lhe, Esteban. É urgente!
- Giselle! - tornou Esteban aparvalhado, com medo do que o sobrinho pudesse pensar. - Como se atreve?
Só então Giselle se apercebeu da presença do rapaz. Estacou abruptamente e olhou para ele. Na mesma hora, Diego se empertigou todo e foi logo dizendo:
- Não se preocupe comigo, meu tio. Já estava mesmo de saída.
Vou dar uma volta por aí com Juan e depois conversaremos. Mas antes, por que não me apresenta a beldade?
Confuso, Esteban se levantou e apanhou Giselle pelo braço, conduzindo-a para a porta.
- Monsenhor! - a suplicou. - Espere! Não faça isso! Preciso falar-lhe! É urgente!
- Ora, ora, meu tio, mas o que é isso? - ironizou Diego. - Isso não é jeito de tratar uma dama. Deixe que me apresente senhorita. Chamo-me Diego Morales, a seu dispor.
Fez uma reverência galante, que Giselle teria até apreciado em outros tempos. Contudo, dada a gravidade da situação, não se podia dar ao luxo de reparar naqueles
gracejos.
- Por favor, monsenhor - tornou ela, sem responder à apresentação de Diego.
- Ora, vamos, meu tio, fale com a moça. Como é mesmo o seu nome?
- Giselle - respondeu ela, timidamente.
- Giselle... Soa como nome de princesa. Lindo, tal qual a dona.
- Diego, por favor, pode nos deixar a sós? - tornou Esteban com voz grave. - Creio que a senhorita Giselle deve ter algo importante a me dizer.
- Pois não, meu tio. Seria mesmo muita indelicadeza de sua parte não atender ao apelo de tão formosa dama.
Fez nova mesura e saiu, passando por Juan, que permanecia parado no mesmo lugar, sem dizer nada.
- E você, Juan? - continuou Esteban, mal contendo o nervosismo. - O que está esperando?
Juan ainda lançou um último olhar para Giselle, que não passou despercebido a Esteban. Desde aquela noite em que ele delirara, Navarro estava certo de seus sentimentos
para com sua ex-amante. Será que os dois andavam se encontrando? Mas Giselle lhe dissera que estava apaixonada por Ramon de Toledo. O que estaria acontecendo?
Depois que Juan e Diego se foram, Esteban soltou o braço de Giselle e indagou com extrema contrariedade e irritação:
- O que deu em você, Giselle? Já não disse que não viesse mais aqui? Não quero que os padres comentem...
- Foi por isso mesmo que vim. Por causa de um padre. De padre Miguez!
- O que quer dizer?
- Não sei se você sabe, mas padre Miguez está se encontrando com Lucena Lopes de Queiroz, filha de dom Fernão.
Esteban abriu a boca, indignado, e retrucou sem acreditar:
- O que está dizendo, mulher? Por acaso você enlouqueceu?
- Não enlouqueci, não. Juan escutou tudo...
- Juan?
- Sim. Ele viu quando Lucena foi ao quarto de padre Miguez e ouviu os dois tramando contra mim.
- Tramando contra você? Mas como?
- Ela me odeia Esteban. Já deve saber que fui eu que delatei o seu querido paizinho. E está de caso com Miguez. Ele me odeia também. Já pensou no que os dois podem
fazer contra mim, ainda mais se descobrirem sobre meu envolvimento com Ramon?
Esteban silenciou. Fazia sentido. No dia em que Lucena fora procurá-lo, implorando para que salvasse a vida de seu pai, Miguez quase a derrubara com a porta. Depois
que ela se foi, ele saiu às pressas, provavelmente atrás dela. Navarro conhecia muito bem a fraqueza de Miguez. Lucena era uma jovem linda e fresca, provavelmente
virgem, e era bem provável que Miguez estivesse louco para se deitar com ela.
Pensando nisso, levou as mãos à cabeça e desabou sobre a poltrona, fitando Giselle com um misto de medo e piedade. Naquele momento, foi acometido de estranha sensação.
Sentiu um aperto no coração, um estrangulamento na garganta, e foi como se previsse o seu fim. Giselle estava condenada, ele sabia, embora relutasse em aceitar.
- Tem certeza disso? - tornou ele, após o susto do primeiro impacto.
- Tenho. Foi o próprio Juan quem me contou.
- Por que ele fez isso? Por que Juan foi até você? - como ela permanecesse calada, ele mesmo respondeu: - Porque o tolo está apaixonado, e você sabe se aproveitar
disso, não é?
- Não é bem assim...
- Fique longe de Juan, Giselle, eu lhe imploro. O rapaz é inexperiente, pensa que está apaixonado.
- Mas eu não estou.
- Por isso mesmo. Por que enganá-lo? Ele sabe que você pretende se casar com Ramon?
- Não.
- Tampouco desconfia que Ramon fosse noivo de Lucena, não é?
- Não.
- Só eu sei disso. Vocês dois correm sério perigo. É bom que se separem.
- Não posso fazer isso! Você prometeu Esteban. Prometeu que eu me casaria com ele.
- O que você prefere? Casar-se com Ramon ou continuar viva? - ela abaixou os olhos e começou a chorar. - Deixe tudo por minha conta e faça exatamente como eu mandar.
- O que vai fazer?
- O que já deveria ter feito há muito tempo. Arranjar o seu casamento com dom Solano Díaz o quanto antes. Ele é um homem acima de qualquer suspeita.
- Por favor, Esteban, não faça isso. Não posso me casar com outro homem que não seja Ramon.
- Será que você não entende? Está claro que Miguez e Lucena estão tramando contra você. Se eles descobrirem sobre você e Ramon, farão de tudo para destruí-la. E
se Miguez começar a investigar e acabar descobrindo o seu pequeno porão será o seu fim. Nem eu, com toda a minha influência, poderei ajudá-la.
Giselle desatou a chorar descontrolada. Não queria se casar com aquele Solano Díaz, mas também não queria morrer. Precisava salvar-se e salvar Ramon.
- Está certo, Esteban - concordou em lágrimas. - Confio em você e sei que fará o melhor por mim.
- Ótimo! Agora vá para casa e aguarde até que eu mande chamá-la. E diga a Ramon para desaparecer.
- Mas...
- Se você o ama, faça isso. Diga-lhe para sumir e nunca mais tornar a vê-la. Caso contrário, ambos estarão perdidos.
Com o coração pequenininho, Giselle voltou para casa. Ramon ainda estava dormindo, e ela deitou-se a seu lado, completamente arrasada. Sentindo o calor de seu corpo,
Ramon despertou e abraçou-se a ela, tentando fazer com que se deitasse ao seu lado.
- Por favor, Ramon...
Ele esfregou os olhos e empertigou-se na cama, indagando entre bocejos:
- O que foi que houve? Você está toda arrumada. Vai sair? Vai ver monsenhor Navarro?
- Já fui.
- Falou com ele?
- Falei sim.
Minuciosamente, Giselle contou-lhe a conversa que tivera com Esteban. Apesar de não ficar nada satisfeito com o casamento, Ramon acabou concordando que, naquele
momento, seria a melhor solução.
- Como pode dizer isso? Vamos nos separar.
- Nada poderá nos separar. Vamos continuar nos encontrando, só que às escondidas.
- Amante você quer dizer?
- E por que não? Não vai me dizer que adquiriu escrúpulos, de uma hora para outra.
- Mas não foi isso o que planejamos!
- Também não estava nos nossos planos esses casinho entre Lucena e o tal padre - fez uma pausa e continuou em tom sério. - Muito menos planejamos morrer.
- O que faremos?
- Você se casa com esse Solano, e eu continuo tomando conta da taverna com Manuela...
- Isso não! Vou despedir Manuela. Não quero deixá-la a sós com você.
- Não seja ciumenta. Sem você e sem Manuela, por que acha que os homens continuariam indo à taverna? Para me ver?
- Manuela está interessada em você, e sei o quanto você também a admira. Sem mim por perto, não sei o que poderá acontecer.
- Deixe de tolices. A taverna é uma excelente fonte de renda. Não gostaria de perdê-la.
- Não precisaremos mais dela. Meu futuro marido é um homem rico...
- E daí? É rico, mas o dinheiro é dele, não meu.
- Poderá ser seu um dia.
- Não vejo como... - calou-se, espantado com seus próprios pensamentos. - Pensando bem, homens ricos deixam viúvas ricas, minha querida. Não é verdade?
Uma nuvem de desconfiança passou pela cabeça de Giselle, e ela rebateu curiosa:
- No que é que está pensando, Ramon?
- Tudo há seu tempo, meu bem. Por ora, case-se com Solano e deixe-me com a taverna. Mais tarde, depois que tudo se acalmar, daremos um jeito nele.
Daquele dia em diante, Ramon nunca mais apareceu na taverna. Ia à casa de Giselle pela floresta e entrava pelo porão sem ser visto. Seria assim até o casamento e
depois dele. Não podiam mais ser vistos juntos e não pretendiam deixar-se apanhar. Giselle estava esperançosa, confiante em Esteban. Mais um pouco e conheceria seu
futuro marido, com quem se casaria e de quem, algum tempo mais tarde, se tornaria a infeliz viúva.
Com tantas coisas acontecendo, Giselle não poderia permanecer inerte, à espera de ser presa ou surpreendida. Com cuidado, aprontou tudo de que precisava. Faria um
poderoso trabalho de bruxaria, invocando os espíritos das trevas para que cuidassem de tudo. Levava-lhes sete carneiros, que imolaria em seu novo altar, montado
em um lugar ainda mais afastado da floresta, onde a mata se tornava mais densa e a lua mal penetrava.
Chamou Belinda e Belita e mandou que segurassem os cordeiros. Colocaram em uma bolsa vários objetos, como raízes, dentes de animais e até de pessoas, além de alguns
ossos e uma caveira, que guardava para ocasiões especiais. Pena que não conseguira nada de uso pessoal de Miguez e de Lucena, para trabalhar bem com suas próprias
energias. Mas não fazia mal. O resultado seria o mesmo.
As escravas a serviam sem dizer nada. Em sua terra, já haviam visto muitos feitiços e conheciam bem aqueles procedimentos. Como das outras vezes, Giselle sacrificou
os animais e chamou os espíritos das sombras, que já estavam a postos, prontos para sugar o sangue dos cordeiros. Giselle matou seis carneiros e ajeitou-os em círculo,
com as bacias na frente, colocando no meio a caveira com os demais objetos. Em seguida, tornou a evocar os espíritos, proferindo os nomes de Miguez e Lucena várias
vezes. Já quase em transe, apanhou o sétimo carneiro e, auxiliada pelas escravas, sacrificou-o sobre a caveira e os ossos e, enquanto o sangue escorria, apanhou
um pedaço de papel e nele escreveu, com o sangue do animal, os nomes completos de Miguez e Lucena. Depois, retiraram de uma sacola dois bonecos de pano e colocou-os
sobre cada um dos nomes que havia escrito, lambuzando-os de sangue também.
Os espíritos ao redor exultavam. A matança instigara-lhes os instintos mais primitivos, e eles pareciam embriagados de tanto prazer. Giselle serviu-lhes rum também,
e eles puseram-se a sugar a essência da bebida, juntamente com a do sangue. Quem pudesse ver o mundo astral pensaria estar diante de tenebrosa orgia. Alguns espíritos
se entregavam mesmo a práticas lascivas, esfregando corpos, acariciando-se com euforia, fazendo sexo sobre o sangue derramado dos cordeiros.
Giselle podia sentir a poderosa energia que afluía para o ambiente e permanecia parada diante do altar macabro, proferindo estranhas palavras em uma língua desconhecida.
Belita e Belinda, embora nada dissessem, estavam apavoradas, sentindo que uma força maligna tomava conta da floresta. Olharam para Giselle e perceberam que ela estava
em transe, fazendo gestos vibrantes e obscenos.
Em dado momento, Giselle tombou ofegante, o corpo todo sacudido pelas últimas vibrações dos espíritos que para ali acorreram. Lembrava-se vagamente do que acontecera
porque, nessas ocasiões, sentia a mente tomada por estranha força e parecia perder o domínio sobre si mesmo. Mas sabia que a oferenda havia sido bem aceita. Podia
sentir a satisfação dos espíritos das sombras.
- Se vocês fizerem o que pedi - fremiu Giselle, a voz vibrante de ódio e excitação -, prometo-lhes muito mais! Prometo arranjar-lhes o sangue daqueles dois! De Miguez
e de Lucena!
Belita e Belinda sentiram um calafrio e se encolheram sem coragem para dizer nada. Esperaram até que Giselle terminasse a sua magia e as chamasse, e as três partiram
para casa em silêncio. Durante todo o caminho de volta, Giselle sentia que alguém a observava. De vez em quando, parava e olhava para trás, pensando surpreender
algum bandido ou malfeitor. Mas ninguém apareceu, e ela chegou à casa assustada, presa de estranha sensação. As escravas pareciam não haver notado nada, porque não
esboçaram nenhuma reação, e Giselle achou melhor se calar. Devia ser impressão.
Foi para seu quarto, deitou-se e logo adormeceu. No mesmo instante, seu perispírito se desprendeu do corpo, e ela se surpreendeu com a presença do pai ali a seu
lado. Envergonhada, não se aproximou, tentando retornar ao corpo e despertar.
- Por que faz isso, Giselle? - o indagou com profunda tristeza. - Por que não utiliza os seus conhecimentos na prática do bem?
Coberta de vergonha, ela parou perto da cama e se voltou para ele bruscamente, os olhos rasos d'água.
- Mas que bem é esse de que fala pai? Desde quando o mundo trabalha para o bem?
- Desde que existam pessoas amorosas e de boa-vontade.
- Isso não existe. O mundo é cruel, mesquinho, perverso. Você sabe disso.
- Não é verdade. O mundo nada mais é do que um reflexo dos espíritos que o habitam. No momento em que os homens modificarem suas atitudes, o mundo também se modificará.
- O que você fala é muito bonito. Mas acontece que ninguém é desse jeito. Até hoje, só conheci pessoas más e egoístas.
- Será mesmo, minha filha? Será que eu também sou assim?
- Você não é mais ninguém. É apenas uma sombra.
- Sou um espírito eterno, assim como você.
- Você não habita mais este mundo.
- Assim como você, em breve, também não mais habitará.
- Está blefando! Nada vai me acontecer. Fiz um trato com os espíritos das trevas.
- Os espíritos das trevas nada podem contra a poderosa força da vida e a escolha da morte.
- Não quero morrer, pai.
- No momento em que se envolveu com toda essa magia, você selou a hora de sua morte. Embora não saiba, sua alma já está cansada de tanta podridão.
- No fundo, você tem razão. Estou mesmo cansada de tudo isso. Queria viver em paz com Ramon, mas aqueles dois cretinos não permitiram.
- Ninguém pode viver em paz não tendo paz na consciên¬cia.
- Minha consciência não me acusa de nada.
- Não? E os muitos que você levou à morte?
- Não fui eu. Não matei ninguém.
- Será que os que morreram também pensam assim?
- Isso não me interessa.
- Eles estão por aí, Giselle. A maioria desses espíritos continua presa ao mundo corpóreo, sem conseguir perdoar, em busca de vingança. E sabe o que vai acontecer
quando você desencarnar? Você vai sintonizar com eles e ser arrastada para o astral inferior, sem nem perceber os espíritos de luz à sua volta. É isso o que deseja?
- Não me importo. Deve ser melhor do que o céu onde você se encontra.
- Diz isso porque ainda não experimentou a verdadeira dor. Nada do que acontece nesse mundo pode se comparar às torturas que os espíritos inferiores são capazes
de infligir. E sabe por quê? Porque eles não têm limites. No mundo invisível não há o limite da carne ou da morte, e por mais que se faça a um espírito, ele nunca
poderá morrer e se libertar. Mesmo que se desintegre enquanto ser humano, mesmo que perca as formas e se transforme numa massa disforme e sem consciência, ainda
assim estará em sofrimento, porque continuará vivo.
- Tenho amigos nas trevas, pai. Eles não permitirão que isso me aconteça.
- Ninguém tem amigos nas trevas. A amizade pressupõe nobreza de sentimentos, e os que assim sentem já estão prontos para deixar o astral inferior. O que há nas trevas
é interesses. Os espíritos se ligam por afinidade de propósitos, por interesse, mas não pelo sentimento de amizade.
- Ainda assim. Posso mantê-los presos aos meus interesses.
- Até quando? Até o momento em que não tiver mais como satisfazê-los.
- Isso não acontecerá.
- Isso já está para acontecer.
- Pare com isso! Você não sabe o que diz.
- Ouça o que estou lhe dizendo, Giselle. No momento em que parar de satisfazer aos seus amigos das trevas, eles vão voltar-se contra você...
- Deixe disso, pai. Você não me impressiona.
- Não quero impressioná-la. Quero que você sinta o meu amor e desperte o amor que há dentro de você. O meu amor não toca o seu coração?
Giselle começou a chorar descontrolada. Encarou o pai e pensou em abraçá-lo, mas havia tanta luz emanando de seu corpo fluídico que ela se sentiu ofuscada e recuou.
- Você foi à única pessoa no mundo que me amou de verdade. Por que teve que me abandonar? Se estivesse ao meu lado, talvez nada disso tivesse acontecido.
- Não tente fugir a suas responsabilidades. Não fui eu que a obriguei a enveredar pelo espinhoso caminho do mal.
- Nem eu. Foi o destino...
- O destino, minha filha, somos nós que fazemos, de acordo com aquilo que desejamos e em que acreditamos. E você pode mudar o seu.
- Não posso - retrucou-a em lágrimas, começando a lhe dar razão. - Já estou condenada.
- Quem a condenou? - ela não respondeu. - Você mesma. É você mesma quem está se condenando, porque sua alma tem consciência da gravidade de seus atos. Mas não precisa
ser assim. Você pode endireitar a sua vida e deixar de lado essas práticas nefastas.
- Não, pai. Estou por demais comprometida com as trevas para almejar a luz.
- Não tem que ser assim, Giselle, acredite. Ninguém se compromete a esse ponto com as trevas. Se você demonstrar um arrependimento sincero e se voltar para Deus
com o seu coração, as trevas não terão forças contra você.
- Deus... Não quero nada com Deus, nem ele comigo.
- Não fale assim. Deus nos ama a todos com igualdade.
- Duvido. Deus jamais amaria uma criatura sórdida feito eu.
- Se já tem consciência de sua sordidez, por que não se propõe a mudar? Renuncie a essa vida de prazeres e abra o seu coração para as verdades do espírito.
- Não posso. Não quero. Se mudar significa renunciar, muito obrigada. Estou feliz do jeito que estou, e esteja certo de que os espíritos que me auxiliam não permitirão
que nenhum mal me aconteça, ao contrário de você e do seu Deus, que nunca estão presentes quando preciso!
Virou-lhe as costas furiosa e retornou ao corpo, que estremeceu levemente no sono. Giselle despertou suando frio. Coração descompassado levantou-se e foi beber água.
Ainda podia sentir a presença do pai a olhá-la entristecido. Apanhou a água e bebeu sofregamente. De repente, fixou os olhos num pequeno ponto luminoso perto de
sua cama e deixou o copo cair ao chão, nem sentindo a ponta dos cacos que voavam sobre seus pés.
Do outro lado do quarto, uma claridade foi se formando, e Giselle viu nitidamente a figura paterna. Semblante triste, envolto num halo de luz, Ian balançou a cabeça
e voltou-lhe as costas, sumindo pela parede. Atrás dele, um rastro de luminosidade foi se esvanecendo no ar.
Aturdida, Giselle correu em sua direção. Tarde demais. A imagem já havia sumido por completo, e apenas o que restou foi à parede fria de pedra. Aos prantos, Giselle
fechou as mãos e começou a dar murros na parede, ao mesmo tempo em que desabafava sentida:
- Pai! Pai! Não me deixe! Por favor, pai, perdoe-me! Perdoe-me!
A voz foi morrendo na garganta, e Giselle deslizou até o chão, corpo sacudido pelos soluços, até novamente adormecer, encostada na parede, e esquecer o sonho e a
oportunidade que o pai, tão amorosamente, lhe oferecera.



CAPÍTULO 16


Naquela noite quando Lucena chegou à abadia, encontrou Miguez acabrunhado e triste, mal conseguindo levantar os olhos para encará-la.
- O que foi que houve? - a indagou preocupada.
Após alguns breves minutos de silêncio, Miguez fitou-a com profunda tristeza e deixou escapar num desabafo:
- É o seu pai...
- Está morto?
- Ainda não. Mas não tarda.
- Meu Deus, padre, o que foi que aconteceu?
- Foi difícil obter-lhe a confissão. Mas Esteban, finalmente, conseguiu. Seu pai já nem raciocina mais direito, fala coisas sem nexo. Acho que sua mente já não funciona
direito, após sucessivas sessões de tortura da gota (2).

(2) - Tortura da gota = espécie de caixa d'água, sob a qual se prendiam as vítimas, e de onde caíam gotas d'água que acertavam sempre o mesmo ponto da nuca. (N.A.)


Lucena começou a chorar descontrolada, atirando-se nos braços de Miguez. Naquele momento, a compaixão do padre foi genuína, e ele, afagou os seus cabelos,
sentindo-se inebriado pelo seu perfume. Como a desejava! Mais do que isso, sentia que já a amava e, pensando melhor, talvez a morte de dom Fernão fosse até providencial.
Sozinha no mundo e sem dinheiro, Lucena precisaria de um protetor, e ele poderia então tomá-la livremente por amante.
- Oh! Padre, padre! Preciso vê-lo.
- Você não deve. Ele está condenado. Sua morte é questão de horas.
- Por quê? O que foi feito dele? Onde está?
Com imenso pesar, Miguez abaixou o tom de voz e sussurrou com certa vergonha:
- Esteban o colocou na Virgem (3). Seu pai está fraco demais para comparecer ao auto-de-fé e acabaria morto antes da hora, o que poderia estragar o espetáculo e
provocar uma comoção na
turba sedenta de sangue.

Virgem de Nuremberg = espécie de sarcófago, cujo interior era repleto de lâminas que perfuravam partes não vitais do corpo da vítima, levando-a a morte lenta por
hemorragia e infecção. (N.A.)

Lucena levou as mãos aos ouvidos, tentando não escutar aquelas atrocidades. Podia imaginar o suplício de seu pai no interior daquela máquina, o que lhe causou um
pranto sofrido e angustiado.
- Padre Miguez, por favor, preciso vê-lo - suplicou em lágrimas.
- Não, Lucena. Poupe-se desse sofrimento.
- Mas ele é meu pai! Preciso vê-lo ao menos uma vez antes de sua morte.
- Não há meios de vê-lo. Ele está enclausurado dentro da Virgem. E, mesmo que isso fosse possível, provavelmente, ele não poderia mais reconhecê-la.
- Mesmo assim. Por favor, padre, não me negue isso. Farei o que você quiser, mas, por favor, leve-me até meu pai.
Miguez suspirou profundamente. Apanhou a capa e saiu com Lucena pelo corredor às escuras, em direção às masmorras, que ficavam no prédio do Tribunal, contíguo à
abadia. O ar era extremamente pesado e fétido, e Lucena sentiu-se mal. Parecia-lhe pior do que da outra vez em que ali estivera.
A um sinal de Miguez, o carcereiro abriu a pesada porta da masmorra e eles entraram. Passaram entre os vários supliciados, presos aos mais variados instrumentos
de tortura, até que alcançaram a Virgem. Ao ver o estranho sarcófago, Lucena engoliu em seco. Não havia nenhuma fenda por onde pudesse ver o seu interior, mas ela
notou o filete de sangue que escorria pelas frestas abaixo. Mal contendo o pranto, aproximou-se do sarcófago e ajoelhou-se diante dele, tocando-o de leve com as
mãos.
- Pai... - sussurrou num soluço angustiado.
Não conseguiu dizer mais nada. O pranto a consumiu totalmente, e Lucena pensou que fosse desmaiar. Por cerca de dez minutos permaneceu ali, agarrada ao sarcófago
macabro, até que escutou uma tênue voz vinda de seu interior. Não era propriamente uma voz, mas um gemido agonizante, um murmúrio de lágrimas, e ela percebeu que
o pai chorava. Ainda vivia, mas, pela fraqueza daqueles soluços, tinha certeza de que não por muito tempo.
- Pai - continuou Lucena, a voz vibrante de ódio e revolta - eu juro, pai, vou vingar a sua morte. Sei quem é Giselle. Ela não escapará. Nem ela, nem monsenhor Navarro.
Vou vingá-lo, pai, a você e a Blanca.
Dom Fernão, em seus derradeiros momentos de vida, conseguiu escutar as últimas palavras de Lucena que, poucos instantes depois, ouviram o seu estertor de morte.
Em seguida, silêncio. Lucena bateu de leve no sarcófago, mas nenhum som veio de seu interior. Ainda agarrada a ele, redobrou o pranto, até que foi amparada por Miguez,
que, a muito custo, conseguiu arrancá-la dali.
- Venha, Lucena - o chamouele com piedade -, vamos embora daqui. Ele já não pode mais ouvi-la.
Quase desfalecida, Lucena saiu apoiada nos braços de Miguez. O padre chamou uma carruagem e levou-a para casa. Entregou-a aos cuidados de Consuelo e voltou para
a abadia. Na mesma hora, ela adormeceu. Havia sido tomada por profunda exaustão e por imenso desgaste emocional em razão dos últimos acontecimentos.



No dia seguinte, acordou com Consuelo a seu lado, chorando e gesticulando sem parar. Aos poucos retornando do sono, Lucena ergueu-se na cama e indagou o que estava
acontecendo.
- Oh! Senhorita - respondeu a criada, completamente transtornada. - Estão aí uns homens de monsenhor Navarro. Querem tomar a casa.
- Tomar a casa? Como assim?
- Disseram que a senhorita tem vinte e quatro horas para sair, levando apenas os seus pertences pessoais. Tem que deixar os móveis, a louça, a prataria...
Rapidamente, Lucena levantou-se e jogou uma capa sobre os ombros, saindo para a sala.
- Mas o que é que está acontecendo aqui? - perguntou furiosa. - Como ousam?
- Senhorita - falou um dos soldados -, são ordens de monsenhor Navarro. A senhorita tem vinte e quatro horas para desocupar a casa, levando apenas seus pertences
pessoais, ou então seremos obrigados a despejá-la.
- Despejar-me? Como? Para onde é que irei?
O soldado deu de ombros e entregou-lhe um pergaminho, que ela desenrolou e pôs-se a ler avidamente. Por aquele documento, todas as propriedades de dom Fernão passavam
agora ao poder da Igreja, inclusive a casa em que ela sempre vivera. O homem aguardou até que ela terminasse de ler tudo, certificando-se de que compreendera bem,
fez sinal para os demais e, com gestos bruscos, virou-lhe as costas e se foi.
- Oh! Senhorita! - lamuriou-se Consuelo. - O que faremos agora?
Lucena nem ouvia o que a outra dizia. Voltou para o quarto e vestiu-se apressada, saindo em desabalada carreira para a abadia. Foi informada de que padre Miguez
estava no Tribunal, em uma de suas sessões de tortura, e partiu para lá às pressas. Atravessou os corredores sem se importar com as pessoas, muitas das quais tentavam
impedi-la, e foi direto para a masmorra, cujo caminho já conhecia muito bem.
À entrada, um soldado a deteve, falando-lhe rudemente:
- Aonde pensa que vai senhorita? Não pode entrar sem autorização.
- Deixe-me passar! Preciso falar com padre Miguez! Exijo vê-lo agora!
O homem segurava-a pelo braço e estava mesmo disposto a expulsá-la dali, mas Miguez apareceu subitamente. Assim que o viu, ela começou a esbravejar:
- Miserável! Cretino! Pensei que fosse meu amigo!
O soldado fez menção de que ia bater-lhe, mas, a um gesto de Miguez, encolheu a mão e soltou o seu braço. Sem alterar as feições, Miguez passou por ela e chamou
baixinho:
- Venha.
Lucena seguiu-o em silêncio, até que alcançaram seu gabinete particular.
- Sente-se - ordenou ele.
A contragosto, Lucena acomodou-se na cadeira que ele lhe indicara.
Sentado defronte a ela, Miguez cruzou as mãos sobre a boca e ficou a olhá-la, esperando que ela falasse algo.
- Padre Miguez - começou ela, lutando para conter a raiva -, pensei que quisesse me ajudar...
- E quero.
- No entanto, hoje fui despejada de minha casa. Monsenhor Navarro me deu um prazo de vinte e quatro horas para sair. Pensei que você fosse impedir isso.
- Minha cara - lamentou-se o padre com profundo suspiro -, se pudesse, creia-me, eu o teria feito de muito bom grado. Mas não tive como intervir na decisão de Esteban.
O máximo que consegui foi uma prorrogação do prazo.
- Uma prorrogação do prazo? Como assim?
- Esteban queria colocá-la para fora na mesma hora, apenas com a roupa do corpo. Consegui não só que ele lhe desse vinte e quatro horas, como também que lhe permitisse
levar os seus pertences pessoais. Pode levar consigo roupas, jóias, perfumes. O resto deve deixar.
Lucena abaixou os olhos e começou a chorar, não sabia se de desespero ou de gratidão.
- O que farei padre Miguez? Para onde é que irei? Não tenho mais ninguém no mundo.
Após um longo silêncio de tortura, Miguez retomou a palavra:
- Vou ajudá-la, criança, não se preocupe. Tenho uma propriedade aqui mesmo, nos arredores de Sevilha, num pequeno vilarejo chamado San Martin. Conhece? - ela meneou
a cabeça, e ele prosseguiu: - Não faz mal. De qualquer sorte, é uma quinta grande e confortável, e lá você terá tudo de que necessita.
- Poderei levar minha criada, Consuelo?
- É claro que sim. Vá para casa, junte suas coisas e aguarde. Mandarei uma carruagem apanhá-las ainda hoje, no final da tarde.
- Obrigada, padre - disse ela, beijando-lhe o anel sacerdotal.
Tudo estava caminhando conforme o desejado. Dom Fernão morrera e Lucena acabara mesmo caindo em suas mãos, tornando-se inteiramente dependente dele. Tinha certeza
de que, em breve, tornar-se-iam amantes e planejariam junto o fim de Giselle.
Apenas uma coisa não lhe agradava: o ódio da moça por Esteban. O cardeal era seu amigo e apenas cumpria seu dever de ofício. Não agia movido por sentimentos pessoais
contra quem quer que fosse. Ao contrário, orava com fervor, pedindo a Deus que livrasse as almas supliciadas da danação eterna. E conseguia. Cada vez que obtinha
uma confissão, seguida da execução do condenado, Esteban tinha certeza de estar salvando a alma do infeliz. Não importava que enriquecesse com as expropriações.
Fazia parte do processo e era apenas um detalhe dentro da grandeza que significava a salvação das almas dos pecadores.
Miguez não podia permitir que Lucena voltasse sua vingança contra o amigo. Teria que convencê-la de que Esteban não fora responsável pela morte de seu pai, como
não o seria pela de Blanca, cuja execução era apenas questão de dias. A culpada de tudo fora Giselle. Para todos os efeitos, fora ela que seduzira dom Fernão, com
o único propósito de traí-lo e delatá-lo nas Mesas Inquisitoriais.
Não seria difícil convencer Lucena. Miguez trataria de estimular nela o ódio pela meretriz. E tinha certeza de que os dois juntos conseguiriam ótimos resultados.
Tudo correu conforme o planejado. Lucena mudou-se para a quinta de Miguez em San Martin e, na noite seguinte, o padre apareceu para ver como as coisas iam passando.
- E então, Lucena, como se sente?
- Melhor, padre, graças ao senhor.
Os dois estavam sozinhos na sala, e Miguez aproveitou-se da ocasião para tentar aproximar-se. Envolveu-a num abraço delicado e pousou-lhe discreto beijo na testa.
Na mesma hora, ela ruborizou e abaixou os olhos, observando com aparente resignação:
- Veio cobrar a promessa que lhe fiz?
- Que promessa? - rebateu Miguez, surpreso.
- Eu não disse que faria o que você quisesse se me levasse até meu pai?
Ele se levantou indignado, as faces ardendo. Nem se lembrava mais do que ela havia dito e espantara-se com aquela pergunta.
- Assim você me ofende, Lucena. Não foi por outro motivo que a ajudei, senão por uma sincera afeição. Contudo, se me julga vil ao ponto de aproveitar-me de sua dor
para conseguir levá-la
para o leito, não tenho mais nada que fazer aqui. Peço que me perdoe.
Voltou-lhe as costas, coberto de genuína perplexidade. Estava realmente gostando de Lucena e somente queria possuí-la com o seu consentimento. Queria que ela o desejasse
também, não que se entregasse a ele por um dever de gratidão.
- Padre Miguez - chamou ela, antes que ele alcançasse a porta. - Sou eu quem deve lhe pedir perdão. Não queria ofendê-lo. Mas o senhor há de convir que, diante de
tantos acontecimentos
funestos em minha vida, estou confusa e perdida. Não sei o que pensar.
Começou a chorar de mansinho, e Miguez correu em sua direção, abraçando-a com paixão. Buscou a sua boca com furor e deu-lhe ardoroso beijo, que ela correspondeu
receosa. Estranhamente, aquele beijo lhe causou prazer, e ela se sobressaltou ante seus próprios sentimentos.
- Padre... - tornou em tom de desculpa. - Sinto muito. Não posso...
Levou a mão aos lábios, assustada, e afastou-se dele rapidamente.
- Perdoe-me novamente, minha criança - disse Miguez com compreensão. - Sei o quanto deve estar sofrendo, e seria muito egoísmo de minha parte pensar em amá-la depois
de tudo. Demais
disso, sei que é pura, e o momento não é o mais adequado para despojá-la de tanta inocência.
Cada vez mais envergonhada, Lucena não ousava encará-lo. Tinha medo de que seu olhar denunciasse que já não era mais virgem e o padre se desinteressasse dela. Precisava
ocultar-lhe a verdade o máximo possível e, com voz de desgosto e sofrimento, acabou por concluir:
- Dê-me um pouco de tempo, padre...
- Não precisa mais me chamar de padre. De hoje em diante, para você, sou apenas Miguez.
Com um sorriso forçado, Lucena se despediu, e padre Miguez entrou na carruagem, tomado de profundo pesar. Lamentava imensamente o sofrimento de Lucena. Doía-lhe
vê-la triste e desesperada, arrasada com a morte do pai. Contudo, algo de bom lhe sobrara de tudo aquilo. Ela ia ser dele. Agora, mais do que nunca, tinha certeza
de que Lucena acabaria por lhe pertencer. Quanto mais pensava nela, mais seu coração se comprimia. Miguez estava certo de que a amava. Não apenas a desejava, mas
amava-a cada dia mais e, por ela, seria capaz das maiores loucuras.
Menos trair seu amigo cardeal. Ele e Esteban eram amigos há muitos anos, e sua afeição por ele era também genuína. Esteban era como seu irmão, e ele jamais poderiam
trair um irmão. Tampouco poderia permitir que Lucena o fizesse. Daria um jeito de desviar-lhe a atenção de Esteban, concentrando-a em Giselle. Ela fora a única culpada.
Esteban cumpria apenas o seu dever clerical, ao passo que Giselle era uma meretriz interesseira e sem escrúpulos.
Quando chegou à abadia, já era tarde e todos dormiam. Apenas um pequeno lume se deixava entrever pela porta do quarto de Esteban. Seguindo um impulso de seu coração,
Miguez se aproximou e bateu. Poucos segundos depois, o próprio Esteban veio atender.
- Miguez! - exclamou surpreso. - O que faz aqui há essa hora?
Miguez passou por ele e foi sentar-se em sua cama, fitando-o com certa angústia.
- Como está Blanca?
- Por que o interesse?
- Gostaria de saber como está passando.
- Está quase confessando também. Creio que conseguiremos levá-la ao auto-de-fé.
Padre Miguez inspirou profundamente e tornou em tom de confissão, sem prestar muita atenção às palavras do outro:
- Estou apaixonado por Lucena Lopes de Queiroz...
- Você o quê?
- Você ouviu. Apaixonei-me irremediavelmente pela filha de dom Fernão.
- Você é um tolo, Miguez. Eu devia ter imaginado, quando você veio a mim, interceder por ela. Mas pensei que seu interesse fosse apenas porque ela é ainda jovem
e virgem.
- Também pensei que fosse, mas hoje tive certeza de que não. Estou mesmo apaixonado por Lucena e gostaria de lhe pedir que não a incomodasse.
- Não estou interessado nela, se é o que quer saber. Não tenho nada contra ela. Temo apenas que ela o esteja enganando.
- Enganando-me? Por que ela faria isso?
- Vingança. As pessoas são muito rancorosas.
Miguez silenciou, lembrando-se das palavras de Lucena. Sabia que ela queria se vingar, mas não acreditava que houvesse se ligado a ele apenas por esse motivo. Quando
a beijara, ela parecera gostar e dera mostras de confusão.
- Não se preocupe com Lucena - considerou Miguez. - Não permitirei que ela faça nada contra você.
- Não me preocupo. Lucena agora é apenas uma pobre moça abandonada, que nada pode contra ninguém. A não ser, é claro, que você esteja por trás de tudo...
Miguez sentiu um calor subindo-lhe pelo rosto e, fitando o amigo profundamente, respondeu cheio de sinceridade:





- Nem de longe diga uma coisa dessas. Sou seu amigo, e nada nem ninguém poderá me colocar contra você.
- Diz isso porque ainda não experimentou as artimanhas de uma mulher. Depois que se vir completamente envolvido por Lucena, veremos se não será capaz de tudo para
satisfazê-la.
- Engana-se, Esteban, e vou provar isso. Lucena o odeia, é verdade. Que pessoa não odiaria o responsável pela morte de seu pai?
- Dom Fernão era um herege!
- Mas era seu pai. E difícil para qualquer um aceitar isso.
Contudo, com o tempo, Lucena deixará de odiá-lo, assim como passará a me amar. Eu estarei o seu lado e farei com que ela acabe por compreendê-lo. Jamais permitirei
que ela ou qualquer outra
pessoa erga a mão contra você.
A sinceridade na voz de Miguez o emocionou, e Esteban abraçou o amigo.
- Perdoe-me, eu não devia ter dito essas coisas. Foi apenas uma reação normal ante a revelação que você me fez. Dom Fernão foi um caso difícil, e Giselle... - parou
de falar abruptamente, fitando o amigo com certa desconfiança. - Vocês não estão tramando nada contra Giselle, estão?
- Contra Giselle? - repetiu Miguez, tentando parecer natural. - Por quê?
- Porque você não gosta dela, e Lucena têm todos os motivos para odiá-la também.
- É verdade... Sabemos o que Giselle fez, não é, meu amigo?
- Deixe Giselle em paz. Sei que você não gosta dela, mas ela nunca lhe fez nada. E depois, vou afastá-la de tudo isso.
- Posso saber como?
- Casando-a com dom Solano Díaz.
- Muito conveniente. Solano Díaz é um velho e não trará problemas, não é mesmo?
- O que importa isso? Quero afastar Giselle disso tudo e de mim. Ela faz muitas bobagens, não pensa aonde vai parar.
- Se é assim, por que não deixa que eu cuide dela à minha maneira?
- Não posso. Giselle é como uma filha...
- Ela sempre foi sua amante. Como pode agora dizer que ela é como sua filha?
- Você não entende. Durante muitos anos, Giselle foi minha única amante, e tenho para com ela um sentimento especial. Quero o seu bem.
- Ela sabe demais, Esteban, é perigosa.
- Não é. Giselle é confiável.
- Até quando? Até se envolver com o primeiro vagabundo e começar a sair por aí, falando de você.
- Ainda que fizesse isso... O que importa? Quem lhe dará ouvidos?
Esteban não podia permitir que Giselle fosse apanhada. Faria o possível para mantê-la longe daquilo tudo. Ele sabia que Miguez a odiava, e agora, com o ódio de Lucena,
os dois poderiam tramar alguma coisa contra ela. Se descobrissem então que Giselle e Ramon de Toledo estavam apaixonados, não queria nem pensar. O ódio de Lucena
redobraria, e Miguez faria de tudo para facilitar a sua vingança.
- Miguez - tornou Esteban em tom de quase súplica -, se você é meu amigo como diz, escute o que lhe peço. Não faça nada contra Giselle, assim como eu nada farei
contra Lucena. É uma troca. Ela vai casar-se e vai para Cádiz. Nunca mais iremos vê-la. Por favor...
O outro apenas balançou a cabeça. Cádiz era muito perto para se considerar que nunca mais a veriam. No fundo, sentia pena de Esteban. Mas algo dentro dele fazia
com que odiasse Giselle cada vez mais. Não sabia o que fazer. Se, por um lado, seu ódio por ela era imenso, sua afeição pelo amigo também era sincera. E ainda havia
Lucena. Mas Esteban não tinha nada contra ela, ao passo que Giselle...
- Não pense mais nisso, Esteban - finalizou Miguez. - Farei o que for melhor para todos.
A resposta de Miguez não o satisfez, mas Esteban não tinha mais o que dizer. Em seu íntimo, sabia que Giselle corria perigo, assim como sabia que, se ela fosse presa
e acusada, não haveria nada que ele pudesse fazer. Só o que lhe restava agora era rezar.



CAPÍTULO 17


O casamento de Giselle e dom Solano Díaz realizaram-se dali a um mês. Foi uma cerimônia discreta e íntima, e contou com a presença de pouquíssimas pessoas,
dentre as quais Esteban e seu sobrinho Diego. Giselle não parecia nada satisfeita. Solano era muito franzino e mais velho do que pensava. Esforçava-se para ser gentil
e sorrir para os poucos convidados. Notou que Diego não tirava os olhos dela, sorrindo com ironia.
Em dado momento, aproximou-se dele e falou entre dentes:
- Posso saber o que é tão engraçado?
- Nada - respondeu de um jeito mordaz. - É que vocês formam um lindo casal. O velho decrépito e a meretriz do inquisidor...
Indignada, Giselle ergueu a mão para esbofeteá-lo, mas Diego a segurou no ar e, olhos nos olhos, falou sem alterar o tom de voz:
- Não faça isso, querida. Posso gostar e querer me tornar um de seus amantes também.
Ela puxou o braço, cada vez mais indignada. Jamais havia visto homem mais atrevido e arrogante. Mas Solano chegou, e ela não pôde responder-lhe nada. No dia seguinte,
partiriam para Cádiz, onde importantes negócios aguardavam seu marido.
A noite de núpcias, para Solano, foi coroada de êxito e paixão, ao passo que, para Giselle, foi aborrecida e até mesmo indigesta. Com gestos maquinais, cumpriu seu
papel de esposa e esperou até que ele acabasse de se satisfazer, dando graças a Deus quando ele adormeceu ao seu lado. Giselle virou o rosto para a parede, tentando
ocultar a cara de nojo, e pensou em Ramon. Como lhe doía aquela separação!
Tudo fora acertado. Ramon e Manuela ficariam tomando conta da taverna e, de vez em quando, eles iriam a Cádiz, onde ela daria um jeito de encontrar-se com ele. Sabia
que seu marido era um poderoso navegador, dono de invejável frota que empreendia intensa atividade comercial na costa africana. Essa profissão lhe demandava bastante
tempo, pois eram muitos os navios e contratos que tinha que administrar o que acabara por torná-lo um homem incrivelmente rico.
No dia seguinte, quando Giselle despertou, Solano já não estava mais a seu lado. Já passava das nove horas quando ela se levantou e chamou Belinda, que a ajudou
a aprontar-se para a viagem. Levara uma das escravas, ficando a outra incumbida de tomar conta da casa e de Ramon.
Assim que desceu as escadas, encontrou o marido, que lhe deu um beijo na face e disse gentil:
- Apresse-se, minha querida. O sol já vai alto, e não quero pegar muito calor na estrada.
Com um sorriso forçado, Giselle terminou de beber um copo de leite, apanhou um pedaço de pão de centeio e saiu apressada, dirigindo-se para a carruagem. Entrou esbaforida,
desacostumada daquelas roupas luxuosas, e sentou-se no banco, de frente para Solano. Foi só então que percebeu alguém a seu lado, rindo para ela com ar debochado.
- Diego! - exclamou aturdida. - O que faz aqui?
- Perdoe-me, querida - apressou-se Solano em dizer. - Convidei Diego para passar uns dias em nossa casa, se não se importa.
- Não sabia que vocês eram amigos - tornou acabrunhada.
- O tio de Diego e eu somos amigos de longa data. Vi Diego nascer, não é meu rapaz? - Diego assentiu, sem tirar os olhos debochados de Giselle. - E depois, creio
que lhes fará bem. Preciso fazer algumas viagens, e um homem em casa será bom para defendê-las.
- Defendê-las, quem?
- A você e a Rúbia, minha filha.
- Não sabia que tinha uma filha.
- Tenho. Vai gostar de Rúbia. É uma boa moça.
Quando chegou ao castelo de dom Solano, Giselle ficou deveras impressionada com o seu tamanho. Quando a carruagem entrou no pátio principal, uma moça já os aguardava,
sorridente, e ela imaginou que seria a tal de Rúbia. Solano desceu na frente, seguido por Giselle e Diego. A moça abraçou o pai e o rapaz, a quem já parecia conhecer
de longa data, e depois se voltou para ela.
- E você deve ser Giselle - disse com um sorriso encantador, estendendo a mão para ela.
Giselle apertou-lhe a mão e sorriu de volta, e uma natural simpatia fluiu entre elas.
- Muito prazer - respondeu Giselle.
- Espero que goste daqui. Sei que é diferente de Sevilha, ainda mais porque vivemos num castelo afastado, mas é divertido. Você vai ver.
- Rúbia toca harpa como ninguém - elogiou Diego.
- Diego está exagerando.
- Não está não - concordou Solano. - Nunca vi mãos mais doces.
Solano beijou-lhe as mãos, e Giselle percebeu o quanto pai e filha se gostavam. Entraram no castelo. Era uma beleza, e Giselle ficou cada vez mais impressionada.
Solano chamou os criados e deu-lhes ordens para que levassem os baús de Giselle para seus aposentos. Ela ficou ainda mais deslumbrada. Teria um quarto só para ela,
perto do de Rúbia, o que a deixou satisfeita.
O castelo era muito diferente de sua casa. Embora vivesse numa mansão confortável, não tinha o luxo e a beleza que havia ali. Ainda assim, sentiu saudades do lar.
Esperava que Belita cuidasse bem de tudo e que Ramon não levasse ninguém para lá.
Dali a dois dias, Solano partiu em viagem pela costa africana, e Giselle até que se sentiu satisfeita. Ao menos não precisaria mais dormir com aquele velho. Pensou
em mandar um recado para Ramon ir vê-la, mas achou que não seria prudente. Eles haviam combinado esperar um mês até tornarem a se encontrar.


A vida no castelo mostrou-se pacata demais para Giselle, acostumada ao barulho e à agitação da taverna em Sevilha. Além disso, era obrigada a ouvir os gracejos de
Diego e suas observações infames, o que lhe causava indisfarçável desdém. Rúbia, contudo, parecia gostar do rapaz, e Giselle pôde perceber certa cumplicidade entre
eles, o que a fez pensar se não seriam amantes.
- Você e Diego são muito amigos, não é, Rúbia? - indagou Giselle displicentemente, enquanto passeavam a cavalo pela campina perto do castelo.
Rúbia levantou os olhos para ela e sorriu ao mesmo tempo em que respondia com graça:
- Muito amigos. Diego vem visitar-nos constantemente.
- Confesso que fiquei surpresa com essa amizade.
- Monsenhor Navarro nunca lhe disse nada? - sentindo o seu constrangimento, Rúbia tranqüilizou: - Não se preocupe. Entre mim e meu pai não existem segredos. Sei
muito bem por que se casou com ele.
Giselle corou e abaixou a cabeça, surpresa com as palavras de Rúbia.
- Não se importa? - tornou em tom hesitante.
- Por que deveria? Meu pai é muito grato a monsenhor Navarro. Deve-lhe muitos favores.
- Isso não a incomoda? Esse jogo de interesses?
- O que é a vida, senão um eterno jogo de interesses? As coisas são assim mesmo, Giselle. Um dia eu lhe sirvo, no outro, é você que me serve.
Giselle limitou-se a acenar com a cabeça e virou-se para o outro lado, enquanto os cavalos marchavam lentamente, lado a lado. Em dado momento, voltou a encarar Rúbia
e prosseguiu:
- Você desconversou e acabou não me falando sobre Diego.
- O que quer saber?
- Nada, exatamente. Como disse, fiquei surpresa com tanta amizade.
- Pois não devia. Meu pai é amigo da família Navarro há muitos anos - abafou um risinho e continuou: - Queria até se casar com Marieta, irmã de monsenhor.
- Não diga! E por que não se casou?
- Naquela época, meu pai não tinha nada. Era um jovem pobretão, e os pais dela não permitiram o casamento. Ainda assim, foram muito apaixonados e chegaram a manter
um romance. Quando o pai dela descobriu, obrigou-a a casar-se com outro.
- Sério? É por isso que Diego é tão seu amigo?
- Diego é meu irmão.
Giselle puxou a rédea do cavalo, fazendo-o estacar bruscamente.
- Diego é seu irmão? - repetiu atônita.
- Por que o espanto?
- Meu Deus! Jamais poderia imaginar uma coisa dessas.
- Para você ver. Meu pai e a mãe dele tiveram uma única noite de amor, e foi quando conceberam Diego.
- E o marido de Marieta? Sabia?
- Saber, não sabia. Ninguém nunca soube de verdade. A não ser meu pai, é claro, que revelou suas dúvidas a monsenhor Navarro. Monsenhor foi ter com a irmã, e ela
acabou confessando tudo.
- Mas que história interessante!
- É sim. Depois do casamento de Marieta, meu pai jurou que iria tornar-se um homem rico. Ingressou na guerra pela reconquista da Espanha e lutou por terras e dinheiro.
Ajudou a expulsar os muçulmanos de nosso reino, o que lhe valeu muito ouro e um título. Quando achou que já possuía bastante, voltou para casa. Mas Marieta, agora
casada com outro, não podia mais ser dele. Assim, acabou casando-se com minha mãe, e eu nasci, quando Diego já contava oito anos.
- E sua mãe, Rúbia? Morreu há muito tempo?
- Há pouco mais de três anos.
- Por que seu pai não se casou com Marieta depois?
- O marido de Marieta morreu no ano passado.
- E Diego? O que diz disso tudo?
- Diego soube da verdade logo depois que minha mãe morreu. Ele nunca se deu bem com o pai, marido de Marieta, que talvez desconfiasse da verdade e, por isso, não
se incomodava com os longos períodos que Diego passava aqui. Através de monsenhor Navarro, Diego foi introduzido em nossa família assim que eu nasci, a fim de que
meu pai também pudesse acompanhar o seu crescimento. Esse envolvimento foi se acentuando, mas meu pai nunca disse nada a Diego, até minha mãe morrer. Creio que não
queria magoá-la.
- Por isso Diego é tão sarcástico...
- Seu pai, antes de morrer, pôs um gravame nos bens, e Diego só poderá dispor deles quando a mãe morrer. Ele ficou furioso.
Chegaram de volta ao castelo, e o cavalariço veio apanhar os cavalos. Diego estava adormecido no terraço, tendo ao lado uma taça e uma garrafa de vinho vazia. Giselle
ficou olhando-o. Efetivamente, era um homem bonito. Se ela não estivesse tão apaixonada por Ramon, talvez se interessasse por ele. Mas não. Não trairia Ramon por
nada no mundo.





CAPÍTULO 18





Desde que Giselle partira, a vida de Ramon parecia haver perdido o sentido. Passava os dias na taverna, fazendo contas e cuidando das despesas e dos fornecedores.
Depois ia para casa, altas horas da madrugada, e só reaparecia por volta do meio-dia. Aquela rotina já o estava cansando, e ele mal via a hora de ter Giselle em
seus braços novamente.
Havia Manuela. Ela era uma moça alegre e cativante, além de extremamente linda. Ramon pensou que seria muito fácil amar Manuela, se já não estivesse tão apaixonado
por Giselle. Manuela tinha consciência de sua beleza e sabia que chamava a sua atenção. Por isso, vivia a insinuar-se para ele, tentando levá-lo para a cama. Mas
Ramon não cedia. Por mais que se sentisse tentado, a lembrança de Giselle dissipava qualquer desejo que pudesse sentir por outra mulher.
Ele estava sentado a um canto, calmamente bebericando uma caneca de vinho, enquanto Manuela dançava sobre uma mesa colocada no centro do salão. A seu redor, os homens
aplaudiam e deliravam, alguns até atirando-lhe algumas moedas. Ela parecia gostar daquilo, porque, quanto mais eles batiam palmas, mais sensualmente ela se remexia,
deixando as pernas à mostra até a altura dos joelhos, como Giselle costumava fazer. Quando encerrou seu número, desceu da mesa e foi sentar-se junto a Ramon, pedindo
a Sanchez uma caneca de vinho para ela também.
- O que há Ramon? - perguntou ela, roçando a coxa na dele. - Parece triste. Está com saudade?
- Você sabe que sim.
- Por que não deixa que eu o ajude? - falou em tom sensual, alisando sua mão com a ponta do dedo. Instintivamente, Ramon puxou a mão e fitou-a com ar de reprovação.
- Não faça isso, Manuela. Giselle não vai gostar.
- Giselle não está aqui.
- Ainda assim. Eu a amo, e é só a ela que desejo. Ela deu de ombros e acrescentou com desdém:
- Que pena... Podia fazê-lo muito feliz.
- Agradeço, mas não precisa.
Ela não disse mais nada. Levantou-se lentamente e foi caminhando pelo meio das mesas, requebrando as ancas ao passar por entre os homens. Alguns a beliscavam e lhe
davam tapas nas nádegas, e ela ria com vontade. Aquilo deixava Ramon contrariado. No fundo, sentia-se provocado também, mas não podia aceitar ou admitir isso, ainda
mais porque sabia que seu coração estava preso ao de Giselle, por mais que, inconscientemente, ansiasse pelo corpo de Manuela.
Ao mesmo tempo, Lucena também não conciliava o sono. Pensava em Giselle e em Ramon. Ainda não sabia que os dois havia se tornados amantes, mas o ex-noivo também
estava nos seus planos de vingança. Há muito não tinha notícias de Ramon. Soubera que ele perdera tudo, mas não fazia idéia de seu paradeiro e nem de longe desconfiava
que estivesse vivendo na casa de Giselle. Giselle havia se casado e partira para Cádiz, e não havia motivos para ir a sua casa ou à taverna.
Depois que Consuelo lhe serviu o jantar, ela se levantou e foi para o quarto. Acendeu uma vela e pousou-a sobre o criado-mudo, indo apanhar um livro para ler. Precisava
ocupar a cabeça, ou enlouqueceria. Por volta das nove horas da noite, alguém veio bater à sua porta, e ela ouviu quando Consuelo foi abrir. Pouco depois, soaram
batidas na porta de seu quarto, e ela perguntou com fingida sonolência:
- Quem é?
- Sou eu - respondeu a voz num sussurro abafado -, Miguez. Ela ergueu o corpo na cama e ajeitou os cabelos, antes de responder:
- Pode entrar.
A porta se abriu lentamente e Miguez entrou, trazendo na mão um pequeno círio. Aproximou-se da cama de Lucena, colocou a vela ao lado da outra, sobre a mesinha,
e sentou-se junto a ela.
- Já ia dormir? - ela assentiu, e ele desculpou-se: - Lamento Lucena, não sabia que se recolhia cedo.
- Não é cedo, Miguez. Já são quase dez horas.
Ele abaixou os olhos, confuso. Não sabia o que dizer. Estava apaixonado por ela, não pensava em outra coisa. Ela, por sua vez, convidava-o com o olhar. Ele ergueu
os olhos para ela e não conseguiu se conter. Tomou-a nos braços e beijou-a ardentemente. Ela lhe correspondeu com volúpia. Em poucos minutos, já estavam despidos
e se amando, e Miguez sentiu imensa frustração ao constatar que Lucena já não era mais virgem.
- Quem foi que lhe fez isso? - perguntou entre dentes. - Qual foi o cachorro que ousou macular a sua honra de moça?
Assustada, Lucena não respondeu. Tinha medo de que Miguez a mandasse embora. Se assim o fizesse, para onde é que iria? O que seria dela?
- Miguez... - balbuciou envergonhada. - Perdoe-me...
- Quem foi Lucena? Quem ousou tocá-la antes de mim?
Sem coragem de encará-lo, ela apertou o lençol entre as mãos e respondeu com voz sumida:
- Antes de isso tudo acontecer, eu fui noiva...
- Noiva de quem? Por que não me disse antes?
- Tive medo de que me deixasse.
Ele se levantou bruscamente e começou a vestir-se, ao mesmo tempo em que a ia recriminando:
- Enganei-me a seu respeito, Lucena. Pensei que você fosse virgem e pura, mas agora vejo que é tão ordinária quanto Giselle.



- Não diga isso, Miguez, não é verdade! Giselle é uma meretriz. Eu me entreguei por amor, porque fui enganada!
Lucena chorava descontrolada e tentou agarrar-se ao padre, mas ele a empurrou para o chão e desvencilhou-se de seus braços.
- Sua cadela! - vociferou. - Afaste-se de mim!
- Por favor, ouça-me! Não tive culpa do que aconteceu, e o que mais quero é vingar-me do homem que me desonrou.
- Quem é ele? Responda-me, vamos. Tenho o direito de saber.
- Seu nome é Ramon de Toledo.
- Aquele boa-vida, vagabundo, egoísta? Ora, Lucena, francamente. Ramon de Toledo é um irresponsável, que dilapidou a fortuna da família em poucos anos. Como pôde
envolver-se com ele?
Vendo-a jogada sobre a cama, rosto lívido, olhos inchados de tanto chorar, o coração de Miguez se apertou. Apesar de tudo, ela lhe parecia tão indefesa!
- Ele me enganou. Iludiu-me com falsas promessas de amor. Nós estávamos noivos, íamos nos casar, e ele prometeu que nunca me deixaria. Num impulso impensado, entreguei-me
a ele, certa de que nosso casamento me restabeleceria a honra perdida. Mas não foi o que aconteceu. Pouco tempo depois, Ramon veio procurar-me e rompeu o noivado.
- Por quê?
- Ele nunca me explicou. Disse que não me amava, mas eu tenho certeza de que se envolveu com outra mulher. Por que outro motivo me abandonaria às vésperas do casamento?
- Porque já tinha conseguido o que queria.
- Oh! Miguez, não seja cruel! Não tive culpa. Meu pai havia até marcado a data do casamento. Como poderia imaginar que ele fosse me abandonar de forma tão vil?
- Cachorro! Ele bem merecia morrer.
- É o que penso também. Contudo, não sei por onde anda. Desde que me abandonou, nunca mais ouvi falar dele. Nem sei se está em Sevilha.
Ele a fitou enternecido, e a raiva foi cedendo lugar ao compasso de seu coração.
- Lucena - tornou com voz subitamente doce - tenha calma.
Não se desespere. Estou aqui e vou ajudá-la.
Ela ergueu os olhos, confusa, e balbuciou entre lágrimas:
- Não está mais zangado?
Como poderia estar zangado com ela se já a amava loucamente? Ficara decepcionado, era verdade, mas não podia mais viver sem ela. Aproximou-se e tomou-lhe as mãos
entre as suas.
- Minha querida - disse emocionado -, peço que me perdoe.
Por um momento, deixei-me levar pela frustração de não ter sido o primeiro e único homem em sua vida. Mas isso não é o suficiente para afastar-me de você, pois que
já a amo mais do que a minha
própria vida. Não tema. Nada fará com que eu me afaste de você.
Quanto a seu ex-noivo, fique descansada. Darei um jeito de descobrir o seu paradeiro e enviá-lo para a morte. Ele vai arrepender-se amargamente do mal que lhe fez
um dia e da humilhação que a está fazendo passar.
Lucena chorou agradecida, agarrada às mãos de Miguez. Também gostava dele, o que fez aumentar ainda mais o seu desejo de vingança. Ramon lhe roubara a virtude e
a vida, mas não perdia por esperar. Mais cedo ou mais tarde, Miguez o encontraria, e ela mesma escolheria o castigo que gostaria de lhe impingir.





CAPÍTULO 19


Um mês havia se passado desde que Giselle se casara e, conforme o combinado, Ramon foi procurá-la. Belinda, que a havia acompanhado em sua nova casa, facilitou a
entrada de Ramon no castelo. Passava da meia-noite quando ele entrou em seus aposentos. Giselle o aguardava e atirou-se em seus braços logo que ele atravessou a
porta.
- Meu querido... - sussurrou, entre beijos e lágrimas. - Não agüentava mais de tanta saudade!
Ele a abraçou com ternura, inebriado com o perfume de seus cabelos.
- Também senti muito a sua falta.
Calaram-se com um beijo e se entregaram ao amor. Depois de saciados, permaneceram abraçados, aquecidos pelo calor de seus corpos, sentindo o quanto se amavam. Ramon
ia beijando-lhe os cabelos enquanto dizia:
- Amo-a demais, Giselle. Não paro de pensar em você. Não consigo nem dormir direito.
- Tenha calma. Daqui a um ano ou dois, creio que as coisas estarão resolvidas. Padre Miguez estará se ocupando de outras coisas e já terá nos esquecido.
- Será? E seu marido? Acha que a deixará partir? Você está casada, e isso é um compromisso para toda a vida.
- Mas não depois da morte. Ou já se esqueceu de nosso plano?
- Que plano?
- Não se lembra? Você disse que daríamos um jeito nele. Ramon pigarreou pouco à vontade e considerou:
- Não sei se quero fazer isso. Não sou assassino.
- Ora, mas que nobre! Só que a idéia foi sua.
- Não é bem assim...
- Você sugeriu que o matássemos. Pode não ter falado abertamente, mas eu compreendi muito bem o que quis dizer.
- Eu sei, mas falei isso sem pensar, num momento de insensatez. Não poderia levar isso adiante. Como lhe disse, não sou assassino.
- Isso não importa. Não estou disposta a viver para sempre com um velho. Se não quer me ajudar a matá-lo, tanto faz. Farei tudo sozinha.
- Como?
- Ainda não sei. Mas quando chegar à hora vai saber. O único problema é que não herdarei nada.
- Por quê? Ele não é rico?
- É muito rico. Só que tem uma filha legítima e um filho bastardo, que pode vir a criar problemas mais tarde.
- Deixe para lá, Giselle. Não precisamos desse dinheiro mesmo. Temos a taverna.
- E eu tenho um pequeno tesouro guardado.
- Um tesouro? Onde?
- Em minha casa.
- Mas você nunca me disse nada!
- Estou dizendo agora. E digo por que confio em você como jamais confiei em outra pessoa. Vou contar-lhe onde está escondido, para que você possa usá-lo, se precisar
- ela fitou o seu rosto espantado e continuou: - Está no porão, no canto esquerdo de quem entra enterrado sob uma pesada estante de livros de magia. Sabe qual é?
- ele assentiu. - Quando arrastar a estante, você vai notar um mosaico de pedras no chão. Arranque a do meio e cave um pouco. Logo irá ver um pequeno baú. Dentro
dele, encontrará uma pequena fortuna em pérolas e pedras preciosas: rubis, esmeraldas, diamantes. Tudo o que consegui juntar em quinze anos de dedicação a Esteban.
- E o que faço com tanta riqueza?
- Nada. Como lhe disse, use-a se precisar. Mas cuidado, não vá gastar demais. Esse tesouro é a nossa segurança de um futuro feliz. Depois que tudo estiver esquecido
e que Solano morrer, vamos precisar. Não vou entrar em nenhuma briga por herança. Quero voltar para minha casa e levar uma vida tranqüila a seu lado. Talvez até
possamos nos casar depois.
- Está certo, Giselle, não se preocupe. Pode confiar em mim. Do jeito que a amo, ficaria a seu lado mesmo que fosse para mendigar pelas ruas de Sevilha.
Ela o abraçou apertado e mudou de assunto:
- E Manuela, como vai?
- Bem... Por que a pergunta?
- É natural que me interesse por quem trabalha para mim, não acha?
- Não vai perguntar por Sanchez? Ele também trabalha para você.
Ela deu uma gargalhada e tornou irônica:
- Não seja debochado, Ramon. Sanchez não me preocupa.
- E Manuela a preocupa?
- Você sabe que sim. Pensa que não noto o jeito como o olha?
- Manuela é uma menina...
- Manuela é uma mulher, e você sabe disso tão bem quanto eu, não sabe? - ele não respondeu. - Não pense que só porque estou longe, você poderá fazer o que quiser.
Se souber que você e Manuela andaram tendo alguma coisa, vão se arrepender.
- Mas o que é isso agora, Giselle? Por que esse ciúme? Já não disse que você é a única mulher que eu amo?
Estreitou-a com volúpia e beijou-a com ardor, chamando-a novamente para o amor. Não queria falar de Manuela. Ela estava tentando seduzi-lo de todas as maneiras,
mas ele não queria que Giselle desconfiasse. Se ela descobrisse, mandaria a moça embora, e Manuela não tinha para onde ir.



Giselle esqueceu-se dela, perdida nos braços de Ramon. Já quase ao amanhecer, Belinda veio buscá-lo e levou-o de volta à estrada, em segurança. Com promessas de
amor, Ramon partiu, para voltar dali a um mês.
Quando Giselle acordou, bem tarde naquele dia, Rúbia não estava em casa. Havia saído para um passeio e não quis despertá-la, deixando que dormisse o quanto quisesse.
- Boas tardes - disse Diego ironicamente, logo que a viu despontar no alto da escada.
- Onde está Rúbia? - indagou Giselle, ignorando o seu sarcasmo.
- Rúbia saiu para um passeio. Ao contrário de você, não tem motivos para dormir até tarde.
Giselle o fitou desconfiada. Será que ele sabia de alguma coisa?
- Você não tem nada com a minha vida. Durmo até a hora que quiser.
- Oh! Sim. Principalmente após uma noite de excessos, não é?
- Por que não me deixa em paz, Diego? O que foi que fiz a você?
- A mim, nada. Mas a dom Solano...
- O que quer dizer?
Diego se aproximou e encostou o seu corpo contra a parede, aproximando bem o rosto do dela. Quase lhe tocando os lábios, afirmou:
- Sei que havia um homem em seu quarto esta noite, e, com certeza, não era seu marido.
Ela enrubesceu imediatamente e desferiu-lhe sonora bofetada no rosto, acrescentando entre dentes:
- Canalha!
- Não sou eu que estou traindo alguém.
Giselle tentou fugir, mas ele a segurou pelo braço e tornou a encostá-la na parede.
- Não precisa fugir de mim, Giselle. Sou seu amigo.
- O que você quer de mim? Se pensa que vou deitar-me com você em troca de seu silêncio, está muito enganado. Pode ir correndo contar tudo a dom Solano.
- Ora, ora, mas o que é isso? Por quem me toma? Por algum covarde? Não vou me aproveitar de sua, digamos fraqueza, para dormir com você. Não estou interessado.
- Não?
- Não... Por enquanto. Mais tarde, não sei. Talvez. Você me agrada, mas, no momento, não sei se seria oportuno. É que gosto de outra, sabe?
- Cachorro! - vociferou Giselle, cada vez mais indignada. - Você não vale nada!
- Não sou muito diferente de você, não é mesmo?
Giselle se desvencilhou dele e correu para a porta, no mesmo instante em que Rúbia vinha chegando.
- Giselle! - espantou-se. - O que foi que houve? Está lívida feita uma cera. Diego, o que foi que disse a ela?
- Nada, irmãzinha. Giselle está um tanto quanto nervosa. Creio que não passou bem à noite.
Sem dizer mais nada, Diego passou por elas feito uma bala e sumiu no interior do castelo.
- Não deixe que Diego a atormente, Giselle. Ele é um bom rapaz, apesar de um pouco doidivanas. Está com raiva porque a mãe não quer lhe dar mais dinheiro, e monsenhor
Navarro o mandou para cá para criar juízo.
- Ele é insuportável.
- Nem tanto. Com o tempo, vai ver que pode tornar-se bastante agradável.
Alguma coisa no tom de voz de Rúbia a impressionou. Seria simples admiração fraterna ou havia algo nas entrelinhas que ela não conseguia ver? Mas não podia ser.
Ela lhe dissera que eram irmãos. Não poderiam estar envolvidos amorosa ou sexualmente. Ou será que podiam?
- Rúbia - falou Giselle com certa hesitação -, o que há entre você e Diego?
- Entre mim e Diego? Nada. Mas que idéia. Nós somos irmãos, não se lembra? Entre irmãos não pode haver nada além de uma afeição pura e fraterna.
Ela frisou demais aquele não pode o que deixou Giselle deveras cismada. Daquele dia em diante, passou a observar mais aqueles dois. Havia entre eles uma cumplicidade
genuína; viviam se esbarrando, se abraçando, sussurrando pelos cantos. Era realmente muito estranho. Com o passar do tempo, vieram às intimidades, e Giselle estava
certa de que havia mesmo algo entre eles. Embora não se beijassem ou se tocassem de maneira ostensiva, seus gestos eram por demais reveladores para que Giselle não
ficasse desconfiada.
Não disse nada, porém. Não era problema dela. Se Rúbia e Diego eram amantes, ela não tinha nada com isso. Só que gostava de Rúbia e tinha medo do que Solano poderia
fazer se descobrisse.
- Sabe Giselle - prosseguiu Rúbia, com certa tristeza na voz -, quando Diego e eu descobrimos que éramos irmãos, já era tarde demais.
- Como assim?
- Isso foi há três anos, quando minha mãe morreu. Pode imaginar? Ele já era um homem feito, e eu, uma mocinha ingênua. Foi um choque para ambos.
Giselle silenciou. Não queria se envolver naquela história, ainda mais porque Diego lhe dissera aquelas coisas. Talvez Rúbia ficasse com ciúmes, e ela não queria
desagradar-lhe. Gostava da moça sinceramente, tinha-a como verdadeira amiga, talvez a única que fizera em toda a sua vida. Se ela resolvera se envolver com o irmão,
Giselle não queria se intrometer. Já tinha problemas demais.



CAPÍTULO 20

A vida de Ramon corria perigo, mas ele nem de longe desconfiava. O próprio Esteban não sabia de nada. Miguez, que desconhecia o romance entre Ramon e Giselle, não
partilhara nada com o amigo. Sabia que Esteban não aprovava seu envolvimento com Lucena e queria fazer tudo sem precisar contar com a sua ajuda.
Esteban, porém, percebia certa inquietação em Miguez. Ele continuava exercendo suas funções como sempre fizera. Talvez até com mais dedicação, chegando mesmo a demonstrar
certos requintes de crueldade com homens de reputação duvidosa, os lascivos, os devassos. As mocinhas virgens já não o interessavam. Quando chamado para atestar
a virgindade das meninas, Miguez se desculpava, alegando cansaço, passando a vez para os carrascos encarregados de tal missão.
Tudo isso foi preocupando Esteban. Quando lhe perguntava o que estava acontecendo, Miguez sempre se desculpava com a justificativa de que estava trabalhando muito,
embora Esteban soubesse que ele estava mentindo.
- Essa moça ainda vai acabar com você - disse ao amigo, enquanto caminhavam pelas alamedas do Tribunal.
- Que moça?
-

-
- Não se faça de desentendido, Miguez. Estou falando de Lucena.
- Ela não tem nada com isso.
- Não tem? Então, por que você está tão diferente? Nem parece mais o mesmo, não me procura mais para conversar. O que foi que houve? Será que ela o enfeitiçou?
- Meu amigo, não diga uma coisa dessas! Lucena é apenas uma criança e está sob a minha proteção.
- Você é um homem apaixonado, Miguez. Tenha cuidado.
- Não precisa se preocupar comigo. Sei o que estou fazendo.
- Espero que saiba mesmo - suspirou com tristeza e arrematou: - Mais uma coisa. Blanca, noiva de dom Fernão, vai ser executada domingo, no próximo auto-de-fé. Conto
com a sua presença.
- Ela confessou?
- Confessou.
Miguez balançou a cabeça em assentimento, e os dois se separaram. Ambos tinham importantes interrogatórios a fazer. À noite, como de costume, Miguez foi ter com
Lucena e participou-lhe a execução de Blanca. Lucena chorou muito, triste por não poder cumprir a promessa que fizera ao pai de libertar sua noiva.
- Não chore Lucena - tranqüilizou Miguez, abraçando-a com ternura. - A morte de ambos ainda será vingada.
- Quando? Esteban é seu amigo. Não vejo você tomar nenhuma providência contra ele.
- Minha querida - tornou quase em tom de desculpa -, não há nada que possamos fazer contra Esteban. Ele é cardeal, inquisidor conceituado e meu amigo. E depois,
não tem culpa de nada...
- Como não tem? Pois se foi ele quem torturou meu pai e Blanca, quem o colocou naquele maldito sarcófago, quem vai mandar Blanca para o auto-de-fé! Como você pode
dizer que ele não tem culpa de nada?
- Esteban é um inquisidor, está cumprindo seu dever. Não fosse a acusação que fizeram contra seu pai e Blanca, ele jamais os teria mandado prender. Fez-se o que
fez, foi porque alguém o instigou alguém inventou aquelas histórias todas, forjou provas, contou casos absurdos de heresia. Esteban, zeloso cumpridor das leis católicas,
só fez seguir o Manual dos Inquisidores e não teve outro remédio senão cumprir fielmente as suas determinações. O que você esperava que ele fizesse? Que ignorasse
os mandamentos eclesiásticos?
- Mas meu pai não fez nada...
- Aos olhos da Igreja, ele foi um grande pecador, pois se associou a Blanca, que é descendente de mouros. Mas quem o denunciou? Quem levou o seu nome às Mesas Inquisitoriais?
Não foi Esteban, porque ele nada sabia a respeito de seu pai - mentiu e olhou para ela, satisfeito por estar convencendo-a. - A única culpada pela morte de seu pai
e de Blanca é aquela ordinária da Giselle. Foi ela quem seduziu seu pai, sabe-se lá com que propósitos, para denunciá-lo posteriormente como herege. É ela que merece
ser punida. Ela é a única responsável pelo que aconteceu a você e a sua família. Pela morte dos seus, pela sua miséria. Giselle é uma mulher demoníaca, e é contra
ela que você deve voltar todo o seu ódio.
Com os olhos injetados de sangue, Lucena fechou a mão e deu um soco na mesa, rugindo com todo o ódio que era capaz de sentir:
- Quero vê-la morta, Miguez! Quero a cabeça de Giselle!
- É isso mesmo. Giselle há de pagar por todo o mal que lhe fez.
Lucena tremia de tanto ódio, atraindo para si as mais variadas entidades das sombras, inclusive seu próprio pai. Os espíritos sofredores, levados à morte pelas mãos
de Esteban, através da perfídia de Giselle, na mesma hora acorreram. Os pensamentos de Lucena, imediatamente, sintonizaram com o ódio daquelas criaturas que, movidas
pelo desejo de vingança, colaram-se a ela, lideradas por seu próprio pai, cujo ódio chegava a fazer com que ela sentisse tonteiras. Dom Fernão estava tão enfurecido
que seria capaz de tudo para se vingar de Giselle. Queria-a morta. Queria-a nas trevas. Queria-a escrava dos espíritos maus, para que ela sofresse e agonizasse nas
cavernas mais profundas e fétidas do umbral.
Miguez sabia que seria difícil apanhar Giselle. Ela estava casada com Solano Díaz, sob a proteção de Esteban. Precisava fazer tudo de forma a não provocar a ira
do amigo. Não queria perder a amizade de Esteban. Precisava encontrar um jeito de acusá-la sem se sujar, sem ter que forjar provas ou testemunhas.
Além disso, Miguez ainda tinha que se ocupar de Ramon. Não sabia onde o rapaz se encontrava e considerava-o um problema menor, mas não podia se esquecer dele. Não
querendo mais conversar com Esteban sobre nada que atraísse a sua atenção para Lucena, Miguez começou a investigar, por conta própria, o paradeiro de Ramon. Indagou
aqui e ali, mas ninguém sabia nada a seu respeito. Ele não recebera nenhuma acusação, e seu nome sequer fora mencionado no processo movido contra dom Fernão.
Quando Esteban descobriu sobre suas investigações, foi perguntar-lhe o que estava acontecendo:
- Miguez, meu amigo, por que agora está tão interessado em Ramon de Toledo?
O outro tentou desconversar, mas viu-se encurralado e respondeu com aparente displicência:
- Ele foi noivo de Lucena. Não sabia?
- Sabia, sim, mas, e daí? Não temos nada contra ele. Ramon é apenas um folgazão. Não tem interesse para a Igreja.
- É apenas curiosidade.
- Deixe Ramon de lado. Ele não tem nada que lhe interesse.
Por detrás de Navarro, os espíritos das sombras, liderados por dom Fernão, começaram a agir. Enquanto Giselle estava a seu lado, manipulando os espíritos a seu favor,
ambos estavam como que protegidos. Mas agora, com Giselle longe, esses espíritos deixaram abruptamente de receber os seus agrados, o que não os deixou nada satisfeitos.
Giselle lhes prometera até o sangue de Lucena e de Miguez, o que já não era mais capaz de cumprir, deixando frustradas as suas expectativas. Tinham como certo que
iriam sugar os fluidos vitais de pessoas encarnadas, em lugar de animais, e ficaram zangados e com raiva ao constatar que nada mais receberiam. Giselle agora estava
casada e não podia mais invocá-los ou lhes oferecer presentes.
Giselle já não lhes interessava mais. Precisavam agora de outra fonte de energia e acabaram se associando aos espíritos que haviam desencarnado sob a intervenção
de Giselle. Começaram então a sugar as energias dos encarnados, principalmente de Esteban. Com isso, veio para eles também o desejo de vingança. Giselle os abandonara,
suprimira o alimento que os mantinha vivos. Por isso, precisava pagar. Ninguém se compromete com os espíritos das trevas da forma como Giselle se comprometera, e
simplesmente os abandona. Ela não tinha elevação moral para isso. Nem o seu pai, espírito de luz e esclarecido, poderia livrá-la de sua perseguição. Porque Giselle
não merecia. Sequer acreditava que pudesse merecer.
Esses espíritos, com raiva de Esteban também, puseram-se a atuar sobre ele, e o cardeal, de uma hora para outra, começou a sentir estranho mal-estar. Vivia com dores
de cabeça, tinha freqüentes palpitações, era acometido por inexplicáveis tonteiras. Consultou o médico da abadia, mas ele nada pôde constatar. Receitou um xarope
amargo e recomendou-lhe repouso. Esteban estava trabalhando demais.




CAPÍTULO 21

Mais um mês havia se passado, e Solano voltou de sua viagem à África. Chegou cansado e logo foi recebido por Rúbia, que correu a preparar-lhe um escalda-pés bem
quentinho. Sentado confortavelmente entre almofadas macias, Solano se deliciava com a água tépida que acariciava seus pés cansados. A seu lado, Giselle não fazia
o menor esforço para aparentar alegria. Estava mesmo bastante contrariada. Ramon chegaria no dia seguinte e teria que voltar sem que se falassem.
- Como foram as coisas na minha ausência? - perguntou de olhos fechados.
- Correu tudo bem, papai - apressou-se Rúbia em responder.
- E você, Giselle? Deu-se bem com minha filha?
- Otimamente. Rúbia é uma moça gentil e muito agradável.
- Fico feliz que se tenham entendido.
- É gentileza de Giselle, papai. Ela é que é uma pessoa maravilhosa.
Giselle sorriu carinhosamente para Rúbia, que lhe devolveu o sorriso com outro, ainda mais encantador.
- Onde está Diego?
- Saiu a cavalo. Não deve tardar.
Cerca de quinze minutos depois, Diego apareceu. Vinha esbaforido e suado, a pele morena tostada de sol. Aproximou-se do pai e estendeu-lhe a mão, cumprimentando-o
com um formalismo disfarçado:
- Dom Solano... Como está?
O velho soltou um sorriso prazeroso e convidou o filho a sentar-se ao seu lado. Durante as duas horas seguintes, distraiu-se a contar-lhes suas aventuras, às quais
ninguém prestava atenção, à exceção, talvez, de Rúbia. Giselle se mostrava aborrecida, bocejando de vez em quando e fingindo cochilar na poltrona. Solano não lhe
deu importância e prosseguiu com sua conversa enfadonha.
À noite, Solano a procurou em seu quarto. Entrou afoito, louco para possuí-la. Embora enojada, Giselle não teve saída. Foi obrigada a submeter-se passivamente, mas
não fez o menor esforço para fingir que estava gostando. Solano, porém, nem se deu conta disso. Queria apenas satisfazer seus desejos e, depois que terminou, virou
para o lado e dormiu.
Aproveitando que ele roncava, Giselle jogou um manto sobre os ombros e saiu em busca de Belinda. Precisava dar-lhe ordens para avisar Ramon que não entrasse. Não
podia arriscar-se. Ao passar pelo quarto de Rúbia, ouviu vozes abafadas. Estacou abruptamente, indecisa, pensando no que fazer. Rapidamente, tomou uma decisão e
foi encostar o ouvido à porta. Do lado de dentro, duas vozes se elevavam. Rúbia conversava com Diego, e eles pareciam discutir. Em dado momento, fez-se silêncio,
Giselle não podia ouvir mais nada. Ficou ainda alguns minutos com o ouvido colado à porta, tentando escutar algum ruído, mas nada. Só depois de muito tempo foi que
lhe pareceu ouvir um gemido de prazer. Não tinha mais dúvidas. Rúbia e seu irmão Diego eram amantes.
Em silêncio, continuou seguindo pelo corredor, até alcançar a ala dos criados. Entrou no quarto em que Belinda dormia, pôs a mão na sua boca, para que ela não gritasse,
fazendo-a despertar assustada. Giselle fez-lhe sinal de silêncio e mandou que se levantasse. Cuidadosamente, Belinda obedeceu e a seguiu. Foram para uma sala reservada
e, após certificar-se de que ninguém a ouvia, Giselle disse rapidamente:
- Belinda, amanhã, quando Ramon chegar, avise-o de que Solano voltou de viagem. Mande-o embora e diga-lhe para aguardar o meu chamado.
Voltou para seus aposentos, mas não escutou mais vozes no quarto de Rúbia. Na certa, já deviam ter terminado. Pensando nos dois juntos, sentiu imenso desejo. Há
muito não se encontrava com Ramon, e o sexo mal feito de Solano só fez aguçar-lhe ainda mais a volúpia. Levou a mão à aldrava e quase a empurrou, mas mudou de idéia.
A porta deveria estar trancada e, mesmo que não estivesse, o que diria a Rúbia e Diego? Que os ouvira se amando e se enchera de desejo?
Em silêncio, retornou a seus aposentos e deitou-se ao lado de Solano. Ele havia ferrado no sono e dormira em sua cama, para seu desagrado. Ela passou a noite em
claro, pois ele roncava feito um porco, e ela não conseguia dormir. Na manhã seguinte, bem cedo, ouviu quando ele despertou e fingiu-se adormecida. Ele se levantou
ruidosamente, apanhou as roupas e bateu a porta, e Giselle concluiu que ele seguira para seus aposentos. Pensou que agora conseguiria dormir um pouco, mas o odor
fétido que ele deixara sobre seus travesseiros a enjoara. Solano cheirava a suor e bebida, o que a enojava ainda mais.
Furiosa, Giselle se levantou de um salto e arrancou os lençóis da cama, atirando para longe os travesseiros. Tornou a deitar-se sobre o colchão nu, pousando a cabeça
sobre o braço e, finalmente, adormeceu. Quando despertou, o sol já ia a pino, e ela sentiu fome. Aprontou-se correndo e desceu para a sala, onde a família se encontrava
reunida para o almoço.
- Acordou cedo hoje - ironizou Diego.
- Deixe-a em paz, Diego - repreendeu Rúbia. - Vamos, Giselle, sente-se aqui.
Giselle sentou-se na outra cabeceira, do lado oposto de Solano, que não lhe prestou muita atenção. Deu-lhe um sorriso insosso e continuou comendo, e a criada pôs-se
a servir Giselle. Ao dar a primeira garfada, pensou que iria desmaiar. A cabeça começou a rodar, sentiu um forte enjôo e teve vontade de vomitar. Levou a mão à boca
e levantou-se apressada, correndo em direção à cozinha. Apanhou uma bacia e vomitou diversas vezes, espantada com tamanho mal-estar. Ainda estava ofegante quando
ouviu voz de Rúbia:
- O que foi que houve Giselle? Está tudo bem?
Giselle não respondeu. A cabeça toda rodava, seu estômago doía, e Rúbia continuou:
- Foi algo que comeu?
- Não... Não sei... - Giselle forçou a resposta, doida de vontade de sair correndo dali.
- Não estará grávida?
- Grávida, eu?
- Se estiver, não diga nada a papai.
- Por quê?
- Ora, Giselle, meu pai não tem mais idade para engravidar ninguém. Nem sei se consegue manter relações com você.
Com indescritível assombro, Giselle contestou:
- Engana-se, Rúbia. Seu pai ainda é um homem viril.
Aquela revelação deixou Rúbia surpresa e feliz, e ela auxiliou a outra a levantar-se. Giselle parecia satisfeita. Um filho até que não seria má idéia. Herdaria
tudo em igualdade de condições com Rúbia, e ela se tornaria uma mulher extremamente rica. Ainda mais porque sabia que o filho não era de Solano, mas de Ramon. Estava
certa disso. Se estiver grávida, Ramon era o pai da criança, e aquilo a encheu de felicidade. Pela primeira vez, acalentou a idéia de ser mãe. Teria aquele filho.
Não propriamente para herdar os bens de Solano. Mas porque era fruto de seu amor e de Ramon, e ela não poderia matar uma parte deles dois.
De volta à sala, Solano se levantou e indagou com certa preocupação:
- Sente-se bem?
- Sim... Acho que sim...
- Será que Rúbia vai ganhar um irmãozinho? - disparou Diego.
Giselle e Rúbia fuzilaram-no com o olhar, enquanto Solano batia palmas de alegria.
- Será? - exultou. - Será que ainda poderei ser pai a essa altura da vida?
- Não é nada disso, papai - cortou Rúbia. - Giselle sentiu um passageiro mal-estar.
- Mas pode ser gravidez, não pode?
- Bem, tudo é possível.
- Então, vou mandar chamar um médico para examiná-la. Se você estiver grávida, pode ir começando a fazer repouso.
Giselle pensou em contestar, mas achou que havia algo de bom em tudo aquilo. Talvez assim Solano a deixasse em paz e não a procurasse mais. Ela teria sempre a desculpa
dos enjôos para dar, e ele, orgulhoso do filho de outro, não a aborreceria e acabaria procurando uma das criadas para se aliviar.
Com o auxílio de Rúbia, Giselle voltou para seu quarto. Os lençóis já haviam sido trocados, e ela se acomodou sobre os travesseiros, pousando a cabeça para descansar.
Realmente, sentia-se presa de um esgotamento sem igual.
- Por que disse aquelas coisas? - perguntou a Rúbia, logo que esta se acomodou a seu lado.
- O quê?
- Por que acha que o filho não é de seu pai?
- E é?
- Não sei.
- Não sabe ou não quer dizer?
- O que faria se não fosse?
- Nada. Não tenho nada com isso.
Giselle fitou-a abismada. Rúbia era uma moça muito madura para sua idade.
- Não quero que você pense mal de mim.
- Não penso nada. Aliás, não sou a pessoa mais indicada para julgar quem quer que seja.
- Por que diz isso?
- Conhece alguém que seja amante do próprio irmão? Giselle abriu a boca, estupefata, mas acabou por confessar:
- Eu já desconfiava. Ouvi-os juntos a noite passada.
- Ouviu?
- Sim.
- E não ficou chocada?
- Por que deveria? Como você, também não posso julgar ninguém. Até já perdi a conta dos amantes que tive. Por que a julgaria pior do que eu?



Giselle nem sabia por que dizia aquelas coisas. Parecia-lhe que já conhecia Rúbia há muitos anos e que podia contar com ela. De repente, viu-se lhe contando detalhes
de sua vida que jamais revelara a ninguém, nem a Esteban, nem a Ramon. Com Rúbia era diferente. Era mulher e parecia dividir com ela a cumplicidade dos anseios femininos.
- Você é uma pessoa especial, Giselle. Gosto de você.
- Também gosto muito de você, Rúbia. Rúbia apertou a mão da outra e continuou:
- Quando Diego e eu nos apaixonamos, não sabíamos que éramos irmãos. Ele vinha sempre com monsenhor Navarro, e nós acabamos sendo criados juntos. Para mim, ele era
meu amiguinho mais velho, responsável pelas brincadeiras mais fantásticas. Até que os amiguinhos cresceram, e eu me tornei mulher. Já não via mais em Diego o companheiro
de folguedos. Via nele o homem viril e atraente em que se transformara. Um dia, o inevitável aconteceu. Estávamos passeando a cavalo, fazia calor e fomos nadar.
Imagine-se totalmente despida dentro de um riacho, em companhia de um homem maravilhoso! Pois foi o que aconteceu. A partir de então, tornamo-nos amantes. Pensávamos
até em nos casar. Já íamos falar com meu pai, quando minha mãe morreu, e ficamos sabendo da verdade. Foi um choque para nós. Cheguei a ficar doente. Meu pai ficou
preocupado, mas jamais imaginou que nós estivéssemos tendo um romance. Aos poucos, fui-me curando e tentei afastar-me de Diego. Mas não consegui. Assim como eu,
ele também se apaixonara. Ficamos longe por cerca de dois meses. Depois disso, voltamos a nos encontrar. Papai nos revelara a verdade tarde demais. O inevitável
já havia acontecido, e sabermo-nos irmãos não foi suficiente para sufocar o nosso amor e o nosso desejo. Assim, assumimos o pecado e a culpa, e continuamos nosso
relacionamento.
- Isso é muito triste. Vocês devem ter sofrido bastante.
- Você nem imagina o quanto. Sabemos que o que fazemos é errado e temos certeza de que iremos para o inferno. Mas não podemos mais nos afastar. Não é justo. Papai
deveria ter-nos contado a verdade há mais tempo. Teria evitado que nos atirássemos no pecado.
- Seu pai sabe?
- Deus me livre! Acho que papai morreria ou nos mataria. Ele nem desconfia, e é bom que continue assim.
- No que depender de mim, Rúbia, ele jamais saberá de nada.
- E quanto a seu amigo da outra noite, fique sossegada. - prosseguiu Rúbia com ar maroto. - Não precisa me olhar com essa cara de espanto. Diego me contou tudo.
Embora envergonhada, Giselle ficou feliz. Via em Rúbia uma amiga sincera, alguém em quem podia confiar. Ela não sabia como Rúbia conseguia fazer aquilo. Manter um
caso com seu próprio irmão, apoiar a gravidez adulterina da madrasta, guardar segredo sobre seu envolvimento com outro homem e, ainda assim, amar o pai. Rúbia era,
realmente, uma pessoa singular, e Giselle ficou feliz por tê-la como amiga e aliada.
A gestação também a alegrara. Nunca antes pensara em levar avante nenhuma gravidez. Quanta e quanta poção não havia tomado para livrar-se dos fetos indesejados?
Mas agora, sentia que não precisava mais disso. Não precisava mais de nada nem de ninguém. Mesmo seus amigos das trevas, que há anos a haviam servido, não lhe importavam
mais. Desde que chegara a Cádiz, Giselle deixara de lado suas práticas de magia, com medo da reação de Solano. A princípio, ficara temerosa. Mas agora, segura do
amor de Ramon, tinha certeza de que não precisaria mais deles. E nem de longe lhe passava pela cabeça que não poderia abandoná-los como se eles fossem trapos velhos.
Os espíritos das sombras, revoltados com o pouco caso e a ingratidão de Giselle, cada vez mais se voltavam contra ela, tramando, sem que ela percebesse, os acontecimentos
funestos com que pretendiam vingar-se.
Ao receber a notícia de que não poderia ver Giselle naquela noite, Ramon quase desesperou. Pensou mesmo em invadir o castelo e ir ao encontro de sua amada. A muito
custo Belinda conseguiu contê-lo, e ele voltou para casa mais frustrado do que nunca.
No dia seguinte, entrou na taverna triste e cabisbaixo, sem falar com ninguém. Apanhou sua costumeira caneca de vinho e foi sentar-se à mesa de sempre, nem ligando
para as contas que precisava conferir. Só pensava em Giselle. Passara o mês alimentando o desejo de vê-la e de tomá-la em seus braços, e partira para Cádiz com o
coração aos pulos. E tudo para quê? Para ser despachado pela escrava, com a desculpa de que Solano havia voltado e era perigoso. Na certa, àquela hora, Giselle estava
deitada em seu leito, recebendo o amor que deveria ser dele.
Pensando no calor do corpo de Giselle, em seus beijos, seus cabelos macios, pensou que fosse enlouquecer. Ardendo de desejo, só pensava em tê-la em seus braços novamente.
Começou a beber e bebeu além da conta. Já fragilizado, voltou à atenção para Manuela. Naquela noite em particular, ela estava deveras sedutora. Aproximou-se dele
e dançou do jeito mais sensual que podia, provocando-o com seu corpo firme e rijo.
Ele não resistiu. Puxou-a para si e beijou-a com volúpia. Mal contendo o desejo, levou-a para a casa de Giselle e amou-a com ardor. Naquele momento, não pensava
em Giselle. Sabia que tinha Manuela em seus braços. Mas a solidão, a falta que a moça lhe fazia, o desejo incontrolável, tudo isso hes facilitou a aproximação. Durante
algumas horas, desligou-se de Giselle, feliz nos braços de Manuela. Não estivesse tão apaixonado, teria seguido com ela. Mas não podia. Era louco por Giselle e jamais
permitiria que ela descobrisse o que havia acontecido.





CAPÍTULO 22


Não sei o que está acontecendo comigo - queixou-se Esteban a Miguez. - Há muitos dias não me sinto bem; a cabeça me dói, sinto um esmorecimento...
- O médico disse que você anda trabalhando demais - censurou Miguez com bonomia. - Deve descansar.
- Mas eu tenho que comparecer ao auto-de-fé. Tenho três condenados na execução de hoje, incluindo Blanca Vadez.
- Pode deixar que eu mesmo cuide de tudo. Também tenho um condenado hoje. Coisa simples, mas estarei presente mesmo assim.
- Mas Miguez, o inquisidor-geral está em viagem a Madri. Era de se esperar que eu o substituísse.
- Eu mesmo o substituirei. Você deve ficar e descansar.
- Padre Miguez tem razão - acrescentou Juan que, até então, permanecera alheio à conversa. - O senhor precisa descansar.
Esteban soltou um suspiro profundo e resignado. Fitou Miguez e Juan, e deu de ombros, desanimado.
- Está certo. Convenceram-me. Mas Juan deve ir junto, para me representar.
- Irei monsenhor, se for de sua vontade.
Pouco depois, Miguez e Juan partiam junto rumo à praça onde havia sido montado o auto-de-fé. O padre cumprimentou os demais, pediu licença e foi sentar-se na poltrona
reservada a Esteban, anunciando que o representaria naquele dia. Juan sentou-se um pouco mais atrás, como de costume, e Miguez deu ordens para que se iniciassem
as execuções.
Eram cinco, no total. Três de Esteban, um dele e outro de padre Donário. Naquele dia, as execuções seriam todas realizadas pelo machado. Os condenados já não estavam
muito bem e poderiam acabar morrendo antes mesmo de chegar à fogueira, o que seria um desperdício. Ao menos a lâmina do machado era mais rápida e garantiria o espetáculo
da morte.
Blanca era a terceira na fila, última de Esteban. Vinha com sua veste branca, o crime que praticara estampado em vermelho na túnica, para que todos conhecessem a
sua heresia. Ao olhar para ela, Miguez sentiu uma pontada de tristeza. Ao saber do acontecimento, Lucena se sentiria extremamente infeliz. Blanca estava muito ferida
e fraca, mal se sustinha em pé sem a ajuda dos carrascos. Ao chegar a sua vez, subiu ao cadafalso com passos trôpegos e olhou para frente, tentando enxergar o caminho
por onde deveria seguir. Mas os olhos feridos pela brasa do aço já não podiam ver mais nada, e ela tropeçou e caiu, arrancando estrondosa gargalhada do público presente.
Bateu com a cabeça no chão e desmaiou, e o verdugo pôs-se a cutucá-la com o pé, a fim de se certificar de que ainda vivia.
Começaram então os apupos. A multidão, sedenta de sangue, queria ver o espetáculo macabro, e a queda de Blanca os fizera pensar que ela havia morrido antes da hora.
Por mais que o carrasco a chutasse, ela não se movia. Um filete de sangue escorria de sua testa, e o homem olhou para Miguez e deu de ombros, como a perguntar o
que deveria fazer.
Na mesma hora, Miguez se levantou e se aproximou do corpo caído de Blanca. Ajoelhou-se ao lado dela e pôs o ouvido em seu peito, a fim de escutar as batidas de seu
coração. Efetivamente, podia ouvir seus fracos batimentos cardíacos e certificou-se de que ela ainda estava viva. Tornou a olhá-la, penalizado. Sentia muita tristeza
por Blanca, não pelo seu sofrimento, mas por todo sofrimento que causara a sua Lucena. Olhando para ela com os olhos rasos d'água, tomou uma decisão. No momento
em que o médico oficial da Inquisição se aproximava, Miguez levantou-se decidido e declarou com ar solene:
- Não adianta mais. Esta aqui está morta.
Foi um desespero. O público gritava e vaiava, exigindo que fosse derramado o sangue da condenada. O médico ainda tentou experimentar-lhe o coração, mas Miguez segurou
o seu braço, afirmando com tanta convicção, que nem o médico teve dúvidas:
- Já disse que ela está morta.
Nova comoção tomou conta do público, e Miguez chegou a pensar que eles fossem tomar conta da praça. Rapidamente, deu ordens a um dos homens que tirasse Blanca dali
e a levasse de volta ao calabouço.
- Padre - interveio o homem -, deixe que a ponha diretamente na carroça com os demais corpos.
De carroça, os corpos seriam levados para um local afastado, onde seriam cremados. Miguez não queria que Blanca fosse para lá. Ela estava viva, mas apenas ele sabia
disso. Contudo, não podia despertar a atenção de ninguém. Com um aceno de cabeça, concordou que o homem a levasse, e Blanca foi atirada na carroça juntamente com
os demais corpos.
Em seguida, Miguez deu ordens para que prosseguissem com o espetáculo funesto. Outro condenado foi trazido e executado, não sem antes ser levemente açoitado, a fim
de que a turba se contentasse com o seu flagelo e não lamentasse tanto a morte intempestiva de Blanca. Ao final da carnificina, corpos e cabeças se amontoavam na
carroça, numa massa disforme de carne, sangue e ossos.
Logo após a cerimônia de encerramento, Miguez correu em direção à carroça, tomando cuidado para que ninguém o visse, principalmente Juan. O último corpo já havia
sido atirado lá dentro, e o encarregado se preparava para partir em direção ao campo de cremação quando Miguez o interrompeu.
- Espere um instante - falou apressado.
O homem apertou as rédeas, segurando os cavalos.
- Algum problema, padre?
- Sim. Esta aqui vai para outro lugar.
-

-
Apontou para Blanca e esperou. O homem, sem nada entender, quis protestar:
- Mas padre, é uma herege, não pode ser enterrada em campo santo.
- Faça o que eu disse homem! E depois, quem foi que disse que ela vai para campo santo? É apenas um favor que estou fazendo a alguns parentes.
O homem estacou indeciso.
- Tem certeza?
- Não discuta comigo, rapaz. Faça o que estou mandando.
Aproximou-se do homem e estendeu-lhe uma bolsinha, que ele apanhou com um sorriso de cobiça, exibindo uns poucos dentes irregulares e amarelos.
- O senhor é quem manda padre. Aonde quer que a leve?
Miguez olhou de um lado a outro, a fim de se certificar de que ninguém estava olhando. Não podia mandar Blanca para sua casa; ela já nem tinha mais casa.
Além disso, o homem podia dar com a língua nos dentes, o que acabaria por comprometê-lo. Mas ele estava com pressa. Blanca podia acordar e pôr tudo a perder. Num
gesto rápido e preciso, subiu na carroça ao lado do outro e ordenou incisivo:
- Toque os cavalos. Direi onde deve parar.
O homem pôs os animais em movimento e seguiu adiante, à espera que Miguez lhe dissesse o que fazer. A certa altura do caminho, ouviram gemidos angustiados e olharam
para trás ao mesmo tempo. Blanca acabara de despertar e tentava entender o que estava acontecendo. Cega, não sabia onde estava, mas sentia o cheiro e o visco do
sangue dos executados colado em seu corpo.
- Ei! - exclamou o homem, atônito, freando os animais. - O que está acontecendo aqui?
Miguez fitou-o apavorado. O que deveria fazer? Pensou em saltar sobre ele e matá-lo, mas o homem era mais forte e, na certa, muito mais hábil do que ele. Não tinha
saída. Virou-se para ele e falou apressadamente:
- Não diga nada. Se souber guardar segredo, farei de você um homem rico.
O outro o fitava com um brilho estranho no olhar, já antevendo a fortuna que iria arrancar daquele padre.
- Olhe padre, não quero que pense que sou um homem ganancioso. Mas o meu silêncio vai custar caro.
- Não se preocupe. Posso pagar. Agora, faça exatamente como eu mandar.
Miguez deu-lhe ordens para deixá-los próximo a sua casa em San Martin e depois seguir para o local onde os corpos seriam cremados, com a incumbência de não dizer
nada a ninguém. Para todos os efeitos, apenas quatro pessoas haviam sido executadas naquele dia. Ninguém de nada sabia e ninguém nada iria perguntar.
- Só uma coisa - alertou Miguez -, se disser uma palavra disso a alguém, nosso trato está desfeito. Se, ao contrário, mantiver a sua palavra, garanto que não irá
arrepender-se.
- Pode deixar padre. Não direi nada a ninguém.
Soltou um riso sarcástico e tornou a olhar para Blanca, tentando imaginar que interesse um padre poderia ter numa esfarrapada moribunda feito aquela. Não perguntou
mais nada, porém. Só pensava no ouro que iria tirar de Miguez. Em sua cabeça já se via milionário, chantageando o padre cada vez que precisasse de mais dinheiro.
Não diria nada a ninguém. Não queria compartilhar com outros a fortuna que merecia ser apenas dele.
Blanca, por sua vez, embora não visse nada, ouvia tudo o que eles diziam e, com medo do que estivesse acontecendo, encolheu-se toda na carroça e ficou chorando de
mansinho. Cerca de uma hora depois, pararam alguns metros antes da casa de Lucena. Miguez saltou rapidamente e ajudou Blanca a descer, amparando-a para que não caísse.
- Pode andar? - perguntou a ela.
Ela assentiu agarrada ao seu braço, e ele passou a mão ao redor de sua cintura, apertando-a de encontro a seu próprio corpo. Depois, virou-se para o homem e finalizou:
- Amanhã receberá seu pagamento. Encontre-me ao anoitecer, nas ruínas do velho moinho, perto do riacho Doce. Sabe onde fica?
- Sim.
- Ótimo. Vá sozinho.
-

-
Deu-lhe as costas e foi amparando Blanca pela estrada, até que chegaram a sua casa. Bateu à porta e Consuelo veio abrir, exclamando com espanto:
- Minha Nossa Senhora, padre Miguez! O que é isso?
- Ajude-me, Consuelo, rápido!
Ouvindo aquela gritaria, Lucena veio correndo lá de dentro. Mal podia acreditar que era Blanca quem estava ali, mais morta do que viva. Olhou para Miguez emocionada
e atirou-se em seus braços, naquele momento acreditando no quanto ele a amava, sentindo que o amava também.
Levaram Blanca para um dos quartos e a acomodaram na cama, sob almofadas e lençóis macios. Consuelo correu a preparar-lhe uma boa refeição, enquanto Lucena, em lágrimas,
limpava-lhe o sangue e as feridas espalhadas pelo seu corpo esquálido. Os olhos baços pareciam vidrados, fitando o vazio, o que só fez aumentar o ódio de Lucena
por Giselle.
Blanca mal falava. Conseguia apenas balbuciar umas poucas palavras, mas reconheceu a filha de seu noivo e pôde murmurar um obrigado quase inaudível. Depois de limpa
e alimentada, adormeceu instantaneamente, como há muito não fazia. Depois que ela dormiu, Miguez contou a Lucena tudo o que havia acontecido, e ela se emocionou
ainda mais. Só mesmo um amor verdadeiro para assumir os riscos que ele assumira.
- E o tal homem da carroça? - quis saber Lucena, depois que se acalmou.
- Amanhã vou fazer o pagamento.
- Vou com você.
- Isso é que não! É perigoso.
- Se você pôde se arriscar por mim, também posso me arriscar por você. E depois, não se preocupe. Não pretendo aparecer. Quero apenas estar ao seu lado.
Miguez sorriu agradecido. No dia seguinte, ao cair da noite, ele e Lucena partiram rumo ao local combinado para o encontro. O moinho estava abandonado e quase desabando,
e ninguém se atrevia a entrar ali, com medo de acabar soterrado. O homem ainda não havia chegado, e Miguez se acomodou sobre uma mureta de pedras, enquanto Lucena
se ocultava nas sombras, do outro lado.
Não tardou muito, e o homem apareceu.
- Boa noite, padre - cumprimentou irônico.
Sem lhe prestar atenção, Miguez tornou de má vontade:
- Trouxe alguém com você?
- Não. Vim sozinho, conforme o combinado.
- E contou sobre isso a mais alguém?
- A ninguém.
- Ótimo.
Miguez enfiou a mão dentro da capa e dela retirou outra bolsinha de couro, mais pesada e recheada do que a primeira. O homem experimentou-lhe o peso, fitou Miguez
com olhos ávidos e deu um sorriso que denotava toda a sua ambição. Ao abrir a boca para dizer alguma coisa, seus olhos se arregalaram e ele soltou uma tosse seca,
parecendo sufocar. Pouco depois, cambaleou para frente, fitou o rosto espantado de Miguez, que recuou aterrado, sem entender o que estava acontecendo, e murmurou
agonizante, no exato instante em que tombava bem diante de seus pés:
- Desgraçado...
Miguez fitou primeiro o corpo inerte do homem e depois levantou os olhos lentamente, mal acreditando no que acabara de acontecer. Parada diante dele, Lucena segurava
uma faca reluzente, ainda suja com o sangue do homem.
- Ele ia acabar nos entregando... - disse ela, com olhar febril.
Embora assustado, Miguez abaixou-se perto do corpo do homem e retirou-lhe a bolsinha, ainda presa entre seus dedos. Aquilo não estava nos seus planos, mas fora melhor.
Livrara-se de um problema. E se o homem, mais tarde, começasse a pedir mais e mais dinheiro em troca de seu silêncio? Segurando firmemente a bolsinha, correu para
Lucena, tirou-lhe a faca das mãos e atirou-a sobre o corpo inerte do homem, abraçando-a com ternura.
- Você é muito esperta e corajosa, Lucena - disse cheio de admiração. - Estou orgulhoso de você.
Voltaram para casa, pensando no que deveriam fazer. E se alguém descobrisse Blanca ali? Agora que Lucena conseguira salvá-la, não queria perdê-la novamente. Quando
já não tinha mais esperanças, acabara por cumprir parte da promessa que fizera ao pai. Ela prometera, em seu estertor de morte, salvar Blanca e vingar-se de Giselle.
Blanca já estava salva. Giselle, em breve, estaria em seu lugar.
Lucena correu ao quarto de Blanca, para ver como estava passando. Apesar de bastante ferida e fraca, sua respiração parecia regular. Suspirou aliviada e ajoelhou-se
aos pés da cama, mal contendo as lágrimas. A seu lado, dom Fernão também chorava. Auxiliado pelos espíritos aos quais se associara, conseguira salvar Blanca da morte
horrenda. Ela era muito pura para transformar-se num espectro feito ele. Precisava viver. Viver para presenciar de perto a vingança que ele e seus asseclas estavam
tramando para Giselle.
Beijou Blanca e Lucena no rosto e saiu pela parede. Apesar de Lucena não lhe registrar a presença, sentiu imensa saudade do pai e viu-se preso de um pranto convulso
e desesperado. Miguez, preocupado, abraçou-a com força e levou-a dali, e ela só conseguia dizer o quanto odiava Giselle e gostaria de vê-la morta.
Embora desse pela falta de Miguez, Juan nem de longe desconfiou de que ele havia conseguido salvar a vida de Blanca. Até porque, não estava interessado. Seus pensamentos
ainda se voltavam para Giselle, e ele se roia, só de imaginá-la dormindo com outro homem. Ao voltar para os aposentos de Esteban, viu que ele já estava melhor e
havia até se levantado.
- Monsenhor Navarro - censurou com certo carinho -, não devia estar de pé. Lembre-se do que o médico disse.
- Não se preocupe Juan, já estou melhor. E o auto-de-fé, como foi? Correu tudo bem?
- Teria sido melhor se Blanca não morresse antes de pôr a cabeça no tronco.
- Blanca morreu antes?
- Sim. Não agüentou.
- A multidão ficou furiosa?
- Ficou, mas padre Miguez contornou a situação. Mandou açoitar o próximo condenado antes da execução, e a turba pareceu satisfeita.
- Sabia que poderia contar com Miguez. Quanto a Blanca, bem, isso já era esperado. Ela estava mesmo muito mal. Só foi pena ter estragado o espetáculo.
- Pois é...
Esteban ficou vendo Juan se movimentar pelos aposentos, arrumando as camas e os livros na estante. Em dado momento, sentou-se numa cadeira perto da janela e chamou
o noviço para junto de si:
- Sente-se aqui a meu lado, Juan. Quero falar com você.
Juan obedeceu. Largou o que estava fazendo e sentou-se ao lado de Esteban, falando com extrema polidez:
- Pois não, monsenhor. Deseja alguma coisa?
- Não exatamente. Quero saber de você.
- De mim? Por quê?
- Tenho notado que você anda um tanto estranho. Muito calado, triste, acabrunhado. Está acontecendo alguma coisa?
- Não está acontecendo nada.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Eu o conheço desde pequenino, Juan. Sei quando algo de errado está acontecendo com você.
- Não há nada de errado comigo, monsenhor.
- Em que anda pensando, meu rapaz? Em mulheres? Sente o desejo tomar conta de você? - Juan enrubesceu e sentiu o rosto arder, e Esteban prosseguiu: - É isso, não
é? Você ainda é jovem, e seu corpo todo responde a tanta juventude. Não estou certo?
- Não... Não, monsenhor... Não é nada disso... Sinto-me feliz aqui...
- Não foi isso o que perguntei, mas sei que seu coraçãozinho está dolorido.
- Dolorido? Não, senhor...
- Ainda pensa em Giselle, não é?
A afirmação súbita e direta de Esteban o confundiu, e Juan sentiu-se corar ainda mais.
- Não... Não. Nem sei por que está falando isso. A senhorita Giselle...
- Giselle agora é uma senhora casada.
- Sei disso.
-

-
- E você não deveria mais pensar nela.
- Não penso nela, monsenhor. Por que haveria de pensar? Juan continuava sentado ao lado do cardeal, faces rubras, sem coragem de encará-lo, enquanto Esteban ia se
lamentando:
- A culpa foi minha. Não devia ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Devia ter tomado uma providência logo que descobri essa sua paixão insana por Giselle.
- Monsenhor Navarro - objetou Juan, confuso e aturdido -, está enganado.
- Não adianta tentar mentir para mim. Sei de tudo. No outro dia, quando chegou aqui com febre, delirando... Só falava no nome de Giselle.
Juan sentiu que as lágrimas começavam a deslizar de seu rosto e se atirou aos pés de Esteban, rogando em súplica:
- Oh! Monsenhor, por favor, não me castigue! Eu tentei evitar, juro que tentei. Mas não consegui. Por mais que me esforce, não consigo parar de pensar em Giselle.
- Giselle não é mulher para você. Gosto dela também, mas ela é uma meretriz.
- O senhor está enganado. Ela me ama...
- Giselle não o ama. Por que está se iludindo desse jeito?
- Não estou me iludindo, ela me ama.
- Ela está casada com outro homem.
- Porque o senhor obrigou. Mas ela me ama, sei que me ama.
- Pare com isso, Juan! Não vê que assim só irá sofrer ainda mais? Giselle o ama... Não sei de onde tirou essa idéia!
- Ela me disse!
- Giselle disse que o ama?
- Disse e... - calou-se envergonhado, ocultando o rosto no colo de Esteban.
- E o quê? Vamos, Juan, conte-me. E o quê?
- Ela... Ela... Oh! Monsenhor...!
Não parava de chorar. Embora impaciente, Esteban afagou os seus cabelos e fez com que ele se levantasse, sentando-o novamente na cadeira, de frente para ele.
- Ela o quê? Vamos, diga-me! Exijo que me conte a verdade.
Intimidado pela autoridade do outro, Juan fechou os olhos e acabou por confessar:
- Ela me fez homem, monsenhor!
- Ela o quê? - horrorizou-se, levando a mão ao peito.
- Ela me fez homem... - repetiu com voz sumida.
- Vocês... Vocês dormiram juntos? Mantiveram conjunção carnal?
- Sim...
- Meu Deus! Giselle foi longe demais.
- Não fique zangado com ela, monsenhor. Ela não teve culpa. Sei que ela e o senhor eram amantes, mas não foi culpa nossa. Simplesmente aconteceu. Ah! Monsenhor perdoe-me,
perdoe-me! Vivo aflito com essa traição. O senhor é como um pai para mim, e eu não quis traí-lo. Mas não consegui. Foi mais forte do que eu! Por favor, perdoe-me!
Ele estava totalmente descontrolado, e Esteban se aproximou dele, chamando-o à razão:
- Juan, contenha-se! Seja homem!
Ainda em lágrimas, Juan tentou conter o pranto e arrematou hesitante:
- Giselle me ama...
- Ela não o ama - disse em voz baixa, mais para si do que para o noviço. - Giselle não ama ninguém a não ser, talvez, aquele vagabundo do Ramon.
- Não é verdade! - explodiu Juan, que ouvira nitidamente as suas palavras. - Ela me disse que não havia nada entre eles. Ela me disse!
Arrependido de haver deixado escapar o nome de Ramon, Esteban tornou confuso:
- Conhece Ramon?
- Já o vi na taverna, em companhia de Giselle.
- Sabe quem ele é?
- Não...
- Ramon é um vagabundo, é isso o que ele é. E é por ele que Giselle está apaixonada.
- Não é! Ela está apaixonada por mim!
- Você é um tolo, Juan. Então não vê que Giselle o estava usando? Na certa para obter informações sobre padre Miguez?
- Não, não...
- Tanto que ela veio procurar-me, contando que você a informara sobre o relacionamento de Miguez e Lucena. Naquele mesmo dia, pedi-lhe que não se envolvesse com
você... Sabe o que ela havia me pedido antes? Que a deixasse casar-se com Ramon de Toledo. É a ele que ela ama. Será que você não vê? Nem a mim, nem a você, mas
a Ramon.
- Mas ela se casou com dom Solano. E só porque o senhor mandou...
- Não é bem assim. Você fala de coisas que não conhece. Giselle não ama você. Isso eu posso assegurar-lhe.
- O senhor está querendo me punir, não é monsenhor?
- Não tenho motivos para fazer isso. Estou tentando ajudá-lo. Gosto de você como se fosse meu filho, não quero que sofra por causa de Giselle.
- Oh! Monsenhor, eu a amo! O que posso fazer?
- Esqueça-a. Para o seu próprio bem, esqueça Giselle. Se quiser, posso arranjar umas mocinhas para você, sem que ninguém saiba.
- Não quero mocinhas. Quero Giselle.
Esteban fitou-o penalizado. Jamais deveria ter permitido que as coisas chegassem àquele ponto. Juan era um rapaz inexperiente e impressionável, e se deixara envolver
pela sedução de Giselle. Que jovenzinho não se envolveria com uma mulher vivida e sensual feito ela?
Sem ter mais o que dizer, afagou-lhe novamente a cabeça e enxugou-lhe as lágrimas. Daquele dia em diante, tencionava não tocar mais no nome de Giselle na frente
de Juan. Queria fazê-lo esquecer da moça e, não a vendo nem ouvindo falar o seu nome, talvez ele parasse de pensar nela. Juan era extremamente jovem, e o tempo se
encarregaria de amadurecer tanta juventude.




CAPÍTULO 23



A felicidade por ter em seu ventre um filho de Ramon encheu Giselle de esperanças. Após o nascimento da criança, daria um jeito de livrar-se de Solano e casar-se
com Ramon, e viveriam felizes para sempre, os três, longe de toda aquela sordidez. Solano, por outro lado, acreditava que o filho era dele e vivia gritando aos quatro
cantos que ainda traria ao mundo mais um herdeiro antes de morrer.
Giselle não tivera nem tempo de contar tudo a Ramon. Solano chegara e, por causa de sua gravidez, parecia que não iria mais embora. Ficou por duas semanas seguidas,
até que resolveu partir. Depois que ele se foi, Rúbia foi bater à porta do quarto de Giselle. Ela estava descansando, e a outra entrou bem devagarzinho.
- Giselle - chamou baixinho. - Está dormindo?
- Não. Estava apenas descansando, fazendo planos.
- Que planos?
Não podia dizer a Rúbia que pensava em matar o seu pai. Por mais que a moça gostasse dela, ficaria com ódio se soubesse.
- Planos para o meu filho - despistou, acariciando a barriga.
- O pai dele já sabe?
- Ainda não - suspirou ela, um tanto sem jeito.
- Quer que eu mande chamá-lo aqui?
-

-
- Você faria isso?
- E por que não? Por acaso, também eu não vivo um romance ilícito e obscuro? O amor é assim mesmo, minha amiga. Não se pode ir contra ele.
No dia seguinte, Belinda apareceu em casa de Giselle para chamar Ramon. Ele estava dormindo com Manuela, e a escrava fez um ar de desagrado quando soube. Mas não
disse nada. Tinha medo de Giselle e preferiu não se meter naquela história, como Belita já fazia.
Ao saber que Giselle o receberia, Ramon largou Manuela e seguiu direto para Cádiz em companhia de Belinda. Foi discretamente introduzido nos aposentos de Giselle,
e os dois se amaram loucamente. Só depois que terminou ela lhe contou que estava grávida.
- Meu filho, Giselle? - exultou. - Você está esperando um filho meu? Tem certeza? Não é daquele porco do Solano?
- Tenho certeza, Ramon. É seu filho.
Giselle não queria lhe contar que pensava em dar cabo da vida de Solano. Ramon desistira da idéia do assassinato, e ela sabia que ele não queria envolver-se em nenhum
crime e ainda tentaria fazer com que ela mudasse de idéia. Mas ela não permitiria que seu filho fosse criado por outro homem nem que desse a ele os carinhos que
deveria reservar para seu verdadeiro pai.
- No momento oportuno, veremos o que fazer - disse ele, ainda em dúvida.
- E Manuela, como vai?
- Bem...
Tamanha era a felicidade de Giselle que ela nem percebeu as reticências de Ramon. Ele procurou desviar o assunto e pôs-se a contar-lhe sobre os negócios, mantendo-a
informada sobre o que acontecia na taverna.
- Teve notícias de Esteban?
- Não. Nunca mais soube dele.
- É pena.
- Sente saudades?
- Na verdade, sinto sim. Você sabe o quanto gosto dele.
Ramon não respondeu. Sentia um pouco de ciúmes de Esteban, mas não queria que ela soubesse. Ficou durante toda a noite. Na manhã seguinte, Rúbia veio chamá-lo. Ele
levou um susto ao ver a moça ali, parada diante dele.
- Não se preocupe com Rúbia - tranqüilizou Giselle. - É minha amiga. Foi ela quem sugeriu trazê-lo aqui.
- Mas agora já é tarde - observou ela. - Você deve ir. Meu pai saiu, mas nunca sabemos quando irá voltar. Ainda mais agora, que pensa que vai ser pai.
- Por que está fazendo isso? - retrucou Ramon, sem nada entender. - Não gosta de seu pai?
- Gosto. E muito. Por isso, serei eternamente grata a Giselle pelo bem que está fazendo a ele. Mas não posso fechar os olhos para a realidade. Meu pai é um homem
velho e feio, ao passo que Giselle é uma mulher jovem e linda. Eu seria uma tola se pretendesse que ela o amasse e lhe fosse fiel. Além disso...
- Além disso...
- Sei o quanto é triste amar-se uma pessoa que não se pode ter.
- Como assim?
- Outro dia Giselle lhe contará essa história. Agora venha. Meu pai pode voltar a qualquer momento.
Ramon não discutiu. Sentia-se grato àquela jovem por permitir que ele encontrasse sua amada. Beijou Giselle apaixonadamente, deu-lhe outro beijo no ventre e se foi.
Belinda já o aguardava e conduziu-o direitinho para fora do castelo.
- É um bonito rapaz - elogiou Rúbia.
- É sim. E eu o amo muito.
Ramon não podia vir todo o dia. Além da distância, a prudência aconselhava que não se expusesse tanto. Solano, preocupado com a gravidez de Giselle, afastava-se
muito pouco, e era só nessas oportunidades que Ramon a via às pressas. Com isso, seu romance com Manuela foi se intensificando. Seu coração ainda pertencia a Giselle,
mas Manuela era uma mulher ardente e sensual, e Ramon foi se envolvendo. Sempre que Belinda aparecia para chamá-lo, ele largava Manuela e ia ao encontro de Giselle.
Mas já não se consumia de paixão e desejo como antes, e a falta que Giselle fazia foi sendo suprida pelo calor do corpo de Manuela.
Com isso Giselle também foi se sentindo só. Parará de ter enjôos, mas sua barriga ainda não começara a crescer. Ainda assim, não permitia mais que Solano a tocasse.
Sempre que ele a procurava, ela se desculpava com os enjôos e as tonteiras, alegando que a gravidez lhe tirava o apetite sexual. Ele compreendia e não insistia,
e Giselle passava as noites ardendo de desejo, pensando na falta que Ramon lhe fazia.
Começou a perder o sono. Quanto mais ansiava por Ramon, menos conseguia dormir. Solano, em seu quarto, dormia de roncar, e Giselle, certa noite, irritada com a falta
de sono, levantou-se na ponta dos pés. Sabia que Rúbia e Diego deveriam estar no quarto ao lado e dirigiu-se para lá. Colou o ouvido à porta, mas quase não escutava
nada. De vez em quando, um gemido, um sussurro, risos... Aquilo a foi enchendo de desejo, e ela tomou coragem. Com a mão na aldrava, empurrou a porta e entrou.
O quarto estava às escuras, e ela foi se encaminhando para a cama de Rúbia. Os dois estavam nus, se amando, e sorriram ao mesmo tempo quando ela se aproximou. Aquilo
a espantou deveras. Pensava que Rúbia iria expulsá-la dali, mas, ao invés disso, ela lhe estendeu a mão, que Giselle tomou docemente, enquanto Diego a puxava pela
outra mão.
Giselle deitou-se com eles. Daquele dia em diante, assim como Ramon procurava o corpo quente de Manuela, Giselle passou a consumir o seu desejo na cama de Rúbia,
ao lado dela e de Diego. Rúbia não se importava de vê-la e a Diego juntos. Ao contrário, parecia até gostar. Os três se tornaram amantes. Giselle não vinha sempre.
Sabia o quanto eles se amavam e sabia que o que ela buscava neles era apenas sexo e conforto.
Solano de nada desconfiou. Para todos os efeitos, Giselle sentia enjôos de gravidez. Muitas vezes, descobrira Giselle dormindo no quarto de Rúbia, mas nem de longe
lhe passou pela cabeça o que estava acontecendo. Achava natural que a esposa buscasse a companhia de outra mulher naquelas horas, pois só outra mulher poderia ajudá-la
com seus problemas íntimos.
Giselle não teve coragem de contar nada a Ramon. Tinha medo de que ele não aceitasse. Casar-se com Solano fora uma questão de vida ou morte. Mas dormir com Diego
e Rúbia era uma traição inaceitável. Por isso, não disse nada. Quando Solano viajava, Belinda o chamava, e ela não ia ao quarto de Rúbia. Dedicava-se inteiramente
a Ramon, e ele nem de longe desconfiava que ela também o estivesse traindo.


CAPÍTULO 24


Com o decorrer dos dias, Juan foi se sentindo cada vez mais inquieto. Só conseguia pensar nas palavras de Esteban: Giselle não o amava. Amava Ramon, o vagabundo.
Mas como podia ser verdade? Ela estava em Cádiz, com dom Solano. E Ramon? Será que continuava em Sevilha? Cada vez mais atormentado, resolveu sair. Esperou até que
monsenhor Navarro dormisse e ganhou a rua.
Em poucos instantes, adentrava a taverna de Giselle. Tudo parecia como antes, à exceção, talvez, de Manuela. Agora, era somente ela quem distraía os homens com sua
dança. Em silêncio, Juan se sentou a uma mesa no canto e pôs-se a espiar. A taverna não estava muito cheia, e ele pôde prestar atenção a cada detalhe.
Envolto em seu manto de veludo negro, Juan passou despercebido. Ninguém conseguira ver-lhe o hábito sob o manto e ninguém imaginou que ele era um religioso, a não
ser Manuela, que já o conhecia. Ela terminou de dançar e foi para onde ele estava um sorriso malicioso estampado no rosto.
- Ora, ora, ora - disse em tom de malícia -, se não é o noviço por aqui novamente.
Juan sentiu o rosto enrubescer e teve vontade de se levantar e sair correndo dali, mas a curiosidade o deteve. Não havia visto Ramon e queria saber se ele ainda
continuava por ali.
- Boa noite, senhorita Manuela - respondeu com excessiva cerimônia.
- O noviço sabe o meu nome!
- Por favor, senhorita, deixe de brincadeiras.
- Está bem - concordou ela, sentando-se a seu lado. - Mas diga-me: o que o traz aqui? Giselle não está mais à frente da taverna.
- Eu sei. Não vim por causa de Giselle.
- Não veio? E a que veio então? Não vá me dizer que veio por minha causa...
Fingindo não ouvir os seus gracejos, Juan virou o rosto de um lado a outro, como se procurasse alguém.
- Onde está Ramon? - indagou, com fingida naturalidade. - Não trabalha mais aqui?
- Ramon? - tornou Manuela desconfiada, com medo de que ele fosse algum tipo de espia de Giselle. - Não o vi hoje. Por quê?
- Por nada.
- Ora, vamos noviço...
- Será que não poderia me chamar pelo nome? - zangou-se.
Manuela deu uma gargalhada e acrescentou:
- Está bem, Juan. Mas você ainda não me disse por que está atrás de Ramon. Ele está em débito com a igreja?
Juan ignorou o sarcasmo e ficou olhando para o seu rosto, imaginando se poderia confiar nela.
- Você é muito amiga de Giselle, não é?
Cada vez mais desconfiada, Manuela respondeu com cautela:
- Ela praticamente salvou a minha vida.
- Sei... E Ramon?
- O que tem ele?
Juan queria perguntar-lhe sobre o envolvimento de Ramon com Giselle, mas Manuela temia que ele quisesse averiguar se ela e Ramon eram amantes. Em sua ingenuidade,
Juan sequer imaginava um envolvimento entre ambos.
Tentando parecer casual, prosseguiu:
- É que fiquei imaginando... Ramon deve estar sentindo muito a falta de Giselle, não é? Quero dizer, com o casamento e tudo o mais...
- É... Ramon deve mesmo estar sofrendo.
- Por que Ramon estaria sofrendo?
Manuela não estava entendendo nada. Aquele menino parecia dizer coisas sem sentido algum. Afinal, o que estaria tentando descobrir?
- Escute Juan - revidou ela com todo cuidado -, não entendo aonde quer chegar.
Ele a fitou com olhos ávidos e tomou coragem para perguntar:
- Giselle e Ramon são amantes? Ela suspirou aliviada.
- Você não sabe?
- São ou não são?
- É claro que são. Pensei que soubesse. Todo mundo sabe.
- Desde quando?
- Ora... Desde que se conheceram.
- Mas Giselle está casada com dom Solano!
- E daí? Desde quando casamento é empecilho para o amor? Juan silenciou, lutando desesperadamente para conter a raiva. Giselle o enganara. Dissera que o amava, mas
estava mentindo. Monsenhor Navarro é que tinha razão. Ela não amava ninguém, a não ser aquele porco imundo do Ramon. Sem dizer nada, levantou-se com o ódio a transfigurar-lhe
as feições e foi se encaminhando para a porta. Ainda deu uma última olhada para dentro, tentando ver se Ramon estava por ali, mas ele não apareceu. Ramon estava
no quarto atrás da taverna, cuidando da contabilidade, e nem sabia da chegada de Juan. Da porta, olhou rapidamente para Manuela, que permanecia fitando-o com ar
de indignação, e se foi.
Voltou para a abadia e foi deitar-se. Monsenhor Navarro ressonava alto no quarto ao lado e nem se apercebeu de sua saída. No dia seguinte, levantou-se mais cedo
do que de costume, aprontou-se e saiu, deixando um bilhete conciso para Esteban. Tomou a carruagem e rumou para Cádiz.


Quando chegou, o castelo já estava em plena atividade. Dom Solano havia saído para resolver uns assuntos, Rúbia e Diego estavam fora, andando a cavalo, e Giselle
estava repousando. Foi recebido pelos criados, e Belinda correu ao quarto de Giselle para chamá-la. Ela se aprontou rapidamente e desceu apressada, pensando que
Juan estivesse ali a mando de Esteban. Encontrou-o no salão principal, andando de um lado a outro, apertando as mãos, cheio de nervosismo.
- Juan! - exclamou Giselle, correndo para ele e segurando-lhe as mãos. - Aconteceu alguma coisa?
Ele olhou de soslaio para a escrava e respondeu bem baixinho:
- Precisava falar-lhe... A sós.
Giselle meneou a cabeça e levou-o para seu quarto. Afinal, era um religioso, e seu marido não iria reclamar de sua presença em seus aposentos particulares. Depois
que ele se acomodou, Giselle sentou-se diante dele e tornou a falar:
- Muito bem. Agora me conte o que houve.
Ele permaneceu durante alguns minutos estudando o seu rosto. Ela parecia agitada, nervosa, com medo de alguma coisa. Seria medo de que algo houvesse acontecido ao
amante?
- Giselle... - balbuciou ele - da última vez que nos vimos, disse que me amava...
A mente de Giselle começou a trabalhar rapidamente. Juan não estava ali para levar-lhe nenhuma notícia ruim. Estava ali para cobrar-lhe algo. Sabia que ele estava
apaixonado por ela e lembrou-se de que havia lhe dito que o amava. Até dormira com ele e o transformara num homem. Seria prudente revelar-lhe a verdade sobre seu
envolvimento com Ramon?
- O que quer dizer? - a retrucou, confusa.
- Disse ou não disse que me amava?
- Disse...
- E estava mentindo?
- Não - sustentou a mentira.
- Quando se deitou comigo, falando aquelas coisas, estava sendo sincera, não estava?
- Estava.
- Então, por que é que mantém um caso com esse tal de Ramon?
- Não diga isso! - censurou exaltada. - Não é verdade.
- Você disse que me amava, Giselle. Você jurou. Disse que Ramon era apenas um amigo.
- Mas é...
- Mentira! Manuela me contou tudo. Você e Ramon são amantes desde quando se conheceram. Mas quem é esse Ramon e como foi que entrou em sua vida?
Giselle começou a desesperar. Tinha em Juan um forte aliado contra as armadilhas de Miguez. Se perdesse a sua amizade e ele se passasse para o lado daquele padre
maldito, nem queria pensar no que poderia acontecer. Rapidamente, chegou mais para perto dele e falou com aparente tranqüilidade:
- Foi Manuela quem lhe contou isso?
- Já disse que foi. E disse mais: disse que vocês ainda mantêm esse romance, a despeito de seu casamento com dom Solano.
- Manuela está mentindo - objetou entre dentes. - Ela tem ciúmes. Vive se insinuando para Ramon, mas ele não a quer, e ela acha que a culpa é minha. Mas não é. Se
Ramon não a deseja, o problema não é meu. Só que ela não pode aceitar o fato de que ele não se sente atraído por ela e quis fazer intriga.
Juan fitou-a em dúvida. Ela falava com tanta convicção que era difícil não acreditar.
- Mas monsenhor diz que você o ama...
- Ele está enganado. Na certa, só porque vendi a taverna para Ramon, ele ficou imaginando coisas.
Ela desviou os olhos, com medo de que ele percebesse a raiva que ia tomando conta de todo o seu corpo. Por que Manuela fizera aquilo? De Esteban, não dizia nada.
Mas Manuela, que direito possuía de sair por aí falando de sua vida? E como é que sabia que ela e Ramon ainda eram amantes? Aos poucos foi percebendo que Manuela
parecia saber demais sobre sua vida, o que a foi deixando inquieta.
A seu lado, Juan permanecia calado, fitando-a com olhar ávido, como que tentando adivinhar o que ia a seu coração.



Em seu íntimo, queria acreditar, embora soubesse que ela estava mentindo.
- Você e Ramon não têm se encontrado? - insistiu.
- Não. Depois que me casei nunca mais nos vimos.
- Tem certeza?
- Por que duvida? Não tenho motivos para mentir para você.
- Você ainda me ama?
- Amo... Só que agora sou uma mulher casada. Devo obediência e respeito a meu marido.
- Por que se casou com ele, Giselle? - choramingou, atirando-se a seus pés.
- Você sabe - tornou ela, acariciando-lhe os cabelos. - Foi preciso.
Ele não parava de chorar, agarrado a suas pernas. Aquele era o momento que Giselle esperava. Juan demonstrava fraqueza e fragilidade, e ela se aproveitou da situação
para convencê-lo. Vagarosamente, foi erguendo-o pelos braços, até que ele se ajoelhou diante dela e pousou a cabeça em seu colo. Giselle beijou-lhe os cabelos e
começou a erguer o seu queixo, beijando-o de mansinho. Ele não resistiu. Caiu em seus braços afoitamente e se entregou ao amor. Ao final, estava satisfeito e convencido.
Do jeito como Giselle fizera, devia amá-lo de verdade.
- Não conte sobre isso a ninguém, Juan - pediu com voz melíflua. - Se meu marido souber, manda me matar.
- Não se preocupe Giselle, ficará somente entre nós.
- Ótimo. Lembre-se de que sou uma mulher casada e agora não posso mais dormir com outro homem que não seja meu marido. Você foi à única exceção.
Todo convencido, Juan sentiu o peito inflamar-se de orgulho e acabou retrucando:
- Fique descansada e confie em mim. Não contarei nada a ninguém.
- Nem a Esteban.
Ele titubeou, mas concordou:
- Nem a monsenhor.
Giselle sorriu exultante. Mais uma vez, conseguira convencer aquele noviço tolo de que ela o amava. Só mesmo uma cabecinha ingênua e pueril feito a de Juan para
acreditar num disparate daquele. Mas ela sabia que o rapaz poderia ser-lhe útil ou perigoso. Se estivesse a seu lado, seria seu verdadeiro aliado. Contra ela, poderia
se tornar um feroz inimigo. Ainda mais se descobrisse que ela mentira e que o usara durante todo aquele tempo.
Quando Juan chegou de volta à abadia, Esteban estava quase desesperado à sua procura. Logo que o viu entrar, correu ao seu encontro, demonstrando genuína preocupação.
A seu lado, Miguez o acompanhava, o olhar grave denotando que também estava preocupado.
- Juan! - explodiu Esteban. - Onde foi que se meteu?
- Não leu o meu bilhete?
- Isso? - estendeu para ele o bilhete e continuou: - Não diz nada. Monsenhor Navarro, preciso sair. Não se preocupe. Juan. Onde é que esteve?
- Nós ficamos preocupados, Juan - acrescentou Miguez. - Por pouco monsenhor não dá o alarme para a abadia inteira.
- Estão exagerando.
- Vai me dizer onde esteve ou não?
- Estive por aí.
- Onde?
- Em lugar nenhum. Saí, fui para o campo, precisava espairecer.
- Espairecer? - espantou-se Miguez. - Por quê?
Juan fitou Esteban pelo canto do olho. O cardeal sabia muito bem por quê. Não imaginava que ele houvesse ousado tanto, mas sabia que ele, na certa, estava tentando
fugir de seus próprios sentimentos.
- Juan está com certas dúvidas - esclareceu Esteban mais que depressa. - Não sabe se quer mesmo se tornar padre.
- Ah! É isso? - tornou Miguez desconfiado, imaginando se não havia um dedo de Giselle naquela história - E o que lhe causa tantas dúvidas?
- Nada demais, amigo Miguez. Ele está enfrentando uma fase difícil. Coisas da idade, você entende.
Juan sentiu o rosto arder, coberto de vergonha. Deu um sorriso forçado e, pedindo licença, rodou nos calcanhares e foi para seu quarto.
- Creio que você deve arranjar uma mocinha para ele - sugeriu Miguez. - Juan não será feliz fora da vida monástica. Ele não tem ninguém nem preparo nenhum para enfrentar
o mundo lá fora. E depois, são tempos difíceis...
- Tem razão, Miguez. Tratarei de providenciar isso.
- Se você quiser, posso arranjar-lhe algo. Ainda há muitas mocinhas nas masmorras, das quais não posso mais ocupar-me. Sua virgindade tem sido atestada pelos carrascos
do Tribunal, e Juan ainda nos faria um favor.
- Obrigado. Vou falar com ele. Tenho certeza de que acabará concordando. Afinal, é uma tarefa honrosa, essa que lhe confia.
Com um aceno de cabeça, se despediram. Esteban precisava conversar com Juan, convencê-lo a aceitar o cargo que Miguez lhe oferecia. Serviria para mantê-lo ocupado
e desviar sua atenção de Giselle. Juan era ainda muito jovem e não tardaria a esquecê-la. Ao menos, era o que ele pensava.



CAPÍTULO 25



Depois de intensa noite de amor, Manuela, envolta nos braços de Ramon, fechou os olhos e pôs-se a cantarolar. Ramon sorriu e beijou-lhe a face, soltando-a e virando
o rosto para o lado, a fim de dormir. Pensava em Giselle. Por mais que gostasse de dormir com Manuela, Giselle era a dona de seu coração. Sentia imensa saudade dela
e ficava sonhando com o dia em que poderiam viver felizes, ele, ela e o filho.
Em dado momento, Manuela parou de cantar e puxou a sua cabeça, obrigando-o a virar o rosto em sua direção.
- Adivinhe quem veio nos visitar hoje - falou com certa excitação.
- Quem? - fez Ramon, um tanto quanto receoso.
- O noviço.
- Quem? Juan? - ela assentiu. - O que ele queria?
- Não sei bem. Perguntou sobre você e Giselle. No começo, fiquei assustada, pensando que ele quisesse saber de nós dois. Mas depois percebi que o que ele queria
mesmo era saber de vocês.
- Estranho. E o que você disse?
- Nada demais. Que vocês eram amantes há bastante tempo.
- Você lhe disse isso?
-

-
- Por quê? Fiz mal?
Ramon não respondeu. Alguma coisa dentro dele lhe dizia que aquela história ainda ia acabar muito mal. Juan não podia saber que ele e Giselle eram amantes, pois
o ciúme do rapaz ainda acabaria por colocá-los em alguma situação embaraçosa. Ainda em silêncio, tornou a virar o rosto para a parede e fingiu dormir. Não queria
envolver Manuela.
No dia seguinte, foi à vez de Ramon partir para o castelo de dom Solano. Sabia que poderia ser arriscado, mas precisava tentar. Com medo de causar algum embaraço
à Giselle, bateu aos portões e pediu para falar com Rúbia. Dom Solano estava em um dos salões, em companhia de Giselle, e não ouviu quando foram chamar a filha.
Rúbia apareceu imediatamente e mandou que Ramon entrasse. Conduziu-o para um dos terraços mais afastados e sentou-se com ele em um banco.
- Está sendo muito imprudente, Ramon - censurou Rúbia.
- Eu sei - desculpou-se acanhado. - Mas o assunto é deveras urgente.
- Não posso chamar Giselle. Meu pai está em casa.
- Por favor, Rúbia, o assunto é mesmo sério. Preciso falar com ela o mais rápido possível.
- Lamento não poder atendê-lo. Meu pai vai ficar desconfiado.
- Eu lhe imploro Rúbia. Invente uma desculpa e saia com ela. E só o que lhe peço.
- O que pode ter acontecido assim de tão grave para você estar desse jeito? Alguém descobriu alguma coisa sobre vocês?
- É o que temo.
Rúbia meneou a cabeça e falou:
- Saia do castelo agora e me espere mais abaixo, na beira da estrada. Darei um jeito de ir até lá, a cavalo, com Giselle. Só não garanto que possa ser logo.
- Esperarei o quanto for necessário.
Depois que ele saiu, Rúbia voltou para dentro. Giselle estava no salão com dom Solano, aparentando profundo enfado com sua conversa sobre as futuras possibilidades
na América recém-
descoberta. De vez em quando, bocejava e olhava pela janela, tentando arranjar uma desculpa para escapar de tão desagradável companhia.
Foi quando Rúbia apareceu. Entrou sorridente, beijou o pai e Giselle e sentou-se ao lado dele. Por cerca de meia hora, ficou fazendo-lhes companhia, até que Diego
também apareceu e foi juntar-se a eles.
- Ah! Diego - Rúbia foi logo dizendo -, que bom que você chegou. Assim pode fazer companhia a papai por uns instantes.
Dom Solano ergueu as sobrancelhas e encarou a filha.
- Fazer-me companhia? - repetiu indignado. - Por quê?
- Preciso de Giselle por uns instantes, papai. Coisas de mulher, você não vai se interessar.
Não foi preciso muito para Diego compreender que Rúbia precisava falar a sós com Giselle. Não sabia que Ramon fora procurá-la, mas compreendeu a urgência da situação
e atalhou:
- Pode deixar que cuidarei bem dele, Rúbia. Vão e podem demorar-se o quanto quiserem.
Dom Solano ficou embevecido. Sempre que o filho lhe fazia companhia, ele se sentia extremamente feliz e agradecido. Sentindo a atenção do rapaz, pôs-se a falar sobre
seus futuros planos na América.
Enquanto isso, Rúbia saiu puxando Giselle pela mão, caminhando em direção às cocheiras.
- Aonde vamos? - indagou Giselle, assustada.
- Ramon está nos esperando. Precisa falar com você.
- Onde ele está?
- Na beira da estrada. Venha depressa! Não podemos nos demorar.
Rúbia apanhou dois cavalos e estendeu um para Giselle, que tomou as rédeas e montou com todo cuidado.
No fundo, podia imaginar por que Ramon fora até ali daquele jeito. Na certa já ficara sabendo das indagações de Juan.
Em silêncio, passaram pelos portões do castelo e seguiram pela estrada.
Mais abaixo, Ramon as esperava. Já estava ficando vermelho de tanto apanhar sol; ficara lá por mais de uma hora. Mas não podia voltar sem falar com Giselle.


Ramon ajudou Giselle a descer do cavalo, enquanto Rúbia foi sentar-se à sombra de uma árvore, do outro lado da estrada.
- Não se demorem - alertou. - Não quero que papai desconfie de nada.
De mãos dadas, Ramon e Giselle foram sentar-se debaixo de outra árvore, um pouco afastadas daquela em que Rúbia estava.
Ele a beijou avidamente, mas sentiu certa frieza em seus gestos.
- O que há com você? - indagou decepcionado. - Pensei que fosse ficar feliz em me ver.
- Estou... - respondeu ela hesitante - mas também estou surpresa. O que aconteceu?
- Não sei se você já sabe, mas Juan andou fazendo perguntas sobre nós.
- Andou? A quem?
Ele hesitou, mas não podia deixar de responder.
- A Manuela.
- Como é que você sabe disso?
- Ora, Manuela me contou.
- Por quê?
- Porque ela trabalha para mim. Esqueceu?
- Não, não esqueci. Só não entendo como é que Manuela sabe tanto sobre nós. Sabe até quando foi que começamos a nos encontrar.
Na mesma hora, Ramon sentiu o rosto arder, e Giselle percebeu o rubor cobrindo as suas faces.
- Está acontecendo alguma coisa entre vocês? - tornou Giselle, cada vez mais desconfiada.
Por pouco Ramon não engasgou. Engoliu em seco e, cabeça baixa, revidou com voz sumida:
- O que é isso, Giselle? Por que essa desconfiança agora?
- Porque você está muito estranho. E Juan ficou sabendo de tudo a nosso respeito por intermédio dela.
- Você esteve com Juan?
- Assim como você, ele também veio procurar-me, louco de ciúmes.
- E o que você fez?
- Juan é um jovem tolo e ingênuo. Não foi difícil convencê-lo de que Manuela estava errada.
- Como foi que o convenceu, Giselle? Teve que dormir com ele?
- Isso não vem ao caso. Juan é apenas um garoto.
- Ah! Não vem ao caso, não é? Você sempre arranja uma desculpa para justificar o fato de que dorme com todo mundo.
- Eu não durmo com todo mundo!
- Só com dom Solano e com Juan, além de mim, é claro. E monsenhor Navarro? Ainda tem dormido com ele também?
Mal contendo a indignação, Giselle estalou-lhe uma bofetada no rosto, e Ramon levantou-se indignado.
- Não devia ter feito isso, Giselle - disse entre dentes. - Você não tem esse direito.
Já arrependida, Giselle correu para ele e atirou-se em seus braços, balbuciando em lágrimas:
- Ramon... Perdoe-me... Perdi a cabeça... É a gravidez... Deixa-me confusa...
Ao ouvir falar na gravidez, Ramon se acalmou. Não podia esquecer que ela carregava no ventre o seu filho.
- Está certo, Giselle, acalme-se.
- Perdoe-me... É que fico louca só de pensar que você possa estar dormindo com aquela Manuela.
- Não estou dormindo com ninguém.
- Eu sei...
- Embora não possa dizer o mesmo de você, não é mesmo?
- Ah! Ramon, não fique zangado comigo. Você sabe que não gosto de dormir com ninguém além de você. Mas Solano é meu marido, e Juan precisava ser calado. Quanto a
Esteban, há muito não temos nada. Ele hoje é como um pai para mim. Por favor, não se zangue por causa de Juan. Eu fiquei desesperada. Quando ele veio me procurar,
perguntando se nós éramos amantes, não sabia o que fazer...
- E então fez a única coisa que realmente sabe fazer, não é, Giselle? Fez sexo com ele.
- Fiz isso porque precisava. Foi à única forma que encontrei de fazê-lo acreditar em mim. Para nossa segurança, Juan precisa acreditar que o amo. Por favor, acredite.
Ramon acreditava. Era mesmo impossível que uma mulher feito Giselle fosse interessar-se por um rapazola magricelo e inexperiente feito Juan. Ainda assim, não podia
deixar que ela desconfiasse de Manuela.
- Não falemos mais nisso - cortou ele de forma perspicaz.
- Eu a amo, e nada pode abalar esse amor.
Ela se acalmou. Recostou a cabeça em seu peito e apanhou a sua mão, pousando-a sobre seu ventre. Ramon ficou embevecido, tentando sentir o bebê, mas a gestação ainda
era muito recente, e ele não pôde perceber nada.
- Jura que não está dormindo com Manuela? - sondou de repente.
Mais uma vez, ele titubeou. Não esperava pela pergunta e sentiu a voz presa na garganta quando respondeu:
- Juro.
Foi lacônico demais, artificial demais, e Giselle não se convenceu. No entanto, naquele momento, não queria mais reavivar nenhuma discussão. Iria agir à sua maneira
e daria um jeito de descobrir. Segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o com ardor, mal ouvindo a voz de Rúbia, que a chamava do outro lado da estrada:
- Giselle, vamos! É hora de voltar.
Despediram-se e voltaram para o castelo.
Dom Solano, ainda preso à companhia de Diego, nem dera pela sua falta. Elas tornaram a entrar na sala e foram sentar-se perto dele.
- Ah! - fez ele, batendo no joelho de Giselle. - Já voltaram?
Ela sorriu meio sem graça, e Diego perguntou, dirigindo-se a Rúbia:
- Que tal um passeio?
- Excelente idéia!
Os dois se levantaram e saíram, e Giselle ficou a sós com dom Solano, que ria para os filhos completamente embevecidos. Ficou vendo-os afastar-se e só então se voltou
para Giselle e continuou com seus sonhos e planos, mal se apercebendo do ar de contrariedade e repulsa que Giselle, agora, nem se dava o trabalho de esconder.



CAPÍTULO 26


A casa de Miguez em San Martin ficava um tanto quanto afastada da cidade, e poucas pessoas costumavam passar por ali. Ninguém conhecia aquele seu recanto, e ele
só aparecia à noite, quando não podia ser visto. Na abadia, ficaram sabendo do assassinato do homem que dirigia a carroça com os corpos dos executados, mas ninguém
desconfiou de sua participação naquele crime. Para todos os efeitos, o homem se envolvera com bandidos e tivera o fim que merecera. Também para todos os efeitos,
Blanca estava morta e seu corpo, cremado, e o caso de dom Fernão já era página virada no livro de execuções de Esteban.
Naquele dia, porém, Miguez apareceu mais cedo. Ainda era dia quando ele chegou e viu que Lucena lia para Blanca no jardim. Blanca fitava o horizonte com olhos vítreos,
que nada viam além da escuridão. Apesar de bastante magra e abatida, dava visíveis sinais de melhora. Lucena cuidava dela com carinho e dedicação, cobrindo-a de
toda atenção possível. Aos pouquinhos, fora ganhando peso, e as chagas começavam a fechar-se.
Miguez se aproximou e fez sinal para que Lucena concluísse a leitura. Sentou-se num banco próximo e ficou esperando até que ela terminasse. Ao final, Lucena chamou
Consuelo e deu-lhe ordens para cuidar de Blanca, que acabara por adormecer sob o calor do sol. Lucena ajeitou-lhe a manta, beijou-a gentilmente no rosto e foi ao
encontro de Miguez.
- O que o traz aqui tão cedo? - a indagou, beijando-o nos lábios.
- Vou ser sagrado bispo.
- É mesmo? Não diga!
- Recebi hoje a comunicação. Haverá uma solenidade em dois dias.
- Mas que maravilha, Miguez! Parabéns!
- Tenho trabalhado duro, Lucena...
- Preferia que não falasse sobre isso. Sabe que não aprovo o seu trabalho.
- Não fosse eu o que sou jamais teria conseguido salvar Blanca. Tampouco poderia tê-la ajudado.
- Sei disso - interrompeu-a com outro beijo. - Mas é que quando me lembro de meu pai...
Começou a chorar baixinho, olhando para Blanca com piedade. Miguez estreitou-a de encontro ao peito e beijou seus cabelos, falando com maciez:
- Não chore Lucena. A culpa não é do Santo Ofício. Estamos a serviço de Deus. A culpada foi Giselle. Foi ela quem delatou seu pai.
- Não fale no nome dessa mulher novamente! Eu a odeio! Odeio-a sem nem mesmo conhecê-la!
- Também a odeio, minha querida. E ela não perde por esperar. Tenho certeza de que Deus ainda colocará em minhas mãos as armas com que irei destruí-la.
- É o que espero.
- E depois, partiremos para seu ex-noivo.
- Soube alguma coisa dele?
- Ainda não. Com tantos acontecimentos, não tenho me empenhado muito nisso. Prefiro concentrar-me primeiro naquela mulher.
- Mas você a deixou escapar!
- Eu não a deixei escapar. Esteban insistiu em casá-la com dom Solano, e eu nada pude fazer. Contudo, tenho certeza de que ela ainda dará algum passo em falso que
me ajudará a prendê-la.
- Quero que ela sofra tudo o que meu pai sofreu. E Blanca também. Devo isso a eles. Aquela mulher tem que pagar por todo o mal que nos fez.
- Farei com que pague com a vida.
- Não! A vida é pouco para o que ela me deve. Quero que seu corpo sangre como o de meu pai, que seus olhos queimem como os de Blanca, que ela perca tudo como eu
perdi! Quero tudo o que lhe pertence, tudo!
- Não se preocupe com isso. Darei um jeito de lhe transferir todos os bens de Giselle. Não sei ao certo o que ela possui, mas, segundo o que Esteban disse, ela conseguiu
juntar um tesouro considerável. Vai ser tudo seu.
- Ótimo. Quero que ela saiba disso. Quero que saiba que tudo o que é seu passará a pertencer à filha do homem que ela enganou e destruiu!
- Não se iluda Lucena. Giselle enganou e destruiu muitos homens. Seu pai não foi o primeiro.
- Cadela!
- Enganou até Esteban. Enfeitiçou-o com suas magias, e ele ficou caído por ela. Mas, no momento em que despertar, vai perceber quem ela realmente é e ainda vai nos
ajudar a acabar com ela.
Ao ouvir o nome de Esteban, Lucena sentiu um arrepio. Por mais que Miguez lhe dissesse que ele não fora culpado de nada, ela não podia esquecer que fora ele quem
mandara colocar seu pai na masmorra e, pior, naquele sarcófago maldito que eles chamavam de Virgem de Nuremberg.
- Vamos mudar de assunto, sim? - pediu ela. - Sei que Esteban é seu amigo, mas não posso mentir dizendo que gosto dele.
- Sei que não gosta. Mas Esteban é meu amigo, e eu jamais poderia fazer qualquer coisa contra ele. E nem você. Prometa-me que nunca vai tentar nada contra ele.
- E o que é que uma pobre moça desamparada pode contra um poderoso inquisidor do Santo Ofício?
Miguez ficou satisfeito. Quando voltou à abadia, soube que Esteban estava novamente acamado e foi visitá-lo em seus aposentos. Bateu à porta suavemente, e Juan veio
atender.
- Monsenhor está dormindo? - perguntou baixinho.
Juan fez sinal com a cabeça que sim, mas a voz de Esteban chegou até eles, nítida e sonora:
- Deixe de bobagens, Juan, estou muito bem acordado.
Com um gesto de resignação, Juan deu passagem a Miguez, que foi sentar-se ao lado de Esteban na cama.
- Como está, meu amigo? - indagou solícito.
- Melhor agora. É a maldita dor de cabeça. Não sei o que me causa esse mal-estar.
- Você precisa descansar. Sabe o que o médico diz - esperou alguns minutos antes de perguntar: - E Giselle, como está? Tem tido notícias dela?
- Por que a pergunta? - estranhou Esteban. - Você nunca teve interesse em Giselle.
- Por nada. Apenas curiosidade. Ela anda sumida...
- Giselle agora é uma senhora de respeito, casada com um homem íntegro e temente a Deus. Dom Solano é um bom cristão.
- Sei disso, Esteban, não fique zangado.
- Não estou zangado. Mas você sabe que não gosto de sua cisma com Giselle.
- Perdoe-me. Não pretendia contrariá-lo.
- Deixemos Giselle de lado, meu amigo. Nesse assunto, nós nunca concordaremos.
- Tem razão - fez uma pausa e prosseguiu: - E quanto a Ramon de Toledo? Tem ouvido falar dele?
Esteban sobressaltou-se. Mais uma vez, Miguez insistia com Ramon. Será que já sabia de algo?
- Por que tem tanto interesse em Ramon?
- Por nada. É apenas curiosidade.
- Curiosidade ou desejo de vingança?
- Como assim?
- Ramon foi noivo de Lucena...
- Ramon é um canalha!
- Você está mesmo apaixonado, não está?
- Você sabe que sim. Eu mesmo lhe confessei. É por esse motivo que preciso encontrar Ramon. Para fazê-lo pagar por toda humilhação que fez Lucena sofrer.
- Não acha que isso é um exagero? O rapaz só não quis se casar com ela.
- Para você, posso contar. Ramon seduziu Lucena às vésperas do casamento e depois a abandonou.
- Não me diga!
- Por isso preciso encontrá-lo.
- O que pretende fazer com ele?
- Ainda não sei. Vai depender do que Lucena decidir.
- Entendo.
- Bem, agora vou deixá-lo descansar. Creio que já tomei demais o seu tempo por hoje.
- Oh! Não, não. Você é meu amigo e é sempre bem-vindo. Por falar nisso, está feliz com o bispado?
- Confesse Esteban. Tem um dedo seu nisso, não tem?
- Mais ou menos. Roma pediu informações sobre todos os nossos inquisidores. Sabe que nosso inquisidor-geral viaja mais do que trabalha e me delegou praticamente
todos os seus poderes. Por isso, fui eu que tive que atender ao pedido de Roma. Falei tudo sobre você e os outros padres, e é claro que o seu nome tinha que ser
escolhido. Afinal, você é um dos melhores inquisidores que Sevilha já conheceu.
- Foi muita bondade sua. Ser bispo é um sonho antigo.
- Não fiz nada que você não merecesse. O mérito é todo seu, meu amigo.
- Mesmo assim. Não fosse por você, eu não teria conseguido.
Enquanto os dois padres conversavam, Juan ficou ruminando as palavras de Miguez. Aquela Lucena devia estar pressionando-o para descobrir o paradeiro de Ramon. E
se ele mesmo contasse? Juan sabia muito bem onde ele estava e podia dizer-lhe tudo. Mas tinha medo da ira de monsenhor Navarro. Esteban parecia proteger o rapaz
também e não ficaria nada satisfeito se soubesse que ele estava metido naquela história.
Por mais que Giselle lhe jurasse que não havia nada entre ela e Ramon, era bom não facilitar. Saber que padre Miguez o estava procurando dava-lhe certa tranqüilidade.
Se se sentisse ameaçado, bastaria apenas uma palavra para que Ramon saísse de seu caminho. Pediria a Miguez que não dissesse a Esteban que fora ele o informante.
Será que concordaria? Talvez sim. Por maior que fosse a amizade entre ele e Esteban, o amor por Lucena haveria de falar mais alto, e Miguez ainda lhe seria eternamente
grato por aquele pequeno favor.


CAPÍTULO 27


Desde seu último encontro com Ramon, Giselle perdera o sossego. As palavras de Ramon não saíam de sua mente, e ela via e revia o seu rosto rubro e dissimulado, afirmando
que não tinha nada com Manuela. Era mentira, ela sabia. Tinha certeza de que ele estava mentindo. Aquilo a encheu de ciúme e de raiva. Dia após dia, Giselle só pensava
na oportunidade de desmascarar aqueles dois.
Seu humor ficou completamente alterado. Giselle vivia irritada, cenho fechado, parecendo de mal com a vida. Até dom Solano reparou, mas ela conseguiu se escusar,
alegando o mal-estar próprio da gravidez. Ele não desconfiou. Mas Rúbia sim. E Diego também. O rapaz foi o primeiro a notar a alteração no comportamento de Giselle
e foi quem chamou a atenção de Rúbia.
- Já notou como Giselle anda estranha?
- Já, sim. Mas ela disse que não anda se sentindo bem por causa da gravidez.
- Conversa. Aposto como aconteceu alguma coisa.
- Mas o quê? Será que foi com Ramon?
- É possível. Você não disse que ele veio aqui outro dia?
- Veio. Será que é aquela história do noviço, o Juan? Giselle tem medo de que ele possa falar com alguém sobre seu envolvimento com Ramon.
- Não sei Rúbia. De qualquer forma, algo não vai bem.
Rúbia ficou pensativa e começou a reparar melhor em Giselle.
Efetivamente, seu humor ia de mal a pior. Gritava com os criados, batia em Belinda, jogava coisas no chão. Seu pai então, nem podia se aproximar dela. Solano ficava
desgostoso, mas aceitava a desculpa da gravidez e não dizia nada, certo de que aquilo tudo passaria após o nascimento do bebê.
Um dia, Rúbia não conseguiu mais se conter. Giselle havia acabado de dar uns bofetões em Belinda, por causa de uma comida muito salgada. Após o almoço, Rúbia foi
puxando Giselle pelo braço e saiu com ela para o pátio.
- O que você quer? - indagou Giselle de mau humor. - Estou muito cansada para passear.
- Escute aqui, Giselle - objetou Rúbia com firmeza -, o que é que está acontecendo? Por que está tratando todo mundo desse jeito?
- De que jeito?
- Você está mal humorada, agressiva. O que há com você?
Giselle desatou a chorar. Já estava mesmo sensível por causa da gravidez, e qualquer coisinha lhe trazia lágrimas aos olhos. A amiga passou o braço ao redor de seus
ombros e deu-lhe um beijo nas faces. Giselle se agarrou a ela, falando aos tropeções:
- Oh! Rúbia ajude-me! Estou desolada, sem saber o que fazer!
- O que foi que houve?
- É o Ramon. Desconfio que anda tendo caso com Manuela.
- A dançarina da taverna?
- Essa mesma.
- Mas por quê? Ramon ama você.
- Ele está me traindo. Sei que está.
- Será que você não anda imaginando coisas? Talvez a gravidez a esteja deixando muito impressionável.
- Não, não. Tenho certeza. Vi em seus olhos. Ele disse que não há nada entre eles, mas eu sei que está mentindo. Ramon não consegue me enganar. Não a mim!
- Está certo, Giselle, acalme-se. Não quer que os outros desconfiem, quer? - ela meneou a cabeça. - Então, fique calma. Daqui a pouco, até papai vai perceber. E
isso o que quer?
- Não.
- Então trate de sossegar.
- Não posso Rúbia. Preciso descobrir. Se Ramon está me traindo, preciso saber.
- Pense bem. Ramon a ama, disso tenho certeza. Mas você está longe, casada com outro homem. Não acha natural que ele também queira se divertir com outras mulheres?
- Não! Não posso suportar a idéia de vê-lo nos braços de outra.
- Mas você faz a mesma coisa.
- Não faço, não. Meu casamento com seu pai é uma farsa. Desculpe-me se falo assim de seu pai, Rúbia, mas você sabe que eu não o amo. Só me casei com ele porque Esteban
insistiu.
- Sei disso, e ele também. Contudo, você está casada e está esperando um filho que bem poderia ser dele.
- Mas não é!
- Só que ninguém sabe disso. Todos pensam que sim. E depois, você faz sexo com ele, não faz?
- Mas é diferente!
- E teve que se deitar com Juan também, não teve?
- Foi preciso, Rúbia. Juan ia nos entregar.
- E faz sexo comigo e com Diego...
- Vocês são meus amigos. Ajudam-me a suportar a ausência de Ramon.
- Cada um tem os seus motivos, Giselle, mas o resultado é o mesmo. Você dorme com outros homens por interesse. Ramon dorme com outras mulheres por necessidade.
- Não sei por que o defende.
- Não o estou defendendo. Apenas quero mostrar-lhe que isso não é assim tão horrível. Pior seria se ele não a amasse, se a estivesse enganando em seus sentimentos,
se a estivesse usando ou iludindo. Mas ele não faz nada disso. Ramon a ama muito, qualquer um pede perceber.
- Sei disso, Rúbia. Sei que ele me ama. Mas não posso! Por mais que queira, não posso aceitar o fato de que ele esteja dormindo com Manuela!


- Você não tem certeza disso.
- Eu preciso saber! Preciso ter certeza!
- Para quê? O que vai fazer? Abandoná-lo?
- Não! Isso nunca! Jamais poderia viver sem Ramon.
- Então, de que adianta saber?
- Posso dar um jeito em Manuela.
- Mas que jeito? Aposto como Manuela não representa nada para ele.
- Por isso mesmo. Preciso afastá-la de meu caminho - nesse momento, voltou a chorar descontrolada. - Oh! Rúbia ajude-me! Por favor, ajude-me!
- O que quer que eu faça Giselle? Ramon está em Sevilha. Não é assim tão perto.
- Mas eu vou até lá.
- No seu estado? É loucura.
- Loucura ou não, preciso ir. Tenho que me certificar com os meus próprios olhos.
- Eu não faria isso se fosse você. Pode não fazer bem ao bebê.
- O bebê que se dane!
- Giselle, que horror!
- Oh! Rúbia perdoe-me. Não é verdade, não quero fazer mal ao meu filho. Quero que ele nasça e seja criado pelos pais dele. Por mim e por Ramon... - calou-se aturdida.
- Criado por você e por Ramon? - tornou Rúbia confusa e perplexa. - Mas como, se você é casada com meu pai?
Giselle jamais poderia lhe contar os planos que tinha para dom Solano.
Rúbia podia apoiá-la em suas loucuras porque sabia que o pai era um velho, incapaz de satisfazê-la como merecia. E depois, sabia que, quando se casara, já era apaixonada
por Ramon e só aceitara aquele casamento para fugir das garras de padre Miguez. Rúbia era bastante compreensiva e a vinha ajudando, mas nunca apoiaria o assassinato
de seu próprio pai.
Com medo de se delatar, Giselle respondeu aturdida:
- Desculpe a franqueza, Rúbia, mas seu pai já é um velho. Não vai durar para sempre.
Rúbia abaixou a cabeça pensativa. Giselle tinha razão. O pai já era um homem idoso e não era eterno. Depois que ele morresse, Giselle ficaria viúva e nada a impediria
de casar-se com Ramon.
- Tem razão. Depois que ele se for, você estará livre para fazer o que quiser de sua vida. Mas por enquanto, ele ainda é seu marido.
- Não fique zangada comigo.
- Não estou.
- Está sim. Você ficou diferente. .
- Não ligue. É que amo muito o meu pai. Entendo que você é uma mulher jovem e que é apaixonada por Ramon, e acho que ninguém tem o direito de separar um amor assim
tão grande. Mas meu pai tem sido feliz ao seu lado, e eu não gostaria de ver a sua felicidade destruída.
- Isso não vai acontecer. Não vou fazer nada para desgostá-lo.
- Você sabe que eu nunca interferi em seu romance com Ramon, mas gostaria de lhe pedir uma coisa. Deixe que meu pai alimente a ilusão de que é o pai dessa criança
que você espera. Isso está lhe fazendo um enorme bem.
Giselle engoliu em seco. Pretendia matá-lo, mas gostava muito de Rúbia e não queria enganá-la. Durante alguns minutos, permaneceu confusa, pensando no que deveria
dizer. Podia mentir para ela, mas sua consciência lhe dizia que estaria perdendo a única amiga que conhecera em toda a sua vida. Por fim, tomou uma resolução. Ou
fugiria com Ramon, ou esperaria que dom Solano morresse de causas naturais. Ele estava velho e não deveria durar muito tempo mesmo.
- Não se preocupe Rúbia - tranqüilizou-a, segurando a mão da amiga. - Isso não vai acontecer. Enquanto viver, seu pai acreditará que o filho é dele. Não lhe direi
nada.
- Obrigada - retrucou Rúbia agradecida, beijando-lhe a mão.
Foram caminhando para o lado de fora e ganharam a campina em frente ao castelo.
A passos vagarosos continuaram passeando, e Giselle retomou a palavra:

- Sobre aquele outro assunto...
- Que assunto?
- Sobre Ramon e Manuela... Lamento, mas eu preciso saber.
- Não faça isso. Você poderá se arrepender.
- Ainda assim, tenho que descobrir. E vou descobrir.
- O que vai fazer?
- Vou até Sevilha.
- Como? Papai não vai permitir.
- Ele precisa ausentar-se do castelo por uns dias.
- Mas ele não quer.
- Ajude-me, Rúbia. Faça com que viaje.
- Como é que farei isso?
- Não sei. Dê um jeito. Peça a Diego para ajudar. Ele pode inventar uma história de que seu pai está sendo chamado para resolver algum assunto na África.
- A África é distante, Giselle. Uma viagem até lá demora muito tempo. Meu pai não irá.
- Ajude-me, Rúbia, por favor! É só o que lhe peço!
Com um suspiro de resignação, Rúbia acabou por concordar:
- Está certo. Verei o que posso fazer.
Na semana seguinte, a ajuda veio de forma inesperada. Diego recebeu uma carta de Esteban, pedindo-lhe que fosse a Madri imediatamente. Sua mãe estava muito mal e
mandara chamá-los. Esteban informava que, no dia seguinte, iria ao castelo buscá-lo para, juntos, viajarem a Madri.
Solano ficou desconsolado. Apesar dos longos anos que os distanciavam, ainda sentia por ela certa ternura. Afinal, era a mãe de seu primogênito.
- Por que não acompanhamos Diego, papai? - sugeriu Rúbia, já pensando na oportunidade que Giselle tanto esperava.
- Não posso minha filha. Bem que gostaria de prestar minhas últimas homenagens a Marieta. Mas não posso deixar Giselle sozinha.
- Ora, Solano, não precisa se preocupar comigo - objetou Giselle, com voz subitamente doce. - O castelo está cheio de criados. E depois, Belinda está comigo há anos
e sabe muito bem cuidar de mim.
- Ainda falta muito para essa criança nascer, papai. A barriga de Giselle ainda nem cresceu!
- Vá, Solano. Não se preocupe comigo. Estarei bem.
- Não sei. Tenho medo de que algo lhe aconteça.
- Mas o que poderá me acontecer aqui? Ficarei bem, já disse.
- É isso mesmo, papai. Giselle já não é mais nenhuma garotinha. Pode cuidar de si e do bebê.
- Hum... - fez ele em dúvida. - Tem certeza?
- Absoluta.
- Não vai ficar aborrecida de ter que ficar sozinha?
- Terei com o que me distrair. Acho mesmo que vou começar a fiar algumas roupinhas para o bebê.
Dom Solano sorriu satisfeito.
- Está certo, então. Amanhã, quando monsenhor Navarro chegar, nós o acompanharemos.
No dia seguinte, Esteban chegou bem cedo e ficou surpreso com a comitiva que o acompanharia. Pensou que somente o sobrinho iria com ele e sentiu certa apreensão
por ter que deixar Giselle só. Não que temesse pela sua segurança. Mas seu coração lhe dizia que algo não se encaixava naquela história. Ela estava muito solícita,
alegre, falante. Quem não a conhecesse diria tratar-se de genuína alegria. Mas ele, que já a conhecia há bastante tempo, sabia que ela deveria estar tramando alguma
coisa.
Dom Solano se despediu dela e saiu com Rúbia e Diego. A carruagem de Esteban era ampla e tinha espaço para os quatro.
- Não vem, titio? - perguntou Diego, vendo Esteban parado no salão, sem se mexer.
- Vá indo - respondeu ele, sem tirar os olhos de Giselle. - Há algo que tenho que falar com Giselle.
Esteban esperou até ter certeza de que os três já haviam mesmo saído e se aproximou de Giselle, que não ousava encará-lo.
- Giselle - chamou ele calmamente.
- O que é? - tornou ela, levantando os olhos úmidos para ele.
- Conheço-a melhor do que ninguém, Giselle. Melhor até do que Ramon, por quem você seria capaz de cometer as maiores loucuras.
- Esteban...
- Deixe-me terminar. Não sei o que está acontecendo nem o que você está pretendendo. Mas sei que está tramando algo. Só vou adverti-la de uma coisa: tenha cuidado.
Nem sempre poderei salvá-la de sua própria insensatez.
- Não sei do que está falando, Esteban. Não estou tramando nada.
- Está. Meu coração diz isso. Não sei o que é, mas posso sentir.
- Está se preocupando à toa. Já disse que não estou fazendo nada.
- Tenha cuidado, Giselle. Miguez está de olho em você e em Ramon.
- Em Ramon?
- Sim. Quer vingar a honra perdida de Lucena. Se ele descobrir que você e Ramon...
- Não vai descobrir nada!
- Tenha cuidado! Tenho a estranha sensação de que algo terrível está para acontecer.
- Não vai acontecer nada, Esteban, já disse. Deixe de se preocupar à toa e vá. Os outros o esperam.
Esteban deu-lhe um beijo discreto no rosto e saiu coração opresso, temendo pela sua segurança. Depois que eles se foram, Giselle começou a inquietar-se. Precisava
partir o quanto antes. Se eles a estivessem traindo, na certa estariam usando a sua casa. Chegaria de madrugada, depois que fechassem a taverna, e os flagraria juntos.
Por volta das duas horas da madrugada, Ramon fechou a taverna e foi para casa em companhia de Manuela.
Como de costume, entraram e foram direto para o quarto, onde logo começaram a se amar.
Pouco depois, a carruagem de Giselle parou na porta da frente, e ela saltou. Com cuidado, foi rodeando a casa, até que chegou à cozinha, onde Belita costumava dormir
num quartinho atrás. Bateu de leve à porta, até que a escrava acordou. Bastante sonolenta, entreabriu a porta e espiou.
- Senhora Giselle! - exclamou assustada.
- Psiu! - fez Giselle, indicando-lhe que não devia fazer barulho.
Belita encolheu-se assustada. Sabia que Ramon e Manuela estavam no quarto e temia pelo que poderia acontecer. Sem dizer nada, correu de volta a seu quarto, rezando
para que Giselle não a responsabilizasse por aquilo.
Em silêncio, Giselle começou a subir as escadas. A casa estava toda às escuras, à exceção de seu quarto, cuja fraca luz das velas ainda luzia. Sem produzir qualquer
ruído, encostou o ouvido na porta e escutou. Do lado de dentro, os conhecidos gemidos e sussurros. Não se conteve. Com um empurrão, escancarou a porta e entrou,
flagrando Ramon e Manuela em pleno ato sexual.
O susto que eles levaram foi imenso. Ramon, apanhado de surpresa, empurrou Manuela para o lado, e ela caiu sobre a cama, rosto lívido, espantada demais para falar.
- Giselle... - Ramon conseguiu balbuciar, a cara branca feito cera.
- Seu animal! Porco, imundo!
- Giselle, espere...
- Eu sabia! Foi só me ver pelas costas para me trair com essa vagabunda!
Descontrolada, Giselle partiu para cima de Manuela e começou a bater em seu rosto, ao mesmo tempo em que gritava:
- Sua ordinária! Meretriz! Tirei-a da rua quando você precisou, e é assim que me paga!
- Não, Giselle, não... - suplicava Manuela, tentando aparar os golpes.
- Você me paga! Ah! Se me paga!
Continuou a bater-lhe, até que Ramon conseguiu segurá-la por trás.
- Pare com isso, Giselle! Manuela não tem culpa de nada.
- Seus cretinos! Foi divertido me enganar, não foi? A tola, a estúpida, a idiota da Giselle que faz tudo pensando em Ramon! E Ramon gasta o seu amor no corpo dessa
vadia!
-

-
- Acalme-se Giselle, por Deus!
- Vou matá-la! Solte-me, Ramon, vou matar essa vagabunda!
- Saia daqui, Manuela! - berrou Ramon.
Manuela não esperou uma segunda ordem. Mais que depressa, apanhou suas roupas e saiu ainda nua, indo vestir-se no corredor. Giselle estava completamente ensandecida
e era bem capaz mesmo de matá-la.
- Largue-me, Ramon! Vou matá-la! Vou matar você!
Sem soltá-la, Ramon foi virando o corpo de Giselle, até que ela ficou de frente para ele. Segurando seus braços para trás, tentou argumentar:
- Giselle, não é o que está pensando...
- Não é? O que pensa que sou? Alguma imbecil? Então não vi com meus próprios olhos? Canalha! Patife!
Com as mãos presas atrás do corpo, Giselle pôs-se a chutar Ramon, e ele foi obrigado a apertar os seus punhos e torcer os seus braços com mais força, fazendo com
que ela se acalmasse.
- Manuela não significa nada para mim. É apenas um corpo de mulher, nada mais. Durmo com Manuela porque não posso estar com você. Mas é a você que amo, só você.
- Mentira!
- Não é mentira. Você é meu único amor. O que Manuela me dá é apenas sexo. Ela não me preenche feito você. Só você aquece o meu coração. Quando durmo, é com você
que sonho; quando acordo, você é a primeira em quem penso. Ao caminhar pelas ruas, é você que vejo nos rostos das outras mulheres, é pelo seu corpo que anseio quando
o meu arde de desejo. Mas você não está. Está sempre longe, no leito de outro homem. Sinto-me só, Giselle, morro de saudades de você. Foi por isso que cedi aos apelos
de Manuela, porque não agüentava mais a sua ausência.
Tocada pelas palavras sinceras de Ramon, Giselle foi se acalmando. Ele a amava tinha certeza. Na certa, fora Manuela quem o seduzira, e ele, fraco feito todo homem,
deixara-se levar pelo desejo e os impulsos, e a tomara por amante. Mas fora ela a culpada. Estava claro.
- Ramon, eu... Não sei o que dizer... Sinto-me ultrajada, ferida, enganada...
- Tem razão de se sentir assim. Mas acredite em mim quando lhe digo que você é a única mulher que eu amo. Do contrário, já teria fugido com Manuela. Lembre-se de
que sei onde você escondeu o seu tesouro e poderia muito bem tê-lo apanhado e fugido com ela. Mas não foi isso o que fiz, foi? Não, não foi. Mas podia, não podia?
Podia, mas não fiz. E sabe por quê? Porque é você que eu amo, Giselle, você e mais ninguém.
Ele tinha razão. Giselle lhe confidenciara o segredo do seu tesouro oculto, e ele bem poderia tê-lo roubado e fugido com Manuela para bem longe. Mas não o fizera.
Tivera todas as oportunidades, mas preferira ficar ali. E se ele não fugira, então era mesmo porque a amava. Sim, Ramon a amava. Tudo fora culpa de Manuela. Fora
ela quem o seduzira.
- Aquela vagabunda, ordinária! - rugiu Giselle. - Dei-lhe acolhida e ela me traiu.
- Manuela é apenas uma tonta.
- Não a defenda! Jamais torne a defender outra mulher! Ela o seduziu, não foi? Tentou você até que conseguiu o que queria. Eu devia imaginar. Os olhares que ela
lhe lançava... Como fui estúpida em mantê-la na taverna.
- Não pense nisso agora. Já passou.
- Não passou não! Ela é uma meretriz e vai ter o fim que merece!
- O que você vai fazer?
- Você vai ver.
Ainda segurando suas mãos para trás, Ramon beijou os seus lábios com ardor, e ela lhe correspondeu, cheia de paixão. Ele soltou os seus punhos e ela o abraçou e,
em breve, os dois estavam na cama, se amando. Quando terminaram, Ramon acariciou o seu ventre e falou com ternura:
- E o meu filhinho, como é que vai aí dentro?
Giselle deu um sorriso forçado. Filhinho? Pois sim! Ela queria muito aquele filho, mas ficou imaginando o que Ramon faria quando sua barriga crescesse. Com seu corpo
deformado, impossibilitando-a para o sexo, ele, na certa, acabaria procurando outras mulheres, e ela não poderia permitir. Já sabia o que fazer. O filho que a perdoasse,
mas sua felicidade ao lado de Ramon era muito mais importante.



Em silêncio, Giselle desceu ao porão, onde seus objetos de magia ainda se encontravam guardados. Com a vela na mão, fechou a pesada porta e dirigiu-se para as prateleiras
ao lado da estante de livros, onde guardava suas poções. Há quanto tempo! Não tinha ali todos os elementos, mas precisava reuni-los. Acobertada pela escuridão da
noite, saiu pela porta que dava para a floresta e penetrou na mata escura. Não havia lua, e ela foi obrigada a usar uma lanterna para iluminar-lhe o caminho.
Em pouco tempo, reuniu tudo de que necessitava e voltou para dentro de casa.
Ramon não deveria desconfiar de nada ou poderia ficar aborrecido. Rapidamente, preparou a mesma infusão de que tantas vezes já fizera uso e guardou-a num frasco.
Voltou para seu quarto e deitou-se ao lado de Ramon, que dormia um sono pesado. No dia seguinte, logo pela manhã, voltou ao castelo.
Aproveitando-se de que não havia mais ninguém ali além dos criados, trancou-se em seus aposentos e abriu o frasco. Ficou olhando para ele e para seu ventre, que
ainda não dava os sinais da gestação. Pelos seus cálculos, devia estar lá pelo terceiro mês, e havia ainda tempo suficiente para fazer o aborto sem correrem muitos
riscos. Pensou em Ramon. Ele ficaria triste. Queria muito aquele filho. Ela também. Mas não poderia aceitar perder o homem amado por causa de seu corpo disforme.
Solano, igualmente, ficaria triste, mas era por ele também que chegava àquele ato extremo. Havia prometido a Rúbia que nada faria contra ele, o que se tornaria praticamente
impossível com o filho de outro homem nos braços. Não. Decididamente, aquela criança não seria uma boa coisa para ninguém.
Dando ainda uma última olhada para a barriga, decidiu-se. Virou o frasco todo na boca de um só gole e fez uma careta de repulsa. O líquido era amargo e desceu queimando
em sua garganta. Deitou-se na cama para dormir. Dali a pouco, sentiu queimar-lhe também as entranhas. Aquela sensação já era conhecida e ela, pouco depois, sentiu
o sangue descer pelas pernas. Com ele, o que teria sido seu filho. Chorou. Em outras circunstâncias, talvez aquela criança fosse à luz de sua existência, mas, naquele
momento, poderia representar o princípio de sua destruição enquanto mulher.






CAPÍTULO 28

Uma semana depois, quando Solano chegou, não conseguiu conter o desapontamento. Esperava aquele filho como uma vitória de sua virilidade, mas Giselle não conseguira
segurado durante os nove meses de gestação. Esteban olhou-a desconfiado, achando aquilo tudo muito estranho. Ficara sabendo de sua gravidez na carruagem, a caminho
de Madri, e levou um tremendo susto. Embora Solano falasse da criança com toda a convicção de um pai, Esteban sabia que não podia ser dele. Giselle jamais se permitiria
engravidar daquele homem. O filho só podia ser de Ramon.
- Não devia ter-me ausentado - queixou-se Solano. - Se eu estivesse aqui, isso não teria acontecido.
- Deixe de bobagens, Solano - repreendeu Giselle de má vontade. - Essas coisas são assim mesmo.
- Minha mãe morreu - declarou Diego solenemente, tentando chamar a atenção para si.
- Sinto muito, Diego - falou Giselle, sem demonstrar muito interesse.
- Como foi que aconteceu? - indagou Rúbia, também desconfiada, ignorando a intromissão de Diego.
- De repente. Eu estava sentada, lendo um livro, quando senti o sangue escorrer. Olhei para baixo e vi que estava certa.
- O que se há de fazer, não é mesmo? - tornou Diego em tom irônico.
O tio o censurou com os olhos, e ele se calou.
- Há algo que eu possa fazer por você, Giselle? - perguntou Esteban.
- Há, sim. Gostaria de consultar um médico em Sevilha.
- Nada mais justo - concordou Solano. - Mas não há necessidade de viajar para ver o médico. Posso chamar um aqui mesmo.
- Não Solano, não quero. Estou acostumada ao médico com o qual me consultava em Sevilha. É de confiança.
Olhou para Esteban de soslaio, mas ele não disse nada. Sabia que ela não costumava consultar médico algum e imaginou que estava arranjando um pretexto para se ausentar.
- Deixe que ela vá comigo, dom Solano - interveio Esteban.
- Cuidarei bem dela.
Solano deu de ombros. Por ele, chamaria o médico que atendia o castelo, mas se Giselle insistia... Não tinha motivos para não concordar. E depois, iria com Esteban,
a quem ele devia muitos favores.
- Muito bem - aquiesceu Solano. - Vá preparar suas coisas, Giselle. Monsenhor partirá amanhã, logo na primeira hora.
Mais do que contente, Giselle chamou Belinda para que fosse arrumar suas coisas. Já estava mesmo farta daquela vida de castelã. Não gostava nada de ficar em casa
vendo o tempo passar sem ter o que fazer. Gostava de ver gente e sentia falta da agitação da taverna. Estava acostumada a ser livre, e aquela vida era pior do que
uma prisão. E depois, tinha assuntos importantes a tratar com Esteban.
- Onde é que vai se hospedar, Giselle? - inquiriu Diego, ainda com ar malicioso. - Na abadia? Ou na taverna?
Giselle fuzilou-o com o olhar, mas respondeu com aparente calma:
- Em minha casa. E agora, com licença. Preciso me preparar para a viagem.
- Vou ajudá-la - disse Rúbia.
As duas moças pediram licença e foram para os aposentos de Giselle, seguidas de Belinda, que começou a preparar a bagagem. Enquanto a escrava ia arrumando as roupas
dentro do baú, Rúbia perguntou curiosa:
- Diga-me a verdade, Giselle. O que foi que houve realmente?
- Quer mesmo saber?
- Quero sim.
- Pois vou lhe contar. Apenas lhe peço que não se zangue.
Rapidamente, Giselle contou a Rúbia tudo o que se passou desde o dia em que eles haviam partido para Madri.
- Não vou dizer que não tenha ficado desapontada - comentou Rúbia. - Meu pai esperava esse filho mais do que qualquer outra coisa na vida. Mas não posso culpá-la.
Também eu já fui obrigada a tomar essa drástica medida.
- Você? Já abortou alguma vez?
- O que você queria? Que eu desse o meu pai netos incestuosos? Jamais. Engravidei duas vezes e, nas duas, fui obrigada a consultar uma parteira. Foi ela quem me
deu as ervas. Por isso, não me sinto no direito de condenar o que você fez.
Giselle apertou a mão da amiga e sorriu com afeição.
- O que há com Diego? - a indagou, mudando de assunto. - Pensei que, quando a mãe morresse, ficaria feliz em poder colocar a mão na herança.
- Qual herança, qual nada! Dona Marieta precisou gastar tudo o que tinha para pagar as dívidas de Diego. Embora ele não pudesse dispor de seu patrimônio, envolveu-se
com gente da pior espécie, e a mãe foi obrigada a saldar-lhe as dívidas para que não o matassem.
- Não diga!
- Para você ver. Após a sua morte, não lhe restou muita coisa.
- É por isso que ele está tão sarcástico?
- É sim.
- Engraçado, não, Rúbia? A situação de Ramon é bem semelhante.
- Eu sei. Na época em que Diego consumiu todo o dinheiro da família Toledo, monsenhor Navarro ainda comentou que o cunhado fizera bem em deixar todo o patrimônio
em usus et fructus para sua irmã. Mas Diego, ainda assim, deu um jeito de gastar tudo...

- Que coisa!
Depois que Belinda terminou de arrumar o baú, Giselle a dispensou e deitou-se na cama. Desde que abortara, sentia-se um pouco cansada. Já não era mais jovem e o
corpo se ressentia de tantas extravagâncias.
- O que pretende fazer em Sevilha, Giselle? Na certa, não vai consultar nenhum médico.
- É claro que não.
- Não está indo ao encontro de Ramon, está?
- Não. Vou cuidar de outra pessoa.
- Que pessoa?
- De Manuela.
- Como?
- Vou destruí-la, Rúbia. Destruir a sua felicidade, como ela fez com a minha. Não fosse por ela, eu nem pensaria em abortar o meu filho.
- Não faça isso, Giselle. Deixe-a ir. Ela agora não pode mais nada contra você.
- Isso é que não. Ela me traiu e vai ter que me pagar.
- O que pretende fazer?
- Vou atirá-la no calabouço.
- Giselle! - Rúbia levou a mão à boca, horrorizada.
- Por que o espanto? Por acaso pensa que sou boazinha?
- Não faça isso. Ela vai sofrer horrores lá dentro.
- Pois que sofra! Quando me fez sofrer, não pensou nisso.
Rúbia silenciou, tomada de profunda tristeza. Gostava muito de Giselle e sabia que ela era uma doidivanas que só pensava em sexo, mas jamais poderia supor que ela
fosse capaz de uma torpeza daquelas. Sabia que ela fora amante de monsenhor Navarro, mas nunca imaginara que ela compactuasse com suas práticas nefastas.
Pobre Manuela! Por tão pouco se veria atirada nas garras dos torturadores. Com uma indefinível tristeza no olhar, Rúbia se afastou decepcionada ante a atitude de
Giselle. Não sabia que ela era cruel. Mas ela era. Vingativa e cruel. De cabeça baixa, foi se aproximando da porta. Antes de sair, ainda parou e deu uma última olhada
em Giselle, que a fitava com espanto. Fizera-a sofrer, sabia, mas não tinha como evitar. Teria dado o mundo para evitar o sofrimento de Rúbia, mas o mundo não era
o bastante para conter o ódio que sentia pela mulher que ousara tocar o corpo de seu amado Ramon.

***

- Você tem que me ajudar! - berrava Giselle, parada na frente da mesa do gabinete particular de Esteban. - Aquela mulher é uma meretriz!
- Pense bem - ponderou Esteban. - A moça é uma pobre coitada. Por que não a deixa em paz?
- Porque ela seduziu Ramon, por isso.
- E daí, Giselle? Não posso mandar prendê-la. Não tenho nada contra ela.
- Pois eu tenho! Ou você a prende, ou irei daqui até as Mesas Inquisitoriais e farei pessoalmente a denúncia.
- Alegando o quê?
- Heresia!
- Com que provas?
- Desde quando você precisou de provas para incriminar alguém? A minha palavra, ou a de qualquer outro, sempre foi suficiente.
- Você ainda vai acabar se encrencando. Miguez está observando você e Ramon. Se ele descobrir que são amantes...
- E quem vai contar? Você?
- As paredes têm ouvidos... Alguém pode escutá-la. Imagine se Miguez descobre que Ramon de Toledo, o homem que ele procura que foi noivo de Lucena, o mesmo que a
desonrou e desapareceu, é seu amante e está escondido em sua taverna?
- Não vai descobrir...
- E você foi muito imprudente vindo até aqui.
- Você não quis me ouvir. Passou a viagem inteira dormindo!
- Eu estava cansado. Excedi-me um pouco no vinho, na véspera...
- E o que esperava que eu fizesse? Que desistisse?
- Reflita no que vai fazer Giselle. Isso ainda pode acabar mal.
- Não! Exijo que você tome uma providência. Se não quiser que eu mesma o faça!
Esteban suspirou desanimado. Não adiantava discutir com Giselle. Ela estava descontrolada, fora de si. Só conseguia pensar em vingar-se da tal Manuela. Melhor seria
fazer o que ela pedia. Um escândalo, àquela altura, só serviria para chamar a atenção de Miguez. Ele não vira Giselle entrar e, com sorte, não a veria sair. Contudo,
se ela fosse às Mesas Inquisitoriais, poderia estar selando seu próprio destino. Se Miguez a seguisse, na certa encontraria Ramon em sua cama.
- Está bem, Giselle, farei como me pede. Onde posso encontrar essa tal Manuela?
- Ela vive numa espelunca chamada O Mascate. Conhece?
- Não, mas posso descobrir.
- Ótimo! Mande seus homens até lá e eles a encontrarão.
- Farei isso. E agora, volte para casa com cuidado. Depois que prender Manuela, mandarei avisá-la.
Giselle correu até ele e beijou-o nos lábios, feliz da vida com o que ela considerava uma vitória. Em silêncio, vestiu o manto negro e jogou o capuz sobre o rosto,
saindo para o corredor. Ninguém a reconheceu. As faces ocultas não davam mostra de que era ela, e Giselle, assim como entrou, pôde sair sem maiores problemas.
Alguns minutos depois que ela se foi, Esteban também se levantou. Estava ficando cansado daquilo. Giselle vivia se metendo em encrencas, e era ele quem tinha que
consertar. Mas aquela seria a última vez. Se ela se envolvesse em mais alguma confusão, deixaria por conta dela. Não podia ser seu protetor para sempre. Suspirou
com tristeza e abriu a porta, indo à busca de seus soldados.
Assim que ele se foi, um vulto saiu de detrás da imensa estante de livros que circundava quase todo o gabinete de Esteban. Era Juan. Quando Giselle entrou, ele estava
em uma ponta da estante, limpando os livros da prateleira de baixo, e ela nem se dera conta de sua presença. Ao vê-la entrar esbaforida, ele quase se levantou para
recebê-la, mas suas palavras ásperas logo alertaram seus sentidos. Giselle estava zangada, e a prudência lhe dizia que não deveria se mostrar. Se ficasse quieto,
ficaria sabendo o que estava acontecendo.
Para sua surpresa, descobriu que ela e Ramon eram, efetivamente, amantes. E mais: que Ramon fora noivo de Lucena. Giselle mentira para ele enganara-o perfidamente.
Não o amava. Amava aquele vagabundo metido à nobre. Agora que descobrira tudo, ficou pensando no que deveria fazer. Por mais que soubesse que Giselle o havia enganado,
não podia fazer nada contra ela. Precisava era livrar-se de Ramon. Com ele fora de seu caminho, talvez ainda tivesse alguma chance com Giselle. Afinal, se ele desonrara
Lucena, bem se via que não tinha o menor caráter. Não merecia Giselle.
Esteban fez o que Giselle lhe pediu. Chamou seus homens e deu-lhes ordens para que fosse à estalagem chamada O Mascate e prendessem uma moça de nome Manuela Peña,
acusada de heresia. Assim foi feito. No meio da noite, os soldados invadiram a estalagem à procura de Manuela, que foi arrancada da cama e levada amarrada, sem nem
saber por que estava sendo presa.
No dia seguinte à sua prisão, Esteban foi sozinho à casa de Giselle. Ela ainda estava dormindo, ao lado de Ramon, e Belita foi acordá-la. Ao saber que o cardeal
estava ali, desceu correndo para ir ao seu encontro, tomando cuidado para não acordar o amante.
- E então? - perguntou ansiosa.
- Está feito, Giselle. Manuela já está nas masmorras.
- Que maravilha! Quando é que posso vê-la?
- Vê-la? Para quê?
- Ora essa Esteban. De que vale uma vingança se não se pode saboreá-la pessoalmente? Quer me tirar esse prazer?
- Pretende humilhá-la ainda mais?
- O que está havendo com você? Que eu saiba, nunca foi dado a crises de consciência.
- Está enganada, Giselle. Todos os que acusei eram culpados de algum tipo de heresia. Cumpri o meu dever levando-os ao calabouço e à morte, purifiquei as suas almas...


- E ficou com todo o seu dinheiro.
- Isso não vem ao caso. O confisco de bens é apenas conseqüência do processo de inquisição. Mas eles eram culpados. Todos eles. E mereceram o fim que tiveram. Mas
essa moça... Não consigo ver nela nada que justifique uma acusação.
- Diz isso só porque ela é pobre e você não poderá tirar nada dela.
- Não é verdade. Essa moça é uma tonta, ingênua. Não fez mal a ninguém.
- Fez a mim!
- Está bem, não quero voltar a discutir esse assunto. De qualquer forma, ela já está presa.
- O que foi que fez com ela?
- Por enquanto, nada. Ela está apenas amarrada ao tronco.
- Só isso? Ela tem que ser torturada! Não é isso o que fazem com os hereges?
- Deixe a tortura comigo. Ou será que quer tomar o meu lugar de inquisidor?
- Não... Perdoe-me. Sei que me exaltei, mas é que odeio Manuela.
- Não precisa mais se preocupar com ela. Do lugar onde está não poderá mais atingi-la.
- Quero vê-la. É o último pedido que lhe faço.
Após alguns minutos de hesitação, Esteban acabou concordando:
- Está bem. Mas que seja mesmo a última coisa que me pede. De hoje em diante, não atenderei mais a nenhum pedido seu.
- Fique sossegado. Depois disso, vou deixá-lo em paz.
- Muito bem. Amanhã à noite mandarei um soldado de minha confiança vir aqui para buscá-la. Cubra-se com o manto e o acompanhe. Eu a estarei esperando para levá-la
ao calabouço. Mas cuidado. Não deixe que ninguém a reconheça.
- Não se preocupe. Farei tudo direitinho.
Assim foi feito. Na noite seguinte, Giselle acompanhou o soldado que a fora buscar em sua casa. Não disse nada a Ramon, mas fez com que ele fosse até a taverna naquele
dia, alegando que não seria bom que se ausentasse por tanto tempo. Desde que ela chegara, Ramon deixara a taverna aos cuidados de Sanchez, e o movimento caíra muito
após a saída de Manuela.
Na calada da noite, Giselle penetrou na masmorra do Tribunal, e a primeira coisa que sentiu foi o cheiro pútrido que vinha de seu interior. Instintivamente, tapou
as narinas com a ponta do manto e foi seguindo pelos corredores, assustada com os fracos gemidos que, aqui e ali, se faziam ouvir. Até que avistou Esteban, parado
no portão que conduzia ao cárcere feminino. Era a primeira vez que entrava no lugar para onde ajudara a mandar tanta gente e sentiu um leve arrepio. O que seria?
Não estava frio ali, e nenhuma corrente de ar vinha do exterior.
Era dom Fernão. A ida de Giselle ao calabouço o atraíra para junto dela, e ele se aproximou, sentindo o quanto a odiava, o quanto odiava os dois. Acompanhou-a até
o local onde Manuela dormia amarrada à polé (4). Aquela visão a impressionou, mas Giselle seguiu adiante. Podia ser horrível, mas era o que Manuela merecia por havê-la
traído. Aproximou-se dela e fitou o seu semblante exangue.



Polé = instrumento de tortura que consistia em grossas cordas de cânhamo presas ao teto, onde era pendurado o supliciado, atado pelos pulsos e pelas mãos, e com
pesos de ferro nos pés. (N.A.)

- Ela está morta? - perguntou a Esteban.
- Provavelmente não. Deve estar dormindo.
Apesar de atada à polé, ela não havia sido propriamente torturada e permanecia apenas suspensa no ar, sem ferros presos aos pés. Giselle cutucou-a com a mão, e Manuela
abriu os olhos lentamente. Ao reconhecer Giselle ali parada, pensou que ela estivesse ali para soltá-la e pôs-se a chorar, implorando com voz sofrida:
- Ah! Giselle, você veio me ajudar. Que bom que me perdoou. Tire-me daqui. Não fiz nada, não sou nenhuma herege.
Naquele momento, Giselle sentiu o coração se apertar, e uma pontada de arrependimento começou a martelar em sua consciência. Aquele lugar era mesmo tenebroso, e
Manuela sequer sabia por que fora presa.



- Diga-lhes que houve algum engano, Giselle. Não fiz nada...
- Não sabe por que está aqui, Manuela? - indagou Giselle, tentando manter a voz firme.
- Não. Na certa foi algum engano. Eu nada sei de heresias...
Giselle, por pouco, não reconsiderou. Começava a sentir pena de Manuela, mas a moça, desconhecendo o motivo de sua prisão, continuou a falar:
- Perdoe-me por haver dormido com Ramon...
Aquilo reacendeu o seu ódio. Giselle lembrou-se da cena que vira quando os surpreendera na cama, nus, em plena conjunção carnal, e seu coração se encheu de rancor.
- Fique quieta ou será pior para você - revidou Giselle, com voz fria.
- Por quê? Eu não fiz nada. Por favor, diga a esse senhor que eu não fiz nada. Você me conhece, sabe que eu não fiz nada...
- Agora basta! Você é uma herege nojenta e deve pagar pelo seu crime!
- Crime? Que crime?
- Você não sabe mesmo, não é? Não sabe por que está aqui. Pois eu mesma tratarei de esclarecê-la. Você está aqui porque eu quero, porque você me traiu. Fui eu quem
arranjou para você ser presa, Manuela. Eu!
Manuela piscava os olhos, coberta de pavor. As palavras de Giselle não faziam sentido algum, e ela desatou a chorar convulsivamente.
- Você? - tornou atônita. - Mas por quê? Você não pode fazer isso, Giselle. Não pode ser assim tão vingativa. Você não seria capaz. Por favor, tire-me daqui. Eu
lhe imploro, tire-me daqui.
Fitando-a com olhar gélido, Giselle finalizou com desdém:
- Nunca.
Deu-lhe as costas e foi andando para o portão, seguida por Esteban, que não dissera uma palavra. Atrás deles, a voz de Manuela ainda se fazia ouvir, implorando que
Giselle a perdoasse e ajudasse, despertando os outros presos. Em instantes, ouviu-se um mar de lamúrias e choros agonizantes, e Giselle disparou pelo corredor, em
direção à saída.
- Satisfeita? - indagou Esteban, já do lado de fora.
- Sim - foi sua única resposta.
Ela rodou nos calcanhares e seguiu na direção em que uma carruagem a aguardava para levá-la de volta. Sentou-se no banco e, sem coragem de encarar Esteban, deu ordens
ao cocheiro para que partisse. No caminho, ocultou o rosto entre as mãos e chorou novamente. Sentia pena de Manuela, mas o orgulho ferido falou mais alto, e ela
cedeu ao desejo de vingança.
Nesse momento, Manuela chorava desesperada, ainda mais porque o carrasco, responsabilizando-a pela balbúrdia que causara, atou alguns pesos a seus pés, e ela sentiu
uma dor horrenda nas juntas, como se lhe fossem arrancar braços e pernas. Seu desespero era imenso, e, o seu lado, o espírito de dom Fernão chorava com ela. Assim
como ele, aquela jovem era mais uma vítima da covardia de Giselle e da tirania de Esteban. Mas aquilo não ficaria assim. Ele reunira muitos elementos contra Giselle.
Bastaria se esforçar e atuar sobre os encarnados, e eles, espíritos fracos e comprometidos, em breve acederiam a suas sugestões. Giselle teria o fim que merecia.
Quanto a Manuela, faria tudo o que estivesse o seu alcance para salvá-la. Seria mais uma etapa de sua vingança.








CAPÍTULO 29


Aos pés da Virgem Maria, Juan orava, pedindo inspiração para o que deveria fazer. Agora que sabia quem era aquele Ramon e que ele era amante de Giselle, ficara em
dúvida sobre que atitude tomar. Sua vontade era entregá-lo a padre Miguez imediatamente. Contudo, temia por Giselle. Padre Miguez não gostava de Giselle e era bem
capaz de fazer algo contra ela também. Mas ele procurava Ramon de Toledo, responsável pela desonra de Lucena, e daria tudo para prendê-lo. Juan se decidiu. Falaria
com padre Miguez, mas só lhe diria o paradeiro de Ramon depois que ele prometesse que não faria nada contra Giselle também.
Miguez estava em seu gabinete no Tribunal, examinando os autos de um processo, quando Juan bateu à porta.
- Entre - disse a voz lá de dentro.
- Padre Miguez... - cumprimentou Juan, com um aceno de cabeça.
- Ah! Juan! Entre, meu jovem, entre.
Juan entrou e foi postar-se diante dele, encarando-o com ar grave. Miguez soltou o processo e o fitou de volta, perguntando com visível preocupação:
- Está tudo bem, Juan? Esteban piorou?
- Não, senhor. Monsenhor Navarro está muito bem. Sou eu quem precisa falar, com o senhor.
- Pois então se sente - Juan se sentou. - E então? Do que se trata?
Ele estava ruborizado, lutando para conter o embaraço.
- Bem, padre Miguez... - começou hesitante - é sobre aquele homem...
- Que homem?
- O ex-noivo da senhorita Lucena... - completou bem baixinho.
- Refere-se a Ramon de Toledo?
- Esse mesmo.
- O que tem ele? Por acaso sabe onde está?
- E se eu disser que sei?
- Se sabe, é seu dever me informar.
- Pode ser mesmo que eu saiba padre Miguez. No entanto, há certos aspectos que envolvem o senhor Ramon de Toledo que o senhor desconhece.
- Como assim?
- Bem, digamos que eu saiba o seu paradeiro e que esteja disposto a revelá-lo ao senhor em troca de... Um pequeno favor.
- Favor? - Miguez ergueu-se da cadeira, exaltado. - Que favor, Juan? Devo lembrá-lo de que é um jovem noviço, prestes a se ordenar, e que não é direito chantagear
seus superiores.
O rosto de Juan tornou-se ainda mais rubro, e um forte calor começou a subir pelo seu pescoço, espalhando-se pelas suas faces.
- Não se trata disso - contestou com voz sumida. - Não estou aqui para chantageá-lo. É que Ramon está envolvido com uma pessoa muito minha conhecida.
- Quem? - Miguez não escondia a curiosidade.
- Não posso dizer.
- Como assim, não pode dizer?
- Tenho medo do que o senhor possa fazer contra essa outra pessoa.
Miguez fitou-o desconfiado, ainda sem pensar no nome de Giselle.
- Juan - tornou mais calmo -, diga-me quem é essa outra pessoa, e talvez eu possa ajudá-lo.
- Não posso padre.
- Por quê? Por acaso não confia em mim?
- Confio. Mas não posso permitir que essa outra pessoa sofra as conseqüências de algo que não fez.
- Se é assim, ela não tem o que temer.
- Gostaria de ter a sua certeza.
- E se eu lhe garantir que nada farei contra ela?
- Era isso mesmo o que esperava ouvir do senhor, padre Miguez. Quero total isenção para a pessoa envolvida com Ramon.
Algo no coração de Miguez, naquele momento, despertou-lhe os sentidos, e ele começou a desconfiar.
- Por acaso Esteban conhece essa outra pessoa? - indagou, após alguns minutos.
Juan titubeou. De nada adiantaria mentir sobre isso, mas ele não queria envolver o nome de monsenhor. De qualquer sorte, Miguez sabia da relação entre Giselle e
Esteban, e ocultar-lhe que ele conhecia a pessoa com quem Ramon se envolvera era pura inutilidade. Por fim, acabou por aquiescer:
- Conhece.
- E ele sabe que você veio a mim?
- Não.
Uma atroz desconfiança foi dominando Miguez. Aos pouquinhos, foi ligando os fatos, e uma terrível dúvida passou a assaltá-lo. Começava a perceber... Esteban, de
uma hora para outra, dera para defender Ramon, tentando desviar sua atenção do rapaz. E agora, Juan aparecia querendo denunciar o mesmo Ramon, mas com medo de que
outra pessoa pudesse ser acusada também. Só havia uma pessoa no mundo que Juan tentaria desesperadamente defender. A mesma que Esteban faria tudo para proteger...
Será que Ramon se envolvera com quem ele pensava?
- Juan - falou com severidade -, exijo que você me diga o paradeiro de Ramon de Toledo. Isso é uma ordem. Ou você me diz, ou irei agora mesmo a Esteban e lhe contarei
o que você está fazendo sem a sua autorização.
- Não! Por favor, padre Miguez, não faça isso.
- Diga-me então onde ele está.
-

-
- Só se o senhor me prometer que não fará nada contra a pessoa com quem ele está envolvido.
- Está certo, prometo. Prometo que a pessoa envolvida com Ramon não será acusada por manter relações com ele.
Juan suspirou aliviado. Em sua ingenuidade, achava que aquela promessa era o bastante. Contudo, não sabia o quão ardiloso padre Miguez podia ser e, de forma ingênua
e mais confiante, acabou por revelar:
- Ramon de Toledo mantém um romance sigiloso com Giselle...
- O quê? - esbravejou, ante a confirmação de suas suspeitas. - Você quer dizer, Giselle Mackinley, a mesma protegida de Esteban?
- Sim.
Miguez desabou na cadeira. Lucena ia enlouquecer quando soubesse. Sua pior inimiga de caso com o homem por quem nutria um ódio descomunal. Seria demais para ela.
Por outro lado, aquele romance até que poderia ser bem providencial. Prenderia os dois de uma única vez, acusados de fornicação.
Mas havia Juan. Ele prometera ao rapaz que não faria nada contra Giselle e era um homem de palavra. Não podia acusá-la pelo único fato de manter relações com Ramon.
Ele prometera. Entretanto, desconfiava de seu envolvimento com demônios. De que outro modo teria enfeitiçado Esteban a ponto de levá-lo aos atos mais extremos para
protegê-la? Sim, pensou, havia de encontrar algo contra ela também.
- Diga-me onde encontrá-lo - disse Miguez em tom imperativo.
- Ele está morando na casa de Giselle e cuida de sua taverna.
- Conheço a taverna, mas não sei onde Giselle mora.
Juan contou-lhe tudo. Deu o endereço da casa de Giselle, indicando-lhe os horários em que o encontraria na taverna. Quando terminou, pediu em voz súplice:
- Por favor, padre Miguez, não conte a monsenhor Navarro que fui eu que falei. Ele jamais me perdoaria.
- Está bem, Juan. Tem a minha palavra.
- Obrigado.
- Juan... Por que está fazendo isso?
Ele suspirou dolorosamente e deixou que duas grossas lágrimas escapassem de seus olhos, enxugando-as com as costas das mãos.
- Ramon de Toledo obrigou Giselle a me trair...
Rapidamente, Juan disse como descobrira sobre o envolvimento de Giselle e Ramon. Contou-lhe sobre o dia em que ela fora ao gabinete de Esteban e lhe falara sobre
Manuela, que ele também conhecia e que agora estava nas masmorras. Contou-lhe tudo o que sabia, e Miguez foi sentindo a raiva crescer dentro dele. Enquanto Juan
falava, sentia que odiava Giselle cada vez mais e tudo faria para que ela fosse dele... Para poder destruí-la com suas próprias mãos.
Quando Miguez chegou à casa de Lucena, ela logo percebeu que alguma coisa havia acontecido. Ele estava com um estranho brilho no olhar e a beijou com mais intensidade
do que de costume.
- O que foi que houve? - indagou curiosa.
- Minha querida Lucena - alegrou-se -, creio que hoje será um dos dias mais felizes da sua vida.
- Por quê? Por acaso conseguiu prender Giselle?
- Melhor. Vamos apanhar Giselle e Ramon com um só golpe.
- Como assim? O que quer dizer?
- Sente-se aqui junto a mim. E mande buscar Blanca. Quero que ela escute isso também.
Lucena deu ordens para que Consuelo fosse buscar Blanca em seu quarto. Depois de acomodá-la sobre as almofadas, Miguez começou a contar o que havia acontecido. À
medida que falava, o rosto de Lucena ia se contraindo, até que ela, não conseguindo mais se conter, explodiu tomada de fúria:
- Aquela miserável! Além de tirar a vida de meu pai, de destruir a pobre Blanca, de arruinar a minha própria vida, ainda se atreve a seduzir, o meu noivo! Então
foi por isso que ele me deixou! Mas como? Como foi que isso pôde acontecer?
- Não sei Lucena. Mas se seu pai tinha um caso com Giselle...

-
Parou de falar, já arrependido, ouvindo os soluços de Blanca.
- Perdoe-me, Blanca - lamentou Miguez, sinceramente compadecido -, não queria perturbá-la.
- Não devíamos tê-la chamado aqui - censurou Lucena. - Isso não podia fazer-lhe bem.
- Tem razão, Lucena - concordou Blanca, com sua vozinha fraca e insegura. - Mas faz-me ainda mais mal saber que essa história sanguinária não termina por aqui.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que de nada adianta querer se vingar. Fernão me traiu e está morto, e eu... Não sou nem sombra da mulher que fui um dia. No entanto, prender e torturar
Giselle não vai restituir nada daquilo que perdemos.
- Como pode falar assim, Blanca? - indignou-se Lucena. - Vai nos trazer conforto. Saber que a mulher que nos destruiu vai sofrer tudo aquilo por que nos fez passar
vai nos consolar.
- Não. Vai apenas nos iludir. A vingança é apenas uma ilusão. Pensamos que estamos nos ressarcindo de algo que nos foi tomado quando, na verdade, estamos tentando
tomar o que também não nos pertence. Mais tarde, teremos todos que acertar nossas contas.
- Blanca!
- Por favor, Consuelo, leve-me daqui - pediu Blanca, tentando se levantar sozinha. - Não quero mais saber de mortes ou carnificinas. Já basta o que passei.
Lucena e Miguez ficaram assistindo Blanca se afastar, atônitos. Não esperavam aquela reação. Ainda mais dela, que tanto sofrerá nas mãos dos verdugos. Blanca havia
se tornado uma mulher triste e de poucas palavras, mas o que dissera causou constrangimento e embaraço no coração dos dois.
- Deixe-a - ponderou Miguez. - Ela sofreu muito. Deve estar mesmo cansada de tudo isso. É natural.
- Mas Miguez, ela não quer se vingar. Tem essa chance e não quer aproveitar. Como pode uma coisa dessas?
- Não sei Lucena. Blanca sofreu muito, e nem eu, nem você jamais poderemos alcançar tudo o que ela sentiu e ainda está sentindo. Há de ter os seus motivos.
Lucena abaixou os olhos e não respondeu. Se Blanca não queria se vingar, respeitaria seu desejo. Mas era o desejo dela, não o seu. Faria a vingança sozinha.
- Também tenho os meus motivos - revidou Lucena, voz fremente de ódio. - E não estou disposta a abrir mão deles. Giselle e Ramon têm que pagar. Agora, mais do que
nunca!
- Não se preocupe minha querida. Eles não hão de escapar.
- E quanto a monsenhor Navarro?
- O que tem ele? Já disse que ele nada tem a ver com essa nossa vingança. Vamos deixá-lo fora disso tudo.
- O que dirá quando souber?
- Não poderá dizer nada.
- Na certa, vai tentar impedir.
- Ele não terá como. Darei um jeito de acusar Giselle de tal forma que nem ele ousará contestar a sua prisão.
- Quando vai prendê-los?
- O mais rápido possível. Giselle veio de Cádiz especialmente para mandar prender a tal Manuela e não iria desperdiçar a oportunidade de fornicar com seu amante.
Talvez ainda esteja em Sevilha.
- Quero ir com você.
- Isso é que não! Não vou expor você a esse constrangimento.
- Não, Miguez. Quero estar presente para que eles saibam por que estão sendo presos.
- Está certa, minha querida. No fundo, tem esse direito. Amanhã de manhã virei buscá-la.
- Para que esperar tanto? Podemos ir prendê-los agora mesmo.
- Já é tarde. Não gostaria de arrastá-los pelas ruas em plena luz do dia, para que sofressem a humilhação e a vergonha de se verem expostos para toda a cidade?
- É uma ótima idéia.
- Pois então, prepare-se. Amanhã cedo estarei aqui. E não se preocupe. Dará tudo certo.
-

-
Naquela noite, Lucena não conseguiu dormir. Antegozava o prazer que teria com a prisão de seus dois maiores inimigos. Depois, com a ajuda de Miguez, faria com que
sofressem e agonizassem, assim como seu pai, ela e Blanca haviam sofrido. Tiraria tudo de Giselle, que ainda teria que suportar a humilhação de ser espoliada por
aquela a quem ajudara a levar à ruína.
Ao mesmo tempo em que Miguez e Lucena tramavam sua vingança, Giselle ia para casa com o coração oprimido, impressionada com o episódio que vivera na masmorra. Nunca
antes alguém havia lhe causado tanta impressão. Ela já havia ajudado a mandar para o calabouço centenas de homens e mulheres, mas a visão de Manuela presa à polé
não saía de sua cabeça.
Quando voltou para casa naquela noite, Ramon estava acordado, à sua espera.
- Meu Deus, Giselle, o que foi que aconteceu? - o indagou, correndo para ela assim que a viu entrar, faces lívidas e olhos vermelhos.
Sem responder, Giselle sentou-se na cama e ocultou o rosto entre as mãos, desatando a chorar.
- Oh! Ramon!
- O que foi que houve?
Seriamente preocupado, Ramon sentou-se a seu lado e pousou sua cabeça em seu colo, acariciando seus cabelos.
- Não foi nada - murmurou ela. - Já vai passar.
- Onde é que você esteve? Acordei e não a vi. Fiquei preocupado.
Giselle tinha medo da reação de Ramon. Desde que chegara não lhe dissera de suas intenções para com Manuela, mas tinha certeza de que ele não aprovaria. Já havia
ficado deveras decepcionado com a perda do bebê, cujo aborto julgara espontâneo, e Giselle não queria desgostá-lo ainda mais.
- É por causa do bebê que está chorando? - prosseguiu ele, penalizado, e ela redobrou o choro. - Por favor, acalme-se. Amo você. Na certa, teremos outros filhos.
- Não, Ramon, não teremos mais filhos. Já não sou mais nenhuma mocinha.
- Não faz mal. Se é isso o que a preocupa, então não precisa mais se preocupar. Eu a amo e não me importo de não termos filhos.
- Até que ponto você me ama?
- Até que ponto? Como assim? Que pergunta é essa?
- Você seria capaz de entender todos os meus gestos desesperados?
- Sim... Creio que sim. Por quê? O que você fez?
Ela enxugou as lágrimas e fitou-o com seriedade. Precisava contar-lhe a verdade. Ele acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde, e era melhor que fosse por seu
intermédio.
- Fui ao Tribunal do Santo Ofício e denunciei Manuela como herege.
- Você o quê?
- Denunciei Manuela. Ela está presa. Ele mal conseguia esconder o assombro.
- Mas por que, Giselle? Por que fez isso?
- Porque ela me traiu.
Ramon passou a mãos pelos cabelos, acabrunhado.
- Você agiu muito mal - censurou-o.
- Por quê? Ela me traiu. Seduziu você para que me traísse.
- Manuela é uma tola. Não faz mal a ninguém.
- Fez a mim.
- Seria melhor se tivesse lhe dado uma surra.
- Não me rebaixaria tanto, sujando minhas mãos com aquela cadela.
- Acha que suas mãos estão limpas, Giselle? Depois do que você fez?
- O que há com você, Ramon? Agora deu para ter crises de consciência, é? Você sempre soube o que eu fazia e nunca disse nada.
- Eu nunca aprovei! Além disso, você não conhecia aquelas pessoas.
- Engana-se. Conheci cada uma delas... Intimamente.
- Ainda assim, é diferente. Aquelas pessoas não estavam envolvidas com a sua vida. Não era como Manuela. Você lhe deu abrigo, ela trabalhava para você, confiava
em você...
-

-
- Pare! Pare! Se quiser defendê-la, vá fazer-lhe companhia!
Giselle caiu num pranto sentido e amargurado. Sabia que Ramon estava certo e, pela primeira vez, sua consciência lhe dizia que não havia agido direito. Com todos
os outros, não se importara. Denunciá-los era sua tarefa. Ela se envolvia com eles por ordem de Esteban, para cumprir a missão que ele lhe confiara. Mas não os conhecia
a fundo nem se relacionava com eles. Manuela não era feito eles, e ela só a denunciara movida por um sentimento mesquinho e vingativo. Era uma tonta, ingênua, doidivanas.
Só pensava em sexo e em homens, gostava de seduzir, de fazer amor. Mas nunca prejudicara ninguém. Nem mesmo a ela. Era bem verdade que traíra a sua confiança, deitando-se
com Ramon. Mas aquilo era o máximo que seria capaz de fazer.
Seu desespero, entretanto, tocou o coração de Ramon. Por mais que não aprovasse o que ela fizera, no fundo, podia compreendê-la. Uma mulher ferida era capaz de qualquer
coisa, ele já deveria saber, e Giselle não fugia a essa regra. Mas ele a amava. Fosse o que fosse que tivesse feito, ele continuaria sempre a amá-la.
- Giselle - sussurrou, abraçando-a com ternura -, não chore mais. Está tudo bem, já passou.
- Não está zangado, Ramon?
- Não, não estou. Fiquei um pouco chocado, mas posso compreender.
- Pode mesmo?
- Sim. Meu amor por você é maior do que tudo. Estarei sempre o seu lado, não importa o que tenha feito.
- Oh! Ramon!
Giselle estreitou-se a ele com volúpia, e logo os dois estavam se amando, esquecidos de Manuela. No dia seguinte, logo que o sol nasceu Giselle teve que partir.
Já se demorara demais na pretensa visita ao médico, e Solano acabaria por desconfiar. Ramon lamentou a sorte da pobre Manuela, mas não podia se colocar contra Giselle.
Jamais ficaria contra ela.
Despediu-se dela com um beijo prolongado e voltou a dormir. Ainda era muito cedo, e ele estava cansado. De repente, foi despertado por mãos que o agarravam e o puxavam
da cama. Assustado, tentou entender o que estava acontecendo, até que se deu conta de que o quarto estava cheio de soldados armados e furiosos. Será que Giselle
o havia denunciado também? Esse pensamento encheu-o de tristeza e indignação, e ele já estava quase acreditando nessa suspeita quando os soldados se afastaram para
dar passagem a um homem. Um padre entrou com ar furioso e o encarou com ódio. Não era Esteban, ele sabia, mas talvez fosse alguém a mando dele.
- Ramon de Toledo! - esbravejou com voz tonitruante - Por ordem do Tribunal do Santo Ofício, está sendo recolhido ao calabouço, acusado da mais sórdida heresia!
- Heresia? - balbuciou aturdido. - Mas que heresia?
- Calem a boca do fornicador! - rugiu colérico.
Os soldados o amordaçaram mais que depressa e o derrubaram ao chão.
- Onde está sua comparsa? - prosseguiu, com os olhos injetados de sangue. - Vamos, responda!
Como Ramon estava amordaçado, não conseguiu falar, e um dos soldados deu-lhe um chute nas costelas, fazendo com que gemesse de dor. Sem nada entender, rosto colado
no chão, viu quando de repente a barra de um vestido se aproximou. Com muita dificuldade, conseguiu levantar os olhos, temendo encontrar diante dele uma Giselle
enciumada e enfurecida. Mas qual não foi o seu espanto ao dar de cara, não com Giselle, mas com Lucena, cujos olhos transbordavam de ódio.
- Desamarrem-no! - exigiu ela.
A um olhar de Miguez, os soldados desataram a mordaça, mas Ramon não conseguiu falar, tamanho o seu espanto, e permaneceu deitado no chão, cabeça baixa, evitando
o olhar acusador de Lucena.
- De joelhos! - gritou Miguez.
Os soldados o ergueram bruscamente e o puseram de joelhos diante de Lucena, enquanto Miguez prosseguia:
- Agora beije os pés da mulher que você tentou conspurcar!
Agora entendia. Mas o orgulho o paralisou, e ele permaneceu parado, fitando-a com um misto de mágoa e horror.
- Beije-lhe os pés, vamos! - vociferou Miguez novamente.
Como Ramon não se decidisse, um dos soldados se aproximou por trás e desferiu-lhe violento golpe na nuca, fazendo com que ele caísse de bruços, bem perto dos pés
de Lucena. Mas ele resistia. Seu orgulho e sua hombridade haviam sido duramente atingidos, e ele não estava disposto a se rebaixar diante daquela mulher.
- Não ouviu o que sua eminência falou? - disse o soldado entre dentes. - Beije os pés da moça!
Ramon não beijou. Nada no mundo o faria tocar Lucena novamente. O soldado puxou-o pelos cabelos e esfregou os seus lábios sobre os pés de Lucena, mas Ramon, coberto
de ódio, ao invés de beijá-los, cuspiu em cima deles, o que provocou a ira de Miguez e do soldado, que o fez desmaiar com novo golpe.
- Cão imundo! - fremiu Lucena. - Verme!
- Levem-no daqui! - ordenou Miguez, rosto desfigurado pela cólera.
Os soldados erguerem Ramon e saíram arrastando-o desmaiado. Mais atrás, outro soldado segurava pelo braço Belita, que chorava sem parar. Miguez fez sinal para que
ela se aproximasse, e o soldado empurrou-a na direção dele. Na mesma hora, Belita caiu de joelhos e começou a choramingar:
- Oh! Meu senhor tenha piedade! Sou uma pobre escrava deserdada da sorte...
- Cale-se! - gritou Miguez, desferindo-lhe uma bofetada.
Belita engoliu o choro e abaixou os olhos, tremendo feito vara verde.
- Só fale quando sua eminência mandar - disse o soldado com frieza.
Ela fez como lhe ordenavam. Ficou de cabeça baixa, esperando que o padre à sua frente lhe perguntasse algo, temendo por sua vida. Foi quando Miguez começou a falar:
- Muito bem, criatura reles, onde está sua senhora?
- Minha senhora? A senhora Giselle?
- E quem mais poderia ser imbecil?
Belita começou a chorar novamente, e Miguez já ia lhe desferir nova bofetada quando Lucena interveio:
- Deixe a pobre criatura, Miguez. Ela está assustada.
- Mas Lucena, ela é criada daquela víbora herege.
- É apenas uma escrava, não tem vontade própria. Deixe-a comigo.
Miguez chegou para o lado e Lucena tomou à dianteira. Abaixou-se ao lado de Belita, ergueu o seu queixo e perguntou com serenidade:
- Qual é o seu nome?
- Belita, senhora.
- Muito bem, Belita. Estamos aqui para saber onde está Giselle. Se você sabe, diga-nos ou pode acabar se comprometendo também.
- Ela partiu hoje pela manhã. Pouco antes de os soldados chegarem. Voltou para Cádiz...
Lucena fitou Miguez que, impaciente, ordenou a seus soldados:
- Revistem a casa toda!
Não demorou muito e os soldados encontraram o porão onde Giselle costumava fazer suas magias. Rapidamente, um dos homens reapareceu no quarto e foi chamar Miguel.
- Venha depressa, eminência. Encontramos algo.
Imediatamente, Miguez seguiu o soldado, com Lucena atrás dele. Belita foi junto, arrastada por outro soldado. Miguez entrou nó porão empoeirado. Havia ali toda sorte
de sortilégios. Poções ervas pêlos e unhas de animais, alguns ossos e livros altamente incriminadores. Miguez fez o sinal da cruz e Lucena se persignou, enquanto
ele examinava cada objeto daquela estranha coleção.
- Creio que as provas contra Giselle são irrefutáveis - falou Miguez em tom mordaz. - Essa mulher tem parte com o demônio, se não é o demônio em pessoa.
Lucena exultou. Aquilo era mais do que poderia esperar. Vingara-se de Ramon e de Giselle de uma só vez. E, embora não pudesse se vingar de Esteban também, a acusação
de sua protegida já seria para ele um grande castigo. Monsenhor Navarro nada poderia fazer para salvá-la e seria obrigado a presenciar calado o seu suplício. Sim.
Através de Giselle, vingara-se dele também.








CAPÍTULO 30



Sem ver ou desconfiar de nada, Giselle chegou de volta ao castelo de dom Solano. Assim que entrou, ele veio recebê-la preocupado, um tanto embriagado, ansioso para
saber o que o médico havia dito.
- Nada de mais - respondeu ela com certa impaciência.
Solano tentou beijá-la, mas ela o repeliu. Os acontecimentos vividos nos últimos dias fizeram com que ela perdesse toda a disposição de fingir para ele. A imagem
de Manuela presa à polé não lhe saía da mente, e Giselle, intimamente, começou a culpar Solano pela atitude extrema a que fora levada. Não fosse por aquele maldito
casamento, ela e Ramon ainda estaria junto, e ele não teria a necessidade de afogar suas mágoas no colo de outra mulher.
- O que há com você, Giselle? - tornou ele frustrado. - Por que está me tratando desse jeito?
- Deixe-me em paz! - gritou ela enfurecida.
Dando-lhe as costas, foi direto para o quarto. Rúbia e Diego estavam fora, como sempre, passeando a cavalo, aproveitando à tarde para desfrutar de seu amor proibido.
Giselle não tinha a quem recorrer. E depois, não sabia como Rúbia a receberia. Ela também ficara decepcionada com sua reação ante a descoberta da traição de Ramon
e ficaria ainda mais triste quando soubesse o que ela havia feito.
Mas Solano desconhecia esses fatos. Embora soubesse que Giselle nunca o amara, naquele dia, em particular, ela lhe parecia bastante hostil e impaciente. Talvez a
perda do bebê lhe houvesse ocasionado alguma enfermidade muito séria, e ela estivesse com medo de lhe contar.
- Giselle - chamou ele, antes que ela entrasse em seu quarto.
- Diga-me o que houve lá em Sevilha. O médico lhe deu más notícias?
Giselle encarou-o com um misto de repulsa e desdém. Já não o agüentava mais, não suportava mais aquele casamento de mentira.
- Solano - revidou ela, a voz trêmula demonstrando a raiva que procurava conter -, estou lhe pedindo, por favor: deixe-me sozinha. Não quero conversar hoje.
- Mas você é minha esposa. Tem que me dizer o que aconteceu.
- Não aconteceu nada.
- Como não? Você saiu para ir ao médico. Passa dias fora e, quando volta, está mais aborrecida do que nunca. Quer então me convencer de que não houve nada? O que
foi? O que ele lhe disse?
- Nada, Solano, não disse nada.
- Se não disse nada, por que está tão aborrecida?
- Quem foi que lhe disse que estou aborrecida?
- Basta olhar para você.
- Pois então não olhe!
- O que é isso? - o censurou, aproximando-se dela e tentando segurar a sua mão. - Por que essa agressividade toda? Você está doente? O médico diagnosticou alguma
enfermidade grave? A perda do bebê lhe deixou seqüelas...?
- Pare Solano, pare! Você está me enervando!
- Mas Giselle, estou preocupado com você. Você saiu daqui para ir ao médico e voltou pior do que foi. Só pode ter sido algo ruim.
- Não precisa se preocupar. Já disse que não tenho nada.
- Você está mentindo, sei que está. O médico deve ter-lhe dito alguma coisa terrível para deixá-la assim nesse estado. O que foi? Não precisa me esconder nada.
- Não estou lhe escondendo nada.
- Abra-se comigo, Giselle. Você pode não me amar, mas eu sou seu marido. Tentarei ajudá-la. Consultaremos outros médicos.
- Que médicos?
- Iremos a Madri ou, quem sabe, a Paris? Tenho certeza de que poderão curá-la.
- Você está louco, Solano. Eu não estou doente.
- Se não está doente, por que está tão brava?
Ela virou-lhe as costas e foi saindo do quarto novamente. Ele foi atrás, falando e gesticulando ao mesmo tempo:
- Assim não é possível, Giselle. Estou tentando ajudá-la, mas você parece não querer a minha ajuda.
- Não quero.
Já começando a demonstrar irritação, Solano apressou o passo e alcançou-a quase na porta da sala, puxando-a pelo braço com força.
- Espere aí, Giselle! - falou em tom imperativo. - Você não tem o direito de me tratar assim.
- Solte-me, Solano.
- Aonde pensa que vai?
- Vou dar uma volta.
- Agora, não. Ainda não acabamos a nossa conversa.
- Por que está me atormentando desse jeito? A única coisa que desejo é ficar em paz.
- Você pode ficar em paz assim que me contar o que o médico lhe disse.
Giselle não agüentava mais. Aquela farsa já a estava irritando, e Solano a estava tirando do sério. Por que não se calava? Por que não a deixava em paz? Estava farta
de tudo aquilo, daquele casamento de mentira, daquele velho que não amava. Tomou uma decisão. Aquele era seu último dia ali. Solano podia esbravejar e ofendê-la,
mas ela iria embora. Afinal, não fizera o que fizera
para ainda ter que ficar longe de Ramon. Fora obrigada a tomar medidas drásticas contra Manuela para poder assegurar o amor de Ramon por ela. Não tinha sentido agora
deixá-lo de novo e voltar para a casa de um homem a quem não amava.
A prisão de Manuela fora seu último ato extremo. Dali por diante, não estava mais disposta a se separar de Ramon. Houvesse o que houvesse, estaria o seu lado. E
depois, ele tinha razão. Ela também não lhe era fiel e ele, na certa, não gostaria de saber sobre seu envolvimento com Rúbia e Diego. Não precisava mais daquilo.
Não precisava mais de subterfúgios que lhe garantissem a segurança. Tinha dinheiro, era rica. Podia apanhar seu tesouro e fugir com Ramon. Ninguém nunca mais ouviria
falar deles, e então poderiam ser felizes de verdade. Casar-se-iam e levariam uma vida normal, longe de padres, feitiços e tribunais.
Com esse pensamento, virou-se para Solano e respondeu entre dentes:
- Não há médico nenhum.
- Não há? Como assim? O que quer dizer? Não estou entendendo.
- Mas como você é estúpido, Solano! O que estou tentando lhe dizer é que não fui consultar nenhum médico em Sevilha.
- Não foi? Aonde foi então?
Olhando bem fundo dentro de seus olhos, Giselle disparou com voz gélida:
- Fui ver o meu amante!
A princípio, Solano pensou que não havia entendido direito. Teria ela mesma dito que havia ido ver o amante? Mas que amante era aquele?
- Foi ver monsenhor Navarro?
Ela soltou uma gargalhada histérica e revidou em tom mordaz:
- Não. Fui ver o homem com quem vou dividir o resto da minha vida.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que me vou embora. A partir de hoje, nosso casamento está desfeito.
- Não pode desfazer nosso casamento. Os laços do matrimônio são sagrados e eternos, e só se rompem com a morte.
- Pouco me importa!
Enfurecida, Giselle passou por ele em disparada e saiu bradando pelos corredores do palácio, enquanto caminhava de volta a seu quarto:
- Belinda! Belinda! Onde está? Belinda!
Entrou no quarto feito uma bala de canhão e tentou bater a porta, mas Solano a impediu, entrando logo atrás dela. Poucos segundos depois, Belinda apareceu esbaforida.
- Chamou senhora?
- Chamei. Prepare a minha bagagem e depois vá arrumar suas coisas. Nós vamos embora.
Apesar de surpresa, Belinda não ousou questionar. Saiu apanhando os baús e começou a aprontar tudo.
- O que está fazendo? - perguntou Solano, atônito.
- Você é surdo? Não ouviu? Disse que me vou embora.
- Pare com isso! - vociferou. - Estou ordenando, Giselle, pare já com essa besteira!
Solano partiu para cima de Belinda e começou a arrancar-lhe as roupas das mãos. A escrava se encolheu toda a um canto e ficou à espera. Na mesma hora, Giselle partiu
para cima dele e começou a esbofeteá-lo.
- Largue minhas coisas, seu animal! - berrou ensandecida.
- Você não vai a lugar nenhum. É minha esposa!
- Eu o odeio, Solano!
- Não vai voltar para seu amante! Seja ele quem for não vai voltar para ele. Não vou permitir. Você é minha esposa, e não vou tolerar que homem nenhum tome aquilo
que é meu.
- Eu não sou sua!
- É sim. Até um filho ia me dar...
- Ele não era seu filho! - gritou cada vez mais colérica. - Era filho do meu amante! Do meu amante!
Fora de si, Solano deu-lhe violenta bofetada, e ela caiu sobre a cama, um fio de sangue escorrendo do nariz. Coberto pela raiva, ele correu em sua direção e apanhou-a
pelos cabelos, desferindo-lhe diversas bofetadas no rosto. Giselle tentava livrar-se de suas garras, mas ele não a largava. Apesar de velho e franzino, conseguira
imobilizada de um jeito que ela não conseguia se soltar.




Paralisada de horror, Belinda não sabia o que fazer. Via sua senhora apanhando bem na sua frente e começou a chorar. Ficou toda encolhida, chorando apavorada, até
que a voz aguda de Giselle ressoou em seus ouvidos:
- Belinda, ajude-me! Faça alguma coisa!
Saindo de seu torpor, Belinda deu um salto e correu para eles, pendurando-se no pescoço de Solano. Sentindo-se sufocar, ele soltou Giselle, tombando ao chão juntamente
com Belinda. A escrava, a um olhar de Giselle, puxou-lhe os braços acima da cabeça, ao mesmo tempo em que Giselle subia em cima dele e agarrava seu pescoço, apertando-o
com fúria incontida. Solano esperneou e se debateu, tentando desvencilhar-se, mas as forças somadas das duas mulheres superaram a sua, e Belinda o segurava firme,
enquanto Giselle não parava de apertar sua garganta. Mais alguns minutos e tudo estava terminado. Solano, olhos vítreos, fitava Giselle com um ódio imensurável.
Apesar de morto, seu olhar transmitia todo ódio que levaria daquela vida e com o qual atravessaria ainda muitos séculos.
As duas permaneceram paradas durante alguns minutos mais, tentando assimilar o que haviam feito.
- Ai, meu Deus! - choramingou Belinda. - Ele está morto... E agora, dona Giselle? O que faremos?
- Deixe-me pensar, Belinda - retrucou apressada. - Venha, ajude-me a levá-lo de volta a seu quarto.
Sem responder, Belinda se levantou, e juntas saíram arrastando o corpo de Solano, deitando-o em sua própria cama.
- E agora, dona Giselle?
- Não sei Belinda, não sei - Giselle estava à beira do descontrole. - Ele me agrediu. Queria me matar. Foi legítima defesa...
- Ninguém vai acreditar senhora!
- Mas tem que acreditar.
- Eu a ajudei, dona Giselle. Quem é que se defende assim?
- Você... Sim, Belinda, você me ajudou...
Um brilho estranho perpassou os olhos de Giselle, causando calafrios em Belinda. Em seu íntimo, a escrava sabia que ela é quem acabaria levando a culpa por aquilo.
- Senhora... - começou a balbuciar.
- Quieta Belinda! É isso mesmo. Ele me agrediu, começou a me bater, e você veio me ajudar. Derrubou-o ao chão e apertou o seu pescoço. Nem percebeu que o estava
estrangulando e o matou.
Belinda chorava desconsolada. Não queria responder por aquilo, não era justo. Mas quem acreditaria na palavra de uma negra?
- Por favor, senhora, não faça isso comigo. Não fui eu...
- Foi você, sim! Para me salvar, é claro, mas foi você. Você o matou. Foi você, Belinda, entendeu? Você! Eu não fiz nada.
Belinda não parava de chorar. Já podia imaginar-se sob a lâmina do machado, pagando por um crime que não cometera. Ajudara a segurá-lo porque Giselle ordenara. E
ela era apenas uma escrava. O que podiam as escravas contra as ordens de seus senhores?
- Pare de chorar, Belinda! - repreendeu Giselle.
- Mas senhora, vão me matar...
- Não vão fazer nada disso. Vou ajudá-la. Darei um jeito de tirá-la das masmorras.
- Vou ser torturada...
- E daí? Deixe de ser covarde. Vai ser por pouco tempo.
- Ai, senhora... - parou de falar, a voz embargada pelo pranto.
- Não seja tola, Belinda. Você vai ser presa, mas eu darei um jeito de soltá-la. E se não disser nada, dar-lhe-ei a liberdade. Então, o que acha? Não vale a pena?
Está certo que ninguém acreditaria mesmo na palavra de uma negra, mas, ainda assim, quero recompensá-la. Vou lhe dar dinheiro e a liberdade. Mando-a até de volta
para a África, se você quiser. Não é um bom negócio?
Belinda não achava. Tinha lá as suas dúvidas de que sua senhora manteria a palavra. Além disso, o plano podia não dar certo. Giselle já não gozava mais de tanto
prestígio assim, e era bem capaz que não conseguisse libertá-la. Contudo, o que poderia fazer? Como Giselle mesma dissera quem acreditaria na palavra de uma negra?
Ela não tinha saída. Sabia que seu destino estava selado e não tinha meios de modificá-lo. Só um milagre poderia salvá-la daquela sorte ingrata.

As duas permaneceram paradas, o olhar de uma preso no olhar da outra, quando escutaram as vozes de Rúbia e Diego. Eles vinham chegando de seu passeio a cavalo e
parecia que haviam parado na porta do quarto de Rúbia. Nesse instante, Giselle virou-se e correu. Abriu a porta às pressas e saiu para o corredor, gritando feito
louca:
- Ah! Rúbia acuda! Aconteceu uma desgraça! Rúbia e Diego fitaram-na ao mesmo tempo.
- O que foi que houve Giselle? - perguntou Rúbia atônita.
- É seu pai... Uma desgraça...
Antes que ela terminasse de falar, Rúbia saiu correndo. Entrou no quarto do pai e estacou confusa.
- Papai... - sussurrou - o que aconteceu?
Vendo Belinda ajoelhada ao lado dele, chorando sem parar, Rúbia aproximou-se e fitou o rosto esbranquiçado do pai, a garganta arroxeada, os olhos sem vida fitando
o vazio. Recuou horrorizada, e Diego a amparou por trás. Numa fração de segundos, deduziu o que havia acontecido e fitou Giselle, à espera de uma explicação.
- Foi horrível, Rúbia - começou ela a balbuciar, com fingida dor. - Cheguei de viagem... Vocês não estavam... Seu pai estava bêbado, fora de si... Começou a me acusar
de coisas horríveis... Bateu-me... Tentou me matar... Veja! - exibiu as faces ainda vermelhas dos bofetões que levara o sangue seco no nariz. - Belinda veio me ajudar...
Ficou transtornada, com medo, e não percebeu...
- Não percebeu que o estava estrangulando? - tornou Diego com ironia.
- Sim... Foi tudo muito rápido... Ela nem teve tempo de pensar...
- Nem você? - prosseguiu Diego.
Giselle lançou-lhe um olhar furioso, que ele devolveu com um sorriso debochado. Nem parecia abalado com a morte do pai. Apenas Rúbia demonstrava uma dor sincera.
Ela se aproximou do leito em que o pai jazia e fitou o seu rosto exangue. Com os olhos rasos d'água, fitou Giselle, depois Belinda. A escrava, ainda ajoelhada aos
pés da cama, não parava de chorar.
- Levante-se, Belinda - ordenou Rúbia.
Na mesma hora, a escrava se levantou olhos baixos, não ousando encará-la.
- O que vai fazer com ela? - quis saber Giselle.
Antes que Rúbia pudesse responder, a porta do quarto se abriu, e vários soldados entraram em fila. Já conheciam Giselle e não tiveram dificuldade alguma em identificá-la.
Rapidamente, acercaram-se dela, sem nem se dar conta do corpo morto de dom Solano, e agarraram-na pelo braço. Um oficial desenrolou um pergaminho e começou a ler:
- Por ordem de sua eminência, o bispo Miguez Ortega, inquisidor do Tribunal do Santo Ofício...
Giselle, boquiaberta, fitou Rúbia como a implorar-lhe auxílio. Mas a moça estava por demais aturdidas para pensar em uma reação. Ainda não havia entendido o que
realmente acontecera ao pai e permaneceu calada, apenas ouvindo a ordem de prisão que o oficial, tão imperativamente, lia em voz alta. Foi só quando ele terminou
de ler que percebeu o corpo morto de dom Solano. A passos rápidos aproximou-se da cama e encostou o ouvido no peito do defunto.
- Este homem está morto! - asseverou surpreso, observando a mancha roxa ao redor de seu pescoço. - Foi estrangulado. Quem o matou?
Instintivamente, Belinda se adiantou e apontou o dedo para Giselle, afirmando com toda força de seu ódio:
- Foi ela!
Giselle não conseguiu contestar. Apenas abaixou a cabeça e pôs-se a chorar de mansinho...
Quando Esteban soube da prisão de Giselle, pensou que fosse explodir. Estava voltando do calabouço, após uma longa sessão de torturas, quando viu os soldados entrando
com ela. Na mesma hora, quis ir a seu socorro, mas a prudência o fez recuar. Giselle vinha de cabeça baixa, amarrada e muito bem segura, e não o vira do outro lado.
Naquele momento, Esteban não poderia descrever a dor que sentira. Era como se lhe arrancassem um braço ou uma perna, e a vontade que sentiu foi de correr em sua
direção e arrancar aqueles homens de perto dela a pontapés. Mas estava atado à sua posição de inquisidor e não podia agir contra a instituição que defendia. Sabia
que aquela ordem só podia ter partido de Miguez e foi até seu gabinete.
- O que significa isso? - foi logo dizendo, não ocultando à revolta e a indignação.
- Ah! Esteban é você - retrucou o outro, fingindo de nada saber.
- Eu lhe fiz uma pergunta, Miguez!
Miguez fixou nele seu olhar e, com voz calma, revidou:
- O que significa o quê?
Já sabia do que se tratava, mas precisava ganhar tempo. Há muito se preparara para aquele momento, mas tinha que reconhecer que era difícil. Esteban era seu amigo,
e nem o ódio que sentia por Giselle, nem o amor que dedicava a Lucena seriam capazes de abalar um sentimento tão forte e verdadeiro.
- Você sabe! - rugiu Esteban, mal contendo a vontade que sentia de esmurrá-lo.
Miguez fitou-o com olhar grave. Não adiantaria nada fingir. Só serviria para aumentar ainda mais a raiva de Esteban. Sem alterar o tom de voz, respondeu calmamente:
- Se está se referindo a Giselle, quero que saiba que ela é acusada de alta bruxaria.
- Mas que bruxaria? Giselle é minha protegida!
- Cuidado com aqueles a quem protege Esteban. Pode acabar se comprometendo.
- Isso é um absurdo! Sou um inquisidor de respeito. Ninguém ousaria me acusar. E quem se atreveria a me torturar? Ou executar? Você?
- Não, meu amigo, eu jamais faria isso. Minha amizade por você está acima de tudo. Acima mesmo dessa bruxa que acabamos de prender e de quem pretendo libertá-lo.
Por uns instantes, Esteban fitou-o emocionado. Sentia a sinceridade de suas palavras e sabia que Miguez jamais ousaria levantar a espada contra ele. No entanto,
seu ódio por Giselle já era conhecido, bem como sua relação com Lucena, e Esteban não podia concordar com aquela vingança pessoal.
- Agradeço pela sua amizade - tornou mais calmo -, e é em nome dela que lhe peço que não se meta com Giselle. Ela é assunto meu.
- Engana-se, meu caro. Giselle agora é assunto da Igreja.
- Você não tem nada contra ela, Miguez!
- Engana-se mais uma vez. Tenho provas robustas de que anda envolvida com bruxaria. Eu mesmo vi...
- Viu o quê?
- Seus apetrechos demoníacos.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que descobri o seu covil. Sei onde ela praticava suas bruxarias.
- Como... Como descobriu isso?
- Revistando a sua casa, aqui mesmo, em Sevilha.
- Mas por quê? Giselle estava em Cádiz. O que você foi fazer lá?
- Fui prender seu comparsa. Prendendo-o, descobri todo o resto.
Esteban emudeceu. Estava abismado. Era óbvio que Miguez descobrira toda a verdade sobre o envolvimento de Giselle e Ramon. Faces lívidas e preocupadas, indagou com
voz sumida:
- Ramon de Toledo também está preso?
- Está.
- Onde...?
Miguez se levantou e falou incisivo:
- Venha comigo.
Sentindo-se derrotado e traído, Esteban pôs-se a segui-lo. Eles entraram nas masmorras e foram seguindo por um corredor escuro, que Esteban sabia aonde conduzia.
Aquele corredor ia dar nos cubículos. Eram pequenas celas sem luz ou ventilação, espécies de solitárias onde eram colocados os prisioneiros mais rebeldes, que precisavam
ser dobrados antes de serem submetidos às sessões de tortura. De tão pequenos, as pessoas ali colocadas só podiam ficar sentadas. Eram baixos demais para comportarem
um homem em pé e muito estreitos para que se pudesse deitar. Miguez parou em frente a uma das muitas portas, dispostas lado a lado no corredor escuro, e abriu uma
portinhola.



- Veja.
Esteban olhou para dentro. Efetivamente, era Ramon de Toledo quem estava ali, sentado com as pernas encolhidas, no rosto uma expressão de dor e cansaço, provável
reação às cãibras e ao formigamento que aquela posição incômoda devia estar lhe causando. Ramon olhou para ele e o reconheceu, mas não disse nada. Não iria se humilhar
diante de nenhum padre nojento.
Em silêncio, fizeram o caminho de volta. Esteban ia triste e pensativo, sentindo no peito uma angústia indizível. Se Miguez descobrira os objetos de bruxaria de
Giselle, não havia mais muito a fazer. O processo, na certa, já fora instaurado, e ser-lhe-ia muito difícil apagar as provas existentes contra ela. De volta ao gabinete,
Esteban indagou com profundo pesar:
- Por que fez isso, Miguez? Pensei que fosse mesmo meu amigo, mas sua amizade não é tão forte como diz. Do contrário, não a teria sobrepujado por causa daquela mulher...
- calou-se, a voz embargada.
- Não me tome por inimigo ou traidor, Esteban. Não fiz isso por causa de Lucena, se é o que está pensando. Ramon, sim. Prendi Ramon para vingá-la. Mas Giselle é
outra história. Você sabe que jamais gostei dela.
- Ela nunca lhe fez nada...
- Ela o enfeitiçou!
- Como Lucena o enfeitiçou também?
- É diferente.
- Não é não. Você sente por Lucena o que eu senti por Giselle um dia. Mas hoje... Hoje ela é como uma filha para mim. Tem idéia do quanto está me fazendo sofrer?
- Ela matou um homem! - tentou se justificar. - Matou o marido!
Apesar de surpreso, Esteban não respondeu. Olhos baixos, marejados de lágrimas, rodou nos calcanhares e saiu. Miguez ainda fez menção de ir atrás dele, mas não teve
coragem. Sabia que ele estava triste e decepcionado, mas tinha esperanças de que aquele sentimento passaria. Com o tempo, Esteban ainda lhe agradeceria o favor.
A passos vagarosos, Esteban foi caminhando para a capela.
Entrou cabisbaixo e foi se ajoelhar diante do altar, fitando o rosto suave de Jesus. Pela primeira vez em muitos anos, chorou. Era um pranto pungente e sentido,
carregado de angústia. Só podia pensar no sofrimento de Giselle e na solidão que ela devia estar sentindo naquela masmorra fria e soturna. Em silêncio, orou. Orou
com um fervor até por ele desconhecido.
Quando saiu da capela, já estava mais refeito. Apesar da tristeza, conseguiu raciocinar com um pouco mais de clareza. Sabia que não conseguiria salvar Giselle, mas
pediria a Miguez que lhe desse uma morte rápida. Pensou em falar com ele naquele dia mesmo, mas mudou de idéia. Precisava descansar arrumar os pensamentos em sua
cabeça e os sentimentos em seu coração. Com andar pesaroso, deixou o Tribunal e entrou na abadia, seguindo direto para seu quarto.
Juan estava sentado perto da janela, lendo um trecho da bíblia, e sorriu quando ele entrou. Até então, Esteban ainda não havia desconfiado de que fora Juan quem
contara a Miguez sobre Ramon, mas o rapaz percebeu que algo não ia bem.
- O que há monsenhor? - indagou solícito. - Sentindo-se mal outra vez?
Esteban fez um gesto com as mãos e foi-se deitar, fechando os olhos por um minuto. Quando tornou a abri-los, Juan estava a seu lado, fitando-o com visível preocupação.
- O que quer Juan?
- O senhor não está bem. Aconteceu alguma coisa?
Não adiantava esconder. Juan acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde.
- Há algo que preciso lhe contar, mas quero que você seja forte.
- O que foi monsenhor? É algo grave?
- É sim.
- O quê? O senhor está mal? Vai morrer?
- Não é nada disso, não é sobre mim. É sobre outra pessoa.
- Outra pessoa? Quem...? É Giselle? Ela está morta?
- Ainda não...
- O que quer dizer, monsenhor? O que foi que houve? Pelo amor de Deus, diga-me!
-

-
- Giselle está presa. Miguez mandou prendê-la. Ele levou a mão à boca, horrorizado.
- Presa? Mas por quê? O que ela fez?
- Miguez foi a sua casa prender Ramon e descobriu o seu pequeno reduto de magias. Foi o suficiente.
- Mas não pode ser. Não, monsenhor, deve haver algum engano.
- Lamento Juan, mas não há engano algum.
- Não, não... O senhor não está entendendo. Padre Miguez me prometeu... - calou-se alarmado.
- Prometeu o quê?
Juan já não escutava mais nada. Deu-lhe as costas e saiu correndo feito um louco, a visão turvada pelas lágrimas. Mais que depressa, saiu da abadia e alcançou o
Tribunal, indo direto para o gabinete de Miguez. Ele estava sentado à sua mesa, tendo às mãos os processos de Giselle e Ramon, e teve um sobressalto quando o rapaz
entrou.
- Como pôde fazer isso, padre Miguez? - esbravejou atônito. - O senhor me prometeu.
- Acalme-se, rapaz! - ordenou Miguez impaciente. - Não tem o direito de entrar aqui assim.
- Mas o senhor me prometeu - choramingou. - Prometeu-me que não ia prender Giselle...
- Prometi que não a prenderia por seu envolvimento com Ramon.
- Então...?
- Ela não foi presa por isso. Foi presa porque eu descobri o seu esconderijo. O esconderijo da bruxa, dos íncubos, dos súcubos!
- Como... Como assim?
- Sua amiguinha Giselle tinha hábitos bem interessantes, não sabia? - ele meneou a cabeça. - Não sabia que ela é uma bruxa imunda e sensual, que atraía os homens
para seu covil só para atirá-los na perdição?
- Não, padre Miguez, está enganado...
- Não estou não. Giselle tinha em sua casa objetos que bem poderiam condená-la sumariamente. No entanto, não vou prescindir de uma lenta purificação.
- Não faça isso, por favor. O senhor prometeu...
- Não prometi nada disso, rapaz! A promessa que lhe fiz, já cumpri. Não prendi Giselle por causa de Ramon, como lhe disse. O motivo de sua prisão foi outro.
- Mas padre...
- Chega Juan! Não tenho mais tempo para suas tolices. E agora, saia! Deixe-me trabalhar.
Juan saiu derrotado. Jamais poderia esperar por uma coisa daquelas. Em sua cabeça, apenas Ramon seria preso. Padre Miguez arranjara um jeito de enganá-lo e prender
Giselle também. Como fora estúpido acreditando nele! E ainda teria que contar a monsenhor Navarro o que fizera. Mas não. Não teria coragem. Monsenhor não precisava
saber. Mas o que estava dizendo? Padre Miguez se encarregaria de contar, mais cedo ou mais tarde. Será que iria suportar? Teria condições de enfrentar a dor de duas
perdas sucessivas? Monsenhor Navarro, na certa, não tornaria mais a falar com ele. E Giselle...
Pensando em Giselle, Juan desatou a correr. Seus pensamentos lhe diziam que ele seria o único responsável pelo seu martírio. Como a amava! Como lhe doeria ver o
seu sofrimento. Não podia! Não podia presenciar o seu suplício. Precisava dar um jeito de não sofrer. Se não visse, não sofreria. Estava certo de que não. Era só
fechar os olhos que o sofrimento deixaria de existir. Ao menos para ele. E só o que tinha a fazer era correr... Correr... Correr...








CAPÍTULO 31





Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Miguez entrou nas masmorras, em companhia de Lucena, que o seguia com um arrepio. Aquele lugar lhe lembrava a morte
do pai lhe causava calafrios até na alma. Contudo, precisava vencer a aversão que sentia e seguir adiante. Era lá que estava a mulher que mais odiava no mundo. Aquela
que lhe tirara a vida do pai seduzira o noivo e ajudara a roubar todo o seu patrimônio. Finalmente iria conhecê-la.
Giselle estava amarrada a um tronco, rosto lívido, semi-acordada. Em silêncio, Miguez se postou diante dela e fez sinal para que Lucena também se aproximasse. Durante
alguns minutos, permaneceram em silêncio, apenas fitando o seu rosto sofrido.
Para Miguez, aquele era o momento da mais pura glória. Giselle não lhe fizera nada, mas sentia por ela um ódio incomensurável, que jamais poderia explicar.
Pura Lucena, o ódio transformou-se em satisfação. Fitando o semblante pálido e sofrido de Giselle, sentiu um arrepio de prazer.
Então era aquela a mulher responsável por todo o seu infortúnio!
Tinha que reconhecer que era bonita, apesar de não ser mais nenhuma mocinha. Mas achou que o seu rosto possuía algo de maligno, como se guardasse impresso o resultado
de seus inúmeros atos de magia.
No instante mesmo em que Lucena esticou o pé para cutucá-la, Giselle abriu os olhos. Sentiu uma presença inimiga junto de si e despertou, e a primeira coisa que
viu foi o rosto de Lucena a fitá-la com ar de satisfação e glória. Fixou nela seu olhar por uns instantes, tentando reconhecê-la e, mesmo sem nunca antes tê-la visto,
sabia de quem se tratava. A figura odienta de Miguez, parado a seu lado com ar de triunfo, dava-lhe a certeza de que se tratava de Lucena Lopes de Queiroz.
- O que quer? - indagou Giselle entre dentes.
Há muito Lucena vinha guardando aquele ódio e, ao ouvir as primeiras palavras de sua maior inimiga, não conseguiu conter o ímpeto e desferiu-lhe uma bofetada no
rosto, fazendo com que os olhos de Giselle chispassem de ódio também.
- Cadela! - vociferou Lucena. - Vou fazer com que pague por cada segundo de sofrimento que me causou!
Mal segurando a fúria que as correntes frias continham, Giselle encheu a boca e cuspiu no rosto de Lucena, que lhe desferiu outra bofetada, e outra, e mais outra.
Não podendo se defender, Giselle recebeu os golpes com ódio e humilhação, lamentando o fato de estar acorrentada, impedida de estrangular aquela desgraçada. A seu
lado, Miguez assistia a tudo com aparente passividade, nos lábios um sorriso frio de satisfação e orgulho. Foi só quando o rosto de Giselle começou a inchar que
ele segurou o punho de Lucena e interveio com voz glacial:
- Já chega.
Na mesma hora, Lucena refreou o golpe. Cerrou os punhos e fitou as faces inchadas de Giselle, que mal conseguia divisá-la por detrás das lágrimas que procurava segurar.
- Demorou muito para vê-la presa e subjugada, mas não houve um minuto sequer em que não sonhasse com esse dia - rosnou Lucena, faces transfiguradas pelo ódio. -
E agora é a minha vez de demonstrar quem é a mais forte!
- Solte-me e lhe mostrarei quem é mais forte - gemeu Giselle, a voz fremente de cólera.
- Ordinária! - esbravejou Lucena, dando-lhe outra bofetada.
O rosto de Giselle rodou para o outro lado, atingido novamente pela mão impiedosa de Lucena. Ao voltar-se para ela, porém, havia um estranho brilho no olhar de Giselle,
e foi com ironia que falou:
- Por mais que você faça, jamais conseguirá retomar o que lhe tirei! Seu pai foi um porco imundo, que eu mesma poderia ter sangrado enquanto resfolegava e suava
em minha cama. E Ramon... - regozijou-se com o efeito que aquele nome causava na outra - Ramon é um homem de verdade e jamais se contentaria com o esboço de mulher
que você é.
- Demônio! - rugiu Lucena, novamente esbofeteando-lhe as faces. - Filha de Satanás! Bruxa maldita!
Foi preciso Miguez intervir para que Lucena não a matasse. Ela estava descontrolada e não parava de bater em Giselle, totalmente imobilizada no tronco pelas correntes,
que lhe prendiam os braços para trás e atavam suas pernas desde a altura dos joelhos.
- Chega Lucena! - bramiu Miguez. - Ela não pode morrer.
Não agora, não dessa maneira. O que tenho reservado para ela é muito pior.
Giselle engoliu em seco, enquanto Lucena se acalmava, nos lábios um sorriso de diabólica satisfação.
- Você vai me pagar, Giselle. Vou fazer de você um trapo e quero estar presente a todas as suas sessões de tortura.
- Lucena... - ia contestando Miguez.
- Não! Você me deve isso, Miguez. Quero ter esse privilégio. O privilégio de me sentar diante dessa cadela feiticeira e assistir triunfante ao seu declínio. Vou
fazer de você uma morta viva, e quando você não puder mais suportar a dor, serei eu a lhe dar o golpe fatal. Bem lentamente... Para que você jamais se esqueça, nem
aqui, nem no inferno, de quem é Lucena Lopes de Queiroz!
Aquelas palavras assustaram Giselle, e toda a fúria de seu orgulho não foi suficiente para sustentá-la diante do breve futuro de martírio e dor que a aguardava.
Em silêncio, abaixou a cabeça e pôs-se a chorar de mansinho, segurando na ponta da língua o desejo que brotara de lhe pedir perdão. Intuitivamente, Lucena captou-lhe
os pensamentos, porque apontou o dedo para ela e continuou com furor:
- Nem que você caísse de joelhos e me pedisse perdão, eu a perdoaria. Nem em mil anos, Giselle, nem por toda a eternidade, serei capaz de perdoá-la!
Giselle pressentiu a iminência da morte, mas recobrou um pouco do ânimo e perguntou com arrogância e soberba:
- Não sabe com quem está se metendo, Lucena. Esteban jamais irá permitir...
- Esteban não irá ajudá-la - interrompeu Miguez com desdém. - Ou será que não percebeu que ele nem veio vê-la?
- Ele não sabe que estou presa.
- Engana-se, bruxa. Ele sabe. Até mesmo a viu chegar.
- Viu? - Giselle mal conseguia ocultar a indignação. - E onde está? Por que ainda não veio me soltar?
- Ele não virá. Esteban foi um tolo que, durante muitos anos, se deixou influenciar pelas suas bruxarias. Você o enfeitiçou. Mas eu, finalmente, consegui livrá-lo
de sua influência maligna. Esqueça- o, criatura das trevas! Esteban agora está livre de você. Livre!
Em seu íntimo, Giselle sabia que Miguez falava a verdade. Esteban cansara de alertá-la, pedindo-lhe que não cometesse mais nenhuma loucura. Mas ela fora imprudente
e irresponsável; confiava tanto na sorte que nunca se imaginou presa. Não ela. Mais uma vez, abaixou os olhos e chorou. O que mais lhe restava fazer?
- Isso, demônio, chore - ironizou Lucena. - Onde está a sua força, que não consegue livrá-la agora? Onde estão os espíritos infernais que tanto a auxiliaram a fazer
o mal? Por que não os
invoca e pede que a tirem daqui?
Giselle não respondeu. Permanecia de cabeça baixa, chorando, e não tinha mais vontade de discutir. Tudo o que fizesse somente serviria para piorar ainda mais a sua
situação. Ela sabia que as sessões de tortura estavam na iminência de começar. Provavelmente, ainda não haviam começado para que ela estivesse lúcida o suficiente
para receber todo o ódio de Lucena.
Foi quando uma vozinha fraca se fez ouvir, vinda do outro lado da masmorra feminina.
- O que é isso? - indagou Lucena, assustada.
- Não se deixe impressionar, minha querida - tranqüilizou Miguez, abraçando-a com ternura. - É apenas a lamúria de mais uma herege...
Lucena fez-lhe sinal com a mão para que se calasse. A seu lado, invisível aos olhares dos encarnados, o espírito de dom Fernão a inspirava:
- Vá até lá, minha filha. Vá ver quem é. Você não vai se arrepender.
Dom Fernão estivera presente durante todo o encontro. Ficara feliz quando Giselle fora presa e exultara quando Lucena a esbofeteara, chegando mesmo a bater-lhe também.
Outros espíritos, todas as vítimas da perfídia de Giselle, também haviam acorrido, e a masmorra, naquele momento, estava repleta de seres invisíveis, todos realizados
e sequiosos de vingança.
Acedendo às sugestões do pai, Lucena foi se encaminhando para onde Manuela estava presa ainda à polé. Sofrerá poucas torturas, porque Esteban não via nada contra
ela além do ciúme de Giselle e dera ordens aos carrascos para que não a maltratassem muito. Ela fora estuprada várias vezes e pendurada à polé, embora sem os pesos
nos pés. Seu corpo estava todo dolorido, parecia-lhe que os braços, a qualquer momento, se separariam do corpo, mas, no geral, Manuela estava bem. Junto a ela, o
espírito de uma mulher também executada graças à intervenção de Giselle, a mando de dom Fernão, fazia com que ela gemesse alto, atraindo a atenção de Lucena.
- Quem é essa mulher? - a indagou, presa de estranha emoção ao vê-la.
Manuela, que gemia no sono agitado, abriu os olhos lentamente, assustando-se com a figura esbelta de Lucena, parada diante dela e fitando-a com ar de compaixão.
- Senhora... - murmurou ela - tenha piedade. Eu nada fiz para merecer estar aqui...
No mesmo instante, o coração de Lucena se apertou. Sentiu imensa piedade daquela mulher, tão jovem e tão bonita, embora extremamente lívida e magra, que parecia
nada entender de tudo aquilo.
- Quem é ela? - repetiu Lucena.
Virou-se para Miguez, que permanecia parado um pouco mais atrás, assistindo a tudo com ar de espanto.
Essa é Manuela Peña... Foi empregada na taverna de Giselle...
- Ora, não me diga! O que foi que ela fez?
- Pelo visto, nada. Parece que Giselle não gosta da moça e exigiu que Esteban a prendesse.
O assombro de Lucena foi genuíno. Por uma estranha coincidência, ela fora atraída justamente para o local onde se encontrava outra inimiga de Giselle. Aquilo a excitou,
e ela revidou prontamente:
- Pois eu a quero solta.
- Não posso fazer isso. Ela é presa de Esteban.
- Que se dane! Dê um jeito de libertá-la.
Miguez puxou-a pelo braço e falou baixinho em seu ouvido:
- Quer saber por que ela foi presa? - Lucena assentiu. - Por
que Giselle a flagrou nos braços de seu amante, Ramon...
Lucena ergueu as sobrancelhas e retrucou exultante:
- Mais um motivo. Ela fez com Giselle o que Giselle fez comigo. Quero que você liberte essa moça, Miguez.
- Mas Lucena, não posso. Por favor, querida, entenda. Não posso ir contra Esteban. Foi ele quem a prendeu, e ela ainda não foi julgada.
- Pois apresse o seu julgamento. E dê um jeito para que ela seja absolvida. Convença os outros inquisidores de que sua prisão foi um erro e ela não fez nada de errado.
- Não posso fazer isso.
- Pode sim! Você prometeu. Prometeu-me vingança contra Giselle. E essa moça é parte da minha vingança.
Miguez suspirou profundamente. Deu uma última olhada para Manuela, que os fitava com olhar súplice, e balançou a cabeça, finalizando desanimado:
- Está certo. Farei o possível e o impossível para libertar Manuela.
- Obrigada. Sabia que você não me decepcionaria - e, voltando-se para Manuela, acrescentou: - Não se preocupe Manuela. Eu a tirarei daí.
Manuela desatou a chorar. Lucena deu-lhe um sorriso de encorajamento e rodou nos calcanhares, voltando para onde Giselle estava.
- Por favor, senhora - implorou Manuela -, não me deixe aqui. Não me abandone.
- Confie.
Foi só o que Lucena tornou a lhe dizer. Voltou para perto de Giselle, que assistira a tudo com um misto de ódio e arrependimento. Aquela maldita ainda iria soltar
Manuela só para espezinhá-la ainda mais.
- Quanto a você - falou Lucena, apontando novamente o dedo para Giselle -, não perde por esperar. Vou destruí-la, Giselle, mas não sem antes tomar tudo o que é seu.
Rodou nos calcanhares e se foi, seguida por Miguez, que se regozijava com tudo aquilo. Atrás deles, o séquito de dom Fernão, certo de que sua vingança estava apenas
começando. Mais um pouco e Giselle se juntaria a eles, tornando-se vítima de todos aqueles de quem já fora algoz.





CAPÍTULO 32

Por insistência de Miguez, o julgamento de Manuela foi marcado para dali a duas semanas. Esteban não tinha mais forças para contrariá-lo e acabou concordando com
tudo o que ele exigia.
- Não se lamente por nada, meu amigo - consolou Miguez. - Em breve irá me agradecer.
- Gostaria de pensar como você... Sabe o quanto está me fazendo sofrer.
- É pena que você ainda não consiga entender. Mas o que me conforta é saber que estou agindo para o seu próprio bem. Giselle é uma bruxa que, além de tudo, matou
o marido, um homem direito e temente a Deus, deixando órfã a pobre filhinha...
Esteban inspirou com tristeza e olhou ao redor, tentando ocultar as lágrimas que, por pouco, não caíam.
- Você viu Juan? - desconversou. - Há dois dias anda sumido.
-Não, não vi. Mas ele não pode ter ido longe. Deve estar por aí.
- Ando preocupado com ele. Juan está apaixonado por Giselle. Receio que faça alguma bobagem.
Miguez não disse nada. Na certa, Esteban ainda não sabia que fora Juan quem a entregara, e aquele não era o melhor momento para revelar-lhe a verdade. O rapaz devia
estar metido em algum lugar, provavelmente lá pelo sótão, escondido, com medo de encarar o monsenhor, e o melhor seria esperar até que ele aparecesse.
- Fique sossegado, Esteban. Logo, logo ele aparece.
Depois que Miguez se foi, Esteban caiu na poltrona, entregue a profundo abatimento. Sua cabeça começou a latejar novamente, e ele foi até o armário buscar um xarope.
Bebeu a infusão amarga e recostou-se na poltrona, esperando que a dor de cabeça passasse. Pouco depois, ouviu batida na porta, que se abriu logo em seguida.
- Meu tio - era a voz de Diego. - Posso entrar?
Esteban empertigou-se e olhou para ele, fazendo sinal com a cabeça para que entrasse. O rapaz entrou. Junto com ele, Rúbia vinha de olhar cabisbaixo. Ao vê-la, Esteban
se levantou e foi ao seu encontro, estendendo a mão para ela.
- Como está, criança? Lamento pelo que aconteceu a seu pai.
- Foi uma coisa horrível.
- Não posso deixar de me sentir responsável. Afinal, fui eu quem sugeriu o casamento...
- Não devia se sentir assim. Belinda me disse que meu pai atacou Giselle primeiro. Ele ficou louco porque ela lhe revelou que tinha um amante, que era o pai de seu
filho.
Esteban ocultou o rosto entre as mãos e desabafou num gemido:
- Giselle perdeu a cabeça.
- Nós devíamos ter imaginado que esse casamento nunca poderia dar certo. Giselle sempre amou outro homem. E agora... - Rúbia desatou a chorar, e Diego a abraçou
com força.
- Chi! Não chore Rúbia. Vai passar.
Havia tanta paixão naquele abraço que Esteban desconfiou, mas não disse nada. Será que aqueles dois eram amantes? Eles sabiam que eram irmãos, mas, ainda assim,
teriam tido coragem de se amar? Aquela impressão, contudo, não lhe tomou mais do que um minuto de sua preocupação. Esteban sentia-se cansado demais para repreendê-los
ou alertá-los. Naquele momento, não tinha mais ânimo para enfrentar nenhuma situação difícil. E depois, se havia mesmo algo entre eles, era preferível não saber.
A última coisa de que precisava naquele momento era de uma acusação de incesto contra seu sobrinho.
- Como está ela? - tornou Rúbia, tirando-o de seu devaneio.
- Hein? - fez Esteban assustado. - Quem? Giselle?
- É claro, titio - concordou Diego. - Onde é que está com a cabeça?
- Perdoem-me. É que a prisão de Giselle não está me fazendo bem.
- Não pode fazer nada para ajudá-la? - pediu Rúbia. - O senhor é um homem influente dentro da Igreja. Não pode interceder por ela?
- Quisera eu, minha filha. Contudo, as provas que Miguez colheu contra ela são irrefutáveis.
- Ora, titio, o senhor pode dizer que ela matou dom Solano em legítima defesa. E ninguém pode provar que ela e Ramon eram amantes.
- Não me refiro a isso, meu filho. Se fossem essas as acusações, não teria problema para soltá-la. Mas o fato é que Miguez descobriu objetos altamente comprometedores
em sua casa, aqui em Sevilha.
- Que objetos?
- Talvez vocês não saibam, mas Giselle era adepta da magia...
- O quê? - cortou Rúbia, surpresa. - Mas ela nunca disse nada.
- Você há de convir comigo que isso não é coisa que se saia falando por aí, não é mesmo?
- Como foi que ele descobriu?
- Não sei. Mas Miguez tem seus métodos. Há muito estava desconfiado de Giselle.
- Meu Deus, monsenhor! - queixou-se Rúbia. - Isso é horrível! Giselle não merecia isso.
- Será que não? Ninguém mais do que eu tentou alertá-la e protegê-la. Mas Giselle não quis me ouvir. Continuou com suas práticas nefastas e com seu romance escuso
com Ramon. Eu disse a ela que esperasse.
- Não se lamente o senhor também, titio. Giselle é mesmo uma doidivanas.
- Gostaria de vê-la, monsenhor - cortou Rúbia. - Falar com ela.
- Isso é impossível.
- Por favor, eu lhe imploro. Ao menos uma vez, deixe-me falar com ela. Sei que agiu mal, que cometeu muitas loucuras. Mas ela é minha amiga e eu a amo. Preciso dizer-lhe
isso. Quero que ela saiba que não lhe guardo rancor ou ressentimento.
- O calabouço não é um lugar agradável para ninguém, minha filha. Muito menos para uma moça fina e sensível feito você.
- Não me importo. Eu preciso vê-la. Por favor, monsenhor, ao menos uma vez, deixe-me falar com ela.
Ele inspirou com tristeza e soltou os braços ao longo do corpo, acrescentando com pesar:
- Está bem. Verei o que posso fazer.
Na noite seguinte, Rúbia e Diego foram introduzidos nas masmorras, mas Esteban não ousou acompanhá-los. Ainda não se atrevera a visitá-la desde que chegara. Não
sabia o que lhe dizer, tinha medo do que teria que enfrentar.
Giselle continuava amarrada ao tronco. Já fora submetida a algumas sessões de tortura e não se encontrava com muito ânimo para falar. A pedido de Rúbia, Diego parou
na porta e ela entrou sozinha. Queria conversar a sós com Giselle. Vê-la naquela situação causou imenso desgosto a Rúbia. A moça apertou os olhos com as mãos e desatou
a chorar, despertando Giselle com seus soluços. Pouco a pouco, ela foi reconhecendo à amiga e começou a chorar também.
- Rúbia... - gemeu - o que... O que faz aqui?
- Oh! Giselle! - lamentou. - O que foi que fizeram a você?
- Foi... Foi aquele padre maldito... E sua concubina cruel... - parou por uns instantes, sacudida pelos soluços, até que continuou: - Perdoe-me, Rúbia... Eu não
queria matar... O seu pai...
- Não fale mais nisso, Giselle, já passou.
- Você não está com raiva?
- Não. Fiquei triste, porque amava meu pai, mas já devia ter imaginado que isso poderia acontecer.
- Belinda... Entregou-me...
- Não fique com raiva dela, Giselle. Belinda estava assustada. Você queria incriminá-la.
- Ela é uma escrava.
- Belinda é gente. Tão gente como você. Mas não foi para falar de Belinda que vim aqui. Foi para falar de você.
- Rúbia, eu...
- Psiu! Não diga nada, apenas ouça. Meu tempo é curto. Pedi a monsenhor Navarro que me permitisse vê-la. Queria dizer-lhe o quanto a amo e o quanto a sua amizade
foi importante para mim.
Giselle soltou um pranto sentido e revidou:
- Não mereço a sua amizade.
- Não diga isso. Gosto de você como se fosse minha irmã. Queria dizer-lhe isso. Não lhe guardo raiva, apenas uma grande tristeza. Tristeza por estar de pés e mãos
atados neste momento e não poder fazer nada para ajudar. Lembre-se disso, Giselle. Eu amo você. Amo você como a uma irmã...
Não conseguiu mais continuar. Seu corpo foi violentamente sacudido pelos soluços, e Rúbia, não suportando mais ver Giselle naquela situação, tapou a boca com as
mãos e saiu correndo, passando por Diego feito uma bala. O rapaz fez menção de ir atrás dela, mas ouviu o fraco chamado de Giselle e, embora hesitante, aproximou-se
de onde ela estava.
- O que você quer?
- Ajude-me, Diego. A mim e a Ramon.
- Você sabe que não posso.
Virou-lhe as costas e começou a andar para a saída, mas a sua voz o interrompeu novamente.
- Posso pagar!
A ambição falou mais alto, e ele se voltou de mansinho, aproximando-se dela novamente.
- Com que dinheiro?
- Sou uma mulher rica.
- Já lhe tiraram tudo - rebateu ele, olhar entre cético e ambicioso.

-


- Ninguém sabe onde escondi o meu tesouro. Ele pode ser todo seu, se você nos ajudar.
- Não sei... É arriscado.
- Mas vai valer à pena. Posso fazer de você um homem rico. Não vai precisar do dinheiro de ninguém, nem do de Rúbia. Tenho ouro, Diego, e pedras preciosas.
Diego coçou o queixo e fitou-a com ar de cobiça. A palavra tesouro era para ele um argumento por demais poderoso. O carrasco, porém, apareceu na porta do calabouço,
e Diego se assustou. Não queria despertar a atenção de ninguém. Deu uma última olhada para Giselle e rodou nos calcanhares, saindo apressado pela porta, ainda a
tempo de ouvir suas últimas palavras:
- Pense nisso.
Depois que ele se foi, Giselle ficou sozinha a chorar. Nunca se sentira tão só em toda a sua vida. Todos a haviam abandonado. Sabia que Ramon estava preso também
e já perdera as esperanças de reencontrá-lo com vida. Esteban a havia abandonado. Desde que chegara, ele ainda não fora vê-la. Até Juan parecia haver se esquecido
dela. Só Rúbia se importava. Depois de tudo o que acontecera, Rúbia ainda gostava dela e a perdoara.
De olhos baixos, Giselle chorou sentida, pensando na bondade do coração de Rúbia que, apesar de tudo, ainda a amava. Ficou imaginando o que poderia levar uma pessoa
a um gesto tão desprendido e sincero de perdão. Giselle matara o pai de Rúbia, assim como levara à morte o pai de Lucena. Mas elas eram tão diferentes! Por quê?
Por que tanta diferença? Comparando as duas, Giselle começou a perceber que a diferença entre ambas estava na nobreza de coração. Rúbia era uma mulher nobre e digna,
dotada de uma inigualável compreensão das fraquezas humanas, ao passo que Lucena não conseguia enxergar as imperfeições alheias, julgando e condenando quem quer
que lhe faça algum mal.
Mas, o que ela esperava? Se estivesse no lugar de Lucena, como é que teria procedido? Perdoaria como Rúbia, ou alimentaria o desejo de vingança, assim como Lucena?
Pensando nisso, achou que não possuía ainda a nobreza de sentimentos de Rúbia e teria ido ao inferno só para satisfazer o seu desejo de vingança.
Se era assim, como poderia condenar em Lucena uma atitude que ela mesma teria tomado? Não, não podia. Se alguém ali deveria ser condenado, era ela mesma. Por tudo
o que fizera. Pelos muitos crimes que cometera. Era por causa deles que se via naquela situação.
Lembrando-se de suas muitas vítimas, Giselle começou a mostrar sinais de arrependimento. Se não tivesse sido tão vil, não teria que enfrentar o ódio de Lucena e
de Miguez, e não seria forçada a experimentar os horrores da Inquisição. Mas agora, não tinha mais jeito. Ela buscara aquela sorte e não podia reclamar. Mas estava
sofrendo. Quantas pessoas não teriam sofrido do mesmo jeito que ela, torturadas e mortas graças a sua maldade?
Giselle não queria mais ser má. O sofrimento levou-a a colocar-se no lugar de suas vítimas e compreender que jamais deveria ter feito o que fez. E agora, não sabia
como desfazer tanto mal.
No dia seguinte, logo pela manhã, Miguez entrou e foi direto para onde ela estava. Vinha sozinho dessa vez, e Giselle sentiu um arrepio de terror quando ele se aproximou.
Por que será que a odiava tanto? Quando parou defronte a ela, Giselle começou a tremer e a chorar, já antevendo as torturas por que iria passar.
- Agora chora, não é, cadela? - rosnou ele com ódio.
Ela abaixou os olhos e não disse nada. Ele puxou o seu cabelo para trás, fazendo-a levantar a cabeça e encará-lo. Seus olhos chispavam de tanto ódio, e Giselle pensou
que Miguez fosse espancá-la, mas ele nada fez. Limitou-se a olhá-la dentro dos olhos, até que o carrasco se aproximou, trazendo nas mãos um chicote. Ela se encolheu
toda, com medo da dor, e o homem soltou as correntes às quais se encontrava atada. Ela chorava sem parar, pensando que seria colocada em um dos muitos instrumentos
de tortura que havia ali, mas o carrasco não fez nada disso. Segurando-a com força, foi empurrando-a para fora, e os três tomaram um corredor sujo e mal iluminado.
Em pouco tempo, alcançaram os cubículos.
Parada defronte a uma das portas estava Lucena, com aquele sorriso triunfante e diabólico no rosto. Logo que chegaram, Miguez se virou para o verdugo dali e deu-lhe
ordens para que abrisse a porta. O teto da cela era extremamente baixo, não cabia um homem em pé, e, o carrasco teve que se abaixar para entrar. Pouco depois, saiu
de lá de dentro com um homem todo sujo e barbado, e Giselle descobriu com horror que se tratava de Ramon. Quis correr para ele, mas o golpe do carrasco a impediu.
Ramon mal se sustinha em pé. Suas pernas pareciam mesmo atrofiadas, e ele não conseguia colocar a coluna ereta. O verdugo o soltou, ele cambaleou e caiu de cara
no chão, provocando a ira de Giselle. Ela deu um empurrão no homem que a segurava, distraído com a queda de Ramon, e soltou-se, correndo a passos trôpegos para ele.
- Ramon! - chamou, ajoelhando-se a seu lado.
Por ordem de Miguez, ninguém interveio. Ramon, por sua vez, reconhecendo a voz da amada, agarrou-se aos seus joelhos e começou a chorar.
- Giselle! Ah! Giselle, quase enlouqueci pensando que você tivesse morrido...
Ele não sabia que Lucena estava ali. Vendo o carinho com que se reencontravam e ouvindo as palavras de Ramon, a fúria de Lucena redobrou, e ela apanhou o chicote
das mãos de um dos carrascos, estalando-o nas costas de Giselle. A moça soltou um urro de dor e tombou para frente, rosto colado ao de Ramon.
- Eu o amo, Ramon - conseguiu dizer, em meio à dor que as chibatadas lhe causavam.
Desmaiou. A dor foi intensa demais para que ela suportasse. Ramon queria defendê-la, mas estava fraco demais para reagir. Passara quase uma semana naquele cubículo,
sem poder esticar o corpo, e seus músculos estavam todos retesados e doídos.
- E agora? - indagou um dos algozes.
- Tragam água - ordenou Miguez.
Na mesma hora, sua ordem foi atendida e, pouco depois, Giselle despertava com a água fria em seu rosto.
- Levante-se, bruxa! - falou o carrasco.
Giselle foi arrancada dos braços de Ramon, que a agarrava com força. Quanto mais ele demonstrava seu amor por ela, mais Lucena se enfurecia.
- Tragam-nos - falou Miguez incisivo.
Um segundo homem agarrou Ramon e fez com que ele se levantasse, enquanto outro ia empurrando Giselle para fora novamente. Sem nada poderem fazer, os dois foram levados
ainda mais para baixo, até que entraram numa espécie de câmara fria e lúgubre, iluminada apenas por umas poucas tochas presas nas paredes. Ao centro, um enorme tronco
estava encravado, e o carrasco levou Giselle para lá, amarrando-a de frente para eles. Em seguida, um dos homens rasgou-lhe o vestido, expondo-lhe os seios, e ela
começou a chorar novamente.
Ramon, aos poucos, foi recobrando os movimentos. Ainda não conseguia manter-se muito bem, mas ao menos as pernas já lhe obedeciam, e ele esticara o corpo até ficar
praticamente ereto. Não entendia o que aquelas pessoas estavam pretendendo, mas imaginava que não era nada bom. Viu quando o carrasco amarrou Giselle e rasgou a
sua roupa, e teve ímpetos de matá-lo. Mas não houve muito tempo para isso. O outro homem pôs-se a caminhar com ele de um lado para outro na câmara fria, até que
ele pudesse recuperar os movimentos do corpo.
Apesar de dolorido, Ramon conseguiu assenhorear-se novamente das articulações, e elas já lhe obedeciam quase normalmente. Foi colocado diante de Giselle e, em suas
mãos, puseram o chicote. A princípio, Ramon não entendeu bem o que estava acontecendo, mas as lágrimas que jorravam dos olhos de Giselle o ajudaram a compreender
tudo. Queriam que ele flagelasse o corpo de sua amada. Mais atrás, outro homem se postou, encostando a ponta da espada em seu pescoço.
- Se tentar alguma coisa, morre - falou em tom ameaçador.
- Muito bem - declarou Miguez -, agora comece.
Mas Ramon não se mexia. Não tinha coragem de maltratar sua Giselle. Olhou direto nos olhos de Lucena, que cambaleou e agarrou-se no braço de Miguez.
- Por que está fazendo isso, Lucena? - indagou, sem tirar seus olhos dos dela. - Será que não percebe que Giselle não foi responsável por eu ter deixado você? Deixei-a
porque não a amava, Lucena. Ainda que não amasse Giselle, jamais poderia me casar com você.
- Você me desonrou - retrucou Lucena, com voz rouca.
- Foi um erro, agora compreendo. Mas naquela época, eu estava iludido. Só depois descobri que o que sentia por você não era amor, mas apenas desejo.

-
- Você tinha um dever de honra para comigo!
- Eu sei. Não nego isso. Mas a honra não foi mais forte do que o amor que então já sentia por Giselle. Nunca amei você, Lucena. Se a amasse de verdade, eu jamais
teria me apaixonado por ela. O erro foi meu, e sou eu quem deve pagar. Giselle nada tem a ver com isso.
- Ela matou meu pai!
Não havendo como retrucar aquele argumento, Ramon soltou o chicote no chão e finalizou vencido:
- Sinto muito.
Completamente aturdida, Lucena largou o braço de Miguez e atirou-se contra ele, cravando-lhe as unhas no rosto.
- Desgraçado!
Por um instinto mesmo de defesa, Ramon desvencilhou-se dela e acertou-lhe um soco no queixo, quase lhe destroncando o maxilar. Foi tudo tão rápido e inesperado,
que nem Miguez, nem os carrascos conseguirem intervir a tempo. Ramon não queria atingi-la, mas o inevitável acontecera. Lucena cambaleou, a boca sangrando, e ele
correu para ampará-la. Pensando que Ramon iria atacá-la novamente, o carrasco, de forma impensada e mecânica, cravou-lhe a espada no tórax, e a lâmina atravessou-lhe
o coração, fazendo com que ele tombasse morto antes de atingir o chão, as pupilas vidradas cravadas nos olhos de Lucena.
- Não! - gritou Giselle em desespero, tentando se soltar das amarras. - Ramon! Não! Não! Não...!
A voz foi sumindo na garganta. A um golpe do carrasco, Giselle desmaiou outra vez, para só acordar horas depois, novamente na masmorra, amarrada a seu costumeiro
tronco, trazendo na mente apenas a lembrança do corpo de Ramon caindo inerte no chão.



CAPÍTULO 33


Fazia quase uma semana que Juan havia desaparecido, e Esteban estava realmente preocupado. Colocara todo mundo na abadia à sua procura, mas, até aquele momento,
nada. Ninguém tinha notícias dele. Até no Tribunal foram procurá-lo, mas ele não fora encontrado em lugar nenhum. Esteban já estava ficando seriamente alarmado.
Naquela tarde, tentava se concentrar na leitura de um processo quando um dos noviços chegou apressado, berrando o seu nome pelos corredores:
- Monsenhor Navarro! Monsenhor Navarro!
- O que é que está acontecendo? - resmungou o cardeal. Esteban abriu a porta de seu gabinete, e o rapaz entrou suado e esbaforido, falando aos tropeções:
- Monsenhor Navarro... Venha, depressa!
Não precisava perguntar o que havia acontecido, porque já sabia do que se tratava. Juan fora encontrado. A passos largos, Esteban saiu atrás do noviço, que deixou
o Tribunal e se dirigiu para a abadia, passando direto pelo edifício principal e se dirigindo para a velha capela em ruínas. A porta estava aberta, e vários padres
se encontravam do lado de fora, fazendo uma careta de nojo. Assim que Esteban entrou, sentiu o odor pútrido de carne em decomposição, e apanhou um lenço, levando-o
às narinas. O noviço entrou no campanário e apontou para cima. Esteban nem precisava olhar para saber o que encontraria ali. Pendurada no badalo do sino, uma corda
balançava... Presa a ela, o corpo sem vida de Juan.
- Meu Deus! - exclamou Esteban, persignando-se.
Imediatamente, deu ordens para que tirassem o corpo do rapaz dali. Ninguém se atrevia a tocá-lo. Todos estavam com medo de subir na torre. Mas a ordem de Esteban
foi imperativa, e os padres mais novos tiveram que obedecer. Miguez também apareceu. Ao ser informado de que Juan fora encontrado pendurado na torre do sino, partiu
imediatamente ao encontro de Esteban.
- Meu amigo - lamentou com sincero pesar -, que desgraça.
- Juan não pôde suportar a prisão de Giselle. Ele a amava.
- Amava-a tanto que a denunciou.
- O quê? - tornou Esteban perplexo. - O que disse?
- Você ouviu bem, Esteban. Lamento dizer-lhe isso nesse momento de dor. Mas foi Juan quem me contou sobre o envolvimento de Giselle com Ramon de Toledo e disse-me
onde encontrá-lo. Creio que o que não conseguiu suportar foi o peso do remorso.
Esteban escondeu o rosto entre as mãos e chorou sentido. Agora compreendia tudo. Realmente, só a prisão de Giselle não era motivo suficiente para que Juan se matasse.
Tinha que haver algo mais.
- Miguez, você vai me fazer um favor - pediu Esteban, ainda em lágrimas.
- O que quiser meu amigo.
- Não diga a ninguém que ele se matou. Quero dar-lhe um enterro digno.
- Mas Esteban, você sabe que Juan cometeu um pecado mortal. Não pode ser sepultado em campo santo.
- Por Deus, Miguez, faça isso por mim.
- Você não poderá enganar ninguém. Outros também viram.
- Ninguém ousará me contestar, além de você. Por favor, Miguez, ao menos isso você me deve.
Ele estava certo. Miguez já o decepcionara demais. E aquela era uma ótima oportunidade para reatar sua amizade com Esteban. Demonstrando solidariedade e compreensão
pelo seu sofrimento, Esteban acabaria por perdoá-lo e esqueceria aquela pequena desavença.
- Tem razão, Esteban. É o mínimo que posso fazer por você.
Nesse momento, dois rapazes vinham descendo com o corpo pútrido de Juan, e Esteban, mais que depressa, começou a se lamentar:
- Pobre Juan. Eu bem lhe avisei que não se pendurasse em cordas para limpar o sino.
Os padres se entreolharam atônitos. Estava claro que o noviço havia se suicidado, e alguém ainda tentou contestar:
- Mas monsenhor, ele se matou...
- Não diga isso! - cortou Esteban irado. - Juan jamais faria uma coisa dessas. Ele caiu, entenderam? Foi limpar o sino e a corda se enrolou em seu pescoço. Foi um
acidente.
- Mas monsenhor...
- Não ouviram o que monsenhor Navarro disse? - interrompeu Miguez com ar de zanga. - Juan foi limpar o sino e caiu. Foi um infeliz incidente. E não ousem sugerir
ou insinuar outra coisa. Ouviram bem? Ou terão que se entender comigo depois.
- Sim, padre Miguez - responderam os outros, em uníssono.
- E agora, levem-no daqui e preparem-no para as exéquias.
- Sim, senhor.
Depois que os padres se foram, carregando o corpo de Juan, Esteban se abraçou a Miguez e desatou a chorar. O outro permaneceu parado e envolveu Esteban com seus
braços, deixando que ele desse livre curso às lágrimas. Depois de muito chorar, Miguez enxugou-lhe os olhos e deu-lhe um beijo na testa, o que causou imensa emoção
em Esteban.
- Miguez... Não sei como lhe agradecer. A dor que sinto nesse momento me impediria de convencê-los.
- Não precisa me agradecer meu amigo. Fiz isso em nome de nossa velha amizade. Gostaria que você nunca se esquecesse da nossa amizade. Tudo o que fiz e faço é pensando
nela.
- Eu sei Miguez... Amigo. Sou-lhe muito grato por isso.
Miguez deu-lhe um tapinha na face e, de braços dados, voltaram para a abadia. Algumas horas depois, depois de sentida missa proferida por Miguez, o cortejo carregando
o esquife de Juan partiu para o cemitério. Esteban estava tão abalado que nem conseguiu dirigir a liturgia. Não fosse por Miguez, sempre a ampará-lo com sincera
amizade, Esteban teria caído doente.




Apesar das desconfianças, ninguém disse nada. Quem ousaria enfrentar dois poderosos cardeais, influentes inquisidores do Tribunal do Santo Ofício? A palavra de um
inquisidor era algo incontestável, e nem seriam precisas testemunhas para comprovar o que diziam.
De volta a seu gabinete, Esteban pôs-se a pensar. Já não agüentava mais tanta morte. Mas estava por demais envolvido com ela para pretender abandoná-la. O que alimentava
a sua vida era a morte dos hereges, e Esteban não saberia o que fazer longe da Inquisição. Soubera da morte de Ramon e lamentara por Giselle. E agora, Juan também
partira atormentado por uma culpa da qual jamais poderia se livrar em vida. Mais um pouco, e Giselle os seguiria. Ele tinha certeza de que Giselle não escaparia
da perseguição de Miguez.
Miguez era mesmo seu amigo. Esteban podia sentir a sinceridade de seus gestos e de suas palavras. No fundo, o amigo acreditava mesmo que Giselle era uma herege.
Não fosse por esse motivo, jamais ousaria prendê-la. Mas ele estava convicto, e a convicção de um inquisidor era o quanto bastava para levar alguém à masmorra.
Dali a dois dias, era o julgamento de Manuela. Ele sabia que a moça seria solta, porque não conseguira reunir nenhuma prova contra ela. Por mais que Giselle quisesse,
não descobrira nada em Manuela que pudesse incriminá-la. Ao contrário, ela era uma moça tola e ingênua, e só conseguira compreender o motivo de sua prisão depois
que Giselle despejara sobre ela o seu ciúme.
Tudo aconteceu conforme Esteban imaginara. O Tribunal reunido não vislumbrou nenhum elemento que os convencesse de que Manuela era uma bruxa ou herege. Além do mais,
Miguez tomara a sua defesa. Não era propriamente seu advogado, porque o Tribunal sempre nomeava um para cada acusado, que nada fazia além de tentar convencê-lo a
confessar e apressar a prolação da sentença. Mas, naquele caso específico, era um dos próprios inquisidores quem pedia a absolvição da ré.
E foi exatamente assim que tudo sucedeu. O Tribunal, numa de suas raras decisões, absolveu Manuela de todos os crimes que lhe haviam sido imputados, ou seja, nenhum.
Ela fora presa por denúncia de Giselle Mackinley, que sequer conseguira reunir provas contra a moça. O inquisidor, é claro, cumprira seu papel. Recebeu a denúncia
e instaurou o processo contra a rapariga, recolhendo-a imediatamente ao calabouço. Em seguida, iniciou as investigações, torturando-a para que confessasse. Mas Manuela
não confessara, e não havia documentos, objetos ou testemunhas que depusessem contra ela. Como resultado, só podia ser inocente.
Caberia a Esteban libertá-la do calabouço, mas ele não teve coragem de ir. Ainda não se atrevia a encontrar Giselle. Sabia que estava sendo covarde, mas não poderia
suportar vê-la presa, acorrentada, flagelada por aqueles mesmos instrumentos que tantas vezes lhe fizeram a glória.
Miguez aceitou o encargo de bom grado. Mandou chamar Lucena e foi com ela libertar Manuela. Lucena acompanhou tudo com indizível satisfação. Entrou na masmorra em
companhia de Belita e Belinda, que mandara buscar em Cádiz. Giselle foi tomada de surpresa. Jamais poderia imaginar ver ali as suas antigas escravas. Quando a viu,
Belita deixou as lágrimas caírem, mas Lucena deu-lhe ordens para que não falasse com ela. Belinda, por sua vez, não demonstrou qualquer piedade. Ainda estava com
raiva e não a perdoara por tentar incriminá-la.
Lucena parou diante dela, com as escravas mais atrás, e perguntou vitoriosa:
- Reconhece essas escravas? - Giselle não respondeu. - Pois agora são minhas. Miguez confiscou-as e deu-as a mim. Vê como estão felizes agora?
Efetivamente, Belita e Belinda pareciam muito mais bem-cuidadas por Lucena. Vestiam-se com roupas melhores e mais bonitas, e pareciam mais saudáveis. Belita permanecia
de olhos baixos, penalizada, sentindo-se pouco à vontade diante de sua antiga ama, mas Belinda encarou-a com raiva, sem falar nada. Seus olhos, porém, diziam tudo.
Diziam-lhe que era bem-feito Giselle estar ali, em lugar, dela, como antes pretendera.


Pouco depois, Manuela chegou amparada pelo carrasco e por Miguez. Os membros estavam bastante doridos, e ela não conseguia se manter em pé. Fora para isso que Lucena
trouxera as escravas. Para que ajudassem Manuela a andar. As duas se postaram, uma de cada lado da moça, e susteve seu corpo, leve de tão esquálido. Giselle nem
conseguia mais sentir raiva. Só o que sentia era a dor da humilhação. Lucena matara Ramon, tomara-lhe as escravas e agora libertava Manuela. Conseguira sua vingança.

- Sabe para onde vou levá-la, Giselle? - perguntou Lucena com ar irônico, apontando para Manuela. - Para casa. Vou cuidar dela, tratar de suas feridas, dar-lhe um
lar. E ela vai trabalhar para mim. Sabe onde? Não, não sabe. Mas eu vou lhe dizer. Vai trabalhar na taverna Dama da Noite. Conhece? É claro que conhece. Era a sua
taverna, não era? Mas agora é minha. Como tudo o que lhe pertenceu um dia. Até mesmo sua casa, que vou dar para Manuela morar.
As escravas foram virando o corpo de Manuela, mas ela fez força para não ir. Abraçada às moças, começou a caminhar para frente. As escravas, percebendo que ela queria
se aproximar de Giselle levou-na até lá, e Manuela, rosto colado ao da outra, cuspiu-lhe na face com imenso desdém, acrescentando com voz gélida:
- Espero que seu corpo apodreça nesse inferno. A morte é pouco para você.
Giselle cerrou os olhos e desatou a chorar. Não agüentava mais receber tantas injúrias e maldições. Tudo o que podia fazer para aliviar a sua dor, a sua revolta,
o seu medo, era chorar. Lucena fez sinal para que as escravas a seguissem, e elas saíram levando Manuela. Quando cruzaram o portão de ferro, Miguez, que até então
nada dissera, chamou o carrasco e lhe deu ordens para soltar Giselle. Iriam recomeçar as torturas.
- Você chora, não é mesmo? - falou com voz diabólica. - Pois vai chorar ainda mais quando o próprio Esteban ler a sua sentença final. Vou lhe dar essa honra. Quero
que você pague por todo o
mal que nos fez passar.
Ignorando o pranto aflito e agoniado de Giselle, Miguez foi cumprir o seu dever. Era seu direito. O direito de se vingar da pessoa que mais odiara em toda a sua
vida.


CAPÍTULO 34


Giselle já começava a acreditar que seu fim estava próximo. Submetida a toda sorte de torturas e abusos, pensava mesmo em desistir. Já não estava mais conseguindo
suportar a dor, e só a visão de Miguez ou do carrasco já era suficiente para quase levá-la à loucura. Além de tudo, ainda tinha que suportar a presença de Lucena,
que se regozijava com o seu sofrimento.
Em casa, Lucena não deu muitos detalhes sobre a prisão de Giselle. Apenas dissera a Blanca que ela fora presa, mas cuidava para não deixar escapar a felicidade que
sentia ao ver o seu sofrimento. Blanca, por sua vez, também não dizia nada. Era muito grata a Lucena e a Miguez pelo que fizeram a ela e não pretendia desrespeitá-los.
Se eles ainda se compraziam com aquela vingança, só o que ela podia fazer era orar para que o perdão tocasse os seus corações.
Não havia mais muito tempo ou esperança para Giselle. Precisava sair dali o quanto antes. Ramon já estava morto e, apesar da dor que ela sentia pela sua perda, sabia
que ele ao menos estava livre daquele inferno. Mas ela não. Fugiria sozinha. Só podia contar com Diego. Fizera-lhe a proposta havia já algum tempo, mas, desde então,
nunca mais o vira. Sabia que Diego era ambicioso e esperava que ele aceitasse o seu suborno.
A despeito do sofrimento de Rúbia, Diego não lhe disse nada sobre o que Giselle lhe propusera. Tencionava ir embora com ela da Espanha, pois só em outro país poderiam
se casar. Diego sabia que seu tio jamais permitiria que ele e Rúbia se casassem, e, por isso, precisava partir com ela. Rúbia era rica, mas ele queria mais. E depois,
Rúbia era uma mulher voluntariosa e inteligente, e ele não estava disposto a ficar em suas mãos. Queria ter o seu próprio negócio sem precisar dar-lhe satisfações.
Poderia até comprar a companhia de seu pai e empreender viagens à América, tal qual ele sonhara um dia.
Pensando em seu futuro, tomou uma resolução. Queria libertar Giselle, mas não poderia fazê-lo sozinho. Os soldados eram muitos e não aceitariam um suborno dele,
pois o medo dos inquisidores era maior do que a sua ambição. Se fosse assim tão fácil suborná-los, as masmorras já se encontrariam vazias àquela altura, visto a
enorme quantidade de nobres presos. Não. Tinha que haver outra maneira.
Resolveu procurar o tio. Diego sabia o quanto ele lamentava a prisão de Giselle, e talvez concordasse em ajudar. Somente com a intervenção de um influente inquisidor
é que conseguiria soltá-la. Na manhã seguinte, bem cedo, partiu de novo para Sevilha, onde pretendia ficar alguns dias, até que tudo terminasse. Assim que chegou,
foi procurar o tio em seus aposentos. Ouvira falar da morte do jovem Juan e sabia que o tio se encontraria sozinho.
Diego foi conduzido ao quarto de Esteban e bateu à porta com cuidado. Alguns minutos depois, Esteban veio atender, e Diego levou um susto com a sua aparência abatida
e fatigada.
- Tio Esteban! - murmurou o rapaz. - O senhor está bem?
- Mais ou menos, meu filho. E essa maldita dor de cabeça.
Diego entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si, correndo até as janelas e fechando-as de par em par, para assombro de Esteban. O cardeal ainda pensou em indagar
o motivo daquilo tudo, mas desistiu. Sentia-se exausto, a cabeça a latejar, e recostou-se na cama, fechando os olhos por uns instantes.
- Tio... - chamou Diego a meia-voz - preciso falar-lhe com urgência.
Esteban abriu os olhos lentamente e fixou o rosto lívido e assustado do sobrinho.
- O que é Diego? Está com algum problema?
- Não.
- Alguma coisa com Rúbia?
- Não se trata disso. Vim para falar de outra pessoa.
- Que outra pessoa? De quem está falando? Vamos, rapaz, diga logo. Não estou com disposição para mistérios ou charadas.
- Não é mistério nenhum. Muito menos charada. Estou aqui para falar de Giselle.
O cardeal deu um salto da cama e colocou-se bem diante dele, agarrando-o pelo colarinho e sussurrando entre dentes:
- Você não tem nada que falar de Giselle. Já não basta o que ela está passando? E eu? Como pensa que estou me sentindo?
- Acalme-se, tio - retrucou Diego calmamente, tirando-lhe as mãos da gola de sua camisa. - Estou aqui para ajudar.
- Ajudar? Em quê? Não sei o que você poderia fazer para ajudar. Se nem eu consegui convencer Miguez...
- Não quero convencer ninguém. Meus métodos são bem outros.
- Mas que métodos? Do que é que está falando?
- De uma fuga - deu uma pausa, sentindo o efeito que suas palavras causavam no tio, e prosseguiu com firmeza: - Pretendo ajudar Giselle a fugir.
Com um suspiro, Esteban se afastou do sobrinho e se aproximou da porta, abrindo-a vagarosamente. Aquilo era muito perigoso para ser tratado ali, e ele tinha medo
de que alguém escutasse. O corredor, porém, encontrava-se vazio. Não havia ninguém, e ele se certificou de que não corria nenhum perigo. Tornou a fechar a porta
e se aproximou de Diego novamente, sentando-se a seu lado na cama.
- Posso saber como é que pretende fazer isso? - sussurrou o mais baixo que pôde.
O outro, sem altear a voz, ciente também do risco que corriam, retrucou hesitante:
- Ainda não sei bem...
- Isso é loucura. Você jamais conseguirá tirá-la de lá.
- Não sem a sua ajuda.
- Minha ajuda? O que há com você, Diego? Quer nos matar a ambos?
- Não é isso. Mas é que, com a sua ajuda, talvez seja mais fácil subornar os guardas.
- Suborná-los, é impossível. Eles tremem de medo, só de pensar na ira dos inquisidores.
- Deve haver uma maneira de tirá-la de lá. Sei que há.
- Se houvesse, pensa que eu já não o teria feito? Mas não há.
- Não é possível. Tem que ter um jeito.
- Só se... - Esteban parou hesitante.
- Só se o quê?
- Só se eles não estiverem acordados.
- Ótima idéia! - exclamou Diego, satisfeito em vislumbrar uma aparente solução. - Um pouco de sonífero no vinho seria o mais adequado... Mas como é que o sonífero
vai parar nos seus vinhos? Quem o colocará? O senhor? É claro que não. Eu? Não tenho a menor chance.
- Deixe isso por minha conta. Farei uma visita à masmorra de noite e lhes levarei o vinho. Não desconfiarão de mim e beberão com prazer. Em poucos minutos, estarão
fora do caminho.
- Mas tio, quando acordarem, vai denunciá-lo.
- Você não está entendendo. Eles não vão acordar.
- Não vão? O que quer dizer?
- Que eles devem morrer.
Diego estacou horrorizado. Afinal, nunca antes havia matado ninguém. Podia ser ambicioso e venal, mas matar já estava fora de seus planos. Não tinha coragem para
isso.
- Mas tio - protestou veemente -, não posso fazer isso. Nunca matei ninguém.
- Você não. Mas eu já. Matei muitos...
- O que quer dizer?
- Que os homens vão ser envenenados.
- Vão desconfiar do senhor.
- Não poderão provar nada. Nem Miguez ousará me acusar.
- É arriscado, tio. Alguém pode vê-lo entrar na masmorra.
- Correrei o risco. E depois, coberto pelo manto e pelo capuz, ninguém de fora saberá que sou eu. Para todos os efeitos, estarei dormindo em minha cama, com uma
forte dor de cabeça. Farei tudo rapidamente. Irei à masmorra e levarei o vinho para os guardas. Depois, voltarei para meu quarto e continuarei a dormir tranqüilamente.
Depois de mortos, é com você. Aja com rapidez e leve-a para bem longe.
- Quando será?
- O mais rápido possível. Mais um pouco, e ela nem estará conseguindo andar.
- Quem irá avisá-la?
- Ninguém. Qualquer visita, nesse momento, despertará suspeita. Você simplesmente aparece e a solta. Leve-a para bem longe daqui.
Tudo ficou acertado para dali a dois dias. Esteban faria uma visita noturna à masmorra, entregaria o vinho envenenado aos guardas e depois sairia. Caberia o resto
a Diego, que ficou de arranjar um barco para tirá-la da Espanha.





CAPÍTULO 35
Na véspera da fuga, Giselle continuava amarrada ao tronco, o qual até já desejava como forma de descanso. Ao menos, enquanto estava amarrada ali, não estava sendo
torturada por Miguez. Já era noite quando a porta se abriu, e Giselle percebeu uma luminosidade intensa penetrando na masmorra. Olhou em volta assustada, pensando
que dormia e sonhava, mas a dor no corpo a fez concluir que ainda estava acordada. A luminosidade veio se aproximando, e Giselle piscou os olhos diversas vezes,
ofuscada por tamanha claridade.
Aos poucos, porém, conseguiu divisar a figura de um guarda, trazendo pela mão uma menina. Não devia ter mais do que dez ou onze anos. Era linda, cabelos louros cacheados,
olhos de um azul cristalino, lábios vermelhos qual uma rosa prestes a desabrochar. Parecia um anjo envolto em um halo de luz.
Giselle percebeu que o anjo era apenas uma menina, e aquele clarão repentino, subitamente, desapareceu. Teria sido um sonho ou uma visão? A menina passou bem junto
a ela, deixando-a estarrecida. Bem percebia que se tratava de uma criança, e a indignação foi tomando conta de sua mente. Ela, ao menos, era adulta e reconhecia
que havia cometido muitos crimes. Mas que mal poderia uma criança ter feito aos padres para merecer tal sorte?
A visão daquela menina causou estranha comoção em Giselle. Ela vinha cabisbaixa, segura pela mão do guarda, que a conduzia para uma das celas laterais. Quando passou
ao lado de Giselle, a menina estacou de repente e levantou os olhos para ela por uns instantes, para depois abaixá-los novamente, continuando em sua triste trajetória
de morte.
Giselle estremeceu. A menina, tão pura, tão inocente, mais parecia uma flor no meio daquele lodaçal de dores e lamentações. Ela sabia que, em breve, o corpo da menina
seria dilacerado e vilipendiado, e chorou. Pela primeira vez em sua vida, Giselle derramava lágrimas por alguém que não fosse ela mesma.
Com o coração oprimido e os pensamentos ainda presos na criança, Giselle adormeceu. Novamente, viu aquela luminosidade e pensou que a menina houvesse se soltado
da cela. Virou o pescoço lentamente para o lado e percebeu que a cela em que fora colocada ainda se encontrava fechada, e a menina dormia um sono agitado sobre a
palha fétida despejada no chão.
Tornou a olhar para frente e percebeu que a luminosidade havia se aproximado, pairando alguns centímetros acima do chão, quase tocando o seu corpo. Aos poucos, aquela
luz a foi envolvendo, e Giselle sentiu imenso bem-estar, como se aquela claridade estivesse refazendo o seu corpo, aliviando-lhe as dores e as feridas. De repente,
a luz se afastou um pouco e foi tomando forma, e ela viu extasiada a figura brilhante do pai se formar bem diante de seus olhos.
- Pai! - exclamou aos prantos. - Ajude-me!
Estirou os braços para frente e espantou-se ao constatar que, além dos braços realmente se estenderem, todo o seu corpo atendeu ao seu comando, e Giselle viu-se
acolhida nos braços de seu pai. Durante muito tempo, permaneceu abraçada a ele, permitindo que as lágrimas fossem recolhidas pelas suas mãos amorosas.
O pai não se apressou em soltá-la. Deixou que desse vazão ao pranto e, quando ela finalmente se acalmou, acariciou os seus cabelos e deu-lhe um beijo na face, indagando
com extrema bondade:
- Vim lhe perguntar de novo, Giselle: o que foi que fez com o conhecimento que lhe dei?
Ela não resistiu. Agarrou-se a ele em desespero e começou a chorar novamente, respondendo entre lágrimas sentidas e angustiadas:
- Oh! Pai perdoe-me! Fui uma tola, ambiciosa, fútil. Deveria ter seguido os seus conselhos. Jamais deveria ter utilizado meus conhecimentos para o mal. Hoje compreendo.
Ao ver aquela menina entrar aqui, pensei na fragilidade da vida e no quanto devemos nos esforçar para sermos bons. Ela está sofrendo, pai, eu sei. Mas seu semblante
é tão doce...
- Porque sua alma é pura, minha filha. Assim como a sua também é.
- A minha? Não, pai, sei que sou uma perdida, criminosa, pecadora. Jamais chegarei aos pés daquela criança... Ou aos seus...
- Não se acuse tanto, Giselle. Sua alma é pura, porém ignorante. Você enveredou por um caminho de espinhos e só a muito custo conseguiu compreender que quem caminha
no meio dos espinhos acaba tendo que assumir as feridas nos pés.
- Pai... Estou sofrendo tanto!
- Você mesma escolheu esse sofrimento, Giselle. Foi a sua opção.
- Jamais poderia ter escolhido tanta dor. Se estou sofrendo, é porque alguém me inflige esse sofrimento.
- Não acuse aqueles que apenas servem de instrumento aos seus desígnios. Você escolheu se envolver com essas pessoas e vivenciar tudo aquilo que elas poderiam lhe
dar.
- Por favor, pai, ajude-me! Não quero mais sofrer. Tire-me daqui. Leve-me com você! Estou arrependida do que fiz... Sei que mereço passar por tudo isso, mas estou
arrependida, eu juro!
- Sei que está. Seu arrependimento é sincero, mas não simples o suficiente. Você está começando a enveredar pela senda da culpa.
- Como não me sentir culpada diante da consciência de tudo o que fiz?
- Seja responsável por seus atos, Giselle, mas não se entregue à culpa. Você só vai sofrer.
- Não é o que mereço?
- Ninguém merece sofrer para aprender. Sofremos porque não compreendemos.
Hoje eu compreendo, pai. Compreendo que ajudei a matar e espoliar muitas pessoas. Talvez até crianças feitas aquela - engoliu um soluço sentido e apontou para a
menina adormecida.
- Essa criança foi mais um instrumento para despertar a semente de bondade que você guarda em seu coração.
- Mas que bondade? Eu fui má, mesquinha, cruel... Ah! Pai, se pudesse voltar atrás e refazer a minha vida!
- Ninguém é mau, minha filha. Somos todos ignorantes. Não se culpe tanto.
- Ah! Pai, pai! Ajude-me! Tire-me daqui. Sei que pode. Leve-me com você. Prometo ser diferente. Prometo reparar todas as maldades que fiz. Prometo que vou me emendar.
Você vai ver. Vou ser boa, generosa, piedosa. Mas por favor, não me deixe mais sofrer! Não me deixe!
- Acalme-se, Giselle. Não precisa prometer coisas que não sabe se será capaz de cumprir. Nem ninguém está lhe pedindo isso. Somente podemos dar aquilo que temos.
- Mas eu não tenho nada!
- Tem o seu coração, o seu amor...
- Que amor? A única pessoa que amei em minha vida foi Ramon... E você...
- Não, minha filha. Amou aquela criança que acabou de conhecer.
Giselle calou-se abismada. Fitou a menina novamente e tornou a olhar para o pai. Ele estava certo. Ao ver aquela criança entrar, envolta naquele halo de luz, algo
dentro dela começou a despertar. Seu coração sentiu algo novo, um sentimento que até então jamais havia experimentado. Era um sentimento puro, desinteressado, carregado
de compaixão e amorosidade. Giselle nunca fora mãe. Mas, se pudesse, estreitaria aquela menina em seus braços até que ela se sentisse acolhida e protegida, como
nos braços de sua mãezinha.
Olhos banhados em lágrimas fitaram o pai com amor e respondeu com sinceridade:
- Tem razão...
Deitou a cabeça no colo dele e entregou-se ao pranto. Compreendia as palavras do pai e lamentava não tê-las seguido há mais tempo.
- Não se lamente - tranqüilizou-o, lendo seus pensamentos. - Não a tempo de mais ou tempo de menos. O que há é o nosso próprio tempo, que é sempre o justo e o necessário
para o nosso entendimento.
- Oh! Pai, o que fiz para merecer tudo isso?
- Quer mesmo saber?
Ela ergueu os olhos assustada e indagou em dúvida:
- Será que devo?
- Se você quiser...
- Vai me ajudar a mudar alguma coisa?
- Alguma coisa não. Mas pode ajudar a modificar você. O que você fez, está feito, ninguém jamais poderá apagar. Durante os séculos vindouros, tudo o que você fez
estará guardado em algum lugar dentro de você, porque as lembranças de seus atos passados é que servirão para ajudá-la a construir uma personalidade mais íntegra
no futuro. Ninguém pode apagar os seus atos, porque estaria apagando suas experiências. Mas você pode compreender com o coração tudo aquilo que já fez, e esses atos
dos qual você se lamentam servirão de exemplo para novas atitudes. Então? O que me diz? Quer saber o que você fez, apenas para compreender por que escolheu estar
aqui hoje?
- Quero - respondeu Giselle, decidida.
No mesmo instante, as paredes da masmorra desapareceram, e Giselle saiu para a friagem da noite. Em questão de segundos, a noite virou dia, e ela começou a se lembrar.
Corria o ano de 1204, e a frota cruzada preparava-se para a terceira investida contra a capital bizantina. Os soldados já haviam conquistado e pilhado várias cidades
daquele império, dentre elas, Calcedônia e Crisópolis, mas não estava sendo nada fácil tomar Constantinopla. O porto da cidade era protegido por grossas correntes
que impediam a entrada dos navios invasores, e a única saída seria tomar a Torre de Gaiata e soltar as correntes que a ela se prendiam. Ultrapassada as correntes
e penetrados o porto, a investida por mar ainda teria que vencer as demais torres de proteção, o que demandava tempo, homens e habilidade.

Essa empreitada contou com o concurso de cruzados e venezianos, que haviam partido juntos de Veneza. Quando, por fim, a Torre de Gaiata foi tomada e as correntes,
afrouxadas, os cruzados penetraram no porto e, agora em terra, acamparam do lado de fora das muralhas, a uma distância segura das catapultas inimigas. Os venezianos,
por sua vez, permaneceram na investida por mar, e, enquanto lutavam para invadir as torres da cidade sitiada, os cruzados tentavam abrir uma fenda na muralha, até
que conseguiram, finalmente, penetrar com seus cavaleiros montados, tomando tudo que encontravam à sua frente.
Foi nesse clima hostil e sangrento que Giselle se reconheceu, envergando uma armadura brilhante onde se via no peito a cruz vermelha das Cruzadas. Giselle não era
Giselle. Era Rômulo, um soldado forte e destemido, oficial graduado e competente, e engajara nas Cruzadas numa tentativa de reaver a herança perdida para seu irmão
mais velho. Pelo direito de primogenitura, toda a fortuna de seu pai fora herdada pelo irmão, e Rômulo não recebera nada em terras ou dinheiro. Por isso, a Quarta
Cruzada lhe surgiu como a chance que esperava de adquirir terras e riquezas no oriente.
Sem dinheiro e sem galeras, os cruzados haviam praticamente se colocado nas mãos dos venezianos, que os levariam a Jerusalém em troca de ajuda para a retomada da
cidade de Zara aos húngaros. Na viagem, Rômulo conheceu Leandro, um veneziano maduro e experiente, e uma forte amizade logo surgiu entre ambos. Cerca de quinze anos
mais velho, Leandro tornou-se para o jovem Rômulo, além de amigo, um sábio conselheiro.
A batalha pela conquista de Constantinopla não durou muito tempo. Logo o imperador fugiu com seu exército, e os bizantinos, decepcionados com a destruição de sua
muralha, deram-se por derrotados. Reconhecendo-se verdadeiros conquistadores, sem encontrar resistência da população ou dos soldados, os cruzados iniciaram então
a pilhagem da cidade.
Milhares de civis e militares foram mortos ou aprisionados, e as mulheres, estupradas pelos cruzados. Imagens, altares, estátuas de ouro, tudo foi destruído e derretido
por aqueles que partiram de Veneza jurando lutar pela fé cristã. Palácios e mansões foram tomados, seus residentes mortos ou aprisionados, e muitas obras de arte
foram roubados. O saque foi imenso, e os cruzados, mais do que os venezianos, não hesitavam em destruir, queimar, matar...
Rômulo era então um dos capitães dos cruzados, cruel e sanguinário, impiedoso e imoral. Em meio à pilhagem, invadiu o palácio de um oficial do exército bizantino,
que havia se recusado a debandar ante a iminência da derrota. Domício era um homem íntegro, segundo os padrões da época, e resistiu ante a capitulação de sua amada
Constantinopla.
Ao entrar em seu rico palacete, todo feito de mármore e ouro, Rômulo quedou boquiaberto. Jamais havia visto tanta riqueza em toda a sua vida. Mesmo seu pai, que
fora um rico senhor feudal, não poderia se igualar àquele Domício em luxo e fortuna. O homem ainda tentou resistir. Lutou com todas as suas forças contra vários
soldados cruzados, mas acabou rendido e subjugado.
Rômulo deu ordens para que ele fosse preso, e seus soldados puseram-se a vasculhar o palacete. Não demorou muito, e toda a família foi encontrada e levada à sua
presença. No mesmo instante, seus olhares se fixaram na jovem esposa de Domício. Tratava-se de uma nobre de origem grega, Lísias, moça fina e de rara beleza. Rômulo
sentiu imenso desejo por aquela mulher. Acostumado a tomar o que desejava, deitou-a no chão e estuprou-a ali mesmo, diante de toda a família.
Naquele momento, Domício sentiu imenso ódio de Rômulo. Se ele os tivesse matado, a todos, não lhe guardaria tanto rancor. Era soldado também e considerava a execução
e a morte coisas naturais numa guerra. Mas estuprar sua mulher era coisa que não poderia jamais admitir.
Terminada a violência, Rômulo mandou que prendessem toda a família de Domício, menos sua mulher. Enquanto ardesse nele o fogo da paixão, Lísias serviria para saciar
os seus instintos. Domício ainda tentou lutar, mas foi amarrado pelos soldados de Rômulo, que se preparavam para levá-lo à prisão. Foi nesse momento que chegou Leandro,
seu companheiro de batalhas.
- O que está acontecendo aqui? - indagou Leandro, abismado.

- Ora, meu caro amigo - retrucou Rômulo com desdém -, estamos apenas nos divertindo.
Leandro fez um ar de contrariedade. Os venezianos costumavam ser mais comedidos em seus atos de pilhagem e saque, e Leandro, em especial, não se comprazia com os
estupros.
- Está desonrando uma mulher casada! - censurou Leandro com veemência.
- Ela é mulher do inimigo. Não tem mais honra.
Novamente, Leandro fez ar de desagrado. Era extremamente católico e considerava a atitude de Rômulo um atentado contra as leis da Igreja, da mesma Igreja que ele
jurara defender. A mulher, além de tudo, era católica também, e não era direito forçá-la ao adultério.
- Rômulo - prosseguiu ele com aparente calma -, solte essa mulher. E uma mulher cristã.
- E daí? Ela agora me pertence. Veio de prêmio, junto com a pilhagem.
Soltou estrondosa gargalhada, o que deixou o amigo ainda mais indignado. Parado mais atrás, Domício não perdia uma só de suas palavras. Mesmo sendo inimigos, sentiu
imensa gratidão pelo que Leandro estava fazendo. Reconheceu nele um homem honrado e digno, e passou a admirá-lo profundamente. Leandro podia pertencer ao conquistador
inimigo, mas não era um mercenário feito aquele Rômulo.
- Solte-a! - falou incisivo. - É uma ordem.
- Você não dá ordens em mim. É meu amigo, não meu capitão-mor.
Nesse momento, Lísias atirou-se aos pés de Rômulo e, aos prantos, pôs-se a suplicar com pungente dor:
- Por favor, senhor, eu lhe imploro. Deixe-me ir. Solte meu marido e eu prometo que nunca mais nos verá. Partiremos hoje mesmo...
- Cale-se, mulher! - esbravejou Rômulo, desferindo-lhe uma bofetada.
De onde estava Domício tentou se soltar, mas os soldados o seguravam com força, e ele não conseguiu se mover. Contudo, foi remoendo o ódio por aquele capitão arrogante
e cruel, que não poupava nem a fragilidade de uma mulher.
- Por Deus, Rômulo! - objetou Leandro novamente. - Não vê que ela é apenas uma mulher e que está assustada? Solte-a! Deixe-a ir!
Mais por orgulho do que por desejo, Rômulo não a soltava. Não podia permitir que outro homem, por mais amigo que fosse, passasse por cima de sua autoridade de capitão.
- Nunca! - bradou entre dentes. - Prefiro antes vê-la morta!
Na mesma hora, desembainhou a espada e cravou-a na garganta de Lísias, que morreu ante o olhar atônito e revoltado de Domício. Lísias veio ao chão, sobre uma poça
de sangue, o que deixou Domício enlouquecido. Apesar de fortemente preso, puxou os soldados que o seguravam e partiu para cima de Rômulo, aos pontapés, sendo facilmente
subjugado pelo outro.
- Idiota! - vociferou Rômulo. - Gosta tanto assim de sua mulher? Pois vá juntar-se a ela!
Com um só golpe, Rômulo tirou a vida de Domício também. Os dois desencarnaram levando imenso ódio no coração, ódio esse que os acompanharia durante os séculos seguintes,
principalmente ao reencarnarem como Lucena e Miguez. Ambos não conseguiram superar o ódio, e o desejo de vingança fez com que envidassem todos os esforços para retribuir
a Rômulo, na pele de Giselle, todo o mal que antes os fizera passar.
Apesar de tudo, Domício nutriu sincera gratidão por Leandro, que perdurou também na encarnação seguinte, quando este voltou como Esteban. Nasceu daí uma forte e
verdadeira amizade, fruto do reconhecimento de Domício pelos esforços de Leandro em salvar a vida e a honra de sua esposa.




CAPÍTULO 36





Com lágrimas nos olhos, Giselle voltou de suas reminiscências. Foram dolorosas as lembranças de sua vida passada, e ela ficou imaginando o quanto gostaria de ter
feito tudo de forma diferente.
- Se soubesse disso antes, não teria feito o que fiz.
- Se soubesse disso antes, não teria feito esforço algum.
- E agora, pai, o que farei?
- Aceite o seu destino. Foi o que você escolheu para você.
- Não posso mudar? Estou presa as minhas escolhas?
- Não. Mudamos a todo tempo. Mas é preciso que essa mudança parta do seu coração, não do seu medo. Você só quer mudar porque está com medo de sofrer mais e de morrer.
Não quer mudar o destino porque já aprendeu aquilo que veio aprender. Por isso é que digo que você não quer essa mudança. Sua alma não quer, porque ela sabe que
você, em seu íntimo, ainda não está pronta para compreender e aceitar-se, a si mesma, como uma alma em evolução, que erra e cai, mas que não perde jamais.
- Está enganado, pai. É por compreender e me aceitar que não quero mais ficar aqui...
- O que sente agora com relação a tudo isso?
Giselle pensou durante alguns minutos, até que respondeu com profundo pesar:
- Culpa. Sinto-me culpada por tudo o que aconteceu.
- Como vê você ainda não compreendeu e, por isso, não pôde se aceitar. Se tivesse mesmo compreendido, não se sentiria culpada. Ao contrário, perdoar-se-ia, a si
mesma, sem nenhuma restrição. Mas você não pode. Sua alma pesa de tanta culpa.
- Se isso não é compreender, então não sei o que é. Se não compreendesse, não me sentiria culpada pelo que fiz.
- Não, Giselle, é o contrário. Se você compreendesse, diria a si mesma que agiu por ignorância e não precisaria sofrer para aprender. É como a criança, que cai e
bate no amiguinho porque ainda não aprendeu que não deve bater em seus semelhantes. Ela é má? Não. E apenas inexperiente. Quando entender que não deve bater nas
outras crianças, vai aprender, mas sem nenhuma culpa ou remorso. Simplesmente não vai bater mais, porque vai internalizar o que é certo. E não vai precisar apanhar
para deixar de bater. Vê como é diferente?
Com doloroso suspiro, Giselle abraçou-se ao pai. Ele tinha razão. Ela estava morrendo de remorso pelo que fizera e achava que merecia mesmo aquele sofrimento todo.
Por mais que o temesse e não o quisesse, não se julgava merecedora do perdão.
- Ah! Pai ajude-me! O que será de mim?
- Você vai desencarnar - ela redobrou o pranto, e ele acariciou seus cabelos. - Não chore minha filha. Esse é o seu caminho de hoje, mas não precisa ser o de amanhã.
Lute para fazer diferente no futuro.
- Como, pai? Como poderei fazer isso?
- Em primeiro lugar, tente vencer a culpa quando desencarnar. Se não, você não vai conseguir me acompanhar e vai sintonizar com os espíritos que a rodeiam, sequiosos
de vingança. Eles vão arrastá-la, e eu não terei como evitar.
- Não quero pai! Não quero seguir com eles. Quero ir com você.
- Pois então, acredite nisso, deseje isso. Não é só porque você levou uma vida de desencontros que precisa ir para as trevas. Isso, nesse momento, você já entendeu.
O que lhe falta agora é acreditar-se merecedora de alçar a um plano de luz. Acredite nisso, com fé, e ninguém conseguirá arrastá-la. Você vai me ver ao seu lado
e vai desejar partir comigo. Será que pode fazer isso?
- Tentarei pai, juro que tentarei. O que mais quero é poder estar com você.
A imagem de Ian esvaneceu, e Giselle abriu os olhos assustada, ainda a tempo de ver desaparecer sua última centelha de luz. Olhou para o lado e viu a menina adormecida.
Ao seu redor, as poucas mulheres presas não davam sinais de terem percebido nada. Apenas ela vira o pai e sabia que ele estivera ali de verdade.
No dia seguinte, Miguez não apareceu para sua costumeira sessão de torturas. Como Ian havia energizado o corpo de Giselle, era preciso que ela não sofresse nenhum
tipo de suplício naquele dia, ou toda aquela energia revitalizante acabaria perdida nos mecanismos de tortura. A solução foi pedir o concurso de Blanca. Ela era
um espírito bastante esclarecido e iluminado, ciente de seus comprometimentos passados, e não via nada de útil em querer se vingar. Ao contrário, orava por Giselle
todas as noites, para que ela fosse forte como ela própria o fora.
Ian visitou Blanca em sonho, logo após deixar Giselle, e ela concordou em colaborar. Na manhã seguinte, acordou com uma inexplicável febre, para desespero de Lucena,
que logo mandou chamar Miguez, com medo de que ela morresse. Miguez mandou buscar um médico na vila vizinha, pois não podia arriscar a segurança de Blanca trazendo
um médico de Sevilha, que poderia reconhecê-la e denunciá-la novamente a Esteban.
Isso levou algum tempo. Lucena, desesperada, não queria que ele saísse de perto delas, e Miguez foi ficando. Quando o médico terminou a consulta, a noite já havia
caído, e ele estava cansado e sem ânimo para ir ao calabouço. Fez a refeição da noite em companhia de Lucena e acabou ficando para passar a noite, temendo que Blanca
piorasse. Aquele fora um dia inútil, mas, no dia seguinte, acordaria bem cedo para recuperar o tempo perdido.
Por volta da meia-noite, todos já estavam dormindo, inclusive Esteban, que, desde a hora do jantar, reclamava de forte dor de cabeça. Recolheu-se mais cedo, não
sem antes tomar uma forte infusão que um dos padres lhe oferecera. Deitou-se na cama e apagou a luz da vela, e todos acharam mesmo que ele adormecera.

Em silêncio, abriu a porta de seu quarto e saiu pé ante pé. Envolto em pesado manto negro, cujo capuz lhe encobria todo o rosto, atravessou a abadia e penetrou no
Tribunal, levando sob o manto a garrafa de vinho envenenado. O silêncio imperava em todos os cantos. Ao abrir a porta da masmorra, o primeiro guarda se levantou,
cumprimentando-o com voz sonolenta:
- Ah! Monsenhor Navarro, boa noite.
- Boa noite.
Sem dizer nada, Esteban seguiu direto para a masmorra masculina. O guarda de plantão abriu a porta e ele entrou, fingindo que ia averiguar algo em um dos prisioneiros.
Por dez minutos, permaneceu estudando o morto vivo, até que resolveu sair. Fingiu que ia embora quando, no meio do caminho, voltou-se para o guarda.
- Como é o seu nome, rapaz?
- Martinez, senhor.
- Pois bem, Martinez. Antes de vir para cá, passei em meu gabinete para buscar essa garrafa de vinho que ganhei hoje cedo, mas não ando me sentindo bem e não posso
tomá-la. Não gostaria de experimentar um trago?
O homem nem acreditou. Um vinho daquela qualidade, ofertado por um cardeal, devia ser uma delícia dos deuses. Martinez estalou a língua e respondeu animado:
- Será que posso monsenhor?
- É claro, meu rapaz - enquanto Martinez apanhava uma caneca sobre a mesa, Esteban aproveitou para sugerir: - Por que não vai chamar seu companheiro na outra masmorra?
Assim os dois bebem juntos.
- Mas, monsenhor, ele não pode abandonar o seu posto.
- Ora, é só um instantinho. Que mal há? Aposto como ninguém vai fugir de lá de dentro, não é?
Martinez sorriu entusiasmado e correu a chamar o guarda da masmorra feminina. Os dois voltaram quase correndo, e o outro cumprimentou com um sorriso respeitoso e
formal:
- Boa noite, monsenhor.
- Boa noite, rapaz. Trouxe sua caneca?
- Trouxe.
- Olhe lá, hein? É só um pouquinho. Não quero que amanhã digam que os embebedei.
Sob o sorriso maroto dos dois guardas, Esteban entornou o vinho nas canecas que eles lhe estendiam. Os dois levantaram as canecas num brinde meio sem jeito e entornou
o vinho de uma vez, goela abaixo. Estalaram a língua, satisfeitos, e já iam agradecer quando sentiram uma estranha contração no estômago. Entreolharam-se atônitos
e procuraram Esteban com a visão já nublada, mas ele havia sumido pelo corredor mal iluminado.
Na porta da frente, repetiu a mesma coisa com o primeiro guarda. A exemplo dos demais, ele estendeu a caneca para Esteban, que derramou o vinho e esperou até que
ele bebesse, a fim de se certificar de que morreria também. Minutos depois, o homem também jazia duro no chão. Esteban afastou o seu corpo da porta e correu para
fora, rezando para que Diego já estivesse ali.
Diego já estava à espreita. Logo que viu um vulto sair correndo do calabouço, dirigiu-se para lá a passos rápidos. A porta estava aberta, e ele entrou. Jogado a
um canto da parede, o corpo do primeiro guarda apareceu, e ele seguiu avante, direto para a masmorra feminina. Não havia ninguém lá. O guarda dali havia morrido
junto com o outro, e ele teve que sair à sua procura para buscar as chaves. Foi para a outra masmorra e encontrou os dois caídos no chão. Apanhou as chaves dos dois
guardas e partiu de volta para onde Giselle estava.
Foi experimentando as chaves uma a uma, até que encontrou a que procurava. Abriu a porta com cuidado e passou para o lado de dentro, indo direto para o tronco onde
Giselle estava amarrada. Ela estava adormecida e não viu quando ele entrou. Diego teve que cutucá-la para que ela despertasse. Giselle abriu os olhos lentamente,
tentando entender o que estava se passando. Será que Miguez resolvera aparecer para uma sessão noturna?
Não era Miguez. Parado diante dela, Diego a chamava com insistência:
- Giselle! Giselle! Vamos, abra os olhos. Acorde, Giselle!
- Diego! - sussurrou assustada. - O que faz aqui?
- Resolvi aceitar a sua proposta.
- Que proposta?
-

-
- Não se lembra? Vim libertá-la em troca de seu tesouro.
Enquanto falava, Diego ia tentando encontrar a chave que abria o cadeado que a prendia ao tronco, até que finalmente o achou. Soltou as correntes, e Giselle deixou
o corpo tombar para frente, tentando sentir a própria coluna.
- Venha. Não há tempo para exercícios agora. Vai ter que andar.
Ele puxou Giselle pelo braço, e ela se levantou a muito custo. O corpo estava todo doído, mas, graças ao passe revigorante de seu pai, conseguiu se erguer e caminhar.
Sem pensar muito, segurou o braço de Diego com firmeza e deu dois passos em direção à porta. Foi quando se lembrou da menina que vira chegar no dia anterior. Parou
abruptamente e voltou-se para a cela onde ela fora colocada. Atraída pela agitação, a menina despertara e a olhava com ar súplice.
- Dê-me as chaves - pediu Giselle num murmúrio.
- O quê? Para que quer as chaves?
Diego seguiu a direção do dedo de Giselle e viu a criança.
- Vou levá-la comigo.
- O quê? Ficou maluca? Não temos tempo para isso. E depois, uma criança só faria nos atrapalhar.
- Vou levá-la comigo, já disse! Vamos, dê-me as chaves!
Muito a contragosto, Diego passou o molho de chaves às mãos de Giselle, e ela foi a passos trôpegos abrir a cela da menina.
- Venha! - chamou, estendendo-lhe as mãos.
Na mesma hora, a criança segurou a mão de Giselle e saiu da cela, ajudando-a a caminhar.
- Como se chama?
- Marisol.
Amparada pela menina e por Diego, Giselle saiu da masmorra. Notou que não havia nenhum guarda por ali, mas não perguntou nada. Diego planejara tudo, e ela não estava
disposta a perder tempo com perguntas inúteis. Do lado de fora, seguiram para uma carruagem parada no final da rua, fora do campo de visão do Tribunal. Diego ajudou
Giselle e Marisol a subir e tomou as rédeas dos cavalos. Mais que depressa, chicoteou os animais e levou a carruagem para bem longe dali.
Fora da cidade, Diego parou o carro, e as duas desceram rapidamente. Ele levou a carruagem para fora da estrada e ocultou-a atrás das árvores, sentando-se com Giselle
e Marisol na grama úmida.
- E agora? - quis saber Giselle.
- Você vai a cavalo até Santa Maria. De lá, seguirá a pé até um pequeno povoado chamado Los Lobos. Fica aos pés de uma colina, que você deve subir até o fim e descer
pelo outro lado. Logo que alcançar o topo, vai ver uma pequenina praia lá embaixo. Desça pela encosta e aguarde. Um barco virá para levá-la em segurança. Na terça-feira,
ao meio-dia.
- Para onde irei?
- Para Alexandria - ela não contestou, e ele prosseguiu: - Muito bem. Cumpri a minha parte. Agora, cumpra a sua. Diga-me onde está o tesouro.
Com um profundo suspiro, Giselle contou-lhe onde escondera sua pequena fortuna em ouro e pedras preciosas. Embora sua casa houvesse sido revistada, duvidava que
alguém tivesse descoberto esse esconderijo. Ela o ensinou a chegar lá pela floresta, para que ele não corresse o risco de ser surpreendido na porta de casa.
- E a garota? - indagou Diego, referindo-se a Marisol. - Não vai conseguir com ela.
- Não pretendo levá-la comigo. Vou deixá-la em Cádiz, com Rúbia.
- O quê? Você endoidou de vez. Não vai dar tempo. E se você perder o barco?
- Vai dar tempo, sim. Sei que vai. Se partir agora e cavalgar sem parar para descansar ou comer, terei tempo de passar em Cádiz e deixar Marisol com Rúbia.
- Isso é muito arriscado. E se alguém descobrir?
- Duvido muito. Ninguém terá motivos para procurá-la lá. Diego deu de ombros e arrematou:
- Você é quem sabe. Mas se perder o navio, não me culpe.
- Não o culparei. Bem, Diego, agora é hora de partir. Obrigada por tudo, e faça bom proveito do meu dinheiro.
Ela apanhou as rédeas do cavalo que ele soltara da carruagem, montou e puxou Marisol, colocando-a na garupa.

- Acha que poderá agüentar? - perguntou a ela.
- Sim.
Giselle deu um último sorriso para Diego e chicoteou o animal, que saiu em disparada pelo meio da floresta. Teria que viajar pelos bosques, sempre em meio às árvores.
Sair pelas estradas era muito perigoso. Em breve, Miguez poria toda a guarda do Tribunal em seu encalço.
Ela apertou a mão de Marisol ao redor de sua cintura e seguiu confiante para Cádiz. Não sabia explicar aquela sensação de bem-estar que sentia. Não se lembrava das
palavras exatas de seu pai e desconhecia que iria desencarnar em breve. Mas algo dentro dela lhe dizia que ela caminhava para a liberdade, e a única coisa que a
impediria de ser livre seria sua própria fraqueza, que poderia acorrentá-la novamente aos grilhões de seus inimigos.
A viagem até Cádiz foi desgastante e cansativa, principalmente para Giselle, que sentia o corpo todo doer por causa das torturas. Alcançou o castelo encoberta pelas
sombras da noite e ainda precisava atravessar os portões sem chamar a atenção. Chamou insegura, mas os guardas nem desconfiaram quando ela disse que vinha de Sevilha
e trazia um recado de monsenhor Navarro para Rúbia.
Os portões foram abertos, e Giselle entrou, cobrindo o rosto com o manto e procurando permanecer fora do alcance da luz. Um dos guardas foi chamar Rúbia, que veio
atender, ainda meio sonolenta. Mas logo reconheceu, no salão principal, a silhueta magra de Giselle. Olhou-a com estranha emoção, mas, contendo o ímpeto de se atirar
em seus braços, falou para o guarda com estudada moderação:
- Pode ir agora. Obrigada.
Esperou até que o guarda se afastasse, para só então correr para ela.
- Rúbia... - sussurrou Giselle em lágrimas.
- Oh! Giselle, graças a Deus que está bem! - tornou a outra, estreitando-a em seus braços. - Como foi que saiu da masmorra?
- Diego não lhe contou?
- Diego? Não. Por quê? O que ele tem a ver com isso?
- Onde é que ele está?
- Em Sevilha... Por quê?
- Foi Diego quem me soltou.
- Diego? Mas como? Como foi possível?
- Ainda não sei bem. Só sei que os guardas estavam fora do caminho, e ele entrou na masmorra e me soltou.
- Meu Deus! Então foi por isso que ele viajou a Sevilha, dizendo que tinha negócios a tratar com seu tio. Não me disse nada.
- Talvez não quisesse preocupá-la. Ele se arriscou muito.
Giselle preferiu omitir a parte do tesouro. Mesmo que tivesse perdido tudo, era grata a Diego por tê-la ajudado a fugir e não pretendia causar nenhum desentendimento
entre ele e Rúbia. Estirou a mão para a menina, que permanecera parada um pouco mais atrás, sem se mover, e puxou-a para junto de si, falando com ternura:
- Esta é Marisol.
- Muito prazer, Marisol - cumprimentou Rúbia, dando-lhe um beijo na face e encarando Giselle com uma interrogação no olhar.
- Trouxe-a comigo. Tirei-a do calabouço.
- Uma criança! O que ela fazia lá?
- Marisol me disse que seu pai era médico e foi surpreendido dando-lhe lições de anatomia. Ela falou algo sobre um livro com gravuras...
- Que horror! Prenderam uma criança por causa disso? Mas que disparate! Uma menina...
- Não se iluda Rúbia. Nem as crianças são poupadas da sanha assassina desses padres.
Só agora Giselle compreendia isso. Fora preciso sentir na carne a dor das torturas para entender a crueldade que significava a Inquisição. Fora preciso ver com seus
próprios olhos a dor de uma criança para compreender que nada no mundo poderia justificar tamanha atrocidade.
- O que pretende fazer? - tornou Rúbia, ainda espantada.
- Fugir. Diego me arranjou a fuga. Mas não posso levar a menina comigo. Por isso a trouxe aqui. Gostaria que cuidasse dela para mim.

-


- E os pais dela?
- O pai está preso, e a mãe foi morta ao tentar defendê-la. Rúbia fitou Marisol, toda encolhida, agarrada à saia de Giselle. A menina parecia mesmo um anjo, de tão
linda, e o coração de Rúbia se enterneceu. Rúbia era uma mulher boa e generosa, e logo se comoveu com a sorte daquela criança. Abaixou-se perto dela e falou com
carinho:
- Você é uma menina muito bonita, Marisol. Tem os olhos de mar e o sol nos cabelos.
Marisol sorriu para ela, e Rúbia ficou encantada. A menina parecia ter um magnetismo especial, que a foi envolvendo e fazendo com que ela se apaixonasse.
- Então? - insistiu Giselle. - Vai cuidar dela para mim?
- É claro que vou. Não se preocupe Giselle, cuidarei dela como se fosse minha.
- Sei que é perigoso, mas não tinha outro lugar para levá-la. Deixá-la nas mãos dos carrascos, isso jamais poderia fazer.
- Já disse para não se preocupar. Darei um jeito. Vou escondê-la por uns tempos, até que possamos ajeitar tudo e partir.
- Vocês vão embora?
- Sim. A Espanha não é lugar para nós. Não podemos mais esconder o nosso amor, e aqui ninguém jamais nos aceitaria. Na certa, iríamos presos também.
Giselle precisou conter o ímpeto para não pular em seu pescoço e pedir a ela que fossem para Alexandria, onde poderia se juntar a eles e cuidar de Marisol. Ao invés
disso, franziu a testa e observou com horror:
- Não diga uma coisa dessas nem brincando.
- Não se iluda Giselle. Se monsenhor Navarro não fosse tio de Diego, aposto que já estaríamos presos. Incesto é alta heresia.
- Oh! Rúbia sinto muito.
- Não é preciso. Vamos embora daqui sem nenhum tipo de remorso. A Espanha, muito mais do que o resto da Europa, se tornou um lugar muito perigoso para se viver.
Precisamos partir para encontrar a felicidade.
- Para onde vão?
- Ainda não sei. Para qualquer lugar longe daqui. E levarei Marisol comigo.
Giselle começou a chorar de mansinho, louca para pedir que eles fossem para Alexandria, mas julgava-se tão criminosa que não se atrevia a pedir nada para si mesma.
Ainda mais a Rúbia.
- Não chore Giselle - consolou Rúbia, abraçando-a com carinho. - Tudo vai acabar bem.
- Oh! Rúbia perdi tudo o que tinha no mundo. As pessoas a quem amava... Todas se foram. Meu pai morreu há muitos anos, Ramon foi assassinado. Esteban não se importa
mais comigo. E agora, você também vai embora. Sinto-me tão só.
- Mas você agora está livre, e isso é o que importa. Já sabe para onde vai?
- Para Alexandria.
- Dizem que lá é maravilhoso. Mas tenha cuidado. Procure levar uma vida direita.
- Vou trabalhar Rúbia. Você vai ver. Posso fazer qualquer coisa.
- Talvez convença Diego a irmos para Alexandria também. Poderemos viver todos juntos lá.
Giselle exultou. Aquilo era tudo o que esperava ouvir.
- Seria maravilhoso... - sussurrou.
Rúbia soltou um suspiro sentido e prosseguiu:
- Gostaria que Diego estivesse aqui para que pudéssemos acertar tudo...
- Não posso me demorar muito. Se a guarda de Miguez me pegar, será o meu fim.
- Tem razão. Mas não se preocupe com nada. Vou lhe dar dinheiro suficiente para se manter por algum tempo, até arranjar algum trabalho.
Mal contendo a emoção, Giselle se atirou aos pés de Rúbia e beijou-lhe as mãos, molhando-as com lágrimas de gratidão.
- Não sei se mereço alguém feito você...
Aturdida e sem jeito, Rúbia puxou a mão e fez com que ela se levantasse, abraçando-a com ternura.
- Você é minha amiga, e o amor que sinto por você está além de qualquer coisa que você possa ter feito. Por mais que não concorde com nada do que você fez, não posso
deixar de amá-la.

A emoção tomou conta de Giselle de forma arrebatadora, e ela desatou num pranto sentido e sincero. Aquele deveria ser o verdadeiro amor, e não os que Giselle experimentara
até então.
- Obrigada... - foi só o que conseguiu dizer.
- Bem - retrucou Rúbia, tentando não chorar também. - É melhor você se apressar. Logo estarão aqui à sua procura.
Rúbia deu a Giselle uma bolsa com muitas moedas de ouro, e elas se despediram calorosamente. Giselle beijou Marisol e acariciou o seu rosto, tranqüilizando-a quanto
ao futuro. Rúbia seria uma excelente mãe para ela. Em seguida, partiu de novo a cavalo, os olhos turvos das muitas lágrimas que derramava.
Seguiu até Santa Maria e de lá tomou a direção do pequeno povoado chamado Los Lobos. O povoado era, na verdade, uma pequenina aglomeração de casas numa chapada,
construídas ao pé de uma colina que se erguia ao lado de uma série de outras colinas. Giselle sabia que, do outro lado, encontraria o mar. Mas chegara um dia antes
do combinado e teria que esperar.
O céu havia se tornado cinza-chumbo, e ela deduziu que ia chover. Precisava se abrigar. Olhou em redor, mas não viu nenhuma estalagem ou coisa semelhante e acabou
se ocultando numa pequena gruta, um pouco mais afastada. Rúbia lhe dera um pedaço de pão e queijo, e ela se alimentou vagarosamente, a cabeça já tombando de tanto
sono. Em segundos, adormeceu, ouvindo ao longe o som dos trovões, que começavam a ribombar, e a chuva logo desabou sobre a colina.



CAPÍTULO 37

O primeiro inquisidor a entrar na masmorra naquele dia foi padre Donário, que ia ao encontro do pai de Marisol, por cuja prisão fora responsável. Esteban, desculpando-se
com a dor de cabeça, não se levantou da cama, e Miguez ainda se ressentia da noite mal dormida ao lado de Blanca. Estava a caminho da masmorra quando viu padre Donário
sair correndo e gritando.
- O que foi que houve? - quis saber Miguez, segurando-o pelo braço.
- Estão mortos! - berrou o outro, assustado. - Todos mortos!
- Quem? Quem está morto?
- Os guardas! Todos mortos! Envenenados!
Miguez soltou o braço do homem e correu para a masmorra. A porta da frente estava aberta, e ele seguiu direto para o cárcere feminino, cuja porta estava apenas encostada.
Abriu-a de chofre e olhou para o tronco onde Giselle costumava ficar amarrada. Nada. Ela havia sumido. Nem deu pela falta de Marisol. A menina não era presa sua,
e ele não estava interessado nela.
Com ódio no olhar, voltou correndo para fora. Os soldados já começavam a chegar, junto com o inquisidor-geral, que se encontrava em Sevilha naquela oportunidade.
Miguez nem os cumprimentou. Passou por eles feito uma bala e foi direto aos aposentos de Esteban. Ele estava acordado, embora ainda fingisse dormir, quando ouviu
as batidas na porta. Miguez a esmurrou com força, e Esteban se levantou para atender, abrindo-a com ar de espanto.

- Miguez! - exclamou com fingida surpresa. - O que foi que deu em você? Por que vem aqui desse jeito?
- O que foi que você fez Esteban? - vociferou o outro, entrando apressado no quarto.
- O que foi que eu fiz? Como assim? Eu estava dormindo...
- Foi você, Esteban, eu sei! Não adianta fingir para mim.
- Não sei do que está falando. Tem certeza de que está se sentindo bem? Porque eu não estou. Desde ontem, estou com aquela terrível dor de cabeça.
- Pare com isso! A quem quer enganar?
- Não quero enganar ninguém, mas é que não estou entendendo nada. Por que é que não se senta e me conta o que foi que aconteceu?

Miguez quase o esmurrou. Estava coberto de ódio e tinha quase certeza de que aquilo fora obra de Esteban. Contudo, procurou se acalmar e revidou entre dentes:
- Giselle fugiu.
- Fugiu? Mas como pode ser?
- Pensei que você soubesse.
- Eu? Ora, Miguez, francamente. Como pode pensar que eu tive algo a ver com isso?
- Não adianta fingir, Esteban. Sei que foi você. Os guardas estão mortos, todos os três. Envenenados.
- Como é que sabe que foram envenenados?
- Pensa que sou estúpido? Eu mesmo os vi!
- Miguez, tente se acalmar. Lamento que Giselle tenha fugido, mas não tenho nada a ver com isso.
- Ah! Não? Pois se não foi você, quem é que foi então?
- Sei lá. Talvez um de seus amantes.
- O único amante que arriscaria a vida por ela está morto. E não creio que a alma de Ramon tenha se levantado do inferno para vir salvá-la.
Esteban tomou um gole de seu xarope e sentou-se na cama, apertando as têmporas, que realmente haviam começado a latejar.
- O que quer que eu faça Miguez? Não tenho nada com isso.
- Estou lhe avisando, Esteban. Sou seu amigo e daria a vida por você. Mas não posso permitir que tripudie sobre a autoridade da Inquisição!
- Da Inquisição ou da sua?
- É a mesma coisa! Eu sou a Inquisição. Você é a Inquisição!
Esteban engoliu em seco. Ele tinha razão. Agira contra seus próprios princípios, contra a instituição que jurara defender. Tudo por causa de uma mulher. Mas ela
fora a sua mulher um dia, e agora era praticamente como sua filha. Como abandoná-la sem ao menos dar-lhe uma chance de tentar se salvar? Os argumentos de Miguez,
contudo, eram por demais poderosos para serem ignorados, e ele tornou com angústia:
- O que quer de mim, Miguez? Já disse que não tive nada com isso.
- Pois então prove.
- Provar como?
- Dê ordens aos soldados para que a capturem.
- Como espera que eu faça isso? Nem sei onde ela está.
- Tenho certeza de que vai descobrir - finalizou, sussurrando bem baixinho em seu ouvido.
Em seguida, Miguez saiu dos aposentos de Esteban e foi para o Tribunal, onde acabou descobrindo que Giselle fugira levando consigo uma menina, de nome Marisol, cujo
processo se encontrava aos cuidados de padre Donário. Vários homens foram mandados à sua procura, sem sucesso, porém. Até ao castelo de Rúbia haviam ido, mas ela,
já prevenida, escondera a menina numa câmara secreta, e os soldados nada puderam encontrar.
Em Sevilha, as buscas também continuavam. Ninguém sabia como Giselle podia ter desaparecido tão misteriosamente nem entendiam como os guardas haviam se deixado envenenar.
Ficou esclarecido que haviam bebido vinho envenenado, e todos se perguntavam quem os teria dado. Aquilo era um disparate. Alguém fugir da masmorra era considerado
uma falta gravíssima, e o prisioneiro, logo que capturado, seria sumariamente condenado, pois a fuga já era uma evidente prova de culpa. Por isso, ao ser recapturada,
Giselle seria considerada culpada e o processo estaria terminado com a sua execução.
Mas Miguez tinha algo especial para ela. A pedido de Lucena, Giselle teria a mesma sorte que dom Fernão. A fogueira seria pouca. O machado, então, uma bênção que
ela não merecia receber. Não. Giselle precisava sofrer. Depois de longas sessões de tortura, quando seu corpo já não agüentasse mais, ele a colocaria na Virgem de
Nuremberg, e Giselle morreria aos pouquinhos, de hemorragia e infecção, tal qual dom Fernão morrera.
Esteban sabia de tudo isso e queria ao máximo evitar essa morte horrenda. Por isso, ajudara-a a fugir. Mas agora, as coisas poderiam se complicar para ele. Sentiu
medo do que Miguez pudesse fazer. Por mais amigo que fosse ele estava com raiva, e a raiva costuma levar as pessoas aos atos mais extremos. Ainda que se arrependesse
depois, Miguez poderia fazer algo que o comprometesse seriamente. Mesmo que não fosse levado ao Tribunal, sua honra seria maculada, e talvez até o papa o destituísse
de suas funções inquisitoriais. Aquilo seria a ruína, uma ruína que precisava evitar.
Tomou uma resolução. Gostava demais de Giselle, mas alertara-a seriamente das conseqüências de sua insensatez. Por várias vezes a advertira de que não poderia ajudá-la.
Ainda assim, tentara. Só que agora, as coisas estavam fugindo ao seu controle. Miguez lhe fazia ameaças veladas, e ele precisava pensar em si próprio.
Levantou-se e foi para o Tribunal. Miguez estava reunido com outros inquisidores, discutindo onde mais poderiam encontrar Giselle, quando Esteban entrou. Os outros
o olharam de soslaio, ninguém tinha coragem de insinuar nada. Nem Miguez fizera qualquer insinuação. Aquilo deveria ficar entre eles.
Com um aceno de cabeça, Esteban cumprimentou-os. Miguez pediu licença aos demais e saiu com ele para o pátio externo.
- Então? - indagou com ar intimidador. - Pensou bem no que lhe disse?
Esteban olhou o outro bem fundo nos olhos e respondeu com voz grave:
- Sim. E já tomei a minha decisão.
- Muito bem. Qual foi?
- Se mandar os homens atrás de Giselle, promete não fazer mais perguntas?
- Prometo.
- Não vai querer saber como ela saiu da masmorra nem quem a ajudou?
- Não. Pode confiar em mim. Você tem a minha palavra. Entendo o seu gesto e não vou acusá-lo, contudo, não posso permitir-me perder a mulher que mais odiei em toda
a minha vida. Só o que quero é Giselle de volta. Ela agora me pertence!
Falou isso com tanto ódio, que Esteban sentiu um calafrio. Lamentava muito por Giselle, mas não tinha como salvá-la. Com um suspiro de profundo pesar, finalizou:
- Está certo. Aceito a sua palavra. Deixe tudo comigo e não faça perguntas.
Esteban reuniu os soldados e deu-lhes a indicação do local onde Giselle estaria seguindo as orientações que Diego lhe dera. O barco foi interceptado ainda no porto,
e alguns soldados embarcaram. Tudo foi feito com muita rapidez, pois o dia marcado para o encontro já estava bem próximo.
Os homens de Esteban se colocaram dentro da gruta que dava na pequena praia por onde Giselle supostamente desceria para esperar o barco. Com os ventos e a chuva,
o mar havia se tornado extremamente agitado, com ondas rebentando gigantescas nas rochas diante do promontório.
Quando Giselle terminou de descer a colina e alcançou a praia, a chuva havia dado uma trégua, e ela estudou com assombro o local em que estava. Era uma garganta
estreita, perfeita para uma emboscada. Sentiu medo, mas não viu outra solução. Enchendo-se de coragem, começou a subir pelas pedras, rumo à faixa estreita que ladeava
o penhasco e adentrava o mar. Foi quando ouviu um ruído e olhou. Saindo de dentro da gruta, dezenas de homens vinham em sua direção, espadas em punho, prontos para
matar. Vendo-se sem saída, Giselle começou a arrastar-se pelas pedras, tentando ultrapassar a montanha e alcançar a plataforma que se erguia na ponta do cabo, alguns
metros acima do mar revolto. Era perigoso, mas não podia se deixar pegar.




Os homens de Esteban saíram em seu encalço, ao mesmo tempo em que flechas começaram a zunir diante de seus olhos. De repente, um dos soldados se adiantou e pôs-se
a segui-la, enfrentando as vagas que espocavam nas rochas. O homem ainda se lembrava das ordens que Esteban lhe dera antes de sair de Sevilha:
- Mate-a. Acerte uma flecha em seu coração. Mas seja rápido. Não quero que ela sofra.
Acertá-la, era impossível. O vento não permitia que as flechas a atingissem, e a única solução seria alcançá-la e levá-la de volta. Ordenaria então uma execução
rápida e depois diria que ela tentara fugir. Monsenhor Navarro não queria que ela sofresse, e ele faria tudo rapidamente.
Mas o mar, atiçado pela fúria da tempestade que desabara durante toda a noite, não estava ajudando. Nem a ele, nem a Giselle. Em dado momento, seus dedos chegaram
a roçar os dela, mas as ondas foram mais rápidas. De repente, um imenso vagalhão a atingiu, e Giselle foi arrastada para o fundo do mar. O soldado ainda tentou segurá-la,
mas em vão. A espuma das ondas logo a encobriu, e Giselle foi tragada pela água cinza e revolta. Por pouco, ele não fora também. Melhor, pensou. Assim não teria
que correr o risco de padre Miguez não acreditar na sua palavra. Ele a queria viva para a Virgem e talvez não se convencesse de que ele tivera que matá-la para que
ela não fugisse.
Durante muito tempo, ficou olhando para a espuma branca do mar, agarrado à pedra, com medo até de se mover. Ainda precisava fazer o caminho de volta, o que não seria
nada fácil. Se por terra a caminhada era difícil, na água então, seria impossível salvar-se. Giselle, àquela altura, já se encontrava no fundo do mar, e não havia
nada que ele pudesse fazer para salvá-la. Todos os soldados foram testemunhas de que ele tentara levá-la de volta, mas o mar fora mais forte. Fizera todo o possível
para tirá-la dali, mas ninguém tinha forças contra a fúria das ondas.
Ninguém desconfiou das ordens de Esteban. O soldado, tampouco, nada dissera, e Miguez sentiu imensa decepção ao receber a notícia de que Giselle morrera tragada
pelas ondas. Esteban, por sua vez, embora se entristecesse, sentiu-se aliviado por vê-la livre daquela morte indigna e cruel.
Naquela noite, depois que recebeu a notícia, Miguez voltou para junto de Lucena cabisbaixo. O que iria lhe dizer? Abriu a porta vagarosamente e sentou-se na sala.
Imediatamente, Lucena se aproximou e foi logo perguntando:
- E então? Encontraram-na?
- Sim...
- Excelente...! - só então percebeu o seu olhar de angústia e indagou alarmada: - O que foi que houve? Ela conseguiu fugir?
- Pior. Ela morreu.
- Morreu? Como?
- Tentou fugir e caiu no mar.
Lucena sentiu raiva e uma grande frustração. Não era aquilo que esperava para Giselle. Queria assistir a sua morte lenta, assim como fora obrigada a acompanhar os
estertores de seu pai. Mas até isso ela lhe tomara. Roubara-lhe a chance de exultar ante a sua agonia.
- Cadela! - vociferou Lucena, com ódio. - Até na morte ela me vence.
- Não diga isso, Lucena. Você a venceu. Tomou-lhe tudo. E depois, ela está morta. Você não. Está viva. Pense nisso, Lucena. Você está viva!
Um sorriso diabólico desenhou-se no rosto de Lucena, que tornou com voz mordaz:
- Tem razão. Não vou deixar que a sua morte prematura me roube à alegria da vitória. Em breve poderei reabrir sua taverna, e Manuela continuará a trabalhar lá. Só
que para mim.
- Tem certeza de que é isso o que quer? Cuidar da taverna?
- Quero possuir e usufruir de tudo o que lhe pertenceu. Estou até pensando em me mudar para a casa que foi dela. Creio que ninguém mais pensa em Blanca, todos a
julgam mesmo morta. Ninguém vai suspeitar que ela esteja viva e morando comigo.
Embora não houvesse conseguido completar a sua vingança, Lucena ficou satisfeita. Tudo o que um dia fora de Giselle agora lhe pertencia. A única coisa que não conseguira
lhe tomar fora sua alma.




EPÍLOGO

Finalmente, quando Giselle, emergiu das águas, inspirou avidamente, embora estivesse certa de que vira seu corpo ser arrastado pela correnteza. Talvez houvesse desmaiado
por instantes e seu corpo tivesse flutuado até a superfície, o que lhe deixou aquela sensação esquisita. Ela havia trabalhado com muitos espíritos, mas estava certa
de que o mundo invisível não poderia ser nada parecido com aquele. Afinal, ainda respirava.
Só então se deu conta de que continuava sendo levada pela correnteza e notou que não havia terra por perto. Como pudera ter sido arremessada tão longe? Ao menos
se livrara dos soldados e dos arqueiros, mas ainda não sabia como faria para voltar. Pelos seus cálculos, devia estar muito longe do litoral, e nadar seria impossível.
Nem sabia para que lado devesse ir.
Foi quando percebeu uma luminosidade vinda do alto e olhou para cima. Parado um pouco acima de sua cabeça, um homem flutuava, envolto em suave luz branca. Giselle
tomou um susto, mas fixou o olhar, tentando identificar de onde o conhecia. Ele foi se aproximando e colocou-se a sua frente, ainda flutuando alguns centímetros
acima do mar. Ela o encarou por alguns minutos e, de repente, tudo se fez claro. Quem estava ali era seu pai, e seu olhar bondoso lhe dizia que viera para cumprir
a promessa que lhe fizera de ir buscá-la quando desencarnasse. Giselle levou um susto. Naquele momento, vendo o olhar compreensivo do pai, teve certeza de que havia
desencarnado, e ele ali estava mãos estendidas, pronto para puxá-la da água.
Logo que Giselle pensou em segurar a sua mão, a lembrança de todos os seus crimes aflorou a sua mente. Na mesma hora, puxou a mão, envergonhada, e abaixou os olhos.
Não era digna daquela bênção. No exato instante em que aquele pensamento perpassou a sua mente, sentiu que uma horda enegrecida a ia envolvendo. Ainda assim, levantou
os olhos timidamente para o pai, que a olhava com bondade, ainda com as mãos estendidas, num convite mudo e suave para que ela o seguisse.
Era o que ela mais queria. Já sofrerá tanto! Queria muito partir com seu pai para o mundo que ele habitava. Com certeza, se os anjos e santos viviam em algum lugar,
era lá que seu pai estaria. Sentindo o desejo sincero de Giselle, a horda se afastou temerosa. Eram espíritos das sombras, muitos dos quais haviam deixado a carne
envoltos em ódio e desejo de vingança, levados à morte pelas palavras traiçoeiras de Giselle. Outros eram espíritos ignorantes que, durante muitos anos, acorreram
aos chamados de Giselle, todas as vezes que ela lhes fazia aquelas oferendas macabras na floresta. Mas todos estavam unidos num só propósito: arrastar Giselle para
as cavernas mais sombrias do astral inferior.
Por maior que fosse o seu poder das trevas, nenhum desses espíritos era forte o suficiente para enfrentar o poder da luz. Diante de um ser iluminado feito Ian, eles
se sentiam intimidados e ameaçados, e não tinham coragem nem força para retirar Giselle de sua presença. Só o que podiam fazer era esperar até que Giselle se decidisse.
Se resolvesse partir com Ian, eles nada poderiam fazer. Contudo, se não conseguisse vencer o pensamento secreto que a culpa lhe trouxera de que deveria ser punida,
ela mesma acabaria se colocando nas mãos deles e não teria força suficiente para acreditar que não precisava habitar as trevas.
A hesitação durou alguns minutos. Giselle oscilava entre o desejo sincero de se perdoar e a culpa que a atormentava, e tanto Ian quanto os outros permaneceram em
silenciosa expectativa. A malta, louca para avançar sobre ela. Ian, em oração, tentava alcançar o coração da filha e dizer-lhe que não havia crime que não merecesse
perdão.
Mas a culpa de Giselle impediu o acesso dos pensamentos do pai e criou uma barreira invisível, fazendo com que ela acreditasse que não era digna de perdão. Nem dos
que prejudicara, nem de si mesma. Assim, abaixou a cabeça novamente e chorou de mansinho, coração oprimido pela culpa, rompendo o elo poderoso que se havia estabelecido
entre ela e o pai. Na mesma hora, ele foi-se desvanecendo diante de seus olhos, e Giselle, ligada agora aos espíritos das trevas, cerrou os olhos e sentiu todo o
peso do remorso a lhe corroer a alma, martelando em sua cabeça que nenhum réprobo feito ela podia pretender tocar os pés de um espírito de luz.
Imediatamente, Giselle sentiu-se de novo envolvida por aquela horda e foi sugada para o fundo do mar por dezenas de mãos que a seguravam impiedosas. Num gesto desesperado
e aturdido, olhou de novo para cima, e a última coisa de que pôde se lembrar foi da claridade do dia, que inundava a superfície, sendo apagada à medida que ela descia
para as profundezas do mar.
Durante muitos anos, Giselle permaneceu no astral inferior, presa àqueles mesmos espíritos que ajudara a destruir. Dentre eles, dom Fernão era o mais assustador.
Adquirira um ar de fera e não se cansava de lhe infligir toda sorte de torturas. Aos poucos, ele foi ganhando força e poder, e acabou conquistando uma posição invejável
dentro da hierarquia das trevas.
Mas não há trevas que não se dissipem, assim como não há culpa que não alcance o perdão. Os muitos anos de sofrimento no umbral trouxeram a Giselle o desejo de se
perdoar e se modificar. Queria muito sair dali e reencontrar o pai. Nunca mais vira nem Rúbia, nem Ramon, nem Esteban. Giselle se sentia extremamente só. Não queria
mais fazer parte daquele mundo de lama e de sombras.
Em silêncio, orou aos céus, pedindo a Deus que permitisse que seu pai fosse ajudá-la novamente. Após a sincera oração, a luz se fez presente ao seu redor, e Ian
tornou a aparecer envolto no mesmo halo de luz branca em que se acostumara a vê-lo. Giselle chorou por longos minutos, com medo de se aproximar. Mas Ian, tocado
pelo seu sentimento, aproximou-se e estendeu-lhe a mão. Giselle a tomou timidamente, e o pai a envolveu num abraço amoroso e confortador. Cabeça encostada em seu
peito, Giselle chorou. Não conseguia falar.
Ian compreendeu o seu pranto sofrido e alisou os seus cabelos. Em seguida, passou a mão sobre a sua testa, e Giselle foi sentindo uma leve e suave sonolência, suas
pálpebras foram pesando, e ela sentiu que o corpo todo amolecia nos braços do pai. Adormeceu profundamente, e Ian a envolveu novamente, volitando com ela em direção
ao céu estrelado.
Quando despertou, foi com alegria que Ian a recebeu.
- Como está, minha filha? - perguntou ele, acariciando seu rosto.
Giselle ficou olhando para ele por alguns minutos, sentindo os olhos úmidos de lágrimas. Apanhou a sua mão e beijou-a com fervor, falando entre soluços:
- Sinto-me bem, pai. Parece que renasci.
- E renasceu mesmo. Você hoje experimenta uma nova vida. Não porque esteja livre das trevas. Mas porque a sua alma não pertence mais àquele lugar.
- Oh! Pai! Por que tive que ser tão má?
- Não diga isso, Giselle. Ninguém no mundo é mau. Os que erram, o fazem por ignorância.
Giselle pensou durante alguns segundos, com olhar entristecido, até que retrucou:
- E os outros? O que foi feito deles?
- Assim como você, estão tentando entender. Sei que você está querendo é saber de Ramon. Fique sossegada. Ele está por perto e, em breve, poderá vê-lo - Ian fingiu
não notar o rubor que lhe subia às faces e prosseguiu: - Esteban também veio para cá, após longo período de desespero nas trevas...
- Esteban... Durante todo o tempo em que permaneci nas trevas, jamais o encontrei.
- Isso porque a sua consciência ainda o atormenta muito, principalmente no que se refere a você. Não teve coragem de encará-la e amargou muitas culpas, mas agora
se mostra arrependido e pede uma nova chance para se modificar.
- E Rúbia?
- Rúbia está muito bem. Está encarnada no momento, tentando ajudar Diego em suas relações com o mundo material. Ele ainda é muito apegado aos falsos valores da riqueza
e dos prazeres fáceis.
Giselle silenciou novamente, com medo de fazer novas perguntas, temendo respostas que não sabia se estava pronta para ouvir.
- E... Os meus inimigos?
Com um sorriso entristecido, Ian respondeu:
- Lamentavelmente, alguns, como Lucena, Miguez e Fernão, ainda se julgam seus desafetos e alimentam desejos de vingança.
- Sei disso - tornou acabrunhada, sentindo um calafrio. - Ainda guardo vivas na lembrança as torturas que gostavam de me infligir. Foi difícil escapar de sua vigilância
e da prisão em que encerraram meu espírito.
- Nem tão difícil. No momento exato em que você desejou isso de coração, a ajuda concretizou-se veloz. E você foi logo socorrida e trazida para cá.
- Imagino que eles devam estar inconformados. Sabem onde estou?
- Fazem uma idéia. E essa idéia os fez pensar. Miguez e Lucena estão a um passo de vislumbrar a luz da verdade e já começam a se questionar sobre tudo o que lhes
aconteceu. Quanto a dom Fernão... Bem, ele ainda está renitente em seus propósitos de vingança e ódio. Não se conforma de havê-la perdido, e creio que vai levar
ainda alguns anos até que abandone o importante cargo que ocupa na hierarquia das trevas. É muito difícil, minha filha, para os espíritos que conquistam importância
nas trevas desapegarem-se de seu poder. Vivem na ilusão do poder e do orgulho e não querem perder essa posição, porque sabem que, do lado da luz, não existem cargos
mais ou menos importantes do que outros. Todos são iguais em importância.
- E Blanca?
- Blanca é uma alma nobre. Foi muito bem recebida aqui e hoje trabalha auxiliando os espíritos que desencarnam nos autos de fé e nas rodas de tortura.
-

-
- O mundo ainda está nas mãos da Inquisição? - indagou perplexa.
- Lamentavelmente, minha filha, a Inquisição ainda há de reinar por mais alguns anos.
- Por que, pai? Por que tanto sofrimento?
- Nada no mundo acontece por acaso. A Inquisição, assim como as guerras e outras catástrofes, serve a um propósito divino. Muitos espíritos a ela acorreram na tentativa
de compreender e refazer atitudes do passado, experimentando situações semelhantes àquelas nas quais se viram envolvidos por seus instintos mais primitivos. De um
lado e de outro, há espíritos comprometidos com os horrores das muitas guerras, das arenas, dos sacrifícios. Vítimas e algozes lutam para compreender o valor do
amor, do respeito e do perdão. São espíritos infantis, que apenas agem de acordo com o estágio de evolução em que se encontra a humanidade.
- A humanidade parece ainda estar bem longe da evolução.
- A humanidade caminha para o crescimento. Desde que o homem pisou na Terra pela primeira vez, vem lutando para evoluir, em todos os sentidos. Existem muitas diferenças
entre o homem de hoje e o da pré-história, por exemplo. O homem de ontem não conhecia o fogo, o ferro, a espada. Também não sabia o que era amor, amizade, perdão.
Vivia por seus instintos e para seus instintos. Se alguém o ameaçava, respondia com violência e agressão. Matava-se porque não se conhecia o valor da vida alheia,
mas apenas o de sua própria vida. O homem de hoje, apesar de ainda guardar muito desse primitivismo, já foi se socializando e criou normas que o auxiliam a conviver
com seus semelhantes. Só que o egocentrismo ainda perdura, trazendo a sede de poder, e falsos valores de moral e religiosidade imperam na mentalidade humana. Deus
não quer a morte de suas criaturas. Quer que elas aprendam a se amar. Ninguém precisa matar para defender o nome de Deus, porque Ele é inatingível pelos atos humanos.
Porque é amor em essência, e o amor tudo compreende e perdoa não se ressentindo das atitudes infantis de quem ainda não conhece os verdadeiros valores do espírito.
Mesmo que você o repudie ou o ofenda, Deus jamais se zangará ou a punirá. Ao contrário, lhe enviará cada vez mais ondas vibrantes de amor, para que você possa despertar
o amor dentro de você e crescer.
- Mas por que tem que ser assim? Por que precisamos errar e sofrer para aprender a amar?
- Ninguém precisa errar muito menos sofrer. O amor precisa ser despertado e estimulado, porque já existe em essência dentro de cada um de nós.
- É, mas hoje sei que o que fiz não foi certo. Minha consciência me acusa de meus crimes a todo instante. Como poderei não sofrer para pagar por tudo o que fiz?
- Se você consegue compreender a razão de seus atos, não precisa sofrer. Quanto a pagar, essa é uma compreensão errada das verdades divinas. Ninguém deve nada a
ninguém, a não ser a si mesmo. Não é só porque você matou que vai precisar morrer. Vai morrer se quiser. Mas, se conseguir entender por que matou, libertando-se
da culpa e se perdoando, não vai precisar ser assassinada por ninguém. Ao contrário, vai buscar caminhos mais úteis, salvando vidas, por exemplo, devolvendo ao mundo
aquilo que ajudou a tomar.
- Como fazer isso, pai? A culpa é um tormento...
- É verdade. Mas precisamos aprender a nos libertar dela.
- Não é tão fácil. Ainda que eu consiga me perdoar, como obter o perdão daqueles que prejudiquei?
- Se você se perdoar de verdade, nenhum espírito conseguirá atingi-la, e você servirá de exemplo para que ele a perdoe também. Mas não se iluda Giselle. Perdoar
os nossos inimigos é muito mais fácil do que perdoar a nós mesmos. Nós passamos pela vida com a intenção de aprender, mas todo aprendizado não deve passar só pela
mente. É preciso que adentre o coração. Quando você racionaliza, é como se decorasse a lição e a repetisse, simplesmente porque aprendeu daquele jeito. Mas quando
aquele ensinamento se abriga no coração, é porque você alcançou a compreensão verdadeira e não vai mais precisar repetir para se convencer. Aquela experiência, além
de desnecessária, já não é mais útil para você.
- É isso o que o mundo está tentando aprender?
- Esse é um momento de transição, onde muitos espíritos receberam a chance de se libertar da animalidade e dar um salto para o futuro. Mas muitos ainda não estão
prontos e não conseguem se desprender dos sentimentos mais primitivos, como o ódio, o orgulho, a vingança. São espíritos ainda muito egocêntricos, porque só o que
conseguem desejar são o seu próprio bem-estar e o daqueles que lhes são mais caros. Mas ainda não conseguiram internalizar a necessidade do bem comum. Não sabem
ainda reconhecer em seus semelhantes os mesmos sentimentos que também possuem. São como feras que matam para sobreviver. Por maldade? Não, por instinto. Porque,
para elas, a única coisa que importa no mundo é a sua sobrevivência. Ninguém pode acusar um leão de crueldade, porque a única forma que ele conhece de saciar a sua
fome é matando. Matar é da sua natureza.
- Um leão será sempre um leão. Não tem inteligência, não tem raciocínio.
- Mas a alma animal que nele habita, um dia, vai encontrar um novo jeito de se manifestar e se apresentar ao mundo, e vai retornar em outro corpo mais evoluído.
A lei de evolução é eterna, e a vida que anima o leão também é impulsionada para evoluir. Quando isso acontecer, ela deixará de ser leão e voltará numa forma felídea
já mais adiantada. A espécie, contudo, continuará existindo, para que muitas outras formas de vida animal, que abandonaram formas ainda inferiores, possam vivenciar
aquela nova experiência, até que alcancem a compreensão e a maturidade que aquele instrumento busca lhes dar. Terão então conquistado novo aprendizado, importante
para o grupo do qual fazem parte, e continuarão indo e vindo, trocando de forma, até que um dia estarão aptos à individualização.
- E os homens?
- Evoluem até que alcancem a perfeição relativa que é própria deste mundo. Um homem será sempre um homem, mas, diversamente dos animais, se utiliza da mesma forma
física em seus processos de evolução. O espírito que anima a forma nominal, ao desencarnar e reencarnar continuará assumindo a forma humana, mas terá evoluído algo
de seu intelecto e de sua moral. O homem já está apto a raciocinar e sentir, é um ser individualizado, consciente de si mesmo, embora ligado ao todo do qual escolhesse
fazer parte. Quando um homem aprende, está auxiliando no aprendizado de toda humanidade. As novas idéias surgem dos grandes gênios, mas as suas obras não permanecem
reclusas no seu estreito limite de existência. Ao contrário, saem para o mundo e passam a pertencer a toda humanidade.
Giselle permaneceu algum tempo pensando. Havia tantas coisas que não conseguia entender! Mesmo as palavras de seu pai soavam estranhas para ela. Entretanto, uma
coisa havia compreendido: a necessidade de aprender os verdadeiros valores do espírito. Não queria mais permanecer nas trevas da ignorância, agindo como um animal
em busca da satisfação de seus instintos.
- O que poderei fazer para me modificar? Prejudiquei muitas pessoas com a minha ignorância pai, e sinto necessidade de auxiliar no crescimento da humanidade. Queria
devolver ao mundo o que ajudei a tirar de tantas pessoas, muitas, de cujos rostos nem consigo mais me lembrar.
- Seu coração está sentindo a necessidade de crescer, e isso é muito bom. Mas não se apresse. Estude com calma as possibilidades e trace planos para o futuro. Mas
lembre-se: há pessoas que conviveram com você e com as quais você terá que se entender. Será que, quanto a elas, esse desejo ainda perdura?
- Não sei... Não havia pensado nisso.
- Pois pense. Planeje sua próxima reencarnação tendo em vista a necessidade de perdão e de aprimoramento. Você ainda não se perdoou Giselle, e sabe disso. E a culpa
poderá ser um entrave ao seu crescimento.
- Creio que tem razão, pai. Mas o que poderei fazer? Não quero continuar carregando esse peso.
- Por isso é que lhe disse para pensar. Projete a sua vida futura em três níveis: um individual, outro coletivo e outro universal. Trabalhe a sua individualidade,
analisando seus sentimentos, os seus processos de dor e de culpa, os seus desejos e tudo o mais que se refira somente a você. Seja sempre sincera consigo mesma e
procure não mistificar a sua essência. Além disso, integre-se ao grupo no qual escolher nascer. Aprenda a ser filha, mãe, esposa, amiga. Vivencie todas essas posições
tendo em vista as suas necessidades e a de seus semelhantes, sem abrir mão do que lhe pertence, mas sem desrespeitar o que não é seu. Saiba reconhecer o seu direito
e o direito alheio, e procure compreender aqueles que não conseguirem alcançar os mesmos valores que você. Eles não serão nem melhores nem piores do que você. Apenas
poderão estar em outro nível de compreensão, no qual você, fatalmente, um dia também já esteve. E, como é de seu desejo, escolha uma atividade voltada para o mundo
em geral. Seja médica, religiosa, professora, artista. O que você quiser e o que mais lhe agradar. Mas faça algo que atinja várias pessoas, pessoas desconhecidas
que poderão se beneficiar de suas obras. Agindo assim, você estará colaborando mais diretamente com o universo, levando às muitas almas aquilo de que elas mais necessitam:
alívio, carinho, conhecimento, beleza... E sua ajuda será imparcial, porque voltada para aqueles que você nem conhece. Assim como você tirou dos que não conhecia,
poderá estar auxiliando esses mesmos desconhecidos naquilo que lhes for mais necessário no momento.
As palavras de Ian tocaram fundo o coração de Giselle. Ela possuía consciência do quanto ainda era primitiva e desejava mudar. Sabia que muitos de seus antigos companheiros
estariam imbuídos dos mesmos propósitos, mas outros não conseguiriam compreender e permaneceriam ainda atados ao ódio e à vingança. Mesmo assim, estava disposta
a tentar. Se não conseguisse, tentaria de novo, e de novo, e de novo. Até que estivesse pronta para realmente dar um passo à frente e evoluir.
Finalmente, estava em paz com o seu coração...


Fim











-



Até que a vida nos separe - MÔNICA DE CASTRO LEONEL


Este livro foi digitalizado e revisado por Leondeniz Cândido
de Freitas, para o uso exclusivo de deficientes visuais.



Para o amigo Marcelo Cezar.
Viver é muito mais do que simplesmente existir;
é poder compartilhar a vida no vaivém das muitas vidas.



Tudo estava pronto para a grande cerimônia daquela noite. Após muitos anos de dedicação e sacrifício, Paulo ia, finalmente,ser
reconhecido por seu trabalho. Seu pai, Hermínio, resolvera se aposentar e passara a presidência da empresa ao filho, e encomendara
uma bonita festa para comemorar a ocasião.
Hermínio, desde cedo, dedicara-se ao ramo dos transportes. Começou fazendo pequenas viagens com um caminhão alugado e, aos
poucos, foi progredindo, até que pôde comprar seu próprio caminhão. Com o tempo e muita economia, foi juntando dinheiro
e adquirindo outros veículos, até que conseguiu uma frota invejável, transportando cargas por todo o País. Os negócios prosperaram
rapidamente, e Hermínio e a mulher, Dulce, viram sua vida mudar e logo passaram a fazer parte da alta sociedade carioca.
Quando os filhos nasceram, sua felicidade foi completa. Paulo, o mais velho, logo se interessou pelos negócios do pai e
formou-se em administração de empresas, estando apto a seguir os passos paternos. A filha, Mariana, cedo casou-se com Marcos,
um dos diretores da empresa de Hermínio, e não tinha filhos.
Paulo estava feliz. Seu pai enriqueceu por mérito próprio e pôde proporcionar à família todo o conforto que o dinheiro podia
comprar. E tudo com honestidade, sem precisar lograr nem roubar ninguém. Fazia tempo que Paulo se preparava para ocupar
o lugar do pai, e hoje estava prestes a realizar seu maior sonho, tornando-se presidente da empresa.
Estava em frente ao espelho ajeitando a gravata quando viu sua mulher entrar no quarto. Flávia usava um bonito vestido cor
de cereja, que contrastava COM sua tez morena clara e seus profundos olhos negros.
Ela olhou para o marido pelo espelho e sorriu, instintivamente apalpando a barriga. Fazia três meses que estava grávida,
e aquela gravidez era-lhe motivo de grande alegria. Desde que se casara, fazia quase cinco anos, não conseguira ainda engravidar
uma única vez. Por isso, sentia-se realizada com a proximidade da maternidade.
Flávia ia passando em direção ao guarda-roupas para apanhar um casaco, mas parou subitamente e deu meia-volta, indo em
direção à porta do quarto.
- Aonde vai?- indagou Paulo, contrariado. - Já está quase na hora. Não quero me atrasar.
Ela deu uma meia parada da soleira da porta e respondeu displicente:
- Não se preocupe, querido. Vou apenas ao banheiro. Senti uma cólica... Acho que estou com dor de barriga. - Mas logo agora?
Que azar!
Flávia não respondeu e entrou no banheiro, fechando a porta atrás de si. De repente, sentiu uma pontada no ventre e fez
uma careta de dor, apertando a barriga e dobrando o corpo para a frente. No mesmo instante, sentiu que algo quente escorria
por suas pernas e olhou para baixo. Sobre o ladrilho branco do banheiro, o sangue começava a se espalhar. Apavorada, Flávia
soltou um grito, chamando pelo marido:
- Paulo! Socorro, Paulo, acuda!
Ouvindo os gritos desesperados da mulher, Paulo largou o que estava fazendo e correu em direção ao banheiro. Empurrou a
porta e entrou, bem a tempo de segurar Flávia, antes que caísse no chão, pois desfalecera naquele exato instante. Rapidamente,
ele ergueu-a no colo e levou-a para a cama, ajeitando-a sobre os travesseiros. Apanhou o telefone e ligou para o médico.
- O Dr. Feliciano não está - respondeu uma voz do outro lado da linha.
Paulo agradeceu e desligou o telefone. Feliciano, na certa, já havia ido para a festa. Aturdido, apanhou a chave do carro
e chamou a governanta, que apareceu logo em seguida, suando e esbaforida.
- Chateou, Dr. Paulo?
Olívia, pelo amor de Deus, ajude-me aqui. Dona Flávia não se sente bem...
Ao ver o estado da patroa, Olívia soltou um grito assustado. Ela estava deitada, pálida, o vermelho do vestido se misturando
ao vermelho de seu sangue.
-Doutor! - exclamou atônita. - O que aconteceu?
- Não sei, Olívia, e não é hora de perguntas. Ajude-me a levála até o automóvel.
Em silêncio, Olívia ajudou o patrão a levantar Flávia e conduzi-la até o carro. Paulo entrou apressado no automóvel, sem
dizer nada. Deu partida no motor e saiu em disparada, cantando os pneus. Estava apavorado. Ia perder a cerimônia, mas temia
muito mais a perda da mulher amada.
Com os solavancos, Flávia despertou, sentindo muitas dores no ventre.
- Paulo... - balbuciou angustiada. - O que houve? O bebê...
-Não fale, querida. Não há de ser nada.
- Aonde está me levando?
- Ao hospital.
- Hospital? Não quero. Quero meu médico.
Feliciano não estava em casa. Não tive alternativa, senão trazê-la para o hospital. - Vendo o ar de apreensão da mulher,
tentou tranqüilizá-la: - Sossegue, meu bem. Vai dar tudo certo.
Flávia não disse nada. Esperou até que chegassem ao hospital e fosse atendida. Depois que Flávia foi levada para a sala
de emergência, Paulo saiu em busca de um telefone. Precisava avisar alguém. Ligou para o clube onde a solenidade se realizaria
e pediu para falar com o pai. Demorou um pouco até que ele atendesse.
- Alô? Paulo, é você? O que está acontecendo? Onde está? Estamos todos preocupados...
- Sossegue, papai. Vou me atrasar, talvez nem possa ir.
- Não pode vir? Por quê? Onde está?
- Estou no hospital.
- Hospital? O que aconteceu?-Obtendo o silêncio como resposta, indagou: - Foi Flávia? Aconteceu algo com o bebê?
Tentando conter as lágrimas, Paulo retrucou:
- Não sabemos ainda...
Desligou. Não podia mais continuar. Do outro lado da linha,
Hermínio, preocupado, continuava falando com o aparelho mudo: - Alô? Paulo, responda! Em que hospital está? Alô! Alô! Depois
de colocar o fone no gancho, Paulo olhou com tristeza
para a atendente que lhe havia cedido o telefone e balbuciou: - Obrigado...
Desabou num banco de madeira encostado na parede do corredor, chorando copiosamente. Tantas esperanças depositadas naquele
filho! A família inteira já comemorava sua chegada. Haviam comprado móveis, pintado o quarto de amarelo, preparado um enxoval
lindo e rico. E para quê? Para nada.
Quando Flávia anunciou que estava grávida, depois de quase cinco anos de casamento, foi uma surpresa para todos os familiares.
Finalmente, o herdeiro que tanto esperavam iria nascer. Paulo preferia um menino, para continuar seu nome e os negócios,
mas uma menina também seria bem-vinda. Ainda que Flávia não pudesse ter outros filhos, essa criança, independentemente de
sexo, seria bem recebida em sua casa e em seu coração.
Paulo estava tão absorto nesses pensamentos que nem ouviu a enfermeira se aproximar. Ela parou diante dele, tocou levemente
seu ombro e indagou:
- O senhor é o marido de Dona Flávia?
Paulo ergueu os olhos para ela, como que tentando entender o
que estava acontecendo. Finalmente respondeu: - Sim, sou eu. Como ela está?
- Sua mulher passa bem, senhor. Infelizmente, porém, lamento informá-lo que ela perdeu o bebê.
Ele fechou os olhos por uns segundos, remoendo toda a sua dor, até que reuniu forças para falar:
- Posso vê-la?
A enfermeira balançou a cabeça e indicou uma porta no fim do corredor, dizendo com voz compreensiva:
- Por aqui.
Paulo seguiu-a em silêncio até o quarto onde Flávia estava adormecida, pálida feito um boneco de cera. Vendo-a tão frágil,
tão insegura, sentiu um aperto no coração e uma vontade louca de estreitá-la em seus braços. Amava-a profundamente, e seu
sofrimento
era-lhe motivo de grande pesar. Ele sabia quantas expectativas ela havia depositado naquele filho, infelizmente em vão.
Vagarosamente, ele se aproximou da cama e ficou a olhá-la. Não queria acordá-la; achava melhor deixá-la dormir. Ia se afastando
para não perturbá-la quando ouviu uma voz atrás de si:
- Paulo...
Ele se voltou com lágrimas nos olhos e encarou-a. Flávia, no mesmo instante, pôs-se a chorar, balbuciando:
- Perdoe-me, querido... Foi minha culpa... Não devia ter feito tanto esforço, não devia!
- Acalme-se, meu amor. Não foi nada. Teremos outros filhos, você vai ver.
- Não, não! Sinto que não terei outra chance.
- Não fale assim. Você não pode saber. E jovem ainda, tem apenas vinte e três anos.
- Mas eu sei! Eu sinto!
Naquele instante, a porta se abriu e um homem vestido de branco entrou. Paulo deduziu ser o médico.
Já era um senhor, e aproximou-se da cama com ar bondoso, pegando no pulso de Flávia.
- Como se sente?
- Bem... mais ou menos...
- Era seu primeiro filho?
- Sim...
- Não se deixe impressionar pelo que aconteceu. Há mulheres que perdem a primeira gravidez, mas depois engravidam e têm
muitos filhos.
Flávia não disse nada. Pensou em responder, mas achou melhor ficar calada. Ele era apenas um médico de emergência e nunca
mais voltaria a vê-la. O que sabia de sua vida?
- Doutor, quando poderei levá-la?-quis saber Paulo.
- Creio que amanhã pela manhã, se tudo correr bem.
- Isso é que não! - contestou Flávia. - Vou-me embora agora mesmo.
- Mas a senhora não deve... - protestou o médico. - Perdeu muito sangue. É melhor que fique em observação.
- O doutor tem razão, querida - interrompeu Paulo. - E melhor que fique e descanse.
- Mas, Paulo, e sua festa? Não quero estragar tudo. Esta noite deveria ser sua.
-Não se preocupe com isso. Papai entenderá...
- Não! - cortou ela rispidamente e olhou para o médico, encabulada.
Percebendo que o casal tinha assuntos íntimos a tratar, o médico pediu licença e retirou-se.
- Bem, tenho alguns pacientes para ver. Se precisar de alguma coisa, aperte a campainha e uma enfermeira virá atendê-la.
Boa noite.
- Boa noite - respondeu o casal em uníssono.
Depois que ele saiu e fechou a porta, Flávia apertou a mão de
Paulo e, olhando-o fundo nos olhos, declarou:
- Por favor, prometa-me que não vai contar nada ainda. - Mas por quê? Todos terão de ficar sabendo, um dia.
- Eu sei. Mas não agora. Dê-me um tempo até eu me acostumar.
Depois, eu mesma lhes darei a notícia.
- Não sei. Talvez seja pior.
- Por favor, é só o que lhe peço. Não diga nada. Principalmen
te à minha mãe. Você sabe quanto ela queria esse neto.
Paulo olhou-a em dúvida e considerou:
- Mas já disse a meu pai que você estava no hospital. - Ah, não, Paulo... Disse a ele que perdi o bebê? - Não disse nada.
Disse que não sabia ainda. Um sorriso de esperança iluminou o rosto dela.
- Então não conte. Por favor, eu lhe suplico. Não tenho forças
para encará-los agora.
- Mas o que lhes direi?
- Diga apenas que passei mal mas que já está tudo bem.
- Para que isso? Vão ficar sabendo, mais cedo ou mais tarde. - Que seja mais tarde.
Embora a contragosto, Paulo fez como ela lhe pediu. A muito custo Flávia conseguiu convencê-lo a deixá-la no hospital durante
a noite e ir para o clube, sem dizer nada.
Quando ele chegouao salão, já passava das dez horas e muitos dos convidados já haviam ido embora. Hermínio tencionava passar a
suas mãos uma placa simbólica, representando a transferência da presidência, mas apenas fez um breve discurso, desculpando-se
com os presentes pela ausência do filho. Dissera apenas que a nora passara mal e ele tivera de levá-la a um hospital.
Quando Paulo chegou, Feliciano foi o primeiro que o viu. Correu a seu encontro, exclamando assustado:
- Paulo! Graças a Deus! Morríamos de preocupação. Como está Flávia?
- Ela está bem agora.
- Por que não mandou me chamar?
- Eu liguei para sua casa, mas você não estava.
- Paulo, meu filho! - Era Dulce, que chegava apressada. - O que houve? Onde está Flávia?
Em pouco tempo, Paulo viu-se cercado de parentes e amigos, todos querendo saber o que havia acontecido. Em poucas palavras,
ele lhes disse que Flávia sentira um ligeiro mal-estar e tivera de ser socorrida às pressas, mas já estava bem, em casa,
descansando. O médico do hospital, apesar de liberá-la, aconselhara-a a guardar o leito, sob pena de pôr em risco a vida
do bebê.
- Irei vê-la imediatamente - falou Feliciano, decidido.
Paulo segurou-o pelo braço e gaguejou:
Não... Não será preciso... Ela está bem... Pediu para não ser perturbada.
- Ora essa, Paulo - indignou-se Dulce. - Onde já se viu uma coisa dessas? Feliciano é seu médico!
- Eu sei, mas ela pediu para avisar a todos que já está bem e que gostaria de descansar. Amanhã iremos a seu consultório,
doutor.
Feliciano deu de ombros e acrescentou:
- Vocês é que sabem.
- Mas eu irei vê-la - disse Inês, mãe de Flávia. - Onde já se viu uma filha recusar a companhia da mãe?
- Dona Inês, entenda: Flávia só está descansando. Fique sossegada que, amanhã, irei pessoalmente levá-la em sua casa.
A muito custo conseguiu convencê-la.
Paulo permaneceu no clube mais duas horas. O jantar já havia sido servido, e ele foi com o pai assinar os papéis que o legitimavam
como o novo presidente da companhia. Via Láctea Transportes era o nome da empresa. Uma sociedade anônima bem constituída,
com ações em alta no mercado, sendo que sessenta por cento continuavam em poder da família Lopes Mandarino. Sua família.
No dia seguinte, Flávia saiu bem cedo do hospital, em companhia de Paulo. Iam silenciosos, remoendo a frustração, tentando
acreditar nas palavras do médico: ela era jovem, poderia ter outros filhos.
Quando chegaram em casa, Olívia ainda dormia. Mais meia hora e estaria de pé. Paulo seguiu com Flávia para o quarto e acomodoua
na cama, deitando-se a seu lado e adormecendo logo em seguida. Estava exausto e não dormira a noite inteira.
Por volta das oito horas, acordou e olhou para o relógio. já era tarde, mas não se sentia com disposição para levantar.
Ficou deitado na cama, ouvindo a respiração suave da mulher, que dormia placidamente, até que escutou batidas leves na porta.
Ele suspirou, levantou-se e foi atender. Era Olívia, que vinha saber dos patrões. Quando fora se deitar, já era tarde e
eles ainda não haviam voltado.
- Graças ao Pai que chegaram! - exclamou, as mãos postas em sinal de oração. - Rezei tanto a Deus por Dona Flávia!
- Obrigado, Olívia.
- Como está a patroa?
- Bem. Está dormindo.
- E o bebê?
- O bebê está ótimo.
- Bendito seja! - acrescentou, erguendo as mãos para o céu. - Chegaram agora?
- Não, ontem a noite. Você estava dormindo e não quisemos acordá-la.
Olívia balançou a cabeça e indagou solícita: - Quer que lhe traga o desjejum?
- Obrigado. Apenas uma xícara de café.
Depois que ela saiu, Paulo apanhou o telefone na mesinha de ca
beceira e pediu uma ligação para o consultório de Feliciano. - Alô? Feliciano?
- Paulo? Como vai, meu amigo? E Flávia? - Está bem. O pior já passou.
- Vai trazê-la aqui hoje?
- Creio que não será necessário. Ela já está melhor e não sente nada. Como disse, foi apenas uma indisposição.
- Não acha melhor que eu a examine? Para a segurança dela e do bebê.
- Agradeço a preocupação, mas ela não está disposta a sair. Está
um pouco cansada.
- Se quiser, posso passar em sua casa mais tarde.
Ouvindo a voz do marido, Flávia despertou, esfregou os olhos e
recostou-se na cama, lançando para ele um olhar súplice.
- Está bem, então. Agradeço.
Paulo desligou o telefone e olhou para Flávia, que perguntou: - Era Feliciano? O que disse a ele? -Nada. Mas quer vê-la.
- Não consentirei!
- Flávia, deixe de loucura. Logo todos ficarão sabendo. Pensa
que poderá esconder isso justo de seu médico?
- Por isso mesmo não quero vê-lo. - Mas ele virá aqui mais tarde.
- Arranje um jeito de dispensá-lo.
- Não posso fazer isso. Deixe que venha, que a examine. - Ficou louco?
- Flávia, por favor...
-já disse que não! - Ela fez uma pausa e considerou: - Está
bem. Vou deixar que me examine... superficialmente. Nada de exame ginecológico.
Paulo inspirou profundamente e não disse nada. Olívia chegou
com a bandeja e colocou-a sobre a mesa, feliz por ver a patroa já
acordada.
- E então, Dona Flávia, sente-se bem? - Muito bem, Olívia, obrigada.
- Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Estarei na cozinha. - Obrigada, Olívia.
Mais tarde, quando Feliciano chegou, Flávia disfarçou a fraqueza e o cansaço, empoou o rosto e mostrou-se alegre e bem-disposta,
fazendo de tudo para que ele não percebesse que havia perdido o bebê.
Deixou que ele medisse a pressão e a temperatura, mas, quando ele
quis examinar-lhe o ventre, Flávia deu um salto da cama e correu para
o banheiro. Trancou a porta e fez que estava vomitando. Em segui
da, voltou para o quarto com a mão sobre a barriga, enxugando a boca
e dizendo num gracejo:
- Coisas de mulher grávida...
Feliciano ainda tentou fazer com que ela retornasse ao exame,
mas Flávia disfarçou e foi para a cozinha.
- Você se preocupa demais - disse ela em tom brincalhão. - Coisas de médico...
Paulo não ousava sustentar-lhe o olhar. Feliciano deu de ombros e seguiu Paulo até a sala, onde Olívia lhes serviu um café.
Conversou durante mais alguns minutos e partiu. Logo que ele saiu, Flávia correu de volta ao quarto e atirou-se na cama,
chorando sem parar. Por mais que tentasse, Paulo não conseguia animá-la.
Os dias foram passando e Flávia foi se sentindo cada vez mais triste. Não saía, não se alimentava direito, não falava com
ninguém, só com a mãe. Apesar de tudo, não tivera coragem de contarlhe a verdade, e Inês não conseguia entender o porquê
de todo aquele abatimento.
Até que um dia, Paulo, não agüentando mais, teve uma idéia. - Estive pensando. Acho que seria bom fazermos uma viagem.
- Viagem? Agora? E a empresa?Você acabou de assumir a presidência. Não pode se afastar.
- Já falei com papai. Há anos não tiro férias. Disse-lhe que
ando muito cansado e que preciso de descanso.
- Mas... mas... E a presidência da companhia?
- Marcos pode assumir meu lugar e tomar conta de tudo até que
eu volte. Sabe quanto confio nele.
- E Marcos concordou?
- Sim. E meu cunhado, pessoa de inteira confiança. - E seu pai?
- No princípio relutou. Mas acabou concordando também.
- Uma viagem... Talvez seja uma boa idéia afastar-me de tudo e de todos.
- Foi o que pensei. E, depois, você poderá escrever, contando que perdeu o bebê na viagem. Creio que assim será menos penoso.
- Acha que me faria bem?
Ele fez que sim. Ela indagou:
-E para onde iremos?
- Pensei em visitarmos a Europa.
- Europa? Não sei, não. Andam falando em guerra por lá.
- Não acredito nisso. São apenas boatos. Por favor, Flávia, vamos. Não agüento mais vê-la nessa depressão.
Ela considerou a hipótese por alguns instantes. Embora não se encontrasse com ânimo para nada, uma viagem até que serviria bem
a seus propósitos. Escreveria uma carta para a família logo que partissem, contândo a perda do bebê, e não precisaria estar
em casa para presenciar a frustração dos parentes. Ao voltar, muito tempo já teria passado, e não lhe cobrariam mais nada.
- Está certo - disse por fim. - Faremos a viagem. Quanto mais tempo ficarmos fora, melhor.
Excelente, querida! Vou agora mesmo providenciar os passaportes e as passagens. Quero visitar tudo!
- Quanto tempo ficaremos fora?
- Não sei. Dois meses, três... O tempo que julgarmos necessário.
Quinze dias depois, partiram rumo à Europa. Iniciaram a viagem por Londres. De lá, atravessariam o canal Dela Mancha e iriam
para a França, onde tomariam o trem e seguiriam rumo à Espanha e Portugal, retornando novamente em direção à Itália e Suíça.
E, dependendo da situação, visitariam ainda a Áustria, a Alemanha e a Holanda, e só então retornariam. Seria uma viagem
maravilhosa. E inesquecível também.
Flávia já estava em Londres havia uma semana e ainda não se decidira a escrever à família. Por diversas vezes, segurara a
caneta e ficara a olhar a alvura do papel, pensando por onde começar. Pensava, pensava e acabava desistindo, distraída com
qualquer coisa que Paulo lhe mostrasse.
Outras vezes, decidida, rabiscava as primeiras linhas, mas nunca ia além do Como vão vocês ou Por aqui tudo está maravilhoso...
Por mais que se esforçasse, não tinha coragem de acabar com os sonhos da família. Era filha única, e a mãe sempre sonhara
com um neto. Da família de Paulo, era a maior esperança. O marido de sua cunhada, Marcos, tivera caxumba quando criança,
e era pouco provável que pudesse ter filhos. Mariana até então não engravidara, e todos estavam conformados com a esterilidade
do rapaz.
A mesma hesitação se repetiu em Paris, Madri, Lisboa e em todos os lugares por onde passavam. Paulo sempre lhe perguntava
por que ainda não havia escrito à família, ameaçando escrever-lhes ele mesmo, mas Flávia implorava que não o fizesse. Paulo
não entendia aquela relutância. Nem mesmo Flávia entendia. Só o que sabia, ou melhor, que sentia, era que ainda não estava
pronta para destruir assim seus sonhos.
Os meses foram se passando, e eles continuavam a viajar pelo Velho Continente, sem que ela se decidisse a contar. Estavam
em Stuttgart, na Alemanha, e Flávia já começava a sentir saudade de casa, bem como Paulo, que ansiava por retomar os negócios
frente à empresa.
Naquela época, a situação na Europa não era das mais animadoras.
A Alemanha, sob a presidência de Adolf Hitler, fora tomada pelo Partido Nazista, que estabeleceu um governo totalitário,
espalhando o terror político e controlando o Exército. Instaurou-se o ódio aos judeus, ao socialismo e ao capitalismo, que
os alemães culpavam por sua rendição na Grande Guerra e pelos pesados ônus instituídos pelo Tratado de Versalhes.
Havia muito já se iniciara a perseguição aos judeus e comunistas, e inúmeras pessoas eram levadas para os campos de concentração
e depois exterminadas. Em sua escalada internacional, Hitler já havia anexado ao Terceiro Reich a Áustria, a Checoslováquia
e a Albânia, voltando-se agora para a Polônia.
Foi nesse clima de instabilidade que Paulo e Flávia chegaram à Alemanha. As ameaças de guerra ecoavam cada vez mais alto,
e a perseguição aos judeus se intensificava ainda mais. Fora tudo isso, Flávia não queria mais ficar no Velho Mundo.
- Paulo, meu bem- disse ela. -Não quero mais continuar esta viagem. Já faz quase seis meses que saímos do Brasil...
- Faz quase seis meses que você deveria ter contado a verdade e não o fez. Como espera chegar agora? Pelos meus cálculos,
o bebê já deveria até ter nascido.
- Eu sei, querido, perdoe-me...
Ela começou a chorar, e Paulo se acalmou.
-Não chore. Não quero magoá-la. Mas me preocupo. Em todas as cartas de mamãe, ela pergunta por você e pelo bebê, e sou obrigado
a dizer que estão bem.
- E o que vamos fazer agora?
- Vamos contar a verdade. Vou escrever para eles e dizer que você perdeu o bebê e que não teve coragem de falar. Não há
outro meio. - Não, por favor, não faça isso!
-Não adianta. Sinto muito, mas é para seu próprio bem.
Apesar dos protestos da mulher, Paulo sentou-se à escrivaninha e escreveu longa carta ao pai, contando-lhe tudo que sucedera
desde aquele dia em que Flávia havia sido internada no hospital e ele chegara atrasado à cerimônia de posse em seu novo
cargo na empresa. Contou-lhe dos temores da mulher, de sua profunda tristeza, de suas esperanças de engravidar novamente.
Isso não acontecera, como era de se esperar, e agora estava na hora de voltar. Pedia que ele desse a notícia ao restante
da família e implorava a compreensão de
todos. Que não cobrassem de Flávia nem a acusassem de nada. Ela havia sido a maior vítima e já sofrera demais.
Terminou de escrever a carta, lacrou o envelope e guardou-o no bolso do sobretudo. Mais tarde, quando saíssem para almoçar,
postaria a carta e tudo estaria terminado. Em seguida, arrumariam as malas e voltariam para o Brasil. Já haviam se demorado
demais naquela viagem e era hora de retomarem suas atividades.
Vendo o olhar de desgosto da mulher, Paulo sentou-se a seu lado na cama, apanhou sua mão e falou com delicadeza:
- Não fique triste, querida. É melhor assim...
Segurou seu queixo com a ponta dos dedos e preparou-se para beijá-la, quando um enorme alarido se ergueu, vindo do meio
da rua. Paulo e Flávia levantaram-se assustados e correram para a janela. Estavam num quarto no terceiro andar e, lá embaixo,
as pessoas corriam de um lado para o outro, gritando e agitando as mãos, como que perdidas.
- O que estão dizendo? - indagou Flávia, apreensiva. - Não compreendo uma palavra.
- Não sei... - tornou Paulo, inseguro. - Não entendo bem.
Ele ficou prestando atenção, tentando entender o que estava se passando. Não falava direito o alemão e tinha dificuldade
para compreender o que aquelas pessoas estavam falando.
- E então?- tornou Flávia, ansiosa.
- Não tenho certeza. Mas parece que Hitler invadiu a Polônia.
Flávia encarou-o com espanto. Estavam em primeiro de setembro, dia da invasão da Polônia pela Alemanha, data em que foi
deflagrada a Segunda Guerra Mundial.
- Meu Deus! - exclamou Flávia assustada, sufocando um grito de terror. - E agora?
- Não sei. Mas o melhor que temos a fazer é ir embora daqui o mais cedo possível. Vamos pegar o primeiro trem para a Suíça.
Mais que depressa, correram a arrumar as malas. Não eram alemães nem judeus, mas não sabiam o que lhes poderia acontecer.
Eram estrangeiros, e o ódio de Hitler poderia se voltar contra eles também.
Chegaram à estação de trem duas horas depois e estavam parados na gare, esperando a chegada do trem que os levaria de volta
à Suíça. A carta, esquecida no bolso do sobretudo de Paulo, não chegara a ser postada, e ele se esquecera dela por completo.
Estava com
medo, porque aquelas ações bélicas representavam uma ameaça desconhecida, e ele não tinha a menor intenção de padecer em
um país estranho.
O trem já estava chegando, e centenas de pessoas se preparavam para embarcar. Flávia levantou-se do banco em que estava
sentada, apanhou a frasqueira e segurou o braço do marido.
Estavam esperando que o comboio parasse para subirem a bordo quando ouviram novo alarido. Olharam assustados e viram uma
mulher correndo em direção a eles, trazendo nos braços o que parecia ser uma trouxinha de roupa. Atrás dela, ouviam-se os
apitos dos guardas, dela separados pela multidão de pessoas que se apinhavam na estação.
Eles estavam um pouco afastados da multidão, mais próximos dos últimos vagões. Ao vê-los, a mulher correu para eles e começou
a falar alguma coisa em alemão, estendendo para Flávia a pequena trouxa de panos.
Paulo, sem entender o que aquela mulher queria e com medo de que ela pudesse causar-lhes algum tipo de encrenca, empurrou-a
com violência, mas ela se voltou para Flávia com os olhos cheios de lágrimas, falando apressadamente e estendendo-lhe novamente
a trouxinha. A mulher parecia fora de si. Chorava e falava com profunda angústia, como que a implorar alguma coisa. Seu
desespero era nítido, e Flávia podia entender a súplica em seu tom de voz.
Flávia estava confusa e aturdida. Não entendia uma palavra do que a mulher dizia, mas ela estava visivelmente desesperada,
apavorada com alguma coisa. Paulo já ia empurrá-la de novo quando ouviram um choro abafado. Instintivamente, Flávia segurou
o braço do marido e afastou os panos, descobrindo a face de um recém-nascido, rosado e de olhos azuis como duas contas.
Aquilo a assustou sobremaneira, e seu primeiro gesto foi de estender os braços para recolher a criança. Sem entender o que
a mulher lhe dizia, compreendera tudo. Ela era judia e estava fugindo dos guardas, com o filho no colo, e queria dá-lo a
ela. Dar-lhe o filho para salvá-lo da morte. Rapidamente, Flávia apanhou a criança e estreitou-a contra o peito, mas ouviu
a voz de Paulo, que falava com um misto de rispidez e desespero:
- Ficou louca? Quer que sejamos presos?
Com certa brutalidade, tentou arrancar a criança dos braços de
Flávia, mas a mulher judia, completamente desesperada, lançou para ela um olhar de súplica tão profundo que Flávia apertou
ainda mais o bebê, e Paulo, com medo de machucá-lo, afrouxou as mãos e olhou por cima de seu ombro. Do outro lado da plataforma,
os apitos se faziam ouvir mais estridentes, e logo os guardas apareceram, correndo feito loucos por entre a multidão. Paulo
encarou a judia e soltou a criança, voltando os olhos para Flávia, que chorava de mansinho. A mulher falou alguma coisa
bem baixinho, e Flávia deduziu o agradecimento. Podia perceber o alívio e a gratidão em seu olhar.
Os policiais, naquele instante, avistaram-na e correram em sua direção. Paulo acompanhou todos os seus movimentos, com medo
de que o interpelassem, mas eles passaram direto por eles e não os notaram. Flávia nem tinha coragem de levantar os olhos.
Apertava o bebê de encontro ao peito, cobrindo-o com o casaco e rogando a Deus que não chorasse. A criança, talvez sentindo
a proteção que os seios de Flávia lhe transmitiam, silenciou e voltou a dormir, e ninguém a notou sob o casaco de Flávia.
Pouco depois, os guardas seguraram a mulher pelo braço, um de cada lado, e saíram arrastando-a pela estação. Ao passar por
eles novamente, a mulher não disse nada nem os encarou, mas Flávia pôde perceber o alívio que sentia ao ver salvo o filhinho
recém-nascido.
Em silêncio, Paulo e Flávia embarcaram no trem, levando consigo o pequeno presente que receberam. Sentaram-se em um banco
e seguiram viagem, temendo seus destinos dali para a frente. E se o bebê chorasse? E se sentisse fome? Como alimentá-lo?
Era apenas um recém-nascido e precisava de leite materno. O que fariam?
Mas a viagem não era longa, e, quando alcançaram a fronteira com a Suíça, todos os passageiros tiveram de desembarcar para
se apresentar na alfândega, do lado alemão. Em companhia de Flávia, que não soltava o bebê, Paulo desceu a pequena escada
do trem, apreensivo. No posto alfandegário, apresentou os passaportes ao oficial de plantão e aguardou. O homem apanhou
os documentos e conferiu as fotos. Percebendo, porém, o neném no colo de Flávia, indagou algo com patente má vontade.
Paulo compreendia com muita dificuldade o que ele dizia, mas sabia a que ele estava se referindo. O homem apontava para
o bebê e exigia que apresentassem seus documentos. Flávia, intimamente, orava a Deus pedindo ajuda e proteção, rogando que
não os desamparasse.
Se aquela criança chegara a suas mãos do modo como chegara, certamente era porque era da vontade de Deus que permanecesse
com ela. Estava assim orando, de olhos baixos, quando ouviu a voz do marido, falando alguma coisa em inglês com o oficial.
O guarda parecia haver entendido e balançou a cabeça. Voltou os olhos para os passaportes, olhou novamente para o bebê e
encarou Paulo. Em que estaria pensando? Será que desconfiava de algo?
O oficial estava em dúvida. Recebera ordens para não deixar ninguém atravessar sem passaporte, ainda que fosse um bebê.
Mas, atendendo às orações de Flávia, um espírito iluminado se aproximou do oficial e soprou-lhe ao ouvido, em alemão:
- Deixe-os passar. São apenas brasileiros inofensivos... Hitler não tem interesse no Brasil.
Recebendo a sugestão do espírito protetor, o oficial deu de ombros, carimbou os passaportes e entregou-os a Paulo, que os
apanhou rapidamente e os colocou de volta no bolso interno do sobretudo. Ele deu um sorriso ao guarda, fez um leve aceno
com a cabeça e saiu puxando Flávia, que chorava agradecida.
- O que disse a ele? - cochichou Flávia ao ouvido do marido, logo que se viram acomodados no trem.
Sem encará-la, Paulo respondeu em tom de confidência:
- Que o menino nasceu apenas há alguns dias e que não tivemos tempo de registrá-lo no consulado brasileiro. Que faríamos
isso na Suíça.
Flávia balançou a cabeça, e ambos percorreram o resto do trajeto em silêncio. Já em solo suíço, Paulo comprou algumas fraldas,
roupinhas, mantas e mamadeiras para o bebê. Ao despi-lo, uma surpresa. Preso a seu pescoço, um cordão de ouro com uma medalhinha
pendurada. Flávia apertou o fecho, e a medalha se abriu em duas partes. De um lado, uma mulher loura, que ela reconheceu
como sendo a mesma que lhe entregara a criança. Do outro lado, um homem claro, mas de cabelos castanho-escuros, que ela
deduziu ser o pai.
Ela ergueu para Paulo os olhos úmidos. Sem dizer nada, retirou o cordãozinho do pescoço da criança e apertou-o na mão.
- O que vai fazer com isso? - indagou Paulo, curioso.
- Jogar fora - respondeu ela, decidida.
Foi até a janela do quarto, que dava para um bosque, ergueu o braço e o esticou para fora. Mas não abriu a mão. Na hora,
uma es
tranha força a dominou, e ela não conseguiu atirar para longe aquela correntinha.
Sem que Paulo percebesse, guardou-a dentro do corpete, voltou para junto do bebê e começou a trocar-lhe a fralda. Era mesmo
um menino, muito bonito e saudável, com expressivos olhinhos azuis. Flávia estava encantada. Recebera de volta o filho que
o infortúnio lhe tomara. Vendo sua mulher, que acabara de alimentá-lo e o embalava para dormir, Paulo sentiu um aperto no
coração. Não era sua intenção ficar com aquele bebê. Nem sabia por que o fizera. Mas a felicidade de Flávia era tanta que
ele não ousava destruí-la.
Depois que o menino adormeceu, Flávia fechou a porta do quarto e foi para a saleta da suíte no hotel, onde Paulo se encontrava
sentado, ouvindo o rádio. Ela se aproximou e sentou-se a seu lado, dizendo com entusiasmo:
-Foi Deus quem nos colocou no caminho daquela pobre mulher. Não fosse por nós, o filhinho teria sido preso com ela, e sabe-se
lá o que lhe teria acontecido. - Paulo não disse nada, e ela continuou: - Devemos providenciar-lhe a documentação. O menino
não pode viajar sem passaporte.
Não podendo mais segurar a contrariedade, Paulo argumentou:
- Ouça: acho que fizemos bem em salvar o bebê. É um inocente, que nada sabe sobre as atrocidades da guerra. Mas não podemos
ficar com ele.
Flávia fitou-o com ar de espanto e retrucou com mágoa:
- Não podemos? Por quê?
- Porque não é nosso filho.
- Agora é.
- Não é, não. É filho de outras pessoas. Provavelmente de um casal de judeus.
- E daí? O que tem isso de mais? A criança não conhece ninguém. Não deve ter nem um mês. Quem poderá dizer que não é nosso
filho?
Paulo olhou-a com angústia.
-Pense bem. Ao chegarmos ao Brasil, o que diremos à nossa família?
- Muito simples: que estávamos viajando e a criança nasceu na Suíça. Iremos agora à embaixada brasileira, faremos o registro
e ninguém irá duvidar.
- Não, não podemos fazer isso. Esse menino é um estranho.
- E apenas uma criança que veio ao mundo há poucos dias. Como pode ser um estranho? Já o amo como filho.
- Mas ele não é nosso filho! Pelo amor de Deus, entenda de uma vez! Vamos entregá-lo às autoridades suíças. Com certeza,
acharão um lar para ele.
- Não! Mil vezes não! Ele nos foi dado por Deus. Não vê que Deus quis que ele fosse nosso? Pense bem. Por que outro motivo
estaríamos ali naquela estação, justamente na época em que nosso filho deveria nascer, no exato momento em que uma mulher
desconhecida aparece, fugindo com seu filho?
- Foi coincidência...
-Coincidência demais. Não acredito nisso. Minha mãe diz que o acaso não existe...
- Sua mãe é uma tola. Vive envolvida com essas bobagens de espiritismo.
- Serão mesmo bobagens? Também pensava assim, mas hoje tenho minhas dúvidas. - Ela se aproximou dele e segurou-lhe as mãos,
olhando fundo em seus olhos. - Paulo, seja razoável. Se eu não tivesse sofrido aquele aborto, nosso filho estaria nascendo
por estes dias. Não nasceu, mas outra criança veio ao mundo na mesma época, e veio ao mundo exatamente perto de nós. Foi
colocada em nossas mãos, na certa para que a criássemos. Não volte as costas para o destino, porque pode estar voltando
as costas para si mesmo.
- Deixe dessas bobagens...
- Não, Paulo. Escute-me. Aceite o menino em seu coração, como eu já o aceitei no meu.
- Não posso. Sei que não é meu filho.
- Não pense assim. Pense que este é o filho que perdemos naquele dia, seis meses atrás. Se você disser que é, todos vão
acreditar. Não têm por que duvidar. O tempo coincide... Por favor, faça isso. Por mim, por nós. Não me tire a chance de
ser feliz...
Ouvindo as palavras da mulher, Paulo foi se deixando convencer. Um filho era o que ela mais queria. Perdera a criança ainda
em seu ventre e agora lhe aparecia aquele menino recém-nascido, que bem poderia mesmo ser seu filho. E, depois, Flávia estava
feliz. Sentia que ela seria capaz de amar aquela criança com toda a intensidade e começou a pensar se teria o direito de
impedir aquele amor. Não,
não tinha. Se Flávia já o amava como filho, se já o recebera em seu coração, caberia a ele fazer o mesmo. Será que conseguiria?
- Está bem -disse por fim. - Para todos os efeitos, o menino é nosso filho, nasceu aqui na Suíça. Deixe comigo. Vou providenciarlhe
os documentos.
Flávia não cabia em si de contentamento.
No dia seguinte, Paulo saiu em direção à embaixada brasileira para registrar a criança como sua. Disse que ela havia nascido
em casa, no meio da noite, e que não tiveram tempo de chamar o médico.
O homem do consulado ouviu aquela história com ar cético, mas não disse nada. Novamente, o espírito de luz estava a seu
lado, providenciando para que não fizesse muitas perguntas. Pouco depois, Paulo deixou o consulado levando no bolso o registro
do filho: Fabrício Lopes Mandarino. Junto, a carta que não chegara a enviar. Parou em frente a uma cesta de lixo na calçada,
tirou a carta do bolso, rasgou-a em vários pedacinhos e atirou-a no lixo. Seu filho não estava morto; acabara de nascer.
De volta ao Brasil, Flávia e Paulo organizaram uma festa de boas-vindas para o pequeno Fabrício. Queriam apresentá-lo a família,
que estava toda reunida em casa.
- Eu bem que desconfiava que isso poderia acontecer - suspirou Dulce. - Onde já se viu, viajar por aí com a barriga crescendo?
O mundo está mesmo perdido...
- Não diga isso, mamãe - censurou Paulo. - Trouxemos seu neto, não foi?
- Mas ele deveria ter nascido aqui. Deveria ser brasileiro, como todos nós.
- Mas ele é. Foi registrado na embaixada brasileira.
- Isso não importa. O que vale é que nasceu em solo estrangeiro.
- Não se aborreça com isso, Dona Dulce - interrompeu Flávia. - Paulo vai se informar direitinho sobre o que é preciso fazer
para que não pairem dúvidas sobre sua nacionalidade brasileira. Não é, Paulo?
O marido sorriu meio sem jeito. Sabia por que a mulher falava aquilo. Ela tinha medo de que, por um motivo ou por outro,
a verdadeira mãe do menino aparecesse e quisesse levá-lo. Precisava assegurar-lhe a nacionalidade brasileira quanto antes,
para que Fabrício não pudesse ser levado do Brasil.
Embora racionalmente Flávia soubesse que aquilo era praticamente impossível, pois a mulher não os conhecia nem sabia que
eram brasileiros, Paulo tranqüilizou-a dizendo que já havia contratado um advogado para providenciar tudo, contando-lhe
que a criança havia
nascido na Suíça, mas não revelando que não era seu filho legítimo. Para todos os efeitos, aquela era a criança que estava
no ventre de Flávia quando todos a viram partir do Brasil.
Havia as pessoas do hospital, mas Flávia tencionava nunca mais aparecer por lá. Quem iria saber? Quem iria investigar? Naquela
noite, ela fora apenas mais uma moça atendida na emergência, uma desconhecida de quem ninguém jamais ouvira falar.
Olhando para a mulher com ar amistoso, Paulo respondeu:
- Sim, querida. Nosso advogado já está cuidando disso.
- E você, Flávia? - indagou Feliciano. - Como está passando? Não quer que a examine?
- Não, não, Feliciano, não é necessário. Sem querer desmerecê-lo, há ótimos médicos na Suíça, e fui muito bem atendida.
Nesse momento, a babá entrou, trazendo no colo o pequeno Fabrício, vestido com uma roupinha toda azul, que lhe acentuava
ainda mais a cor dos olhinhos.
-Que coisinha mais linda! - admirou-se Dulce, pegando-o no colo.
- É mesmo muito bonito - concordou Hermínio.
- Ora, vamos, Dulce - objetou Inês -, agora é minha vez de segurar essa riqueza.
Dulce passou o menino para o colo de Inês, que o segurou embevecida.
- De quem será que puxou esses olhos? - perguntou Mariana, curiosa. - Ninguém na família tem olhos azuis.
Flávia olhou para Paulo apreensiva, mas ele, calmamente, respondeu:
- Nosso avô tinha olhos azuis, Mariana. Você não se lembra porque era muito jovem quando ele morreu.
- É, sim - concordou Hermínio. - Era louro e de olhos azuis.
- Mas isso não basta - interveio Feliciano. - Olhos azuis são recessivos, e é preciso que alguém na família de Flávia também
tenha olhos azuis, alguém que pudesse haver-lhe transferido o gene.
- Hmm... deixe-me ver -fez Flávia, pensativa. - Deve ser de meu bisavô. Ele também tinha olhos azuis, não é verdade, mamãe?
E não era meio alourado?
Inês fitou-a com espanto. Seu avô, apesar de louro, não tinha olhos claros. Nem ninguém de quem pudesse se lembrar. Naquele
mo mento, encarando a filha, Inês percebeu que alguma coisa estranha havia acontecido naquela viagem, algum segredo que ninguém
poderia saber.
Embora não lhe agradasse mentir, percebeu a súplica no olhar de Flávia e respondeu:
- É verdade, minha filha. Seu bisavô era um homem muito bonito.
`Bonito ele era, só que não tinha olhos azuis", pensou Inês.
Estava espantada, fitando a filha, quando a voz de Feliciano se fez ouvir novamente:
- Nesse caso, é possível. Raro, mas possível.
- Pois é- continuou Flávia. - Para vocês verem que coisa. Até eu me espantei.
A conversa mudou de rumo, mas Inês não se convenceu. Ficou estudando o rosto do menino durante muito tempo, mas não percebeu
nada de anormal além dos olhos. Ele era ainda muito pequeno para se parecer com alguém. No fundo, Uma desconfiança começou
a tomar conta de seu peito, mas ela não disse nada. Estava seriamente desconfiada de que a filha e o genro haviam ido buscar
aquela criança no estrangeiro para substituir a verdadeira. Mas por quê?
Como que respondendo à sua pergunta, a lembrança da cerimônia de posse de Paulo veio à sua mente, e ela se lembrou de que
a filha havia passado mal e fora levada ao hospital. Depois, quando Paulo chegou ao clube, atrasado e sozinho, ela pensou
que algo de muito grave havia acontecido, mas o genro lhe dissera que Flávia havia ficado em casa repousando e que não deveria
ser incomodada. No dia seguinte, quando foi visitá-la, ela lhe pareceu meio abatida, mas disse que não havia acontecido
nada. Na época, acreditou. Não tinha por que duvidar. Mas agora... não sabia. Tudo lhe parecia estranho demais. Aquela mentira
não lhe saía da cabeça, e ela estava quase certa de que aquele menino lindo não era seu neto.
Pensou em falar com Flávia e pedir-lhe explicações, mas achou melhor não dizer nada. Se a filha quisesse, ela mesma a
procuraria e contaria tudo. Do contrário, não diria nada. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não era problema dela,
e ela iria respeitar a vontade dos dois. Inês conhecia Flávia muito bem para saber que ela seria incapaz de fazer alguma
coisa errada, como roubar a criança ou comprá-la. Na certa a adotara. Sim, só podia ser isso. Deve ter
abortado seu próprio filho e assumira o filho de outra mulher, talvez alguma mocinha solteira mexida em encrencas. Quem poderia
saber?
De qualquer jeito, o menino estava ali e era lindo. Sentia que já o amava. Ainda que não fosse seu neto de verdade, iria
amá-lo como se o fosse. Que importavam os laços de sangue? O que verdadeiramente importava eram os laços do coração, o amor,
a afinidade. Ela já lera e estudara o suficiente para saber que a família espiritual era uma só e que as pessoas deveriam
se amar indistintamente, possuindo ou não o mesmo sangue.
Com esses pensamentos, calou a dúvida dentro do peito e não disse nada. Segurou o netinho no colo e sentiu quanto o amava.
Seria uma criança especial, ela podia perceber.
Naquela noite, após a festa, sonhou com um homem. Ele se aproximara dela enquanto dormia e tocara gentilmente em seu corpo,
despertando-a em espírito e saindo com ela. Imediatamente reconheceu seu marido, Ismael, que desencarnara quando Flávia
contava apenas doze anos. Foram para um jardim imenso, florido, de onde podia admirar as incontáveis estrelas que pontilhavam
o firmamento, e Ismael falou:
- Inês, receba o menino como seu neto. Ele e Flávia vão precisar muito de seu apoio.
- Quem é ele, Ismael?
- Isso não importa agora.
- Foi você quem o trouxe?
- Eu ajudei. Tive de inspirar algumas pessoas, mas era preciso. - Não se preocupe. Seja o que for que tenha acontecido,
estarei ao lado de ambos.
Ismael sorriu e beijou-a suavemente no rosto. Em seguida, retornou com ela para o quarto e ajudou-a a voltar para o corpo,
e Inês continuou a dormir tranqüilamente. No dia seguinte, ao despertar, lembrou-se de que havia sonhado com o marido e
sentiu imensa saudade dele. Lembrava-se de que ele lhe tinha dito algo sobre o neto, mas não sabia precisamente o quê.
Inês morava sozinha em um casarão no bairro do Engenho Velho e se recusava a mudar-se. A filha, após o casamento, mudara-se
com o marido para um amplo e bonito apartamento em Copacabana, chamando-a para viver em outro dos luxuosos edifícios de
apartamentos que começavam a se erguer. Mas ela não quis.
Gostava de sua casa, de suas plantas, de seu jardim. Ainda mais agora, que o neto nascera, era importante que fosse criado
junto à natureza e aprendesse a saborear os frutos tirados do pé. Em seu quintal, tinha pés de banana, goiaba, abacate,
laranja, limão,
manga e até um coqueiro. Não entendia por que deveria abrir mão daquela vida saudável para se enfurnar em um apartamento e ficar
pendurada lá no alto, sem poder simplesmente abrir a porta e sair sem ter de se enfiar naqueles cubículos que eles chamavam
de elevador, correndo o risco de despencar ou ficar presa. Não, decididamente, aquilo não era vida. Preferia suas frutas
e suas flores àquele concreto frio e sem vida.
Além do mais, o marido a deixara muito bem. Quando morreu, havia acabado de ser investido no cargo de ministro do Supremo
Tribunal Federal e deixara a ela uma pensão invejável. Era também proprietário de vários imóveis espalhados pela cidade,
o que lhe garantia ainda uma boa renda complementar. Inês era feliz assim e não pretendia mudar.
O pequeno Fabrício ia se transformando mim lindo bebê louro, o que não deixou de causar um certo espanto a todos. A medida
que o tempo ia passando, seus cabelos foram escurecendo um pouco, até alcançarem a tonalidade de um castanho bem claro,
com mesclas douradas. Os olhos, de um azul límpido, continuaram como dois pedacinhos do céu, e sua pele, antes rosada, foi
se revelando da alvura própria dos povos europeus.
Embora todos o achassem diferente do resto da família, ninguém suspeitou de nada. Feliciano, com suas explicações sobre
genética, decretou que aquilo seria possível, já que os genes podem ser transferidos aos descendentes por gerações e gerações,
indo se manifestar, casualmente, numa descendência bem remota. A explicação sobre esse fenômeno, chamado atavismo, satisfez
a todos, e Fabrício logo passou a ser motivo de admiração de toda a família.
Flávia estava encantada com o bebê. Sentia um amor profundo por ele, algo que não sabia explicar. Embora não fosse seu filho
legítimo, sentia como se o fosse e, às vezes, até esquecia que não havia sido gerado por ela. Mas nada daquilo tinha importância.
Só importava o fato de que ela conseguira de volta seu bebê, o filho que Deus, por um motivo que ela desconhecia, lhe havia
tomado um dia.
Paulo, por sua vez, lutava contra os próprios sentimentos para poder aceirar Fabrício em seu coração e em sua vida. O fato
de o menino não ser seu filho tornou-se um empecilho praticamente intransponível para o amor. Olhava para o bebê e via nele
um estranho, alguém em quem jamais poderia confiar. O que sentia era um misto de ciúme e repulsa, e ele chegava a se culpar
por aqueles sentimentos.
Não dizia nada, porém. Amava Flávia profundamente e não queria magoá-la. Se ela estava feliz com aquele filho, ele também
iria se esforçar para conseguir conviver com ele da melhor forma possível.
As coisas corriam aparentemente bem. Flávia, satisfeita com o filhinho, já não pensava mais em engravidar. Julgava-se estéril
e não se importava mais com isso. Tinha tudo que desejava na pessoa de Fabrício. Paulo, embora silenciasse, nutria ainda
esperança de ser pai de um filho seu e vivia ansioso, à espera de que Flávia lhe anunciasse a chegada de seu herdeiro legítimo.
Até que um dia, quando Fabrício já estava com quase um ano, o inesperado aconteceu. Era ainda bem cedinho, e Flávia estava
dormindo. Paulo, a seu lado, começou a se remexer na cama, despertando para um novo dia de trabalho. Já ia se levantar quando
ouviu a mulher gemer.
- Flávia?- indagou preocupado. - Está tudo bem? Por que esta gemendo?
-Não sei respondeu ela com voz indecisa. -Sinto-me estranha, com um enjôo esquisito. Parece que vou vomitar...
Saiu correndo para o banheiro, e Paulo foi atrás, preocupado.
- Meu amor -disse ele, abaixando-se a seu lado para auxiliála -, o que houve? Foi algo que comeu?
Antes mesmo de o marido perguntar, ela já sabia a resposta e retrucou com uma indizível sensação de pesar: - Acho que estou
grávida!
Paulo ficou olhando-a com um sorriso nos lábios e abraçou-a, acrescentando com entusiasmo:
- Querida! Isso é maravilhoso!
- Será mesmo? Não se lembra da última vez?
- Nem pense nisso. Algo me diz que, desta vez, tudo dará certo. Você vai ver. Vamos, tente se levantar. Vou levá-la agora
mesmo a Feliciano.
Algumas horas depois, no consultório, Feliciano examinou-a emdadosamente. Ao final, deu o diagnóstico, que ambos já conheciam:
- Flávia, meus parabéns! Você vai ter outro filho!
Sem entender por quê, Flávia começou a chorar. Em seu íntimo, não queria aceitar. Não que não quisesse o filho. Mas sentia
como se aquela criança fosse lhes levar algum tipo de infelicidade, e teve medo. O que seria de Fabrício?
Vendo seu estado, Feliciano retrucou surpreso:
- O que há? Não está feliz?
- Não é isso-respondeu ela ao final de alguns segundos. -Foi apenas a surpresa, só isso. Não esperava engravidar de novo.
Pensei que nem pudesse mais...
- Ora, e por que não? Você é uma mulher jovem, saudável, que já teve um filho. Posso saber por que motivo não poderia ter
outro?
Flávia olhou para ele em silêncio. Paulo sabia que nunca tivera um filho. Para todos os efeitos, Fabrício era fruto de
seu ventre, e não havia por que duvidar da possibilidade de uma nova gestação.
A família toda se alegrou com a notícia. Para Paulo, então, parecia que seria o primeiro filho. Nem se lembrava mais de
que possuía outro.
- Paulo, querido - alertava Flávia. - Não acha que ainda é cedo para tanta felicidade? E se eu perder este bebê também?
- Você não vai perdê-lo. Sinto isso.
- E quanto a Fabrício?
- O que tem ele?
- Parece que você não se importa mais com ele. Lembre-se de que é seu filho também, tanto quanto este que está para nascer.
Ouvindo as palavras de Flávia, Paulo quedou pensativo. Ela tinha razão. Se antes já era difícil aceitar Fabrício como parte
da família, o que dizer agora, que seu herdeiro legítimo estava chegando? Seria muito mais difícil. Ah, se pudesse retroceder
no tempo... Jamais teria permitido que Flávia o convencesse a tomar parte daquela loucura. Se soubesse que seu filho viria
ao mundo em data tão prómina, teria arrancado dos braços de Flávia aquele intruso que viera para roubar o lugar de seu verdadeiro
filho.
Mas agora era tarde demais. Flávia afeiçoara-se ao menino. E Paulo? Não poderia atirar Fabrício na rua nem devolvê-lo à
própria
mãe. Nada sabia sobre ela: não sabia seu nome, onde morava, nem se estava viva ou morta. Provavelmente, já não vivia mais.
Lembrou-se daquela medalhinha, mas Flávia a havia atirado para longe e, além do mais, nada revelava sobre os pais do menino.
De qualquer sorte, não poderia mandar Fabrício para a morte. Podia não o amar ou querer, mas jamais se perdoaria se ele
acabasse morto ao voltar para um país em guerra.
Tentando dissimular a repulsa que a idéia de comparar Fabrício a seu filho legítimo lhe causava, Paulo considerou:
- Pense nisso você também, Flávia. De agora em diante, teremos dois filhos. Dois.
A exceção de Inês, ninguém suspeitou de nada. Mas Inês também era mãe, e algo no coração lhe dizia que a filha estava sofrendo.
Flávia estava tendo uma gravidez bastante difícil, com freqüentes enjôos e desmaios, e parecia a Inês que Flávia rejeitava
o filho ainda no ventre, desmaiando para fugir à realidade.
Estavam ambas sentadas, balouçando num banco do jardim da casa de Inês, quando esta perguntou:
- Minha filha, será impressão minha ou você não está feliz com essa gravidez?
Flávia assustou-se e colocou a mão na barriga, já bem avolumada em quase seis meses de gestação.
- Por que diz isso, mamãe?
- Não sei explicar. Não acompanhei a gravidez de Fabrício, porque você passou o tempo todo viajando. Mas não noto nenhum
entusiasmo seu por essa criança que vai nascer. Estou errada?
Flávia não sabia o que dizer. A mãe conhecia-a muito bem e sabia que algo estava acontecendo. Mas o que seria? Nem Flávia
sabia. O novo bebê seria irmão ou irmá de Fabrício, e não havia nenhum problema nisso. Seriam criados juntos, da mesma forma,
com o mesmo amor. Racionalmente, Flávia sabia que não havia motivos para se preocupar. Mas, em seu íntimo, sentia-se inquieta,
preocupada, temerosa.
Ela considerou as palavras da mãe por alguns instantes e acabou por confessar:
- Sabe, mãe, não sei dizer o que realmente sinto Mas a verdade é que este filho é diferente de Fabrício.
- Diferente? Como assim?
- Não sei explicar. Mas não sinto por ele o mesmo que sinto por Fabrício.
- Como não, minha filha? Não o ama também?
- Amo... Creio que amo. Mas é um afeto confuso, amedrontado, não sei definir.
- Mas por quê?
- Não sei, mãe, e é isso o que me angustia.
Inês fincou o pé no chão, parando o balanço, virou-se para Flávia e, encarando-a bem fundo nos olhos, considerou:
- Flávia, sou sua mãe e a amo, e você sabe disso. E minha única filha, e não há nada no mundo que você tenha feito, absolutamente
nada, que eu não possa compreender.
Flávia fitou-a emocionada. Contudo, desviou os olhos e perguntou, a voz trêmula acusando o receio que sentia:
- O que quer dizer? O que posso ter feito de errado?
- De errado, acredito que nada. Mas secreto, escondido...
- Mãe! No que está pensando?
Quer que seja sincera?
Flávia hesitou. Sabia que a mãe falaria o que estava pensando. Inês sempre fora mulher discreta, nunca se intrometera na
vida de ninguém nem dera opinião quando não solicitada. Mas, se alguém lhe perguntava algo, dizia o que achava, com a maior
sinceridade. Naquele momento, porém, Flávia sentia que não podia mais recuar. A mãe, provavelmente, desconfiava da verdade.
Por que outro motivo teria mentido sobre a cor dos olhos do bisavô?
Sem encará-la, Flávia respondeu:
- Quero, mãe. Quero que fale francamente.
- Pois bem. Foi você quem pediu. Posso estar enganada, mas o coração me diz que Fabrício não é seu filho de verdade.
Vendo que Flávia começava a chorar, Inês abraçou-a e alisou seus cabelos, deixando que ela desse livre curso às lágrimas
e desabafasse toda a sua angústia. Ao final de alguns minutos, Flávia se recompôs, enxugou os olhos e disse com emoção:
- Se eu lhe contar a verdade, promete não falar nada a ninguém?
- Você sabe que pode confiar em mim.
- Eu sei, mamãe. Por isso, quero lhe contar tudo. Mas, por favor, não me julgue ou condene. Se fiz o que fiz, foi por piedade
e, sobretudo, amor.
Detalhadamente Flávia contou á mãe tudo que acontecera, desde o dia em que perdeu o bebê até o encontro casual com a alemã
na estação de trem, quando ela lhe entregara uma trouxinha com o filho dentro. Inês escutou tudo em silêncio, permitindo
que as lágrimas escorressem de seus olhos em abundância. Quando a filha terminou, Inês apanhou sua mão, acariciou-a com
ternura e ponderou:
- Flávia, minha filha, vocês foram muito corajosos. E, creia-me, nada acontece por acaso. Se Fabrício veio parar em suas
mãos dessa maneira, foi porque assim tinha de ser. Estava no caminho de vocês, talvez até de todos nós, como forma de aprendizado
e crescimento.
- Mas por quê, mãe? Por que dessa forma? Eu estava enganada ao pensar que não poderia engravidar. Tanto que estou grávida
agora. Por que as coisas tiveram de acontecer desse jeito?
- Não sei, minha filha. Mas confio em Deus o suficiente para saber que nada acontece se não for para nosso bem. Por mais
difícil que seja a situação, há sempre um motivo, e esse motivo é sempre nosso crescimento.
- Mas como vou crescer com isso? Estou sofrendo. Paulo não gosta muito de Fabrício, e eu temo não poder amar meu filho legítimo
tanto quanto o amo. Como pode ser isso?
- O amor não escolhe laços nem parentesco. Simplesmente acontece. Mas, se você, Paulo, Fabrício e essa nova criança foram
reunidos em uma mesma família, com certeza é para que desenvolvam esse amor. O amor, minha filha, existe dentro de todos
nós, embora algumas vezes não esteja visível ou aparente. Basta que lhe demos chance para se desenvolver, e ele florescerá
em sua plenitude. Acredite em mim: todos vocês têm muitas chances de se harmonizar. Só o que têm a fazer é se permitir.
- Mas como? Permitir o quê?
- Permitir viver as emoções, em primeiro lugar. Não neguem nada, não finjam que essas emoções não existem. Se você sente
raiva, sinta a raiva. Se está frustrada, assuma a frustração. Se tem medo, reconheça o medo. O primeiro passo para lidarmos
bem com as emoções é o reconhecimento; em seguida, a aceitação. Por último, a transformação, caso a emoção nos incomode.
Assim, se você não ama ainda esse filho, não tente mentir para si mesma, fazendo-se crer que o ama. Reconheça que o sentimento,
em vez de amor camuflado, é de
medo, frustração, raiva, seja lá o que for. Depois, reflita no que poderá fazer para modificar esse sentimento e faça-o.
- Como se fosse fácil...
- Sei que não é. Por isso precisamos estar dispostos a mudar. E preciso que você entenda que não vai passar a amar seu filho
só porque acha que deve, por obrigação ou culpa. Isso poderá torna-la extremamente infeliz, porque você vai acabar caindo
na depressão ou na passividade. Você vai acabar deixando seu filho fazer o que quiser, enchendo-o de presentes só para compensar
sua falta de amor. E não se iluda, Flávia, porque ele perceberá. Pode até ser que não perceba conscientemente, mas algo
dentro dele fará com que sinta sua falta de amor, sua mentira. E aí, dependendo da índole dele, poderá se transformar numa
pessoa amarga, fútil, agressiva... Como poderá também não se transformar em nada disso e ainda ajuda-la, caso já tenha alcançado
alguma compreensão.
Flávia chorava baixinho e retrucou angustiada:
- Mamãe, ajude-me! Não sei o que fazer.
- Não faça nada. Apenas reze e peça a Deus que a ilumine. Você tem uma grande vantagem a seu favor: a maternidade. Quando
seu filho nascer, terá uma grande chance de ama-lo só pelo fato de ser sua mãe. Você não sabe disso ainda porque Fabrício
não nasceu de você. Não estou dizendo que o amor seja diferente. Não. Sei que você ama Fabrício como seu verdadeiro filho.
Mas você não sofreu ainda as dores do parto e não sabe como é maravilhoso ver surgir diante de você um pequeno ser que é
fruto de seu amor e de seu corpo também. Tenho certeza de que, quando vir essa criança, seu coração saberá reconhecer todo
o esforço mútuo que tiveram de fazer para superar as diferenças e se aceitarem. E aí você o aceitará.
- Por que diz esforço mútuo?
- Porque, assim como é difícil para você, pode ser que também o seja para ele. Talvez esse espírito tenha escolhido nascer
nestas circunstâncias para que ambos possam se entender e se perdoar, alcançando assim o verdadeiro amor.
- Acredita mesmo nisso, mãe? Acredita que meu filho escolheu nascer em nossa família?
- É claro que acredito. Ninguém vai a uma família por acaso. Pode ser por afinidade ou para vencer dificuldades e ressentimentos.
- Você quer dizer com isso que todos nós já nos conhecíamos anteriormente? Que só nascemos na mesma família porque estamos
ligados de alguma forma, seja pelo amor, seja pelo ódio?
- Não necessariamente, embora isso seja o mais comum. Mas há casos em que o espírito que vai reencarnar não teve nenhuma
outra relação com seus novos familiares. Isso acontece por vários motivos. Pode ser porque aquele espírito precise passar
por determinadas experiências sozinho, longe dos seus. Pode ser porque não haja mais ninguém disposto ou disponível para
recebê-lo como filho, e ele aproveita a oportunidade de nascer em outra família. Pode até ser por mero oportunismo mesmo:
o espírito quer nascer de qualquer jeito e aceita as únicas pessoas que estão dispostas a recebê-lo. Mas tudo isso é feito
com muito respeito ao livre-arbítrio. Não se impõe nada a ninguém. Os espíritos, tanto dos pais quanto dos filhos, devem
estar de comum acordo. Do contrário, nada lhes será imposto. Receber um espírito estranho, muitas vezes, pode ser bem difícil,
porque os laços de sentimentos estarão se iniciando naquele momento. Mas pode também ser muito fácil, porque a ausência
de pendências anteriores, aliada a uma afinidade de pensamentos e propósitos, pode tornar a convivência muito harmoniosa
e prazerosa. Seria mais ou menos como fazer uma nova amizade.
- Acha que este filho é um estranho, mamãe?
- Absolutamente não. Sinto que sua ligação com ele é das mais fortes. Por isso, não desperdice a oportunidade de harmonizar-se
com ele. É para isso que nascemos. Para vivermos em paz e sermos felizes.
Flávia saiu mais tranqüila da casa da mãe. Embora não estivesse propriamente feliz com o nascimento do filho, passou a aceitá-lo
com mais naturalidade, como algo que seria bom para ela e para todos. Os enjôos passaram e ela deixou de desmaiar, sentindo,
em seu coração, que já não o rejeitava mais.
Quando Adriano veio ao mundo, foi uma alegria geral. Era o segundo filho de Paulo e Flávia, forte e robusto, muito parecido
com os demais membros da família. A tez morena e os olhos castanho-escuros demonstravam bem que era um típico Lopes Mandarino.
Mas, ao mesmo tempo em que Paulo exultava com a vinda de seu herdeiro legítimo, Flávia sentia o coração apertado, com medo
do que poderia acontecer a Fabrício.
Mas as previsões de Inês haviam se concretizado. Depois de um parto mais ou menos longo, Adriano foi colocado nos braços
da mãe, ainda sujo, todo retorcido e inchado, e ela sentiu uma forte emoção. Segurando suas mãozinhas delicadas, suas perninhas
macias, seu rostinho gorducho, o coração dela imediatamente se enterneceu, e ela sentiu o poder da maternidade com toda
a sua intensidade. Não que achasse que fosse amar mais um do que o outro. Não. Em sentimento, sabia que ambos eram iguais.
Mas havia algo em Adriano que mexia com ela; a certeza de que era responsável não apenas pelo crescimento de um novo ser
mas também por sua própria existência. Biologicamente, Fabrício não dependera dela para nascer. Adriano, ao contrário, era
fruto de seus genes, alimentara-se de seu sangue, abrigara-se em seu útero. Sim, pensou, seria muito fácil amá-lo também.
Ele era parte dela, assim como Fabrício, com a única diferença de que o laço que os unia não era apenas afetivo, mas físico
também. E serlhe-ia impossível ignorar ou menosprezar um ser que trazia dentro de si metade do que ela era.
Flávia entrou em casa carregando Adriano no colo, e Fabrício correu ao seu encontro. Esperava ansioso pela chegada do
irmãozinho ou da irmãzinha, como costumavam lhe dizer. Embora fosse ainda muito pequeno e pouco entendesse do que lhe diziam,
tinha consciência do novo habitante da casa, e seu espírito, de forma inconsciente, sentiu medo, e ele estendeu as mãos
para Flávia e balbuciou:
- Mamã... mamã...
Hermínio, que vinha logo atrás, deu um sorriso maroto e acrescentou com jovialidade
- Ora, vejam só. O pequeno Fabrício já está com ciúme do irmãozinho.
Flávia olhou para o menino, que lhe puxava a barra da saia, estendeu-lhe a mão e foi conduzindo-o para o sofá, onde se sentou
com Adriano ainda ao colo e pediu à babá que auxiliasse Fabrício a subir e sentar-se a seu lado. A babá colocou Fabrício
bem juntinho da mãe, que o abraçou e beijou repetidas vezes, falando com doçura:
- Meu filhinho querido, este é seu irmãozinho. A mamãe vai tratar e amar os dois igualzinho. Está bem?
Embora não entendesse bem as palavras da mãe, Fabrício compreendia seus gestos de carinho e sentiu-se seguro ao lado dela.
Abraçou-a bem apertado e olhou com ar de dúvida para o irmão, que dormia placidamente.
Inês, adivinhando os temores da filha, dizia-lhe para não se preocupar. Os meninos cresceriam fortes e saudáveis, e nada
aconteceria que já não estivesse escrito no livro da vida. Fosse o que fosse que tivesse de acontecer, seria para o bem
e para o crescimento de todos, e não havia com o que se preocupar.
Enquanto a família admirava o recém-chegado, Flávia entregou Fabrício à babá e saiu puxando Inês discretamente pela mão.
Levoua para seu quarto e trancou a porta. Preocupada, Inês indagou:
- O que foi, minha filha? O que houve?
Flávia abriu a última gaveta da cômoda e enfiou a mão no fundo, puxando uma caixinha de papelão. Sentou-se ao lado da mãe
e falou baixinho, com medo de que alguém a escutasse:
- Mãe, quero que guarde isto para mim.
Ela abriu a caixinha e retirou a corrente de ouro com a medalhinha e estendeu-a para a mãe. Inês apanhou o cordãozinho,
virouode um lado para outro em sua mão e, notando o fecho na medalha, puxou-o, e as fotografias apareceram.
- Isto estava preso ao pescocinho de Fabrício-continuou
Flávia -Gostaria que o guardasse para mim. Paulo pensa que o jogara, mas não tive coragem.
- Por quê?- indagou Inês, emocionada .
-Não sei dizer. Só o que sei é que uma estranha força me impediu de abrir a mão e atirá-la longe.
Inês fechou a mão com a correntinha dentro e prometeu:
Pode deixar, minha filha. Estará bem guardada comigo.
Daquele dia em diante, nunca mais tocaram naquela correntinha. Era o único elo que ligava Fabrício a seus verdadeiros pais.
E era, por isso mesmo, um grande segredo.
Os dois meninos foram criados juntos, iguais em cuidados e atenção. Tinham os mesmos brinquedos, dormiam em quartos semelhantes,
faziam os mesmos passeios. Não havia nada que um possuísse que não tivesse também sido dado ao outro. Apenas os carinhos
eram diferentes. Enquanto Flávia os atuava sem distinção, Paulo nitidamente demonstrava sua preferência por Adriano, o que
deixava Flávia deveras amargurada.
O tempo foi passando, e os meninos, crescendo com ele. Fabrício adorava a casa da avó, seu pomar, suas flores, seu ar de
mistério. O casarão em que ela vivia já estava envelhecido, mas guardava ainda muito da dignidade de outros tempos. Por
mais que Flávia insistisse, Inês não se mudava, e Fabrício ficava muito feliz com isso. Se ela se mudasse, onde poderia
buscar refúgio e paz em meio à cidade que crescia sem parar?
Naquele dia, Fabrício saiu da escola e tomou o lotação rumo à casa da avó. Já estava com catorze anos e orgulhava-se de
poder sair sozinho. O pai colocara um motorista à sua disposição, mas ele gostava da liberdade de poder andar só, sem ninguém
para tomar conta dele.
Seu irmão, Adriano, não era como ele. Por mais que gostasse da avó, tinha horror a mato, como chamava seu jardim, e não
gostava do cheiro de mofo de casas velhas. Por isso, ficava feliz quando a avó ia visitá-lo, mas, sempre que podia, esquivava-se
de ir à sua casa.
Fabrício fez sinal para o lotação e entrou. Estava vazio, e ele se sentou atrás, em um banco perto da porta. Como havia
vários lugares vagos, pousou os cadernos a seu lado e abriu um livro de histórias. A viagem era relativamente longa, e teria
ainda meia hora para ler.
Passados alguns minutos, o lotação parou no ponto e um casal entrou, seguido de uma moça muito loura, olhos azuis, cabelos
ondulados e curtos. Fabrício não lhes deu importância e voltou a atenção para o livro. Logo a moça estava a seu lado e disse,
com um forte sotaque que lhe pareceu alemão:
- Com licença, lourinho. Há alguém sentado aqui?
Fabrício encarou-a surpreso e olhou em volta. Havia muitos lugares vagos na frente, bancos inteiros sem ninguém sentado.
Por que aquela mulher resolvera sentar-se justo a seu lado? Educadamente, porém, Fabrício recolheu os livros e respondeu:
- Não, senhora, pode sentar.
A moça sentou-se ao lado dele, mas Fabrício, pouco depois, apanhou livros e cadernos e, pedindo licença, passou para o banco
de trás, colocando novamente o material a seu lado. A moça também se levantou e foi para o mesmo banco, falando com doçura:
- Posso sentar-me aqui, lourinho?
Ele a fitou espantado. Será que era maluca? Novamente, recolheu seu material e passou para outro banco. Será que ela não
compreendia que ele queria sentar-se sozinho para não ter de ficar segurando o material no colo? Já havia se acomodado e
voltara a abrir o livro quando a mulher apareceu novamente.
Dessa vez, Fabrício não lhe deu chance de falar. Levantou-se apressado, passou a mão nos livros e, fuzilando-a com os olhos,
perguntou cheio de indignação:
- O que há com você, moça? Por acaso é maluca ou o quê?
A moça não respondeu, e ele, sob o olhar assustado do trocador
e dos demais passageiros, passou pela roleta e foi sentar-se na parte
da frente, num banco ao lado do motorista.
- O que houve, rapaz? - perguntou o condutor, olhando-o de
soslaio, procurando não desviar a atenção do trânsito. De mau humor, Fabrício respondeu:
- Veja só, moço. Aquela mulher lá atrás cismou comigo. Parado num sinal, o motorista virou o corpo, procurando com os
olhos a tal mulher. Não vendo ninguém, além do casal e de um senhor
que dormia com a cabeça encostada na janela, tornou a indagar: - Que mulher?
- Aquela lá atrás... loura, olhos azuis, muito branca. - Mas que mulher, meu filho? Não há ninguém ali.
Fabrício voltou-se confuso. Olhou em todas as direções, mas não via mais a mulher. Assustado, levantou-se e correu para
a parte de trás do ônibus, procurando-a, mas não havia mais ninguém ali. Aturdido, olhou para o homem que dormia e para
o casal, que o fitava com ar de zombaria. Ele se aproximou do casal e questionou:
- Vocês não viram aquela mulher que falou comigo?
- Que mulher? - retrucou o rapaz.
- Aquela loura, que entrou com vocês.
- Não entrou ninguém conosco - continuou ele.
- Mas não é possível. Eu a vi entrar. Loura, olhos azuis. Falou comigo, pediu para sentar ao meu lado.
- Tem certeza de que não bebeu, rapaz? - interrompeu o trocador. -Não entrou ninguém além do casal. Acha que eu não a teria
visto passar pela roleta?
Fabrício sentiu o rosto arder. Aquele homem pensava que ele estava bêbado! Era um disparate. No entanto, tinha de concordar
que era estranho. Vira a mulher, falara com ela, mas ela desaparecera. Como seria possível?
- Só se foi um espírito - sugeriu a moça ao lado do rapaz, e ambos começaram a rir.
O trocador acompanhou-os nas risadas, e o senhor com a cabeça encostada na janela acordou e olhou para eles com cara de
quem acabara de chegar. Vendo que ele despertara, Fabrício dirigiu-se a ele:
- Senhor, desculpe-me, sei que estava dormindo. Mas por acaso não viu uma moça loura entrar no lotação atrás deste casal
aqui?
O homem olhou-o como se ele fosse louco e respondeu:
- Meu filho, se tivesse visto uma mulher assim, garanto a você que não teria adormecido.
Todos riram novamente. Fabrício, cada vez mais confuso, voltou a seu lugar e não disse mais nada. Será que estava ficando
louco? Mas não, ele sabia o que tinha visto, e ouvira distintamente a mulher falar com ele. Ela dissera até alguma coisa
que ele não entendera. Parecia que falava alemão. Mas como pudera aparecer e desaparecer sem que ninguém a visse? Será que
vira mesmo um fantasma?
Quando chegou à casa da avó, Fabrício estava pálido e acabrunhado, e ela não pôde deixar de perguntar:
- O que houve, Fabrício? Está estranho hoje. Por acaso viu algum fantasma?
Ele encarou a avó e deu um sorriso amarelo, respondendo sem muita convicção:
- Para falar a verdade, vovó, acho que vi, sim.
Inês assustou-se com aquelas palavras e fê-lo sentar-se no sofá,
pedindo a Bibiana, sua criada de muitos anos, que trouxesse a ele um
copo de água. Esperou até que ele bebesse tudo e continuou:
- Que história é essa? Está querendo brincar comigo, é?
- Não, vó. Eu juro. Estava vindo para cá quando uma moça en
trou no lotação e falou comigo. Só que ninguém a viu; apenas eu. - Conte-me essa história direito. Não estou entendendo
nada. Em minúcias, Fabrício narrou-lhe o que havia sucedido. A medida que ele falava, o coração de Inês ia disparando. Aquela história
tinha tudo a ver com o que acontecera no passado. Uma mulher loura, falando alemão... era muito significativo. Inês sabia que a ver
dadeira mãe de Fabrício, provavelmente, havia morrido em algum
campo de concentração, para onde deveria ter sido levada quando
capturada. Será que agora resolveu voltar em busca do filho? Mas por
quê? Com que finalidade?
Quando ele terminou de falar, apertou a mão da avó e perguntou confuso:
- O que acha que aconteceu, vovó? Acha que foi mesmo algum espírito?
Inês não sabia o que dizer. Não poderia simplesmente revelarlhe a verdade. Nem sabia se fora mesmo sua mãe que vira. Ela
só sabia de uma coisa: Fabrício era médium e, provavelmente, tivera contato com um espírito. Só o que ela não sabia era
quem e por quê.
Percebendo seu nervosismo, ela beijou sua mão e considerou:
- Fabrício, você tem ouvido algumas de nossas conversas, não tem? Minha e de sua mãe?
- Tenho, sim. Por quê?
- Bem, você já nos escutou falar de mediunidade, não escutou? - Acha que sou médium?
- Estou quase certa. Penso que você, realmente, viu o espírito dessa mulher e falou com ele.
- Mas por quê? O que ela queria comigo? - Não sei.
- E se ela aparecer de novo?
- Tente conversar com ela. Explique-lhe que ela já não faz mais parte deste mundo.
- Eu? Deus me livre! Agora que sei que é um espírito, morrerei de medo.
- Os espíritos não fazem mal a ninguém. Você deve temer os vivos, não os mortos.
- Falar é fácil, porque não foi você quem a viu.
-Pode ser. - Ela ficou um tempo pensativa e retrucou: - Quer ir comigo ao centro espírita?
- Não sei. Sabe que papai não gosta dessas coisas.
- Sua mãe às vezes vai.
- Eu bem que desconfiava. Mas não sei se quero ir.
- Está bem, você é quem sabe. Não quero forçá-lo a nada. Mas não fale sobre isso com ninguém. Nem com sua mãe. Deixe que
eu mesma contarei a ela.
Quando ele se foi, Inês ficou pensativa. Estava quase certa de que tinha sido mesmo a mãe de Fabrício que ele vira. Mas
por que ela apareceu? Precisava descobrir. Por outro lado, a mediunidade de Fabrício poderia representar um perigo. E se
ele também descobrisse a verdade? E se a mulher lhe contasse? Teriam coragem de desmentir o espírito e fazer com que Fabrício
se julgasse louco?
Em silêncio, Inês foi para seu quarto e orou, pedindo a Deus clareza e discernimento para que ela e Flávia fizessem o que
tivesse de ser feito, agissem conforme o melhor para cada um.
Era noite de quarta-feira, dia de sessão no centro espírita que Inês freqüentava, e a filha estava com ela. Na porta do centro,
Flávia segurou a mão da mãe e disse hesitante:
- Mãe, estou com medo.
- Não tenha medo, minha filha. Tenho certeza de que vai acontecer o melhor.
- E se ela não vier?
- Se não vier, é porque não é chegada ainda a hora de se comunicar conosco. De qualquer forma, poderemos rezar por ela.
Entraram. A sessão ainda não havia começado, e Flávia sentou-se numa cadeira na primeira fila da assistência, enquanto a
mãe se dirigia à mesa e tomava seu lugar, de frente para ela. Fazia parte do corpo mediúnico havia bastante tempo.
Cumprimentou a todos, e logo a sessão teve início. Feitas as palestras e as orações, o dirigente passou aos trabalhos de
desobsessão e doutrina, invocando os espíritos necessitados que quisessem se apresentar. Dois espíritos se manifestaram.
O primeiro, um homem, vinha angustiado, assustado, sem saber o que havia acontecido e por que se encontrava em completa
escuridão. Depois, uma mulher se apresentou. A princípio, ficou calada, só falando após escutar as palavras de conforto
que o dirigente, António, lhe endereçava.
- Não sei o que estou fazendo aqui - disse ela de má vontade. - Não pedi para vir.
- Veio porque, em seu íntimo, sabe que será bom para você - respondeu Antônio com bondade.
- O melhor para mim é que aquela mulher morra!
- Por favor, não fale assim. Desejando o mal para o próximo, ele acabará se voltando contra você, porque seu coração vai
se envenenando com seus próprios pensamentos de ódio.
- Não me interessa! Ela tomou o que é meu!
- Ninguém toma nada de ninguém. Só temos aquilo que merecemos.
De sua cadeira, Flávia não perdia uma palavra sequer daquela conversa. Seria mesmo a mãe de Fabrício? Será que voltara
para lhe cobrar o filho que ela mesma lhe dera?
- Não acredito nisso. Quero que ela me devolva o que é meu. - Perceba: nada levamos desta vida além dos bons e maus pen
samentos que cultivamos. Por que se prende ainda a coisas que dei
xou no mundo? Elas não servem mais para você.
- Não interessa. Quero o que é meu. Ela não pode me tomar tudo. - Se ela tomou, foi porque você permitiu. - Não tive escolha...
Flávia pensou que ia desmaiar. Estava quase certa de que era mesmo a mãe de Fabrício. Só podia ser. Mas por que tanto ódio?
Será que não teve mesmo escolha ao fazer o que fez? Não, claro que não. Ia ser presa, morta. Quis salvar o filho, fez o
que achou certo.
A voz de Antônio continuava a se fazer ouvir:
- Todos temos escolhas na vida. Nosso livre-arbítrio é que nos leva para esta ou aquela direção.
- Não quando se morre! Que escolha tive ao morrer?
- Teve a própria escolha da morte, que, como vê, não existe de
verdade. Se seu corpo de carne deixou o mundo, foi porque seu es pírito resolveu que
já era chegada a hora e desistiu de viver aqui. A mulher começou a rir e retrucou com desdém:
- Isso que diz não faz sentido algum. Não pedi para ter câncer... Flávia quase caiu da cadeira. Câncer? Mas do que ela estava
falando? Discretamente, olhou para a mãe, que permanecia de olhos
fechados, em oração.
- Se teve câncer, foi porque alguma coisa em seu comportamento, em seu coração, lhe trouxe conflitos internos que você não
soube resolver - continuou Antônio. - Não estou certo?
O espírito calou-se por alguns instantes e, de repente, começou a chorar, como se começasse a compreender o que lhe acontecera.
Ainda chorando, retrucou:
- Não sei... Foi tão difícil... Ela me tomou o homem amado... Fiquei com raiva...
Decididamente, aquela não era a mulher que Flávia esperava, e ela riu de si mesma, de sua tolice. Antônio continuava a conversar
com o espírito:
- E o que fez com sua raiva?
- O que fiz? Nada. O que poderia fazer? Minha irmã casou-se com o único homem a quem amei em toda a minha vida, e eu passei
a viver só. Tive vontade de tomar-lhe satisfações, mas fui covarde e me calei. Vivi a vida inteira com esse ódio a me corroer.
- De fato, o ódio a corroeu. Diga-me: de que foi seu câncer? De fígado?
- Sim... - balbuciou ela, aturdida. - Como sabe?
- O fígado é um órgão que absorve toda a raiva mal trabalhada em nós. Você viveu muitos anos com sua raiva, sem expressá-la,
e isso lhe causou imenso conflito interno.
- O que queria que fizesse? Que a matasse? Que brigasse com ela?
- Matá-la? Não. Brigar com ela? Não, mas colocar-se por meio de uma conversa sincera. Quando nos confrontamos com nossos
semelhantes, exteriorizando nossos sentimentos, eles se diluem e não nos consomem. Se, ao contrário, nós os guardamos, eles
vão somatizando e transformando-se em problemas de saúde.
- Tem razão... - Ela soltou um suspiro sentido. - Deveria ter falado com ela. Deveria ter-lhe dito que ficara magoada, que
o amava. E ela chegou a me perguntar... eu disse que não, fui orgulhosa, porque percebi que ele também se apaixonara. Eles
se casaram e eu fiquei com raiva. Depois, quando desencarnei, minha raiva aumentou porque, como não tinha mais pais e nunca
tive filhos, ela acabou ficando com todos os meus bens. Bens que eu conquistara com o suor do meu trabalho. Mas eu já lhe
tinha dado o homem que amava. Por que teria de lhe dar também meu patrimônio?
- Ninguém precisa de bens materiais no mundo espiritual, e os espíritos plasmam tudo aquilo de que necessitam.
- Sim, tem razão. De nada me valeriam aqui...
A mulher voltou a chorar, deixando Flávia penalizada, e Antônio, de forma amorosa, prosseguiu:
- Muito bem. Creio que chegou a hora de prosseguir em sua viagem. Vê esses bondosos amigos a seu lado? Vieram ajudá-la a
se libertar dessas amarras que ainda a prendem ao mundo carnal. Solte-se e vá com eles, e eles a levarão a um lugar de repouso
e serenidade, onde você poderá encontrar a paz há tanto perdida.
- Obrigada.
A médium que recebera o espírito inspirou profundamente e abriu os olhos.
- Tudo bem? - indagou Antônio.
Ela fez que sim com a cabeça. Um outro senhor fez uma prece de agradecimento e os trabalhos foram encerrados.
No caminho para casa, Flávia disse à mãe:
- Pensei que aquela mulher fosse a mãe de Fabrício. Que susto, hein?
- Por que foi um susto?
- Porque ela estava com muita raiva. Não quero um obsessor desses atrás de mim.
- Não diga isso, minha filha. O que comumente se chama de obsessores são, em geral, espíritos confusos ou ignorantes, muitas
vezes atraídos pelas próprias vibrações de ódio, vingança e tantas outras que os encarnados a eles endereçam.
- Desculpe-me. Não quis ser rude nem desrespeitosa.
- Você não foi. Mas esses espíritos, muitas vezes, sabem que são assim chamados e não ficam satisfeitos. Ao invés de ouvirem
as preces que fazemos por eles, ficam com mais raiva, porque se sentem discriminados e estigmatizados, como se obsessor
fosse sinônimo do próprio diabo.
- Mamãe, que horror!
- É verdade. Ninguém gosta de ser discriminado, nem os espíritos. Eles se ressentem com as idéias e os nomes que lhes damos. - Tem razão. Não havia pensado nisso
- Flávia fez uma
pausa
enquanto caminhavam e depois falou: - Por que será que ela não veio? Inês deu de ombros e retrucou:
- Não sei. Talvez não seja ainda a hora. - Confesso que fiquei decepcionada.
- Pois não devia. No começo, você estava até com medo.
- Eu sei. Mas fiquei ansiosa por saber...
- No tempo certo, saberá. Nem antes nem depois.
- Você fala as coisas de um jeito! O que lhe dá essa segurança? - A vida. Conheço a vida.
- Aquela mulher não está mais viva.
- Está, sim. Estou falando de vida, não no sentido corpóreo ou carnal, mas no sentido de existir. Essa mulher existe tanto
quanto nós, e ninguém desaparece, simplesmente. Esteja onde estiver, deve pensar em você, em Paulo e, principalmente, em
Fabrício.
- Será que ela está tão revoltada quanto aquele espírito que apareceu na mesa?
- Não creio. Sabe, Flávia, aquele espírito me fez pensar. Nós passamos todos estes anos sem nem falar sobre ela, como se
ela nunca tivesse existido. Mas ela existe, ainda que só em espírito, e deve estar querendo alguma coisa.
- O quê?
- Não sei. Mas, provavelmente, não é Fabrício.
- Como pode saber?
- Eu sinto. Ela lhe deu Fabrício para salvar-lhe a vida. Escolheu você, não por acaso. Você o salvou, fez a vontade dela.
Por que agora se voltaria contra você, contra a mulher que lhe salvou o filho? Não faz sentido.
- Mas por que voltou justo agora? Por que não antes, logo que desencarnou?
- Também não posso responder a essa pergunta. Muitas vezes, nós nem nos damos conta de que algum espírito pode estar sofrendo
em algum lugar. Nós simplesmente o apagamos de nossa mente e nem pensamos mais nele, mas ele pode muito bem continuar a
pensar em nós, sem que com isso queira nos prejudicar. Muitas vezes, só o que ele quer é um pouco de amor...
Flávia ficou pensativa. A mãe estava certa.
- E o que acha que devemos fazer?
- Por enquanto, nada. Vamos esperar até que ela apareça novamente.
- E se ela contar alguma coisa a Fabrício?
- Teremos de correr esse risco. Fabrício tem sensibilidade, e não há como impedirmos o desenvolvimento de sua mediunidade.
Só o que podemos fazer é rezar para que tudo aconteça da melhor forma para todos.
- Não quero que Fabrício descubra. Ele é meu filho. Meu filho, não dela!
- Cuidado para não cair no apego, Flávia. Entendo seu sentimento. Você tem sido a mãe dele durante todos estes anos e vai continuarsendo por muitos outros mais.
Contudo, o fato de
Fabrício descobrir a verdade não vai diminuir o amor que sente por ele nem o que ele sente por você.
- Não sei. E se ele se revoltar?
- Se ele se revoltar, é porque tem ainda muito que aprender. - Não posso concordar com isso. Se Fabrício me rejeitar, creio
que não poderei suportar.
Haviam alcançado o portão da casa de Inês e pararam antes de entrar. Inês apanhou as mãos da filha e, acariciando-as, falou
com doçura:
- Vamos rezar e confiar. Deus sempre faz o que é melhor para nós.
Entraram em casa e Flávia mandou chamar o motorista, que estava conversando com Bibiana na cozinha.
Enquanto o automóvel rodava pelas ruas da cidade, Flávia ia pensando. A mãe estava certa em tudo que lhe dissera. Mas ela
faria de tudo para evitar que Fabrício descobrisse a verdade. Tinha medo de perdê-lo, de perder seu coração.
Todas as quartas-feiras, Flávia ia em companhia da mãe ao centro de Antônio. No entanto, por mais que ansiasse, o espírito
da mãe de Fabrício nunca se manifestou. Tampouco o filho vira novamente aquela mulher, e Flávia pensou que ela houvesse
desistido.
Até que um dia, quando menos esperava, aconteceu com ela. Flávia estava recostada no sofá, lendo uma revista, quando sentiu
uma forte sonolência, que não pôde dominar. Olhos pesados, cerrou as pálpebras, e a revista escorregou de suas mãos, indo
pousar levemente em seu colo. Pouco depois, estava sonhando.
Em seu sonho, o pai estava parado junto a ela, tendo a seu lado a mulher que ela imaginou fosse a mãe de Fabrício.
- Papai! - exclamou surpresa. - Que faz aqui? E quem é essa aí com você? O que ela quer de mim?
- Não se assuste, minha filha - tranqüilizou o homem. - Helga não está aqui para lhe cobrar nada.
- Helga?
- Sim, a mãe de Fabrício.
Flávia recuou aterrada.
- A mãe de Fabrício sou eu!
Seu pai já ia responder, mas Hela adiantou-se e falou com forte sotaque alemão:
- Deixe, Ismael. Creio que devo uma explicação a Flávia.
- Pois deve mesmo! - retrucou Flávia, de má vontade. - An
dou assustando meu filho. Ele pensa que viu um fantasma.
- E viu. Afinal, estou morta, não estou?
- Você sabe tão bem quanto eu que não está morta. Apenas tro
cou de dimensão.
- Não pretendia assustá-lo...
- Não? E o que você queria? Depois de tantos anos, por que resolveu aparecer? Quer confundir a cabeça do menino?
Nesse momento, Ismael interviu:
- Minha filha, desarme-se. Helga veio aqui em paz. Flávia olhou-a desconfiada.
- Por quê? O que quer? Veio tomar-me Fabrício de volta?
- Se pensar um pouquinho-respondeu Helga paciente-, verá
que isso é impossível. Estamos em planos diferentes, e não é minha
intenção fazer com que ele desencarne. Tampouco pretendo contar
a verdade a ele, se é o que está pensando.
Flávia respirou mais aliviada. - Para que veio, então?
- Primeiro, para vê-lo. Você o tem criado com muito amor, mas
lembre-se de que fui eu que o gerei e só me separei dele para que fosse salvo. Depois, porque pretendo protegê-lo.
- Protegê-lo? De quê? - Dos perigos da vida.
- Mas que perigos? - Flávia encarou o pai e tornou com voz
súplice: - Por favor, diga-me: vai acontecer algo com meu filho? Ismael sorriu e respondeu:
- Não, minha filha, nada acontecerá a ele. O que Helga quer
dizer é que pretende acompanhar seu crescimento, inspirando-lhe
bons conselhos no decorrer de sua vida. Não é isso, Helga?
Helga balançou a cabeça e acrescentou com voz suave:
- Não me tome por inimiga, Flávia. Ao contrário, estou do seu
lado. Quando lhe dei meu filho, fruto de meu amor, foi porque sabia
que poderia cuidar dele para mim. E você o tem feito de forma amorosa e consciente. Sou-lhe muito grata por isso. Não tenho intenção
de revelar a ele nada da verdade...
- Então, por que se mostrou para ele? Por que falou com ele? - Fabrício é médium e, naquele momento, manipulei seus fluidos
e me tornei visível a seus olhos.
- Por quê?
- Porque estava com saudade. Desde que desencarnei e me reequilibrei, venho acompanhando seu crescimento de forma invisível.
Naquele dia, porém, não resisti e me aproximei. Materializei-me, utilizando sua própria energia.
- Para quê? Você o assustou.
- já disse que não foi essa a minha intenção - tornou Helga com uma pontada de tristeza. - Sei que não deveria ter feito
aquilo, que já estou desencarnada e não deveria me aproximar mais de Fabrício. Mas entenda: o fato de haver desencarnado
não apaga os sentimentos de ninguém, e continuo amando Fabrício como no dia em que ele nasceu.
- Ainda assim, não deveria ter feito aquilo. Ele não a conhece, não sabe quem é você.
- Tem razão, perdoe-me. Não gostaria que me visse como inimiga. Prometo que nunca mais me apresentarei a Fabrício dessa
forma. Permanecerei invisível a seu lado, ajudando-o e protegendo-o naquilo que for possível.
Flávia estava com medo e não escondia isso.
- Não se zangue, Flávia - intercedeu Ismael. - Helga jamais faria algo que pudesse prejudicar Fabrício. Ela agiu movida
por um impulso do coração. Não teve intenção de preocupar nem assustar ninguém. Ela ama o menino tanto quanto você. Por
que outro motivo o teria dado a você?
Confusa, Flávia não sabia o que dizer ou pensar. Contudo, suas palavras e as do pai faziam sentido. Ela estava desencarnada,
mas seus sentimentos não haviam morrido com o corpo. Como pretender que ela deixasse de amar o filho só pelo fato de não
possuir mais um corpo material?
Depois de breves segundos, Flávia inspirou fundo e, com olhos úmidos, retrucou:
- Está bem. Confiarei em você. Mas prometa-me que nunca vai contar nada a ele.
- Prometo, Flávia.
Efetivamente, desse dia em diante, Helga nunca mais falou com
Fabrício, embora não deixasse de acompanhar seu desenvolvimen
to. Aquele episódio passou a ser um fato isolado e nunca mais se repetiu. Espírito já bastante esclarecido, Helga jamais se deixou levar
pelo ciúme ou despeito, sentindo-se verdadeiramente grata a Flávia
pela oportunidade que lhe dera.
Alguns dias depois, vendo Fabrício e Adriano se aprontando para
ir à escola, Flávia entrou no quarto de Fabrício e perguntou:
- E então, meu filho? Tudo bem? - Tudo, mãe, por quê.
Ela fingiu ajeitar os livros na estante e retrucou em tom casual: - Teve de novo aquela visão?
- Que visão?
- Aquela, do ônibus. Viu aquela mulher novamente? -Não, nunca mais. Por quê? - Curiosidade.
Fabrício ia perguntar mais alguma coisa, mas a entrada súbita
de Adriano fez com que mudasse de idéia. O irmão era muito cético e, sem dúvida, cairia na pele dele se descobrisse que ele andava
vendo fantasmas.
- Oi, mãe - disse Adriano, abraçando Flávia e dando-lhe um beijo na testa.
- Olá, meu filho. Não o vi chegar ontem. A que horas voltou? Adriano baixou os olhos e apertou os lábios, olhando discreta
mente para o irmão, que não disse nada. Tentando aparentar naturalidade, respondeu:
- Não sei ao certo. Estava sem relógio, e ficamos até tarde estudando. Nem vimos a hora passar.
- Você ainda é muito jovem para ficar na rua até altas horas. - Prometo que não faço mais - encerrou Adriano, estalando
lhe um beijo na testa.
Flávia suspirou e não respondeu. Apenas olhou para ele, que, parado na porta, falou para o irmão:
- E então, seu tonto, vem ou não vem? O motorista já está esperando.
Fabrício fitou-o pelo espelho e respondeu com indiferença: - Pode ir, Adriano. Prefiro ir de ônibus. Adriano deu de ombros
e revidou com desdém: - Você é quem sabe.
Saiu. No quarto, Flávia encarava o filho, tentando adivinhar por que eles não se davam bem. Criara-os igualmente, dava-lhes
atenção, carinho. Por que não se entendiam? Fabrício até que não se metia com o irmão. Mas Adriano, sempre que podia, arrumava
um jeito de diminuí-lo ou ofendê-lo. Parecia sentir prazer em humilhar e agredir o irmão. Por quê?
Várias vezes, levara o problema ao marido. Paulo, porém, nunca lhe dera razão. Dizia que ela mimava demais os filhos e que,
por isso, Adriano era um pouco voluntarioso, ao passo que Fabrício era um tolo. Era nítida sua preferência por Adriano,
e todos na família já haviam notado isso. Até Hermínio, que não costumava reparar nessas coisas, percebeu. Paulo, porém,
dizia sempre que era impressão, mas admitia que Adriano possuía um gênio mais parecido com o seu.
Fabrício sentia essa diferença, e Adriano também. Por isso, Adriano sempre se escudava na proteção do pai, que nunca o repreendeu
severamente por suas travessuras. Ao contrário, protegia-o quando podia, muitas vezes colocando toda a culpa em Fabrício
por qualquer arte ou brincadeira mais perigosa. Ele era o mais velho e cabia-lhe tomar conta do irmão, não o incentivar
a fazer o errado. Fabrício não dizia nada, mas guardava aquela mágoa dentro do peito, ao passo que Adriano, cada vez mais,
tornava-se arrogante e provocador.
Flávia não fazia nenhuma distinção entre os dois. Sentia, em seu coração, que os amava igualmente, mas tudo fazia para proteger
Fabrício. Enquanto Paulo o acusava de tudo, ela sempre arranjava uma justificativa, não para inocentá-lo, mas para que cada
um dos filhos fosse penalizado na medida de suas responsabilidades. Flávia não aprovava os castigos de Paulo, embora às
vezes reconhecesse que eram necessários. Mas não podia permitir que apenas Fabrício fosse castigado, perdendo passeios,
indo para o quarto, muitas vezes sem jantar, sendo obrigado a estudar além do necessário.
Quando Adriano fazia alguma coisa que era descoberta e não se podia colocar a culpa em Fabrício, Paulo é que o justificava
e, quando não via saída, dava-lhe castigos leves, como ficar apenas uma hora no quarto, não tomar sorvete por um dia e coisas
do gênero. Mas nunca o castigara severamente como fazia com Fabrício.
E assim foi durante o passar dos anos, até que o destino houve por bem colocá-los frente a frente com as articulações da
vida.
Adriano terminou de ajeitar a gravata, passou a mão pelos cabelos e sorriu satisfeito. Estava muito elegante para sua festa
de formatura. Seguindo os passos do pai, concluíra o curso de administração de empresas e estava apto a ser seu sucessor.
Mais alguns anos e ocuparia a cadeira que hoje Paulo ocupava e que antes fora ocupada por seu avô.
Toda a boa sociedade carioca fora convidada, e ninguém queria perder a oportunidade de comparecer à festa de formatura de
um dos melhores partidos da cidade. Ele e o irmão eram comentadíssimos nas rodas sociais, sendo apontados como os favoritos
no coração das jovens casadouras do Rio de Janeiro.
Fabrício formara-se advogado, mas não aceitara trabalhar nas empresas do pai. Queria ter seu próprio escritório e passou
a dedicarse às causas de família. Sentia-se atraído pelos problemas familiares, em especial pela situação das crianças,
muitas vezes atiradas de um lado para outro, servindo de joguete para os interesses dos pais.
Adriano fechou a porta do quarto e desceu para a sala, onde os pais e o irmão já o aguardavam.
- Meu filho! - exclamou Flávia, ajeitando-lhe a gravata. - Pensei que não viesse mais.
- Estou bem?- indagou ele à mãe, dando uma volta para mostrar o terno novo.
- Está muito elegante. Vai ser um sucesso.
- E você, Fabrício, o que acha?
- Você está muito bem, Adriano, como sempre.
Adriano sorriu com satisfação, e o pai, acariciando sua nuca, acrescentou:
- Muito bem, meu filho. Não quer chegar atrasado à cerimônia, quer?
Os quatro saíram animados e tomaram o automóvel que os conduziria até a sede do clube onde se realizaria a festa de formatura.
Quando chegaram, já havia uma enorme quantidade de jovens andando de um lado para outro, todos imponentes em suas becas
de formatura.
Ficaram parados na porta, olhando o movimento e procurando ver se já havia chegado algum conhecido.
- Vejam- falou Paulo, apontando para um lugar na terceira fila. - Lá estão mamãe e papai. Vamos até lá.
Seguiram em direção àquela fileira e sentaram-se ao lado deles. Flávia indagou:
- Não viram minha mãe por aí?
- Vimos, sim - respondeu Dulce. - Foi até o toalete, mas já volta. Estamos guardando o lugar dela.
- Olá! Como vai nosso formando?-era Feliciano, que acabara de chegar.
- Muito bem, doutor - respondeu Adriano, com um sorriso. - Posso sentar-me aqui?
- Estamos guardando esse lugar para Inês-desculpou-se Dulce. - Não faz mal. Sento-me aqui atrás.
Uma forte microfonia se fez ouvir no salão, e muitos levaram as mãos aos ouvidos para não escutar aquele ruído ensurdecedor.
Olharam em direção ao palanque que fora instalado para a realização da cerimônia e viram que um homem tentava ajeitar o
microfone, enquanto várias autoridades tomavam assento à enorme mesa que fora cuidadosamente arrumada logo atrás.
- Acho que já vai começar-falou Fabrício.
- Tem razão - concordou Adriano. - Melhor tomar meu lugar. Adriano foi em direção ao local reservado aos
formandos, e todos os convidados se acomodaram em seus lugares. O mestre-de
cerimônias já ia iniciar a solenidade quando Inês chegou esbaforida. - Nossa, Inês - disse Dulce apressada. - Já estava
ficando
preocupada. Demorou tanto!
- Encontrei Mariana e Marcos lá atrás e parei para conversar.
- Eles estão aí? Onde?
Inês apontou para os dois, que estavam sentados do outro lado. Dulce sorriu e acenou para eles, que acenaram de volta. Ao
sentarse, Inês sentiu que alguém a cutucava no ombro e olhou para trás.
- Feliciano! Não o havia visto aí.
Ele chegou o corpo para a frente e sussurrou bem-humorado:
- Estou precisando aparecer mais, não é?
- É, sim. Você sumiu do centro.
-É o trabalho... O consultório e o hospital andam tomando todo o meu tempo. Mas não se preocupe. Quando tiver um tempinho,
aparecerei, com certeza.
Ela sorriu e virou-se para a frente. A orquestra começava a tocar o Hino Nacional, e todos se puseram de pé. Em seguida,
alguém fez um discurso inflamado, foram apresentados patrono, paraninfo e homenageados, seguindo-se a entrega dos diplomas.
A solenidade não foi demorada, e Adriano foi dos primeiros a receber o canudo.
Terminada a solenidade e encerrados os cumprimentos, as pessoas foram se retirando. Os alunos não quiseram dar nenhum baile,
e cada um organizou sua própria festa. Com Adriano, não foi diferente. Saindo dali, alguns convidados foram se encaminhando
para a casa de seus avós paternos, uma bonita mansão no bairro de Ipanema, onde fora preparada uma festa requintada e luxuosa.
Adriano dançava com Clarinha, sua namorada desde o primeiro ano da faculdade. Era uma moça muito bonita e inteligente, apesar
de um tanto quanto geniosa. A família aprovava aquele namoro, pois o pai de Clarinha era um poderoso industrial carioca,
membro de uma das mais respeitáveis e tradicionais famílias do Rio de Janeiro. Quando a música terminou, Clarinha puxou
Adriano pela mão e perguntou:
- Você viu Selena?
Selena era prima de Clarinha, filha de uma irmã de sua mãe, e estava tendo problemas com o casamento. A família do marido
de Selena não possuía recursos, e ela agora fazia parte do que se denominava "o ramo pobre da família". Ainda assim, um
desquite jamais seria aceito. Casara-se porque quisera, ninguém a obrigara. Ao contrário, não faltaram conselhos para que
não o fizesse. Mas Selena não quis ouvir. Estava apaixonada e enfrentou a família toda para se casar com Cassiano.
- Deve estar por aí - respondeu Adriano, sem interesse. - Deixe-a, que logo aparece.
- Não. Prometi apresentá-la a seu irmão. Você sabe que ela está tendo problemas com o marido e quer se desquitar.
- Desquitar... Onde já se viu, uma mulher querer se separar do marido? Vai é ficar falada, isso sim. Você não devia andar com ela.
- Deixe de ser preconceituoso. Selena não fez nada de errado.
O marido é que não presta: bate nela e não lhe dá dinheiro para nada. - Ainda assim...
- Não posso acreditar que você pense que isso é certo. Acha que o homem tem direito de bater na mulher?
Adriano hesitou. Ela tinha razão, mas ele era radicalmente contra o desquite. Considerava-o uma vergonha e, para ele, as
mulheres desquitadas não passavam de ordinárias em busca de vida fácil.
- Bom... - balbuciou - Certo não é. Mas há outros meios de se resolver isso.
- Ah! é? E que meios? Posso saber?
- Não sei. Eles podiam procurar ajuda...
- De quem? De algum conselheiro sentimental? De um padre? Antes que Adriano pudesse responder, Selena aproximou-se. - Onde
esteve, Selena?- indagou Adriano, de má vontade. -
Clarinha já estava quase tendo um chilique por sua causa.
Selena ergueu as sobrancelhas em sinal de espanto e retrucou: - Fui até o toalete.
Adriano, pouco à vontade com a presença da moça, pediu licença e afastou-se, indo conversar com alguns parentes.
- Venha - chamou Clarinha, depois que ele se foi. - Vamos procurar Fabrício.
Fabrício conversava com dois amigos quando elas se aproximaram, e Clarinha foi logo falando:
- Com licença, Fabrício. Será que poderia falar com você um minuto?
- É claro - respondeu ele educadamente.
Foram sentar-se num sofá, e Clarinha fez as devidas apresentações: - Fabrício, creio que ainda não conhece minha prima Selena.
Ele estendeu a mão para ela, passando por cima do colo de Clarinha, e retrucou com polidez:
- Muito prazer, Selena.
- O prazer é todo meu - respondeu ela com um sorriso que o encantou.
Virando o rosto, desconcertado, ele acrescentou: - Bem, o que posso fazer pelas senhoritas? - Selena não é senhorita, é
senhora...
Fabrício sentiu um leve desapontamento, mas não deixou transparecer nada, e Clarinha continuou a falar:
- O marido dela, Cassiano, de uns tempos para cá, deu para beber e, sabe como é, às vezes perde a cabeça e...
Não terminou. Fabrício podia sentir o constrangimento de Selena ao ouvir as palavras da prima, expondo sua vida para um
estranho de forma tão despojada.
- Bem, Fabrício - retomou Clarinha -, sei que você é advogado e que atua na área de família, e pensei se não poderia ajudar.
Selena quer se separar, mas a família toda é contra, menos eu, é claro, e ela não possui dinheiro
para pagar um bom advogado. Fabrício olhou Selena com interesse. Era uma moça extrema mente jovem,
não devia ter mais que vinte e cinco anos.
- Tem certeza de que quer se separar? - tornou ele.
- Tenho, sim. Cassiano mudou muito desde que nos casamos. - E quando foi isso?
- Há quatro anos. Eu tinha dezoito anos.
- Dezoito? Quer dizer que tem apenas vinte e dois anos? Ela balançou a cabeça e acrescentou: - E tenho dois filhos.
- Isso não é tudo - prosseguiu Clarinha. - Como assim?
- Bem... Cassiano tem provas que podem, digamos, incriminar Selena, e ela pode vir a perder a guarda dos filhos.
- Que provas? O que ela fez?
Selena respirou fundo, encheu-se de coragem e, fazendo um gesto para Clarinha, atalhou:
- Cassiano tem fotos minhas na cama com seu irmão, Aníbal. Fabrício abriu a boca, estupefato. - Mas isso não é
o pior - prosseguiu Clarinha.
- As fotos foram tiradas em nossa cama, tendo ao lado o berço de meu filho mais novo, de apenas seis meses.
Aquilo era uma bomba. Fabrício sabia que, se Cassiano apresen tasse
aquelas fotos, qualquer juiz lhe daria a guarda das crianças, por entender que Selena era uma mulher sem moral nenhuma,
que não só traía o marido como o fazia com o próprio irmão dele e, o que era pior, em sua cama, ao lado do filhinho adormecido.
- Mas Carlinhos não estava no berço.
-Não?
- Não. Estranhamente, Cassiano levara as crianças para a casa de sua mãe naquele dia...
Fabrício, muito interessado, queria saber mais a respeito daquela história, mas a chegada de Adriano fez com que Selena
se calasse, e ele não perguntou mais nada.
- Ah, vocês estão aí!
Clarinha estendeu a mão para Adriano, que se abaixou a seu lado e deu-lhe um discreto beijo na face. Em seguida, sentou-se
no sofá e começou a puxar conversa, falando sobre a festa, a formatura, os convidados... Fabrício olhou discretamente para
Selena, que olhava atentamente para Adriano. Após alguns minutos, o pai apareceu e o chamou e, antes de se afastar, Fabrício
chegou o rosto perto do ouvido de Selena e sussurrou:
- Espero-a amanhã em meu escritório às dez horas. Não falte.
No dia seguinte, quando Clarinha e Selena chegaram ao escritório de Fabrício, foram introduzidas em seu gabinete pela secretária,
uma simpática senhora de uns cinqüenta anos que ele empregara logo após ela ter se desquitado.
- Obrigado, Dona Ofélia-disse ele com delicadeza. -Pode ir. As moças entraram e ele as acomodou em duas poltronas de veludo
em frente à sua mesa.
- Muito bem - prosseguiu. - Agora que estamos mais à vontade, gostaria de conhecer o resto de sua história, Selena.
Com olhos úmidos, Selena tomou a palavra e continuou a narrativa que fora obrigada a interromper na noite anterior.
- Bem, como estava lhe contando, na noite em que Cassiano nos flagrou na cama, ele havia levado as crianças para a casa
de sua mãe. Eu achei estranho, porque ele nunca fez isso. Mas eu não disse nada. Pensei que, porque as coisas entre nós
já não iam bem, ele quisesse ficar um pouco a sós com os filhos, sem minha presença. Fui muito ingênua. Hoje sei que ele
armou tudo aquilo.
- Armou o quê?
-Naquela noite, depois que ele saiu, eu estava na cozinha, lavando a louça do jantar, quando a campainha tocou. Fui atender,
e era Aníbal, meu cunhado, que entrou perguntando por Cassiano. Disse-lhe que ele não estava, que havia ido à casa de sua
mãe. Ele pediu para falar-me. Disse que fazia tempo que ele vinha observando o comportamento de Cassiano e que não aprovava
nada do que ele fazia. Sabia que ele me batia e achava que eu devia deixa-lo. Comecei a chorar. Eu estava desolada, desiludida,
sem apoio. Ninguém de minha família queria ou quer aceitar o desquite, e Aníbal parecia ser a única pessoa a me compreender.
- Na época - interveio Clarinha - eu não sabia o que estava acontecendo. Talvez, por ser solteira, ninguém me disse nada.
E olhe que até sou mais velha!
Selena sorriu agradecida para Clarinha e continuou:
- Aníbal falava com tanta doçura que me emocionei e me deixei envolver. Não conseguia parar de chorar, e ele me abraçou
e começou a me acariciar. Eu estava carente, sentindo-me abandonada, e logo estávamos nos beijando. Ele então me levou para
o quarto. Como disse, Carlinhos dorme conosco, e o berço estava lá, bem ao lado da cama. Na hora, não pensei em nada. Só
o que queria era me sentir amada, viva, e me deixei envolver cada vez mais...
Nesse ponto, ela parou e começou a chorar baixinho, e Clarinha segurou sua mão, tentando transmitir-lhe forças. Fabrício,
comovido, apertou um botão e chamou a secretária.
- Dona Ofélia, por favor, traga um copo de água para Dona Selena.
- Sim, senhor.
Quando Ofélia voltou, Selena bebeu sofregamente e pousou o copo na bandeja, agradecida. A secretária devolveu-lhe o sorriso
e deu meia-volta, fechando a porta em silêncio.
- Sente-se bem para continuar?-quis saber Fabrício. - Se quiser, podemos deixar para outro dia.
Ela sacudiu a cabeça com veemência e objetou:
- Absolutamente não. Vim aqui porque quero me desquitar, e é o que farei.
- Isso, Selena- encorajou Clarinha. - Você é uma mulher forte e corajosa. Vai conseguir.
Selena respirou fundo e continuou:
- Quero que saiba que não é nada fácil para mim narrar-lhe esses acontecimentos.
- Entendo - falou Fabrício compreensivo. - Mas, se quer que
eu a defenda, tenho de conhecer toda a verdade. Se não quiser con
tinuar hoje, entenderei. Volto a dizer que podemos marcar outro dia. -Não, não. Quero acertar tudo hoje. já estou melhor.
Fabrício ficou esperando, e ela continuou, a face já se cobrindo de rubor:
- Estávamos... estávamos... - calou-se novamente, tentando ganhar coragem. -Estávamos, bem, nos amando... você entende...
Fabrício tranqüilizou-a:
- Não precisa ter medo ou vergonha de mim, Selena. Antes de tudo, sou um profissional e não estou aqui para julgar ninguém.
Minha função é ajudá-la, não recriminá-la ou criticá-la.
Mais confortada, Selena continuou:
- A verdade, Fabrício, é que estávamos... no auge da relação. Eu estava tão envolvida com Aníbal que nem ouvi quando a porta
se abriu. Mas o fato é que Cassiano entrou com uma máquina fotográfica na mão, e só percebi sua presença quando as luzes
do flash estouraram em meu rosto. Abri os olhos, confusa, tentando entender o que estava acontecendo. Aníbal estava em cima
de mim, mas parecia nem ligar e continuava a se movimentar... -Nova pausa, novo choro. - Tentei desesperadamente empurrá-lo,
mas ele não saía. Prendendo minhas mãos acima de minha cabeça, continuava a investir contra mim, enquanto os flashes continuavam
espocando. Oh, céus, foi horrível!
Selena chorava descontrolada, e Clarinha levantou-se para abraçara prima.
- Acalme-se, Selena, está tudo bem.
Aos poucos, Selena foi se acalmando. Nunca passara por uma situação tão difícil e constrangedora em toda a sua vida. Depois
que os soluços cessaram, continuou:
- Quando tudo terminou, Aníbal saiu de cima de mim e olhou para Cassiano, que nos fitava com ódio. "Cassiano", ele disse,
"o que está fazendo aqui?" "Seus cachorros!", berrou Cassiano. "Deveria matá-los!" Eu estava apavorada. Aníbal, mais que
depressa, apanhou suas roupas e fugiu pela porta aberta.
- E o que Cassiano fez depois disso?- inquiriu Fabrício, já per
cebendo o que acontecera.
- Começou a me xingar e me acusar de ordinária, prostituta e coisas do gênero. Eu queria morrer!
- As crianças estavam com ele?
- Não. Haviam ficado na casa de sua mãe. - Por quê?
- Não sei. Ou melhor, desconfio. Ele disse que, se eu o deixasse, ele cuidaria direitinho para que o juiz lhe desse a guarda das
crianças, e eu sairia daquele desquite escarnecida e humilhada.
- Por que ele não quer se desquitar?
Selena olhou para Clarinha, e agora foi a vez de esta falar: - Porque não quer perder a herança. - Herança?
- Sim- concordou Selena. - Ele sabe que meus pais têm muito dinheiro e que eu só tenho uma irmã. Cassiano espera colocar a
mão em minha herança quando os sogros morrerem.
- E está disposto a esperar sua morte?
- Está. Meus pais já são meio idosos. Quase não nos ajudam, mas eu ainda sou herdeira. Ele consultou um advogado e sabe que meu
pai não pode me deserdar só porque me casei com alguém que ele não aprovava. Isso é verdade?
- É, sim. Os casos de deserdação são muito poucos e estão todos descritos na lei.
- Por isso Cassiano não quer se separar. Tem medo de não receber nada e usa as fotos para me amedrontar.
Disse que, se eu o largar, vai mostrar tudo ao juiz, e eu perderei meus filhos. Oh, Fabrício,
não posso abrir mão de meus filhos!
- Acha que foi tudo armação?
- Estou certa de que sim. Aníbal estava mancomunado com ele e com a mãe. Eles armaram tudo isso direitinho para me apanhar, e
eu caí feito um patinho. E agora vejo-me de pés e mãos atados.
- Há quanto tempo isso aconteceu? - Há um mês. - E, de lá para cá, como seu marido a tem tratado?
- Muito mal. Quase não nos falamos mais. Ele está sempre de mau humor e grita por qualquer coisa. Bate em mim às vezes,
e Selena, minha filha mais velha, morre de medo dele. E só tem três aninhos!
- E seus pais? Contou a eles?
- De jeito nenhum! Meus pais são muito rígidos e jamais me apoiariam numa situação dessas. Fariam de tudo para continuar
mantendo as aparências.
- Mesmo sabendo que Cassiano e Aníbal armaram tudo?
- Mesmo assim. E, ainda que me apoiassem, iriam querer me dominar, e eu seria obrigada a fazer o que eles quisessem.
Fabrício ficou pensativo por alguns instantes. A situação não era nada boa, mas ele não podia deixar de ajudar aquela pobre moça. Ela
era tão jovem, tão inexperiente... Acabou caindo numa armadilha. - Será que pode ajudá-la, Fabrício? - perguntou Clarinha.
- Selena está sem um tostão. E o que tenho não é muito. Encarando-a com olhar significativo, Fabrício considerou:
- É isso o que quer?- ela assentiu. - Então, está acertado. Defenderei sua causa e não lhe cobrarei nada. Mais tarde, se
puder pagar, pague. Se não puder, não faz mal.
- Ah, Fabrício, obrigada! Nem sei como lhe agradecer.
- Mas. quero que saiba que não será fácil. Cassiano tem provas robustas contra você, e será muito difícil retirar-lhes a
credibilidade. Além disso, Aníbal irá testemunhar a favor dele.
- Não faz mal. Estou pronta para o que der e vier. Entrei nesta briga porque preciso recuperar minha dignidade e auto-estima
sem abrir mão de meu maior tesouro, que são meus filhos.
Já passava do meio-dia quando a entrevista se encerrou. Fabrício cogitou convidá-las para almoçar, mas mudou de idéia. Selena
precisava pensar. Era um grande passo que estava dando, e ele não queria que ela imaginasse que ele a estava ajudando porque
tinha algum interesse nela.
Adriano tocou a campainha da casa de Clarinha e esperou até que a criada viesse atender. Clarinha morava num apartamento
muito bonito, na avenida Atlântica, de frente para o mar. A criada introduziu-o na sala e mandou que aguardasse. Adriano
foi para a janela admirar a paisagem. Era sábado, e a praia já estava cheia àquela hora da manhã.
- Bom dia, meu querido - cumprimentou Clarinha, abraçando-o por trás.
Ele se virou e abraçou-a também, pousando-lhe um beijo carinhoso nos lábios.
- Olá, meu bem. Então? Tudo pronto? Podemos ir?
- Podemos, sim.
A mãe de Clarinha apareceu na porta da sala e cumprimentou Adriano com um aceno de cabeça, indagando à filha:
- Vai sair?
- Vou à praia, mamãe. Até logo.
- Até logo, Dona Elisete - repetiu Adriano.
Elisete respondeu com um sorriso e foi sentar-se no sofá.
No corredor do prédio, Clarinha desabafou:
- Minha mãe não muda mesmo...
- Como assim?
- Só quer saber de ir às compras, ao cabeleireiro, fuxicar sobre a vida dos outros...
- Ora, Clarinha, deixe-a. É de outra geração.
Alcançaram a calçada e atravessaram a rua, descendo para a areia. Escolheram um lugar perto da água e Adriano montou a
barraca, enquanto Clarinha estendia as toalhas no chão. Depois que se acomodaram, ele comentou:
- E sua prima, como vai?
- Selena? Vai bem.
- Soube que meu irmão aceitou o caso. - Ele foi muito compreensivo.
- Fabrício é um tolo sentimental.
- Como pode falar uma coisa dessas de seu irmão, Adriano? Ele é um excelente rapaz, muito digno e respeitador. - Está se
interessando por ele, é?
- Eu? - fez Clarinha, surpresa. - Imagine! Era só o que me faltava.
- Hmm... Não sei, não. Do jeito que o defende...
- Pare com isso. Está me ofendendo. Quem pensa que sou? Arrependido, Adriano deu-lhe um beijo na testa e desculpou-se: -
Tem razão, querida, perdoe-me. Mas fiquei com ciúme. - Pois não precisa. Gosto de você, e você sabe disso. Seu irmão
é um bom moço, reconheço, mas não tenho nenhum outro interesse nele que não seja uma pura amizade.
Embora enciumado, Adriano tentou disfarçar e falou em tom de confidência:
- Clarinha, será que posso lhe contar um segredo?
Ela o olhou preocupada e respondeu:
- É claro que sim. Sabe que pode confiar em mim para qualquer coisa.
- O que vou lhe dizer, jamais tive coragem de contar a ninguém. - O que é? - É sobre Fabrício.
- O que tem ele?
- Não sei explicar, mas não consigo gostar dele.
Clarinha balançou a cabeça e respondeu compreensiva:
- Não precisa se culpar, Adriano. Isso acontece em muitas famílias. Não vou dizer que é natural, mas também não é nenhum
bicho-de-sete-cabeças.
- Não, Clarinha, você não está entendendo. Sei que há muitos irmãos que não se dão, mas não é esse o caso. Sinto algo
estranho com relação a Fabrício, como se ele não fosse meu irmão e tivesse vindo para me tomar alguma coisa. Não sei definir.
- Deve ser impressão, porque não gosta muito dele.
- Não, não é. Não consigo nem explicar direito o que sinto, mas a vida inteira senti em Fabrício uma ameaça.
- Como assim?
- Não sei definir. É uma sensação estranha, angustiante. Não é apenas uma antipatia. É algo que vem de dentro, uma quase
inimizade.
- É tão sério assim?
- É. Ainda mais porque sinto que minha mãe o prefere a mim.
- Adriano...
- É verdade. Mamãe sempre tentou disfarçar. Não é que não goste de mim. Sei que me ama, mas Fabrício parece ser especial.
- Aí está. É ciúme.
- Não! Não é ciúme. É algo mais. Não sei dizer, e isso me atormenta. Por outro lado, papai sempre torceu tudo a meu favor.
Desde crianças, papai sempre ralhava com ele por qualquer bobagem, ao passo que vivia justificando tudo que eu fazia.
- Adriano, acho que você está fazendo tempestade num copo d'água. Sua mãe tem preferência por Fabrício, e seu pai, por você.
Pode não ser a família perfeita, mas considero isso extremamente natural. E, depois, o que importa é que, ainda assim, vocês
se dão bem, não é?
- Mais ou menos. Nós não brigamos, é verdade, mas nunca fomos ligados. Sinto-o um estranho.
Clarinha encerrou o assunto com um beijo, e Adriano não insistiu. Ela não entendia. Nem mesmo ele entendia, e talvez fosse
melhor mesmo não se preocupar com aquilo.

Dois dias depois, quando Adriano viu Fabrício em companhia de Selena, tomando um refrigerante num café no centro da cidade,
sentiu que uma raiva incontrolável tomava conta dele. Será que aqueles dois estavam tendo um caso?
No café, Fabrício e Selena acertavam alguns detalhes para a separação. Era preciso juntar documentos, arranjar testemunhas,
estudar bem o caso. Fabrício não queria que o juiz visse Selena como uma mulher sem moral, que não tinha condição de criar
os filhos. Reconhecia que as fotos seriam comprometedoras, ainda mais mostrando o berço do neném bem ao lado da cama onde
o casal tivera relações. E se o juiz pensasse que, além de tudo, o bebê estava dormindo ali? Seria o fim.
- Teremos de pensar antes de agir - disse Fabrício, preocupado. - Não quero dar nenhum passo em falso.
- Muito menos eu. Meus filhos são a coisa mais importante no mundo para mim. Se os perder, acho até que seria capaz de me
matar.
- Deus me livre! Nem me diga uma coisa dessas.
- É verdade. Abro mão de tudo para ficar com meus filhos. Se tivesse dinheiro agora, daria-o todo a Cassiano, desde que
ele me entregasse aquelas fotos e sumisse.
- Não é assim que se resolvem as coisas, Selena.
-Com Cassiano, é, sim. Ele só entende a linguagem do dinheiro. Não está preocupado com as crianças. Só o que quer é usá-las
para enriquecer. Temo só de pensar no que ele poderia fazer se ficasse com elas.
- Onde estão neste momento?
- Com a babá. Tenho uma mocinha que cuida deles para mim enquanto estou fora.
A conversa mudou de rumo e, como era natural, acabou se voltando para o lado pessoal. Selena fazia perguntas sobre as preferências
literárias e musicais de Fabrício, seu time de futebol, sua religião...
- Sou espiritualista, Selena. Vou sempre a um centro com minha mãe e minha avó.
- Vai?!
- Por que o espanto? Não acredita?
- Não é isso... acredito...
- Acredita? Mesmo?
Selena já ia responder quando a chegada súbita de Adriano os interrompeu. Percebendo o olhar de Fabrício, a moça achou que
não deveria comentar mais nada e calou-se.
- Bom dia, irmãozinho - cumprimentou Adriano, com certo
tom de ironia na voz. - Já de prosa tão cedo numa segunda-feira? Fabrício encarou-o com ar recriminador e redargüiu: - Não
cumprimenta Selena, Adriano? - Ah, sim, minha boa educação... Como está, Selena? - Muito bem, obrigada.
- Não vai trabalhar, Adriano?
- Vou. Estava de passagem e resolvi parar para cumprimentá-los. Você saiu tão cedo hoje de manhã que nem tive tempo de lhe dar bom-dia.
Fabrício sorriu para ele, chamou o garçom e pediu a conta.
- Tudo bem, Adriano, mas já estávamos de saída.
Pagou a conta, apanhou os documentos que estavam sobre a mesa, puxou a cadeira de Selena e, segurando-lhe o braço, saiu
com ela do café.
- Até logo, Adriano - atalhou Fabrício.
- Adeus.
Vendo-os afastar-se, Adriano sentiu a raiva crescer dentro dele. O pai não iria gostar nada de saber que o irmão estava
se envolvendo com uma mulher casada. Entrou no prédio em que funcionava a empresa do pai, tomou o elevador e foi direto
até a sala da presidência. Entrou sem bater, e Paulo, que ditava uma carta para a secretária,
levou tremendo susto quando o viu.
- Meu filho! O que houve?
- Papai, precisamos conversar.
- Agora?
- Agora.
Paulo pediu licença à secretária, olhou Adriano nos olhos e disse:
- Muito bem. Fale. O que aconteceu?
- É Fabrício. Creio que está se envolvendo com aquela mulher. Onde já se viu? Uma mulher que é casada, que quer se desquitar
do marido... Como pode? Será que Fabrício perdeu a vergonha? Podia ao menos tentar disfarçar.
- Ei, ei, vá com calma - pediu Paulo. - Do que está falando?
Adriano desabou na cadeira e respirou fundo, tentando manter a calma.
- Estou Lhe dizendo que acho que Fabrício está tendo um caso com Selena, prima de Clarinha.
O pai ficou encarando-o com ar de dúvida, até que considerou:
- Por que diz isso?
Encontrei-os agora mesmo num café. Em plena rua do Ou
vidor!
- Meu filho - tornou Paulo em tom moderado-, seu irmão está cuidando do desquite dela, e isso não significa que eles estejam
tendo um caso.
- Mas, pai, você não vê? Isso ainda pode acabar prejudicando minha relação com Clarinha.
- Você está exagerando, Adriano.
- Será que estou? Pense bem. É seu nome que ele quer desmoralizar.
Paulo parou para refletir no que o filho lhe dissera. Embora achasse aquela preocupação um exagero, o fato é que também
não simpatizara com a moça. Havia algo nela que não lhe agradava, e saber que ela e o filho poderiam se relacionar causou-lhe
uma estranha sensação de mal-estar, um desconforto, um quase ciúme.
Sentindo que um estranho ódio começava a crescer dentro dele, Paulo acabou por concordar:
- Não se preocupe, Adriano. Se vai ficar mais tranqüilo, falarei com Fabrício.
Adriano saiu satisfeito do gabinete do pai, e Paulo ficou pensativo. Conhecera Selena na festa de formatura do filho e não
tivera nenhum contato com ela. Por que então não gostava dela? Sem saber explicar, atribuiu aquela antipatia ao fato de
que ela estava se desquitando, o que ele considerava uma vergonha. Mas seria isso mesmo? Nem ele poderia dizer.
Enquanto tomava seu café, Fabrício lia calmamente o jornal da
manhã e nem se mexeu quando Adriano entrou e passou por ele. - Bom dia, Fabrício-falou Adriano, com mal disfarçada ironia.
- Bom dia, Adriano-respondeu o irmão, sem desviar os olhos do jornal.
Adriano sentou-se em frente a ele, ajeitou o guardanapo no colo e, enquanto se servia de café, perguntou
- Vai encontrar Selena hoje?
- Não sei. Talvez.
- Não acha que está exagerando?
Fabrício soltou o jornal e encarou o irmão com ar grave. - Exagerando em quê?
- Em seu interesse por esse caso.
Calmamente, Fabrício pousou o jornal sobre a mesa, sorveu um último gole do café, limpou os lábios com o guardanapo e levantou-se
para sair. Ao passar pelo irmão, deu-lhe um tapinha no ombro, aproximou a cabeça de seu ouvido e respondeu baixinho:
- Você não tem nada com isso.
Adriano soltou a xícara, furioso, e deu um salto da cadeira.
-Você é muito atrevido!
- Atrevido é você, que vem me interpelar sobre coisas que não lhe dizem respeito.
Fuzilando de ódio, Adriano disparou:
- Escute aqui, se quer defender aquela ordinária, é problema seu. Embora não concorde, entendo que é sua profissão. Mas
envolver-se com ela, não! É uma vergonha!
- Não se meta com a minha vida. Não lhe dou esse direito.
Virou-lhe as costas e saiu, sem nem se dar ao trabalho de desmentir o que ele dissera sobre ter um envolvimento com Selena.
Adriano não tinha nada com sua vida, e ele não lhe devia nenhuma satisfação.
aquela noite, em casa, Selena tinha mais uma de suas violentas discussões com o marido.
-Quem é o sujeito?-gritava Cassiano, o rosto transfigurado pelo ódio.
- Não sei de que sujeito está falando.
- Sabe, sim! - berrava. - Aníbal viu!
- Aníbal... Desde quando voltou a confiar em seu irmão?
- Não se faça de sonsa comigo, Selena, ou acabo com você!
Cassiano deu um murro na parede, e ambos ouviram um choro de criança.
- Fale mais baixo - falou Selena angustiada. - Vai acordar as crianças.
- Que se danem! Detesto choro de criança!
Os choros aumentaram, e Selena correu para seu quarto, segurando Carlinhos no colo e tentando acalmá-lo:
- Está tudo bem, amorzinho, mamãe está aqui.
Escutou um barulho na porta e viu a filha parada, chorando também. Selena estendeu o braço livre para ela e sentou-se na
cama, ajeitando Selma a seu lado e envolvendo-a num abraço amigo e protetor.
- Papai tá bravo - falou ela com sua vozinha infantil.
-Não se preocupe, meu bem, já vai passar.
Selena ficou ninando Carlinhos, tentando fazer com que dormisse novamente, e deitou a cabecinha de Selma em seu colo. As
crianças já haviam pegado no sono quando Cassiano apareceu.
- Não tente se esconder atrás das crianças. Solte-os e volte para a sala. Ainda não terminamos nossa conversa.
- Psiu! Não vê que consegui fazê-los dormir novamente?
- Eu mandei soltá-los!
Cassiano arrancou Carlinhos do colo de Selena, e o menino pôs-se a berrar, enquanto Selma, apavorada, deu um pulo da cama
e abraçou-se à mãe, que tentava retirar o filho do colo do marido. Mais que depressa, Cassiano colocou o menino no berço
e segurou Selma pelo braço, empurrando-a para cima da cama.
- Solte-os, seu animal! - berrava Selena, dando-lhe tapas na mão para proteger a filha.
Fora de si, Cassiano desferiu-lhe violenta bofetada no rosto, e Selena tombou sobre a cama, ao lado de Selma, que chorava
apavorada, com medo da fúria do pai.
- Sua cadela! Ordinária!
Apanhou pelos cabelos a mulher, que lutava desesperadamente para se soltar, e saiu
arrastando-a porta afora. Selma e Carlinhos gritavam apavorados, mas Cassiano fechou a porta e ordenou:
- Fique aí, Selma. Se sair, vai apanhar também. E cale essa boca!
A menina engoliu o choro e ficou ouvindo o pai arrastar a mãe pelo corredor. Chegou perto do berço do irmão e, pelas grades,
acariciou suas perninhas, tentando fazer com que se calasse também.
Do lado de fora, Selena pedia a Cassiano que a soltasse, mas ele nem escutava. Cheirava a álcool e ódio. Com brutalidade,
jogou a mulher sobre o sofá e desferiu-lhe diversos murros, e Selena sentiu o sangue escorrendo da boca. Já ia espancá-la
novamente quando ouviu fortes batidas na porta:
- Abra! E a polícia!
Alguém ouvira a gritaria e chamara a patrulha. Aturdido, Cassiano olhou para Selena, como que a ameaçando. Fechou a mão
e foi abrir.
- Sim? - perguntou com a porta entreaberta, impedindo que os policiais vissem o interior do apartamento.
- Alguém nos telefonou informando de uma briga.
- Briga? Aqui? Deve haver algum engano.
Sentada no sofá, Selena não ousava se mexer. Tinha vontade de correr e contar aos guardas que Cassiano era um monstro, que
a espancava e aterrorizava os filhos. Contudo, tinha medo de sua reação.
Ele seria preso, mas logo estaria solto de novo. E o que lhes aconteeria então?
- Está sozinho?
O policial tentava, a todo custo, olhar por cima do ombro de Cassiano, mas este não lhe dava chance, movendo o corpo para tapar-lhe a visão.
- Sozinho? - repetiu Cassiano. - Não. Minha mulher e meus filhos estão em casa.
Sabia que não adiantava mentir. Se o fizesse, eles poderiam tentar invadir a casa, e aí seria muito pior.
- Gostaríamos de falar com sua senhora, se não se importa.
Cassiano chegou para o lado, dando passagem para os policiais,
que entraram na sala e avistaram Selena, agora mais recomposta, sentada no sofá com o rosto inchado e ainda sangrando. Um dos
guardas olhou para ela e encarou Cassiano, indagando com rispidez: -O que aconteceu aqui?
- Nada. Minha mulher caiu e bateu com o rosto na quina da mesa. Não foi, Selena?
Sempre a mesma desculpa. Um tombo da escada, a quina de um móvel, um buraco no caminho. Os policiais encararam Selena
seriamente e continuaram:
- Isso é verdade, senhora?
Selena teve de se controlar para não se atirar nos braços daquele homem que lhe fazia perguntas com tanto interesse, mas
conteve-se. Pelo bem dos filhos, era melhor que não reagisse. Sem coragem para encará-los, ela simplesmente balançou a cabeça em
sinal afirmativo.
- E seus filhos, onde estão? - prosseguiu o policial. - Dormindo - apressou-se Cassiano a responder. - Sei.
O policial acercou-se de Selena, examinou seu rosto e falou com um misto de autoridade e compreensão:
- Minha senhora, recebemos uma denúncia de que estava havendo agressões nesta casa. Contudo, nada vimos e não podemos dar
nenhum flagrante. Somente com sua palavra é que poderemos tomar alguma atitude. Por isso, responda-nos, com sinceridade e sem medo:
seu marido a espancou?
Selena chorava baixinho, apertando as mãos nervosamente. Sa bia que os olhos de Cassiano estavam cravados
nela e nem ousava encará-lo. Ainda sem levantar a cabeça, respondeu
convencida:
- Não. Deve ter havido algum engano. Como meu marido disse, eu caí...
O policial suspirou e balançou a cabeça, resignado. Já vira aquilo muitas vezes, e não havia nada que pudesse fazer. As
mulheres sentiam medo de denunciar os maridos, e isso só servia para aumentar ainda mais a violência deles. Sem ter mais
o que fazer, virou-se para o companheiro e chamou:
- Vamos embora, Sousa, não há nada que possamos fazer. Obrigado, senhor, e desculpe. - E, virando-se para Selena, finalisou:
- Pense bem no que está fazendo. Um dia, pode ser tarde demais para se defender...
Sob o olharfurioso de Cassiano, os policiais saíram. Ele se aproximou novamente de Selena, sentou-se a seu lado e, dando-lhe
tapinhas no joelho, elogiou:
- Muito bem, Selena. Portou-se como uma verdadeira mulher... E, agora, vamos ao que interessa. Quem era aquele sujeito?
Ela não respondeu e ele levantou a mão novamente, fazendo com que ela se encolhesse toda no sofá. No entanto, a visita dos
policiais o intimidara, e ele fechou a mão, apertando os dedos.
- Não quero bater em você, mas você me obriga. Por que não me diz logo quem é o sujeito e acaba com essa agonia?
Ela o fitou com desgosto. Sabia que ele estava falando de Fabrício. Na certa, Aníbal os vira no café no dia anterior e contara
tudo a Cassiano. Mas ela não podia contar-lhe nada. Se lhe revelasse a verdade, ele era bem capaz de matá-la.
- Já disse que não havia sujeito algum - insistiu. - Aníbal se enganou. Não era eu.
Ele balançou a cabeça, ajoelhou-se a seu lado e, segurando-lhe o queixo com violência, ameaçou:
- Vou lhe dar um conselho, Selena. Seja quem for esse sujeito, afaste-se dele. Caso contrário, das duas uma: ou eu acabo
com você, ou sumo com nossos filhos.
Apavorada, Selena se levantou e correu para o quarto, trancando a porta. Carlinhos, cansado de tanto chorar, acabara por
adormecer novamente, e Selma, deitada no chão ao lado do berço, também pegara no sono. Vendo os filhos ali jogados, sufocou
um grito de angústia e correu para eles. Ergueu a menina no colo e levou-a para a cama, ajeitando-a entre os lençóis. Alisou seus cabelos,
molhando-os com suas lágrimas, deu-lhe um beijo amoroso e foi ver Carlinhos. Apalpou seu bumbum. Sentindo a fraldinha cheia,
trocou-o cuidadosamente, estreitou-o contra o peito e deitou-o novamente no berço. E orou. Deus havia de ajudá-los.
Quando Ofélia lhe passou a ligação, Fabrício mal podia crer no que estava ouvindo.
- É verdade, Fabrício -dizia Selena. -Não quero mais o desquite. Agradeço seu empenho em me ajudar, mas não será mais necessário.
- Mas, Selena, nós mal começamos. Por que desistiu assim tão depressa?
- Não quero me separar.
- Mas... mas... como pode continuar casada com um homem como Cassiano?
- O amor tem dessas coisas...
- Amor? Não acredito. O que houve? Conte-me, vamos. O que ele lhe fez? Ele a ameaçou?
Selena emudeceu do outro lado da linha, e pareceu a Fabrício que ela estava chorando.
- Ele... não fez nada... - balbuciou entre disfarçados soluços. - Obrigada, Fabrício.
Desligou. O que estaria acontecendo? Fabrício pensou em ligar de volta, mas tinha medo de que Cassiano atendesse e batesse
nela. Preocupado, retirou o fone do gancho novamente e pensou em ligar para Clarinha, mas ela estava no trabalho, e ele
não sabia o telefone da empresa onde trabalhava.
Chamou Ofélia a seu escritório, e ela, vendo seu abatimento, indagou preocupada:
- O que houve?
- A senhora nem imagina o que aconteceu.
- O que foi?
- Selena dispensou meus serviços.
- O quê? Mas por quê?
-É o que gostaria de saber. Ela veio com uma história de que amava o marido e que havia desistido da separação.
- Não será verdade?
- Não creio. Ela estava decidida a deixá-lo. Alguma coisa deve
ter acontecido para ela mudar de idéia. - Será que o marido a ameaçou? - É possível...
- E agora? O que pretende fazer?
- Não sei. Queria falar com a prima dela, Clarinha, mas ela está no trabalho, e eu não sei o número de lá.
- Por que não liga para a casa dela à noite?
- Ela é noiva de meu irmão, e tenho medo de que ele esteja com ela e perceba que sou eu ao telefone. Isso poderia lhe causar
algum tipo de problema, já que Adriano não gosta nem um pouquinho de Selena.
- Posso ligar para ela mais tarde, se o senhor quiser.
- A senhora? É, talvez seja uma saída. Assim, Adriano não vai desconfiar de nada.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Ofélia ligou para a casa de Clarinha. Quando ela atendeu, a secretária falou:
- Alô, Dona Clarinha? Como vai? Aqui quem fala é Ofélia, secretária do Dr. Fabrício... Bem... O Dr. Adriano está aí com
a senhora? ... Não?... Sei... Escute, o Dr. Fabrício está aqui e precisa falar-lhe... É, é sobre Dona Selena, sim... Pode
encontrá-lo?... Hoje?... A que horas?... Sei... Sei onde fica... Até logo.
- E então? - perguntou Fabrício ansioso.
- Ela vai encontrá-lo num bar no Leblon.
Momentos mais tarde, Fabrício tomou o automóvel e dirigiu-se para o local indicado. Clarinha já havia chegado e estava sentada
a uma mesa, tomando um refrigerante. Cumprimentou-o, e ele se sentou em frente a ela. Pediu um suco de laranja, esperou
até que o garçom o servisse, e foi só então que Clarinha indagou:
- Muito bem. O que houve?
- É o que gostaria de saber.
- Como assim?
- Sabe o que aconteceu com Selena?
- Não, o quê?
- Não sei. Estou tentando descobrir. Ela me telefonou hoje cedo dispensando meus serviços.
- O quê? Ela fez isso?
- Fez, sim. E sem dar maiores explicações.
Fabrício contou tudo que acontecera, e Clarinha ficou alarmada. Conhecia Cassiano o suficiente para saber que ele deveria
ter aprontado alguma. Era preciso tomar alguma atitude, e ela trataria de ajudar.
- Não se preocupe. Amanhã mesmo falarei com ela. Ela não me disse nada, mas tenho certeza de que não mentirá para mim.
Combinaram tudo e foram embora. Clarinha ainda tentou ligar para Selena quando chegou em casa, mas Cassiano atendera e dissera
que ela já estava dormindo. Desligou preocupada. Teria mesmo de esperar.
No dia seguinte, sentada diante da prima, Selena não dizia nada. O marido tirara férias no serviço e passava quase todos
os dias em casa, seguindo todos os seus passos.
- Aceita mais uma xícara de café? - perguntou Selena polidamente.
- Não, obrigada. Já tomei o bastante.
Cassiano estava sentado em frente à televisão, fingindo prestar atenção ao seriado O Gordo e o Magro, rindo das tolices e
bebendo seu décimo copo de cerveja. Carlinhos, sentado no cercadinho, levava seus mordedores à boca, enquanto Selma brincava
com uma boneca que Clarinha acabara de trazer.
- Por que não me ligou mais?- sondou Clarinha, tentando parecer casual.
Selena olhou discretamente para Cassiano, que não tirava os olhos do aparelho de TV. Embora ele disfarçasse, ela sabia que
ele estava prestando atenção a tudo que ela dizia.
- Bem, Clarinha, estou sem tempo. Tenho de olhar as crianças, e Cassiano está de férias.
- O que houve com seu rosto?- indagou de estalo, não conseguindo mais conter a curiosidade e a revolta diante da mancha
roxa que se estendia desde o olho esquerdo até a maçã do rosto, além dos
lábios inchados e feridos.
Selena levou um susto e ajeitou-se na cadeira. Olhou novamen
te para Cassiano, que ria abertamente, dando tapinhas no peito para
não sufocar de tanto riso.
- Eu caí... - respondeu insegura.
- Caiu? Onde?
- Na quina da mesa - atalhou Cassiano, mais que depressa. - Que Mesa?
- A mesa da sala.
Clarinha olhou e balançou a cabeça, tornando com estudada displicência:
- Sabe, Selena, vim aqui convidá-la para dar um passeio. Você e as crianças.
- Selena não pode sair- repreendeu Cassiano de onde estava. - Ainda não terminou o serviço de casa.
- Ora, mas ela pode terminar depois.
- Não pode, não. Tem de arrumar a casa, dar banho nas crianças, preparar o jantar...
- Desculpe-me, Cassiano, mas quer me parecer que você pretende manter sua mulher prisioneira aqui. Será que é isso mesmo?
Cassiano lançou tamanho olhar de ódio para Clarinha que ela estremeceu. No entanto, não podia perder a compostura com ela,
ou ela seria bem capaz de dar parte dele à polícia. Se aqueles guardas batessem ali novamente, seria difícil convencê-los
de que não havia nada.
- É claro que não, Clarinha - respondeu com um sorriso sem graça. - Mas que idéia!
- Então não vejo por que ela não possa ir.
- Nem eu. Ela pode ir, se quiser. Mas falo isso porque sei que ela não quer. Não é, Selena?
Antes que ela pudesse responder, Clarinha se adiantou: -Quer, sim. Está um dia bonito e podemos dar uma volta. Ir
à praia, quem sabe? Além do mais, as crianças precisam de sol. Ouvindo a referência feita a elas, a pequena Selma animou-se
e começou a bater palminhas, pedindo com inocência:
- Quero ir! Quero ir com a tia Clarinha... Vamos, mamãe?
O olhar que Cassiano lhe lançou já dizia tudo. Selena queria ir,
mas, ao mesmo tempo, achava que devia recusar.
- Obrigada, Clarinha, mas não posso mesmo... - Ah, mamãe, por quê?
Selena olhava da filha para o marido, tentando não olhar para a prima, que não se deu por vencida.
- Pois eu digo que pode. E não aceito um "não" como resposta. Vamos, Selena, levante-se daí e vá se aprontar. Eu a ajudarei
com as crianças. Precisamos preparara bolsa de Carlinhos, levar algumas roupinhas para Selma também.
- Mas... mas...
- Nada de "mas". Mais tarde eu a trarei de volta. E, depois, não vejo por que ficar aqui. Cassiano está tão entretido com
seus programas na TV que nem vai dar por sua falta.
Ele espumava seu ódio, mas não disse nada e teve de concordar. Selena levantou-se, apanhou Carlinhos e chamou Selma para
irem se arrumar. No quarto das crianças, Clarinha colocou tudo que pôde dentro da bolsinha do bebê: fraldas e roupas para
os dois.
- Não, Clarinha - objetou Selena -, não precisamos levar tantas roupas para Selma. Ela já não se suja tanto assim. Mas tenho
de levar mamadeiras, chupetas, o talquinho, a pomada...
Clarinha fez um gesto com a mão para que ela deixasse aquelas coisas ali e fizesse como ela estava lhe ordenando. Embora
sem entender, Selena obedeceu. Depois, foram para seu quarto, e Clarinha preparou-lhe a bolsa de praia. Mandou que ela apanhasse
roupas de baixo e mais um vestido, que ela enfiou na bolsa de qualquer jeito. Selena já começava a compreender o que estava
acontecendo e quis retroceder. Não podia fugir. Não daquela maneira.
- Não tenha medo - falou Clarinha, com tanta convicção que ela retrocedeu. - Nada irá lhes acontecer.
Aprontaram tudo, pegaram as crianças e saíram. Selena deu um até-logo para Cassiano, já da porta da rua, que ele mal respondeu.
Apenas quando ela já estava fechando a porta foi que ele falou:
- Olhe lá o que vai fazer, hein? Não quero encrencas.
Mais que depressa, Clarinha conduziu-os para seu automóvel. Acomodou Selma no banco de trás e Selena na frente, com Carlinhos
no colo. Tomou a direção e deu partida no motor.
- Clarinha, para onde vamos?
- Não se preocupe, Selena, vai dar tudo certo. Estou levando-a embora. Isso não pode continuar assim.
- Mas Cassiano...
- Cassiano não vai fazer nada contra você. Nem saberá onde está. Ficarão em segurança, você e as crianças.
Selena olhou pela janela do carro, sentindo um alívio no peito. Sabia que podia confiar em Clarinha. Sem saber por quê,
também sabia que podia confiar em seu destino. Uma voz íntima lhe dizia que
atravessaria uma tempestade, mas que o sol brilharia com muito mais intensidade depois.
O carro estacionou na garagem da casa de Inês, e Selena saltou, ajudada por Clarinha, trazendo nos braços Carlinhos, adormecido,
e Selma, que olhava tudo maravilhada. Lá de dentro, Inês e Fabrício vieram correndo e se espantaram com os ferimentos no
rosto de
Selena. Ela estava muito machucada, cheia de hematomas e arranhões, mas ninguém fez nenhum comentário.
Fabrício foi o primeiro a falar:
- E aí, Clarinha, deu tudo certo?
- Deu. Cassiano ficou meio contrariado, mas não teve como impedir.
- Só quero ver a cara dele quando Selena e as crianças não voltarem à noite.
- É verdade.
Vendo o olhar de espanto de Selena, Fabrício se adiantou:
- Selena, deixe-me apresentá-la. Esta é minha avó Inês, e é
aqui, na casa dela, que você e as crianças vão ficar.
- Muito prazer, Selena -falou Inês, estendendo-lhe a mão, que
ela pegou meio sem jeito.
- Prazer...
- Deixe-me ajudá-la com o bebê. - Pegou Carlinhos no colo, descobriu seu rostinho e falou embevecida: -Oh! Mas que coisinha
linda!
Sem que ela percebesse, o espírito de Helga se aproximara, e Inês, captando-lhe a emoção de muitos anos atrás, teve uma
sensação estranha, uma espécie de déjà vu, que a emocionou sobremaneira. Imediatamente, lágrimas vieram-lhe aos olhos, e
ela encarou Fabrício, que nada percebera, imaginando uma cena semelhante, há mais de vinte anos, quando sua filha, atônita,
retirava dos braços da desconhecida o inocente bebezinho.
Inês sentiu que lhe puxavam a barra da saia e olhou para baixo, dando de cara com o rostinho ingênuo de Selma, que lhe endereçou
um sorriso meigo e cativante.
- Oi, vovó. Eu sou a Selma...
- Menina! -censurou a mãe. -Que intimidades são essas com Dona Inês?
- Ora, deixe, Selena - contemporizou Inês. - Gostaria mesmo de ser a vovó dessas lindas crianças. E agora vamos entrando.
Vovó Inês vai preparar um lanche bem gostoso para você, Selma
finalizou, dando um leve beliscão na bochecha da menina. Enquanto ela se afastava com Carlinhos no colo e Selma a
seu lado, os jovens se dirigiram para a sala de estar e, depois de
acomodados, Selena, que até então não havia entendido nada, ar
gumentou:
- Será que vocês agora podiam me explicar o que está acontecendo? Clarinha medisse que estava
nos levando embora. Mas como? - Selena - tranqüilizou Fabrício -, não se preocupe. Está
entre amigos. Cassiano jamais pensará em procurá-la aqui.
- Mas você sabe que não posso fugir. - Você já fugiu - corrigiu Clarinha.
- Não! Vocês não podem me obrigar! Não sabem o que passei. - Ouça - revidou Clarinha. - Não estamos querendo obrigá
la a nada. Você é tão livre para partir quanto o foi para vir. Mas pen
se bem. Seu marido a espancou na frente de seus filhos, não foi? Selena aquiesceu, sufocando um soluço.
- Então?-continuou Clarinha. -O que está esperando? Que
ele comece a espanca-los também?
-Não, isso não!
- Pois, então, o que você tem a fazer é afastar seus filhos dele.
Não vamos obrigá-la a ficar e, se quiser partir, eu mesma a levarei de
volta. Mas pense que poderá não ter essa chance novamente.
- Mas eu nem trouxe roupas suficientes.
- Isso não é problema - acrescentou Fabrício. - Clarinha arranjará algumas roupas para você e as crianças.
- Ouçam... Entendo o que estão querendo fazer por mim. Mas
não vai dar certo. Ainda que Cassiano não me encontre, não posso
viver fugida pelo resto da vida. Não posso me esconder, esconder meus
filhos. Eles precisam sair, ser livres, ir à escola, passear...
- Se nós os trouxemos para cá - rebateu Fabrício -, foi exa
tamente para lhes assegurar essa liberdade. A vocês três. Amanhã
mesmo entraremos com a ação de desquite.
- Não, Fabrício, não posso. Se bem me lembro, disse-lhe ao telefone que não queria mais me desquitar.
- Disse. Mas não acredito. Duvido muito que você ame Cassia no.
Ainda mais depois do que ele lhe fez-concluiu, apontando para as faces da moça, que desatou a chorar.
- Oh! Que vergonha! - lamentou, ocultando o rosto entre as mãos.
- Vergonha é um homem bater na mulher- retrucou Clarinha, revoltada. -Onde já se viu? E ele ainda teve o desplante de me
dizer que ela caiu e bateu com o rosto na quina do móvel. Que desfaçatez!
- Canalha! - exclamou Fabrício, mal contendo a raiva. - Vai ter o que merece.
- Não, por favor! - implorava Selena. - Vocês não sabem do que ele é capaz.
- Bem se vê do que é capaz. É capaz de espancar mulheres e aterrorizar criancinhas. Mas quero ver o que fará diante de
um homem de verdade.
- Fabrício tem razão. Homens assim são extremamente covardes e só enfrentam os mais fracos. Mas, diante de um igual, tratam
logo de dar o fora.
- E agora? - indagou Selena. - O que vai fazer?
- Bom, eu não esperava encontrá-la nesse estado, mas, já que
você foi espancada, podemos tirar proveito disso. - Como?
- Você vai comigo agora mesmo à delegacia registrar a ocorrência.
Selena levou a mão à boca, sussurrando aterrorizada: - Não posso...
- Pode, sim. Antes, porém, vai nos contar tudinho exatamente como aconteceu.
Selena hesitou. Sentia vergonha de ter apanhado do marido, ainda mais sem reagir.
- E as fotos? - tornou ela, tentando arranjar uma desculpa para não enfrentar o problema.
- Deixe isso comigo - declarou Fabrício.
- Vamos, Selena, conte-nos o que aconteceu - estimulou Clarinha. - Só o que queremos é ajudá-la.
Inês entrou na sala sozinha, e Selena deu um salto, perguntando alarmada:
- Onde estão as crianças?
- Não se preocupe. Estão bem. Carlinhos dormiu e eu o coloquei em minha cama, cercado
por milhões de travesseiros e almofadas. E Selma está com Bibiana no quarto que foi de Flavia,
vendo suas antigas bonecas.
- Fique tranqüila - asseverou Fabrício. - Bibiana é empregada de vovó há séculos, não é, vovó?
É, sim. Está comigo desde antes da guerra.
- Muito bem, Selena - insistiu Clarinha. - Por que não nos conta agora o que realmente aconteceu?
Selena olhou cada um daqueles rostos que a fitavam com um misto de piedade e revolta, mordeu os lábios, respirou fundo
e começou a narrar o que lhe havia acontecido. Disse-lhes que Aníbal a havia surpreendido no café, em companhia de Fabrício,
e que contara isso a Cassiano, que ficara furioso. Como ela negara tudo, dizendo que Aníbal se enganara, Cassiano bateu-lhe
com violência fora do comum, trancando as crianças dentro do quarto. Contou-lhes da chegada da polícia e de seu medo de
falar a verdade, terminando com as ameaças do marido de lhe tomar os filhos.
- Ah, Fabrício! -finalizou em lágrimas. -Sinto muito se sou covarde, mas não posso ficar sem meus filhos, não posso! Ainda
mais porque tenho medo do que Cassiano é capaz de fazer a eles-.
Fabrício balançou a cabeça, compreensivo. Ninguém se atrevia a dizer nada. Estavam todos emocionados com o drama daquela
jovem mãe, que lutava desesperadamente para manter os filhos a seu lado.
Inês sabia quanto devia ser difícil a dor da separação, ainda mais naquelas circunstâncias, em que nada a justificava. Pensou
em quanto a mãe natural de Fabrício devia ter sofrido ao entregá-lo às mãos de sua filha. No entanto, fizera-o por uma causa
nobre. Abrira mão daquele a quem mais amava para salvar-lhe a vida.
- Selena - começou ela a dizer -, sou a mais velha aqui e posso dizer com certeza que sou a mais experiente também. Já vi
e ouvi muitas coisas, algumas das quais me cortaram o coração, como isso que se passou com você. Contudo, em todos estes
anos, aprendi uma coisa muito importante: aprendi a confiar. Deus existe e nos ama a todos, e está em toda parte, zelando
por nosso bem-estar. Por isso, confie. Confie que a justiça está do seu lado e não se preocupe com o que seu marido tem
contra você nem com suas ameaças. Ele não vai lhe tirar os filhos, tenha certeza.
- Como pode saber, Dona Inês?
- Acredite no que ela diz-aconselhou Fabrício.-Minha avó é espírita e médium, e, se fala com tanta certeza, é porque algum
amigo de planos mais elevados a está inspirando. Você mesma me disse que acreditava na espiritualidade. Por que duvidar?
Selena baixou a cabeça e começou a chorar. Estava morrendo de medo de perder os filhos, mas, por outro lado, sentia que precisava
fazer alguma coisa ou Cassiano seria bem capaz de maltratá-los também. Mas Fabrício estava certo, e ela retrucou:
-Acredito que exista uma força que nos guia a todos e creio também na presença dos espíritos em nossas vidas. Está bem.
Vou confiar em vocês e farei o que for preciso para salvar meus filhos das mãos daquele monstro.
- Confie primeiro em você - corrigiu Inês. - Confie em sua capacidade, em sua coragem, em sua determinação. Sinta-se merecedora
da felicidade, não tenha medo de desejar ser feliz.
- Não sei se mereço ser feliz...
- Você merece, todos merecemos. Nosso Pai colocou a felicidade no mundo para que a alcançássemos, sem medos ou culpas. Não
é errado querer ser feliz. Errado é aceitar a tristeza como parte da vida, porque a vida começa num momento de alegria,
que é o que toda mãe sente ao ver o filho nascer. Você, que já é mãe, pense nisso. Lembrese da felicidade que sentiu ao
ver seus filhos pela primeira vez e busque reencontrá-la e trazê-la para dentro de você. Então, poderá irradiá-la para eles
também.
-Não posso fazer isso, Dona Inês. Sinto que, neste momento, nada tenho a lhes oferecer além de meu amor.
- E quem precisa de mais do que o amor?
Selena calou-se pensativa. Aquela mulher lhe dizia palavras muito sábias e encorajadoras, e ela, de repente, passou a se
sentir forte, capaz de enfrentar a tudo e a todos para salvar não apenas os filhos mas a si mesma. Estranhamente, sua insegurança
começou a ceder lugar a uma sensação de confiança, uma certeza de que estava entre pessoas que tudo fariam para ajudá-la.
Calmamente, enxugou as lágrimas, assoou o nariz e, encarando Fabrício bem fundo nos olhos, afirmou:
- Têm razão. Vou lutar por nossa felicidade: a minha e a de meus filhos. Cassiano não tem o direito de me tratar como se
eu fosse propriedade sua. - Levantou-se decidida e, ainda olhando para Fabrício, chamou: - Vamos? Quero ir agora mesmo contar
tudo ao delegado.
O nome de Fabrício já era bastante conhecido no meio jurídico, até mesmo nas delegacias, talvez por influência de seu pai
e de seu avô. Além disso, era um advogado honesto, dedicado, profundo conhecedor das leis e da jurisprudência e, o que era
mais importante, sabia se impor pela dignidade e pelo respeito.
Assim, não teve problemas na delegacia. O delegado prontamente chamou o escrivão, que tomou nota do depoimento de Selena
e, em seguida, encaminhou-a para o exame de corpo de delito. O médico perito examinou Selena com atenção e constatou diversos
hematomas, escoriações e equimoses. Mesmo com seus muitos anos de prática e experiência, ficou impressionado com a violência
dos golpes, imaginando que obra do destino havia impedido que o homem a Inalasse.
Selena submeteu-se a tudo com enorme constrangimento, mas a presença de Fabrício a seu lado transmitia-lhe segurança e a
certeza de que estava fazendo o que era certo. A todo instante, pensava
nos filhos e em como seria bom poder conviver com eles sem medo, assegurando-lhes um futuro decente e livre do terror
e da tortura mental que o pai lhes infligia.
De posse do boletim de ocorrência, no qual constavam as declarações de Selena, do laudo pericial e do relatório dos policiais
que haviam atendido ao chamado dos vizinhos, Fabrício ajuizou a ação de desquite judicial, narrando detalhadamente as humilhações
e
maus-tratos a que ela fora submetida. Despachada a petição inicial, Fabrício orou e pediu a Deus que fosse distribuída a
um juiz justo e
livre de preconceitos, que pesasse bem as provas e os argumentos contra Cassiano, e que não se deixasse levar
pela impressão que aquelas fotografias nefastas iriam causar.
Cassiano ficou louco. Desde o dia em que Selena se fora
e não reaparecera, quase desesperou. Pensou em procurar a polícia,
mas mudou de idéia, lembrando-se da visita que os policiais lhe ha
viam feito no outro dia. Na certa, lembrar-se-iam dele e entenderiam
por que Selena havia fugido com os filhos. Pediu ajuda ao irmão.
Foi aquela cadela! - vociferou Cassiano, já alterado pelo
álcool.
- Quem? - indagou Aníbal com curiosidade.
- Aquela prima dela, Clarinha. Lembra-se dela?
- Clarinha? Lembro, sim. Estava em seu casamento, não estava? Aquela gostosa, de cinturinha fina.
- Essa mesma. Tenho certeza de que foi ela. - Por quê?
- Porque foi ela quem levou Selena e as crianças. Rapidamente, Cassiano narrou ao irmão a visita de Clarinha
e como esta havia saído com a mulher e os filhos, embora contra sua
vontade.
- E agora? O que vamos fazer?
- Não sei. Mas preciso reaver as crianças. - Tem alguma idéia de onde ela possa estar? - Nem imagino.
- Podemos apertar a tal Clarinha, se você quiser.
- Ficou louco? Quer parar na cadeia, é? Não, nada disso. Não
podemos fazer nada que seja contra a lei.
Aníbal soltou uma gargalhada e tornou zombeteiro:
- Desde quando você respeita a lei?
- Desde que me interessei por uma certa herança.
- Ah, agora sim. E o que pretende fazer?
- Posso procurar Clarinha e fazer um escândalo. Estou no meu
direito. Ela sumiu com meus filhos e tem de me dar conta deles.
- É assim que quer ficar dentro da lei?
- Qual o problema? Não vou bater em ninguém. Só vou exigir
satisfações.
- Sabe onde ela mora?
- Sei.
- Então, vamos até lá.
No dia seguinte, bem cedo, saíram rumo à casa de Clarinha. Como o edifício era muito elegante, o porteiro não os deixou
entrar, o que só serviu para aumentar ainda mais sua raiva. Ocultaram-se atrás de uma árvore e ficaram à espreita. Cerca
de meia hora depois, Clarinha apareceu. Desceu as escadas da portaria e foi caminhando em direção á rua. Como era costume,
Adriano passava por ali todas as manhãs e lhe dava uma carona até o trabalho, que ficava perto do seu.
Quando ela se aproximou da árvore em que estavam escondidos, os dois saltaram à sua frente:
- Olá, Clarinha, como vai? - perguntou Cassiano com ar debochado.
- Está bêbado a essa hora da manhã, Cassiano? - observou ela com desdém.
- Isso não é de sua conta. Assim como minha família também não é.
Ela sentiu um leve tremor e olhou para a portaria, mas o porteiro, sentado à sua mesa, conferia a correspondência e nem
a vira passar.
- O que quer de mim, Cassiano?
- Escute aqui, gostosa - interveio Aníbal com ar ameaçador -, só o que queremos é saber onde eles estão. Por que não pára
de dar uma de difícil e entrega logo o jogo?
Clarinha sustentou o olhar de Aníbal e respondeu com desdém: - Anda acompanhado de capangas agora, Cassiano?
Aníbal cerrou os punhos, mas Cassiano o conteve. Tomando a
dianteira, esclareceu:
- Aníbal é meu irmão. Devia lembrar-se dele.
- Não, não lembro. Nem faço questão. E agora, se me dão licença, preciso ir trabalhar, se é que sabem o que é isso.
- Escute aqui, sua ordinária! - esbravejou Aníbal. -Não pense que só porque é riquinha pode fazer o que bem entende. Trate
logo de devolver Selena e as crianças. Cassiano é o pai, tem o direito de saber onde estão.
- Não sei do que está falando.
- Não se faça de cínica - objetou Cassiano. - Você os levou de casa e não os trouxe de volta.
- Quer dizer que sumiram?
- Vai dizer que não sabe?
- Não, não sei. Deixei Selena com as crianças na porta do prédio às seis horas. Se ela resolveu fugir depois, não é problema
meu. Aliás, é bem-feito para você.
Nesse momento, Adriano parou o carro junto ao meio-fio, e Clarinha suspirou aliviada.
- Clarinha - chamou ele. - O que está acontecendo aí?
- Até logo-disse Clarinha para os dois, dando a volta no carro e entrando no lugar do carona, branca feito rena cera. -
Vamos embora.
Enquanto Adriano colocava o automóvel em movimento, ainda ouviram a voz de Cassiano, que, furioso, gritava e gesticulava
com as mãos:
- Clarinha, diga onde está Selena! Isso não vai ficar assim. Quero...
Com a distância, não puderam ouvir as últimas palavras. Clarinha tremia feito um bambu, e Adriano passou o braço ao redor
de seus ombros, puxando-a para perto de si e perguntando assustado:
- O que foi aquilo? Quem eram aqueles homens?
Ela quis disfarçar, mas ele se adiantou:
- Por que estavam perguntando por Selena?
Vendo que não tinha como mentir, viu-se obrigada a contar-lhe a verdade. Ao menos parte dela.
- É Cassiano, marido de Selena, e o outro é seu irmão. Vieram em busca de minha prima.
- Por quê? Ela está hospedada em sua casa?
- Não. Pelo que pude compreender, ela sumiu.
- Sumiu? Por quê?
Clarinha sentiu-se tentada a contar-lhe a verdade. Afinal, Cassiano quase matara a mulher, estava aterrorizando e traumatizando
os filhos, e ela acreditava que agora Adriano deveria dar-lhe razão. Contudo, a voz dele se fez ouvir novamente:
- Bom, seja o que for que tenha acontecido, não é problema seu. E, depois, se ela sumiu mesmo, ele está coberto de razão
em querer saber onde ela está.
- Adriano! Ele deve ter feito alguma coisa muito grave para que isso acontecesse. Conheço Selena e sei que ela não tomaria
uma atitude dessas se não fosse por um motivo muito forte.
- Que motivo? O que pode justificar uma mulher que abandona o marido e o lar?
- Não sei. Ele pode ter batido nela, por exemplo. Vai me dizer que acha isso certo?
Adriano considerou. E claro que aquilo não era certo, mas muito menos certo era uma mulher querer se desquitar.
- Bem, certo não é. Claro que não. Homem que bate em mulher é covarde. Contudo, volto a dizer que não creio que isso seja
motivo para separação.
- Como pode dizer uma coisa dessas? O que espera que ela faça? Que se deixe matar?
- Não... claro que não... - ele estava confuso e começava a ceder. - Tudo bem, você tem razão...
- Até que enfim!
- Mas isso é mais um motivo para você se afastar dela. - Como é que é?
- É isso mesmo. Cassiano maltrata Selena? Que ela então se desquite, tudo bem. Mas, então, que arque com as conseqüências
de seu ato.
- Como assim?
- Sabe que as mulheres desquitadas são malvistas, assim como fica malvisto quem anda com elas. Por isso, não quero que você
se aproxime mais de Selena.
- Pare com isso! Não vou permitir! Selena é minha prima e minha amiga, e não vou abandona-la num momento difícil só por
causa de seu preconceito.
- Mas você viu aqueles dois. Eram marginais. Quer se envolver com gente desse tipo?
- Selena não tem nada a ver com eles. É uma moça honesta e
direita. Não tem culpa se o marido bebe e bate nela.
- Mesmo assim, não quero você envolvida com ela. E para seu
próprio bem.
-Absolutamente não! Não vou permitir que mande em mim
e decida o que é ou não para meu bem. Gosto de Selena. Ela é mi
nha amiga e não pretendo deixar de falar com ela, quer você goste,
quer não.
- Prefere ela a mim?
- Não se trata disso. Você é meu noivo e eu o amo. Mas gosto
tambem de Selena e pretendo fazer tudo que estiver a meu alcance
para ajuda-la.
- Mesmo que isso me aborreça?
- Mesmo assim. Não estou fazendo nada para aborrecê-lo. Pelo
contrário. Gosto de você e quero que vivamos bem. Mas, se quer se
aborrecer, o problema é seu, não meu.
- Vai brigar comigo por causa dela?
- Não estou brigando com você. Você é que parece querer brigar
comigo. Pare de implicar com Selena e tudo ficará bem.
- Não estou implicando com ela, mas acho que não fica bem. - Por que tem de ser tão preconceituoso? Por que não é como
seu irmão?
- Ah, eu devia imaginar! Quer dizer agora que Fabrício é que
é legal e eu sou um idiota, não é mesmo? Se é assim, por que não ter
mina tudo comigo e fica logo com ele?
- Pare com isso! Não ponha palavras em minha boca! - Pelo visto, Fabrício conquistou sua admiração, não é? Ela não respondeu.
- Não é? - insistiu ele.
- Se quer mesmo saber, eu o admiro, sim! Ao menos não é
preconceituoso e mesquinho como você!
Adriano silenciou. Estava com tanto ódio que seria capaz de uma
loucura se continuasse. Onde já se viu, Clarinha agora querer passar
para o lado do irmão? Será que se enganara sobre ele e Selena, e aqueles dois é que andavam de namorico? Não, não podia ser. Ele e o
ir mão podiam não se dar muito bem, mas Fabrício não se atreveria. Ou se atreveria?
Clarinha também se calou. Estava furiosa com Adriano, decepcionada com seu preconceito. Como podia amá-lo apesar disso?
Tinha esperança de que ele mudasse, de que abrisse os olhos para o mundo e passasse a enxergar um pouco além de seus problemas
cotidianos. Mas ele parecia resistir. Preferia se manter apegado àqueles conceitos distorcidos e distanciados dos verdadeiros
valores do espírito.
Ela o amava muito e pretendia casar-se com ele. Por isso, não gostava quando brigavam. Mas também não podia abandonar Selena.
A prima contava com ela, com seu apoio. Contudo, se Adriano descobrisse onde ela estava, era bem capaz de entregá-la a Cassiano.
Precisava tomar cuidado. Em hipótese alguma ele poderia sequer desconfiar do lugar onde ela estava escondida.
Ainda bem que não visitava muito a avó. Alias, fazia quase um ano que não aparecia, desde a festa do último aniversário
de Inês. Não seria agora que iria resolver aparecer.
O domingo amanheceu com chuva, e Adriano, que havia programado ir à praia com Clarinha, apanhou o telefone e discou o número
de sua casa:
- Alô? Clarinha está, por favor:'... Não? ... Sabe aonde foi?... É, sou eu mesmo... Não, não precisa, obrigado... Até logo.
Colocou o fone no gancho e foi para a janela, preocupado. Clarinha andava muito esquisita. Havia uma semana que não falava
direito com ele e quase não parava em casa. Tentou saber o que estava acontecendo, mas ela respondia sempre com uma evasiva.
E, agora, esquecia por completo o compromisso que tinha com ele.
Foi juntar-se aos pais na copa, para o desjejum.
- Onde está Fabrício?- perguntou.
- Saiu cedo - respondeu Flávia, servindo ao filho uma xícara de café. - Quer uma torrada?
Adriano sentiu uma pontada de ciúme. Será que saíra com Clarinha?
- Sabe aonde foi?
- Não tenho certeza - respondeu Paulo -, mas acho que foi visitar sua avó. Ouvi-o falando alguma coisa a ela ao telefone.
- Vovó Dulce?
- Não, sua avó Inês.
Flávia olhou-os discretamente. Nem tivera tempo de intervir. Fabrício escondera aquela moça na casa da mãe, pedira-lhe
segredo e ela jurara não falar nada a ninguém. Paulo não aprovaria e, na certa, Adriano também não. Mas agora o marido,
sem saber de nada, acabara de colocar a moça em risco, e ela estremeceu.
- Acho que vou dar um pulo lá - falou Adriano.
Não estava com a menor vontade de visitar a avó. Contudo, precisava saber se Fabrício estava mesmo lá. E, se estivesse,
iria fazer-lhe companhia até que fosse embora. Só assim não lhe daria chance de
ir se encontrar com Clarinha pelas suas costas.
- Por quê?- indagou Flávia, surpresa. - Você quase não visita sua avó.
- Clarinha saiu, e está chovendo. Não vai dar praia mesmo, então pensei em fazer uma visita a vovó.
-Não! Não deve ir.
Paulo olhou-a surpreso e retrucou:
- Por que não, Flávia? O que tem de mais Adriano ir visitar a avó?
- Nada... isto é... mamãe não está bem... acho que é gripe...
- E daí, mamãe? Fabrício não foi? Por que não posso ir também? Por acaso não sou seu neto também? Ou só Fabrício pode ir
visitá-la?
- Não é nada disso, meu filho. Sabe quanto sua avó gosta de você.
- Então, não sei qual é o problema. Assim o tempo passa mais depressa.
Adriano terminou de tomar o café e foi trocar de roupa, voltando logo em seguida com as chaves do carro na mão. Beijou a
mãe e o pai e saiu.
Flávia ficou apreensiva. Esperou até que Paulo terminasse também e dirigiu-se para seu quarto. Apanhou o telefone e discou
o número da casa da mãe. Precisava avisar que Adriano ia para lá.
Na casa de Inês, a notícia causou um alvoroço. Selena, sem saber o que fazer, queria se trancar no quarto e ficar bem quietinha,
mas seria difícil conter as crianças, que logo delatariam sua presença. Fabrício ficou preocupado e pensou em ir embora.
Talvez assim ele mudasse de idéia e fosse embora também. Clarinha, por sua vez, estava bastante preocupada:
- Se Adriano souber que estou aqui, vai querer me matar.
- Não exagere, Clarinha - objetou Fabrício. - O que tem de mais?
- Ficamos de ir à praia hoje.
- Mas está chovendo!
- Mesmo assim. Na certa, ele ligou para minha casa e não me encontrou. Deve ter ficado chateado. Afinal, eu deveria ter
avisado que faltaria ao nosso compromisso.
- Ele é que deveria ter suposto que você não iria à praia com chuva- tornou Fabrício, indignado. - Não é nada difícil de
adivinhar.
- Não. Eu é que não deveria ter vindo. Mas tinha de saber como estavam as coisas. Devia ter telefonado para ele...
- Agora não adianta se lamentar- ponderou Inês. - O melhor que temos a fazer é sair.
- Todos nós?
-Não. Apenas Clarinha, Selena e as crianças.
- Mas, Dona Inês - objetou Selena -, para onde vamos? Está
chovendo, não podemos ficar andando por aí com duas criancas. - Vamos dar uma volta de carro até que ele vá embora- Como
saberemos que ele já se foi?
- Deixarei a luz da varanda acesa enquanto ele ainda estiver
aqui- sugeriu Inês. - Depois que ele se for, apagarei a luz, e Clarinha
poderá voltar sem problemas. Enquanto isso, ficam rodando por
aí. Sei que não é nada agradável, mas não temos escolha.
- Está certo. Vamos, Selena, apanhe as crianças. Rapidamente, colocaram as crianças no carro, abriram o enor
me portão de ferro e saíram para a rua.
Cerca de dez minutos depois, o automóvel de Adriano dobrava a esquina, parando em frente ao casarão da avó. Ele buzinou,
e Fabrício, fingindo surpresa, veio abrir, para alívio de Adriano. Fabrício escancarou o portão para que o irmão passasse
com o carro e fechouo novamente, deixando de trancar o cadeado, certo de que o irmão logo iria embora.
- Adriano, que surpresa! - exclamou ele, logo que o irmão estacionou atrás, na garagem - O que faz aqui?
- Estava em casa entediado. Vim papear um pouquinho. - Coisa rara, hein? Você vir aqui...
Fabrício passou na frente, enxugou os pés no carpete e entrou, com Adriano logo atrás. Ao passar pela porta, porém, notando
a luz
da varanda acesa e, julgando que a avó havia se esquecido de apagála pela manhã, deslizou a mão pela parede ao lado da porta
e, encontrando o interruptor, desligou-o rapidamente, num gesto tão mecânico que nem ele se deu conta, nem ninguém percebeu
o que
fizera.
O tempo foi passando, e nada de Adriano ir embora. Fora até ali para vigiar Fabrício, e era o que faria. Sentou-se na sala
comodamente, pediu um refresco e pós-se a conversar sobre o sucesso dos
Beatles, os filmes de Alfred Hitchcock, o último romance de Jorge Amado. Ninguém agüentava mais aquela conversa. Todos estavam
preocupados com Clarinha, obrigada a dirigir por aquelas ruas molhadas. Só o que os tranqüilizava era a luz acesa na varanda,
sinal de que ainda não podiam voltar. E estavam tão certos de que ela estaria acesa que nem sequer pensaram em ir se certificar.
Depois de duas horas de papo, Adriano pediu à avó para telefonar. A chuva tinha aumentado, e ele precisava saber se Clarinha
já havia voltado. Apanhou o telefone e ligou para a casa dela, mas ela não estava.
- Que coisa! - disse ele aborrecido.
- Algum problema, meu filho? - quis saber Inês.
- Não, vó, está tudo bem. Clarinha resolveu desaparecer.
Fabrício e Inês se entreolharam, e a avó procurou confortá-lo:
- Tenho certeza de que nada de mau lhe aconteceu.
Do lado de fora, Clarinha vinha chegando. Haviam ido tomar um sorvete e vinham de volta para ver se Adriano já se fora.
Chovia forte, e ela passou devagarzinho pela porta do casarão de Inês e olhou.
- A luz está apagada! - gritou Selena.
-Ufa! Graças a Deus! Ele já foi. Podemos entrar agora.
Clarinha parou o automóvel em frente ao portão e desceu. Não estava trancado, e ela puxou a corrente, escancarando-o. Voltou
para o carro correndo, já toda molhada, engatou a marcha e entrou. Foi guiando devagar, até que parou em frente à porta
de entrada.
- Vou ajudá-la com as crianças. Depois coloco o carro lá atrás e volto para fechar o portão.
Saltou novamente e abriu a porta do carona, dando passagem para Selena, que correu para a varanda com Carlinhos no colo,
todo enrolado na manta para não se molhar. Depois, abriu a porta de trás e ergueu Selma, correndo com ela escada acima.
Rapidamente, metia a mão na porta, entrando esbaforida com a menina.
Estacaram abismadas. Fabrício e Inês, surpresos, ficaram sem reação, e Adriano,
erguendo-se do sofá, olhava-as com estupor.
- Mas o que significa isso?-perguntou Adriano, apalermado.
Mais que depressa, Fabrício recuperou-se do susto, colocou-se entre o irmão e Clarinha e tratou logo de ir justificando:
- Adriano, Clarinha não tens culpa de nada. Foi tudo idéia minha...
Adriano não lhe deu ouvidos. Furioso, passou por Clarinha como uma bala, correndo em direção ao carro. A moça, ainda atônita,
colocou Selma no chão e saiu atrás dele, seguida por Fabrício
e por Inês, que implorava:
- Adriano! Escute aqui, Adriano. Venha cá, meu filho, não vá embora assim!
- Vocês são todos uns fingidos, traindo-me pelas costas! - rosnou, enquanto se sentava ao volante.
Clarinha chegou logo depois e colocou a mão no vidro, tentando falar com ele:
- Não faça isso, Adriano, vamos conversar.
Vendo Clarinha parada ao lado de Fabrício, seu coração disparou. De repente, tudo se esclareceu. O irmão aceitara ajudar
a vadia Selma só por causa de Clarinha. Por isso ela não lhe contara onde a prima estava escondida, mentindo para ele, fingindo
que nada sabia. Como não pensara nisso antes? Na certa, estavam traindo-o. E sua avó era a alcoviteira! Senão, não se prestaria
ao papel de acobertar aquela pouca-vergonha!
Não conseguindo conter o ódio, entreabriu o vidro do carro e vociferou:
- Vocês devem ter se divertido muito à minha custa, não é mesmo?
- Como assim?- indagou Clarinha, atônita.
- Pensa que não sei que são amantes?
Ligou o carro e saiu em disparada, passando rente ao carro da noiva, ainda parado em frente à varanda. Clarinha, magoada,
fitou
Fabrício com os olhos cheios de lágrimas. Como Adriano podia pen
sar uma coisa daquelas? Não sabia que o amava?
Sem dizer nada, Fabrício correu para seu carro e entrou, seguido por Clarinha, que entrou do outro lado. Mais que depressa,
virou a chave,
engatou a primeira e arrancou, derrapando pela chuva.
- Meu Deus! -gritou Inês. -Tenham cuidado!
Chovia torrencialmente. Adriano, fora de si, tomou o caminho que conduzia ao Alto da
Boa Vista. Não pensava era nada. Não
podia ir para casa, só o que queria era fugir. Mais atrás, Fabrício seguiao de perto. O irmão estava equivocado, fazendo
uma idéia errada a seu respeito, e ele não podia deixar que as coisas ficassem daquele jeito. E, depois, estava transtornado.
Não devia sair dirigindo daquele jeito. Precisava fazê-lo parar para conversarem. Depois de tudo esclarecido, Clarinha podia
voltar dirigindo seu carro, até que ele se acalmasse.
- Oh, Fabrício! - choramingou Clarinha. - Como ele pôde pensar uma coisa dessas?
- O ciúme é mau conselheiro, Clarinha. Mas não se preocupe: vamos esclarecer tudo.
Começavam agora a subir. A toda velocidade, Adriano ia fazendo as curvas sinuosas,
sem diminuir ou reduzir, e Fabrício começou a se alarmar.
- Seria melhor que fosse com calma. A estrada aqui é perigosa. Ainda mais com um tempo destes.
Clarinha nem ousava respirar. Com cautela, Fabrício tentava segui-lo de perto, mas era obrigado a diminuir nas curvas para
não derrapar. O carro de Adriano foi seguindo em disparada, até que alcançou o cume da montanha e passou pela pracinha do
Alto, começando então a descer.
- Aonde ele vai?-indagou Fabrício, cada vez mais preocupado.
Pensaram que ele iria parar na pracinha, mas não. Adriano nem diminuíra. Descia a montanha feito um louco, tirando finos
de árvores e do meio-fio. Ladeando a estrada, a Floresta da Tijuca se estendia imponente, semi-oculta pela neblina que começava
a descer.
Adriano nem se dava conta do que fazia. Continuava correndo, acelerando cada vez mais, sem se importar com as derrapagens,
que causavam assombro a Fabrício e Clarinha. Descia alucinado, dando guinadas com o volante para não sair da estrada sinuosa.
Até que, depois de uma curva mais fechada, o chão molhado, aliado ao óleo derramado pelos demais veículos, funcionou como
um sabão, e o carro derrapou e rodou duas vezes, deslizando para a pista do outro lado.
Adriano, apavorado, ainda pisou no freio. Mas não adiantava. O carro não obedecia mais a seu comando, e o volante pareceu
travado em suas mãos. Rapidamente, foi vendo o fim da pista se aproximar, até que o carro deu um solavanco e subiu o meio-fio,
indo despencar, de frente, no precipício e para a morte.
Mais atrás, Fabrício e Clarinha assistiam a tudo aterrados. Sem nada poder fazer para impedir a tragédia, o rapaz parou
o carro logo após a curva, e ambos ficaram olhando, como que vidrados, sem poder tirar os olhos daquela cena que mais parecia
saída de um filme de terror. Ouviram o barulho da batida, quando o carro arrastou o fundo no meio-fio, e ficaram impotentes,
cobertos de horror, vendo o automóvel sumir por entre o capim que encobria a beira do precipício, até que escutaram um ruído
seco, depois outro e, por fim apenas o barulho da chuva.
Nada mais havia que pudesse ser feito. Adriano perdera a vida naquele acidente trágico, e toda a família chorava sua dor.
Flávia teve de ser hospitalizada, vítima de uma crise de nervos que nem a permitiu comparecer ao enterro. Embora acreditasse
na sobrevivência do espírito, perder o filho ainda tão jovem fora para ela um golpe duro demais.
O choque foi imenso para todos, e, poucos dias depois do funeral, a família parecia haver se desestruturado. Paulo, intimamente,
acusava Fabrício pelo acidente. Quando soube o que realmente havia acontecido, passou a culpar o filho pela tragédia, julgando-o
o único responsável pelo desatino de Adriano.
Quando finalmente voltou ao trabalho, estava cabisbaixo, triste, endurecido. Suas feições, marcadas pela dor, ocultavam
uma revolta que já não conseguia mais esconder de si mesmo. Tudo fora culpa de Fabrício. Maldita hora em que o adotara!
Sentado sozinho em seu escritório, olhando pelo vidro da janela os carros pequenininhos na rua lá embaixo, escutou batidas
na porta e disse sem interesse:
- Entre.
Era Marcos, o cunhado, que vinha com alguns papéis na mão. Ele puxou a poltrona defronte a ele, acomodou-se, pousou os documentos
sobre a mesa e, encarando-o com compreensão, falou:
- Paulo, se já estiver se sentindo melhor, preciso discutir algumas cláusulas contratuais com você.
Marcos era diretor financeiro da empresa, um homem muito dedicado e competente, e Paulo estava satisfeito com seu trabalho.
Contudo, olhou-o como se não o conhecesse e respondeu sem muito interesse
- Está bem. Vamos lá.
Fazia as coisas maquinalmente. Perdera o filho a quem amava, e aquela perda era irrecuperável. Entretanto, precisava continuar seus
negócios e fez o possível para que ninguém percebesse a mágoa e o ressentimento que lhe iam na alma.
Em casa, Flávia, mais refeita, tentava entender o que havia acontecido. O apoio de Fabrício e da mãe fora fundamental em
sua recuperação, e ela começou a se sentir mais confortada, certa de que aquela perda não fora casual, mas programada por
Adriano por uma razão que ela desconhecia.
Ela estava sentada na sala, conversando com Inês, quando Olívia veio avisar que Clarinha estava ali para vê-la. - Faça-a
entrar.
Clarinha entrou meio sem jeito, cumprimentou ambas, pediu licença e sentou-se, olhos pregados no chão, sem coragem para
dizer o que tinha programado havia tanto tempo.
- Dona Flávia... - começou após alguns segundos de constrangedor silêncio. - Vim aqui para lhe prestar meu apoio... e para
que me perdoe...
- Não precisa se desculpar, minha filha - cortou Flávia em tom compreensivo. - Sei que não foi culpada de nada. As coisas
aconteceram da forma como tinham de acontecer.
- Mesmo assim. Se não tivesse ido à casa de Dona Inês naquele dia...
Desatou a chorar. Quando saíra de casa, jurara a si mesma que não iria chorar. Mas não agüentara. Também estava sofrendo
muito e não conseguia esconder.
- Tenha calma, menina - falou Inês bondosamente. -Se você
não tivesse ido à minha casa naquele dia, outro motivo levaria Adria no àquele acidente. Nada acontece por acaso. - Pensa mesmo assim?
- Tenho certeza.
Ela olhou discretamente para Flávia, abatida, jogada sobre o sofá, e sentiu um aperto no coração. Dirigindo-se a ela, prosseguiu:
- Dona Flávia, quero que saiba que eu amava muito seu filho... - Ela parou de fitar, embargada pelo pranto. -Não sei de
onde ele
tirou a idéia de que Fabrício e eu... - Nova pausa, novos soluços... de que Fabrício e eu somos amantes... Isso não é verdade.
Não é! Eu sei, minha querida. E ninguém está pensando isso. Adriano sempre teve certa rivalidade com o irmão. E era ciumento.
- Mas eu não fiz nada...
- O ciúme não precisa de motivos. Basta a insegurança, o medo,
o apego. Quando se tem certeza do verdadeiro autor, não há motivo para ser ciumento.
- Sou uma moça direita, Dona Flávia.
-Ninguém está dizendo o contrário. Você está se justificando à toa.
- É isso mesmo - concordou Inês. - Não precisa ficar se des
culpando. Não estamos zangadas nem magoadas com você. Entendemos perfeitamente seus sentimentos por Adriano.
- Eu só queria ajudar... Queria ajudar minha prima. Ela está
numa situação difícil.
Sabemos disso também. Tanto que ela continua em minha
casa até hoje. Se eu não estivesse certa de suas intençoes, ou das dela, jamais teria permitido que ficasse comigo.
- Obrigada... - disse Clarinha, a voz embargada pela emoção.
- Esteja certa de que entendemos seu sofrimento - tornou Flávia. -E você será sempre bem-vinda em nossa casa.
- Obrigada novamente, Dona Flávia, mas não quero que as pessoas pensem que venho aqui por causa de Fabrício.
- As pessoas não têm de pensar nada - rebateu Inês. - Não é problema delas. E, se pensam, não se importe. O que vale é a sua consciência.
Clarinha saiu da casa de Flávia mais tranqüila e sentindo-se menos culpada. Embora soubesse que não desejara nem causara o acidente, sentia remorsos por não haver
colocado Adriano a par
do que estava acontecendo. Se tivesse lhe contado a verdade, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Mas ele era contra,
radicalmente contra sua aproximação com Selena. Até que concordava com o desquite, já que o marido batia nela. Mas achava
que Selena não era companhia para ela e deveria assumir sozinha sua condição de desquitada,
isolando-se da sociedade, como se de repente, de uma hora para outra, fosse se desquitar também de seus valores e princípios.

rJo continuará Ihe dando o que ~i,iser. Pari quê sc u~fenorizau num eirrprclTumrho qualquer?
- Empreguu~ho? Mãe Trabalho numa grande emprese exporradora. Sou assessora do diretor executivo. Como rocle chamar de empreguinho?
- E apenas uma secretária de luxo, nadar mais. Não fosse por seu rai, seria esse o nome que dariam a seu cargo, e não o
de assessora. -O quê? Como assim
- Ora, vai dizer que não sabe? - Balançou a cabeça. - Como pensa que conseguiu esse emprego?
- Deixei meu currículo no departamento pessoal...
- E por que acha que a chamaram? Por sua competência? Ora, vamos, Clarinha, caia na realidade. Ninguém a conhecia. Você
era uma moça recém-formada, mexpcriente. Não achou estranho ocup~1r um cargo tïo alto?
Clarinha estava contusa e atordoada. O que a mãe lhe dizia era
L"irar barbamdade- Mas seria verdade? Ela hem que estranhara ter sido
chamada tão rapidamente. Contudo, movida pelo entusiasmo, não questionara nada- Pensava que a tivessem escolhido por haver
frequentado uma boa faculdade, o que era indício de uma boa base.
Subitamente, porém, a verdade caiu sobre ela como um raio. Enquanto ia digerindo aquela revelação, a mãe não parava de falar:
- Pois foi seu pai quem lhe arrumou esse emprego. Quando soube que você havia enviado seu currículo para lá, telefonou
para o Dr. Aureliano, que é seu amigo, e conseguiu a colocação para você. Mas agora chega. Chega de brincar de mulher de
negócios...
Nem terminou a frase. Clarinha saiu correndo da sala e foi apanhar a bolsa, ganhando a rua em desespero. Tirara a tarde de
folga para poder ir à casa de Flávia e pensou em voltar à empresa para tirar satisfações- Mas de que adiamtaria? Se aquilo
fosse verdade, seu chefe a trataria com frieza e telefonaria a seu pai, explicando o ocorrido. Não. Precisava pensar numa
maneira de sair daquilo com dignidade. Pediria demissão.
Mais tarde, naquele mesmo dia, foi bater à porta da casa de Inês. Quando esta viu a moça entrar, admirou-se com seu ar abatido,
mas pensou ainda ser conseqüência da conversa que haviam tido mais cedo.
Clarinha! - surpreendeu-se Selena. - O que houve?
Clarinha desabou na poltrona e contou tudo à prima e a Inês, confessando-se decepcionada e seus esperai as. De uma só vez,
perdera o noivo amado, o emprego e a confiança na família.
- Não se atormente - consolou Inês. - Na vida, não se perde nada; trocam-se experiências. Quando alguma coisa se vai, é
porque não precisamos mais dela, e uma outra melhor irá aparecer.
- Queria mesmo acreditar nisso - respondeu Clarinha, desanimada. - Hoje cedo, depois que conversamos, tentei ligar para
Selena. Sei que também se tornou espírita e pensei em esclarecer algumas coisas. Mas o telefone só dava ocupado, e eu desisti.
E, depois, não acredito mesmo.
-Não acredita? Pois devia.
- Como? Perdi Adriano, e não se pode dizer que não precisava mais dele. Precisava, e minto.
- Será mesmo? Será que vocês já não haviam terminado o tempo que haviam programado juntos?
- Não estou entendendo. Não programei nada.
- Hoje, não. Mas ontem, no mundo espiritual, vocês devera ter traçado as primeiras linhas de suas encarnações. E, aqui,
somente aconteceu o que vocês determinaram.
- Mas como pode dizer que eu não precisava mais dele? Preciso dele até hoje.
- Depende de como encara as coisas- Você pode pensar que precisa, porque ainda está apegada a Adriano. Contudo, para seu
cresc emento, para o desenvolvimento de seu espírito e do dele, esse envolvimento não é mais necessário. O que vocês precisam
agora é de outras experiências. Ele, no mundo espiritual. Você, aqui na Terra, seja com outro namorado, seja enfrentando
a vida sozinha, seja batalhando por seu trabalho.
- Não é tão simples assim como diz.
- Pode não ser. Eu também sofri, porque Adriano era meu neto e eu o amava. No entanto, tenho consciência de que ele cumpriu
mais uma etapa em sua jornada evolutiva e vou rezar para que possa se desincumbir da próxima. E isso sem deixar de amá-lo
ou de sentir saudade dele.
- Não acha que há um contra-senso no que diz? Como pode aceitar sua partida e sentir saudade dele ao mesmo tempo?
-Se você tivesse um filho que fosse estudar na Europa, por exemplo, o que você faria? Não deixaria que fosse, sabendo que
era o melhor para ele naquele momento?
- É claro que deixaria. Mas isso é diferente.
- Não é, não. Você aceitaria sua partida com naturalidade, embora sentisse saudade dele. Mas não ficaria desesperada nem
angustiada, porque teria a certeza de que ele estaria estudando para seu progresso, não é mesmo?
- Continuo achando que é diferente. Nesse caso, ele estaria vivo.
- E quem disse que Adriano não está? Vive apenas em outro plano, mas continua tão vivo quanto nós, e chegará o dia em que
tornaremos a nos reencontrar.
Clarinha balançou a cabeça, incrédula. Queria muito acreditar naquilo, mas não conseguia. Parecia-lhe fantástico demais.
- Dona Inês, o que me diz parece ser impossível_ Concordo que seria extremamente confortante saber que nossos entes queridos
continuam vivos em algum lugar. Mas não acredito que seja essa a realidade.
- Não? E o que pensa, então? Que morreu, acabou?
-Não... Não sei o que dizer. Acho que caímos numa espécie de sono, voltamos para Deus, não sei.
- Os espíritos prosseguem como eram quando encarnados, e até se comunicam conosco.
-Não sei se acredito nesse intercâmbio. Para mim, os mortos não se comunicam.
- Os mortos não se comunicara mesmo. Mas quem desencarna não morre. O corpo se vai, a alma fica. Por isso a comunicação
é possível. Os espíritos são seres inteligentes como nós e conservam todas as características que possuíam quando encarnados.
Por isso é que os podemos reconhecer.
- Também acredita nisso? - tornou Clarinha, dirigindo-se a Selena.
- Você sabe que sim. Desde que aqui cheguei, Dona Inês e eu temos mantido agradáveis conversas sobre a espiritualidade,
sobre as verdades da vida. Já fui até a seu centro!
- E onde é? Aqui perto?
- Sim. Fica dois quarteirões abaixo. Não gostaria de ir? - Não sei...
-Fabrício vai.
- Quando é? Amanhã?
Não. Costumamos nos reunir todas as quartas-feiras. Na semana que vem, se desejar, poderá ir conosco.
A noite, quando Fabrício chegou, ficou extremamente penali
zado com a situação de Clarinha.
- O que pretende fazer? - indagou interessado. - Amanhã mesmo vou pedir demissão. - Eu não faria isso, se fosse você.
- Não? Por quê? Acha que posso me sujeitar a um emprego de favor?
- Ao menos por enquanto, não faria nada. Você, bem ou mal,
está trabalhando. Se eles fizeram um favor a seu pai, e problema de
les. Mas você vai lá, cumpre sua parte, dá o melhor de você. E eles lhe
pagam por isso. Garanto que, se você não fosse competente, eles já te
teriam arranjado um jeito de não lhe dar nada de importante para fazer. Ela considerou por alguns segundos e retrucou:
- Bom, isso é verdade. Só recebo elogios a meu trabalho. E sinto que, a cada dia, vou assumindo novas responsabilidades.
- Pois então? Seu pai lhe arranjou o emprego. Mas você só se mantém no trabalho porque tem méritos próprios. Veja bem a diferença
entre emprego e trabalho. O emprego, foi seu pai quem conseguiu. Mas o trabalho que você executa é algo pessoal, que só
depende de sua capacidade.
- É mesmo, Clarinha - concordou Selena. - Se você não fosse competente, estaria mesmo ocupando o lugar de secretária, datilografando
cartas, atendendo ao telefone, recepcionando os clientes.
Mas não é isso o que você faz, é?
- Não. Faço projetos e traço diretrizes para a empresa, que são
muito bem aceitos. Todos gostam de minhas idéias.
- Viu? Você se mantém no trabalho porque é capaz.
- Mas meu pai vai ficar jogando na minha cara que só estou no
emprego por causa dele.
- Deixe-o pensar assim- intercedeu Inês. - O que importa é
que você sabe que não o é.
- Mas não posso mais continuar naquela casa!
- Não discuta com seus pais, Clarinha, nem tome nenhuma atitude
impensada. Trate de se firmar no emprego e faça seu nome, de forma que consiga boas referências se tiver de pedir demissão.
Depois disso, alugue ou compre um apartamento e mude-se. Você é maior, pode muito bem morar sozinha.
- Se quiser, poderá ir morar comigo - acrescentou Selena. - Logo que o desquite sair, tratarei de me arranjar. Isto é,
se você não se importar de ir morar com uma mulher descasada e com dois filhos.
- Eu? Imagine, Selena. Sabe que não ligo para isso. E, depois, gosto de você e das crianças.
- Então? O que me diz?
Clarinha ficou alguns instantes pensativa, até que retrucou:
- Não vai voltar a viver com seus pais, Selena? - Não. Duvido que eles me queiram de volta.
- Talvez esteja enganada. Você tem dois filhos maravilhosos, e
isso muda a cabeça de muita gente. Quais os avós que não gostariam de estar perto dos netos?
- Talvez você tenha razão, e meus pais me aceitem só por causa das crianças. Mas não quero. Durante a vida inteira fui dependente
de alguém. Primeiro, de meu pai. Depois, de meu marido. E, agora, de meu pai de novo? Ele vai querer mandar em mim, dirigir
minha vida. Não quero. Pretendo é arrumar um emprego e me sustentar, a mim e a meus filhos.
- Ele não vai lhe dar pensão?
- Quem? Cassiano? Duvido muito. E até capaz de abandonar o emprego só para não ter de me dar nada.
- Isso é algo que veremos depois - falou Fabrício. - Primeiro vamos tratar do desquite e pedir a pensão. Mas se ele vai
dar ou não, quais os artifícios que usará para se esquivar de suas responsabilidades, isso é outra história.
- Como vai o processo? - quis saber Clarinha.
- A primeira audiência será daqui a uma semana. O juiz tentará reconciliar os dois.
- Impossível! - exaltou-se Selena.
- Mas a lei obriga. Faz de tudo para manter a família unida. Se der, não deu, mas o juiz é obrigado a tentar uma reconciliação.
- E as provas? Ele vai se utilizar das fotos? - Provavelmente, sim. Se a reconciliação for impossível, Caso
seja citado para se defender, e aí poderá apresentar as provas (que quiser.
- Mas eu também tenho provas contra ele Tenho provas de que fui maltratada, meus filhos foram aterrorizados!
- Acalme-se, Selena, isso é apenas o processo legal. E claro que você tem provas contra ele, e das mais sólidas. Mas não
se esqueça de que ele também tem provas contra você, e isso pode ser um problema. Tudo vai depender da cabeça do juiz, de
como ele vai entender a culpa de cada um.
- Por que não nos reunimos e pedimos proteção a Deus? - sugeriu Inês. -Todos nós estamos passando por momentos difíceis,
e tenho certeza de que Sua ajuda será o melhor remédio para nossos problemas.
Naquela noite, quando Fabrício chegou em casa, já era tarde, e ele pensou que os pais estivessem dormindo. Abriu a porta
da frente com cuidado e foi para seu quarto. Ao passar pela sala, notou a luz de um abajur acesa e foi espiar. O pai estava
lá, sentado de pijamas, fitando o vazio.
- Pai! - exclamou Fabrício. - O que faz aí sozinho? Não vai dormir?
Paulo encarou-o com raiva e não respondeu. Levantou-se bruscamente, apagou a luz do abajur e saiu para o corredor em direção
a seu quarto. E foi naquele momento, ao ver os olhos do pai sobre ele, que Fabrício percebeu quanto ele o odiava. Não era
uma raiva pela perda de Adriano, mas um ódio que ele guardava havia muito tempo e que agora encontrava motivo para sair.
Quando Adriano despertou, cerca de um mês depois de seu desenlace, estava confuso e transtornado. Lembrava-se vagamente do
acidente, mas não se recordava de suas conseqüências. Olhou atentamente para o lugar em que se encontrava, que lhe pareceu
um quarto de hospital. Quase não havia móveis, apenas a cama onde ele estava deitado e um jarro de água sobre uma mesinha.
Tentou se levantar, mas não conseguiu. Sentiu uma forte dor no tórax e tornou a se recostar nas almofadas, respirando com
dificuldade e apalpando as faixas que enrolavam seu corpo. Pouco depois, a porta se abriu e uma enfermeira entrou. Veio
sorrindo, ajudou-o a se acomodar, colocou as mãos suavemente sobre seu tórax, fechou os olhos e pareceu a Adriano que ela
estava rezando. Em seguida, perguntou:
- Dói?
Ele suspirou aliviado e respondeu confuso:
-Não. Estranho. Há pouco, senti uma dor terrível. Mas agora a dor passou sem mais nem menos. Como é possível? O que você fez?
Ainda sorrindo, a enfermeira cobriu-o com o lençol e respondeu:
- Você ainda está muito fraco para se levantar. Quebrou as costelas e está em tratamento.
Ela colocou um pouco de água no copo e estendeu para ele, que o apanhou e começou a beber maquinalmente.
- Que hospital é este? - perguntou, estudando o ambiente.
- Você está no Lar da Luz Divina.
- Lar da Luz Divina? Nunca ouvi falar. Fica no Rio de janeiro mesmo?
Ela sorriu novamente, acariciou seu rosto e lhe disse: - Descanse. Depois falaremos.
Adriano pensou em protestar, mas foi acometido de um enorme cansaço. Pousou a cabeça no travesseiro e imediatamente adormeceu.
Quando tornou a despertar, parecia que havia passado dias. Tornou a apalpar o tórax, mas não sentiu aquela dor horrorosa
e tentou se levantar. Dessa vez, conseguiu.
Caminhando lentamente, foi em direção à janela e parou estupefato. O dia estava nascendo, mas parecia que o sol tingia a
terra de vermelho amarelo e um laranja, tanta era a intensidade de seus raios. Adriano não pôde deixar de admirar
aquela beleza e quedou embevecido, deslumbrado com tanta majestade, até que ouviu a porta se abrir e se virou, dando de
cara com a mesma enfermeira que o atendera da primeira vez. Ela entrou sorridente, trazendo nas mãos uma bandeja com uma
espécie de tina.
- Vejo que está bem melhor - falou ela com entusiasmo. - Estou, sim, obrigado.
- Quer comer alguma coisa?
- Não sei. Estou com fome, mas detesto comida de hospital. - Pois esta é diferente. Garanto que vai gostar.
Adriano recostou-se na cama, e ela pousou a bandeja sobre seucolo. Ele apanhou a colher e experimentou o caldo. Estava uma delícia,
e ele tomou tudo.
- Viu? Não falei? - perguntou ela animada. - Tem razão... Como é seu nome?
- Cecília. Mas pode me chamar de Ciça.
- Muito prazer, Ciça. Meu nome é Adriano. - Eu sei.
- Você é enfermeira, não é?
- Fui encarregada de cuidar de você.
- E onde está o médico? E minha família?
A porta se abriu novamente, e um homem já meio idoso entrou, cumprimentando-o com um afetuoso abraço. Adriano, confuso,
ficou parado, sem saber se retribuía ou não aquele gesto tão espontáneo, mas sentiu vergonha e ficou quieto.
- Bom dia - falou o homem.
- Bom dia. O senhor é o médico?
O homem sorriu e respondeu, balançando a cabeça:
Não. Meu nome é Ismael. Vim ver como está passando.
Olhe, agora estou me sentindo bem. Mas gostaria de falar com o médico e, se possível, com minha família. Desde que aqui
cheguei, não vi ninguém.
- Você esteve dormindo por um longo tempo -esclareceu Ciça.
- Mas, agora que acordei, poderia chamá-los para mim, por favor? Aposto que também devem estar preocupados. - Fez uma pausa
e prosseguiu: - Por acaso estive em coma?
Ismael e Ciça entreolharam-se e sorriram complacentes. Era sempre assim: os recém-chegados, em sua maioria, nem desconfiavam
que haviam desencarnado e queriam falar com o médico, os familiares, voltar para casa. Com Adriano, não estava sendo diferente.
- Fique calmo, Adriano disse Ciça. - Vou chamar o médico para você.
Ela saiu e voltou cerca de cinco minutos depois, em companhia de poluem alto e forte, meio calvo, com olhar extremamente bondoso.
- Ora, ora! Nosso paciente parece bem melhor hoje.
- Pois é. Não sinto mais nada. Será que já estou bom para partir? O senhor pode me dar alta e ligar para minha família?
Gostaria que viessem me buscar.
- Por que não espera mais um pouco, até que esteja inteiramente restabelecido?
Adriano olhou-o desanimado. Esperava que já pudesse sair. Retrucou:
- Eu podia ao menos ligar para meus pais? Preciso falar com eles, dizer que acordei.
Vendo que ninguém se mexia, Adriano começou a se irritar:
-O que está acontecendo aqui? Por acaso estou incomunicável, é? Por que não chamam meus pais?
- Descanse. Amanhã resolveremos isso.
Tomado pelo cansaço, Adriano adormeceu novamente, só despertando no dia seguinte, quando Ciça entrou com a bandeja.
- Bom dia. Dormiu bem?
- Dormi.
Ele esperou até que ela ajeitasse a bandeja sobre seu colo e continuou:
- Ciça, por que ainda estou aqui? Não estou bom?
- Quase.
Mas não pode ser. O médico esteve aqui ontem e nem me examinou. Alias, não me lembro de nenhum hrocedimento médico.
Além dessa sopa que você me traz, não tomei nada, nenhum remédio, injeção, nada. O que está acontecendo?
- Você já esta bem melhor dos ferimentos, mas ainda precisa se fortalecer, senão corre o risco de ter uma recaída.
- Mas por que não chamam minha família? Quero falar com meu pai. Todos devem estar preocupados. Preciso avisa-los de que
acordei do coma.
- Tenha calma. Tudo a seu tempo.
Novamente a porta se abriu, e Ismael entrou em companhia do médico.
- Doutor! O que esta acontecendo? Por que não posso ver minha família? Por acaso estou sendo mantido prisioneiro aqui?-Ele
se calou e levou a mão à cabeça, retrucando horrorizado. - Meu Deus! Fui sequestrado! É isso. Vocês me seqüestraram e me
mantêm dopado aqui enquanto tratam das negociações com meu pai.
Ele jogou a bandeja no chão e levantou-se bruscamente, tentando correr para a porta. Nesse momento, alguns homens apareceram
e gentilmente o seguraram, conduzindo-o de volta à causa.
- Larguem-me! Tirem essas mãos de cima de mim! Vocês vão ver! Quando meu pai descobrir, vai prender vocês para sempre!
- Adriano, acalme-se - tornou Ismael, com doçura. -Não quer saber o que aconteceu depois do acidente?
- Acidente?- revidou confuso.
- Sim, o acidente. Não se lembra? Você derrapou com o carro no Alto da Boa Vista e caiu no precipício...
- Lembro-me do acidente, claro que me lembro. Não com riqueza de detalhes, mas sei que foi por causa de um acidente que
vim parar aqui. E daí? O que tem? já estou bom, não estou? Não sinto mais nada. E agora querem se aproveitar da situação
e me aprisionar para pedir resgate. Pois não vão conseguir, ouviram? Não vão.
- Ninguém o seqüestrou, Adriano. Nós o resgatamos e cuidamos de você Mas não o mantemos prisioneiro aqui. Se quiser partir,
é livre para ir.
- Ir para onde? Nem sei onde estou!
Ismael apanhou sua mão e, olhando fundo em seus olhos, respondeu com firmeza:
Você está no Lar da Luz Divina, uma instituição de socorro
às vítimas de acidente situada numa colônia espiritual no plano bem em cima da cidade do Rio de janeiro.
- O quê? Colônia espiritual? Mas que brincadeira é essa? - Não é brincadeira...
- Só pode ser. Como pode haver uma colônia espiritual acima da cidade do Rio? Por acaso estamos flutuando? E alguma nave espacial? Fui seqüestrado por seres de outro
planeta? Ora,
francamente! O que pensa que sou? Algum rolo? Vá contar essa história para as crianças, não para mim.
- Mas é verdade. Nossa colônia está acima da cidade, mas num
outro plano, numa outra dimensão, invisível aos olhos humanos dos encarnados.
- Encarnados? Como assim? Não estamos encarnados aqui? Vendo o olhar revelador de Ismael, Adriano considerou:
- Quer dizer que estamos desencarnados aqui? Sem carne?
Mortos?
- Sim.
- Impossível. Acha que sou idiota? Não acredito nessas bobagens de espírito. Se estou aqui falando com você, é porque estou vivo.
- É claro que está vivo. Mas, como disse, habita agora outro plano. Seu corpo material padeceu naquele acidente, mas seu espírito
ganhou liberdade e retornou à pátria espiritual.
-Não acredito. Vocês estão tentando me enganar. Quero sair
daqui! Exijo que me levem de volta à minha família. Agora!
- Fique calmo. Vamos voltar, mas não agora. - Quando?
-Quando estiver mais preparado.
- Sem essa! Quero sair daqui agora! Levem-me imediatamen te à minha casa! Quero ir para casa! Mãe! Pai! Onde estão? Sentindo a angústia silenciosa do filho, Flávia
pensou nele com
saudade, e Paulo, na mesma hora, sentiu a revolta dominar-lhe o coração, imaginando como seria bom se o filho estivesse ali a seu lado.
Imediatamente, os pensamentos de ambos se conectaram às súplicas
de Adriano, e estabeleceu-se uma comunicação telepática, sem palavras, mas de intenção.
Na mesma hora, Adriano sentiu o chamado dos pais e pensou neles com tanta força, com tanta vontade,
que logo se viu transportado de volta a seu quarto, em sua cama, e abriu os olhos assustado.
Reconhecendo sua casa, pensou que tivesse tido um pesadelo. Tornou a fechar os olhos, virou-se para o lado e dormiu.
Adriano ouviu um barulho estranho no quarto e abriu os olhos. A empregada, alheia à sua presença, passava o aspirador de
pó no tapete, despertando-o com aquele ruído infernal.
- Atônito, ergueu-se na cama, espreguiçou-se e, olhando para a moça, falou com zanga:
- O que há com você, Maria? Não respeita mais ninguém, não? Não vê que ainda estava dormindo?
Sem se dar conta de suas palavras, Maria continuava a aspirar o
tapete e nem percebeu quando Adriano se sentou na cama e pousou os pés no chão, tentando encontrar os chinelos.
- Ei: Cuidado! - gritou ele embasbacado. -Não viu meu pé?
Maria acabara de passar o aspirador sobre seus pés, deixando-o furioso. Adriano levantou-se, aproximou-se dela e postou-se
bem à sua frente, pronto para lhe passar um sabão. Ela, porém, continuou avançando com o aspirador, que atravessou seus
pés. Mas Adriano, confuso, não se dera conta de que o aspirador o atravessara, pensando que apenas houvesse esbarrado nele.
Parado em frente a Maria, já pronto para lhe dar uma bronca, viu quando a moça partiu para cima dele, aspirador em punho,
disposta a atropela-lo, e pulou para o lado, cada vez mais abismado.
- Você está maluca? Está cega, é?
Como Maria não respondesse, ele começou a se enfurecer e a gritar com ela:
- Pare já com essa bobeis e fale comigo! Estou mandando! Deixe de fingir que não existo e fale comigo!
Nada. Maria nem sequer se abalava.
- Ah, não vai falar, não? Pois vai ver só! Vou agora mesmo contara mamãe o que está acontecendo. Você está ficando muito
abusada. Onde já se viu?
Virou as costas para sair e quase esbarrou em Olívia, a governanta, que metera a cabeça na porta e dissera:
- Maria, não se esqueça de limpar no alto das prateleiras. Da outra vez, dona Flávia reclamou comigo que os livros estavam cheios de poeira. Sabe como ela é. Ainda
mais com o quarto do filho...
Discretas lágrimas afloraram aos olhos de Olívia, e Adriano perguntou:
O que houve, Olívia? Por que está chorando?
Ao invés de responder, Olívia, mais sensível, inconscientemente percebeu a presença do rapaz e disse bem baixinho:
- Pobre Adriano...
Soluços a interromperam e ela saiu correndo, nem dando a Adriano tempo de lhe perguntar o que estava acontecendo. E o mais
estranho era que ela parecia não o haver visto também. O que estaria acontecendo? Estavam todos loucos ou ele estava sonhando?
Aturdido, saiu para o corredor e foi para a copa, onde a família tomava o café da manhã. Ali estavam o pai, a mãe e o irmão,
mas Olívia se esquecera de colocar uma xícara para ele. Indignado, sentou-se em seu lugar, em frente a Fabrício, e chamou
Olívia, pedindo que lhe trouxesse a xícara. Mas nada. Olívia não atendera a seu chamado, e todos ali pareciam ignora-lo.
Ele encarou a mãe, o pai, o irmão... Estavam todos com ar triste. Será que fizera alguma coisa? Mas o quê? Não se lembrava.
Durante alguns minutos, permaneceu fitando os familiares, à espera de que alguém dissesse alguma coisa. Depois de um tempo,
Paulo falou para Flavia:
- Passe-me a manteiga, por favor.
Flávia estendeu para ele a manteigueira, que ele apanhou sem dizer nada. Apenas balançou a cabeça em sinal de agradecimento
e pós-se a passar manteiga na torrada. Adriano estava cada vez mais perplexo. Era óbvio que não queriam falar com ele. Estavam
lhe dando um gelo. Não queriam nem sua companhia para o café.
Depois de quase dez minutos, não suportando mais aquele silêncio, deu um tapa na mesa e falou zangado:
- Muito bem! Chega de brincadeira. Alguém pode me dizer o que esta acontecendo?
Nada. Ninguém se movia.
- Mamãe, o que fiz?
Silêncio.
- Papai, por favor, o que houve? Por que não me respondem? Fabrício, diga você. O que está acontecendo aqui? Por que não
falam comigo? Falem comigo, pelo amor de Deus! Vamos, falem comigo! Falem! Falem!
Ninguém dizia nada. Apenas Fabrício, dada sua forte mediunidade, sentiu uma presença ali junto a eles. Seria Adriano? Captando-lhe
os pensamentos, que, em sua confusão, julgava palavras, Adriano respondeu:
- Até que enfim alguém me escuta. O que houve, Fabrício?
Adriano havia se levantado de seu lugar e se aproximado do irmão, que, percebendo-lhe cada vez mais a presença, elevou uma
breve oração a Deus, pedindo proteção para ele. Adriano não percebia que o que escutava eram seus pensamentos e indagou
atônito:
- Por que está rezando por mim? Estou aqui do seu lado. Pare com essa besteira e fale comigo. Essa brincadeira já está ficando
sem graça.
Fabrício, compenetrado, não ouvia aquelas palavras, e Adriano começou a se enfurecer. Pensou em esbofeteá-lo, mas o pai
chamaria sua atenção. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo, ele estava conivente. Aproximou-se da mãe e pediu sua
ajuda:
- Mamãe, por favor, não estou gostando nada disso. Diga-me: o que está acontecendo?
Flávia, olhar perdido, falou de repente: - Sinto saudade de Adriano...
Calou-se, a voz embargada, enquanto o filho respondia:
- Saudade? Por quê, mãe? Estou bem aqui do seu lado!
Paulo pousou a torrada no prato, limpou os lábios no guardanapo e, olhando a mulher com compreensão, respondeu: - Eu sei, querida. Também sinto.
- Por que isso tinha de acontecer, por quê?
- Acontecer o quê?- tornou Adriano, cada vez mais confuso. - Pergunte a seu filho - retrucou Paulo de má vontade, apon
tando com o queixo para Fabrício.
O rapaz, sentindo a insinuação do pai, respondeu calmamente: - Pai, sei que está sofrendo... todos estamos. Mas não tive
culpa de nada. Adriano estava correndo...
- Estava correndo?- revidou Paulo. - E por quê? Porque você o estava perseguindo!
- Eu não estava perseguindo-o! Fui atrás dele para tentar detêlo. Ele estava transtornado, pensando um monte de bobagens.
Adriano assistia a tudo, cada vez mais confuso.
- Ah, estava transtornado? E por quê? Porque você resolveu ajudar aquela mulherzinha à-toa!
- Não fale assim de Selena. Ela não tem nada com isso! Adriano criou uma fantasia em sua cabeça. Ou será que o senhor
também pensa que Clarinha e eu ...
- Não penso nada! -cortou rispidamente. -Mas Clarinha não devia ter contrariado seu irmão. Ele não a queria envolvida com
aquela mulher! Nem você! Estava preocupado, veio me pedir ajuda.
- Ajuda?- indagou Flávia curiosa. - Para quê?
- Caso não saiba, Adriano veio me pedir para falar com Fabrício sobre seu envolvimento com Selena...
- Envolvimento? Mas que envolvimento, meu Deus? Selena é minha cliente.
- Adriano não pensava assim. Achava que havia algo mais entre vocês.
Ele fantasiava demais. Nunca houve nada entre mim e Selena nem entre mim e Clarinha. A primeira é minha cliente; a segunda,
apenas uma amiga.
Adriano sentiu vontade de perguntar por que todos se referiam a ele no pretérito, mas não teve tempo. Paulo continuava suas
acusações contra Fabrício:
- Você foi muito errado. Não devia ter se metido com essa gente. E ainda foi convencer sua avó, uma senhora de idade, a
acobertar essa loucura. Devia ter vergonha!
- Vergonha de quê? De tentar ajudar uma pessoa?
- Não. De atrapalhar a vida de seu irmão.
-Não atrapalhei a vida de ninguém. Ao contrário, só tentei ajudar, a Adriano, inclusive. Mas ele não quis me ouvir. Deixou-se
dominar pelo ciúme e saiu em disparada, subindo e descendo o Alto da Boa Vista feito um louco, derrapando na chuva... Não
tive culpa...
Fabrício sentiu que ia começar a chorar e calou-se, afundando o rosto entre as mãos. Adriano não sabia o que dizer. Subitamente,
lembrou-se do acidente que, em sua confusão mental, havia apagado de seus pensamentos, e olhou para a mãe, que chorava de
mansinho.
O acidente... Agora começava a se lembrar. Alguém o recolhera e cuidara dele. Agora estava bom. Só que o haviam prendido,
ele nem sabia onde. Um seqüestro! Fora isso. Haviam-no seqüestrado.
Mas ele conseguira fugir. Nau sabia como, mas logo Saíra daquele lugar... Que lugar? Era um lugar até que agradável,
muito bonito. Mas não sabia onde era nem como conseguira sair de lá. E voltara. Voltara para sua casa, para sua família.
Eles não precisavam mais discutir daquele jeito.
- Mãe! - exclamou Adriano, tentando abraçá-la. - Estou
aqui. Eu voltei. Por que não fala comigo Mãe!
Ainda soluçando, Flávia ergueu a mão e disse transtornada:
- Oh, meu Deus! Por que não param com isso? já não basta ter
perdido um filho? Preciso agora que minha família se desintegre? Vendo que a mulher chorava descontrolada, Paulo levantou-se
da cadeira e correu para ela, abraçando-a com ternura. - Sinto muito, querida...
Fabrício também, olhos pregados no chão, halbuciou com pesar:
- Perdoe-nos, mãe. Não queríamos brigar.
- Mãe! -tornou Adriano, perplexo. -Por que diz que perdeu um filho? Eu estou aqui. Não esta me vendo. Fabrício! Você me
ouviu. Tenho certeza de que ouviu. Diga a ela, vamos! Diga!
- Não posso Suportar ver vocês brigando tornou Flávia chorosa. - Vocês são tudo que me resta!
- E eu, mãe? - continuava Adriano. - Esqueceu-se de mim' Pelo amor de Deus, o que esta acontecendo? Alguém me conte: o que
houve? Por que continuam falando de mim como se eu nao existisse?
- Adriano morreu - prosseguiu Flávia. - Não posso mudar isso. Eu o perdi. Mas preciso de vocês para me ajudarem a continuar
a viver.
Adriano afastou-se estarrecido.
- Morri!? Mas que história é essa? Ficou louca, mãe? Olhe-me aqui! Não morri, não. Estou aqui!
- Você sabe que a morte não existe, mãe - acrescentou Fabrício -, e o espírito de Adriano prossegue vivo em algum lugar...
- Besteiras! - rosnou Paulo. - Para que ficar iludindo sua mãe com essas tolices? Adriano se foi e não vai mais voltar.
Não está em lugar nenhum. Está embaixo da terra. Embaixo da terra, ouviu?
- Embaixo da terra, eu?! - espantou-se Adriano. - Como pode? Estou aqui. Não estou morto, estou vivo!
-Não, Paulo, não. Seu corpo morreu, mas Sua alma vive e pode até nos ouvir...
Pare com isso, Flávia! Sei que é um conforto acreditar na sobrevivência da alma, mas não vai lhe fazer bem ficar aí alimentando
uma fantasia. Adriano morreu, acabou. Está morto! Morto!
Adriano tapou os ouvidos para não ouvir, mas aquela palavra continuou ecoando dentro de sua cabeça: morto, morto, morto...
No mesmo instante, viu-se dentro de um carro, descendo o Alto da Boa Vista a toda velocidade. Em dado momento, sentiu que
o móvel derrapava na pista molhada e começava a rodar, até que alguns solavancos o sacudiram, e ele atravessou uma espécie
de matagal, despencando pelo precipício e indo se chocar contra as pedras, lá embaixo. Aterrado, viu quando o carro ficou
em pé e depois virou, não chegando a capotar, imprensado que fora pelas uivares no final do precipício. Sentiu uma dor
horrível no tórax e ouviu o ruído de vários ossos se quebrando, e sentiu-se bruscamente arrancado dali. Desmaiou.
Sentiu que um líquido quente e viscoso lhe escoria pela testa e percebeu, horrorizado, que ela estava coberta de sangue.
O peito quase que explodia, tamanha era a dor da pontada que sentiu, e ele dobrou o corpo sobre si mesmo, curvando-se até
quase tocar o chão.
Chorando convulsivamente, ajoelhado ao lado da mãe e do pai, viu uma claridade vinda da direção da porta e olhou. Dois espíritos
estavam ali parados, e ele os reconheceu imediatamente. Vira-os no hospital em que fora tratado. Eram Ciça e Ismael. Agora
entendia tudo com clareza. O acidente... perdera a vida naquele acidente.
Ciça aproximou-se e estendeu-lhe a mão, dizendo com doçura:
- Venha, Adriano. Não precisa mais ficar aqui.
Ele a fitou com desgosto e retrucou:
- Estou morto, não estou? Vocês estavam falando a verdade.
- Você não está morto. Vive agora uma outra vida, livre da matéria.
- Por quê?
- No tempo certo, saberá.
- Mas eu era jovem. Tinha tanto para viver. Minha profissão, Clarinha...
- Terá outras coisas para viver agora. Coisas que também o mudarão a crescer.
Adriano chorava desconsolado. Não queria morrer. Deus fora injusto com ele. Por que o levara tão jovem?
Venha conosco, Adriano - convidou lsmael. - Nós o ajudaremos a superar e a entender o que lhe aconteceu.
Adriano olhava para eles com profunda tristeza. Sabia que devia partir. Estava morto, não pertencia mais àquele mundo. No
entanto, quantas coisas deixara para trás! Não podia simplesmente abandonar tudo e seguir para outro lugar, como se nada
tivesse acontecido em sua vida. E, depois, havia Clarinha. Não poderia deixar Clarinha livre para Fabrício.
- Por favor, Adriano - suplicou Ciça -, não pense mais nessas coisas. Aceite a ajuda que estamos lhe oferecendo. Venha.
Ele estava tentado a aceitar. Contudo, a lembrança de Clarinha era ainda muito viva dentro dele, e Adriano sentiu um ódio
incontrolável ao pensar que Fabrício pudesse tê-la agora em seus braços. Ele deixara o caminho livre, e era bem capaz de
o irmão a cortejar. Mas ele não iria permitir. Jamais permitiria!
Adriano respirou fundo, enxugou os olhos e levantou-se do chão. Fitou os espíritos com raiva, voltou-lhes as costas e, sem
dizer nada, sumiu no interior da casa. Ciça fez menção de ir atrás dele, mas Ismael, segurando-a pelo braço, finalizou com
certa tristeza na voz:
- Deixe, Ciça. Ele aprenderá por si mesmo.
Em silêncio, deram-se as mãos, elevaram o pensamento ao Criador e partiram.
finalmente, o dia da primeira audiência havia chegado. Fabrício havia marcado com Selena de se encontrarem na porta do fórum
e estava parado, esperando-a, quando viu Cassiano chegar em companhia de seu advogado. Quando o viu, o Dr. Aderbal cochichou
algo ao ouvido de seu cliente, e ambos se dirigiram para Fabrício.
- Bom dia, doutor - cumprimentou Aderbal, com fingida simpatia.
Bom dia. Como estão?
- O que acha? - respondeu Cassiano entre dentes.
Fabrício já ia lhe dar uma resposta a altura, mas Aderbal, cutucando Cassiano, adiantou-se e indagou:
- Dona Selena ainda não chegou?
- Não deve demorar.
Com efeito, assim que terminou de falar, viu Selena atravessando a rua. Ao dar de cara com o marido ao lado de Fabrício,
começou a diminuir o passo, com medo até de se aproximar. Mas o olhar confiante de Fabrício transmitiu-lhe coragem, e ela,
apertando as mãos nervosamente, caminhou para eles a passos firmes.
Ela chegou junto a eles e cumprimentou-os laconicamente, não disfarçando o mal-estar.
- Podemos entrar? - perguntou ela, pouco à vontade.
- E claro, Selena. Vamos indo.
Assim que começaram a subir as escadas do fórum, mais alguém notou sua presença. Em pé, um pouco mais além, Paulo conversava
com um conhecido. Tivera uma reunião no escritório de um cliente ali perto
e, por acaso, encontrara um antigo companheiro da época de faculdade.
Ao vê-los, Paulo parou abismado. Reconheceu imediatamente o filho e Selena. Um pouco mais atrás, carregando uma pasta,
um homem de terno, que ele deduziu ser o advogado do marido dela. A seu lado, um sujeito forte e mal-encarado fitava as
costas da moça com olhar de desdém. Só podia ser o marido. Como se chamava mesmo? Não se lembrava direito. Era Cássio...
Não. Cassiano! Era esse o nome que ouvira Fabrício falar. Então fora por causa daquelas pessoas que Adriano perdera a vida,
porque Fabrício resolvera se envolver com gente da pior espécie.
Pensou em interpelá-los, mas o que poderia dizer? Fabrício, afinal de contas, era advogado e estava ali a trabalho. Não
ficava bem envolver-se nos negócios profissionais do filho. Daria a impressão ele que era um pai autoritário e retrógrado,
o que poderia comprometer a imagem de modernidade que procurava imprimir ã sua empresa.
Curioso, Paulo pediu desculpas ao homem, alegando compromissos urgentes, e despediu-se. Subiu as escadas do fórum apressadamente,
procurando por Fabrício. Em meio aos corredores tumultuados, conseguiu ainda vê-lo entrando em uma sala do primeiro andar.
Correu em sua direção e viu quando ele e o outro advogado foram consultar uma lista pendurada perto de uma porta. Provavelmente,
a pauta das audiências.
Enquanto os dois conversavam, Paulo reparou melhor no casal de clientes. A moça, apesar de bonita, tinha algo de vulgar
que o irritou. E o homem era o que se podia chamar de marginal. Sem o conhecer, Paulo sabia que ele não prestava. Podia
ler em seus olhos, em seus gestos, que ele não era flor que se cheirasse. Mas não disse nada. Sufocou a raiva dentro do
peito, virou as costas e saiu.
Na audiência de conciliação, Selena foi peremptória. Não queria mais continuar casada com Cassiano. Ele maltratava a ela
e aos filhos, e a convivência entre ambos tornara-se insuportável. O marido, orientado pelo advogado, armara um teatro particular.
Chorou, pediu perdão, disse que amava Selena e os filhos, prometeu mudar. Mas Selena não queria. O amor havia acabado no
meio de tantas surras, e só o que lhe interessava agora era o bem-estar dos filhos.
O juiz Otávio deu por encerrada a audiência, e as partes foram dispensadas, sendo concedido a Cassiano prazo para apresentar
defesa. Enquanto saíam da sala de audiências, Cassiano chegou perto de Selena e, fuzilando-a de ódio, disparou:
- Vai se arrepender, Selena. Vou acabar com você!
- O que disse, Seu Cassiano?- perguntou Fabrício, chegando-se mais para perto deles.
- Nada, doutorzinho... Não disse nada.
Saiu em companhia de seu advogado. O juiz não lhe ouvira as palavras, mas percebera seu olhar de ódio e deduziu a ameaça.
Tinha muitos anos de fórum para conhecer aquele comportamento. Quantos homens já não vira que se fingiam de bonzinhos, de
arrependidos, só para terem as mulheres de volta e continuarem a maltratálas? Quantas ameaças veladas já não presenciara,
ameaças que se impunham, na maioria das vezes, só pelo olhar? Seus longos anos de experiência lhe diziam que estava diante
de um caso difícil, e aquele Cassiano lhe parecia um mau-caráter, disposto a tudo para não perder sua vidinha de prazeres
e conforto.
Mas, enfim, era um juiz imparcial e estava ali para julgar de acordo com as provas dos autos. Não podia se deixar levar
por antipatias ou suposições. Era um homem muito intuitivo, embora não agisse apenas baseado na intuição. Analisava os
casos com atenção e decidia baseado em provas concretas. E raramente falhava. Era um homem justo e honesto, e nunca se
enganara com um caso. E aquele, estava certo, dar-lhe-ia muito trabalho.
Encerrado o expediente, apanhou suas coisas e foi para casa. Estava cansado, louco por um banho e uma cama. Mas sabia que,
ao chegar, teria de dar atenção a Aninha, sua única filha. Ana Leticia estiva com sete anos. Era uma menina meiga e inteligente,
e era tudo que ele tinha no mundo.
Otávio casara-se tarde, e sua mulher, aos trinta e cinco anos, engravidara. Teve uma gravidez difícil e complicada e, quando
a filha nasceu, não resistiu ao ataque de eclâmpsia e faleceu logo após o parto, deixando-o só e com uma filhinha para criar.
Otávio tinha então trinta e sete anos e hoje, aos quarenta e quatro, guardava ainda no rosto os traços da juventude. Era
atraente, alto, moreno, com cabelos e olhos castanhos.
Era um homem vivido e aberto as novas idéias, e logo se interessou pela literatura espiritualista. Não seguia nenhuma religião.
Nunca havia frequentado um centro espírita em toda a sua vida nem
conversara com ninguém a respeito. Mas estudara o suficiente para compreender que a alma sobrevivia ao corpo e que os acasos
da vida nada tinham de casuais.
Era quarta-feira, dia de sessão no centro espírita de Inês, e eira, pronta para sair, conversava com Selena, enquanto aguardava
a chegada de Fabrício e de Flávia.
- Será que Clarinha também vem?- perguntou Selena, pregando um botãozinho na blusa de Selma.
- Acho que sim. Da última vez que esteve aqui, pareceu muito interessada.
-Tomara que ela goste. Vai se sentir mais confortada. - E verdade.
Pena que não poderei ir.
- Pois é. A irmã de Bibiana tinha de passar mal justo hoje? Mas, enfim, o que podemos fazer, não é mesmo?
Ouviram uma buzina do lado de fora e Selena soltando a costura, exclamou animada:
-Chegaram! Deixe que vou abrir.
Apanhou a chave do portão e correu para abri-lo. O carro passou, com Fabrício ao volante, tendo ao lado a mãe e, no banco
de trás, Clarinha. Ao lado dela, sem que ninguém visse, o espírito de Adriano, carrancudo e mal-humorado.
Inês ficou muito feliz ao ver que Clarinha os havia acompanhado, embora a moça se mostrasse um pouco inquieta.
- Que bom que veio, Clarinha - falou Inês.
- Foi um custo trazê-la - disse Fabrício. - Na hora de sair, ela quase mudou de idéia.
- Lógico - rosnou Adriano entre dentes. - Eu estava lá e tentei impedir...
- Pois é - cortou Clarinha, sem nem se aperceber da presença e das palavras de Adriano. - Não sei o que me deu. E que,
de uns dias para cá, tenho sentido um cansaço, um esmorecimento...
- Mais um motivo para ir - alertou Inês. - Quando estamos mal é que devemos procurar a ajuda dos amigos espirituais, e
não ceder ao apelo daqueles que lutam para nos af astar da espiritualidade.
- Como assim, vó?
- Bem, os espíritos menos esclarecidos, muitas vezes, não querem que nos modifiquemos, pois só assim podem continuar a nos influenciar. Por isso, quando pensamos
em ar ao centro espírita,
eles reagem ferozmente, tirando nossa vontade, fazendo-nos passar mal, sentir sono e, às vezes, nos incutindo a idéia de
que tudo não passa de uma grande bobagem, que não adianta nada ir ao centro nem a lugar nenhum.
Adriano olhou-a admirado. Sem saber, ela relatara exatamente o que ele havia sugerido a Clarinha. Será que, como dissera,
ele era um espírito menos esclarecido? Não, não era isso. Ele não era nenhum ignorante. A avó, na certa, se referia aos
espíritos do tipo "alma penada , o que não era seu caso.
- São os obsessores, não é, Dona Inês? - tornou Selena.
- Não gosto de chamá-los assim. A obsessão dá uma idéia ruim, de perseguição, e os espíritos ditos obsessores são apenas
seres ignorantes, por vezes até presos aos sentimentos que nós, encarnados, nutrimos por eles. Contudo, se os tratamos com
amor e compreensão, logo tomam consciência de seus atos e vão embora. E, então, vemos que eles são espíritos movidos pelos
mesmos sentimentos que os encarnados alimentamos por nós e pelo nosso próximo. Não são demônios, nem maus, nem perversos,
nem cruéis. São apenas ignorantes e imaturos.
- E isso aí- aquiesceu Adriano, do astral. -Não sou nenhum Obsessor, não, estão ouvindo? Mas também não sou ignorante. Estou
aqui para ajudar. Só o que quero é estar junto de Clarinha e impedir que Fabrício a iluda.
- Bem, então vamos? - convidou Flávia. - Já está na hora.
Inês apanhou a bolsa e o casaco, e foram saindo. Vendo que Selena não os acompanhava, Fabrício indagou surpreso:
- E você, Selena? Não vem?
- Não posso. Tenho de tomar conta das crianças.
- Bibiana teve de cuidar da irmã, que está doente - esclareceu Inês.
- Que pena! -lamentou Clarinha. -Justo hoje que resolvi ir!
- Ora, não tem importância. Não faltarão oportunidades de acompanhá-la. Agora vão. Não querem se atrasar, querem?
Já iam se retirando, mas Fabrício, indeciso, ficou parado no meio da escada, olhando para Selena. Quando os outros chegaram
lá embaixo, Flávia se virou para ele e chamou:
- Como é, Fabrício? Vem ou não vem:'
Ele não queria ir. Gostava muito do centro, mas se acostumara à companhia de Selena e se agora compreendia que estava
apaixonado por ela. Quantas vezes quisera negar para si mesmo? Mas agora não podia. Entre ir ao centro e ficar com ela,
seu coração pendia para o lado da moça, e ele indagou, sem tirar os olhos dela:
- Posso fazer-lhe companhia, Selena?
O coração dela disparou. Amava-o também em silêncio, com medo até de pensar naquele sentimento. Tentando não demonstrar
o que sentia, respondeu timidamente
- Se você quiser...
Sorrindo satisfeito, Fabrício voltou-se para o grupo e anunciou: - Vão vocês. Vou ficar e ajudar Selena com as crianças.
Ela pode precisar de alguma coisa.
Inês, Flávia e Clarinha se entreolharam significativamente, mas não disseram nada. Até torciam para que Selena e Fabrício
se entendessem, afinal ela era uma boa moça, excelente mãe, muito ajuizada e correta. Não era certo que, por se separar
do marido, tivesse de ser condenada à solidão.
Depois que elas se foram, Adriano ficou parado, confuso, sem saber o que pensar. Achara que Clarinha concordara em ir ao
centro espírita só por causa de Fabrício, mas estava enganado. O irmão não tinha interesse nela; parecia mesmo interessar-se
por Selena, como pensara a princípio. E Clarinha não parecera desgostosa. Ao contrário, parecia até que ficara satisfeita.
Não entendia.
Em dúvida sobre o que fazer, resolveu entrar atrás do irmão para se certificar. Fabrício e Selena subiram até o quarto para
ver as crianças e voltaram logo em seguida, sorrindo satisfeitos.
-Eles são lindos- elogiou Fabrício.
- São, sim. E são tudo que tenho.
- E seus pais, Selena? Como estão reagindo a tudo isso?
Ela deu um sorriso amarelo e respondeu:
- Conforme era previsto, ofereceram-se para ajudar... desde que eu concordasse em viver com eles e permitisse que assumissem
pessoalmente a educação das crianças. Querem me controlar para poder ficar com meus filhos.
-Não é bem assim. Eles querem ajudar você também.
- É, mas só por causa das crianças. Querem me dar casa e comida para me comprar, para que eu me submeta e não as tire de perto deles.
- E você? Vai aceitar?
- Já recusei. Sou adulta, posso cuidar de mim mesma.
- O que pretende fazer?
- Não sei ainda. Arranjar um emprego, não sei de quê. Meus pais nunca me prepararam para nada. Criaram-me como se eu fosse
um bibelô, não me deram muita instrução. Concluí o curso secundário por insistência, mas eles nunca deram importância ao
estudo, não para mulheres. E eu, por minha vez, logo me casei e perdi mesmo o interesse. Não sou como Clarinha, que bateu
pé e fez faculdade.
-Não se lamente. Você fez o que julgou melhor.
- Mas hoje poderia ter uma profissão, ser alguém na vida. Não estaria nesta situação.
- Em compensação, não teria dois filhos maravilhosos.
- Isso é! Meus filhos compensam qualquer sacrifício.
Fabrício fez uma pausa, tentando encontrar as palavras certas para dizer o que ia em seu coração, e Selena, nervosa, levantou-se
e indagou:
- Por que não vamos fazer um lanche? Bibiana fez um bolo de fubá delicioso!
Foram juntos para a cozinha, e Adriano atrás, já enjoado daquela conversa. Sentaram-se à mesa e Selena apanhou o bolo, cortou
duas fatias e foi buscar uma jarra de refresco na geladeira. Enquanto enchia o copo de Fabrício, notou os olhos dele pousados
sobre ela e sentiu o rubor cobrindo-lhe a face. Instintivamente, ele tocou de leve sua mão, e ela, nervosa, puxou-a rapidamente,
entornando sobre ele o refresco.
- Ah, meu Deus, como sou desastrada! - exclamou envergonhada, correndo para apanhar um pano na pia.
Fabrício levantou-se e, sem dar importância às calças sujas de refresco, aproximou-sedela por trás, virou-a para ele e,
segurando-lhe o queixo, declarou:
- Selena... Não posso mais esconder. Estou apaixonado...
Pousou-lhe um beijo suave nos lábios, mas ela, assustada, afastou-se dele e pôs-se a chorar baixinho, balbuciando:
- Não... não, Fabrício... Nós não podemos. Sou uma mulher casada.
- Por pouco tempo. Em breve, estará desquitada.
- Mesmo assim. Sabe o que todo mundo pensa das nwlheres desquitadas.
- Não sou todo mundo. Amo você e não me importo com o que os outros pensam.
Ela o fitou emocionada e perguntou:
- Você me quer?
- Mais do que tudo no mundo
- Por quê?
- Já disse. Porque a amo.
- Tem certeza? Não é porque sou uma mulher... experiente? - Como pode pensar uma coisa dessas? Logo de mim? Será que
não percebe a sinceridade de meus sentimentos?
Confusa, Selena virou-lhe as costas e prosseguiu:
- Tenho medo. Tenho medo de alimentar uma ilusão.
- Que ilusão? Do amor? Você não me ama? Diga-me, Selena, preciso saber.
Ela se voltou para ele e, com os olhos que as lágrimas abrilhantavam, sussurrou:
- Amo...
Ele se aproximou dela outra vez, tentando segurar-lhe as mãos, mas ela se esquivou novamente.
- Por que foge de mim? Não disse que ene ama também?
- Disse. Contudo, sou uma mulher direita. Por mais que o ame, não posso me esquecer de que ainda sou casada com Cassiano.
E não quero traí-lo novamente. Cassiano é desprezível, mas ainda é meu marido, e não quero incorrer no mesmo erro duas vezes.
- Tem razão - concordou Fabrício, só então se dando conta da situação que viviam. -E eu sou seu advogado, devia respeitá-la.
Desculpe-me., mas eu a amo.
- Se me ama de verdade, então poderá esperar.
- Você está certa. E, depois, um envolvimento entre nós, neste momento, poderá complicar seu processo de desquite. Posso
esperar. Quando você estiver desquitada, estaremos livres para assumir nosso amor, sem medos nem culpas.
Não se beijaram novamente, mas se abraçaram com ternura e afeto. Ao lado deles, Adriano, indignado, não entendia o que acontecia.
Tinha certeza de que Fabrício estava interessado em Clarinha.
Como pudera se enganar? Mas... e Clarinha? Pensara que ela também estivesse interessada nele, mas não era o que parecia.
Onde estaria? Precisava encontrá-la.
Quando Adriano finalmente encontrou o centro espírita, a sessão já tinha começado havia algum tempo. Clarinha, sentada na
assistência, ao lado de Feliciano, permanecia de olhos bem abertos, atenta a tudo que se passava. António, o dirigente,
falava sobre a importância da família e dos laços de afeto.
Vendo Clarinha sentada, Adriano aproximou-se. A medida que ia caminhando, notou que havia, além dos encarnados, vários espíritos
que para ali haviam sido conduzidos para tratamento, ao lado de outros, que pareciam seus mentores.
Ele chegou perto de Clarinha e sentou-se a seu lado, e qual não foi seu espanto ao olhar para a mesa e ver Ismael parado
atrás de sua avó. Não entendeu nada.
Procurou ver se havia mais algum conhecido e encontrou Ciça, que sorriu para ele, ao lado de uma moça muito branca e loura,
olhos a-uis, tipo estrangeiro. Ciça acenou para ele, e ele correspondeu. Estava confuso. Quisera fugir deles, mas acabara
encontrando-os ali, onde menos esperava. Bom, até que não era tão estranho assim. Afinal, ali era um centro espírita, não
era?
Terminada a sessão, Ismael se aproximou.
- Ora, ora, se não é nosso querido Adriano quem está aqui! Que hom que veio.
Adriano encarou-o desconfiado e retrucou:
- O que você faz aqui?
- Eu? Trabalho aqui. Bem como Ciça e os demais.
- Aqui? Mas por quê? Que coincidência!
- Acha mesmo coincidência? Isso é porque você nunca se interessou pelos álbuns de fotografias de sua avó.
- Álbuns de fotografias? Que conversa é essa? Quem é você? De onde conhece minha avó?
Ismael chegou o rosto bem perto do dele e, com ar bondoso e jovial, declarou:
- Fui casado com ela.
Adriano deu um salto para trás, tapando a boca com a mão.
- Como é? O que disse?
- Disse que fui casado com ela. Portanto, sou seu avô. - Mas como?
- Desencarnei faz tempo, meu filho.
- Eu sei... Só que jamais esperava encontrá-lo aqui. - Por quê?
- Porque você... você... morreu...
- Assim como você. E você também está aqui, não está? Logo, não estamos mortos. Nem eu nem você. Ou será que ainda não aprendeu nada?
Adriano não sabia o que dizer. É claro que fazia sentido. O avô
desencarnara muitos anos antes e voltara para ajudar a mulher. Assim como ele voltara para ajudar Clarinha. Não, não queria
propriamente ajudar. Também não queria prejudicar. Queria apenas tomar conta dela.
Olhando ao redor, Adriano notou que as pessoas começavam a se retirar. Disse para Ismael
- Olhe, gostei muito de encontrar você. De verdade. E muito
bom saber que não estou sozinho aqui.
- Sou seu avô e me interesso por você. Por que não aproveita e me acompanha de volta à colônia?
- Acompanhá-lo? Não posso. Sinto muito, mas não posso. Não quero.
Vendo que Clarinha já se fora, Adriano deu as costas a ela.
- Ele ainda não aceitou a perda da matéria. Mas sua alma sabe, seu coração reconhece isso. Dê-lhe uma chance e ele lhe mostrará a verdade.
Até parece...
- Mas é verdade. Você poderia até ter alterado seu destino, se quisesse.
- Poderia? Ora, essa é boa. Se eu tivesse tido escolha, teria escolhido viver.
- Mas você não quis. Escolhas, nós sempre temos. A vida sempre nos dá diversas oportunidades, e nós optamos por aquela que
entendemos ser a melhor. Com você, não foi diferente. Se sua alma entendesse que seria melhor, não para seu prazer ou sua
satisfação material, mas para sua evolução espiritual, teria mudado seu destino e o acidente teria sido evitado. Mas acontece
que não quis. Sua alma, embora você não pudesse e não possa aceitar isso, quis partir. Quis porque não encontrou outra solução.
Não encontrou outro meio de evoluir, de aprender.
- Cale essa boca! Cale a boca! Não quero ouvir mais nada! Vá embora daqui, Ismael, e não me procure mais! Não quero sua
ajuda e não preciso de você.
Ismael inspirou profundamente e, penalizado, acrescentou:
- Adriano, todos temos nosso livre-arbítrio, e você não é diferente. Por isso, se não quiser mais me ver, respeitarei sua escolha... - ótimo. Agora vá embora. Já
estou cheio de você.
- Está bem, irei. Se é o que quer...
- É o que quero.
- No entanto, se precisar de mim, se quiser ajuda, basta me chamar e eu virei em seu auxílio.
- Obrigado, mas não preciso de você para nada.
Ismael partiu entristecido. Não adianta nada tentar ajudar a quem não quer ajuda. Só o que poderia fazer agora era esperar
que Adriano despertasse, compreendesse e aceitasse o caminho que o levaria ao amadurecimento.
Fabrício abriu a porta de seu apartamento depois de mais um dia exaustivo de trabalho. Graças a Deus, possuía muitos clientes,
mas as sucessivas audiências, além das petições iniciais, contestações e demais peças que precisava preparar para os processos
lhe absorviam muito tempo, e ele quase não se distraía mais.
Naquela noite, ao chegar em casa, já passava das nove horas, e os pais, havia muito, já tinham terminado o jantar e estavam
na sala assistindo a um filme na TV. Assim que ele entrou, cumprimentouos com ar cansado:
- Oi! Puxa, até que enfim chego em casa!
- Onde esteve? - indagou Paulo, de má vontade.
Fabrício estranhou a pergunta e olhou para a mãe, que ficara tão surpresa quanto ele. Era a primeira vez que Paulo perguntava
ao filho onde estivera. Além de já ser adulto, Paulo nunca se interessara muito por seus assuntos, limitando suas perguntas
ao mecânico e costumeiro "tudo bem?"
Acontece que, naquele dia, Paulo não estava sozinho. Adriano, colado a ele, transmitia a seu coração uma nuvem cinza de
ódio, que Paulo absorvia com extrema facilidade. Encontrando na alma do pai a revolta silenciosa por sua morte, Adriano
pôde trocar com ele todo o seu despeito, a sua inveja, o seu ódio.
Assim como Adriano, Paulo também se ressentia. Em seu íntimo, culpava Fabrício pela morte de Adriano e se perguntava por
que Deus fora tão injusto, ceifando a vida de seu filho legítimo, tão jovem, tão inteligente, tão promissor, e deixando
em seu lugar aquele bastardo.
Fabrício, porém, desconhecia esses sentimentos. Não que não sentisse a rejeição de Paulo. No fundo, no fundo, sabia que
o pai o culpava e que preferia que tivesse sido ele a vítima do acidente, em vez do irmão, mas nem de longe imaginava que
Paulo passara a alimentar por ele um ódio indizível e cada vez mais crescente.
Procurando não dar muita importância à pergunta do pai, Fabrício respondeu educada e rapidamente:
- Estava trabalhando.
- Até esta hora?
Fabrício surpreendeu-se ainda mais. Contudo, fez que não estava ligando e continuou:
- E. Tinha muito trabalho. E agora, se me dão licença, vou tomar um banho, jantar e cair na cama. Estou exausto.
- Deve estar mesmo-retrucou Paulo com ironia. -A vida dissoluta sempre foi desgastante.
Fabrício levou um choque, e Flávia, indignada, levantou-se de um salto e exclamou:
- Paulo! O que deu em você? Isso é jeito de falar com seu filho? Paulo teve vontade de gritar: "Ele não é meu filho! ",
mas se conteve e falou com rancor:
- Pensa que pode nos enganar, Fabrício? Pensa que não sei com quem anda se encontrando?
Parado no umbral da porta, Fabrício revidou com perplexidade: - Pai, não sei a que está se referindo e, embora não lhe deva
satisfações, posso lhe afirmar que estava apenas trabalhando.
- Duvido. Para mim, você estava com aquela mulherzinha.
- Não conheço nenhuma "mulherzinha". Minhas clientes são
todas pessoas honestas e dignas.
- Até parece! Então não sei com que tipo de gente anda se metendo?
- Pai, por favor, pare com isso. Não sei por que está me provocando, mas não quero brigar com você.
- Brigar? Não, você não vai brigar. Vai me respeitar!
- Eu o respeito muito. Mas não vou tolerar essas insinuações. E acho que você também me deve respeito.
- Paulo - interveio Flávia. - Não estou entendendo o porquê dessas insinuações. Fabrício sempre foi um rapaz honesto e trabalhador.
Não devia falar com ele assim.
- Não digo o contrário. Mas sei que anda se metendo com gente da pior espécie.
Fabrício já estava começando a perder a paciência. Por que o pai não colocava logo para fora o que estava realmente pensando?
- Ouça, pai, já disse que não quero brigar com você. Mas não vou admitir que me desrespeite. Fala em respeito, mas parece
haverse esquecido do que é isso. Sou um homem adulto e responsável, e não preciso que ninguém faça observações maldosas
sobre as pessoas com quem me relaciono.
Virou as costas e já ia saindo, mas ouviu novamente a voz do pai, que exprimia com raiva:
- Quer enxovalhar o nome de nossa família envolvendo-se com mulheres casadas?
Ele estacou no meio do corredor, virou-se para Paulo e respondeu com aparente calma:
- Não estou envolvido com mulher alguma e, mesmo que estivesse, não seria problema seu.
- Aí é que você se engana! - esbravejou Paulo, indo a seu encontro. - Sou seu pai e você me deve satisfações.
- Não lhe devo nada. Sou adulto, já disse...
- Deve-me tudo que tem! Um bom nome, uma boa casa, uma profissão. Acha que teria conseguido isso sem mim?
- Pai, não quero parecer ingrato, mas, se nasci seu filho, foi porque você escolheu ou aceitou me receber e cuidar de mim.
A responsabilidade era sua, como é a de todo pai. Você fez o que todo bom pai deve fazer por seus filhos, mas isso não lhe
dá o direito de se julgar dono de minha vida.
Temendo o rumo que a conversa estava tomando, Flávia chegou para perto deles, pôs a mão no braço de Paulo e falou súplice:
- Paulo, por favor, chega dessa discussão. Isso não vai levar a nada.
- Chega? - tornou Paulo, já quase fora de si. - Isso é que não. Esse menino está ficando muito atrevido e precisa ouvir
algumas verdades!
- Queverdades? - retrucou Flávia, atônita.
- E, pai, que verdades? Que você me deu tudo? Que me cobriu de brinquedos caros, roupas bonitas, me deu instrução? E verdade,
reconheço. E agradeço. Mas não me sinto devedor de nada. Você não
fez mais do que deveria, assim como eu também farei por meu filho, sem lhe cobrar nada depois.
- Você é um ingrato! Pensa que isso foi tudo que lhe dei?
- Paulo, pelo amor de Deus! -Flávia estava apavorada, tentando encerrar aquela discussão.
- Deixe, mãe, deixe que exponha suas mágoas. Sei que nunca fui seu filho preferido, que preferia que eu tivesse morrido
em lugar de Adriano. Lamento, pai, mas a vida não quis assim. E não pense que eu me sinto culpado por causa disso. Amava
Adriano tanto quanto vocês e senti muito sua perda. Mas não pense que vou me sentir culpado porque ele morreu e eu estou
vivo, porque cada um tem aquilo que merece.
- Cachorro! - vociferou Adriano, invisível aos olhos dos demais.
- Você não sabe o que está dizendo - prosseguiu Paulo. - Adriano era meu filho!
- E era meu irmão...
- Irmão?
- Paulo, cale-se! - cortou Flávia em desespero. -Chega, Paulo, por Deus! Encerre essa discussão antes que se arrependa do
que possa dizer!
Paulo encarou o filho com raiva. Não fosse pela mulher, terlhe-ia contado tudo ali mesmo e acabado com aquela sua pose arrogante.
Mas sabia que, se falasse, Flávia sofreria muito e acabaria se voltando contra ele.
Foi nesse momento que a sintonia com Adriano foi rompida. O amor falou mais alto do que a revolta, e o coração de Paulo
foi sendo dominado pela ternura que sentia por Flávia, o que fez com que o ódio do filho fosse perdendo terreno no íntimo
do pai. Ele fitou a mulher com amor e acrescentou:
- Não se preocupe, Flávia. Não pretendo dizer nada de que possa me arrepender depois.
Ela suspirou aliviada, mas não se deu por vencida e começou a chorar:
- Oh, Deus, por que vocês não param com isso? São tudo que tenho. Será que não podem ao menos respeitar minha dor? Será
que não entendem que perdi um filho e que não quero perder o restante da família? Por que meu marido e meu filho, meu único
filho, não
podem mais se entender? Ou será que não percebe, Paulo, que Fabrício passou agora a ser nosso único filho?
Paulo baixou os olhos, envergonhado, e não respondeu. Foi Fabrício quem tornou a iniciativa de dizer alguma coisa:
- Não chore, mãe. Sei que papai também deve estar sofrendo muito e, por isso, não vou levar em consideração suas palavras.
Tenho certeza de que ele não queria dizer nada do que disse, não é, pai?
Olhando-o meio sem jeito, Paulo respondeu:
- Não, claro que não.
- Então, dê cá um abraço.
Paulo hesitou. O filho estava ali, parado diante dele, braços estendidos, esperando que ele fosse a seu encontro. Mas ele
não queria. Não sentia nenhuma vontade de abraçar aquele rapaz que criara como filho mas que agora lhe parecia pior do que
um estranho. Contudo, Flávia esperava que eles se reconciliassem. Pelo bem da mulher, tinha de vencer a repulsa e abraçá-lo.
Pouco à vontade, Paulo deu um passo em direção a Fabrício e abraçou-o, dando-lhe um tapinha de leve nas costas. Aquele abraço
causou-lhe imenso mal-estar, e ele teve de fechar os olhos para conseguir suportá-lo.
Fabrício, por sua vez, sensível como era, captou-lhe a contrariedade. Podia sentir, de uma maneira quase que palpável, a
rejeição do pai. Sabia que ele só o estava abraçando por causa da mãe, mas ele também levaria adiante aquela farsa. Ao menos
por enquanto. Também amava muito a mãe e não queria fazê-la sofrer mais do que já estava sofrendo. Engoliu a vontade de
sair correndo dali e recebeu o pai em seu abraço.
Em seguida, Paulo se retirou. Sem dizer mais nada, tomou o rumo do quarto e fechou a porta, enquanto Flávia olhava para
o filho com profundo desgosto.
- Ele não gosta de mim, não é, mãe? - perguntou Fabrício, quase sem perceber o que dizia.
Refreando as lágrimas, Flávia respondeu:
- Dê-lhe tempo, meu filho. Ele está sentido. Mas vai passar.
- Sei que ele sempre gostou mais de Adriano, mamãe, e não o culpo por isso. Ninguém pode ir contra seus sentimentos, e você
sabe disso tão bem quanto eu. Adriano e papai sempre se afinaram mais, assim como eu tenho mais afinidade com você.
- Meu filho, não é bem assim.
E assim, sim, mãe. Mas isso não me entristece. Respeito os sentimentos dele. Só que isso não lhe dá o direito de me tratar
como se eu fosse um intruso. Sou tão seu filho quanto Adriano.
- Intruso? Mas o que é isso, Fabrício?
- E isso mesmo, mãe. Papai sempre me tratou como se eu fosse um estranho, um intruso. Nunca me deu intimidade, nunca conversou
comigo, sempre me excluindo de tudo. Por quê?
Flávia engoliu em seco. Ele estava bem próximo da verdade, mas ela não podia permitir que descobrisse nada. Era seu filho
e o amava.
- Você está imaginando coisas. Seu pai sempre teve um jeito meio esquisito. E, depois, você mesmo disse que ele tinha mais
afinidade com Adriano, o que não significa que não goste de você. A sua maneira, ele o ama, e muito.
Fabrício silenciou. Não adiantava discutir com a mãe. Ela era mãe e jamais iria admitir que o pai o rejeitara a vida inteira
e que agora parecia até que passara a odiá-lo.
- Deixe isso para lá - finalizou. - Já passou. E agora, se não se importa, vou para meu quarto. Estou cansado e quero dormir.
Fabrício beijou a mãe e foi para seu dormitório. Tudo que queria era um bom banho e cair na cama. Nem queria mais jantar.
Aquela discussão lhe tirara a fome. Apanhou o roupão, entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Enquanto se despia, sentiu
que alguém o observava e olhou espantado para a porta. Não havia ninguém. Ou fora impressão ou o espírito de Adriano se
aproximara. Ele podia sentir.
Adriano, coração carregado de ódio, aproximou seu rosto do irmão e rosnou:
-Não acabou ainda, Fabrício. Eu vou voltar.
Flávia apagou a luz do quarto e deitou-se na cama, ao lado do marido, que fingia dormir.
- Paulo...
- Hmm? O quê?
- Está dormindo?
Ele fez alguns segundos de silêncio e respondeu: - Não.
- Por que fez aquilo?
- Por que fiz o quê?
- Você sabe, aquela discussão com Fabrício.
Ele se recostou na cama e acendeu a luz do abajur.
Ele está de caso com aquela Selena.
Não é verdade. Selena é apenas sua cliente.
Vai querer enganar a mim, Flávia? Sou um homem vivido, sei das coisas.
- Mas está enganado, Paulo. Não há nada entre Fabrício e Selena, posso lhe assegurar. E, depois, ela é uma boa moça...
- Mas é casada.
- Está se desquitando.
- Pior ainda. Mulher desquitada não presta. Se prestasse, não largaria o marido para ficar por aí, levando vida fácil.
- Isso é uma injustiça, Paulo. Selena é uma moça direita. Não tem culpa se o marido a maltrata.
- Não vamos começar com essa história de novo E, depois, se quer mesmo saber, acho que ela está exagerando, só para dar
uma de coitadinha e conseguir o desquite.
- As coisas não são como pensa, Paulo. E, se quer mesmo saber, acho que você usou Selena para poder justificar seu ódio.
A moça veio bem a calhar, não foi? Sua entrada na vida de Fabrício foi providencial e serviu bem a seus propósitos. Você
sempre poderá agredi-lo sem assumir seu próprio ódio, colocando Selena na frente como desculpa.
Paulo engoliu em seco e baixou os olhos, envergonhado.
- Olhe, não sei o que me deu. Mas você sabe como sempre me senti em relação a Fabrício.
- Sei. Ainda assim, isso jamais havia acontecido. Você quase falou mais do que devia.
- Eu não ia falar nada.
- Não sei, tenho minhas dúvidas - Flávia pousou a cabeça em seu ombro e, com lágrimas nos olhos, implorou: - Por favor,
querido, prometa-me que, aconteça o que acontecer, nunca dirá nada a Fabrício.
- Você sabe que não falarei nada.
- Então prometa.
- Para que isso? Não acredita em mim?
- Custa prometer?
- Está bem. Se é tão importante assim para você, eu prometo. Prometo que jamais falarei nada a Fabrício sobre sisa verdadeira origem.
Agradecida, Flávia pousou-lhe amoroso beijo nos lábios, aconchegou-se em seu colo e acabou adormecendo, deixando Paulo entregue
a seus próprios pensamentos. Ele lhe fizera uma promessa porque a amava, mas, em seu íntimo, tinha medo de que não pudesse
manter a palavra. Não que pretendesse revelar a verdade, mas ele sabia que, num momento de raiva, acabaria por contar tudo.
E aí, além de haver perdido o filho amado num acidente, perderia também a mulher, que o deixaria para seguir aquele a quem
ela considerava seu filho.
O dia da segunda audiência de Selena e Cassiano chegou, e ambos estavam nervosos. Iriam prestar depoimento pessoal, e Cassiano,
mais do que Selena, tinha muitos motivos para se preocupar. Iria mentir o tempo todo, e a mentira era algo difícil de sustentar.
Selena foi a primeira a ser interrogada. Cassiano foi convidado a esperar do lado de fora. Não podia ouvir o depoimento.
Depois que ele saiu, o juiz Otávio tomou a palavra e começou a dizer:
- Muito bem, Dona Selena. A senhora moveu a ação de desquite litigioso porque seu marido a maltrata. Isso é verdade?
- Sim, senhor.
-O que ele faz, exatamente?
- Ele costuma me bater - disse, emocionada.
- E a senhora já foi à polícia?
- Apenas uma vez, orientada por meu advogado.
Selena começou a chorar. Estava muito nervosa, e Otávio se condoeu. Esperou até que ela se acalmasse e perguntou tudo sobre
aquele dia em que, segundo ela afirmava, Cassiano a espancara. Depois disso, quis saber das fotos.
- Foi tudo armação de meu marido - desabafou.
Otávio ergueu uma sobrancelha e voltou a indagar:
- Como assim?
Ela lhe contou sobre suas suspeitas, e o juiz ficou estarrecido. Em seus muitos anos de prática, jamais havia visto algo
semelhante. No entanto, tudo era possível, e ela também podia estar inventando aquela história só para se justificar. Cabia
a ele descobrir a verdade.
Depois que ela terminou, o juiz pediu que se retirasse e fez com
que Cassiano entrasse. Ele veio com ar debochado e riu quando a mulher passou por ele- Sentou-se em seu lugar e esperou
até que o juiz começasse a lhe fazer as perguntas.
- Sr. Cassiano - começou Otávio -, sua mulher diz que o senhor bateu nela. O senhor confirma essa história?
Absolutamente não. Jamais lhe encostei um dedo.
- Mas ela afirma que várias pessoas, inclusive na delegacia, viram-na com hematomas.
E verdade. Mas ninguém pôde provar nada.
- O senhor está respondendo a um processo criminal? - Processo? Estou, creio que sim.
- Perdão, excelência - interrompeu Aderbal. - Meu cliente é leigo e não entende de procedimentos legais. Mas, se me permitir,
gostaria de esclarecer.
- Pois não, doutor.
- O Sr. Cassiano não foi acusado de nada. A polícia abriu inquérito e ainda está investigando o fato.
- Entendo. Obrigado pelo esclarecimento, doutor. E agora, Sr. Cassiano, continuemos. O senhor afirma que nunca bateu eu1
sua mulher. No entanto, os ferimentos foram comprovados por médico perito oficial. Não foi o senhor quem os provocou?
Cassiano deu de ombros e respondeu:
- De jeito nenhum. E não faço a menor idéia de quem possa ter sido. Eu nunca encostei um dedo em minha mulher. Se alguém
bateu nela, não fui eu. Quem sabe, seu amante?
Fabrício fuzilou-o com o olhar. Queria matá-lo, mas procurou se conter. Se perdesse a calma, poderia comprometer todo o
processo, e Selena acabaria prejudicada.
- Obrigado pela sugestão, Sr. Cassiano, mas opiniões pessoais
são desnecessárias aqui. Limite-se a responder o que lhe pergunto. - Sim, senhor- respondeu Cassiano, rubro de ódio.
- E quanto a seus filhos? Sua mulher o acusa de aterrorizá-los. - Selena está delirando. Jamais maltratei meus filhos. -Sei...
E agora, Sr. Cassiano, vamos falar sobre a noite do
suposto adultério.
- Suposto? As fotos comprovam tudo e dispensam maiores comentários.
Quem resolve isto aqui sou eu. Vi as fotos, mas quero saber do senhor.
Novamente rubro, Cassiano sentiu ganas de xingar o juiz, mas não disse nada.
- Quero que me diga, Sr. Cassiano, o que o levou a desconfiar de sua mulher?
- Seu comportamento e o de meu irmão.
- Que comportamento?
- Ela andava estranha, fria. E meu irmão vivia a rondá-la, lançando-lhe olhares significativos. Fiquei desconfiado.
- E como sabia que sua mulher estava, naquele exato momento, mantendo relações com seu irmão?
- Fingi que ia sair, mas fiquei à espreita, escondido no final do corredor, esperando que ele aparecesse.
- E como teve a idéia de fotografá-los?
- Vi isso num filme e resolvi imitar.
- Entendo... Quando entrou, o que, exatamente, sua mulher estava fazendo?
Cassiano, novamente, baixou os olhos, fingindo-se envergonhado, e respondeu bem baixinho:
- Preferia não dizer.
Pois estou mandando que diga.
- Bem, doutor, não quero que pense que estou lhe faltando com o respeito.
- Não penso nada. Faltará cora o respeito à Justiça recusandose a responder.
Após profundo suspiro, ele desabafou:
- Ela estava nua, deitada sob o corpo também nu de meu irmão.
- E qual foi sua reação quando os viu?
- Fiquei chocado. Pensei que ia morrer.
- E, ainda assim, teve forças para fotografá-los.
- E verdade. Só Deus sabe o que um homem ferido e humilhado é capaz de fazer.
- Sei... E quanto a seu irmão? Cortou relações com ele?
- Não. Aníbal se mostrou muito arrependido. Disse que Selena vivia a seduzi-lo, até que ele não agüentou mais. Um dia, acabou
perdendo a cabeça.
- Quer dizer, então, que seu irmão confirmou que era amante de sua mulher?
- Sim.
- Há quanto tempo?
- Há bastante tempo.
Fabrício estava enojado. Aquele Cassiano era um descarado. Quando ele terminou o depoimento, o juiz perguntou às partes
se gostariam de interrogá-lo também, mas ninguém se habilitou. O juiz era muito experiente e não deixava escapar nada.
Tudo terminado, Selena foi novamente introduzida no recinto para o encerramento da audiência, e uma outra foi marcada, para
dali a quinze dias.
já na rua, Selena virou-se para Fabrício e perguntou ansiosa: - Então? Como me saí?
- Muito bem. Tenho certeza de que o juiz está pendendo para nosso lado.
- E as fotos? Qual foi a reação dele diante daquelas fotos?
- Ele ficou em dúvida e fez perguntas. Cassiano é um homem arrogante e atrevido, e o juiz chegou a se irritar com ele em
alguns momentos.
Selena sorriu. De braços dados com Fabrício, foi andando pela rua, sentindo em seu peito que podia ter esperanças. A causa
era difícil, mas ela foi acometida de uma confiança, uma certeza de que iria vencer, e relaxou. Estavam no caminho correto,
ela sabia. Deus existia e, na certa, não deixaria que Cassiano levasse a melhor.
O telefone no escritório de Fabrício tocou insistentemente, e Ofélia correu para atender. Acabara de chegar do almoço, e
Fabrício ainda não voltara.
- Alô?
- Alô - repetiu uma voz do outro lado da linha. - Por favor, o Dr. Fabrício está?
- Ainda não voltou do almoço. Gostaria de deixar recado?
- Diga a ele que é o Dr. Aderbal, advogado do Sr. Cassiano Flores. Poderia pedir a ele que me telefonasse?
- Pois não. Um momentinho que vou anotar o número. Enquanto Ofélia procurava a caneta no meio da papelada, a porta se abriu
e Fabrício entrou em companhia de um cliente antigo.
- Ah! Dr. Fabrício - falou ela, tapando o fone com a mão -, quem está ao telefone é o Dr. Aderbal, advogado do Sr. Cassiano.
Vai atendê-lo?
Fabrício fez um ar surpreso e respondeu apressadamente:
- Sim. Passe para meu escritório.
Pediu ao cliente que aguardasse na sala de espera e foi atender em sua sala. Fechou a porta, sentou-se à sua mesa e retirou
o fone do gancho.
- Pode passar, Dona Ofélia.
Poucos segundos depois, a voz do outro advogado se fez ouvir:
- Alô? E o Dr. Fabrício quem fala?
- Ele mesmo. Em que posso lhe ser útil?
- Bem, doutor, estou ligando em nome de meu cliente, o Sr. Cassiano Flores, e gostaria de saber se podemos marcar um encontro.
- Um encontro? Para quê?
- Meu cliente está disposto a tentar um acordo.
Aquilo surpreendeu Fabrício sobremaneira. jamais poderia esperar que Cassiano fosse lhe propor um acordo. Embora desconfiado,
aquiesceu:
- Estou à sua disposição. Onde gostaria que nos encontrássemos?
No exato instante em que perguntou, uma voz interior lhe dizia que o melhor lugar seria em seu próprio escritório, pois
Cassiano poderia estar aprontando alguma.
- Estive pensando. Há um restaurante aqui na Lapa...
Seguindo a voz da intuição, ou melhor de Helga, que sempre o alertava dos perigos, Fabrício cortou a palavra de Aderbal
e decretou:
- Em meu escritório. Segunda-feira, às dez horas em ponto. Não faltem.
Nem deu tempo de Aderbal contestar. Desligou o telefone e ficou pensando. Aquele Cassiano devia estar aprontando alguma.
Mas o que poderia ser? Será que pensava em fazer-lhe algum mal? Não acreditava. Não que ele não fosse capaz. Não tinha era
coragem. Contudo, algo lhe dizia que devia tomar alguma providência. Fosse o que fosse, o melhor que tinha a fazer era
se resguardar.
Foi quando uma idéia lhe ocorreu. E se Cassiano fosse ali para lhe fazer algum tipo de ameaça? Aquilo, com certeza, seria
uma ótima prova contra ele. Contudo, como faria para provar? Dona Ofélia poderia ouvir e servir de testemunha, mas o Dr.
Aderbal trataria
logo de arranjar-lhe uma contradita, e seu depoimento seria ouvido, no máximo, como de mero informante. Precisava de uma
prova mais robusta. Mas o quê? Uma gravação. A melhor coisa seria uma gravação. Isso mesmo. Daria um jeito de gravar toda
a conversa. Se Cassiano fosse ali para lhe fazer alguma ameaça, estaria colocando a corda em seu próprio pescoço.
Estavam na quinta-feira. Teria ainda bastante tempo para arranjar tudo. Precisava comprar um gravador, instalá-lo em local
seguro, fazer um teste. Tudo tinha de estar funcionando perfeitamente, para que não houvesse nenhuma surpresa na hora.
Atendeu ao cliente que chegara com ele e foi para o fórum. Tinha duas audiências às quais não poderia faltar. Depois que
terminou, apanhou o carro e tomou a direção da casa da avó. Quando chegou, foi recebido com o entusiasmo e a alegria de
sempre. Sentou-se no sofá, brincou com as crianças e contou tudo que tinha acontecido, deixando Selena deveras preocupada.
E se Cassiano estivesse aprontando alguma armadilha?
- Não tenha medo, Selena. Ele não poderá fazer nada contra mim em meu escritório.
- Terei de estar presente?
- Não será necessário. Eu mesmo cuidarei de tudo.
- E o que pretende fazer se ele o ameaçar?- perguntou Inês interessada. - Ir à polícia?
- Aí é que está. Pensei em gravar toda a conversa. Só assim poderemos provar sua ameaça.
- Boa idéia! - elogiou Selena.
- Quero deixar tudo pronto com antecedência. Amanhã mesmo comprarei o gravador e arranjarei um lugar para instalá-lo. Na
segunda-feira, tratarei de chegar bem cedinho. Precisarei de tempo para testar tudo. Não quero surpresas na hora da entrevista.
Depois de tudo acertado, Fabrício voltou para casa mais confiante. Achava que Cassiano iria tentar alguma coisa, e aquela
gravação seria de suma importância para o processo.
No dia seguinte, logo pela manhã, foi comprar o gravador. Escolheu um modelo moderno, dos mais caros e de maior alcance,
mas pequeno o suficiente para ser escondido. Comprou fitas, fios, tomadas, e foi para o escritório. Queria montar tudo pessoalmente.
Ofélia, como sempre, já estava sentada à sua mesa e o cumprimentou com a usual cordialidade:
- Bom dia, Dr. Fabrício. Atrasou-se um pouco hoje.
- Bom dia, Dona Ofélia. Tive de resolver alguns assuntos. Como
estão meus compromissos hoje?
- Hmm... deixe-me ver-respondeu ela, consultando a agen
da sobre a mesa. - O senhor teria uma audiência às duas horas, mas
foi desmarcada. Ligaram do escritório do advogado da outra parte, avisando que o cliente dele foi hospitalizado.
- Coitado. Algo grave?
- Não. Parece que passou mal e teve de fazer uns exames. - Ainda bem. E é só isso?
- Não. Tem hora marcada com dois clientes novos, um às dez
e outro às onze.
Consultou o relógio. Faltavam apenas dez minutos para as dez.
Atenderia aos clientes primeiro e depois teria todo o tempo livre para
preparar tudo.
Quando, finalmente, o último cliente se foi, já passava do
meio-dia, e Fabrício saiu com Ofélia para almoçar. No restauran
te, contou-lhe o que pretendia fazer, e ela deixou escapar um sorriso maroto.
- Nossa! Parece até coisa de filme de detetive. - Quase isso, Dona Ofélia.
Terminaram a refeição e voltaram para o escritório. Ofélia aju
dou-o a aprontar tudo.
- Onde vamos colocá-lo? Tem de ser em um lugar que não dê
na vista e que não seja distante, ou não conseguirá gravar direito. - Hmm... deixe-me ver... Que tal embaixo de sua mesa?
- Embaixo da mesa? Eles podem ver. - E claro que não. A mesa é fechada deste lado.
Ofélia apontou para o outro lado da mesa, onde uma grossa pla
ca de madeira cobria o fundo, e Fabrício sorriu satisfeito.
- Isso mesmo! O som não vai ficar abafado, e ninguém vai ver
nada.
Depositou o gravador no chão, encostando-o bem no fundo da
mesa, longe de seus pés. Apanhou o fio e fez uma extensão. Seria preciso passara fiação por debaixo do tapete até a tomada, para que não
ficasse visível. Tudo terminado, olharam para a sala. Havia ficado muito bom, e ninguém perceberia nada.
- Agora vamos ver se funciona. Sente-se aqui, Dona Ofélia. Ela obedeceu, e Fabrício ligou o gravador. - Agora, diga alguma
coisa.
- Está certo. Meu nome é Ofélia, e o seu?
- O meu? E Fabrício. Estamos testando você, gravador. Veja lá se não vai nos deixar na mão.
- Não vou, não - respondeu Ofélia, entrando na brincadeira. - Juntos, vamos apanhar aquele Cassiano. Ele vai ver. Vai se
dar mal.
- E o que espero. Conto com você, gravador, com sua eficiência. - Não se preocupe, Dr. Fabrício. Não vou decepcioná-lo.
Riram alto, e Fabrício desligou o aparelho. Em seguida, voltou
a fita e colocou-a para tocar. A voz de Ofélia se elevou clara e nitidamente
- Está certo. Meu nome é Ofélia...
Ouviram toda a gravação, e Fabrício desligou o gravador, satisfeito.
- Dona Ofélia, vai dar tudo certo. Se Cassiano estiver aprontando alguma, está perdido. Ficará em nossas mãos.
No fim da tarde, depois de preparar algumas petições, Fabrício saiu do escritório e dirigiu-se à casa da avó. Sentia muita
saudade de Selena. Sabia que estava apaixonado e que ela correspondia e, apesar de não poderem ainda assumir seu amor, não
podia deixar de pensar nela.
Como ainda era cedo, pensou em fazer-lhe uma surpresa. Foi caminhando pelas ruas do centro da cidade, olhando as lojas,
e resolveu fazer umas compras. Comprou uma boneca para Selma, um chocalho de ursinho para Carlinhos e um vestido para Selena,
além de algumas flores para sua avó. Tencionava levar Selena para jantar e queria que ela estivesse linda.
Na casa da avó, a alegria de Selma ao ver a boneca nova foi contagiante. Até mesmo Carlinhos, que começara a andar fazia
alguns dias, ficou todo contente com seu chocalho novo. Vendo a alegria dos filhos, Selena falou emocionada:
- Nem sei como lhe agradecer, Fabrício. Fazia tempo que não ganhavam nenhum brinquedo. Nossa situação é difícil, você sabe.
- Não precisa agradecer, Selena. Sinto prazer em fazê-la feliz. E, depois, gosto de seus filhos.
Inês veio lá de dentro. Tinha ido colocar as flores na água e voltou seguida por Bibiana, que trazia uma bandeja cheia de
copos de refresco. Todos se serviram, e Fabrício, em seguida, meio acanhado, estendeu para Selena o último embrulho que
trouxera. Ela o apanhou sem jeito, desatou o laço que o prendia e expôs o vestido.
- Fabrício! - exclamou embasbacada. - Que riqueza!
Era um vestido de noite, azul-escuro, de um tecido brilhante e com debruns pretos cintilantes.
- Gostaria de convidá-la para jantar comigo hoje.
- Jantar? Não sei se posso.
- É claro que você pode - incentivou Inês. - Pode e deve.
- Mas as crianças...
- Pode deixar que Bibiana e eu tomamos conta delas. E agora suba. Vá se vestir.
Selena apanhou o vestido e, com os olhos úmidos, beijou a face de Inês, correndo para o quarto. Voltou cerca de meia hora
depois. O vestido parecia feito para ela, e Fabrício ficou admirado.
- Mamãe tá bonita-falou Selma, que nunca havia visto a mãe vestida daquele jeito.
- Está mesmo uma beleza, não está? - concordou Inês. - Mas pode ficar melhor.
Saiu e voltou pouco depois, com uma caixa de sapatos na mão. Dentro, um sapato de salto, de verniz preto, novinho em folha.
- Que lindo, Dona Inês.
- Comprei-o para a formatura de Adriano. - Deixou escapar um suspiro e continuou: -Mas agora é seu.
- Não posso aceitar.
- Deixe de bobagem! Então ainda não aprendeu que merecemos tudo aquilo que recebemos? Se estou lhe dando meu sapato, primeiro
é porque posso e quero. Segundo, porque você merece.
- Mas, Dona Inês, é novinho!
- E daí? Deixe de orgulho e aceite. Saber receber é tão importante quanto saber dar.
Sem ter como recusar, Selena apanhou o sapato e experimentou. Era um número maior do que o seu, mas Inês deu um jeito,
colocando nele uma palmilha.
- Ficou uma beleza! - tornou Fabrício, cada vez mais apaixonado.
- Sim, uma beleza - aquiesceu Inês. - E agora vão. Já está ficando tarde.
Selena apanhou os filhos no colo, beijou-os carinhosamente, fez-lhes milhões de afagos e falou com doçura:
- Mamãe vai sair, mas não demora. Vocês vão ficar com vovó Inês só um pouquinho, está bem?
Selma e Carlinhos fizeram carinha de choro quando ela saiu, e
Selena quase desistiu de ir, mas Inês a tranqüilizou:
- Vá, minha filha, não se preocupe. Criança pequena é assim
mesmo: não quer desgrudar da mãe. Mas eu vou distraí-las. Pode ir tranqüila.
Parada na porta da frente, Selena esperou até que as crianças
voltassem sua atenção para as brincadeiras que Inês começou a fazer e só então saiu.
- Sua avó é maravilhosa - falou para Fabrício.
- É sim. Gosto muito dela. Apanharam o carro e partiram.
Enquanto ia dirigindo, Fabrício olhava-a pelo canto do olho. Ela era linda e meiga, e ele estava certo de que estava cada
vez mais apaixonado.
Fabrício levou-a para jantar num restaurante fino, freqüentado pela mais alta sociedade carioca.
- Há muito tempo não venho aqui - comentou Selena. - Conhece este lugar?
- Sim. Vim algumas vezes antes de casar. Mas depois minha vida mudou, e tudo ficou difícil.
- Entendo. Mas não pense nisso agora. Pense apenas em se divertir.
Passaram uma noite agradável. Jantaram, conversaram, riram.
Em momento algum, Fabrício tentou algo com ela. Nenhum beijo ou abraço, nem palavras de amor. Não queria que ela se sentisse
constrangida ou pressionada. Apenas se deixaram envolver pela suavi
dade do momento e pela presença um do outro. E foi maravilhoso. Para os dois.
No sábado pela manhã, Clarinha acordou indisposta.
Dormira mal, sonhara com Adriano a noite inteira. No sonho, ele
lhe cobrava algo que ela não sabia o que era. Dizia que fora rouba
do, algo assim, mas ela não se lembrava direito.
Levantou-se da cama, vestiu o biquíni e foi tomar café. Um ba
nho de mar seria excelente para recobrar suas energias. A mãe e o
pai já estavam à mesa e a cumprimentaram quando ela chegou:
- Bom dia, Clarinha. Sente-se e venha tomar café. Clarinha sentou-se, mas não conseguiu engolir nada. - O que há com você?
- indagou a mãe. - Não sei, não me sinto bem. Estou enjoada. A mãe e o pai trocaram olhares significativos.
- Enjoada?-repetiu o pai. - Por quê? Comeu alguma coisa que
lhe fez mal?
-Não sei. Mas não passei bem à noite. Tive pesadelos e meu
estômago revirou.
O pai olhou para ela com desconfiança e disparou:
- Veja lá o que andou fazendo, hein, menina. Com essa sua ma
nia de independência, não vá nos envergonhar.
Clarinha levantou-se da mesa abismada.
- O que estão pensando? O que quis dizer, papai?
- Nada - respondeu a mãe, tentando disfarçar. - Seu pai não
quis dizer nada.
- Pois não foi o que pareceu. Está insinuando alguma coisa? - Não estou insinuando nada. Apenas espero que você saiba
se cuidar.
- Sei cuidar de mim muito bem.
- Melhor assim. Você pode andar com essa mania de mulher independente, mas ainda é uma moça e deve se preservar. Cuidado
para não cair na lábia de qualquer um.
- Pai, não estou entendendo aonde quer chegar. Por acaso pensa que estou grávida, é?
A mãe engasgou com o café e tossiu, e o pai, envergonhado, considerou:
- E está?
- Não, não estou.
- Espero que continue assim.
- Bernardo! - censurou Elisete. - Clarinha não é desse tipo. - Que tipo, mãe?
- Ora, você sabe o que eu quis dizer.
- Espero que não seja mesmo - interrompeu o pai. - Senão, vai se arrepender.
- Papai, pare de me ameaçar por uma coisa que nem fiz! Vocês sempre confiaram em mim. Posso saber por que desconfiam agora?
Bernardo pigarreou, pousou a torrada no prato e respondeu:
- Você anda se encontrando muito com Selena. E ela não é boa influência.
- Eu sabia! Tinham de envolver Selena nisso. O que será que ela fez de tão errado assim, hein, pai?
- Você sabe.
- Não, não sei. Ao contrário, acho que ela não fez nada de errado.
- Ela foi vista ontem num restaurante, em companhia de Fabrício.
- E? E daí?
- E daí que eles devem estar... estar... - Estar o quê, pai?
- Não me diga que você o deixou para sua prima! - objetou a mãe.
- Deixei quem, mãe?
- Fabrício.
-Não a quero envolvida com Fabrício também. Ele pode ser homem, mas devia se preocupar mais com o nome da família. Aposto
como o pai dele não está nada satisfeito com esse caso.
- Que caso?
- Ora, minha filha, duvido que ele e Selena não sejam
amantes.
- Papai, como pode dizer uma coisa dessas? Selena é uma moça
direita.
- Bem se vê. Enfim, não temos nada com isso. Mas você é mi
nha filha, e não fica bem ser vista em companhia deles.
- Mas, Bernardo - ponderou Elisete -, Fabrício é um ótimo
partido. Pensava que Clarinha e ele pudessem se entender.
- Mamãe, quantas vezes preciso lhe falar que não estou interessada em Fabrício? Eu amava Adriano.
- Adriano morreu. E você tem de pensar em seu futuro.
- Sua mãe está certa. Contudo, não creio que Fabrício seja o ra
paz mais indicado para você.
- Por que não, Bernardo? E rico, tem um futuro brilhante. - Porque está envolvido com sua sobrinha, por isso!
-Ora, mas Selena deve ser apenas um casinho. Sabe como é,
os rapazes adoram certas facilidades. E, depois, com nossa Clarinha
ele não vai conseguir nada disso...
- Vocês querem parar com isso, os dois?-cortou Clarinha, in
dignada. - Discutem sobre minha vida como se ela fosse de vocês.
E você, mãe? Não se envergonha de falar de sua sobrinha assim, desse jeito?
Elisete deu de ombros e retrucou:
-Não a considero mais minha sobrinha. Desde que se casou
com Cassiano, a família toda lhe voltou as costas.
- Mas eu não! Selena é minha prima e minha amiga, e preten
do ajudá-la no que for preciso.
- Chega, Clarinha! - esbravejou o pai. -Não quero você metida com Selena.
- Você não tem o direito.
- Tenho, sim. Você é minha filha e me deve obediência.
- Não lhe devo, não. Sou maior e vacinada, e você não man
da mais em mim.
- Estou lhe avisando!
- Por que tanto preconceito, pai? O que Selena lhes fez?
- Não nos fez nada. Fez a toda a sociedade. E muito feio uma mulher largada do marido.
- Feio é o preconceito. As pessoas são todas iguais, independentemente de suas escolhas.
- Chega, Clarinha, eu a proíbo!
- Você não me proíbe de nada! E quer saber? Já estou cheia dessa conversa idiota.
Ela se levantou bruscamente, atirou o guardanapo sobre a mesa com força e saiu batendo pé.
- Aonde vai? - quis saber a mãe.
- Não interessa.
Furiosa, rodou nos calcanhares, apanhou a bolsa e saiu batendo a porta, ainda a tempo de ouvir as últimas palavras do pai:
- Essa menina não nos respeita mais...
Clarinha entrou no elevador desanimada. Por que as pessoas eram tão preconceituosas? Ela sabia que Fabrício encontrava o
mesmo problema com o pai. Mas, se até os pais da própria Selena a discriminavam, o que dizer dos outros? Aquela era a sociedade
em que viviam. Uma sociedade hipócrita, mesquinha, cruel. Todo mundo fazia de tudo, mas ninguém tinha coragem de assumir
nada, e logo apontavam o dedo para o primeiro que fugia a suas regras, como se pudessem descontar nos outros todos os seus
erros e frustrações.
Parada na beira da calçada, Clarinha esperava para atravessar. O dia estava muito ensolarado e quente, mesmo àquela hora
da manhã, e ela começou a sentir-se mal. O estômago voltou a doer, e ela sentiu uma forte tonteira. Levou a mão à testa,
sentindo o suor escorrer, e pensou que iria desmaiar.
Recobrando ânimo, sacudiu a cabeça e pôs o primeiro pé na rua, em seguida o outro, e começou a atravessar lentamente. Já
estava no meio da rua quando a tonteira aumentou e ela, de repente, viu tudo rodar à sua volta e sentiu uma fraqueza incontrolável.
Suas pernas começaram a se dobrar e o corpo amoleceu. Em segundos, estava no chão e nem escutou o ruído de pneus atritando
no asfalto, e um carro que vinha a toda, freando bruscamente, quase a atropelou.
Foi uma correria danada. Clarinha, desmaiada no chão quente, parecia morta, pálida feito cera. O porteiro, vendo a confusão,
aproximou-se e, reconhecendo Clarinha, correu a chamar seus pais, que vieram esbaforidos. O pai ergueu-a no colo e correu
com ela para o carro, deitando-a no banco de trás. Elisete sentou-se a seu lado, e ele deu partida, rumo ao hospital.
Enquanto isso, parado no meio da rua, alheio aos carros que passavam, Adriano olhava perplexo. Não entendia o que havia
acontecido. Chegara perto de Clarinha, tentara conversar com ela enquanto dormia. Mas, quando ela acordara, sentira-se frustrado
ao perceber que ela havia esquecido praticamente tudo. Por quê? Aquilo o deixara furioso.
Depois, quando ela começou a defender Selena e Fabrício, quase enlouqueceu. Aproximou-se dela novamente para lhe pedir que
parasse, mas ela não o ouvia. Colara-se a ela, seguindo-a até a rua.
Tão intensa era sua proximidade que ele lhe sugava as energias sem saber, e Clarinha, não conseguindo assimilar sua presença,
sentiu-se invadida por uma força estranha, e seu estômago logo reagiu, revirando e causando-lhe dores e enjôos. E foi então
que desmaiou. A tontura que as investidas de Adriano lhe causavam fez com que ela perdesse grande parte de suas energias,
e ela, não podendo suportar, como que brevemente fugiu da realidade e desmaiou.
Aquilo assustou Adriano sobremaneira. Será que ela estava doente? Em sua ignorância espiritual, nem sequer desconfiava de
que era ele a causa do mal-estar da moça, julgando que ela estivesse com alguma doença até então desconhecida.
Clarinha estava sendo atendida na emergência.
- O que foi, doutor? - perguntou Bernardo.
- Ainda não sabemos. Vamos fazer alguns exames.
Colheram sangue e deram-lhe remédio, e Clarinha começou a
melhorar. Vendo a mãe parada a seu lado, perguntou o que havia
acontecido e ficou surpresa ao saber que havia desmaiado. Fora a pri
meira vez em toda a sua vida.
- Sente-se melhor? - perguntou o médico. - Sim.
- ótimo. Descanse mais alguns minutos e poderá ir. O médico saiu com Bernardo atrás. - Doutor, espere! O que ela tem? -
A princípio, nada.
- Nada?
- Pois é. Não constatei nada de anormal. Entretanto, qualquer
diagnóstico definitivo, nesse momento, me parece precipitado. Só poderei falar depois de ver o resultado do exame de sangue. Contudo, aconselho-o a levá-la a um
bom clínico geral. - Será
que ela pode estar grávida?
- Grávida? Não, não está, se é isso o que o preocupa. Bernardo suspirou aliviado. Apertou a mão do médico e finalizou:
- Graças a Deus, doutor. Fico mais tranqüilo.
O médico se foi e Bernardo voltou mais animado para junto da mulher e da filha. Ao menos, Clarinha não estava grávida, o
que seria uma vergonha. Entrou no pequeno boxe da enfermaria da emergência, recebeu e assinou alguns papéis que a enfermeira
lhe estendia e foi embora com Clarinha e Elisete.
Quando Fabrício entrou em casa naquela noite, Paulo
ainda estava acordado, esperando por ele. Assim que fechou a por
ta, assustou-se com o pai sentado na sala, à meia-luz, vestido com um
robe azul-marinho que se confundia com o tecido escuro do sofá. Fa
brício teve um sobressalto e exclamou:
- Pai! Que susto me deu. O que faz aí, sentado no escuro? Paulo levantou-se e acendeu a luz, encarando o filho com ar de
reprovação.
- Onde esteve? - perguntou mal-humorado.
Fabrício aproximou-se dele, já sentindo a raiva do pai pela en
tonação de sua voz.
- Estive por aí - respondeu secamente. - Com quem?
Tentando controlar a contrariedade, Fabrício virou-lhe as costas
e foi seguindo em direção ao corredor, ao mesmo tempo em que dizia: - Já sou grandinho, papai. Não lhe devo satisfações.
Vendo-o se afastar, Paulo correu para ele e puxou-o pelo ombro,
virando-o bruscamente.
- Ah, deve, sim! Enquanto viver nesta casa, deve-me todas as
satisfações que eu lhe pedir.
- Se o caso é esse, posso mudar-me amanhã mesmo. Paulo o soltou bruscamente e arrematou com azedume: - Tudo por causa daquela
mulherzinha, não é mesmo?
- Que mulherzinha? Já disse que não conheço nenhuma mu
lherzinha.
Ouvindo as vozes do marido e do filho, Flávia despertou e
abriu a porta do quarto. Paulo e Fabrício estavam parados no corredor, discutindo.
- Mas o que está acontecendo aqui? Discutindo de novo? -Nada, mãe.
- Está tudo bem, querida - tranqüilizou Paulo. - Volte a dormir.
Fabrício, aproveitando a presença da mãe, deu boa-noite e en
trou em seu quarto, trancando a porta em seguida. - Venha dormir, Paulo - chamou a mulher. - Não estou com sono.
- Mas venha para o quarto. Não tem por que ficar parado aí. - Vou ver televisão.
- Mas que televisão? Já são duas horas da manhã, e a TV está fora do ar. Venha dormir, vamos.
Sem saída, Paulo entrou em seu quarto, completamente contrariado, tirou o robe e deitou-se na cama. Flávia deitou-se a seu
lado e, rosto virado para ele, tentou argumentar:
- Paulo, querido, o que está acontecendo conosco? Por que não podemos mais ser uma família feliz?
Ele a encarou com profundo pesar e contestou com mágoa: - Como posso ser feliz se perdi meu único filho? - Isso não é verdade.
Nós temos Fabrício. - Fabrício não é...
- Psiu! - fez ela, tapando a boca do marido com os dedos. - Não diga isso. Pelo amor de Deus, nunca mais pense em dizer
uma coisa dessas. Você prometeu.
Envergonhado, Paulo retrucou:
- Sinto muito. Sei que prometi nunca dizer nada. Mas não posso evitar. Você sabe que Fabrício e eu nunca nos demos muito
bem. - Você sempre o discriminou.
- Não é verdade...
- E, sim. Desde pequenos, sua preferência por Adriano sempre foi muito clara.
- Mas Adriano era nosso filho.
- Assim como Fabrício também é.
- Não quero magoa-la, querida, mas sabe que os dois eram muito diferentes.
- Não vejo diferença alguma além dos traços físicos.
- Por favor, Flávia, tente entender. Durante todos estes anos, venho me esforçando para gostar de Fabrício tanto quanto
gostava de Adriano. Mas não consegui. Ele sempre me pareceu um estranho. E, agora que meu menino morreu, vejo-o como um
usurpador.
- Paulo, que horror! Como pode dizer uma coisa dessas? Fabrício nem sequer desconfia de sua origem. Pensa que é nosso filho
legítimo. Jamais será um usurpador.
- Ainda assim. Sabe, Flávia, há coisas que não podemos explicar. Sentimento é uma delas. Por que às vezes nos sentimos atraídos
por determinadas pessoas e antipatizamos com outras? Não acha isso estranho?
- É, é estranho, mas sei que acontece. Contudo, quando o alvo são nossos próprios filhos, devemos fazer de tudo para nos
modificarmos.
- Modificar já é difícil. Modificar sentimentos, então, é praticamente impossível.
- Mas, Paulo, você tem de tentar.
Paulo acariciou os cabelos da mulher e deitou a cabeça sobre seu colo, falando com ternura:
- Flávia, sinto muito. Amo você e não quero magoá-la. No entanto, não consigo amar Fabrício. Não consigo! Pensa que isso
também não é difícil para mim? Pensa que não gostaria de amá-lo? Se o amasse, talvez agora não sentisse tanto a falta de
Adriano. Mas o que acontece, e sei que o que vou dizer é horrível, é que preferia que fosse Fabrício que tivesse morrido
naquele acidente, não Adriano.
Calou-se, a voz embargada. Só Deus sabia quanto de esforço estava fazendo para poder assumir aquele sentimento, até para
si mesmo. Durante muitos anos tentara se justificar, dando sempre a desculpa da afinidade. Adriano era mais parecido com
ele, não só fisicamente, mas em temperamento. Por isso sua preferência. Contudo, no fundo, no fundo, sabia que essa não
era bem a verdade. Amava Adriano e não gostava de Fabrício. E nem era porque um era legítimo e o outro, adotado. Simplesmente
não conseguia amar Fabrício. Só isso.
Mas Flávia não entendia. Amara os dois filhos em igual intensidade, embora se afinasse mais com Fabrício. Retrucou chocada:
- Paulo! Não devia dizer uma coisa dessas. Adriano morreu porque chegou a vez dele. É duro, eu sei, e muito mais para mim do que
para você. Sou mãe, fui eu que o criei, que lhe dei amor, que lhe dei o seio para se alimentar. Você não sabe o que é isso.
- Compreendo, Flávia. Sei que você deve estar sofrendo muito também. Mas tem Fabrício...
- Você também tem. Ele é tão seu filho quanto meu.
- Não, Flávia. Ele é seu filho. Você o recebeu nos braços, você quis adotá-lo. Eu simplesmente me resignei à sua vontade.
- Quer me culpar por ter adotado o menino?
- Não é isso. Eu também concordei. Mas achava que não conseguiríamos ter outros filhos. E, depois, você ficou tão feliz...
- Pois então? Por que você também não consegue ser feliz? Por que não tenta? Por que não olha para Fabrício como seu filho?
O problema é que você nunca conseguiu vê-lo como filho, mas somente como um estranho.
- Ele não tem meu sangue.
- E daí? Desde quando os laços de amor estão presos aos laços de sangue? Você sabe que isso é bobagem.
- Não sei. O fato de que Adriano era meu filho legítimo criou um elo muito mais profundo com ele. Esse elo não consigo ter
com Fabrício.
- Pois, se não fosse Fabrício, agora não teríamos mais nenhum filho para atear.
- Se não fosse Fabrício, Adriano não teria saído correndo na
quela chuva, subindo o Alto da Boa Vista feito um louco.
- Não diga isso, Paulo, não é justo. Você quer culpar Fabrício
pela morte de Adriano. Mas ele não é culpado. Ninguém é. Adriano morreu porque escolheu assim. Era chegada a hora dele. Paulo inspirou profundamente e tornou:
- Acredita mesmo nisso?
- Acredito.
- Acredita que o espírito de Adriano esteja vivo em algum lugar?
- Tenho certeza.
- E ele já se comunicou com você?
- Ainda não.
- Por quê?
- Não sei. Talvez porque ainda não tenha chegado a hora.
- Ouça, Flávia, sei que deve ser um conforto para você acreditar nisso, mas não consigo. Se Adriano estivesse vivo em espírito, é
claro que já teria tentado entrar em contato conosco. Mas nunca o
fez. Sabe por quê? Porque espíritos não existem.
- Tudo bem, Paulo, é seu direito pensar assim. Mas por que não
vai comigo um dia ao centro de mamãe? Talvez se surpreenda.
- Por quê? Vou me comunicar com meu filho? Se for, irei amanhã mesmo.
- Não posso lhe garantir isso. Eu mesma espero uma comuni
cação há tempos mas, até agora, não obtive resultado.
- Está vendo? Isso tudo é bobagem, Flávia. Sua mãe fica influen
ciando sua cabeça com essas tolices.
- Não vou discutir com você porque sei que não adianta. Mas
pense bem no que lhe falei.
- Não, não posso me iludir e viver me preocupando com ilusões. Preocupa-me o aqui e agora. Preocupa-me o fato de, a cada dia,
gostar menos de Fabrício. E, para completar, ele foi se envolver com
aquela Selena. Aposto que esteve com ela até agora.
- Não comece a colocar Selena, novamente, como justificati
va para sua revolta.
- Não é nada disso. E não adianta brigar. Você já conhece mi
nha opinião.
- Sim. E lamento muito por ela.
- Por favor, Flávia, não vamos mais discutir.
- Não estou discutindo. Mas também me preocupo. Quero
que você e Fabrício se entendam. Quer você queira, quer não, são
pai e filho.
- Ele quer sair de casa.
- Quer? - repetiu ela, espantada. - Sim.
- Por quê? O que você lhe disse?
- Que, enquanto viver sob meu teto, ele me deve explicações. - Por favor, Paulo, não diga mais isso. Deixe-o. - Talvez seja
melhor mesmo que se vá. - Não desse jeito. Seria melhor se ele tivesse essa vontade para
construir sua própria vida de forma independente. Mas não é esse o
motivo. Ele quer sair porque você o está atormentando.
- Você não quer que ele parta, não é mesmo?
- Não é isso. Fabrício já é um homem e deve cuidar de sua própria
vida. Mas quero que ele saia porque é seu desejo, não para fugir de nós.
Paulo não disse mais nada. Estreitou a mulher de encontro ao peito e deitou-se colado a ela. Apagou a luz, beijou sua cabeça
e murmurou:
- Está bem, não direi mais nada. Agora durma. Amanhã é segunda-feira, e preciso levantar cedo para trabalhar.
Encerrado o assunto, ele permaneceu abraçado à mulher. No entanto, embora ambos fingissem dormir, não conseguiram pregar
olho e permaneceram calados o resto da noite, até que a exaustão viesse dominá-los, já quase ao amanhecer.
Faltavam cinco minutos para as dez quando Cassiano e Aderbal entraram na sala de espera do escritório de Fabrício. Ofélia
recebeu-os com simpatia, ofereceu-lhes um cafezinho e pediu que aguardassem:
- O Dr. Fabrício está ao telefone com um cliente, mas ja vai atendê-los.
Fabrício deixou que esperassem por cerca de quinze minutos, ligou o aparelho gravador e só então mandou que entrassem. Cassiano
passou primeiro. Olhar arrogante, postura de desafio, queixo proeminente em sinal de imposição. Aderbal, mais profissional,
veio atrás, sustentando no rosto um sorriso de estudada cortesia.
- Bom dia, Dr. Fabrício - cumprimentou Aderbal, estendendo-lhe a mão, que o outro tomou e respondeu:
- Bom dia, Dr. Aderbal, Sr. Cassiano...
Apontou-lhes as poltronas em frente à sua mesa, e os dois se sentaram. Cassiano continuava a encará-lo com olhar desafiador,
mas Fabrício não se deixou intimidar.
- Gostariam de um cafezinho? Uma água?
- Não, obrigado, doutor. Sua secretária já nos serviu.
- Muito bem. Em que posso ser-lhes útil?
Aderbal pigarreou, cruzou as mãos sobre e mesa e, prosseguindo com seus gestos estudados, começou fazendo rodeios:
- Bem, Dr. Fabrício, sabe que meu cliente está muito abalado com essa separação...
Parou de falar e esperou para ver se Fabrício esboçava alguma reação, mas este se manteve impassível, apenas olhando-o com
firmeza.
- O Sr. Cassiano ama muito a mulher e não gostaria de se separar - completou Aderbal.
- Sei... - fez Fabrício, sem demonstrar muito interesse.
- E, depois, há a questão dos filhos... Será muito doloroso separar-se deles também.
- Sei...
O outro fez uma pausa, sem saber como prosseguir. Esperava que Fabrício dissesse alguma coisa, que se adiantasse na conversa,
mas ele não dizia nada. Olhou discretamente para Cassiano, que continuava com aquele olhar de desafio, e continuou:
- Por isso viemos procurá-lo. Gostaríamos de propor-lhe um acordo... - disse, remexendo-se na cadeira, pouco à vontade.
Fabrício, mãos cruzadas sobre a boca, olhava-o com ar enigmático. Estava louco para falar, mas procurava se conter. Precisava
ir com calma, fazer com que o outro pensasse que não tinha muito interesse e falasse mais.
Durante alguns segundos, um silêncio constrangedor se instalou entre eles. Fabrício endireitou o corpo na poltrona, respirou
fundo e, olhos nos olhos, indagou:
- Que espécie de acordo, Dr. Aderbal?
Aderbal pigarreou novamente, olhou de soslaio para Cassiano, que fez um gesto imperceptível, e rebateu:
- Bom, Dr. Fabrício, é muito doloroso para meu cliente separar-se dos filhos. Contudo, está disposto a abrir mão deles em
troca de uma pequena... compensação.
- Que compensação?
Aderbal olhou novamente para Cassiano, que não tirava os olhos de Fabrício, e continuou:
- O senhor sabe, Dr. Fabrício, como é difícil para um pai separar-se de seus filhos. Selma e Carlinhos são a razão da existência
de Cassiano... Não é mesmo, Sr. Cassiano?
Cassiano deu um sorriso irônico e, num gesto teatral, respondeu com voz melíflua:
- São tudo que tenho, Dr. Fabrício.
- Pois é - retomou Aderbal. - Por isso lhe é tão difícil separar-se deles. Ele vai sofrer, mas, se for para o bem de todos...
- Entendo.
- E claro que ninguém faz uma coisa dessas de forma impensada. Não, claro que não. Meu cliente está apenas pensando no bem
estar das crianças. Só por causa delas é que aceitou fazer este acordo. já impaciente, Fabrício cortou-o e falou com rispidez:
- Por favor, Dr. Aderbal, vá direto ao ponto, sim? O que, exa
tamente, está tentando me dizer?
Aderbal pigarreou de novo, olhou para Cassiano mais uma vez
e, tentando aparentar naturalidade, declarou:
- Bem, Dr. Fabrício, trata-se de um acordo...
- Isso eu já sei, Dr. Aderbal, o senhor já me disse. Mas que tipo
de acordo?
Aderbal pigarreou de novo, e Fabrício notou que seu rosto ia fi
cando vermelho. Não devia estar muito acostumado àquelas situa
ções e esclareceu, como que a se desculpar:
- Dr. Fabrício, não estaria aqui se não fosse para o bem de meu
cliente. Ele vai concordar em perder os filhos, mas não pode sair assim, sem nada...
- Sei, sei...
- Por isso, tem uma proposta a lhe fazer.
Silêncio. O advogado não conseguia falar, e Fabrício já começava a se inquietar. O tempo ia passando, a fita ia rodando e logo se
esgotaria, sem que ele conseguisse gravar o que era importante. Cogitou encerrar aquela entrevista e mandá-los embora. Depois pensaria
em outra coisa. Mas, subitamente, Cassiano, também impaciente, ergueu a voz e expôs, ele mesmo, a proposta que o levara até ali:
- Bem, Dr. Fabrício, vamos deixar de lengalenga. O Dr. Aderbal aqui não se sente muito à vontade para fazer-lhe a proposta. Mas
não faz mal. Eu mesmo lhe direi a que vim.
Fabrício ergueu as sobrancelhas, interessado, e o outro prosseguiu: - Nós todos sabemos quanto Selena é rica, não é mesmo?
- E daí?
- E daí que não é justo que eu saia desse casamento com uma
mão na frente e outra atrás. Afinal, foram anos de convívio. Fabrício mordeu os lábios, já sentindo a raiva tomar conta
dele, mas procurou se conter e estimulou:
- Continue, Sr. Cassiano, estou ouvindo.
- Bem, como o Dr. Aderbal aqui falou, será muito duro separar-me de meus filhos, mas estou disposto a abrir mão deles, desde que
Selena me dê algo em troca.
- O quê?
- Como disse, ela é muito rica. Pois bem. Minha proposta é a seguinte: dou-lhe o desquite amigavelmente e a guarda das crianças.
Em troca, ela me dá uma gratificação... em dinheiro.
Apesar de surpreso, Fabrício manteve-se impassível. Pelo rumo da conversa, não percebia nenhuma ameaça no ar, mas uma proposta
realmente indecorosa, o que seria ótimo para Selena.
- Sr. Cassiano, deve estar havendo algum engano - esclareceu Fabrício. - Selena não tem dinheiro algum. Quem tem são seus
pais, e eles, ao que me consta, não aprovaram o casamento. O que o faz pensar que eles a ajudariam?
- As crianças. Sei que gostariam de criá-las.
- Há, em seu raciocínio, um grande equívoco, Sr. Cassiano. Selena não está disposta a entregar os filhos para os pais criarem.
- Ainda assim, eles a ajudariam, tudo para que pudessem ver os
netos. Ainda que não os criassem, gostariam de poder visitá-los, passear com eles, acompanhar seu crescimento. Não estou certo?
- E acha que eles lhe dariam dinheiro?
Cassiano olhou para Aderbal, que tomou a palavra:
- Estivemos pensando, Dr. Fabrício, num adiantamento de legítima.
- O quê?
- Bem, como Selena e a irmã são as únicas herdeiras, a parte que lhes cabe na herança, que é a legítima, não pode ser transferida
para mais ninguém. Tem de ser delas, de qualquer jeito. E Selena, como herdeira necessária, vai receber seu quinhão, com
certeza.
- Não precisa me ensinar o direito, doutor, porque o conheço muito bem. Só estou achando um absurdo essa proposta.
- Absurdo por quê? Com o adiantamento da legítima, Selena pode entrar na posse de seus bens e fazer o que bem entender.
E, aí, a metade teria de ser de Cassiano. Eles são casados em comunhão de bens, o senhor sabe.
Refreando a vontade de esganá-los, Fabrício continuou a incentivá-los. Aquela conversa estava tomando um rumo melhor do
que o esperado.
- O que o faz pensar que os pais de Selena aceitariam essa proposta? Seria o mesmo que fazer uma doação direta a Cassiano.
E com isso eles jamais concordariam.
- Tenho meios de convencê-los - intercedeu Cassiano com ar de triunfo.
- Que meios?
Ele fez sinal para Aderbal, que abriu a pasta e retirou um envelope pardo, estendendo-o para Fabrício.
- O que tem aí não é nenhuma novidade...
Antes mesmo de pegar o envelope, Fabrício já sabia do que se tratava. Abriu-o calmamente e retirou as fotos de Selena e
de Aníbal, contendo-se para não esmurrar aquele ordinário.
- Não gostaria de fazer uso dessas fotografias publicamente - disse Cassiano -, mas não vejo outra saída. Selena foi muito
leviana. Trair-me com meu próprio irmão! E justo ao lado do bercinho de meu filho, que dormia placidamente. É uma indignidade,
não acha?
- Com essas fotos, o juiz dará a guarda das crianças a meu cliente. Sabe disso, não é, Dr. Fabrício? O adultério está provado.
Note essa primeira foto. Ambos foram flagrados em pleno ato sexual. Não há dúvidas.
- Não sei se o juiz pensa assim. Ele não me pareceu inteiramente convencido.
- Como não? - questionou Aderbal. - O adultério está mais do que provado. Em pleno ato sexual_ Do jeito como manda a lei.
- E, depois - completou Cassiano -, Aníbal está disposto a testemunhar, dizendo que ela o seduziu. Selena é uma mulher bonita;
seria difícil para um homem resistir a ela.
- Você não presta, Cassiano - desabafou Fabrício, com raiva. - Devia ir preso.
- Eu não presto? Quem não presta é Selena. Ao menos, eu nunca a traí.
- Nem ela o traiu. Isso foi uma armação. Ela me contou tudo.
Cassiano deu de ombros, fez um muxoxo e retrucou:
- E daí? Quem pode provar?
Era agora! O coração de Fabrício disparou. Armara aquilo tudo esperando gravar uma ameaça. Ao invés disso, Cassiano estava
entregando todo o jogo, revelando sua própria torpeza. Mais um pouco e ele confessaria tudo, e o resultado seria muito melhor
que o esperado.
- Por que fez isso?- tornou Fabrício, fingindo-se derrotado. - Por que humilha assim sua mulher?
Ele torceu os lábios e prosseguiu:
- E a lei da selva, doutor. Selena já não me queria mais. Vivia pedindo o desquite. O que queria que eu fizesse? Que abrisse
mão de tudo pelo que venho lutando há anos?
- E por isso resolveu armar essa arapuca?
- Não foi uma arapuca. Selena caiu porque quis.
- Ela estava carente, e o senhor sabia disso. Por isso mandou seu
irmão lá naquela noite, não foi?
- Foi uma idéia genial, não? - Ele deu uma gargalhada e continuou: - Selena é muito burra. Sabia que ia cair feito um patinho.
Foi só apanhar as crianças, levá-las para a casa de minha mãe, e pronto. Vendo-se sozinha, foi muito fácil para Aníbal seduzi-la.
- Isso foi uma covardia.
- Que covardia, que nada! Aposto que ela até gostou - risos. -Aníbal disse que foi bom. E as fotos mostram isso, não é?
- Será mesmo? Parece-me que Selena estava sendo forçada...
- Forçada? Não, meu caro, não se iluda. Ela se entregou a ele porque quis. Ninguém mandou ser trouxa. Quando viu a câmera,
ficou apavorada e quis fugir. Mas Aníbal a segurou, e eu pude fotografá-los bastante. Essa aqui do bercinho está ótima,
não está? Chega a ser comovente.
- Selena estava carente, amedrontada.
- E daí? Ninguém mandou ser trouxa. Ela bobeou, eu aproveitei. Sabia que ela estava sentindo falta daquilo- novos risos.
-É muito fácil conquistar uma mulher sozinha e desiludida. Não sabia, doutor?
Ignorando sua insinuação maldosa, Fabrício continuou, como quem não tinha mais o que fazer.
- Não devia se aproveitar assim das fraquezas das pessoas.
- O senhor é muito bonzinho, Dr. Fabrício. Talvez porque não precise de nada. É um homem rico, bem apessoado. O que sabe
sobre a miséria?
- Eu? Nada. Nem o senhor. Que eu saiba, o senhor não é nenhum miserável. Pode não ser rico, mas não lhe falta nada.
- Mas eu quero muito mais. Quero ter um apartamento bacana, carro do ano, roupas caras. Quero viajar, me divertir com as
mulheres, aproveitar a vida. Pensei que, casando-me com Selena, fosse conseguir tudo isso. Mas os pais dela não aprovaram
o casamento e retiraram todo o apoio. Selena e eu ficamos sem nada. Acha isso justo?
- Casou-se com ela porque quis. Devia amá-la.
- Gostava dela. E bonitinha, tem um corpo bem-feito. Mas é fria qual uma pedra. Na cama, deixa muito a desejar-concluiu
com um riso debochado.
Nesse ponto, Fabrício quase se levantou e o espancou. já estava ficando difícil tolerar a conversa daquele homem grosseiro
e ordinário.
- Sr. Cassiano, por favor, contenha-se - censurou Aderbal. - Pode comprometer-se.
- Como? O que ele pode contra mim? Nada. Não pode provar o que eu disse. Será a palavra dele contra a minha. E, depois,
não agüento mais. Estou entalado com ele até o pescoço.
Fabrício riu intimamente. Aquele homem era um tonto.
já era hora de dar a entrevista por encerrada. Eles estavam ali fazia quase uma hora e, em breve, a fita terminaria.
- Bem, Dr. Aderbal, se essa é a sua proposta, apanhe suas fotos e seu cliente e saia daqui. Não negocio com marginais.
Cassiano deu um salto da cadeira, debruçou-se sobre a mesa e, fitando-o com olhar ameaçador, disparou:
- Vou acabar com vocês, doutorzinho. Quer recusar meu acordo? Pois bem. Recuse. Mas depois, quando Selena perder as crianças,
não diga que não avisei.
- O senhor é livre para fazer o que bem entender. Mas eu sou um homem digno, um advogado honesto. O que me oferece não é
um acordo, mas uma chantagem, e não me curvo a chantagistas.
Naquele momento, Fabrício pensou que Cassiano fosse dar-lhe um murro, mas Aderbal interveio, segurando-o pelo ombro.
- Sente-se, Sr. Cassiano, por favor. Se perder a calma, perderá também a razão.
Cassiano tornou a sentar-se, e o advogado prosseguiu:
- Reflita bem sobre nossa proposta, Dr. Fabrício. Será para o bem de todos. Mostre as fotos aos pais de Dona Selena. Quem
sabe assim eles não concordam com o adiantamento de legítima? Afinal, é o nome deles que também está em jogo.
- Lamento, mas já disse que não negocio com marginais. E, agora, façam o favor de se retirar. Não temos mais nada a conversar.
- Cachorro!
Cassiano deu a volta na mesa e correu para Fabrício, tentando acertar-lhe um soco, mas Aderbal correu atrás e segurou-o
a tempo.
- Contenha-se, Sr. Cassiano! - exclamou ele. - Quer estragar tudo?
Fabrício continuava sentado, impassível, fitando-o com desdém. Sabia que ele estava em suas mãos e não tinha medo de suas
ameaças.
- Vai me pagar! -berrava Cassiano. -Está dormindo com minha mulher, não está?
Fabrício levantou-se com calma, segurou o outro pelo colarinho e, aproximando bem o rosto do seu, disparou em tom intimidados:
- Não tenho medo de você, Cassiano. E, agora, saia daqui antes que eu chame a polícia.
Ouvindo falar em polícia, Cassiano retrocedeu. Até Ofélia, ouvindo a gritaria, apareceu na porta, preocupada com a segurança
do patrão. Estava mesmo pronta para ligar para a polícia.
Cassiano puxou as mãos de Fabrício de seu colarinho, ajeitou o terno e, com olhar fuzilando, ameaçou:
- Isso não vai ficar assim, doutor. Tenha certeza.
Rodou nos calcanhares e saiu, seguido por Aderbal, que suava frio. Passou por Ofélia feito uma bala, esbarrando nela ao
sair, e bateu a porta com furor. Depois que eles se foram, ela olhou para Fabrício com ar interrogador e ele, com um sorriso
maroto, exultou:
- Conseguimos, Dona Ofélia! Conseguimos!
Correu para o armário e apanhou uma garrafa de champanhe e duas taças. Precisavam comemorar. Venceria a ação e conquistaria
Selena. Estalaram as taças e, ao levá-las aos lábios, ouviram um breve dique. A fita no gravador chegara ao fim, e sua vitória
estava apenas começando.
Sentados do lado de fora da sala de audiências, Fabrício, Selena, Clarinha e dois policiais esperavam a vez de ser chamados.
Era dia de depoimento, e Clarinha e os policiais serviriam de testemunhas. A todo instante, olhavam para a porta, esperando
que Cassiano e Aderbal aparecessem, mas nada. Os minutos foram se passando, e os casais das audiências anteriores iam entrando
e saindo, mas nada de Cassiano chegar.
- O que houve? - indagou Selena. - Será que não vêm?
- Ainda não está na hora. Nós é que chegamos cedo.
- E verdade, Selena. Até o irmão de Cassiano já chegou. Clarinha apontou para um canto, onde Aníbal aguardava, aca
brunhado, a chegada do irmão. Pouco depois, seus nomes foram
apregoados, e Selena e Fabrício se levantaram.
- Acho que não vêm - observou Clarinha. - Engana-se. Lá estão eles.
Fabrício apontou para a porta com o queixo, e ambas viram Cassiano e Aderbal entrarem esbaforidos. Foram direto para a sala de au
diência, e Fabrício pediu a Clarinha e os guardas que aguardassem até
que fossem chamados. Todos tomaram assento, e o juiz Otávio, exa
minando os autos, começou a dizer:
- Muito bem. Trouxeram as testemunhas? - Sim, excelência - respondeu Fabrício. Otávio olhou para Aderbal e continuou:
- O senhor indicou apenas uma testemunha, doutor. Não com
pareceu?
- Compareceu, sim, excelência. Está lá fora.
- Muito bem. - Virando-se para o oficial, ordenou: - Mande
entrar a testemunha da parte autora.
O oficial saiu e voltou logo em seguida com Clarinha, que to
mou assento no local indicado. Ao olhar para ela, Otávio sentiu uma
estranha emoção. De onde conhecia aquela moça? Provavelmente,
de lugar nenhum. Ela era muito jovem e, na certa, não freqüentaria
os mesmos lugares que ele. Contudo, algo nela o atraía. Não era apenas a sua beleza. Era algo mais, algo que não sabia definir e que trmexia com ele.
Clarinha virou-se para o juiz e sentiu que seu coração também
disparava. Era estranho, mas aquele homem maduro e tão bonito despertara algo dentro dela. Contudo, ele era o juiz, a autoridade
máxima ali dentro, e ela não podia deixar que percebesse sua admiração. - Muito bem, Dona Ana Clara, a senhora é prima da autora,
não é mesmo?
- Sim, senhor.
- É sua amiga pessoal? - Bem... sim.
- Sei que esses casos são difíceis, mas gostaria de alertá-la de seu compromisso com a verdade. Normalmente, pessoas muito ligadas às
partes não podem depor como testemunhas. No entanto, dadas as peculiaridades dos processos de família, as pessoas que mais
conhecem os fatos são, justamente, aquelas mais próximas. Ainda assim, temos todos o dever de colaborar com a Justiça. Por
isso, apesar de a senhora não ter prestado compromisso, gostaria que me respondesse com a maior sinceridade possível. Compreendeu?
- Sim, senhor.
A voz de Clarinha era tão firme, tão segura, que Otávio se admirou. Esperava que ela, a exemplo de todos os que se sentavam
ali, se sentisse intimidada e com medo. Mas não. Ela parecia bem segura e senhora de si.
- Bem, Dona Ana Clara, há quanto tempo conhece a autora? - A vida inteira. Somos primas.
- Sim, claro. E o Sr. Cassiano? Conhece-o também?
- Conheço-o desde que começou a namorar Selena. - Entendo. E o que sabe sobre seu relacionamento?
- Bem, no princípio, davam-se bem. Mas depois ele começou
a beber e a agredi-la.
Ele balançou a cabeça e, folheando os autos, ia lendo as alegações da petição inicial e da defesa, buscando elementos onde
pautar a inquirição.
-A senhora, pessoalmente, viu alguma dessas agressões? Viu-o batendo nela?
- Ver, não vi.
- E como sabe que ele a agredia?
- Ela me contava e me mostrava os hematomas.
O juiz continuou inquirindo Clarinha, até que chegou ao ponto desejado: o suposto flagrante de adultério.
- A senhora tem conhecimento de que sua prima estivesse mantendo um relacionamento extraconjugal?
- Não, senhor. Conheço Selena muito bem e sei que ela jamais seria capaz de uma indignidade dessas.
A inquirição continuou por mais dez minutos, findos os quais o juiz se deu por satisfeito.
- Alguma pergunta, doutores?-perguntou ele aos advogados.
Ambos menearam a cabeça negativamente, e Clarinha foi dis
pensada. Saíra-se muito bem, e não era preciso reinquiri-la em nada.
Enquanto o escrivão encerrava o termo de depoimento, Clarinha fi
cou prestando atenção na austera sala de audiências, e seus olhos e os de Otávio se cruzaram de repente. Ela enrubesceu
e baixou a cabeça, envergonhada. Ele, por sua vez, tentando disfarçar o embaraço, evitou ao máximo olhar de novo para ela
e mandou que fosse conduzida a uma outra sala, onde teria de aguardar o final dos depoimentos.
Depois de acomodar Clarinha na sala ao lado, o oficial saiu e voltou com um dos policiais que atenderam ao chamado de uma
vizinha, no dia em que Cassiano, furioso, trancara as crianças no quarto e espancara a mulher. O policial sentou-se e prestou
compromisso, olhando seriamente para o juiz. Não era amigo nem inimigo de nenhuma das partes, e seu depoimento estava isento
de qualquer suspeita.
- Sr. Durval Pereira, o senhor foi chamado, na noite de 25 de abril de 1965, para atender a uma ocorrência na rua Barão
de São Borja, número 48, apartamento 203?
- Sim, senhor.
- E quem o chamou?
- Uma senhora, Dona Lucinda de Carvalho.
- E por que foi chamado?
- Bem, a Dona Lucinda disse que o vizinho, Sr. Cassiano, estava batendo na mulher e nos filhos.
- Sei. E o senhor lá chegou a que horas, o senhor se recorda?
- Hmm... Deixe-me ver... Por volta das nove horas.
- Quem veio atendê-lo?
- O Sr. Cassiano.
- Ele estava sozinho?
- Não. A mulher e os filhos estavam com ele.
- O senhor os viu?
- Somente a mulher. Ele disse que os filhos estavam dormindo.
- E como estava Dona Selena?
- Bastante machucada. Tinha sangue no rosto.
- E o que ela lhe disse?
- Disse que tinha caído e batido o rosto na quina da mesa.
O policial terminou de prestar depoimento e saiu, e o outro, que atendera ao chamado com ele, entrou, sentou-se e disse
exatamente a mesma coisa.
Em seguida, foi a vez das testemunhas do réu. A única testemunha que Cassiano tinha para apresentar era seu irmão. Aníbal
chegou com ar debochado, deu um sorriso para Selena, que baixou os olhos, e tomou seu lugar.
- Então, Sr. Aníbal, o que houve, exatamente, naquela noite em que o senhor foi à casa de seu irmão?
- Noite? Que noite? Refere-se àquela em que... em que Selena e eu...
Enxugou discretas lágrimas dos olhos, e Otávio olhou-o de má vontade. Sua longa experiência lhe dizia que estava diante
de um farsante. O homem à sua frente ia mentir. Aquela encenação toda era bem típica dos mentirosos, e ele sabia disso.
No entanto, não podia prejulgar e continuou:
- Sim, Sr. Aníbal, refiro-me à noite em que seu irmão afirma que o senhor e Dona Selena mantiveram relações.
- Ouça, doutor, quero que saiba que estou muito arrependido do que fiz. Não queria magoar meu irmão. Mas o senhor sabe,
sou homem, e foi difícil me controlar. Selena me abordou e... - calou-se novamente.
- Sei, sei - concordou o juiz. - Mas o que aconteceu?
Ele fez uma pausa teatral, respirou fundo e, fingindo constrangimento, começou a contar:
- Bem, eu fui à casa de meu irmão. Precisava falar-lhe. Quando cheguei, Selena veio atender, fez-me entrar e sentar. Disse
que Cassiano não estava e que as crianças estavam dormindo.
- E depois?
- Levantei-me para ir embora, mas ela me impediu. Segurou minha mão e... bem... começou a acariciar-me, o senhor entende...
O juiz olhou discretamente para Selena, que corou e fez um gesto de contrariedade, mas foi contida por Fabrício. Ele sussurrou
algo em seu ouvido, e ela se acalmou, e Otávio prosseguiu:
- O que houve, então?
- Eu tentei resistir. Sabe como é, Cassiano é meu irmão, e eu não queria magoá-lo. Mas ela foi insistente, provocou-me de
todas as formas, até que não pude mais resistir. Tomei-a nos braços e deixei que ela me conduzisse até seu quarto.
- Mantiveram relações sexuais?
-Sim...
Aníbal baixou os olhos, fingindo-se envergonhado, e o juiz continuou:
- E as crianças, Sr. Aníbal? Onde estavam?
- Dormindo.
- No mesmo quarto?
- Não. Só Carlinhos. Selma estava no quarto dela.
- Quer dizer que o bebê dormia no quarto, enquanto o senhor
e Dona Selena mantinham relações?
- Isso mesmo.
- E não acordou? - Não.
- Quantas vezes o senhor e Dona Selena mantiveram relações? - Apenas essa vez.
- Tem certeza?
- Sim.
- O Sr. Cassiano disse que o senhor lhe confessou que já eram amantes havia bastante tempo. Mas como é possível, se essa
foi a primeira vez que tiveram relações?
Aníbal, desconcertado, olhou para Cassiano e para Aderbal, que não diziam nada. Pensou depressa e respondeu:
- Bem, eu estava confuso e arrependido. Posso ter dito qualquer coisa.
- O senhor falou ou não a seu irmão que já era amante de Dona Selena há mais tempo?
- Não me lembro...
- Não se lembra de haver faltado com a verdade antes, ou está faltando com ela agora?
Aníbal sentiu o rosto arder e teve certeza de que o rubor lhe cobria as faces. Olhos pregados no chão, não sabia o que dizer.
O juiz Otávio deu por encerrada a audiência, abrindo prazo para que as partes informassem se possuíam outras provas a produzir.
Depois que eles saíram, ficou a pensar. Não gostava de prejulgar ninguém, mas aquele Cassiano não o enganava. Era um homem
mesquinho e violento, e ele duvidava muito se aquele flagrante não teria sido uma farsa. Estava convicto de que fora.
Em casa, Clarinha não conseguia parar de pensar no juiz Otávio. Aquele homem mexera com ela de uma maneira que nunca antes
havia experimentado. Terminou de pentear os cabelos, olhou-se no espelho e sorriu satisfeita. Achava-se atraente e tinha
certeza de que Otávio ficara impressionado. Mas o que estava dizendo? Otávio? O homem era um juiz que ela, provavelmente,
nunca mais tornaria a ver. Seu relacionamento com ele se resumira àquela audiência em que fora prestar depoimento, nada
mais. E, depois, ele nem devia se lembrar mais de que ela existia. Mas, ainda assim, não conseguia parar de pensar nele
e no jeito como a olhara.
Ela foi para a janela e ficou olhando o mar, sentindo no rosto a brisa fresca da noite. De repente, ouviu chamar seu nome:
- Clarinha.
Olhou assustada, mas não viu ninguém. Podia jurar que aquela era a voz de Adriano, mas não podia ser. Ou podia? Ela já aprendera
o suficiente sobre espiritismo para saber que isso era bem possível. No entanto, nunca soubera que era médium. Nunca vira
nem ouvira nada. Até então...
Seus pensamentos se voltaram para o ex-noivo. Como estaria? Seu espírito continuava vivo em algum lugar. Mas onde? Estaria
perdido nas cavernas do astral inferior ou fora logo socorrido e se encontrava em processo de repouso e refazimento?
- Estou aqui, Clarinha - respondeu Adriano, invisível aos olhos da moça. - Estou a seu lado.
Clarinha pensava nele com insistência. Será que estava mesmo ali?
- Estou, Clarinha, estou aqui. Por que não me ouve? Olhe para mim.
A moça, sem lhe ouvir as palavras, percebia-lhe a presença e intuía tudo que ele lhe falava. Olhou ao redor, mas não o viu,
e Adriano, que já começava a ficar nervoso, chegou-se mais para perto dela e abraçou-a. Clarinha sentiu uma forte tontura,
o estômago revirou e teve vontade de vomitar. Foi para a cama e sentou-se, pensando em chamar alguém. Quanto mais passava
mal, mais Adriano tentava se comunicar com ela, sem sucesso, porém.
O campo vibratório de Adriano causava imenso mal-estar em Clarinha. Ele guardava no coração um ódio cego e profundo, não
só pelo irmão, mas, agora também, pelo juiz Otávio. Não conhecia aquele homem e surpreendera-se sobremaneira ao percebê-lo
povoando os pensamentos de Clarinha. Quem era ele? Por que sua noiva não parava de pensar nele?
O ódio de Adriano, literalmente, invadia a aura de Clarinha, e ela sentia essa invasão com enjôos e dores estomacais que,
aparentemente, não tinham explicação. Não conseguindo assimilar-lhe a presença, não por estar desencarnado mas por vibrar
tanto ódio, ela passava mal e desmaiava.
Percebendo que ia desmaiar, ainda conseguiu juntar forças e chamou baixinho:
- Mãe...
Tombou o corpo para trás e desabou sobre a cama, inconsciente. Em seu quarto, Elisete lia uma revista de modas, ao lado
do marido, que estudava alguns documentos.
- Ouviu alguma coisa? - perguntou ela, erguendo os olhos da revista.
Bernardo, sem desviar a atenção dos papéis que tinha nas mãos, retrucou sem interesse:
- Não.
- Não ouviu nada?
- Não. Por quê?
- Não sei. Parece-me que ouvi Clarinha chamar.
Ele ergueu os olhos dos documentos e apurou os ouvidos, tentando ouvir alguma coisa.
- Não ouço nada. Deve ter sido impressão. -Acho melhor ir ver se está tudo bem.
Elisete levantou-se, vestiu o penhoar e dirigiu-se ao quarto da filha. Bateu levemente e chamou-a, mas ninguém respondeu.
Vagarosamente, abriu a porta e olhou. Clarinha estava estirada sobre a cama pálida feito um boneco de cera. Elisete correu
para ela e pôsse a gritar:
- Bernardo! Bernardo! Acuda!
No mesmo instante, Bernardo apareceu. Vendo a filha jogada na cama como se estivesse morta, assustou-se.
- O que aconteceu?
- Oh, Bernardo, não sei. Cheguei aqui e encontrei Clarinha assim.
Bernardo tomou-lhe o pulso. Parecia um pouco alterado, mais fraco que o habitual.
- Acho melhor chamarmos um médico.
- Depressa, querido, por Deus!
- Melhor. Vamos nós mesmos levá-la a uma emergência.
Bernardo correu para seu quarto e se trocou, e Elisete fez o mesmo, apanhando ainda algumas roupas da filha no armário.
Em seguida, Bernardo ergueu a filha no colo, ainda de camisola, abriu a porta e saiu com ela, seguido por Elisete, que não
parava de chorar:
- Minha filha! Minha filhinha!
A seu lado, o espírito de Adriano acompanhava tudo sem entender. Ele amava Clarinha. Pensava que ela o amasse também. Mas
devia estar enganado. Se o amasse, não estaria pensando em outro com tanta insistência. Será que fora por isso que passara
mal? Já era a segunda vez que aquilo acontecia, e ele não conseguia entender por quê.
Já haviam chegado ao carro, e Adriano, desesperado, falou para Elisete:
- Dona Elisete, desculpe-me. Sou eu, Adriano. Não fiz por mal.
Elisete não ouviu nada, mas sentiu sua aproximação e arrepiou-se toda.
- Credo! - exclamou ela, assustada.
- O que foi? - indagou Bernardo, que acabara de ajeitar a filha no banco de trás.
- Sei lá. Senti um arrepio esquisito.
- Deve ser o ar da noite.
Bernardo deu partida no automóvel e saiu em disparada, rumo
ao hospital, deixando Adriano sozinho na garagem escura. Quando chegou, a emergência estava praticamente vazia, e Clarinha
logo foi atendida. O médico de plantão era outro mas, como seu colega da primeira vez, não conseguiu encontrar nada de errado.
Depois de examiná-la detidamente, virou-se para Bernardo e, fixando-lhe bem o rosto, falou:
- Creio que já o conheço.
- E? - tornou Bernardo curioso. - De onde?
- Sua filha não era noiva de Adriano, filho de Flávia e Paulo Lopes Mandarino?
Bernardo ergueu as sobrancelhas, surpreso, e retrucou: - Isso mesmo.
- Sou Feliciano, médico de Flávia. Não se lembra de mim?
O outro estreitou os olhos, puxando pela memória e, conseguindo finalmente lembrar-se dele, tornou:
- Ah, isso mesmo! Agora me lembro. Como vai? Apertaram-se as mãos com simpatia, e Feliciano observou: - Já faz algum tempo
desde a última vez que nos vimos.
- E verdade. Mas você esteve presente ao funeral de Adriano,
não esteve?
Feliciano balançou a cabeça e observou: - Estive, sim.
- Uma coisa horrível perder um filho na flor da idade. - Deus tem seus mistérios...
Elisete veio se aproximando, e Bernardo logo a introduziu ao médico:
- Elisete, lembra-se do Dr. Feliciano, médico de Flávia, mãe de Adriano?
Ela o olhou espantada e, recordando-se dele, estendeu-lhe a
mão, que ele tomou com cortesia, e acrescentou: - Lembro-me, sim. É um prazer revê-lo. - O prazer é todo meu, senhora.
- Não sabia que trabalhava neste hospital.
- Trabalho aqui há muitos anos, mas só faço plantão duas vezes por semana. Hoje, sou apenas clínico geral e tenho um consultório
particular em Copacabana. Já estou ficando velho para levantar no meio da noite para fazer partos.
-Que sorte encontrarmos justo o senhor-felicitou-se Elisete. - Mas diga-me doutor: O que minha filha tem?

- Ela já fez o exame de sangue, e o resultado deve sair por estes dias - acrescentou Bernardo.
- Sei. Bem, não posso dar um diagnóstico sem ver os exames. Mas sua filha, aparentemente, não tem nada.
- Como, não tem nada? - surpreendeu-se Elisete. - Já é a segunda vez que isso acontece.
- Eu sei, mas examinei-a e não constatei nada de errado. Por isso precisamos esperar o resultado do exame de sangue. Façamos uma
coisa - ele levou a mão ao bolso e tirou um cartãozinho, estendendo-o a Bernardo. - Assim que tiverem o resultado, liguem para meu
consultório e marquem uma consulta. Tratarei dela pessoalmente, se
vocês quiserem, é claro.
- É claro que queremos -concordou Elisete. -O senhor é um
médico muito conceituado, e ficaremos mais tranqüilos sabendo que
nossa filha está em boas mãos.
- ótimo. Então está combinado. Aguardo um chamado de vocês.
Voltaram para perto de Clarinha, que estava acordada, conversando com a enfermeira.
- Sente-se melhor, minha filha? - indagou Elisete. - Sim, mãe. O que aconteceu? - Você desmaiou de novo.
Ela olhou para o médico, parado mais atrás, e sorriu para ele. - Oi, Dr. Feliciano, tudo bem? Não esperava vê-lo aqui.
Ele sorriu de volta e contestou:
- Não, minha cara. Eu sou médico, e este é meu local de trabalho. Quem não deveria estar aqui é você, uma jovem tão forte e saudável.
Olhando-os com cara de espanto, Bernardo perguntou:
- Você ainda se lembra do Dr. Feliciano, minha filha?
- É claro, papai. Já o encontrei algumas vezes no centro espírita que Dona Inês freqüenta, não é, doutor?
Bernardo e Elisete olharam para ele ao mesmo tempo. Não sabiam que o médico era espírita e, muito menos, que Clarinha ia
a um centro. Aquilo os deixou chocados, e Bernardo foi o primeiro a falar:
- Centro espírita? Mas que bobagem é essa? - Não é bobagem nenhuma, pai.
Bernardo não disse nada. A filha não se sentira muito bem e, em consideração a ela, não faria nenhum comentário. Por enquanto.
Mas, assim que ela se recuperasse, teriam uma conversa séria. E Bernardo já estava começando a duvidar da capacidade daquele
médico. Um homem estudado, culto, inteligente. Como se deixara envolver por aquelas crendices?
Esperou até que Clarinha se trocasse, pegou-a pelo braço, agradeceu a Feliciano e saiu com ela. Espiritismo... pois sim.
Sua filha não se envolveria com aquelas crendices. Isso é que não! Era uma moça linda, inteligente, bem nascida. Não permitiria
que ela se envolvesse com aquelas besteiras. Talvez até fosse por isso que estivesse passando mal. Na certa, davam-lhe aquelas
infusões feitas com ervas de que já ouvira falar, além daquelas comidas esquisitas. Só podia ser isso. Não podiam fazer-lhe
nenhum bem.
- Não vou permitir um absurdo desses - esbravejava Bernardo. - Minha filha não vai se envolver com fetichismos.
- Mas, papai - protestou Clarinha -, não é nada disso. Você nunca foi, não sabe como é. Como pode julgar algo que não conhece?
- Não preciso ir para saber que não serve. Tudo ligado à espiritualidade é besteira. E macumba, coisa de gente ignorante...
- Não, pai, está enganado. Primeiro, porque não é macumba. Aliás, se quer mesmo saber, macumba é o nome de um instrumento
de percussão. O povo é que, por associação, estendeu o nome aos cultos africanos, porque o instrumento também é de origem
africana. É até parecido com um reco-reco.
Bernardo olhou-a admirado.
- Como sabe disso?
- Andei estudando. De qualquer forma, a macumba, como prefere chamar os cultos africanos, não tem nada de mais. É uma religião
como as outras, só que tem seus mistérios, seus rituais próprios, suas cantigas peculiares. É muito profunda e bonita.
- Clarinha! Você andou se metendo com essas coisas?
- Deixe de preconceito, papai. Embora não freqüente nenhum centro de umbanda, que é o que vulgarmente se chama de macumba,
respeito muito seu culto e sei que os que lá estão desenvolvem um
trabalho honesto e digno, voltado para a caridade e o autoconhecimento. E claro que em alguns lugares, infelizmente, os
freqüentadores não pensam assim, direcionando seus conhecimentos para práti
cas menos edificantes...
- Clarinha! - gritou o pai. - Você está proibida de se meter com essas coisas! Está proibida, ouviu?
Clarinha fitou o pai com desdém e retrucou calmamente:
- Você não me proíbe de nada.
- Proíbo, sim! Você é minha filha e me deve obediência.
- Sou sua filha, mas não sou propriedade sua. Tampouco sou uma criança. Já tenho vinte e cinco anos e sou uma mulher independente.
- Independente... pois sim. Acha que só porque tem um em
preguinho pode se sentir dona de seu nariz? Um empreguinho, aliás,
que eu arranjei?
Ela sentiu o sangue subir-lhe às faces e retrucou com raiva:
- Que você arranjou, mas que eu soube manter e me fazer
respeitar.
- Vá sonhando! Você só está lá por minha causa. Se eu quiser,
faço com que seja despedida hoje mesmo.
- Ah, faz, é? Pois experimente!
Saiu batendo a porta. Estava furiosa. Como o pai podia ser tão
preconceituoso? Discriminava tudo: mulheres desquitadas, espiritis
mo e sabe-se lá o que mais.

Quando Clarinha chegou ao escritório, o chefe mandou chamá
la. O pai agira rápido, pensou. Na certa, Aureliano ia despedi-la. Ela
bateu na porta e entrou, cabeça erguida, pisando firme.
- Bom dia, Dr. Aureliano. Mandou me chamar?
- Bom dia, Clarinha. Mandei, sim. Por favor, sente-se.
Ela se sentou defronte a ele e ficou a encará-lo. Se ia ser despedida, seria com dignidade. Não baixaria a cabeça para ninguém.
- Pois não - disse ela com voz firme.
O outro, pouco à vontade, permaneceu alguns instantes estudando-a, até que começou:
- Bem, Clarinha, sabe que estamos muito satisfeitos com seu trabalho aqui, não sabe?
Ela assentiu e ele continuou:
- Desde que você chegou, tem progredido muito. E inteligente e aprende rápido. Tem boas idéias e uma visão muito ampla do futuro. No entanto... - parou de falar
abruptamente.
- No entanto -completou ela, sentindo a raiva crescer dentro
de si -, meu pai telefonou para o senhor e pediu que me demitisse. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, e concordou: -
Isso mesmo. Como sabe?
- Ora, Dr. Aureliano, já faz algum tempo que descobri que foi meu pai quem arranjou este emprego para mim. - E isso não
a incomodou?
- Muito. Pensei até em pedir demissão. No entanto, refleti melhor e resolvi ficar. Gosto daqui e sei que o senhor aprecia
meu trabalho. Tenho consciência de que procuro fazer o melhor e nunca me aproveitei do fato de ser, digamos, "empistolada".
Resolvi ficar porque posso mostrar meu valor independentemente de meu pai. Foi fácil para ele me arranjar o emprego. Contudo,
mantê-lo foi outra história. E sei que não o mantive só por causa do nome de meu pai, mas sim pelos meus méritos. Não fosse
por isso, tenha certeza, Dr. Aureliano, eu já teria pedido demissão.
Aureliano encarou-a admirado. Aquela moça era muito corajosa e cheia de dignidade, e aquilo o agradou muito. Era de gente
assim que precisava.
- Pois é, Clarinha, foi o que eu disse a seu pai. Mas ele insistiu que a despedisse...
- Sinta-se à vontade. Sei como são essas coisas. Se acha que deve me despedir, despeça-me. Mas só o que lhe peço é que avalie
meu trabalho. Não sei o grau de amizade que o senhor tem com meu pai. Contudo, coloque numa balança meu trabalho e a amizade
que sente por ele, e veja para que lado ela pende. Seja para que lado for, saberei respeitar sua decisão e não lhe guardarei
mágoa ou rancor.
Cada vez mais impressionado, Aureliano retrucou:
- Clarinha, agora vejo que tomei a decisão certa.
- Como assim?
- Quando seu pai me telefonou, pedindo que a despedisse, falei a ele de seu trabalho e de seu valor, e disse-lhe que não
pretendia despedi-la.
- Não?
- Não. Você é um elemento muito valioso em minha empresa.
Tornou-se essencial. Não posso prescindir de seus serviços. Por isso, disse a seu pai que me perdoasse. Eu aceitara dar-lhe
o emprego em consideração ,à nossa amizade. Mas você se demonstrou muito competente, e não posso abrir mão de tanta competência
por causa do capricho de nenhum amigo. Disse a ele que não devíamos misturar as coisas. Amizade é amizade, trabalho é trabalho.
Afinal, é muito difícil encontrar bons profissionais, e não estou disposto a abrir mão de alguém tão capaz como você.
- Fala sério?
- Muito sério. E agora, conversando com você e conhecendoa melhor, tive certeza de que tomei a decisão certa. Além de inteligente
e capaz, você é uma mulher decidida, firme, corajosa e, acima de tudo, que sabe expor sua vontade sem implorar nem mendigar.
Sabe pedir sem se humilhar e é capaz de manter a altivez sem cair na arrogância ou na prepotência. Confesso que estou impressionado,
e é de pessoas assim que precisamos em nossa empresa.
Clarinha não sabia o que dizer. Não esperava por aquilo. Pensou que ia mesmo ser demitida e ficou surpresa com a reação
de seu chefe. Tentando conter as lágrimas, arrematou:
- Dr. Aureliano, nem sei como lhe agradecer... -Calou-se, a voz embargada pela emoção.
- Não precisa. Eu é que lhe devo agradecer a dedicação. Tenha certeza de que, se eu a despedisse, você logo arranjaria
outro emprego, e eu perderia uma excelente profissional.
- E meu pai? Não ficou zangado com o senhor?
Ele deu de ombros e observou:
- Infelizmente, ficou. Contudo, não posso pôr de lado os interesses de minha empresa, e ele sabe disso. Tenho certeza de
que mais tarde vai compreender e aceitar.
- Espero. Não gostaria de ser motivo de desavenças.
- E não é. Seu pai zangou-se comigo porque quis. Ninguém é motivo de nada na vida de ninguém. Se ficamos tristes ou felizes
com a atitude do outro, é porque essa atitude encontrou eco dentro de nós, foi ao encontro de nossos próprios ressentimentos
ou alegrias. O outro nada mais é do que um instrumento para que possamos experienciar nossos próprios sentimentos.
Dessa vez, foi Clarinha quem ficou admirada. Não esperava que ele falasse daquele jeito e expôs o que pensava:
- Dr. Aureliano, falando assim, o senhor até parece... - Espírita?
- É. - Não tenha medo de dizer. Sou um homem aberto a todas as novas idéias. Por isso, quando seu pai me disse o motivo pelo
qual queria que a demitisse, não pude concordar.
- O senhor sabe que sou espírita?
- Sei, sim. Pelo menos, foi o que seu pai me disse: que você anda
metida na macumba. - Ele riu gostosamente e continuou: - Mal
sabe ele que eu sou um macumbeiro de primeira! - Mentira! O senhor?
- Pois é. Para você ver. As pessoas são muito preconceituosas. Falam mal daquilo que não compreendem.
- E verdade.
- Bem, agora que estamos acertados, pode voltar ao trabalho, sem medo de ser despedida. Você só sai daqui se quiser.
- Obrigada, Dr. Aureliano, muito obrigada.
Clarinha saiu da sala de seu chefe sentindo-se uma vitoriosa. Conseguira o que mais queria na vida, que era manter seu emprego.
Agora que tinha sobre ele a saudável sensação de domínio, fruto da conquista, iria dar um rumo em sua vida. Estava decidida.
Iria morar sozinha.
Enquanto Fabrício dormia tranqüilamente em sua cama, Adriano, sentado a seu lado, remoía todo o seu ódio. O perispírito de
Fabrício, flutuando alguns centímetros acima do corpo, ainda não se dera conta da presença do irmão, até que este, com a
voz carregada de ódio, chamou-o pelo nome:
- Fabrício! Acorde! Quero falar com você.
Fabrício abriu os olhos em espírito e, vendo o irmão a seu lado, desligou-se do corpo e foi juntar-se a ele. Era a primeira
vez que o via, e alegrou-se com sua presença.
- Adriano! Há quanto tempo! Por onde tem andado?
- Por onde tenho andado? O que pensa? Que saí de férias? Eu morri!
- E lógico que não morreu. Seu espírito vive, você sabe. Deveria estar mais alegre.
- Como posso estar alegre se você tomou meu lugar?
- Tomei seu lugar? - tornou o outro, confuso. - Mas do que está falando?
- Ah! Não sabe, não?
-Não, não sei.
- Pois vou refrescar sua memória. Eu morri naquele acidente e você continua aí vivo, ocupando o lugar que deveria ser meu.
Fabrício entristeceu-se. Não sabia que o irmão estava com tanta raiva. Pensou que ele houvesse sido socorrido, mas agora,
reparando melhor, ele parecia uma espécie de demente. O corpo tinha a aparência de lesado. Havia sangue na testa, e os olhos
tinham um brilho estranho.
- Adriano, meu irmão, não entendo o que quer dizer.
- Não me chame de irmão! Nunca mais me chame de irmão, seu bastardo!
- Bastardo? Como assim?
- Não sabe mesmo, não é, idiota?
- O quê? Não sei o quê?
- Você é um intruso nesta casa. Devia voltar para o gueto de onde saiu.
- Gueto? Mas o que é isso? Não estou entendendo nada. - Você, Fabrício, não é...
- Adriano!
A voz severa de Ismael fê-lo parar. Ele se voltou bruscamente para
o avô e, com o ódio a consumir-lhe o coração, disparou: - Saia daqui, velho! Não chamei você! - Adriano, venha comigo.
- Ir com você? Ha ha ha! Era só o que me faltava.
- Venha comigo, Adriano. Você não tem o direito de importunar Fabrício.
- Importunar? Não o estou importunando.
- Está tentando fazer algo que sabe ser proibido. - Proibido por quem? Por você?
- Não. Pela divindade.
- Que divindade, que nada! Deixe de besteiras, velho.
- Adriano, estou lhe dando a chance de abrir os olhos e perceber seu erro. Se, contudo, não quiser me ouvir, serei obrigado
a tomar outra atitude.
- Não tenho medo de você, velho - e, apontando para Fabrício, continuou: - Quero apenas contar-lhe a verdade.
- Mas que verdade?- indagou Fabrício, atônito. -Não estou entendendo nada. E você, vovô, o que faz aqui?- completou, dirigindo-se
a Ismael.
- Vocês já se conhecem, é?- tornou Adriano.
- E lógico. Conheço Ismael de longa data. De vez em quando,
ele e Helga vêm me buscar para conversarmos, não é mesmo, vovô? Ismael assentiu e Fabrício continuou:
- Por falar nisso, onde está Helga? Ela não veio com você? - Virá daqui a pouco.
Helga não queria provocar ainda mais a fúria de Adriano. Sa
bendo que o rapaz se revoltara, preferiu deixar que Ismael cuidasse daquele assunto sozinho. Embora desejasse muito estreitar
Fabrício contra o peito, não achou direito tentar impor sua presença.
- Suma, velho! - continuou Adriano. - Ninguém precisa de você aqui.
- Engana-se, Adriano. Você precisa, e muito.
- Por que fala assim com nosso avô, Adriano? Deveria respeitá-lo mais. E, depois, se ele está aqui, é porque quer nosso bem.
- Cale-se, Fabrício! Sua voz de bonzinho me irrita! Vim aqui para lhe contar um segredo e é o que vou fazer, quer esse velho
queira, quer não!
- Que segredo?
Adriano olhou para Ismael e abriu a boca para falar. No mesmo instante, porém, sentiu-se amarrado e amordaçado, e logo tombou
ao chão. Sem que percebesse, algumas entidades haviam se aproximado e o agarrado, tapando sua boca com uma mordaça.
- Mas o que é isso, vovô?-perguntou Fabrício aterrado. -Por que essa violência toda? E quem são vocês? Soltem meu irmão.
Vovô! Faça alguma coisa!
- Deixe, Fabrício. Esses espíritos estão a serviço do bem.
-Como podem estar a serviço do bem usando de toda essa violência?
Adriano tentava, desesperadamente, desvencilhar-se do jugo do que ele chamava de seus algozes, mas era em vão. Os espíritos
eram em maior número e força do que ele, e só o que pôde fazer foi assistir impassível à sua derrota.
- Eles não estão sendo violentos- esclareceu Ismael. - Estão sendo enérgicos. Adriano não foi machucado nem ferido, mas
não tem o direito de intervir nas questões dos encarnados.
- Que questões? Por favor, vovô, o que está acontecendo? Não estou entendendo nada.
- Ainda não é o momento de você compreender, Fabrício, e foi por isso que tivemos de adotar métodos mais drásticos para
conter seu irmão. Ele não está autorizado a lhe contar nada. Dei-lhe a chance de desistir, por si mesmo, de revelar o que
não pode. Mas ele se recusou a ceder por bem. Infelizmente, vai ter de obedecer à força.
- Mas, vovô, coitado...
- Ele não é coitado. Ninguém é. E um espírito empedernido e
rebelde, que se recusa a enxergar a verdade. Está tendo todas as chances de progredir, mas não quer. Prefere continuar na
obscuridade e na ignorância, o que é um direito dele. Contudo, esse direito não pode interferir no direito dos encarnados.
E seu direito, nesse momento, é continuar vivendo como está.
- Mas, vovô, ele disse que tinha um segredo para me revelar. Que segredo é esse? Se é algo que se refira a mim, tenho o
direito de saber.
- Você tem uma série de etapas a vencer em sua vida, mas sua opção foi envolver-se em determinadas situações por outros
caminhos, não por intermédio de Adriano. Ao menos, não diretamente. Nenhuma utilidade lhe trará a revelação desse segredo
neste instante e nestas condições. Sim, é claro que você tem o direito de saber. Ainda mais porque você escolheu viver esse
segredo. Mas desvendá-lo agora somente iria complicar sua jornada evolutiva. Você deve acertar-se primeiramente com seu
pai. O ódio de Adriano é outra história.
- Está sendo muito severo, vovô. Amanhã, ao acordar, prova
velmente já terei esquecido tudo que aconteceu aqui hoje.
- Ainda assim, Adriano não tem esse direito. Ele precisa apren
der a conhecer seus limites.
Mesmo sem entender, Fabrício não disse nada. Se o avô lhe dizia que não era ainda o momento, ele acreditava e se resignava.
Contudo, doía-lhe ver o irmão caído no chão, subjugado como se fosse um criminoso.
Adriano, por sua vez, roía-se por dentro. Fora obrigado a ouvir aquela conversa sem poder dizer nada. Estava com tanto ódio
que seria capaz de matar o irmão. Contudo, as amarras eram poderosas, e ele não via meios de se soltar.
Com um sorriso bondoso, Ismael despediu-se de Fabrício e, a um sinal seu, os espíritos auxiliares ergueram Adriano e o conduziram
para fora. Ele foi se debatendo e grunhindo feito um animal, mas teve de ir. Não lhe restava escolha.
Do lado de fora, Ismael deu ordens para que levassem Adriano a uma colônia espiritual muito peculiar. Era uma espécie de
prisão. Os quartos eram como celas. Todas as portas eram trancadas. Só que tudo era muito limpo e perfumado, as paredes
pintadas de branco, vasos com flores, janelas com cortinas que se abriam para imensos jardins. Pareciam quartos de hospital. A única diferença eram as por
tas trancadas e as barras nas janelas.
Os auxiliares colocaram Adriano em uma das celas com todo o
cuidado e, em seguida, desataram os nós e retiraram-lhe a mordaça,
postando-se bem ao lado de Ismael. Logo que se viu solto, Adriano
investiu contra o avô, tentando agarrar-lhe o pescoço.
- Cachorro! - gritava ele. - Ordinário! Canalha! Vai me pa
gar caro por esta humilhação!
No mesmo instante, foi agarrado pelos auxiliares e jogado so
bre a cama.
- Adriano-falou Ismael com ternura. -Acalme-se. Estou aqui
para ajudá-lo.
- Ajudar? Como, se mandou esses brutamontes me agarrarem? - Eles são apenas espíritos, como você. E estão me prestando um
serviço.
- Belo serviço esse... de guarda-costas...
- Não, Adriano, eles apenas cuidam para que você não se pre judique.
- Eu, me prejudicar? Eles estão defendendo é o seu pescoço. - Ao contrário de você, meu filho, meu espírito já está mais
refinado e, ainda que desejasse, você não conseguiria me ferir. Suas
mãos nada podem contra mim e atravessariam a matéria plasmada
que você chama de pescoço.
Confuso, Adriano começou a se acalmar e retrucou com voz chorosa:
- Por que me trouxe aqui? - Foi preciso. - Estou preso? - Não.
- Então solte-me. Deixe-me ir. - Ainda não.
- Que lugar é este?
- É apenas uma colônia-retiro, para onde são trazidos espíritos que, como você, pretendem interferir na vida dos encarnados sem a permissão do Alto.
- Colônia-retiro? Belo nome para uma prisão.
- Não importa o nome que você lhe dê. O que importa é o trabalho que desenvolvemos aqui.
Adriano virou o rosto para seus detentores e ponderou:
- Peça a eles que me soltem, Ismael. Não sou nenhum condenado.
- Promete que não vai tentar nada?
- Prometo.
Ismael balançou a cabeça, e os espíritos o soltaram. Ele se levantou, aproximou-se da janela e elogiou:
- Bonito lugar. E para que os presos não se sintam na prisão?
- É para que os espíritos aqui acolhidos se sintam confortados.
Adriano olhou para Ismael Pela primeira vez, sentiu uma pontada de emoção. Tudo que ele falava, o avô rebatia com palavras
de ternura e compreensão. Aquilo acabou por comovê-lo, e ele, cansado das lutas e da revolta, desabou sobre a cama, afundou
o rosto entre as mãos e desatou a chorar. Ismael fez sinal para os auxiliares, que saíram discretamente, fechando a porta
sem fazer barulho.
Calmamente, aproximou-se do neto e tomou-lhe a cabeça entre as mãos, beijando-a com carinho. Adriano, emocionado, estendeu
os braços e agarrou-se a ele, entregando-se a um pranto convulso e sentido.
- Oh, céus! - suplicou. - Por que tive de morrer? Por quê? Eu não queria!
Ismael alisou-lhe os cabelos e ponderou:
- Você não morreu, Adriano. Apenas trocou de dimensão.
- Dá no mesmo. Não queria esta dimensão. Queria aquela, onde Fabrício hoje vive, ocupando meu lugar de filho. - Não fale assim. Fabrício é seu irmão.
- Não, não é. E um bastardo, um intruso!
- Pena que você veja as coisas desse jeito. Quem mais sofre com tudo isso é você.
- Mas não é justo...
- A justiça divina é perfeita, meu filho, porque fica a cargo de uma das perfeições de Deus, que é a nossa própria consciência.
Por isso Ele não precisa nos castigar nem nos impingir nenhum sofrimento. Deus não quer a dor de Suas criaturas. Quer seu
crescimento. Ninguém precisa sofrer para crescer. Sofremos porque ainda não conseguimos entender que a dor só é necessária
quando não acreditamos que podemos aprender pela via do amor.
- Tudo isso é muito bonito. Mas eu estou sofrendo. E onde está Deus, que não evita meu sofrimento?
Apontando para o coração de Adriano, Ismael respondeu com doçura:
- Ele está aí dentro. Basta que você acredite em si mesmo, e Deus se manifestará em você.
O pranto sacudia o peito de Adriano, que não conseguia mais falar. Sentia-se arrasado, vencido, derrotado. Como fazer para
conseguir seu intento?
Percebendo-lhe a confusão de sentimentos, Ismael continuou:
- Não pense em destruir a vida de seu irmão, porque você não vai conseguir. Ninguém é mais forte do que Deus, e as leis
divinas dizem que a você não é dado o direito de intervir.
- Por quê? Sei que muitos espíritos conseguem até se vingar.
- Isso depende das necessidades de cada um. Alguns encarnados são mais suscetíveis, por diversas razões, aos ataques do
invisível, porque ainda estão impregnados de ódio, de culpa, de medo... Os motivos são muitos e os mais variados. Ainda
assim, quando a sintonia entre o encarnado e seu agressor invisível acontece, é porque, de alguma forma, isso será útil
para ambos, seja para que eles experimentem sensações necessárias ã compreensão de seus processos de amadurecimento, seja
para que se disponibilizem e contribuam com o esclarecimento um do outro. Não importa. O fato é que nem todos estão acessíveis
a esse tipo de intervenção.
- E Fabrício não está.
- Não. Fabrício tem sua própria vida para viver. Vai passar por momentos difíceis e dolorosos, mas sem seu concurso direto.
Você não tem acesso a ele, Adriano, por mais que queira prejudicá-lo. Por isso, não está autorizado a contar-lhe a verdade
sobre sua origem.
- Mas ele tem de saber! Como ele mesmo disse, é um direito dele.
- Não procure ocultar seu ódio por detrás dos direitos de seu irmão. Você quer lhe contar, não para esclarecê-lo, mas para
se vingar. E ou não é?
Adriano baixou a cabeça e concordou:
- Está certo, admito. Mas, droga, também sou humano!
-Ninguém está dizendo o contrário. Só que Fabrício também é. E, quer queira, quer não, ele é exatamente igual a você.
- E, por isso, você resolveu me manter prisioneiro aqui?
- Você não é prisioneiro. Vai permanecer apenas o tempo su
ficiente para se harmonizar. Quando aceitar o fato de que está proi
bido de contar algo a Fabrício e se dispuser a calar, poderá partir.
- Poderei? E como você vai saber que manterei minha palavra? - Saberei.
- Se não a mantiver, voltarei para cá?
- Se tentar falar de novo, irei a seu encontro exatamente como fui hoje. Você será novamente trazido para cá e passará um
tempo recluso. Mas isso não acontecerá para sempre. Lamentavelmente, se você insistir nesse caminho, cruzarei meus braços
e o deixarei entregue apenas a meus auxiliares.
- Como assim?
- Eles são espíritos que habitam os mundos inferiores e que se oferecem para nos auxiliar com os espíritos mais endurecidos,
a fim de que possam, trabalhando a favor do bem, ir se libertando de suas culpas.
- Não entendi. Por que não pedem logo para vir para cá ou qualquer outro lugar melhor?
- Porque não têm coragem. Não se julgam dignos. Não sabem que podem. Não acreditam quando lhes dizemos que podem sair das
sombras no momento em que assim desejarem. Nós sabemos que todos podem e são dignos da misericórdia divina, mas não podemos
impor nada a ninguém. O livre-arbítrio é sempre respeitado, e, se um espírito insiste em se punir, embora saibamos que isso
seja desnecessário, só o que podei-nos fazer é respeitá-lo. Respeitando o momento de cada um, damos a chance aos espíritos
de se descobrirem e se perdoarem.
- Sei. Mas o que esses auxiliares poderiam fazer comigo?
-Não se iluda com eles, Adriano. Embora estejam começando a despertar para as verdades do espírito, ainda estão muito arraigados
aos valores terrenos. São como soldados que obedecem ao comando de seu superior, mas nada decidem por si sós. Se acham
que você está fazendo algo que não deve, tratarão de afastá-lo e seguirão as ordens de quem estiver no comando. Quando a
meu serviço, trarão você para cá. Mas, se eu cruzar os braços, se não lhes der mais nenhuma ordem, seguirão aquelas de seus
superiores das trevas e o levarão às cidades do mundo inferior. Lá, você será aprisionado ou cairá nas mãos de espíritos
poderosos que o escravizarão e o disponibilizarão para o serviço do mal.
- E se eu não quiser?
- Se não quiser mesmo, de verdade, não se afinará com eles e não os atrairá. Em outras palavras, não pensará em fazer aquilo
que sabe que não pode.
Adriano calou-se pensativo. Será que o que o avô dizia era verdade ou ele dizia aquilo só para assustá-lo e afastá-lo de
Fabrício? Já ia dizer alguma coisa, mas Ismael levantou-se e, fazendo-lhe um afago, foi para a porta.
- Descanse. Mais tarde, Ciça virá visitá-lo e lhe trará algo para comer.
Saiu e trancou a porta, deixando Adriano sozinho para refletir. Era tudo de que precisava naquele momento: refletir sobre
suas necessidades e sobre o que desejava realmente. Só quando despertasse sua consciência é que poderia sair dali.
Enquanto se arrumava para sair, Fabrício ficou pensando no caso de Selena. Estava claro que iriam vencer. Ele apresentara
a fita como prova contra Cassiano, que não teria como refutá-la. Por mais que quisesse e que a submetesse a qualquer tipo
de perícia, estaria claro que a fita não fora montada e que as vozes ali contidas eram, efetivamente, dele, de Aderbal e
de Cassiano. Parecia-lhe perfeito.
Terminou de ajeitar o nó da gravata e olhou-se no espelho. A mãe entrou no quarto, cuja porta estava entreaberta.
- Olá, meu filho.
- Oi, mãe. Como está?
- Bem...
As reticências que ela deixou no ar fizeram-no pensar que algo de errado estava acontecendo, e ele tratou logo de indagar:
- O que houve? Tudo bem? Você parece preocupada.
Ela encarou o filho com imenso desgosto. Em seu íntimo, sabia que ele estava prestes a descobrir a verdade e, por mais
que desejasse, não poderia evitar. Flávia suspirou profundamente, segurou nos olhos uma pequenina lágrima que teimava em
cair e retrucou:
- Não é nada, meu filho. Ando cansada.
- Não seria melhor consultar um médico? Se quiser, posso ligar para o Dr. Feliciano.
- Não, não precisa. Tenho certeza de que não é nada de mais.
Fabrício foi até o armário e retirou sua pasta de trabalho, nela colocando alguns papéis importantes que estudara durante
a noite. A medida que ia ajeitando os documentos, ia comentando:
- Sabe, mãe, ontem sonhei com Adriano.
- Sonhou? Foi um sonho bom ou ruim?
- Não sei ao certo. Mas me pareceu que ele estava muito revoltado.
Flávia fez uma expressão de tristeza e, com os olhos rasos de água, desabafou:
- Ah, meu filho, como sinto falta de seu irmão!
Fabrício largou o que estava fazendo e sentou-se junto a ela, abraçando-a com ternura.
- Eu sei, mãe. Todos sentimos.
De repente, ela desatou a chorar convulsivamente. Estava amargurada, com medo do futuro. Perdera um filho e estava prestes
a perder o outro. Tinha medo da reação de Fabrício se soubesse a verdade. Embora ele fosse um rapaz muito espiritualizado,
temia que se revoltasse com o fato de ela não lhe haver revelado a verdade desde cedo. E, depois, talvez ficasse com raiva
do pai. A vida inteira, Paulo sempre o discriminara. E, agora, mais do que nunca.
- Não chore, mãe - Fabrício interrompeu seus pensamentos, estreitando-a cada vez mais. - Sei que um filho não substitui
o outro, mas estou aqui para lhe dar meu amor.
- Tem razão - sussurrou ela, enxugando os olhos com as costas das mãos. - Seu amor é meu único conforto. Não gostaria de
perdê-lo também.
- Mas o que é isso, mãe? Não vai me perder. O que aconteceu a Adriano foi o destino, mas não creio que o meu seja esse.
Acho que escolhi viver muitos anos.
Ela sorriu agradecida e baixou os olhos. Não era a esse tipo de perda que se referia, mas achou melhor se calar.
Ouviram batidas na porta e olharam ao mesmo tempo. Era Olívia, que vinha avisar que havia alguém ao telefone, pedindo para
falar com Fabrício.
- Disse quem é?
- Não. Só disse que era urgente.
Ele deu um beijo na testa da mãe e se levantou. - Vou atender na biblioteca.
Entrou e fechou a porta. Levantou o fone do gancho e disse: - Alô?-Não houve resposta. -Alô? Alô? Quem é? Quem fala? Um
clique do outro lado indicou-lhe que haviam desligado.
Quem seria? Embora não tivesse certeza, podia imaginar.
Novamente, bateram à porta, e dessa vez foi Flávia quem entrou, trazendo nas mãos um envelope pardo.
- Isso acabou de chegar para você.
Ele apanhou o envelope e ela continuou:
- Quem era ao telefone?
Não querendo preocupá-la, ele respondeu com indiferença:
- Um cliente desmarcando um compromisso.
O envelope continha algo um pouco pesado. Não era uma carta, com certeza, e Fabrício rasgou-o em uma das extremidades, virando-o
sobre a mesa para que seu conteúdo pudesse cair. No mesmo instante, Flávia levou a mão à boca, sufocando um grito de pavor.
- Meu Deus! - exclamou ela, após o primeiro susto. - Quem teria feito uma maldade dessas?
Olhando para o ratinho morto à sua frente, asfixiado com um saquinho plástico de balas, Fabrício respondeu, já compreendendo
tudo:
- Não sei, mãe. Deve ser alguma brincadeira de mau gosto.
- Brincadeira? O pobre animalzinho foi torturado! Quem fez isso não tem coração.
Fabrício tinha certeza de que tanto o telefonema quanto aquele rato tinham vindo da mesma pessoa: Cassiano. Ele o estava
ameaçando. Provavelmente, já soubera da anexação da fita aos autos e estava tentando um último e desesperado recurso.
Ele virou o envelope nas mãos e acrescentou:
- Não tem remetente.
- Fabrício, isso não está me parecendo nenhuma brincadeira. Parece mais algum tipo de ameaça. Em que anda se metendo, meu
filho?
Ele olhou para a mãe, tentando acalmá-la. Lembrou-se da conversa que tiveram minutos antes e não quis preocupá-la. Se ela
soubesse que aquilo, provavelmente, viera da parte de Cassiano, ficaria muito nervosa.
Apanhou o ratinho com um pedaço de papel, colocou-o de volta no envelope e respondeu, tentando aparentar uma calma que,
efetivamente, não sentia:
- Não fique preocupada. Isso não é nada sério. Foi apenas uma brincadeira, tenho certeza.
Beijou-a levemente na face e saiu, levando o envelope com o ratinho. Aquilo era coisa de Cassiano, não tinha dúvidas. Pena que não podia provar. O envelope não continha
nenhuma carta,
nem remetente, nem nada. Qualquer um poderia ter feito aquilo, e o juiz não se convenceria de que fora Cassiano.
Fabrício colocou o envelope na lixeira, voltou para buscar sua pasta e foi trabalhar. Já na rua, ia preocupado. Aquele homem
era perigoso e bem poderia fazer algo que prejudicasse Selena e as crianças. Não tinha dúvidas de que ele não hesitaria
em fazer-lhes algum mal. Não se importava com ninguém, nem com os filhos, e tudo que queria era dinheiro.
Chegou ao escritório e não disse nada. Não precisava preocupar Ofélia desnecessariamente. Já bastava a mãe. Atendeu alguns
clientes, foi ao fórum e, no final da tarde, apanhou o carro e dirigiu-se para a casa de Inês. No caminho, pareceu-lhe que
alguém o seguia. Olhou diversas vezes pelo retrovisor e constatou: um sedã preto seguia-o a distância, fazendo ultrapassagens
arriscadas para não o perder de vista.
Mas o velho sedã do perseguidor não era páreo para seu moderno jaguar E-Type importado, e Fabrício, exímio motorista, acelerou
o automóvel e passou no sinal amarelo, deixando o sedã preso três carros atrás, parado no sinal vermelho. Mais que depressa,
entrou por uma rua lateral e fez o retorno, voltando para o centro da cidade pelas ruas de dentro, enquanto o perseguidor
passava direto e o perdia.
Com medo de tomar a direção da casa da avó, fez o percurso de volta e dirigiu-se para Copacabana. Fosse quem fosse que o
seguia, se descobrisse onde Selena estava escondida, seria muito perigoso. Era preciso, antes de tudo, preservar Selena
e as crianças. Além disso, sua avó já era uma senhora idosa, e ele temia também pela segurança dela.
Ao chegar em casa, apanhou o telefone e discou o número da casa da avó. Foi ela mesma quem atendeu, e Fabrício contou-lhe
o ocorrido. Inês ficou deveras preocupada. Depois que desligou, foi falar com Selena.
Ela estava sentada no sofá, vendo televisão, tendo a filha de um lado, com a cabecinha pousada em seu colo, e Carlinhos do
outro, ambos dormindo sossegadamente. Vendo aquela cena, Inês sorriu. Selena era uma mãe carinhosa e meiga, e os filhos
a adoravam.
- Dormiram?
- Sim - fez Selena, alisando os cabelos de ambos ao mesmo tempo.
- Vamos levá-los para o quarto?
- Vamos.
Inês se abaixou e tomou Carlinhos no colo, e Selena pegou Sel
ma, que gemeu e se ajeitou em seu ombro. Subiram e os colocaram
em suas camas. Selena beijou-os amorosamente, acendeu a luz do aba
jur e saiu com Inês, deixando a porta aberta, como sempre. De vol
ta à sala, Inês foi logo falando:
- Selena, temos um problema. - Que problema?
- Sabe a fita que Fabrício gravou? Pois é. Ele acha que Cassiano já sabe que ele a juntou aos autos, e recebeu um telefonema mudo
e um envelope com um ratinho morto...
- Ratinho morto? Como assim?
- Alguém asfixiou um ratinho com um saco de balas e enviou para ele num envelope.
- Meu Deus! Que horror!
- E hoje, quando vinha para cá, foi seguido por um sedã preto.Por sorte, conseguiu despistá-lo.
- Nossa, Dona Inês, será que foi Cassiano? - Só pode ter sido.
- Mas ele não tem carro.
- Então, foi alguém a mando dele. Quem mais teria interesse em ameaçar Fabrício e em segui-lo? Ele me disse que nenhum de seus
casos envolve pessoas desse tipo. Só pode ter sido Cassiano.
- O que vamos fazer?
- Não sei. Mas ele acha que Cassiano está tentando descobrir onde você está escondida.
- E agora? Será que corremos perigo?
- Não sabemos. Por isso, Fabrício acha prudente que você e as
crianças não saiam sozinhas.
- Mas, Dona Inês, não posso ficar prisioneira. - E apenas por uns tempos.
Abraçada a Inês, Selena pôs-se a chorar. Logo agora que tudo parecia estar tomando o rumo desejado, Cassiano resolvia dar uma de
louco e apavorá-la. Selena não temia por ela, temia pelos filhos. Ja
mais permitiria que o marido lhes fizesse algum mal. Em silêncio, fechou os olhos e orou a Deus. Só Ele poderia ajudá-los.
Cassiano andava de um lado para o outro na sala de seu apartamento, enquanto Aníbal, fumando um cigarro, fazia rodelas com
a fumaça e as soltava no ar.
- Você é um idiota! - bufava Cassiano. - Como pôde perdêlo de vista?
- Não sei. Ele me enganou. Ele passou no sinal amarelo e eu fiquei no vermelho. Não deu tempo.
- Se o estivesse seguindo mais de perto, isso não teria acontecido.
- Fiquei com medo de que percebesse.
- E claro que ele percebeu. Senão, não teria acelerado daquela maneira. E você é um cretino! Devia ter prestado atenção
na rua em que ele virou.
- Como eu podia saber que ele ia entrar em outra rua? Não sou adivinho.
- Você não presta para nada mesmo. E agora? Como vou descobrir onde Selena escondeu meus filhos?
- Ouça aqui! - esbravejou Aníbal, já perdendo a paciência. - Estou nisto porque você é meu irmão e me pediu para ajudá-lo.
Mas, se quer me ofender, vou-me embora. Não conte mais comigo.
- Não! - exclamou o outro. - Não quero ofendê-lo, Aníbal. Estou nervoso. Pensava que tinha aquela ordinária nas mãos, mas
tudo está indo por água abaixo.
- Ninguém mandou você e aquele seu advogado serem tão estúpidos. Onde já se viu falar aquelas coisas no território do inimigo?
O que esperava? Que ele lhe desse flores?
- Não podia imaginar que ele estivesse gravando a conversa. - Você, não. Mas seu advogado tinha a obrigação de prever. É
pago para quê?
- O Dr. Aderbal estava morrendo de medo. Não fosse a grana que lhe prometi, não teria entrado nesta.
- Pois é. Só que agora deu no que deu. - O que vamos fazer?
- Não sei. Mas posso tentar segui-lo de novo.
- Isso é que não! Ele já conhece seu carro e pode muito bem avisar a polícia. A última coisa de que precisamos agora é sermos presos. Aníbal apagou o cigarro no
cinzeiro e apanhou a garrafa
de cachaça, servindo-se de uma dose e estalando a língua.
- Ah! Nada como uma boa branquinha!
Sem prestar atenção àquele comentário, Cassiano mudou de assunto:
- Gostaria de ter visto a cara dele quando viu aquele rato.
- Foi uma idéia brilhante, não foi?
- Digna de um gênio. De onde a tirou?
- Não me lembro direito. Li algo parecido num livro. Mas será que essa ameaça vai surtir efeito? Acha que ele vai voltar
atrás e desistir de apresentar a fita?
- Pelo que já deu para conhecer desse doutorzinho, acho que ele não é homem de se deixar intimidar por qualquer coisa.
- E se ele apresentar mesmo a fita? Como vai se sair dessa?
- O Dr. Aderbal disse que talvez seja melhor tentarmos um acordo de verdade. Disse que o conteúdo da fita é altamente revelador,
comprovando que eu armei aquele flagrante e que não estou interessado no bem-estar das crianças.
- Que coisa!
- Pois é. Acho que ficamos sem saída. De qualquer sorte, vamos aguardar a audiência. E pouco provável, mas pode ser que
o juiz não aceite a fita como prova. Nem todos aceitam.
Cassiano não sabia quanto estava enganado. Sentado em seu gabinete no fórum, Otávio lia e relia a petição em que Fabrício
oferecia a fita como meio de prova. Se fosse mesmo como dizia, era altamente comprometedora e colocava Cassiano numa situação
bastante difícil. Fabrício afirmava que Cassiano não só preparara aquele flagrante com o irmão mas também pretendia transformar
as crianças em fonte de renda, o que era uma indignidade.
Aderbal estava apavorado, com medo de que o juiz fizesse uma representação à Ordem dos Advogados do Brasil e ele fosse punido
ou, pior, tivesse cassada sua licença para advogar. Se isso acontecesse, não sabia o que faria de sua vida. Por que se deixara
envolver naquela lOUCUra? Podia não ser um advogado brilhante nem muito honesto, mas jamais se metera numa falcatrua tão
grande.
Havia marcado com Cassiano em seu escritório às duas horas, e ele acabara de chegar. Como não tinha secretária, foi ele
mesmo atender. Fez com que Cassiano entrasse e se sentasse. Era uma sala pequena e suja, num prédio velho da Cinelândia,
sem ao menos uma ante-sala.
Cassiano sentou-se na poltrona rota e encardida e esperou. Meio sem jeito, Aderbal pigarreou e começou a dizer:
- Muito bem, Sr. Cassiano, em que bela enrascada nos metemos, hein?
Fixando-o com olhar irônico, o outro rebateu:
- Espero que já saiba como nos tirar dela.
- Sinceramente, não sei. A fita é muito comprometedora, não
só para você mas também para mim.
- Você tem de dar um jeito. Não pode me deixar na mão.
- Que jeito quer que dê? O melhor seria tentar o acordo.
- Mas que acordo? Acha que Selena, com um trunfo desses na
mão, vai querer entrar em acordo comigo? Só se fosse louca. Aderbal considerou durante alguns segundos. Cassiano tinha
razão: Selena não tinha mais nenhum motivo para negociar com ele. - Confesso que estou numa enrascada, Sr. Cassiano.
- Está? E eu? Estou prestes a perder tudo, porque você nem se
quer imaginou uma coisa tão simples como uma fita. Eu devia ter adi
vinhado. Aquele doutorzinho estava mesmo muito calmo. Só podia
estar aprontando alguma.
- Pois é. Caímos num truque muito simples.
- Será que você não tem como contestar aquela fita? Você mesmo disse que nem todo mundo aceita essas gravações.
- Posso tentar, mas acho difícil. Se o juiz a submeter a um exame técnico, o perito logo vai constatar que são as nossas
vozes e que não há montagens na fita. Estamos mesmo perdidos.
- Mas nós podemos negar. Ninguém poderá provar que somos nós mesmos.
- Não se iluda. Nossas vozes devem estar claras e bem reconhecíveis.
- Quando a ouviremos?
- O juiz marcou nova audiência para a semana que vem. - O que faremos?
- Nada. Acho que o melhor é nem comparecermos.
- Ficou louco? Se eu não for, aí é que o juiz vai dar ganho de causa a Selena.
- Ele vai dar de qualquer jeito. Perca as esperanças de uma sentença favorável a você. Selena já ganhou esta ação.
Durante alguns segundos, Cassiano ficou remoendo as palavras
de Aderbal. Não queria lhe dar razão, mas não conseguia enxergar nenhuma saída. Desesperado, levantou-se da cadeira e, aproximando
o rosto do advogado, falou baixinho:
- E se nós apagássemos o doutorzinho e aquela vagabunda?
- Ficou louco? - Aderbal estava perplexo. - Faça isso e, além de perder tudo, nunca mais verá a luz do sol. As provas contra
você são incriminadoras, e ninguém teria dúvidas de que estaria metido nisso. E, depois, o pai do Dr. Fabrício é um poderoso
e influente empresário. Acha que deixaria barato? Colocaria até a polícia internacional atrás de você.
Desanimado, Cassiano deixou-se cair na poltrona e resmungou:
- Diabos! Tem de haver uma saída.
- Infelizmente, não vejo saída alguma.
- Pensei até em seqüestrar as crianças, mas Aníbal não conseguiu seguir o doutorzinho para descobrir onde Selena as escondeu.
- Não faça isso! As penas para seqüestro são muito severas.
- Mas eu sou o pai!
- Um pai que está prestes a perder a guarda dos filhos.
Cassiano escondeu o rosto entre as mãos e suspirou desalentado. Tinha de haver um meio. Precisava pensar, e trataria de
agir sozinho. Daria um jeito naquele doutorzinho, ainda que fosse apenas para se vingar.
Parada na porta da varanda, Selena pensava em sua vida. Quando se casara, alimentava a ilusão de que seria um casamento perfeito,
apesar da oposição de seus pais. Cassiano não era rico, mas, até então, era gentil e carinhoso.
No primeiro ano, tudo correra como num sonho. Ele a surpreendia com flores, bombons, levava-a a lugares maravilhosos, até
lhe recitava poesias. Quando Selma nasceu, ele pareceu feliz e enviou diversos convites a seus pais para que fossem visitá-la.
Apesar de embevecidos com a neta, seus pais não mudaram de idéia sobre seu casamento e continuaram a não lhes dar nada.
Foi então que ele começou a se modificar. Deu para beber e só voltava para casa altas horas da noite, bêbado e agressivo.
Começou a tratá-la com desrespeito e grosseria. Sempre que chegava, cheirando a álcool, segurava-a à força e obrigava-a
a deitar-se com ele, possuindo-a com brutalidade e selvageria. Aquilo a desgostou
profundamente, e ela passou a rejeitá-lo. Ele então começou a lhe bater. Sempre que ela se recusava a fazer sexo com
ele, lá vinha pancada. Até que ela, com medo de apanhar, tornou-se passiva e deixou-se subjugar à vontade.
Foi nesse clima que Carlinhos nasceu. Quando Selena descobriu que estava grávida pela segunda vez, chegou a pensar em aborto.
Mas não teve coragem. Ficou a imaginar o rostinho inocente do bebê e sentiu que o amava. Cassiano podia ser um monstro nojento,
mas o filho em sua barriga era também seu, e ela não podia matar um ser cuja vida, naquele momento, dependia apenas dela.
Depois, Cassiano passou a bater nela por qualquer motivo. Mandava e gostava de ser obedecido, e, quando ela o contestava,
davalhe tapas no rosto e nas nádegas. Ela começou então a falar em desquite, mas ele se recusava a aceitar a idéia. veria
seu dinheiro; tinha sido para isso que se casara.
Fabrício fora sua salvação. Pensando nele, seu coração bateu mais forte. Sentia que o amava, mas só poderia ser dele no
dia em que se desquitasse de Cassiano. Embora todo mundo a discriminasse e a julgasse leviana e ordinária, era uma mulher
direita e não aceitaria viver nenhuma relação obscura ou ilícita. Já bastava a besteira que fizera, entregando-se a Aníbal.
Os filhos brincavam no jardim. Selma ganhara uma casinha de bonecas, presente de Clarinha, e ajeitava panelinhas, fogão,
geladeira. Carlinhos, que já ensaiava algumas palavras, brincava com Inês, batendo palminhas e balbuciando as músicas que
ela lhe cantava.
O menino começou a bocejar e a esfregar os olhinhos, choramingando e apontando para a mãe.
- Mamã, quê mamã...
Inês ergueu-o em seus braços e levou-o para junto de Selena, que o ajeitou no colo, e ele logo adormeceu.
- Já estava mesmo na hora do soninho da tarde, não é mesmo? -considerou Inês.
-já, sim.
- Quer levá-lo para cima?
- Não, deixe-o aqui. Gosto de senti-lo junto a mim.
Selena estreitou o filho junto ao peito e começou a chorar dis
cretamente, deixando algumas lágrimas caírem sobre sua cabecinha. - O que é isso, Selena? - falou Inês. - Por que ficou
tão triste?
- Desculpe-me, Dona Inês - respondeu ela, tentando conter os soluços. - Estava pensando em minha vida. Casei-me tão cheia
de ilusões...
- Não se martirize por isso. Você vai conseguir seu desquite, tem dois filhos maravilhosos, um homem que a ama. Não acha
que chegou a hora de enterrar as ilusões do passado e viver as alegrias do presente?
- Não sei. Temo que Cassiano faça alguma coisa contra mim ou contra meus filhos.
- Não tenha medo. Ele nada pode contra você ou as crianças.
- Como pode saber? O que lhe dá essa certeza?
Apontando para o alto, Inês respondeu convicta:
- Fé, Selena, a inabalável fé no Criador.
Como todos os sábados, costumavam receber a visita de Clarinha e de Fabrício, que chegavam sempre juntos. Naquele dia, porém,
Fabrício foi sozinho. Tocou a buzina e Inês foi abrir o portão. Ele passou vagarosamente com o carro e foi estacioná-lo
na garagem.
- Olá, Selena - cumprimentou ele, beijando-a na face. - O que houve? Estava chorando?
Ela tentou disfarçar e fez sinal com o dedo para que ele não falasse alto, a fim de não despertar o filho.
- Espere um instante. Vou colocá-lo na cama.
- Pode deixar que eu o levo - cortou Inês, estendendo o braço para apanhar o menino.
Selena beijou-o levemente e entregou-o a Inês, que subiu com ele para o quarto.
- Ainda não respondeu à minha pergunta - tornou ele. - Esteve chorando?
- Não é nada - respondeu ela, fungando de leve. -já passou.
Percebendo que ela não queria falar, Fabrício não insistiu. Sabia quanto ela devia estar sofrendo com aquilo tudo e soube
respeitar seu recolhimento.
- Tio Fabrício, tio Fabrício' - Selma veio correndo do jardim, toda chorosa, trazendo numa das mãos uma boneca e, na outra,
uma perna solta. - Olhe só. Quebrou...
- Não chore, Selma. Tio Fabrício conserta para você.
Enquanto ele tentava enfiar a perna da boneca de volta, Selena indagou:
- E Clarinha? Por que não veio com você?
- Ela me telefonou de manhã, dizendo que não estava bem. - O que ela tem?
- Não sei. Parece que anda tendo dores de estômago e desmaiando.
- É? Mas ela não me falou nada.
- Sabe como é Clarinha. Quer sempre dar uma de forte.
- Não terá sido por causa da discussão que teve com o pai? -Não. Parece que já vinha tendo isso há mais tempo.
Inês, que acabara de chegar e ouvira o final da conversa, observou:
- Por falar nisso, anteontem Feliciano me ligou. Disse que atendeu a Clarinha numa emergência.
- E mesmo? E falou o que ela tem?
- Não. Disse que ficou esperando que o pai dela a levasse a seu consultório, mas ele não apareceu. Contudo, acha que ela
não tem nada de físico.
- Ele acha que é espiritual?
- Acha.
- Estranho- observou Selena. - Clarinha vai sempre ao centro conosco, e nunca percebemos nada.
- Para falar a verdade, Selena, Clarinha não tem aparecido por aqui às quartas-feiras.
- É mesmo. Será que tem alguma coisa a ver?
- E bem possível. Muitas vezes, espíritos ignorantes, não querendo perder o contato com os encarnados, incutem-lhes o desânimo
e a ausência de vontade de ir. No fundo, têm medo de serem descobertos e obrigados a olhar para si mesmos. Não querem largar
suas vítimas e fazem com que elas não sintam vontade de procurar ajuda, pois só assim podem fazer o que bem entendem.
- Acha que é isso que está acontecendo com Clarinha, vovó?
- Pelo que Feliciano disse, é bem provável.
- Nossa! E o que faremos para ajudar?
- Precisamos convencê-la a ir. Não sei por quê, mas algo me diz que Adriano é responsável por isso.
- Adriano? Mas como, vovó? Adriano a amava. Por que lhe faria algum mal?
- Porque pode estar se enganando. Talvez nem perceba que a
está prejudicando. Por isso, a melhor maneira de ajudarmos os dois é fazendo com que ela vá ao centro. Mais tarde, vou telefonar
para ela.
Inês desceu as escadas da varanda, onde Fabrício e Selena estavam sentados, e foi juntar-se a Selma, que, feliz com a boneca consertada, brincava de casinha.
Em sua casa, Clarinha, deitada na cama, contorcia-se de dor. Elisete e Bernardo, desesperados, já pensavam em interná-la,
e ele corria de um lado para o outro, tentando achar o telefone do médico.
- Mas que droga! - maldizia. - Nunca se acha o telefone quando se quer!
- Ligue para o Dr. Feliciano, depressa! - implorou Elisete, aflita.
- Aquele curandeiro? Nunca!
- Então vamos levá-la ao hospital novamente! Por favor, ela está sofrendo!
Enquanto eles discutiam, Clarinha, apertando o ventre com força, gritava e se contorcia cada vez mais.
- Ai, mãe! Como dói! Não sei o que está acontecendo comigo! Dói muito!
- Calma! Bernardo, pelo amor de Deus, faça alguma coisa!
- Estou tentando chamar uma ambulância!
- Mãe, não agüento! Está doendo muito! Parece que me reviram as entranhas! Vou vomitar! Ajude-me, vou vomitar!
A mãe, desesperada, segurou o braço da filha, tentando ajudála a se levantar. Mas Clarinha não conseguiu e desmaiou, quase
derrubando Elisete.
- Bernardo, acuda! Ela desmaiou!
Bernardo correu para o quarto da filha. Vendo-a desmaiada, lívida como cera, apavorou-se. Ergueu-a no colo e, dirigindo-se
a Elisete, ordenou:
- Apanhe as chaves do carro! Depressa! Vamos levá-la ao hospital!
Enquanto seguiam em direção ao hospital, Elisete ia em silêncio, intimamente torcendo para que Feliciano estivesse de plantão
naquele dia. O exame de sangue da filha não acusara nenhuma anormalidade, e Bernardo levara-a a um especialista em doenças
gástricas. O médico passou uma bateria de exames, e nada. Clarinha não tinha doença alguma. Embora não soubesse explicar,
tinha esperança de que Feliciano pudesse ajudá-la.
Chegando ao hospital, foram atendidos por uma enfermeira, que deitou Clarinha na cama e saiu para chamar o médico. Pouco
depois, Feliciano apareceu, e Elisete quase pulou em seu pescoço.
- Graças a Deus, doutor! Tive medo de que não estivesse aqui
hoje.
Feliciano cumprimentou-os com simpatia, ignorando o ar de desagrado de Bernardo, e foi examinar Clarinha. Como da outra
vez, não encontrou nada de errado. Depois que ela voltou a si, receitoulhe um remédio para enjôos e foi falar com os pais.
- E então, doutor?- indagou Elisete, logo que ele se aproximou. - O que ela tem?
- Quer mesmo saber? Nada. Sua filha não tem nada.
- Mas isso é impossível - contestou Bernardo. - Tem certeza de que a examinou direito?
- Fiz todos os exames possíveis numa emergência. Contudo, alguns mais específicos e detalhados seriam recomendados.
- Sabemos disso, doutor - adiantou-se Elisete. - Já fizemos todos os exames possíveis. Nós a levamos a um especialista,
mas ele também não constatou nada.
- Hmm... estranho.
- Pois é. Começo a pensar que... - Calou-se temerosa, olhando de soslaio para o marido.
- Pensar o quê, Dona Elisete?
Tomando coragem, ela inspirou fundo e disparou:
- Começo a pensar se isso não é obra de um espírito malvado. - O quê? - indignou-se Bernardo. - Ficou louca, Elisete? De
onde tirou essa idéia?
- Não sei. Mas Clarinha não tem nada de físico. Ninguém descobre nada. Não acha isso esquisito?
- Esquisito, é. O que não significa que ela esteja sendo vítima de assombrações.
Não dando ouvidos ao que o marido dizia, Elisete virou-se para o médico e suplicou:
- Doutor, Clarinha disse que o senhor freqüenta o centro espírita de Dona Inês e que até ela já foi lá. Acha possível que
ela esteja sendo perturbada por algum espírito?
- Elisete, pelo amor de Deus! - gritou Bernardo, colérico. - Pare já com essa besteira!
Clarinha, que vinha chegando mais disposta, ouvindo aquela discussão, indagou assustada:
- O que está acontecendo aqui? Por que estão discutindo?
Bernardo aproximou-se dela, segurou-a pelo braço e saiu puxando-a para fora, enquanto dizia para a mulher:
- Venha, Elisete. Senão, mando interná-la num hospício. Você e sua filha!
Elisete lançou um olhar de profundo desgosto para Feliciano. Gostaria muito de pedir-lhe ajuda, mas Bernardo jamais consentiria.
Era um homem rígido e cético, e não acreditava em nada que não fosse obra do homem. Feliciano, porém, discretamente colocou
em suas mãos um cartão, que ela, mais que depressa, enfiou na bolsa. Sorriu para ele em agradecimento, rodou nos calcanhares
e seguiu o marido.
Saíram e ajudaram Clarinha a se acomodar no banco traseiro do automóvel. A seu lado, Adriano olhava-a sem conseguir compreender.
Só o que queria era abraçá-la. Aproximara-se dela e a envolvera num abraço caloroso, carregado de um sentimento que ele
chamava de amor. Ela, ao invés de o receber com alegria, começou a se curvar sobre o corpo, urrando e gemendo de dor, como
se ele fosse alguma peste. Não conseguia entender, mas já começava a desconfiar que sua presença talvez tivesse algo a ver
com aquilo. Era coincidência demais. Sempre que ele se aproximava, ela passava mal.
Ficou tão impressionado e assustado que, daquela vez, resolveu segui-los ao hospital. Ao ouvir as palavras de Feliciano,
sentiu imenso desgosto. Pôde ler-lhe os pensamentos e descobriu que o médico tinha certeza de que Clarinha estava sendo
vítima de constante obsessão. No princípio, revoltou-se. Quem ousaria obsidiar sua noiva? Quando descobrisse, daria uma
lição no atrevido.
Mas agora, sentado a seu lado, começou a refletir melhor. Desde que desencarnara e passara a visitá-la, não vira mais nenhum
espírito a seu lado. Apenas ele. Ele... Mas então? Quem seria o obsessor? Ele!? Não, não podia ser. Não era um obsessor.
Era um apaixonado. Não tinha mais um corpo de carne, mas seu coração permanecia o mesmo. Amava Clarinha como sempre amara.
Pensando melhor, talvez fosse possível. Desde que a descobrira a pensar naquele tal de Otávio, seu ódio só fez aumentar.
Julgava-se único em seu coração, em sua lembrança, em seus pensamentos. Mas agora percebia que ela já não pensava mais nele
como antes e talvez até estivesse começando a esquecê-lo. Só pensava naquele Otávio, que só vira uma vez. Isso o enchera
de um ódio tão grande que, se pudesse, mataria o juiz.
Como não podia matá-lo, investia furiosamente contra Clarinha. Naquele dia, deixara-se dominar pelo ciúme e pelo desespero,
e a abraçara, numa tentativa desesperada de fazê-la sentir seu amor. E o que conseguira? Ela começara a passar mal novamente,
pior ainda do que das outras vezes. E quem era o responsável? Ele. Só podia ser ele.
Esse pensamento causou-lhe imensa tristeza. Contudo, não havia nada que pudesse fazer. Clarinha era sua, pertencia-lhe para
sempre. Não podia prescindir dela. Embora estivessem em planos diferentes, ele podia vê-Ia, ouvi-la, senti-Ia. Ficou a imaginá-la
nos braços de outro homem e pensou que iria enlouquecer.
O carro continuava rodando, e Adriano deitou a cabeça no colo de Clarinha, que nada percebeu. De onde estava, podia ouvir
os pensamentos de Elisete. Ela pensava em Feliciano e em Inês, avó de Adriano. Elisete sabia que, de vez em quando, o médico
freqüentava o centro de Inês, e ela alimentava o desejo silencioso de ir até lá.
Mas Clarinha não podia mais ir. Antes, Adriano tirava-lhe a vontade de ir para não se afastar dela. Sabia que Ismael e Ciça
eram mentores daquele centro, bem como a tal de Helga, mãe de Fabrício. Como não gostava de se encontrar com eles, incutia
em Clarinha o desânimo e a preguiça, e ela se deixava envolver, achando o centro uma chatice.
Agora, porém, não podia ir por medo de que quisessem afastálo dela. Se ele realmente fosse a causa de seu mal-estar, dariam
um jeito de afastá-lo. Talvez até chamassem Ismael para levá-lo para aqueIa prisão que ele chamava de colônia-retiro. E
Adriano não queria
ir. Fora muito bem tratado ali, e Ismael o deixara sair assim que se convencera de que ele não falaria nada a Fabrício.
Mas o que faria se descobrisse que ele estava obsidiando Clarinha? Na certa o levaria de volta.
Chegaram em casa, e Adriano seguiu-os acabrunhado, com medo de que Ismael ou Ciça lá estivessem. E se também houvessem escutado
os pensamentos de Elisete? E se tivessem atendido a seu apelo? Mas não. Não havia ninguém ali. Elisete não tinha fé. Estava
amedrontada, mas não tinha fé. Queria experimentar qualquer coisa. Se a mandassem levar a filha ao Tibete, com certeza a
levaria. Não por fé, mas por desespero. De qualquer sorte, o desespero acaba por levar à fé, e Elisete, aos poucos, acabaria
se convencendo e acreditando com o coração. O que faria?
Depois que Clarinha adormeceu, Adriano saiu e ficou perambulando pela rua. Aonde iria? O que podia fazer? Estava triste,
amargurado. Não queria aquela vida, mas não podia evitar. Suas duas maiores preocupações eram Clarinha e Fabrício. Amava-a
aos extremos e odiava o irmão com todas as suas forças.
Pouco depois, chegou a seu apartamento. Já era tarde, e todos estavam dormindo. Foi até seu quarto e espiou. A cama estava
arrumada como sempre, e ele se deitou, pondo-se a chorar. Só agora percebia a falta que sentia do lar.
Passados alguns instantes, ouviu o som de uma fechadura se abrindo e foi olhar. Fabrício acabara de chegar. Era quase meianoite,
e ele podia imaginar que o irmão passara a noite na casa da avó, em companhia de Selena. Na mesma hora, Adriano colou-se
ao pai, que despertou imediatamente. Também ouvira ruídos, só que de passos no corredor, e levantara-se para ver.
Assim que Fabrício pousou a mão na maçaneta da porta de seu quarto, ouviu a voz irritadiça do pai:
- Fabrício! Chegando tarde de novo?
Já cansado daquelas cobranças, o rapaz se virou e falou, tentando controlar a má vontade:
- Boa noite, pai. Perdeu o sono?
- Não. Estava dormindo até que muito bem. Só que ouvi barulho no corredor...
- Sei. Mas, agora que já viu que sou eu, pode voltar a dormir sossegado.
Fabrício ia abrindo a porta quando a voz do pai se fez ouvir novamente:
- Onde esteve?
-De novo com isso, pai?Não acha que fica ridículo um homem de minha idade, advogado, ter de dar satisfações de seus passos
ao próprio pai?
Paulo teve vontade de gritar: "Não sou seu pai!" Ao invés disso, mordeu os lábios e retrucou:
- Esteve com aquela mulherzinha?
Lá vinha ele de novo. Parecia que Paulo sentia prazer em irritá
lo. Fabrício pensou em dar-lhe uma resposta a altura. Mas estava can
sado e achou que era melhor não discutir, arrematando com frieza: - Boa noite, pai.
Abriu a porta do quarto e entrou rapidamente, deixando Paulo parado no corredor, remoendo sua raiva. Junto a ele, Adriano
também se roía. Cada vez que Fabrício chamava Paulo de pai, tinha vontade de esmurrá-lo. Com que direito o chamava de pai?
Não era seu filho, não era ninguém.
Paulo voltou para seu quarto e deitou-se na cama. A seu lado, Flávia dormia tranqüilamente. Por sorte, não escutara nada.
Olhando para ela, o coração de Adriano se acalmou. Ela realmente o amava. Sentia saudade dele e orava todas as noites por
ele. De onde estava, Adriano recebia suas orações. Pena que ainda não lhes desse valor.
No dia seguinte, bem cedo, Olívia foi chamar Fabrício para atender ao telefone. Não eram nem sete horas, e os pais dele
ainda dormiam.
- Desculpe-me, Fabrício - falou ela. - Falei que você ainda estava dormindo, mas a pessoa ao telefone disse que era urgente.
-Não faz mal, Olívia. Fez bem em me chamar.
Levantou-se da cama, bocejou e vestiu o robe, seguindo para a biblioteca. Ainda sonolento, ergueu o fone do gancho e falou:
- Alô? - Silêncio. - Alô?
Ficou escutando a respiração ofegante do outro lado da linha até que, afinal, alguém respondeu:
- Dr. Fabrício, acha que os ratos merecem viver?
Desligaram. Fabrício podia imaginar quem era. Cassiano estava
tentando amedrontá-lo. Mas não tinha importância. Ele trataria de resolver aquele assunto na mesma hora. Correu a seu quarto,
abriu a pasta e retirou seu caderninho de telefone. Procurou o número de Cassiano e voltou à biblioteca, discando rapidamente.
A mesma voz de antes atendeu, e ele falou em tom grave e decidido:
- Acho que os ratos merecem a gaiola.
Desligou rapidamente e começou a rir, imaginando a cara de espanto de Cassiano. Se ele pretendia intimidá-lo, podia ir perdendo
as esperanças. Fabrício não se deixaria intimidar com facilidade.
Em casa, parado com o fone na mão, Cassiano espumava. Estava tentando amedrontar Fabrício, mas não estava obtendo sucesso.
Além de tudo, o jovem advogado era bastante atrevido. Mais até do que ele. Pensou em quanto seria difícil assustá-lo para
que não apresentasse aquela fita, mas agora estava certo de que nada conseguiria. Pelo visto, não teria saída. Seria obrigado
a desistir de seus planos.
No dia da audiência de prosseguimento, Fabrício chegou cedo com Selena. Aderbal e Cassiano ainda não haviam chegado e, quando
o oficial apregoou seus nomes, somente os dois entraram na sala. Acomodaram-se em suas cadeiras e aguardaram.
- Boa tarde - cumprimentou o juiz Otávio. - Onde está o Sr. Cassiano?
- Não sabemos, excelência - respondeu Fabrício respeitosamente.
- Vamos aguardar apenas cinco minutos. Se não vier, iniciaremos sem ele.
Os cinco minutos se escoaram, e nada de Cassiano aparecer. Vendo que ele não vinha, o juiz tomou novamente a palavra:
- Muito bem. Vejo que não vem mesmo. Nem seu advogado compareceu ou deu qualquer satisfação, o que considero um descaso
com esta justiça. - Encarou Fabrício com simpatia e disse: - O senhor afirma possuir uma fita incriminando-os, e eu gostaria
de ouvila. Trouxe-a consigo?
- Sim, excelência - Fabrício abriu a pasta e retirou a fita, exibindo-a ao juiz. - Aqui está.
- Trouxe gravador?
Fabrício assentiu e apanhou o aparelho.
- Então, vamos ouvi-la - ordenou Otávio.
O oficial ajudou Fabrício a ligar o gravador e colocar a fita. Pouco depois, as vozes se elevaram nitidamente:
- Bom dia, Dr. Fabrício... - era a voz de Aderbal, a primeira a se ouvir na gravação.
Durante quase uma hora ouviram a fita. Seu conteúdo, efetiva
mente, era muito comprometedor. Cassiano pretendia trocar os filhos por dinheiro. Queria que a mulher convencesse os pais
a fazer um adiantamento de legítima em troca das crianças. E depois confessava, literalmente, a armação do adultério e do
flagrante. Não restavam dúvidas. Tudo não passara de um embuste.
- Dr. Fabrício-começou o juiz-, já ouvi algumas fitas em minha vida profissional. Em geral, maridos e mulheres que pedem
a detetives que gravem conversas ao telefone, declarações de amantes, confissões de amor. Mas nunca ouvi nada semelhante.
Fabrício endireitou-se na cadeira e retrucou:
- Sei disso, excelência. Confesso que também fiquei impressionado.
- Sabe que a autenticidade dessa fita poderia ser contestada, não sabe?
- Sei, sim, senhor. Contudo, estou pronto a submeter a fita a qualquer exame técnico que Vossa Excelência entender necessário.
A fita é autêntica, e não tenho medo da perícia.
- Compreendo. - Otávio considerou durante alguns segundos e comentou: - Entretanto, Dr. Fabrício, seu ex-adverso não compareceu...
- Não, excelência. Talvez porque não tenha o que dizer. Ele também sabe que a fita é verdadeira.
- Sei... Bem, dada a ausência da parte ré, vou considerar autêntica a fita e admiti-la como prova. O senhor agora pode fazer
suas últimas alegações.
- Excelência - começou Fabrício -, creio que o conteúdo da fita é altamente revelador e dispensa maiores digressões. Gostaria
também de chamar atenção para o fato de que o Sr. Cassiano não compareceu, perdendo a oportunidade de impugná-la. Assim
sendo, peço que leve isso em conta e aplique a presunção de veracidade dos fatos alegados pela parte autora. Dona Selena,
minha cliente, foi vítima de uma trama. Seu marido, homem rude e mal intencionado, casou-se com ela com vista a sua herança.
Em seguida, passou a mal
tratá-la, espancando-a e aterrorizando os filhos. Percebendo a iminência do desquite, tornou uma medida desesperada. Mancomunado
com o irmão, preparou o adultério e o flagrante. Sabendo que a mulher, carente e ferida, encontrava-se sozinha, amedrontada,
desiludida, fez com que o Sr. Aníbal a seduzisse e a conduzisse para o quarto, onde mantiveram, por uma única vez, relação
sexual. Restou claro também que as crianças não estavam em casa e que o berço do bebê se encontrava vazio. Foi tudo combinado
para que o Sr. Cassiano entrasse na hora para fotografá-los em pleno ato sexual, garantindo, assim, a prova do adultério.
E tudo isso para quê? Para chantagear minha cliente, oferecendo-lhe aguarda dos filhos em troca da parte que lhe cabe em
sua herança. Diante dos fatos, Excelência, restou provado que o Sr. Cassiano concorreu para que Dona Selena cometesse o
adultério, razão pela qual não pode esse flagrante ser invocado como fator de culpabilidade da autora. Está ainda amplamente
demonstrado que o réu submetia a mulher e os filhos a tortura física e emocional. Assim sendo, espera a autora que seja
o réu considerado culpado e que seja decretado o desquite, autorizando-se a separação dos cônjuges e pondo-se fim ao regime
matrimonial dos bens.
Dada a palavra ao membro do Ministério Público, este foi totalmente a favor de Selena e repetiu, praticamente, as mesmas
palavras de Fabrício. A audiência foi encerrada e marcado o prazo de dez dias para leitura da sentença. Embora Otávio já
tivesse formado seu convencimento, queria redigi-la com cuidado e atenção.
Durante os dias que se seguiram, nem Cassiano nem Aderbal apareceram. Fabrício ficou à espera de um telefonema, ainda que
ameaçador, mas nada. O homem parecia haver desaparecido.
A sentença foi clara e precisa. Otávio considerou Cassiano culpado pela separação e decretou o desquite, dando a guarda
das crianças à mãe e fixando ainda a quota com que deveria concorrer para a criação e educação dos filhos. Foi uma alegria
para Selena, que pôde, finalmente, respirar mais tranqüila. Ela estava tão feliz que nem sabia ao certo o que dizer.
- Fabrício, nem sei como lhe agradecer.
- Você não tem de me agradecer. Fiz apenas meu trabalho.
- Você foi brilhante! E muito eficiente-disse, emocionada, calando-se em seguida.
Fabrício tomou sua mão e levou-a aos lábios, sussurrando com emoção:
- Sabe que não fiz isso apenas por profissionalismo, não sabe? Ela não respondeu, e ele continuou:
- Eu a amo. E não há nada agora que impeça nosso amor.
Selena pôs-se a chorar baixinho. Já havia sofrido tanto! Será que não estaria se iludindo mais uma vez, e o amor de Fabrício
não terminaria assim que ele a tivesse em sua cama? Percebendo-lhe a hesitação e o medo, Fabrício passou o braço ao redor
de seu ombro e puxou-a para si, beijando-a apaixonada e longamente. Ela correspondeu ao beijo com ardor e logo percebeu
o quão sincero ele estava sendo. Aquele gesto era mais do que um simples beijo. Era um ato de amor.
Andando de um lado para outro no escritório de Aderbal, Cassiano esbravejava:
- Aquele cretino! Como isso pôde acontecer?
- Acalme-se, Cassiano. Não tínhamos saída.
- Não tínhamos? Eu trabalhei anos para conseguir uma boa
situação na vida, e você deixa tudo ir por água abaixo da noite para
o dia!
- Ei! Calma aí! A culpa não foi minha. Ninguém mandou você armar aquele flagrante de adultério.
- E ninguém mandou você ser tão burro! - Isso agora não adianta nada.
- Ah! Não adianta, não é? Pois garanto-lhe que isso não vai ficar assim. Perdi Selena e o dinheiro, mas ele também não vai
ficar com a herança!
-O que pretende fazer?
- Não é de sua conta. Mas não se preocupe. Saberá pelos jornais. - Não conte comigo para mais nada.
- Não preciso de você. Está despedido.
- Ah, é? E meus honorários?
Fitando-o com ar de desdém, Cassiano rebateu com ironia: - Vá reclamá-los na polícia.
Saiu batendo a porta e foi para casa. Ligou para o irmão, pedindo que o encontrasse imediatamente.
Aníbal chegou cerca de meia hora depois.
- O que houve?
- Quero acabar com aquele doutorzinho. - Quer?
- E você vai me ajudar. - Eu?
- Ele me tomou tudo que eu tinha, mas vai ver só uma coisa. - O que pretende fazer? Emboscá-lo?
- Até que não seria uma má idéia. Ele tem dinheiro, não tem? - E daí?
- E daí que desperta a atenção de qualquer ladrão, não é mesmo? - Pretende forjar um assalto?
- Sim. Sei onde ele mora. Basta observá-lo, e logo saberei a que
horas costuma chegar. Daí, é só roubar seu carro e matá-lo.
- Isso é loucura. Um carro daqueles! Logo seria encontrado! - Imbecil! Não vou ficar com ele! Vou dar sumiço no carro assim que fugir.
- Vai? Para onde?
- Ainda não sei. Pensei em levá-lo lá para os lados de Caxias e tocar fogo nele. O que acha?
- Hmm... Não sei. Pode não dar certo.
- Você é mesmo um covarde! Está com medo. - Não estou com medo. Só não quero ser preso. - Não vai ser! Eu lhe garanto. -
E o Dr. Aderbal?
- Eu o despedi. E um incompetente.
Após pensar por alguns instantes, Aníbal acabou por aceder: - Está bem. O que quer que eu faça?
- Na verdade, quase nada. Você apenas será meu álibi. Aquele doutorzinho de meia-tigela vai ter o que merece. Eu bem que o avisei para que não se metesse comigo.
Pensou que eu estava brincando, não é mesmo? Pois vai ver só!
Na noite seguinte, Cassiano deu início ao plano. Postou-se do outro lado da rua e pôs-se a vigiar os passos de Fabrício.
Em pouco tempo, já conhecia seus hábitos: a que horas saía e a que horas voltava. Durante a semana, costumava ir trabalhar
de carro ou de táxi. Entretanto, todos os fins de semana saía de automóvel e só voltava tarde da noite.
O prédio em que ele morava não tinha vigia noturno. Fabrício tinha de saltar do carro para abrir o portão da garagem, o
que seria tempo mais do que suficiente para agir. Cassiano se esconderia nas sombras e, quando ele chegasse, saltaria diante
dele, tirá-lo-ia do automóvel e lhe daria três tiros à queima-roupa. Em seguida, entraria no carro e sairia em disparada.
Não havia como errar. Todos pensariam em roubo de carro, e ninguém poderia ligá-lo ao crime. Aníbal estava disposto a jurar
que ambos haviam permanecido em casa, bebendo e assistindo à TV. Contar-lhe-ia o filme que estivesse passando e ninguém
poderia duvidar de sua palavra.
Após o desquite, Fabrício e Selena tornaram público seu romance. Iam a bares e cinemas juntos, eram vistos passeando com
as crianças nos parques e praças, na praia e no zoológico. Não se largavam. Estavam apaixonados e pretendiam viver juntos.
Era sábado de sol, e Selena estava na praia em companhia de Fabrício, Clarinha e as crianças. Haviam armado a barraca e ajeitaram
as crianças na sombra, e elas se entretinham em brincar com baldinhos, pazinhas e forminhas.
- Nossa, Selena - queixou-se Fabrício -, está fazendo um ca
lor! Acho que vou para a água. Alguém quer ir?
- Não, obrigada, meu bem. Iremos depois. - Está certo, então.
Fabrício levantou-se e foi para a água, e Clarinha elogiou: - E um belo rapaz.
- E sim. Tive sorte de encontrá-lo.
- Tão diferente de Adriano! Quem não os conhecesse, não diria que eram irmãos.
- Ainda sente a falta dele?
- Um pouco. Eu o amava, nós íamos nos casar. Mas não há nada que o tempo não cure, não é mesmo?
- É verdade.
Clarinha inspirou o aroma do mar e mudou de assunto: - As crianças estão felizes.
- Estão, sim. Fabrício é muito atencioso com elas. Tão atencioso, que elas nem sentem a falta do pai.
- Cassiano desapareceu mesmo?
- Acho que sim. Soube que continua morando no mesmo apartamento. Você sabe, nós não tínhamos nenhum bem juntos, e o apartamento
era alugado.
- Ainda bem, não é? Senão, teria de dividir tudo com aquele cafajeste.
Clarinha parou de falar, boquiaberta. Fabrício vinha voltando da água em companhia de um homem alto, moreno, muito atraente.
Chegando perto delas, Fabrício foi logo apresentando-o:
- Selena, Clarinha, lembram-se do juiz Otávio? Foi ele quem presidiu nosso processo.
- Como não? - respondeu Selena, recordando-se muito bem dele. - Como vai, doutor?
- Muito bem, e a senhora?
- Agora está tudo bem.
- E a senhorita? - dirigiu-se a Clarinha. - Dona Ana Clara, não é? Como vai?
Clarinha ficou encantada. Não sabia por que obra do destino Otávio aparecia assim em sua frente, mas o fato é que aparecera
mesmo.
- Vou bem, juiz, e o senhor? - respondeu ela timidamente.
- Por favor, não me chamem de juiz ou de doutor. Não estamos no fórum. Tratem-me apenas por Otávio.
Ela enrubesceu, e Fabrício, na mesma hora, notou que o juiz olhava para ela de um jeito especial. Até Selena percebeu e
cochichou com ele:
- Acho que nosso juiz está interessado em Clarinha. Fabrício sorriu e revidou:
- Sabe, Dr. Otávio, estávamos pensando em almoçar depois da praia num restaurante aqui perto. Não gostaria de nos fazer
companhia?
- Depende. Só se vocês pararem, de uma vez, de me chamar de doutor.
A simpatia entre eles foi instantânea. Otávio era um homem culto e agradável, e impressionou Clarinha mais do que ela esperava.
Fora muita coincidência. Aliás, coincidência nenhuma. Ela já estudara o suficiente a espiritualidade para saber que nada
acontece por acaso. Sendo assim, havia um motivo justo para Otávio crusar seu caminho.

Almoçar com as crianças era uma tarefa difícil. Selma, mais crescidinha, já comia sozinha, mas era preciso alimentar Carlinhos na boca.
Vendo a dedicação com que Selena cuidava dos filhos, Otávio comentou:
- Sabe, Selena, também tenho uma filha. - Verdade? E onde está?
- Foi à praia com uma amiguinha. Chama-se Ana Lúcia e acabou de fazer oito anos.
- Você é casado? - tornou Clarinha, surpresa. - Sou viúvo.
- Oh! Que pena. Sinto muito.
- Não sinta, Clarinha. São as coisas da vida. E, depois, Ana Lúcia compensa qualquer sofrimento.
- E verdade, Otávio - concordou Selena. - Os filhos fazem todo o resto parecer sem importância.
- E mesmo... E seu ex-marido? Tem tido notícias dele?
- Pois é. Estava agora mesmo dizendo a Clarinha que ele sumiu. Nem se interessa em ver as crianças.
- Antes assim - interrompeu Fabrício. - De um homem como aquele, o melhor é ter distancia.
A conversa prosseguiu animada. Em seguida, trocaram telefones e, quando já iam se despedir, Otávio indagou:
- Clarinha, tem algum compromisso para hoje à noite?
Ela exultou. Era tudo que esperava ouvir, e respondeu com mal disfarçada ansiedade:
- Bem, Otávio, para falar a verdade, não tenho compromisso nenhum.
- Aceitaria jantar comigo?
- Eu adoraria!
- Excelente. Dê-me seu endereço, e eu passarei em sua casa, que tal, às oito?
- ótimo.
Nesse momento, Clarinha levou a mão ao estômago e soltou um uivo de dor, curvando o corpo para a frente e gemendo sem parar.
- Meu Deus, Clarinha! -alarmou-se Selena. -O que houve?
- A dor! De novo a dor! Ai, meu Deus, não agüento!
Desmaiou, rosto caído sobre a mesa. Rapidamente, Fabrício correu para ela e tomou seu pulso.
- Precisamos levá-la a um hospital!
Chamaram um táxi. Não dava tempo de ir em casa buscar o carro. Como eram muitos para um veículo só, Otávio ficou de encontrá-los
no hospital. Apanharia seu automóvel e os traria de volta.
Clarinha, recostada no banco, cabeça pousada sobre o ombro de Selena, parecia morta. As crianças choravam sem parar, e Selena
tentava acalmá-las.
- Está tudo bem, crianças. Tia Clarinha vai ficar boa.
No hospital, nada foi constatado. O médico de plantão examinou-a como das outras vezes, mas não pôde diagnosticar nenhuma
anormalidade.
- O Dr. Feliciano não está? - quis saber Fabrício.
- Não - respondeu o médico. - Hoje não é dia do plantão dele. Otávio chegou logo em seguida, preocupado com a saúde de Clarinha.
Ao voltar a si, ela agradeceu a atenção do médico e das enfermeiras, ajeitou-se da melhor forma possível e saiu em companhia dos
demais.
- Isso já está virando rotina - reclamou.
- Como assim? - tornou Otávio. - Não é a primeira vez?
- Não. Até já perdi a conta de quantas vezes passei mal dessa
maneira. Só que ninguém descobre o que é.
- Por falar nisso - interrompeu Fabrício -, o Dr. Feliciano telefonou outro dia para minha avó. Ele atendeu você algumas
vezes, não foi?
- Foi, sim.
- Ele acha que você não tem nada físico.
- Não? - revidou Otávio. - Como assim? Ele acha que é problema espiritual?
Os outros o olharam atônitos. Ninguém esperava que ele entendesse dessas coisas.
- Acredita em espíritos, Otávio? - perguntou Fabrício.
- Acredito. Não sou espírita, se é o que quer saber. Mas sou um estudioso e já li muitas obras a respeito da espiritualidade
em geral e fenômenos espíritas.
- Então não se surpreenderá com nossa conversa. - E claro que não.
- Pois é - cortou Selena. - Não acha que devia se cuidar, Clarinha? Você nem tem aparecido mais. Por quê?
Clarinha deu de ombros e respondeu:
- Não sei dizer. Não tenho tido vontade.
- Mas você precisa se esforçar. Se houver mesmo algum espírito junto de você, ele precisa ser orientado.
- Sabe, Selena, não creio mesmo que seja isso. Acho que ando trabalhando demais. E também estou procurando um apartamento
para alugar.
- Sério?-retorquiu Otávio. -Uma moça tão jovem, pensando em morar sozinha?
- O que tem de mais? Sou jovem, mas tenho minha profissão e até que ganho bem. Sou uma mulher independente.
- Não se ofenda. Admiro muito sua atitude. Gosto de mulheres corajosas e ousadas.
Clarinha riu e olhou para ele. Gostava daquele juiz. Ele lhe transmitia uma tranqüilidade que havia muito não sentia.
A seu lado, Adriano o fuzilava. Percebendo as intenções de Otávio, grudara-se a Clarinha, na tentativa de protegê-la. Mas,
ao invés disso, causara-lhe o costumeiro mal-estar.
- Mas que droga! - falou em voz alta, que ninguém escutou. - Agora não tenho mais dúvidas... Por que a faço sentir-se tão
mal, Clarinha? Não vê que a amo e só o que quis foi protegê-la?
Clarinha não escutou. Entrou no carro de Otávio e sentou-se a seu lado, enquanto Selena e Fabrício se acomodavam no banco
traseiro com as crianças.
- Para onde vamos?
- Para o lugar em que estávamos, se não se importa - pediu Fabrício.
- Deixe-me levá-los em casa.
-Não, por favor. Leve apenas Clarinha, se não for incômodo. Eu irei buscar o carro em casa e levarei Selena.
- E claro que não é nenhum incômodo. Será um prazer.
Apesar do ocorrido, Clarinha não quis desmarcar o encontro da noite. O que mais desejava, naquele momento, era estar junto
de Otávio, e não perderia aquela chance por nada.
Assim que Clarinha entrou em casa, Elisete veio correndo a seu encontro.
- Graças a Deus, minha filha! Por que demorou tanto? Fiquei preocupada.
Já passava das cinco horas, e Clarinha nunca chegava depois das três. Todavia, não querendo preocupar a mãe, respondeu com
displicência:
- Ora, mamãe, fui almoçar e perdi a hora.
- Você não me engana, Clarinha. Eu a conheço. Teve um daqueles ataques de novo, não foi?
Clarinha não estava acostumada a mentir.
- Foi, mãe - respondeu a contragosto. - Fabrício e Selena me levaram ao hospital.
- Selena? Esteve com sua prima?
- E daí? Ela é minha amiga. Vai continuar implicando com ela? - Não... não, minha filha, não vou. Estou preocupada é com
você.
- Pois não precisa. O médico disse que não tenho nada. E, agora, com licença. Preciso tomar um banho.
Depois que ela saiu, Elisete ficou refletindo. Foi até o quarto, apanhou a bolsa e retirou o cartão que Feliciano lhe entregara.
Ligaria para ele. Talvez pudesse ajudá-la.
- Alô? - disse uma voz de homem, do outro lado da linha.
- Boa tarde... - respondeu Elisete, meio sem saber o que di
zer. - Por favor, gostaria de falar com o Dr. Feliciano. Ele está? - É ele mesmo quem está falando.
- Doutor, desculpe-me estar ligando. Quem fala é Elisete Morais, mãe de Clarinha. O senhor se lembra?
- Mas é claro. Como vai, Dona Elisete? - Mais ou menos...
- Algum problema?
- É Clarinha. Não anda nada bem.
Começou a chorar. Pelo telefone, Feliciano podia sentir a angústia em sua voz. Esperou até que ela se acalmasse e indagou:
- Aconteceu algo de grave?
- Não. Mas ela continua tendo aqueles ataques. Oh, doutor, não
sei mais o que fazer! Já consultamos vários médicos, mas ninguém descobre nada. E o senhor disse que poderia ajudar...
- Posso tentar. Mas é preciso que Clarinha também queira. - Como assim?
- Dona Elisete, sua filha está sofrendo influência de um espírito perturbado...
- Espírito perturbado? Mas como? O que é isso?
- Seria melhor marcarmos de nos encontrar pessoalmente. Por
telefone, fica difícil explicar certas coisas.
- Doutor, meu marido jamais consentirá. Ele não acredita nem
em Deus, que dirá em espíritos. Dirá que estou ficando louca.
Ele pensou durante alguns segundos, até que falou: - Conhece Dona Flávia, não conhece? - Sim, claro.
- Tem seu número?
- Um minuto... - Ela consultou o caderninho de telefone. -
Deixe ver... Letra F... Tenho.
- Pois muito bem. Ligue daqui a uma hora e marque um encon
tro com ela. Cuidarei de avisá-la e explicar o que está acontecendo. Desligou. Esperou o tempo que Feliciano lhe pedira
e ligou para
Flávia. Foi ela mesma quem atendeu e foi logo falando:
- Como vai, Elisete? Há quanto tempo não nos vemos! - Desde a última missa de Adriano.
- Pois é. Já faz bastante tempo. Bom, sei quanto está aflita e, por
isso, vou direto ao assunto. Feliciano ligou e me explicou tudo. Clarinha estava indo conosco ao centro de minha mãe, no Engenho Ve
lho, só que, de repente, sumiu. Não sabemos o que houve, mas Feli
ciano já havia telefonado para minha mãe e dito que estava descon
fiado de que Clarinha estava com perturbação espiritual.
- Foi o que ele me disse. Só que não entendi muito bem.
- Será que você não pode vir aqui para conversarmos? Diga a
seu marido que eu a convidei para um chá. Assim, poderei explicar
lhe tudo com calma.
- Está bem.
- Que tal segunda-feira? E dia útil, e talvez seja mais fácil sair. - Perfeito. A que horas?
- Quatro horas, está bom? - Estarei aí.
Elisete tornou a desligar e foi até o quarto da filha. Ela havia aca
bado de tomar banho e estava dormindo. Achou melhor não a despertar e voltou para a sala.
Clarinha dormiu direto até as oito e quinze da noite. Acordou
com a mãe ao lado de sua cama e perguntou assustada: - Mãe? O que houve?
- Não sei, minha filha. Não queria despertá-la, mas está aí um tal de Otávio, pedindo para falar-lhe. Disse que tinha
um encontro com você.
Clarinha consultou o relógio e exclamou: - Meu Deus! Dormi demais!
Levantou-se apressada, lavou o rosto rapidamente e correu para a sala, onde Otávio conversava com o pai.
- Ah, minha filha, venha aqui. Acabo de conhecer seu amigo.
Clarinha aproximou-se acabrunhada. Não esperava por aquilo. Também, quem mandou pegar no sono e perder a hora? Só esperava
que o pai não estivesse colocando Otávio em nenhuma situação constrangedora.
- Otávio - começou logo a dizer -, perdoe-me. Dormi e perdi a hora.
- Não faz mal, Clarinha, eu entendo. Você passou mal, e era na
tural que descansasse. Quer deixar nosso encontro para outro dia? - Não. Dê-me meia hora e eu me apronto.
Meia hora depois, Clarinha voltou deslumbrante. Escolhera um
vestido branco esvoaçante, penteara-se, maquiara-se. Otávio ficou
embevecido e não pôde deixar de elogiar sua beleza.
Depois que ela saiu, Bernardo comentou:
- Esse homem é um excelente partido para nossa filha! - Um pouco velho demais, talvez.
- Isso não importa. O homem é juiz. Quer melhor do que isso? Se Clarinha tiver cabeça, não o deixará escapar.

A noite foi maravilhosa. Otávio era homem gentil e divertido, muito diferente da idéia que ela fazia dos juízes. Quando
ele segurou sua mão e a beijou, ela sentiu leve choque percorrer todo o seu corpo e percebeu que estava apaixonada. Tão
apaixonada que nem a presença de Adriano conseguiu abalá-la. Embora chegasse a enjoar, não desmaiou, e ambos terminaram
a noite nos braços um do outro.

Na segunda-feira, Elisete partiu para a casa de Flávia coberta de esperanças. Flávia conversou muito com ela, esclarecendo-a
sobre o mundo dos espíritos e os fenômenos mediúnicos. Clarinha, na certa, era médium e estava sendo perturbada por algum
espírito menos esclarecido. Embora suspeitasse de Adriano, Flávia não disse nada.
Adriano era seu filho, e ela não queria que ninguém o chamasse de
espírito perturbado, tampouco de obsessor.
Flávia convidou-a a acompanhá-la na quarta-feira ao centro de
sua mãe, e Elisete aceitou.
- Seria ótimo se pudesse levar Clarinha. - Farei o possível.
Mas, na quarta-feira, Clarinha não quis ir. Alegando cansaço,
foi recolher-se mais cedo. Elisete disse a Bernardo que havia encontrado
Flávia por acaso e que ela a convidara para ir à sua casa naquela noite. Por delicadeza, aceitara.
Apanhou o táxi e dirigiu-se à casa de Flávia, que já a aguarda
va. Em companhia de Fabrício, rumaram para a casa de Inês. Quan
do ela chegou, Selena veio recebê-los.
- Tia Elisete! - exclamou. - Há quanto tempo!
Meio sem graça, Elisete beijou a sobrinha no rosto e retrucou: - E mesmo, Selena. E você, como vai? - Graças a Deus, estamos
bem. Eu e as crianças. - Onde estão?
- Dormindo.
- Conhece minha mãe? - perguntou Flávia a Elisete. - E claro. Como vai, Dona Inês? - Vou bem. E Clarinha? Não veio?
- Não quis vir. Fiz de tudo para que me acompanhasse, mas não houve jeito.
- Não faz mal. Faremos uma mentalização para ela.
No centro, Antônio abriu os trabalhos com uma bonita oração,
proferiu interessante palestra sobre obsessão e convidou os espíritos
necessitados que quisessem se apresentar. Alguns se manifestaram,
mas nenhum que se relacionasse com Clarinha.
A sessão foi encerrada, e Elisete saiu frustrada.
- Não desanime, Elisete - consolou Inês. - No começo é as
sim mesmo. Nem todos os espíritos querem se dar a conhecer.
- Acha que minha filha está sendo vítima de algum obsessor? - Apesar de serem assim chamados, não gosto de usar esse ter
mo. Digamos que são espíritos ignorantes que só precisam de um pou
co de esclarecimento para seguir seu caminho. E sim, Clarinha, pro
vavelmente, sofre o assédio de algum espírito menos esclarecido. Mas
não se preocupe. Com o tempo ele virá até nós.
- Acha mesmo?
- Trabalharemos por isso. Contudo, seria muito importante que Clarinha nos acompanhasse. Da próxima vez, tente convencê-la.
Elisete estava convencida. Faria o que fosse preciso para libertar a filha do jogo daquele obsessor, ignorante ou fosse lá
como quisessem chamá-lo. O que ela não queria era ver Clarinha sofrendo daquele jeito.
Ao entrar em casa naquela noite de sábado, Fabrício teve outra surpresa. O pai estava sentado na sala lendo um jornal e,
quando ele passou, disse com azedume:
- Mais uma de suas noitadas?
Fabrício engoliu em seco e seguiu adiante, rumo a seu quarto. Não estava com nenhuma vontade de discutir. Fechou a porta
com cuidado e foi sentar-se na cama. Estava cansado e precisava dormir. Tirou os sapatos e deitou-se, esticando os pés para
relaxálos. De braços cruzados sob a cabeça, fitou o teto e ficou a pensar em Selena. Ela agora estava livre, e ambos podiam
tornar público seu relacionamento. Iria pedi-la em casamento e dariam uma festa íntima, só para marcar a ocasião.
Pouco depois, pegou no sono. Estava semi-adormecido quando escutou um ruído estranho. Abriu os olhos vagarosamente, sonolento
ainda, e ouviu nitidamente a voz do pai erguendo-se do lado de fora da porta de seu quarto:
- Isso não vai ficar assim, Flávia! Não está direito!
- Por favor, Paulo, fale baixo. Vai despertá-lo.
- E daí? Que acorde! E bom mesmo que ouça o que tenho a dizer.
- Mas ele não fez nada.
- Fez, sim. Está me envergonhando. As pessoas já estão comentando.
- Deixe para lá. Ninguém tem nada com isso.
- Sou um importante empresário. Como pensa que me senti quando Epaminondas me ligou falando aquelas coisas?
- Você não devia dar importância ao que os outros falam. As pessoas são muito maldosas.
- Maldosas ou não, o fato é que os dois estão sempre sendo visto juntos. E Epaminondas me liga a esta hora para me contar
a novidade. Grande novidade... Meu filho envolvido com uma desquitada, freqüentando hotéis de reputação duvidosa!
- Paulo, por favor...
Ao ouvir as últimas palavras do pai, Fabrício deu um salto da cama e escancarou a porta, encarando-o com rancor.
- Mas o que significa isso? Não se pode mais dormir sossegado nesta casa?
- Onde esteve, Fabrício? - retrucou Paulo, cheio de ódio.
- Não é de sua conta, pai. Já disse que sou crescidinho.
- E de minha conta, sim! Você anda se encontrando com aquela vagabunda em lugares de baixo nível!
- O quê? Quem lhe disse isso?
- Epaminondas. Viu quando vocês saíam de um hotel à beira da estrada Rio-Petrópolis. Vai negar?
- Quem é esse Epaminondas?
- Não se faça de tolo, Fabrício. Você conhece Epaminondas tão bem quanto eu.
- Ah, é, tem razão. E aquele que possui uma amante em cada esquina, não é?
Paulo mordeu os lábios, enquanto Fabrício prosseguia: - E o que ele estava fazendo lá?
- Isso não é problema meu. Meu problema é você.
- Pois está enganado, pai. Em primeiro lugar, esse Epaminondas devia cuidar mais da vida dele. Aposto que, se me viu, foi
porque estava em situação semelhante, não é? Como pôde me reconhecer à noite, numa estrada com pouca iluminação?
- Ele conhece seu carro.
- Ah, o carro...
- Deixe de sarcasmo comigo, rapaz! Exijo uma explicação!
- Pois não lhe devo explicação alguma. Contudo, para que
você se tranqüilize, não costumo andar com vagabundas...
- Não? E o que pensa que aquela Selena é?
- Selena é uma moça muito direita, e pretendo casar-me com
ela. Por isso, não admito que fale dela dessa maneira desrespeitosa.
- Casar-se?! Mas como? Pretende matar o marido dela?
- Ex-marido. Eles estão desquitados. - E daí?
- Paulo, por favor - interrompeu Flávia. - Pelo bem de todos
nós, encerre essa discussão.
- Não, Flávia, não posso. Ele vive sob meu teto, deve-me respeito. Não posso tolerar que transforme meu nome, nosso nome, o
nome que lhe dei em motivo de chacota.
- Selena é uma boa moça, Paulo. Eu sei. Conheço-a.
- Conhece-a, não é mesmo? E pensa que isso a autoriza a atestar sua idoneidade. Pois não me convence. Ela não presta. Se prestasse,
não sairia por aí freqüentando hoteizinhos.
- Pela última vez, pai! Selena não é o que você pensa. E não fomos a nenhum hotel...
- Nega que foram a um local de encontros?
- Onde fomos ou deixamos de ir não é de sua conta. Mas posso lhe assegurar que não fizemos nada de que pudéssemos nos enver
gonhar. Nós nos amamos, e não há pecado algum no amor.
-Que lindo! Amor... E assim que agora se chama a pouca vergonha?
Fabrício mordeu os lábios e cerrou os punhos, contando até dez
para não perder a cabeça.
- Paulo - intercedeu Flávia, já percebendo a impaciência do
rapaz -, deixe Fabrício em paz. Ele não fez nada de errado.
- Você, sempre o defendendo. - Ele é nosso filho.
- E Adriano? Também não era?
- Eu sabia! -retrucou Fabrício com desprezo. -Ainda me cul
pa pela morte de Adriano, não é? Preferia que eu tivesse morrido em
seu lugar!
Paulo não respondeu, e Flávia se adiantou:
- Não é nada disso, meu filho. Seu pai está magoado.
- Magoado? Ele me odeia, mamãe! Não vê isso? E usa Selena
como desculpa para poder me agredir e acusar. Por que não gosta de
mim? O que lhe fiz, pai? Diga-me!
Encarando-o com raiva, Paulo respondeu entre dentes: -Não é justo. Adriano era meu filho! - E eu, pai? Também não sou?
Não conseguindo mais conter a fúria, Paulo esbravejou: - Não me chame de pai!
- Paulo, por Deus! - suplicou Flávia, completamente apavorada. - Pare com isso. Lembre-se da promessa que me fez! Aturdido,
Fabrício indagou:
- Que promessa? Que promessa, mãe?
Fitando Flávia com desgosto, Paulo engoliu a raiva e tornou com secura:
- Nada, Fabrício.
- Paulo me prometeu que não iria mais brigar com você - e, virando-se para o marido, acrescentou: -Não é mesmo, Paulo? Não
vão mais brigar, vão? Adriano se foi, mas ainda temos Fabrício. Ele é tão nosso filho quanto Adriano, não é?
Sentindo o desespero na voz da mulher, Paulo retrocedeu.
- E... - respondeu, sem muita convicção.
- Então? Parem com isso, por favor. Será que não podemos vi
ver em paz, para variar?
- Não sou eu que começo, mãe.
- Sei disso, meu filho. Mas pode muito bem terminar.
Fabrício suspirou e estendeu a mão para Paulo, que baixou os olhos, tentando ocultar a raiva e o desprezo. Contudo, para
agradar à mulher, tomou a mão que o filho lhe estendia e apertou-a com raiva, soltando-a logo em seguida. Depois, virou-lhe
as costas e foi para o quarto, batendo a porta com estrondo.
Flávia estava angustiada. Sentia que o pior estava para acontecer e não havia nada que pudesse fazer para impedir. Precisava
falar com a mãe. Somente Inês seria capaz de ajudá-la.
No dia seguinte, logo pela manhã, Flávia foi procurá-la. Cumprimentou Selena e as crianças e saiu puxando a mãe para o jardim.
Sentaram-se em um banco, e Inês começou a dizer:
- O que houve, minha filha? Parece preocupada.
- E Paulo, mãe-desabafou num soluço. -Sinto que está a um passo de revelar a verdade a Fabrício.
Inês inspirou profundamente, segurou a mão da filha e retrucou: - Nós sabíamos que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde,
não sabíamos?
- Mas isso jamais poderá acontecer!
- Minha filha, não há segredo que se guarde para sempre. Você
está tentando controlar o curso do destino, mas o destino quer impor sua vontade, mesmo à sua revelia.
- Isso não é justo. Fabrício é meu filho.
- Eu sei. E ele também sabe. Acha que a amará menos se descobrir a verdade?
- Não sei. Tenho medo de perdê-lo também.
- Você subestima seu filho. Ele é um rapaz muito inteligente e sensível. No começo, pode ficar chocado. E natural. Mas depois,
sentindo seu amor, vai compreender.
- E Paulo? Ele não ama Fabrício. Nunca conseguiu amá-lo. Como espera que Fabrício se sinta?
- Vai compreender também. Vai entender a dificuldade de Paulo.
- Mas se sentirá rejeitado.
- Foi ele quem escolheu.
Flávia começou a chorar, e Inês ponderou:
- Você sabe tão bem quanto eu que ninguém nasce numa família por acaso, assim como o desenrolar da vida não é casual. Por
um motivo que ainda desconhecemos, Fabrício escolheu ser filho daquela mulher alemã e ser entregue a você para que o criasse.
Não foi por acaso. Não foi o destino, pura e simplesmente, que escolheu você, casualmente, para que o recebesse e amasse
como filho. Tudo aconteceu conforme o esperado. E Fabrício vai entender isso porque também conhece essas verdades.
- Mas e o sentimento? Compreender é uma coisa; aceitar no coração é outra bem diferente.
- Compreender é o primeiro passo para aceitar. Não estou dizendo que vai ser fácil. Fabrício vai ficar triste, talvez até
revoltado. Mas seu raciocínio, sua inteligência farão com que ele entenda. Entendendo, vai compreender o fato em seu coração,
que injetará uma boa dose de amor para que ele possa aceitar. Essa será a compreensão verdadeira, aquela que brota da inteligência
e se abriga no coração.
- Gostaria de acreditar nisso.
- Pois acredite. Fabrício é um rapaz muito sensível e terá de trabalhar seus sentimentos. E nós estaremos aqui para ajudá-lo
com nosso amor, principalmente você, quem mais o amou a vida inteira. Confie nisso, Flávia. Confie em você.
Flávia beijou as mãos da mãe e pôs-se a chorar. Estava amargurada, mas a conversa com Inês servira para levar-lhe um pouco
de alento. Faria todo o possível para impedir que a verdade viesse à tona. Contudo, se isso acontecesse, envidaria todos
os esforços não apenas para consolar o filho mas também para reconciliá-lo com o pai.
Enquanto isso, Cassiano deixava-se invadir cada vez mais pelo ódio que sentia por Fabrício. Em sua casa, Aníbal dava tragadas
no cigarro, fitando as rodelas que fazia no ar e ouvindo o esbravejar do irmão:
- Mas será possível? Não consigo meios de pegar aquele doutorzinho!
- Calma, Cassiano. Você começou a vigiá-lo há pouco tempo. Até que já está bem por dentro de seus hábitos. Agora é só aguardar
o momento oportuno.
- Mal posso esperar...
- Fique tranqüilo. Vai dar tudo certo. - Tirou nova baforada e
mudou de assunto: - E Selena? Tem tido notícias dela?
Cassiano trincou os dentes e respondeu com raiva: - Sim. A cadela está envolvida com o doutorzinho.
-Isso nós já sabíamos. Quero saber é se você descobriu onde ela
está morando.
- Não. Nem me preocupei mais com isso. Por quê? Tem alguma idéia para ela também?
- Por enquanto, não. Mas depois que o doutorzinho se for... - O que tem?
- Estive pensando... E se Selena sofrer algum... acidente? Quem sabe os pais dela não entram num acordo com você?
já entendendo o plano diabólico do irmão, Cassiano começou a rir.
- E, até que não seria má idéia. Posso dar uma de pai arrependido, machucado pela vida, essas coisas.
- Mas temos de ter calma. Isso virá com o tempo. Não podemos nos precipitar, senão a polícia pode desconfiar. Vamos primeiro
dar um jeito no doutorzinho. Depois, mas muito depois, cuidaremos de Selena.
EM seu escritório, Paulo não parava de refletir. Estranhamente, de uma hora para outra, a lembrança de Adriano não lhe saía
do pensamento. Chegava a sentir como se ele estivesse vivo a seu lado.
- Estou vivo, pai. Tente me enxergar.
- Como pode estar vivo se sofreu um acidente fatal?-respondia Paulo mentalmente.
- Pai, eu desencarnei. Mas não foi justo. Fabrício é quem devia estar no meu lugar. Aquele bastardo! Que direito tem de
viver?
- Por que será que a vida foi tão cruel comigo? - pensava Paulo. - Perdi meu único filho legítimo. Agora só me sobrou o
enjeitado, um desconhecido, filho de uma judia que morreu na guerra. Por que fui aceitar criá-lo?
- Acabe com essa farsa, pai. Conte logo tudo a Fabrício. Ele precisa saber a verdade, conhecer seu papel de intruso.
- Por quanto tempo mais poderei guardar este segredo? Prometi a Flávia, é verdade. Não quero magoá-la.
- E eu, pai? Quem pensou em mim? Quem pensou em quanto eu poderia estar sendo magoado?
- Ah, se Adriano soubesse a verdade... Se tivesse descoberto tudo antes de morrer...
- Eu descobri, pai. Descobri depois, mas descobri. E foi pior. Fiquei mais indignado.
- Por que Fabrício é quem continuou vivendo? Por quê?
A porta do escritório se abriu e Marcos entrou, sentando-se diante do cunhado.
- Tudo bem com você? - indagou, preocupado com o ar abatido do outro.
-Tudo... - respondeu Paulo, sem muita convicção. - Está tudo bem.
- Será que podíamos discutir esta planilha? - Planilha? Por quê? O que houve?
- Nada de mais. Tive algumas idéias para redução de custos. Não gostaria de analisá-las comigo?
Paulo assentiu e voltou a atenção para os negócios. Adriano, vendo que não conseguiria mais influenciá-lo, saiu e foi ao
encontro de Clarinha.
Já era hora do almoço, e ela se preparava para sair. Clarinha apanhou a bolsa e foi até o banheiro. Ajeitou-se, passou batom
e sorriu. Estava bonita. Fechou a porta do toalete e falou para a secretária:
- Diga ao Dr. Aureliano que fui almoçar.
A secretária sorriu e balançou a cabeça, e Clarinha foi andando pelo corredor. Chamou o elevador e entrou, consultando o
relógio. Passavam poucos minutos do meio-dia, e Otávio, na certa, já a aguardava no térreo.
Otávio estava parado na portaria do prédio, esperando por ela. Pensou em subir, mas não achou boa idéia. Não queria atrapalhá-la
em seu trabalho. Apesar de saber que sua posição de juiz lhe franqueava todas as portas, não gostava de abusar.
Ela apareceu sorridente, aproximou-se dele e beijou-o nos lábios. - Olá, meu bem - saudou ela com jovialidade. - Demorei
muito?
- Nem um minutinho...
Abraçou-a com ternura, e Adriano quase se desesperou. Tentou
acertar-lhe um soco no queixo, mas Otávio nada sentiu. - Acho que encontrei um apartamento para você. - Sério?
- E. Não é muito grande, mas acho que vai servir. Quer ver? - É claro que quero.
- Então vamos comer um sanduíche, que é para termos mais tempo. Isto é, se você não se importar.
- Claro que não me importo.
Comeram rapidamente e depois tomaram um táxi, com Adriano a segui-los. Queria ver onde aquela história ia parar.
O apartamento era pequeno porém confortável. Iluminado, arejado, muito bem dividido. Clarinha olhou tudo, tirou medidas,
fez planos. Parecia o lugar ideal para ela.
- Então? - perguntou Otávio. - Gostou?
- Adorei. E perfeito para mim.
- Foi o que pensei.
- O aluguel é muito caro?
- Acho que não. Venha, vamos devolver as chaves ao porteiro e pedir o telefone do proprietário. Se você quiser ficar com
ele, é bom ligar logo.
Clarinha voltou para o trabalho de posse do telefone do dono do apartamento. Queria ela mesma tratar do assunto. O dono
do imóvel disse que havia outras pessoas interessadas. Contudo, como ela apresentava um juiz como fiador, ele iria dar-lhe
preferência. Se a documentação estivesse em ordem, poderiam marcar para breve a assinatura do contrato. Combinaram uma reunião
para o dia seguinte. Clarinha e Otávio iriam encontrá-lo em seu escritório, que ficava no centro da cidade, e acertariam
tudo.
Ao desligar o telefone, Clarinha sorriu satisfeita. Estava feliz, muito feliz. Conhecera um homem maravilhoso, que a incentivava
e a tratava com respeito, e não como uma menina mimada. Otávio sabia entender seus anseios e não achava que seu trabalho
era uma bobagem. E, agora, iria conseguir o que mais queria. Alugaria aquele apartamento e sairia da casa dos pais. Eles
iriam ver só. Se pensavam que ela era apenas uma criança voluntariosa, estavam muito enganados: era uma mulher decidida
e independente, e não uma daquelas dondocas que nasceram talhadas para o casamento.
Resolveu concentrar-se no trabalho, e Adriano sentou-se de frente a ela. Passou o dia a olhá-la, imaginando o que fazer
para afastá-la de Otávio.
- Você não pode pretender controlar todo mundo - era a voz de Ismael, que soou nítida atrás dele.
Adriano voltou-se indignado.
- O que faz aqui, velho? Não me lembro de tê-lo chamado.
- Vim apenas ver como você está se portando.
- Vá com calma. Não fiz nada.
- Sei que não. Contudo, não deixa a moça em paz.
- E daí? Ela é minha noiva.
- Não vê que isso é impossível? Você já não tem mais um corpo de carne.
- Isso não faz a menor diferença. Continuo vivo, e meus sentimentos são os mesmos.
- Mas suas necessidades não são.
- Quem é você para entender de necessidades?
- Não se exalte. Raiva não vai levá-lo a nada.
Adriano calou-se assustado. Será que Ismael fora ali para levá
lo de volta àquela prisão? Lendo-lhe os pensamentos, Ismael sorriu
com amargura e retrucou:
- Não se preocupe. A colônia-retiro é um lugar de descanso e meditação, não uma câmara de tortura com a qual se ameaçam
os espíritos faltosos.
- Eu não disse isso.
- Mas pensou. Quando o levei para lá, foi porque você queria fazer algo proibido. Não penso em conduzi-lo de volta, a não
ser que falte com sua palavra.
-Não fiz isso, fiz?
- Não.
- Então vá embora. Clarinha é outro assunto. Nada tem a ver com você.
Ismael suspirou, acercou-se dele e, colocando as mãos sobre seus ombros, aconselhou:
- Saia dessa vida, Adriano. Uma outra, muito mais tranqüila e feliz, espera por você.
- Agora vai me prometer o paraíso, é? Anjinhos cantando e coisas do gênero?
Ismael deu novo suspiro e finalizou:
- Você é quem sabe.
Saiu, e Adriano voltou sua atenção novamente para Clarinha. Ficara ali tão distraído que nem vira a hora passar. O expediente
chegara ao fim, e ela já estava se preparando para sair. Arrumou a mesa, apanhou suas coisas, deu um até-amanhã cordial
e se foi, com Adriano em seu encalço.
Novamente na rua, Adriano viu que aquele juiz idiota a estava esperando com o carro.
- De novo? - rugiu furioso.
Aproximou-se bem de Clarinha, ou melhor, colou-se a ela. Não
queria que ela fosse ao encontro daquele homem. Investiu contra ela com tanta violência que Clarinha, na mesma hora, começou
a sentir-se mal. O estômago revirou-se, a cabeça parecia que ia explodir. Foi sentindo uma fraqueza, um esmorecimento, até
que desmaiou a poucos passos do automóvel.
Otávio saltou do carro apavorado, enquanto algumas pessoas corriam para acudi-la. Ele pediu licença e ergueu-a no colo,
seguindo com ela para o carro e deitando-a no banco traseiro. Fechou a porta com rapidez e tomou a direção do hospital.
Ele ia apressado, tentando desviar-se dos carros que congestionavam o trânsito do fim da tarde. Parou no sinal vermelho,
impaciente, e olhou para trás. Clarinha continuava desacordada, pálida feito cera. Quando tornou a se virar para a frente,
viu a mãe de Clarinha, que atravessava a rua apressadamente, carregada de embrulhos. Intuitivamente, buzinou, e ela olhou.
Reconhecendo o juiz, aproximouse do carro.
- Dr. Otávio, como está?
Calou-se alarmada, vendo Clarinha deitada no banco de trás. Percebendo o que havia acontecido, fez sinal para o juiz, que
abriu a porta do outro lado, e logo entrou, toda atrapalhada com os pacotes. O sinal ficou verde e ele andou, desabafando
em seguida:
- Graças a Deus que a encontro, Dona Elisete. Clarinha desmaiou novamente, e estou a caminho do hospital.
Elisete olhou para a filha e sentiu um aperto no coração. Lembrou-se da conversa que tivera na casa de Inês na semana anterior.
Por coincidência, era quarta-feira, dia de sessão, e ela, enchendo-se de coragem, começou a falar:
- Doutor...
- Por favor, Dona Elisete. Trate-me apenas por Otávio.
- Está certo. Otávio, estive pensando. Não sei se seria uma boa idéia levá-la ao hospital.
- Não? - Ele estava perplexo. - Como assim?
- Bem, tenho uns amigos que... bem... que não acreditam que Clarinha esteja doente...
- Não? Por quê?
- Eles pensam que ela está sofrendo um tipo de... de...
Calou-se, sem ter como explicar aquilo, mas Otávio, para surpresa sua, completou sua frase com naturalidade:
- Perturbação espiritual?
- Sim... Como sabe?
- Bem, Dona Elisete, já conversei com eles. E também penso a mesma coisa.
- Pensa?
- Sim. Não sou propriamente um entendido no assunto, mas já
li o suficiente para desconfiar de casos como o de Clarinha.
Não querendo perder tempo, Elisete falou mais que depressa: - Então vai concordar comigo que precisamos levá-la a um
centro espírita. E o mais rápido possível.
Do lado do astral, Adriano esbravejou: - Centro espírita?! Isso é que não!
- Acho que seria uma excelente idéia- concordou Otávio. - Só que não conheço nenhum.
- Pois eu conheço. E o centro de Dona Inês, avó de Fabrício, aquele jovem advogado. E hoje, por coincidência, é dia de sessão.
Por que não a levamos lá?
Otávio já ia responder quando escutou um gemido. Olhando pelo espelho, viu quando Clarinha se levantou, ainda zonza, esfregou
os olhos e olhou para os dois.
- Mamãe! O que está fazendo aqui?
- Você desmaiou novamente - respondeu Otávio. - E, por sorte, encontrei sua mãe.
- Aonde estamos indo?
- A casa de Dona Inês.
- E? Para quê?
- Sua mãe falou que ela freqüenta um centro, e achamos que você devia ir até lá.
Adriano, confuso e indignado, afastou-se de Clarinha o suficiente para que ela despertasse, mas ficava inspirando-lhe
o desânimo e o cansaço.
- Ah, Otávio, não quero ir. Sinto-me mal ainda. O estômago dói. Acho que é melhor ir para casa descansar.
- Mas, Clarinha - protestou a mãe -, ir ao centro só lhe fará bem. E, depois, você sempre gostou. Chegou a brigar com seu
pai por causa disso.
- Eu sei, mãe. Só que agora não estou com vontade. Por que não deixamos para outro dia?
Adriano estava desesperado. Tinha medo de que, no centro espírita, descobrissem sua presença e o afastassem.
- Por que deixar para amanhã o que podemos fazer hoje? - brincou Otávio.
- Porque hoje estou me sentindo mal.
- Por isso mesmo - ponderou a mãe. - Quem sabe não é um problema espiritual?
- Mãe, muito me admira ouvi-la falar desse jeito. Você, que até então não acreditava em nada. O que deu em você para mudar
de idéia?
Elisete virou-se e fitou-a com os olhos cheios de água, respondendo com profundo sentimento:
- O amor de mãe, minha filha. Vê-la sofrer é, para mim, o maior sofrimento.
Clarinha calou-se. Diante das palavras da mãe, não tinha argumentos. Vendo-se sem saída, Adriano decidiu que não podia ir.
Não estava disposto a acompanhá-la àquele lugar novamente. Sabia que eles tentariam doutriná-lo, e não estava disposto a
ceder.
Ao chegarem à casa de Inês, a alegria foi geral. Selena ficou tão feliz que abraçou e beijou a prima diversas vezes. Elisete
telefonou para o marido, dizendo que encontrara Clarinha, e ambas haviam resolvido jantar fora, só para variar. Apesar de
Bernardo não aprovar, não disse nada.
Por volta das sete e meia, Fabrício chegou e, na hora marcada, foram todos ao centro espírita.
Até então, Adriano estava com eles. Mas, vendo a porta do centro se aproximar, foi diminuindo o passo, diminuindo, até que
ficou para trás. Parou numa esquina e ficou olhando o grupo se afastar. Em breve, alcançaram o centro e entraram, e ele,
virando as costas, tomou outra direção. Não entraria ali. De jeito nenhum.
Antônio abriu a sessão. Proferiu a prece, fez a palestra e convidou os espíritos presentes que quisessem se manifestar.
Nesse momento, Inês fixou o pensamento em Clarinha, mentalmente implorando ao espírito que a acompanhava que se fizesse
presente. Mas nada. Ninguém conhecido se manifestou, o que, de certa forma, foi frustrante, principalmente para Elisete.
Ela esperava que o obsessor se apresentasse e fosse logo afastado, mas não fora isso o que acontecera.
Depois que a sessão terminou, Inês explicou-lhe que, na maioria das vezes, os espíritos ignorantes não compareciam ao centro
espírita, com medo de serem esclarecidos e afastados de suas vítimas. Tinha sido isso, provavelmente, o que acontecera com
Clarinha. Contudo, era preciso não perder a fé e continuar assistindo às sessões. Com o tempo, os mentores encarregados
de auxiliar nos trabalhos da casa conseguiriam levar o espírito até lá, e então ambos seriam ajudados. Quanto mais o tempo
passava, mais Inês tinha certeza de que era o neto quem estava causando a Clarinha todo aquele mal-estar.
No sábado, às sete horas em ponto, Fabrício chegou à casa de Inês, que ficou deveras surpresa com a visita.
-O que está fazendo aqui tão cedo?- indagou ela, beijando-lhe as faces.
- Ah, vó - retrucou ele, retribuindo-lhe o beijo -, vim ficar com Selena e as crianças.
- Até parece que preciso de babá - brincou Selena.
- Fez bem, Fabrício - aquiesceu Inês. - Não é bom para Selena ficar sozinha com as crianças. Nunca se sabe o que pode acontecer.
- Ora, Dona Inês - protestou Selena. - O que poderia acontecer?
- Por acaso está me dispensando, é? - tornou Fabrício de bom humor.
- Não é nada disso. Não quero lhe dar mais trabalho. Já chega o que teve com o processo.
- Cuidar de você e das crianças não é trabalho nenhum. É o que me dá mais prazer.
Selena sorriu timidamente e apertou sua mão, puxando-o para a mesa do café.
Inês resolvera fazer uma pequena excursão a Friburgo naquele fim de semana. Iria com algumas pessoas do centro, que combinaram
levar agasalhos para as crianças de um orfanato daquela cidade.
Sentado à mesa do café, Fabrício sentou Carlinhos nos joelhos e pôs-se a brincar de cavalinho. O menino ria feliz, e Fabrício
terminou estreitando-o de encontro ao peito e beijando-o carinhosamente.
- Agora sou eu - queixou-se Selma, com sua vozinha miúda.
Selena apanhou Carlinhos do colo de Fabrício e sentou-o na cadeirinha, enquanto o rapaz erguia Selma e a ajeitava em suas-
pernas, brincando de cavalinho com ela também.
- Muito bem, já chega-disse Selena depois de um tempo, sorrindo e tirando a filha do colo de Fabrício.
- Ah, mamãe, tava tão bom!
- Você precisa se alimentar -aconselhou Fabrício. - Ou não quer ficar forte como o Popeye?
Selma sentou-se em seu lugar e apanhou o copo de leite, sorvendo-o com prazer. Vendo o carinho com que Fabrício tratava
seus filhos, Selena se emocionou e disse com doçura:
- Você é muito bom para meus filhos.
- Amo seus filhos como se fossem meus. E não digo isso só para agradá-la.
- Meu neto é um rapaz de ouro! - exclamou Inês, batendo-lhe de leve na mão. - Bem, agora preciso ir. já são quase sete e
meia, e o ônibus sai daqui a uns dez minutos. Cuide bem de Selena e das crianças por mim. Volto domingo à tardinha.
- Não quer que a acompanhe até a porta do centro, vovó?
-Não precisa. Bibiana vai me ajudar. Bibiana! O Bibiana, venha logo! já está na hora!
- já vou, já vou!
A criada veio apressada, enxugando as mãos no avental, que retirou e colocou no espaldar da cadeira. Inês despediu-se de
todos e saiu, carregando uma pequena valise e uma bolsa com alguns mantimentos.
- Tem certeza de que não quer que eu ajude? - tornou Fabrício, tentando segurar a alça da sacola.
- Não precisa, não, Fabrício - contestou Bibiana. - Não está pesada.
Vendo que não adiantava nada insistir com duas senhoras teimosas, Fabrício deixou-as ir.
Logo que elas saíram, esperou até que as crianças terminassem o café e sugeriu:
- Que tal irmos a Paquetá?
- Oba! - fez Selma, sem nem saber onde ou o que era Paquetá, mas feliz porque ia passear.
- Quer ir, Selena?
-Quero, sim.
- Então vão aprontar-se. Também vou me vestir.
Passaram o dia em Paquetá. Foram à praia, passearam, andaram de bicicleta, tomaram sorvete. Passaram um dia agradável, e
ninguém se lembrou da hora nem a viu passar.
Fabrício havia saído de manhã bem cedo e não falara nada com ninguém. Como a mãe ainda dormia, não quis despertá-la e não
se lembrou de deixar-lhe um bilhete. Pensou em telefonar-lhe mais tarde, mas acabou se envolvendo com Selena e esqueceu-se.
A princípio, Flávia não se preocupou. O filho não gostava de dar satisfações, e ela até imaginou que ele estivesse em companhia
de Selena. Sabia que Inês havia ido viajar e ficou pensando se ele não se oferecera para ficar na casa dela, fazendo companhia
a Selena e às crianças. Sim, pensou, só podia ser isso.
Por volta das cinco horas, Flávia e Paulo tiveram uma surpresa. Estavam na sala, jogando cartas, quando Olívia entrou, trazendo
nas mãos um envelope pardo. Ao ver aquele envelope, o coração de Flávia imediatamente sobressaltou-se. Era igualzinho àquele
que chegara contendo o ratinho morto.
Sem dizer nada, esperou que Paulo o apanhasse.
- Para quem é?-perguntou ele a Olívia, após constatar que não estava endereçado a ninguém em particular.
- Não sei, Dr. Paulo. Chegou há pouco pelo correio da tarde, mas quem mandou deve ter se esquecido de preencher o nome do
destinatário.
- Ora essa. O pessoal do correio devia ser mais criterioso.
- Abra, Paulo - sugeriu Flávia.
- É melhor mesmo. Se não está endereçado a ninguém...
Depois que Olívia saiu, ele abriu o envelope e dele retirou um frasquinho contendo um líquido vermelho. No rótulo, uma caveira
e as letras F E A. Ao ver o frasco, Flávia quase desmaiou, e Paulo perguntou indignado:
- Mas o que é isso?
Vendo o ar aterrado da mulher, repetiu:
- O que é isso? Você sabe, Flávia?
Olhando do frasco para o marido, Flávia balançou a cabeça e balbuciou:
- Não... não estou... não estou bem certa...
- Por quê? O que poderia ser? F E A ... Serão as suas iniciais? Ou as de Fabrício? Responda, Flávia! Você sabe! Pela sua
cara, sei que sabe de algo! Essas iniciais são as suas?
- Não... - balbuciou ela, confusa. - São as de Fabrício. Oh, Paulo, ele deve estar correndo perigo!
- Perigo? Por quê? O que ele fez?
- Ele não fez nada!
- Então, por que acha que ele pode estar correndo perigo? Por causa deste frasco?
Exibiu o frasco para Flávia, que recuou assustada.
- Oh, céus! Alguém quer prejudicar meu filho. Sinto isso!
- Deixe de bobagens! Quem iria querer fazer algum mal a
Fabrício?
-Não sei. O mundo está cheio de maldade. E, depois, se não quisessem fazer-lhe mal, por que nos enviariam esse frasco? E
o que há dentro? Será veneno?
Paulo abriu o frasco e cheirou o conteúdo. Avaliou-o bem e respondeu hesitante:
- Não sei ao certo. Pelo cheiro, parece sangue.
- Sangue? Oh, meu Deus! Será que é de Fabrício? Mataram meu filho! Meu Deus, mataram meu filho!
Começou a chorar descontrolada, e Paulo teve de sacudi-la para chamá-la de volta à razão.
- Nossa Senhora, Flávia! O que deu em você? Está ficando louca?
- Mas, Paulo, não percebe? Esse sangue deve ser de Fabrício. Alguém o matou e colocou o sangue dele aí dentro e enviou para
nós, para que soubéssemos.
- Não é nada disso. Deve ser apenas uma brincadeira de muito mau gosto. Nem sabemos se isso é mesmo sangue. - Mas você disse...
- Disse que parece sangue. Mas pode não ser. Ou pode ser sangue de algum bicho. Pare de pensar bobagens e acalme-se.
- Mas, então, por que Fabrício não telefona? Por que não dá notícias?
- Você sabe tão bem quanto eu que Fabrício não gosta de dar satisfações de sua vida. Na certa, está por aí com aquela...
com Selena e nem se lembrou de telefonar. Você não disse que sua mãe ia viajar? Pois então? Ele deve estar lá com ela.
Na mesma hora, Flávia correu para o telefone e discou o número da casa da mãe. Deixou que tocasse, mas ninguém atendia.
Fabrício e Selena estavam na ilha de Paquetá, e Bibiana fora ao mercado comprar batatas. Desesperada, Flávia apertou o gancho
e tentou novamente. Nada. Ninguém respondia.
Pousou o fone no gancho, esperou cinco minutos e tentou novamente. Tocou, tocou, e nada. Até que Bibiana, que vinha chegando
da rua, correu para o telefone, mas não conseguiu chegar a tempo. Flávia já havia desligado.
- Por que não atendem? - indagou, já em lágrimas.
- Na certa, não estão em casa.
- Ninguém? E Bibiana? Mamãe disse que ela só ia embora à noite. Por que não atende?
-Não sei. Ela deve ter saído. Quem sabe, ido ao açougue ou à padaria?
- Não! Vou até lá, Paulo! Quero ver se estão bem!
Vendo o descontrole da mulher, Paulo achou melhor não a contrariar.
- Está certo, querida. Fique calma. Vamos até lá.
Enquanto tiravam o carro da garagem, Bibiana, na casa de Inês, terminava de dar os últimos retoques no jantar. Deixara carne
assada prontinha no forno. Era só esquentar. A casa já estava toda arrumada, inclusive o quarto em que Fabrício iria dormir.
Colocara lençóis limpos na cama e trocara as flores dos jarros.
Tudo terminado, tomou um banho rápido, vestiu-se e saiu, levando a chave reserva que costumava ficar com ela. Os meninos,
como os chamava, já deveriam estar chegando, e não havia necessidade de deixar nenhuma luz acesa. Trancou a porta da frente
e o portão e se foi.
Assim que dobrou a esquina, rumo ao ponto de ônibus, o carro de Paulo surgiu pelo outro lado. Estacionou em frente ao casarão,
e Flávia saltou apressada. Tocou a campainha diversas vezes, mas ninguém atendeu. Tentou espiar pelas barras de ferro do
portão, mas não viu nada. O Jaguar de Fabrício, estacionado na garagem atrás da casa, ficava fora da vista de quem estivesse
na frente. O que teria acontecido?
- Oh, Paulo! - choramingava Flávia. - Alguma coisa aconteceu. Por que não respondem? Onde estão todos?
Embora a contragosto, Paulo resolveu ir à polícia, mas o delegado disse que não poderia fazer nada. Não havia nenhum indício
de que algum crime houvesse sido cometido, e o frasco contendo o líquido vermelho não era suficiente para comprovar nada.
Além disso, não podia invadir a casa de ninguém sem uma ordem judicial.
Tampouco havia motivos que justificassem um mandado.
Paulo e Flávia retornaram para casa frustrados. Na volta, ainda passaram de novo pela casa de Inês, mas estava tudo escuro,
não havia ninguém. Em casa, Flávia tentou ligar novamente, mas ninguém atendia.
Por volta das oito da noite, Fabrício chegou com Selena. As crianças dormiam no colo de ambos, acomodadas no banco traseiro
do táxi que os levara da Praça Quinze até em casa. Fora um dia exaustivo, embora divertido.
- Acho que Bibiana já foi - comentou Selena.
- Também, pela hora! - acrescentou Fabrício.
- Espero que não tenha ficado preocupada. Nós demoramos muito.
- Acho que não. Ela sabe que Paquetá é longe e que a barca leva uma hora para cruzar a baía.
Desajeitadamente, com Selma adormecida em seu colo, Fabrício abriu o portão e a porta da frente, e eles passaram. Selena
foi direto para o quarto. As crianças estavam sujas, mas ela não tinha coragem de despertá-las para que tomassem banho.
Ela e Fabrício, após se banharem, esquentaram a carne assada que Bibiana deixou preparada e, mortos de cansaço, foram dormir.
Em sua casa, Flávia não tinha sossego. A cada instante, ia para a janela ver se Fabrício aparecia. Não entendia por que
o delegado não acreditara nela. Para ela, o frasco era prova mais do que suficiente de que algo havia acontecido. Mas ela
não tinha como comprovar quem havia mandado o envelope, e o delegado não estava disposto a molestar cidadãos inocentes
por causa de uma suspeita infundada.
Telefonou novamente. Dessa vez, porém, Fabrício e Selena, dormindo profundamente, nem sequer escutaram o telefone tocar.
Ambos estavam com as portas fechadas e haviam ferrado no sono, e nem uma bomba seria capaz de despertá-los.
Flávia estava tão agoniada que não conseguia dormir. Ficava andando de um lado para o outro, chorando e apertando as mãos
nervosamente, até que Paulo, não suportando mais tanta angústia, buscou um calmante no armário do banheiro e fez com que
ela o tomasse. Ela ainda relutou, mas ele acabou convencendo-a.
De qualquer sorte, teriam de esperar até o dia seguinte para fazer alguma coisa.
Quando o dia amanheceu, Fabrício acordou e foi bater na porta do quarto de Selena.
- Bom dia - cumprimentou ele, assim que entrou.
- Bom dia - responderam todos ao mesmo tempo.
As crianças haviam pulado para a cama de Selena e estavam abraçadas a ela, ainda sonolentas porém já de olhos bem abertos.
- O que a gente vai fazer hoje? - quis saber Selma, toda animada.
- Hoje? Hmm... deixe-me ver... Que tal irmos à praia?
- Oba! Oba! - exclamou Carlinhos.
Desceram, tomaram café e Fabrício foi tirar o carro para irem à praia. Estava tão entretido com Selena e as crianças que
nem sequer se deu conta de que se esquecera de avisar a mãe que passaria o fim de semana fora. Sua felicidade era tanta
que nada nem ninguém seria capaz de interrompê-la.
O efeito do calmante fez com que Flávia dormisse até tarde na manhã seguinte. Ao acordar, a primeira coisa que perguntou
foi se Fabrício já havia chegado. Informada de que não, correu novamente para o telefone e tornou a ligar para a casa da
mãe. Mas Fabrício havia muito já não estava, e o telefone, mais uma vez, ficou ressoando pela casa vazia.
Vendo as crianças brincar na areia, Fabrício segurou gentilmente a mão de Selena e levou-a aos lábios. Ela sorriu com meiguice
e acariciou-o de leve no rosto, beijando-o delicadamente nos lábios.
- Sabe que a amo, não é? - perguntou Fabrício, a voz embargadapela emoção.
- Sei, sim. E eu também o amo muito. Você é um homem maravilhoso.
- Estive pensando...
- O quê?
- Gostaria de se casar comigo?
Ela o encarou assustada e baixou os olhos, respondendo timidamente:
- Não posso mais me casar. Nem na igreja. Sabe que a religião não aceita o desquite.
- Eu sei. Mas podemos viver juntos, mesmo assim.
- Você não se importa? Quero dizer, de ir morar com uma mulher desquitada, com dois filhos? Sabe que não deixo meus filhos,
não sabe?
-Nem quero isso. Também já lhe disse que gosto deles como se fossem meus. E, depois, ficaria muito decepcionado se você
os trocasse por mim.
- Ficaria?
- E claro. O que poderia esperar da futura mãe de meus filhos se ela não ligasse para os que já tem?
Selena sorriu e beijou-o novamente, e ele prosseguiu:
- Então? Ainda não me deu sua resposta. Aceita ou não ir morar comigo? Podemos oferecer um jantar para as pessoas mais íntimas,
só para "oficializar" nosso casamento.
- Não sei, Fabrício. Pensei que agora talvez eu pudesse arranjar um emprego.
- Um emprego não é empecilho para nosso casamento.
- Você não se importa que eu trabalhe fora?
- É claro que não. Você pode fazer o que quiser. Trabalhar, estudar, ficar em casa... Você é quem sabe. O que quiser fazer, esteja
certa de que apoiarei.
Depois de alguns segundos de suspense, ela apertou as mãos dele e respondeu com emoção:
- Está certo. Aceito. É o que mais quero. Depois verei o que fazer de minha vida.
Beijaram-se com paixão. Amavam-se sinceramente e tudo que mais desejavam era constituir uma família juntos. Deram a notícia
às crianças, que, apesar de não entenderem muito bem, ficaram felizes em saber que tio Fabrício iria morar com eles.
Quando Inês chegou, no final da tarde de domingo, eles ainda não haviam voltado da praia, e ela, ouvindo o telefone tocar,
abriu a porta depressa e correu para atender.
- Alô?
Tarde demais. A pessoa que ligara havia desligado segundos antes de ela atender e não chegara a ouvi-la. Inês pensou que
a pessoa ligaria de novo, mas Flávia, do outro lado da linha, já havia ligado três vezes seguidas. Colocou o fone de volta
no gancho, desanimada, e voltou a chorar.
- Flávia, pelo amor de Deus, acalme-se.
- Como posso ficar calma? E você? Não se preocupa?
Paulo não acreditava que alguma coisa tivesse acontecido. Na certa, Fabrício estava por aí com aquela ordinária e nem se
lembrava de que tinha mãe. Se alguma coisa houvesse acontecido, eles já teriam ficado sabendo, ainda mais porque a polícia
já fora alertada.
-Não é que não me preocupe. Mas acho que não aconteceu nada. As más notícias voam.
- Será?
- Tenho certeza. Fabrício deve ter caído na farra e nem se lembrou de você. Você é que é uma tola, perdendo o sono e a tranqüilidade
por causa daquele ingrato.
- Não fale assim.
- E isso mesmo. Duvido que algo tenha acontecido. Você vai ver que, logo, logo, ele vai entrar por aquela porta... Agora
largue esse telefone e venha cá. Vamos fazer um lanche.
- Não estou com fome.
- Deixe de bobagens. Você está parecendo uma neurótica.
Flávia soltou o telefone e foi para junto dele. Não se sentia com ânimo para brigar.
Quando Fabrício e Selena chegaram da praia, por volta das cinco e meia, estavam todos mortos de cansaço. As crianças foram
tomar banho e depois desceram para jantar. Enquanto elas comiam, Fabrício se despediu, deixando para Selena o encargo de
participar à avó a decisão que tomaram de irem morar juntos. No dia seguinte, Fabrício teria uma audiência importante e
ainda queria se preparar. Depois, voltaria e então poderiam comemorar.
Assim que abriu a porta de casa, foi surpreendido pelos gritos furiosos do pai:
- Muito bem, Dr. Fabrício! Isso se faz?
- Oh, graças a Deus! -completou a mãe, correndo para ele em lágrimas.
Fabrício, atônito, olhou o pai e tentou contestar:
- Pai, pare com isso. Não estou a fim de discutir com você.
- Ah, não está a fim, é? E de que está a fim? De matar sua mãe do coração?
Fabrício ergueu o queixo da mãe, que se agarrara a ele, e encarou-a com ar interrogativo.
- O que houve?
- Não sabe? Sua mãe quase morreu de preocupação por sua causa!
- Mas por quê? O que fiz?
Paulo dirigiu-se para a escrivaninha e apanhou um envelope, estendendo-o para ele.
- Isto chegou ontem de tarde.
Era o pequeno frasco contendo um líquido vermelho que parecia sangue.
- Quem o enviou?
-Não sei. Diga você.
- Ah, meu filho - interrompeu Flávia. - Fiquei tão assustada.
Tive medo de que algo lhe houvesse acontecido.
Desatou a chorar, abraçando-se a Fabrício, que retrucou: - Isso deve ser alguma brincadeira...
- Foi o que eu disse a ela - cortou o pai abruptamente. - Mas
ela não quis me ouvir. Cismou que você estava em perigo.
- Mãe, estou bem. Não aconteceu nada.
- Onde esteve metido durante todo o fim de semana?- inqui
riu o pai com raiva.
- Isso não importa, pai.
- Tem razão, não importa - repetiu Flávia. - O que importa é que ele está aqui conosco, são e salvo.
- Esteve com aquela vagabunda? - Paulo, estimulado pelo ódio de Adriano, continuava a provocá-lo.
- Pai, já lhe disse mil vezes para não a chamar assim.
- Ah, não? E como devo chamá-la? Sua donzela virginal? Tentando controlar a raiva, Fabrício desvencilhou-se delicada
mente da mãe, aproximou-se de Paulo e declarou com voz firme: - Pois fique sabendo que nós resolvemos nos casar.
- Casar? Mas como? Mulher desquitada não se casa, se acasala...
Fabrício não viu mais nada. Cego pela revolta, desferiu violento soco no queixo do pai, que rodou sobre si mesmo e desabou no
chão, batendo a cabeça contra o sofá.
- Miserável! - esbravejou Paulo, levando a mão ao pescoço e
esfregando a nuca. - Podia ter-me matado!
Flávia, apavorada, correu para o marido, tentando levantá-lo. - Meu Deus, Paulo! Você está bem? - E, virando-se para Fa
brício, censurou-o com veemência: - Não devia ter feito isso, meu
filho. Ele é seu pai!
Só então, dando-se conta do que havia feito, Fabrício correu para
Paulo e estendeu-lhe a mão, falando com angústia:
- Papai, perdoe-me! Perdi a cabeça, perdoe-me!
- Afaste-se de mim, seu cretino! - gritou Paulo entre dentes.
- Não se aproxime mais de mim!
Amargurado, Fabrício ergueu as mãos para o céu e implorou: - Por favor, não queria fazer isso. Foi um desatino. Perdoe-me.
- Não! Mil vezes não, seu animal!
- Paulo, por Deus! - objetou Flávia. - Fabrício agiu mal, mas
está arrependido. Perdeu a cabeça, você o provocou. Por favor, abra
ce-o e vamos acabar com essa briga.
- É, pai - concordou Fabrício, completamente transtornado e
com os olhos rasos de água. - Isso não vai mais acontecer. Eu juro. - Saia de perto de mim! Não quero mais vê-lo!
- Ora, vamos, pai, por favor - implorava Fabrício, sentindo o
remorso roê-lo por dentro. - Sei que o que fiz foi grave e não merece perdão. Mas estou lhe pedindo, sinceramente, que me perdoe. Será
que é assim tão duro que não pode perdoar o próprio filho?
Paulo encarou-o com desgosto e, fuzilando-o de ódio, rugiu: - Você não é meu filho!
- Pai, por favor, perdoe-me. Não faça isso comigo. Sei que não
gosta muito de mim, mas sou seu filho...
- Você não é meu filho, já disse! É apenas um bastardo imun
do, abandonado pela mãe no meio da guerra!
Fabrício recuou aterrado, enquanto Flávia, chorando, implorava ao marido que se calasse.
- O que disse? - perguntou Fabrício atônito.
- Paulo, pelo amor de Deus, não diga mais nada! - suplicava Flávia.
Mas Paulo não ouvia mais a voz da razão. Dominado pelo ódio,

despejou sobre o filho toda a ira e a frustração acumuladas durante todos aqueles anos.
- Eu disse que você não é meu filho! Nunca foi! E um enjeitado que Flávia, por piedade, resolveu acolher. Não tem meu sangue!
Não tem! Não é um verdadeiro Lopes Mandarino!
Adriano exultava. Conseguira o que queria. Fabrício não sabia o que dizer ou pensar. Recebera um duro golpe, mas não sabia
se acreditava. Ainda tentou protestar:
- Pai, por favor, sei que está com raiva, mas não precisa me agredir desse jeito.
- Você é um enjeitado! Um bastardo! Eu o odeio, Fabrício! Odeio-o porque tomou o coração de Flávia, porque tomou o lugar
de meu filho. Meu filho! - Bateu no peito diversas vezes. - Meu único filho, Adriano, que morreu para que você pudesse viver.
Que direito tem de estar vivo no lugar dele, Fabrício? Você não é nada, não é ninguém. Nem sabemos quem foi sua mãe, nem
se teve um pai de verdade! Você é apenas um bastardo! Um bastardo!
Flávia chorava descontrolada e correu para o filho, segurandoo pelos braços e balbuciando:
- Fabrício... meu filho... por Deus...
- Filho?! - interveio Paulo com sarcasmo. - Ele não é seu filho, Flávia. Não é filho de ninguém!
Fabrício retirou as mãos da mãe de seus braços e, ainda segurando-as, falou com profundo desgosto:
- Isso é verdade, mãe?
- Oh, Fabrício...
- E verdade ou não?
- É claro que é verdade! - respondeu Paulo.
Sem prestar atenção ao que o pai dizia, Fabrício fixou os olhos da mãe e tornou a perguntar:
- Quero saber de você, mãe. Isso é verdade ou não é? - Fabrício, eu...
- Responda-me. Eu preciso saber. É verdade o que meu pai diz? Completamente arrasada, Flávia deixou cair os braços ao longo
do corpo e sussurrou vencida:
- Sim...
Aturdido, Fabrício afastou-se dela e, após o impacto dos primeiros instantes, retrucou com desgosto:
- Por que não me contou? Por quê?
- Meu filho... eu o amo... não tive coragem...
- Você é um intruso, Fabrício- continuava Paulo. -Não tem o direito de estar aqui.
- Não! - gritou Flávia. - Fabrício é meu filho, tanto quanto Adriano o foi...
- Por favor, mãe - cortou Fabrício. -Não diga mais nada. Não quero saber de mais nada. Deixe-me.
Foi andando para trás, até que alcançou a porta. Colocou a mão na maçaneta, ainda encarando a mãe, abriu a porta e, rodando
nos calcanhares, disparou pelo corredor. Flávia foi atrás dele, gritando da porta:
- Fabrício! Fabrício, meu filho, volte! Pelo amor de Deus, volte! Deixe-me explicar!
Alguns vizinhos, ouvindo aquela gritaria, entreabriram suas portas para ver o que estava acontecendo, e Flávia voltou para
dentro, envergonhada. Fabrício nem esperara o elevador. Descera correndo pelas escadas. Não queria ter de falar com a mãe.
Naquele momento, não queria falar com ninguém.
Quando Flávia entrou em casa, Paulo estava sentado no sofá, ainda esfregando a nuca.
- Por que fez isso, Paulo, por quê? Você me prometeu...
- Ele me agrediu. Você mesma viu.
- Mas você o provocou.
- Não interessa. Ele é meu filho. E os filhos não podem bater em seus pais. É a maior falta de respeito!
- Agora ele é seu filho, não é? Só na hora de lhe exigir respeito é que você se lembra de que ele é seu filho. Mas na hora
de desrespeitá-lo, de humilhá-lo, de maltratá-lo, você se esquece de que é pai dele. Você não tinha o direito de fazer isso.
E agora? O que será dele? O que será de mim?
- Não se preocupe - respondeu ele, sem muita convicção. - Depois que a raiva passar, ele volta. Afinal, onde encontrará
o conforto que tem aqui?
- Você me enoja, Paulo. Pensei que fosse um homem digno, mas agora vejo que me enganei. Como pude deixar-me enganar durante
todos estes anos?
- Não diga isso. Eu a amo. Você sabe disso. A minha vida inteira, fiz tudo por você. Dediquei-me a você com paixão e afeto. Pode duvidar de tudo, menos de meu amor
por você.
- Isso não é amor. E posse, orgulho, apego... tudo menos amor. Se você me amasse de verdade, saberia me entender e respeitar
meus sentimentos para com Fabrício. Sabe quanto o amo.
Sentindo uma pontada de arrependimento, não por Fabrício, mas pela mulher, Paulo aproximou-se e, cabeça baixa, desabafou:
- Não acha que está sendo muito dura comigo? Não percebe quanto me esforcei para aceitá-lo? Mas não pude, não consegui.
Falhei, é verdade. Mas não foi porque quis. Foi porque não consegui sentir o amor que você desejava. Não tenho culpa se
não consegui, como pai, corresponder a suas expectativas de mãe.
Flávia baixou os olhos e começou a chorar. Em seguida, foi para o quarto e, sem dizer nada, tirou a mala do armário e começou
a colocar algumas roupas dentro dela.
- O que está fazendo?- indagou Paulo, atônito.
- Vou embora. Volto para a casa de mamãe. - Você não pode fazer isso. E minha mulher!
- Devia ter pensado nisso antes de destruir a vida de meu filho. - Não pode estar falando sério. Não pode ama-lo mais do que a mim!
- Pois eu amo. Ele é meu filho. E não há no mundo sentimento maior que o amor materno.
- Mas você nem é mãe dele!
Sem nem pensar, Flávia desferiu-lhe um tapa no rosto e revidou entre dentes:
- Nunca mais diga isso! Nunca mais!
Apanhou a mala e, sem dizer mais nada, saiu. Na rua, chamou um táxi e deu o endereço da casa de Inês, que, pela hora, já
deveria ter voltado de Friburgo. Senão, esperaria até que ela voltasse. Precisava desesperadamente da mãe. Só ela saberia
como ajuda-la. E, depois, quem sabe Fabrício também não estivesse lá?
Fabrício havia saído desatinado pela rua. Entrou em seu carro, deu partida no motor e saiu em disparada. O trânsito estava
desafogado, e ele pôde acelerar mais que o habitual. Ia desorientado, sem saber que rumo tomar. Viu à sua frente um clarão
e olhou para o céu. Um raio acabara de cair a distância, e o ruído forte do trovão se fez
ouvir logo em seguida. Alguns minutos depois, uma chuvinha fina começou a cair. Em seguida, desabou o temporal, e grossos
pingos escorriam pelo pára-brisa, obrigando Fabrício a ligar o limpador.
Sem sentir, começou a subir a Avenida Niemeyer, e o carro, em disparada, foi serpenteando pela estrada sinuosa. A cada curva,
Fabrício podia ver o mar se agigantando lá embaixo, e foram muitas as vezes em que a traseira do automóvel derrapara e chegara
a roçar a
mureta do outro lado da pista. Quase batera em um carro que vinha na direção contrária, mas segurou o volante e trouxe o
carro de volta à pista. O motorista do outro automóvel buzinou, e Fabrício ainda ouviu um grito, que lhe pareceu um palavrão.
Nada disso lhe importava. Estava cego pela revolta e pela indignação. Como a mãe pudera fazer aquilo com ele? Como pudera
engana-lo durante todos aqueles anos? Com esse pensamento, foi acometido de uma sensação de invalidação, como se nada que
possuísse lhe pertencesse, inclusive aquele carro. Perdeu o sentimento de domínio que tinha sobre todas as suas coisas,
como se estivesse usufruindo de algo que não merecia ser seu.
E o amor? Não conseguia nem valorizar aquele sentimento. Que amor? A mãe o adotara movida por um impulso de piedade, e o
pai nem sequer conseguira aceitá-lo. Também, como aceitar um estranho, cuja presença tolerara só para satisfazer o altruísmo
da mulher? Agora compreendia tudo. Entendia por que era tão diferente não só do irmão mas também do resto da família. Compreendia
por que o pai não gostava dele e por que a mãe o protegia. Paulo não conseguia vê-lo como filho e julgava-o um usurpador;
usurpara o lugar que pertencia a Adriano por direito e por nascença.
Flávia, por sua vez, sentia pena dele. Por isso o protegia: porque o julgava a parte mais fraca. Não tinha coragem de contar-lhe
a verdade porque tinha medo de que ele não suportasse e se revoltasse. Mas por quê? Por piedade. Porque sentia pena dele.
Pena de sua condição de enjeitado, de renegado pela mãe. Paulo dissera que nem conheceram sua mãe e que ela o abandonara
na guerra. Por quê? Porque precisava fugir e se esconder, e um filho pequeno seria um estorvo? Por que então não o deixara
lá para morrer? E ela? Teria morrido também? E quem teria sido seu pai verdadeiro?
Quanto mais pensava nessas coisas, mais se indignava e mais acelerava o automóvel. De repente, pensou em Adriano. O irmão
morrera sem nada saber. Mas será que não sabia mesmo? Na certa, ao desencarnar, ficara conhecendo toda a verdade. E como teria
reagido?
Sentado a seu lado, braços cruzados, Adriano lia seus pensamentos.
- Como acha que me senti, sabendo que você tomou meu lugar? - revidou ele, coberto de ódio.
Mentalmente, Fabrício ia respondendo:
- Mas eu não tive culpa. Não sabia de nada. Fui tão inocente quanto Adriano.
- Inocente? Desde quando usurpadores são inocentes? Você tomou o que é meu!
- Não tomei nada de ninguém. Se soubesse disso há mais tempo, teria dado outro rumo à minha vida.
- Que rumo? Teria voltado para a Alemanha?
Fabrício não respondeu. Sentiu a raiva crescer dentro do peito e começou a chorar. O carro, como que desgovernado, descia
a estrada a toda velocidade, derrapando na pista molhada. Raios e trovões caíam à sua frente, e o mar, a todo instante,
aparecia revolto a seu lado, chocando-se violentamente contra as rochas lá embaixo.
- Foi numa noite assim que Adriano morreu - pensou em voz alta.
- Sim, idiota - respondeu Adriano entre dentes. - E, pelo visto, você vai ao meu encontro da mesma forma.
-Não vai, não - uma voz de mulher fez-se ouvir no banco traseiro, e Adriano virou-se espantado.
Sentados no banco de trás, Helga e Ismael olhavam-no penalizados.
- O que fazem aqui? - esbravejou Adriano. - Mas será possível que, aonde vou, sou obrigado a dar de cara com vocês? Por
que não desaparecem?
- O que está pretendendo, Adriano? - tornou Ismael. - Levar seu irmão ao suicídio?
- Eu não!
- Mas, desse jeito, ele vai acabar se matando.
- E daí? Não tenho nada com isso. Ele dirige feito um louco porque quer.
- Com certeza. Mas, não fosse sua influência, ele não captaria a vibração de seu acidente e não a atrairia para ele.
- Ah! Quer dizer agora que, se ele morrer, a culpa será minha?
- Não. Ele está em sintonia com você porque nutre os mesmos sentimentos que você, naquele dia. Está revoltado, com raiva,
com ciúme de você.
- Ciúme de mim? Ora, essa é boa.
- Sim, ciúme. Você era o filho legítimo. Você conquistou o amor do pai.
- E ele tem o amor de minha mãe.
- Assim como você. Sua mãe ama a ambos com igualdade. Mas seu pai, durante todos esses anos, só conseguiu amar você.
Adriano calou-se por uns instantes, até que retrucou:
- Olhe, velho, não tenho nada com o que Fabrício faz.
- Então, por que o está acompanhando?
- Por quê? Ora, porque gostaria de ver onde isso vai parar.
- Vai parar no fundo do abismo - respondeu Helga de repente-, se nós não fizermos nada para impedir.
Colocou as mãos na testa de Fabrício e começou a vibrar o sentimento de amor pela vida. Por que não prestava atenção ao
que estava fazendo? Por que dirigia feito um louco por uma estrada perigosa e escorregadia, encharcada pela chuva? Será
que não conseguia ver a similitude entre aquela situação e aquela que causou a morte de Adriano? Não conseguia perceber
que estava repetindo os passos do irmão? Será que queria desencarnar, como ele?
- Você não precisa passar por isso, Fabrício - sussurrou Helga a seu ouvido. - Adriano escolheu. Você, não. Não sintonize
com o ódio e a revolta dele. Seja forte e enfrente a vida. Mas, antes, escolha viver.
Subitamente, Fabrício tirou o pé do acelerador e começou a frear. Mas o carro, embalado na descida, não obedecia a seu comando.
Os freios, molhados pela chuva, não funcionavam direito, e o automóvel continuava serpenteando estrada abaixo. Fabrício
começou a ficar nervoso. Só então se dera conta do que estava se passando. Saíra feito um louco, dirigindo de forma imprudente
por aquela avenida perigosa. Mas não queria morrer. Adriano perdera a vida num dia como aquele. Mas ele, não. Precisava
parar aquele carro, que ia ganhando velocidade à medida que a descida se acentuava.
Com esforço e destreza, Fabrício ia controlando o volante, mas não conseguia evitar que o automóvel derrapasse e saísse
de lado. Em pânico, via as rochas à sua direita e o mar à sua esquerda, imaginando o que o destino lhe havia reservado: chocar-se contra
a montanha de pedra ou despedaçar-se no mar lá embaixo.
Mas o destino conspirava a seu favor, porque Fabrício o traçara na direção da vida. Conseguiu conduzir o carro até o fim
da estrada e afundou o pé no freio, virando o volante para a direita. O automóvel obedeceu, fazendo a curva a toda velocidade,
com os pneus já travados. O carro rodopiou uma, duas, três vezes e saiu andando de ré. Subiu a calçada, até que parou, centímetros
antes de colidir contra a parede de um imenso hotel.
Quando o carro parou, Fabrício pousou o rosto no volante e, com lágrimas nos olhos, balbuciou aturdido:
- Meu Deus... obrigado..
No mesmo instante, pessoas apareceram. Viram quando o carro fizera a curva e rodara, e haviam acorrido para ver se havia
alguém ferido. Fabrício levantou-se e saiu ileso, sem nenhum arranhão. Foi apenas o susto. O susto e a certeza de que fora
a interferência do alto que o salvara, poupando-o de ter a mesma sorte do irmão.
Fabrício agradeceu a ajuda que lhe ofereciam e pediu para usar um telefone. Foi levado até a recepção do hotel, ainda trêmulo,
e discou o número do auto-socorro. Ao subir o meio-fio, àquela velocidade, algo no carro se soltara, e o motor não pegava
mais. O homem do outro lado da linha mandou que aguardasse, pois estava providenciando um reboque para buscar o automóvel.
Fabrício desligou e agradeceu novamente, mas foi então interpelado:
- Tem certeza de que está bem? - indagou o gerente. - Estou ótimo - respondeu Fabrício.
- Acho melhor ele descansar... - sugeriu uma hóspede. - Obrigado. Mas estou bem, já disse.
- O que houve, rapaz? - indagou um senhor. - Por que corria tanto? Não está alcoolizado, está?
Fabrício sorriu com benevolência e retrucou:
- Não, senhor. Não ingeri uma gota sequer de álcool. O que
aconteceu foi que perdi o freio bem na descida. O carro ganhou velocidade e, com a chuva, não consegui parar. - Mas que coisa! - tornou a mulher.
- Essa estrada é um perigo. Ainda mais com um tempo destes.
- Pois é. Mas agora, graças a Deus, está tudo bem.
Fabrício despediu-se e foi postar-se ao lado do carro, a fim de esperar o reboque, que chegou cerca de uma hora depois.
Com o carro na oficina, Fabrício não sabia para onde ir. Para a casa da avó, seria impossível, pois, na certa, seria o primeiro
lugar em que Flávia o procuraria, e não queria falar com ela, ao menos por enquanto.
Chamou um táxi e pediu que o levasse a um hotel. Passaria a noite lá e depois pensaria no que fazer. Se é que haveria o
que fazer.
Ao chegar à casa de Inês, Flávia estava desesperada. Pensou que Fabrício tivesse ido se refugiar nos braços de Selena ou
da avó. Mas ninguém sabia de nada, e ambas ficaram deveras surpresas ao ver Flávia ali, de mala na mão, pedindo para ficar.
- Mas o que houve, minha filha? - indagou Inês alarmada, tomando-lhe a mala da mão e fazendo-a sentar-se. - Você e Paulo brigaram?
- Sim...
- Mas por quê?
Era a primeira vez que aquilo acontecia. Desde que se casaram, fazia mais de trinta anos, Paulo e Flávia nunca haviam tido
um desentendimento sério. Brigavam como todo casal, mas nada que os afastasse ou que levasse um deles a sair de casa.
Percebendo o constrangimento de Flávia, Selena pediu licença para se retirar e foi para o quarto dormir. Depois que ela
saiu, Flávia, encarando Inês com os olhos banhados em lágrimas, desabafou:
- Oh, mãe! Aconteceu! Ele descobriu. Fabrício descobriu tudo.
Aturdida, Inês pensou que não havia compreendido direito.
- Descobriu o quê, Flávia? Que não é seu filho?
Vendo que a filha assentia, Inês levou a mão à boca e deixou escapar num sussurro:
- Eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer.
- E agora? O que vou fazer?
- Onde ele está?
- Não sei. Saiu de casa feito um louco. Pensei que tivesse vindo para cá.
- Aqui ele não apareceu. Aonde terá ido? - Ah, meu Deus! Só espero que esteja bem. - Vamos fazer uma oração por ele.
Oraram com fervor, e Ismael e Helga acorreram no mesmo instante. Foi quando, atendendo ao apelo delas, apareceram no carro
de Fabrício para ajudá-lo.
Terminada a oração, Flávia começou a chorar, descontrolada.
- Tudo por culpa de Paulo. Foi ele quem contou. Aquele desgraçado! Nunca mais quero vê-lo enquanto viver!
- Acalme-se, minha filha, e conte-me como aconteceu.
Tentando controlar a emoção, Flávia enxugou as lágrimas e começou a contar tudo à mãe, desde quando Fabrício saíra de manhã
até o momento em que voltara. Contou-lhe do frasco com o líquido vermelho e da caveira com suas iniciais, de quanto ficara
nervosa e telefonara insistentemente, mas ninguém atendera.
- Selena me disse que eles passaram o sábado em Paquetá e hoje foram à praia.
- Mas eu não sabia. Liguei diversas vezes, vim até aqui com Paulo. Até fomos à polícia.
- Polícia?
- E. Fiquei preocupada com aquele frasco. Para mim, era outra ameaça. Só que o delegado disse que não podia fazer nada...
Ah, mãe, fiquei tão desesperada! Só o que podia pensar era que havia perdido meu outro filho. Não poderia suportar perder
dois filhos!
- Acalme-se, meu bem. já passou.
- Não, não passou. Onde está Fabrício? Por que não aparece? - Ele vai aparecer, não se preocupe. Na certa, precisa apenas
de um tempo para pensar.
- Acha mesmo?
- Tenho certeza. Fabrício é um rapaz inteligente e sensato. Não vai se deixar levar pelo ódio e esquecer quanto você o ama
e quanto ele a ama. Vai aparecer, você vai ver.
Ainda soluçando, Flávia trincou os dentes e revidou com raiva: - Tudo por causa de Paulo! Por que o odeia tanto? - Não acuse
seu marido. Ele não tem culpa.
- Não tem culpa? Como pode dizer uma coisa dessas? Pois se foi ele quem contou! Quebrou a promessa que me fez e contou. Chamou Fabrício de bastardo!
- Paulo jamais conseguiu aceitar Fabrício.
- E isso não é horrível? Não conseguir amar o próprio filho?
- Flávia, o amor não se impõe; conquista-se, constrói-se.
- Mas por que ele também não pôde construir o amor por Fabrício, assim como fez com Adriano? Só porque Fabrício não tinha
seu sangue...
- Não é por causa disso, e você sabe muito bem. Quantas pessoas há por aí que adotam crianças, inclusive de outras raças,
e as amam como verdadeiros filhos? Há casais de brancos adotando negros, asiáticos, mulatos. Há negros que adotam brancos
e índios. E todos se amam. Constroem o amor ou mantêm o que já existia.
- Eu sei, mãe...
- E não há laços de sangue entre eles. O que há são os laços do espírito. O amor prescinde do sangue, minha filha. A verdadeira
família não é a consangüínea, mas a das pessoas que se amam. Você e Fabrício não possuem o mesmo sangue, mas se amam muito
mais do que outras pessoas, que são pais e filhos, irmãos e irmãs.
- Mas Paulo não pensa assim...
- Porque Paulo ainda está preso a alguma dificuldade do passado que nós desconhecemos.
- E que culpa tem Fabrício de suas frustrações?
- Lembre-se de que ninguém passa por aquilo que não precisa passar, e, se Fabrício escolheu nascer nessa situação, foi porque
achou que seria útil a seu crescimento. E eles se amam. Podem ainda não conseguir enxergar isso, mas se amam.
- Amam? Estranha maneira de amar.
- O que me parece é que, por algum motivo, Paulo se ressente de algo que Fabrício lhe fez. Algo que emperra o sentimento,
que o represa, que o distorce para que ele seja liberado em forma de ódio.
-Não entendo. Paulo odeia Fabrício, isso é muito claro. Não existe amor algum em seu coração.
- Aí é que você se engana. Para mim, Fabrício deve tê-lo frustrado de alguma forma. Deve ter feito algo que frustrou seu
afeto e, por não conseguir perdoá-lo, Paulo reage de maneira agressiva, exatamente porque ama e foi ferido nesse amor.
- Mas o quê, mãe? O que, de tão grave, Fabrício poderia ter feito a Paulo?
- Não sei. Mas que ambos possuem uma forte ligação do passado,
isso possuem. E Paulo só não consegue amar Fabrício porque escondeu sua mágoa, sua frustração, por detrás de um aparente
ódio. A atitude de Fabrício, no passado, deve ter, não provocado, mas propiciado essa reação.
- Mas o que pode ter sido? Não me lembro de nada nesse sentido.
- Nesta vida, não. Mas, em outra, deve ter acontecido entre eles algo que plantou essa mágoa no coração de Paulo, e ele
não conseguiu esquecer. Mas, no momento em que perdoar e se perdoar, vai compreender e aceitar. Em uma palavra: vai amar.
Flávia refletiu por alguns instantes, até que considerou:
- Não sei, mãe. Ainda que essa mágoa exista, o sentimento paterno deveria ser mais forte que tudo. Mas Paulo jamais conseguiu
se ver como pai de Fabrício, assim como foi pai de Adriano a vida inteira.
- E pensa que ele não sofreu com isso?
- Bem, ele disse que se esforçou. Mas não sei se acredito nisso.
- Pois deveria. Eu acredito que Paulo tenha se esforçado para amar Fabrício da forma como você esperava. E deu o máximo
que podia. E o máximo dele era muito inferior a seu mínimo. Por isso entraram em choque.
- Isso não é desculpa.
- Não é desculpa mesmo. É a realidade. Deixe um pouco de lado seu sentimento e pense em seu marido. Acha que deve ter sido
fácil para ele conviver com uma pessoa a quem sabia que deveria amar e não conseguia? Pensa que ele devia ficar feliz reconhecendo
a distinção que fazia entre Fabrício e Adriano? Não acha que ele gostaria de também poder aceitar Fabrício em seu coração?
Flávia titubeou:
- Não sei. Nunca pensei nas coisas dessa forma.
- Pois pense. Não veja apenas seu lado, o lado da mãe que sofre porque ama demais. Pense no lado do pai que também sofre,
mas porque não consegue amar. Deve ser tão difícil para ele quanto é para você. Com uma única diferença: ele deve se roer
pela culpa. Você, não.
Flávia começou a chorar. Inês continuou:
- Não seja tão severa com Paulo. Dê-lhe a chance de sentir e de falhar. Ninguém pode pretender alcançar a perfeição sem
experimentar o fracasso. E natural, é a vida. Entenda que seu marido fez o
melhor que pôde, e não é culpa dele se não conseguiu corresponder às suas expectativas. A expectativa foi sua, não dele.
- Do jeito como fala, até parece que Paulo está certo em rejeitar Fabrício.
- Não está certo nem errado. É o melhor que ele consegue fazer no momento. E o ideal? Talvez não. Mas é seu melhor. Cada
um dá o que tem, minha filha, e ninguém pode dar ouro quando só o que tem são algumas moedas de cobre. Mas pode dar as de
cobre e se esforçar para, um dia, conseguir conquistar o ouro também. E, quando o conquistar, pode distribuí-lo na exata
medida daquilo que julgar necessário para prover ao outro sem deixar de prover a si mesmo.
- Oh, mamãe!
- Chore, minha filha. Deixe que as lágrimas lavem sua alma e seu coração. Você precisa.
Agarrada a Inês, Flávia deu livre curso às lágrimas. Naquele momento, foi acometida por uma sensação de esperança e sentiu
que nem tudo estava perdido. Fabrício aceitaria e entenderia que, de qualquer forma, era filho de seu coração.
Fabrício queria desaparecer. Contudo, tinha responsabilidades com seus clientes e não podia permitir que seus problemas
pessoais prejudicassem pessoas a quem ele se dispusera a ajudar e que confiavam nele.
No dia seguinte, acordou bem cedo e foi fazer compras. A audiência começaria às onze horas, e ele ainda teria tempo de comprar
um terno, camisas e um sapato novo. Escolheu tudo rapidamente, comprou alguns objetos de uso pessoal e voltou para o quarto
do hotel. Ficaria morando ali até que resolvesse o que fazer.
Depois que se aprontou, foi direto para o fórum. Na pressa de sair de casa, nem se lembrara de apanhar sua pasta. Contudo,
não podia falhar. Não tivera tempo de se preparar adequadamente, mas faria o melhor que pudesse.
A audiência transcorreu normalmente. Embora o caso fosse complicado, Fabrício conseguiu desembaraçar-se bem. Quando terminou,
deu algumas orientações ao cliente e foi para o escritório. Ao abrir a porta, Ofélia foi logo falando:
- Dr. Fabrício, que bom que chegou! Sua mãe já ligou diversas vezes...
O telefone tocou novamente e ela atendeu.
- Ah, sim, um momento. - E, tapando o bocal, acrescentou para Fabrício: - Sua mãe novamente.
Ele pensou por alguns segundos e respondeu: -.Diga que não estou.
Ofélia não entendeu nada e pensou em protestar, mas ele entrou correndo em seu gabinete e fechou a porta.
- Sinto muito, Dona Flávia - desculpou-se ela. - Ele não está. Eu me enganei... Pensei que tivesse chegado... Sei... Pode
deixar, darei seu recado.
Desligou e foi bater à porta do gabinete. - Entre - ordenou Fabrício.
- Dr. Fabrício - disse ela, sentando-se diante dele -, sabe que não gosto de me intrometer em sua vida, mas sua mãe estava
realmente aflita. Não sei o que lhe aconteceu, mas acha justo deixá-la nesse estado?
Fabrício encarou-a com hostilidade e retrucou de má vontade:
- Não quero falar com ela. Não quero falar com ninguém. Passe-me apenas as ligações profissionais. Qualquer ligação pessoal,
diga que não estou.
Ofélia não contestou. Estava claro que ele não queria se abrir nem ceder, e ela não tinha o direito de importuná-lo. Contudo,
se Flávia ligasse novamente, diria que ele estava ocupado. Ao menos assim ela se tranqüilizaria. Ofélia também era mãe e
sabia quanto sofria com os problemas de seus filhos.
Flávia desligou o telefone e fitou a mãe.
- Ele não quer falar comigo. Sei que estava lá, mas não quis atender.
- Deixe, Flávia. Dê-lhe tempo. Isso vai passar.
Ouviram barulho na escada e viram Selena descendo em companhia das crianças. já era hora do almoço, e elas estavam limpas
e penteadas. Selena percebia que algo de errado havia acontecido, mas não queria parecer intrometida. Pensou em oferecer
ajuda, mas teve medo de que Flávia se zangasse.
O almoço transcorreu em silêncio, e era visível a tristeza e a angústia de Flávia. De repente, o telefone tocou, e Bibiana
foi atender. Em meio ao sobressalto, ela voltou e disse para Flávia:
- É para a senhora, Dona Flávia. E seu marido.
Flávia olhou para a mãe, que balançou a cabeça, e foi atender. - Alô? - disse com amargura. - Alô? Flávia? E você? Graças
a Deus que está bem.
- E lógico que estou bem. O que esperava? Que eu tivesse me matado?
- Por favor, não seja sarcástica. Precisamos conversar. - Não temos nada para conversar. -Temos, sim. Ainda sou seu marido.
- Devia era lembrar-se de que também é pai. - Por favor, deixe-me explicar.
- Explicar o quê? O que já sei? Que não ama Fabrício? - Não é tão simples assim.
- Não, não é. Ao contrário, é bem complicado. Não são todos
os pais que rejeitam os filhos com tanta facilidade.
- Flávia, por Deus, não faça isso comigo! Não posso viver sem
você. Durante todos estes anos, foi a primeira vez que dormi sozinho... - E, se depender de mim, não será a última.
- Não pode estar falando sério. Não pode pensar em me deixar. - Já o deixei.
- Por favor, Flávia, isso não é assunto para discutirmos por telefone. Deixe-me ir até aí...
- Não! Não quero. Enquanto meu filho não aparecer, não quero ver você.
- Fabrício sumiu?
- Você sabe que sim. - Onde ele está? - Como vou saber?
O silêncio fê-la perceber que ele estava chorando. - Por favor, Flávia, perdoe-me...
- Não é a mim que deve pedir perdão. E a seu filho.
- Farei isso se você quiser. Mas, por favor, não me abandone. - Não, Paulo, não quero que você peça desculpas a Fabrício.
O que queria mesmo é que você quisesse fazer isso.
- Flávia... - Adeus.
Desligou. Atrás dela, a mãe a olhava penalizada. - O que ele queria?
- Conversar comigo.
- E você?
- Recusei.
- Mas por quê?
-Não tenho nada para falar com ele.
- Será que o que conversamos ontem não serviu para nada? - Não é isso, mãe. Não vou conseguir ficar diante dele. - Mas por
quê? Dê-lhe a chance de se desculpar. - Ele deve desculpas é a Fabrício.
- Por que não deixa que Fabrício resolva isso? - Como? Se ao menos soubesse onde ele está... - Você sabe. Sabe que ele foi
ao escritório. - Mas não sei onde passou a noite.
- Isso não importa. Ao menos sabemos que ele está bem.
Flávia não respondeu. Baixou a cabeça, virou-se e saiu para o jardim. Nem terminou de almoçar. Se já não tinha muita fome,
agora a perdera completamente.
Com a mão ainda sobre o telefone, Paulo chorava de mansinho. Por que fizera aquilo? Por quê? Por que não conseguia amar
Fabrício? Em seu íntimo, sabia que o fato de ele ser adotado não era desculpa suficiente. Não era essa a questão. Se fosse
seu filho legítimo, não o amaria do mesmo jeito e ainda se sentiria mais culpado do que agora.
Levantou-se desanimado, apanhou o paletó e saiu.
- Vai almoçar? - perguntou o cunhado, vendo-o à espera do elevador.
- Vou - respondeu ele com profundo desgosto. - Por favor, Marcos, cuide de tudo para mim, sim? Não me sinto bem e não volto
mais hoje.
- Posso ajudar?
- Não. Ninguém pode.
O elevador chegou, e Paulo entrou. Alcançou a rua e começou a caminhar desorientado. Sentia-se muito mal com o que fizera,
mas não sabia como voltar atrás. Concordara em pedir desculpas a Fabrício só para ter Flávia de volta. Mas não estava sendo
sincero. Depois da morte de Adriano, ela passara a ser a única coisa importante em sua vida. Tinha de encontrar um jeito
de lhe pedir perdão.
Ao ver Clarinha se aprontar para sair, Adriano se revoltou. Ele conseguira acabar com a felicidade do irmão, e agora precisava
dar um jeito naquele juiz intrometido. Ouviu quando a campainha da frente soou e adivinhou quem era. Otávio agora se tornara
íntimo e ocupava seu lugar. Por que todo mundo queria seu lugar? Era o lugar de filho e agora o de noivo. Por isso tinha
de acabar também com a alegria daquele juiz.
- Você não vai sair, Clarinha - disse ele a seu ouvido. - Não vou deixar.
Pela primeira vez, desejou que ela passasse mal. Das outras vezes, o mal-estar vinha pelo contato com sua vibração de ódio.
Mas essa vibração era agora intencional, e Adriano deu-lhe um forte abraço e colocou a mão em sua nuca, sugando-lhe um pouco
das energias. Na mesma hora, Clarinha sentiu o estômago revirar e uma forte tonteira, e desmaiou no exato instante em que
a mãe abria a porta do quarto.
- Clarinha! - exclamou Elisete, correndo para ela. - Bernardo! Bernardo! Venha depressa!
Bernardo apareceu alarmado.
- De novo?
Ajudou a mulher a colocá-la na cama.
- Acho melhor levá-la ao hospital - sugeriu Bernardo, preocupado.
- Não! Chame o Dr. Feliciano.
- O quê? Lá vem você de novo. Ainda não desistiu desse médico maluco?
- Ele não é maluco. Por favor, Bernardo, pense em sua filha. O que lhe custa? Você pode não concordar com as crenças dele,
mas sabe que ele é um bom médico.
Bernardo considerou. Ela tinha razão. O médico podia ter lá suas
idéias esquisitas, mas era muito conceituado em seu meio.
- Está bem- concordou vencido. -Só que não tenho mais seu
telefone. Joguei fora o cartão que ele me deu.
- Mas eu tenho. Está na bolsa preta, em cima da poltrona do
quarto. Por favor, Bernardo, depressa!
Até então, Bernardo não sabia que Elisete havia ido ao centro de Inês. Com medo de sua reação, ela preferiu não dizer nada.
Mesmo curioso para saber quando a mulher apanhou outro cartão com o médico, Bernardo não disse nada e foi buscá-lo. Voltou
para a sala, tirou o fone do gancho e discou o número da casa de Feliciano.
- Algum problema?-quis saber Otávio, que fora acomodado numa poltrona da sala.
Bernardo fez-lhe sinal que sim, mas não teve tempo de respon
der. Uma voz atendeu do outro lado da linha, e ele falou: - Ah... Boa noite. Por favor, o Dr. Feliciano está? - E ele mesmo.
Quem está falando?
- Desculpe-me incomodá-lo, doutor. Aqui quem fala é Bernardo Morais, pai de Clarinha...
- Ah, sim. Como vai, Dr. Bernardo?
- Nada bem. Clarinha... - não concluiu a frase, envergonhado ante aquela situação.
- Ela desmaiou de novo?
- Sim... - hesitou. - E minha mulher insiste em chamá-lo. - Quer que eu vá até aí?
- Se for possível...
- Um momento - fez-se um breve silêncio do outro lado, até que Feliciano voltou. - Muito bem, Dr. Bernardo, pode me dar
o endereço.
Feliciano anotou e desligou. Bernardo, por sua vez, explicou a Otávio o que havia acontecido, e ambos ficaram esperando
o médico chegar.
Clarinha continuava desmaiada, com Adriano colado a ela. Não estava mesmo disposto a soltá-la. Por ele, ela só despertaria
depois que o juiz fosse embora.
Quando Feliciano chegou, foi apresentado a Otávio e logo introduzido no quarto de Clarinha. Assim que a viu, não teve dúvidas:
um espírito estava a seu lado, minando-lhe as forças. Ele se aproximou da cama e tocou-lhe a testa. Estava fria, ela toda
estava gelada. Tomou-lhe o pulso e sentiu que os batimentos haviam diminuído. O espírito sugava-lhe as energias com vontade.
A presença de Feliciano intimidou Adriano. Embora o conhecesse, não ficou nada satisfeito com sua ida até ali. Afinal, não
tinha nada com aquilo. E havia algo nele que o amedrontava.
Sem dizer nada, Feliciano estendeu as mãos sobre o corpo de Clarinha e elevou uma oração aos céus. Em seguida, começou a
deslizar as mãos por sobre todo o seu corpo, e de seus dedos ia saindo uma onda com coloração arroxeada, que se espalhava
por todo o quarto, fazendo a limpeza do ambiente. Depois, suas mãos passaram a vibrar uma tonalidade mais puxada para o
vermelho, que elevou a pressão sangüínea de Clarinha e acelerou sua respiração, até então bastante enfraquecida. Em poucos
instantes, o cansaço, o abatimento e o desãnimo foram sendo substituídos por uma onda de vitalidade que dominou todo o corpo
da jovem.
Ela abriu os olhos e piscou lentamente, tentando entender o que estava se passando. Vendo o médico a seu lado, e a mãe,
o pai e Otávio mais atrás, compreendeu tudo. Só não entendia como Feliciano fora parar ali.
Em seguida, o médico convidou todos para, juntos, fazerem uma oração. Bernardo, completamente abismado, não entendia o que
havia acontecido. A filha, havia poucos minutos, parecia morta. Como podia aquele homem, só com a imposição das mãos, trazer
a cor de volta a suas faces?
Sem dizer nada, Bernardo aproximou-se e sentou-se junto aos demais, em volta da cama de Clarinha.
Feliciano fez a prece, agradecendo as bênçãos recebidas e convidando o espírito ali presente a acompanhar os mentores que
circundavam o ambiente.
Adriano olhou ao redor. Lá estava Ismael, parado a observá-lo
- De novo, velho? Será que você não desiste nunca?
Ismael estendeu a mão para ele e tornou com doçura:
- Venha comigo, Adriano. Não tem mais o que fazer aqui.
- Aí é que você se engana...
- Você perdeu, meu filho. O poder da oração e da fé foi mais forte que você.
- Por enquanto. Mas esse Feliciano não vai ficar aqui para sempre.
- O que pretende, Adriano? Já não se vingou de seu irmão? Não está feliz com o que lhe aconteceu? Por que quer também prejudicar
Clarinha?
- Não quero prejudicá-la. Quero protegê-la.
- Tem razão: ela precisa mesmo ser protegida. De você. Adriano deu um salto, indignado.
- O quê? Como se atreve a me dizer uma coisa dessas?
Partiu para cima de Ismael, que ficou parado no mesmo lugar. - Vai me agredir? - indagou com serenidade.
Adriano não lhe deu ouvidos e tentou dar-lhe um tapa, mas sua
mão atravessou o rosto do outro, e ele indagou perplexo:
- Como pode? Você é um espírito tanto quanto eu.
- Sim, meu filho. Mas, como lhe disse, minha matéria é muito
mais sutil do que a sua. A sua, por ser mais densa, atravessa a minha,
assim como a dos encarnados passa através da sua.
Aturdido, Adriano acercou-se dele e ponderou:
- Ouça, velho, desculpe-me. Não pretendia atingi-lo. Foi uma
estupidez de momento.
Ismael sorriu para ele e, parando na frente do espelho da cômoda, convidou-o a se olhar.
- Venha, Adriano. Veja em que se transformou.
Sem entender, Adriano postou-se diante do espelho e levou um susto. Nem pareciam seu rosto, seu corpo. Ele, que fora um
rapaz bonito, via-se agora diante de um espectro, todo sujo e arranhado, os olhos fundos, cercados de olheiras, a pele baça,
sem vida, os cabelos desgrenhados.
- Mas o que é isso? - perguntou assustado.
- E você, Adriano. Tal qual no dia em que sofreu o acidente. - Mas como? Isso foi há tanto tempo!
E o resultado de sua rebeldia. Recusando nossa ajuda, não permitiu que terminássemos de reequilibrar seu perispírito, e
no dia em que você, em sua casa, se recordou da tragédia, plasmou as lesões em seu corpo espiritual e foi se degenerando,
como se carne ainda possuísse.
- Não entendo... -balbuciava ele aturdido. - Como pode ser
isso? Sou um espírito... Não devia guardar seqüelas do acidente.
- Você precisa se harmonizar com suas próprias energias. Venha
comigo. Quero tratar de você.
Adriano olhou para Clarinha, que conversava animadamente
com Otávio, e sentiu o ódio voltar a crescer dentro dele.
- Não posso deixá-la, velho. Não com esse aí.
- Acha que ela ainda vai querer você? O que pensa que ela sen
tiria se o visse nesse estado?
Ele titubeou novamente. Sabia que ela ficaria apavorada. - Não pretendo me mostrar...
- E acha que ela não o sente? Acha que ela não capta seu desequilíbrio, sua dor?
- Não faço por mal.
- Não fazia. Até hoje. Mas agora há pouco, quando a abraçou,
desejou ferozmente que ela se sentisse mal e desmaiasse. Considera
isso um ato de amor? Ou é puro egoísmo?
- Pare com isso, velho. Você não sabe de nada.
- Não, Adriano. Quem não entende nada é você. Pensa que
Clarinha lhe pertence. Mas ela não lhe pertence. Nem a você nem
a ninguém. Clarinha pertence ao mundo, à vida...
- Chega, velho, chega! - gritou Adriano, tapando os ouvidos.
- Não diga mais nada!
- Desista desse propósito. Não vê que, com isso, só o que con
segue é tornar-se cada vez mais infeliz?
- Não, não... - choramingava Adriano. - Eu era feliz. Tinha
uma vida. Tinha pais que me amavam, tinha uma profissão de futuro, uma noiva que me adorava. Mas agora... tiraram-me tudo.
- Quem tirou?
- Não sei. Fabrício...
- Acredita mesmo nisso?
- Foi por causa dele que sofri aquele acidente.
- Será? Pense bem e responda sinceramente. Fabrício é que foi
o responsável por seu desencarne? Ou foi sua imprudência que o levou até aquele precipício?
- Não sei... não sei, velho, não sei!
Adriano agora chorava descontrolado, e Ismael aproximou-se dele. Alisou seus cabelos, duros de sangue ressecado, e apoiou
a cabeça em seu peito. O rapaz, por uns instantes tocado por aquela onda de amor e ternura, deixou-se ficar e agarrou-se à cintura
de Ismael, chorando cada vez mais.
- Venha comigo, Adriano. Só o que quero é que você seja feliz.
Adriano ergueu o corpo e abraçou-o com força, deixando em seus ombros todo o peso de sua dor. Seu corpo, sacudido pelos
soluços, era amparado por Ismael, que o acariciava com sublime amorosidade. De olhos cerrados, Adriano continuava a chorar.
De repente, decidiu-se. Iria partir com ele. Já estava cheio de tudo aquilo. Abriu os olhos e, com a visão ainda turvada
pelas lágrimas, viu, por sobre o ombro de Ismael, Clarinha e Otávio beijando-se apaixonadamente, a mão do juiz levemente
pousada sobre seu seio. Imediatamente, toda aquela fragilidade esmoreceu. Adriano empertigou-se e partiu para cima dos dois,
mas foi impedido de atingi-los pela vibração tranqüilizadora de Ismael.
-Não vou, velho, não adianta! -esbravejou ele. - Quase me convenceu! Paraquê? Para deixar esse juiz dos infernos livre para
profanar o corpo de minha Clarinha? Jamais!
Deu as costas a Ismael e sumiu pela parede. Era só o que podia fazer naquele momento. Mais tarde, quando toda aquela energia
de amor se esvanecesse do ambiente, voltaria. E não, ninguém conseguiria tirá-lo dali.

Sem ter para onde ir, Adriano voltou para sua casa. Ao entrar, sentiu uma aura de tristeza no ar e foi procurar o pai. Ele
estava deitado na cama, com uma garrafa de uísque ao lado, bastante embriagado àquela altura. Adriano sentou-se junto a
ele e auscultou seus pensamentos.
- Por que fui fazer uma coisa dessas, por quê? Onde estava com a cabeça?
- Não se atormente, pai - respondeu Adriano do astral_ . Fez o que era certo.
Julgando que fosse sua própria consciência tentando amenizar sua culpa, Paulo ia se acusando e se justificando ao mesmo
tempo:
- Mas eu não devia... Prometi a Flávia. E, depois, Fabrício não tem culpa...
- Como não tem culpa? Pois se tomou meu lugar! O lugar de seu filho legítimo!
- Está certo que ele não é meu filho. Mas que culpa tem? Era ainda um bebê quando foi adotado. Não sabia de nada.
- Isso não invalida o fato de que ele é um usurpador...
- Como pode ter usurpado algo que sempre julgou que fosse seu?
- E as outras vidas, pai? Agora sei que existem. Fabrício deve ter me roubado numa vida passada... -Calou-se espantado,
só agora começando a compreender. - Ou será que fui eu que lhe roubei alguma coisa?
Paulo não lhe captou os últimos pensamentos. Como relutava em aceitar a idéia da reencarnação e da espiritualidade, não
conseguiu perceber a dúvida do filho. Enquanto isso, Adriano ia refletindo:
- Essa tal de lei de causa e efeito de que minha avó tanto fala... será isso? Será que o que estou passando hoje é resultado
de meu comportamento de ontem?
A esse pensamento, Adriano estremeceu. Parecia-lhe que agora começava a vislumbrar a realidade de sua situação.
- Mas então-prosseguiu-estou sendo punido. Seja o que for que tenha feito, o castigo foi muito maior. Ninguém merece passar
pelo que eu passei. Como Deus é injusto! Por que me castigou dessa forma? Por que colocou nas mãos de Fabrício as armas
para se vingar de mim?
Adriano deixou-se dominar pela autopiedade e começou a sentir-se vítima da situação. Baixou a cabeça e saiu acabrunhado,
deixando o pai adormecido, ressonando sobre os travesseiros.
O que faria agora? Foi andando pela rua, sem saber aonde ir. Ao passar pelas esquinas, via grupos de desencarnados fumando
e bebendo, e alguns o convidavam para juntar-se a eles. Mas Adriano não queria. Não estava interessado em ficar vagando
feito uma assombração. O que fazia tinha um propósito. Mas que propósito? Vingar-se de Fabrício. Nesse caso, vingar-se de
quê? Da usurpação de seu lugar de filho. Mas como, se fora ele quem roubara o lugar de Fabrício, e Fabrício é que se vingara
dele? E de que se vingaria amanhã? E quando isso terminaria?
Torturado, levou novamente a mão aos ouvidos, como se, impedindo-os de escutar, não pudesse ouvir seus próprios pensamentos.
Foi caminhando com dificuldade, até que passou diante da vitrine de uma loja de molduras. Havia vários espelhos emoldurados,
e ele olhou para a frente. Viu seu rosto deformado e sujo refletido em vários
tamanhos e começou a gritar. Saiu correndo e atravessou a rua, passando pelo meio dos carros, que não o atingiam.
Ao chegar ao outro lado da calçada, estacou exausto e desatou a chorar. Sacudido pelos soluços, ajoelhou-se no chão e, ainda
com as mãos sobre os ouvidos, exclamou com fervor:
- Deus! Ajude-me! Por favor, ajude-me!
Viu que à sua frente uma luzinha formava uma espécie de trilha e, levantando os olhos, deparou com uma igreja toda iluminada.
Na porta, um padre sorria para ele. Levantou-se envergonhado, tentou
ajeitar-se da melhor forma possível, alisando os cabelos sujos e duros. Aproximou-se do padre e, com ar maravilhado, indagou:
- Que lugar é esse? Onde estou?
O padre, sorrindo bondosamente, respondeu:
- Esta é uma igreja, e você está exatamente onde parou. Numa rua de sua cidade.
- Rua de encarnados ou desencarnados?
- Esta não é uma cidade espiritual, se quer saber. E o Rio de janeiro mesmo.
Adriano voltou-se para a igreja, que luzia de encontro à noite, e continuou:
- Será que posso entrar?
- Venha - disse o padre, chegando para o lado e deixando-o passar.
Adriano entrou meio sem jeito. Não era religioso e, tirando casamentos, não freqüentava a igreja desde a primeira comunhão.
- Não é preciso ser católico para entrar aqui -falou o padre com ternura. - Esta é a casa de Deus, assim como o são os templos
budistas, as sinagogas, os centros espíritas e quaisquer outros que se destines a levar ao mundo palavras de sabedoria e
amor.
Com os olhos rasos de água, Adriano apanhou a mão do padre e a beijou. O padre acariciou seus cabelos, sem se importar com
a crosta de sangue que os endurecia, e foi com ele até o altar.
- Por que não experimenta rezar? - perguntou gentilmente.
- Não sei rezar.
- Sabe, sim. Não rezou há pouco?
- Eu? Não.
-Não pediu ajuda a Deus?
- Ah, aquilo? Não foi reza, não. Foi desespero.
- Um desespero muito sentido e carregado de esperança e fé no Criador. Não é preciso mais que isso.
Sentindo a bondade na aura daquele homem, Adriano experimentou ajoelhar-se no genuflexório e fitou o altar. Era simples:
ao centro, a imagem de Jesus crucificado. A direita, Maria, sua mãe, e, à esquerda, São José. Contudo, havia tanta luz emanando
daquele altar que Adriano se sentiu envolvido por ela, e uma paz reconfortante foi tomando conta de todo o seu corpo. Ele
chorava sentido, só que agora suas lágrimas tinham um gosto de alívio e esperança.
O padre começou a se afastar, mas Adriano o deteve.
- Você não é encarnado, é?
- Não, como pode perceber.
- Mas, então, o que faz aqui? Que eu saiba, a Igreja não cultua os mortos.
- Não estou morto, como você também não está. E, depois, todo templo dedicado a Deus, desde que sincero em seus propósitos,
tem a proteção do Alto. Por isso estou aqui. Fui padre em vida e pedi para continuar a sê-lo após meu desenlace. Quando
encarnado, gostava de auxiliar pessoas a se reencontrarem consigo mesmas. Agora, dedico-me a auxiliar pessoas a se reconciliarem
consigo e com Deus.
- Obrigado, padre - disse Adriano emocionado. - Jamais esquecerei o que fez por mim.
O padre sorriu e deu um tapinha no ombro de Adriano, caminhando para o fim da igreja, onde um desencarnado o aguardava,
sentado no último banco.
- Salve, meu irmão - falou o padre com simpatia.
- Olá, padre. E um prazer estar em sua igreja.
- Veio por causa do rapaz?
Ismael assentiu.
- E seu neto?
- É, sim. Andou um pouco perdido, mas creio que está começando a despertar.
O padre assentiu e retrucou:
-- É um bom rapaz. Só que não sabe disso. Pensa que deve se vingar.
- Leu em sua aura?
- Sim. Seus pensamentos estão impregnados do desejo de vingança, agora aliado a um profundo arrependimento. Está confuso.
- Mas vai se encontrar. E sua ajuda, padre, foi muito importante para ele.
- Eu apenas atendi a seu chamado. Ele caiu em frente à minha igreja, e eu escutei sua prece. Por isso, vim atender. - Muito
obrigado.
- Não precisa me agradecer. Minha maior recompensa é ver o despertar dos espíritos ainda cegos pela dor.
Ismael sorriu e o padre retrucou com bondade: - Por que não vai falar com ele?
Ismael olhou para Adriano, ajoelhado de costas, cabeça baixa, em profunda oração, e respondeu com certa tristeza:
- Ainda não. Ele não me quer por perto. No momento, limitome a agradecer o fato de ele ter pedido e aceitado sua ajuda.
Já é um início bastante significativo.
- Entendo.
- Contudo, não pude deixar de vir. De onde estava, também senti sua angústia e ouvi seu apelo. Por isso, tomei a liberdade
de vir até aqui apenas para vê-lo.
- Venha quando quiser. Esta igreja sempre estará aberta para qualquer um que dela necessitar.
- Obrigado - respondeu Ismael, levantando-se para ir embora. - Até breve. E, novamente, muito obrigado por tudo.
Ismael saiu feliz da igreja. Adriano dera um importante passo em sua nova vida. Estava começando a questionar suas atitudes,
e isso era muito bom. Apesar de fazer uma idéia errônea sobre encarnação e lei de causa e efeito, não fazia mal. Ao menos
por enquanto. O que importava era que ele estava começando a despertar para as verdades da alma. Mais tarde, Ismael trataria
de esclarecê-lo.
Era quarta-feira, e Fabrício, até então, não tinha dado nenhum sinal. Não atendia ao telefone, e ninguém sabia onde estava
morando. Apenas Ofélia dava notícias, informando que ele estava bem. Ela também não sabia onde ele vivia; imaginava que
em algum hotel, mas não sabia dizer qual.
Quando ele não apareceu à noite, na hora da reunião, Selena não agüentou mais. Nem com ela ele queria falar, e ela já não
suportava mais ver todos tristes sem saber o que estava acontecendo. Inês dissera-lhe que houvera uma briga séria com Paulo
e que, por isso, Fabrício saíra de casa. Mas, fosse qual fosse o motivo da desavença, não via razão para afastar-se dela
também. Afinal, não tinha nada com isso.
Vendo sua angústia, Inês e Flávia acharam que já era hora de contar-lhe a verdade. Afinal, se ela ia se casar com Fabrício,
era justo que conhecesse toda a sua história.
- Quando voltarmos do centro hoje - anunciou Inês -, nós lhe contaremos tudo.
- Mas só depois? - protestou Selena.
- Agora não dá mais tempo. A história é longa e não pode ser contada assim, às pressas.
Já estavam fechando o portão quando ouviram a buzina de um automóvel. Voltaram-se ao mesmo tempo e tiveram uma imensa surpresa.
Elisete chegava em companhia de Clarinha e Bernardo, no carro de Feliciano.
Depois que eles saltaram, Inês abraçou o amigo e exclamou com sincera alegria:
- Feliciano! Que surpresa! Há quanto tempo não aparece. - Pois é, Inês. Falta de tempo.
Cumprimentaram-se todos, e Selena observou:
- Tio Bernardo, é uma surpresa muito grande vê-lo aqui também. Bernardo enrubesceu e baixou os olhos, acrescentando com
voz sumida:
- Vim conhecer esse centro espírita de que Elisete tanto fala. - Diga a verdade, Bernardo - cortou Elisete. - Você só
aceitou vir porque o Dr. Feliciano aqui praticamente curou nossa Clari
nha apenas com a imposição de suas mãos. E ou não é? Desconcertado, Bernardo reconheceu:
- É verdade... Confesso que ainda é difícil para mim acreditar nessas coisas de espírito. Mas não posso negar que o Dr.
Feliciano conseguiu, em apenas dez minutos, o que nenhum médico pôde fazer em meses.
Clarinha não dizia nada. Estava melhor, sentindo menos enjôos e não desmaiava desde o dia em que Feliciano fora à sua casa.
Mas sentia-se deprimida, angustiada, sempre com vontade de chorar. A seu lado, Adriano acompanhava tudo com desgosto. Estranhamente,
não estava mais interessado em prejudicar Fabrício nem em possuir Clarinha. No momento, isso seria mesmo impossível, e de
que adiantaria ficar tentando alcançar o inatingível?
Pouco depois, um outro carro chegou. Era Otávio, que marcara de encontrá-los ali. Ele estacionou na rua, atrás do carro
de Feliciano, saltou e foi ao encontro de Clarinha, que sentiu uma pontada no estômago. Apesar de tudo, Adriano ainda não
gostava daquele juiz, e vê-lo ao lado de Clarinha causava-lhe imenso desgosto.
- E Fabrício? Não vem?
Inês e Flávia trocaram um olhar rápido, e esta explicou:
- Fabrício não pôde vir hoje. Compromissos de trabalho, vocês entendem.
Apenas Adriano soltou um riso sarcástico. Compromissos de trabalho... Pois sim! Ele estava era enfurnado naquele quarto
de hotel, com vergonha até de botar a cara para fora. Só ia trabalhar porque precisava. Pensar naquilo causou-lhe estranho
desgosto. Achou que ficaria feliz com a derrota do irmão, mas sentiu que não havia mais um sarcasmo verdadeiro naquelas
palavras. Apenas um esforço para reafirmar uma raiva que já não sentia, mas que achava que devia sentir.
O grupo seguiu para o centro espírita, e Adriano passou pelo portão da casa da avó e foi sentar-se no alpendre. Ainda não gostava
do centro espírita e não estava com vontade de ouvir os sermões de Ismael.
Esticou as costas no chão e ficou olhando as estrelas, sentindo a brisa suave da noite batendo em seu rosto.
Embalado por aquela sensação de paz, acabou por adormecer. Cerca de quinze minutos depois,
ouviu uma voz a seu lado e abriu os olhos, fitando a interlocutora com ar de espanto.
- Ciça! - exclamou, reconhecendo ali o espírito amigo. - O que faz aqui?
- Eu? Nada de especial. Vim apenas conversar com você. - Você anda sumida.
- Ora, quem sumiu foi você. Você é que nos abandonou, lembra-se?
- É uma surpresa para mim vê-la aqui. - Por quê?
- Esperava outra pessoa.
- Quem? Ismael?
- É. Ele não me deixa em paz. Ele e aquela tal de Helga, que às vezes aparece também.
- Só querem ajudá-lo. Ismael gosta muito de você, sabia? - Por quê? Eu nem o conheci.
- Ele é seu avô. E, depois, não precisamos realmente conhecer alguém para amá-lo.
- Você é engraçada. Como se pode amar um desconhecido? - Amor universal, meu caro. Nem todo mundo sente. - Bobagem. A gente
só ama quem conhece...
- Será? E o padre que o atendeu naquele dia? Não o terá amado também?
- O padre? - Adriano considerou. - Não. Ele foi bonzinho. - Por quê? Por que acha que foi bonzinho?
- Sei lá. Porque é o ofício dele.
- Ninguém possui bondade por dever. A bondade faz parte da evolução das criaturas.
- Até parece.
-Não acha que está sendo injusto?
- Olhe, reconheço o que ele fez por mim e jamais seria ingrato
a ponto de dizer que ele não me ajudou. Ser-lhe-ei eternamente grato. Mas isso de ajudar é coisa de padre mesmo. Faz parte
da função. São todos bonzinhos.
- Acredita mesmo nisso? Acredita que a bondade decorre do ofício, da profissão?
- Acha que não? Decorre de quê? Do amor? Qual! Isso é fantasia. O padre nem me conhecia...
- Ao atendê-lo, o padre foi movido por um sentimento de amor pela humanidade...
- Está bem, que seja. E daí? O que isso tudo tem a ver comigo? - Estou esclarecendo-o acerca do amor. Lembra-se? Falávamos
de Ismael...
- O chato.
- Não diga isso. Aposto como sente a falta dele.
- Eu?- indignou-se. - Era só o que me faltava...
-Não fosse por ele, sabe-se lá o que já não teria acontecido a você!
- Como assim?
- Ora, então não sabe? Ismael reza muito por você.
- Ele pode ser bonzinho também, mas continua sendo chato. Sempre aparece para me perturbar.
- Será? Pense bem e responda-me com sinceridade: será que Ismael não aparece nos momentos em que você se encontra em maiores
dificuldades?
Adriano pensou durante alguns instantes. Realmente, Ismael aparecia quando ele estava mais angustiado ou desesperado, com
aquela fixação em Fabrício e em Clarinha. Será que, quando ia a seu encontro, ia para demovê-lo de seus intentos, pura e
simplesmente?
Lendo-lhe os pensamentos, Ciça mesma respondeu:
- E claro que não. Ismael tenta impedi-lo de prejudicar seu irmão e sua ex-noiva para que você não prejudique a si mesmo.
Não percebe que o maior atingido é você?
- Eu?! Fui atingido pela fatalidade naquele acidente. Agora acho que tenho o direito de dar o troco.
- Você não acredita mais nisso. Fala porque é orgulhoso. Mas, no fundo, não pensa mais assim. Está sofrendo. Olhe para si
mesmo. Nem um homem parece mais.
Adriano olhou para seu corpo magro e começou a chorar. Ela ti
nha razão: não era nem sombra do homem bonito e elegante que fora
outrora. Agora, mais parecia um farrapo, um molambo.
- Ciça, não sei mais o que sou...
- Você é um ser humano. Desencarnado, mas humano. E, o tempo todo, Ismael tentou mostrar-lhe isso.
- Ele foi duro comigo. Colocou-me diante daquele espelho. - Para que você pudesse ver com os próprios olhos todo o mal
que vem infligindo a si mesmo. O que pensa? Que Ismael tem prazer em torturá-lo? Ismael o ama.
Adriano chorava sem parar, mas continuava a teimar. Nem sabia por que teimava.
- Teima por orgulho, Adriano. Porque não sabe reconhecer que errou, que perdeu.
- Não, não é nada disso. Não é que não goste de Ismael. Você tem razão. Ele nunca me fez nada. Mas é que, sempre que eu estava
prestes a fazer alguma coisa, lá vinha ele com seus sermões enjoados. - Ele só queria impedir que você piorasse sua situação. E ela poderia
ter sido bem pior. Não fosse por Ismael, talvez você nem estivesse aqui.
- Não? Como assim?
- Caso não saiba, há muitas falanges de espíritos das sombras interessados em capturar espíritos descuidados como você, que não
aceitam ajuda para não terem de abandonar seus projetos de vingança e ódio.
- Capturar-me? Para quê?
- Para o utilizarem em seus próprios projetos de vingança con
tra os encarnados. Alguns espíritos, com o coração cheio de ódio, in
veja, desejos de vingança, acabam por sintonizar com as falanges das
trevas e são logo capturados. Passam então a trabalhar para os mais
poderosos e são ameaçados, espancados, torturados.
- Que horror!
- É um horror mesmo. E você gostaria de parar num lugar desses? - Não... Claro que não.
- Pois é. Foi Ismael, com suas incansáveis orações, quem con
seguiu mantê-lo longe dessas falanges. Você acha que sofre, não é mes
mo? Pois não sabe o que é o sofrimento no astral inferior.
Adriano, envergonhado, afundou a cabeça entre as mãos e desabafou:
- Ah, meu Deus! O que fui fazer? O que fiz com minha vida? - Ainda há tempo de você consertar tudo. - Como?
- Venha comigo ao centro espírita. Lá receberá tratamento e será encaminhado de volta à colônia.
- Terei de abandonar Clarinha?
- Desapegue-se dela. Apego não faz bem a ninguém. Veja o que o apego fez a você: aprisionou-o, tornou-o escravo de seus
próprios temores. Com medo de que Clarinha o esqueça e arrume outro, você vive grudado a ela, fazendo-a sentir-se mal. E
para quê? O que você vai ganhar com isso? Nada. Não poderá tê-la mesmo.
- Mas eu a amo.
- Isso não é amor. O amor liberta, jamais aprisiona. Se você tenta aprisionar o ser amado, na verdade enclausura a si
mesmo. Prende-se ao medo de perder, à insegurança, ao desespero. Isso é bom? Não é melhor ser livre? Livre para amar, inclusive.
Se você conseguir se libertar do apego, verá que seu sentimento não lhe trará mais dor.
- Tem razão. E dor mesmo o que sinto.
- E lógico! Quem pode ser feliz vivendo em constante sobressalto, com medo de perder, de ser abandonado? O amor não é motivo
de dor. Ele liberta da dor e do sofrimento. Por isso, se ama Clarinha de verdade, deixe-a em paz.
- Eu a amo...
- Então liberte-a. Estará libertando a si mesmo. Ou será que não se ama também?
- A mim? Nunca havia pensado nisso.
- Pois pense agora. Aprenda a se amar e depois ame mais alguém. Ele enxugou os olhos, olhou para o céu e emocionou-se. O
mundo era bonito, o universo era belo. Por que ele não podia usufruir de
toda aquela beleza? Por que tinha de ficar amarrado à podridão do ódio? - Venha comigo. Estou lhe pedindo.
Ele voltou para ela os olhos úmidos e respondeu hesitante:
- Não sei. Não sei se posso. Não sei se mereço. - E claro que merece. Todos merecemos.
Ele estava louco para aceitar, mas não sabia se devia. Julgava-se
um réprobo e tinha medo de ser recriminado. Não. No fundo, no fun
do, ainda não conseguira dar um salto sobre seu orgulho e admitir que
estava errado, que sofrera porque fora teimoso e arrogante.
Ele apanhou a mão de Ciça e levou-a aos lábios, molhando-a com suas lágrimas sentidas. Em seguida, acariciou-lhe o rosto
e sussurrou:
- Vou pensar.
O trabalho de Ciça ali havia terminado. Fizera o que fora possível e já era hora de voltar. Quando chegou ao centro, a palestra
havia terminado naquele exato instante, e Antônio preparava-se para dar início aos trabalhos de desobsessão. Vendo-a entrar
sozinha, Ismael endereçou-lhe uma indagação com o olhar.
- Conversei muito com ele - respondeu ela. - Acho que consegui atingir seu coração.
- Por que ele não veio?
- Está confuso, com medo, vergonha, tudo junto. Mas há uma grande chance de ele aparecer.
Enquanto Antônio doutrinava um espírito que se apresentara, Ismael e Ciça davam passes nos presentes, orientando os recémchegados
que queriam ser atendidos. No total, três espíritos haviam se manifestado, e o dirigente já ia encerrar a sessão quando
Adriano entrou. Veio tímido, olhou ao redor, balançou a cabeça para Ciça e Ismael e ficou parado na porta, olhando.
Imediatamente, o mentor de Antônio, em telepatia com Ismael, conduziu suas palavras e fê-lo dizer:
- Meus amigos, acaba de chegar um espírito que precisa muito de nosso auxílio. Por isso, peço-lhes paciência e concentração,
e convoco esse nosso visitante a se apresentar.
Percebendo que o mentor falava com ele, Adriano ficou sem saber o que fazer.
- Venha, meu filho. Não tenha medo. Estamos aqui para ajudá-lo no que for preciso.
Ciça aproximou-se de Adriano, estendeu-lhe a mão e falou com doçura:
- Venha. Não tenha medo. Ficarei a seu lado, se quiser.
Ele sorriu em agradecimento e, de mãos dadas com ela, aproximou-se da mesa. Sua avó chorava de mansinho, já percebendo sua
presença. De onde estava, podia ver a mãe e Clarinha, com a cabeça recostada no ombro do juiz. Seu coração começou a disparar,
mas sentiu que uma estranha paz o dominava e percebeu que Ciça o tocava bem na altura do cardíaco.
Ajudado pelo espírito, Adriano incorporou numa médium. Assustou-se
ao sentir um corpo de carne e experimentou falar. Abriu a boca, e a médium abriu a sua também. Aquilo era inusitado.
E assustador também. Mas Ciça estava a seu lado, e ele se sentiu seguro, mais confiante. Abriu a boca novamente e falou:
- Mãe... perdoe-me...
Desatou a chorar. Com ele, Flávia e Inês também choravam. Até Clarinha, que, de repente, tivera uma melhora súbita, chorou
com elas, sem saber direito por quê. Em poucas palavras, Adriano cons

abrir seu coração e atingir o daqueles a quem amava. Estava tudo bem agora. Conseguira se libertar.
Sentado sozinho em seu quarto de hotel, Fabrício pensava em sua vida. Mas que vida? A vida nem era sua. Vivera a vida de outro.
Consultou o relógio da mesinha: sete e meia. Hora de se levantar.
Tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e saiu. No caminho, passou na oficina para ver como estava indo o conserto do carro e foi avisado de que poderia ir buscá-lo
no fim da tarde.
Fez sinal para um táxi e entrou. Nunca se sentira tão só em toda a sua vida. Tinha saudade da mãe, da avó, de Selena e das crianças. Selena... O que estaria pensando
de tudo aquilo? Na certa, deveria estar zangada com ele. E não era para menos. Ele sumira, desaparecera sem dar nenhum sinal. Ele a amava. Não queria perdê-la. Contudo,
não se sentia com ânimo de encará-la. Ela lhe faria perguntas para as quais ele não conhecia as respostas.
O táxi parou na porta do edifício onde ele tinha escritório, e ele saltou. Tomou o elevador e foi andando, pensativo, pelo corredor. Chegou à porta do escritório
e rodou a maçaneta. Ao abrir a porta, levou um susto. Sentada numa poltrona da sala de espera, sua avó mantinha animada conversa com Ofélia.
Ao vê-lo, ela sorriu e foi a seu encontro. Constrangido, recebeu o abraço e o beijo que ela lhe deu e indagou surpreso:
- Vó... O que faz aqui?
- Surpreso em me ver?
- Não... Quero dizer, sim... Não a esperava aqui.
- Pois é. Você sumiu de minha casa. Então, resolvi visitá-lo.
Ele assentiu vagarosamente e, virando-se para a secretária, indagou:
- Algum compromisso para a manhã, Dona Ofélia?
- Não, doutor. O senhor tem uma reunião marcada para as quatro e meia com o advogado de Dona Helena, lembra-se?
Ele assentiu. Tinha uma proposta de acordo para a partilha de bens num desquite amigável. O acordo já estava pronto, e ele tinha tempo para conversar com Inês. Havia
chegado o momento de tirar tudo a limpo.
- Muito bem, Dona Ofélia. Venha, vovó. Vamos para meu escritório.
Inês seguiu-o até sua sala, e ele fechou a porta, indicando-lhe um confortável sofá perto da janela. Ela se sentou, e ele se acomodou ao lado dela.
- Gostaria de alguma coisa? Um café, um chá?
-Não se preocupe, meu filho, não quero nada.
Ele pousou as mãos sobre os joelhos, encarou-a e indagou com
voz polida:
- Muito bem. O que a traz aqui?
- Deixe dessas formalidades comigo, Fabrício. Sou sua avó. Ele engoliu em seco e, ainda a encarando, indagou com olhos úmidos:
- Será?
- Você duvida? Não acredita?
- Não é isso... Mas, depois de tudo que houve...
- E o que houve? Você descobriu a verdade sobre seu nascimento. Só isso.
- Só isso? Acha pouco saber que fui adotado? - Diga-me: o que mudou em sua vida?
- Tudo. Sinto-me um intruso em minha família.
- Não ama mais sua mãe? Nem seu pai? Nem a mim? E quanto a Selena? O que ela tem a ver com tudo isso?
- Devagar, vovó, por favor. Continuo amando minha mãe como sempre amei, embora não entenda por que ela mentiu para mim. Quanto a meu pai, foi ele quem nunca conseguiu
me amar. E Selena, como você mesma disse, não tem nada a ver com esta história.
- Entretanto, nem a ela você procurou.
- Porque não sabia o que lhe dizer.
- Por que não a verdade? Acha que Selena se importa? Acha que ela deixaria de amá-lo?
- Não sei.
- Ora, mas que amor é esse que sente por ela? Então não confia no amor de Selena?
- Confio...
- Pois não parece. Ela ficou muito magoada com você, porque você não confiou nela e desapareceu, deixando-a aflita, sem saber de nada.
- Ela já sabe a verdade?
- já. Sua mãe e eu tivemos de lhe contar.
- E?
- E nada. Gostaria de estar junto de você nessa hora. Ficou sentida porque você não confiou nela.
Ele suspirou com tristeza e retrucou:
- Por favor, ajude-me. Não sei o que pensar.
- Meu filho - tornou ela com mais doçura -, entendo como
deve estar se sentindo. Mas pense em sua mãe. Pense em quanto ela
sofreu e ainda sofre com tudo isso. Ela o ama verdadeiramente como
filho. Não pode duvidar disso.
- Não duvido.
- Então por que desapareceu? Por que a deixou angustiada?
Sabe que ela está morando em minha casa?
Ante seu olhar de espanto, ela esclareceu:
- Pois é. Sua mãe ficou muito magoada com seu pai e o deixou. - Não a culpo...
- Nem deve. Mas também não deve culpar seu pai.
- Como não? Por acaso tem idéia do que ele me disse?
- Sei de tudo que aconteceu. Mas não posso culpá-lo de nada. - Por quê? Será que pensa como ele?
- Você sabe quanto você é importante para mim. Responda-me
com sinceridade: acha mesmo que penso como seu pai?
- Não, vovó, desculpe-me. Estou confuso.
- É natural. Mas você tem de tentar se reequilibrar para enfren
tar essa situação com coragem e confiança.
- Não sei. Tudo isso é muito estranho. Eu tinha uma vida, mas
agora percebo que vivi uma mentira durante quase trinta anos. Como quer que me sinta?
- Você não viveu uma mentira. Viveu cercado de amor e compreensão. Como pode ser tão ingrato?
Ele baixou os olhos, envergonhado, e retrucou: - Não me refiro a isso.
- Refere-se a quê? Para mim, o amor deve superar todas as barreiras.
- Mas meu pai...
- Não use seu pai como desculpa. Ele fez a parte dele, contoulhe a verdade da forma como podia. Mas você pode aceitar isso ou não, independentemente da atitude de
seu pai.
- É difícil...
- O amor torna fáceis todos os problemas. Você é um rapaz inteligente. Não é possível que não perceba a dimensão de tudo que viveu.
- Não é isso...
- O que é, então?
- Não sei dizer ao certo. Mas é como se, de repente, nada do que fui me pertencesse: meu nome, minha profissão, meus bens, minha vida. Sinto-me como se tivesse
tomado o lugar de outra pessoa e furtado tudo que era seu.
- Pois não devia pensar assim. Tanto você quanto Adriano ocupavam o lugar que lhes cabia. Só que ele, por opção própria, desencarnou antes de você. E você, por um
motivo que desconhecemos, escolheu ser adotado nas circunstâncias em que foi.
- Mas que circunstâncias? Não sei de nada. Meu pai... isto é, Paulo, disse que minha mãe me abandonou na guerra. Por quê? Onde fui encontrado?
Inês balançou a cabeça e objetou:
- Você não foi encontrado. Foi dado à sua mãe num momento de desespero. E foi o maior presente que ela poderia ter recebido. - Como assim, dado? Por quê?
- Quer mesmo saber?
- E claro que quero. Penso nisso todos os dias desde que soube da verdade, e acho que tenho esse direito.
- Tem, com certeza. É um direito seu, mais do que de qualquer outro, conhecer a verdade sobre sua origem. No entanto, não sou eu quem lhe irá contar.
- Não? Por quê?
- Porque quem não tem esse direito sou eu. Essa é uma conver
sa que você terá de ter com sua mãe.
- Minha mãe? Não sei se terei coragem de encará-la. - E por que não? Por acaso está com raiva dela? - Não, em absoluto.
- Pois então? Vá até minha casa e ela lhe contará tudo. - Tem certeza?
- Tenho.
Após alguns instantes de reflexão, ele afirmou: - Está certo. Hoje mesmo irei até lá. - ótimo. Estaremos esperando-o.
Inês despediu-se do neto com o coração mais leve. Ficara satis
feita com o resultado daquele encontro e estava certa de que Flávia
conseguiria alcançar seu coração.
Fabrício foi buscar o carro na oficina e, às oito em ponto, entrou na casa da avó. A mãe e Selena estavam sentadas na sala quando ele chegou. Olhou para elas envergonhado
e cumprimentou:
- Boa noite.
- Olá, meu filho - respondeu Flávia, lutando desesperadamente para conter a emoção.
Selena levantou-se do sofá, acercou-se dele e estendeu-lhe a mão, que ele tomou e apertou. Sentindo o amor da moça, puxou-a para si e beijou-a suavemente, estreitando-a
de encontro ao peito.
- Oh, Selena, que falta senti de você! Perdoe-me!
- Está tudo bem, meu querido.
Depois de alguns instantes de pura emoção, Fabrício desvencilhou-se do abraço de Selena e foi ajoelhar-se aos pés da mãe, pousando a cabeça em seu colo. Ela acariciou
seus cabelos com ternura, molhando-os com suas lágrimas, até que ele falou:
- Perdoe-me também, mãe. Fiquei baratinado. Não sabia o que fazer.
- Não, meu filho, sou eu que devo pedir-lhe perdão. Por mim e por seu pai.
- Agora compreendo por que meu pai nunca me amou. Ele jamais pôde aceitar o fato de que eu não era seu filho, não é mesmo?
- Infelizmente, é isso mesmo. Seu pai lutou, mas não conseguiu vencer suas próprias dificuldades.
- Mas por quê? Por que fui adotado? Papai me disse que fui abandonado na guerra. Vovó falou que me deram a você. Quem? Minha verdadeira mãe?
- Sente-se aqui a meu lado e lhe contarei tudo. Chegou a hora de você conhecer toda a verdade.
Fabrício sentou-se ao lado da mãe, e Inês acomodou-se numa poltrona do outro lado. Selena, por sua vez, levantou-se para sair. O momento era de extrema intimidade,
e ela não queria parecer uma intrusa.
- Não, Selena - protestou Fabrício. - Se vai se casar comigo, quero que conheça tudo a meu respeito.
Ela sorriu emocionada e foi sentar-se ao lado dele no sofá. Depois que todos se acomodaram, Flávia respirou fundo e, rememorando os acontecimentos daquele dia, quase
trinta anos atrás, começou a falar:
- Tudo começou quando eu perdi o filho que estava esperando...
Contou tudo. Da gravidez e do aborto espontâneo já no terceiro mês de gestação. Do medo de contar à família e decepcionar a todos. Da viagem à Europa que Paulo sugeriu
como forma de diminuir sua dor. Confessou que não tivera coragem de escrever para a família, revelando aos sogros o aborto. Após seis meses de viagem, estavam na
Alemanha exatamente quando as tropas de Hitler invadiram a Polônia. Por coincidência, se não tivesse abortado, seu filho estaria para nascer por aqueles dias. E
foi então que tudo aconteceu.
- Nós estávamos na estação, esperando o trem, quando ouvimos o soar de um apito. Ao olharmos na direção daquele som, vimos uma mulher correndo e, mais atrás, alguns
policiais, que gritavam algo que não entendíamos, embora pudéssemos supor do que se tratava. A mulher era judia e estava sendo perseguida pelos soldados nazistas.
Vendo-nos, ela correu em nossa direção e estendeu-me o que parecia ser uma trouxinha. Fiquei assustada. Ela falava em alemão, e eu não entendia nada do que dizia.
Mas ela me estendia a trouxinha com insistência, gritando e chorando em desespero, falando palavras que eu não compreendia. Ouvi um barulho que parecia ser um choro.
Afastei os panos e vi você. Era um bebê lindo. Gorducho e rosado, olhinhos azuis expressivos e cabelinho louro. Parecia um anjinho. Fiquei emocionada. Eu havia perdido
meu filho, e aquela mulher me oferecia outro. Apesar dos protestos de seu pai, apanhei
você do colo dela e o estreitei o mais que pude, tentando escondê-lo. A pobre mulher, com lágrimas que reconheci como de agradecimento, saiu correndo pela estação
para, logo em seguida, ser alcançada pelos guardas. Eles a seguraram com brutalidade e saíram arrastando-a Ao passar por nós, ela nem sequer nos olhou. Tinha medo
de que vissem o bebê e o levassem para a morte. Contudo, pude sentir seu alívio. Ela caminhava para a morte, mas algo diminuía sua dor: a certeza de que você estava
vivo e que teria uma chance de continuar a viver.
Flávia não conseguiu prosseguir. Lágrimas de emoção deslizavam de seus olhos, e Fabrício, mais emocionado ainda, agarrou-se a ela e liberou o pranto. Depois de se
recuperar, Flávia continuou contando a história Falou da forma como conseguiram tirá-lo da Alemanha sem documentos e de como o trouxeram de volta ao Brasil, após
registrá-lo no consulado brasileiro na Suíça.
- Chegando aqui, seu pai procurou um advogado e regularizou tudo, e você conseguiu a nacionalidade brasileira sem levantar suspeitas.
- E verdade. Lembro-me de que tive que ratificá-la aos vinte e um anos. Mas nem desconfiei. Para mim, havia nascido no estrangeiro porque vocês estavam em viagem
de férias.
Após breves instantes de emoção, Flávia segurou o queixo de Fabrício e continuou:
- Sua mãe deve tê-lo amado muito para fazer o que fez. Sabia que ia morrer, mas tentou de tudo para salvá-lo. Abriu mão de você por amor. Você não foi abandonado.
Foi amado desde seu nascimento. E continuou a sê-lo depois. Só o amor materno para permitir fazer o que ela fez. Entregá-lo nas mãos de estranhos, cujos princípios
nem conhecia, na tentativa desesperada de salvá-lo. E ela partiu daquela estação sem nem olhar para trás, embora nós pudéssemos sentir quanto estava triste por ter
de se separar de você.
Fabrício chorava emocionado, apertando a mão de Selena.
- Quem era ela, mãe? Como se chamava?
- Isso nós nunca saberemos. Não entendíamos nada de alemão e nunca antes a havíamos visto.
- Mas não tentaram encontrá-la depois da guerra?
- Não. Confesso que até tive medo de que ela aparecesse para reclamá-lo. Mas ela não nos conhecia e não sabia para onde íamos.
Depois, sabendo das atrocidades que cometeram aos judeus, deduzimos que ela deveria estar morta.
Fabrício baixou o rosto, entristecido, e tornou desalentado: - E pena. Gostaria de tê-la conhecido.
Flávia olhou discretamente para a mãe, que fez um gesto de assentimento, e prosseguiu:
-No entanto, meu filho, ao tirar sua roupinha, notei que havia algo em seu pescoço...
- Em meu pescoço? O que era?
Ela se levantou, abriu uma gaveta da arca e retirou uma caixinha de papelão, já bastante amarelada pelo tempo.
- Isto - respondeu, exibindo-lhe a caixa.
Fabrício tomou-a de suas mãos, sofregamente, e abriu-a com pressa. Dentro, um cordãozinho de ouro com uma medalha, dessas que se abrem para se porem fotografias.
Mais que depressa, Fabrício acionou o fecho e a medalha se abriu, exibindo duas fotografias antigas. De um lado, uma mulher loura, olhos claros, cabelos ondulados,
no rigor da moda da época. Do outro, um homem ainda jovem, de bigode e olhar austero.
- Esta é sua mãe - esclareceu Flávia. - Foi ela quem entregou você em minhas mãos. O outro... não sabemos. Creio que deva ter sido seu pai.
- Mas, mãe! - tornou ele atônito. - Esta é a mesma mulher que eu vi num ônibus, anos atrás, quando era garoto. Lembra-se? Ela até falou comigo!
- Tem certeza? - falou Inês, ao mesmo tempo em que olhava significativamente para Flávia.
- Absoluta.
- Nós bem desconfiamos - confessou Flávia. - Sua avó e eu tínhamos quase certeza de que era ela.
- E nunca me disseram nada...
- O que poderíamos dizer? - tornou Inês. - Que aquela mulher era sua mãe verdadeira? Pense bem, Fabrício.
- Tem razão, vó. Compreendo que não podiam me contar. E, depois disso, de vez em quando eu a sentia a meu lado, principalmente quando ia ao centro. Para mim, era
meu guia espiritual.
- E deve ser mesmo, Fabrício - concordou Inês. - Sua mãe
deve ter padecido em algum campo de concentração e voltou para protegê-lo.
- Sim - concordou Selena, ainda atônita ante aquelas revelações. - Sua mãe natural deve ser um espírito altamente iluminado. Por isso, ficou a seu lado esse tempo
todo.
- E sem prejudicá-lo um instante sequer - impressionou-se Inês. - Podia tê-lo atormentado, ter tentado influenciar sua vida ou, ao menos, tê-lo deixado angustiado
com sua presença. Mas não. Ela nunca lhe fez qualquer mal, fez?
- De jeito algum. Sua presença sempre foi agradável e me transmitiu muita paz e alegria.
- Ela deve ser mesmo muito iluminada - concordou Flávia, que nem de longe se lembrava do sonho que tivera com ela anos antes, quando soube que ela aparecera para
Fabrício. - Que mulher fantástica!
A seu lado, Helga ouvia tudo emocionada. Sabia que aquele seria o dia da grande revelação e aproximou-se, a fim de partilhar com o filho aqueles momentos tocantes.
junto a ela, Ismael e Adriano. O rapaz, ouvindo as palavras da mãe, emocionou-se de tal maneira que todo o ódio, toda a mágoa, todo o ressentimento que pudesse ter
nutrido por Fabrício desapareceram.
Vendo sua emoção, Ismael abraçou-o com ternura e indagou:
- E então, Adriano? Como se sente?
- Bem - respondeu ele, com os olhos marejados. - Aliviado... feliz...
- Que bom - falou Helga, com seu inseparável sotaque alemão.
- Helga... perdoe-me. jamais quis ofendê-la ou agredi-la. Eu era ignorante. Não sabia o que fazia...
- Não se culpe, meu menino. Tudo foi importante para você.
- E agora? O que irá acontecer?
- Vamos voltar - disse Ismael. - Você deve se preparar.
- Para quê?
- Você vai ver.
De mãos dadas, os três partiram, deixando a casa de Inês envolta em benéfica vibração de amor e harmonia.
- Não estou entendendo nada! - indignava-se Cassiano. - Faz quase uma semana que o doutorzinho não aparece.
- Acha que se mudou? - perguntou Aníbal.
- Não sei. Tudo é possível.
- Para onde será que foi?
- E eu é que vou saber?
- Será que se assustou com aquele vidrinho com sangue de pombo que lhe enviamos e resolveu fugir? - disse Aníbal, com um risinho debochado.
- Não creio. Aquilo foi só uma brincadeirinha, e o doutorzinho não iria se impressionar com tão pouco.
- Mas que deve ter causado um rebuliço naquela casa, isso deve. Primeiro o ratinho, depois o frasco de sangue. Queria ser uma mosquinha só para ver a cara dele.
Cassiano fez uma careta de contrariedade e conjecturou:
- Talvez ele tenha viajado...
- Hmm... Não acredito. Ele é muito certinho; não ia largar os clientes. - Fez uma pausa, procurando refletir sobre o assunto, e perguntou: -E Selena?
- Não sei dela também.
- Você pode usar Selena como desculpa para abordá-lo. O doutorzinho e ela devem estar se encontrando em algum lugar. Você tem o direito de saber. Afinal, tem filhos,
e o Dr. Aderbal disse que o juiz fixou os dias de visita. Podia alegar isso: que quer visitá-los.
- Você se esquece de que ele fixou também a pensão alimentícia. Se eu for procurá-la, Selena, na certa, vai exigir a pensão. E de
mim aquela mulher não vai ter um tostão. Ela é quem devia me pagar. E rica...
Aníbal fez uma careta e retrucou com raiva:
- E ele é bem capaz de mandar prendê-lo. Não dizem que não pagar pensão dá cadeia?
- Por que acha que sumi? Não pago nada a ela e não quero ser preso. Ela que vá procurar outro otário para sustentá-la. Aquele doutorzinho mesmo. Também é cheio da
grana.
- Foi muito azar, não é mesmo? E logo agora que já estávamos nos inteirando de seus hábitos.
- Para você ver. Passei dias plantado na frente daquele prédio, estudando seus passos, anotando tudo que ele fazia, até conseguir estabelecer sua rotina. E ele some.
Dá para acreditar?
- Pois é, meu irmão... E agora? O que faremos?
- Vou esperar mais um pouco. Vigiarei seu prédio por mais uma semana. Se ele não aparecer, tentarei o escritório...
Riram e beberam muito. Mal podiam esperar até que Fabrício estivesse fora de seu caminho. Cassiano culpava-o por tudo de ruim que lhe acontecia, por sua derrota,
por seu fracasso.
No dia seguinte, lá estava Cassiano de novo em frente ao prédio de Fabrício, mas nada de o jovem aparecer. Podia ter viajado no fim de semana. Esperou até a segunda-feira
seguinte, na esperança de que o visse saindo para o trabalho. Mas nada. Fabrício parecia ter-se evaporado.
Esperou mais dois dias. Como ele não aparecia, pensou em ir vigiar seu escritório. Mas o centro da cidade era um lugar movimentado, e seria difícil vigiá-lo no meio
de toda aquela multidão. Não. Tinha de esperar que ele aparecesse à noite. Além disso, as sombras poderiam facilitar-lhe a ação. A luz do sol poria tudo a perder.
Enquanto isso, Paulo remoía sua dor. Estava cada vez mais angustiado, porque Flávia ainda se recusava a falar com ele. Ia trabalhar porque era seu dever e porque
não gostaria que ninguém desconfiasse do que estava acontecendo. Apenas o cunhado percebera que algo havia acontecido, mas não perguntou nada além do "Está tudo
bem?" Paulo baixava a cabeça e respondia que sim.
Sempre que chegava em casa, perguntava a Olívia se Flávia havia ligado, e ela dizia que não. Embora a governanta não soubesse o
que havia acontecido, ela tinha certeza de que fora algo muito grave. Por que outro motivo Flávia e Fabrício teriam ido embora?
Cotovelos apoiados na janela, Paulo olhava o mar. As ondas, subindo e descendo na cadência da maré, causavam-lhe uma paz reconfortante. Vagando os olhos pela praia,
perdeu-se em pensamentos de saudade e foi acompanhando o movimento da rua. Pessoas que iam e vinham, carros que passavam apressados. O sol começou a se pôr no horizonte,
e a praia, já não tão cheia àquela época do ano, foi sendo deixada pelos banhistas de última hora.
A noite chegou, e Paulo continuava à janela. Fazia quase duas horas que estava ali. De repente, ouviu a voz de Olívia atrás de si:
- Posso mandar tirar a janta, Dr. Paulo?
Ele inspirou profundamente e respondeu, sem se voltar:
- Agora não. Dê mais meia hora e só então mande servir.
Olívia obedeceu. Aguardou a meia hora e deu ordens à cozinheira para que tirasse o jantar.
- Já está na mesa, Dr. Paulo.
Com um suspiro, Paulo deu uma última olhada na rua e já ia se voltar para dentro quando algo lhe chamou a atenção. Seu apartamento ficava no segundo andar, e ele
pôde ver com nitidez um homem parado em frente ao edifício, parcialmente oculto pela árvore que beirava o meio-fio. Aquilo não seria nada de mais, não fosse a atitude
suspeita do rapaz. Ele tentava parecer natural, segurando um jornal e fingindo ler, o que lhe pareceu estranho, já que a pouca luz lhe dificultaria a leitura. De
vez em quando, levantava os olhos do jornal e olhava para seu prédio, parecendo-lhe mesmo que visava sua janela.
Assustado, Paulo estacou e prestou atenção. Na semi-escuridão da noite, podia distinguir perfeitamente seu porte. Era alto, musculoso, robusto. Não lhe via o rosto
com distinção, mas sabia que já conhecia aqueles traços. De onde? De onde conhecia aquele sujeito?
- O senhor não vem? - repetiu Olívia. - Está esfriando.
- Já vou.
Paulo deixou a janela e foi sentar-se à mesa. Não conseguia, porém, tirar aquele homem da cabeça. Já o havia visto em algum lugar. Mas onde? Terminou de jantar rapidamente
e desceu. Às dez horas em ponto, o porteiro trancava a portaria, e depois disso só se entrava com a chave.
Paulo acercou-se do porteiro e indagou: - Boa noite, Severino.
- Boa noite, doutor.
- Por acaso você já reparou naquele homem ali, na beira da calçada?
- Que homem?
- Aquele - respondeu Paulo, chegando para perto da porta de vidro. - Venha ver.
O porteiro levantou-se e foi olhar. Um pouco mais à direita, fora do ângulo de visão de quem estava sentado à pequena mesa da portaria, havia um homem parado perto
do meio-fio. Severino estudouo atentamente e respondeu:
- Não, doutor, nunca o vi. Por quê? Ele fez alguma coisa? Paulo fez um muxoxo e retrucou com hesitação: - Não... Não fez nada. Mas achei-o estranho. - Quer que vá
falar com ele?
- Não, não precisa. Ele não está fazendo nada de mais, não é mesmo?
Cassiano nem se deu conta de que já havia sido descoberto. Só que Paulo, por mais que tentasse, não conseguia se lembrar de onde o conhecia.
No dia seguinte, ao voltar do trabalho, Paulo foi espiar da janela. Ainda não eram nem sete horas, e o homem não estava lá.
- Devo estar imaginando coisas - pensou em voz alta. - Fazendo mau juízo dos outros...
Subitamente, parou espantado. Pelo lado da praia, vinha chegando o mesmo homem. Parou em frente a seu prédio, olhou para sua janela e disfarçou. Na certa, vira-o
ali e não queria dar na vista. Virou as costas para ele e fingiu que olhava o mar. Passados alguns minutos, recomeçou a caminhada e foi sentar-se em um banco na
calçada, virado de frente para a praia.
Paulo estava assustado. Aquele homem, na certa, estava vigiando-o. Mas por quê? Quem seria? E de onde o conhecia? Por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar.
Tinha certeza de que já havia visto aquele rosto antes. Mas onde? Onde?
Olívia apareceu novamente, chamando-o para o jantar. Ele saiu da janela e foi sentar-se à mesa. Queria dar tempo ao homem para que se posicionasse como na véspera.
Se ele fosse se esconder atrás
daquela árvore, não teria dúvida. Estaria mesmo vigiando sua casa. Mas por quê? Com que intenção? O que estaria visando?
De repente, uma idéia passou por sua cabeça. Será que Fabrício mandara alguém tomar conta de seu apartamento? Ou teria sido Flávia? Será que aquele homem era algum
detetive que a mulher ou o filho haviam contratado para vigiá-lo? Mas por quê? O que estariam pretendendo? Na certa, queriam saber aonde ele ia.
Aquilo não fazia nenhum sentido. Apesar disso, era o único sentido que podia atribuir àquela inusitada situação. Que o homem vigiava seu prédio, não tinha a menor
dúvida. Só o que não sabia era por quê. Perguntar-lhe, de nada adiantaria. O homem se faria de desentendido e não diria nada. Chamar a polícia estava fora de cogitação.
O que diria ao delegado? Que um desconhecido resolvera ler jornal diante de sua porta? Isso não era crime algum.
Terminou o jantar e foi para seu quarto. De luzes apagadas, aproximou-se da janela e, afastando as palhetas da persiana, espiou para fora. Lá estava ele de novo,
parado atrás da mesma árvore, com o jornal na mão. Olhava, não para sua janela, mas para a portaria. Quem estaria esperando? Ou será que se enganara? Meu Deus, era
isso! Enganara-se, só podia ser. O homem estava ali para vigiar não ele mas outra pessoa. Alguém no prédio devia tê-lo contratado. Quem sabe, um marido desconfiado
da mulher? Sim, era isso. Como fora tolo, pensou. Julgara que o homem estivesse ali por sua causa, mas não era nada disso. Riu de sua tolice e soltou a persiana.
Acendeu a luz e abriu a porta do armário. Precisava de um bom banho para se refazer daquele susto e daquela tolice.
Embaixo, na rua, Cassiano estava preocupado. Vira quando Paulo aparecera na janela e olhara para ele. Quem seria aquele? Será que desconfiara de algo? Só podia ser
o pai do doutorzinho. Precisava tomar cuidado. Se ele percebesse alguma coisa, poderia até chamar a polícia. Pensando bem, e daí? Não devia nada a ninguém e não
estava fazendo nada de errado. Bem, devia a pensão a Selena, mas ela não estava ali para reclamar.
Tomaria cuidado, mas não desistiria de seu intento. Além do mais, a semana já estava chegando ao fim e, se Fabrício não aparecesse, teria de colocar em prática a
outra parte de seu plano.
Adriano, já mais refeito, agora limpo e medicado, caminhava pela colônia Lar da Luz Divina em companhia de Ciça. - Como se sente? - perguntou a moça, interessada.
- Melhor. Meus sentimentos, embora confusos, já não destilam
mais ódio ou revolta.
- Fico feliz em ouvir isso. Será que se sente em condições de passar por uma sessão de terapia?
- Que terapia?
- Terapia de vidas passadas. Já ouviu falar? - Não.
- Na Terra, ainda não é comum. Raríssimas pessoas praticam esse processo. Mas aqui é bem corriqueiro.
- Em que consiste?
- E simples: em rememorar o passado.
- Mas que passado? Lembro-me de tudo perfeitamente. - Não me refiro a esse passado. - Não? Fala de outras vidas, outras encarnações?
- Sim. Ismael acha que chegou o momento de você ter conta
to com algumas verdades.
Ele fez uma cara de surpresa, e ela continuou:
- Então? O que me diz? Gostaria de rever sua vida passada?
- Não sei, Ciça. Tenho medo. E se eu descobrir algo que não
queira ver?
- Você é quem sabe. Não queremos forçá-lo a nada. Se não se sente apto, não insistiremos e aguardaremos até que você ache que
está pronto. Quem decide isso é você. Trata-se de sua vida.
Adriano ficou pensando no que ela lhe dissera. Se, por um lado, tinha medo de descobrir o que o coração tentava a todo instante lhe contar, por outro lado sentia
que se libertaria daquele sofrimento que tanto o atormentava.
- Está certo, Ciça. Convenceu-me. Quero experimentar essa tal terapia.
Ela sorriu e abraçou-o, acrescentando com bom humor: - Muito bem. Vamos lá, então?
Partiram juntos e foram procurar Ismael, que já os aguardava. Ele sabia que Adriano acabaria por concordar. Quando chegaram, Ismael conduziu-os até uma sala ampla,
iluminada por uma luz azul reconfortante. Parecia uma sala de cinema, com uma tela imensa ao fundo e algumas poltronas.
Adriano acomodou-se onde quis, e Ismael e Ciça sentaram-se na
fileira logo atrás. Em seguida, seu avô começou a falar:
- Muito bem, Adriano. Sinta-se totalmente relaxado e deixe
fluir o que lhe vier ã mente. Gosta de cinema? - Gosto.
No mesmo instante, uma luz se acendeu na tela, e Adriano olhou admirado. Viu-se ainda criança, sentado entre o pai e o irmão, a mãe ao lado de Fabrício, assistindo
a O Mágico de Oz no cinema.
- Lembra-se do prazer que lhe causou essa fita?
- Sim. Gostamos tanto, Fabrício e eu, que papai e mamãe foram obrigados a assistir a duas sessões seguidas.
- Você e seu irmão não eram assim tão diferentes, eram? Houve um tempo em que foram felizes.
Adriano mordeu os lábios e respondeu hesitante:
- Sim... Nós éramos crianças... Não sabíamos nada do mundo. Creio que nossos sentimentos deviam ser mais genuínos, porque ainda não estavam limitados e distorcidos
pelas armadilhas da vida.
- Mas a vida não nos cria armadilhas. Nós é que tentamos enredá-la. Só que não conseguimos.
- Não sei. Se você diz...
- Por isso quero que você agora pense em sua vida. Na sua, de Fabrício e de seus pais. Pense nos momentos felizes que passaram juntos e deixe sua mente voar até
eles.
Instantaneamente, Adriano lembrou-se de seu décimo aniversário, quando ganhara um autorama imenso. Lembrou-se da alegria que
partilhara com o irmão e os pais, apostando corrida com um carrinho vermelho e outro azul. A cena apareceu na tela, e Adriano sorriu.
- De quem é o carrinho azul? - indagou Ismael.
- É meu.
- Pois então quero que se concentre nele. Concentre-se nesse azul e na alegria que sentiu nesse momento. Sinta seus batimentos cardíacos impulsionando a felicidade
por todo o seu corpo. Pode sentir isso?
- Sim...
- ótimo. Agora, quero que imagine apenas o carrinho azul. Somente ele está correndo na pista do autorama.
Na tela, o carro vermelho sumiu, e apenas o azul corria de um lado para outro, fazendo as curvas, subindo e descendo as pequenas elevações que havia na pista.
- Muito bem, Adriano. Agora imagine que esse carrinho azul já não é mais um carrinho, mas um avião. Pode fazer isso?
- Posso.
O carrinho azul imediatamente se transformou num avião também azul, que se ergueu da pista do autorama e alçou vôo pelo céu.
- Excelente. Está indo muito bem. Você está dentro desse avião. Pode se ver dentro dele?
- Sim.
- O que vê da janela do avião?
- Vejo o céu azul.
- Concentre-se nesse céu azul. Não há nuvens, apenas o azul. Percebe o azul ao seu redor?
- Percebo.
- O avião agora se desmanchou, confundindo-se com o céu, e você está em contato direto com o azul desse céu. Sinta-se flutuando nele, envolvido por ele, bebendo-o.
Sinta-o atingindo sua mente e libertando-a, envolvendo-a com suavidade. Você agora não percebe mais o avião. E parte da sutileza do astral. Pode sentir isso?
- Posso.
Adriano estava em transe. Sentia uma indefinível sensação de prazer e bem-estar, e era como se sua mente, tomada por aquela luminosidade azul, recebesse cargas de
emoção, e a razão aos poucos foi diminuindo e se desarmando, dando lugar a um sentimento mais verdadeiro.
- Muito bem, Adriano. Você agora se encontra despido de qualquer sombra de razão. Seu ser vibra apenas as emoções, e o vazio, a escuridão de seu passado vão ganhar
colorido e vida, e você será capaz de reviver todas as experiências necessárias a seu crescimento nesse momento. Está pronto?
- Estou.
No mesmo instante, Adriano começou a projetar na tela imagens até então desconhecidas-ou esquecidas. De olhos semicerrados, via e ouvia tudo que se passava.
De onde estava, o menino podia ouvir as patas dos cavalos estalando no chão de cascalho. Levantou os olhos assustado e viu os homens se aproximando. Tentou fugir,
mas os homens foram mais rápidos e o alcançaram em poucos instantes.
- Venha cá, seu pestinha! - gritou um dos perseguidores, erguendo-o pela cinta.
- Solte-me! Largue-me!
- Você vai voltar para casa agora mesmo. Onde já se viu fugir assim? Sua mãe já está quase louca.
O menino era pequeno, não devia ter mais que sete ou oito anos, e foi facilmente dominado. O homem acomodou-o em seu colo e, enlaçando-lhe a cintura, partiu com
ele para casa.
-Não sei por que o patrão gosta tanto de você. E apenas o filho de uma criada...
O menino ficou calado. Desde que soubera que a mãe havia engravidado, pensara em fugir. Por mais que ela lhe explicasse que teria um irmãozinho ou uma irmãzinha
para brincar, não conseguia aceitar a idéia. Ele era o queridinho da casa, e até os patrões gostavam dele.
Quando os soldados chegaram com Luigi, a mãe se jogou ao chão, agradecendo a Deus por haver atendido a suas preces. Apanhou-o no colo, apertou-o e beijou suas bochechas.
- Seu danadinho travesso - desabafou. - Nunca mais faça isso comigo.
Estava ainda com o menino no colo quando a senhora entrou. A criada colocou-o no chão gentilmente, fez uma mesura e falou de olhos baixos:
- Senhora...
- Levante-se, Antônia, quero falar com você.
Antônia levantou-se e fez sinal para outra criada, que levou Luigi para dentro.
- Luigi está bem? Não se machucou? - Não, senhora. Ele está bem.
- E como vai o bebê? - indagou ela, alisando o ventre de Antônia.
A criada fez um imperceptível ar de desagrado, mas respondeu humilde:
- Bem, senhora.
- Ótimo. É sobre isso que gostaria de falar-lhe. Venha comigo. Antônia seguiu-a pelo corredor, até que alcançaram um aposento
mais afastado da mansão e entraram. Lá dentro, sentado a uma escrivaninha sóbria e austera, um homem as aguardava.
- Meu senhor - fez ela com ar servil.
- Sente-se, Antônia - ordenou ele. - Vamos conversar. Desajeitadamente, Antônia sentou-se diante dele. Sua senhora
se acomodou ao lado do marido, que lhe sorriu e continuou:
- Como sabe, Antônia, Isabela perdeu o bebê há pouco mais de um mês...
- Sei, senhor, e lamento.
- Sabe também que a criança que carrega no ventre é filha de meu irmão Bruno.
Ela ergueu o rosto, espantada. Como ele descobrira? - Senhor, eu... Está enganado...
- Não, Antônia, não estou. Ele me contou antes de morrer. - Luigi também é filho dele? - interrompeu Isabela. - Não, senhora.
- Tem certeza?
- Tenho. Quando cheguei aqui, já estava grávida de Luigi e só conheci o Sr. Bruno depois.
- Muito bem - prosseguiu o homem. - O que tenho a lhe dizer é o seguinte: quero que me entregue a criança ao nascer. Em
troca, dar-lhe-ei uma boa soma em dinheiro, para que possa recomeçar sua vida com Luigi em qualquer outro lugar.
- Estamos dispostos a criar Luigi também, se você permitir. Dar-lhe-íamos o mesmo tratamento dispensado ao filho de meu
cunhado - acrescentou Isabela. - Mas ele não é nosso sobrinho e não temos direito sobre ele.
Antônia começou a chorar. Não queria separar-se dos filhos, mas tinha medo do que aquela gente rica e poderosa poderia fazer.
- Senhor - protestou humildemente -, não posso separar-me de meus filhos. De nenhum dos dois.
- Pense bem, Antônia. Estará lhes roubando a chance de um futuro brilhante. O que você tem a lhes oferecer? - Amor.
- Amor não enche barriga de ninguém - cortou ele rispidamente. - Só das mulheres tolas.
- Por favor, Raffaele - ponderou Isabela -, tenha calma.
- Senhora - acrescentou Antônia. - Sei que deve estar sofrendo a perda de seu bebê. Mas Deus é bom e justo, e tenho certeza de que lhe mandará outros filhos.
- Deus me castigou, Antônia. Jamais poderei ter outros filhos. De olhos baixos, sem ousar encará-los, Antônia voltou a chorar, e Raffaele, impaciente, continuou:
- Escute, Antônia, não seja tola. Irei tomar-lhe a criança de qualquer jeito. Se é meu sobrinho ou minha sobrinha, tenho meus direitos. Você não terá direito nenhum.
- Por favor, senhor, não faça isso. Não me tire meu filho.
- Antônia, ouça - tentou Isabela em tom mais conciliador. - Se não quer separar-se dos dois, entendemos. Sugerimos criar Luigi também porque gostamos dele. Nós o
vimos nascer e nos acostumamos a suas travessuras. Mas, se vai ser muito doloroso para você, não faremos questão de ficar com ele. Afinal, não tem nosso sangue.
Mas, com esse aí que carrega no ventre, nós ficaremos. Não tenha dúvida.
Antônia chorava descontrolada.
- Não pode me obrigar, senhora. Sei que sou pobre e ignorante. Mas o filho é meu, e ninguém pode tirá-lo de mim. A lei há de estar do meu lado.
- Insolente! - esbravejou Raffaele. - Quem pensa que é, para nos afrontar dessa maneira?
- Não sou ninguém, senhor, e desculpe-me o atrevimento. Sou apenas mãe e não posso admitir que me tirem meus filhos. E agora, se me dão licença, vou aprontar minhas
coisas e as de Luigi. Partiremos daqui agora mesmo.
Mais que depressa, Antônia tomou o caminho de volta. Foi ao alojamento dos criados, onde vivia com o filho, estendeu um lençol
sobre a cama e nele colocou as poucas roupas que ela e o filho possuíam. Apanhou tudo, despediu-se do resto da criadagem e foi bus
car Luigi, que se divertia atirando pedrinhas no lago atrás da casa. - Venha, Luigi - chamou ela, puxando-o pela mão. - Aonde vamos?
- Vamos embora.
- Por quê? Gosto daqui, mamãe. Não quero partir. - Venha, Luigi, não faça perguntas.
Saiu arrastando o menino. Os criados, sem entender, ficaram vendo-a se afastar, imaginando que ela devia ter feito algo muito grave
para sair assim, quase fugida.
Isabela e Raffaele, por sua vez, estavam estarrecidos. Jamais poderiam esperar uma reação daquelas.
- Precisamos impedi-la, Raffaele! -esbravejou Isabela, vertendo lágrimas de ódio.
- O que posso fazer?
- Não sei. Mas descubra um jeito de trazer a criança de volta. Antônia não pode sumir assim com nosso sobrinho. Ele tem seu sangue. - Mas como vamos provar?
- Não precisamos provar nada, Raffaele. Você é rico e poderoso. Não lhe será difícil conseguir alguém que faça o serviço para nós. - Mas, Isabela, é perigoso. E
se alguém descobrir?
- Se você comprar as pessoas certas, ninguém jamais ficará sabendo.
No dia seguinte, Raffaele saiu em busca de um homem de quem
ouvira falar. Era um malfeitor, mas serviria bem a seus propósitos. - O que quer, cavalheiro? - perguntou o homem, olhando-o desconfiado.
- Um serviço. Disseram-me que é muito bom no que faz. - Modéstia à parte, sou mesmo. E então? Do que se trata? - De uma criança. Quero que a roube para mim. - Uma
criança? Entendo. Onde ela está?
- Não sei. Trata-se de um bebê que ainda não nasceu, filho de meu irmão com uma criada. Ela fugiu de minha casa, com medo de
que lhe tomássemos a criança.
- Entendo. E o senhor quer que primeiro eu descubra o paradeiro da mulher?
- Sim.
- Vai custar caro.
- Estou disposto a pagar.
- Quer que dê cabo da vida dela?
- Não! Basta que lhe roube a criança sem que ela o veja. Mas cuidado: não vá machucar o outro menino.
- Pode deixar, senhor. Farei tudo direitinho.
De volta à sua casa, Raffaele foi interpelado pela mulher, que o aguardava ansiosamente:
- E então? Como foi?
- Deu tudo certo. O homem cobrou uma fortuna, mas vai valer a pena.
- E Antônia? O que fará a ela?
-Nada. Mandei-o apenas apanhar a criança.
Máximo, o malfeitor, logo descobriu o paradeiro de Antônia. Ela estava vivendo em uma cidade vizinha, fazendo pequenas costuras para sobreviver, enquanto Luigi a
auxiliava com alguns trocados que conseguia carregando embrulhos pesados para as madames.
Em casa, o menino não se conformava. Dia após dia, só pensava em fugir. Mas era pequeno e não sabia que direção tomar. Com o passar do tempo, observava o ventre
da mãe a se avolumar cada vez mais, até que ela não pôde mais trabalhar.
Seu irmão nasceu em meio à dura pobreza. Antônia foi auxiliada no parto pelas mulheres da vizinhança, sempre solidárias e dispostas a ajudar. Máximo, que vigiava
a casa de Antônia, deduziu, pelo rebuliço, que a criança havia nascido. Ao ver Luigi passar correndo e chorando por ele, segurou-o pelo braço e indagou:
- O que houve, menino?
- Nada, não. Foi minha mãe que deu à luz.
Soltou-o e sorriu satisfeito. Resolveu esperar alguns dias. Ao final de uma semana, achou que já era hora de agir. Durante a noite, invadiu a casa em que Antônia
vivia com os filhos. Ela dormia tranqüilamente, com Luigi a seu lado e o bebê num bercinho velho, perto da porta.
Ao colocar a mão no bebê, este soltou um gemido bem baixinho, que Antônia não escutou, mas Luigi, sim. O menino abriu os olhos e ergueu o corpo, assustando-se com
Máximo ao lado do berço. Pensou em gritar, mas algo o paralisou. Reconheceu o homem que o havia interpelado na rua e ficou olhando. Máximo fez-lhe sinal para
que ficasse quieto e retirou o pequenino do berço. Apesar de assustado, Luigi guardou silêncio. Deitou-se na cama novamente, virouse para o lado e tornou a dormir.
No dia seguinte, foi despertado por um grito lancinante. A mãe, dando pelo sumiço do filho, berrava feito louca:
- Meu filho! Meu filho! Oh, meu Deus, roubaram meu filho!
Foi um alvoroço. A rua inteira acorreu. Chamaram o inspetor da guarda, que tomou notas e prometeu investigar. Antônia contoulhe sobre seus antigos patrões, que moravam
numa cidade vizinha, e os guardas foram até lá investigar.
Raffaele recebeu-os com fria tolerância. Negou qualquer participação no fato. Se quisessem, podiam até revistar a casa, mas não encontrariam nada. Antônia fora uma
tola. Recusara sua ajuda e agora se via naquela situação. Era uma relaxada, descuidada, irresponsável. Na certa, algum bêbado lhe roubara o filho.
A criança fora cuidadosamente escondida em sua casa de campo e permanecia sob os cuidados de uma criada de confiança.
Antônia não se conformou. As buscas, em breve, cessaram, e o inspetor encerrou o caso sem solução. Ela se desesperou. Tinha certeza de que alguém roubara seu filho
a mando dos antigos patrões.
Certa manhã, passou a mão em Luigi e partiu com ele para a casa de Raffaele e Isabela. Bateu à porta com estrondo, mas o mordomo, alertado pelo patrão, não lhe permitiu
a entrada. Antônia, completamente fora de si, começou a esmurrar a porta, gritando feito louca:
- Seus vermes! Malditos! Devolvam-me meu filho! Quero meu filho de volta! Ladrões! Bandidos! Devolvam-me meu filho!
Raffaele deu ordens para que os criados expulsassem aquela louca dali. Mas Luigi, vendo-se na casa dos patrões a quem tanto admirava, não quis partir. Para surpresa
de Antônia, ficou parado ao lado do portão, vendo passivamente os homens de Raffaele colocarem-na para fora.
Jogaram-na no meio da rua e trancaram o portão. Caída na calçada, Antônia fitou Luigi com profundo desgosto e gritou:
- Esperem! Luigi! Venha, Luigi! Venha com sua mãe!
Mas Luigi não respondia. Olhou para a mãe e para a mansão, e percebeu Isabela oculta atrás da cortina. Depois de alguns instantes de dúvida, virou as costas para
a mãe e correu em direção à casa, gritando para Isabela:
- Senhora Isabela! Senhora Isabela! Por favor, deixe-me ficar!
A porta se abriu e Luigi entrou, para desespero de Antônia. Do lado de fora, só o que ela conseguia fazer era chorar.
- Não! Não! - gemia ela. - Meus filhos não! Por que me roubam meus filhos? Luigi! Por que abandonou sua mãe, meu filho? Por quê? Oh, meu Deus, ajude-me! Perdi meus
filhos!
Pouco depois, a guarda chegou e enxotou-a dali. Vencida e humilhada, Antônia voltou para casa. Sabia que a luta era desigual, mas não podia se conformar. Tinha de
haver um jeito de reaver os filhos.
Antônia não sabia quanto estava enganada. Isabela, temendo a reação da criada, foi sozinha procurar Máximo. Levou-lhe muito dinheiro e incumbiu-o de uma missão especial.
- Quer que acabe com ela? - indagou ele. - Sim. O mais rápido possível.
- Mas seu marido não queria.
- Meu marido não pode saber. Isso é por minha conta e ficará somente entre nós.
- Está certo, dona. A senhora é quem sabe.
Máximo apanhou o dinheiro, e Isabela foi embora, recomendando-lhe que jamais dissesse que a conhecia.
No dia seguinte, ao cair da madrugada, ele começou a agir. Quando todos dormiam, ateou fogo na casa de Antônia. As labaredas logo consumiram as paredes de madeira.
Antônia ainda conseguiu ser tirada com vida das chamas, no entanto a enorme quantidade de fumaça que respirara invadiu seus pulmões e ela morreu asfixiada, antes
mesmo de chegar ao hospital.
A notícia logo chegou à mansão de Isabela. Embora desconfiado, Raffaele não disse nada. Tinha medo até de perguntar. Um mês depois, quando tudo havia se acalmado,
mandou buscar a criança em sua casa de campo e disse a todos que havia descoberto o paradeiro do filho de Antônia e que pretendia criá-lo, juntamente com Luigi.
Era o mínimo que podia fazer, depois de todo o sofrimento da moça. Deram-lhe o nome de Giovanni e o registraram como filho, e Gianni, como desde então passou a ser
chamado, tornou-se o novo e legítimo herdeiro de Raffaele.
O tempo foi passando, e os dois meninos foram criados juntos, sem que houvesse qualquer distinção entre eles. Estudaram nas melhores escolas, ganhavam os brinquedos
mais caros, as roupas mais bonitas. Isabela e Raffaele se esmeravam em fazer-lhes todas as vontades. Cobriam-nos de atenção e carinho, como se realmente fossem seus
filhos.
Quando Luigi alcançou a idade de catorze anos, sentiu que seu mundo ia desabar. Apesar de usar o sobrenome de seus pais, descobriu que não havia sido registrado
como filho deles. Vira, por acaso, seu registro de nascimento dentro da gaveta do pai. Na verdade, em sua certidão constava ainda o nome de Antônia, e somente o
dela. Nem sabia quem havia sido seu verdadeiro pai. Decepcionado, foi procurar Raffaele, pedindo-lhe explicações.
- Papai - começou ele a dizer -, pensei que me considerasse como filho.
Raffaele encarou-o, tentando entender o que dizia, e retrucou:
- É claro que o considero, Luigi. Por quê?
- Porque descobri que não sou registrado como seu filho e de Isabela...
Desconcertado, Raffaele deu um salto da cadeira em que se encontrava sentado. Apesar de gostar muito do menino, ele não era seu sangue, e não seria justo com Gianni
partilhar seu nome e sua fortuna com o meio-irmão.
- Meu filho - começou ele a dizer. -Não se preocupe com isso. Sua mãe e eu o amamos tanto quanto a Gianni. No entanto, ele é meu sobrinho...
- Já entendi. - Cortou Luigi rispidamente. - Ele é seu sobrinho e eu não sou nada, não é? Sou apenas um enjeitado que o senhor e sua mulher acolheram por piedade.
-Não se trata disso, meu filho. Trata-se dos laços de sangue. - Por que ainda me chama de filho? Bem se vê que não me considera assim.
- Não é isso, Luigi, já lhe disse. Considerá-lo como filho, eu o considero. Mas você não é meu parente de verdade. - E Gianni é.
- Sim, é. Mas isso não faz a menor diferença.
- Só que eu não terei direito algum sobre sua herança. - E isso o que o preocupa?
- Também... - hesitou ele.
- Pois não precisa. Não vou deixá-lo desamparado. Ao contrário, deixar-lhe-ei bens e uma boa renda que o sustente pelo resto de sua vida.
- E o nome?
- Infelizmente, meu filho, não poderei dar-lhe meu nome. Meus pais também jamais concordariam. Afinal, você não é um verdadeiro Michaeli. Não tem nosso sangue.
Luigi jamais poderia descrever a raiva e a frustração que sentira naquele momento. Fora enganado pelas únicas pessoas a quem considerava em sua vida. E tudo isso
por quê? Porque seu irmão tivera a sorte de ter um Michaeli como pai, porque sua mãe escolhera se deitar com um Michaeli para concebê-lo, ao passo que ele havia
sido gerado por um desconhecido ignorado.
Desde esse dia, Luigi nunca mais tocou no assunto. Mas não se esquecia. Jamais poderia se esquecer de que Gianni representava um entrave à sua sorte. Não fosse por
ele, talvez Raffaele o adotasse de verdade.
Entretanto, por mais que se revoltasse, preferiu calar seu ódio. Se dissesse algo, bem poderia ser mandado embora. Mas ele não queria partir. Silenciara quando o
irmão fora roubado na esperança de que ele também fosse acolhido naquela casa. Abandonara a mãe para poder viver naquela casa. E agora engoliria tudo para continuar
a viver naquele lugar. Engoliria, mas não se conformaria.
Anos mais tarde, quando Isabela morreu, vítima de febre arrmarela, Raffaele não se conformou. Estava acostumado aos cuidados
de uma mulher e logo pensou em arranjar uma nova companheira.
Os rapazes já estavam adultos e não precisavam mais de mãe. Mas ele precisava de uma mulher.
Foi nessa época que Gianni conheceu uma jovem de nome Paola e se interessou por ela. Vira-a apenas uma vez, em uma festa, mas
não pôde se aproximar porque o pai dela, um comerciante de peles muito rígido e severo, não permitia que ninguém se aproximasse da
filha. Guardava-a para o marido que ele considerasse ideal.
Gianni buscava um jeito de se aproximar. Via em seus olhos que ela lhe correspondia. Mas o pai não a deixava sozinha um minuto
sequer, e Gianni não tinha oportunidade de falar com a jovem. Pensou em escrever-lhe uma carta, mas como faria para que chegasse
a suas mãos?
- Não sei mais o que fazer - queixou-se ele a Luigi, certo dia.
- Gostaria de me aproximar de Paola, conhecê-la melhor.
- Sabe que o pai dela não permitirá. - E se papai falar com ele? - E sério assim?
- Estou muito apaixonado. - E ela?
- Não sei. Mas acho que também está. - Como sabe?
- Pelo jeito como me olha. Toda vez que a vejo na janela, nossos olhares se cruzam, e eu sei que eles falam de amor.
Luigi sentiu uma pontada de ódio no peito. Como o irmão podia pensar em ser feliz?
- Espere mais um pouco - disse ele, por fim, tentando não dei
xar transparecer a raiva que sentia. - Não vá falar com papai ainda. - Por que não?
- Não se precipite. Não vai querer comprometê-lo à toa, vai? Gianni pensou melhor. Embora estivesse certo de seus sentimen
tos, não queria tomar nenhuma atitude impensada. Era preciso pri
meiro ter certeza de que ela o amava também. Se o amasse, poderia
pedir a ajuda do pai sem medo de estar dando um passo em falso. Luigi precisava agir rápido. Um dia, Raffaele estava sentado na
varanda quando ele se aproximou.
-Em que está pensando, pai? - perguntou ele com fingido interesse.
- Você sabe, meu filho. Busco uma nova mulher. Mas ainda não me decidi.
-Tem alguém em vista?
- Sim. A senhora Manuela de Alencar. Conhece-a? E uma espanhola viúva e muito rica.
- Conheço-a, papai. Mas não acha que já é um pouco velha?
- O que queria, meu filho? Em minha idade, é difícil arranjar mocinhas. E, depois, ela não é tão velha assim. Deve ter lá seus quarenta e cinco anos.
- Quase a sua idade. Mas o senhor ainda é um homem jovem. Devia procurar uma moça mais nova.
- Você acha?
- Acho, sim.
- Mas não há ninguém em vista. Todas as jovens casadouras da cidade já devem estar comprometidas. E, depois, que pai irá querer casar sua filha com um homem maduro?
- Maduro e muito rico. Aposto que qualquer um o aceitaria como genro.
- Será?
- Tenho certeza.
- Hmm... Não sei, não. Não tenho mais tempo nem idade para me aventurar nessas conquistas.
- Por que não deixa que eu cuide disso para o senhor? - Você?
- Sim, eu.
- Por acaso conhece alguém disponível?
- Ora, papai, conheço muitas moças disponíveis. Mas há uma, em especial, que é perfeita para o senhor.
- E mesmo? Quem?
- Conhece o Sr. Vittorio Montoro?
- O comerciante de peles?
- Ele mesmo. Ouvi dizer que está à procura de um noivo para a filha.
- E o que o faz pensar que ele me escolheria?
- O senhor é um homem muito rico e atraente. E o Sr. Montoro e um homem extremamente ambicioso.
- Acha que a moça me aceitaria? Como se chama? - Paola. O nome dela é Paola.
- E bonita?
- Muito bonita.
- Acha que me aceitaria?
- Talvez... Dizem que ela faz tudo que o pai manda.
Raffaele se decidiu. No dia seguinte, vestiu-se com esmero,
mandou encilhar seu cavalo e saiu. Já estava na porta quando encontrou Gianni, que vinha procurá-lo a fim de pedir sua intervenção junto
ao pai de Paola.
- Agora não, meu filho. Estou com pressa. - Aonde vai, papai? - Depois, depois...
O pai saiu sem nem lhe dar atenção, e Luigi, que vinha chegando, respondeu por ele:
- Acho que papai encontrou uma nova mulher. Gianni olhou-o admirado. - Esposa? Quem é?
- Não sei.
- Mas ele não disse nada! - Vamos esperar.
O Sr. Montoro ficou remoendo a proposta que Raffaele lhe fizera. Ele era membro de uma das famílias mais ilustres e tradicionais
de toda a região, e não havia uma só moça que não sonhasse em se casar com um herdeiro Michaeli, ainda mais com um homem rico
como Raffaele. Após alguns instantes, Vittorio coçou o queixo, encarou-o com ar de cobiça e respondeu com ar solene:
- Muito bem, Sr. Michaeli. O senhor me convenceu. Sua proposta é irrecusável, e estou certo de que minha filha se sentirá muito
honrada com seu pedido.
- Quando poderei vê-la?
- Amanhã. O senhor poderá vir jantar em minha casa amanhã, e eu tratarei de apresentá-lo a Paola.
Ao voltar para casa, Raffaele fez suspense sobre seu novo romance. Não disse nada a Luigi nem a Gianni. Queria dar-lhes a notícia
quando tudo estivesse decidido. Tinha certeza de que ambos ficariam muito felizes.
No dia seguinte, Raffaele conheceu Paola e imediatamente se interessou por ela. Ela era realmente muito bonita, e seria difícil não
a desejar. Embora contrariada, a moça não disse nada. Quando o pai
lhe falara que um Sr. Michaeli a pedira em casamento, ficara toda feliz, achando que o pedido partira do filho, Gianni. Mas ora, vendo Raffaele ali em sua frente,
chegou à conclusão de que se enganara com o rapaz. Pensara ter lido em seus olhos um brilho de amor, mas fora ilusão. Gianni não estava interessado nela.
Decepcionada, resolveu aceitar. E, depois, de que adiantaria recusar? O pai, na certa, a obrigaria, e ela acabaria se casando de qualquer jeito. Teria de conviver
com Gianni em sua casa, o que poderia ser extremamente difícil e desagradável. Entretanto, o fato de saber que Gianni não a amava dar-lhe-ia forças para superar
aquele amor, que não passara de uma tola paixão juvenil.
Na outra noite, Raffaele marcou um jantar em sua casa, aonde Victorio iria com a filha, a fim de que conhecesse seus filhos. Luigi não cabia em si de contentamento,
e Gianni estava curioso para saber quem seria a esposa do pai.
- Sabe quem é ela? - indagou a Luigi.
- Não faço a menor idéia.
- Quem será?
Quando Paola adentrou o salão de sua casa pelo braço do pai, Gianni pensou que iria desmaiar. Fitou-a com profundo desgosto, mas não disse nada. O que poderia dizer?
Paola, por sua vez, nem ousava levantar os olhos. De que adiantaria encarar o homem que a rejeitara tão friamente?
Raffaele e Paola casaram-se um mês depois, e Gianni jurou a si mesmo que jamais lhe falaria sobre seu amor. No princípio do casamento, tudo transcorreu normalmente.
Paola não era propriamente infeliz, mas o convívio com Gianni só fez aumentar seu amor por ele, e o rapaz também não conseguia evitar amá-la cada vez mais.
Ao final do primeiro ano, tudo parecia bem. Embora Raffaele não a amasse, tratava-a com respeito e consideração. Gostava dela. Paola era bonita, obediente e cortês,
e isso era tanto quanto lhe bastava. Sabia que ela também não o amava, mas isso não o incomodava. Não precisava de amor para viver.
Apesar do sentimento que os unia, nem Gianni nem Paola ousavam tocar naquele assunto. Tinham medo até de se olhar. Ao contrário do esperado, a presença de Gianni
a desconcertava sobremaneira, e Gianni também se sentia pouco à vontade quando em sua companhia.
Por isso, evitavam ficar sozinhos juntos. Sentiam que o amor ia aumentando a cada dia, e o medo também. Tinham medo de se olhar, de pensar, de sentir. Desejavam-se
em silêncio, e Gianni chegava a tirar sangue dos lábios ao imaginá-la nos braços do pai.
Luigi era o único que percebia o que estava acontecendo e se felicitava pelo trunco que tinha nas mãos. Pouco depois, conheceu uma moça, de nome Nicole, e ambos
se apaixonaram. Luigi contava trinta e quatro anos e já estava passando da idade de se casar. Casou-se com Nicole, mas a moça, embora não fosse pobre, não era herdeira
de nenhum título ou fortuna, era apenas filha de um médio funcionário público.
Luigi casou-se, mas exigiu que fossem morar na casa dos pais. Raffaele não se opôs. Gostava de Luigi e ficou feliz em tê-lo por perto.
-Não se preocupe, meu filho - disse Raffaele, logo após a noite de núpcias. - Você e Nicole não ficarão desamparados.
Gianni não se casara. Não conseguia se apaixonar por ninguém. Formara-se em medicina e ocupava seu tempo atendendo a crianças enfermas no hospital local. Luigi,
embora fosse formado em direito, preferia ficar em casa sem fazer nada, apenas usufruindo do dinheiro que seu pai ganhava com as terras que possuía no interior.
Nicole e Paola logo se tornaram amigas. Tinham quase a mesma idade, e a afinidade entre ambas surgiu espontânea e natural. Passavam as tardes juntas, lendo, passeando,
fazendo compras. Tornaram-se amigas e confidentes.
Um dia, surgiu a ocasião que Luigi tanto esperava. O pai estava tendo problemas em uma de suas fazendas: uma pequena rebelião dos colonos, irritados com o preço
que Raffaele lhes cobrava pelo uso da terra.
- Fique tranqüila - disse a Paola. - Em duas semanas, no máximo, estarei de volta.
- Quer que o acompanhe, pai? - indagou Gianni.
- Seria bom...
- Não, papai - cortou Luigi. - Deixe que eu vá. Gosto desses assuntos. Afinal, sou advogado, lembra-se?
Raffaele sorriu complacente e permitiu que ele o acompanhasse, recomendando a Gianni que tomasse conta de tudo.
- Não se preocupe, pai. E você também, Luigi. Tomarei conta das moças.
Depois que eles se foram, Gianni procurou ainda mais evitar a companhia de Paola. Só ficava junto dela às refeições e quando Nicole estava presente. Mas Nicole,
orientada pelo marido, tinha um papel a desempenhar. Gostava muito de Paola, mas sabia do que dependia seu futuro financeiro: da traição de Paola e Gianni.
Foi ao quarto de Paola quando ela se preparava para dormir.
- Já vai se deitar? - perguntou ela de forma dissimulada.
- Já - respondeu Paola, sem de nada desconfiar. - Estou com muito sono.
- Por que não aproveita que nossos maridos saíram...
- Como assim? - cortou Paola rispidamente. - O que está insinuando, Nicole?
- Eu? Nada. Mas penso como deve ser horrível não poder se entregar ao homem que se ama.
Paola começou a chorar. Realmente, não suportava mais. - Não chore, querida. Posso ajudá-la.
- Ajudar-me? Como?
- Não gostaria de ter Gianni ao menos por uma noite?
Paola considerou. Era o que mais queria. Mas era uma mulher íntegra e não estava acostumada a mentir.
- E Raffaele? - tornou insegura.
- Ele não precisa saber.
- Mas não seria direito.
- E o que é direito? Ficar casada com quem não ama?
Paola não respondeu e Nicole continuou:
- Seu marido a enganou. Luigi me disse que Gianni pediu a ele que falasse com o Sr. Raffaele.
- O quê? Como... Como assim?
- Não sabe?
A outra meneou a cabeça. Nicole continuou:
- Pois Gianni comentou com Luigi que estava pensando em pedir ao Sr. Raffaele que fosse falar com seu pai, para lhe pedir permissão para cortejá-la. Como Luigi é
muito amigo do irmão, adiantou-se e foi falar com o pai. Queria fazer-lhe uma surpresa. Só que o Sr. Raffaele teve outra idéia. Resolveu pedi-la para si próprio.
Não foi uma traição?
Paola fitou-a indignada.
- Gianni nunca me contou...
- Ele não sabe disso. Luigi também nunca lhe disse. Tem medo de que ele fique contra o pai, o que não seria direito. Mas Gianni não
consegue mais conter seus sentimentos. Ele a ama imensamente e está prestes a ir embora.
- Ir embora? Como assim?
- Ele disse a Luigi que pensa deixar esta casa. Já não suporta mais. Arde de desejo por você.
- Oh, Nicole...
- Pois é. Gianni confidenciou a Luigi que sonha, um dia, poder tê-la em seus braços...
Paola derramava um pranto sentido, quase angustiado.
-Oh, Nicole, ajude-me! Não deixe que ele parta. Eu não su portaria.
-Não posso impedi-lo. Só você pode. - Eu? Mas como?
- Você sabe. Vá procurá-lo. Entregue-se a ele.
- Mas isso não seria direito! Sou uma mulher casada.
- E o que é direito, Paola? Seu marido enganar a você e ao filho só para poder se casar com você? Se alguém aqui enganou alguém,
não foram vocês. Foi o Sr. Raffaele.
Paola começou a ficar em dúvida, e Nicole continuou a incentivá-la:
- Pense bem, Paola. Gianni a ama e está esperando por você. - Está?
- Sim. Todas as noites ele fica deitado em sua cama, só esperando que você apareça. Como você nunca aparece, ele resolveu ir
embora. Só vai esperar que o pai volte de viagem para partir.
- Não, Nicole. Não vou permitir! - Pois então faça algo. Depressa! - E se Raffaele descobrir?
- Como vai descobrir? Você pretende contar? - E claro que não.
- Pois eu também não. E Gianni muito menos. Vamos, Paola, o que está esperando?
- Não sei...
- Deixe de ser boba. O que tem a perder? Ninguém nunca vai ficar sabendo. E, depois, vai ser uma noite só. Quando o Sr. Raffaele
voltar, vocês não terão mais chance de se ver. Quer perder a oportunidade de, ao Menos uma vez em sua vida, estar nos braços do homem que ama?
Paola tomou sua decisão. O que Raffaele fizera ao filho fora uma indignidade. Roubara-lhe a amada e a chance de ser feliz. E, depois, quem iria saber? Nicole não
contaria nada a ninguém. O que tinha a perder?
Em silêncio, saiu pelo corredor às escuras, até que chegou à porta do quarto de Gianni. Abriu-a sem bater e aproximou-se da cama. Gianni dormia tranqüilamente, e
ela, tirando a camisola, deitou-se a seu lado e colou seu corpo ao dele. Assustado, ele abriu os olhos e murmurou:
- Hem? O que...
Não teve tempo de terminar. Coberta de desejo, Paola tocou seus lábios nos dele, calando sua boca com um beijo longo e apaixonado. Gianni, a principio, pensou em
repeli-la. Mas a paixão falou mais alto, e ele se deixou envolver cada vez mais por seu corpo quente, por sua tez macia, pelo ardor de suas carícias. Entregaram-se
a um amor turbulento e apaixonado, liberando o desejo há tanto reprimido.
A partir daquele dia, não puderam mais parar. Mesmo depois que Raffaele voltou, não conseguiram mais se conter. Quase todas as noites, depois que Raffaele dormia,
Paola se levantava e ia ao quarto de Gianni.
Certa noite, Luigi resolveu agir. Esperou até que Paola se levantasse e foi ao quarto do pai. Raffaele abriu os olhos, ainda sonolento, e indagou preocupado:
- Luigi? Aconteceu alguma coisa?
- Não sei, pai. Passei pelo quarto de Gianni e ouvi gemidos. Acho que ele não deve estar se sentindo bem.
Foi só quando levantou que Raffaele notou que Paola não estava deitada a seu lado. Olhou para o filho com imenso desgosto, só então percebendo tudo, e disparou pelo
corredor, rumo ao quarto de Gianni. Atrás dele, Luigi dizia com fingida preocupação:
- Tenha calma, papai...
Não adiantou. Raffaele escancarou a porta do quarto e flagrou
mulher e filho, nus nos braços um do outro, entre carícias e gemidos. - Desgraçados! - esbravejou, correndo porta afora e voltando
segundos depois, trazendo uma pistola nas mãos.
- Papai, não! - gritou Luigi, dissimulando nervosismo.
Raffaele deixou cair a arma no chão e olhou para o filho e a mulher, envoltos nos lençóis, sem nem ousar se mexer.
- Saiam daqui! - vociferou. - Saiam de minha casa agora, ou não responderei por mim!
Mais que depressa, Gianni levantou-se da cama e puxou Paola, vestindo-se apressadamente e saindo com ela o mais rápido que pôde.
O escândalo logo se espalhou. O pai de Paola quis matá-la. Xingou-a, humilhou-a, renegou-a. Não tinha mais filha. Como pudera desperdiçar assim a chance de aumentar
sua fortuna, e ainda atirando seu nome na lama? Enchera-se de ódio da filha e de Gianni e quis matá-los. Só não conseguiu seu intento porque Gianni e Paola se mudaram
para outra cidade, bem distante dali.
Raffaele, por sua vez, renegou e deserdou Gianni, adotando Luigi e passando toda a sua fortuna para ele. Desde aquele dia, tomou-se de ódio por Gianni. Mesmo após
desencarnar, não pôde perdoar nem ele nem Paola. Podia não a amar, mas ela era sua mulher e devia-lhe fidelidade.
Nicole e Luigi também não terminaram juntos. Com a morte de Raffaele, Luigi passou a beber e a desperdiçar toda a fortuna que o pai lhe deixara, e Nicole, arrependida,
acabou por conhecer um pastor presbiteriano inglês, abandonando o marido para segui-lo. Luigi quase explodiu de tanto ódio e jurou vingança.
Quando Nicole abandonou a casa, foi com o pastor para uma estalagem, de onde, no dia seguinte, partiriam para a Inglaterra. Ao cair da madrugada, Luigi se aproximou
da carruagem do pastor e desparafusou-lhe as rodas.
Ao nascer do dia, Nicole e o pastor iniciaram viagem. Seguiam por uma estrada íngreme e sinuosa e, na descida, uma das rodas se soltou e a carruagem se desgovernou.
O cocheiro ainda conseguiu pular antes que a carruagem caísse por um despenhadeiro, assim como Nicole, empurrada para fora pelas mãos do pastor. Mas este não teve
tempo. Ao se preparar para saltar, a carruagem despencou penhasco abaixo, carregando consigo o pastor e despedaçando-se contra as rochas. Sua morte foi instantânea.
A tela escureceu, e Adriano abriu os olhos, chorando baixinho. Fitou Ismael e Ciça, que chorava emocionada. Adriano enxugou os olhos e indagou:
- Por quê, Ismael? Por que teve de ser assim?
Ismael fitou-o penalizado e respondeu bondoso:
- São nossos processos de amadurecimento, Adriano. São os caminhos que escolhemos para aprender a crescer. - Mas é tudo tão doloroso...
- Infelizmente, ainda não conseguimos compreender que o caminho do amor é bem mais curto que o da dor.
- E justo... Estou pagando por meus erros, não é mesmo?
- Não, Adriano, está crescendo. Ninguém paga nada no mundo, porque não devemos nada a ninguém. Devemos a nós mesmos. É a nós que devemos conta de nossos atos.
- Você diz que não estou pagando. No entanto, passei exatamente por aquilo que fiz outros passarem.
- Porque essa foi a maneira que você escolheu de aprender. Ninguém lhe disse que devia passar por isso nem que seria bom. Mas você achou necessário. Você optou porque
acreditou que essa seria a única forma de entender. Poderia ter escolhido outros caminhos? Poderia, desde que já tivesse consciência de que tudo poderia ter sido
resolvido e se transformado com amor. Como não conseguiu compreender pelo amor, optou pela estrada da dor. Foi seu livre-arbítrio, Adriano, sua concepção de justiça
que atraiu para você os acontecimentos de que foi alvo.
- Eu sei... Agora compreendo. Eu... Luigi... fui mau, invejoso, ambicioso, egoísta, assassino...
- Foi humano, meu filho. Nem melhor, nem pior do que nenhum de nós aqui. Foi apenas humano e agiu de acordo com o que já estava preparado para entender e fazer.
Não se culpe. Não culpe ninguém. Entenda tudo isso como parte da vida.
- Ismael... O que posso fazer para me modificar?
- Ajudar.
- A quem?
- Em primeiro lugar, a si mesmo. E é o que já está fazendo, desde que aceitou vir para cá e olhar para dentro de si mesmo. - E depois?
- Depois, a seus semelhantes.
- Como poderei fazer isso?
- Quer começar por seu pai?
- Meu pai? Por quê?
- Ele vai passar por duras provas em breve. Não gostaria de estar a seu lado? Não para instigar-lhe o ódio, como vinha fazendo, mas
para recebê-lo com amor.
Adriano fitou-o emocionado.
- Gostaria... Meu pai foi Raffaele, não foi?
- Sim, e sua mãe foi Antônia, que foi a verdadeira mãe de você
e de Fabrício. Não disse que vocês já tinham sido irmãos de sangue? - E Isabela?
- Isabela, sua mãe adotiva naquela vida, voltou como Helga. - Percebendo-lhe o ar de espanto, continuou: -Não se inquiete. A
própria Helga virá conversar com você depois.
- Helga foi minha mãe adotiva? Aquela por quem destruí meu irmão? Mas por que ela não me disse antes?
- Ela tentou. Você é que não quis ouvir, e ela soube respeitálo, ficando à espera de que você se lembrasse de tudo e a entendesse.
Helga o ama muito, mas jamais tentou se impor a você.
Era verdade. Lembrou-se da primeira vez que a vira. Helga chamou-o para partir com ela, disse-lhe que lhe contaria tudo. Mas ele
não quis. Estava com tanta raiva que só o que pôde foi sentir ainda mais raiva dela.
- E os outros?- indagou Adriano.
- Bem, Selena foi Paola, que sempre amou seu irmão, e Cassiano foi Vittorio, seu ambicioso pai.
- E Clarinha foi Nicole, não foi? - Sim.
- E aquele pastor presbiteriano... era o juiz, que Clarinha amava e eu matei!
- Lembre-se de que ninguém atrai para si aquilo que não merece.
- E você, Ismael? E vovó Inês? Onde entram nisso tudo?
- Sua avó não estava encarnada nessa época. Reencarnou depois, como filha de Paola e Gianni, ou Selena e Fabrício.
- Sério? E você?
- Eu? Não imagina?
- Não. Nem desconfio.
- Eu fui Bruno, o verdadeiro pai de Gianni.
- Meu Deus! E verdade! Mas essa história de reencarnação é mesmo o máximo...
- Por falar em Máximo, não se lembra dele?
- O malfeitor? Que sequestrou Gianni e matou Antônia?
- Sim. Você não o conheceu nessa vida, mas ele foi o verdadeiro pai de Fabrício, que morreu na guerra, dias antes de Helga. - Não diga! E onde ele está?
- Gostaria de conhecê-lo?
- E claro que sim.
- Pois marcarei um encontro entre vocês. - Helga estará presente?
- É claro. Ela o ama muito, embora você nunca soubesse disso.
No dia seguinte, Ismael foi buscar Adriano para uma entrevista
com aquela que, um dia, também fora sua mãe. Ao se ver diante dela,
foi como se todo aquele drama lhe aflorasse, e Adriano via e revia a
cena do dia em que Máximo tirara Gianni do berço ao lado da mãe. Mal contendo a emoção, Adriano ajoelhou-se no chão diante
de Helga e, segurando-lhe as mãos, implorava aos prantos:
- Oh, perdoe-me, perdoe-me! Eu não sabia quem era você. Helga, com profundo carinho, alisou seus cabelos e começou a
falar, ainda com sotaque alemão:
- Não se torture, meu menino. Fui eu quem mais errou. Fui eu que insisti para que roubássemos Gianni e fui em quem pagou Máximo para matar sua mãe. Sou eu, Adriano,
quem mais tem de pedir perdão.
- Minha mãe... Pobre Flávia. Como deve ter me odiado. Fui egoísta. Eu vi quando Máximo tirou Gianni do berço. Sabia que ele o estava roubando. E não disse nada.
Fui conivente, não por medo, mas porque pensei que estaria me livrando de meu maior inimigo. Uma criança, um bebê! Como pude pensar que era meu inimigo?
- Mas era. Por isso nasceram irmãos.
- Éramos?
- Nada acontece ao acaso, Adriano. Você e Fabrício renascem juntos há muitas vidas, sempre na esperança de se amarem. - E eu desperdicei tudo...
- Nada no mundo é desperdiçado. Assim como a carne morta volta para o seio da terra, também nossas ações impensadas são reaproveitadas por nós mesmos, em forma de
experiência. Nada no mundo acontece em vão.
Enquanto sentia as mãos de Helga sobre sua cabeça, Adriano foi se acalmando. Em dado momento, ouviu a voz de um homem, também coam forte sotaque alemão, e só então
se deu conta de que havia mais alguém com eles.
- Você é Máximo? - indagou Adriano
- Sim. Nesta vida, fui Werther, marido de Helga e pai de Fabrício. Não sabe quanto me arrependi depois pelo que fiz.
- Quanto nos arrependemos - completou Helga. - Por não podermos suportar nossa culpa foi que escolhemos nascer juntos, como marido e mulher, para termos Fabrício
e o entregarmos a Flávia. Foi a maneira que encontramos de nos perdoarmos.
- O que, realmente, houve com vocês?
Helga inspirou profundamente e, tomando a palavra, começou a contar:
-Nós éramos judeus, e você pode imaginar o que significava para um judeu viver na Alemanha daqueles dias. Com a ascensão do Partido Nazista, muitos judeus foram
presos e encaminhados aos campos de concentração. Naquele dia, Werther e eu estávamos fugindo... Os soldados da SS estavam atrás de nós... - Ela deixou escapar algumas
lágrimas, tomou fôlego e prosseguiu: - Ouvimos falar que Hitler havia invadido a Polônia e decidimos tentar atravessar a fronteira. Queríamos fugir para a Suíça.
Na estação, fomos detidos. Quando nos pararam, vimos que não teríamos saída. A um olhar de Werther, eu saí correndo, em disparada. Ele se colocou diante dos soldados
para nos proteger, a mim e a Fabrício, quando levou um tiro, caindo fulminado, morto na mesma hora. Eu sabia que ele havia morrido e que eu seria a próxima. Mas
precisava salvar meu bebê. Corri o mais que pude, tentando me ocultar entre a multidão que aguardava na gare. Foi quando vi seus pais. Eles estavam um pouco mais
afastados, e corri para eles. Implorei-lhes que salvassem a vida de meu filho. Após alguma hesitação, sua mãe tomou-o de meus braços. Apesar de triste por me separar
dele, fiquei feliz porque ele teria uma chance de sobreviver. Eu não sabia quem eram seus pais nem para onde iriam, mas sabia que meu filho estaria a salvo com eles.
Minutos depois, os soldados me agarraram. Fui detida e levada a um campo de concentração. Dias depois, morria asfixiada na câmara de gás... - Ela levou a mão à garganta.
- Desculpe-me se não entro nesses detalhes. Ainda me é muito dolorosa essa lembrança.
Helga e Werther choravam e, com eles, Adriano também.
- Que coisa triste... - lamentou Adriano. -Nunca pude pensar em seu sofrimento.
- Nem nós - concordou Werther. - Antes de passarmos por isso, não tínhamos noção da dimensão do mal que havíamos feito a Fabrício e, principalmente, a Flávia.
- Mas por que tiveram de ser exterminados?
- Assim como você - respondeu Helga -, nós também ainda não estávamos prontos para aprender senão pelo árduo e espinhoso caminho do sofrimento.
- Nós escolhemos passar por isso para compreender, de uma vez por todas, que a ninguém é dado tirar a vida de seu semelhante, seja por que motivo for. E só assim
pudemos entender todo o sofrimento que causamos a Flávia.
- Sim... - acrescentou Adriano. - Sei bem do que estão falando.
- Mas não tem de ser assim. Nós podemos mudar isso. Podemos até mudar nossas escolhas. Basta que acreditemos em nós mesmos, em nossa capacidade de conduzir e modificar
nosso destino.
- Mas nós ainda não alcançamos essa compreensão, não é mesmo?
- Não. A maioria de nós ainda acredita que é só pelo sofrimento que iremos crescer. Não estou invalidando o sofrimento, porque ele nos ensina mesmo. Mas precisamos
acreditar que podemos aprender de outras formas. O sofrimento não é essencial ao crescimento humano. Pode até ser útil e, às vezes, necessário, porque serve a nossos
propósitos. Mas é dispensável.
Com o coração tocado pelas palavras de Helga, Adriano deixou-se ficar ao lado dela, chorando a dor do arrependimento. Por mais que lhe dissessem, sentia-se culpado
por tudo. Precisava mudar, precisava transformar sua culpa em algo mais produtivo.
Foi quando se lembrou do pai e do que Ismael lhe dissera: que o pai precisaria dele. Ismael, captando-lhe os pensamentos, disse com ternura:
- Venha comigo. Precisamos nos preparar.
Embora não quisesse admitir, Bernardo tinha de reconhecer que a filha fora curada no centro espírita. Ainda não entendera bem o que havia se passado, mas desde que
aquele espírito se manifestou, dizendo ser Adriano, tudo começara a melhorar. Clarinha já não tinha mais aqueles enjôos nem desmaiava. Readquirira a cor saudável
de outrora e retomara o gosto pela vida.
Não tinha como duvidar. Não pretendia freqüentar o lugar com regularidade, mas iria vez por outra. Em agradecimento, fizera generosa doação para as obras de caridade
do centro. Antônio aceitou de bom grado, afirmando-lhe que o dinheiro seria bem empregado em roupas e mantimentos que doavam a famílias carentes.
Além disso, mandara rezar uma missa pela alma de Adriano. Antônio também dissera que qualquer oração, seja de que religião for, ou mesmo de religião alguma, desde
que sincera, é sempre muito útil. E Bernardo estava sendo muito sincero ao demonstrar seu agradecimento. Era sua forma de gratidão. O bem-estar da filha não tinha
preço, e ele considerava até muito pouco tudo que fizera em retribuição.
Bernardo convidou Feliciano para jantar em sua casa com Elisete e Clarinha. No meio da refeição, Bernardo tornou, humilde:
- Acho que lhe devo um pedido de desculpas, Feliciano.
- Ora, o que é isso, Dr. Bernardo? Não foi nada. Sei quanto é difícil para certas pessoas acreditar no mundo dos espíritos.
- Por favor, não me chame mais de doutor. Somos amigos.
- Fico muito feliz que me considere seu amigo.
Bernardo ficou durante alguns instantes refletindo, até que continuou:
- Tive muita pena de Adriano. Se soubesse que era possível para a alma sobreviver ao corpo, teria tentado algo antes para ajudá-lo.
- Tudo tem sua hora, meu caro. Adriano recebeu ajuda no momento em que precisou.
- E libertou nossa Clarinha - acrescentou Elisete.
- Não fale assim, mãe - repreendeu a moça. - Adriano não sabia o que fazia.
- Clarinha tem razão - concordou Feliciano. - Adriano agia mais por ignorância do que por vingança.
- Espero que agora ele esteja bem - disse Clarinha com sinceridade.
- Deve estar. No momento em que se manifestou no centro espírita, era porque já estava disposto a mudar. Ninguém gosta de sofrer.
- E verdade...
Conversaram até altas horas, e Feliciano esclareceu-os sobre muitas coisas relativas à espiritualidade, conquistando o respeito e a admiração de Bernardo e Elisete.
Foi uma noite agradável, como havia muito não tinham, e Bernardo se sentiu reconfortado e confiante. Sua filha era parte de um mundo que sempre lhe parecera cruel,
mas estava aprendendo a reconhecer a beleza da divindade nas pequenas coisas da vida.
Quando Clarinha despertou no dia seguinte e olhou pela janela, o sol já ia alto, e ela se levantou indignada. Olhou o relógio na mesinha: dez para as dez. Dormira
demais. Levantou-se apressada e correu para o banheiro. Escovou os dentes e tomou um banho rápido, vestindo-se às pressas. Não teria tempo nem de se maquiar direito.
Passou apenas um batom nos lábios, apanhou a bolsa e saiu correndo.
- Por que a pressa? - perguntou Elisete, vendo-a passar como um furacão.
- Depois, mãe. Estou atrasada.
- Se vai trabalhar, pode esquecer. Hoje não há expediente. - Não? Como assim?
- Ligaram e avisaram que estão dedetizando a empresa. - Hoje? Mas não me avisaram nada.
- Por isso ligaram. O serviço estava marcado para amanhã, mas teve de ser antecipado para hoje.
Clarinha voltou para a sala e desabou na poltrona.
- Puxa vida! Corri tanto à toa. - Quem manda ser apressada?
- Não faz mal. Vou aproveitar o dia e fazer umas compras. - Posso ir com você?
Clarinha fitou-a em dúvida. Ainda não havia contado à mãe que alugara o apartamento, que já o estava mobiliando e que agora pretendia sair
para comprar alguns utensílios domésticos. Mas era chegada a hora. Ela e o pai tinham de saber.
- Mãe - começou ela cautelosamente -, há algo que gostaria de lhe contar.
- O que é?
- Bem, sabe que estou firme em meu emprego, não sabe? - Sim... - respondeu Elisete, hesitante.
- Não pense que vou acusar você ou papai de alguma coisa, porque não vou. O emprego é meu e eu o mantenho por minha capacidade.
- Sei disso, minha filha. E seu pai também.
- Fico feliz que agora pensem assim. Mas não é só isso. - Não?
- Não. Sabe que gosto de ser independente.
- Você é uma moça muito independente, Clarinha. - Por isso tomei uma decisão... - Vai se casar com Otávio?
- Não. Aluguei um apartamento para mim. Vou morar sozinha. -Como assim, morar sozinha? Pensei que você e Otávio esti
vessem namorando firme.
- E estamos. Só que não quero me casar agora. Quero primeiro experimentar a vida, ser dona de meu nariz. Se me casar, sairei da
dependência de meu pai para a dependência de meu marido. E não
é isso o que quero.
- Mas por quê? Toda mulher precisa se casar. E, depois, você tem seu emprego. Não precisa largá-lo.
- E não vou mesmo. Ainda que casasse, não deixaria o emprego. - Otávio sabe disso?
- Sabe e aprova.
-Se sabe e aprova, então não vejo por que vocês não podem se casar.
- Porque eu não quero, mãe. Não agora.
Elisete considerou durante alguns instantes e retrucou, contrariada:
- Não estou gostando nada dessa história, Clarinha. Trabalhar fora, tudo bem. Mas morar sozinha... Sabe-se lá o que pode acontecer.
- O que está querendo dizer, mãe?
- Quero dizer que você vai acabar se perdendo.
Clarinha soltou uma gargalhada e retrucou bem-humorada: - Mas que coisa mais cafona, mãe. Perder-me...
- É sim, Clarinha. Por mais direita que seja, a ocasião acaba pro
piciando. Você sozinha num apartamento, em companhia de Otá vio... não sei, não.
- Pare com isso, mãe. Deixe de besteiras. - Vai acabar se entregando.
- E daí? O que tem de mais? Você sabe quanto sou liberal. Elisete olhou-a desconfiada:
- Você já... Quero dizer... Vocês já... Você sabe.
- Para falar a verdade, isso não é de sua conta. Mas, se quer mesmo saber, já, sim. Otávio e eu nos amamos, e não vejo por que não
possamos concretizar esse amor.
- Clarinha! - tornou Elisete escandalizada. - O que seu pai vai dizer?
- Por que tem de contar a ele?
- Mas, minha filha, isso não é direito.
- Ouça, mamãe, não foi minha intenção chocá-la, mas foi você quem perguntou. Pare de me ver como uma menininha.
- Sei que você não é mais nenhuma garotinha. Pensando bem, até já passou da idade de se casar.
- Está vendo? Não é o que quero para mim. Casamento é conseqüência natural da vida, não um projeto de vida.
Elisete fitou-a espantada. No fundo, admirava-a imensamente. A filha era uma mulher corajosa e decidida, e jamais deixaria que alguém lhe dissesse o que deveria
fazer. De repente, sentiu imenso orgulho dela. Por que não deveria apoiá-la? Não estava feliz? Não se livrara daquele obsessor que a atormentava e que a deixava
doente? Por que ela não tinha o direito de buscar a felicidade à sua maneira? Elisete apanhou a mão da filha e, com um sorriso nos lábios, arrematou:
- Muito bem. Você pode ser uma moça experiente, mas não entende nada de casa. Deixe-me ajudá-la a escolher pratos, talheres, cortinas...
Clarinha respirou aliviada e sentiu uma enorme felicidade. Precisava do apoio dos pais, principalmente da mãe. Precisava saber que não tinha de abrir mão do amor
dos pais para viver sua vida. Agora sabia. A mãe a amava de qualquer jeito, e isso era o mais importante. Era assim que tinha de ser.
Depois da conversa que tivera com a mãe, Fabrício sentira-se mais aliviado. Desabafar fizera-lhe muito bem. Agora se sentia mais seguro, mais confiante, certo de
que não fora um estorvo na vida de ninguém. Se o pai escolhera rejeitá-lo, só tinha a lamentar. Não fosse sua dificuldade, poderiam ter sido felizes juntos, e ele
talvez tivesse conseguido amenizar um pouco a falta de Adriano em sua vida.
Mudara-se do hotel em que estava morando para a casa da avó. Não fazia sentido ficar escondido se já não havia mais de quem se esconder. Selena e ele, em breve,
estariam
morando juntos. Embora ela fosse desquitada, queria sacramentar a união de alguma maneira, e Inês conseguira que Antônio viesse do centro para lhes dar uma bênção.
Seria uma cerimônia bastante rápida. Antônio diria algumas palavras bonitas e inspiradas, e todos os presentes derramariam sobre os noivos seus votos sinceros de
harmonia e felicidade. Pronto. Não precisavam de mais nada, só das vibrações de amor e alegria.
Selena ajudava Fabrício a arrumar suas roupas no armário quando Inês entrou no quarto.
- Preciso passar em casa para buscar minhas roupas - falou Fabrício. - Tudo que tenho foi o que comprei quando saí. Não trouxe nada de casa.
- Ora, ora - brincou Selena. - já viu isso, Dona Inês? Ele está chateado porque o armário está repleto de roupas novas.
Inês sorriu e disse, ao mesmo tempo em que dobrava uma camisa recém-passada.
- Clarinha está aí embaixo.
- É mesmo? - alegrou-se Selena. - Por que não a mandou subir?
- Está com Otávio. Ele ficou sem jeito.
Selena terminou de pendurar o último terno e acrescentou:
- Muito bem. Então vamos descer.
De mãos dadas com Fabrício, desceu as escadas. Clarinha esta va na sala em animada conversa com Selma e Carlinhos, que lhes mos
travam alguns brinquedos novos que haviam ganhado de Fabrício. - Olá, Clarinha - cumprimentou Selena, beijando-a no rosto. - Olá. Como vai, Fabrício?
- Bem.
Ela ainda não sabia. Ninguém sabia. A verdade sobre o nascimento de Fabrício permanecia em segredo.
- Viemos convidá-los para irem conhecer a casa nova de Clarinha - anunciou Otávio.
- O quê?- impressionou-se Flávia. - Você vai se mudar? Vão se casar?
- Não. Vou me mudar sozinha. Otávio tem a casa dele.
- Que maravilha! - exclamou Selena. - Era o que você sempre quis, não é mesmo?
E, sim. E hoje, graças a Deus, consegui.
E seus pais? - indagou Inês. - Concordaram?
- Que jeito? Mamãe foi mais flexível. Papai relutou um pouco, mas, depois que fui curada no centro espírita, ele passou a aceitar praticamente qualquer coisa.
- Mamãe, posso ir? - interrompeu Selma. - Quero conhecer a casa nova de tia Clarinha.
- E claro que pode, meu bem - respondeu Clarinha animada, dando-lhe um beijo na bochecha. - E você também, Carlinhos. Não precisa fazer essa carinha de choro.
O menino, todo feliz, foi grudar-se à perna de Clarinha, que o ergueu no colo e o beijou.
- Nossa! Como está ficando pesado!
Selena sorriu e estendeu os braços para o filho, que passou ao colo da mãe.
- Vamos, então? - tornou Otávio.
- Só um instante, que vou me trocar - respondeu Selena.
- Sua filha não quis vir?- indagou Inês a Otávio. -Soube que tem uma menina.
- Aninha foi a uma excursão com o colégio.
- Ela é uma criança maravilhosa - completou Clarinha. - Conheci-a outro dia, e nós nos demos muito bem.
- É verdade. Aninha gostou muito de Clarinha. Perdeu a mãe muito cedo. Sente falta dos carinhos maternos.
- Espero ser uma boa mãe para ela.
Pouco depois, Selena reapareceu, e o grupo saiu animado. Todos queriam ver a casa nova de Clarinha. Uma mulher solteira morando sozinha, efetivamente, era algo digno
de nota.
Inês estava sentada à mesa da cozinha, ajudando Bibiana a escolher o feijão para o jantar, quando Flávia se aproximou.
Apesar de tudo esclarecido e de ter o filho de volta, sentia-se infeliz, amargurada.
Notando-lhe o abatimento, Inês terminou de escolher o feijão, entregou a tigela a Bibiana e saiu com a filha para o quintal.
Conduziu-a até seu banco preferido, debaixo de umas roseiras, e sentou-se com ela.
- Então, minha filha - começou ela a dizer -, o que a atormenta tanto?
- Ah, mamãe! - desatou a chorar, abraçada a Inês. - E Paulo, não é? Não consegue esquecê-lo. - Apesar de tudo, ele é meu marido, e eu o amo. -Nada mais natural.
Por que não o procura? -Não posso.
- Podia ao menos atender a seus telefonemas. Ele liga todos os dias.
- Não posso. Ainda não.
- Por quê? Se o ama como diz, por que não pode perdoá-lo? Já não conversamos sobre isso?
- Não sei se consigo perdoá-lo.
- Ora, vamos. Por que ficar sofrendo se seu coração pede que se reconcilie com ele? Está apenas sendo teimosa.
- Acha mesmo isso? - Acho, sim.
-Não sei, mamãe. Não sei se é o momento mais adequado. - Por que não pensa no assunto? Converse com Fabrício.
- Com Fabrício?
- Ele também é interessado. Afinal, Paulo é o pai dele...
Flávia calou-se pensativa. A mãe tinha razão. Por mais que não quisesse, reconhecia que estar separada de Paulo lhe doía muito. Afinal, ele agira conforme suas convicções.
Seria justo cobrar-lhe algo além daquilo que podia dar? E seu sofrimento? Não deveria levar em conta também o que ele estava sentindo?
Quando Fabrício chegou, Flávia foi ter com ele. Precisava partilhar suas dúvidas e anseios.
- Mamãe, entendo quanto deve estar sofrendo. E entendo o sofrimento de papai também.
- Entende?
- Sim. Conversei com vovó e ela me fez ver que não amar não é tão simples assim. Talvez ele esteja sofrendo mais que nós.
- Ah, Fabrício, o que podemos fazer para remediar tudo isso? - Remediar, não sei. Mas podemos ao menos tentar nos entender.
- Acha que seria possível?
- Você mesma disse que papai liga todos os dias. Se é assim, é porque deve estar sentindo sua falta.
- Nós não nos separamos nem uma só vez em mais de trinta anos de casados.
- Pois então? Papai deve estar muito triste.
- E você? Não sei o que ele pensa de tudo isso. Será que está arrependido do que fez?
- Não sei. Teremos de perguntar a ele.
- Tenho medo de que ele o destrate novamente. Talvez o esteja acusando pelo fato de eu o ter abandonado.
- Não vamos nos precipitar. Não é direito querermos imaginar o que ele deve estar pensando ou sentindo. Podemos estar fazendo um julgamento errado.
- Tem razão. Mas essa situação me angustia. Por outro lado, não quero expor você a mais nenhum tipo de constrangimento.
- Deixe isso por minha conta. Sou adulto e sei cuidar de mim. E, depois, não há mais nada que papai possa fazer para me magoar. - Calou-se uns instantes e acrescentou:
- Façamos o seguinte: sexta-feira à noite iremos até em casa. Nós dois.
- Vai voltar para casa?
- Não. Você é que vai.
- Eu?
-Não é isso o que quer?
Ela hesitou. Ele continuou:
- Não precisa ter medo de me magoar, mãe. Sei discernir as coisas. O fato de você amar papai não exclui o amor que sente por mim. E então? Quer ou não quer voltar
para ele?
Flávia, olhos baixos, apertando a bainha da blusa, deixou desabafar num suspiro:
- Quero...
- Pois então? Vamos até lá. Conversaremos com ele. Eu exporei meus sentimentos, você exporá os seus, e ele, os dele. Quem sabe assim não nos entendemos?
Ficou combinado que iriam na sexta-feira à noite, quando Fabrício voltasse do trabalho.
No dia marcado, partiram, Fabrício e Flávia, rumo à sua casa, para terem uma conversa definitiva com Paulo. Conheceriam seus reais sentimentos, saberiam como estava
se sentindo, não apenas com relação a Flávia mas, principalmente, a Fabrício.
Por volta das oito e meia, o carro de Fabrício apontou na garagem do prédio onde moravam, e o porteiro foi abrir o portão. Fabrício desceu com o automóvel, estacionou
em sua vaga e saltou com a mãe, tomando o elevador de serviço.
Do lado de fora, alguém os espreitava. Cassiano, vendo o carro se aproximar, escondera-se atrás da árvore e ficara olhando. Viu quando Fabrício passou com uma mulher
ao lado, mas percebeu que não se tratava de Selena.
- Mais essa agora! - pensou em voz alta. - Só falta essa dona atrapalhar tudo.
O elevador parou no segundo andar e eles desceram. Flávia ainda conservava suas chaves. Ao sair de casa, apanhara mecanicamente o chaveiro e o pusera na bolsa. Colocou
a chave na fechadura e rodou-a, e Paulo, do lado de dentro, teve um sobressalto. Estava na sala, fitando o vazio, quando ouviu o barulho da chave. Seu coração disparou.
Seria Flávia? Só podia ser ela.
Quando a porta se abriu, esforçou-se ao máximo para se controlar e não a tomar nos braços. Apesar de abatida, ela estava mais linda do que nunca. A saudade só fizera
aumentar a admiração que sentia por ela, e Paulo, controlando ao máximo a emoção, aproximouse dela e falou sentido:
- Flávia... Até que enfim...
Ela passou para o lado de dentro e Fabrício veio logo atrás. Ao vê-lo, Paulo sentiu um estremecimento. Não o queria ali. Estava arrependido do que fizera, mas não
se sentia com forças para enfrentá-lo.
- O que veio fazer aqui? - indagou com visível má vontade.
- Se meu filho não pode ficar - respondeu Flávia com rispidez -, então também irei embora.
Ouvindo as palavras da mulher, Paulo recuou. Não estava disposto a fazer nada que pudesse contrariá-la. Saiu do caminho e deu passagem ao filho. Fabrício entrou,
encarou o pai com profunda
emoção e anunciou:
- Vim apenas apanhar minhas roupas.
Foi para o quarto, dando tempo à mãe para que introduzisse o assunto. Ela se sentou no sofá e ficou imaginando o que dizer, mas Paulo se adiantou:
- Veio para ficar, Flávia?
Ela o encarou com ar enigmático, ergueu as mãos e respondeu: - Não sei. Ainda não me decidi.
- Não? E por que veio?
- Vim acompanhar meu filho.
Paulo engoliu em seco e sentou-se a seu lado. De onde estava,
ela podia sentir a emoção que o dominava, mas não disse nada. - O que falta para você se decidir? - tornou ele, confuso. - Não sei. Vai depender de você.
- De mim?
- De seu comportamento com Fabrício.
Ele engoliu em seco novamente e voltou os olhos para o corredor, mas Fabrício ainda estava no quarto. Tornou a olhar para a mulher e prosseguiu:
- Estou sentindo muito sua falta. Por favor, volte para casa. - Não sei se é isso o que quero.
- Mas por quê? Nós nos amamos...
- Será mesmo? Será que você me ama?
- É claro que sim. Como pode duvidar disso?
- Se me amasse mesmo, não teria feito o que fez. Ele baixou os olhos, envergonhado, e balbuciou:
- Perdoe-me... eu... não queria...
- Não queria o quê? Contar a verdade a Fabrício?
- Não queria magoá-la.
- Mas magoou. Você me fez uma promessa e não pôde cumpri-la. Como espera que me sinta? Feliz?
- Não... Gostaria apenas que entendesse.
- Entendesse o quê? Que você não ama seu filho?
- Eu tentei, Flávia, juro que tentei. Mas não consegui. Não consegui amar Fabrício. Deus sabe quanto tentei, mas não pude! Não pude! E será que agora terei de pagar
por um sentimento que meu coração não conseguiu reconhecer como amor? Amor não se impõe. Você sabe disso.
- Todo pai ama seu filho.
- Fabrício não é meu filho!
Ao levantar os olhos úmidos para ela, Paulo viu, por detrás do sofá, a figura esguia de Fabrício, que os olhava emocionado, tentando conter o pranto. Ele apertou
os lábios e desabafou sentido:
- Durante minha vida inteira, perguntei-me o que lhe havia feito para que não me amasse. Hoje entendo que a única coisa que fiz foi entrar em sua vida sem ser convidado.
- Fabrício! - cortou Flávia, indignada. -Não diga isso.
- Não se importe, mãe. Digo isso, não com mágoa, mas para tentar entender. - E, virando-se para o pai: - Por quê, Paulo? Por que não pôde me amar?
Ao ouvir o filho chamá-lo pela primeira vez de Paulo, ao invés de pai, Paulo sentiu um estranho mal-estar. Aquilo o incomodara. Mas por que o incomodara? Se não
o aceitava mesmo como filho, não devia se importar se o rapaz não o chamava de pai. Deveria até gostar. No entanto, não gostara. Sentira-se estranho, como se lhe
faltasse alguma coisa.
A seu lado, Adriano, Helga e Ismael acompanhavam tudo do invisível.
- Por que meu pai se sente assim? - quis saber Adriano.
- Porque sua alma está buscando lá dentro o amor que um dia ele sentiu por Fabrício e que sufocou, ao sentir-se traído por ele - esclareceu Ismael.
- Fabrício... - Paulo nem sabia mesmo o que dizer. - As coisas não são bem assim.
-Não? E como são? Você nunca me amou, Paulo, e agora está tendo a chance de assumir isso.
Novamente aquele Paulo que tanto o incomodou, e ele se remexeu inquieto.
- Por que me chama pelo nome?
- Não é isso que você sempre foi para mim? Paulo? Você nunca quis ser meu pai. Sempre quis ser apenas Paulo. Frio e impessoal.
A dureza de Fabrício mexia com ele, doía dentro dele. Mas não era uma dor de agressão ou de violência. Era a dor de sentir-se descoberto. De ouvir algo que não queria
ouvir, de ter de aceitar seus próprios sentimentos e ressentimentos. Era a dor do remorso.
- Você está sendo muito duro - queixou-se Paulo.
- E você? O que foi comigo quando me contou que não sou seu filho legítimo?
- Pensei que gostasse de conhecera verdade.
- Conhecer a verdade é uma coisa. Ser espancado por ela é outra bem diferente.
Fabrício, não foi minha intenção magoá-lo...
- Ah, não? E qual foi sua intenção? Esclarecer-me? Muita generosidade de sua parte. Podia ter me acertado com um bastão. Teria doído menos.
-Não... Não quis magoá-lo. Quis apenas desabafar...
- Você não desabafou, Paulo. Despejou em cima de mim sua frustração, sua raiva, seu ciúme.
Flávia ouvia tudo sem dizer nada. Encolheu-se no sofá e, sem encarar o marido ou o filho, deixou apenas que as lágrimas escorressem de seu rosto, intimamente pedindo
a Deus que aliviasse e abrisse o coração dos dois.
Com os olhos pregados no chão, Paulo chorava baixinho.
- Você me odeia, não é mesmo? - indagou ele, evitando que seus olhares se cruzassem.
- Odiá-lo? Não, não o odeio. Quem me odeia é você. - Eu não o odeio...
- Mas se foi você mesmo quem disse! Por que agora mudou de idéia? Só para impressionar mamãe?
Não podendo mais se conter, Paulo ergueu-se na frente do filho e, olhos em fogo, foi colocando para fora toda a sua dor-:
- Está bem, Fabrício. E isso o que quer? Pois então lhe direi. Quer saber se o odeio? Sim, odeio-o. Por quê? Nem eu mesmo saberia lhe dizer por quê. Só o que sei
é que não consegui acolhê-lo em meu coração como fora obrigado a acolhê-lo em minha vida. Não pude amá-lo... - disse aos prantos. - Parecia-me que você estava me
roubando o amor de Flávia. Sentia-o como um traidor. Tinha a sensação de que você iria me trair a qualquer momento.
- Como pôde pensar uma coisa dessas? - interrompeu Flávia. - Como uma criança recém-nascida poderia traí-lo de alguma forma?
- Não sei, não sei. Mas era o que sentia. E, quanto mais sentia, mais o desprezava. Quando Adriano nasceu, senti-me traído pela vida. Eu achava que não poderia ser
pai, mas Flávia estava grávida de um filho meu. Só que havia você. Você, que havia chegado antes para roubar a afeição de minha Flávia.
- Isso não é verdade! - indignou-se Flávia. - Amo Fabrício como qualquer mãe ama seu filho, assim como amava Adriano. E amo você como meu marido, meu companheiro,
meu amigo. Por que não pôde sentir o mesmo?
- O coração escolhe caminhos que não podemos controlar, Flávia. Pensa que não fiz o possível e o impossível para amar Fabrício como meu filho? Fiz. Quantas vezes
não disse a mim mesmo que essa coisa de sangue é besteira? Eu mesmo tenho amigos que têm filhos adotados. E fui o primeiro a incentivá-los a adotar. Mas comigo,
não sei... A coisa funcionou de outro jeito.
- Talvez seja porque o amor não está ligado aos laços de sangue nem de família - acrescentou Fabrício. - Está ligado aos laços do coração. Não sei o que fiz a você,
Paulo, mas tenho certeza de que, nesta vida, não cometi nada que pudesse desgostá-lo...
Apesar do desconforto que sentia toda vez que Fabrício proferia aquele Paulo, ele continuou a desabafar:
- Não. Na verdade, Fabrício, você não fez nada. Apenas existiu. Não pude amá-lo, não o queria, mas tinha de aceitá-lo, conviver com você. Foi muito difícil... Quantas
vezes não me culpei? Quantas vezes não chorei em silêncio minha frustração? Ninguém nunca soube e, até agora, ainda não tive coragem de contar nada a ninguém. Nem
a meus pais, nem a meus amigos... a ninguém. Fico
repetindo para mim mesmo que você não tem culpa. Era apenas um bebê. Que culpa teria? Culpa de ter nascido no meio daquela guerra idiota, de ser filho de judeus?
- Nenhuma - respondeu Fabrício. - Não tive culpa nenhuma. Assim como você também não é culpado de não me amar. Nós apenas cumprimos nossos destinos, o destino que
escolhemos para nós mesmos.
- Por que diz isso? - retrucou Paulo surpreso.
Seria impossível descrever a angústia que assolava o coração de Fabrício naquele momento. Uma infinidade de sentimentos se misturava dentro dele: raiva, medo, frustração,
desmerecimento, tristeza... Contudo, de uma coisa estava certo: ele e o pai estavam apenas seguindo o rumo que haviam traçado para si mesmos. Não sabia dizer ou
definir o que seria. Mas sua alma tinha a certeza de que aqueles sentimentos haviam nascido não naquela vida mas em outra, mais remota, da qual não tinha conhecimento
ou lembrança.
Ele suspirou com desgosto e retrucou, tentando conter o turbilhão de emoções que o sacudia:
- Porque temos muitas vidas e, como disse, nesta não fiz nada que pudesse provocar tanto ódio. Contudo, Paulo, se em alguma vida passada eu lhe causei algum mal,
peço-lhe que me perdoe. Do fundo de meu coração, só o que queria era que você pudesse esquecer e me perdoar, porque eu já o perdoei...
Calou-se emocionado. Nem mesmo ele sabia por que dissera aquilo. Mas o fato era que sua alma, inconscientemente conhecendo todos os meandros de seu drama, arrependia-se
sinceramente da traição que cometera, e Fabrício, movido por pura emoção, deixara escapar aquele desabafo.
Flávia chorava de mansinho, e Paulo olhou para ela, como que buscando uma explicação. Não conhecia nada do mundo espiritual e não entendia bem o que estava se passando.
Mas sua alma, assim como a de Fabrício, imediatamente reconheceu o sentimento do filho, porque nele encontrou eco, e sua primeira reação, a mais genuína, foi estreitar
Fabrício em seus braços e pedir-lhe para chamá-lo de pai novamente. Subitamente, sentiu que não o odiava como pensava. Estava apenas ferido, magoado, sentido. Com
o quê? Não sabia. Mas aquelas palavras, ditas de forma tão sincera e amorosa, haviam
no tocado bem no fundo, e toda aquela indefinível sensação de medo e traição, subitamente, desaparecera.
Aquela revelação deixou-o desconcertado. Tocado pelas vibrações de amor e perdão que emanavam de Fabrício, além daquelas que os espíritos amigos trataram de espalhar
pelo ambiente, Paulo quase o abraçou. Chegou a dar dois passos em sua direção, estendendo-lhe a mão, que susteve no ar e fechou, deixando o braço cair ao longo do
corpo.
- Não posso... - gemeu derrotado.
Com indescritível tristeza, Fabrício apanhou a mala que havia deixado no chão e caminhou para a saída do apartamento. Lentamente, rodou a maçaneta, abriu a porta
e partiu, sem olhar para trás.
- Fabrício, volte! -gritou Flávia. -Não vá assim!
Fabrício não lhe deu ouvidos. A passos vagarosos, foi andando pelo corredor e chamou o elevador. Entrou e apertou o botão da garagem. Sabia que a mãe iria atrás
dele, mas não estava disposto a esperá-la. Falhara em sua missão. Não conseguira conquistar o amor do pai.
Depois que a porta do elevador se fechou, Flávia voltou para dentro. Paulo, parado na janela, olhar perdido, olhava para a espuma branca que rolava pela escuridão
do mar.
- Como pôde fazer isso? - perguntou Flávia, mal contendo a raiva. - Como pôde deixar seu filho partir pela segunda vez?
Angustiado, Paulo passou a mão pela testa e começou a se virar para ela, parando a meio e olhando para a rua. O homem, como sempre, lá estava, parado perto da costumeira
árvore. Ele andava de um lado para o outro e, ao levantar o rosto, a luz do poste o atingiu por uns momentos, e, numa fração de segundos, Paulo, finalmente, o reconheceu.
Era o marido daquela Selena... como se chamava mesmo? Não se lembrava, mas isso não tinha a menor importância. Vira-o apenas uma vez, naquele dia, no fórum. Como
pudera esquecer-se de seu rosto? Mas agora tinha certeza. Era ele mesmo. O que estaria fazendo ali?
Subitamente, compreendeu tudo. O homem fora considerado culpado pela separação e devia saber do envolvimento de Fabrício com sua ex-mulher. Estava ali para vigiá-lo.
Para quê? Será que estava pensando em fazer algum mal ao filho?
O filho... Foi só então que se deu conta de que não podia permitir que o destino lhe roubasse o único filho que ainda lhe restava. Por mais que o houvesse rejeitado,
Fabrício era seu filho. Fora registrado com seu nome, herdaria seus bens. Para todos os efeitos, era seu filho, e o instinto de proteção, por mais estranho que pudesse
lhe parecer, falou mais alto dentro dele e, sem dar atenção aos protestos da mulher, saiu correndo porta afora.
Passavam quinze minutos das dez quando ele alcançou a portaria, no mesmo instante em que o carro de Fabrício passava pelo portão da garagem. Fabrício passou, freou
o automóvel e abriu a porta. Àquela hora, não havia mais porteiro, e ele precisava fechar o portão. No mesmo instante, Paulo percebeu que o homem se aproximava e
viu quando ele levou a mão à cintura, apalpando o que deveria ser uma arma.
Desesperado, Paulo começou a correr. Alcançou o filho no momento em que Cassiano se acercava dele, sacando a pistola da cintura e fazendo pontaria. Foi tudo muito
rápido. Paulo só teve tempo de gritar:
- Fabrício!
Sem pensar duas vezes, Paulo introduziu o corpo entre Fabrício e Cassiano no exato instante em que a arma disparava, atingindo-o pelas costas, bem na altura do coração.
A bala perfurou seu pulmão e se alojou no peito, perto do coração, e Fabrício, apavorado, segurou o corpo do pai, que foi tombando, tombando, até cair no chão, envolto
em uma poça de sangue.
Vendo que acertara o homem errado, Cassiano guardou a arma, deu meia volta e saiu correndo, deixando os dois homens abraçados no meio da rua. Alguns transeuntes
que por ali passavam, assustados, se aproximaram e quedaram estarrecidos. Pai e filho, abraçados, trocavam suas últimas palavras.
- Paulo... - balbuciou Fabrício. - Pai...
- Fabrício... - tornou Paulo emocionado. - Meu filho...
Cerrou os olhos, e sua cabeça tombou. Revoltado e coberto de angústia, Fabrício pousou a cabeça de Paulo no chão e correu atrás de Cassiano, que já havia ganhado
uma certa distância dele.
- Pare! - gritava Fabrício. - Segurem esse homem!
Cassiano corria o mais que podia. A rua, àquela hora, já estava meio vazia, mas um carro da polícia vinha fazendo a ronda noturna.
Ao ver Fabrício correndo atrás de Cassiano, os policiais desconfiaram de que alguma coisa havia acontecido. Cercaram-no com a viatura, e ele foi obrigado a parar,
para não ser atropelado. Fabrício chegou pouco depois, dizendo ofegante:
- Esse homem... matou... Matou meu pai...
Imediatamente, os policiais seguraram Cassiano e o colocaram dentro do carro, ao lado de um dos guardas. Fabrício entrou na frente e deu-lhes a direção. Pouco depois,
a patrulha chegou à porta do prédio em que Paulo vivia.
Na calçada, estirado junto ao jaguar vermelho, o corpo de Paulo jazia, o sangue se espalhando ao redor, tendo ao lado Flávia, que, corpo dobrado sobre si mesma,
chorava em silêncio.
Ao despertar na espiritualidade, Paulo não sabia bem o que havia acontecido. Estava ainda confuso, sentindo uma forte dor no peito. Contudo, não foi difícil convencê-lo
de que havia morrido. Ao desencarnar, ainda guardava na memória a cena do filho saltando do carro e daquele malfeitor indo a seu encontro. Lembrava-se do estampido
seco, da dor aguda no peito, do corpo que sentiu desfalecer e cair no chão. A todo instante, ouvia suas últimas palavras, que foram endereçadas a Fabrício:
- Fabrício... Meu filho...
Depois disso, sentiu que perdia a consciência e, quando acordou, já estava no quarto do hospital da colônia, entregue às mãos dos médicos do espaço. Embora achasse
tudo aquilo muito estranho, pois passara a vida acreditando que a morte era o fim, logo se acostumou. Não foi resistente. Ao contrário, aceitou ajuda e pediu para
ser esclarecido.
Ao ver Adriano entrar em seu quarto, trazido pelas mãos do sogro, que nem chegara a conhecer, Paulo não conseguiu conter o pranto. O filho aproximou-se dele e estreitou-o
em seus braços, dizendo com ternura:
- Papai... Seja bem-vindo. Não fique triste. A morte não é o fim.
Paulo olhou-o com profunda emoção e acrescentou:
- Não. Nem é o começo. E a continuidade da vida. Hoje percebo quanto fui injusto, quanto errei...
- Não se culpe, Paulo - objetou Ismael. - A culpa só servirá para mantê-lo preso aos erros do passado. Aceite as coisas como são.
- Mas... Como pude fazer o que fiz a meu próprio filho?
- Se está se referindo a Fabrício, quero que se lembre de que salvou sua vida.
Um sorriso iluminou o rosto de Paulo, que acrescentou:
- Sim. Ao menos isso. Meu filho vive...
- Graças a seu amor - esclareceu Ismael. - Só quem ama é capaz de se sacrificar do jeito como você fez. Não por heroísmo, nem por culpa, nem por dever. Mas por amor.
Pura e simplesmente, por amor.
- Amor? Será?
- Diga-me, Paulo - prosseguiu Ismael. - Como se sente ao saber que deu sua vida em troca da de Fabrício? Aliviado? Leve? Satisfeito?
- Feliz...
- Isso é amor. Só a verdadeira renúncia, aquela que é feita em nome do amor, traz o sentimento da felicidade. Quem se sacrifica por medo ou culpa, por exemplo, pode
sentir alívio e satisfação do dever cumprido. Mas quando se segue o impulso do coração, apenas por acreditar que o que está fazendo é o certo, sem pesos, sem culpas,
sem medos, sem obrigações, está-se agindo em nome do amor genuíno. O sacrifício não é nenhum fardo pesado para se carregar. Ao contrário, torna-se leve e livre de
justificativas ou explicações. Você se sacrificou apenas porque, para você, era o mais certo a fazer naquele momento. Isso é muito importante. Quando fazemos um
sacrifício por alguém, precisamos fazer porque é naquilo que acreditamos, não porque o outro ficará bem ou contente, mas porque nós é que nos sentiremos gratificados
e felizes com nossa atitude. Aí, então, saberemos que fizemos por nós mesmos e que o bem-estar do próximo foi mera conseqüência.
Paulo chorava de mansinho. Agarrado a Adriano, desabafou: - Ah, meu Deus! Como fui tolo! Por que joguei fora a chance
de ser feliz ao lado de meu filho, do único filho que me restou? - Não tem agora seu outro filho de volta? Paulo olhou-o confuso e balbuciou:
- Sim... Mas é diferente... Adriano está bem, não precisa de mim... Mas Fabrício... Fabrício foi rejeitado.
- Pois saiba que Adriano precisa muito mais de você do que Fabrício.
Ante o olhar atônito de Paulo, Adriano aquiesceu:
- É verdade, pai. Fabrício compreende muito mais as coisas do que eu. Pode-se dizer que somente agora estou começando a entender e aceitar. Estou engatinhando; ele
já caminha com as próprias pernas.
Durante muito tempo, Paulo permaneceu na colônia, estudando, orando, perdido em palestras elucidativas e edificantes. Rememorou o passado, entristeceu-se com ele,
mas acabou aceitando e entendendo o que acontecera. Encontrou Helga e Werther, e foi só então que ficou conhecendo toda a história de Fabrício, desta vida e de outra.
- Mas por que Fabrício teve de ser adotado? - perguntou ele a Ismael. - O que ele fez para sofrer a dor da rejeição? Que eu saiba, ele nunca rejeitou ninguém.
- Apesar de amar Selena, Fabrício não conseguiu vencer a culpa por havê-lo traído. Para ele, rejeitou o amor daquele que o acolhera como filho, e isso vivia a atormentá-lo.
Mesmo após deixar sua casa, naquela vida, não conseguiu se perdoar e jamais pôde ser feliz com Selena, ou Paola, porque achava que a havia tomado de você. Em seu
coração, sentia-se ingrato e pérfido, acreditando não ter valorizado o amor e a oportunidade que você lhe tinha dado, salvando-o da orfandade e da miséria.
Aos poucos, Paulo foi compreendendo tudo. De tempos em tempos, pedia notícias a Ismael. Foi assim que ficou sabendo que Cassiano fora preso em flagrante e aguardava
julgamento na cadeia. Seu irmão, Aníbal, embora não pudesse ser acusado de nenhum crime, com medo de ser perseguido e preso, fugiu para o norte e nunca mais deu
notícias.
Clarinha vivia sozinha em seu apartamento e se dava muito bem com Otávio, homem culto, inteligente e bastante avançado para seu tempo.
Flávia, por sua vez, alugara seu apartamento em Copacabana e se mudara para a casa da mãe. Não queria mais viver no lugar em que fora feliz durante quase toda a
sua vida e que, ao mesmo tempo, fora palco de tão tristes acontecimentos: a morte do filho e do marido, a tristeza de Fabrício. Voltaria a viver com a mãe, na casa
que representara toda a sua alegria de infância. Ela e Inês se davam muito bem e estavam felizes com a companhia uma da outra.
- E Fabrício? - perguntou Paulo certa vez. -Não quer descobrir pessoalmente?
Embora indeciso, Paulo acabou concordando. No dia seguinte, em companhia de Ismael e Adriano, foi visitar Fabrício em sua nova casa.
Logo que chegaram, sentiram um agradável aroma de flores invadindo toda a casa, e uma melodia suave, como de uma caixinha de música, partia de um quarto no fim
do corredor.
Em silêncio, os três se encaminharam para lá. Entraram vagarosamente. Sentada numa cadeira de balanço, Selena embalava uma criança pequenina, e Fabrício, a seu lado,
estendia sobre o berço uma roupinha branca, toda bordada.
- É esta? - indagou baixinho, para não acordar o bebê. Selena aquiesceu sorrindo e voltou a atenção para a criança, que dormia placidamente em seu colo.
- Mamãe- disse Selma, já com seus sete ou oito anos. - Vovó Inês telefonou dizendo para você não se esquecer de levar a manta branca que ela tricotou. Disse que
está fazendo muito frio.
Selena aquiesceu novamente, e Selma saiu correndo com uma boneca na mão. Em silêncio, Selena se levantou e, cuidadosamente, pôs-se a vestir a criança. De onde estava,
Paulo acompanhava tudo. Viu quando ela trocou suas fraldas e notou que era um menino.
- E meu neto? - indagou a Ismael.
- E, sim.
Ele voltou a atenção para o neto. Selena acabou de trocá-lo, vestiu-o com a roupinha branca, apanhou a manta na gaveta e enrolouo nela.
- Tudo pronto? - perguntou Fabrício.
- Tudo.
- Então vamos.
Ele saiu na frente e foi chamar as crianças. Selma apareceu novamente, e Fabrício, com um sorriso amoroso, afagou sua cabecinha e elogiou:
- Você está muito linda! Parece uma princesa.
- Obrigada, papai - respondeu ela, puxando-o para baixo e beijando-o no rosto.
Paulo voltou os olhos para Ismael e Adriano, e um grito chamou sua atenção:
- Papai, papai! - era Carlinhos que vinha correndo, trazendo nas mãos um carrinho sem rodas. - Quebrou...
- Não faz mal - consolou Fabrício. - Quando voltarmos, papai conserta. Agora vamos.
Gentilmente, retirou o carrinho das mãos do menino e colocou-o sobre o móvel da sala. Abriu a porta da rua, dando passagem a
Selena e às crianças, e foram apanhar o carro. Fabrício e Selena moravam numa bonita casa, com quintal, jardim e até um pequeno
pomar. Queriam que os filhos crescessem em liberdade, e um apartamento seria muito pequeno para comportar três crianças alegres e saudáveis.
Enquanto eles entravam no carro, Paulo questionou: - Fabrício adotou os filhos de Selena?
- Sim. Cassiano renunciou ao pátrio poder para que Fabrício pudesse adotá-los.
- Por quê? Por que alguém faria uma coisa dessas?
- Para fugir a suas responsabilidades de pai. Sorte a de Fabrício. Ele ama os filhos de Cassiano como se fossem seus. E o são. Em seu
coração, são mesmo seus filhos, assim como o foram em outra vida, juntamente com Inês.
- Não diga! - fez Paulo abismado. - Por isso se afinam tanto! - Para você ver como nada acontece ao acaso. Emocionado, Paulo tentava conter as lágrimas e desabafou:
- Foi muito bonita essa atitude de Fabrício.
- Sim. É a beleza do amor. Fabrício ama os três igualmente, embora os dois primeiros não sejam seus filhos de verdade.
Paulo baixou a cabeça envergonhado e murmurou: - Exatamente o que eu não soube fazer.
- Não se culpe, Paulo. Sinta-se feliz em ver que sua experiência serviu para que seu filho não a repetisse.
- E verdade, pai - acrescentou Adriano. - E pode estar certo de que aqueles três se amarão como verdadeiros irmãos, assim como
Fabrício e eu deveríamos ter nos amado.
Chegaram à igreja. A família toda lá estava reunida. Os pais de Paulo, sua irmã e o marido, Flávia e a mãe, Feliciano e tantos outros.
Clarinha e Otávio, parados no altar, esperavam que Selena lhes entregasse a criança. Seriam os padrinhos.
- Meus pais já sabem? - perguntou Paulo, de repente.
- Que Fabrício não é neto deles de verdade? - ele assentiu. - Sabem. - E...?
- E nada. Ficaram surpresos e confusos, mas aceitaram com naturalidade. Amam Fabrício como seu neto e nada irá mudar isso.
Paulo novamente calou-se emocionado. Somente ele e Adriano não conseguiram entender.
- Nós conseguimos entender-respondeu Adriano, lendo-lhe os pensamentos. - Só que custamos um pouco mais. Cada um tem seu tempo.
Flávia estava sentada logo na primeira fila, e Paulo aproximou-se. Durante alguns segundos, ficou estudando seu rosto. Era o semblante de uma mulher madura e sofrida,
porém havia nele uma luminosidade diferente, fruto da serenidade que encontrara. Ele seguiu a direção do olhar dela e viu que pousava sobre o neto. Flávia estava
radiante com a criança.
Não conseguindo conter a emoção, Paulo beijou-a suavemente na face, e Flávia levou a mão ao rosto, como se tivesse sentido a doçura daquele beijo. Sorriu para si
mesma e pensou no marido e em Adriano, e sentiu imensa saudade de ambos. Como gostaria que estivessem ali, participando daquele momento de alegria!
Paulo beijou-a novamente e sussurrou em seu ouvido:
- Eu a amo, Flávia. E a Fabrício também...
A voz do padre se fez ouvir, e todos voltaram sua atenção para ele.
- Meus filhos, estamos hoje aqui reunidos para celebrar a cerimônia de batismo deste filho... - E, no ouvido de Clarinha: - Qual o nome da criança?
Clarinha olhou para o menino e sorriu. Em seguida, ergueu os olhos para o altar, onde a imagem de Jesus os fitava com amor, e respondeu emocionada:
- Paulo... Paulo Adriano.
Paulo olhou para Adriano com espanto e percebeu, pelo brilho de seu olhar, que ele já sabia de tudo. Ele estendeu a mão para o pai e, com voz que a emoção embargava,
convidou:
- Venha, pai. Venha ver de perto seu neto. Meu sobrinho...
De mãos dadas, caminharam até o altar, onde Paulo Adriano esperneava, cabecinha erguida sobre a pia batismal. Viram quando o menino abriu os olhos, assustado com
a friagem da água que lhe batia em cheio na testa e, diante daqueles cristalinos olhos azuis, ouviram emocionados as palavras do padre:
- Eu o batizo, Paulo Adriano...
Mãos estendidas sobre o pequeno, elevaram seus pensamentos a Deus, derramando sobre ele todo o amor que, agora sabiam, nunca deixara de existir.

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