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Alergia alimentar
O ranking dos alergênicos traz oito alimentos que mais oferecem risco e, alguns deles, como leite, ovos e trigo, fazem parte de nossa dieta praticamente desde o berço. Entenda como esse problema surge e nos leva a fazer uma reviravolta no cardápio
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A comida que levamos à boca é o reflexo de nossa saúde. Se for nutritiva, mantém o organismo em ordem, sem pane. Mas em alguns casos não é isso o que acontece. Um fator genético, aliado à exposição precoce de alguns alimentos - por exemplo, o leite de vaca nos primeiros seis meses de vida - pode desencadear a alergia alimentar. Por isso, o aparecimento é mais comum na infância, mas pode se manifestar também na fase adulta. "Estima-se que as alergias alimentares acometam cerca de 4% da população geral, 6% em crianças menores de 3 anos e variando de 1,4% a 4% em adultos", explica a alergista Lucila Camargo de Oliveira, da Clínica de Alergia São Paulo.
Após o término do período de aleitamento materno, a manicure Vivian Medeiros Silva Luiz começou a perceber que seu filho Felipe, então com pouco mais de 1 ano de idade, tinha alguns episódios de diarreia. O problema se agravou quando o menino fez 2 anos. A frequência da diarreia aumentou e, somado a isso, vieram fortes dores abdominais e eventuais crises de vômito. "Eu levava meu filho ao médico, mas ele dizia que a dor era causada por gases. Nessa época, ninguém suspeitava do leite", afirma a manicure.
Cerca de 70% dos pacientes com o problema têm histórico familiar de algum tipo de alergia
Há cerca de nove meses, em uma dessas crises, Felipe, hoje com 4 anos, teve uma convulsão e no hospital foi diagnosticada esofagite eosinofílica alérgica, uma das consequências que a alergia ao leite de vaca pode causar. "A orientação da médica foi cortar totalmente o leite da alimentação dele", explica.
Culpa da genética
Na maioria das vezes, os alimentos são consumidos normalmente, sem que haja uma reação a eles, mas, em algumas pessoas, os mecanismos de defesa do corpo não funcionam adequadamente. Os processos alérgicos são desencadeados porque há uma reação exagerada do sistema imunológico contra uma proteína do alimento. "Para isso acontecer, deve haver uma predisposição individual que tem caráter genético", afirma a médica pediatra Fabíola Suano, especializada em nutrologia pediátrica e diretora científica do Centro de Estudos do Instituto Girassol, em São Paulo.
Cerca de 70% dos pacientes com alergia alimentar têm histórico familiar de algum tipo de alergia. "Uma pessoa que tem na família casos de dermatite atópica, rinite, asma, ou até mesmo alergia alimentar, tem mais chance de desenvolver essa reação aos alimentos", constata a nutricionista Glauce Hiromi Yonamine, das Unidades de Alergia, Imunologia e Gastroenterologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (ICr-HCFMUSP).
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| Qualquer alimento que tenha proteína, como no caso do leite e derivados, pode causar reação alérgica |
Atenção... preparar, atacar!
Imagine que no corpo existem diversos soldadinhos (os anticorpos), responsáveis por protegê-lo. Eles literalmente fazem a segurança do organismo e analisam todos que querem entrar nele. Somente aqueles que nos fazem bem, ou seja, as substâncias benéficas têm passe livre. É claro que durante esse processo de triagem, sempre há um espertinho que consegue se infiltrar, mas os anticorpos identificam o malfeitor e vão atrás para eliminá-lo.
Acontece que no caso das proteínas dos alimentos, há uma grande confusão. É como se elas, que têm a nobre intenção de levar benefícios ao corpo, quisessem passar pelos anticorpos sem seu crachá de identificação. Desta forma, os soldadinhos a confundem com invasores, vão atrás delas e as eliminam. Em uma próxima refeição que tenha esse alimento, as proteínas, cheias de boas intenções, tentam novamente atravessar a barreira de segurança. Aí não tem jeito, os anticorpos entendem que estão sendo confrontados e começam a atacar as proteínas, causando uma resposta inflamatória e formando a alergia, que se manifesta de diversas formas.
Os mais alérgicos
De forma geral, o organismo pode desenvolver alergia a qualquer alimento, porém, há uma lista dos oito que mais causam esse tipo de problema. São eles: leite, ovo, soja, trigo, crustáceos, amendoim, peixes e castanhas. Eles são responsáveis por cerca de 90% das reações.
"Qualquer alimento que tenha proteína pode causar reação, mas estes são os mais comuns por estarem presentes com frequência em nossa dieta, desde muito cedo", explica a nutricionista Vanessa Ramos Alves Penterich, do Ambulatório de Alergia Alimentar e Dermatite Atópica do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Outro fator é que essas proteínas têm características que as tornam mais suscetíveis a provocar alergias, como seu tamanho, resistência ao cozimento e à digestão.
Apareceu de repente
Em alguns casos, pode acontecer de a pessoa ter ingerido o alimento durante anos e, de uma hora para outra, apresentar alergia alimentar a ele. Geralmente, isso acontece com peixes e crustáceos. O bancário Thiago Bacic Lestingi, de 27 anos, é um exemplo disso. Acostumado a ingerir frutos do mar, ele estava na praia e resolveu degustar o alimento como frequentemente fazia. "Comi uns três espetinhos daquele camarão pequeno e de repente comecei a passar mal. Minha pele encheu de bolinhas e depois de um tempo senti dificuldade para respirar", conta.
No hospital, após ser socorrido, o médico explicou que se tratava de uma reação alérgica e que o ideal seria que o alimento não fosse mais ingerido. "A alergia só vai ocorrer depois de alguns contatos com o alimento, para que ocorra a produção de anticorpos, assim, embora não seja comum, pode ocorrer em qualquer fase da vida" atesta a nutricionista Vanessa Ramos Alves Penterich.
Reconheça os sinais
Não existem sintomas particulares para cada um desses oito alimentos, e as reações podem ser gastrointestinais, respiratórias, sistêmicas ou cutâneas. Entre as principais manifestações estão o vômito, a diarreia, urticária, edema, dermatite atópica, gastrite, esofagite eosinofílica alérgica, asma persistente e choque anafilático. "O que determina os sintomas da alergia é o sistema imunológico envolvido, e não o tipo de alimento ingerido", explica a nutricionista Raquel Mendonça, do Ambulatório de Alergia Alimentar da Unifesp/Escola Paulista de Medicina.
Vilões disfarçados
A leitura dos rótulos e da composição nutricional do produto é fundamental para evitar a ingestão acidental da proteína alergênica. Muitas vezes, os ingredientes ganham sinônimos. Veja a lista abaixo:
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Fique alerta!
A alergia é algo que acontece em indivíduos geneticamente predispostos. Nem toda reação a alimentos pode ser considerada alergia. Entenda melhor:
- No caso das crianças é fundamental o acompanhamento periódico do pediatra nos primeiros anos de vida.
- Caso desconfie de alergia alimentar com reações tardias, procure um gastroenterologista pediatra.
- Tente descobrir se há histórico de doenças alérgicas e alergias alimentares na família.
- Repare se as reações se repetem após contato com determinado alimento.
- Se houver sintomas que ocorram até duas horas apos à ingestão do alimento, tais como asma, rinite, sintomas cutâneos e gastrointestinais, procure um alergista.
- Reações mais graves podem iniciar com coceira do palato (céu da boca), inchaço de alguma parte do corpo, como orelhas, lábios, manchas na pele, rouquidão e falta de ar.
Fontes: Lucila Camargo de Oliveira, alergista da Clínica de Alergia São Paulo; Raquel Mendonça, nutricionista do Ambulatório de Alergia Alimentar da Unifesp vinculada à Unifesp; e Vanessa Ramos Alves Penterich, nutricionista da equipe do Ambulatório de Alergia Alimentar e Dermatite Atópica do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.




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