Ultima oportunidade
Rebecca Winters
Quem lhe ia dizer que acabaria casando-se com seu chefe... e tendo um filho com ele?
Andrea estava a ponto de perder sua última oportunidade para ser mãe... por isso ficou tão surpreendida quando seu muito bonito chefe, o empresário Gabe Corbin,
propô-lhe que se casasse com ele, e assim a ajudaria a ter um filho. Tinham seis meses por diante para conceber um bebê... e nesse plano Gabe tinha previsto lhe
demonstrar a Andrea que seus votos matrimoniais eram muito, muito sérios.
CAPÍTULO 1
- Perdeste a razão! -murmurou Saul Karsh, antes de acender seu delicioso charuto.
-Nunca estive mais certo em minha vida -replicou Gabe Corbin, sentado frente a Saul no Clube Macanudo, em Manhattan-. Além de Sam Poon, que já está atuando
como diretor executivo da companhia, é a primeira pessoa a quem ofereço a empresa. Tem cinco dias para pensá-lo antes de que a ofereça à concorrencia.
- A que vem tanta pressa? Só tem trinta e seis anos.
-Muito velho para minhas circunstâncias.
-Se vender uma empresa em pleno auge e valendo em um trilhão de dólares é que devem ser razões pessoais -comentou Saul e logo o olhou alarmado-. Não estás
morrendo, verdade?
- Por causa de uma enfermidade? Não -respondeu Gabe enquanto tomava o resto de sua taça-. Se quer ver os livros envia a sua gente amanhã. Phil Rosen é meu
chefe de contabilidade. Te mostrará tudo. Tenta tomar uma decisão antes de segunda-feira. Porque senão já terei partido e terá que tratar com Sam.
Saul, diretor executivo da empresa Karsh Technologies Inc., dedicava-se ao comércio de sofisticados computadores desenhados para investigação médica e programas
espaciais. A aquisição da empresa informática Corbin PC lhe abriria novos campos que fazia tempo desejava entrar.
Saul era um executivo duro e agressivo, mas Gabe conhecia sua reputação de honradez nos negócios. Confiava que Saul seria um bom diretor e trataria bem aos
empregados.
Olharam-se reciprocamente.
-Stan Abrams e sua equipe irão dar uma olhada amanhã às nove -murmurou, finalmente.
Eram as palavras que Gabe esperava ouvir.
-Excelente -disse enquanto deixava uma nota de vinte dólares na mesa e se levantava-. Foi um prazer voltar a ver-te, Saul. Espero que façamos um bom negócio
juntos -disse enquanto lhe apertava a mão.
-Gabe, está absolutamente seguro de saber o que faz?
A preocupação de Saul terminou de convencer-lo de ter escolhido o homem adequado.
-Sei o que faço -disse antes de partir.
-Benny, voltamos para o escritório -anunciou quando havia entrado na limusine que o esperava diante do Clube.
-Sim, senhor -respondeu o chofer.
Ficava muito trabalho por fazer. Chamou Phil e o Sam através do telefone móvel e lhes pediu que fossem ao escritório logo que acabassem de jantar.
Não era tão simples desprender-se dos negócios internacionais, atividade em que Gabe se empenhou durante longos anos. Mas, graças a Deus, no dia seguinte poderia
ver a luz no final do túnel.
Enquanto esperava o elevador no vestíbulo do edifício, Bret Weyland, seu chefe de vendas para os Estados Unidos, saiu de outro elevador. Excepcionalmente,
Andrea Bauer não ia com ele. Feito surpreendente, considerando que Bret lhe tinha contado que fazia três ou quatro meses vivia com a atrativa engenheiro chefe de
programação. Gabe raramente via Andrea a sós porque Bret sempre estava junto a ela em atitude possessiva.
Gabe o saudou com um movimento de cabeça.
- Onde está sua outra metade?
-Preparando o jantar em nosso apartamento.
A visão dos dois juntos, fazendo de tudo além de comer, perturbou-o mais do que o normal.
-Tem sorte.
-Tem razão -disse Bret com um rápido sorriso antes de que se fechassem as portas do elevador.
Gabe teria desejado apagar essa expressão presumida do rosto daquele homem mais jovem que ele.
Às nove e meia, Andrea entrou apressadamente no escritório de seu chefe.
-Olá, Andrea. No que posso te ajudar? -perguntou a secretária ao vê-la chegar.
- Está o senhor Corbin?
-Sim. Quando cheguei já se encontrava aqui.
-Muito bem. Preciso falar com ele imediatamente.
-Um minuto, verei se está livre.
-Agradeço-lhe isso.
Depois da consulta com seu ginecologista na tarde anterior, Andrea sabia o que tinha que fazer. Não tinha sentido adiar o inevitável por mais tempo.
-Disse para que entre.
-Obrigado, Karen.
Andrea entrou rapidamente no despacho.
-Por favor, me perdoe por entrar desta maneira.
O olhar penetrante de Gabe a abrangeu por completo.
- Desde quando tem que te desculpar por falar comigo? Parece contrariada. Sente-se e me conte o que acontece.
Falou-lhe com tal amável confiança que ela concordou.
-Ontem estive com meu médico e parece que a endometriose volta a se apresentar, assim...
- O que é isso?
-Endometriose -repetiu Andrea. Desgostava-lhe revelar algo tão pessoal, mas não havia modo de evitá-lo-. É uma enfermidade que se converteu na praga da mulher
moderna. Tem que ver com o estresse.
O chefe se inclinou para frente em sua cadeira giratória ao tempo que a olhava com seriedade.
- Essa é a razão que te levou a pedir três permissões desde que trabalha para mim?
Então tinha se informado sobre suas ausências? Que vergonha! Entretanto, tratava-a com tanta amabilidade que de repente se encontrou lhe contando os detalhes
da enfermidade.
-Trata-se disso. Para falar com precisão, fizeram-me seis laparoscopias. A primeira quando estava no instituto, e a segunda na universidade. A terceira foi
quando trabalhava para Stover Electronics. Isso aconteceu antes de solicitar o posto em sua companhia.
Não teria desejado nem a sua pior inimiga o sofrimento físico e emocional que lhe ocasionava sua doença.
O olhar inteligente de Gabe brilhava de compaixão.
-Sinto muito, Andrea. Não tinha idéia. E como se cura?
-Com uma histerectomia. Decidi fazê-la o quanto antes possível. Por isso estou aqui. Para falar de mim saída.
- Só tem vinte e oito anos! -Exclamou desviando-se do tema principal-. És muito jovem.
Parecia sinceramente preocupado e Andrea teve que esforçar-se para não romper em pranto.
-Não em minha situação. Acontece às mulheres em idade de fecundação. Estive lutando contra esta doença desde os dezesseteanos, mas já é suficiente. O médico
disse que deveria tomar um descanso de seis semanas antes de voltar para o trabalho. Dou-me conta de que é muito tempo, mas sei que Darrell não te defraudará. É
um gênio.
O chefe fez uma careta.
- Não se pode fazer outra coisa para evitar que perca a possibilidade de conceber alguma vez?
-Sim, ficar grávida antes de que isto se torne pior, mas para mim não é uma opção-murmurou a contra gosto.
- Por que não?
Andrea teve que admitir que lhe desgostava esse interrogatório tão pessoal quando tudo o que pedia era uma saída para submeter-se à operação.
Fazia seis meses que tinha conseguido um posto na empresa informática Corbin PC graças a seu título como engenheira informática e a seu trabalho para a firma
de Stover. Durante os últimos quatro meses tinha trabalhado como engenheira chefe de programação, trabalho que em parte compartilhava diariamente com Gabe.
Mesmo assim, a relação entre eles era profissional no sentido de que ele nunca se intrometeu em sua vida pessoal, e ela quase não sabia nada da dele.
Mas Andrea não deveria haver-se esquecido de sua forte personalidade nem de sua genuína curiosidade pela vida. Essas faculdades o tinham levado ao topo de
uma carreira que inclusive maravilhava aos profissionais do mundo das altas finanças.
-Bom...
-Isto deve ser muito difícil para ti. Pode ter filhos? -insistiu.
Ela se estremeceu. A incapacidade de conceber um filho era outro de seus temores. Talvez algo não funcionava em seu sistema reprodutor, e seus óvulos poderiam
não ser bons. Desgraçadamente nunca teria a oportunidade de descobri-lo.
-Não tenho idéia -respondeu, finalmente-. Nunca estive casada.
-Mas entendo que Bret e você...
-Os rumores que correm pelo escritório são falsos -replicou, cortante.
Que estúpida tinha sido em relacionar-se com Bret Weyland. Como chefe de vendas para os Estados Unidos, também passava muito tempo trabalhando com Gabe. Essa
era a única razão pela qual tinha saído com ele; para provar a si mesmo que Gabe não significava nada para ela. Desgraçadamente, tudo tinha saído mal e tinha prejudicado
a Bret.
-É estranho -Andrea voltou a ouvir a voz de Gabe-, Bret disse justamente o contrário quando ontem à noite nos encontramos no vestíbulo.
-Mentiu. Faz um mês que rompi com ele! -replicou zangada.
-Ele é um de meus colaboradores mais importantes. Por que teria que inventar algo semelhante?-insistiu o chefe.
Ela jogou a cabeça para trás e a juba loira se pulverizou sobre os ombros.
- Não é o que faz todo mundo quando se sente ferido? Olhe, se por acaso te interessa, nunca dormi nem convivido com um homem -replicou. Os olhos cinzas de
Gabe se entreabriram, incrédulos. Suas pestanas eram tão negras como o cabelo cacheado. Com esse nariz orgulhoso e esse queixo, que sempre necessitava um de barbeador,
seguro que uma generosa porção de sangue europeu meridional corria por suas veias-. Não sei o que te causa tanta surpresa-observou Andrea ao ver que ele não dizia
nada-. Há muitas mulheres que primeiro desejam um anel de casamento. Em minha situação me preservei para o matrimônio em meu próprio prejuízo -manifestou com um
ligeiro tremor na voz e o olhar baixo. Era o momento de expressar o que precisava dizer e sair dali antes de estalar em soluços-. Na próxima semana meu médico tem
umas horas disponíveis para fazer a operação. Trabalharei com Darrell hoje e amanhã para prepará-lo. Em seis semanas descobrirá que é a pessoa perfeita para me substituir.
O olhar de Gabe, como um raio laser, bem poderia havê-la deixado cravada na parede.
- A que vem isto, Andrea?
"Faço-o por sua causa", pensou ela.
-Uma vez te contei que meus pais têm uma loja de presentes em Scarsdale. Sempre quiseram que me incorpore ao negócio familiar. Disse-lhes que o faria quando
fosse oportuno. Acredito que esse dia chegou já que se fazem idosos e se cansam com muita facilidade.
-Ao diabo com isso -Gabe mordeu as palavras com desacostumada violência, embora não elevou a voz-. Vieste a me pedir uma saída por enfermidade e termina me
dizendo que parte. Antes de que isso aconteça, despedirei-me de Bret.
- Não, não deve fazê-lo! -os olhos azuis o olharam implorantes-. A verdade é que o deixei quando me pediu que fosse viver com ele. Não estou apaixonada pelo
Bret. Tentou salvar a cara frente a ti e os demais. Não pode esgrimir isso em seu contrário.
Um estranho olhar corrigiu a expressão dos robustos trasços de Gabe, um olhar que ela não pôde interpretar. Gabe se reclinou na cadeira ao tempo que escrutinava
seu rosto de maneira perturbadora.
-Não o farei.
-Obrigado -murmurou, aliviada.
-De nada. Tenho que dizer que sua preocupação por ele é admirável. É uma lástima que muitos outros careçam de seu sentido de decência.
Ela inclinou a cabeça.
-Não achas que sou uma Santa. Devia ter pensado melhor antes de me implicar com um colega. É uma maneira de ir de cabeça ao desastre.
Andrea estava tão apaixonada por Gabe que nunca se deu conta da intensidade dos sentimentos de Bret. Não, até que o dano estava feito. Mas nenhum homem podia
competir com o que tinha frente a ela. Sua brilhante inteligência e seus trasços viris lhe impediam de prestar atenção a outro homem.
Apesar de que ela o tivesse negado com veemência, Bret se tinha informado que estava apaixonada por seu chefe. Mesmo assim, não tinha idéia de que seu ciúmes
o tivessem empurrado a dizer a Gabe algo que não era certo.
A situação se tomou insustentável.
-Já que vou me restabelecer na casa de meus pais, acredito que é a melhor oportunidade para renunciar -disse depois de respirar fundo-. Darrell poderá me fazer
consultas telefônicas durante meu período de repouso. Sua empresa não notará a mudança.
- Consideraste a outra opção?
A pergunta foi um desafio a sua paciência.
-Não me atrai absolutamente a fertilização in vitro de um doador desconhecido, se se refere a isso. Um menino merece crescer junto a seus dois pais.
-Não poderia estar mais de acordo. Se o que realmente deseja é te operar em seguida, está claro que não lhe posso impedir isso.
O médico lhe tinha dado seis meses no máximo e em seguida teria que submeter-se à intervenção cirúrgica. Ainda que então sofreria uma dor física intolerável.
A decisão de fazê-lo em seguida era horrível. Entretanto, se se operava quanto antes, poderia enfrentar-se à prova iminente em bom estado físico.
-Me... me alegro de que o compreenda -balbuciou com tristeza ao comprovar que seu chefe não insistia em que ficasse.
- Encontra-te bem neste momento?
-Sim.
-Então voaremos a Paris esta mesma manhã em lugar de fazê-lo na próxima semana, como estava estipulado. Eu gostaria que Emile e sua equipe trabalhassem com
minha engenheira perita antes de que não possamos contar contigo -explicou enquanto ela lutava com seus torturados pensamentos.
Paris? Era a primeira vez que ouvia falar dessa viagem.
Desde sua promoção na empresa tinham ido ao Rio e a Singapura em viagem de negócios, mas nunca a Europa, o lugar que sempre tinha desejado visitar em sua lua
de mel. Era outro sonho impossível, como o de dar a luz um filho de Gabe.
-Estaremos ali no fim de semana -acrescentou-. Quanto demorará para te preparar para ir ao aeroporto?
Sua última viagem com ele... Não podia suportar aquele pensamento.
-Meia hora.
-Benny te levará a seu apartamento e em seguida ao aeroporto. Verei-te no avião. Não esqueça o passaporte -disse. Em seguida pegou o telefone para dar instruções
a seu chofer.
Andrea partiu do escritório com a sensação de que começava a despertar depois de um forte golpe.
A sede da empresa Corbin PC ocupava os andares vinte e nove e trinta do edifício Saxbeen, no centro de Manhattan.
Um elevador que baixava abriu as portas e Bret saiu em mangas de camisa, com uma pasta. O escritório de vendas se encontrava no andar superior.
-Andrea...
-Olá, Bret -saudou-o enquanto entrava no elevador com a esperança de que não a seguisse. Felizmente só ficou olhando-a com tristeza até que as portas se fecharam.
Essa imagem a acompanhou até que saiu do edifício em direção à limusine que a esperava. Sim, renunciar era o melhor para ela e para Bret. Gabe nunca poderia substitui-lo
por alguém melhor.
Quanto a Andrea, a operação e o período de repouso a manteriam definitivamente fora da órbita de seu chefe. Embora sua lembrança nunca a abandonaria.
Sete horas depois, uma limusine da empresa de Gabe em Paris os levou do aeroporto De Gaulle a uma cidadezinha perto de Paris chamada Champigny. Logo Andrea
se encontrou em um barco nas turbulentas águas do rio Marne. Gabe lhe explicou que ficariam em uma ilha.
Para sua surpresa e secreto deleite, em lugar de hospedar-se em um luxuoso hotel como o Ritz, tinha-a levado a um isolado lugar de antigo encanto.
Frondosas árvores com uma viçosa folhagem própria do mês de junho cresciam junto à ribeira do rio onde havia uns quantos pescadores com boinas. A cena lhe
recordou uma pintura de Renoir que adorava. Representava a um grupo de camponeses em roupa de trabalho em torno de uma mesa desfrutando de uma garrafa de vinho no
final de uma longa jornada. Andrea se sentiu transportada a outro mundo.
O zelador de Vieux Pecheur Hotel bem poderia ter sido um deles.
O homem sorriu ao vê-los entrar no pitoresco e pequeno vestíbulo.
-Bonsoir, Madame, Monsieur.
-Bonsoir -saudou Gabe enquanto que deixava as malas no chão-. Je m'appelle Gabriel Corbin. Vous m'avez reservé deux chambres, n'est-ce pas?
-Oui, oui. Remplissez l'affiche, s'il vous plâit.
Andrea piscou ao tempo que Gabe procedia a registrar-se. Ignorava que sabia falar francês com a fluidez de um nativo. Talvez seus pais eram franceses. Assim
se poderia explicar seus atrativos traços meridionais.
Logo que as chaves trocaram de mãos, Gabe recolheu as malas e subiram por uma escada circular ao andar superior. Deteve-se ante a primeira porta à esquerda
e a abriu.
Andrea deixou escapar um pequeno grito de deleite.
Havia duas camas iguais com cobertores verdes, um armário do século XIX, uma penteadeira e uma janela com cortinas verdes e brancas que dava a uma tranqüila
rua. Pequenas flores de lis cobriam o empapelado das paredes e o teto. A habitação era encantadora.
Não havia telefone. Não havia televisor.
- Adoro-a!
-Pensei que você gostaria. O banho está no final do corredor. Terá que compartilhá-lo -disse Gabe. Ela se voltou a olhá-lo. Era um homem tão atrativo que seu
corpo se acelerou-. Meu quarto é o seguinte à direita. Espero-te no vestíbulo dentro de dez minutos para dar um passeio antes de jantar. Preciso estirar as pernas
e imagino que você também.
- Reuniremo-nos com Emile e os outros mais tarde?
-Esta noite não -disse antes de fechar a porta.
Parecia estranho, mas talvez se encontrava muito cansado para compartilhar a noite com seus empregados. Quanto a Andrea, estava tão excitada de encontrar-se
em Paris que se alegrou de adiar o trabalho até o dia seguinte.
O primeiro que fez foi colocar a cabeça pela janela para dar uma olhada a seu reino. Era a hora do crepúsculo. Teve a impressão de que as poucas pessoas que
transitavam pela rua nenhuma era turista.
Um jovem montado em uma bicicleta passou pela rua e lhe assobiou antes de lhe dizer algo em seu idioma. Andrea não pôde evitar um sorriso antes de afastar-se
da janela e ir ao quarto de banho para refrescar-se.
Mais tarde examinou a saia de linho em tom creme que se enrugou no vôo. Felizmente o top de algodão de cor manga estava impecável.
Depois de procurar na bolsa, escovou-se o cabelo e aplicou um batom coral nos lábios. Graças a Deus que tinha levado suas cômodas sandálias italianas. Poderia
passear sem problemas.
Acabava de chegar ao vestíbulo quando ouviu uma voz masculina com forte acento francês.
-Esperava que a formosa mulher americana baixasse logo.
-Vá -exclamou ela, em brincadeira.
Era o tipo que tinha visto fazia pouco. A bicicleta estava colocada atrás do mostrador. Teria uns vinte anos. Seus traços galeses se pareciam com os do zelador
que os tinha atendido anteriormente.
-Não dorme na mesma habitação de seu amigo. Isso significa que poderia sair comigo esta noite, verdade? Poderíamos passá-lo muito bem juntos. Meu nome é Pierre.
-É uma oferta tentadora, Pierre, mas estou aqui por negócios. Ele é meu chefe -Andrea deixou escapar um risinho.
- O que lhe passa? Traz-te para Paris e não compartilha sua cama? Não o posso entender.
-Ninguém te pediu que o faça -se ouviu uma voz glacial atrás deles.
Gabe tinha descido sem que ela se desse conta. Levava uma camisa de seda preta e calças cinzas.
Sempre o tinha visto com terno. A transformação lhe conferia uma potente virilidade que a deixou sem fôlego.
-Não falava com má intenção. Vamos -sussurrou Andrea que pôde sentir a rigidez do corpo de Gabe quando lhe passou uma mão pela cintura e a guiou para fora
do hotel. Andrea sentiu que lhe queimava o calor de seu contato.
-Sinto muito. Não voltarei a te deixar sozinha -comentou quando passaram diante de uma confeitaria junto ao hotel.
-Conheci meninos como ele, é só o que sabem fazer.
Gabe apertou as mandíbulas.
-Não é um menino, Andrea, e anda à caça de qualquer mulher disposta. Embora não deveria me surpreender a tua defesa. Fez o mesmo com Bret.
-É certo -replicou Andrea, com um sorriso-. Estou segura de que esse menino se comporta da mesma maneira com todas as mulheres velhas ou jovens que se hospedam
no hotel para as deixar contentes.
- E te deixou contente?
-Bom, de algum jeito, sim. Será uma graciosa lembrança.
-Não vou esquecer-lo -disse, outra vez de bom humor.
Durante meia hora passearam sob a abóbada de árvores conversando intermitentemente. A suave e cálida brisa do verão fazia estragos nos sentidos de Andrea e
ao que parecia a ele também o afetava. Andrea se cuidou para não roçar-lo porque seu contato lhe transmitia uma espécie de corrente elétrica.
De repente Gabe interrompeu a conversação e se deteve para falar com um dos pescadores apostados na ribeira do rio. Ao que parecia o homem não tinha sorte,
mas Andrea observou que lhe iluminaram os olhos para ouvir o que lhe disse seu chefe.
Tirou da cesta outro tipo de isca e o pôs no anzol, ao extremo do linha. Logo teve que empenhar-se a fundo. Depois de ter tirado um peixe de bom tamanho, bateu
no ombro de Gabe com um sorriso.
- O que é? -perguntou ela.
-Uma carpa.
-Nunca a provei.
-A carpa defumada é algo fora do comum. Me alegro de que o velho tenha pescado algo por que o Mame está muito poluído.
-É uma caixa de surpresas -comentou Andrea quando começavam a voltar-. Nasceu aqui na França para saber com que tipo de isca picaria o peixe?
Ele lhe dirigiu um curioso olhar.
-Não, sou nativo do St. Pierre et Miquelon -lhe informou. Ela franziu o cenho-. É um território francês perto da costa da Terranova.
A menção da província canadense acendeu uma luz na mente de Andrea. Deteve-se para olhá-lo.
- É certo! Recordo que minha professora de geografia do instituto nos falou de umas ilhas que eram a única posse francesa que ficava na América do Norte. Uma
grande indústria pesqueira. Contou-nos que Al Capone estava acostumado a ocultar-se aí durante os anos da Proibição.
Gabe esboçou um sorriso.
-Tens boa memória e sabe mais do lugar que noventa por cento da gente. Estou impressionado.
-Nunca conheci a ninguém dali. Seu inglês é tão perfeito que não tinha idéia.
-Minha mãe é americana. Tenho dupla nacionalidade.
- Sua família ainda vive ali? -perguntou. Queria saber tudo a respeito dele.
Uma sombra fugaz embaçou o olhar de Gabe.
- E como foi que te partiu?
-Desejava vivamente explorar o mundo.
- E olhe o que aconteceu! -disse impulsivamente com um sorriso-. Embora, pelo que acabo de ver, ainda está amarrado a suas raízes de pescador.
Ele assentiu.
-Sou membro do Conselho Francês para a Pesca. Por isso estou a par dos problemas do Mame -disse enquanto recomeçavam o passeio.
- A indústria pesqueira de sua ilha tem problemas?
-Se realmente deseja sabê-lo, responderei sua pergunta enquanto jantamos.
Gabe lhe rodeou os ombros com o braço e a guiou para um adorável café muito perto do hotel. Era um lugar feito para apaixonados com cadeiras rústicas e pequenas
mesas redondas cobertas com toalhas de quadrados vermelhos e brancos.
Uns quantas casais dançavam ao compasso de uma antiga canção de amor francesa interpretada ao acordeão por um músico ambulante.
-Aqui se serve um só prato -explicou Gabe enquanto um garçom punha uma jarra de vinho branco na mesa e pão recém saído do forno-. Não terá vivido nada até
que não prove os mexilhões da casa.
Andrea decidiu que não tinha vivido nada até que entrou nesse mundo encantado junto a Gabe. Um sonho fantástico de que temia despertar a qualquer momento.
-Sim.
CAPÍTULO 2
Enquanto bebiam vinho e comiam o delicioso pão, Andrea olhava furtivamente a Gabe.
O fulgor tremente da vela entre eles revelava a surpreendente cor de seus olhos que nesse momento brilhavam com um tom prateado. Com seus escuros cabelos frisados
e o queixo já sombreado, era o homem mais sensacional que alguma vez havia visto em sua vida.
-Bon appetit -disse o garçom depois de pôr ante eles uma fonte de mexilhões e um prato com batatas fritas.
-Prepararam-nos com um molho de vinho branco, alho e nata. Prova-os e verá -sugeriu Gabe. Depois de provar um, ela não pôde parar-. Minha avó estava acostumada
a preparar-los desta maneira. Meus irmãos e eu competíamos por ver quem comia mais.
-Posso entendê-lo. Nunca comi algo tão delicioso -disse ela com um risinho.
As confidências que começaram a surgir pouco a pouco encheram os espaços que formavam o homem oculto atrás de sua máscara profissional.
- Quando faleceu sua avó?
-Faz dois anos -respondeu Gabe antes de apurar sua taça de vinho.
-Sinto-o -murmurou. Possivelmente não gostava que o interrogasse desse modo mas ela ansiava por respostas que só ele podia lhe dar-. Sua família é numerosa?
-Sou o segundo de quatro irmãos. Dois são gêmeos.
-Que sorte tem. Eu sou filha única.
-Todos estão casados. Tenho sete sobrinhos. Além disso está Giles, meu pai, meu avô Jacques e duas tias casadas, com filhos e netos.
Nenhuma referência à mãe.
-Vá.
-Todos moram no mesmo bairro de St. Pierre e vivem do mar. Temos notícias de que o primeiro Corbin procedia de Bretanha.
- E o que há da família de sua mãe?
-Tenho muitos familiares em Chicago.
- E como diabos seus pais chegaram a conhecer-se?
-Quando minha mãe voltava para casa depois de uma viagem à Europa, o avião teve que ser desviado para Halifax. conheceram-se casualmente porque ficaram incomunicados
quase uma semana no aeroporto devido a uma terrível tormenta no Atlântico. Uma coisa levou a outra e ele a convidou a ir para sua casa para lhe apresentar à família.
Casaram-se, tiveram filhos. Divorciou-se de meu pai quando eu tinha dezoito anos- disse. Ela detectou um olhar de dor em seus olhos enquanto falava do passado.
A inesperada revelação comoveu o coração de Andrea. A ruptura de seus pais teve que lhe haver causado um grande dano e entretanto, ele tinha canalizado esse
dano e a raiva de um modo tão construtivo que foi capaz de criar seu próprio império. Se não tivesse dado esse passo, a empresa Corbin PC não teria existido e Andrea
nunca o teria conhecido.
-Sobrevivemos, Andrea. Com o passar do tempo, mantivemos uma estreita relação com minha mãe. Vemo-nos freqüentemente. Trabalha em uma agência de viagens e
todos os meses voa para St. Pierre para ver meus irmãos.
Devido à proximidade dele e ao efeito do vinho que tinha acompanhado ao delicioso jantar, quase se sentia flutuar.
-Ias me falar a respeito dos problemas econômicos de sua ilha.
-Mais tarde -murmurou Gabe-. Agora quero dançar contigo.
Muitas vezes tinha escutado La Vie en Rose, mas nunca tinha dançado essa música interpretada por um autêntico acordeonista francês. O corpo de Gabe harmonizava
perfeitamente com o de Andrea, que afundou a cara em seu ombro.
- Diverte-te, Andrea?
Ela se sentia no Paraíso, mas não podia dizer-lhe.
-Graças a ti estou vivendo uma experiência inesquecível.
-Então me olhe.
Ela se estreitou ainda mais contra ele.
-Dá-me medo.
- Por que?
-Porque cheiro a alho.
Uma risada silenciosa estremeceu o corpo de Gabe.
-Me passa o mesmo, assim não há problema.
Finalmente ela elevou a cabeça.
-Quem me dera que tivesse um pouco de chiclete.
-Mas eu prefiro o sabor da champanha em seus lábios.
Em um segundo, a tentadora boca masculina se pousou na dela, e o quente beijo lhe pareceu tão natural que involuntariamente abriu os lábios.
Enquanto dançavam na pista, lentamente o beijo se tomou mais profundo e se converteu em parte da magia dessa noite. Uma canção seguiu à outra, igual ao beijos.
Andrea perdeu a noção do tempo em que permaneceram nesse estado de felicidade.
Gabe tinha começado lhe beijando as bochechas, o pescoço e os cabelos e ela deixava escapar suaves gemidos. Tinha esquecido que os olhavam das mesas vizinhas
até que deixaram de dançar.
Então sentiu que se ruborizava ante sua falta de controle. Separou-se dele e, passando entre as mesas, dirigiu-se com pernas trementes à mesa em busca de sua
bolsa. Não tinha bebido muito, assim não podia culpar ao vinho de sua conduta temerária. Era Gabe que a convertia em uma sibarita.
Sem esperá-lo, saiu do café e partiu paraa o hotel.
Gabe lhe alcançou quando subia a escada.
- Por que tanta pressa?
Tinham chegado à porta do quarto dela.
-Tive um pequeno arrebatamento na pista de baile e faz momento que passou minha hora de ir dormir.
-Devia te haver trazido para Paris muito antes para desfrutar de sua primeira reação -comentou com um risinho rouco que ressonou nos ossos da jovem.
-Foi maravilhoso que me trouxesse aqui, Gabe. Nunca o esquecerei. Boa noite -disse com voz tremente enquanto introduzia a chave na porta.
- Andrea?
- Sim?
-Obrigado por me deixar esta lembrança. Virei para te buscar às oito e meia. Iremos tomar o café da manhã na confeitaria do lado. Que durma bem -murmurou antes
de afastar-se.
Andrea despertou como sempre, às seis e meia embora o corpo lhe pedia para dormir um pouco mais.
Incapaz de permanecer na cama, vestiu-se com uma blusa de algodão cáqui e saia da mesma cor. Quando estava penteada e maquiada fez a mala e desceu para o vestíbulo.
-Bonjour. O senhor Corbin está tomando o café da manhã na confeitaria. Se desejar pode deixar sua mala aqui -disse uma senhora que se encontrava atrás do balcão
de recepção.
-Obrigado
O céu estava cinza e ameaçador. Andrea descobriu Gabe sentado em uma das mesas na frente da confeitaria. Enquanto lia Le Figaro, molhava um croassoin na xícara.
Os jeans rodeados, a camiseta cor borgonha e as tênis esportivos lhe conferiam um ar tão sensualmente masculino que o coração de Andrea deu um salto.
Enquanto se aproximava, ele elevou a vista do jornal e lhe dirigiu um intenso olhar fugaz. Então ficou de pé e a acomodou em uma cadeira junto a ele.
-Eu tampouco durmo muito -comentou enquanto alcançava a jarra do café e lhe enchia uma xícara.
A proprietária da confeitaria se aproximou deles com um prato de dourados croassones.
Mas ela tinha uma sensação de torvelinho no estômago que lhe impedia de comer.
A tranqüilidade de Gabe chegou a convencer-la de que tinha esquecido o ocorrido entre eles na noite anterior.
- A que hora nos espera Emile?
-Não nos espera -disse olhando-a por cima da borda da xícara.
Ela quase se engasgou com o café.
-Não entendo.
-Vou te esclarecer as coisas -disse Gabe. Deixou a xícara no pires, inclinou-se sobre a mesa e lhe dirigiu um olhar velado-. Te trouxe para Paris só por uma
razão.
-Se te referes a me seduzir, ontem à noite teve a oportunidade -disse em tom de brincadeira porque não tinha a menor ideia do rumo que tomaria essa conversação.
Para sua surpresa, ele nem sequer sorriu.
-Equivoca-se, senhorita Bauer.
As bochechas de Andrea se ruborizaram.
- Achas que não sei?
-Nunca antes tenho proposto matrimônio a uma mulher e pensei que este era o lugar ideal.
A xícara escapou das mãos de Andrea e derramou um pouco de café na blusa.
-Sinto muito, sou tão torpe -gaguejou enquanto esfregava a mancha com um guardanapo-. Parece que não te entendi bem.
- Refere-te a te pedir que seja minha esposa?-perguntou enquanto lhe cobria a mão com a sua.
-Seguro que brinca.
-Nunca o faço.
Ela sabia.
Gabe era um homem de natureza séria. Ela duvidava de que houvesse um só osso frívolo nesse corpo alto e poderoso, de inegável atração para ela.
Andrea vislumbrava às vezes uma inexplicável melancolia em sua expressão que a comovia profundamente. Depois da conversa da noite passada começava a compreender
alguma das razões desses momentos de tristeza.
-Não terá que casar-se quando não se está apaixonado -sussurrou lutando para sair a voz.
-Nós nos gostamos -replicou Gabe com a mesma segurança que empregava nas reuni]oes administrativas-. Tudo o que tem que fazer é recordar o de ontem à noite
para saber que é verdade.
Ela não tinha sido capaz de pensar em outra coisa. O acontecido tinha atormentado seus sonhos lhe produzindo tal agitação que tinha desejado ir ao quarto de
Gabe e lhe pedir que fizessem amor.
-Eu...
- Quem diz que gostar-se não seja melhor que amar? -declarou. A pergunta retórica de Gabe era uma prova de que o divórcio de seus pais o tinha lesado emocionalmente,
tal como ela tinha pensado-. O amor é um sentimento que pode torturar a alma. Entretanto, deve admitir que temos uma excelente relação trabalhista, Andrea. Conhecemo-nos
melhor que ninguém. Não recordo que alguma vez tenhamos tido uma desavença. E não cabe dúvida de que sejamos sexualmente compatíveis.
O polegar que acariciava a palma enviava pequenos dardos de excitação a todo o sistema nervoso de Andrea.
- Estás louco! -Disse enquanto retirava a mão como se tivesse sofrido uma picada-. Trabalhei o suficiente contigo para saber que Gabe Corbin não faz nada que
não forme parte de um grande plano.
-Isso é certo -concordou enquanto se reclinava na cadeira.
Ela o olhou abertamente.
- Qual é a verdadeira razão pela qual me escolheste para contrair um matrimônio sem amor?
-Se posso te ajudar não vou permitir que despreze a possibilidade de dar a luz a seu próprio filho. Será nossa primeira prioridade -declarou depois de submetê-la
a um íntimo olhar apreciativo.
-Você quer me dar um bebê -se burlou Andrea.
-Assim é, excluindo circunstâncias imprevistas, está claro. Quero que nos casemos para que possa ter seu próprio bebê.
- O que está passando? -Inquiriu ela enquanto se levantava de um salto-. E não me diga que o faz movido pela bondade de seu coração! O que ganha você com isto?
-acrescentou enquanto inclinava sobre ele seu alto e curvilíneo corpo.
-Uma maneira de expiar meus pecados -replicou, sombrio.
Como estava acostumado a acontecer quando fazia uma pergunta comprometida, ele sempre saía com uma resposta inesperada que a confundia. Andrea voltou a sentar-se,
mais acalmada.
- Que pecados?
-Quando me parti de St. Pierre para ir a universidade, Jeanne Marie, uma das garotas da ilha, foi a meu apartamento em Nova York.
Disse que tinha sofrido com minha partida e que esperava que nos casássemos. Era um pedido absurdo já que não tínhamos um passado juntos. E ela sabia que nunca
poderia haver um futuro. A verdade é que uma vez dormimos juntos. Não me orgulha, mas o fiz. O matrimônio com ela ou com qualquer outra era quão último desejava.
Disse-lhe que retornasse para St. Pierre. Mais tarde meu pai me informou que ia casar-se com meu irmão Yves. Doeu-me o fato de ter estado com a mulher que meu irmão
queria converter em sua esposa. Merecia saber a verdade a respeito de JeanneMarie e eu antes de que as coisas seguissem adiante, assim fiz planos para viajar à ilha
e falar com ele. Mas meu pai me disse algo que mudou minha vida-explicou Gabe.
- Sua vida?
-Sim, disse que ela acabava de sofrer um aborto espontâneo. Acrescentou que sabia que eu era o pai, embora todo mundo pensava que esse filho era de Yves. Então
sugeriu que seria muito prudente que, pelo bem de meu irmão, nunca retornasse à ilha.
-Gabe, quer dizer que desde então nunca mais voltaste para casa? -perguntou, estremecida.
A emoção escureceu os olhos de Gabe.
-Viajei no dia que enterraram a minha avó, mas esperei até a noite para visitar seu túmulo. Encontrei ao meu avô no cemitério, sozinho. Conversamos até o amanhecer
e em seguida parti da ilha.
Ela moveu a cabeça dê um lado a outro, emocionada.
- Por que Jeanne Marie não te disse que estava grávida quando foi ver-te? -perguntou, com voz tremente.
-A noite que estivemos juntos tomei precauções que lhe fizeram compreender que eu não desejava que houvesse conseqüências. Provavelmente temeu me dizer isso.
- Mas era seu filho! Tinhas o direito de saber.
-Estou de acordo. Entretanto, quem pensa com claridade aos dezoito anos? -Gabe cruzou os braços sobre o peito.
-Você. De outro modo não te teria partido da ilha para realizar seus sonhos.
-Parti-me porque não podia suportar ver a dor nos olhos de meu pai depois de seu divórcio.
Andrea acreditou, embora para ela outras forças o tinham impulsionado a cumprir seu destino.
-Sinto muito, Gabe -disse, consciente de que essas palavras não traduziam seus sentimentos-. Eu..., eu ainda não compreendo como pode expiar seus pecados,
te casando comigo.
Ele conteve o fôlego.
-Não viveste com minha culpa. Jeanne Marie me necessitava e eu a rechacei.
-Não o teria feito se ela tivesse sido sincera contigo.
Gabe esboçou um frio sorriso que desapareceu imediatamente.
-Obrigado por me defender, mas isso não mitiga minha culpa. Dormi com ela sem amá-la.
-Ela te buscou porque estava disposta, Gabe. Corresponde-lhe a metade da culpa.
-Pode ser, mas se me tivesse casado possivelmente não teria perdido a seu filho.
-Está-te castigando por algo que não podia remediar sem saber todos os fatos -disse, compassiva.
-Nada disso importa agora. Nosso filho não sobreviveu e para mim não houve maneira de compensar o ocorrido. Ontem pela manhã, quando foste ver-me, senti seu
desespero e soube que podia fazer algo por ti antes de que fosse muito tarde.
Andrea desviou o olhar.
-Eu...
-Sabendo o que estava em jogo admirei sua honradez ao não utilizar o Bret que sem dúvida desejava casar-se contigo, algo que eu não fiz por Jeanne Marie porque
não estava preparado -disse com voz apagada-. Acredito que podemos fazê-lo, Andrea. Não temos segredos, só a esperança de que fique grávida.
Andrea voltou a olhá-lo. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que não tinha visto anteriormente. Talvez ele queria um filho para substituir ao que seu
pai lhe disse que tinha perdido.
Lhe encolheu o estômago ao pensar que mentia ao não lhe revelar seus sentimentos. Mas como podia confiar-se a ele? Igual o acontecido com Jeanne Marie, ele
não procurava seu amor.
-Distoo muito da perfeição, Gabe.
Ele se encolheu de ombros e ela notou o movimento dos duros músculos sob a camiseta.
-Nossa relação se construiria sobre as bases da honestidade, não da perfeição. O que proponho é que nos casemos imediatamente e tentar que fique grávida quanto
antes.
- E se não poder conceber? -desafiou-o.
Irritava-a seu sangue-frio a respeito de algo tão sagrado como o matrimônio.
-Ocuparemo-nos disso em seu devido momento.
-Refere-te ao divórcio.
-Só se ambos o desejarmos -disse depois de uma pausa-. Há uma só condição. Estou disposto a conceber a nosso filho e lhe oferecer tudo o que tenho mas você
teria que aceitá-lo.
Ela sabia que tinha que haver uma condição.
-Além de um respeito pela forma em que tem feito fortuna com o suor de sua testa, nunca desejaria possuir sua riqueza. A responsabilidade seria.., espantosa.
-Sei muito bem -foi a surpreendente resposta-. Quando se teve que viver de forma tão precária antes de fazer fortuna, a gente adquire um sexto sentido a respeito
das pessoas. Aprendi a escolher a meus colaboradores cuidadosamente. Você é uma mulher decente -disse enquanto a olhava com intensidade-. Não quer saber qual é minha
condição?
Andrea se estremeceu. Quando começaram a sair juntos, Bret lhe disse que havia um aspecto desumano na natureza de Gabe. Embora sempre tinha sido um tanto reservado,
todo mundo o admirava. Tratava a seus empregados com equanimidade e se preocupava com eles. Todo mundo o respeitava.
Na ocasião havia se tinha rido do comentário de Bret, mas nesse momento não tinha nenhuma vontade de fazê-lo. Nessa viagem tinha vislumbrado aspectos desconhecidos
da personalidade de Gabe. Estava claro que não a amava e se sentia para baixo por isso.
-Gabe...
-Vou retornar para St.Pierre.
Ela piscou.
- Quer me levar de visita?
-Não. Será para sempre. Yves e Jeanne Marie têm dois filhos adolescentes. Já não sou uma ameaça para seu matrimônio. Tenho saudades do mar..., e de minha casa.
-Mas, e sua empresa?
-A estou vendendo. Vou empregar o dinheiro da venda em um fundo perpétuo em favor do bem-estar da ilha que há anos sofre uma forte crise econômica.
Ia desfazer-se de seus trilhão de dólares? Assim sem mais?
- Quando tomou a decisão?
-Faz muito tempo. Desde que minha família rechaçou minha ajuda econômica. Assim tive que procurar outro meio de fazê-lo. O caso é que sempre quis retornar.
Mantive-me em contato com meu avô. Sofreu uma grande depressão desde que faleceu minha avó. Para piorar as coisas, recentemente morreu Gorka Zubeldia, seu amigo
da infância que vivia na casa do lado. Sua viúva, Karmele, tem intenções de partir para os Pirineos para reunir-se com seu filho.
-Assim não foi o único filho que partiu da ilha.
-Não. Quando meu avô me contou a notícia, fiz que meu assessor financeiro comprasse para mim a casa de Zubeldia sem que meu avô soubesse. Necessita reparações.
Até que fique vazia e em condições viveremos com meu avô. Espero que minha volta lhe levante o ânimo e lhe ajude a desfrutar dos anos que restam. Os Corbin são famosos
por sua longevidade. Só tem oitenta e um anos.
Ao que parecia tinha planejado tudo até o último detalhe. As coisas iam muito depressa.
-Ele não tem idéia de sua viagem, verdade? -perguntou ela, depois de estudar seu rosto um instante.
-Não. Mas no dia que parti de St. Pierre meus avós me disseram que suas portas sempre estariam abertas para mim. Conservo lembranças íntimas da casa. Entretanto,
é um mundo isolado, Andrea, e muito duro em alguns aspectos. Naturalmente que vou deixar suficiente dinheiro em um fundo de fideicomisso para que o menino e você
fiquem protegidos em caso de que me aconteça algo. Ainda que me refiro às condições de vida. À névoa, ao gelo, ao frio dos invernos intermináveis. Poucos forasteiros
podem acostumar-se em uma sociedade insular que vive do mar, formada por gente apegada a suas tradições. Mas a ilha é meu lar. Se tiver um filho, aí é onde eu gostaria
que crescesse, como eu o fiz -declarou.
"Que homem tão extraordinário", pensou Andrea.
-Com exceção de meu pai e de meu avô, o resto da família ignora a verdadeira razão de mim ausência. Estão ressentidos porque pensam que sou um traidor que
abandonou a ilha por causa das dificuldades econômicas. Isso é um pecado para eles. Talvez não queiram te conhecer e é possível que nunca lhe aceitem. Te conto tudo
isto para que não haja surpresas em caso de que aceites te casar comigo. Eu gostaria que me respondesse esta noite. Enquanto isso passearemos pela cidade.
Andrea duvidou de que alguma vez outra mulher tivesse recebido uma proposta de matrimônio tão singular.
Que escolha! Ou não vê-lo nunca mais ou viver com ele sob circunstâncias quase insustentáveis, se não impossíveis.
-Deste-me muito no que pensar -disse ao tempo que se levantava da mesa-. Se não te importar, eu gostaria de voltar hoje mesmo a Nova Iorque.
-De acordo. Pedirei uma limusine e avisarei ao piloto que vais para o aeroporto.
- Não vem também? -perguntou, vacilante.
-Não, tenho uma reunião importante. Não demore muito em te decidir. Um atraso seria um crime já que só tem cinco meses para conceber. Apesar do ocorrido com
Jeanne Marie, não posso te garantir uma gravidez tão rápida, mas estou preparado para tentar-lo -declarou. Para Andrea foi difícil aceitar uma sinceridade tão brutal-.
Quando chegar a Nova Iorque telefonare para saber sua resposta. Que tenha uma boa viagem, Andrea.
-Você também -murmurei ela.
A caminho do aeroporto na limusine, Andrea pensou que sem dúvida Gabe tinha orquestrado essa viagem tão romântica para comprovar que não lhe era fisicamente
indiferente. Provavelmente sua resposta entusiasmada na pista de baile o havia emocionado.
Seis horas depois, descia do jato privado onde descobriu o chofer que a esperava.
-Bem-vinda, senhorita Bauer. O senhor Corbin me disse que a levasse diretamente a seu apartamento posto que certamente não dormiu muito.
-Tenho que admitir que estou cansada. Obrigado por vir me buscar.
-É um prazer.
Tudo era diferente. Nada se comparava ao céu nem ao perfume da brisa de Champigny. Nada era bom porque Gabe não estava com ela.
Quando se enfrentou ao pensamento de não voltar a vê-lo nunca mais, sentiu um vazio terrível.
Uma das primeiras coisas que fez ao entrar em seu pequeno andar foi ir à cozinha e escutar as mensagens telefônicas.
Havia vários de sua mãe que se perguntava se iria para casa nesse fim de semana. Havia outro de sua vizinha Sue que queria comer com ela. A seguinte mensagem
era de Bret:
"Foi duro ver-te no elevador sem poder falar contigo. Sinto tua falta como um louco, Andrea. Me perdoe por te haver acusado de amar a seu chefe. Devo admitir
que estava muito ciumento. Sei que para um homem comum como eu é impossível competir com Gabe Corbin. Podemos voltar a começar? Se te prometer..."
Andrea apagou tudas as mensagens.
Quando tentava pôr em ordem suas caóticas emoções, soou o telefone móvel.
- Diga?
-Me alegro de que tenha chegado bem, Andrea-ouviu a voz de Gabe. Andrea se apoiou contra o balcão-. Tiveste sete horas para considerar minha proposta. Eu gostaria
de ouvir sua resposta.
O telefone caiu ao chão e ela se precipitou a recolhê-lo com uma mão sobre o coração que lhe pulsava atropeladamente.
- Ainda está em Paris?
-Estou no aeroporto -respondeu com certa vacilação-. Se tiver decidido te casar comigo temos que fazer planos. De outro modo, parto para St. Pierre agora mesmo.
- Quanto tempo estará ali?
-Ficarei para sempre. Acreditei que o tinha entendido.
- Mas...
-Parece-me que já tomaste uma decisão-interrompeu... Andrea, pensei que minha proposta te faria feliz, que te daria a última oportunidade de ficar grávida
Mas entendo sua decisão... espero que a operação tenha êxito. Não se preocupe pelo escritório. Karen tem um cheque para ti.
- Espera!
-Andrea, se não está segura de querer partir, melhor para a empresa. De todos os modos, conta com suas seis semanas de recuperação e para então...
-Não. Entendeste-me mal. Eu... eu quero tentar ter um filho.
-Isso é tudo o que precisava ouvir -disse em tom agradado como se tivesse aberto outro mercado de âmbito internacional. Te verei as seis, no escritório do
condado. Benny irá te buscar às duas e meia. Até logo, Andrea -disse e desligou antes de que ela pudesse lhe dizer adeus.
Santo céu! O que tinha feito? Podia ouvir a voz de sua mãe lhe fazendo a mesma pergunta.
Quanto mais pensava nisso, mais temia chamar a seus pais. Gabe não estava apaixonado por ela. Seria melhor que seus pais não soubessem nada no momento.
Pelo resto, era muito possível que não fosse à entrevista que Gabe tinha fixado para as três da tarde.
CAPÍTULO 3
Eidelweiss Chalé formava parte de uma zona comercial em Scarsdale que bem podia ter sido uma dessas maravilhosas lojas pequenas situadas no coração da Selva
Negra alemã.
Gabe entrou naquele reino de fantasia virtual justo quando um relógio de cuco marcava meio-dia. Nos balcões havia todo tipo de objetos de sonho como quebra-nozes
de madeira, casas de bonecas, ornamentos natalinos e caixas de música.
Nesse momento, o pai de Andrea, um homem alto, de bom aspecto, estava no alto de uma escada. Com toda certeza a mãe era a atrativa mulher arás de um balcão
vestida com uma saia bávara azul de forma camponesa.
Os pais de Andrea pareciam ter pouco mais de cinqüenta anos e ambos eram o retrato da saúde, o que contradizia o argumento de Andrea quanto a que necessitavam
sua ajuda.
A filha tinha herdado traços de ambos os pais, especialmente da mãe que tinha os mesmos olhos azul e um saudável tom rosa nas bochechas.
Quando o único comprador se partiu, Gabe se aproximou do balcão.
-Renate Bauer?
-Sim?
-Sou Gabe Corbin, o chefe de Andrea.
Imediatamente o sorriso amável se transformou em uma expressão de ansiedade.
-Karl! Te aproxime! O senhor Corbin está aqui. Algo tem que ter acontecido com nossa...
- Andrea está bem! Sinto que nosso primeiro encontro lhes tenha feito acreditar que sou portador de más notícias. Nada mais longe da verdade -se apressou a
assegurar. O pai se uniu a eles e ambos olharam com alivio-. Andrea e eu acabamos de voltar de Paris onde lhe pedi que se casasse comigo e ela aceitou. Primeiro
teria que ter vindo aqui a lhes pedir sua mão, mas as circunstâncias me impediram disso.
Ambos o olhavam com incredulidade.
-Vou fechar um momento -disse a mãe.
Enquanto se apressava para a porta, o pai se recuperou o suficiente para estreitar a mão de Gabe.
-Durante os últimos seis meses minha filha não tem feito outra coisa senaõ falar de você, mas nunca disse que a relação se converteu em algo pessoal.
Essa era a melhor noticia que Gabe tinha recebido em muito tempo. A senhora Bauer se uniu a eles.
-Faz quatro meses ela saía com outra pessoa da empresa. Tive que esperar até que o campo ficasse livre para fazer minha jogada.
- Onde está?
-Meu chofer a levou a seu apartamento.
-É estranho. Deixei-lhe umas mensagens, mas não me respondeu.
Gabe se absteve de lhe dizer que sua filha estava em estado de comoção e que em qualquer momento até poderia mudar dê opinião em relação ao casamento.
-Às três nos vamos reunir no escritório do condado para conseguir a licença. Seguro que terá muitas coisas que fazer até essa hora-disse e em seguida limpou-se
a garganta-. Andrea não tem idéia de que me encontro aqui. Vim porque queria falar com vocês a respeito de seu endométrio.
Com um suspiro, Renate se apoiou contra seu marido.
-Sofreu muito -murmurou Karl.
-Sei. Muito recentemente que Andrea me informou de sua situação. Já que só ficam seis meses antes da intervenção cirúrgica, não temos tempo para planejar um
grande casamento. Precisamos tirar o máximo proveito do tempo que resta. Por isso quero que nos casemos hoje, mas só se vocês podem assistir -disse. Os pais se olharam
aturdidos-. meu amigo, o juiz Rivers do Tribunal de Apelações oficiará a cerimônia. vai rescindir as vinte e quatro horas de espera.
-Acredito que é romântico e maravilhoso -murmurou a mãe com os olhos marejados.
Karl estudou a Gabe um instante.
-Nossa filha é muito sensata e o escolheu como marido. O que é bom para ela também o é para nós.
-Bem-vindo à família, Gabe -exclamou Renate antes de abraçá-lo.
-Obrigado -murmurou Gabe, emocionado-. Posso lhes pedir outro favor?
-Certamente -disse ela enxugando os olhos.
- O que lhes parece se Andrea e eu viemos aqui para passar uma semana com vocês depois da cerimônia? Eu gostaria de conhecê-los melhor e sei que nada a faria
mais feliz.
-Nada nos faria mais felizes -disse Karl com a voz enrouquecida-. Vamos, Renate. Temos que ir para casa e nos arrumar para o casamento.
-Eu os levarei -se ofereceu Gabe-. Pelo caminho lhes informarei de nossos planos. Devem saber que não viveremos em Nova Iorque...
-Senhorita Bauer, já cheguei.
-Obrigado, Benny. Descerei em seguida.
Seria uma covardia enviá-lo como mensageiro. Tudo o que Andrea tinha que fazer era apresentar-se no escritório do condado e comunicar a Gabe que tinha mudado
de idéia.
Ele não a amava e assim o matrimônio não funcionaria por muito que ela queria conceber antes de que fosse muito tarde.
Se tinha um bebê não seria justo criá-lo em um lar sem amor. Olhe o que tinha acontecido aos pais de Gabe!
Quando às três e cinco minutos Benny a deixou ante o tribunal civil já tinha memorizado seu discurso.
Não foi difícil encontrar o departamento de licenças matrimoniais no primeiro andar. Em meio da habitação cheia de gente procurava Gabe com tantas ânsias
que passou junto a seus pais sem vê-los. Segundos depois se parou em seco e girou a cabeça perguntando-se consternada se não seriam uma alucinação. Mas não. Ali
estavam, muito bem vestidos e sorrindo-lhe.
- Mamãe? Papai? O que fazem aqui?
Sua mãe a abraçou primeiro.
-Parabéns, querida. Entre nós, acredito que Gabe Corbin é o homem mais excitante e arrumado que jamais tenha conhecido. Além de seu pai, certamente.
-Conta com minha aprovação, Andrea -assegurou seu pai enquanto a abraçava-. Será um bom marido. O fato de te levar para St. Pierre a viver e a trabalhar com
sua família significa que tem um justo sentido das prioridades.. E eu admiro isso em um homem de tanto êxito como ele. E agora vamos!
- Espera! -Gritou Andrea-. Se supõe que devo me reunir com Gabe para conseguir a licença!
-Sabemos. Mas está ansioso por casar-se contigo agora mesmo devido a sua situação. Por sorte pôde arrumar os trâmites da cerimônia com um juiz amigo dele que
já deveria estar em seu tribunal, assim devemos nos dar pressa. Estão-lhe esperando lá em cima.
Os pais a guiaram apressadamente para o elevador.
-Tudo acontece muito depressa, mamãe -disse Andrea, aturdida.
-Estiveste apaixonada por ele desde dia em que começou a trabalhar em sua empresa, querida. Por isso não te interessou nenhum outro homem.
-Sim, sei, mas...
-Não importa que não tenha uma grande casamento, isso não nos causa desilusão. Se for conceber um bebê com Gabe, tem que acontecer nos próximos seis meses.
Às vezes se demora muito e não têm muito tempo. Além disso, seu pai e eu nos temos feito a ilusão de convertemos em avós.
-Mamãe, você não compreende...
Nunca terminou o resto da frase porque quando se abriram as portas no andar superior, Gabe estava ali. Quando a olhou seus olhos tinham um brilho dourado.
E ela já não pôde pensar.
Ia vestido com um traje formal em tom marrom, camisa e gravata de seda de listras e uma pequena gardênia na lapela.
Nas mãos levava uma gardênia maior para ela.
-Gabe -murmurou com voz tremente.
-Ainda tem tempo de te arrepender -sussurrou enquanto lhe mordia brandamente o lóbulo da orelha. Andrea sentiu que uma onda de calor percorria seu corpo. Antes
de poder recuperar o fôlego, lhe pôs a gardênia na blusa que levava com as calças de um traje de jaqueta.
-Não posso me casar com este aspecto -gemeu.
Lhe rodeou a cintura e a rodeou contra seu corpo.
-Seu aspecto é adorável com qualquer coisa que uses. Assina a licença matrimonial e o juiz Rivers oficiará a cerimônia. Seus pais se ofereceram como padrinhos.
Eu gostei deles -lhe confiou com sua voz profunda.
-Não veio ninguém de sua família -se lamentou Andrea.
-Tentei falar com minha mãe, mas não estava em casa. E quanto a meu pai, vai se inteirar muito em breve, quando chegarmos à ilha -disse e seus olhos se escureceram-.
Agora você vais ser minha família. Isso é tudo o que importa.
-Não é assim e você sabe.
- Senhorita Bauer? Sou o juiz Rivers.
O homem de cabelo cinza e de figura impressionante com sua toga preta se adiantou para lhe estreitar a mão.
-Encantada -balbuciou Andrea.
-É um prazer conhecer a mulher que por fim tem feito sentar cabeça a Gabe. Poderemos começar se seus pais se situam a sua direita e vocês unem suas mãos.
Andrea sentiu que os dedos de Gabe se entrelaçavam com os seus e lhe apertava a mão com firmeza. O calor do contato lhe indicou que não era um sonho. Realmente
se estava casando com Gabe!
O juiz estava de pé com as pernas ligeiramente separadas.
-Pode que duas pessoas que trabalharam juntas na mesma empresa se conheçam bastante bem. Mas nunca chegamos a conhecer bem a uma pessoa até que não vivemos
junto a ela unidos pelos laços do amor. Andrea, agrada-me que Gabe deseje casar-se contigo em lugar de viver juntos simplesmente. Significa que além do que o futuro
possa lhes proporcionar, ele acredita no "para sempre" e não teme comprometer-se ante Deus e os homens. Também significa que se ocupará de todas suas necessidades
e não só fisicamente. Embora esse é um aspecto importante da relação, mas não é tudo. Gabe, agrada-me que Andrea aceite este pacto matrimonial a fim de converter-se
em sua companheira. Seu compromisso implica em dar a luz e criar aos filhos se forem bem-aventurados -disse o juiz. Gabe lhe apertou mais a mão-. Andrea Bauer, aceita
a Gabriel Corbin como legítimo marido? Promete amá-lo, honrá-lo, protegê-lo e respeitá-lo até que a morte lhes separe?
Uma sensação sufocante oprimiu o peito de Andrea. O juiz não podia saber que esse matrimônio se sustentava sobre a fé e nada mais.
-Sim, prometo -balbuciou.
-Gabriel Corbin, aceita a Andrea Bauer como legítima esposa? Promete amá-la, honrá-la, protegê-la e respeitá-la até que a morte lhes separe?
-Sim, prometo -se ouviu a solene resposta de Gabe.
-Então, pelo poder que me outorga o Estado de Nova Iorque, declaro-lhes marido e mulher. Se tiverem alianças, podem trocar-las agora.
Gabe tirou do bolso um grosso anel de ouro e o pôs no dedo da mão esquerda. Ela não tinha nada para ele.
-Não se preocupe. Tenho a ti -disse Gabe como se lhe tivesse lido o pensamento
-Chegarei com atraso a meu tribunal. Ande pressa e beija à encantadora noiva. Essa é a parte que eu gosto mais -urgiu o juiz em tom jocoso.
Gabe se inclinou para ela com um sorriso.
-A mim também -brincou antes de obedecer a ordem.
Como beijo nupcial foi tudo o que ela poderia ter sonhado. O suficientemente longo, ardente e apaixonado para convencer a qualquer um que entre eles havia
um grande amor.
-Quero ser o primeiro em te felicitar, senhora Corbin -disse o juiz quando Gabe finalmente se separou dela.
Fazia menos de vinte e quatro horas Andrea tinha comunicado a Gabe que renunciaria a seu emprego. E nesse momento já era sua esposa!
-Obrigado, juiz Rivers.
Depois de beijá-la na bochecha, o juiz estreitou a mão dos pais. Quando Gabe foi acompanhar-lo até a porta, os pais a abraçaram.
Em seguida, Gabe se aproximou deles e rodeou a cintura de Andrea com uma mão.
-Não sei o que opina você, senhora Corbin, mas eu estou preparado para empreender a viagem de lua de mel.
- Onde iremos? -perguntou Andrea, ruborizada.
-Para casa -disse a mãe com deleite.
O pai assentiu.
-Gabe disse que estava disposto a te compartilhar conosco durante uma semana. Sinto que já eu gosto de meu novo genro.
A noite era quente e úmida. Quando se encontravam na terraço da casa de seus pais, Andrea perdeu a batalha contra a fadiga e fechou os olhos. Podia ouvir que
os outros falavam mas tinha perdido o fio da conversa.
-Sua filha está a ponto de cair rendida, Karl. Acredito que é hora de ir dormir.
-Não é de se estranhar depois de dois vôos transatlânticos e uma casamento -murmurou o pai.
Gabe se levantou do assento e ajudou a sua mulher a ficar em pé.
-Obrigado pelo jantar, Renate. É o melhor Wiener schinitzel que provei em minha vida.
-Graças a ti. É uma receita familiar. Andrea sabe prepará-la.
-Vamos, querida -disse Gabe enquanto seus lábios roçavam a têmpora da jovem-. Tem que me mostrar o caminho.
-Boa noite -disse Andrea a seus pais em um murmúrio.
Sem esperá-lo, entrou na casa colonial de dois andares e se encaminhou para a escada.
Depois da cerimônia, Gabe tinha parado ante o apartamento dela para que pudesse pôr uns poucos objetos na mala. Ele já tinha preparado a sua antes de ir visitar
os pais.
Não tinha deixado nada ao azar. Esse era o modo de operar de Gabe.
Mas uma vez que a havia seguido até seu antigo quarto e se encontrou em seus territórios, Andrea decidiu estabelecer certas regras básicas. Entretanto, o físico
poderosamente masculino de seu marido diminuía a virginal habitação que só conhecia seu pai.
-Ambos sabemos as razões de fundo deste matrimônio -começou a dizer, presa do pânico-, assim que te agradeceria se não me voltasse a chamar de "querida".
- E que mais? -perguntou, com os olhos entreabertos-. Me dê a lista completa das proibições e farei o possível para te agradar.
Gabe se mostrava tão razoável que ela não pôde acrescentar nada mais. E pela mesma razão desejou lhe lançar algo à cabeça.
-Bom...
-Andrea, sou consciente de que nunca antes tem feito o amor. Embora seja seu marido te juro que não farei nada que você não deseje. Francamente estou tão cansado
como você e necessito uma boa noite de sono. Se não te importar, primeiro irei eu ao banheiro enquanto te prepara.
Em lugar de sentir-se aliviada lhe doeu que ele não a desejasse o suficiente para tentar seduzi-la como o tinha feito em Champigny. Depois de toda a pressa
por casar-se não ia haver noite de núpcias porque ele estava muito cansado! Como não queria que seus pais suspeitassem que algo ia mal desistiu de descer ao banheiro
de convidados. Pior que isso, não queria que Gabe a encontrasse de pé em meio da habitação como uma virgem assustada e temerosa de respirar.
Enquanto ouvia correr a água da ducha colocou uma camisola e um robe, em seguida se sentou ante a penteadeira e escovou o cabelo com uma sensação de ridículo.
Era uma mulher de vinte e oito anos, por amor de Deus!
Depois de deixar o robe aos pés da cama apagou a luz e se meteu entre os lençóis. Que Gabe pensasse o que quisesse.
Dois minutos depois, sentiu sua presença de um lado da cama. A luz se acendeu. Quando abriu os olhos o viu barbeado, com as calças do pijama e nada mais. Sentiu-se
tão confusa ao ver aquele corpo soberbo que quase não notou que tinha uma pequena caixa nas mãos, parecida com o estojo de uma jóia.
Ia lhe dar um presente de casamento?
Ele se sentou junto a ela e a abriu.
-Comprei este termômetro basal para que tome a temperatura todas as manhãs antes de te levantar -disse enquanto que o deixava sobre a mesinha de noite e se
voltava a olhá-la-. Dentro da caixa há um gráfico se por acaso quer apontar os graus. Não me odeie muito, Andrea. Se por acaso ainda não sabe, sou um homem que não
deixa nada ao azar se posso evitá-lo. E preciso saber o período em que posso te deixar grávida.
Quando começava a levantar-se ela o deteve.
-Nunca poderia te odiar, Gabe. Sei que faz isto por nós. Estou-te agradecida por me facilitar as coisas.
- Quando é seu próximo período?
-Teria que ser dentro de duas semanas e meia. Mas às vezes não sou regular.
-Isso significa que este mês temos uma oportunidade -disse antes de inclinar-se e lhe dar um casto beijo nos lábios-. Que durma bem. Amanhã estaremos como
novos.
Depois de apagar a luz, Gabe se meteu na cama. Não passou muito tempo antes de que ela notasse pelo ritmo da respiração que ele havia dormido.
Depois de dormir sozinha vinte e oito anos poderia ter estranhado a presença de outra pessoa em sua cama. Mas era Gabe, o homem que ela adorava.
Durante os dez minutos lutou uma batalha em seu interior entre dormir ou tomar a iniciativa e despertá-lo. Ao final não teve coragem e decidiu que uma ducha
poderia relaxá-la.
Quando começava a deslizar-se da cama um poderoso braço lhe rodeou a cintura.
- Ah!-Andrea deixou escapar um grito afogado quando ele a rodeou contra seu corpo. Não queria te despertar, Gabe.
Ele lhe beijou a nuca e ela sentiu que seu corpo despertava ao prazer.
-Tampouco podia dormir. Se me conhecesse melhor te daria conta de que seria impossível estar junto a ti sem desejar fazer amor.
Foi uma completa revelação sentir que suas mãos percorriam seu corpo e despertavam um anseio que ela ignorava possuir.
-Gabe...
-É uma mulher muito feminina e desejável. Te deixar grávida é sem dúvida a tarefa mais deliciosa que me tenho proposto levar a cabo.
Antes de que ela se desse conta, tinha-a posto frente a ele, de modo que seus corpos e pernas ficaram enlaçados.
-Não tema estar frente a mim, Andrea. Esta noite nenhum dos dois cheira a alho.
Andrea começou a rir e ele apagou a risada com seus lábios. em seguida tudo mudou porque começou a beijá-la com uma urgência primitiva.
A boca faminta de Gabe procurou sua cara, o pescoço, e a sedosa cabeleira loira. Cada vez que voltava para seus lábios era como se estivesse faminto dela e
não tivesse suficiente.
Tampouco Andrea que já ardia de desejo em Paris. De repente sentiu que desapareciam todas suas inibições. Sabia que ele não a amava, mas ambos necessitavam
um bebê tão desesperadamente que nada parecia mais importante que entregar-se ao prazer recíproco que poderia culminar em uma gravidez.
Enquanto avançava a noite, o prazer se converteu em êxtase. E ela o experimentou repetidamente porque fizeram amor várias vezes até que ao fim ficaram dormidos.
Quando a luz da manhã se filtrou através da janela, Gabe despertou.
-Bom dia, senhora Corbin. É hora de tomar a temperatura.
Meio dormida, ela colocou o termômetro na boca enquanto ele ia barbear-se.
Mais tarde, ele comprovou a temperatura, deslizou-se sob os lençóis e começou a lhe acariciar o braço com crescente insistência.
Andrea procurou sua boca com uma ansiedade que não tentou ocultar. Dessa vez queria lhe dar o mesmo prazer que ele dava a ela. Fizeram o amor gloriosamente
e voltaram a ficar dormidos.
Na próxima vez que Andrea ficou consciente do braço de Gabe possessivamente posto em seu quadril, foi devido ao ruído do carro de seus pais no caminho da entrada.
Jogou uma olhada ao relógio. Eram três horas.
Suas bochechas se ruborizaram quando se deu conta de que tinham estado na cama mais de dezesseis horas.
-Gabe, temos que nos levantar. Mamãe e papai chegaram.
-te relaxe. Sabem que andamos à busca de um bebê -disse enquanto lhe rodeava a cara com as mãos.
Essas palavras apagaram a luz de esperança que tinha nascido no interior de Andrea ao acreditar que ele se implicou emocionalmente com ela a noite anterior.
Depois do êxtase experimentado entre seus braços quase tinha se esquecido por que seu marido se comportou como um amante entusiasta.
Também tinha sido planejado o acontecido no baile de Champigny?
Rapidamente colocou o roupão que encontrou no chão porque ignorava onde tinha ido parar a camisola.
- Onde achas que vai? -escuto sua voz suave como o veludo.
-Inclusive um homem que cumpre com seus deveres precisa tomar um repouso para comer. Vou cumprir com meus e te preparar a comida.
Gabe jazia na cama como um deus de cabelos escuros, tentando-a com um sedutor sorriso.
-Então prepara uma comida abundante. Deste-me um grande apetite.
Já no banheiro, Andrea pensou que um bebê encheria um lugar vazio no interior de Gabe, mas nunca apagaria sua culpa.
Em todos esses anos Yves tinha presumido que Jeanne Marie tinha perdido ao filho de ambos, de modo que não eram eles que Gabe temia. Então ficava o pai...
Esperava conseguir sua aprovação retornando à ilha com uma esposa e com a esperança de um filho em um futuro próximo? Por isso tinha descartado sua fortuna?
Para ganhar o respeito de Giles?
E o que passava com sua mãe? Qual era seu papel na culpa de Gabe? Também sabia do segredo? Era consciente do muito que seu filho tinha sofrido? Tinha-o animado
para que se afastasse da família para evitar o escândalo?
Gabe lhe tinha advertido que talvez nunca obteria a aceitação da família. E na cerimônia lhe havia dito que ela era a única família que necessitava. Mas isso
não era certo, do contrário não teria renunciado a sua fortuna para voltar para suas raízes como o filho pródigo em busca do perdão e do amor de seu pai.
Andrea afundou a cara na toalha. Nunca em sua vida se havia sentido tão desolada.
CAPÍTULO 4
DEZ DIAS depois, Andrea se encontrou outra vez voando sobre a terra, com o coração martelando de ansiedade. Em lugar de uma viagem de negócios com seu chefe,
encontrava-se com seu flamejante marido em um avião de passageiros procedente de Halifax com destino a um território hostil e a um futuro incerto como marido e mulher.
Enquanto estiveram em casa de seus pais, Gabe fez freqüentes viagens para Manhattan para concluir os trâmites da venda de seus bens, entre eles os apartamentos
que ambos possuíam em Nova Iorque. Os poucos pertences que desejavam conservar chegariam posteriormente em navio à ilha.
Andrea não se questionou por que Gabe tinha decidido chegar como um turista comum. Por certo que nada era normal nele. Tinha renunciado a sua riqueza em favor
do bem-estar econômico de sua família e da ilha. Mas seu pai e seus irmãos talvez nunca saberiam.
Para os Corbin e os vizinhos de St. Pierre et Miquelon só havia uma verdade: fazia muitos anos, Gabe fizera algo tão imperdoável como partir para fazer fortuna
no mundo da informática.
Depois de todo esse tempo, Andrea entendia mais que ninguém por que não queria retornar como um multimilionário fazendo ostentação de sua riqueza ante eles.
Também sabia que o maior desejo de Gabe era reconciliar-se com sua família e estava decidida a colaborar em tudo o que pudesse.
Embora seus pais não conheciam os detalhes do passado de Gabe, ela lhes tinha contado que a família estava ressentida com ele por haver partido e que lhes
esperava uma grande batalha quando chegassem a St. Pierre.
Depois de passar uma semana com Gabe, seus pais tinham um altíssimo conceito dele e já o consideravam como um membro da família.
Nesses dias de lua de mel na casa paterna, Andrea se tinha convertido em uma mulher loucamente apaixonada por seu marido. Sentada junto a ele, sorria em antecipar
a chegada da noite quando voltaria a estreitá-la entre seus braços.
Não podia imaginar outro amante mais atento e excitante. Embora sabia que o objetivo desse exercício de paixão era lhe fazer acreditar que a amava. Com essa
certeza havia grandes possibilidades de que pudesse conceber. Entretanto, apesar do clima de paixão que Gabe criava, nunca deixava de lhe dar o termômetro a cada
manhã lhe recordando o verdadeiro propósito dessas noites de felicidade conjugal.
Essa verdade lhe causava um grande sofrimento à luz do dia. Entretanto, quando o sol começava a ocultar-se se via contando os minutos que faltavam para que
Gabe sugerisse que era hora de despedir-se dos pais e ir dormir.
Mas nessa noite seria diferente às outras porque estariam na casa do avô Corbin. Temia que Gabe se convertesse em uma pessoa diferente. Em seu coração sabia
que tudo estava a ponto de trocar e isso a aterrorizava.
Não era uma garota da ilha e não falava francês. De fato, com seu título de engenheira informática era a antítese do tipo de mulher que os homens da família
Corbin teriam escolhido como esposa. Uma mulher estranha, exceto para a mãe de Gabe.
E isso piorava as coisas.
À família bastaria lhe jogar um olhar para convencer-se de que só seria questão de tempo que a história se repetisse e partisse da ilha por não poder aceitar
essa vida tão dura.
-Estamos nos aproximando das ilhas, Andrea-murmurou Gabe, emocionado.
Era o lar de seu marido. Um lar de que tinha estado exilado dezoito anos por ter respeitado o desejo autocrático de seu pai.
Gabe lhe havia dito que havia sete ilhas. Andrea olhou pela janela, mas sob o céu azul coalhado de pequenas nuvens algodonadas tudo o que pôde ver foram três
massas de terra rodeadas pelas águas azul cobalto do Atlântico Norte. Gabe tinha crescido ali. A milhares de quilômetros ao leste estava a costa da França, a pátria
mãe.
-Só consego a ver três ilhas.
-Já verá as outras. O meu avô vai se dar muito bem contigo, Andrea -comentou enquanto lhe apertava a mão.
Que ironia! Gabe tentava confortar-la quando teria que ser o inverso.
-Espero que assim seja.
-Tomaremos um táxi até sua casa. Em uma formosa tarde de junho como esta provavelmente ele tenha ido passear. Isso nos dará tempo para nos acomodar antes de
que volte.
-Poderia lhe causar uma forte impressão vernos ali. Não achas que...?
-Não se preocupe -interrompeu. O meu avô esperouum longo tempo para este dia. Sem poder predizê-lo com exatidão, sempre soube que chegaria-murmurou, com a
voz embargada de emoção.
Andrea se comoveu até as lágrimas e voltou para olhar pela janela.
O formoso arquipélago se desdobrava ante seus olhos fascinados.
Enquanto o avião descia, vislumbrou St. Pierre, a capital. Só de seis mil habitantes, o povo se desdobrava ao redor de um porto natural em uma pitoresca baía.
Mais ao fundo, a maior parte da ilha estava formada por colinas rochosas.
Minutos mais tarde, pôde apreciar a cor das casas e edifícios que eram do tom dourado ao azul. Uma delícia para a vista.
Depois da aterrissagem e quando se encontravam no terminal esperando a bagagem, Andrea pensou no idioma. Tinha estudado seis anos de alemão a pedido de seus
pais. Teria que aprender a falar francês para ganhar em favor da família Corbin.
- Vamos? -sugeriu Gabe quando recolheram as malas da esteira de bagagens.
Então saíram do terminal e se dirigiram à parada de táxis.
Um condutor de cabelo escuro, e que parecia ter a mesma idade de Gabe, fumava apoiado na porta de seu veículo. Quando viu o casal o cigarro lhe caiu dos lábios.
- Gabriel Corbin? -exclamou antes de aproximar-se deles-. C'est vraiment toi?
-Oui, Fabrice. C'est moi.
- Incroyable! -exclamou enquanto o abraçava estreitamente e em seguida o beijava em ambas as bochechas.
A Andrea lhe levantou o ânimo ao dar-se conta de que nem todo mundo havia virado as costas a seu marido. Depois de uma rápida conversa, Gabe se voltou para
ela.
-Mon couer -disse antes de continuar em inglês-, este é Fabrice Palmentier, meu melhor amigo da ilha. Juntos nos metemos em muitas confusões quando éramos
meninos. Fabrique, esta é minha esposa, Andrea.
-Encantada -saudou Andrea enquanto estreitava a mão do homem mais baixo que ela e que a olhava com franca admiração.
-Agora que conheci à mulher que te roubou o coração perdôo sua ausência -declarou.
"Não lhe roubei o coração, Fabrice. Longe disso", pensou Andrea.
- Quanto tempo pensa ficar? Lisa sempre te preferiu antes de mim e não me perdoará se não lhes levo a jantar a casa -disse seu amigo.
-Nada poderia agradar-nos mais. Quando nos instalarmos na nossa casa também lhes convidaremos.
- Que casa?
-Comprei a casa vizinha a de meu avô. Viveremos com ele até que possamos nos instalar.
A consternação imobilizou a Fabrice.
-Está brincando, n 'est-c ps? -murmurou.
-Não.
Fabrice guardou silêncio um instante. De repente pôs-se a rir e abraçou a seu amigo com força. A cara de alívio no rosto de Gabe fez Andrea pensar que ele
sinceramente tinha acreditado que a vida em diante ia ser o caso de dois contra o mundo. Mas nesse momento havia uma prova evidente de que não era assim. Tinha um
aliado no amigo que sempre tinha estado de seu lado.
-Vamos -disse enquanto tomava duas malas em cada braço. Levarei-lhes a casa. Será como nos velhos tempos.
Enquanto Fabrice cruzava o povoado rumo à zona residencial começaram a falar em francês. Pelas sonoras risadas, às vezes burlonas, e grunhidos masculinos,
Andrea soube que estavam recordando coisas que só eles dois podiam compartilhar. Se nesses momentos alguém do mundo das finanças tivesse podido ver Gabe não o teria
reconhecido. A Andrea parecia que repentinamente se tornou mais jovem e despreocupado. Ela teria empenhado sua alma por fazer que durasse.
Quando finalmente pôde intervir na conversa, perguntou a Fabrice quantos filho tinha.
-Dois e meio -respondeu por cima do ombro.
Ao ouvir a resposta Gabe, que lhe estreitava a mão, acariciou a palma de Andrea com o polegar de um modo tão sensual que ela se estremeceu. Intencionada ou
não, a carícia lhe fez saber que pensava no filho que ambos procuravam.
Mas Andrea temia que em St.Pierre as lembranças da noite que passou com Jeanne Marie e a deixado grávida começassem a mortificá-lo. Não queria pensar em como
ia ser o encontro de Gabe com ela, convertida na esposa de Yves.
Através da janela contemplou o conjunto de casas de diversas formas e tamanhos agrupadas uma junto à outra. Era doloroso pensar que até vivendo em um lugar
tão remoto e isolado o pai nunca tivesse pedido a Gabe que voltasse para casa, nem sequer para uma visita.
- Como se sente alguém ao voltar para casa, mon ami?
-Nada mudou muito, Fabrice.
Andrea observou que tudo se via limpo e ordenado. Havia poucas árvores, muitos carros e grandes antenas parabólicas.
Fabrice girou em uma rua paralela à borda do mar. Estava claro que tinham chegado a um extremo da ilha formado em grande parte por colinas cobertas de vegetação
baixa. Nesse setor havia poucas casas e todas davam ao mar onde se podiam ver vários molhes que albergavam todo tipo de embarcações
Fabrice se deteve diante de duas casas emparelhadas.
Uma delas era uma encantadora moradia de dois pisos grafite de azul e branco com uma escadinha que conduzia ao alpendre. A Andrea recordou um chalé suíço rodeado
de pinheiros. Junto a estes havia outra casa de madeira de dois pisos. Seu estilo lhe fez pensar em uma dessas solitárias igrejas de campo que às vezes se vê nas
pradarias.
-Pintaremos-a de outra cor e faremos uma arquitetura paisagista -disse Gabe em voz baixa antes de beijá-la na têmpora.
-Vai necessitar um bom trabalho -comentou Andrea com um sorriso.
-Imaginei começar a obra o quanto antes -replicou Gabe.
-Jacques acaba de sair ao alpendre -informou Fabrice-. Deixe-me te ajudar com as malas. Quero saudá-lo.
Gabe já tinha visto a velha embarcação pesqueira atada no molhe.
Quando viu seu avô saudando Fabrice, com suas típicas calças e um pulôver, lhe fez um nó na garganta.
Tinha o cabelo completamente cinza e havia mais rugas na pele bronzeada do rosto, mas o corpo parecia conservar a agilidade de sempre.
-Não se preocupe por mim, Gabe -disse Andrea, virtualmente empurrando-o fora do carro-. Vá saudar-lo.
Ele lhe apertou a mão antes de abrir a porta do veículo.
- Gabriel! -gritou o avô enquanto ia a seu encontro. Gabe o estreitou entre seus braços e notou que estava muito mais magro do que recordava.
-Vim pira ficar, avô -disse com a voz enrouquecida enquanto o beijava em ambas as bochechas uma e outra vez.
-Dieu merci, Dieu merci -soluçou Jacques.
-Trouxe alguém -anunciou enquanto se voltava para Andrea de pé junto a Fabrice. Iluminada pelos últimos raios do entardecer seus olhos umedecidos brilhavam
como jóias. Gabe lhe rodeou a cintura com um braço-. Avô, esta é minha esposa Andrea Bauer. Andrea, este é meu avô, Jean Jacques Corbin, mas todo mundo o chama de
Jacques.
Gabe adivinhou a fascinação ante a figura dourada de Andrea, além da emoção que o embargava e que não podia ocultar.
O espírito de Andrea se refletia em seu cálido sorriso, que chegou ao coração de Gabe.
-Faz muito tempo que desejava conhecê-lo, Monsieur Corbin.
- A esposa de meu neto deve me chamar Jacques! Você compreende? -Perguntou com fingida severidade-. Bon sois la bienvenue, ma fillie.
Como lhe tinha acontecido a mesmo Gabe, em uns quantos minutos Andrea tinha conquistado ao avô. A jovem possuía uma calidez e vitalidade cativantes, muito
parecida com a da avó ausente. Gabe intuiu que sua esposa podia ser o elixir da vida que seu avô necessitava.
-Entra em casa -disse Jacques a Fabrice-. Faremos um brinde pela volta de Gabriel.
Fabrice lhe bateu no braço.
-Eu gostaria de ficar, mas devo voltar para trabalho. Não se preocupe. Daqui em diante me verá muito por sua casa.
-Espero que assim seja -disse Jacques.
Gabe acompanhou ao amigo até o carro.
-Chamarei-te depois de amanhã, Fabrice. Sairemos para pescar no barco.
Ao ver que tirava a carteira, a expressão de Fabrice se escureceu.
-Não me insulte. Não sabe que estive anos esperando que chegasse este dia?
-Eu também -murmurou Gabe, comovido.
- Então por que esteve tanto tempo fora?
Ambos se olharam solenemente.
-Contarei-lhe isso da próxima vez que estejamos sozinhos.
- Jura-o? -perguntou Fabrice, emocionado.
-Juro-o, mon ami.
-Tomarei a palavra -disse enquanto lhe golpeava o ombro fraternalmente antes de entrar no carro-. Sabia alguém que ias vir?
-Não
- Quer que se mantenha assim? -perguntou, depois de uma pausa.
-Embora o quisesse, é muito tarde. Meu primo Rene me viu quando esperávamos as malas no aeroporto.
-Tem razão. Agora trabalha para a companhia.
-Não se aproximou de nós, mas vi que falava ao telefone. Sem dúvida chamou a Tia Cecile. Assim imagino que a esta hora toda a família sabe que voltei.
- Quer dizer que não se aproximou nem sequer para te saudar? -perguntou Fabrice, com incredulidade. Sua justificada indignação foi um bálsamo para Gabe.
-Não.
Cecile tinha sido a pessoa que se mostrou mais cruel com a mãe de Gabe durante os primeiros anos e desgraçadamente tinha influenciado sobre seu marido e os
filhos.
A tia Helene também se mostrou fria durante o período do divórcio mas tinha aprendido a tolerar à mãe de Gabe, embora seu marido e os filhos se mostrassem
reservados.
-Mon Dieu, o que aconteceu a família para provocar uma ruptura que dura até o dia de hoje?
-Como te disse, falaremos quando estivermos a sós.
Quando Fabrice se partiu, Gabe entrou na casa. Seu amigo tinha deixado todas as malas no vestíbulo.
Gabe descobriu a seu avô mostrando a Andrea as fotos da família dispostas na sala de estar. Andrea escutava atentamente tudo o que Jacques dizia. De fato,
lhe fazia perguntas que não lhe tinha formulado. Os dois estavam tão absortos, que Gabe supôs que não notaram sua presença.
Quando soou o telefone, encontrava-se perto do escritório e cruzou o vestíbulo para atender a chamada.
- Alo?
A pessoa ao outro extremo da linha guardou silêncio. Depois de uns segundos compridos cortou a comunicação.
Ao cabo de um momento voltou a soar o telefone.
-Gabriel Corbin ici.
_Assim é verdade que vieste!
Gabe reconheceu a voz em seguida. Era a irmã maior de seu pai.
-UI, Tia Helena.
-Faz uns minutos me chamou Cecile para me dizer que Rene te tinha visto no aeroporto. Presumo que terá ido direito a casa de Jacques. Sempre o preferiu -disse
em tom dolorido. Gabe piscou surpreso-. É natural já que Marguerite e ele nunca tomaram partido contra sua mãe. Eu o fiz. Sinto muito, fui uma tola -disse. A confissão
o deixou estupefato-. Rene disse que estava com uma loira muito formosa.
-Sim. Chama-se Andrea. É minha esposa.
- Está casado? -gritou-. Sabe seu pai?
-Ainda não.
-Mas isto é incrível. Quanto tempo pensa estar aqui antes de voltar a partir ?
-Vim para ficar.
-Não entendo.
-Já lhe explicarei isso. Ficarei aqui para sempre.
- Deve estar brincando. Como vais administrar seus negócios desta ilha?
-Vendi a empresa e decidi ganhar a vida aqui, como o resto de minha família.
-Um homem tão rico como você não precisa ganhar a vida.
-Temo-me que todo o dinheiro que ganhei foi a parar à obra benéfica.
Produziu-se um longo silêncio.
- Juras que me está dizendo a verdade?
-Juro-o.
-Gabriel, o que te aconteceu? -exclamou, sinceramente preocupada.
-Acontece que encontrei à mulher adequada e isso me tem feito ver as coisas de uma perspectiva distinta.
-Estas notícias são incríveis. Seus irmãos vão se sentir intimidados quando souberem que o famoso irmão veio para ficar. Sabe que lhe idolatram em segredo.
-Para eles sou um estranho, Tia Helena.
-Não, Gabriel. Desde que te partiu foste constantemente o tema de conversa da família. Todos estamos muito orgulhosos de seu êxito.
- Todos? -burlou-se Gabe.
-Sim, embora haja certas pessoas que nunca lhe dirão isso na cara.
- Meu pai entre eles?
-Especialmente seu pai. Guardou todas as revistas e artigos de imprensa que falam de ti. Quando a família se reúne, os mostra a todo mundo e alardeia de que
seu filho é um gênio. Muitas vezes vi lágrimas em seus olhos, inclusive quando está sóbrio, o que não é muito freqüente nestes tempos -disse. O comentário o deixou
pasmado-. É bom que tenha voltado para casa. Sua família te necessita. Seu pai te necessita.
-Nunca me necessitou.
-Isso não é certo, Gabriel. Acontece que é diferente de seus irmãos. Giles queria ser tudo para ti, mas sentia que podia te perder, especialmente depois de
que sua mãe partiu. Quando foi, começou a beber muito. Ainda bebe muito -disse.
Era a primeira vez que Gabe ouvia algo assim. Seu avô nunca o tinha contado, talvez porque não queria que se sentisse pior do que já estava por causa de uma
situação que nunca poderia retificar-se.
-Falei muito, verdade? -acabou de dizer ela.
-Não se preocupe, Tia Helene. É a única pessoa da família que nunca temeu dizer a verdade tal como a vê. Devo admitir que sempre te admirei por isso, inclusive
quando me doeu. Alegra-me saber que algumas coisas não mudaram.
-E eu me alegro de que por fim esteja em casa, Gabriel. Hei-me sentido muito afligida tanto por papai como por meu irmão. Contigo aqui as coisas têm que melhorar.
O problema de seu pai com a bebida era a verdadeira causa da perda de peso de Jacques?
-Tomara.
-Bem-vindo a casa. Amanhã tens que vir jantar com sua mulher. Convidaremos a todo mundo para celebrá-lo. É tempo de que a família esqueça suas diferenças e
volte a reunir-se sob o mesmo teto. Como tem que ser.
À exceção da mãe de Gabe que não estaria ali.
-Agradeço-lhe muito, embora preferiria que o adiasse até que tenha visto meu pai.
-Hoje seria uma boa ocasião. Certamente o encontrará no Petit Mann.
O bar Little Sailor era o mais antigo da ilha.
- Como sabe que o encontrarei ali?
-Porque há anos vai quase todas as noites, quando acaba a tarefa.
Gabe sentiu como se lhe houvessem dado um murro em pleno estômago.
CAPÍTULO 5
Mais que ouvir, Andrea sentiu a Gabe quando chegou ao quarto que Jacques lhes tinha atribuído no andar superior.
Enquanto esperava que terminasse de falar no telefone tinha estado contemplando as tranqüilas águas do mar da janela do dormitório. O medo a que essa chamada
pudesse reportar a Gabe tinha impedido de desfazer as malas.
-Parece como se carregasse em seus ombros todas as penas do mundo -comentou ao ver sua palidez-. Que outros problemas há além dos óbvios? Perguntou-lhe com
doçura.
-Era Tia Helene. Contou-me algo que meu próprio avô me ocultou todos estes anos.
Andrea se aproximou dele. Não podia suportar ver essa angustia em seus olhos.
- E o que é?
-Meu pai sempre foi um homem muito sóbrio em seus costumes, mas desde que me parti bebe sem moderação.
Andrea não podia fingir surpresa ante essa triste revelação. Um homem bom que tinha impedido que um filho de seu próprio sangue voltasse para casa.
Entretanto, estava convencida de que tinha que possuir notáveis virtudes, do contrário nunca teria criado a um filho tão excepcional como Gabe.
De algum jeito o fazia mais humano, mas isso não apagava o fato de que sofria um terrível vício.
-Não é de se estranhar que Jacques esteja deprimido. Nestas circunstâncias é providencial que tenha voltado para casa.
-Nunca devia ter te arrastado a este pesadelo-disse com as mandíbulas apertadas enquanto que lhe apertava os ombros.
Se Gabe pensava que a situação era mais do que ela podia suportar e decidia colocar-la no primeiro avião de volta já poderia repensar-lo, pensou enaquanto
elevava o queixo com orgulho.
-Deu-me uma opção, recorda? De fato, pintou um quadro tão sombrio do que teria que confrontar se me casava contigo que me atreveria a dizer que qualquer outra
mulher teria fugido de ti. Mas eu não sou outra mulher, eu sou eu -declarou com a voz rouca-. Assim, a menos que nossa relação não funcione e concluamos que não
há futuro para nós, ficarei aqui.
-Mon Dieu, Andrea você é o único funciona atualmente.
-Então não me exclua. Me deixe te ajudar-implorou-. Tinha razão respeito de Jacques. Sua volta lhe faz feliz e me tem feito sentir bem-vinda.
-Graças a Deus -murmurou antes de estreitá-la entre seus braços.
Não era o abraço de um amante. Necessitava a alguém em quem confiar além do círculo familiar.
E se isso era tudo o que Gabe lhe ia pedir, que assim fosse. Era sua razão de ser, portanto ela faria algo por ele.
-Seu avô está preparando o jantar. Acredito que deveria ir ajudar-lhe.
-Seguro que lhe agradecerá isso, enquanto isso irei dar uma volta de bicicleta. Chegarei a tempo para jantar -disse antes de beijá-la rapidamente nos lábios
e sair apressadamente da habitação.
A cozinha e o alpendre traseiro se comunicavam por meio de uma porta de vidro. Enquanto Jacques revolvia algo na caçarola ela viu que Gabe desaparecia montado
em uma bicicleta que tinha conhecido tempos melhores. Então se precipitou à janela sobre a pia. Vestido com jeans e o pulôver que tinha usado no avião, pedalava
com a rapidez e graça de um verdadeiro atleta. Sua figura era excitatemente masculina. Andrea o olhou até que se perdeu de vista pelo caminho.
De repente sentiu o leve toque de uma mão sobre um ombro.
-Você ama a meu neto por si mesmo e não pelo que tem. É uma bênção sabê-lo.
-É minha vida, Jacques, mas não te engane. Gabe de algum modo tinha que enfrentar-se à dor e à culpa. Não se casou comigo por amor. Fez-o para me ajudar a
ter um filho.
-Mas Gabriel se casou contigo -disse e seus olhos faiscaram divertidos-. E certamente que quer ter um filho. Essa é parte da razão pela que homens e mulheres
se casam.
-É certo, mas em meu caso ele tinha outro propósito. Verá, se não ficar grávida em seis meses terei que me submeter a uma operação que me impedirá de ter filhos
definitivamente. Casar-se comigo é sua maneira de fazer penitência por não havê-lo feito com Jeanne Marie.
- Falou-te do bebê?
-Sei que não era de Yves.
-Já não estou muito seguro disso -murmurou Jacques, com os olhos baixos.
- Por que diz isso? -inquiriu ela, com o coração lhe pulsando a toda pressa.
-Um momento -disse Jacques enquanto se dirigia ao fogão-. É hora de acrescentar os ingredientes mais importantes.
Embora morria em seu interior, Andrea não teve mais remédio que observar com paciência como vertia um pouco de vinho na caçarola.
-Seja o que seja que esteja cozinhando cheira maravilhosamente bem.
-É uma receita de minha mulher. Chamamo-lo bouillabaisse ao estilo bretão. Se levar o pão à mesa, eu me encarregarei dos copos e dos pratos.
Ela pôs o pão na mesa redonda situada em um rincão da cozinha.
-O bordado desta toalha é maravulhoso. Fez-o sua esposa?
-Sim, e todas as cortinas da casa.
-Teria dado algo por conhecê-la. Seu lar é encantador.
-É obra dela.
Minutos mais tarde, enquanto Jacques retirava a caçarola do fogão, ela insistiu:
-Jacques, por favor, me diga por que fez esse comentário.
O avô se voltou para ela e lhe indicou que se sentasse à mesa, frente a ele.
-Aí há algo que nunca ficou claro. Desde que Jeannie Marie se casou com Yves nunca tornou a me olhar nos olhos. Minha mulher foi a primeira em suspeitar que
as coisas podiam ser diferentes ao que pareciam -disse enquanto enchia os copos de vinho.
- O disse ao pai de Gabe?
-Tentamo-lo, mas ele se negou a escutar algo que pudesse pôr em dúvida o julgamento de Jeanne Marie. Havia uma boa razão para isso -acrescentou com um suspiro-.
Verá, quando nosso filho Giles tinha vinte anos, talvez um pouco mais, dava-se por certo que se casaria com Evangeline Duprex, a mãe de Jeanne Marie.
- O que? Quer dizer que ambas as mulheres...?
-Oui. Ambas as mulheres hão sentido uma atração fatal, uma por meu filho e a outra por meu neto. Mas o destino se interpôs quando Giles ficou imobilizado no
aeroporto de Halifax com outro passageiro que resultou ser uma formosa mulher americana, como você. Giles se apaixonou a primeira vista e trouxe Carol para conhecer
a família. Seu matrimônio foi um duro golpe para Evangeline. Resultado disso foi que as duas famílias se separaram. Verá, Evangeline e Cecile eram íntimas amigas
de infância e ainda o são.
- Posso entender que Giles não queria voltar a ferir Evangeline através de sua filha, mas esse assunto danificou a vida de Gabe!
-Assim é-assentiu o velho-. Além do fato de que o bebê fosse de Gabe ou de Yves, eu gostaria de pensar que meu filho pediu a Gabe que se afastasse porque no
fundo não queria que se casasse com Jeanne Marie. Sabia que Gabriel não estava apaixonado pela moça. Conheço bem ao Giles e sei que não podia condenar a seu filho
a um matrimônio sem amor. É o mesmo que teria passado a ele se tivesse casado com Evangeline.
-Sim, tem razão no que diz. Gabe não é o único que viveu um inferno durante todos estes anos.
-Quando Carol se divorciou dele, Giles ficou destroçado. Em seguida Gabe partiu. E após ninguém foi feliz -murmurou Jacques.
-Não me surpreende que seu filho tenha problemas com a bebida.
- Sabe? -perguntou, com o cenho franzido.
-Sua filha o contou a Gabe faz um momento. Estou segura de que por isso partiu tão depressa. Tanta dor e culpa podem destruir a uma família. Isto tem que acabar!
-exclamou Andrea. Jacques lhe bateu no braço em um gesto de consolo-. Me diga Jacques, a mãe de Gabe deixou de amar a Giles?
-Não. De outro modo teria levado os meninos. Vem todos os meses e às vezes cada quinze dias a visitar seus filhos e a seus netos. Pelo modo que olhe a Giles
e ele a ela... Nenhum se tornou a casar, inclusive quando Evangeline enviuvou faz dez anos e fez o impossível para conquistar a Giles.
- Por que se divorciaram então?
-Esse é outro tema que meu filho nunca me confiou; mas nunca devia ter acontecido.
Andrea ouviu que se abria a porta e ao levantar a vista viu que Gabe entrava na cozinha.
- O que acontece? Por sua expressão presumo que algo sério tem que ter acontecido quando estava fora. O que é?
-Sua mulher me falava de seu temor de não poder ter um filho.
"Obrigado, Jacques", pensou Andrea.
-Ainda temos tempo antes de começar a preocupar-se -comentou Gabe enquanto escrutinava o rosto de Andrea.
-Vá lavar as mãos antes de comer, minha menina -disse Jacques enquanto se levantava da mesa.
Enquanto Gabe o fazia, Jacques verteu a sopa de pescado nos pratos. Vinte minutos mais tarde terminaram o delicioso jantar com fruta e queijo.
Embora os homens falavam da pesca, ela poderia assegurar que seu marido não tinha ficado satisfeito com a explicação de Jacques. Não tinha a menor duvida de
que a ia interrogar quando estivessem a sós. Mas não tinha intenção de lhe ocultar nada.
-Durante meu passeio passei perto da nova planta processadora -comentou Gabe.
-É uma lástima que essa companhia não se tivesse aberto antes. Embora trezentos postos de trabalho significam muito para aqueles pescadores afetados pela moratória
da pesca de salmão mais à frente do limite das doze milhas marítimas.
Andrea sabia que sem a ajuda de Gabe a crise econômica da ilha seria especialmente dura já que a pesca era o único meio de subsistência para seus habitantes.
- Desde quando se proíbe pescar salmão livremente? -perguntou Andrea.
-Desde a aprovação de uma lei em 1999 -disse Gabe.
-Bertrand e Philippe conseguiram emprego como distribuidores da nova companhia. E os salários são excelentes -comentou o avô.
-Me alegro por eles -disse Gabe, com um estranho sorriso.
Andrea intuía que Gabe se sentia secretamente agradado. Seus esforços por ajudar à família começavam a dar resultados.
-Suas mulheres não estariam de acordo contigo se lhe ouvissem. Não gostam que seus irmãos viajem tanto.
- Para onde têm que viajar, Jacques? -perguntou Andrea
-Onde possam abrir novos mercados. Canadá e a Costa Leste dos Estados Unidos estão saturados assim que se dedicaram a captar clientes no interior desse país.
-Estou segura de que os irmãos de Gabe não teriam nenhum problema se vendessem exclusivamente aos donos de pequenos restaurantes evitando aos intermediários.
Digo-o porque no interior dos Estados Unidos a maioria dos restaurantes oferecem um tipo de pescado que tem sabor de cartão. E é porque o mantêm em frigoríficos
durante longas temporadas.
Os olhos de Gabe brilharam inesperadamente antes de lhe apertar a mão.
-Minha esposa empresaria. Agora já sabe por que a nomeei chefe de engenharia de programação, avô.
-É melhor que não se aproxime da planta porque vai revolucionar tudo e não a verá nunca -brincou Jacques.
-Não há nenhuma possibilidade -replicou Gabe enquanto acariciava a mão de Andrea-. Temos outro projeto que vai ocupar grande parte de nosso tempo. Verá, compramos
uma casa. E terá que restaurá-la.
-Compreendo -murmurou o avô com expressão de tristeza-, onde?
-Considerando que está em St. Pierre não fica longe da tua.
A tristeza do ancião era evidente. Estava claro que tinha esperado que Gabe ficasse com ele.
Andrea pressionou os dedos de seu marido para lhe rogar que não o mantivera em suspense por mais tempo.
-Tem que estar no outro lado da ilha, perto da planta nova. Digo-o porque deste lado ninguém deixa sua casa a menos que seja a outro membro da família-comentou
Jacques.
-Algumas vezes fazem uma exceção e com maior razão se se tratar do neto do melhor amigo da família.
Jacques ficou paralisado na cadeira e o olhou durante um longo instante.
- Você comprou a casa de Gorky? -perguntou, finalmente.
-Sim, e disse na imobiliária que sua vida não valeria nada se esquecia de advertir à esposa de Gorky que não te dissesse nada até minha chegada.
Com os olhos cheios de lágrimas o avô elevou as mãos até as bochechas de Gabe, certamente da mesma maneira que o fazia quando o neto era pequeno.
Foi um desses doces momentos que permaneceriam toda a vida na memória de Andrea.
-Depois de lavar os pratos, quer nos acompanhar a dar uma volta no carro novo? Quero mostrar a ilha a Andrea antes de que anoiteça-sugeriu Gabe ao avô.
- Que carro? -perguntou Andrea.
-Que está diante da casa. Comprei-o na semana passada e pedi que me trouxessem-o esta tarde.
- Vão vós e desfrutem enquanto resta um pouco de luz. Eu limparei a cozinha e em seguida irei falar com Karmele -disse o avô, muito excitado.
Andrea limpou a mesa antes de correr escada acima, escovar o cabelo e pintar os lábios.
Mais tarde, Gabe a ajudou a subir no carro azul de quatro portas.
Quando já haviam partido, Andrea não pôde evitar de lhe dizer:
-Converteste ao seu avô em um homem novo. É uma pena que não tivesse decidido voltar enquanto sua avó vivia.
Ele lhe dirigiu um intenso olhar fugaz.
-Se o tivesse feito não te teria conhecido.
Ela conteve a respiração.
-Gabe, não precisa fingir quando estamos sozinhos.
- Quem está fingindo?
-Seu avô acredita que o nosso é amor, mas ambos sabemos que não é assim.
-Como te disse em Paris, nos temos confiança e admiração. É a única mulher que desejei trazer para casa. E quanto mais te conheço mais seguro estou que será
uma perfeita mãe para nosso filho.
-Sim é que o temos -murmurou enquanto baixava a vista.
-Não há "se" que valha a pena. De que mais falou com meu avô enquanto eu passeava?
Andrea pensou que talvez o avô lhe tinha contado tudo com a esperança de que o compartilhasse com Gabe.
-Seus avós pensavam que Jeanne Marie pôde ter mentido quando contou a seu pai que esperava teu filho.
Ao ouvir essas palavras Gabe freou com tanta brutalidade que o veículo se deteve perigosamente perto do muro de pedra que separava a estrada da água.
- Quanto tempo tem essa suspeita?
Sua voz soou como se saísse de uma caverna subterrânea.
-Verá.... -começou Andrea e lhe narrou sem interrupções toda a conversação sustentada com o avô. Quando terminou estava muito escuro para ver claramente a
expressão de Gabe.
- Quer dizer que o avô acredita que papai quis que me afastasse por temor a que me sentisse obrigado a me casar com Jeanne Marie?
-Sim, Jacques me contou a história entre Evangeline e seu pai. Quando se casou com sua mãe em lugar de fazê-lo com ela, houve problemas. Depois do que seu
pai teve que passar, posso compreender que tivesse temido que te casasse com uma mulher que não amava. É lógico que tentasse te ajudar da única maneira que podia
fazê-lo.
- Não sei qual é a verdade, mas com toda certeza vou averiguar-la! -exclamou Gabe depois de um juramento. Em seguida deu a volta em direção à casa-. Perdoe-me,
Andrea, mas o passeio terá que esperar.
-Entendo-o -sussurrou-. Tenho que desfazer as malas.
-Provavelmente chegarei tarde. Não me espere-disse quando chegaram ante a casa de Jacques.
Felizmente o avô ainda estava com sua vizinha e não pôde ver o rosto de Andrea, banhado em lágrimas, enquanto se precipitava ao dormitório.
O Petit Mann sempre tinha sido o lugar de reunião dos homens mais velhos.
O letreiro de madeira que representava um garotinho vestido de marinheiro sentado em um molhe ainda estava pendurado do beiral da porta.
Gabe entrou. Nada tinha mudado em todos esses anos. Seus olhos percorreram a estadia fracamente iluminada.
Jacques sempre lhe tinha enviado fotografias, de modo que Gabe estava ao dia das mudanças que se operaram nos membros de sua família. As fotos mais recentes
de seu pai mostravam a um homem de têmporas grisalhas e uma considerável barriga. Tinha pensado que comia em excesso, mas nesses momentos já sabia a que se devia
o sobrepeso.
O dono do bar escrutinou a Gabe antes de saudá-lo.
- O que vai tomar?
-Procuro Giles Corbin, mas não o vejo.
-É estranho. Está acostumado a estar aqui a esta hora, mas hoje não veio.
-Merci -disse antes de partir apressadamente.
Depois de subir ao carro, conduziu a outro setor da ilha onde atracavam as embarcações maiores e os navios de arrasto. Todos estavam ali, inclusive o de seu
pai.
A visão do Alouette levou a sua memória um rio de lembranças. Embora estava claro que seu pai teria que ter renovado a embarcação.
Gabe subiu a bordo e em seguida desceu pela escadinha ao interior onde esperava vê-lo jogado sobre a mesa com uma garrafa de vodca vazia no chão.
- Papai?
Mas não estava ali e tampouco no camarote.
Com uma sensação de derrota, Gabe conduziu de volta a casa de Jacques. Graças a Deus que Andrea o esperava. Necessitava esses braços em torno de seu corpo
e sua boca ávida sobre a sua.
Seu desespero por ser mãe a convertia na amante sonhada pela maioria dos homens. A qualquer hora da noite ou ao amanhecer sempre estava preparada para ele,
e prodigalizava seus beijos e carícias com avassaladora paixão.
Além de toda a dor que tivesse sofrido em sua vida, Gabe sabia que não seria nada comparado ao que teria que sofrer se o êxtase que lhe proporcionava tivesse
como único objetivo o desejo de conceber. De algum jeito teria que encontrar o modo de fazer que ela se apaixonasse por ele.
Se não fazia todo o possível para ajudá-la a adaptar-se a sua nova vida poderia perdê-la antes de que finalizassem os seis meses.
De maneira nenhuma podia permitir que isso ocorresse.
Depois de estacionar o carro, entrou precipitadamente em casa em busca de Andrea.
CAPÍTULO 6
Depois de desfazer a bagagem, Andrea se preparou para ir à cama e justo quando acabava de deitar-se viu que se abria a porta do dormitório.
Não esperava que Gabe voltasse tão cedo já que tinha ido ver seu pai e pensou que demoraria muitas horas. Algo devia ir mal.
- Gabe? -chamou alarmada enquanto se sentava na cama.
-Fique aí, mon amour -disse enquanto jfechava a porta-. Estarei contigo em um minuto.
Embora dito em francês, o carinhoso apelido a tomou de surpresa. Nesse momento não se parecia em nada ao condutor desenquadrado que fazia um momento a tinha
deixado em casa. Uma conduta tão diferente a do homem do qual estava apaixonada que lhe tinha feito vislumbrar a profundidade de seu sofrimento.
Andrea não sabia o que pensar, assim permaneceu em uma ansiosa espera até que o sentiu junto a ela na cama.
Imediatamente a rodeou contra seu corpo com tal urgência que ela sentiu que uma espécie de fogo líquido percorria seu corpo. Mais tarde, quando lhe havia feito
amor com uma refinação selvagem, embalou-a entre seus braços.
-Me perdoe por ter sido tão brusco contigo esta tarde -sussurrou.
-Não há nada que perdoar. Acabava de receber notícias que lhe deixaram destroçado. Achas que não o compreendo?
-De todos os modos minha conduta não tem desculpa, mas te juro que não voltará a acontecer. Você é a única pessoa a qual nunca quereria ferir.
-Não me feriste. Me conte o que aconteceu.
-Fui procurar a meu pai nos lugares onde supus que poderia encontrá-lo. Mas devia ter pensado que provavelmente ficou em casa onde sabe que eu não teria a
ousadia de me apresentar -disse antes de beijá-la.
- E não te ocorreu pensar que poderia sentir-se ferido porque você decidiu ficar com Jacques em lugar de visitar a ele primeiro? -perguntou Andrea, depois
de uma pausa.
Gabe se separou dela com um suspiro.
- Assim sugere que devia ter ido diretamente a sua casa do aeroporto e obrigá-lo a encarar seus medos.
-Não, só pensava em voz alta -respondeu enquanto se inclinava sobre ele
-De todos os modos me tem feito tomar uma decisão -disse enquanto que delineava a boca feminina com o dedo indicador.
- E qual é? -perguntou, com o coração apertado.
-Pensava ir a sua embarcação antes do amanhecer e esperar sua chegada. Mas a essa hora já haverá outros pescadores e todos são amigos de meu pai. E aqui as
notícias voam. Não seria justo que ele ou meus irmãos se inteirassem por outras pessoas que estou no navio. Assim, meu coração, amanhã você e eu iremos passear e
passaremos o dia juntos. Na hora do jantar iremos visitar meu pai como qualquer casal de recém casados ansiosos por ver a família. E seja o que Deus quiser.
Andrea deixou escapar um som afogado.
- Não prefere ir sozinho? É sua primeira visita.
-Não. Tenho descoberto que necessito da minha mulher, e quero que me acompanhe em todas as etapas do caminho -murmurou antes de lhe beijar a palma da mão-.
Antes de ir passear iremos ao hospital para pedir um hora para o melhor ginecologista que nos recomendem.
-Neste momento não me passa nada.
-Isso está muito bem, mas quando ficar grávida será melhor que já conheça seu médico, não te parece?
-Sim, certamente. Obrigado por pensá-lo.
-Estiveste muito ocupada com meus problemas. É hora de nos centrar em ti e no menino que vamos ter. Se conhecer bem ao meu avô, estou seguro que já se pôs
de acordo com Karmele para que passamos dar uma olhada à casa. Uma vez dentro poderemos decidir onde arrumar o quarto do bebê.
Gabe estava convencido de que ficaria grávida nesse mês e Andrea temia que se afundasse tanto como ela se lhe chegava o período. Saberia em menos de dez dias.
- Em que pensa, Madame Corbin?
-Em muitas coisas -respondeu com um suspiro.
-Vêm aqui -sussurrou em um tom muito sensual.
Quando a boca de Gabe procurou a sua, Andrea se sentiu cativa do êxtase que só seu marido podia lhe proporcionar.
Alguém chamou brandamente à porta.
-Gabriel.
Assim Gabe não tinha sonhado que seu avô o chamava. Que horas eram? Eram seis e quarenta e cinco. Provavelmente ia pescar e queria lhes avisar, mas teria deixado
uma nota. Não, certamente tinha outro motivo para perturbá-lo a essa hora.
Gabe se deslizou da cama com cuidado para não despertar a Andrea. Fizream amor toda a noite e tinha que estar exausta. Foi nas pontas dos pés ao banheiro paraa
procurar seu ropão. Logo saiu da habitação e fechou a porta atrás de si.
-Giles está lá embaixo. Vou à padaria --murmurou Jacques com uma mão no braço de Gabe.
De todos os cenários possíveis para um encontro, nunca imaginou que seu pai o fosse procurar ali e o surpreendesse com a guarda baixa. Como um sonâmbulo seguiu
ao seu avô.
E aí estava seu pai, esperando-o ao pé da escada.
Tinha sessenta anos, mas parecia dez anos mais velho, com um aspecto pior e vagamente desarrumado.
Nesse instante não notou que seu avô tinha desaparecido porque só via duas coisas: temor e súplica nos escuros olhos marrons de seu pai.
-Gabriel -balbuciou--. Tem todo o direito de me desprezar. Mas quero que saiba que desde que te pedi que não voltasse para casa pensei em ti em todas as horas.
Hei sentido a presença de meu filho-disse com o queixo tremente enquanto se apoiava no corrimão. As lágrimas corriam por suas bochechas-. Não mereço nada, meu filho,
mas milagrosamente a Virgem Santíssima me permitiu viver o suficiente para poder te olhar e comprovar por mim mesmo que te converteste em um homem esplêndido. E
agora já posso morrer.
De repente, como uma revelação Gabe soube que seu pai tinha sofrido mais do que ele tivesse podido imaginar. Gabe continuou baixando a escada em direção a
ele.
- E por que desejaria morrer?
-Porque sou seu pai e te falhei, embora estava convencido de que o fazia por seu bem.
-Acredito-te.
Todo esse tempo Gabe tinha acreditado que o afastou para proteger a Yves. Mas Andrea o tinha obrigado a considerar a confidência do avô a respeito de que Giles
não tinha querido que se sentisse obrigado a casar-se com Jeanne Marie.
-Fiz-te mal, Gabriel. E era quão último tivesse desejado fazer. Não há perdão para isso. Senti a tua falta .. e já não se pode voltar atrás-conseguiu dizer
antes de romper em soluços que chegaram à alma de Gabe.
-É verdade, papai. Mas ficam muitos anos para estarmos juntos -murmurou com um nó na garganta-. Não podemos mudar o passado. Ficou para trás, onde deve estar.
- O que estás dizendo? -perguntou Giles, angustiado.
-Vim para ficar porque aqui é onde se encontra minha família. E aqui é onde quero ver crescer a meus próprios filhos.
-Mas agora é um homem importante com enormes responsabilidades. Não tem nada que fazer aqui.
- Deixaste que me querer, papai?
-Quero-te muito. Esse foi o problema-declarou com os olhos arrasados em lágrimas.
-E eu nunca deixei que te querer, pai.
-Gabriel...
A incredulidade de sua voz soou como um gemido. Gabe o estreitou entre seus braços.
-Não há nada que perdoar, papai. Sou culpado por ter estado longe tanto tempo. O orgulho me impediu de te chamar.
-Não. Pensou que eu já não te queria. Teve medo de te comunicar comigo por temor a um rechaço. E me aterrorizava o que te tinha causado sem intenção. Pensei
que estava melhor sem mim, assim resisti a tentação de te chamar. Mas o desejava tanto! Em troca, chamei seu avô. Ele foi a ponte que me manteve unido a ti.
-Eu também utilizei ao meu avô com os mesmos fins. Tinha que saber como estava. E agora que ambos sabemos a verdade, quero voltar a formar parte da família.
Me diga, como soube que tinha chegado?
-Jacques chamou para me dizer isso.
-Então me deixe ser o primeiro em te anunciar que minha esposa veio comigo. Faz seis meses que trabalha para mim na empresa. Durante a primeira entrevista
senti algo por ela que não experimentei nunca com outra mulher. Mais tarde, converteu-se em minha engenheira chefe de programação, mas ainda não era suficiente para
mim. Assim faz dez dias me casei com ela em Nova Iorque.
- Bravo! -Exclamou Giles enquanto voltava a abraçá-lo-. Sabe sua mãe?
Seu divórcio era outro mistério. Especialmente desde que para Gabe tinha ficado claro que seu pai ainda a amava.
-Sim. Na semana passada falamos por telefone da casa dos pais de Andrea onde passamos uma semana depois do casamento. Diz que virá para conhecê-la quando estivermos
instalados em nossa própria casa.
- Sua própria casa? -Murmurou enquanto que se arranhava a cabeça-. Vais instalar uma filial de sua empresa na ilha?
-Vamos à cozinha para tomar café e lhe explicarei isso tudo. Temos anos para nos pôr em dia e há assuntos importantes que quero discutir contigo sobre o futuro
da ilha -disse enquanto se dirigiam à cozinha.
Os olhos de seu pai brilharam com uma nova luz.
-Parece-me muito bem.
Jacques já tinha preparado o café. Gabe pôs na mesa uma parte de pão da noite anterior enquanto Giles tirava as xícaras do armário.
Ao olhar para seu pai que molhava uma parte de pão no café como o tinha feita centenas de vezes anteriormente, teve uma sensação de abandono até que um tanto
diferente. Nesse momento sentia uma camaradagem com seu pai que era nova para ele. Já não se sentia culpado por ser diferente de seus irmãos. Quanto a seu pai, ao
que parecia, Gabe já não lhe intimidava.
-Pensamos em nos mudar para a casa de Gorky logo que Karmele parta. Precisamos nos estabelecer quanto antes. Andrea tem um problema de saúde do qual já te
voufalar e tenho que ajudá-la a adaptar-se a sua nova vida. Bem sabe quão difícil foi para mamãe. Eu gostaria que me aconselhasse a esse respeito.
- Pede-me conselho sabendo que sua mãe me deixou?
-Sim.
-Eu também falhei com ela, mon filis.
- De que maneira?
-Não me pergunte isso.
Andrea despertou em uma cama vazia. Gabe devia ter pensado que precisava dormir depois da longa noite de paixão.
A intensidade do encontro amoroso quase a fez acreditar que Gabe começava a implicar-se emocionalmente, mas ela não esquecia seu sentimento de culpa pela brutalidade
com que a tinha tratado anteriormente.
A ausência de Gabe lhe permitiu lavar o cabelo e colocar um vestido novo para o passeio dessa manhã. Era um vestido branco de verão com mangas curtas, com
um estampado em um suave tom lavanda. Tinha comprado umas sandálias brancas que faziam jogo com o vestido.
Antes de partir de Nova Iorque, seu estilista lhe tinha feito um bom corte de cabelo de modo que tudo o que tinha que fazer era secá-lo e logo escová-lo. Uma
vez vestida, deu-se um toque de batom rosa nos lábios e um suave perfume floral.
Certamente durante o passeio pela ilha as pessoas reconheceriam a Gabe e queria que estivesse orgulhoso dela.
Quando descia a escada ouviu vozes masculinas. Embora não pôde ouvir com claridade o que diziam, estava claro que desfrutavam da conversa.
-Bonjour, Jacques -disse em seu melhor francês ao entrar na cozinha.
Os homens ficaram de pé. Os olhos cinzas de Gabe lhe lançaram um olhar tão íntimo que lhe fez pulsar o coração com força, mas não foi senão até que seu olhar
se voltou para avô quando se deu conta de seu engano.
Ante ela havia uma versão mais jovem de Jacques. Andrea deixou escapar uma exclamação afogada.
-Mon amour, este é meu pai, Giles Corbin. Papai, esta é Andrea, minha esposa.
-Bem-vinda -saudou Giles enquanto que a abraçava com simpatia e a beijava três vezes em ambas as bochechas -. Meu filho me parece mais do que acreditava. Podemos
ser bretães da cabeça aos pés, mas parece que só uma formosa mulher americana possui a chave de nosso coração -declarou, claramente comovido.
Andrea pensou que se equivocava. O coração de Gabe não estava comprometido, embora nesse momento não tinha nada que ver com ela. Era o momento de um pai e
um filho que voltavam a encontrar-se depois de anos de sofrimento. E quis chorar de alegria.
-Obrigado -disse enquanto estudava os traços que a dor tinha deixado nesse rosto arrumado cuja estrutura óssea tinha legado a seu filho-. Tinha muitos desejo
de conhecê-lo. Sabia que um homem tão extraordinário como Gabe devia ter uns pais maravilhosos.
-Vamos reunir a toda a família para celebrar sua volta, mon filis. Todos devem conhecer Andrea.
Gabe rodeou os ombros da jovem e a atraiu para seu corpo.
-Tia Helene chamou ontem à noite e sugeriu o mesmo. Disse-lhe que primeiro queria ver-te.
-Chamarei-a enquanto vocês visitam a ilha. Reuniremos às sete.
- Não se vá! -disse Andrea impulsivamente-. Gabe e eu temos meses para percorrer a ilha.
- Anos! -corrigiu seu marido com tanta intensidade que a deixou pasmada.
Embora não deveria ser assim, posto que Gabe tentava que todos acreditassem que estavam apaixonados e planejavam viver juntos para sempre.
-Yves me espera no navio. Gabriel me falou que sua batalha contra a endometriose. É muito mais importante que vá ao hospital nesta mesma manhã, como o tinham
programado. Falei com Gabe do doutor Marais, um novo ginecologista. Lucie foi ver-lo quando teve problemas durante a última gravidez. Depois de descobrir do que
se tratava encontrou a solução imediatamente. Estará em boas mãos.
-Alivia-me ouvir isso, Monsieur Corbin.
-Por favor, me chame Giles, ou melhor papai.
-Papai, então.
-Merci, ma belle -murmurou antes de voltar a beijá-la em ambas as bochechas.
Enquanto beijava a seu filho carinhosamente, os olhos de Gabe encontraram os de Andrea. Havia neles uma ternura que ela nunca tinha visto e seu corpo se estremeceu.
Logo acompanharam ao pai até a porta. Giles tinha estacionado seu carro atrás do de Gabe. Antes de que o pai entrasse em seu veículo, viram que Jacques se
aproximava pedalando com duas barras de pão sob o braço. Deteve-se para falar com seu filho que o abraçou com força enquanto ainda estava na bicicleta.
-Estou tão contente por ti, Gabe -disse Andrea.
A mão rodeou com mais força seu quadril.
-Começamos com bom pé, mas sigo sem saber o que aconteceu faz anos. Não descansarei até descobrir a verdade.
-Pensei que tinham feito as pazes.
-Papi e eu decidimos deixar o passado para trás, mas isso é tudo o que temos feito. Não lhe fiz perguntas e ele não deu respostas.
Nesse momento, Andrea se deu conta de que Jacques fazia que Giles fosse à casa. Também foi Jacques o que lhe confiou suas suspeitas a respeito da paternidade
do filho para que ela o contasse a Gabe. Sem a ajuda do avô, as relações entre o pai e o filho ainda estariam em ponto morto.
Estava-lhe agradecida por sua intervenção; entretanto, grande parte de sua alegria inicial se dissipou ao saber que Gabe tinha muitas perguntas que fazer e
que não descansaria até não esclarecer os fatos.
Ao longo de todo esse dia sua atuação como marido devoto foi irreprovável. Primeiro visitaram doutor Marais, e mais tarde deram um passeio pelo porto onde
havia lojas encantadoras e músicos ambulantes. No museu Arche, Gabe foi o guia perfeito. Ela desfrutou de cada minuto junto a ele.
Mas atrás da fachada havia um homem entregue a uma missão. Ao cair da tarde, ela poderia ter assegurado que contava os minutos que faltavam para a festa familiar.
Gabe ficou um traje cinza formal para a ocasião e o avô um azul marinho. Andrea tomou banho e em seguida colocou um vestido preto de seda sem mangas com decote
mandarim que seu marido lhe tinha comprado como presente de casamento e que tinha insistido que usasse na festa.
Quando apareceu ante ele, os olhos de Gabe flamejaram de paixão antes de baixar a vista. Ela sentiu que uma onda de calor se apoderava de seu corpo ao notar
o olhar de seu arrumado marido. Imediatamente recordou a intensa noite passada e a paixão insaciável de Gabe.
Às sete em ponto, estacionaram atrás de uma fileira de carros perto da casa de Tia Helene, no outro lado da ilha. A moradia era de estilo de rancho com a fachada
amarela.
Antes de que seu marido lhe abrisse a porta, Andrea viu dois homens morenos, muito parecidos com Gabe e iguais entre si, que se aproximavam sorridentes ao
carro.
Emocionada, contemplou o encontro dos irmãos entre abraços, beijos, risadas e gritos de alegria. Eram homens feitos e direitos. Quando Gabe partiu da ilha
só tinham dezesseis anos.
Atrás deles viu que outro homem descia a escada do alpendre. Parecia maior que eles, embora com os mesmos traços familiares e tão alto como Gabe. Era Yves.
O homem vacilou um segundo antes de unir-se a eles e dar as boas-vindas ao segundo filho dos Corbin.
-Enquanto os meninos se saúdam, levarei-te ao interior para te apresentar à família -disse Jacques enquanto ajudava a Andrea a descer do carro.
-Obrigado, Jacques.
O avô enlaçou seu braço com o dela e a guiou para a casa.
Nesse momento, uma mulher morena de expressivos olhos escuros e lábios protuberantes saiu ao alpendre. Seus olhos se pousaram famintos sobre Gabe. Jeanne
Marie.
A moça que tinha dormido com Gabe antes que ela. A moça casada com Yves, o irmão mais velho, uma lembrança constante do homem que não pôde ter.
Andrea tinha pensado que não lhe incomodaria conhecer a mulher do passado de Gabe. Mas se equivocou. E de que maneira!
CAPÍTULO 7
Ao que parecia, Jacques notou o tremor de Andrea porque a atraiu para si em um gesto protetor enquanto subiam a escada onde se encontrava a mulher, imóvel,
como se estivesse congelada.
-Jeanne Marie. Esta é Andrea, a esposa de Gabe.
Uns olhos escuros a brocaram com o olhar.
-Bonsoir.
-Bonsoir, Jeanne Marie. Enchantée de faire lha connaissance -saudou Andrea enquanto que alargava a mão.
A mulher não teve mais alternativa que estreitar-lhe.
Com a extremidade do olho, Andrea percebeu um brilho de aprovação no olhar de Jacques. Também conseguiu ver Giles que, como seu pai, levava um traje azul escuro
e gravata.
A julgar por seu amplo sorriso, também tinha visto a cena e parecia muito agradado com a resposta de Andrea. Então lhe abriu os braços e Andrea se refugiou
neles.
Como guardas de honra, os dois homens a escoltaram dentro da casa onde teve que enfrentar-se ao resto da família.
Se não fosse por Jacques e Giles a experiência teria sido muito incômoda. Os meninos estavam anormalmente tranqüilos. Os adultos a saudaram com educação, mas
sem simpatia.
Uma vez feitas as apresentações, Helene a levou a bufê disposto no refeitório e insistiram em que se servisse primeiro já que era a convidada de honra. Todos
os olhos estavam cravados nela quando pôs um pouco de tudo em seu prato.
Sentiu-se aliviada ao ver que um par de jovenzinhos a seguiam à sala de estar e se sentavam a seu lado no sofá. Eram os gêmeos, filhos de Yves e Jeanne Marie,
um menino e uma garota em idade de ir à escola. Andrea pôde sentir a curiosidade refletida em seus rostos.
-Faz anos que não comia este pescado. Está delicioso.
-Não está mal -conveio Robert, com um forte acento francês.
- E o que comes? -perguntou Vivienne, com o mesmo acento de seu irmão.
Andrea ficou impressionada ao ver que todos se expressavam tão bem em inglês.
-Muita comida rápida. Hambúrgueres e coisas assim.
Os adolescentes sorriram e começaram a comportar-se de maneira mais natural.
- Quando trabalhava para Gabriel viajou alguma vez em seu jato privado? -Vivienne quis saber.
-Sim, umas três vezes.
- E por que não o trouxe para a ilha? -perguntou Robert.
Andrea observou que todos estavam atentos a conversa.
-Vendeu-o.
- Por que? -perguntou, muito surpreso.
-Porque Gabe vendeu sua companhia e se veio à ilha; aqui já não terá necessidade de viajar.
- É certo que tem casas em todo mundo?
-Não que eu saiba, Vivienne.
- Quantos guarda-costas tem?
-Não tem, Robert.
-Mas todos os multimilionários têm guarda-costas.
-Acredito que têm uma idéia equivocada de Gabe. Investiu seu dinheiro em negócios, não em coisas. A empresa Karsh Technologies comprou sua companhia. Gabe
já não é multimilionário. É como qualquer um de nós.
-Mas lhe pagaram...
-Destinou o dinheiro a obras benéficas.
Uma afogada exclamação de surpresa percorreu a sala de estar.
- Por isso não leva um anel com um enorme diamante?
-Suponho que sim, Vivienne. Mas me surpreendeu com esta aliança de ouro.
- Você se incomoda que agora seja pobre?
-Não, Vivienne, alegra-me.
- Como pode te alegrar? -perguntou Robert
-Porque na vida há coisas mais importantes que possuir mais dinheiro do que se necessita. Gabe tem saudades seu lar. E ama o mar.
- Desde quando? -perguntou Michel em tom zombador. Era filho de Helene e Auguste.
-Sempre -replicou com firmeza.-. Pode que te interesse saber que durante anos Gabe foi membro do Conselho Francês para a Pesca. Sabe mais a respeito do que
passou em St. Pierre e Miquelon que qualquer um desta comunidade.
- O Conselho Francês para a Pesca? -perguntaram os tios de Gabe.
-Isso. Sem sua intervenção nas disputas limítrofes, suas ilhas não teriam contado com os direitos de pesca dentro das doze milhas marítimas protegidas que
os canadenses planejavam lhes arrebatar.
A esse ponto, Michel deixou de comer e o mesmo fizeram os outros.
-Vá...
-Os empregos que desfrutam Bertrand, Philippe e centenas de ilhéus na planta procesadora de pescado se devem a Gabe -acrescentou com ênfase
- O que diz? É uma empresa francesa -interveio a tia Cecile.
-Tem razão, criada graças ao dinheiro e talento de Gabe.
O dinheiro de Gabe também respaldava o projeto de plataformas de perfuração petrolíferas que contribuiria com centenas de milhares de dólares e postos de trabalho
às pessoas da ilha. Mas essa informação guardou para ela. A família já tinha muito que assimilar com o que lhes tinha contado.
De fato, temia ter falado mais da conta. A Gabe não agradaraia. Ao ouvir vozes no refeitório, pôs-se a tremer. Gabe e seus irmãos estavam na casa. Felizmente
seu marido não entrou na sala quando ela proclamava suas surpreendentes virtudes.
Gabe levou uma cadeira do refeitório e antes de sentar-se atrás dela a beijou na nuca.
-Sinto te haver deixado sozinha com os lobos. Não voltarei a fazê-lo -sussurrou em seu ouvido.
Os irmãos também chegaram com suas cadeiras. O último foi Yves acompanhado de Jeanne Marie.
- Como foi que Tio Gabriel se casou contigo?-perguntou Paul, o filho de onze anos de Philippe que não tirava os olhos de cima dela.
-Trabalhávamos juntos e descobrimos que nos gostávamos.
- Mas você é americana!
-É certo, e você é francês. Nasci em Nova Iorque. Estiveste alguma vez ali?
-Não, mas meus pais me levaram a Montreal.
-Nunca estive ali. Você gostou?
-Sim, é grande.
-Nova Iorque também, mas eu gosto daqui por que é tranqüilo e o mar está em todas, partes.
-Espera até ver a névoa -interveio Celeste, mãe de Paul.
-Gabe diz que pode ser muito densa.
-Os invernos aqui são horrorosos -interveio Cecile com um olhar intencionado.
-Também são terríveis em Nova Iorque. Às vezes os ônibus e os carros ficam presos na neve e o vento derruba o bonde elétrico, assim que o único que se pode
fazer é ficar em casa.
Giles escolheu esse momento para levantar do assento com um copo de vinho na mão.
-Agradeço ter vivido o suficiente para presenciar o dia em que meu segundo filho volta para lar. E o fato de que Andrea o acompanhe é outra bênção. Bem-vindos,
moços -disse enquanto elevava a taça para eles antes de beber um gole.
-É maravilhoso estar de volta, papai. Não vejo a hora de voltar a pescar contigo -respondeu Gabe, com a voz enrouquecida-. Meus irmãos e primos cresceram e
têm esposas e filhos, entretanto, meus tios e meu avô não mudaram. Andrea e eu viveremos com ele até que Karmele parta, então mudaremos para essa casa que será nosso
lar. Se alguém quiser ajudamos a pintar e reparar o teto, não nos negaremos.
-Nós o faremos -Bertrand e Philippe exclamaram em uníssono.
-Obrigado pelo jantar, Tia Helene. Não há nada como a cozinha caseira. Quando estivermos instalados convidaremos a todos para provar alguma das receitas alemãs
de minha mulher.
-Acreditei que fosse americana -disse Paul, com o cenho franzido.
-Sou-o, mas meus pais provêm de Heidelberg.
-Têm uma loja de quebra-nozes em Scarsdale-acrescentou Gabe com uma estranha inflexão na voz que fez que Andrea se perguntasse o que estava tramando.
- Loja do que?
Sem responder, Gabe tirou do bolso a chave do veículo e a balançou ante os olhos de Robert.
-Vivienne e você podem abrir o porta-malas do Nissan e encontrarão umas caixas. Os pais de Andrea me enviaram isso. Há presentes para todos.
Enquanto os meninos se precipitavam atrás de Robert, Andrea olhou a seu marido, perplexa.
- Há algo de mal em fazer o Papai Noel em meados de junho? -perguntou Gabe enquanto que a beijava nos lábios.
-Nada absolutamente -respondeu com a voz embargada de emoção ao compreender que Gabe tinha comprometido a seus pais em segredo utilizando presentes da loja
para celebrar sua volta para casa.
Quando os meninos entraram com duas grandes caixas, Gabe passou dez minutos de joelhos procurando pacotes e lendo o nome dos destinatários com o entusiasmo
de um menino.
Muito em breve o ambiente se animou enquanto cada um descobria seu presente. Havia quebra-nozes que representavam diversas figuras e outros objetos encantadores.
Todas procediam da Selva Negra. Eram peças artesanais de madeira e pintadas à mão.
-Este pacote é para ti -murmurou Gabe-. O faremos como no natal como uma lembrança de seus pais.
Natal? Andrea não sabia se ainda estaria ali para essas datas. Depois de abrir o presente descobriu dois quebra-nozes. O Rei e a Rainha de Corações! Seus favoritos!
Durante anos tinham estado expostos na loja, mas seus pais nunca tinham querido vendê-los.
-Não posso acreditar que papai e mamãe se desfizeram deles -disse, com os olhos marejados.
-Tive que lhes prometer que em troca lhes daríamos um neto -sussurrou Gabe.
-Obrigado, Gabe. Não sabe o que isto significa para mim -murmuro ela enquanto se enxugava as lágrimas.
Antes de dar-se conta, Andrea se viu sitiada pelos meninos e os irmãos de Gabe, inclusive Yves. Todos a beijaram afetuosamente enquanto que lhe agradeciam
os presentes. Suas esposas fizeram o mesmo.
Jeannie Marie cumpriu sua parte como se não passasse nada, mas com um olhar turvo. Andrea sabia que ter que beijar à mulher de Gabe diante dele possivelmente
era o mais difícil que se viu obrigada a fazer.
-Sinto muito, deixamos sua sala em completa desordem, Tia Helene.
-Não te desculpe, Gabriel. Todo mundo ficou encantado. Bem-vindo a casa -disse enquanto o abraçava.
Enquanto os outros começavam a arrumar a habitação, Andrea foi ao refeitório para retirar os pratos da mesa para levá-los a cozinha.
Encontrou a Cecile carregando a lava-louça. Estavam a sós. Cecile a olhou por cima do ombro.
-Obrigado pelo presente, é muito bonito.
-O direi a Gabe, foi idéia dele.
-Não te parece em nada com mãe dele.
Andrea piscou.
- É que as pessoas têm que parecer-se? Sinto muito, não entendo.
-Ao menos você fala.
-Em outras palavras, a mãe de Gabe era mais tímida.
-Sim.
-Acredito que só tinha dezenove anos quando chegou à ilha. Eu tenho vinte e oito e trabalhei desde ostempos da universidade. Isso marca uma grande diferença.
-Talvez. Contou-te Gabriel o que houve entre ele e Jeanne Marie?
Andrea respirou fundo.
_Sempre te gostou de causar problemas?
Cecile fez funcionar a máquina.
-Ele sim que os causou. Não te incomoda saber que seu marido se deitou com ela? Que conceberam um filho?
Andrea não ia discutir com Cecile a respeito de Gabe ou de seu irmão.
-Entendo que há dúvidas em relação à paternidade do bebê. Depois de tudo pôde ter sido de outra pessoa.
Cecile deixou escapar uma exclamação afogada e se levou uma mão tremente à garganta.
- O que te contou Jacques?
-Não ocultou nenhum segredo, se refere a isso.
A mulher moveu a cabeça de um lado para outro.
- Como se inteirou o de Claude? -gaguejou.
- Andrea?
Ao ouvir a voz de Gabe, sua tia literalmente pôs-se a tremer. O temor refletido em seus olhos confirmou as suspeitas de Andrea.
Então girou a cabeça e viu seu marido na porta.
-Estive-te procurando coração, o meu avô está cansado. Acredito que deveríamos retornar para casa.
-Vou -disse antes de voltar-se para a mulher cujos olhos lhe imploravam silêncio-. Boa noite, Cecile. Foi um prazer falar contigo.
Depois de despedir-se de sua tia, Gabe rodeou os ombros de Andrea com um braço.
- Encontra-te bem? -perguntou, antes de lhe morder o lóbulo com suavidade.
-Sim.
-Não me minta. Cecile disse algo que te incomodou, verdade? Minha mãe estava acostumada a dizer que é venenosa.
-Neste caso me temo que por engano se envenenou a si mesmo.
- O que aconteceu?
-Há algo importante que quero falar contigo e com Jacques, mas quando estivermos a sós.
Quando Gabe arrancou o carro, Andrea se voltou para o assento traseiro.
-Jacques, quem é Claude?
-Um dos tios de Jeanne Marie, irmão de Evangeline. Por que pergunta?
- Vive na ilha?
-Não. Claude odiava o mar e não se levava bem com seu pai. Partiu para França faz anos e após ninguém o viu.
- Alguma vez se casou?
-Não, que eu saiba.
-Exatamente, recorda quando partiu? É muito importante.
Gabe lançou a Andrea um olhar interrogativo antes de lhe agarrar a mão.
-Recordo-o muito bem porque foram os tempos mais tristes de minha vida. Aconteceu no mesmo dia que se foi, Gabe. Sua avó e eu estávamos afligidos de dor, igual
a seu pai, ainda comovido por seu divórcio. Fomos a sua casa para tentar consolá-lo. Quando estávamos ali, Helene e Cecile chegaram com mais notícias tristes. Claude
também havia partido. Evangeline estava triste porque ele era seu único irmão.
Tinham chegado à casa, mas Gabe não se desceu do carro.
- O que é tudo isto, Andrea?
-Estou segura de que Evangeline estava triste, mas mais tinha que ver com o fato de que Claude era o pai do filho de Jeanne Marie.
- Cecile te disse que Claude tinha abusado de sua própria sobrinha? -inquiriu Gabe enquanto lhe apertava a mão com muita força,
-Lhe escapou acidentalmente.
-Nos conte tudo o que disse -murmurou Gabe com gravidade.
Andrea assim o fez.
-E então, quando entrou na cozinha, acabava de dar-se conta de seu deslize, mas era muito tarde para encobrir o segredo de Evangeline. Não esquecerei o terror
que havia em seus olhos.
-Agora cabe perguntar-se o que sabia papai disto e quando soube -comentou Gabe, em tom glacial.
Jacques se inclinou para frente e pôs uma mão no ombro de Gabe.
-Vá ver-lo e inteira-se da verdade de uma vez por todas.
-Farei-o -replicou Gabe com ferocidade.
-Não precisa descer conosco, Gabe.- disse Andrea com voz tremente-. Jacques e eu estaremos bem.
Mas Gabe os acompanhou até a casa e lhes abriu a porta. Jacques entrou com os presentes.
-Graças a ti poderei esclarecer este pesadelo. Você me faz bem, Andrea -murmurou antes de beijá-la nos lábios com firme doçura.
Andrea se estremeceu. Muito depois de que Gabe tivesse partido, ainda permanecia imóvel no alpendre.
Era o primeiro beijo que lhe dava livremente. Mas nunca esqueceria que o tinha feito por gratidão. Todos os outros beijos tinham sido motivados pelo desejo
de deixá-la grávida.
Entretanto, ao saber que o bebê de Jeanne Marie não era dele, a situação tinha mudado. Já não havia nenhuma razão para substitui-lo por outro filho.
Gabe já não a necessitava para ajudá-lo a conviver com sua família. Teria que deixá-lo em liberdade e assim poderia apaixonar-se por uma mulher da ilho, uma
mulher de seu entorno a que sua família também pudesse abraçar. Uma mulher sem problemas físicos que poderia lhe dar todos os filhos que ele quisesse.
- Andrea? Vem?
-Sim. Estava olhando o reflexo da lua no mar -disse enquanto entrava e fechava a porta com o trinco.
Juntos subiram a escada.
-Antes de que me esqueça, Karmele diz que podem ir ver a casa pela manhã. Boa noite, Andrea.
-Obrigado, Jacques. Boa noite.
Uma vez a sós em sua habitação, procurou o telefone móvel para chamar a seus pais.
- Mamãe?
-Andrea, carinho, justo neste momento falávamos de ti. Como está? -perguntou sua mãe.
-Esta noite houve uma festa familiar. Seus presentes foram um êxito.
-Gabe me deu uma lista. Diverti-me muito fazendo os pacotes.
-Quase não pude acreditá-lo quando vi o Rei e à Rainha de Corações, mamãe.
-Sempre pensei em lhe dar de presente quando encontrasse a seu verdadeiro amor.
-Há um problema, mamãe. Eu não sou o amor de Gabe. Cometi um engano.
- Que engano é esse? -ouviu-se a voz do pai pela outra extensão.
-Gabe não me ama. Casou-se comigo por outros motivos que já não existem.
-Gabe não é homem que tome decisões impensadas, filha.
-Seu pai tem razão. Nunca vi a um homem tão ansioso por ser seu marido -interveio a mãe.
-Era porque pensou que me necessitava. Mas esta noite soubemos que o filho que Jeanne Marie perdeu não era dele, assim já não me necessita para que lhe dê
um substituto -explicou Andrea, angustiada.
Ao ouvi-la, os pais ficaram perplexos.
-Acredito que é melhor que comece pelo princípio, carinho -sugeriu Karl Bauer.
CAPÍTULO 8
O carro de Giles não estava diante da casa onde Gabe se criou.
Então começou a procurar por seu pai por toda parte, decidido a encontrá-lo fosse como fosse. Inclusive foi ao bar Petit Mann, mas sem resultado.
Quase vencido, Gabe se deteve um momento para contemplar as escuras águas que refletiam a luz da lua cheia. De repente, seu instinto o impulsionou a ir à parte
mais solitária da ilha como última possibilidade.
Ao girar em uma curva viu o carro de seu pai junto a uma estação de rádio construída em uma colina. Depois de estacionar atrás do Peugeot de Giles, encaminhou-se
por volta do topo e logo descobriu sua silhueta perfilada pela luz da lua.
- Papai?
Giles se voltou bruscamente.
-Gabriel, por que não está em casa com sua mulher? -perguntou, surpreso.
Uma suave brisa lhes alvoroçava os cabelos e as gravatas. Depois de a tirar, Gabe a meteu em um bolso e em seguida se aproximou de seu pai para poder ver seu
rosto com mais claridade.
-Esta noite Cecile disse a Andrea algo que tem feito tremer meu mundo.
Giles fez uma careta.
-Minha irmã sempre foi difícil, inclusive quando era menina. Considerou que sua missão na vida é prejudicar a todos os seres que amo. O que posso fazer pelo
bem de Andrea?
-Quero que me responda uma pergunta. Quando te contou Jeanne Marie que estava grávida? Quanto tempo depois de minha partida?
Giles o olhou com seriedade.
-Foi Yves quem disse que estavam apaixonados e que queriam casar-se.
- OH, não! -murmurou Gabe fechando os olhos.
-Depois da amarga história entre a família de Evangeline e a minha por causa de minha negativa a me casar com ela, se me fazia intolerável a idéia de que sua
filha se convertesse na esposa de Yves. Com a esperança de dissuadir a seu irmão, sugeri que seria prudente que se tomasse um tempo para conhecê-la melhor já que
só fazia um par de meses que tinham começado a sair juntos depois de sua ruptura com Suzette.
- E então admitiu que ela estava grávida?
Giles assentiu.
-Custou-me acreditá-lo e lhe disse que queria falar com Jeanne Marie. Yves foi procurar-la. Para meu desgosto, chegaram em casa acompanhados de Evangeline.
Ela me assegurou que tinham visto o doutor LeBrun. Como definitivamente sua filha estava grávida pediu que se fixasse uma data para o casamento. Não tive mais remédio
que dar minha aprovação. Então o destino quis que Jeanne Marie sofresse um aborto espontâneo. Voltei a sugerir a Yves que postergasse o casamento uns poucos meses.
Desgraçadamente me acusou de odiar a Jeanne Marie por causa de Evangeline.
- Mon Dieu!
-Me afastar de Yves seria muito duro para mim depois de perder a sua mãe e sem saber quando voltaria, assim fingi ser um futuro sogro muito feliz. Uma semana
antes do casamento encontrei Evangeline me esperando junto a meu carro. Apenas quando a vi me dei conta de que haveria problemas. Disse-me que Jeanne Marie sempre
tinha estado apaixonada por ti, que era o pai do menino que esperava e que a tinha rechaçado. Acrescentou que temia que sua filha não fosse feliz em seu matrimônio
se não te mantinha longe de sua vida, especialmente depois de ter perdido a seu bebê. Assegurou que não havia dúvidas quanto à paternidade posto que te tinha visto
a sós com Jeanne Marie no navio no dia do festival basco, e que se tinha alguma dúvida chamasse o doutor LeBrun.
-Parece-me incrível.
-Advertiu-me que se não te mantinha longe da ilha, ela mesma contaria a verdade a Yves. Estou seguro de que ia cumprir sua palavra porque sempre quis me fazer
dano por ter preferido a sua mãe.
- Mon Dieu! -repetiu Gabe denquanto pensava que isso era justo o que o avô sempre tinha suspeitado.
-Quando te pedi que não viesse ao casamento, estava-te pondo a prova. Esperava que negasse ter tido relações com Jeanne Marie, mas não te defendeu.
Gabe tentou controlar suas emoções.
-Dormi com Jeanne Marie só uma vez. É certo, foi no dia do festival. Quando me disse que mamãe nunca voltaria. Essa noite fui ao navio e me embebedei. Recordo
que Evangeline estava ajudando Karmele na cozinha assim não pôde ter nos visto juntos. Jeanne Marie deve me haver seguido. Disse-lhe que voltasse para casa, mas
se negou. Disse que se inteirou do divórcio por sua mãe e que sabia o muito que eu queria a mamãe. Uma coisa levou a outra. Para ser sincero, não recordo muito bem
o que passou nessa noite, exceto graças a seus conselhos tomei precauções.
- Isso significa que não pôde ter-la deixado grávida! -exclamou Giles, consternado.
Nesse momento Gabe se deu conta de que realmente seu pai tinha sido enganado.
-Não, a menos que tivéssemos sido um desses casais de desafiam as estatísticas. Em um dado momento fiquei dormido. Quando despertei, ela ainda estava ali.
Eu não podia acreditar o que tinha feito. Era quase uma da madrugada. Antes de enviá-la para sua casa me desculpei e lhe disse que esquecesse o acontecido porque
tinha sido um grande engano.
- Por isso partiu para Nova Iorque dois dias depois? Porque se sentia culpado? Evangeline diz que essa foi a razão.
-Não, papai. Tudo o que Evangeline te contou foi uma mentira do princípio ao fim. Não pude aceitar que mamãe e você tivessem decidido se divorciar. Senti que
me caía o mundo em cima. Tinha que partir daqui.
- O que te tenho feito, Gabriel? -murmurou Giles, destroçado.
-Você não me tem feito nada. Foi Evangeline! Ela é a verdadeira culpada e durante anos utilizou a Cecile para que lhe fizesse o trabalho sujo.
- O que disse minha irmã a Andrea esta noite?-perguntou Giles enquanto se aproximava de Gabe, com os lábios apertados.
-Enquanto Cecile fazia o impossível por tirar a minha mulher da ilha, Andrea se enfrentou a ela pondo em dúvida a paternidade do bebê de Jeanne Marie. Naturalmente
que se referia a Yves. Mas Cecile não sabia e lhe escapou o nome de Claude como responsável pela gravidez de sua própria sobrinha.
-O irmão de Evangeline. Recordo que partiu da ilha ao mesmo tempo que você.
-Tem razão. Só Deus sabe desde quando esse pervertido tinha estado incomodando a Jeanne Marie. Evangeline sabia desde o começo e nunca o disse a ninguém. Seu
plano era responsabilizar a mim, assim enviou Jeanne Marie para Nova Iorque com a esperança de vê-la retornar com uma aliança no dedo.
- Jeanne Marie foi te ver em Nova Iorque? -disse Giles, consternado.
-Que seja dito em sua honra, não me disse que estava grávida. Só manifestou que estava apaixonada por mim e que desejava que voltasse para a ilha. Respondi-lhe
que não me interessava, que devia retornar e fazer sua própria vida. Se tivesse sabido que estava grávida não a teria abandonado. E pensar que nem sequer era meu
filho.
Nesse momento, o rosto de Giles estava lívido.
-Agora tudo tem sentido. Quando Jeanne Marie não pôde te ter, pôs os olhos em Yves. Não é de se estranhar que Evangeline temesse que assistisse ao casamento.
Poderia ter feito muitas perguntas e o plano teria fracassado.
Gabe assentiu.
-Tudo foi obra de Evangeline. Possivelmente Jeanne Marie se sentia tão assustada e culpado por algo que não era sua culpa que sua mãe soube manipulá-la para
que fizesse tudo o que lhe dizia. Essa garota necessita de um psiquiatra.
-E também Evangeline -exclamou o pai com um olhar furioso-. Quando soube que não podia me ter se engenhou para manter preso a ela através de sua filha.
- Crie que Yves sabe a verdade?
Os homens se olharam fixamente.
-Depois do que me há dito, ignoro-o. Mas sei que seu matrimônio funciona e que são bons pais.
-Então nunca direi nada a Yves. Isso só concerne a Jeanne Marie -declarou Gabe-. Teve algo que ver Evangeline com a partida de mamãe?-perguntou, depois de
uma pausa.
Giles demorou para responder.
-Indiretamente. Quando Jacques teve dificuldades econômicas, procurei um segundo trabalho. Evangeline me disse que seu pai poderia me contratar já que Claude
odiava a pesca. Assim fui trabalhar para ele. Como sabe, era um dos poucos homens acomodados da ilha. Deu-me a antecipação de um ano de trabalho que eu entreguei
ao seu avô. Fui o suficientemente ingênuo para pensar que o fazia por seu avô e porque eu era um bom trabalhador.
-Compreendo.
-Quando conheci sua mãe e me dava conta de que não poderia me casar com Evangeline, seu pai me despediu imediatamente depois de exigir que lhe devolvesse
o dinheiro com juros ou ia me demandar. Não havia modo de fazê-lo a menos que o conseguisse de um outro jeito. Não quis que Jacques ou sua mãe soubessem assim pedi
um crédito comercial com o propósito de criar visons para a exportação. Quando tive o dinheiro nas mãos, paguei até o último centavo ao pai de Evangeline. Embora
além disso trabalhasse na pesca, durante anos vivemos muito estreitamente porque o negócio dos visons nunca prosperou. O pagamento do empréstimo bancário nos deixou
na ruína.
-Não sabe como o sinto, papai.
-Espera, ainda fica o pior. Em uma das festas de Cecile, Evangeline estava presente e escolheu essa ocasião para contar meu segredo a sua mãe. Quando Carol
se inteirou da verdadeira razão pela qual tínhamos que lutar tão duramente ficou furiosa comigo porque seu pai podia emprestamos o dinheiro desde o começo. Acusou-me
de ter permitido que meu orgulho arruinasse nosso matrimônio. Pouco depois, anunciou-me que ia se divorciar. Isso era o que esperava Evangeline.
- Que horror!
-Sua mãe disse que não se levaria a seus filhos porque sabia que levavam a pesca no sangue e não seriam felizes em outra parte. Em troca, prometeu vir todos
os meses para estar perto de vocês. Suas visitas impediram meu desmoronamento definitivo.
- Pediste-lhe alguma vez que fique para sempre?
-Não. Teve que confrontar a adversidade todo o tempo que viveu comigo. Não tinha direito de lhe pedir uma segunda oportunidade.
-Ambos permitimos que o orgulho arruíne nossas vidas, papai. Mas se acabou!
-Acabou-se -murmurou Giles enquanto se abraçavam estreitamente.
-Espero que o diga de verdade -observou Gabe, finalmente-. Tenho que te fazer uma proposta de negócios que implica a toda a família. Andrea me deu a idéia,
embora ela ainda não sabe.
- Por que não me conta isso enquanto voltamos para nossos carros? Andrea deve estar perguntando-se onde está. Não cometa o engano de não tomá-la em conta.
Essa foi a falta que cometi até que foi muito tarde para repará-la.
-Não é minha intenção fazê-lo, papai.
De volta a casa de seu avô, Gabe sentia que necessitava desesperadamente falar com Andrea e contar-lhe tudo. Mas ao entrar no dormitório a encontrou profundamente
dormida. Teria que esperar até o dia seguinte.
Para evitar a tentação, permaneceu afastado dela na cama enquanto tentava assimilar as graves revelações que tinham saído à luz.
A manhã amanheceu ensolarada como todos os dias precedentes. Andrea colocou uns jeanss e um Top amarelo de algodão para ir passear ao porto na bicicleta de
Jacques.
Embora tinha muita curiosidade para saber os detalhes do encontro de Gabe com seu pai na noite anterior, propos-se deixar a seu marido dormir em paz.
O período de tempo para conceber tinha passado, assim já podiam deixar de atuar como amantes.
Se não estava grávida não seria porque Gabe não tivesse aproveitado cada minuto para obtê-lo. Tinha chegado a hora de tomar um descanso permanente.
Andrea preferia morrer antes de lhe permitir pensar que desejava prolongar essas horas de êxtase. O esforço que Gabe fazia já não era necessário porque tinha
passado seu período de ovulação.
Nada lhe irritaria mais que descobrir que ela se apaixonou por ele. Se por acaso o duvidava, tudo o que tinha que fazer era recordar a experiência de Gabe
com Jeanne Marie. Especialmente quando ele acabava de inteirar-se de que, depois de tudo, esse bebê não tinha sido dele. O fato de que Gabe soubesse anulava o contrato
que tinha feito com ele.
Essa era a outra razão pela qual tinha decidido afastar-se de Gabe nessa manhã. Além disso, temia que se sentisse obrigado a levá-la a inspecionar a casa de
Karmele depois do café da manhã.
Quão último desejava era ver o interior da casa e entusiasmar-se com a idéia de instalar seu primeiro lar quando sabia que não ia viver ali com ele.
Quase havia um cem por cento de possibilidades de que lhe chegasse o período no prazo de uma semana. Seria estúpido continuar com a farsa por mais tempo porque
continuaria sonhando com o impossível. E sua tortura seria mais insuportável quando retornasse para casa de seus pais em Scarsdale.
Eles lhe tinham aconselhado não agir de forma precipitada nem impulsiva. Isso lhe tinha impedido de chamar um táxi na primeira hora da manhã para ir ao aeroporto.
Então decidiu ir visitar as outras ilhas que já não voltaria a ver.
Nessa manhã, depois de aceitar a bicicleta de Jacques, abraçou-o e lhe disse que possivelmente não voltaria até a hora do jantar. Era a oportunidade perfeita
para ir passear já que Gabe tinha manifestado o desejo de passar um momento com Fabrice.
A imagem sorridente do avô enquanto se despedia na escada do alpendre a acompanhou durante todo o trajeto até chegar ao povoado.
Como não tinha tomado o café da manhã, entrou em uma fruteria depois deixar a bicicleta apoiada contra a parede. Quando estava escolhendo uma deliciosa pêra
dourada, ouviu que a chamavam. Ao voltar-se reconheceu Marsha Evans, uma professora de francês que tinham conhecido no aeroporto de Halifax. Marsha ia com um grupo
de colegas a St.Pierre para assistir a um seminário de língua francesa.
-Bonjour, Marsha -saudou sorridente-. Onde estão os outros professores?
-Deram-nos o dia livre -respondeu enquanto se aproximava do balcão para pagar a maçã que tinha na mão-. Tem que voltar com seu marido?
-Não. Hoje vai visitar seu melhor amigo, assim também estou livre. Seu avô me emprestou a bicicleta e penso ir explorar as outras ilhas. Estiveste ali?
-Ainda não. Pensamos ir neste fim de semana já que não temos aulas.
- Você gostaria de me acompanhar?
-Eu adoraria. Perto do hotel onde me hospedo há uma loja que aluga bicicletas. Vou conseguir uma.
Juntas se dirigiram ao centro do povoado. Antes de chegar à loja se detiveram em uma confeitaria onde Marsha comprou uns cruasanes cheios de presunto.
Depois de alugar a bicicleta foram ao ferry, não sem antes comprar uma garrafa de água. Andrea teve que reconhecer que era agradável estar com uma mulher de
seu mesmo país, cálida, aberta e simpática.
Mais que nunca pensou no que teria tido que sofrer a mãe de Gabe durante os primeiros meses de seu matrimônio, enfrentada a uma família hostil. Naturalmente
que a gravidez de Yves lhe teria proporcionado um grande alívio, mas...
- O que faremos? -Marsha interrompeu seus pensamentos- Vamos à ilha Sailor ou a Miquelon?
-Gabe me disse que o ferry demora uma hora para chegar a Miquelon. Como dispomos de todo o dia, também poderíamos ir a Langlade e assim veríamos ambas as ilhas.
-Parece-me perfeito.
Depois de comprar os bilhetes, subiram a bordo com as bicicletas.
Quando entraram mar adentro Andrea experimentou uma estranha sensação de perda ao ver que St. Pierre se afastava cada vez mais até ficar convertido em um monte
antes de desaparecer no horizonte. Ao ouvir um menino que dizia a seus pais que não podia esperar mais para ver as baleias, recordou que Gabe lhe tinha prometido
que um dia iriam observar com binóculos a brincadeira dos grandes cetáceos no mar.
Havia tantas coisas que iam fazer juntos; mas isso tinha sido antes da esclarecedora conversa que tinha mantido com Cecile na noite anterior e que tinha mudado
tudo.
- Andrea, sente-se enjoada?
-Não, e você?
-Um pouco. Levantou-se o vento e há muitas ondas. Pensei-o porque está um pouco pálida.
-Possivelmente porque estou lutando com um problema pessoal -respondeu com sinceridade-. Sinto muito que não te encontre bem.
-Envergonha-me ter que admiti-lo.
-Não seja absurda. Isso não se pode evitar. Chegaremos em vinte minutos. Enquanto isso, não deixe de olhar o horizonte.
Cinco minutos depois, teve que acompanhar a sua amiga ao lavabo onde vomitou todo o café da manhã. Mas Marsha não era a única. Junto à porta havia uma longa
fila de passageiros que esperavam pelo mesmo.
Quando chegaram à parte norte da ilha maior, Marsha se sentia muito doente para fazer outra coisa mais que ficar sentada em uma mureta de pedra junto ao molhe.
-Enquanto descansa vou procurar uma bebida de cola que te ajudará a assentar o estômago.
Andrea partiu na bicicleta até a loja mais próxima e ao cabo de uns minutos voltou com duas garrafas de refresco. Uma hora mais tarde, seu amiga se recuperou
o suficiente para pedalar até o povo de setecentos habitantes que, segundo Gabe, eram descendentes de bascos e de acadios.
Durante o trajeto as nuvens cobriram o sol e se levantou a famosa névoa da que Gabe lhe tinha falado. Cruzaram através de densa névoa, até que Andrea se deu
conta de que Marsha se encontrava muito fraca para continuar o passeio.
-Há um pequeno hotel mais adiante. Vou pedir um quarto -disse Andrea e Marsha não protestou.
Pouco tempo depois, o zelador lhes entregou as chaves de um quarto no segundo piso, depois de guardar as bicicletas.
O encantador hotel era tão parecido ao de Champigny que Andrea não pôde evitar um intensa dor e desejo ao recordar essa noite tão formosa.
Marsha se derrubou em uma das camas gêmeas, com o rosto cinzento.
-Sinto-o tanto -murmurou.
-Não diga isso, por favor. Embora te encontrasse bem não poderíamos ir a nenhuma parte até que a névoa não se dissipe.
Andrea esperou até que seu amiga já não teve necessidade de correr outra vez ao banheiro e saiu do quarto.
O zelador lhe informou que o tempo não impediria que o ferry saísse para St. Pierre às quatro da tarde. Andrea comprou uns pãozinhos em uma confeitaria pensando
que quando Marsha despertasse sentiria melhor e poderia comer algo.
Mas se equivocou. Seu amiga dormiu até as três e meia e despertou com náuseas, assim só bebeu refresco. Estava claro que não poderia embarcar-se. A única solução
era ficar ali essa noite e ao dia seguinte tomar um avião para St.Pierre.
Marsha lhe deu o número de telefone de seu hotel e Andrea pôde informar do acontecido ao diretor da excursão. Logo pediu à operadora o telefone de Jacques
Corbin.
Felizmente, Jacques estava sozinho em casa. Informou-lhe que Gabe tinha ido comer com Frabrice e que não havia retornado ainda.
Uma boa notícia.
Depois de lhe contar a situação, Andrea lhe deu o nome do hotel e acrescentou que voltaria em avião com Marsha na manhã seguinte.
Jacques lhe confiou que Gabe não se havia sentido contente ao descobrir que havia partido essa manhã sem despertá-lo. Acrescentou que ia contrariar lhe saber
que não voltaria essa noite e que não poderia comunicar-se com ela porque Andrea tinha deixado o telefone móvel em casa.
Andrea não lhe acreditou. Sabia que ele era o único desiludido. Adorava cozinhar e talvez estava preparando um de seus deliciosos pratos para o jantar.
Quanto a Gabe, tinha que sentir-se oprimido pela claustrofóbica aproximação entre eles. Andrea não duvidava de que fosse respirar aliviado ao saber que ficaria
em liberdade durante dezoito horas.
Essa noite não teria que fazer o papel do marido amante. Embora ainda não sabia, a comédia tinha terminado.
"Não te aflija, meu amor. Quando me chegar o período me terei partido. Enquanto isso, procurarei outra maneira de me assegurar que não tenha que estar preso
a mim", pensou Andrea.
-Avô, vou caminho de casa. Andrea ainda não chegou?
Quando havia escutado as notícias de seu avô, Gabe sentiu que lhe faltava a respiração.
Enquanto ela acompanhava a uma amiga doente no quarto de um hotel, fazia tempo que Fabrice e ele tinham desfrutado do almoço. Durante as duas últimas horas
tinha estado procurando-a por toda parte.
A opressão no estômago tinha começado essa manhã ao ver-se sozinho na cama pela primeira vez desde a noite do casamento. Seu alarme cresceu ao descobrir que
Andrea havia partido sem o telefone móvel e sem lhe dizer uma palavra. Ao não encontrá-la em St.Pierre, desculpou-se com Fabrice e decidiu voltar para casa.
Felizmente, nesse momento já sabia onde encontrá-la.
Foi providencial que no ano anterior tivesse criado um serviço de helicópteros entre as duas ilhas com fins turísticos e para emergências.
Já em casa e mais aliviado ao saber que sua mulher se hospedava no Mistral, preparou uma mala com roupa para ambos. Considerando que a amiga estava muito doente
para sair a passear, Andrea e ele poderiam compensar aquela noite de Champigny quando não se atreveu a terminar o que tinha começado na pista de baile.
Embora então a desejasse com paixão, não era nada comparado com o que sentia nesse momento. Cada vez que ela o acolhia em seus braços, ele se sentia renascer.
Às oito da noite, Gabe se registrou no hotel de Miquelon. Logo subiu correndo as escadas, deixou a mala sobre a cama dupla do quarto e desceu para bater na
porta de Andrea quase sem fôlego.
Mas não houve resposta. Voltou a chamar com mais força, mas foi inútil. Talvez a amiga se havia sentido melhor e decidiram ir jantar a um restaurante próximo.
Gabe desceu à sala de estar e leu o periódico enquanto esperava ver aparecer a sua esposa a qualquer momento.
Teve que passar uma hora antes de que começasse a pensar que talvez a amiga estivesse na clínica.
O zelador lhe deu o número de telefone. Em uns quantos minutos Gabe soube que não se equivocou.
--Poderia me pedir um táxi, por favor?
CAPÍTULO 9
Andrea?
Ao ouvir aquela voz tão masculina e familiar, Andrea sentiu que o coração lhe escapava do peito. De um salto se levantou da cadeira onde estava sentada junto
à Marsha. Conteve o fôlego ao ver o corpo poderoso dentro de um jeans e um blusão pretocom decote tartaruga.
Andrea moveu a cabeça de um lado a outro, com incredulidade
- Como chegaste até aqui? -sussurrou. Ele tomou seu rosto entre as mãos.
-Vim em helicóptero. Não pensastes que esta noite ia deixar-te sozinha nesta ilha, verdade?
Andrea não teve forças para impedir que a boca sensual se pousasse na sua. Imediatamente sentiu algo diferente na carícia de Gabe que a beijava com uma ansiedade
que nunca tinha mostrado anteriormente. Ao que parecia, não lhe importava que se encontrassem em uma clínica. Entretanto, fosse qual fosse a razão dessa explosão
de urgência por sua parte, aquilo tinha que acabar.
Quando refletia sobre o tema, Andrea não podia deixar de pensar que talvez Gabe fazia amor com Jeanne Marie tão apaixonadamente como fazia com ela. Por isso
que não era de estranhar que o tivesse seguido até Nova Iorque.
Entretanto, então não amava a Jeanne Marie, como tampouco amava a ela na atualidade.
Nunca lhe tinha falado de amor, simplesmente porque não podia!
Bret Weyland tinha razão. Gabe nunca teria podido chegar a ser multimilionário se não houvesse um aspecto implacável em sua natureza.
E era implacável no sentido de que não podia sentir amor por nenhuma mulher. Jeanne Marie o tinha sabido em Nova Iorque e Andrea soube em Paris.
Então pôs as mãos no peito de Gabe e lentamente se desfez do abraço. Ele murmurou um protesto depois de renunciar a sua boca.
- Quanto tempo ficará sua amiga na clínica?
-Não sei - murmurou Andrea enquanto desviava o olhar.
Gabe lhe esfregou os braços com crescente urgência.
-Vamos ao hotel, mon amour. Há um quarto para nós. Deixarei o número de meu celular para que o médico nos chame quando Marsha estiver em condições de partir.
-Não posso, Gabe.
-Andrea, administraram-lhe um sonífero. Certamente dormirá até amanhã.
-Prometi-lhe que não a deixaria. Marsha está em um lugar estranho onde não tem a ninguém, exceto a mim. Por que não volta para hotel e dorme bem durante a
noite?
O corpo de Gabe ficou rígido.
__Por que penso que tenta te desfazer de mim?
Andrea sentiu que lhe umedecia o nascimento do cabelo na testa.
-Não seja ridículo -exclamou, com suavidade-. Só o disse porque não há razão para que ambos permaneçamos acordados toda a noite
- Achas que poderia dormir sabendo que está aqui sozinha.
-Sinto que tenha feito a viagem por nada. Teria sido melhor que ficasse em casa com seu avô.
Gabe respirou fundo enquanto deixava cair as mãos nos lados com os punhos fechados.
-Sou seu marido, Andrea. Em que outra parte teria que estar a não ser aqui? -perguntou. Entre eles havia uma tensão evidente-. Por que não me despertastea
esta manhã para que te trouxesse aqui?
-Porque dormia profundamente e parecia exausto. Não me teria ocorrido te incomodar. Então me ocorreu ir passear de bicicleta até que te levantasse. No povoado
me encontrei com Marsha e decidimos viajar no ferry. Foi uma decisão tomada de improviso.
-Andrea, fiz algo que te tenha ofendido?-perguntou, depois de um longo silêncio.
-Certamente que não.
Lhe elevou o queixo com o dedo indicador.
- Jura-o?
- Tenho que jurar para que me acredites?
- Preferiria que te deixasse sozinha? -perguntou, com um olhar velado.
"OH, Gabe", gritou o coração de Andrea.
-Eu não gostaria que fizesse nada contra sua vontade.
Gabe lhe delineou os lábios com os dedos.
-Agora é você a que parece exausta. Sente-se e eu velarei contigo -sugeriu antes de retirar a mão.
- Falou ontem à noite com seu pai? -perguntou Andrea, quando já não pôde suportar a penosa atmosfera que se criou entre eles.
Era responsável pela mudança drástica de Gabe. Doía-lhe essa reserva que fazia tempo não via nele.
-Falamos. Meus pais e Jeanne Marie foram vítimas de Evangeline. Mas se acabaram os segredos. Ela não voltará a fazer-nos mal.
- Isso significa que agora estará mais perto de sua família? Inclusive de Yves?
-Sim. Meu irmão acredita que o bebê era dele e o deixaremos assim. Tudo será muito melhor que antes.
-Me alegro por ti, Gabe -murmurou, com os olhos marejados.
- Seriamente? -disparou tão repentinamente que a deixou atônita.
- Como me pode perguntar isso
Gabe apertou as mandíbulas.
-Talvez porque nesta manhã não ficou para sabê-lo.
-Expliquei-te por que me tinha partido -replicou, destroçada.
-Então suponho que ambos temos nossas respostas.
Andrea o tinha ferido até o fundo da alma e não havia modo de voltar atrás. Gabe tinha necessitado compartilhar com ela o mais importante de sua vida. Mas
Andrea dormia quando voltou para casa e pela manhã partiu antes de que ele despertasse. Tinha-o feito para proteger-se a si mesmo, mas uma parte dela nunca se perdoaria
da dor que lhe causava.
Durante o resto da noite, Gabe permaneceu em um silêncio sombrio, enquanto Andrea tentava descansar com a cabeça apoiada no encosto da cadeira.
Cada certo tempo entrava a enfermeira para examinar Marsha. A amiga despertou perto das cinco da manhã. Sentia-se melhor, assim falou com eles e inclusive
pediu um suco.
Às seis e meia, o médico a examinou e disse que podia partir quando se sentisse com forças.
-Enquanto se preparam irei ao hotel para recolher suas coisas e farei que enviem as bicicletas ao helicóptero. Logo virei a lhes buscar e iremos para casa
-disse Gabe.
Marsha lhes estreitou a mão.
-Obrigado por tudo o que têm feito. Sua mulher é um anjo, Gabe.
-Meu avô diz o mesmo -respondeu, com um sorriso comovedor.
Com a barba cheia e essas sombras sob os olhos, Gabe estava incrivelmente atrativo. Andrea desviou o olhar para que ele não notasse que o devorava com os olhos.
Em uma hora e meia tinham voltado para St. Pierre. A névoa se dissipou. Prometia ser um formoso dia.
Depois de deixar Marsha no hotel a cargo do diretor do grupo, despediram-se com abraços e a promessa de manter-se em contato. Andrea e Gabe foram entregar
a bicicleta e mais tarde voltaram para casa.
Jacques os esperava. Seus olhos ansiosos escrutinaram os rostos do casal.
-Parece que não dormistes em toda a noite. Será melhor que vão à cama porque esta tarde deverá jantar uma pessoa muito importante.
- Karmele?-perguntou Gabe.
-Não, sua mamãe.
Andrea quase deixou escapar um gemido de agonia.
-Pensei que não viria até julho -comentou Gabe, em um tom indecifrável para Andrea.
-Suponho que não quis esperar tanto para dar as boas-vindas a sua flamejante nora.
Andrea sentiu que a habitação começava a girar. Gabe a elevou em seus fortes braços, despediu-se do avô e subiu a escada. Quão último ela pôde recordar foi
seu terno beijo nos lábios antes de cobri-la com a manta.
Eram mais de seis horas da tarde quando Andrea despertou repentinamente.
Tinha chegado a mãe de Gabe? Por isso ele não estava na cama?
Andrea se precipitou ao banheiro para tomar banho e lavar o cabelo.
O que ia usar? Importaria a Gabe? Depois de pensá-lo várias vezes colocou a blusa de seda cor champanha e calças combinando.
Mais tarde, desceu a escada tremendo, com uma mescla de temor e de curiosidade por conhecer a mulher cujo divórcio tinha influenciado tanto na vida de seu
marido.
Chegaram-lhe vozes do vestíbulo. Uma era de mulher. Depois de respirar profundamente, Andrea entrou na sala de estar.
Descobriu a Giles junto a Gabe e Jacques, os três conversavam com uma impressionante mulher de cabelos pretos vestida com um traje de duas peças cor melão.
Seus olhos eram de um tom cinza claro e era quase tão alta como seu ex-marido.
Se era tão encantada aos cinqüenta anos, Andrea pôde imaginar que beleza devia ter sido aos dezenoveanos. Notou que tinha o mesmo sorriso de seu filho.
Antes de aproximar-se, o olhar de Gabe se fundiu com a dela. Logo lhe rodeou o ombro com um braço e a aproximou do grupo.
-Mãe, quero te apresentar a minha esposa. Andrea, esta é Carol, minha mãe.
-Olá -disseram ambas em uníssono e então puseram-se a rir.
Imediatamente se rompeu o gelo. Carol a estreitou entre seus braços com os olhos brilhantes de emoção.
- Tem idéia de quão agradável é para mim que minha nora e eu sejamos da mesma parte do planeta?
Carol transmitia tal inegável calidez que Andrea sentiu que já a queria. Não era de estranhar que tivesse roubado o coração de Giles. Sua ex esposa era tão
aberta e simpática que tinha que haver comocionado às mulheres Corbin, de natureza pouco extrovertida.
-Você também é uma surpresa maravilhosa-confessou Andrea, com voz trêmula.
Carol tomou as suas mãos.
-Alegra-me ouvi-lo. Me perdoe por não ter assistido a seu casamento. Gabe jura te haver informado que me encontrava na Florida com minha irmã e sua família
quando deixou a mensagem.
-Assim foi.
- Que bom! De outro modo nada me teria impedido de assistir. Invejo a seus pais e não vejo a hora de conhecê-los.
-Eu também -disse Giles.
-Arrumaremo-lo o quanto antes possível, verdade? -disse Gabe.
"Não diga nada, Gabe. Não poderia suportá-lo", pensou Andrea.
-O salmão ao forno está esperando -murmurou Jacques como se pudesse sentir a tristeza de Andrea e queria ajudá-la-. Vamos à cozinha?
Depois de acomodar-se em torno da mesa, começaram a comer. Muito em breve a conversa se concentrou nas últimas notícias da família.
Carol parecia ser uma típica mãe e avó, muito interessada em seus filhos e netos. Por que diabos se divorciou de Giles quando era óbvio que sua família era
todo seu mundo?
De repente, Andrea pensou que dentro de uma semana toda a família estaria pensando o mesmo dela. Como podia ter abandonado a Gabe quando pareciam estar tão
apaixonados?
Depois de uns deliciosos pêssegos de sobremesa, Gabe tomou a mão de Andrea antes de olhar a sua mãe.
-Sei que quando vem aqui sempre fica em casa de Yves ou na de Phu. Agora é a nossa vez .
Jacques assentiu em silêncio.
-Temo-me que isso não poderá ser -interveio Giles.
Para surpresa de Andrea, rodeou os ombros de Carol enquanto que a atraía fazia si, tal como às vezes Gabe o fazia com ela. Uma expressão de total incredulidade
se refletiu no rosto de seu marido.
- Por que? -perguntou Jacques, com um sorriso que iluminava seus olhos.
-Graças à conversa de Andrea com Cecile, Gabe e eu fomos capazes de falar com franqueza sobre o passado e esclarecer anos de mal-entendidos. Embora Evangeline
e seu pai fizessem o possível por arruinar nossas vidas, convimos em que o orgulho tinha sido a causa da ruína da família Corbin. Depois dessa conversa chamei por
telefone Carol e lhe pedi perdão por todo o inferno que teve que suportar quando nos casamos -declarou com voz tremente.
Andrea abaixou a cabeça. devido a sua ausência do dia anterior ignorava a que se referia Giles.
-O que seu pai tenta dizer, Gabe, é que tão logo ele me abriu seu coração eu lhe pedi perdão por não havê-lo compreendido quando era o que mais necessitava.
Ambos fomos uns idiotas -disse Carol.
-É certo -interveio Giles-. Entretanto, daqui em diante Carol viverá comigo porque voltaremos a nos casar o quanto antes possível.
__Sabem meus irmãos?
Andrea quase não reconheceu a voz de Gabe, enrouquecida pela emoção.
-Ainda não -respondeu o pai, tão comovido que lhe custava articular palavra-. Quisemos que primeiro soubessem vocês já que lhes devemos este milagre.
-É verdade, querido -assegurou Carol ao ver que seu filho negava com a cabeça-. Deste à família uma segunda oportunidade para recuperar a felicidade.
O olhar cinza dourado de Gabe se desviou bruscamente para Andrea.
-Minha esposa foi o catalisador de tudo o que aconteceu.
-Certamente que sim -disse Giles com um sorriso para Andrea-. É tão extraordinária como sua mãe. Com ambas as esposas na ilha, Cecile nunca voltará a ser a
mesma -acrescentou, com uma risada.
- Sabem uma coisa? Vamos comprar uma casa nova e decidimos participar do negócio que propôs a seu pai, Gabe -disse Carol.
- Que negócio? -perguntou Andrea que já não suportava continuar na ignorância.
Gabe a olhou com os olhos entreabertos.
- Não recorda que durante o vôo de Halifax a St. Pierre sugeriu a possibilidade de programar cursos de francês para estudantes jovens com a possibilidade de
hospedar-se em casas de famílias francesas?
Andrea piscou.
-Não pensei que sequer me escutasse.
Todo mundo se pôs-se a rir.
-Nada me escapou, mon amour -disse enquanto fazia pequenos círculos com o polegar na mão de Andrea-. Estava cheia de idéias brilhantes depois de seu bate-papo
com Marsha. E eu te escutei com respeito reverencial.
Andrea se ruborizou.
-É uma idéia excelente -conveio Giles, com ênfase-. Poderíamos organizar programas durante todo o ano. Com os contatos de Carol no negócio turístico e meus
entre os pescadores da ilha, não sei o que poderia resultar. Mas o que sim sabemos é que o programa contribuiria com uma quantidade de dólares muito necessários
para as famílias que se oferecerem.
-Acredito que não seria difícil atrair aos estudantes às ilhas. Inclusive penso que haveria um excesso de solicitações -Andrea interveio impulsivamente, com
grande entusiasmo-. Este lugar pode oferecer coisas que não se encontram em outra parte, a menos que eles decidam viajar às Ilhas Cágados. St. Pierre et Miquelon
ficam muito perto do continente. Não se precisa cruzar o oceano. Os estudantes poderiam viajar de ferry desde a Terranova, se o preferirem. Não teriam que vacinar-se
nem comer coisas estranhas e assim economizaria preocupações a seus pais. Por outra parte, devido à cultura e tradições bascas das ilhas, eles poderiam optar por
estudar francês ou basco. E por ultimo, nem precisa falar da emoção que sentiriam ao encontrar-se a bordo de um navio de pesca de arrasto e ver as baleias em alto
mar...
De repente, ao ver o modo em que todos a olhavam, especialmente Gabe, Andrea se deu conta de que tinha tagarelado muito e com muita ênfase.
-Parece-me que já encontramos a nossa diretora do programa, não achas, meu tesouro?-disse Giles em voz alta enquanto olhava a Carol.
Ela assentiu.
-Não me poderia ocorrer alguém melhor. Além disso, com seus conhecimentos como engenheira de programação, acredito que teríamos infinitas possibilidades através
da Internet. E poderíamos fazer participar a toda a família, se eles o desejarem.
-É necessário que adaptemos aos novos tempos se quisermos um futuro para St. Pierre. Temo-me que os tempos da grande pesca terminaram -comentou Jacques, com
seriedade.
-Só no momento, avô. Qualquer dia as águas voltarão a repovoar-se. Em todo caso, a solução está em diversificar nossas ofertas -comentou Gabe.
-É certo -disse o avô.
- Ides casar pela igreja? -perguntou Gabe.
Andrea observou que olhava a seus pais como se ainda não pudesse acreditar na boa notícia.
-Na mesma igreja onde fizemos nossos votos pela primeira vez. Embora nesta ocasião os filhos poderão assistir à cerimônia -respondeu Giles, divertido.
Carol pôs-se a rir.
-O padre Cluny vai sofrer um ataque.
-Será melhor que nos partamos se queremos vê-lo esta noite -disse Giles enquanto ajudava a sua esposa a levantar-se da cadeira.
-Sim, mas antes temos que lavar os pratos e logo ir dar a notícia aos meninos -replicou Carol.
-Partam agora mesmo. Já tenho ajudantes -disse o avô enquanto que beijava a sua nora.
-Será uma singela cerimônia, mas há muitas coisas que fazer. Necessitaremos ajuda. Quer comer comigo manhã? Chamarei-te -disse Carol a Andrea enquanto a abraçava.
-Eu adoraria -respondeu Andrea, antes de despedir-se de Giles.
O homem parecia totalmente transformado e rejuvenescido, como se lhe tivessem tirado um grande peso de cima. Realmente era um milagre!
Enquanto Jacques e Gabe foram despedir-se no carro, Andrea limpou a mesa. Quando estava na cozinha, soou o telefone.
- Andrea? Alegra-me te haver encontrado em casa -ouviu a voz de Marsha-. Você e Gabe foram maravilhosos comigo. O que lhes parece se jantarmos juntos manhã?
Seria uma maneira de lhes agradecer o que têm feito por mim.
- Eu adoraria! -respondeu, com sinceridade. Assim seria mais fácil para ela manter-se afastada de Gabe-. Enquanto jantamos eu gostaria de te falar de uns negócios
que os pais de Gabe têm em mente e nos quais poderia participar. Vá pensando em trazer para St. Pierre um grupo de estudantes de francês para fazer um curso na ilha.
- Estás brincando! Seu marido e você pensam em hospedar a meus estudantes?
-Não, eu...eu não estarei na ilha depois da próxima semana -disse enquanto se levava uma mão ao coração para acalmar a dor que sentia.
-Não me diga que têm problemas conjugais.
De repente, Andrea percebeu que não estava sozinha.
Voltou-se bruscamente e descobriu a Gabe apoiado na porta.
O brilho de seus olhos se extinguiu. Suas feições pareciam esculpidas em pedra.
- Marsha? Tenho que desligar, mas te chamarei amanhã -disse, quase sem fôlego. Com mão tremente colocou o telefone no suporte. - Quanto tempo faz que está
aqui?
-O tempo suficiente. Jacques partiu com meus pais, assim estamos sozinhos e não poderá fugir.
-Não estou segura de entender o que diz.
-Não, Andrea. Isso não é digno de ti. Ontem à noite te perguntei se te tinha ofendido e me respondeu com outra pergunta. Mas agora não lhe vou permitir isso.
Tem idéia de como me sinto ao ouvir dizer a uma estranha que não estará aqui depois da próxima semana? Acredito que seu marido tem direito de saber-lo antes que
ninguém.
Andrea se estremeceu.
-Lhe ia dizer isso Gabe. Juro-o.
-Deixemos de lado os juramentos-espetou Gabe, quase incapaz de ocultar sua ira-. Te pedi que te casasse comigo e você concordou. Concordamos em não nos preocupar
com o futuro durante os seis meses que tem de prazo para ficar grávida.
-É certo, mas tudo mudou agora que sabemos que Jeanne Marie não perdeu teu filho. A razão que te levou a te casar comigo já não existe. Agora sabe que não
pode te sentir culpado. Livrastes dessa terrível carga e pode viver o resto de sua vida com a consciência tranqüila. Depois da próxima semana, ficará livre de seu
compromisso comigo. Despois de um tempo encontrará à mulher adequada para ti, com ou sem filhos.
-Nosso contrato foi por seis meses.
-É um homem muito galante, Gabe, mas seu sacrifício não é necessário porque ambos sabemos a verdade sobre Jeanne Marie.
Gabe pareceu envelhecer de repente. Seu rosto estava lívido.
-Se esse for o caso, por que não me deixa esta mesma noite? Por que o prazo de uma semana é tão sagrado para ti?
-Porque nesses dias me chegará o período -respondeu, com a voz quebrada-. Como bem sabemos, a possibilidade de ficar grávida em minha situação é de uma entre
um milhão. Entretanto, não me partiria se descobríssemos que por uma casualidade do destino vamos ter um filho. Tento respeitar essa parte do contrato no caso que
descubra que vamos ser pais.
-Parece que não desejasse um bebê com tanta intensidade se te der por vencida no primeiro mês.
Reunindo toda sua coragem, ela se decidiu a falar com claridade.
-É uma tarefa muito dura quando não há amor.
Com o coração martelando no peito, Andrea esperou lhe ouvir dizer que a amava.
-Vou sair. Não sei quando voltarei -disse Gabe, com um leve tic nervoso na boca.
Depois de uns quantos segundos, Andrea ouviu que se fechava a porta da rua. Então correu à janela da sala de estar a tempo para ver que o carro se afastava
rapidamente.
CAPÍTULO 10
- Gabriel? -chamou Fabrice.
- Oui, mon ami.
- Vim logo que terminei com meu último cliente -disse enquanto que saltava dentro do pesqueiro.
- Não se importará a Lisa? -perguntou Gabe enquanto desatava as amarras antes de fazer-se cargo do leme. Fabrice o seguiu.
-Não. Está com os meninos na casa de sua mãe. Quando ouvi sua mensagem em meu celular lhe avisei que não voltaria até amanhã.
Não havia ninguém como Fabrice. Gabe sempre tinha podido contar com ele.
-Vamos.
Depois de acender os faróis, lentamente tirou a embarcação fora do porto.
-Mas responde como uma velha doente. Comprei outro navio. Chegará na próxima semana da Noruega. Perguntava-me como o ia entregar a papai sem que o rechaçasse.
Mas depois do que aconteceu nas últimas quarenta e oito horas, já não terei que me preocupar. Depois de todos estes anos meus pais solucionaram suas diferenças.
Poderá acreditar que na próxima semana vão se casar na igreja?
Fabrice moveu a cabeça de um lado a outro.
-Não posso acreditá-lo.
-Como está convidado à cerimônia verá que digo a verdade. Decidi lhes entregar o navio como presente de casamento.
-De acordo, acredito-te. Pelo tom de sua mensagem posso adivinhar que Andrea não ficou grávida ainda.
Gabe fez uma careta.
-Não saberemos até dentro de uma semana ou mais -comentou, com amargura.
-Tenho toda a noite, assim tome seu tempo-declarou Fabrice enquanto se acomodava em uma banqueta com os braços cruzados sobre o peito.
Gabe apagou o motor e deixou que o fluxo fizesse seu trabalho.
Então se voltou para Fabrice.
-Ela não me quer.
- Disse-lhe isso em sua cara?
-Não com essas palavras.
-Quero saber o que foi o que disse. Exatamente.
Gabe o contou.
-Vejamos se tiver entendido bem. Ambos decidiram se casar sem dizer uma palavra de amor.
-Não me atrevi a lhe declarar meus sentimentos. Nunca me teria acreditado. Por causa de seu estado de saúde, não havia tempo para cortejá-la, assim que lhe
contei minha história com Jeanne Marie como um argumento que respaldasse minha proposta.
-E funcionou.
-Já não funciona. Vou perder-la, Fabrice.
Fabrice negou com a cabeça.
-Se ela não te amava então, não a perdeste porque nunca foi tua. Vamos, Gabriel. Não te ocorreu pensar que se casou contigo porque te queria?
-Haveria-me dito isso. Ela não mente.
- Não? -Fabrice se burlou-. Sua esposa é uma mulher brilhante. Isso é o pior. Diria que encontraste a sua metade. Sabe o que faria em seu lugar?
Gabe sentiu que a dor o destroçava.
-Não quero sabê-lo.
-Vá a casa e lhe diga que é uma trapaceira. Lhe diga que a amas e que sabe que ela te corresponde.
- Assim nada mais?
-Assim, nada mais. Você é um jogador, de outro modo não teria renunciado a seus trilhão de dólares. Fez a melhor jogada de sua vida ao conseguir que se casasse
contigo. Pode que Andrea tenha utilizado a ameaça de abandonar a empresa como uma forma de apanhar ao peixe. Gabe Corbin. O peixe maior do mar, que nunca tinha sido
apanhado.
A Gabe saltou o coração.
-Se isso fosse verdade...
- Quantas mulheres conhece, além de Andrea, que se alegrariam de saber que já não é multimilionário, mon ami?
-Nenhuma.
-Voilá -concordou enquanto se inclinava até quase tocar com sua testa com a de Gabe-. E agora pensa nisto. Quantas mulheres aceitariam vir a uma ilha estranha
e desconhecida para viver aqui o resto de sua vida se não fora por amor? Me responda se puder -o desafiou.
-Devia ter sido fiscal.
-Não o faço tão mal, verdade? -declarou, sem a menor humildade.
Apesar de sua confusão, Gabe irrompeu em gargalhadas. Então acendeu o motor e manobrou a embarcação rumo à ilha.
Depois de várias horas sumida em um exame de consciência, Andrea tinha colocado uma cadeira no alpendre para sentar-se e esperar a Gabe na escuridão da noite.
Jacques não tinha voltado para casa. Ela não sabia se tinha uma razão ou o fez a propósito. Se quis deixá-los sozinhos, tinha sido um gesto inútil. Eram as
uma e cinquenta da madrugada e não havia sinais do carro de Gabe.
Suspeitava que tinha ido ver Fabrice e podiam estar em qualquer parte. Não lhe havia estranhado se estivessem bebendo devido ao estado de ânimo de Gabe ao
partir.
Era uma dramática ironia que na mesma noite que se inteirou da maravilhosa notícia de seus pais, tivesse tido que entrar na cozinha no mesmo segundo em que dizia
a Marsha algo que não estava destinado a seus ouvidos. Não, até que ela estivesse preparada para dizer-lhe.
Andrea lamentou não ter um carro para ir casa de Fabrice e perguntar a sua esposa onde se encontravam. Precisava fazer sua confissão porque já não podia calar
nem um minuto mais.
Uma vez que Gabe soubesse a verdade, compreenderia sua conduta dos últimos dias e possivelmente não a odiaria muito.
A brisa que lhe chegava do oceano se tornou mais fresca, assim entrou apressadamente na casa em busca de um casaco.
Quando abriu a porta para voltar a sair ao alpendre quase se chocou contra seu marido. Ele alargou as mãos para sustentá-la.
- Que faz a esta hora ainda vestida?
Não havia zanga em sua voz, só preocupação. E não tinha estado bebendo.
-Esperando que voltasse para casa.
- Por que?
-Porque preciso te dizer algo. E não me sentirei em paz até que o faça.
-Eu também tenho que te dizer algo -admitiu, com emoção. Suas mãos esfregaram energicamente os braços de Andrea e ela pôde sentir seu calor através da lã do
pulôver-. Há uma só razão pela qual te pedi que te casasse comigo. Certamente agora já sabe.
O mundo se deteve de repente.
Ela poderia haver-se mentido em muitas coisas, mas nunca se atreveu a acreditar o impossível. Não até esse momento...
-É a única razão pela qual aceitei.
- Você está apaixonada por mim! -seu grito triunfal deveu chegar aos ouvidos de Karmele.
-Sim, carinho, OH, sim! Faz muito tempo. Desde dia da minha entrevista contigo.
-Sei -sussurrou com a boca apoiada nos lábios de Andrea-. Eu estava ali, recorda? Entrou em meu escritório com uma força que quase me derrubou. Imediatamente
soube que era a mulher de minha vida. Mas, e se cometia um engano e te afugentava antes de conseguir que te apaixonasse por mim? Então decidi tomá-lo com calma e
esperar o tempo propício.
Andrea lhe cobriu o rosto de beijos.
- Esperou muito o tempo propício! Eu tinha duas opções: ou me partia da empresa ou me obrigava a me apaixonar por outra pessoa.
-Quando me inteirei de que saía com Bret...-murmurou enquanto seus dedos se enredavam no sedoso cabelo-. Juro que quase me tornei um louco.
-Eu sim que me tornei uma louca -admitiu ela enquanto lhe enlaçava o pescoço com os braços-. Chegou um momento em que me dava conta de que tinha que partir.
Pensei que as seis semanas de recuperação ou me curavam da enfermidade Gabe Corbin ou teria que encontrar a força para procurar outro trabalho.
Ele lhe dirigiu um desses sorrisos que a faziam sentir que flutuava sobre o mundo.
-A enfermidade Gabe Corbin. Eu gosto como soa.
-É uma enfermidade crônica -disse ela, antes de beijar a maravilhosa boca masculina-. Sempre a vou padecer. O médico me disse que ia piorar com os anos. Que
não tinha cura. Tem que sabê-lo de antemão.
-E você tem que saber algo de antemão, mon amour. De um modo ou outro vamos ter um filho. Se tiver que te submeter a uma histerectomia, que assim seja. Nesse
caso, adotaremos um bebê.
- OH, Gabe! -exclamou enquanto o estreitava entre seus braços, com uma felicidade que não podia conter.
-Quero te pedir um favor -sussurrou Gabe em seu ouvido.
-O que queira.
-Celebremos um casamento duplo. Quero fazer meus votos ante a ti, ante Deus e ante minha família.
Ela o abraçou com mais força.
-Esta noite sonhava com isso enquanto estava sentada no alpendre esperando que voltasse para junto a mim.
-Ao chegar me perguntei que fazia essa cadeira da sala aqui no alpendre -disse enquanto que a elevava em seus braços-. Vamos, minha esposa. É hora de ir à
cama. Estou tão faminto de ti que já não posso esperar mais.
Duas semanas depois, enquanto soavam os sinos da torre da igreja, os familiares e amigos convidados ao casamento cruzavam o centro de St. Pierre para o restaurante
Trois Fleurs onde ia se celebrar a festa dos esponsais.
As duas mulheres luziam vestidos de noiva. O de Andrea era de cor creme e a mãe de Gabe estava esplêndida vestida de branco. Ambas as noivas foram cobertas
com mantilhas de renda francesa. Os noivos iam de smoking.
Andrea se sentia flutuar em um sonho. Os dedos de Gabe se enlaçavam aos seu em um gesto possessivo, para fazer ver o mundo inteiro que ela era sua mulher.
Parecia dez anos mais jovem.
O pais de Andrea iam atrás e a mãe levava a cauda do vestido da noiva. O sol brilhava em um céu azul. Não podia ter sido um dia mais glorioso. Andrea pensou
que ia estalar de alegria.
Mas logo que entraram no restaurante e sentiu o aroma do pescado que preparavam para o banquete, sentiu outra sensação de náuseas, mais intensa que a que tinha
experiente durante a cerimônia.
A princípio tentou lhe subtrair a importância, mas quando Gabe a teve acomodado à cabeceira da mesa, o mal-estar se fez mais intenso. Quando viu os pratos
de ostras que chegavam à mesa, temeu que acontecesse o mesmo que a Marsha.
- Mamãe? Sinto náuseas -sussurrou para a sua mãe.
- Que maravilhoso! -exclamou Renate, com voz afogada-. Faz uma semana que passou o prazo de sua regra. Eu sofri náuseas horríveis quase do mesmo momento que
te concebi. Deve estar grávida.
- Mamãe!
-Vamos. Levarei-te ao lavabo. Durante o primeiro trimestre, freqüentemente tinha que comer duas vezes pela manhã. Temo-me que é como eu.
- Andrea?-disse Gabe, alarmado-. O que acontece, meu coração? Seu rosto tem a cor de papel.
Andrea não pôde responder. Preocupava-lhe muito não poder chegar ao lavabo a tempo.
-Não passa nada -ouviu que sua mãe respondia a Gabe-. Parece que vais ser pai. Parabéns, papai!
Rebecca Winters - Última oportunidade (Harlequín by Mariquiña)
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