Kit and the Cowboy
REBECCA WINTERS
Quem poderia imaginar que Kit teria seu próprio anjo da guarda. e que ele usaria botas, chapéu de cowboy e esporas?
O fazendeiro Jarod Banning salvou a vida de Kit, oferecendo a ela um lugar para esconder-se! Durante semanas, alguém a atormentava com bilhetes anônimos e ameaçadores.
A polícia não tinha pistas, e por isso Kitt decidiu desaparecer. Foi assim que conheceu Jarod Banning. Jarod podia ser médico em tempo integral e fazendeiro nas
horas de lazer, mas sem dúvida era um homem por inteiro! Kit o conhecia havia menos de vinte e quatro horas, e já o considerava a única pessoa digna de sua confiança.
Nos braços de Jarod, sentia-se segura, porém agora enfrentava um diferente tipo de perigo: apaixonar-se por um herói que estava fora de seu alcance.
Digitalização e Revisão:
Cris Paiva
Copyright (c) 1996 by Rebecca Winters
Originalmente publicado em 1996 pela Silhouette Books,
divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução
total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canada.
Silhouette, Silhouette Desire e colofao são marcas
registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas
terá sido mera coincidência.
Título original: Kit and the Cowboy
Tradução: Débora da Silva Guimarães
EDITORA NOVA CULTURAL
uma divisão do Círculo do Livro Ltda.
Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 11 andar
CEP: 01410-901 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 1997
CÍRCULO DO LIVRO LTDA.
Fotocomposição: Círculo do Livro
Impressão e acabamento: Gráfica Círculo
CAPÍTULO I
- Ela está sangrando, mas recusou-se a me deixar levá-la ao hospital. Imaginei que poderia dar uma examinada, já que andou cuidando de outros casos parecidos na
vizinhança. Se fosse minha filha não a deixaria voltar para casa sozinha depois de uma apresentação. Não no centro de Salt Lake.
- Ela não é nenhuma adolescente, e é bem provável que saiba andar por aí.
Kit agitou-se ao ouvir o comentário do segundo homem, mas a dor na cabeça a impediu de reagir. Além do mais, só uma coisa importava: estava salva!
O alívio a fez fechar os olhos e desfrutar do calor da sala, tão aconchegante depois da noite fria de inverno. Apesar da queda no gelo, sentia-se satisfeita por
ter despistado seu perseguidor. A essa altura ele devia estar examinando o rosto de todas as pessoas na multidão, tentando encontrá-la.
Essa noite, todos os traços de Kit Mitchell haviam desaparecido. Agora que chegara tão longe, não tinha nenhuma intenção de voltar à vida anterior. Em alguns dias,
quando pensasse num plano, entraria em contato com sua irmã Laura para avisar que estava viva e bem. No momento, precisava saborear essa sensação de segurança.
Desde que o escritório de investigação sugerira que o responsável pelos bilhetes ameaçadores a conhecia bem, Kit passara a considerar a idéia de fugir. Não podia
confiar em nenhum dos amigos ou conhecidos e, pior, havia sido levada a suspeitar dos colegas do escritório. O medo a empurrara até o limite.
Quando sentiu que alguém puxava a capa de cetim vermelho que decidira vestir no último instante, Kit abriu os olhos.
Um homem alto e forte estava debruçado sobre ela, casualmente vestido numa calça jeans e camiseta que combinava com a cor de seus olhos, azuis como as águas do Lago
Tahoe, onde passara todas as férias antes dos pais morrerem.
Sobrancelhas castanhas, estranhamente bem feitas para um homem, marcavam os incríveis olhos, e os cabelos castanhos brilhavam sob a luz intensa da lâmpada fluorescente.
Ele precisava barbear-se.
- Bem, o que temos aqui? - A boca firme e bem feita exibia a sombra de um sorriso. - Um verdadeiro cisne em minhas mãos, e aparentemente ferido até o fundo da alma!
Os olhos penetrantes deixaram seu rosto e vagaram pelo resto de seu corpo, a expressão impassível enquanto examinava o ferimento em sua testa.
Kit sentiu os dedos em seu pescoço, tocando a região acima da garganta, atrás das orelhas e abaixo da mandíbula. Era evidente que se tratava de um médico, e o exame
não passava de uma rotina profissional. Mas o toque das mãos dele a fez mover-se de maneira nervosa, e o sujeito retirou o capuz branco que cobria seus cabelos curtos,
negros e sedosos.
Ele deslizou as mãos por toda sua cabeça até a base do cérebro, certificando-se de que não havia mais nenhuma lesão nessa área.
- Sente dor em mais algum lugar? Kit piscou.
- Quando percebi que ia cair, estendi a mão para proteger-me. Tenho a impressão de que a queimei, mas é só isso.
Sério, o médico examinou o arranhão superficial em sua mão antes de medir a pressão sangüínea.
- Isso não é necessário - Kit protestou.
- Eu decido qual tipo de exame é necessário - foi a resposta autoritária, - Sua pressão está um pouco alta, e a pulsação, acelerada demais. É sempre tão tensa e
sobressaltada?
- Só depois de um acidente.
O sarcasmo pareceu não atingi-lo, porque ele prosseguiu com o exame.
- O tombo pode ter produzido algum trauma, mas tenho a impressão de que está vivendo no limite de seus nervos há muito tempo.
O homem era telepata!
Ele muniu-se do estetoscópio e colocou-o em seu peito. Com gentileza, ajudou-a a sentar-se para escutar os pulmões.
- Estão limpos - anunciou, deitando-a novamente.
- Por favor... - Kit tentou levantar-se, mas as mãos em seus ombros a impediram. - Já estou me sentindo bem melhor. Esse exame é realmente necessário?
- Estou quase terminando - ele disse, limpando o ferimento em sua testa e aplicando o curativo.
- Não há nada errado comigo - Kit insistiu. Mas vira-se no espelho anteriormente e sabia que a maquiagem pesada exagerava o ar vulnerável e perdido em seu rosto.
Os olhos verdes pareciam maiores e mais assustados que de costume.
- Fisicamente não, talvez - o médico murmurou, examinando seus olhos, nariz e garganta com uma pequena lâmpada.
Kit teve de ficar quieta enquanto ele media sua temperatura, mas a observação astuta a irritou. Uma eternidade se passou antes que ele a deixasse levantar-se para
ir ao banheiro remover a maquiagem, caso conseguisse sustentar-se.
- Há um pote de loção no armário. Enquanto cuida do rosto, vou buscar alguma coisa para vestir.
Kit sentou-se na cama bem devagar e, com a ajuda dele, pôs-se em pé. Felizmente a tontura desaparecera.
- Tudo bem? - o doutor quis saber, a mão segurando seu braço.
- Sim, já não estou tão desorientada.
- Ótimo. Você sofreu uma concussão leve, mas parece ter se recuperado o suficiente para ficarem pé. Não receitarei analgésicos, pelo menos esta noite, para não mascarar
algum problema mais sério. Se até amanhã não houver nenhuma complicação, mas a dor piorar, então poderá tomar um ou dois comprimidos.
- Não pretendo estar aqui amanhã, doutor...
- Banning. Jarod Banning. Plantonista.
- Se puder chamar um táxi, irei embora imediatamente. - Passaria a noite no Exército da Salvação. - Aqui está
- disse, retirando uma nota de cinco dólares do corpete do traje de cisne. - Pagarei o restante assim que puder.
Ele estava em pé ao lado da cama, os braços cruzados e o rosto sério. Ignorando a mão estendida em sua direção perguntou:
- Quando comeu pela última vez? Deve estar pelo menos cinco quilos abaixo do peso ideal.
Os olhos treinados do médico não perdiam nada. Desde que começara a encontrar aqueles bilhetes assustadores, sua vida transformara-se num pesadelo interminável.
Comida era um luxo de que raramente lembrava-se.
- Tomei café da manhã - mentiu.
- Uma xícara de café, talvez. Precisa comer para ter forças.
- Agradeço sua preocupação, doutor, mas não estou mais aos seus cuidados. Tive apenas uma tontura, mas já estou bem.
Kit apanhou a capa e começou a jogá-la sobre os ombros, mas uma fraqueza súbita fez as mãos tremerem no momento de amarrar o cadarço em torno do pescoço.
Os olhos treinados perceberam a hesitação.
- Até onde acha que poderá chegar nessas condições? Sem sapatos, sem roupas apropriadas? Um abrigo público ou o Exército da Salvação não são os melhores locais para
se recuperar de um acidente. Se insistir em expor-se ao frio e à neve nas atuais circunstâncias, estará apenas procurando mais problemas.
- O que está sugerindo?
- Exatamente o que pensa que estou sugerindo. Você tem mais de vinte e um anos. Nem todos os homens comportam-se com a gentileza e o cavalheirismo do motorista de
táxi que a trouxe para cá. Na verdade, muitos homens encarariam suas roupas e o fato de estar sozinha nessa região da cidade como uma espécie de convite. E não é
exatamente feia, mesmo com essa maquiagem exagerada. Alguém mais egoísta, em busca de diversão, não perceberia que está fugindo de uma situação desfavorável.
- O que o faz pensar que estou fugindo? - ela perguntou, o rosto pálido e preocupado.
- Ninguém atreveria-se a sair numa noite gelada como a de hoje sem ao menos calçar os sapatos. Sapatilhas de bale não são exatamente quentes, não é? O que me intriga
é por que está vestida desse jeito, se nem é bailarina.
Kit estendeu a mão para apoiar-se na mesa de cabeceira e o dinheiro caiu no chão. Esse médico enxergava longe!
- Importa-se de explicar esse comentário?
Sabia que o traje branco moldava seus quadris e seios como se houvesse sido feito para ela. Como o médico descobrira a verdade?
- Você é magra em função de dieta, não de exercícios. Seu corpo é esguio, mas os músculos não são rígidos. E esses pés delicados jamais estiveram dentro de uma sapatilha
de verdade. Admito que tem a graça de um cisne, mas falta a força muscular típica de uma bailarina dedicada.
Kit gemeu, reconhecendo a derrota.
- Por enquanto ainda é um enigma. Mantém as unhas bem feitas e os cabelos brilhantes e cheirosos. Tem dentes brancos e perfeitos, e cada um desses detalhes conta
uma história de conforto.
- Ei, você não é médico! - ela assustou-se.
- Na minha profissão as pessoas costumam chamar-me de muitas coisas. A maneira como domina o idioma inglês é mais um sinal a ser levado em consideração. O fato de
estar morrendo de vontade de me chamar de bastardo, e não poder, revela mais do que pode imaginar. E agora, sugiro que vá remover essa maquiagem antes que eu tenha
de tratar uma crise alérgica, também. A maioria das pessoas não suporta os componentes de uma maquiagem teatral por muito tempo.
Kit levou as mãos ao rosto. A perspicácia do sujeito a apavorava! A coceira começava a tornar-se insuportável, o que significava que era uma dessas pessoas a que
ele referia-se.
O desconhecido levou as mãos aos bolsos traseiros da calça, chamando sua atenção para as pernas fortes.
- Não vou demorar. Nem pense em fugir, ouviu bem? As portas não podem ser abertas sem o controle remoto e as janelas do andar de baixo são protegidas por grades.
Quanto ao dinheiro - sorriu, abaixando-se para apanhar a nota que ela deixara cair. - Acho que vou aceitar sua oferta - e guardou-a. - Assim que amanhecer, providenciaremos
sapatos de verdade e mais algumas coisas de que parece precisar.
Interpretando o silêncio como capitulação, ele virou-se e saiu. Assim que viu-se sozinha, Kit correu até o banheiro para olhar-se no espelho, e deparou-se com um
rosto que parecia ter saído de uma tragicomédia. Nenhuma maquiagem acima dos olhos, e uma ridícula caricatura de cisne abaixo deles.
Depois de remover o excesso de maquiagem com toalhas de papel, ela encontrou a loção que Jarod mencionara e espalhou-a sobre a pele. Embora o sujeito a surpreendesse
com sua capacidade de observação, tinha de admitir que sentia-se profundamente grata por ter sido recebida no meio da noite, e sem nenhum tipo de cobrança ou exigência.
Depois da terceira aplicação os últimos traços de maquiagem desapareceram. Vergões provocados pelo processo pouco cuidadoso e uma mancha roxa no meio da testa marcavam
sua pele sempre tão perfeita.
Kit ouviu as batidas na porta do banheiro e, ao abri-la, foi praticamente atingida pelas roupas colocadas em seus braços.
- Sei que não são do seu número, mas é o melhor que posso fazer à essa hora da noite. O motorista tinha razão. Não devia andar por aí sozinha depois do anoitecer.
Kit evitou o olhar intenso que parecia desnudá-la.
- Tive meus motivos - respondeu em voz baixa, sem conseguir disfarçar o tremor. Se ele soubesse a verdade... Um arrepio de medo sacudiu seu corpo.
- Gostaria de saber quais foram.
Kit sentiu a sinceridade das palavras antes dele afastar-se. Examinando o pijama e robe, disse a si mesma que poderia partir, se realmente desejasse, mas a idéia
de entrar em outro táxi e dirigir-se a um abrigo, onde não sabia como seria tratada, tornava a hospitalidade do médico muito atrativa. Não poderia estar em melhores
mãos, mesmo tratando-se de um estranho.
Minutos depois, havia vestido o pijama de flanela e o robe atoalhado que, embora destinados a um homem com as dimensões do doutor Banning, eram quentes e confortáveis.
A faixa amarrada em torno da cintura e as mangas e pernas enroladas resolveram o problema. Agora sentia-se mais preparada para enfrentar esse homem cujos poderes
de dedução combinavam tão bem com sua imagem de médico.
Suspirando de cansaço e dor de cabeça, saiu do banheiro levando o traje de cisne.
- Deixe essas roupas na cadeira e venha comigo - ele instruiu do corredor.
Kit o seguiu através da passagem que levava ao fundo da casa. O homem parecia ser do tipo que vivia ao ar livre, pois o corpo firme e sólido sugeria muito exercício
físico, destruindo sua convicção a respeito de plantonistas casados com o trabalho e dedicados apenas às atividades intelectuais.
Experimentava uma estranha sensação de irrealidade sobre estar na clínica desse desconhecido, usando suas roupas e penetrando em seus aposentos, cuja decoração era
desprovida dos habituais móveis e quadros.
- Fechei esse lugar há seis semanas - ele disse, lendo seus pensamentos mais uma vez. - Levei quase um mês para equipar a porção dianteira da casa e adequá-la às
atividades comerciais, e acho que vou precisar do mesmo tempo para decorar esses cômodos.
Kit retribuiu o sorriso que o médico oferecia.
A cozinha era grande e adequada, mas precisava de uma boa reforma. Mesmo assim, tinha a impressão de estar no paraíso. Adoraria poder ficar ali para sempre e esquecer
que o mundo abrigava lunáticos capazes de aterrorizar suas vítimas indefesas até que, enlouquecidas de medo e ódio, elas perdessem a cabeça, ou a vida, ou as duas
coisas.
- Não sei sobre você - ele murmurou ao ver uma sombra passar por seu rosto -, mas estou faminto. - Enquanto falava, ia abrindo duas cadeiras de dobrar que colocou
junto de uma mesa portátil que já havia visto dias melhores. - Aproveitei para preparar um lanche enquanto você removia a maquiagem.
Kit sentou-se e, aceitando o convite silencioso, serviu-se de um sanduíche de galinha e batatas fritas. A comida era deliciosa e, para sua surpresa, ela descobriu
que estava faminta.
A julgar pela velocidade com que a comida desapareceu, o médico também não comia há algum tempo. Era estranho pensar que há pouco mais de uma hora estivera no bale,
sem sequer imaginar a existência desse homem, e agora comia em sua mesa, vestida com suas roupas e aceitando sua hospitalidade.
Talvez houvesse perdido o contato com a realidade ao bater a cabeça.
- Relaxe - ele disse. - Saboreie sua refeição - acrescentou depois de beber um pouco de café. - Há muito mais, caso deseje uma segunda porção.
- Obrigada... por tudo - ela respondeu comovida. Kit sentiu os olhos dele fixos em seu rosto, atentos, como se fosse um enigma que ele tivesse de decifrar. Linhas
de cansaço marcavam a região em torno dos olhos azuis. Ele atendera o chamado do motorista de táxi no meio da madrugada e, por causa dela, perdera preciosas horas
de sono.
- Já que admitiu que me deve alguma coisa, que tal começar dizendo seu nome?
- Ah, é... Linda - ela mentiu.
- Você não tem cara de Linda - o médico comentou com um sorriso divertido, oferecendo uma chance dela dizer a verdade. Mas Kit permaneceu em silêncio. - O motorista
do táxi disse que estava gritando quando correu na direção do carro. Seja honesta. Estava fugindo de alguém ou de alguma coisa quando caiu no gelo, não é?
Kit respirou fundo e tentou pensar. Assim que amanhecesse, nunca mais voltaria a vê-lo, e não podia atrever-se a deixar pistas quanto à verdadeira identidade.
Jarod esperou por alguns instantes antes de insistir.
- Às vezes ajuda falar sobre o assunto. Normalmente, o que mais tememos é o próprio medo. Sei que é um clichê, mas todas essas frases feitas têm um fundo de verdade.
Por isso se tornam tão conhecidas e repetidas.
- Escute, doutor Banning, não é bem como está imaginando, e não suportaria falar sobre o assunto.
- Se está tentando proteger seu marido ou namorado, lembre-se de que qualquer coisa que me disser estará segura como segredo profissional.
- Não sou casada, e isso não tem nada a ver com um namorado.
- Não sofreu nenhum tipo de abuso físico, ou teria constatado as marcas ao examiná-la. Mas sei que existem outros tipos de ferimentos...
- Sim.
- Está com medo.
- Apavorada - ela confessou depois de um longo silêncio.
- Acredito, ou não teria feito algo tão desesperado. Mas... por que o asilo para desabrigados? Foi onde o motorista de táxi disse tê-la apanhado. Não tem outro lugar
para ir? Ninguém a quem poderia ter recorrido em busca de ajuda?
- Não. Nenhum lugar é seguro, e é isso que me apavora.
- Está cansada - Jarod suspirou. - Se não for para a cama imediatamente, vai acabar caindo de exaustão. Garanto que estará sã e salva na sala de exames. Irei visitá-la
durante a noite, caso tenha alguma complicação. Quando o dia amanhecer, tudo parecerá melhor.
Aliviada com o fim do interrogatório, Kit afirmou com a cabeça. Estava mesmo muito cansada.
- Encontrará escovas de dentes novas no armário do banheiro. Comprei-as para me prevenir, caso meus sobrinhos decidam passar alguns dias comigo.
Kit sentiu-se estranhamente segura ao ouvi-lo mencionar a família. Um homem que parecia ter passado dos trinta é cinco anos provavelmente teria esposa e esposa e
filhos. Entretanto, algo em seu tom de voz a levava a crer no contrário.
- Boa noite, doutor Banning. E obrigada mais uma vez. Não... não vai dizer a ninguém que estou aqui, vai?
- A quem eu diria?
- A polícia, talvez?
- Por quê? Matou alguém?
-: É claro que não! Na verdade, temo que... alguém me mate.
- Garanto que aqui estará segura.
Normalmente Kit não teria conseguido dormir num lugar estranho, especialmente depois de toda a tensão que suportara, mas o médico conseguira enchê-la de confiança
e segurança, e ela adormeceu assim que a cabeça tocou o travesseiro.
Na manhã seguinte, o delicioso aroma de café fresco bacon frito a despertou.
- Finalmente acordou! - A vibrante voz masculina a fez virar-se sob as cobertas.
Nas últimas semanas, essa havia sido a primeira noite que dormira sem ser atormentada por pesadelos ou sonhos confusos. A dor de cabeça diminuíra, e o galo na testa
já não parecia tão grande.
- Que... que horas são?
- Já é tão tarde, que hesitei entre servir café da manhã ou almoço.
- Meu Deus! - Kit exclamou, sentando-se na cama e tentando ajeitar os cabelos com as mãos.
- Você não parece o cisne ferido que descobri dentro daquela capa vermelha ontem à noite, Linda - o médico comentou, frisando o nome de maneira a provocá-la. - Por
que não come enquanto ainda está quente? - e pôs a bandeja sobre os joelhos dela.
Os ovos mexidos com bacon e as torradas pareciam deliciosos. Como Jarod parecia disposto a ficar ali parado, não tinha outra alternativa senão começar a comer. Faminta,
Kit devorou tudo em alguns minutos e esvaziou o copo de suco de laranja.
- Obrigada, doutor Banning.
Com um rápido aceno de cabeça para indicar sua satisfação, ele levou a bandeja e voltou com alguns pacotes, que depositou aos pés da cama.
- Estive fora fazendo compras, mas tive de imaginar os tamanhos.
- Comprou roupas para mim?
- Confesso que gostei do traje de cisne, mas acho que vai sentir-se mais confortável numa roupa mais quente.
- Eu... Obrigada - ela murmurou, oferecendo um sorriso tímido que revelava toda sua beleza, um encanto que o medo havia escondido na noite anterior.
O médico fez um rápido exame antes de perguntar.
- Quer algum analgésico? O galo diminuiu, mas talvez ainda sinta dores...
- Não, obrigada. Prefiro deixar os medicamentos para as ocasiões de real necessidade, e já me sinto bem melhor.
- Parece mesmo melhor. Uma boa noite de sono sempre cura o que os remédios não podem solucionar.
- Sinto-me como nova, doutor. E como teve a gentileza de comprar roupas para mim, acho que vou me vestir e partir. Pagarei por tudo assim que puder.
Precisava de um capuz para esconder os cabelos até que pudesse comprar uma peruca. Se o doutor Banning pudesse ajudá-la com isso, não pediria mais nada.
Para sua surpresa, o rosto do médico tornou-se subitamente sério e ele tirou o jornal de uma das sacolas. A sensação de bem-estar abandonou-a quando ele jogou o
periódico sobre seus joelhos.
- Por que não se veste e vai me encontrar na cozinha? - sugeriu, saindo em seguida.
Mas os olhos de Kit já estavam fixos em uma das manchetes.
DESAPARECIMENTO DE EMPREGADA DA STRAGI-CORP CONFUNDE A POLÍCIA.
Kit abafou um grito e continuou lendo.
"Kit Mitchell, vinte e cinco anos, engenheira química recentemente contratada pela empresa Stragi-Corp, foi vista pela última vez ontem à noite, assistindo a uma
apresentação de O Lago dos Cisnes no Teatro Capitólio.
De acordo com Ross Hunter, cunhado da srta. Mitchell, ele e a esposa a deixaram durante o intervalo para cumprimentar alguns amigos. Quando retornaram, ela havia
desaparecido."
Perturbada por seu desaparecimento já ter se tornado de conhecimento público, ela estudou as fotos.
Um fotógrafo registrara Laura e Ross na frente do teatro. A presença de uma personalidade ligada ao governo sempre atraía a imprensa. Mas nessa foto os traços sempre
tão belos e contidos estavam contorcidos numa máscara de preocupação que podia ou não ser considerada genuína.
A essa altura, estava tão paranóica que qualquer coisa a desequilibrava e, assustada, ela examinou o próprio retrato. Alguém havia dado à imprensa uma foto que ela
tirara para o arquivo de estagiários da universidade, quando ainda procurava por um emprego. Era mais profissional que glamourosa.
Kit leu o restante do texto, aberto por uma manchete menor.
POLÍCIA JÁ TEM SUSPEITAS E CONVOCA O FBI.
O último parágrafo dizia que qualquer pessoa que soubesse do paradeiro da srta. Mitchell devia entrar em contato com a polícia imediatamente.
Kit jogou o jornal sobre a cama, pensando na situação difícil em que colocara o doutor Banning. De acordo com o artigo, se alguém ocultasse informações sobre o caso
as conseqüências seriam graves, incluindo a possibilidade de um processo.
Determinada, respirou fundo e afastou as cobertas. Quanto mais cedo saísse da clínica do doutor Banning, melhor.
A primeira sacola continha um guarda-roupa completo, de roupas íntimas a batom e escova para cabelos, e foi impossível não emocionar-se com a generosidade do médico.
Só lamentava não poder reembolsá-lo imediatamente.
Depois de um banho rápido, Kit vestiu as roupas novas, escovou os cabelos limpos e aplicou uma fina camada do batom que ele trouxera.
O doutor Banning compreendia a alma humana. Ao vesti-la e arrumá-la dessa maneira, conseguira devolver parte de sua dignidade. Sabia que ele havia pressentido esse
tipo de detalhe, como também pressentira que não explicara realmente seu estranho comportamento.
Com exceção do curativo que teria de permanecer por mais um dia, Kit finalmente sentiu-se pronta para agradecer pela última vez e despedir-se antes de enfrentar
o desconhecido.
Arrumou a cama, deixou o pijama e o robe estendidos sobre ela e dirigiu-se à cozinha. Ele virou-se ao ouvir seus passos e examinou-a com atenção, os olhos azuis
fixos em seu rosto.
- Uma transformação e tanto, srta. Mitchell.
CAPÍTULO II
Kit ergueu o queixo.
- Devo tudo isso a você - disse. - As roupas são maravilhosas, e prometo pagar por elas assim que puder. Nas atuais circunstâncias, acho melhor ir embora imediatamente,
antes de envolvê-lo ainda mais nisso tudo. Jarod não disse nada, e o silêncio deixou-a ainda mais nervosa.
- Depois de ler o jornal, percebi que é só uma questão de tempo antes do motorista de táxi contar à polícia o que aconteceu ontem à noite. Se eu for embora, você
poderá responder às perguntas sem qualquer problema.
O silêncio prolongado a desconcertava.
- Eu... lamento tê-lo envolvido nisso, doutor Banning. Coloquei-o numa posição terrível. Às vezes gostaria de estar morta!
- Não diga isso! Esse tipo de pensamento não é solução - Jarod respondeu enfurecido. - Enquanto preparo o jantar que comeremos mais tarde, sugiro que comece a pagar
o que me deve explicando que tipo de encrenca é essa.
- Mas quanto mais tempo ficar aqui...
- Caso não tenha notado, ontem à noite tivemos mais neve. E possível que o motorista de táxi nem tenha lido o jornal, ou esteja ocupado transportando os cidadãos
que tiveram seus carros prejudicados pela nevasca. Duvido que ele tenha ligado a engenheira séria e bem vestida da foto à jovem cisne assustada que transportou ontem
à noite. Seu disfarce foi perfeito. Até eu teria sido enganado se não a houvesse examinado.
- Foi tão bom assim?
- Aposto que, se a visse agora, ele seria incapaz de ligá-la a qualquer uma das duas mulheres. No momento, devo ser o único ser humano em Mountain West que sabe
quem você é. E como é minha prioridade número um, acho que tenho direito a algumas respostas.
Kit sentou-se em uma das cadeiras e o viu colocar um assado no forno.
Jarod fechou a porta do equipamento e virou-se.
- Ontem à noite tratei uma mulher que parecia apavorada até com a própria sombra. Por que não começamos por aí?
- Tudo bem - Kit suspirou resignada. - Há cerca de dois meses entrei em meu escritório e encontrei um bilhete sobre a mesa. Era uma mensagem datilografada, breve.
Ainda lembro as palavras: "Estou observando você, Kit Mitchell, e um dia vou pegá-la."
- Seu nome é Kit?
- É como os amigos mais íntimos me chamam.
- Entendo. Continue.
- A princípio pensei que fosse uma brincadeira. Havia poucas mulheres trabalhando na Stragi-Corp, em sua maioria secretárias e datilógrafas. Eu era a única engenheira,
e os homens que trabalhavam comigo nos projetos gostavam de me provocar com piadas e brincadeiras tolas. Por isso deduzi que o bilhete fosse mais uma dessas bobagens
e joguei-o na lata do lixo. Dois dias mais tarde encontrei o mesmo tipo de bilhete dentro da agenda diária que deixava sobre minha mesa, no escritório. A essa altura
comecei a perguntar às pessoas se sabiam de alguma coisa, se haviam visto alguém, mas a resposta era sempre não. Jeremy sugeriu tratar-se de algum colega invejoso
e aconselhou-me a esquecer essa história. Tentei seguir seu conselho, mas então algo ainda pior aconteceu.
- Quem é Jeremy?
- O presidente da empresa. - Agitada demais para permanecer sentada, Kit levantou-se e começou a andar pela cozinha. - Moro sozinha num condomínio com excelente
segurança, e por isso fiquei alarmada quando encontrei um terceiro bilhete preso ao espelho da minha penteadeira. Especialmente porque mais uma linha havia sido
acrescentada à ameaça. Dizia que meus dias estavam contados.
- Chamou a polícia para relatar os fatos?
- Telefonei imediatamente para minha irmã, Laura. Ela e o marido Ross Hunter foram à minha casa, e depois de ouvir minha história Ross chamou a polícia.
- O que eles disseram?
- A polícia deduziu que a pessoa a me ameaçar era alguém que me conhecia bem, e concordaram, com a teoria de Jeremy sobre o colega invejoso. Um oficial foi destacado
para investigar o caso, e depois disso passei a me sentir melhor. Mas meu medo tornou-se ainda maior quando, uma semana depois, encontrei outro bilhete no bolso
do meu avental no laboratório da empresa. E duas semanas mais tarde deparei-me com uma mensagem idêntica numa jaqueta pendurada dentro do guarda-roupa.
- Qual foi a versão do oficial responsável pelo caso?
- Ele não soube dizer nada, e mais homens foram convocados. Quando contei a Laura, ela e Ross insistiram para que eu fosse passar algum tempo com eles. Ross conseguiu
proteção policial. Assim, fechei minha casa e fui para a casa deles, mas odiei interferir na rotina e no casamento de duas pessoas tão queridas que, além de tudo,
são os únicos parentes que me restam.
- Recebeu mais bilhetes depois de ir para a casa de sua irmã?
- Sim. O primeiro chegou pelo correio.
- Com a mesma mensagem?
- Sempre a mesma. Três dias mais tarde, encontrei outro bilhete dentro do jornal deixado na porta da casa de Laura. Foi então que decidi me demitir do trabalho.
Jeremy ofereceu-me uma licença, e aceitei o acordo sem hesitar. Apesar da proteção policial, os bilhetes continuavam chegando a todos os lugares, e isso me apavorava.
- O que a investigação da polícia concluiu?
- Absolutamente nada. A polícia não conta com recursos suficientes para me oferecer proteção constante, e por isso passei a viver enclausurada na casa de minha irmã.
- E os bilhetes continuaram chegando.
- Isso mesmo. Mais um preso à porta dos fundos, e quase enlouqueci. Se Laura e Ross não estivessem em casa quando isso aconteceu, não sei o que poderia ter feito.
Ross ficou furioso e exigiu o retorno da proteção policial. Minha irmã anda muito nervosa desde que perdeu o bebê que esperava, e que demorou tanto a conceber. Essa
situação colocou-a à beira de um colapso nervoso, e Ross está disposto a tudo para poupá-la.
- A polícia não pôs os cães de guarda no caso?
- Sim, e foi então que os bilhetes cessaram. Passei três semanas sem receber uma única mensagem. Nada. A polícia disse que a pessoa provavelmente havia se cansado
e desistido, e acreditei nisso. Até ontem à noite...
Jarod terminou de descascar algumas batatas e foi sentar-se, convidando-a a fazer o mesmo.
- O que aconteceu ontem à noite?
- Ross insistiu em nos levar ao bale, certamente para nos distrair um pouco e provar que já não estava tão preocupado. Ele até dispensou os cães, e seu otimismo
me deu coragem. Adoro bale, e decidi acreditar que o pesadelo havia acabado e podia voltar a viver.
Kit levantou-se e começou novamente a andar pela cozinha.
- No intervalo eles afastaram-se para cumprimentar alguns amigos. Comecei a ler o programa e encontrei um bilhete no meio das páginas. Mas esse era diferente. Dizia:
"Esta será a noite, Kit. Mitchell." Nunca senti tanto medo em minha vida. A pessoa que me perseguia estava na platéia, perto de mim! Perdi o controle.
- Posso imaginar.
- Lamento, doutor Banning, mas duvido que possa. Algo aconteceu dentro de mim e eu fui procurar minha irmã, mas não consegui encontrá-la. Então vi aquele homem no
saguão, tive a impressão de que me olhava de maneira estranha e entrei em pânico.
- Devia ser um guarda de segurança. Por que não falou com ele?
- Para quê? Se a polícia não havia conseguido descobrir nada, o que um simples segurança poderia ter feito?
- Muita coisa, mas isso não tem mais importância. O que fez depois disso?
- Tomei a decisão de desaparecer.
- Deve ser muito esperta para ter encontrado o caminho dos bastidores e disfarçar-se naquele traje.
- Estava desesperada.
- Como livrou-se de suas coisas?
- Esvaziei minha carteira no vaso sanitário e escondi as roupas e a bolsa no fundo de um cesto cheio de sapatilhas. Guardei apenas quarenta dólares, e escapei pela
escada de incêndio que levava ao corredor lateral do teatro. O mesmo homem que eu havia visto no saguão estava lá, no final do corredor, como se me esperasse. Foi
então que gritei e comecei a correr em direção ao táxi. Se não tivesse caído e batido a cabeça, teria passado ã noite no Exército da Salvação e hoje estaria a caminho
de algum lugar qualquer.
- Talvez. Talvez não. De qualquer maneira, a polícia já deve ter descoberto tudo à essa altura, mesmo que as conclusões não tenham sido publicadas nos jornais. Seu
desaparecimento deve ter sido ligado a outro problema. Um mistério dentro de outro, percebe?
Kit parou.
- Já contei toda a verdade. A única coisa que desejo é desaparecer e começar uma nova vida em outro lugar. Se puder comprar uma peruca... - ela pediu, engolindo
o orgulho. - Só preciso disso para sair daqui sem ser reconhecida. Prometo reembolsá-lo assim que puder.
- Quais são seus planos?
- Chegar o mais longe que puder.
- Estou me referindo a planos específicos.
- Bem, pensei em comprar uma passagem de ônibus e me esconder em Nevada. Depois procuraria um emprego de faxineira num hotel, porque eles nem sempre pedem referências.
- Considero seu medo perfeitamente razoável, mas o que pretende só servirá para afastá-la do problema temporariamente. Não eliminará o fato de que alguém com desordens
psíquicas pretende prejudicá-la e ainda está por aí, solto. Se essa pessoa nunca for presa, vai passar o resto da sua vida carregando um medo que acabará por destruí-la,
privando-a do direito de viver de acordo com o que o destino traçou para você. É isso que quer?
- É claro que não! Mas estou com tanto medo que não sou capaz de agir ou pensar com um mínimo de normalidade. Sei que pareço uma psicótica!
- De maneira nenhuma! Está sofrendo uma reação fóbica por razões perfeitamente legítimas.
- Odeio isso. Meu problema perturbou toda a família. Prejudiquei minha carreira e atrapalhei todos os projetos em que estava envolvida. Minha vida social deixou
de existir, porque não confio em mais ninguém além de Latira.
-Não confia em seu cunhado?
Kit refletiu um pouco antes de responder.
- Sim, é claro que sim. Mas a polícia disse que a tal pessoa devia ser próxima, e deduzi que Ross fazia parte da lista de suspeitos. Não entende? Tenho de fugir
antes de perder a sanidade e destruir todas as pessoas que me cercam.
- E acha que essa fuga não vai perturbar sua irmã?
- Pretendo telefonar e tranqüilizá-la assim que chegar em Nevada.
- O que pode levar algum tempo. É estranho não ter pensado em telefonar para alguém que diz amar e em quem afirma confiar tão cegamente.
- Se quer mesmo saber, certa noite ouvi uma conversa entre Laura e Ross. Ela estava bastante perturbada, e perguntava ao marido se eu não podia ter inventado toda
essa história para chamar atenção, porque estava sentindo falta de meu pai - Kit confessou relutante. Ainda doía pensar que sua própria irmã pudesse ter tal desconfiança.
- Então está punindo sua irmã por ter duvidado de você - Jarod concluiu. - Entretanto, há pouco revelou que Laura tem suportado grande tensão desde que abortou.
- Está falando como se eu fosse um monstro!
- Estou apenas repetindo o que você mesma disse. Kit refletiu um pouco antes de falar novamente.
- Bem, talvez queira ferir Laura, mas não havia percebido até esse momento.
- É normal que acabe atacando a única pessoa que a ama de maneira incondicional.
- Mas... ela realmente me ama?
- Não? - ele ergueu uma sobrancelha. - Não teria formulado a mesma questão a respeito dela se os papéis fossem invertidos? Você mesma admitiu que a polícia não encontrou
pistas.
- Sim, mas eu não teria perguntado a mesma coisa, porque conheço Laura, e sei que ela é incapaz de criar uma mentira como essa.
Jarod levantou-se e aproximou-se dela.
- Deixe-me dizer uma coisa, Kit. Se é que posso chamá-la assim...
Ela afirmou com a cabeça.
- Um ser humano é capaz de tudo, dadas as circunstâncias adequadas.
- Está dizendo que acredita que inventei tudo isso?
- Inventou?
- E claro que não!
- Acredito em você.
Kit deixou escapar o ar que havia prendido sem perceber.
- Quer mesmo ver essa pessoa que a persegue atrás das grades?
- Faria qualquer coisa para isso, se acreditasse ser possível.
- Acredita que qualquer coisa é possível?
-Antes disso tudo acontecer, minha resposta teria sido sim.
- Estaria disposta a colocar-se em minhas mãos até que essa pessoa seja presa?
- Escute aqui, doutor Banning, já interferi demais em sua vida. Não sei aonde está querendo chegar, mas não posso mais importuná-lo.
- Não estaria importunando se aceitasse o emprego de recepcionista temporária em meu consultório.
- O quê?
- Contratar alguém para atender o telefone, cuidar da agenda e dos arquivos é a próxima ordem de serviço em minha lista de prioridades. Como já expliquei, ainda
estou abrindo a clínica, e você poderia me ajudar com a papelada e a organização em geral.
- Mas... por que quer fazer isso por mim? Não entendo,
- Seu caso não só é único, como bizarro. Naturalmente, gostaria de vê-la voltar a viver como uma pessoa normal, mas admito que estou curioso sobre essa pessoa que
tanto a aterroriza. Na prática médica, temos oportunidade de trabalhar com a lei quando um elemento criminoso entra em cena. Tenho um bom amigo, atualmente aposentado
do departamento de polícia de Denver, que mora em Summit County e aceita casos estranhos com detalhes pouco costumeiros, como o seu. Gostaria de sua permissão para
entrar em contato com ele e explicar a situação.
- Mas ele não poderá me ajudar.
- Confie em mim, Kit. Esse homem é muito competente. No seu lugar, eu gostaria muito de tê-lo a meu lado. Ele pensará no pagamento depois do caso encerrado. Se aceitá-la
como cliente, ele a teria como única prioridade. É evidente que teria de estar sempre acessível e disponível, e trabalhar para mim seria a maneira mais fácil de
garantirmos essa disponibilidade.
Lentamente, Kit aproximou-se da pia e olhou pela janela. O mundo parecia ter parado sob a camada de neve espessa que o cobria.
- Não sei o que pensar. A idéia de ter de suportar essa história por mais tempo me assusta.
- Não precisa decidir agora. Apenas pense em minha proposta, e saiba que será bem-vinda em minha casa até quando decidir que é hora de partir, de uma forma ou de
outra.
- Deve achar que sou a pessoa mais egoísta e ingrata que já conheceu - Kit comentou com um sorriso apagado.
Os olhos dele foram iluminados por um brilho de compaixão.
- Você é apenas a vítima de um conjunto de circunstâncias totalmente além do seu controle. O fato de ter ido ao teatro ontem à noite revela muito sobre a coragem
e a determinação que movem Kit Mitchell. Mas está enfrentando algo de que só conseguirá se livrar com ajuda externa, e estou oferecendo essa ajuda em troca de trabalho.
Gratidão não faz parte do trato.
- É um bom homem, doutor Banning. Deve ter uma legião de pacientes.
- Sua decisão me dirá qual é a extensão exata de minha competência como médico. Bem, agora temos de voltar ao assunto do disfarce - ele suspirou. - Que tal uma peruca
loira? Acho que ninguém conseguirá reconhecê-la. Kit sorriu e encarou-o com um novo brilho nos olhos.
- Fico tão ridícula como loira, que a escolha seria perfeita. Especialmente se a peruca for longa.
- Ridícula? - ele sorriu, deixando os olhos vagarem pelo rosto delicado. - Não acredito. Exótica, talvez, mas nunca ridícula.
Kit sentiu-se estranhamente afetada pelo comentário. Desde a formatura, saíra com alguns colegas de trabalho, mas nenhum deles transformara-se em algo mais sério.
Um jantar, um filme... Eram todos simpáticos, agradáveis, dedicados ao trabalho, como ela, mas nenhum poderia competir com o doutor Banning. Na verdade, jamais conhecera
um homem como ele. Na falta de palavra melhor para descrevê-lo, completo parecia ser o termo ideal. Um homem íntegro, total, em quem confiava cegamente.
Kit respirou fundo.
- Já que vai sair, é melhor comprar um uniforme, também. Como recepcionista da clínica, tenho de me preocupar com uma aparência discreta e eficiente. Talvez um par
de óculos para disfarçar esse ar selvagem...
Um sorriso sutil distendeu os cantos dos lábios de Jarod, assustando-a. De repente percebia que, com essas poucas palavras, acabara de comprometer-se com o plano
do médico.
- Você é uma lutadora, Kit - ele comentou, tocando seu queixo de um jeito quase paternal. - E isso significa tudo. Bem, agora vou sair. Se não conseguir encontrar
o que combinamos, que tal transformar-se em uma ruiva?
- Cabelos vermelhos chamam muita atenção. Não acredito que queira esse tipo de imagem para sua clínica.
- É verdade - ele riu. - Transferi todas as ligações para o serviço de recados. Não atenda o telefone em hipótese alguma, ouviu bem? Há um aparelho de tevê, e alguns
livros e revistas em meu quarto, caso queira distrair-se. Sinta-se em casa. Se sentir fome, o refrigerador e a despensa estão bem estocados. E se for realmente ambiciosa,
aproveite e tempo livre para acrescentar as batatas ao assado dentro de meia hora.
- Ambiciosa? Agora entendo! Está atrás de uma cozinheira. Odeio desapontá-lo, doutor, mas há anos não vou para a cozinha.
Rindo, Jarod saiu e fechou a porta sem fazer barulho.
Era estranho, mas agora que tomara a decisão de ficar Kit sentia-se tranqüila e relaxada, sensações que há muito não experimentava.
Conhecê-lo havia sido uma espécie de milagre. Não que a situação houvesse mudado de alguma forma, mas de repente sentia-se viva outra vez, livre do medo que antes
a paralisava.
Invadida por uma deliciosa onda de energia, pesquisou a cozinha e decidiu preparar uma sobremesa para o jantar. Se encontrasse todos os ingredientes faria seu famoso
bolo de chocolate e menta, única receita que conseguira guardar na memória.
Para sua surpresa, conseguiu achar quase tudo, exceto a essência de menta e o chocolate em pó. No lugar deles decidiu usar baunilha e achocolatado para misturar
ao leite, e a substituição deu excelentes resultados.
Depois de cuidar do assado e das batatas, Kit pôs o bolo no forno e decidiu aproveitar o tempo para conhecer o restante da casa. O teto alto e as molduras em madeira
conferiam uma certa graça ao ambiente que, devidamente mobiliado, seria bastante atraente.
Com exceção da cozinha, todos os cômodos do primeiro andar haviam sido convertidos em clínica. A lavanderia devia ficar no porão. O segundo andar era formado por
três quartos e dois banheiros. Um dos dormitórios permanecia vazio. O outro havia sido parcialmente mobiliado com uma beliche e uma poltrona ao lado da janela, e
o terceiro, dominado por uma ampla cama de casal, devia ser o quarto do doutor Banning. Sobre uma cadeira, a mala aberta com algumas peças de roupa atestava que
a mudança ocorrera recentemente.
Kit já estava saindo quando notou a foto sobre a cômoda. Era possível reconhecer um dos garotos como sendo o doutor Banning, e o segundo rapaz devia ser o irmão
mais velho do médico, tal a semelhança entre ambos. Os meninos deviam ter entre dezesseis e dezoito anos, cheios de energia c vitalidade no auge da transformação
da infância para a maturidade masculina.
Kit olhou para o retrato por alguns instantes antes de descer, ansiosa para familiarizar-se com o que seria a sala da recepcionista. O pequeno escritório ficava
na frente da casa, à direita, com o consultório logo atrás.
Como no restante do andar, o piso havia sido forrado por um carpete verde escuro e as paredes brancas permaneciam vazias. Cadeiras em couro marrom criavam um ar
elegante e discreto que garantiria o conforto de todos que procurassem os serviços do médico, fossem ricos ou pobres.
A sala da recepcionista fora equipada com um arquivo metálico, um computador e um telefone dotado de sistema de comunicação interna, más as caixas alinhadas junto
da parede indicavam que as gavetas ainda permaneciam vazias. Várias horas de trabalho seriam necessárias para colocar tudo em ordem.
Kit gostava de trabalhar. Na adolescência, sempre ajudara o pai no escritório de advocacia quando uma das secretárias saía de férias em pleno verão. O mínimo que
poderia fazer para retribuir a bondade e a generosidade do médico era ser a melhor recepcionista possível.
Por falta do que fazer, decidiu abrir a caixa enviada por uma firma de suprimentos para escritório e começou a arrumar tudo nas gavetas e prateleiras, seguindo o
próprio sistema de organização. Havia um radio-relógio em uma das caixas, e ela sintonizou-o numa estação que executava música clássica. Adorava esse tipo de música,
e sempre a estudara com afinco e dedicação.
- Não precisa construir Roma em um dia.
A voz do doutor Banning a fez virar-se assustada e desligar o rádio, embaraçada por ter sido surpreendida cantarolando.
- Espero que não se importe por ter começado a organizar as coisas.
Ele despiu a jaqueta sem deixar de encará-la. - Já decidimos que a recepção será seu departamento, Por que me importaria?
- Tem razão.
- Como vai o nosso jantar?
- O jantar!
Kit saiu correndo em direção à cozinha, e felizmente chegou a tempo de salvar o jantar e a sobremesa. Jarod a seguiu depois de algum tempo.
- Acabei de telefonar para Dart Thueson, o investigador particular de quem falei antes. A esposa dele disse que daria o recado e pediria para que ele entrasse em
contato ainda: hoje. Pedi ao serviço de recados que transfira a ligação de Thueson para cá. Por precaução, é melhor esperar até que eu tenha conversado com ele para
telefonar para sua irmã. Dart certamente a aconselhará sobre o que dizer a ela.
Lembrar de Laura ofuscou a alegria do momento e os olhos de Kit entristeceram-se. Por algum tempo, conseguira: livrar-se do medo. E tudo por causa do prazer proporcionado
pela companhia do doutor Banning.
Sem parar para considerar as conseqüências, colocara a própria vida nas mãos de um homem que mal conhecia. Talvez houvesse finalmente perdido a sanidade...
CAPÍTULO III
- Acho que o jantar está pronto - ela informou depois de lavar as mãos na pia.
- Ótimo! Estou com água na boca desde que entrei em casa.
Jarod abriu uma garrafa de vinho tinto, dizendo que um pouco de álcool a ajudaria a relaxar. Depois sentaram-se para saborear a comida que até a mãe de Kit teria
elogiado, caso estivesse viva.
- Parabéns pela receita! - ela exclamou depois do primeiro bocado. - Caso haja uma revolução e a profissão de médico seja extinta...
- Deus me livre!
- Ora, podia ser um excelente cozinheiro. Os ricos estarão sempre dispostos a pagar por uma boa refeição.
- Acho que iria preferir voltar à fazenda.
Então acertara ao imaginar que ele apreciava a vida ao ar livre! Gostaria de fazer algumas perguntas, mas Jarod foi mais rápido.
- E quanto a você? Se o mundo não precisar mais de engenheiras químicas, como vai sobreviver?
- Não estou preocupada. Meu professor de estatística sempre disse que, caso esse dia chegasse, seria o fim do mundo, e não teríamos mais de pensar em sobrevivência.
Por isso escolhi essa profissão.
Jarod riu com vontade.
Kit saboreou o vinho devagar, tentando não inebriar-se com o poder daquele rosto iluminado. Quando preparavam-se para sobremesa ela percebeu que o médico podia falar
sobre vários assuntos com a mesma desenvoltura, e conseguira fazê-la rir várias vezes com anedotas relacionadas à prática de sua profissão.
- Afinal, o que espera que eu faça como sua recepcionista, doutor? Imagino que as pessoas que o procuram tenham problemas físicos e emocionais, e não quero deixá-las
ainda mais perturbadas dizendo algo errado.
O médico inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos sobre a mesa.
- São todos seres humanos, como você e eu. Seja natural, e tudo estará solucionado. Quanto à agenda, ainda não sei como dividirei meu tempo entre a clínica em Heber
e esta aqui.
- Também atende em Heber? - A pequena comunidade rural em Wasatch Mountains, cerca de sessenta quilômetros a sudeste de Salt Lake, era um de seus lugares favoritos.
- Sim, pratico a medicina por toda essa região. Acho que teremos de planejar as coisas semanalmente. Ainda é tudo muito confuso, e não me sinto capaz de prever muito
além dos próximos dias.
- Por minha causa - Kit deduziu com a testa franzida.
- Não, srta. Mitchell. Contratá-la foi a solução de um de meus maiores problemas.
De repente tinha a impressão de que algo acontecia com ele, como se seus pensamentos estivessem distantes, tomados por uma súbita apreensão.
- Posso saber por que se divide entre essa clínica e as montanhas?
- A maioria de meus pacientes vive em Salt Lake. Até nove meses atrás, quando meu irmão morreu depois de cair de um cavalo, administrávamos uma clínica juntos. Ele
era psiquiatra. Tínhamos um arranjo perfeito e freqüentemente colaborávamos em casos criminais atendidos pelas cortes locais.
- Foi assim que conheceu o sr. Thueson?
- Exatamente. Desde a morte de meu irmão, tenho considerado a idéia de limitar-me aos pacientes de Salt Lake, o que seria mais prático e simples. Entretanto, essa
mudança deve ser feita gradualmente e... bem, tenho laços em Heber que sempre me levarão de volta.
- Como uma esposa e filhos, por exemplo?
- Como um sobrinho e uma sobrinha - ele sorriu. - Voltando ao assunto que nos interessa - disse, mudando de assunto sem dar tempo para outras perguntas - na próxima
semana trabalharei das nove às quatro. A agenda está no meu consultório. Amanhã é domingo, e você ainda tem algum tempo para examiná-la e verificar o que já está
marcado. Um de seus deveres será telefonar para as pessoas com um dia de antecedência para confirmar o horário da consulta e lembrá-los da data marcada.
- Quando novos pacientes ligarem querendo marcar uma consulta, como devo atendê-los?
- Por enquanto eu cuidarei dessas chamadas. Tudo depende de onde estiverem e da urgência do caso. Quando tenho pacientes hospitalizados, vou visitá-los sempre antes
das nove. Mais alguma pergunta?
- Várias. Quando pretende voltar a Heber?
- No próximo final de semana, e passarei dez dias por lá.
- Entendo. - Por alguma razão inexplicável sentia-se subitamente vazia.
Jarod riu.
- Duvido. Você irá comigo, é claro. Dart aposentou-se e foi viver em Heber, a três quilômetros da fazenda. Passará algum tempo com ele, fornecendo todos os detalhes
do caso.
Kit sentiu-se culpada por estar tão aliviada. A consciência de estar se tornando tão dependente do médico a incomodava e perturbava, e não sabia o que fazer com
os novos sentimentos.
O som do telefone o fez levantar-se.
- Vou atender no consultório. Não guarde o bolo, está bem? Pretendo comer mais um pedaço desse pecado em forma de sobremesa.
Kit levantou-se e decidiu lavar os pratos, certa de que a atividade física seria uma excelente maneira de canalizar a energia. O doutor Banning passou um bom tempo
ao telefone, o que fez imaginar se o sr. Thueson estaria hesitando em aceitar o caso.
- Onde está o bolo? - Jarod perguntou assim que entrou na cozinha.
- No refrigerador. Conversou com o sr. Thueson?
- Sim, e ele aceitou o caso. Na verdade, agarrou-se a ele com unhas e dentes - ele respondeu, começando a comer antes mesmo de sentar-se.
- Por que tanta ansiedade?
- Dart come, bebe e dorme trabalho. Quanto maior o desafio, mais excitado ele fica. O desaparecimento misterioso de uma certa Kit Mitchell pôs o departamento de
polícia de Salt Lake em polvorosa, e Thueson não seria capaz de recusar um trabalho tão envolvente e enigmático. Vai gostar dele, Kit. O psicopata que transformou
sua vida nesse inferno está com os dias contados. Pode apostar nisso.
- Fala como se tudo fosse muito fácil - ela suspirou emocionada.
- Não é fácil, mas é possível. Só precisa seguir todas as instruções do investigador, e a primeira delas é que não deve falar com ninguém até terem conversado. Dart
prometeu não dizer nada à polícia sobre meu telefonema.
- Farei como está dizendo - Kit prometeu, apesar da preocupação com a irmã. Tinha de pensar em sua segurança e, para isso, seguiria todas as orientações das pessoas
que dispunham-se a ajudá-la.
- Para começar, ele vai tentar obter informações sem que ninguém perceba que está investigando. O fato de ter desaparecido sem deixar pistas faz com que todos acreditem
no pior, e isso vai ajudá-lo a descobrir novos dados.
- Farei tudo que puder para ajudar a prender esse maluco que me persegue. As últimas vinte e quatro horas me fizeram compreender que não posso mais conviver com
esse medo horrível. Isso não é vida!
Jarod pôs o prato vazio na pia e encarou-a.
- Vejo que é uma mulher sensata. E agora, sugiro que vá se deitar. Depois do acidente de ontem à noite, precisa descansar e dormir bastante. Amanhã voltaremos a
discutir suas novas atividades. Já pensou num nome fictício?
- Linda Smith - ela respondeu sem hesitar.
- Perfeito. O fato de ser um nome comum dá certa credibilidade à escolha. Boa noite, Linda Smith. Amanhã poderá remover o curativo e, se estiver bem, poderá transcrever
as notas que gravei em fitas cassete. Estou atrasado cerca de duas semanas.
- Francamente, será um alívio poder fazer algo de útil.
- É uma dessas maníacas por trabalho?
- Por que pergunta? - ela estranhou, constatando a nota de censura em sua voz.
- Por que está tão ofendida? Alguém já disse que sua imaginação é tão grande quanto sua inteligência?
Kit gemeu, surpresa com a capacidade do médico de ir direto ao ponto.
- Todas as pessoas que me conhecem - confessou.
- Amar sua profissão não é nenhum pecado, mas pode despertar diferentes emoções nas pessoas que se aproximam em busca de um relacionamento. Pense nisso. Amanhã à
noite exploraremos o mundo de Kit Mitchell, a mais nova garota prodígio da Stragi-Corp. Sua percepção, e a percepção daqueles que a cercam.
Kit não sabia se gostava do som da proposta.
- Qual é o problema? - ele murmurou. - Não sabe que os engenheiros químicos são postos em pedestais ainda mais altos que os reservados aos médicos? Muitas pessoas
sentem-se menosprezadas quando aproximam-se de alguém como você, pertencente à elite que faz nosso mundo girar.
Os olhos dela refletiram espanto diante de tão amplo e agudo conhecimento sobre os fatos da vida.
- Amanhã faremos uma pequena representação. Uma das maiores dificuldades do ser humano é enxergar-se como os outros nos enxergam, mas quando conseguimos essa proeza
os resultados são sempre uma revelação.
Ele abrira uma velha ferida, e agora Kit tinha muito em que pensar.
- Boa noite, doutor Banning.
Kit sentiu que os olhos dele a acompanhavam quando saiu da cozinha rumo à frente da casa, invadida por uma incômoda sensação. Durante uma conversa comum ele transformava-se
subitamente em médico, fazendo uso do conhecimento e da percepção com que mergulhava na alma dos pacientes. Trocava os papéis de amigo e confidente pelos de médico
e inquisidor com uma facilidade que a perturbava.
Como nada nesse relacionamento era normal, não tinha meios de saber como seria conhecê-lo socialmente, e censurava-se freqüentemente por pensar nesse homem em qualquer
outra posição que não a de médico.
Quando finalmente deitou-se, Kit demorou a dormir. Sozinha no escuro, tinha a impressão de estar vivendo um sonho sem qualquer contato com a realidade. Mas saber
que o doutor Banning assumira o comando de sua vida proporcionava uma certa medida de paz que ajudou-a a adormecer tranqüilamente.
Na manhã seguinte ela acordou tarde e encontrou vários pacotes ao lado da cama. Em dois deles havia um suéter e uma saia, e um avental azul pálido. No outro, Kit
encontrou um par de óculos e uma peruca.
Excitada com a descoberta, correu para o banheiro onde removeu o curativo, tomou banho e vestiu as novas roupas. Em seguida foi a vez da peruca.
O tom dourado apagado conferia certa respeitabilidade, e o corte realçava o contorno do rosto. A franja chegava quase a cobrir as sobrancelhas, e os óculos de aros
de tartaruga completaram a transformação miraculosa.
- Doutor Banning? - chamou entusiasmada, correndo ao consultório para agradecer. Quando não conseguiu encontrá-lo, voltou à cozinha, mas o médico também não estava
lá. Talvez houvesse ido ao hospital. Também havia a possibilidade dele ainda estar deitado, mas não se atreveria a ir ao quarto.
Enquanto esperava que o doutor aparecesse, Kit preparou suco e torradas. Os minutos foram passando e, esgotada a euforia inicial, ela decidiu que era melhor ocupar
o tempo trabalhando, ou acabaria enlouquecendo.
Havia acabado de sentar-se para transcrever as fitas quando ouviu o interfone da porta da frente e pulou, apavorada com as inúmeras possibilidades que passaram por
sua mente. Podia ser a polícia!
Quieta, esperou que a pessoa desistisse, ou que o doutor Banning aparecesse para atender à porta. O segundo toque a fez levantar-se, mas as pernas começaram a tremer
quando o visitante tocou pela terceira vez, agora de maneira mais prolongada e desesperada.
Suando frio, caminhou na ponta dos pés para aproximar-se da porta e ouvir os sons do outro lado.
- Tio Jarod! - um garoto gritou, batendo na porta com as mãos espalmadas e insistindo no interfone, tudo ao mesmo tempo.
A família do doutor Banning! Gostaria de deixá-los entrar, mas não sabia como a fechadura funcionava.
- Jarod? - uma voz feminina chamou. - Sou eu, Lucy. Deixe-nos entrar. Chet, vá até a garagem e veja se o Land Rover está lá.
- Já fui até lá, mas não há nenhuma janela - o menino respondeu.
- Deve estar dormindo - deduziu a mulher. - Vá até os fundos da casa e jogue uma bola de neve na janela do quarto. Jarod deve ter trabalhado até tarde e perdeu a
hora de levantar-se.
Ela parecia ansiosa, e Kit trabalhou com empenho para saber como funcionava a fechadura. Quando finalmente conseguiu descobrir o segredo e abrir a porta, um barulho
de vidros quebrados as surpreendeu.
Enquanto as duas permaneciam num silêncio perplexo, a filha, que devia ter cerca de sete anos, passou por elas gritando para o irmão mais velho, que acabara de surgir
na porta, que ele estava encrencado por ter quebrado a vidraça do tio Jarod.
- Desculpe ter demorado tanto a abrir - Kit disse ao fechar a porta, esperando aplacar a ira da cunhada do doutor Banning, que aproximava-se da escada com passos
furiosos. Devia estar aborrecida por ter sido mantida tanto tempo no frio, esperando.
Era uma mulher pequena, de aparência frágil, embora bonita. Os cabelos claros e as faces pálidas conferiam um ar quase dramático à viúva. Se os dois irmãos haviam
sido parecidos, Kit não podia deixar de sentir compaixão pela pobre mulher, cujo marido se fora um ano antes.
- Sou Lucy Banning, cunhada de Jarod - ela anunciou, olhando para a desconhecida com condescendência. - Decidimos surpreendê-lo - e olhou em volta, permitindo que
Kit tivesse alguns segundos para estudá-la em sua elegância discreta. Devia ter cerca de trinta anos, mas ainda conservava a figura jovem e enérgica de uma menina.
- Ei, vejo que ele fez grandes progressos na última semana. - Finalmente voltou a encarar Kit com atenção, fixando os olhos azuis em seu rosto com uma expressão
que indicava aborrecimento. - Ele já dispensou a sra. Baxter?
- Não sei.
- Quando começou a fazer limpeza para Jarod?
- Ontem. - Kit decidiu fingir-se inocente, sentindo a tensão que invadia o ambiente. - Na verdade, fui contratada para fazer o serviço de datilografia e atender
o telefone.
- Você?
O choque da mulher foi tão evidente que Kit sentiu-se incomodada. Essa era uma complicação que ela e o médico não haviam discutido.
- O que está fazendo aqui num domingo?
- O doutor Banning vai ter uma semana cheia, e por isso sugeriu que eu aproveitasse a calmaria do domingo para me familiarizar com o escritório. Ainda estou um pouco
nervosa, e ia começar a transcrever uma fita quando vocês chegaram.
- Qual é seu nome?
- Linda Smith.
- Muito bem, srta. Smith, não quero atrapalhar seu trabalho. Vou subir e verificar a extensão do prejuízo.
- Que prejuízo?
As duas viraram-se quando a voz do doutor Banning ecoou na porta dos fundos. Uma estranha tensão entrou com ele na sala, e sua expressão parecia carrancuda.
- Por favor, não fique zangado, Jarod. Pensamos que estivesse dormindo, e disse a Chet para jogar uma bola de neve em sua janela. Espero que nos desculpe - ela pediu,
aproximando-se para beijá-lo no rosto com a intimidade que só os parentes conseguem ter.
O doutor Banning não parecia convencido pela explicação e, sério, virou-se para a recepcionista.
- Linda, por favor, telefone para a Companhia de Vidros A-1. Eles trabalham vinte e quatro horas por dia, e sempre dão prioridade às emergências. Peça que venham
imediatamente, sim?
- Está bem - Kit murmurou, dirigindo-se à recepção para cumprir a tarefa.
- Não devia ter vindo, Lucy. Vou deixar que fiquem uma hora, pelo bem das crianças, e nem um segundo a mais. Vá buscá-los. Vamos comer no Village Inn.
- Oh, Jarod!
Kit podia ouvir a conversa com clareza, e tinha a impressão de que a recém-chegada parecia arrastada.
- Esperava poder ficar o dia todo. Na verdade, vim me oferecer para ajudá-lo a instalar-se, e viajamos por essas estradas cobertas de neve só para vê-lo. As crianças
trouxeram mais coisas para decorar o quarto...
- Devia ter me avisado sobre sua chegada.
- Deixei vários recados, mas você não retornou nenhum deles.
- Tenho estado ocupado com meus pacientes. Da próxima vez, espere por um convite de forma que as crianças não fiquem desapontadas. Foi sorte Linda estar aqui para
abrir a porta.
- Por que não me dá uma chave?
- Esse lugar é uma clínica, além de ser minha casa. Tudo funciona por controle remoto quando não estou por perto, de forma que seria impossível entrar sozinha.
- Tenho certeza de que pode providenciar outro controle remoto para sua família.
- Não, ou perderei a licença de compra e estoque de medicamentos.
- Por favor, Jarod, não vamos discutir. Tenho sentido sua falta.
Kit identificou a dor na voz de Lucy e sentiu-se culpada. Tentando distanciar-se das emoções que pairavam na sala, insistiu no número da companhia de vidros, cuja
linha continuava ocupada. Era evidente que a reação do médico à chegada da cunhada e dos sobrinhos estava relacionada à sua presença. Na tentativa de preservar um
segredo, arriscava-se a ferir a esposa do irmão e os sobrinhos que tanto amava.
De repente Kit pensou na possibilidade de haver uma ligação mais íntima entre eles que a de cunhados. Era bem possível, e sabia disso por experiência própria. Afinal,
ela e Ross estavam saindo juntos quando ele conhecera Laura e a pedira em casamento...
Talvez o doutor Banning fosse apaixonado por Lucy há muito tempo, e por isso jamais houvesse se casado.
Kit emitiu um gemido angustiado e censurou-se por permitir que idéias tão inoportunas invadissem sua mente. O relacionamento deles, qualquer que fosse, não era de
sua conta. Conhecia o doutor Banning há dois dias, e isso não lhe dava o direito de interferir em sua vida.
Esse sentimento de posse por um homem que mal conhecia beirava o irracional, e já era hora de voltar a comportar-se com um mínimo de normalidade.
- Bela discussão está mantendo com você mesma - o médico comentou do outro lado da mesa.
Vermelha, imaginou há quanto tempo ele estaria ali-, enquanto duelava com suas idéias insanas e absurdas.
- Lamento estar causando tantos problemas - Kit respondeu.
- Pare de desculpar-se. Comportou-se muito bem, e seu disfarce é tão perfeito que nem eu acredito que Kit Mitchell um dia esteve aqui.
- Não precisa ser gentil, doutor Banning. Sei que está pagando um preço alto por me ajudar, e sinto que devo pedir desculpas. Lamento que minha presença esteja causando
mais problemas do que antecipamos.
- Os problemas foram causados por Lucy e sua chegada inoportuna.
- Mas ela estava certa. Ela é da família.
- O que só torna sua atitude ainda pior. Lucy me conhece o suficiente para saber que não devia vir sem antes me avisar, especialmente agora, que passo a maior parte
do meu tempo em Salt Lake. Estou tomando providências para que isso não volte a acontecer. Conseguiu falar com a companhia de vidros?
- Ainda não.
- Continue tentando. Voltarei dentro de uma hora.
Segundos mais tarde, a cunhada e os sobrinhos do médico foram formalmente apresentados a Linda, a nova recepcionista, e em seguida saíram para almoçar.
Assim que a porta se fechou, Kit ouviu Jennifer perguntar:
- Se Chet quebrou a janela, por que disse que mamãe vai ter de pagar por ela, tio Jarod?
- Estava apenas pensando alto, querida. Os adultos têm essa mania.
CAPÍTULO IV
Trabalho. Kit precisava trabalhar. Qualquer coisa para tirar da cabeça o homem que tornava-se uma espécie de obsessão.
Infelizmente, ouvir a voz do doutor Banning quando estava transcrevendo uma de suas fitas a impedia de pensar em qualquer outra coisa.
Pior, quando conseguiu falar com a companhia e eles enviaram um funcionário para trocar a vidraça, teve de ficar com ele no quarto do médico, e nem a televisão conseguiu
distraí-la.
O homem partiu e ela aproveitou para assistir ao telejornal, sem prestar muita atenção às notícias sobre um terremoto na Itália e mais um escândalo na família real.
No momento, sua vida limitava-se às quatro paredes dessa casa, e era como se houvesse perdido o contato com o mundo exterior.
Até que viu uma foto dela mesma na tela da tevê.
Era a mesma fotografia que fora estampada em todos os jornais vendidos em Utah. Perplexa, Kit ouviu o apresentador repetir tudo que já havia sido publicado pela
imprensa escrita.
- À essa altura a polícia especula se a srta. Mitchell pode ter sido seqüestrada, possivelmente por extorsionários dispostos a cobrar pela segurança da engenheira.
Estima-se que William Mitchell, falecido pai da desaparecida, tenha deixado mais de um milhão de dólares para a vítima e sua irmã, Laura Mitchell Hunter, esposa
de Ross Hunter, da Mitchell, Hunter e Associados. Desde que ela desapareceu do Teatro Capitólio, há duas noites, a polícia de Salt Lake investiga todos os rumores,
especialmente os que circulam entre os amigos mais próximos da srta. Mitchell, segundo os quais ela tem estado deprimida desde a morte do pai, exibindo inclusive
sinais de esgotamento emocional nos últimos dois meses. Nossa emissora exibirá a foto de Kit Mitchell nos intervalos da programação. Se você viu essa mulher em algum
lugar, por favor, telefone para...
Descontrolada, Kit mostrou a língua para a televisão antes de desligá-la, pálida e perturbada.
- Não estou deprimida - gritou agoniada, atirando-se sobre a cama e entregando-se ao pranto convulsivo.
- Kit?
Assustada, rolou sobre o próprio corpo e sentou-se.
- Eu... sinto muito, doutor Banning. O noticiário me deixou um pouco perturbada.
- Posso imaginar - Jarod respondeu, sentando-se ao lado dela e abraçando-a num gesto silencioso de consolo. - Se vai chorar, é melhor tirar a peruca, ou terei de
sair para comprar outra amanhã cedo. Pronto - disse, depois de livrá-la do adorno com delicadeza. - Agora vamos falar sobre o que a perturbou.
Kit tentou relatar o que acabara de ouvir, apesar dos soluços que a sacudiam.
- O apresentador disse que todos os meus amigos acreditavam que eu pudesse ter sido vítima de um esgotamento nervoso, pois andava deprimida ultimamente. É evidente
que ninguém acreditou no que eu contei sobre os bilhetes anônimos. Laura não é a única a imaginar que inventei tudo, que planejei essa história sórdida sobre as
ameaças e a perseguição.
- Como isso a faz sentir-se?
- Como se toda minha vida houvesse sido um enorme vazio, como se os relacionamentos com todas as pessoas que conheci jamais houvessem existido de verdade.
- Mas você conhece a verdade e pode perdoar todas essas pessoas que a amam e sentem-se impotentes. Todos buscam uma explicação, qualquer que seja, para compreender
seu desaparecimento.
O bom senso do médico conseguiu convencê-la e, mais calma, Kit finalmente controlou o pranto. Depois de algum tempo ergueu a cabeça daquele peito sólido e, subitamente
consciente do torpor provocado pela proximidade, levantou-se e enxugou o rosto.
- Obrigada por ter me falado todas essas coisas.
- Eu acredito em você, Kit - Jarod respondeu enquanto punha-se em pé.
- Graças a Deus!
- Vá comer alguma coisa. Vou dar alguns telefonemas, e estarei esperando em meu consultório. Precisamos conversar.
Tentando esquecer as idéias provocadas pelo contato físico, Kit foi preparar um sanduíche de presunto antes de dirigir-se ao consultório. Ao entrar, viu que o doutor
Banning estava sentado atrás da mesa, diante do gravador, e não teve dúvidas sobre o papel que ele desempenhava nesse momento.
- Estava relaxada há pouco, quando chorou em meus braços, e agora voltou a ficar tensa. Dart precisa de algumas informações sobre sua vida, e faremos o possível
para reunir um material considerável. Se preferir deitar-se no diva, não faça cerimônia.
- Médicos não usam divas. Li isso num livro.
- Não devia acreditar em tudo que lê. Os divãs têm sua utilidade.
- Prefiro não responder. O riso profundo reverberou por todo seu corpo, obrigando-a a desviar os olhos dos dele para não demonstrar o quanto sentia-se atraída por
seu apelo viril.
- Como foi crescer na família Mitchell? Como essa família funcionava?
- Bem... papai sempre foi muito ocupado. Se quisesse passar algum tempo com ele, tinha de pensar em encaixar-me em sua rotina atribulada, e normalmente acabava acompanhando-o
em suas caminhadas matinais.
- Sua mãe não ia junto?
- Não. Mamãe era muito doente. Ela morreu de câncer quando eu tinha dezenove anos. Papai, sempre tão devotado à esposa e à família, sofreu muito nesse período. Depois
disso, acho que ele descobriu que a atividade física o ajudaria a superar o sofrimento, e então construiu uma piscina e passou a nadar. Até o ataque cardíaco que
o vitimou, normalmente caminhávamos ou nadávamos juntos todas as manhãs, antes dele sair para o trabalho.
- Sua irmã não os acompanhava?
- As vezes, mas Laura preferia estar com papai no escritório. Eles almoçavam juntos várias vezes por semana.
- Quando seu pai morreu?
- Há cerca de dezoito meses.
- E você abandonou as atividades físicas desde então?
- Não. Depois que papai faleceu, Ross e Laura foram morar em casa para que eu não ficasse sozinha. Mas eu queria estar só, e por isso me mudei para um condomínio
na cidade, onde há uma piscina que utilizo todas as manhãs, antes de ir para o trabalho.
- Outras pessoas dividem a piscina com você?
- Sim, algumas.
- Alguém em particular?
- Não. Ou melhor, havia alguém.
- Quem?
- Chris Holloway. Durante quase um ano praticamos nossos exercícios matinais juntos. Chris tem dezenove anos, e cursa o segundo ano na universidade.
- Acha que pode chamá-lo de amigo?
- Oh, sim! Nós nos tornamos muito próximos, embora não o tenha visto ultimamente.
- Entendo. Chegou a encontrá-lo em outras ocasiões, fora da piscina?
- Sim, houve um tempo em que costumávamos ir ao meu apartamento para conversar. Os pais dele divorciaram-se quando ele foi para a universidade, e Chris estava sofrendo
bastante.
- Dart vai querer saber tudo sobre ele. Nunca recebeu um daqueles bilhetes ameaçadores quando estava com Chris?
- Não.
- Costuma tomar café em casa ou fora?
- Normalmente preparo um excelente café da manhã depois do exercício matinal. Assim que chego ao trabalho, costumo esquecer de tudo.
- Disse normalmente. Quais são as exceções?
- Às vezes Laura e Ross me convidam para o brunch dominical. Mas, na maioria das vezes, prefiro passar o final de semana em casa, adiantando meus projetos no computador.
- Já me deu uma boa idéia a respeito da família e de nuas atividades. Agora quero falar sobre os relacionamentos.
Vamos começar por Chris. O que sente por ele?
- O que quer dizer? - Kit franziu a testa.
- Seus sentimentos por ele são de amizade, fraternos ou românticos?
- Românticos? - ela riu. - Por Chris? Absolutamente não. Mas reconheço que experimento uma mistura dos outros sentimentos que mencionou. Ele é um rapaz muito inseguro,
mas maravilhoso. Um dia, quando conseguir encontrar-se, certamente arrebatará muitos corações.
- Quando ele diz que é uma mulher muito bonita, como costuma responder?
- Digo que um dia alguém poderá acreditar nele, e então estará encrencado.
- E quando ele não quer sair de seu apartamento, como lida com a situação?
- Digo que somos trabalhadores dedicados e precisamos dormir cedo.
- Quando ele demonstra apreciação ou afeto através de um abraço, ou um beijo no rosto, sente alguma repulsa?
- É claro que não.
- E quando ele a beijou pela primeira vez como homem, ÍBSO mudou alguma coisa?
- Não, porque percebi o que estava prestes a acontecer o impedi a tempo. Depois disso não o convidei mais a entrar um meu apartamento.
Kit ainda lembrava a expressão ferida no rosto do rapaz quando o impedira de entrar em sua casa. Depois disso nunca mais haviam nadado juntos.
Como que num passe de mágica, o doutor Banning a fizera lembrar aquela noite e obtivera informações que, de outra forma, teriam permanecida enterradas no fundo da
memória.
- Como fez isso? - ela perguntou espantada.
- Na corte, chamamos esse procedimento de conduzir a testemunha - ele explicou com um sorriso. - Pensei que a filha de um advogado tão famoso soubesse disso.
- Papai sempre me acusou de interessar-me apenas por minha profissão.
- Que bom para a Stragi-Corp - ele murmurou com tom seco.
- Voltando ao nosso assunto... Percebe que Chris Holloway pode ser considerado um suspeito? Foi atraído por uma mulher linda e inteligente, não muito mais velha
que ele, que o fez sentir um enorme e desconhecido bem-estar, alimentando sua auto-estima e oferecendo amizade e companhia. E de repente ela o afastou. Dependendo
da estabilidade emocional desse rapaz e de uma série de outros fatores, podemos estar falando de seu perseguidor.
Kit ficou em silêncio por alguns instantes, atônita.
- Jamais teria pensado nele, muito menos sob essa perspectiva - admitiu.
- Provavelmente não. O que importa é que, apesar de sua amizade, ele acredita estar apaixonado por você, e deve estar sofrendo muito desde que o rejeitou. Talvez
tenha até se tornado uma obsessão.
- Prefiro não acreditar nisso.
- Entendo. Só quero que entenda que temos de considerar todas as possibilidades, inclusive essa.
- É claro.
- O que acha de Jeremy?
- Ah, não! - ela gemeu. - Acho que não estou preparada para isso.
- Ninguém está.
- Podemos deixar essa conversa para outra hora?
- Dart precisa dessas informações imediatamente.
- Desculpe - Kit suspirou. - Não sei o que está acontecendo comigo.
- Sua reação é completamente normal. Quanto mais nos aproximarmos do centro do problema, mais tentará fugi! da verdade. E um simples mecanismo de defesa, e por isso
está inquieta, tensa e irritada. Dar vazão às emoções contidas é sempre doloroso.
- Meus sentimentos por Jeremy não são muito diferentes dos que acabei de descrever por Chris.
- Mas há um rumor na companhia a respeito de um envolvimento amoroso entre vocês, e que por isso conseguiu o emprego, eliminando cerca de duzentos candidatos. Todos
homens...
Kit levantou-se imediatamente, os olhos iluminados por um brilho furioso.
- Isso não passa de fofoca!
- De acordo com Dart, a informação é conhecida por todos. Ele já andou investigando seu caso por conta própria, como pode perceber.
- Isso é mentira, doutor Banning! Juro!
- Tem certeza? Kit suspirou.
- Jeremy quer mais que uma simples amizade, mas não estou interessada em romance. Quanto a dormirmos juntos, não vou nem responder.
- Por quê? Por acaso seu parceiro de cama é Ross Hunter? Kit empalideceu.
- Isso também faz parte do relatório policial?
- Andou mantendo um relacionamento íntimo com seu cunhado? Alguém acredita nisso.
- Jamais mantive um relacionamento íntimo com homem algum - ela confessou em voz baixa. - E se tivesse, provavelmente teria sido com meu professor de física. Felizmente,
descobri que ele tinha uma namorada em cada classe da universidade antes de me envolver, e comecei a flertar com um amigo dele que também trabalhava para o departamento.
É claro que meu gesto feriu o ego colossal do sujeito e pôs um ponto final na história. O doutor Banning jogou a cabeça para trás e riu.
- Pode estar achando tudo muito engraçado, mas ele disse todas as coisas certas para conquistar minha alma romântica, .o também era um homem muito atraente. Entretanto,
não poderia comparar o sueco ao médico sentado à sua frente. Na verdade, nenhum homem podia ser comparado a ele.
- Esse foi o único candidato a conquistar sua imaginação, ou seu coração?
Kit respirou fundo, imaginando qual seria a reação dele se soubesse que era o único detentor de tais honras.
- O único que conseguiu chegar perto disso foi Ross, quando ingressou na firma de meu pai. No início, apaixonei-me perdidamente por ele como todas as outras mulheres.
Ross era oito anos mais velho que eu e muito delicado.
- Isso foi antes ou depois do professor?
- Depois. Acho que teria me envolvido com ele de verdade, se papai não houvesse me convencido a ir devagar e refletir muito, antes de tomar uma decisão. Quando finalmente
pus os pés no chão, Ross e Laura já haviam se conhecido e estavam prestes a se casar.
- Chegou a sair com Ross?
- Por pouco tempo.
- E mesmo assim ele envolveu-se com Laura?
- Sim. Ross gostava de mim, mas quando conheceu Laura foi amor à primeira vista.
- E você simplesmente desistiu?
- Não foi bem assim.
- Por que não me explica como foi?
- Quando Ross tentou tornar nosso relacionamento mais íntimo, eu reagi me afastando. A princípio ele ficou aborrecido, mas depois pediu desculpas. Nós nos separamos
como amigos, e pouco depois disso ele começou a sair com minha irmã.
- Isso a aborreceu?
- Acho que teria aborrecido, se houvesse me apaixonado por ele. Mas como nunca senti nada mais profundo por Ross, não dei importância, especialmente porque logo
percebi que eram loucos um pelo outro. Comentei essa paixão com papai diversas vezes.
- Mesmo assim, os rumores podem ter algum fundamento. É possível que Ross não tenha realmente superado? a ligação que existiu entre vocês. Talvez Laura não o atraia
como antes desde o aborto. Às vezes a depressão pode afastar o marido de sua esposa justamente quando ele mais precisa de apoio. Talvez Ross tenha sido apaixonado
por você em segredo durante todos esses anos, e agora decidiu ir atrás do objeto do desejo que jamais pôde realizar. Talvez ele tenha escrito aqueles bilhetes para
manipular seus passos.
- Pare com isso, Jarod!
- Estava mesmo imaginando quando passaria a me chamar pelo primeiro nome - ele sorriu, divertindo-se com o constrangimento que tingia o rosto dela de vermelho. -
Por que o ultraje, Kit? Estou me aproximando da verdade? Afinal, foi morar com sua irmã e o marido dela antes de fugir, não?
- Sim, é verdade.
- Laura a acusou de traí-la com seu marido? Ele a conheceu primeiro, e isso pode incomodar sua irmã. Incapaz de suportar as perguntas, Kit enterrou o rosto nas mãos
e entregou-se ao pranto.
- Ross andou enviando sinais? Responda!
- Eu... não sei! - ela murmurou depois de algum tempo. - Não tenho certeza. - Devagar, levantou a cabeça e encarou-o. - Por dentro fiquei apavorada e indignada,
mas preferi fingir que não havia percebido.
- Por que é leal à sua irmã?
- Por isso, e porque não o amo. Quando o conheci, era muito jovem e me apaixonei pelo homem sedutor e envolvente, mas superei essa fase. Se Ross ainda está interessado
por mim, só posso dizer que sua imaturidade me causa repulsa e desgosto.
- Já pensou que Jeremy, a quem já rejeitou, pode pressentir a presença de um rival e sentir-se ameaçado?
- Não. Quero dizer, não até agora.
- Alguma vez olhou para ele como homem?
- Não. Trabalhamos tão próximos, que não consigo enxergá-lo em qualquer outro papel que não o de meu chefe. Além do mais, as pessoas realmente se conhecem? Jeremy
é quinze anos mais velho que eu, e já tem um casamento fracassado na bagagem. Teria medo de envolver-me com ele, mesmo que quisesse. Quando tomar minha decisão relativa
ao relacionamento com o sexo oposto, minha escolha será irreversível.
- Irreversível?
- Se e quando me casar, será para sempre.
- Como foi com seus pais?
- Exatamente.
- Acha que pode descrever seu pai numa única sentença?
- Isso é fácil - ela respondeu, sorrindo apesar das lágrimas. - Papai era um homem total, completo em todos os sentidos. - Como você, Jarod Banning.
- Por que sempre deu tudo que você queria? Algumas pessoas dizem que ele a estragou. - O comentário a devastou.
- Isso é mentira! Papai era bom, gentil e honesto. Sempre pôs a felicidade de minha mãe acima de tudo, e foi o homem mais generoso que já conheci. Se tinha um defeito,
provavelmente era o de trabalhar demais, e assim mesmo porque queria aliviar o próprio sofrimento. Papai sempre ia para casa assim que saía do escritório, apesar
da doença de minha mãe, e nunca o ouvi maldizer outro ser humano ou falar sobre dinheiro.
Jarod levantou-se e desligou o gravador.
- E todos os homens que se interessam por você devem saber que jamais chegarão aos pés de seu pai. Um dado de realidade que pode ter transformado um eventual amante
num perigoso psicopata. A sala mergulhou num silêncio pesado provocado pela conclusão do médico.
- Doutor Banning... - Kit começou em voz baixa depois de alguns instantes.
- Jarod - ele a corrigiu com um sorriso. - Exceto quando estivermos perto dos pacientes.
- Jarod... Essa é a imagem que passei para você?
- Oh, não! Precisa compreender que essa nossa conversa teve dois propósitos. Permitir que Dart a conheça melhor e remover o véu que a impede de ver as outras pessoas
com clareza.
- Bem, disse que pretendia me fazer enxergar sob a perspectiva de outras pessoas, e conseguiu - Kit suspirou.
- Só não sei se gostei do que vi.
- Pois eu gosto muito do que vejo. O que realmente desejo é levá-la a ser um pouco mais objetiva sobre si mesma, pois assim poderá até solucionar todo esse mistério
sozinha em algum tempo. - Um arrepio a sacudiu.
- Estou cansada.
- Eu já imaginava que estivesse. Conseguiu fornecer material suficiente para manter Dart ocupado até quarta-feira à noite, quando teremos outra conversa.
- Acho que não suportarei tudo isso outra vez. Já disse tudo que sei.
- Apenas arranhamos a superfície, Kit. Ainda temos de explorar seus relacionamentos com outras mulheres.
- Por quê? - ela estranhou.
- Ainda não pensou que uma mulher pode ser responsável por todo esse inferno que tem conhecido nos últimos tempos?
- Uma mulher?
- Vejo que não considerou essa hipótese. Pense nisso esta noite, antes de dormir. Use os mesmos artifícios que acabamos de empregar. Construa cenários que possam
ser adequados ao caso, e os resultados talvez a surpreendam. Kit sentiu-se tonta e agarrou-se à cadeira para não cair.
- Sente-se - ele sugeriu.
- Estou com medo - ela confessou depois de sentar-se, a cabeça baixa para esconder as lágrimas que ameaçavam brotar de seus olhos. Jarod saiu do consultório e voltou
instantes depois com um copo de conhaque.
- Beba tudo - disse. - Vai sentir-se bem melhor. O líquido queimou todo o caminho entre a boca e o estômago, mas provocou um calor relaxante que espalhou-se imediatamente.
- Eu... preciso ir para a cama. Sei que devia agradecer pelo que acabou de fazer, mas não consigo. Boa noite - e ela saiu da sala sem olhar para trás. As doze horas
seguintes abriram-se diante dela como um abismo insuperável. Fornecera informações desconexas que, reunidas pelo poderoso intelecto de Jarod, começavam a formar
um estranho painel, um quadro assustador que revelava conteúdos sombrios de seu inconsciente. Algumas horas de conversa com o médico, e os véus começaram a ser levantados.
Kit chorou até não ter mais lágrimas. Uma coisa tornara-se absolutamente clara. Por ter idolatrado o pai, mantivera todos os outros homens de sua vida muito distantes,
e isso incluía Ross. Por isso não sentira-se atingida pelo relacionamento do ex-namorado com sua irmã.
A verdade era que, desde o início, Ross revelara-se um homem egoísta e disposto a ocupar sempre o primeiro plano em qualquer relacionamento. Como seu pai sempre
havia sido exatamente o oposto dele, Kit havia preferido afastar-se do pretendente.
Mas Laura possuía anseios e necessidades bem diferentes das dela, e fechara os olhos para o egocentrismo de Ross. O resultado era que os dois brigavam constantemente,
pois queriam sempre impor a própria vontade em todas as situações. Essa havia sido uma das razões que levara Kit a decidir-se pela solidão do apartamento.
Quanto a Jeremy, era uma espécie de gênio em seu ramo de atuação e um poderoso caráter, dono de uma personalidade forte e impositiva, o que a obrigava a dedicar-se
ainda mais aos desafios impostos pelo trabalho. Mas, por mais que ele tentasse esconder, havia uma enorme tristeza por trás de seu eterno sorriso.
Kit acreditava que Jeremy ainda chorasse a morte da esposa, embora ele sempre negasse. Talvez precisasse de ajuda profissional. Enquanto não superasse o luto, não
poderia levá-lo a sério. Nenhuma mulher poderia.
Por alguma razão, não conseguia acreditar que Jeremy pudesse ser o tal perseguidor. Ele tinha outros demônios a exorcizar. Ross também não se adequava ao papel do
perigoso psicopata que a perseguia com mensagens ameaçadoras. Era o tipo de homem que valorizava-se acima de tudo, e jamais permitira que uma mulher o dominasse
dessa forma.
Restava apenas Chris Holloway, um rapaz infeliz tentando ser adulto num mundo em que a separação dos pais havia virado do avesso. Também não conseguia acreditar
que Chris fosse o responsável pelas terríveis mensagens anônimas. Orgulho ferido nem sempre produzia um psicopata.
Quanto aos outros homens com quem saíra, nenhum relacionamento desenvolvera-se a ponto de transformar-se em algo mais consistente, porque... porque não... Em termos
de intimidade, os últimos dias dividindo o mesmo teto com Jarod Banning haviam sido sua maior experiência.
Seguindo a sugestão do médico, elaborou uma lista mental com os possíveis suspeitos, pessoas com quem associara-se no trabalho. Kit também incluiu os conhecidos
do condomínio, mas acabou descartando todos os nomes por não acreditar que qualquer um deles pudesse nutrir sentimentos de hostilidade suficientes para perpetrar
um plano tão cruel.
No momento, o que a assombrava era o fato de não ter mantido relacionamentos de amizade ou coleguismo com outras mulheres, além de Laura e de sua mãe.
Como a sra. Mitchell passara muito tempo sobre uma cadeira de rodas, incapaz de locomover-se por conta própria, Kit e Laura haviam planejado o tempo de maneira a
haver sempre uma delas em casa, disponível para atender às necessidades da mãe. Conseqüentemente, nenhuma das duas tivera muito tempo para as amizades.
Além de algumas poucas amigas de infância e adolescência com quem mantinha contatos eventuais, o único relacionamento de amizade com mulheres fora do círculo familiar
restringia-se à enfermeira que cuidara de sua mãe nos últimos dias de vida, e não podia pensar nessa adorável criatura como sendo Uma perigosa psicopata.
Incapaz de esquecer as últimas palavras do apresentador do telejornal, Kit olhou para o teto e suspirou. Talvez estivesse mesmo deprimida desde a morte do pai e
todos houvessem notado, menos ela. Mas não inventara aqueles bilhetes. Graças a Deus, Jarod acreditava em sua história! Jarod...
Kit abraçou o travesseiro, consciente de que outro tipo de medo invadia seu coração, um medo que não tinha qualquer relação com aquelas mensagens assustadoras.
CAPÍTULO V
- Bom dia, srta. Smith. Jarod entrou na recepção e cumprimentou-a com tom sério. As roupas formais contribuíam para a aparência profissional e confiável, e Kit não
pôde evitar a violenta reação física provocada pela visão inesperada.
- Bom dia, doutor Banning. O primeiro paciente já chegou.
- Eu percebi - ele respondeu, virando-se para os três pacientes que esperavam sentados nas cadeiras de couro. Inclinando a cabeça para a recepcionista, baixou a
voz è disse: - Tenho um compromisso marcado para a hora do almoço, mas voltarei a tempo para a consulta das duas. Assim que o último paciente sair, por favor, transcreva
as fitas que deixei em sua gaveta. Não jantarei em casa, mas quero que fique à vontade para preparar sua refeição.
Kit disfarçou a decepção.
- Se houver alguma emergência, o que devo fazer?
- Deixarei o nome de um colega sobre minha mesa. Ele sempre atende meus pacientes quando estou impossibilitado.
- A que horas acha que estará de volta?
- Por volta das dez e meia. Mais alguma pergunta?
- Sua cunhada disse alguma coisa sobre uma certa sra. Baxter...
A menção do nome de Lucy Banning provocou uma sombra que ofuscou o brilho dos olhos do médico.
- Ela perguntou se era a substituta da minha faxineira?
- Acho que foi essa a dedução de sua cunhada.
- A sra. Baxter trabalha de segunda a sexta-feira, sempre a partir das cinco da tarde. Deixe-a entrar pela porta da frente, e ela cuidará da limpeza enquanto você
trata da papelada e dos telefonemas. - E você estará onde?
- Fora.
- Entendo.
- Por que mais a teria contratado, se não para me livrar dessas tarefas aborrecidas? - ele riu. - Vamos entrar, sr. Welch - convidou em voz alta. - Como tem se sentido
depois do novo medicamento?
O paciente passou a descrever os progressos que experimentava desde que passara a tomar o novo remédio, e Jarod o escutou com total atenção, demonstrando uma gentileza
que não se fazia presente na maioria dos médicos.
Um a um, todos os pacientes da manhã foram atendidos. Depois do almoço, Kit dedicou alguns minutos a ouvir a triste história de uma mãe cuja filha desenvolvera úlcera
gástrica por ter medo de que o prédio da escola pegasse fogo. Até Jarod ter usado seus métodos para extrair a verdade da garota, ninguém, nem mesmo o pediatra que
a atendia desde os primeiros dias de vida, conseguira compreender a razão que a impedia de sair de casa todas as manhãs.
O último paciente do dia era portador de câncer, e a esposa do doente sentou-se ao lado de Kit para falar sobre a bondade e a delicadeza com que o médico tratara
seu marido. Para ela, o doutor Banning era uma espécie de salvador que diagnosticara a doença a tempo de conferir mais alguns anos de vida ao marido.
Kit experimentava uma profunda admiração pelo médico, capaz de lidar com as mais difíceis e dolorosas situações sem perder o senso de humor. Sem que se desse conta,
o dia havia chegado ao fim e já estava transcrevendo as fitas.
A faxineira era uma mulher bondosa e dedicada, embora falasse demais, e Kit decidiu que, a partir do dia seguinte, estaria sempre ao telefone quando ela chegasse,
pois assim escaparia de suas longas e aborrecidas histórias.
A princípio acreditara que sentiria falta de seu trabalho na Stragi-Corp, más o ritmo acelerado do consultório a impediu de até mesmo de pensar em sua velha rotina
durante o resto da semana.
À noite ia para a cozinha e experimentava receitas que pudessem ser congeladas, de forma que Jarod tivesse sempre um prato quente para o almoço.
Uma emergência na quarta-feita à noite a poupou de mais uma sessão emocional com Jarod, e Kit agradeceu à sorte por não ter de mergulhar mais uma vez na terrível
tarefa de tentar descobrir quem a odiava o suficiente para tentar enlouquecê-la de medo.
Seguindo um conselho do médico, não saía de casa, não lia os jornais e nem assistia aos noticiários da tevê, que só serviriam para estressá-la ainda mais com suas
especulações e notícias fantasiosas.
Na sexta-feira de manhã as paredes começaram a sufocá-la e ela passou a esperar com grande ansiedade pela viagem a Heber. Finalmente teria Jarod só para si. A idéia
provocou tamanha euforia que teve a impressão de estar com febre.
Enquanto esperava impacientemente que o último paciente saísse do consultório, o telefone tocou e ela reconheceu a voz de Lucy Banning.
De repente percebia que não era a única pessoa a ansiar pela completa atenção do médico, e isso a obrigou a pôr os pés no chão.
A viagem de carro poderia ser sua única oportunidade para desfrutar de alguma privacidade com Jarod. Lucy Banning e as crianças tinham prioridade na disputa por
seu amor, e não podia esquecer esse fato.
E Jarod? Também estaria apaixonado por Lucy?
A possibilidade provocou um diferente tipo de depressão. A verdade era que não sabia como lidar com as emoções intensas que a invadiam, porque jamais estivera apaixonada.
- Um doce por seus pensamentos - Jarod sussurrou perto do ouvido dela, provocando um prazer tão grande que Kit teve medo de desfalecer. Ele havia acompanhado o último
paciente até a porta, e agora verificava a correspondência que a recepcionista separara horas antes. - Vamos sair daqui, Linda Smith. É hora da diversão.
- Vou terminar de arrumar a mala - Kit murmurou antes de sair apressada. Desde terça-feira, o quarto de hóspedes passara a ser ocupado por ela, e fora mobiliado
com uma cama de solteiro, uma cômoda com gavetas e um pequeno guarda-roupa, tudo providenciado por Jarod.
- Está pronta? Vou levar sua valise para o carro - ele avisou, entrando no quarto depois de alguns minutos. As roupas formais haviam sido trocadas por uma calça
jeans e um suéter, e a inseparável jaqueta de pele de carneiro já estava sobre seus ombros.
- Sim, estou pronta para partir.
Kit também vestira calça jeans e suéter, e vê-lo em seu quarto a deixava perturbada.
- Dei os restos de comida da geladeira para a sra. Baxter. Não sabia o que fazer com tudo aquilo, e odeio a idéia de jogar comida fora. - Jarod não respondeu, e
a maneira como a encarava começou a enervá-la. - Eu... decidi usar a peruca e os óculos. Não consigo deixar de pensar na possibilidade de alguém me identificar.
- É melhor sair disfarçada - ele murmurou com ar distante. Talvez estivesse pensando em Lucy, Kit especulou com o coração apertado. - Apesar de dezenas de pessoas
terem entrado e saído do consultório na última semana sem reconhecê-la, é melhor evitarmos confusões.
- Houve um pequeno problema com o sr. Laird - ela lembrou. - Ele insistia em prolongar a conversa quando telefonava para cá. Não quis ser rude, mas...
- Sei do que está falando. Laird telefonou duas vezes para discutir os efeitos de um remédio que já havia tomado outras vezes, mas o que realmente queria era saber
mais sobre minha nova recepcionista, aquela jovem loira, linda e tão interessante.
- Mas ele está no meio de um turbulento processo de divórcio!
- Sim, e agora sabemos por quê.
- O que disse a ele a meu respeito?
- Disse que minha equipe de colaboradores está fora do alcance dos pacientes, e que seria melhor ele concentrar-se em sua úlcera. Acho que ele entendeu o recado.
Jarod falava de maneira quase possessiva, o que a encheu de esperança.
- Terminei de transcrever suas anotações. O trabalho dessa semana foi concluído.
A presença masculina do médico parecia encher todo o espaço do quarto.
- Ainda não tive oportunidade de dizer como estou satisfeito com seu trabalho. Dependendo dos planos de Dart, gostaria de contar com seus serviços na clínica de
Heber, também. Meu irmão e eu tínhamos com uma excelente recepcionista, mas depois que ele morreu eu a dispensei. Lucy está cuidando de tudo temporariamente, mas
ela não sabe datilografar. Tenho várias fitas gravadas, e gostaria que você as transcrevesse.
Kit pôs o casaco e apanhou a bolsa.
- Não acha que ela vai se ressentir se alguém ocupar seu lugar?
- Lucy não vai ficar feliz com a idéia, mas a decisão já está tomada. Só a deixei trabalhar no escritório depois da morte de Grayson para ajudá-la a superar os primeiros
momentos, sempre mais dolorosos, mas já é hora dela envolver-se em algo mais adequado aos seus interesses e talentos. Além do mais, dentro de três meses estarei
atendendo em Salt Lake em período integral. Assim que Dart descobrir e prender a pessoa que a está assustando, certamente a perderei para a Stragi-Corp. Quando esse
dia chegar, treinarei alguém com formação de enfermeira para ocupar a posição em caráter permanente - ele explicou enquanto desciam a escada.
Kit quase tropeçou e teve de agarrar o corrimão como suporte. Sentia-se como se houvesse levado uma punhalada no coração, tal a intensidade da dor que a invadia.
Enquanto construía e alimentava fantasias tolas e impossíveis, Jarod planejava o futuro com os pés no chão e a cabeça muito à frente.
Apesar do que ele dissera, Lucy Banning ficaria furiosa quando a visse chegar com Jarod. Se chegasse à conclusão de que estava atrapalhando a felicidade dos dois,
simplesmente encontraria outro lugar onde esconder-se enquanto o sr. Thueson trabalhava em seu caso. Sua aparição na soleira de Jarod os envolvera em complicações
inesperadas, e recusava-se a causar mais problemas a quem quer que fosse.
O sol mergulhava no horizonte quando ele retirou o Land Rover verde da garagem e atravessou as ruas movimentadas rumo à estrada.
- Gostaria de levá-la para jantar, mas por razões óbvias acho melhor comermos no carro. Que tal?
- Estou aliviada. Sinto-me segura desde que o conheci, e gostaria de preservar essa sensação. Depois de uma semana de confinamento, estar viajando de carro já é
maravilhoso.
- Assim que estivermos em Heber, você poderá dar longas caminhadas pelos campos, apesar da neve, e isso vai ajudá-la a relaxar.
- Parece simplesmente maravilhoso - Kit murmurou, imaginando-os abraçados e juntos.
- Sei que a atmosfera no consultório tem sido claustrofóbica. Deve sentir-se como um prisioneiro que consegue escapar da prisão.
- Não estou reclamando - ela sorriu. - Onde fica esse outro consultório?
- Num escritório comercial na principal rua da cidade. A fazenda fica no subúrbio de Heber. A casa agora pertence a Lucy e às crianças. Depois da morte de Grayson,
mudei-me para o alojamento dos empregados, e divido o espaço com Skip, meu capataz, e alguns peões.
Kit podia imaginar o que Lucy pensava a respeito disso!
- A fazenda é grande?
- Dez mil acres de terra não formam exatamente uma vasta propriedade, mas conseguimos reunir gado suficiente para termos um lucro decente.
- Como consegue conciliar as atividades de médico e administrador de uma fazenda?
- Na verdade, os peões cuidam de todo o trabalho. Eu apenas brinco de fazendeiro nas horas vagas.
- Sua propriedade tem um nome como o Lazy Z, ou coisa parecida?
- Meu pai a chamava de High Hustler.
- Por causa da pista de esqui em Alta?
- Exatamente.
- Além de fazendeiro e médico também é esquiador? - ela riu.
Jarod parou o Land Rover no estacionamento de uma lanchonete e, sem responder, desceu para fazer o pedido. Kit ficou sozinha no interior do veículo, refletindo sobre
a estranha reação provocada por sua inocente pergunta.
Minutos depois ele voltou com um saco de papel e, após distribuir os lanches e bebidas, ligou o motor e retomou a viagem, dirigindo enquanto comia o sanduíche.
- Com relação ao que acabou de perguntar - disse depois de alguns instantes -, sim, já esquiei muito em minha vida. Conheci minha esposa esquiando quando ainda éramos
adolescentes. Nós nos casamos antes de terminarmos o segundo grau, e ela era tão boa que sonhava ir para as Olimpíadas, Mas uma avalanche a paralisou da cintura
para baixo. Cada cirurgia fracassada a empurrava mais fundo em sua depressão e, quando descobriu que nunca poderia ter filhos, ela decidiu pôr um ponto final no
próprio tormento.
Kit estava perplexa. Não sabia o que dizer.
- Sinto muito, Jarod. Não tinha o direito de fazê-lo lembrar coisas tão dolorosas.
- Pare de pedir desculpas, Kit. Esse é seu pior defeito. Estou feliz por ter abordado o assunto, pois assim não temos mais segredos. Amy será sempre uma lembrança
amarga, porque desistiu do nosso casamento sem lutar por ele. E os votos diziam na saúde e na doença...
- Ela não podia estar em seu juízo perfeito quando fez isso, Jarod.
- Talvez. A vontade de viver deve vir de dentro de cada um. Dei a ela todo o suporte possível, mas só ela podia escolher entre a vida e a morte.
- Estou começando a entender porque não me pressionou para ficar em sua casa. A força nunca surte bons resultados.
- Não precisaria forçá-la, Kit. Você é uma lutadora, e escolheu ficar e enfrentar o medo em vez de fugir para Nevada e deparar-se com outros horrores. Por isso sinto
tanto prazer em ajudá-la.
A explicação sobre a esposa morta respondia a uma das maiores questões de Kit sobre os motivos que o levavam a agir como o Bom Samaritano.
E também partia seu coração. Enquanto alimentava pensamentos pessoais e íntimos envolvendo-o, Jarod a usava para suprir uma necessidade cuja satisfação a esposa
impedira.
- Não sofro por ela desde que fui para a faculdade de medicina, há anos - ele continuou, sem notar sua agonia.
- Mas tenho amigos em Heber que insistem em acreditar que ainda estou chorando a morte de minha esposa. Agora que conhece toda a verdade, estará mais preparada para
lidar com a fofoca. Sabe como são as cidades pequenas...
- As cidades grandes também alimentam boatos - Kit comentou com tom enfático.
- Quanto vai cobrar pela sessão, doutora Mitchell?
- Ah, não costumo cobrar dos amigos - ela riu.
- Não precisa do dinheiro?
- Não precisava, até bater em sua porta e afundá-lo em contas.
- Bobagem! Há quanto tempo não relaxa completamente?
- Não sei. Vivo cercada de preocupações há anos...
- Então vamos cuidar disso. Amanhã, assim que Dart der a conversa por encerrada, sairemos para cavalgar.
Alguns minutos antes teria gritado de alegria com o convite, mas agora...
- Tem certeza de que vai ter paciência? Não cavalgo desde que era uma menina.
- Cavalgar é uma lição que ninguém esquece. Entretanto, enfrentaremos muito frio e um considerável isolamento. Isso a aborrece?
- E claro que não! Estaremos juntos - ela respondeu sem pensar.
- Ei, é bom ouvir isso. Gostaria de inspirar a mesma confiança em todos os meus pacientes.
A felicidade de Kit saiu pela janela, deixando apenas a raiva em seu lugar. Não queria que Jarod a tratasse como mais uma paciente. Queria ser muito mais que isso
na vida desse homem!
Os dois viram as luzes piscando à distância ao mesmo tempo.
- Estaremos chegando em casa dentro de cinco minutos
- ele avisou. Em casa!
As palavras associadas à presença de Jarod intensificavam a dor que a consumia. Percorreram o restante do trajeto em silêncio, e quando passaram pelo centro da cidade
eles reduziu a velocidade para mostrar o prédio onde instalara seu consultório. Logo depois alcançavam o subúrbio.
Mais alguns minutos e Kit identificou a casa da fazenda. Dois enorme" pinheiros na frente da propriedade ainda estavam decorados com dezenas de luzes coloridas,
e o cenário lembrava um cartão de Natal.
Antes mesmo de entrarem, dois enormes cães pastores aproximaram-se correndo pela neve, latindo numa euforia evidente provocada pela chegada do dono.
- Estranho - Jarod murmurou. - As crianças sempre estão com eles.
- Talvez estejam na frente da tevê, entretidos com algum programa especial.
Jarod não parecia convencido, mas abandonou o assunto.
- Assim que entrarmos, acenderei um fogo na cozinha e poremos alguns bifes na grelha. Aqueles sanduíches só enganaram meu apetite.
Kit teve de esforçar-se para não deixar vir à tona a alegria que a invadia. Estaria com Jarod esta noite, mas não podiam esquecer que essa era a casa de Lucy, e
que estava prestes a invadi-la.
Quando entraram, ela constatou que o saguão era todo decorado à maneira das fazendas, com rodas de carroça no; lugar dos lustres e muita madeira espalhada nas paredes
e nos objetos que adornavam as mesas e prateleiras.
- Essa parte da fazenda está além dos limites impostos à minha família, e por isso não terá de preocupar-se com. sua privacidade - ele explicou, levando-a através
de uma porta por onde se chegava à ala esquerda da propriedade. - Aqui ficava meu escritório. Há uma tevê, um aparelho de som e alguns livros, se quiser distrair-se.
O banheiro fica logo ali, e o quarto bem aqui, à direita.
Antes mesmo de acender a luz, Kit pôde ver os reflexos do fogo aceso na lareira do quarto. Tratava-se de um dormitório masculino, rústico e mobiliado com simplicidade,
com cortinas e uma colcha em tons de verde e carpete marrom.
A idéia de dormir na cama de Jarod a deixava tonta, e podia imaginar como Lucy havia odiado ter sido obrigada a acender a lareira e arrumar o quarto para recebê-la.
- Jarod?
Kit ouviu a voz de Lucy fora do quarto e virou-se para encará-lo. Mas a expressão perturbada que surgiu no rosto do médico a impediu de dizer alguma coisa.
- Espere aqui um momento - Jarod pediu, deixando sua valise sobre a cama e desaparecendo além da porta.
- Graças a Deus está em casa - Lucy exclamou no corredor. - Estive procurando por você no alojamento. Há uma lasanha no forno e os lençóis de sua cama estão limpos,
o que significa que pode dormir aqui esta noite. As crianças foram dormir na casa dos Bradshaws, e teremos completa privacidade.
Kit sentiu o sangue congelar nas veias e ficou parada onde estava, desejando que o chão se abrisse sob seus pés.
- Não estou sozinho - Jarod avisou em voz baixa. - Se não me engano, há menos de uma hora disse que veria você e as crianças amanhã cedo.
- Não entendo.
- Não estou pedindo para entender nada.
- Quem veio com você?
- A recepcionista da clínica.
No instante seguinte Jarod surgiu na porta do quarto seguido de perto por Lucy.
- Linda, parece que minha cunhada quis me surpreender preparando o jantar.
Jarod estava obviamente dividido, e Kit também enfrentava dificuldades para recuperar-se do choque. Na tentativa de preservar sua identidade secreta, ele havia sido
forçado a tratar a cunhada de maneira rude.
O fato de as crianças terem ido dormir fora e de haver um fogo na lareira do quarto dele indicava que isso tudo já acontecera antes, e a dor provocada por essa constatação
era mais forte que todas que já experimentara.
Por causa dela, Jarod não pudera reagir como teria feito, caso estivessem sozinhos.
- Boa noite, sra. Banning - Kit cumprimentou, forçando-se a ser cordial. Ao vê-la responder com um aceno breve, virou-se e foi aquecer as mãos junto da lareira,
tentando; escapar do escrutínio da dona da casa.
Havia retirado os óculos e os deixara sobre a cômoda, e agora arrependia-se do gesto, porque sentia-se nua e exposta sem eles.
- O fogo é bem-vindo depois do frio lá fora - ela comentou para preencher o silêncio e diminuir a tensão.
- Linda ficará instalada em meu quarto enquanto estivermos em Heber, Lucy. Estou feliz por termos encontrado a lareira acesa, ou ainda teria de cuidar disso. Linda...
- ele chamou, esperando que ela se virasse para prosseguir. - Já que Lucy ainda está acordada, existem alguns problemas que precisamos discutir. Se sentir fome,
atravesse o saguão na direção dos fundos da casa e procure alguma coisa para comer na cozinha. Irei encontrá-la em pouco tempo.
Aí estava algo em que não conseguia acreditar.
Acalmar a cunhada exigiria algum tempo, e Kit podia imaginar que métodos ele usaria para aplacar sua ira. Imagens sensuais e dolorosas invadiram sua mente, atormentando-a.
- Não se preocupe comigo, doutor Banning. O sanduíche me deixou satisfeita. Sei o quanto ama sua família, e naturalmente deve ter problemas da fazenda a resolver.
Vamos dizer boa-noite e nos encontraremos amanhã cedo.
- Tem certeza?
- Absoluta. Boa noite, e obrigada por ter se preocupado tanto com meu conforto.
- Boa noite - Jarod respondeu, fechando a porta ao sair.
- Não entendo por que não avisou que sua recepcionista também viria quando conversamos pelo telefone há algumas horas. - A voz ferida de Lucy soou no corredor, mas
os dois afastaram-se antes que Kit pudesse ouvir a resposta.
Kit teve a generosidade de sentir pena de Lucy. Poder trabalhar com Jarod na clínica devia ter sido uma bênção depois da morte do marido. E quando o luto chegara
ao fim? ela descobrira-se apaixonada pelo cunhado. O que podia ser mais natural?
Kit tirou o casaco e jogou-o sobre uma das cadeiras diante! da lareira. Pela primeira vez compreendia os efeitos devastadores do ciúme, uma emoção que a dilacerava.
Os planos de estar sozinha com Jarod desmancharam-se como nuvem soprada pelo vento, e Kit sentiu uma terrível inveja de Lucy, que era amada por ele e ocupava um
lugar permanente em seu coração.
Kit suspirou e tirou a peruca. Odiava-a. Se pudesse lavar os cabelos, sentiria-se mais confortável e teria algo com que ocupar-se antes de ir para a cama.
Como conseguira viver todos esses anos sem Jarod?
Quando o pesadelo acabasse, se acabasse, teria forças para afastar-se dele sem olhar para trás?
Tinha a impressão de que ele era homem de uma mulher só. A idéia de viver o resto de seus dias sem ele era tão insuportável que preferia ignorá-la enquanto pudesse.
CAPITULO VI
Kit havia acabado de vestir-se e estava colocando a peruca quando ouviu as batidas na porta. Apressada, pôs os óculos e olhou-se no espelho antes de ir abrir.
- Linda? Está acordada?
Jarod! Eram sete e quarenta e cinco. Como quase não dormira durante a noite, pensando em como, onde e com quem ele estaria, estava surpresa por descobri-lo acordado
tão cedo.
- Entre.
Jarod abriu a porta e parou na soleira.
- E bom ver que está acordada. Dart vai encontrá-la no Chuck Wagon dentro de cinco minutos para o café da manhã. Assim que forem apresentados, eu os deixarei conversando
e irei tratar de alguns papéis no consultório. Mais tarde sairemos para cavalgar.
Kit não tinha a menor intenção de ir a lugar algum com Jarod, a menos que fosse para ajudá-lo com o trabalho. Mas diante do humor enigmático do médico, preferiu
não dizer nada até ter conversado com o sr. Thueson.
- Estou pronta para sair, doutor Banning.
Jarod já havia ligado o carro, e estavam saindo quando ambos viram Lucy ao mesmo tempo. Os cabelos loiros traíram sua presença na porta da frente.
Kit o encarou com certa ansiedade.
- Jarod...
- Vamos deixar esse assunto para mais tarde - ele cortou, lendo seus pensamentos com precisão espantosa. - No momento, temos de nos concentrar no seu problema.
Ele estava certo. Lucy não era de sua conta, e tinha de pensar em identificar a pessoa que a perseguia. Quanto mais cedo o maníaco estivesse atrás das grades, mas
depressa sairia da vida de Jarod. Então ele e Lucy poderiam viver em paz.
- Esse disfarce é perfeito. Quase tão bom quanto o cisne ferido - ele comentou com tom divertido.
- Graças a você. Não sabe como sou grata por tudo que tem feito por mim. Sei que está deixando de lado sua vida pessoal e...
- Já discutimos isso antes, Kit. Fiz um investimento, lembra-se. E não sou a favor de perder tempo debatendo temas que não são essenciais. - O silêncio predominou
até que pararam diante do café. - Enviei a fita com aquela nossa conversa pelo correio de forma que Dart pudesse ir tomando contato com o. problema, e passamos a
noite anterior discutindo as informações.
O alívio que a invadiu foi tão grande que Kit teve de esforçar-se para não demonstrá-lo.
- Não posso comandar seus passos, mas sugiro que confie em Dart e siga a estratégia que ele sugerir, por mais estranha que pareça.
- Uma sugestão assustadora...
- Espere até ouvi-la para julgar.
Entraram no café juntos, e Jarod guiou-a até a mesa de canto onde o investigador instalara-se. Dart Thueson lembrava um típico fazendeiro texano. Usava óculos escuros,
bigode, e tinha a pele bronzeada sobre músculos rígidos e bem definidos. Era alto, tanto quanto Jarod, e pelo menos vinte e cinco anos mais velho que ele, mas ainda
muito atraente.
A surpresa devia estar estampada em seu rosto, porque Jarod murmurou:
- Mantenha em mente que ele está casado com a mesma mulher há trinta e sete anos e acabou de ser avô pela quinta vez.
O hálito quente em seu rosto provocou um delicioso arrepio de prazer.
- Confesso que esperava alguém mais parecido com o Inspetor Clouseau.
Jarod repetiu o comentário para Dart e os dois riram muito, chamando a atenção de vários freqüentadores. Em seguida o médico despediu-se de Kit passando um braço
em torno de sua cintura.
- Quando terminar aqui, vá me encontrar no consultório.
Assim que ele partiu, Kit sentou-se e tentou conter a intensa reação provocada pelo rápido contato. Já não conseguia mais conter o ciúme. Todas as garçonetes do
café sorriram para ele, flertando e tentando chamar sua atenção, e de repente compreendia o significado da expressão querer arrancar os olhos de alguém. Seus sentimentos
por Jarod eram assim, explosivos e primitivos.
- Srta. Smith, o que vai querer comer? - o investigador perguntou.
- Ah... panquecas e salsichas, por favor. E um suco de laranja.
Dart fez o pedido e esperou que a garçonete se afastasse para sorrir. Em seguida bebeu um gole de café e foi direto ao assunto.
-Jarod tinha razão. Ninguém será capaz de reconhecê-la nesse disfarce.
- Graças a ele - Kit respondeu. - E também sou grata por estar me ajudando. O doutor Banning sempre diz que é um excelente profissional, e que devo confiar cegamente
em você.
- Comprometi-me a encontrar e prender a pessoa que está transformando sua vida num inferno.
- Entendo. No momento, só estou preocupada com minha irmã. Jarod explicou-me porque acha que não devo entrar em contato com Laura e Ross, mas desapareci há mais
de uma semana, e tenho estado muito ansiosa por ela.
- Naturalmente. Mas seria melhor se esperássemos mais uma semana antes de procurá-la.
- Uma semana?
- Sei que é difícil, mas seu desaparecimento possibilitou que eu investigasse a situação enquanto seu perseguidor não sabe onde encontrá-la. Pense nisso, Kit. Assim
que falar com sua irmã, ela passará a comportar-se com maior tranqüilidade, demonstrando que algo mudou. Mesmo que pudesse esconder o alívio e guardar segredo sobre
sua aparição, ela certamente contaria tudo ao marido.
- E Ross faz parte da lista de suspeitos - Kit murmurou. Não queria admitir que o raciocínio de Dart fazia sentido.
- Sim, mas é mais que isso. Assim que espalharmos a notícia de que está viva e segura, mesmo que ninguém saiba onde está escondida, o comportamento da pessoa que
a persegue certamente sofrerá uma mudança. E isso que estou procurando. Por isso preciso de tempo para estudar os suspeitos de perto, sem que ninguém tenha consciência
de minha vigilância. Apenas três pessoas sabem onde está e quem é. Você, Jarod e eu. Oficialmente, seu caso está sendo investigado pela polícia e o FBI, e não tenho
qualquer ligação com essas organizações. Mas como ainda sou licenciado para trabalhar em investigações particulares, posso espionar por aí sem que ninguém suspeite
de mim. Isso me coloca em posição de vantagem, mas preciso de mais tempo.
- Entendo. E reconheço que está certo. Laura não é capaz de esconder os sentimentos, e certamente deixaria escapar alguma informação.
- Exatamente. Ninguém seria capaz de esconder o alívio numa situação como essa. Em circunstâncias como as que está enfrentando, nossos entes queridos são sempre
os mais vulneráveis. Mas pense nisso da seguinte maneira: você está sendo perseguida, não sua irmã. Ela tem um marido e amigos que podem suportá-la. Por maior que
seja a angústia, não é ela quem está sendo aterrorizada.
O argumento diminuiu a culpa de Kit.
- Esse caso logo será solucionado. Graças àquela fita, já tenho uma boa quantidade de informações para estudar. Aliadas à percepção de Jarod e às conversas que já
tiveram anteriormente, logo poderemos resolver tudo isso.
- Está falando sério?
- Não brincaria com um assunto tão delicado. Continue usando o disfarce e mantenha-se longe da tevê e dos jornais.
- Gostaria de pagar por seus serviços, mas...
- Pensaremos nisso quando tudo acabar - ele sorriu.
- No momento, preciso da lista de nomes que fez depois de sua primeira conversa com Jarod.
- Sim, é claro - ela concordou, abrindo a bolsa para apanhar o papel onde havia escrito vários nomes. - Aqui está. Espero que seja útil.
- Tudo é útil.
Enquanto comiam, Kit foi traçando o perfil de cada integrante da lista. Dart fez perguntas que acabaram levando-a a acrescentar mais alguns nomes à relação, garotos
com quem saíra ainda no colégio. O investigador não poupava ninguém!
- Jarod disse que é uma mulher forte, e vejo que ele tem razão. Vamos pegar essa pessoa, Kit, seja quem for. Cada psicopata opera de acordo com um sistema próprio
e distorcido, e o truque consiste em descobrir e interpretar esse padrão de maneira correta. Com a ajuda de Jarod o trabalho será mais fácil, já que ele entende
a psicologia humana tão bem. Assim que tivermos certeza da identidade do perseguidor, então poremos nossa armadilha.
- De que tipo de armadilha está falando?
- É simples. Você voltará à sua velha rotina e o perseguidor voltará a incomodá-la. Um movimento em falso e o pegaremos.
Kit estremeceu. A idéia de voltar para a Stragi-Corp ou ficar sozinha em seu apartamento a enchia de medo, e de repente voltava a experimentar a angústia de que
conseguira livrar-se na última semana.
- Estaremos sempre por perto, srta. Smith - ele sorriu, usando o nome criado para proteger sua identidade. Em seguida levantou-se, vestiu o casaco e despediu-se
com um rápido aperto de mão. - Tenha um bom dia. Telefonarei para Jarod assim que terminar mais uma etapa da investigação. Agora pode terminar seu café em paz.
Kit agradeceu, despediu-se com um sorriso largo, mas a conversa acabara com seu apetite. Incapaz de permanecer sentada, vestiu o casaco e saiu para uma caminhada.
Tudo em seu interior rebelava-se contra a idéia de voltar à vida anterior, não só pelo que teria de enfrentar, mas por medo de perder Jarod. Sentimentos confusos
a impediam de raciocinar com clareza, e mais de trinta minutos se passaram antes que ela se acalmasse e finalmente seguisse na direção do prédio comercial onde o
médico a aguardava. A essa altura havia tomado a decisão de sair da vida dele o mais depressa possível e deixá-lo viver em paz com a mulher que escolhera, Lucy Banning.
Só esperava que Dart Thueson estivesse certo sobre a rapidez com que solucionaria o caso. Kit encontrou-o no consultório.
- Olá - ele sorriu ao vê-la. - Por favor, tranque a porta - pediu, largando a caneta sobre a mesa e massageando a nuca para aliviar o cansaço.
- Trancar a porta? - Kit estranhou, apesar de ter atendido o pedido.
- Precisamos conversar, e não gostaria de ser interrompido. Estava esperando que encerrasse seu encontro com Dart para discutirmos algumas coisas importantes.
- Também estou esperando por essa conversa - ela confessou. - Na verdade, passei parte da noite acordada pensando em... em tudo.
- Então somos dois.
- Diga-me, Jarod... Lucy estaria prestes a perder o emprego se aquele motorista de táxi não houvesse me levado à sua casa? Por favor, quero uma resposta honesta.
- Se tirar os óculos poderemos conversar com absoluta franqueza. E sem pressa, já que temos o resto do dia só para nós.
Kit ignorou o pedido, ressentida contra o tom paternal que mascarava seus verdadeiros sentimentos.
- Jarod, não vou permitir que prejudique seu relacionamento com a sra. Banning por minha causa. Senti pena dela ontem à noite. No lugar de sua cunhada, também não
teria entendido a presença de uma estranha em minha casa. Essa situação não é culpa dela, mas minha!
- Por que sempre assume a culpa de qualquer situação? E pelo amor de Deus, sente-se!
- Por quê?
- Sinto-me intimidado.
- Isso é absurdo! Aposto que jamais sentiu-se intimidado em toda sua vida!
- Talvez seja a peruca.
- A escolha foi sua.
- Parece que estamos tendo nossa primeira discussão. Kit respirou fundo e sentou-se, removendo os óculos enquanto obrigava-se a recuperar a calma e o bom senso.
- Não quero discutir com você, Jarod. Tem sido muito generoso comigo, e não quero causar mais problemas e complicações do que já causei. Sei que devo minha vida
a você e...
- Aí está essa horrível palavra novamente. Devo. A única palavra que não suportarei ouvir de seus lábios, Kit. Você pôde escolher, lembra-se? A vida, ou viver fugindo
da morte.
- E um emprego maravilhoso em sua clínica, todo tipo de conforto e um médico para me ajudar a superar o trauma e os medos. Seu pior defeito é não aceitar elogios,
doutor Banning!
- Touché! - ele sorriu. - Está bem, confesso que não pude resistir. Não é todo dia que um caso como o seu bate em minha porta.
- Aproveite que está sendo honesto e responda. Ajudar-me é uma coisa, mas privar Lucy de um trabalho que a tem ajudado muito é completamente diferente.
- Está bem, direi a verdade. Se não houvesse aparecido em minha porta, Lucy teria permanecido na clínica por mais duas ou três semanas, no máximo. Preciso de alguém
com formação médica e habilidades administrativas para cuidar de tudo em tempo integral, e Lucy não possui essas qualificações. Contratá-la foi um golpe de gênio
de minha parte. Admito que precipitei os fatos, mas os resultados são melhores que os esperados.
- Melhores? Como pode dizer tal coisa depois da devastação que vi nos olhos de Lucy ontem à noite?
- O que viu foi uma mulher obrigada a encarar seus medos como qualquer um de nós.
- Que medos? - Com um homem como Jarod a seu lado, Lucy não podia temer coisa alguma!
- Medo de abrir mão das lembranças, por exemplo. De envelhecer e ter de enfrentar um mundo diferente, mais rápido e técnico que o que ela conheceu há alguns anos.
Quer que eu continue?
- Por que diz que ela tem de enfrentar esse mundo tão diferente?
- Lucy perdeu a própria identidade. Às vezes é uma medida útil e inteligente para garantir um bom casamento, mas agora ela precisa retomar a carreira e garantir
a própria sobrevivência.
- Pensei que seu irmão houvesse deixado a família numa situação confortável.
- Estou falando de sobrevivência emocional. Minha cunhada foi uma excelente corretora de imóveis. Meu irmão a conheceu quando estávamos comprando esse escritório.
Depois do casamento ela abandonou tudo para cuidar da casa e da família. Já é hora de Lucy parar de chorar a morte do marido e fazer um esforço pela própria sanidade
mental. Enquanto não estiver feliz, Lucy não será capaz de dar felicidade a ninguém, especialmente a outro homem. Nesse momento, qualquer admirador que se aproximasse
dela acabaria sentindo-se como um substituto para Grayson, uma situação intolerável, como deve perceber.
- Ela o vê como uma segunda versão de Grayson?
Jarod afirmou com ar solene.
- Lucy ainda não aceitou a morte de meu irmão, e sempre houve uma forte semelhança entre nós. A diferença de idade era de apenas três anos, e sempre fomos muito
próximos.
- Os seres humanos são muito complicados - Kit suspirou.
- Tem razão. Ainda me considera um monstro?
- De onde tirou essa idéia? - ela espantou-se. - Só faço questão de saber sempre a verdade. Lucy ainda acredita que há algo entre nós?
Jarod inclinou-se para a frente e cruzou os braços sobre a mesa.
- Você é uma mulher jovem e bonita. Sem dúvida Lucy notou esses atributos assim que a viu. Agora as pessoas que estavam no café nos viram juntos, e em poucos dias
a fofoca terá se espalhado. Todos comentarão que minha recepcionista, uma jovem linda e loira, mora comigo.
- Isso vai ferir Lucy - ela respondeu séria, incapaz de compreender o motivo do sorriso que bailava nos lábios do médico.
- Pelo contrário. Isso a fará perceber que sou um homem de carne e osso com necessidades próprias e bem conhecidas, não uma extensão de Grayson. A única coisa que
me preocuparia nessa situação seria sua reputação, mas ela não poderá ser a tingida.
- Por que não?
- Porque você não existe. Linda Smith é apenas uma invenção, um disfarce que vai desaparecer quando tudo isso acabar.
Jarod tinha razão. E para seu próprio bem, era melhor manter em mente que, para ele, não passava de um caso interessante que pretendia desvendar. Mais nada...
- Kit...
- Sim?
- Sabe que quando suas emoções aproximam-se da superfície você se fecha como uma concha?
- E você? - ela irritou-se. - Sabia que, quando quer ser evasivo, responde uma pergunta com outra?
- Faz parte da minha profissão - ele sorriu. - É mais forte do que eu imaginava, Kit. Saiu parecida com seu pai ou sua mãe?
- Com minha mãe, definitivamente.
- Ela fazia seu pai feliz?
- Sim, apesar da enfermidade. Papai dizia que ela tinha um sexto sentido. Quando era pequena acreditava que ele referia-se a um certo talento musical de minha mãe,
mas depois compreendi que ela tinha seus... encantos sexuais.
Jarod riu, e a gargalhada coincidiu com o toque do telefone.
A transformação em sua expressão revelou a existência de uma emergência, e Kit experimentou uma estranha mistura de alívio e decepção.
- Infelizmente nossa cavalgada terá de esperar até mais tarde - ele avisou ao desligar. - Era do hospital local. Alguém sofreu um acidente de trenó e sofreu lesões
internas muito graves. Que tal me levar até lá? Você pode ficar com o carro, e chamarei pelo telefone celular quando estiver pronto para ser apanhado.
Kit não entendia porque sentia-se desapontada com o cancelamento dos planos. Agora que conhecia a verdade, compreendia que Jarod só a convidara para cavalgar porque
amava o esporte e a vida ao ar livre, não por querer estar a sós com ela.
CAPÍTULO VII
Com o dinheiro que Jarod deu a ela ao descer do carro, na frente do hospital, Kit comprou alguns produtos de higiene e livros num supermercado próximo. Ao entrar,
sofreu um desagradável choque ao ver uma foto dela mesma num boletim sobre o caixa, junto com outros retratos de crianças e animais desaparecidos. O cartaz pedia
a quem quer que a identificasse para telefonar ao Departamento de Polícia de Salt Lake, cujo número era fornecido logo abaixo.
Tomada pela culpa, agarrou as compras e correu para o carro, onde passou a meia hora seguinte, dirigindo pelo vale enquanto pensava na preocupação que devia estar
corroendo Laura e Ross.
Apesar dos conselhos de Dart, não suportava mais a idéia de estar provocando tamanha apreensão. Num momento de desespero, abriu o porta-luvas e apanhou o celular
de Jarod, e já estava se preparando para fazer a ligação quando o aparelho tocou, assustando-a.
- Kit? - ele estranhou. - Algum problema? Parece perturbada! Onde está?
- Perto da fonte de água mineral.
- Por que tenho a impressão de que está nervosa? O plano de Dart a perturbou?
Pensou em revelar a verdade e avisá-lo sobre a intenção de telefonar para a irmã, mas sabia que o decepcionaria. Desde o início, Jarod não poupara esforços para
ajudá-la, e não podia desapontá-lo agora. Não seria justo, especialmente depois de tê-lo colocado numa posição tão delicada.
A qualquer momento a polícia poderia acusá-lo de ocultar evidências e impedir o cumprimento da lei.
- Estou um pouco ansiosa, só isso.
- Kit, sei que a idéia de voltar ao trabalho e expor-se novamente ao perseguidor a apavora, mas Dart e eu estaremos lá. Você não vai estar sozinha.
- Sim, eu sei. Foi só uma bobagem, uma preocupação passageira. Quer que eu vá buscá-lo?
- Gostaria muito de sair agora, mas houve outra emergência. Liguei para dizer que vou demorar mais algumas horas, e que avisarei quando estiver livre. Até lá, volte
para a fazenda e descanse.
- Acabei de comprar alguns livros, e vou seguir seu conselho.
- Não se deixe absorver muito pela leitura. Ainda pretendo sair para cavalgar, e faço questão de sua companhia.
Jarod desligou, e Kit foi sacudida por um violento arrepio. Desde que ele sugerira o passeio pela primeira vez, deixara-se invadir por imagens românticas de um casal
atravessando um campo coberto pela neve, os cavalos trotando lado a lado enquanto os dois estendiam as mãos para se tocar.
Os sentimentos provocados por essa fantasia a levaram de volta a fazenda numa espécie de nuvem cor-de-rosa, mas a alegria abandonou-a assim que entrou em casa e
viu Lucy esperando por ela no hall, cercada pelos cães. O desapontamento por perceber que Jarod não a acompanhava estampou-se imediatamente nos olhos dela.
Kit cumprimentou-a, esperando amenizar a tensão.
- Como vai, Lucy?
- Bem, obrigada. Soube que Jarod teve uma emergência...
- Sim, ele ainda terá de passar algumas horas no hospital. Seus filhos já voltaram para casa?- perguntou, tentando mudar de assunto, já que falar sobre Jarod a perturbava
imensamente.
- Ainda não, mas devem estar chegando. Por quê?
- Bem, eu... pensei que poderia ser divertido construir um boneco de neve com as crianças - ela improvisou. - Nunca tive irmãos mais novos com quem pudesse brincar.
- Ah, sim... Eles vão adorar a idéia.
- É uma mulher de sorte, Lucy. Seus filhos são lindos. Bem, diga a eles que me procurem no quarto quando chegarem, sim? Estarei apenas lendo.
- Linda? - Lucy chamou, obrigando-a a parar e olhar para trás. - Por que Jarod a trouxe para cá?
- Fui contratada para trabalhar com ele em Salt Lake, e ele achou que seria uma boa idéia familiarizar-me com as fichas do arquivo daqui. Se entendi bem, alguns
pacientes de Heber irão até Salt Lake para serem atendidos pelo doutor Banning.
- É estranho. Estou lidando com os pacientes daqui há algum tempo, e ele não me pediu para ajudá-la.
- O doutor Banning deve ter pensado em poupá-la do trabalho de mudança. Afinal, já tem suas responsabilidades de mãe e dona de casa, e um pouco mais de tempo é sempre
bem-vindo.
- Como conseguiu o emprego? Era paciente dele, ou colega, talvez?
Alarmada, Kit não soube como responder.
- Só perguntei porque percebi que usa uma peruca. Passou por quimioterapia, ou...
- Mamãe! - Jennifer gritou, interrompendo-as. Uma interrupção providencial, do ponto de vista de Kit. - Chet me acertou com uma bola de neve!
- Foi sem querer - o menino defendeu-se, entrando logo atrás da irmã.
Os dois correram na direção de Lucy para abraçá-la, e só então notaram a presença de Kit.
- Veio com tio Jarod? - Chet quis saber.
- Sim.
- É namorada dele? - Jennifer perguntou sem rodeios.
- É claro que não - Lucy aborreceu-se. - Ela só está ajudando tio Jarod no consultório.
- E onde ele está?
A pergunta de Chet foi dirigida a Kit, mas Lucy respondeu.
- No hospital. Poderão vê-lo mais tarde. Tomaram o café da manhã? - As crianças afirmaram com a cabeça. - Então preparem-se para construírem um boneco de neve. Linda
vai ajudá-los.
- Está muito frio - Chet reclamou. - Vai brincar lá fora conosco, mamãe? - Jennifer perguntou.
- Hoje não.
Kit viu a decepção nos olhos das crianças e virou-se para Lucy.
- Tem um par de luvas para me emprestar?
- É claro que sim. Conservamos diversos pares na lavanderia, atrás da cozinha. Chet irá buscar um deles para você. Trouxe botas?
- Não.
- Jennifer, corra até o quarto da mamãe e traga aquele velho par de galochas para Linda. Devem ser grandes o bastante para ela.
- Voltarei num minuto. Não comecem sem mim!
- Estarei esperando por vocês lá fora em cinco minutos. Assim terei tempo para guardar as coisas que comprei e mudar de roupa.
As duas crianças concordaram e saíram correndo. Kit pensou que também conseguiria escapar, mas estava enganada. Lucy a seguiu até o quarto de Jarod.
- Linda, desculpe-me se estou sendo invasiva, mas se esteve doente, não devia sair nesse frio. As vezes, as crianças ficam incontroláveis quando excitadas.
Kit tinha dificuldade em lidar com Lucy. Num minuto comportava-se como uma mulher cujo território era invadido, e no outro soava completamente sincera. Precisava
esclarecer as coisas a respeito de sua saúde.
- Não estive doente, sra. Banning. Precisava de um emprego, e por isso respondi ao anúncio do doutor Banning em busca de uma recepcionista.
- Então ele pôs um anúncio - Lucy murmurou furiosa. Kit sentia-se muito mal a respeito de tudo isso, mas não podia fazer nada. A verdade teria que vir à tona.
- Quanto à peruca - ela continuou -, decidi usá-la para esconder o estrago que minha cabeleireira fez na semana passada. Fui cortar os cabelos, e ela não entendeu
bem o que eu queria... Sabe como é, pedimos para tirar dois centímetros e elas nos escalpelam. Se nunca usou uma peruca, não pode imaginar o desconforto que elas
provocam.
São quentes, incômodas, desagradáveis... Enfim, mal posso esperar para me ver livre dessa coisa.
- Sabe lidar com computadores?
Isso estava ficando pior a cada instante. A mulher estava tão perturbada com a possibilidade de perder seu lugar na vida de Jarod, que mal ouvira a explicação a
respeito da peruca.
- Sim - Kit respondeu enquanto guardava as compras. - Tive de aprender alguma coisa em meu emprego anterior.
- Que tipo de emprego tinha?
- Ei, Linda! - as crianças chamaram da porta. - Pensamos que já estivesse lá fora!
- Sua mãe e eu estamos conversando, mas irei num minuto.
-Aqui estão as galochas - Jennifer disse. - Experimente-as.
- E eu encontrei as luvas - Chet entregou-as.
- Ótimo.
Grata pela interrupção, Kit calçou as botas e as luvas e empurrou as crianças na direção da porta.
Podia sentir o olhar de Lucy enquanto caminhava com eles e os cães pela neve. Chet já decidira que o boneco seria construído perto dos pinheiros.
Depois de alguns minutos, Lucy fechou a porta. As crianças devem ter percebido, porque Jennifer comentou:
- Aposto que ela está chorando outra vez.
- É verdade - Chet concordou.
- Um dia ela vai parar - Kit murmurou, ajudando-as a formar a bola maior que serviria de base.
- Foi o que tio Jarod disse.
- Seu tio está certo.
- Gostaria que ele não tivesse de mudar-se para Salt Lake.
- Ele sempre virá visitá-los, Chet. Pense em como será divertido!
- Gostaria que papai não houvesse morrido. Kit olhou pra Jennifer com ternura.
- Sei como se sente, querida.
- Sabe? - as duas crianças espantaram-se.
- Meu pai também morreu um ano antes do seu.
- Você chorou muito? - Jennifer quis saber.
- Sim, muito. Provavelmente porque minha mãe também já havia morrido.
- Não tem mais uma mãe? - Jennifer assustou-se.
- Não. Pensem em como são sortudos por terem a mamãe por perto. Agora ela está triste, porque amava muito o pai de vocês e sente saudade dele, mas com o tempo voltará
a rir.
- Você ri muito?
- Tenho me esforçado para isso, Jennifer.
Juntos, fizeram a segunda bola e começaram a ajeitá-la sobre a primeira.
- Isso é o que tio Jarod sempre diz. Estou me esforçando para isso, Chet.
- Bem, vamos ver se conseguimos terminar esse boneco antes dele voltar para casa. Como vamos vesti-lo?
- Vou buscar algumas coisas velhas que foram de papai.
- Boa idéia, Chet. Por que não vai cuidar disso enquanto Jennifer e eu fazemos a cabeça?
Jennifer pôs as mãos na cintura.
- Por que temos sempre de fazer um homem? Por que não pode ser uma rainha?
- Uma rainha? - Chet gritou.
- Por que não?
- Está bem, se quer fazer uma rainha, vamos lá - Chet concordou. - Mas ela será bem feia!
- Não! Ela será linda. Tenho coisas bonitas para vesti-la, e vou buscá-las imediatamente.
- E eu vou buscar feno no celeiro para fazer os cabelos dela.
- Ela não precisa de cabelo.
- Quem já ouviu falar numa rainha careca?
- A rainha da Branca de Neve é careca. Quer ver?
Jennifer virou-se, correu na direção da casa e quase colidiu com a mãe, que caminhava na direção do grupo. Quando a pequena desapareceu além da porta, a cunhada
do médico acenou para Kit e Chet.
- Jarod telefonou. Vou buscá-lo no hospital e aproveitarei para comprar alguns mantimentos. Voltarei logo.
Kit sabia exatamente como Chet sentia-se. Antes que pudesse dizer que queria acompanhá-la, ela já havia desaparecido.
- Sim, sra. Banning. Olharei as crianças enquanto está fora - Kit respondeu com ironia, vendo a outra desaparecer no Land Rover. - Muito bem, vamos terminar esse
boneco a tempo de surpreender seu tio. Por que não procura um graveto para ser o cetro da rainha?
Dar a ele uma missão importante era a única maneira de fazê-lo esquecer a rejeição sofrida. Como se esquecesse da própria infelicidade, ele dirigiu-se ao pomar que
ficava ao lado da casa.
Assim que ele afastou-se, Jennifer voltou carregando um misterioso tesouro. Kit mal podia esperar para ver o que ela conseguira.
Mas a curiosidade transformou-se em horror quando a pequena aproximou-se arrastando uma grande extensão de tecido púrpura pela neve.
A capa de cetim!
Quando Jennifer mostrou o traje de cisne com o arranjo de cabeça, Kit teve a sensação de que ia desmaiar.
- Onde... onde encontrou essas coisas?
- Numa gaveta da casa nova de tio Jarod.
- E ele disse que podia ficar com elas?
- Sim. As pessoas que se mudaram de lá deixaram muitas coisas, e ele disse que eu podia pegar o que quisesse no andar de cima, desde que não fosse dele. Pode pôr
esse enfeite na cabeça da rainha?
Kit não acreditava no que via. Nunca, nem em seus pesadelos mais loucos, imaginara esse tipo de complicação. Se tentasse tirar as coisas da mão da menina, temia
que ela criasse uma cena e acabasse provocando perguntas inoportunas, justamente o que desejava evitar.
Tremendo, ajeitou o adorno de cabeça sobre a última bola de neve, rezando para que Lucy não questionasse o estranho traje no boneco.
- Também trouxe a boca da fantasia de Minnie que usei no Halloween e duas peças pretas do jogo de damas para os olhos.
O sorriso grotesco cheio de dentes enormes parecia assustadoramente real na rainha de neve que surgia diante delas.
- Ponha os olhos - Kit sugeriu, erguendo a menina nos braços para que concluísse a criação.
- Agora precisa passar o cordão no pescoço da rainha. Como se vivesse um sonho, Kit apanhou o traje que usara na noite em que havia fugido do teatro tomada pelo
pânico e ajeitou-o entre as duas bolas que formavam o corpo do boneco. Em seguida foi a vez da capa, que cobriu quase toda a parte posterior da construção.
Deus! Podia imaginar o choque de Jarod quando se deparasse com essa coisa grotesca. Quanto à reação de Lucy, estava começando a sentir medo.
- Ei... ficou ótimo! - Chet gritou, aproximando-se com o que seria o cetro. - Ela parece mesmo uma rainha!
E a polícia não teria nenhuma dificuldade para identificar o disfarce que usara para fugir se visse esse boneco.
Impotente para mudar a situação, ela assistiu em silêncio à euforia dos dois irmãos, que antecipavam a reação dos adultos.
Por que Jarod não jogara o traje fora? Provavelmente por medo de que alguém o encontrasse e ligasse o disfarce à sua casa. Certamente considerara mais seguro escondê-lo
em uma gaveta.
De repente lembrava algo que o pai um dia havia dito. As crianças são ingênuas. Coloque-as atrás de linhas adversárias e elas criarão o caos. Como essas palavras
eram verdadeiras!
- Aí vem eles! - Chet gritou, correndo na direção do Land Rover. Jennifer o seguiu de perto, entusiasmada com a criação e ansiosa para exibi-la.
Kit ficou onde estava, esperando...
- Venham ver nosso boneco de neve! - Jennifer gritou para o tio, agarrando a mão dele assim que o viu saltar do automóvel.
- Venha, mamãe! - Chet chamou. - Ficou o máximo!
Os quatro aproximaram-se seguidos pelos cães. Incapaz de esperar pela reação dos adultos, Kit fechou os olhos.
- Ora, ora! O que temos aqui? - Jarod murmurou, usando o mesmo tom de voz que usara na noite em que removera a capa de cetim com que ela escondera o corpo. - A rainha
bruxa, e nos velhos trajes de cena da sra. Baxter!
O comentário a fez abrir os olhos para encará-lo. Jarod merecia uma medalha! Num instante, sua mente astuta e sagaz compreendera tudo e fabricara uma desculpa tão
perfeita, que sua cunhada jamais desconfiaria de nada.
- É impressionante, Linda - Lucy elogiou.
- Os elogios devem ser todos para sua filha, sra. Banning. Ela é a única responsável pela criação. Isto é, exceto pelo cetro, que foi trazido por Chet.
- É verdade. Eu queria um homem das neves, mas Jennifer fez questão de uma rainha. Para uma menina, até que ficou muito bom.
- Podemos tirar uma foto, tio Jarod?
- Estava pensando na mesma coisa, Jenny - ele murmurou com tom pensativo, mas só Kit conhecia os motivos para isso. - Chet, vá buscar minha câmera no escritório,
por favor.
- Está bem, tio Jarod!
- Venha cá - ele chamou, erguendo Jennifer nos braços. - Dessa vez você superou-se, querida!
Jarod tinha uma facilidade de relacionamento impressionante com todas as pessoas, e era de se compreender que a família o adorasse. Kit não podia culpar Lucy por
tentar agarrar-se a ele. Depois de perder o marido, seria doloroso demais abrir mão do cunhado, também. Seria impossível substituí-lo.
Começava a perceber que havia sido um engano acompanhá-lo a fazenda. Não só pela ameaça de exposição, mas porque sentia-se uma intrusa na vida dessa família. Estava
interferindo em assuntos delicados e íntimos que não tinham nada a ver com ela.
-Vamos, Linda. Participe da foto - Chet convidou ao voltar.
Sem saber como reagir, Kit atendeu ao pedido enquanto Jarod fazia várias poses.
Assim que terminaram, ela aproximou-se do médico e tomou a câmera da mão dele. Evitando seus olhos, disse:
- Deixe-me tirar um retrato seu com a família.
Através da lente, Kit pôde observar melhor o grupo. Não era justo! Os quatro pareciam tão perfeitos juntos! Era como se seu coração se partisse em mil pedaços.
Depois de fotografá-los em três posições, ela disse:
- Acho que o filme acabou.
Chet aproximou-se, e Kit instruiu-o para entregar a câmera ao tio. Em seguida pediu licença e foi refugiar-se no interior da casa.
Grata pela privacidade do quarto que ocupava, Kit sentou-se na cama e começou a retirar as luvas e botas.
- Kit?
Jarod havia entrado e acabava de fechar a porta.
- Não tire o casaco. Vamos sair imediatamente.
- Não podemos sair. As crianças esperavam por sua volta, e ficarão magoadas se formos cavalgar sem eles.
- Houve uma mudança de planos - ele avisou sem rodeios. - Falaremos sobre isso no carro.
O tom grave de sua voz a fez perceber que seria inútil argumentar. Na verdade, não tinha o direito de questionar suas decisões, não quando submetera-se de livre
e espontânea vontade aos planos que Jarod traçara para ajudá-la.
Levando a bolsa, seguiu-o até o Rover. Felizmente não encontraram Lucy, mas as crianças aproximaram-se correndo assim que os viram.
- Onde vai, tio Jarod?
- Trouxe Linda para me ajudar no consultório, Chet.
- Podemos ir também?
- Hoje não. Por que não fazem um rei para aquela rainha enquanto estamos fora?
- Está muito frio - Jennifer queixou-se.
- Nesse caso, sugiro que entrem e ajudem sua mãe a preparar o jantar. Até mais tarde, garotos.
Chet resmungou alguma coisa que Kit não ouviu, pois já estavam se afastando. Esperava que Jarod desse alguma explicação assim que entrassem no carro, mas o silêncio
incômodo e assustador tornou-se ainda mais profundo.
Quando ele saiu dá estrada e parou o automóvel no estacionamento de um hotel, ela virou-se e encarou-o com olhos cheios de dúvidas.
- Relaxe, Kit. Não vou tentar seduzi-la.
- Eu sei disso.
- Sabe? - ele riu, descendo do carro em seguida e desaparecendo além da porta do hotel.
Jarod voltou antes que ela tivesse tempo para pensar no significado do comentário. Sem dizer uma palavra, dirigiu até uma unidade mais afastada da entrada.
Apontando para o restaurante ao lado do estacionamento, ele disse:
- Vou pedir comida chinesa pelo telefone do chalé. Enquanto isso, aproveite para refrescar-se. Depois conversaremos.
No banheiro, Kit livrou-se dos óculos e da peruca e respirou aliviada. Era maravilhoso poder olhar-se no espelho e reconhecer-se. Depois de lavar o rosto, aplicou
uma nova camada de batom e escovou os cabelos. Finalmente começava a sentir-se viva outra vez.
Quando voltou para o quarto, Jarod a esperava estendido sobre a cama. O olhar com que a analisou era tão solene e intenso, que ela teve de virar o rosto para esconder
o rubor que o tingia.
- Sabia que Lucy não gostaria de receber outra mulher em casa, mas o ciúme que ela sente de você ultrapassou todos os limites - ele começou sem preâmbulos. - Se
soubesse que ela a encheria de perguntas, não teria sugerido que voltasse a fazenda.
- Só espero ter dito as coisas certas - Kit respondeu, assustada com a intensidade das emoções que a invadiam.
- Suas respostas foram perfeitas.
- Fiquei sem saber o que fazer a respeito do traje de cisne. Jarod sorriu.
- Devia imaginar que Jennifer o encontraria.
- Quase desmaiei quando a vi com aquilo nos braços.
- Não houve nenhum grande dano. Entretanto, em vista das atuais circunstâncias, é melhor ficar aqui até voltarmos para Salt Lake.
- Eu... também acho que será melhor assim. Por alguma razão, minha presença é ameaçadora. Ela tem medo que eu a prive do trabalho no consultório.
- O medo de Lucy vai muito além disso.
O ar estava carregado com a tensão que pairava entre eles. Kit sentia-se muito perturbada. As batidas na porta a assustaram de tal forma que teve de apoiar-se no
aparelho de tevê para não cair.
A comida! Esquecera completamente do que ele dissera pouco antes sobre pedir uma refeição. Numa espécie de torpor, viu o doutor Banning dar o dinheiro ao rapaz que
fez a entrega e deixar as embalagens sobre uma pequena mesa de canto. Mas, em vez de convidá-la a comer, ele fez algo completamente diferente.
-Enquanto come, voltarei a fazenda para buscar suas coisas.
A última coisa que queria era vê-lo partir. Lucy certamente encontraria alguma forma de retê-lo a seu lado. Saber que estariam juntos e sozinhos na aconchegante
casa da fazenda a encheu de tamanho desespero que, nesse momento, teve certeza de que estava apaixonada por Jarod Banning.
- Eu... pensei que quisesse conversar.
Alguns momentos se passaram antes que ele respondesse.:
- Também pensei. Devastada, Kit perguntou:
- Por que não fica pelo menos para comer enquanto a comida está quente? Não está com fome?
A essa altura a mão de Jarod já estava na maçaneta.
- Sim, estou com fome. Mas não de comida chinesa.
CAPÍTULO VIII
Uma hora mais tarde, Kit levantou-se da cama onde estivera soluçando. Como uma autômata, sentou-se à mesa e engoliu a comida chinesa sem realmente sentir seu gosto,
pois sabia que, se não pusesse algo no estômago, acabaria sentindo-se mal.
Depois de alguns bocados ela desistiu de comer e empurrou o prato, os olhos inchados perdidos no espaço.
Na noite anterior Lucy havia esperado por Jarod, mas, por causa de Kit, ele tivera de alterar os planos originais. Esta noite, entretanto, o médico havia tomado
todas as providências para evitar surpresas desagradáveis.
Não tinha o direito de aborrecer-se com isso. Afinal, Jarod nunca fingira ser nada além do Bom Samaritano, e não poderia queixar-se sobre a maneira como conduzia
sua vida pessoal sem ser ingrata e indelicada. Tudo que ele precisava era uma boa recepcionista, e sentia-se na obrigação de atender às expectativas de seu salvador,
mesmo que fosse apenas até voltar à sua antiga vida.
Apaixonar-se por Banning era um problema dela, e era melhor começar a aprender a conviver com essa dor desde já.
Sem nada para fazer, ligou a tevê e deitou-se sem sequer tirar a saia e a blusa, e já estava cochilando quando a voz do apresentador do jornal noturno a fez sentar-se
de um salto.
- Uma semana se passou desde o misterioso desaparecimento de Kit Mitchell, a jovem engenheira química da Stragi-Corp vista pela última vez na apresentação de O Lago
dos Cisnes. A polícia investiga uma nova pista. Parece que um traje completo e uma capa de cetim desapareceram dos camarins do teatro na noite do último sábado,
mas ainda não se pode provar nenhuma ligação entre os fatos.
Kit arregalou os olhos e continuou ouvindo.
- Como não houve nenhum pedido de resgate, a polícia investiga a hipótese da srta. Mitchell ter sido vítima de alguma traição. Fontes informaram que, antes do desaparecimento,
ela vinha recebendo bilhetes anônimos que a ameaçavam. Informantes ligados à família se dizem preocupados com a irmã da vítima, que está hospitalizada desde o terrível
incidente. A polícia ainda se pergunta se...
Hospitalizada?
Sem hesitar, Kit desligou a televisão e agarrou a lista telefônica ao lado da cama. Esperava que o número de Dart Thueson estivesse catalogado. Preferia ligar para
ele a perturbar Jarod, mas faria o que fosse necessário. Recusava-se a ser a causa da doença da irmã, e iria às últimas conseqüências para tirá-la do hospital.
Uma rápida consulta indicou que o número do investigador não fazia parte da lista e, frustrada, procurou o número de Jarod que, como médico tinha de constar do catálogo.
Foi então que ouviu a batida na porta.
- Kit? Está dormindo? - perguntou uma voz masculina. Ela pulou da cama e foi abrir.
- Graças a Deus está aqui! Laura está no hospital, eu ia mesmo telefonar para você.
Jarod entrou no quarto carregando a valise de Kit que, horrorizada, constatou que Dart Thueson o acompanhava.
- Algo terrível está acontecendo com minha irmã! - ela exclamou apavorada, os olhos cheios de lágrimas. - Ela não...
- Calma, Kit, está tudo bem - Jarod tranqüilizou-a, tomando-a nos braços e deixando-a soluçar em seu peito até acalmar-se.
- A mídia costuma exagerar, srta. Mitchell - Dart avisou. - Sua irmã foi hospitalizada há dois dias para evitar outro aborto, mas acabei de conversar com o médico
e ela está bem.
- Está brincando! - Kit exclamou, afastando-se dos braços de Jarod e limpando o rosto. - Laura está grávida outra vez?
- Isso mesmo. Como vê, srta. Mitchell, também podemos; nos animar com algumas boas notícias.
- Sim, mas... acabei de ouvir que a polícia descobriu o desaparecimento do traje de cisne.
- Isso é de conhecimento público desde a noite em que você desapareceu usando aquela roupa. E Jarod disse que agora o traje enfeita uma certa rainha de neve - o
detetive riu.
De repente percebia que a idéia do disfarce havia sido ingênua, apesar de divertida, mas ainda estava preocupada demais para rir.
- Se Lucy assistiu ao noticiário desta noite, então...
- A essa altura ela já deve ter somado dois e dois - Jarod concordou.
- Mas isso não arruína nossos planos. Temos apenas de mudar o ritmo de nossos movimentos. Na segunda-feira você voltará a Salt Lake e todos saberão disso.
- Segunda...! - Kit exclamou ansiosa, invadida pelo medo.
- Mais alguns dias não farão tanta diferença - Jarod opinou. - Dart está pronto para lançar a isca.
- Isso significa que já suspeitam de alguém?
- Sim, srta. Mitchell. Na verdade, apostaria todo meu dinheiro na identidade do culpado.
- Tenho medo de perguntar... - ela hesitou.
- Não pergunte, senhorita, porque eu não responderia.
- Não? O que quer dizer com isso?
Jarod segurou a mão dela num gesto de conforto e a fez sentar-se a seu lado na cama.
- Dart está tentando dizer que, pelos mesmos motivos pelos quais sua irmã terá de permanecer no hospital, agora você retomará sua vida como Kit Mitchell sem conhecer
o nome de seu perseguidor,
- Não posso!
- É a única maneira de pegarmos o psicopata em flagrante - Dart afirmou com segurança.
Kit começou a tremer e levantou-se de um salto.
- Não posso fazer isso. Vou ficar muito nervosa, apavorada e... Ah, não imagina o que suportei antes de fugir, detetive.
-Tem razão, não sabemos. Mas vai ter de encontrar coragem para lidar com isso, e também sabemos que é capaz disso.
Kit lutava contra as lágrimas enquanto ouvia as palavras do investigador.
- A essa altura, sei mais a seu respeito que você mesma. O diretor da faculdade de engenharia me contou que foi escolhida como melhor aluna do curso por três anos
consecutivos. Esse tipo de sucesso num campo dominado pelos homens revela sua inteligência e coragem. A enfermeira que cuidou de sua mãe não poupou elogios à sua
força numa situação em que a maioria das pessoas desmorona. De acordo com ela, você foi o elo que manteve a família unida.
De cabeça baixa, Kit virou de costas para os dois, tentando conformar-se com uma situação insustentável.
- Agora tenho de ir. Converse com Jarod, e se decidir que não é capaz de voltar na segunda-feira, ninguém tentará forçá-la. Mas, quanto mais cedo terminar com toda
essa história mais depressa poderá voltar a viver. Certo?
Um suspiro pesado escapou do peito de Kit, que cerrou os punhos temendo jamais ser capaz de encarar o próprio medo.
- Pode telefonar para Laura esta noite, srta. Mitchell - Dart avisou da porta.
- Posso? - ela espantou-se, erguendo a cabeça para fitá-lo.
- Acho que já é hora de acabar com o desespero de vocês.
- O que vou dizer a ela? Não sei se poderei voltar a Salt Lake na segunda-feira, como sugeriu.
- Diga apenas que está bem e em segurança, que teve de afastar-se para pensar em tudo com um pouco mais de clareza, e que logo estará de volta. Laura tem um telefone
no quarto do hospital, mas a polícia o equipou com uma escuta. Por isso consegui o número do aparelho da sala de espera, no final do corredor. Como ela tem usado
uma cadeira de rodas para locomover-se, tenho certeza de que poderá ir atender à chamada fora do quarto. E se não puder, seu cunhado irá. Ele tem passado todo o
tempo ao lado da esposa.
- É bom saber disso. Por outro lado... bem, pensei que quisesse preservar nosso segredo até minha volta.
-A situação mudou. Só peço que me avise sobre sua decisão depois de conversar com Laura. Jarod sabe como encontrar-me.
- Está bem - Kit respondeu, com voz solene. - E obrigada por tudo.
- Sei que tudo isso é muito difícil, mas lembre-se do estado em que estava quando o motorista de táxi a deixou na clínica de Jarod. Boa noite.
As últimas palavras do investigador ecoaram em sua mente. Desde que conhecera o médico, sua vida havia mudado de maneira drástica, e tinha a impressão de que não
conhecia mais a si mesma.
- Kit? - Jarod murmurou. - Também tenho de partir, mas voltarei dentro de algum tempo. Preciso conversar com Lucy antes que ela diga ou faça alguma coisa que possa
prejudicar sua situação.
- Está bem. Acho que prefiro ficar sozinha - ela mentiu.
- Tem certeza?
Kit afirmou com a cabeça e abriu a porta. Sabia exatamente por que Jarod estava partindo. Precisava ir ao encontro de Lucy para dizer que a agonia chegava ao fim,
pois Kit sairia de suas vidas dentro de poucos dias.
- Não vou demorar.
- Não se preocupe com isso, doutor Banning.
Sozinha, Kit decidiu dar uma caminhada e clarear a mente com o ar gelado da noite. Laura não ficaria satisfeita com informações vagas, e teria de estar bem alerta
para proteger o médico e sua família de complicações com a polícia e com o psicopata que a perseguia.
Se ao menos pudesse adiar o momento de voltar! Se pudesse permanecer ao lado dele para sempre, desfrutando dessa deliciosa sensação de segurança e proteção! Quarteirão
após quarteirão, lágrimas geladas rolavam por seu rosto enquanto ela recordava a semana que passara na clínica, certamente a mais feliz de sua vida.
Estava passando pela frente do cinema quando notou o cartaz anunciando um filme de Bruce Willis e decidiu entrar. Talvez um pouco de ação e aventura a ajudasse a
esquecer os próprios problemas temporariamente. Entretanto, dez minutos mais tarde descobriu que era incapaz de concentrar-se e deixou a sala de projeções.
Só percebeu que um carro a seguia quando já alcançava a terceira esquina depois do cinema. Um Land Rover...
- Entre! - Jarod ordenou com tom frio, abrindo a porta do passageiro.
Kit obedeceu.
- Parece zangado. Aconteceu alguma coisa?
- Não estou zangado. Preocupado, tenso e ansioso são palavras mais adequadas para o que sinto. Esperei por você no hotel por mais de meia hora, Kit! Conversou com
sua irmã? Por isso saiu sem dizer aonde ia?
- Eu... não vou pedir desculpas por minha falta de consideração, pois sei que odeia quando me desculpo.
- Pois essa é uma ocasião em que devia desculpar-se.
- Sinto muito, Jarod. Só estava tentando me acalmar, mas foi inútil. Quanto ao telefonema para Laura, ainda não decidi o que dizer.
- Se houvesse esperado por mim no hotel, teríamos pensado em alguma coisa juntos.
- Mas eu não sabia quando voltaria. Geralmente acaba demorando mais do que pretende, e não queria dar trabalho.
- Essa rua é muito perigosa à esta hora da noite, especialmente para uma mulher bonita e sozinha.
- Já me convenceu, doutor.
Jarod resmungou alguma coisa e dirigiu de volta ao hotel pisando fundo no acelerador. No minuto em que ele parou o carro, Kit abriu a porta e desceu.
Ele alcançou-a quando já estava girando a chave na fechadura e seguiu-a para o interior o quarto, fechando a porta em seguida. Por alguns instantes encararam-se
como adversários.
- Por que não telefonou para Laura assim que Dart saiu?
- Precisava pensar no que ia dizer. Não queria pôr em risco a segurança de sua família.
- Acho que há mais coisas do que está revelando.
- O que quer dizer
- Não parece segura de sua resposta.
Kit desviou os olhos dos dele, incapaz de sustentar o olhar intenso e penetrante que parecia desnudar sua alma.
- É verdade - e parou, procurando as palavras certas. - Assim que telefonar para ela... Assim que Laura souber que estou bem...
- Ela a fará sentir-se culpada por ter partido sem dizer nada. Todos os velhos sentimentos de dúvida e inadequação voltarão, porque certa vez ouviu sua irmã perguntar
ao marido se não poderia ter inventado os bilhetes para chamar atenção.
As observações de Jarod a deixaram sem fala.
- Laura provavelmente a acusará de ser egoísta e inconseqüente, de preocupar-se apenas com você mesma.
- Está falando como ela! - Kit sussurrou espantada.
- Conte-me mais sobre Laura. Qual é a primeira lembrança que tem dela?
- São tantas...
- Mas temos a tendência de lembrar as piores com mais clareza.
- É verdade - ela concordou com um sorriso triste. - Como no Natal em que papai e mamãe nos deram guitarras havaianas. Papai nos ensinou algumas notas, e ainda me
lembro do orgulho que senti quando consegui tocar Jingle Bells. Ele elogiou-me diante de Laura. Minha irmã jogou sua guitarra no chão e saiu da sala correndo e gritando
que papai preferia a mim. Lembro-me de ter ido atrás dela para dizer que sentia muito, que papai a amava muito e que não tinha importância se ela não gostava da
guitarra.
- E desde então vem pedindo desculpas por tudo - Jarod concluiu. - Sem dúvida pediu muitas desculpas pelas excelentes notas obtidas no curso universitário.
- Na verdade, nunca discuti meu rendimento escolar com Laura - Kit confessou.
- Ainda não compreende por que hesita em telefonar para ela? Acho que se cansou de pedir desculpas.
- Jarod... sua capacidade de desvendar os mistérios da natureza humana me espanta!
- Desenvolvi essa capacidade graças ao trabalho com meu irmão mais velho. A mente é uma entidade tão poderosa, que determina a saúde do corpo em grande extensão.
- Meu Deus! O que teria acontecido comigo se não houvesse sido levada à sua clínica? Em que estado estaria agora?
- Teria encontrado outro tipo de ajuda, Kit.
Sem pensar no que fazia, ela adiantou-se e beijou-o no rosto.
- Obrigada - murmurou, amando-o mais que nunca. - Estou pronta para falar com Laura.
- Ótimo! Vou deixá-la conversar com sua irmã sozinha.
- Não, por favor! - ela pediu em pânico. - Prefiro que fique. A menos...
- Estarei no chalé ao lado, Kit. Dart e eu combinamos tudo com o gerente. Ele fará com que você e eu utilizemos o telefone ao mesmo tempo quando falar com Laura.
Não vou ouvir a conversa, é claro. Apenas gravá-la. Mais tarde, teremos a fita e poderemos discutir cada detalhe dessa conversa, se quiser.
- Obrigada - ela murmurou mais uma vez, à beira das lágrimas.
Saber que Jarod estaria no chalé ao lado amenizava o medo que a invadira anteriormente. Em seu lugar surgia uma estranha calma. Pela primeira vez na vida, começava
a compreender a síndrome de acusações e desculpas que pontuava o relacionamento com a irmã, e só Jarod poderia ter feito isso por ela.
- Aqui está o número do telefone do hospital. - Antes que pudesse perceber, ele segurou seu rosto entre as mãos e depositou um beijo em sua testa. - Boa sorte. -
No instante seguinte ele havia desaparecido.
- Hospital Brighton, enfermeira Stacey falando.
- Posso falar com Laura Hunter, por favor?
- No momento não. Ela está dormindo.
- Posso falar com o marido dela, então?
- Preciso verificar se ele está no hospital. Quem está falando?
- Sou... uma parente. Soube que Laura está internada e gostaria de obter alguma informação.
- Espere um minuto, por favor.
Instantes depois uma voz masculina ecoou do outro lado.
- Alô, Ross Hunter falando.
- Ross? Aqui é Kit...
- Kit? - ele repetiu com tom incrédulo. - Não acredito! Meu Deus, onde está? Você está bem? Quase enlouquecemos de preocupação!
- Estou bem - ela respondeu com voz mais firme. - Tive de me afastar para pensar em tudo com mais calma, mas estou em segurança e logo voltarei para casa. Só queria
conversar com Laura.
- Está falando de um jeito estranho - Ross comentou. - Há alguém aí com você? Foi raptada? Eles a deixaram falar para provar que está viva e pedir o resgate?
- Acalme-se, Ross. Ninguém me raptou. Na noite em que fomos ao bale o psicopata conseguiu fazer chegar a mim mais um bilhete ameaçador. Tentei encontrá-los no saguão
cheio, mas não consegui. Estava tão apavorada que decidi fugir.
- Durante todo esse tempo estive pensando em você à mercê de algum pervertido. Por que não me disse? Teria guardado seu segredo, Kit. Tem idéia do que tudo isso
me fez passar?
Ross sempre pensava nele mesmo em primeiro lugar, mas desta vez a reação de Kit foi apenas um sorriso triste.
- Por isso estou telefonando. Para tranqüilizá-lo - ela explicou sem qualquer emoção. - A enfermeira disse que Laura está dormindo. Devo voltar a telefonar mais
tarde?
- Não! Por favor, não desligue! Se ela perder esse bebê a culpa será sua, ouviu bem? Sei que está apavorada, mas fugir sem nos avisar foi muita irresponsabilidade.
Duvido que Laura algum dia a perdoe.
Kit suspirou. Se houvesse escutado essas palavras antes de conhecer Jarod, teria ficado arrastada.
- E você, Ross? Também não vai me perdoar?
- Por favor, Kit, não piore as coisas - ele suspirou aborrecido. - Onde está? Posso ir buscá-la?
- Voltarei quando estiver preparada.
- Você parece diferente. Está em Salt Lake? Diga-me pelo menos isso antes de falar com Laura.
Estar afastada de tudo por uma semana fazia com que visse as coisas de maneira diferente. Talvez Ross fosse o perseguidor, mas saber que Jarod estava no quarto ao
lado acalmava seus temores.
- Isso não tem importância. E agora, será que pode chamar minha irmã, por favor?
- O que houve com você? - Ross perguntou com surpresa genuína.
- Tive tempo para pensar. Numa situação de vida ou morte, a tendência é que avaliemos nosso passado, Ross. Esse distanciamento me fez muito bem.
- À custa de todos nós. Se queria fugir, Laura e eu poderíamos tê-la levado para algum lugar, até mesmo para fora do país.
- Será que não entende, Ross? Senti necessidade de estar sozinha.
- E se receber outro bilhete quando voltar? Fugirá outra vez? Nenhum de nós suportará tanta tensão.
- Chega de fugas, Ross. Pretendo enfrentar esse maníaco, seja ele quem for.
- Seu quarto está pronto em nossa casa. Laura não mudou nada, e passou noites e dias rezando por sua volta.
Kit jamais soubera que a irmã tinha o hábito de rezar. Talvez fizesse suas orações, mas as palavras de Ross pareciam dramáticas demais para que pudesse acreditar
nelas.
- Não pretendo voltar para a sua casa, Ross. Irei para o meu apartamento.
- Não faça isso! Sua companhia pode fazer bem a Laura. Ela terá alta médica amanhã cedo. Não a perturbe dizendo qualquer outra coisa. Nesse momento, sua irmã precisa
de você.
- Ela tem você, Ross. Decidi sair de suas vidas e do seu casamento. Tenho minha própria vida para viver, e uma certa distância fará muito bem a todos nós.
- Espere um minuto! - Ross pediu com voz apavorada. - Sei que fui um pouco ríspido há alguns instantes, mas temos sofrido com a preocupação. Se disse algo que a
magoou, por favor, desculpe-me. Sabe o que sinto por você, Kit. O que sempre senti...
- Não, Ross, eu não sei - ela devolveu com frieza e segurança. - Por que não tenta ser mais claro?
- Sou louco por você!
- Pensei que fosse louco por sua esposa! - foi a resposta furiosa.
- E sou. Droga! Sabe o que quero dizer. Se tivesse me dado uma chance, provavelmente a teria pedido em casamento, mas mal podíamos nos encontrar. Seu pai...
- O que tem meu pai?
- Nada. Esqueça.
Ninguém jamais chegará aos pés de seu pai. Não haviam sido essas as palavras de Jarod?
- Escute, isso foi há muito tempo. Sou apaixonado por Laura, mas você parece não acreditar que me importo com seu bem-estar. Laura jamais me perdoará se souber que
a magoei. Por favor, Kit. Não faça isso comigo. Conosco. Por que não pode voltar para casa e para a nossa família?
Finalmente Kit pôde sentir a honestidade nas palavras do cunhado e ter certeza de que ele não era o perseguidor que transformara sua vida.
- Também me importo com vocês, Ross, e é claro que não me magoou. Apenas acho que chegou a hora de seguir meu próprio caminho.
- Não tem medo de ficar sozinha no condomínio? Não gosto nada disso. Aquele lunático pode começar tudo de novo e...
- Estou cuidando desse problema. Contarei tudo assim que nos encontrarmos, está bem? Posso falar com Laura agora?
- Está bem, vou chamá-la. Mas prefiro preveni-la a respeito das notícias. Ela tem estado nervosa há meses. O médico acredita que Laura está sofrendo de depressão
há anos, e que precisa de terapia. Talvez ele esteja certo.
Talvez, Kit concordou em silêncio.
- De qualquer maneira, não sei como ela vai reagir quando souber que está ao telefone.
- Estou preparada para enfrentar a reação de Laura.
- Jeremy já sabe que está bem?
- Não, e prefiro dar a notícia pessoalmente, Ross. Por favor, mantenha segredo, sim?
- Como quiser. Quando pretende falar com ele.
- Logo.
- Está bem. Vou chamar sua irmã. Kit recostou-se no travesseiro e esperou.
Era estranho como sentia-se afastada de tudo e todos. Menos de Jarod. Ele devia estar deitado na cama do chalé vizinho, desfrutando de um merecido descanso. Apenas
uma parede os separava. Gostaria que estivessem juntos agora, relaxados num abraço quente e carinhoso. Mais que tudo no mundo, queria fazer amor com ele, ser amada
por ele...
CAPÍTULO IX
- A voz de Laura soava frágil. Laura, você está bem?
- Não acredito que tenha feito isso comigo! Como pôde ser tão cruel? - ela gritou, antes de começar a soluçar.
Kit respirou fundo, obrigando-se a resistir às acusações da irmã.
- Tive de fazer isso por mim, Laura. Ou me afastava de tudo e todos, ou acabava perdendo o juízo.
- Você me roubou dez anos de vida. Quase perdi meu bebê. Tem idéia de quantas pessoas feriu? Sabe quanta gente ficou preocupada com seu desaparecimento? A polícia
visitava nossa casa todos os dias, instalando escutas nos telefones, monitorando nossos passos... Sentia-me como se estivesse numa prisão. Não quero saber se estava
apavorada. Não tinha o direito de desaparecer assim, ouviu bem? Por que não falou comigo? Se precisava mesmo afastar-se, por que não confiou em sua única irmã? Às
vezes não consigo acreditar que seja realmente minha irmã!
A vontade de pedir desculpas era enorme, mas Kit conseguiu conter-se.
- Sei que está aborrecida, Laura, e reconheço que tem razão. Estou feliz por não ter sofrido um aborto. Ross disse que vai para casa amanhã, e isso é maravilhoso.
Estaremos juntas em breve, e então poderemos ter uma longa conversa. Agora não é o momento de discutirmos os motivos que me levaram a fugir.
- Nada do que diga poderá desculpar seu comportamento. Depois que encontrou o bilhete no teatro, não podia ter esperado nossa volta para conversarmos sobre o assunto?
- Não acreditava mais na polícia, Laura. E... agora tenho de desligar.
- Quando a verei?
- Logo.
- O que quer dizer com logo? Amanhã, no mês que vem, no ano que vem?
- Quando me sentir preparada.
- Talvez também decida revê-la quando estiver disposta.
Laura desligou sem despedir-se. Enquanto Kit tentava recuperar-se do efeito devastador da conversa, Jarod bateu na porta e entrou, trazendo o gravador e a fita cassete
na mão.
- Se quiser falar a respeito disso, estou aqui.
Kit sentou-se na beirada da cama e escondeu o rosto entre as mãos.
- Não sei o que pensar. Ela falava como a Laura que conheço, mas era como se houvesse algo de novo nela. Faz sentido?
Jarod acomodou-se numa poltrona.
- Fale um pouco mais.
- A raiva dela era tão intensa que... Não! Era mais que raiva. Parecia...
- Ódio?
- Sim! - Kit exclamou. - Ela estava furiosa. Laura nem sequer me ouvia, Jarod! Não havia nenhum sinal de simpatia, solidariedade ou preocupação comigo. Admito que
esperava um certo grau de recriminação, mas não identifiquei o afeto que esperava ouvir na voz de minha irmã. Ross disse que os médicos suspeitavam de um desequilíbrio
emocional muito antigo, e fico me perguntando se não pode ter acontecido uma espécie de descarga química no aborto, algo que tenha precipitado esse estado de coisas.
Isso poderia explicar o comportamento de Laura?
- Com toda a certeza. Os hormônios e a química do corpo feminino são capazes de provocar alterações significativas de comportamento. Vou perguntar a Dart se ele
pode descobrir mais sobre esse diagnóstico que mencionou. Como foi a conversa com Ross?
- A princípio ele também me condenou com violência, mas depois tudo transcorreu melhor do que eu esperava. Sei que ele não é responsável por aqueles bilhetes.
Algo cintilou nos olhos de Jarod.
- Se escutarmos a fita, talvez possa analisar a conversa com sua irmã sob outro ponto de vista. Da posição de ouvinte, não de participante. Se quiser, posso deixá-la
sozinha para escutar a gravação.
- Não! Quero que escute minha conversa com Laura. Preciso de sua opinião a respeito do comportamento de minha irmã.
- Nesse caso - Jarod suspirou, deixando o gravador sobre a mesa de cabeceira. - Pronta?
Kit afirmou com a cabeça, e eles começaram a ouvir a conversa. Depois do segmento com Ross, Jarod parou a fita.
- Ele tem razão, sabe? Você mudou. Parece forte, Confiante e segura. Sente-se realmente assim, ou teve de esforçar-se para falar com esse tom firme que acabei de
ouvir?
- Sinto-me mais controlada. Você me fez ver os relacionamentos com as pessoas com mais clareza, e já não sinto culpa. Por causa disso, não preciso colocar-me na
defensiva.
- Ótimo. Vamos continuar.
Em silêncio, escutaram as palavras iradas de Laura e as respostas equilibradas de Kit. Quando Jarod parou a fita ela suspirou.
- E então, estou certa? Também acha que ela parece furiosa?
- Ela está passando por um momento tumultuado. Pessoas com desequilíbrio químico podem se comportar de forma muito diferente sem sequer perceber. Um aborto é uma
das maiores perdas que uma mulher pode sofrer, e talvez isso, mais a morte de seu pai, tenham disparado algo capaz de alterar o comportamento dela temporariamente.
- Pobre Laura!
- Você tem um equilíbrio saudável, Kit, porque não está se culpando pelo que ouviu. De acordo com você, sua irmã sempre conseguiu fazê-la sentir-se culpada, e esse
é um hábito que ela trouxe para o mundo adulto. Agora o hábito adquiriu proporções exageradas por causa da gravidez e de outros fatores. Vamos ouvir a fita mais
uma vez.
- Por quê?
- Porque o comportamento humano é fascinante e podemos aprender alguma coisa. Vamos estudar os padrões de conversação de Ross e Laura. Quem faz a maior parte das
afirmações? Quem faz mais perguntas? Faremos listas e depois vamos comparar nossas anotações.
- Está bem - Kit encolheu os ombros, aceitando o bloco de papel e a caneta.
Quando a fita chegou ao fim, Kit ergueu a cabeça e descobriu que o médico fizera mais anotações que ela.
- E então, o que aprendeu? - Jarod perguntou.
- Os dois estavam zangados quando começaram a falar. Mas Ross finalmente acalmou-se no decorrer da conversa, e Laura manteve-se furiosa até o fim.
- Sua mente de engenheira não a desapontou. Ross tornou-se razoável.
- Sim, foi o que quis dizer.
- Vamos ouvir mais uma vez. Talvez tenhamos deixado escapar algum dado significativo.
- Não sei o que há mais para descobrir.
- Se está cansada podemos parar.
- Não é isso...
- Kit, sei que tudo isso é muito difícil, especialmente porque os dois sujeitos em questão são pessoas muito próximas de você. Manter a objetividade é um desafio
e tanto, mas, quanto mais conseguir distanciar-se emocionalmente, melhor será a visão que terá de suas personalidades. Quando voltar para casa, estará melhor preparada
para lidar com as situações à medida em que ocorrerem. Sua atitude fará toda a diferença. A atitude representa noventa por cento da vida, porque não podemos mudar
as pessoas.
- Eu sei - ela respirou fundo. Vamos ouvir a fita novamente.
Embora não soubesse o que procurar, Kit fez algumas anotações.
- Ross parecia preocupado com o fato de eu ter perturbado Laura. Por outro lado, Laura não mencionou o marido uma única vez. E Ross parecia sentir medo de Laura.
Ela tentou me fazer sentir culpada, acusando-me de ter fugido sem confiar nela. Ross tentou a mesma coisa, mas depois desculpou-se.
- Notou que você manteve um padrão de comportamento nas duas fazes da conversa?
- Sim.
- Acha que pode dizer que houve a repetição de algum padrão anterior?
- Sim, exceto por não ter convencido minha irmã,
- E isso é anormal?
- Acho que sim.
- E por que foi diferente dessa vez?
- Porque ela estava muito zangada.
- Porque estava furiosa.
- Sim.
- Vamos esquecer temporariamente a condição física de Laura. Por que acha que ela ficou tão perturbada? Especialmente quando teve certeza de que você estava bem
e prestes a voltar?
- Não sei.
- Você sabe, Kit. Pense.
- Eu a deixei furiosa.
- Como?
- Bem, não tentei acalmá-la.
- Essa é sua reação típica?
- Quer dizer quando as coisas não são como Laura espera?
- Quando ela não consegue manipulá-la.
- Manipular-me?
- Laura aprendeu que você tenta acalmá-la sempre que ela fica furiosa. É um mecanismo que ela usa desde a infância para obter a resposta que deseja. E você foi condicionada
a dar essa resposta. Essa noite não reagiu como ela esperava. Qual foi o resultado?
- Ela ficou ainda mais furiosa e desligou o telefone.
- Por quê?
- Por quê? - Kit devolveu.
- Acha que a intimidou deixando de acalmá-la?
- Laura não se deixa intimidar com facilidade. Acho que ela comportou-se assim para me punir.
- Punir é uma palavra interessante. Que forma tomará esse castigo quando voltar para casa e continuar resistindo às ameaças de Laura?
- Ameaças?
- Está bem, comportamento manipulador, se preferir.
- Bem, ela insinuou que talvez não queira me ver tão cedo.
- E isso a aborrece?
- É evidente que sim. Mas não vou morrer por isso.
- Por quê?
- Porque Ross disse que pode haver uma explicação química para o comportamento de Laura, e porque você me fez vê-la sob uma nova luz.
- E quando eu não estiver mais por perto para ajudá-la a enxergar as coisas com clareza, ainda será forte o bastante para preservar a objetividade? Ou acha que voltará
aos velhos padrões, porque são emocionalmente mais fáceis para você?
De repente Kit perdeu o interesse no jogo. Jarod havia acabado de dizer que quando voltasse para Salt Lake, na próxima segunda-feira, nunca mais a veria.
Num impulso, levantou-se e cruzou os braços sobre o peito. Nunca mais o veria, não voltaria a ouvir sua risada... Nunca mais conversariam como agora, partilhando
opiniões. A dor era insuportável.
- Se não se importa, prefiro parar por aqui - disse. Estou cansada, e acho melhor ir dormir.
Ele também levantou-se, e uma espécie de máscara escondia suas verdadeiras emoções.
- Se precisar de mim, estarei bem ao lado.
Jarod já havia saído há algum tempo, e Kit ainda permanecia encolhida sobre a cama, tentando conter os soluços. Decidira interromper a conversa porque, pela primeira
vez desde que o conhecera, não podia dizer a verdade.
Não era Laura que a perturbava, mas o próprio Jarod. Amava-o loucamente, e de repente a vida já não fazia sentido sem ele.
Kit chorou até esgotar as lágrimas. Passava da meia-noite quando ela deitou-se de costas e tomou mais uma decisão. Jarod jamais a abandonaria enquanto a pessoa que
a ameaçava com aqueles bilhetes não fosse pega. Era um médico atencioso, competente e dedicado, e jamais abandonaria um caso antes do final. Assim, a única coisa
justa a fazer era voltar para casa na segunda-feira e encerrar essa história de uma vez por todas. Jarod tinha outra vida, uma vida que ela havia interrompido. Lucy
o esperava...
Pensar em Lucy provocou uma nova onda de dor. Desesperada, Kit levantou-se para beber água e andou de um lado para o outro por cerca de dez minutos.
Se fosse outro tipo de mulher, se não houvesse sido criada com os valores e princípios insulados pelos pais, talvez se esgueirasse até o quarto de Jarod e se atirasse
em seus braços. Para muitas mulheres, uma noite na cama do homem amado valia qualquer risco, mesmo sem ser amada por ele.
Talvez Jarod a recebesse para essa noite de amor, talvez não. Estaria mentindo para si mesma se dissesse que havia visto qualquer sinal de paixão em seus gestos
atenciosos.
No meio de sua reflexão, Kit notou o gravador com a fita cassete ao lado da cama. Jarod havia insistido muito para que ouvisse a conversa telefônica diversas vezes,
e ainda não conseguira compreender sua persistência. Estaria duvidando da capacidade recém-adquirida de lidar com os ataques da irmã?
Num impulso, voltou a fita e ouviu a conversa mais uma vez. Laura odiara a invasão de privacidade imposta pela imprensa e a polícia, e podia compreender esse tipo
de reação. Quanto ao bebê, correra o risco de perdê-lo, mas ainda estava grávida.
Laura ficara furiosa por não ter sido comunicada sobre seus planos de fuga. Até aí, nenhuma novidade. Desde a infância sempre soubera que a irmã apreciava estar
no controle. Estava zangada porque Kit recusara-se a determinar uma data para voltar para casa.
Depois de ponderar todos os dados, Kit concluiu que a única coisa que podia ter deixado Laura tão aborrecida era o fato de não ter mostrado a ela o bilhete encontrado
no programa na noite do bale.
Por outro lado, Ross parecia aborrecido por diferentes razões. Acreditara que houvesse sido seqüestrada. Laura nem mencionara esse dado. Ao constatar que haviam
vivido um inferno por nada, Ross mostrara-se zangado e até magoado. Mas não mencionará o bale.
Kit ouviu a fita mais uma vez. Ouviu a própria voz explicando ao cunhado por que fugira do teatro. Porque o psicopata voltara a deixar sua marca registrada.
De repente lembrou a afirmação de Laura sobre o bilhete encontrado no programa. Os cabelos arrepiaram-se em sua nuca.
Como ela sabia disso?
O coração parecia querer explodir em seu peito e ela levantou-se de um salto, a mão na garganta para abafar um grito angustiado.
- Jarod! - chamou num murmúrio. - Jarod! - repetiu, dessa vez para que ele a ouvisse, correndo ao quarto ao lado e esmurrando a porta.
Várias luzes se acenderam nos chalés vizinhos, mas o médico ignorou-as e puxou-a para o interior do quarto.
- Eu disse que acabaria solucionando seu próprio caso.
- Há quanto tempo sabe que Laura é a responsável por tudo isso? - ela perguntou, a voz trêmula e os olhos cheios de medo e lágrimas.
- Suspeitei desde o início, mas não tinha provas, até Dart ter procurado a pessoa que distribuía os programas naquela noite. Sua irmã subornou a funcionária do teatro
para fazer chegar até você a brochura com o bilhete.
- Por que não disse de uma vez que a pessoa que me perseguia era Laura? Por que me fez passar por tudo isso?
Por que me fez passar todo esse tempo a seu lado, conquistando meu amor?
- Teria acreditado em mim? Teria me dado a oportunidade de explicar por que suspeitava dela? Teria trabalhado comigo, passado esse tempo ao meu lado, se eu houvesse
lançado dúvidas sobre o caráter de sua irmã? Quando trata-se de Laura, você é como uma leoa protegendo os filhotes. Sua lealdade é digna de admiração, mas quase
lhe custou a sanidade. Era necessário que encontrasse a verdade sozinha, ou jamais a aceitaria.
Kit sentiu-se incapaz de falar, a verdade do que acabara de ouvir ecoando em seus ouvidos.
- Não há nada de errado em me odiar, Kit. Não é a primeira paciente a ficar aborrecida comigo por causa de um diagnóstico. Mas, no final, os resultados superam a
dor.
- Deixou aquele gravador lá de propósito...
- Admito que sim. Esperava que esse cérebro maravilhoso a fizesse sentir-se curiosa o bastante para descobrir o que eu procurava.
Não quero que admire meu cérebro! Quero que me ame, Jarod Banning!
Kit virou-se de costas.
- Se não tivesse concluído tudo sozinha, o que teria feito?
- Nada. Você voltaria a Salt Lake e teríamos posto em prática nosso plano para apanhar sua irmã em flagrante. A fita não pode ser considerada uma prova definitiva,
mas o depoimento da funcionária do teatro seria suficiente para comprovar a culpa de Laura.
- Meu Deus!
- A polícia só não pegou Laura antes daquela noite no teatro porque ela nunca precisou contar com uma segunda pessoa para que os bilhetes chegassem até você.
Completamente tonta e confusa, Kit sentou-se na cadeira mais próxima e respirou fundo, tentando controlar-se. Jarod prosseguiu.
- Só uma coisa mudou. Agora você conhece a identidade da pessoa que a persegue. O médico de Laura pode ser informado de forma a ajudá-la no que for possível. Mas
você não é a pessoa mais indicada para confrontá-la nesse estágio. Não podemos prever como ela reagirá ao saber que você já descobriu tudo.
Kit enterrou o rosto entre as mãos. O pesadelo parecia não ter fim!
- Ela terá toda a ajuda necessária.
Kit sentiu o médico aproximar-se e abaixar-se à sua frente. No instante seguinte ele segurou suas mãos e encarou-a.
- Quanto mais cedo ela for obrigada a lidar com isso, melhor será para todos, especialmente para o bebê. Sei que ama Laura, e por isso vou propor um plano que acredito
ser a melhor solução para todos vocês.
- Qual... qual é seu plano? - ela perguntou com um fio de voz, tentando reagir.
- Com ajuda especializada, Laura poderá resolver os sentimentos infantis que tem por você, e assim que o desequilíbrio químico estiver controlado, ninguém mais terá
de enfrentar essa faceta irracional de sua personalidade. Especialmente com outro bebê a caminho.
- Acha que ela vai ficar bem?
- Tenho certeza disso. Mas quando estiver melhor, tanto no aspecto físico quanto no emocional, Laura será corroída pelo remorso. Vamos dar a ela o tempo necessário
para curar-se.
- Quanto tempo?
- Isso só o médico dela poderá determinar.
- Quer dizer que não devo voltar a Salt Lake?
- Por que não deixamos que ele mesmo tome essa decisão?
- Jeremy ficará furioso.
- Pelo contrário. Jeremy garantiu que seu emprego estará seguro e disponível quando decidir retornar.
- Nesse caso, suponho que possa me afastar por algum tempo. Tenho alguns primos no Colorado e...
- Por que sair daqui? - Jarod cortou. - Por que n&ó fica na fazenda? Meu convite ainda está de pé.
- Aquela é a casa de sua cunhada - ela disparou. - Não posso impor minha presença dessa maneira.
- Ela não estará na fazenda. Os pais de Lucy vivem em Sacramento, e há muito tempo estão insistindo para que ela e as crianças passem algum tempo por lá. Lucy decidiu
ir.
Por quanto tempo? Até Jarod ter certeza de que ela não via mais o reflexo de Grayson em seu rosto?
- Se serve de conforto, estarei em Salt Lake durante quase todo o tempo. Terá a fazenda toda à sua disposição. Podemos conectar o computador do escritório ao equipamento
da Stragi-Corp, e assim terá chance de trabalhar em todos os projetos de Jeremy sem sair de Heber.
- É muita bondade sua, Jarod, mas não posso aceitar.
Temendo outro ataque de choro, ela saiu apressada e foi refugiar-se em seu quarto, mas não foi rápida o bastante para trancar a porta antes da entrada do médico.
- Se está preocupada com dinheiro, pode pagar o aluguel e todas as outras despesas que julgar justas. Andei dando uma olhada em sua relação. Se algum dia decidir
tornar-se secretária particular, por favor, avise-me. Minha vida seria muito fácil.
Por que ele insistia tanto, se não havia mais motivo algum para permanecerem juntos?
Não... Partiria na manhã seguinte, o mais cedo possível. Lucy podia ter decidido viajar para a Califórnia, mas um dia voltaria, e não suportaria essa convivência.
Emocionada, apanhou os óculos e a peruca e jogou-os no cesto de lixo.
- Era o que eu ia sugerir - Jarod sorriu. - Prefiro você naquele traje de cisne. Pelo menos agora sabemos que ele vai permanecer na família.
- Já chega, Jarod! - ela explodiu, virando-se para esconder as lágrimas. - Salvou minha vida e ajudou-me a resolver os problemas que me incomodavam. Por que continua
a demonstrar tanta gentileza? Ultrapassou todas as expectativas do juramento de Hipócrates. Fez muito mais do que qualquer outra pessoa teria feito para ajudar um
semelhante. Daria qualquer coisa para recompensá-lo por toda a ajuda que me deu.
- Está falando sério? -: E ainda pergunta?
- Então aceite minha hospitalidade e consideraremos todas as dívidas quitadas.
- Jarod, eu...
- Esse é um caso típico do médico que busca a cura no paciente.
- O que quer dizer?
- Minha esposa desistiu quando tudo parecia sombrio e sem perspectivas. Ela sentiu que não tinha mais nada a oferecer, e por isso não me pediu nada. Roubou-me a
possibilidade de dar a ela o que estava dentro da minha capacidade. Tenho vivido com essa dor, e isso me fez envelhecer mais depressa. Então aquele cisne ferido
entrou em minha clínica e, quando tudo parecia sombrio e sem perspectivas, confiou em mim e aceitou o que eu era capaz de dar. Ela jamais poderá imaginar o que fez
por mim. Por favor, não me prive de algo que está curando minha alma. Você precisa de ajuda até sua irmã voltar ao normal, e eu ainda preciso ajudá-la. Mas, como
minha esposa, é você. quem deve escolher. Comunique-me sobre sua decisão amanhã cedo.
CAPÍTULO X
Kit adorava dirigir o Jeep que pertencera a Grayson. Jarod insistira para que o usasse enquanto estivesse na fazenda, e ela não hesitara em aceitar a oferta.
Levando os suprimentos necessários ao escritório, Kit saltou do automóvel e entrou em casa. Nas últimas cinco semanas transformara o escritório da fazenda num pequeno
laboratório de engenharia. Desde que o problema do desaparecimento fora solucionado, Jeremy passara a ir visitá-la semanalmente, sempre levando um novo projeto da
Stragi-Corp para discutirem.
Ross também a visitava com regularidade e telefonava quase todos os dias para falar sobre o rápido progresso de Laura no tratamento, Aparentemente, saber que a irmã
descobrira a verdade a seu respeito provocara a explosão do estado depressivo, e a partir desse ponto o médico finalmente havia podido dar início ao tratamento,
que surpreendia por sua rapidez e eficiência. Pela primeira vez Kit se sentia próxima do cunhado e o considerava realmente um membro da família.
Com a ajuda de Jarod, a imprensa recebera uma versão sobre o desaparecimento de Kit Mitchell que, com muito tato, preservava a identidade do perseguidor e dava o
caso por encerrado. Dart recusou-se a cobrar pelo trabalho de investigação, afirmando que ela chegara à conclusão final praticamente sozinha, e que não seria justo
receber por um trabalho que não fizera de fato.
Embora passasse a maior parte do tempo sozinha na fazenda, Kit não sentia-se solitária ou perturbada. Na verdade, a única pessoa de quem sentia falta era Jarod.
Ele havia ido visitá-la três vezes desde o desfecho do caso, mas mantivera-se fechado no escritório, organizando os papéis e limpando algumas gavetas.
O trabalho já não amenizava o sofrimento de Kit. Antes de conhecer Jarod, era capaz de passar doze, até quatorze horas trabalhando num novo projeto, mas agora perdia
a concentração freqüentemente, os olhos vagando pelos pequenos objetos que adornavam as prateleiras do escritório, lembranças do homem que um dia os arrumara ali.
Imaginava-se como esposa de Jarod, e daí por diante os pensamentos adquiriam tal grau de intimidade que acabava sempre ruborizando, obrigando-se a voltar à realidade.
Rezando para que hoje fosse diferente e conseguisse tirá-lo da cabeça por algum tempo, Kit começou a ajeitar o papel que comprara para a impressora.
O telefone a interrompeu.
- Alô, Fazenda High Rustler.
- Kit?
- Laura!
Os soluços da irmã do outro lado da linha a pegaram de surpresa, e ela precisou de alguns segundos para recuperar-se.
- Eu... compreenderei se nunca mais quiser falar comigo.
- Nem pense isso, Laura! Eu amo você, minha irmã.
- O médico disse que meus hormônios enlouqueceram depois do aborto, mas não acredito que tenha sido capaz de tamanha crueldade, e justamente com você. Só posso rezar
para que um dia seja capaz de perdoar-me.
- Esqueça, Laura. Sei que enfrentou coisas terríveis.
- Você sofreu mais que eu. Juro que passarei o resto da vida tentando compensá-la pelo que a fiz passar, Kit. Sinto vergonha de ter sucumbido ao ciúme, mas espero
que compreenda.
- Acabou, Laura. Só quero que seja muito feliz.
- Acho que nunca fui tão feliz ao lado de meu marido. Vamos ter um bebê, e isso também me faz muito feliz. Mas quando penso no que fiz...
- Já disse para esquecer, Laura! Não vamos falar nisso, está bem?
- Então venha para casa. Por favor! Preciso abraçá-la.
- Irei o mais depressa que puder - Kit prometeu antes de desligar.
O dia tão temido havia chegado. Em prantos, Kit começou a preparar-se para sair da vida de Jarod definitivamente. Temendo fraquejar e cometer alguma loucura, como
fugir novamente, telefonou para o escritório de Ross e tomou todas as providências para sair da fazenda até o final do dia.
Em seguida redigiu uma carta para Jarod explicando que a irmã finalmente recuperara-se, e que por isso estava voltando para casa. Depois de agradecer por tudo, concluiu
dizendo que "...agora todas as dívidas foram pagas. Espero que encontre a felicidade que tanto merece. Kit".
Em anexo, deixou um cheque no valor do aluguel do rancho e de todas as despesas que ele fizera para auxiliá-la. Sabia que o médico mantinha contato constante com
o capataz, e por isso deixaria a carta, o cheque e as chaves da casa e do carro com ele.
Quando finalmente passou pela porta ao lado de Ross, Kit levava consigo a certeza de não ter deixado uma única lembrança de sua passagem por aquela casa. Nem mesmo
o traje de cisne.
- Ei, Kit, há alguém na recepção procurando por você!
Kit estava concentrada num relatório importante e, sem desviar os olhos do computador, respondeu.
- Sinto muito, Arnie, mas não posso atender ninguém.
- Ela disse chamar-se Lucy Banning.
O choque de ouvir o nome de Lucy a fez pressionar a tecla errada, apagando todo o trabalho que vinha desenvolvendo nas últimas quatro horas.
- Arnie, procure Lori e peça a ela que recupere o que acabei de perder - ela disse enquanto dirigia-se à porta da sala. - Jeremy quer esse relatório logo depois
do almoço.
- Acho que ela e Bill saíram para almoçar.
- Encontre-a no inferno, se for necessário. Ajude-me com isso, e prometo terminar aquelas estatísticas para você.
- Combinado!
Nervosa, Kit atravessou os corredores da empresa rumo à recepção. Usando suéter e calça jeans, seu traje preferido para os dias de trabalho, sentiu-se intimidada
ao deparar-se com Lucy, que ostentava um lindo bronzeado californiano e desfilava uma elegância discreta em seu conjunto de saia e jaqueta de seda cor de creme.
Lucy já não parecia mais a criatura devastada que deixara Heber com os filhos dois meses atrás.
Qualquer mulher com sorte suficiente para ser amada por Jarod tinha mesmo de sofrer esse tipo de transformação. Por outro lado, precisara de três semanas para recompor-se
depois de voltar para casa, e mal conseguira retomar o ritmo de trabalho depois de toda a descarga emocional vivida ao lado da irmã.
Durante todo esse tempo, Jarod não mandara uma única notícia. Sabia que o capataz entregara sua carta, o que significava que ele aceitara os fatos, dera as dívidas
por pagas e encerrara a história.
- Olá, Kit - Lucy adiantou-se. - Desculpe ter vindo sem avisar, mas achei que não me atenderia, se ligasse.
- É claro que atenderia - Kit mentiu. - Como vão as crianças?
- Muito bem, obrigada. Infelizmente, não posso dizer o mesmo de Jarod.
- O que houve com Jarod?
- Provavelmente o mesmo que aconteceu com você.
- Não sei o que está dizendo - Kit respondeu confusa.
- Meu cunhado está completamente apaixonado por você, Kit.
- O quê...?
- Se eu não houvesse me deixado devastar tão completamente pela morte de Grayson, à essa altura você já seria a sra. Jarod Banning.
- Mas...
- Não precisa mais fingir. Sei como é apaixonar-se por um Banning, e você está mostrando todos os sinais. Mas agora conheci alguém na Califórnia que me devolveu
a vontade de viver e me fez ver que Jarod e Grayson são pessoas diferentes, apesar das semelhanças. Bem, o que estou tentando dizer é que vim me desculpar pela maneira
como a tratei. Se vamos ser cunhadas, é melhor tratarmos de ser amigas, não?
Kit respirou fundo e decidiu ser honesta.
- Gostaria muito de ser sua cunhada, Lucy, mas está enganada a respeito dos sentimentos de Jarod por mim. Sabe que ele não me procurou desde que saí do rancho?
- Pelo que entendi, você não facilitou as coisas para ele. Ontem à noite vi Jarod vagando pelo escritório, resmungando alguma coisa sobre seu pai e sobre não querer
nada com ele. Infelizmente ele estava embriagado, e por isso achei melhor não fazer perguntas. Tem alguma idéia do que ele quis dizer com isso?
- Sim! - Kit gritou em agonia. - Mas é loucura. Amo Jarod, mas...
- Nesse caso, acho melhor ir procurá-lo e abrir seu coração. E é bom que vá preparada, Kit Mitchell. Os médicos são péssimos pacientes, e nunca conseguem diagnosticar
os próprios problemas. Jarod já sofreu duas grandes perdas, a da esposa e a do irmão, e tenho a sensação de que uma terceira perda pode ser fatal.
O relógio do táxi marcava dez e quarenta e cinco da noite. Kit fechou os olhos e suspirou, fingindo sentir dor. Havia dito ao motorista que sofrerá um acidente durante
uma apresentação da companhia de bale, e por isso precisava ser atendida por um médico.
Uma única luz acesa no interior da clínica aumentou a chama da esperança em seu coração. Jarod estava em casa!
- Tem certeza de que isso é um consultório médico?
- Sim, já estive aqui antes - ela disse ao motorista. - Sei que o doutor Banning atende à qualquer hora e cobra pouco. Se puder me ajudar a subir a escada...
- Sim, é claro.
Kit apoiou-se no ombro do motorista e, depois de pagar pela corrida, começou a subir os degraus um a um. A porta se abriu segundos depois do toque do interfone,
e ela não perdeu tempo.
- Oh, doutor! - exclamou, atirando-se nos braços do médico. - Estou sentindo dores terríveis. Por favor, precisa me ajudar!
- Ei, doutor, essa moça parece mesmo mal. Precisa de mim, ou posso ir embora? - o motorista quis saber.
- Pode ir, obrigada - Kit adiantou-se.
O som da trava eletrônica da porta anunciou a privacidade com que tanto sonhava e, sorrindo, ela livrou-se da capa de cetim que a cobria da cabeça aos pés.
- Kit! - Jarod exclamou incrédulo, os olhos deslizando pelo traje de cisne. - Meu Deus, é você! Devo estar sonhando...
- Por que não me belisca para ter certeza de que está acordado? Oh, não! Tenho uma idéia melhor - e beijou-o apaixonadamente, pegando-o de surpresa. - E então? Ainda
acha que está sonhando?
- Agora mais que nunca - ele sorriu. - Não sabe quantas vezes sonhei com esse beijo, meu amor!
- Também sonhei muito com seus braços em torno de meu corpo, Jarod. Amo você, como nunca amei ninguém.
- Também amo você. Oh, Kit, por que perdemos tanto tempo?
- Pensei que você e Lucy se amassem, mas ela mi procurou no escritório e esclareceu vários mal entendidos.
- Lucy a procurou?
- Sim, para desculpar-se e revelar o que pensava sobre seus sentimentos por mim. Por isso criei coragem para procurá-lo. Quanto a Lucy, ela também parece estar feliz
com um certo californiano...
- Sim, eu sei, e fico feliz por ela. Nunca amei minha cunhada, Kit. Na verdade, cheguei a odiá-la quando ela colocou-se entre nós.
- Acabou, Jarod. Não pense mais nisso. Agora estamos juntos, e é só isso que importa.
- Case-se comigo, Kit.
- O mais depressa possível.
- Amanhã?
- Não quero esperar um segundo além do necessário.
Feliz, Jarod tomou-a nos braços e beijou-a, selando o amor que os uniria para sempre. Para Kit, o sabor da felicidade era doce depois do gosto amargo do desespero
e da dor. Ao lado de Jarod, sabia que poderia perpetuar esse momento para sempre, e isso era tudo que desejava.
RECEITAS COUNTRY
Prato Principal
1. CROQUETES DE FRANGO E MANDIOCA
1 frango de 2 quilos aproximadamente
2 quilos de mandioca Pimenta-de-cheiro, salsinha e cebola Ovo e farinha de mandioca
Tempere muito bem o frango e cozinhe-o. Ao mesmo tempo, em panela separada, cozinhe a mandioca. Depois que o frango estiver cozido e desfiado, passe-o numa máquina
de moer, juntamente com a mandioca. Tempere esta mistura com a pimenta-de-cheiro (de preferência), salsinha e cebola. Amasse tudo muito bem. Faça os croquetes, passando-os
em ovo batido e na farinha de mandioca. Frite em bastante gordura quente.
2. ARROZ DELÍCIA
2 xícaras de arroz
3 xícaras de água 1/2 xícara de queijo
1/2 xícara de manteiga derretida 1 colher (sopa) de massa de tomate 1 colher (de café) de pimenta-do-reino
1 colher (de café) de sal
2 ovos batidos em neve
Misture todos os ingredientes numa panela e leve ao fogo por alguns minutos. Depois de cozido, passe para uma forma e ponha um pouco no forno.
3. CASADINHOS
Refogue arroz cru com sal, cebola, alho e pimenta-do-reino. Coloque feijão pagão (ou seja, feijão cozido sem tempero) com bastante caldo na mesma panela. Não é necessário
acrescentar água, porque o arroz vai cozinhar no caldo do feijão.
4. FEIJÃO FRITO
Refogue cebolinha verde, pimenta-do-reino e sal socado com alho. Junte feijão pagão (ou seja, feijão cozido sem tempero). Refogue bem e mexa com farinha de mandioca,
na hora de servir.
5. FEIJÃO TROPEIRO
Refogue cebolinha verde, pimenta-do-reino e sal socado com alho. Junte feijão pagão (ou seja, feijão cozido sem tempero) e refogue bem. Depois, cebola cortada em
rodelas, torresmos frescos e couve rasgada. Mexa com farinha de mandioca e sirva.
6. BIFES DE CARNE MOÍDA
1/2 quilo de carne moída Farinha de mandioca Cebola, sal, alho, vinagre, pimenta-do-reino e pimenta-de-cheiro
Tempere a carne com a cebola e o alho (muito bem picados, de preferência moídos), o vinagre, sal e as duas pimentas. Umedeça umas duas colheres (de sopa) de farinha
de mandioca com água e junte à carne já temperada. Amasse tudo muito bem até conseguir uma massa uniforme. Faça bifes pequenos e chatinhos e frite-os, como se fossem
bifes comuns, em gordura bem quente.
7. MOLHO DE MAMÃO VERDE
Pique um mamão verde, como se fosse chuchu. Lave bem os pedaços, para tirar o leite que vai escorrer deles. Em seguida, fervente para tirar o amargo. Refogue em
gordura bem quente, com temperos: sal, pimenta-do-reino, alho e cebola. Junte água e deixe cozinhar. Sirva este prato com arroz e feijão.
8. ESCALDADO
Faça um refogado com gordura, alho, cebola e água, pimentinha ardida e pimenta-do-reino. Quando estiver fervendo, quebre um ovo e deixe cozinhar a gosto (mole ou
duro), retire o ovo com a escumadeira e deixe à parte. Faça, um a um, quantos ovos quiser. Em seguida, retire a panela do fogo e coloque farinha de mandioca, aos
poucos, mexendo sempre até engrossar. Volte com a panela ao fogo, deixe ferver novamente e sirva bem quente acompanhando os ovos
Sobremesa
1 BEIJOS DE LARANJA E COCO
2 xícaras de açúcar 1 xícara de leite
1 colher (de sopa) de manteiga
2 xícaras de coco ralado fresco
1 colher (de sopa) casca de laranja ralada
3 a 4 colheres (de sopa) de suco de laranja
2 gemas
Água de flor de laranjeira
Modo de fazer:
Aqueça o açúcar, o leite e a colher dè manteiga até que chegue ao ponto de fio (isso leva 25 minutos aproximadamente). Junte o coco ralado fresco, a casca e o suco
da laranja. Cozinhe, mexendo sem parar até que a mistura se desprenda dos lados da panela. Retire do fogo, junte as gemas e misture bem, deixando esfriar. A seguir,
acrescente a água de flor de laranjeira (que pode ser obtida em farmácias). Deixe descansar algumas horas para secar. Então, faça pequenas bolas, passe em coco ralado
e coloque em forminhas de papel.
2. MANJAR DE GOIÁS
1 xícara de fubá de arroz
2 xícaras de leite
Um galhinho de laranjeira Água de flor de laranjeira Açúcar e sal.
Modo de fazer:
Misture o fubá de arroz com o leite.. Adoce a gosto. Junte uma pitada de sal, o galhinho de laranjeira e a água de laranjeira (que se compra nas farmácias). Leve
tudo isso ao fogo e, quando a superfície estiver bem brilhante é que o arroz já está cozido. Deixe em fogo bem lento e vá retirando com uma colher bem seca. Arrume
numa forma refratária. Deixe assando até que comece escurecer.
3. SEQUILHOS
2 pires de polvilho doce
1 pires de farinha de trigo
1 pires de açúcar
Sal e erva-doce.
Misture o polvilho, a farinha e o açúcar. Acrescente uma pitadinha de sal e erva-doce a gosto. Escalde essa mistura com gordura quente até que fique bem umedecida.
Amasse muito bem e faça pequenos biscoitos redondos. Marque com um garfo e asse-os no forno em temperatura de regular para quente.
ABACATE
1. Quando você cortar o abacate e usar apenas uma de suas partes, coloque um pouco de farinha de rosca na superfície da outra parte para ela não escurecer
2. Para o abacate cortado não escurecer, passe uma camada fina de manteiga na superfície cortada.
3. O creme de abacate não escurece se você colocar dentro da vasilha o próprio caroço do abacate, ou uma colher de aço inoxidável.
AÇÚCAR
1. Coloque uma ameixa ou algumas bolachas salgadas, ou ainda frutas secas, dentro do recipiente em que você guarda' o açúcar, assim ele não empedra.
2. Como o açúcar mascavo é granulado, tome cuidado na hora de medir: comprima o açúcar dentro da medida que você estiver usando.
ALFACE
1. Para conservar a alface sempre fresquinha, lave bem as folhas e enxugue. Depois, coloque em uma vasilha hermeticamente fechada e guarde na geladeira.
2. Para enxugar a alface com facilidade, coloque as folhas lavadas em um pano poroso (como fralda de bebê), junte as pontas, fazendo uma trouxinha, depois sacuda
até sair toda a água.
3. Você pode aproveitar as folhas de alface que não estão com boa aparência para fazer sopas ou recheios, misturando com outras verduras.
4. As folhas de alface quando cortadas com faca perdem muito seu valor nutritivo. Deixe sempre as folhas inteiras ou rasgue-as com as mãos.
5. Procure colocar o sal na alface minutos antes da refeição, pois o sal faz com que as folhas murchem rapidamente.
6. As folhas de alface são ótimas para retirar o excesso de gordura dos alimentos.
REBECCA WINTERS nos diz: "Adoro os garotos desde uma idade bem tenra, e sempre acreditei que eram mais divertidos que as meninas. Meu primeiro encontro oficial com
um menino foi na escola elementar. O nome dele era Dix. Nós dois tínhamos dez anos. A mãe dele foi me apanhar em seu Chrysler e nos levou para assistir a um filme
de Esther Williams chamado A Filha de Netuno. Ela sentou-se quatro fileiras atrás de nós no cinema. Eu senti-me no céu. Quando penso nessa experiência, dou risada.
Entretanto, por mais interessante que possa parecer, a passagem dos anos só aumentou meu amor pelo gênero masculino. Em algum momento por volta dos catorze ou quinze
anos eu li o livro Katherine, de Anya Seton, e apaixonei-me loucamente por John de Gaunt, o encantador, fascinante e famoso Duque de Lancaster. Ele tornou-se meu
herói, e tenho procurado por ele desde então.
Quando concluí meu livro percebi que depois de todos esses anos buscando um herói, finalmente o encontrara sob a pele de um Jarod Banning. Jarod é um herói que Kit
considera tão fascinante, encantador, excitante, apaixonante e, sim, perfeito, quanto o duque medieval que se apoderou do meu coração de adolescente."
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Rebecca Winters - Um Amor de Cowboy
(Julia Country 02)
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