terça-feira, 13 de abril de 2010

Erico Verissimo O Tempo e o Vento 5


#ERICO VERISSIMO
O TEMPO E O VENTO
O ARQUIPÉLAGO I
18" Edição
D
E/~DITO~R/~A
~iVYV
Copyright ® 1987 by Herdeiros de Erico Veríssimo

Ilustração de capa: Glauco Rodrigues, Libertas quae seres tatuem (detalhe)
Direitos mundiais de edição cedidos a

EDITORA GLOBO S.A.

Rua Domingos Sérgio dos Anjos, 277

CEP O5136-17O - Fax: (O11) 836-7O98, São Paulo, SP.

Brasil

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Impressão e acabamento:

RR Donnelley & Sons Company - EUA
CIP-BraaiL Catalogrç3o-na-fonte - Cilmsra Brasildra do Livro, SP
87-1136
Veríssimo, Erico, 19O5-1975
O tempo e o vento - O arquipélago I / Erico Veríssimo. - 18. ed. - São Paulo : Globo, 1995.

Tomo 1 : 18. ed. ; t. 2 :16. ed. ; t. 3 :17. ed. ISBN 85-25O-O27O-4 (obra completa) ISBN 85-25O-O275-5 (t. 1) ISBN 85-25O-O276-3 (t. 2) ISBN 85-25O-O277-1 (t. 3)

1. Romance brasileiro L Utulo. II. Série.
CM-869.935
Iadices para catálogo sistemSNcor.

1. Romances : Século 2O : Iteraram brasileira 896.935

2. Século 2O: Ronnnces : Literatura brasileira 869.935
#25 de novembro de 1945
... onde estou? ... alcova-túmulo escuro sem ar ... o sapo-boi latejando entre as pernas... fole viscoso esguichando um líquido negro... pregado à cama mortuária...
o sangue se esvaindo pelos poros do animal... incha e desincha... incha e desincha... a coisa lhe sobe sufocante no peito... a menininha saiote de bailarina flor
vermelha no sexo manipula o brinquedo de mola. .. ele quer gritar que não!.. , mas a voz não sai... o sapo-fole atravessado na garganta... a menininha acaricia o
monstro... não sabe que ele esguicha veneno ... minha filha vá buscar socorro ... que venham acalmar o animal.. mas cuidado não me machuquem o peito.. a menininha
não sabe... aperta com os dedos o brinquedo proibido ... não vê que assim vai matar o Sumo Pontífice? ... o remédio é cuspir fora o sapo... tossir fora o bicho-fole-músculo
... tossir fora ...
/loucos minutos depois das duas da madrugada, Rodrigo Cam

bará desperta de repente, soergue-se na cama, arquejante, e

através da névoa e do confuso horror do pesadelo, sente na pe

numbra do quarto uma presença inimiga... Quem é? - exclama

mentalmente, pensando em pegar o revólver, que está na gaveta

da mesinha-de-cabeceira. Quem é? Silêncio e sombra. Uma cócega

aflitiva na garganta provoca-lhe um acesso de tosse curta e espas

módica ... E ele toma então consciência do peso no peito, da

falta de ar... Ergue a mão para desabotoar o casaco do pijama

e leva alguns segundos para perceber que está de torso nu. Um

suor viscoso e frio umedece-lhe a pele. Vem-lhe de súbito o pavor

de um novo ataque... Espalma ambas as mãos sobre o peito e,

agora sentado na cama, meio encurvado, fica imóvel esperando a

dor da angina. Santo Deus! Decerto é o fim... Em cima da

mesinha, a ampola de nitrito... Na gaveta, o revólver... Que

brar a ampola e levá-la às narinas ... Encostar o cano da arma
#z O ARQUIPÉLAGO

ao ouvido, puxar o gatilho, estourar os miolos, terminar a agonia... Talvez uma morte rápida seja preferível à dor brutal que mais de uma vez lhe lancetou o peito...
Mas ele quer viver... Viver! Se ao menos pudesse cessar de tossir, ficar imóvel como uma estátua ... Sente o surdo pulsar do coração, a respiração estertorosa...
Mas a dor lancinante não vem, louvado seja Deus! Só continua a opressão no peito, esta dificuldade no respirar.. .
Com o espírito ainda embaciado pelo sono, pensa: "Estou me afogando." E num relâmpago lhe passa pela mente uma cena da infância: perdeu o pé no poço da cascata,
afundou, a água entrou-lhe pela boca e pelas ventas, sufocando-o ... Agora compreende: Está morrendo afogado! Toríbio! - quer gritar. Mas em vez do nome do irmão
morto, o que lhe sai da boca é um líquido... baba? espuma." sangue?
A sensação de asfixia é agora tão intensa, que ele se ergue da cama, caminha estonteado até a janela, numa busca de ar, de alívio. Apóia as mãos no peitoril e ali
fica a ofegar, de boca aberta, olhando, embora sem ver, a praça deserta e a noite, mas consciente duma fria sensação de abandono e solidão. Por que não me socorrem?
Onde está a gente da casa? O enfermeiro? Vão me deixar morrer sozinho? Faz meia-volta e, sempre tossindo e expectorando, dá alguns passos cegos, derruba a cadeira
que lhe barra o caminho, busca a porta, em pânico. .. "Dinda!" - consegue gritar. A porta se abre, enquadrando um vulto: Maria Valéria com uma vela acesa na mão.
Rodrigo aproxima-se da velha, segura-lhe ambos os braços, mas recua soltando um aí, pois a chama da vela lhe chamusca os cabelos do peito.
- Estou morrendo, Dinda! Chamem o Dance!
A velha, os olhos velados pela catarata, sai pelo corredor
como um sino de alarma a despertar a gente do Sobrado - Flo
riano ! - o castiçal treme-lhe na mão - Sílvia! - as pupilas
esbranquiçadas continuam imóveis, fitas em parte nenhuma -
Eduardo ! - e sua voz seca e áspera raspa o silêncio do casarão.
Floriano precipita-se escada abaixo, na direção da porta da rua. Felizmente - pensa - o Dance Camerino mora do outro lado da praça, que ele atravessa a correr. O
médico não tarda em atender às suas batidas frenéticas na porta. E quando ele assoma à janela, Floriano grita
- Depressa! O Velho teve outro ataque.
Um minuto depois ambos se encaminham para o Sobrado em
marcha acelerada. O Dr. Cameríno vestiu um roupão de banho
por cima do pijama, e leva na mão uma maleta de emergência. Um cachorro uiva em uma rua distante. Vaga-lumes pingam
a noite com sua luz verde.
REUNIAO DE FAMILIA - I 3

- Aos quarenta e cinco anos a gente fica meio pesadote - diz o médico, já ofegante. - Tu enfim és um jogador de tênis ...
- Era.
- Seja como for, tens onze anos menos que eu ...
Noite morna de ar parado. O galo do cata-vento, no alto da torre da Matriz, de tão negro e nítido parece desenhado no céu, a nanquim.
Floriano finalmente faz a pergunta que vem reprimindo desde que viu o amigo:
- Será um novo infarto?
- Pode ser ...
Da Padaria Estrela-d"Alva vem um cheiro de pão recém-saído do forno. A figueira grande da praça parece um paquiderme adormecido.
- Que providência tomou o enfermeiro?
Que enfermeiro? O Velho despediu-o ontem ao anoitecer.
- Esse teu pai é um homem impossível !
- Ontem à noite fez uma das suas. Saiu as oito com o Neco Rosa e só voltou lá pelas onze ...
- Madona! Sabes aonde ele foi ?
- Desconfio ...
- Desconfias coisa nenhuma! Está claro como água. Foi dormir com a amante.
Toda Santa Fé sabe que Sônia Fraga, a -amiguinha" de Rodrigo Cambará, chegou há dois dias do Rio e está hospedada no Hotel da Serra.
Muitas das janelas do Sobrado estão agora iluminadas. Dance Camerino segura com força o braço de Floriano.
- O Dr. Rodrigo merecia ser capado, .. - diz, com a voz entrecortada pelo cansaço. E, numa irritação mesclada de ternura, acrescenta : - E capado de volta !
Entram ambos no casarão. Camerino sobe imediatamente ao quarto do doente. Floriano, . entretanto, permanece no vestíbulo, hesitante. Sempre detestou as situações
dramáticas e mórbidas da vida real, embora sinta por elas um estranho fascínio, quando projetadas no plano da arte. Sabe que seu dever é subir para ajudar o médico
a socorrer o Velho, mas o corpo inteiro lhe grita que fique, que fuja... Uma leve sensação de náusea começa a esfriar-lhe o estômago.
A mulata Laurínda assoma a uma das portas de vestíbulo, e, em seus olhos gelatinosos de peixe Floríano lê uma interrogação assustada.
Não é nada - diz ele. - Vá aquentar a água para um cafezinho.
#4 O ARQUIPÉLAGO

A velha faz meia-volta e afasta-se rumo da cozinha, com seus passos arrastados de reumática.
Floriano está já com o pé no primeiro degrau quando lhe chega às narinas um aroma inconfundível. Bond Street. Volta a cabeça e vê o "marido" de Bibi. Marcos Sandoval
está metido no seu robe de chambre de seda cor de vinho, presente - assim ele não perde ocasião de proclamar - de seu amigo, o Príncipe Dom João de Orléans e Bragança.
- Posso ajudar em alguma coisa, meu velho? - pergunta ele com sua voz bem modulada e cheia dum envolvente encanto ao qual Floriano procura sempre opor suas resistências
de Terra, pois seu lado Cambará tende a simpatizar com o patife.
Sente gana de gritar-lhe: "Volte para o quarto! Não se meta onde não é chamado. Não compreende que isto é um assunto de família?"
Mas domina-se e, sem olhar para o outro, murmura apenas: "Não. Obrigado."
Bibi aparece no alto da escada. Floriano ergue a cabeça. A perna da mulher de Sandoval, com um palmo de coxa nua, escapa-se pela abertura do quimano vermelho. Mau
grado seu. Floriano identifica a irmã com a amante do pai, e isto o deixa de tal modo constrangido, que ele não tem coragem de encara-la, como se a rapariga tivesse
realmente acabado de cometer um incesto.
Bibi desce apressada e, ao passar entre o irmão e o marido, murmura: "Vou buscar um prato fundo para a sangria."
A palavra sangria golpeia Floriano em pleno peito. Mas ele sobe a escada às pressas, fugindo paradoxalmente na direção da coisa que o atemoriza.
Lá em cima no corredor sombrio encontra Sílvia. Por alguns segundos ficam parados um a frente do outro, em silêncio. Floriano sente- se tornado de um trêmulo, terno
desejo de estreitar a cunhada contra o peito, beijar-lhe as faces, os olhos, os cabelos, e sussurrar-lhe ao ouvido palavras de amor. Estonteia-o a confusa impressão
de que não só o Velho, mas ele também, está em perigo de vida, e talvez esta seja a última oportunidade para a grande e temida confissão ... Mas censura-se e despreza-se
por causa destes sentimentos. Sílvia é a mulher legítima de seu irmão... E a poucos passos dali seu pai talvez esteja em agonia...
Sem dizer palavra, precipita-se para o quarto do doente.
Rodrigo está sentado na cama, a face de uma lividez cianótica, o peito arfante, a boca semi-aberta numa ansiada busca de ar - o rosto, os braços, o torso reluzentes
de suor... Pelas comissuras dos lábios arroxeados escorre-lhe uma secreção rosada. Inclinada sobre o marido, Flora de quando em quando limpa-lhe a boca e o queixo
com um lenço.
REUNIAO DE FAMILIA - I 5

Bibi - que o irmão percebe obliquamente apenas como uma mancha vermelha - entra agora, trazendo um prato fundo, que depõe em cima da mesinha-de-cabeceira.
Floriano aproxima-se do leito. Rodrigo fita. nele o ólhar amortecido e dirige-lhe um pálido sorriso, como o de um menino que procura provar que não está amedrontado.
Floriano passa timidamente a mão pelos cabelos do pai, numa carícia desajeitada, e nesse momento seu eu se divide em dois: o que faz a carícia e o Outro, que o observa
de longe, com olho crítico, achando o gesto feminino, além de melodramático. Ele odeia então o seu Doppelgünger, e esse ódio acaba caindo inteiro sobre si mesmo.
Inibido, interrompe a carícia, deixa o braço tombar ao longo do corpo.
O silêncio do quarto é arranhado apenas pelo som estertoroso da respiração de Rodrigo. Floriano contempla o tosto do pai e se vê nele como num espelho. A parecença
física entre ambos, segundo a opinião geral e a sua própria, é extraordinária., Por um instante, sua identificação com o enfêrmo é tão aguda, que Floriano chega
a sentir também uma angústia de afogado, e olha automaticamente para as janelas, numa esperança de mais ar...
Postada aos pés da cama, ereta. Maria Valéria conserva ainda na mão a vela acesa: seus olhos vazios parecem focados no crucifixo negro que pende da parede fronteira.
Com o estetoscópio ajustado aos ouvidos, o Dr. Camerino por alguns segundos detém-se a auscultar o coração e os pulmões do paciente. Trabalha num silêncio concentrado,
o cenho franzido, evitando o olhar das pessoas que o cercam, como se temesse qualquer interpelação. Terminada a auscultação, volta as costas ao doente e por espaço
de um minuto fica a preparar a seringa que esteve a ferver no estojo. sobre a chama de álcool. Depois torna a acercar-se de Rodrigo, dizendo: "Vou lhe dar uma morfina.
Tenha paciência, o alívio não tarda."
Floriano desvia o olhar do braço do pai que o médico vai picar. Um cheiro ativo de éter espalha-se no ar, misturando-se com a desmaiada fragrância das madressilvas,
que entra no quarto com o hálito morno da noite.
Bibi aproxima-se de Maria Valéria e, inclinando-se sobre o castiçal, apaga a vela com um sopro.
Desde que entrou, Floriano tem evitado encarar Flora, mas há um momento em que os olhos de ambos se encontram por um rápido instante. "Ela sabe de tudo" conclui
ele.
Rodrigo ergue o braço, sua mão procura a da esposa. Floriano teme que a mãe não queira compreender o gesto. Flora, porém, segura a mão do marido, que volta para
ela um olhar no qual o filho julga ver um mudo, patético pedido de perdão. A cena deixa-o tão embaraçado, que ele volta a cabeça e só então dá pela
6 O ARQUIPÉLAGO

presença de Sílvia, a um canto do quarto, as mãos espalmadas sobre o rosto, os ombros sacudidos por soluços mal contidos. -
No momento em que o Dr. Camerino mede a pressão arterial do doente, Floriano olha para o manômetro e, alarmado, vê o ponteiro oscilar sobre o número 24O.
-- Quanto? - balbucia Rodrigo.
O médico não responde. Agora seus movimentos se fazem mais rápidos e decididos.
- Vou lhe fazer uma sangria. Isso lhe dará um alívio completo.
Ao ouvirem a palavra sangria, Flora, Bibi e Sílvia, uma após outra, retiram-se do quarto nas pontas dos pés. Maria Valéria, porém, continua imóvel.
O Dr. Camerino garroteia o braço de Rodrigo, coloca o prato
na posição conveniente, tira da maleta um bisturi e flamba-o.
__ Segura o braço do teu paia
Floriano obedece. O médico passa um chumaço de algodão
embebido em éter sobre a prega do cotovelo do paciente. - Agora fique quieto...
Rodrigo cerra os olhos. O Dr. Camerino faz uma incisão ria veia mais saliente. Um sangue escuro começa a manar do talho, escorrendo para dentro do prato.
Floriano tem consciência duma perturbadora mescla de cheiros - o suor do pai, Tabac Blond, éter e sangue. A imagem de seu tio Toríbio se lhe desenha na mente, de
mistura com a melodia obsessiva duma marcha de carnaval. Por um instante assombra-lhe a memória todo o confuso horror daquela remota e trágica noite de Ano Bom ...
Um suor álgido começa a umedecer-lhe o raro e os membros. ao mesmo tempo que uma sensação de enfraquecimento lhe quebranta o corpo, como se ele também estivesse
sendo sangrado.
Seu olhar segue agora, vago, o vôo dum vaga-lume que entra lucilando no quarto, pousa por uma fração de segundo no espelho do guarda-roupa e depois se escapa por
uma das janelas.
- Então. como se sente? - pergunta Camerino. - Diminuiu a dispnéia?
Rodrigo abre os olhos e sorri. Sua respiração agora está mais lenta e regular. A transpiração diminui. A cor natural começa a voltar-lhe ao rosto.
O médico trata de verificar-lhe o pulso, ao mesmo tempo que lhe conta os movimentos respiratórios.
- Pronto! - exclama, ao cabo de algum tempo. com um sorriso um pouco forçado. - D. Maria Valéria, o nosso homem está novo !
Tampona com um chumaço de gaze a veia aberta e pouco depo fecha-a com um agrafo.
REUNIAO DE FAMILIA - I 7

Floriano apanha o prato cheio de sangue e no momento em que o coloca em cima da mesinha-de-cabeceira, sente uma súbita ânsia de vômito. Precipita-se para o quarto
de banho, inclina-se sobre o vaso sanitário e ali despeja espasmodicamente a sua angús-, tia. Aliviado, mas ainda amolentado e trêmulo, mira-se no espelho e fica
meio alarmado ante a própria lividez. Abre a torneira, junta água no côncavo da mão, sorve-a, enxágua a boca, gargareja - repete a operação muitas vezes, até fazer
desaparecer o amargor da bílis. Depois lava o rosto e as mãos com sabonete, enxuga-se lento, sem a menor pressa de tornar ao quarto, vagamente envergonhado de sua
fraqueza. Quando volta, minutos depois, encontra o pai semideitado na cama, apoiado em travesseiros altos. O Dr. Camerino acabou de injetar-lhe um cardiotônico -na
veia e agora está de novo a auscultá-lo.
Sentindo a presença de Floriano a seu lado, Maria Valéria lhe diz:
- Vá tomar um chá de erva-doce, menino. L bom para o estômago.
Rodrigo esforça-se ainda por manter os olhos abertos.
- Não lute mais - murmura o médico. - A morfina é mais forte que o senhor. Entregue-se. Está tudo bem.
Sua grande mão cabeluda toca o ombro do paciente, que diz qualquer coisa em voz tão baixa, que nenhum dos outros dois homens consegue entender. O Dr. Camerino inclina-se
sobre a cama e pergunta:
- Que foi?
Rodrigo balbucia:
Que merda !
E cai no sono. Maria Valéria sorri. Floriano enlaça-lhe a cintura:
- Vamos, Dinda, o seu mimoso está dormindo.
- Quem é que vai passar o resto da noite com ele? - pergunta a velha.
- Decidiremos isso lá embaixo - responde o médico.
Apaga a luz do lustre, deixando acesa apenas a lâmpada de abajur verde, ao pé da cama.


Fora do quarto, no corredor, Maria Valéria pára e fica um instante a escutar, como para se certificar de que ninguém mais a pode ouvir, além dos dois homens que
a acompanham. Depois, em voz baixa, diz:
- Vacês pensam que não sei de tudo?
Camerino acende um cigarro, solta uma baforada de fumaça e sorri:
- Que é que a senhora sabe?
8 O ARQUIPÉLAGO

- O que vacê também sabe.
- E que é que eu sei?
- Ora não se faça de tolo !
O médico pisca um olho para Floriano:
- Sua tia está atirando verdes para colher maduros...
A velha põe-se a quebrar com a unha a cera que incrusta
base do castiçal. Após uma breve pausa, cicia
- A amásia do Rodrigo está na terra. Esta noite, lá pel
oito, ele saiu com aquele alcagüete sem-vergonha do Neco, e s
voltaram depois dumas três horas. Não é preciso ser muito ladin
para adivinhar aonde foram ...
Floriano e Camerino entreolham-se.
- D. Flora sabe? - pergunta o médico.
- Se sabe - responde a velha - não fui eu quem contou Floriano toma-lhe o braço:
- Agora a senhora vá direitinho para a cama. - Não estou com sono.
- Mas vá assim mesmo.
- Não me amole, menino!
Floriano conduz a velha até a porta do quarto dela.
- Vamos, Dinda, entre. Se houver alguma novidade nós 1
avisaremos ...
Os dois amigos descem para o andar inferior e encontram outras pessoas da casa reunidas na sala de visitas. "Cena fina do segundo ato duma comédia dramática" - pensa
Floriano, cen surando-se a si mesmo por não ter podido (ou querido?) evita a comparação. O pano de boca acaba de erguer-se - continua refletir, desgostoso consigo
mesmo ... ou com os outros? ... o com os acontecimentos? As personagens encontram-se nos seus de vidos lugares, O cenário está de acordo com as determinações d autor.
Sala de visitas no velho sobrado duma família abastad numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Móveis antigos, escuros e pesados. Um tapete persa em tons avermelhados
(imt ração, industria paulista) cobre parte do soalho. Um pompos lustro de vidrilhos, de lâmpadas acesas, pende do teto, refletiu do-se festivamente no grande espelho
avoengo de moldura dou rada que adorna uma das paredes, pouco acima dum consolo sobro
qual repousa um vaso azul com algumas rosas amarelas mei murchas. A um dos cantos da sala, num cavalete, vê-se uma grande tela: o retrato a óleo, de corpo inteiro,
dum homem de seu vinte e cinco anos, vestido de acordo com a moda do princípi do século.
Flora está sentada numa cadeira de jacarandá lavrado, de res paldo alto. Tem as mãos pousadas no regaço, e em seus olhos tres,
REUNIAO DE FAMILIA - I 9
noitados Floriano julga ler uma expressão de ânsia mesclada de constrangimento. De pé ao lado da cadeira, Sílvia fita nos recémchegados um olhar tímido e assustado
que parece gritar: "Por amor de Deus, não me digam que ele está desenganado l" Junto a uma das janelas que se abrem para a praça, Bibi, os olhos meio exorbitados,
fuma nervosamente, agitando os braços em movimentos bruscos (Bette Davis interpretando o papel de uma jovem neurótica). De costas para o espelho, perfilado e correto,
colorido como um modelo de moda masculina do Esquive - revista que ele assina só para ver as figuras, pois não sabe inglês - Marcos Sandoval fuma placidamente, aromatizando
o ar com a fragrância de guaco da fumaça de seu cachimbo. Só lhe falta ter na mão um copo para ser a imitação perfeita do mau of distinction dos anúncios do uísque
Schenley.
Todas estas reflexões passam pelo espírito de Floriano nos curtos segundos de silêncio decorridos entre sua entrada na sala e o momento em que Flora, dirigindo-se
ao médico, pergunta:
- Como está ele?
Ocorre agora a Floriano que nestes últimos anos nunca ouviu a mãe pronunciar uma vez sequer o nome do marido. Quando fala com qualquer dos filhos, refere-se a ele
como "teu pai". Para os criados Rodrigo é sempre "o doutor".
- O acidente foi superado - responde Camerino. - Com a morfina, o nosso homem vai dormir toda a noite. Deixem que amanhã ele acorde espontaneamente. Ah ! É indispensável
que permaneça na cama, no mais absoluto repouso. E nada de visitas, por enquanto.
- E a alimentação? - indaga Sílvia.
- Se ao despertar ele tiver fome, dêem-lhe um chá com torradas e um copo de caldo de frutas. Durante as próximas quarenta e oito horas terá de fazer uma dieta rigorosa.
- Passa as mãos pelos cabelos revoltos, ao mesmo tempo que abafa um bocejo. Depois pergunta: - Quem é que vai passar a noite com ele?
- Eu - Sílvia apressa-se a dizer.
- Está bem. Se houver alguma novidade, mandem me chamar. Mas acho que não vai haver nenhuma. De qualquer modo, voltarei amanhã, lá pelas oito ...
- Foi um novo infarto, doutor? - pergunta Sandoval.
O marido de Bibi reflete Floriano - não tem nenhuma estima real pelo sogro... Consciente ou inconscientemente deve estar interessado numa solução rápida da crise.
Morto Rodrigo, faz-se o inventário e a partilha de seus bens: Bibi exigirá sua parte em dinheiro e ambos poderão voltar para o Rio, para o tipo de vida que tanto
amam... Mas ao pensar estas coisas Floriano sente, perturbado, que não está agredindo apenas a Sandoval, mas também a si mesmo.
#1O O ARQUIPÉLAGO

- Não - esclarece o médico - desta vez foi um edema agudo de pulmão...
E cala-se, sem coragem - imagina Floriano - para explicar a gravidade do acidente. Há então um silêncio embaraçoso de expectativa, e a pergunta que ninguém faz fica
pesando no ar. O Dr. Canerino depõe a maleta em cima de uma cadeira, apaga o cigarro contra o fundo de um cinzeiro, desata e torna a atar os cordões do roupão ao
redor da cintura, e a seguir olha para Floriano como a perguntar-lhe: "Devo falar franco? Valerá a pena alarmar esta gente?"
Laurinda alivia a tensão do ambiente ao entrar trazendo seis xícaras de café numa bandeja. Todos se servem, com a exceção de Flora e Sílvia. Camerino lança um olhar
afetuoso para o retrato de Rodrigo, pintado em 191O por Don José Garcia, um artista boêmio natural da Espanha.
- No tempo em que Don Pepe pintou esse quadro - diz o médico, dirigindo-se a Sandoval - eu devia ter uns dez anos. D. Flora decerto se lembra ... Meu pai era dono
da Funilaria Vesúvio. onde eu tinha a minha "banca de engraxate". O Dr. Rodrigo era um dos meus melhores fregueses. Sentava-se na cadeira e ia logo dizendo: "Dance,
quero que meus sapatos fiquem como espelhos."
Faz uma pausa para tomar um gole de café, e depois continua:
- Conversava muito comigo. "Que é que tu vais ser quando ficares grande?" Eu respondia, mais que depressa: "Doutor de curar gente." O Dr. Rodrigo soltava a sua bela
risada, passava a mão pela minha cabeça, e cantarolava: "Daiite Camerino, belfo bambino, bravo piccolino, futuro dottorino."
Todos agora miram o Retrato, menos Flora, que tem os olhos baixos, e Floriano. que observa as reações dos outros às palavras do médico. Julga perceber uma expressão
de ironia na face de Sandoval: uma impaciente indiferença na de Bíbi: um misto de simpatia e piedade na de Sílvia. Quanto à mãe, Floriano nota que ela mal consegue
disfarçar seu mal-estar.
O médico depõe sua xícara sobre o consolo e, pondo na voz uma doçura de cançoneta napolitana, prossegue:
11 - Pois agora aqui está o Dr. Camerino, trinta e cinco anos depois. - Segura o ventre com ambas as mãos e sorri tristemente para Sandoval. - Não mais bambino nem
piccolino, nem belfo nem bravo. E se consegui ficar dottorino foi graças ao Dr. Rodrigo, que custeou todo o meu curso, do ginásio à Faculdade de Medicina. - Solta
um suspiro, torna a olhar para o Retrato e conclui: - Por mais que eu faça por esse homem, jamais conseguirei pagar a minha dívida.
Faz-se um silêncio difícil. O canastrão terminou o seu monólogo. a sua pièce de résistance, mas ninguém o aplaudiu. Por
REUNIAO DE FAMILIA - I 11

que tudo isto continua a me parecer teatro?, - pensa Floriano, irritado consigo mesmo e ansioso por tirar Camerino da sala. antes que o sentimentalão desate o pranto.
Ali está ele com um surrado roupão de banho por cima do pijama zebrado, os pés nus metidos em chinelos. Com seus cabelos encaracolados, o rosto redondo, róseo e
fornido (sombreado agora pela barba de um dia) a boca pequena mas polpuda e vermelha, os olhos escuros e inocentes - o filho do funileiro calabrês mais que nunca
lembra a Floriano um querubim de Botticelli que tivesse crescido e atingido a meia-idade.
- Vamos, Dance - convida Floriano, puxando o outro pelo braço. - Eu te acompanho até tua casa. Estou sem sono.
Camerino apanha a maleta, despede-se e sai com o amigo.
Atravessam lentamente a rua. A boca ainda amarga, as mãos um pouco trêmulas, Floriano caminha com a sensação de que seu corpo flutua no ar, sem peso, como em certos
sonhos da infância.
Fazem uma pausa na calçada da praça. Dance aponta para uma casa acachapada fronteira ao Sobrado.. e em cuja fachada branca, pouco abaixo da .platibanda, se destacam
letras negras e graúdas, num arremedo de gótico: Armadora Pitombo. Pompas Fúnebres.
- Estás vendo? - observa Camerino. - Luz no quarto de Pitombo.
Floriano sorri:
- O nosso defunteiro nestas últimas semanas tem estado em "prontidão" rigorosa, esperando a qualquer momento a morte do Velho. Decerto viu as luzes acesas lá em
casa e ficou alerta ...
Camerino acende outro cigarro e, puxando o amigo pelo braço, diz-lhe
- Sabes o que se murmura na cidade? Que o Zé Pitombo tem já pronto um caixão finíssimo nas dimensões de teu pai. Cachorro i
Dão alguns passos em silêncio. Na praça deserta os vaga-lumes continuam o seu bailado.
- Dance - murmura Floriano - aqui para nós ... qual é mesmo a situação do Velho? Essa coisa que ele teve é muito séria, não?
Camerino passa a mão pelos cabelos. num gesto meio perdido.
- Um edema agudo de pulmão por si só é algo de gravíssimo. Quando sobrevém depois de três infartos, então o negócio fica ainda mais preto. B melhor vocês não alimentarem
nenhuma ilusão.
Floriano, que temia e de certo modo esperava estas palavras, sente agravar-se subitamente a sua sensação de fraqueza e o estranho frio que quase lhe anestesia os
membros, apesar da tepidez da noite. E vem-lhe agora a impressão de que nada lhe confortaria melhor o estômago vazio que comer um pão quente recém-saído do forno
da Estrela-d"Alva.
12 O ARQUIPÉLAGO

Passam em silêncio ao longo dum canteiro de relva, no centro do qual se empina um pequeno obelisco de granito rosado. Quando menino, Floriano costumava repetir de
cor e com orgulho os dizeres gravados na placa de bronze, na base do monumento:
Durante o terrível surto de influenza espanhola que em 1918 vitimou tantos santa-fezenses, um cidadão houve que, embora atacado do mal e ardendo em febre, manteve-se
de pé para cumprir sua missão de médico, atendendo a ricos e pobres com o mesmo carinho e dedicação: o Dr. Rodrigo Terra Cambará. Que o bronze diga aos pósteros
desse heróico e nobre feito.
Camerino pousa o braço sobre os ombros de Floriano e murmura
- Eu me sinto responsável pelo que aconteceu ao teu pai. - Ora... por quê?
- Ele estava tão bem, que lhe dei licença para sair da cama. . E ontem nem fui vê-lo. Se tivesse ido, talvez essa coisa toda. .
- Qual ! - interrompe-o Floriano. - Tu conheces bem o Velho. Quando ele desembesta não há ninguém que consiga agarrá-lo...
Camerino ergue a cabeça e por um instante fica a mirar as estrelas. Como passam agora debaixo dum combustor. Floriano vislumbra um brilho de lágrimas nos olhos do
amigo.
- E se a gente fosse sentar um pouco debaixo da figueira?
Camerino funga, passa nos olhos a manga do roupão e murmura
- Boa idéia.
Sentam-se à sombra da grande árvore. Camerino inclina o busto, apóia os cotovelos nos joelhos e fica a olhar fixamente para o chão.
- Como é essa mulher? - pergunta, depois dum silêncio.
= Uns vinte e três ou vinte e quatro anos, morena, bem-feita de corpo, bonita de cara. . .
- Que tipo de mentalidade?
- Não tenho a menor idéia.
O médico endireita o busto e volta-se para o amigo:
- A simples presença dessa menina na cidade é um perigo danado. Precisamos evitar que o Velho torne a encontrar-se com ela. A coisa é muito séria, Floriano. Perdoa
a franqueza, mas o Dr. Rodrigo pode morrer na cama com a rapariga ... e isso seria um horror. Pensa no escândalo, na tua mãe...
- Mas ele pode morrer em casa, na própria cama... e sozinho, não pode?
O médico sacode a cabeça numa lenta, relutante afirmativa.
REUNIAO DE FAMILIA - I 13

- A triste verdade - murmura - é que teu pai está condenado ... - Sua voz se quebra de repente, como que prestes a transformar-se num soluço. - O futuro do Velho
é sombrio, por melhor que seu estado de saúde possa parecer nos próximos dias oü semanas... Ele pode marchar para uma insuficiência cardíaca, de duração mais ou
menos longa ... tudo dependendo da maneira como seu organismo reagir à medicação... Sim, e também do seu comportamento como paciente...
- Paciente é uma palavra que jamais se poderá áplicar com propriedade a um homem como meu pai ...
- p o diabo - suspira Camerino. - Se ele não evitar emoções, se cometer mais alguma loucura, algum excesso, só poderá apressar o fim ...
Floriano não tem coragem de dar voz à pergunta que se lhe forma na mente. Mas o médico como que lhe adivinha o pensamento
- Há outra hipótese ... Ele pode morrer de repente.
Estas palavras produzem em Floriano uma instantânea sensação de medrosa, agourenta expectativa, uma espécie de mancha no peito semelhante à que ele costumava sentir
quando menino, na véspera e na hora dos exames escolares. Com os olhos enevoados fica a contemplar o Sobrado.
- Portanto - conclui o outro - vocês devem estar preparados ...
A triste e fria verdade - pensa Floriano - é que todos nós, em maior ou menor grau, estamos sempre preparados para aceitar a morte dos outros.
Camerino levanta-se e, num gesto frenético, desamarra e torna a amarrar os cordões do roupão.
- E havia de me acontecer essa! - exclama, sacudindo os braços. - O meu protetor, o meu segundo pai, o meu melhor amigo ... vir morrer nas minhas mãos!
Põe-se a andar dum lado para outro na frente de Floriano, o cigarro preso e meio esquecido entre os lábios, as mãos trançadas às costas. Ao cabo de alguns instantes,
aparentemente mais calmo, torna a sentar-se.
- Tu sabes, Floriano, não gosto de me meter na vida -de ninguém. Mas que diabo! Me considero um pouco da tua família. Acho que tenho o direito de fazer certas perguntas...
.
- Claro. homem. De que se trata?
- Há uma coisa que ainda não entendi nem tive coragem de pedir ao Dr. Rodrigo que me expljcasse...
Pousa a mão no ombro de Floriano e pergunta:
-~ Por que foi que, logo depois da queda do Getúlio, teu pai se precipitou para cá com toda a família, assim como quem está fugindo de alguma coisa? Me explica.
Eu sei que o Dr. Rodrigo
14 O ARQUIPÉLAGO

era, como se diz, homem "de copa e cozinha" do Ditador, figura de influência no governo... Está bem. Mas por que essa pressa em vir para cá, essa corrida dramática?
Até agora, que eu saiba, não houve nenhuma represália contra os getulistas, nenhuma prisão...
- Bom - diz Floriano, cruzando as pernas e recostando-se no respaldo do banco. - A minha interpretação é a seguinze: Durante esses quinze anos de residência no Rio,
papai continuou sendo um homem do Rio Grande, apesar de todas as aparências em contrário. Não havia ano em que não viesse a Santa Fé, pelo menos uma vez, nas férias
de verão. Esta é a sua cidadela, a sua base, o seu chão... Para ele a querência é por assim dizer uma espécie de regaço materno, um lugar de refúgio, de reconforto,
de proteção... Não é natural que num momento de decepção, de perigo real ou imaginado, de aflição, de dúvida ou de insegurança ele corra de volta para os braços
da mãe?
Camerino faz uma careta de incredulidade.
- A tua explicação, perdoa que te diga, é um tanto rebuscada. Não me convence.
- Está bem. Vou te dar então as razões de superfície, se preferes. De- todos os amigos do Getúlio, papai foi o que menos se conformou com a situação. Queria barulho.
Achava que deviam reunir e armar as forças do queremismo e reagir.
- Mas reagir como?
Floriano encolhe os ombros.
- Sabes o que ele fez quando teve notícia de que os generais haviam obrigado o Getúlio a renunciar? Correu para a casa do Gen. Rubim, que ele conheceu como tenente
aqui em Santa Fé, e disse-lhe horrores. "Seu canalha, seu crápula ! Você jantou ante ontem comigo, sabia já de toda essa conspiração indecente e não me contou -nada!"
O Góis Monteiro, que estava presente, qui intervir. Papai se voltou para ele e gritou: "E você, seu sargentão borracho? Você que deve, ao Presidente tudo que é,
você..." Enfim, disse-lhe o diabo. O Góis ergueu a bengala e o Velho já estava com a mão no revólver quando amigos civis e militares intervieram e carregaram o nosso
caudilho para fora ... Depois dessa cena, algumas pessoas chegadas acharam que papai devia vir para cá o quanto antes, para evitar conflitos mais sérios.
Camerino sacode a cabeça lentamente.
- Bom, essa explicação acho boa. A coisa agora me parece mais clara.
- O Dr. Rodrigo aceitou a idéia e, como bom patriarca, insistiu em trazer toda a família, inclusive a preciosidade do "genroE este seu filho, que não tem nada com
o peixe.
Ocorre-lhe que esta é uma boa autodefinição: "O que não tem nada com o peixe." Sente, então, mais que nunca, o que há de falso, vazio e absurdo na sua posição.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 15

- B por isso que aqui estamos todos - conclui - para alegria dos mexeriqueiros municipais.
O outro cruza os braços e por alguns instantes fica a assobiar por entre dentes, repetindo, distraído e desafinado, as seis primeiras notas de La Donna é Mobile.
Floriano tem a impressão de que quem está a seu lado é um gurizão que gazeou a aula e, com medo de voltar para a casa, veio refugiar-se debaixo da figueira.
- Não vi o Eduardo - diz Camerino. - Onde se meteu ele?
- Foi dirigir um comício em Garibaldina.
- Será que os comunistas esperam eleger seu ridículo candidato de última hora?
- O candidato do P. S. D. não é lá muito sublime...
- Tu sabes que eu vou votar no Brigadeiro. - Não contes isso ao Velho.
- Ora, não creio que um homem como o Dr. Rodrigo possa ter qualquer entusiasmo pelo Gen. Dutra...
- Está claro que não tem. Diz para quem quiser ouvir que o ex-Ministro da Guerra não passa dum respeitável sargentão. Mas acontece que o Dr. Getúlio vai dar o seu
apoio ao General.
- Ao homem que ajudou a depó-lo? O diabo queira entender o Baixinho !
- O João Neves é um homem muito inteligente e persuasivo...
Cameríno olha para o Sobrado, cujas janelas se vão aos poucos apagando. Depois de alguns segundos de silêncio, pergunta:
- E tu como te sentes nessa engrenagem toda?
- Como uma peça solta.
- Se permites que mais uma vez eu meta o bedelho na vida da tua família, te direi que na* minha opinião o Sobrado não é mais o que era no tempo do velho Licur~o.
Uma vaca entra num canteiro de relva, a poucos metros da figueira, e põe-se a pastar. Uni vaga-lume pousa-lhe no lombo negro e ali fica a cintilar como uma jóia.
De súbito Floriano sente-se tentado a fazer confidências. Gosta de Camerino e há nas relações entre ambos uma circunstância que o diverte e até certo ponto enternece.
Quando ele, Floriano, foi batizado, seu pai convidou Dante, que rinha então onze anos, para ser o "padrinho de apresentação".
Lembrando-se agora disso, sorri, toca no braço do amigo e diz:
Meu padrinho, prepare-se, pois estou em veia confidencial.
Camerino encara-o, surpreendido.
Não acredito...
16 O ARQUIPÉLAGO

- Tens que acreditar. Estás assistindo a um fenômeno por tentoso. O caramujo procura deixar sua concha. Não ria da nud do bicho ...
Cala-se. Sabe que a sombra da figueira lhe propicia esta dia posição de espírito. No fundo o que vai fazer é pensar, com de costume, em voz alta, só que desta vez
na presença de out pessoa.
- Desde que cheguei tenho me analisado a mim mesmo e gente do Sobrado.
Ergue-se, enfia as mãos nos bolsos. Camerino acende outr cigarro.
- Não é nenhum segredo - prossegue Floriano - que pa
e mamãe há muito estão separados, embora vivam na mesma casa mantenham as aparências. Devo dizer que a conduta da Velh tem sido irrepreensível. Nada fez que pudesse
prejudicar, de lev que fosse, a carreira do marido. Quando foram para o Rio, a coi já não andava muito boa. Lá em cima tudo piorou. Tu sabes mamãe não perdoa ao
Velho por suas infidelidades. E não vel por que deva perdoar, uma vez que foi educada dentro dos prín cípios rígidos dos Quadros. E o mais extraordinário é que el
nunca permitiu, nem aos parentes mais chegados, que criticassem marido na sua presença. Mais que isso, nunca consentiu que o problema do casal fosse discutido ou
sequer mencionado. E agora qu papai está doente e politicamente derrotado, agora que podia have uma esperança, por mais remota que fosse, de reconciliação, o Dr
Rodrigo teve a infeliz idéia de mandar buscar essa rapariga...
Camerino escuta-o em silêncio, sacudindo lentamente a cabeça
- Mamãe não se abre com ninguém. Posso bem imagina seu sofrimento. Desde que percebeu que havia perdido o marid tenho a impressão de que se voltou para os filhos
em busca dum compensação... Agora vamos examinar esses filhos. Tome mos primeiro o Eduardo. Na sua fúria de "cristão novo" rapaz, que vê tudo e todos pelo prisma
marxista, está procurand mostrar a seus companheiros de partido que não é por ser fil dum latifundiário e figurão do Estado Novo que ele vai deixa de ser um bom
comunista. E qual é a melhor maneira de prova isso senão renegando em público, e com violência, esse pai "com prometedor" ?
- No fundo deve adorar o Velho.
- Pode ser. Mas vamos ao Jango. É um Quadros, u Terra, um homem do campo, digamos: um gaúcho ortodoxo.
o Eduardo deseja com uma paixão de templário a reforma agrária Jango com a mesma paixão quer não só conservar o Angico com também aumentar a estância. adquirindo
mais campo, mais gado. .
- Já assisti a uma discussão do Jango com o Eduardo. Sai faísca. Pensei que iam se atracar a bofetadas.
- O curioso é que o Jango no fundo não leva o irmão muito a sério. E o Eduardo classifica o Jango como um primário, um reacionário e encerra o assunto. Já observei
também que o nosso marxista acha que, embora errado, Jango é alguma coisa, tem uma tábua de valores fixa, acredita "em princípios que defendera com unhas e dentes,
enquanto eu, para o nosso "comissário", não passo dum indeciso, dum comodista, dum intelectual pequeno burguês. É por isso que ele tem menos paaencia comigo do que
com o Jango.
- Não vais negar que o Jango é teu amigo.
- Talvez, mas me olha com uma mistura de incompreensão e desprezo.
- Por que desprezo?
- Porque não gosto da vida campeira, nunca usei bombacha e não sei andar a cavalo. Para um gaúcho da têmpera de Jango, não saber andar a cavalo é defeito quase tão
grave como ser pederasta.
- Estás exagerando.
- Mas vamos adiante. O Eduardo ataca o pai nos seus discursos em praça pública. Mas o Jango, esse jamais critica o Velho, nem mesmo na intimidade. Apesar de libertador
e antigetulista nunca ousou exprimir suas idéias políticas na presença do pai.
- Ó Floriano ! Quem te ouve dizer isso pode pensar que o Dr. Rodrigo é um monstro de intolerância ...
Sem tomar conhecimento da interrupção, Floriano continua:
- Agora, a nossa irmã. Às vezes me divirto a fazer uma "autópsia" surrealista da Bibi. E sabes o que encontro dentro daquele cérebro? Um pouco da areia de Copacabana,
letras de samba, umas fichas de roleta, uma garrafa de uísque Old Parr e um vidro de Chanel r..° 5.
Floríano sente que Camerino não compreendeu sua fantasia. Mas prossegue
- Se eu te disser que nestes últimos dez anos nunca, mas nunca mesmo. cheguei a conversar com a minha irmã durante mais de dez minutos a fio, tu não vais acreditar...
- De quem foi a culpa?
- De ninguém. Temos dez anos de diferença de idade, e interesses quase opostos. Nesses quinze anos que passamos no Rio, apenas nos avistávamos. Quase nunca nos encontrávamos
às horas das refeições. A família raramente se reunia inteira ao redor da mesma mesa. O Velho em geral almoçava no Jockey Club com algum amigo, e freqüentemente
tinha convites para jantar fora com diplomatas, capitães de indústria, políticos ... Bibi vivia nas suas festas e não concebia sequer a idéia de passar uma noite
sem ir a tini cassino dançar e jogar. Tu sabes, teve um casamento que não deu certo e acabou em desquite. Por fim pescou esse Sandoval.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 17
#18 O ARQUIPÊLAGO

que ninguém lá em casa conhecia. Só se sabia que o homem simpático, trajava bem, freqüentava o Cassino da Urca, costumav jogar na terceira dúzia e gabava-se de tutear
o Bejo Vargas...
Camerino solta uma risada. Não parece o mesmo homem q há pouco tinha lágrimas nos olhos.
- Quanto a mim, tenho sido apenas um turista dent da família, a qual por sua vez me considera uma espécie de bich raro. Um homem que escreve livros...
- Não podes negar que teu pai tem orgulho de ti, de te escritos...
- Olha, não sei... Ele nunca me perdoou por eu não m haver formado em alguma coisa. Nunca compreendeu que eu na me interessasse por uma carreira política, profissional
ou diplomáti
- Ah! Mas se vê que ele tem um fraco por ti.
- Narcisismo. Ele ama em mim o seu próprio físico.
- Tu complicas demais as coisas.
- Já sei o que queres dizer: vejo tudo como um intelectua não é? Mas, voltando ao Edu... Quem herdou o temperament esquentado do Velho foi ele. Parece uma contradição,
mas e citador de Marx, Lenine e Stalin, esse campeão do proletariado da Nova Humanidade no fundo é um caudilhote.
Camerino sorri, sacudindo afirmativamente a cabeça.
- Acho que nesse ponto tens razão.
- Como Pinheiro Machado, o Eduardo anda com um punh nanava do colete... (A única diferença é que o nosso comunist não usa colete.) Tu sabes, é aquele velho punhal
com cabo d prata que pertenceu ao nosso bisavô Florêncio e que depois passo para o tio Toríbio... Dizem que está na família há quase dó séculos.
Floriano torna a sentar-se, estendendo as pernas e atirando cabeça para trás. A sensação de fraqueza continua, mas o amargo desapareceu-lhe da boca. Uma frase se
lhe forma espontânea n mente: De súbito a noite se tornou íntima.
- Mas continuemos com a nossa análise - prossegue. - L está o Velho agora, seriamente doente, reduzido a uma imobilidade a uma invalidez que é a maior desgraça que
podia acontecer a u homem de seu temperamento. O Presidente Vargas caiu e o Dr Rodrigo Cambará está sem saber que rumo tomar. Seu mundo d facilidades, prazeres,
honrarias e prestígio de repente se desfez e pedaços. É possível que o Velho esteja agora examinando os cacos tentando reuni-los... Mas tu sabes, um Cambará não
é honre de juntar cacos. Para ele é mais fácil reduzir pessoas e coisas cacos. Reunir cacos é trabalho de mulher. A Dinda nestas últim semanas não tem feito outra
coisa senão tentar juntar os cacos d nossa família ...
- Outro exagero - murmurou Camerino - mas continua. .
- Esse descanso vai dar ao meu pai tempo para pensar em muita coisa. e não creio que todas as suas lembranças sejam agradáveis. Ele pode continuar dizendo da boca
para fora que o Estado Novo beneficiou o País, que o Getúlio é o maior estadista que o Brasil já produziu, o Pai dos Pobres, etc. ... etc. ... Mas se for sincero
consigo mesmo terá agora uma consciência aguda dos aspectos negativos da Revolução de 3O: a corrida para os empregos, as negociatas indecentes. a ditadura, a censura
da imprensa, as crueldades da Polícia carioca, a desagregação moral dos nossos homens de governo...
Camerino coçou a cabeça, num gesto de indecisão.
- Um udenista como eu será a última pessoa do mundo a fazer a defesa do Estado Novo. Mas acho que é uma injustiça atirar para cima dos ombros do Dr. Rodrigo qualquer
parcela de culpa ...
- Mas não! - interrompe-o Floriano. - Não estou acusando nem julgando o Velho. Quem sou eu? Estou tentando me meter na pele dele, imaginar com simpatia humana o
que ele está pensando. sentindo, sofrendo... É impossível que ele não veja que esses anos de Rio de Janeiro desagregaram nossa família. Mamãe sempre criticava a
vida que Bibi levava, e isso acabou indispondo uma com a outra, a ponto de passarem dias sem se falarem. Até hoje há entre ambas uma animosidade surda. Os três filhos
homens têm conflitos de temperamento. de interesses, de opiniões. É possível que o Velho tenha engolido o "genro" novo que Bibi lhe arranjou: engoliu mas estou certo
de que não digeriu. Põe em cima de tudo isso a presença da outra mulher em Santa Fé e terás um quadro quase completo desta "reunião de família".
Faz uma pausa e depois exclama, desta vez sorridente
- Ah! Esqueci uma grande figura ... a velha Maria Valéria. Essa é a vestal do Sobrado, que mantém acesa a chama sagrada de sua vela ... E uma espécie de farol em
cima dum rochedo, batido pelo vento e pelo tempo... Uma espécie de consciência viva de todos nós ...
Começa a assobiar. sem sentir, a melodia da canção que Dinda cantava para fazê-lo adormecer, quando ele era criança.
- Deixaste uma personagem fora do quadro - murmura Camerino ao cabo de uma pausa.
Floriano tem uma súbita sensação de mal-estar.
- Qual? - pergunta automaticamente, embora sabendo a quem o outro se refere.
A Sílvia.
Ah ! Mas é que não a conheço tão bem quanto aos outros. .. - começa, sentindo a falsidade das próprias palavras.
Camerino traça riscos no chão com a ponta do chinelo.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 19
#2O O ARQUIPÉLAGO

- Deves ter notado pelo menos que ela e o marido não s felizes...
Floriano por alguns segundos permanece calado. Deve aduri ou negar que sabe do estado das relações entre Jango e Sílvia?
- Não notei nada - mente.
- Esse casamento foi a maior surpresa da minha vida.
o rapaz andava louco pela menina, todo o mundo via. Mas Síl fugia dele, e levou um tempão para se decidir.
Floriano está ansioso por mudar o rumo da conversa. Con clui que sua melhor defesa será o silêncio. Não. Talvez o silênci também possa incriminá-lo...
- Esse assunto é delicado demais - balbucia, arrependend se de ter dito estas palavras, pois percebe imediatamente que el criam uma contradição.
- Não é mais delicado que o das relações entre o teu pai e tua mãe...
Floriano toma outro rumo:
- Está bem. Eu explico o casamento assim. Sílvia podia na estar apaixonada pelo Jango, mas uma coisa era certa: a sua fas cinação pelo Sobrado, desde menininha.
O Jango fazia a sua carg cerrada, tia Maria Valéria o protegia, queria vê-los casados. Papas, chegou a escrever uma carta à Sílvia, dizendo claramente que ficari
muito feliz se ela, além de sua afilhada, viesse a ser também s nora. Ante todas essas pressões, a Sílvia acabou cedendo...
Camerino sacode a cabeça.
- Sim, mas te asseguro que a coisa não deu certo. Tu sabes diferenças de temperamento. Dum lado uma moça sensível, com a sua ilustraçãozinha, os seus sonhos, e do
outro (perdoa a minha franqueza) um homem bom, decente mas um pouco rude, um" "casca-grossa como se costuma dizer. - Faz uma pausa, hest, fanfe, como que temendo
entrar em maiores intimidades. - H outra dificuldade ainda, além da incompatibilidade de gênios. Como sabes, o sonho dourado do Jango é ter um filho. Há uns cinco
anos a Sílvia engravidou, mas perdeu a criança no terceiro mês. . . Teu irmão ficou inconsolável. Dois anos depois a Sílvia tornou a apresentar sinais de gravidez.
Novas esperanças... Mas tudo não passou dum rebate falso. E por mais absurdo que pareça, o Jango procede como se a mulher fosse culpada de todos esses insucessos
.. .
- O que ele quer é um filho macho para levar o nome de Cambará e tomar conta do Angico - diz Floriano com um surdo rancor pelo irmão. - Mesmo que isso custe a vida
da mulher.
.- Tenho muita pena dessa menina. L uma flor... mas é a companheira errada para o teu irmão. O que ele precisava era uma fèmea forte como uma égua normanda, boa
parideira ... e que soubesse tirar leite, fazer queijo, cozinhar... tomar conta da cria
dagem. A Sílvia não nasceu para mulher de estancieiro. Depois, não morre de amores pelo Angico. E o Jango, coitado l, não se conforma com a situação.
Floriano ergue-se com uma impaciência que não consegue reprimir, e pergunta:
- Mas que é que eu posso fazer?
Não ouve o que o outro diz, pois está escutando apenas a resposta que ele mesmo se dá mentalmente: "Levá-la daqui comigo, o quanto antes ... não importa como nem
para onde!" Pensa isto sem verdadeira convicção, já com um antecipado sentimento de culpa.
Camerino risca um fósforo e alumia o mostrador do seu relógio-pulseira.
- Opa! - exclama, pondo-se de pé. - Cinco para as quatro. Quero ver se posso dormir pelo menos umas três horas. Amanhã tenho de estar no hospital às sete e meia
...
Põe a mão no ombro do amigo.
- Bueno, Floriano, se houver alguma novidade, gritem por mim. Boa noite.
Pega na maleta e se vai. Floriano permanece por alguns minutos à sombra da figueira, com um vago medo de voltar para casa.
Entra no Sobrado e vai direito ao quarto do pai. Abre a porta devagarinho. A lâmpada de luz verde está apagada, e na penumbra brilha agora a chama duma lamparina,
sobre a mesinha-decabeceira. Maria Valéria está sentada ao pé do leito, na cadeira de balanço que pertenceu à velha Bibiana.
Floriano aproxima-se dela e sussurra-lhe ao ouvido:
- Como vai ele?
- Dormindo como um anjo.
- E a Sílvia, por que não ficou aqui como estava combinado?
- Mandei ela dormir. Gente moça carece de sono. Velho não.
Por alguns instantes Floriano queda-se a observar o pai, cuja respiração lhe parece normal. Os cabelos de Rodrigo Cambará, ainda fartos e negros, estriados aqui
e ali de fios prateados, estão em desordem, como que agitados pelo mesmo vento imaginário que Don Pepe Garcia tentou sugerir no retrato que pintou do senhor do Sobrado.
Há neste rosto agora em repouso uma surpreendente expressão de mocidade e vigor. Um estranho que o observasse aqui nesta meia luz dificilmente acreditaria que, entre
o dia em que o artista terminou o quadro e este momento. se passaram quase trinta e cinco anos.
Se precisar de alguma coisa, me chame, Dinda.
Maria Valéria limita-se a fazer um sinal afirmativo com a cabeça. Floriano sai do quarto na ponta dos pés.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 21
#22 O ARQUIPÉLAGO
REUNIAO DE FAMILIA - I 23
De tão cansado, nem teve ânimo para despir-se e enfiar pijama. Tirou apenas os sapatos. ("Tire os coturnos, relaxado l" - gritou-lhe a Drnda do fundo do poço da
infância.) De cal e em mangas de camisa como estava, apagou a luz e estendeu-se cama, na esperança de afundar no sono imediatamente. Mas qual Aqui está agora a revolver-se
de um lado para outro. Sente o co meio anestesiado, mas o cérebro - frenético moto contínuo - tra balha implacavelmente. E a imaginação. como uma aranha rndus triosa
e maligna. tece fantasias em torno das duas figuras obsessív que não se lhe apagam da mente, por mais que ele procure nã pensar nelas: o pai, que pode morrer duma
hora para outra, Sílvia, que ele ama e deseja... e que neste momento está dormind sozinha no seu quarto, ali no fundo do corredor.. .
Põe-se de bruços, apertando a parte superior do peito contra
travesseiro. Um dia estou sentado na cama do Velho e de repent ele começa a afogar-se em sangue, a cara lívida, a respiração u ronco medonho... Seus olhos me suplicam
que faça alguma coi sa... Quero sair correndo em busca de socorro, mas ele me agarr pelos ombros com força e acaba morrendo nos meus braços.
Floriano pensa vagamente em tomar um comprimido de Sec nal. Basta virar-se, e§tender o braço para a mesinha-de-cabeceira apanhar o frasco... Mas o temor de habituar-se
ao uso de barbitúricos (não fosse ele um Quadros e um Terra) lhe tranca o gesto.
Por um instante fica a escutar - com uma sombra do med que o perturbava quando fazia isso em menino - as batidas d próprio coração. Se esta coisa pára de repente?
E o coração do velh Rodrigo... estará ainda batendo? É curioso - reflete - de di sou um homem Ipcido que sorri para os seus fantasmas. A noite que me traz estes
pensamentos mórbidos. Por que não imaginar coisas mais alegres?
Sílvia agora lhe aparece tal como a viu ontem, à tardinha, a regar com a água duma mangueira as plantas do quintal. Seu vestido da cor das flores das alamandas.
Sua sombra projeta-se azulada n chão de terra batida. Os pessegueiros estão pesados de frutos.
então eu desço, aproximo-me dela por trás, enlaço-lhe a cintura puxo-a contra meu corpo, beijo-lhe o lóbulo da orelha, minh mãos sobem e cobrem-lhe os seios... e
ela se encolhe arrepiada se volta, e sua boca entreaberta procura a minha... Mas não! Sílvi
é a mulher de Jango. Está tudo errado. O melhor é dormir.
Reuna-se, fica em decúbrto dorsal, as pernas abertas, o co agora desperto e aquecido de desejo. Para fugir de Sílvia, pensa no pai.
Rodrigo Cambará morreu. Seu esquife entre quatro círios acesos reflete-se no espelho grande da sala. Um lenço cobre o rosto d
morto. Seus dedos trançados sobre o ventre têm quase a cor das mãos de cera que o Pitombo expõe na sua vitrina ... Meus pêsames! Murmúrios. Choro abafado. Condolências!
Abraços. Caras compungidas. Ah! o adocicado e nauseante cheiro dos velórios! E ele, Floriano, prisioneiro da câmara mortuária, sentindo uma vergonha de homem e,
ao mesmo tempo, um terror de menino diante de todo aquele cerimonial... Roque Bandeira sopra-lhe ao ouvido: "Morrer é a coisa mais vulgar deste mundo. Qualquer cretino
pode dum minuto para outro virar defunto. Um homem como teu pai devia evaporar-se no ar, para seu corpo não ficar sujeito a toda esta comédia macabra."
Floriano soergue-se na cama, despe a camisa num gesto brusco e atira-a para cima duma cadeira. Desta-se de novo e, de olhos fechados, fica a passar a mão pelo tórax
úmido de suor. Vem-lhe um desejo repentino de fugir de"tudo isto, do que já é e principalmente do que poderá vir a ser. Mas não! Basta de fugas.
Quanto a meu par - pensa - não há nada que eu possa fazer. No caso de Sílvia, tudo vai depender de mim, exclusivamente de mim. Sinto, sei, tenho a certeza de que
ela jamais tomará qualquer iniciativa. .. " p uma questão de tempo" - disse-lhe há pouco Camerino, referindo-se à morte do Velho. Sim. tudo na vida - a própria vida,
e as nossas angústias - tudo é uma questão de tempo. E o tempo me ajudará a esquecer Sílvia... O diabo é que agora se trata duma questão de espaço. Faz um cálculo:
quatro passos daqui à porta... mais seis até o quarto dela... Ah ! Se tudo fosse apenas um problema de Geometria)
Ponho a mão na maçaneta... O coração bate acelerado... expectativa e medo. Boca seca. Um aperto na garganta. Abro a porta devagarinho como um ladrão (ou um assassino?).
A penumbra do quarto. Com o corpo numa tremedeira, fico a olhar para a cama onde Sílvia está deitada. Depois me aproximo... E se ela me repelir? Se ela gritar? Mas
não. Sinto que está acordada, que me espera... Rolamos abraçados sobre os lençóis, ofegantes... A porta do quarto se abre, a Dinda aparece com uma vela acesa na
mão e grita: Porcos!
Num pincho, como que impelido pela voz da velha. Floriano atira as pernas para fora da cama e põe-se de pé. Aproxima-se da pia, abre a torneira e começa a molhar
o rosto, os braços, o pescoço, a cabeça, como se quisesse lavar-se das idéias lúbricas. Depois, ainda gotejante, acerca-se da janela e fica a olhar para o quintal,
mas sem prestar atenção no que vê.
Como posso pensar coisas assim? Quando amanhecer o bomsenso me voltará, serei o sujeito policiado que sempre fui e acharei absurdas e até ridículas estas fantasias
not-mas de adolescente. Sílvia é tabu. Está liquidado o assunto.
24 O ARQUIPBLAGO

Olha para o vidro de Seconal. Não. Prefiro atravessar a noite em claro com todos os meus espectros. Sorri para si mesmo. Nada" disto é grave. Nada... a não ser a
situação do Velho.
Pega uma toalha, enxuga-se com gestos distraídos. Torna a deitar-se e começa a assobiar baixinho uma frase do quinteto para, clarineta e cordas de Brahms. Sente-se
imediatamente transportado para aquela noite, na ópera de San Francisco da Califórnia.. Escutava o quinteto procurando fazer a abstração do ambiente o cavalheiro
calvo que mascava chiclé, à sua frente, a dama gorda a, seu lado, rescendente a Old Spice) queria apreciar a música na sua pureza essencial, sem verbalizações. Fechou
os olhos. E teve a impressão de que a melodia, como uma lanterna mágica, lhe projetava contra o fundo escuro das pálpebras a imagem de Sílvia. Foi nesse instante
que teve a doce e pungente certeza de que ainda a amava. .
Uma tábua do soalho estala. Floriano, que estava prestes a adormecer, soergue-se num sobressalto e fica à escuta. Passos no corredor Seu coração dispara, como que
compreendendo primeiro que o cérebro o perigo que se aproxima. Perigo? Sim, pode ser Sílvia... A possibilidade o alarma e excita. Acredita e deseja com o corpo inteiro
que seja Sílvia, enquanto sua cabeça tenta repelir a idéia.
Mesmo que seja Sílvia - raciocina - isso não quer dizer que venha bater à minha porta. Mas por que não? Ela ainda me ama. Eu sei, eu sinto. O silêncio da noite quente,
a solidão, a idéia de que a morte ronda o casarão - tudo isso pode tê-la impelido para mim ... Sim, é Sílvia.
Continua a escutar, tenso. O corpo inteiro lhe dói de desejo e medo. O ruído de passos cessa. ...Decerto Sílvia está parada à frente da porta ... Terá coragem de
entrar?
Duas batidas leves. Floriano põe-se de pé.
A porta abre-se devagarinho e Flora Cambará entra. Decepcionado e ao mesmo tempo aliviado. Floriano solta um suspiro, agarra a toalha num gesto automático e põe-se
a enxugar o torso, por onde o suor escorre em bagas.
Flora acende a luz e o filho tem uma súbita e constrangedora sensação de desmascaramento e nudez, como se todos os desejos e maus pensamentos da noite lhe estivessem
visíveis na face. Apanha a camisa e veste-a.
Percebe agora que a mãe tem numa das mãos um prato com
um copo de leite e um pedaço de bolo. "Vem me amamentar-.
pensa, com uma mescla de impaciência e ternura. - Faz muito tempo que chegaste, meu filho? - Uns trinta ou trinta e cinco minutos... - Não te vi entrar. Estava já
preocupada. - Ora, não havia motivo.
Por que demoraste tanto?
- Fiquei conversando com o Dante, debaixo da figueira.
Ela lhe entrega o prato.
- Vamos, toma o leite. Está morninho. Vai te ajudar a dormir.
- Está bem. Mas não quero o bolo.
Segura o copo e começa a beber, sem o menor entusiasmo, com o olhar fito na mãe. A serena tristeza destes olhos escuros e limpos sempre o enterneceu. Há no entanto
uma coisa com que ainda não conseguiu habituar-se: a mocidade da mãe. Aos cinqüenta e cinco anos, aparenta pouco mais de quarenta. Nenhum fio de cabelo branco na
cabeça bem cuidada. No rosto ovalado, dum tom mate e cetinoso, nenhuma ruga. Tem ainda algo de adolescente no porte frágil, na cintura fina, nos seios miúdos. Maria
Valéria costuma dizer que é difícil acreditar que três "marmanjos" e mais a Bibí tenham saído de dentro deste corpo de menina.
- E o teu irmão, por que ainda não voltou?
- Acho que o comício acabou muito tarde e ele resolveu passar a noite em Garibaldína.
Ela franze a testa, deixa escapar um suspiro.
- O Eduardo me preocupa. .. - murmura. - Falar contra o próprio pai em praça pública não é coisa que se faça.
Floriano depõe o prato em cima da cômoda, segura Flora afetuosamente pelos ombros, beija-lhe de leve a testa, e depois estreita-a contra o peito. Mas arrepende-se
imediatamente do gesto, pois ela desata a chorar de mansinho. Ele não sabe que. dizer, murmura apenas - ora ... ora. .. - passa a mão pelos cabelos da mãe. Jamais
a viu chorar, sempre admirou seu autodomínio, a coragem com que enfrenta todos os problemas - os domésticos e os outros - a discreção com que se comportou sempre,
e que tornou tudo tão mais fácil para todos. Chorará agora por causa da doença do marido? Ou por causa da desagregação da família? Ou estará apenas - como disse
há pouco - preocupada com o Eduardo? Floriano acha conveniente fingir que aceita a última hipótese. Não quer tocar nem de leve na ferida maior.
- Não pense nisso, mamãe. O Edu é um impulsivo, faz as coisas sem pensar e depois se arrepende. No fundo tem paixão pelo Velho.
Flora aparta-se do filho e começa a enxugar os olhos.
- Que bobagem a minha, chorar deste jeito como uma criança 1 Afinal, já devia estar acostumada com todas essas coisas. . .
A que coisas se refere ela? Às aventuras amorosas do marido? Aos pronunciamentos agressivos de Eduardo? Quando dá acordo
de si. Floriano está metido no assunto mesmo que tanto queria evitar:
REUNIRO DE FAMILIA - I 25
#26 O ARQUIPÉLAGO

- Afinal de contas o papai e o Eduardo se parecem muito gênio. Nenhum deles tem papas na língua. Não pensam nun em quem podem ferir quando dizem ou fazem as coisas
... Sã donos do mundo.
- Seja como for, ele é pai de vocês. Um filho não dev nunca criticar o pai.
Bonito! Aqui está um artigo do código dos Quadros, que idêntico ao dos Cambarás. Certo ou errado, bom ou mau, pai pai. O filho deve sempre baixar a cabeça diante
"do chefe do clã
- Termine o leite.
- Ora, mamãe...
Floriano sente que voltou aos cinco anos na maneira co
que quase choramingou estas últimas palavras. Sorri e devolve
Flora o prato com o copo e u bolo.
- Por amor de Deus, não me obrigue a tomar o resto. - Está bem. Agora durma. Beija o filho na testa e se vai.
Pela manhã, ao voltar ao Sobrado, o Dr. Camerino encontra Rodrigo acordado e Maria Valéria ainda de guarda ao pé do leito
- Bom dia ! - exclama, procurando dar à voz um to jovial. - Como vai o nosso doente?
Sentado na cama, recostado em travesseiros, Rodrigo responde com voz débil:
- Estou como aquele velho gaúcho de Uruguaiana "peleando em retirada e com pouca munição".
- Qual nada! - replica o médico. - Munição é o q não lhe falta.
- O que ele não tem é vergonha - diz a velha.
Rodrigo sorri e pisca um olho para Camerino, que acaba d
sentar-se na cama.
- E a respiração?
- Regular pra campanha. - Alguma dor ou opressão? Rodrigo faz um sinal negativo.
- Estou é meio bombardeado, a cabeça pesada, o estômago
embrulhado.
- E da morfina.
Camerino segura o pulso do amigo e durante meio minuto
fica a olhar para o mostrador do relógio. - Pulso bom.
A seguir mede-lhe a pressão arterial. - Quanto?
- Está bem. - Mas quanto?
- Só lhe digo que está melhor que ontem.
põe-se agora a auscultá-lo e leva nisso algum tempo.
- Quantos dias de vida me dás?
O médico ergue-se, repõe o estetoscópio dentro da maleta e, como se não tivesse ouvido a pergunta, diz:
__ Vou lhe mandar uma cama de hospital. É mais cômodo. E precisamos arranjar o quanto antes outro enfermeiro. O senhor não devia ter despachado o rapaz... Viu a
falta que ele fez?
- Mas vocês me mandaram um fresco ! Eu já nem podia mais olhar para ele, me dava vontade de pular da cama e encherlhe a cara de tapas. Por que não trazem logo uma
mulher?
- Essa é que não! - reage Maria Valéria, rápida.
- Por falar em mulher. .. - sorri o doente. - Preciso fazer a barba. Mande chamar o Neco Rosa, titia.
Maria Valéria inteiriça o busto, como se lhe tivessem dado uma agulhada.
- Se esse alcagüete ordinário tivesse vergonha na cara, não entrava mais no Sobrado. Não pense que eu não sei aonde ele levou vacê ontem ...
Rodrigo volta-se para a tia, agressivo:
- Enquanto eu estiver vivo ninguém me leva a parte alguma. Quando vou aos lugares é de livre e espontânea vontade. Não culpe o homem.
- Sua mulher sabe - replica a velha. - Todo mundo sabe.
- Pois se sabem, que façam bom proveito.
Maria Valéria levanta-se.
- Maroto
Retira-se do quarto. Apesar da cegueira da catarata, caminha sem hesitações, conhece o Sobrado palmo a palmo. Seus passos soam duros no corredor.
Rodrigo sorri.
- Ela volta, Dante. Tem uma paira danada por mim, uma paira antiga. E sabes aonde ela foi? Foi mandar chamar o Neco. Aposto
Camerino acende um cigarro, no qual os olhos de Rodrigo se fixam com intenso interesse.
- Eu não podia fumar um cigarrinho? Só a metade..
- Hoje não.
- Pois então apaga esse pito, a não ser que tenhas a intenção de me torturar. Sabes quantos cigarros costumo fumar por dia? Mais de quarenta. Sem contar os charutos..
.
Camerino aproxima-se da janela, dá três tragadas rápidas e ioga fora o cigarro.
Preciso urgentemente dum banho.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 27
#28 O ARQUIPÉLAGO

- Hoje não.
- Mas suei como um animal a noite passada, não agüe o meu próprio fedor.
- Mude o pijama. Quando o enfermeiro vier, mande homem lhe . passar uma água-de-colônia no corpo. Banho a O senhor tem que ficar quietinho na cama.
Rodrigo faz um gesto de irritação. Camerino torna a sentar ao lado do paciente.
- Olhe, Dr. Rodrigo, precisamos ter uma conversa m sena...
- Sei o que vais me dizer, Dance. Quero te poupar o serro Não devo repetir o que fiz ontem no Hotel da Serra senão mor não é isso?
- Isso e mais alguma coisa ...
- Tu conheces o ditado que corre na família: "Camb macho não morre na cama." - Rodrigo segura com força pulso do amigo. - E se eu morrer numa cama, mas em ct duma
fêmea, Dr. Camerino, não se poderá considerar isso "mo em ação"? Eh, dottore, eh?
Dance sorri amarelo. Este homem, que ele estima e aduri
sempre o desconcerta com seus sarcasmos.
- Dr. Rodrigo, estou falando sério.
- Eu também. Nunca falei tão sério em toda a minha vi Uma súbita canseira estampa-se no rosto do doente, que
cala, ofegante, cerrando os olhos e atirando a cabeça para trás. - Viu? - diz o médico. - Excitou-se e o resultado
está ...
Tira do bolso um vidro de digital:
- O senhor sabe tão bem quanto eu que, se tornar regul mente este remédio...
Rodrigo interrompe-o com um gesto de enfado.
- Perdes o teu tempo. Não esqueci tanto a Medicina
não saiba que estou liquidado. Primeiro os infartos... e ag
esta porcaria do edema. É o fim do último ato.
Camerino abre o vidro, tira dele um comprimido e, ent
fiando-o ao paciente com um copo dágua, murmura:
- Tome um agora. E depois, cada vinte e quatro horas. Rodrigo obedece.
- Tu me conheces, Dance. Um homem de meu temper mento fechado num quarto, deitado numa cama, como uma vel achacada... É pior que a morte. Às vezes chego a pensar
não seria melhor meter uma bala nos miolos e acabar com tu de uma vez...
Camerino lança um olhar enviesado para a mesinha-de-ca seira em cuja gaveta ele sabe que Rodrigo guarda o revólver.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 29

Para que vou me privar das coisas que me dão prazer? para viver mais seis meses, um ano que seja, nesta vida de inválido? Não, Dance, tu sabes que eu não sou homem
para aceitar as coisas pela metade. Comigo é tudo ou nada.
Camerino escuta-o em silêncio. Sabe que as palavras do amigo tem uma sinceridade apenas de superfície.
Neste instante abre-se a porta, Eduardo entra e aproxima-se
do leito.
- Só agora fiquei sabendo. .. - murmura, sem poder dis
farçar o embaraço que esta situação lhe causa. - Acabo de chegar de Garibaldina.
Rodrígo mira-o de alto a baixo, com um olhar quase terno. "É a cara da mãe" - pensa.
Camerino está um pouco inquieto, pois há poucos dias pai e filho tiveram uma altercação feia por causa de política.
- Como foi o comício? - pergunta Rodrigo.
- Fraco.
- Era o que eu esperava. A colônia vota sempre com o governo. Dos três candidatos, o que mais cheira (ou fede) a oficial é o Dutra. Os colonos vão votar no General.
Eduardo sacode a cabeça lentamente. Tem as faces sombreadas por uma barba de dois dias, traja uma roupa de linho claro, muito amarrotada, e está sem gravata.
Rodrigo sorri com paternal ironia:
- No comício de ontem tornaste a atacar este teu pai latifundiário, flor do reacionarismo, lacaio do capital colonizador?
Eduardo continua sério.
- Não atacamos pessoas - diz - discutimos princípios. combatemos erros.
- É o que afirmam também os católicos. Atacar as idéias mas respeitar as pessoas. No entanto, vocês, diferentes dos católicos, de vez em quando acham que o meio
mais simples de combater uma idéia é liquidar fisicamente o seu portador.
- Era isso que fazia a polícia do "seu" Estado Novo!
As narinas de Rodrigo palpitam.
- Se a nossa polícia era tão criminosa como vocês comunistas propalam, como explicas que teu patrão, o Prestes, a primeira coisa que fez ao sair da cadeia foi prestigiar
o Dr. Getúlio?
- Não vim aqui para discutir política e sim para saber como está o senhor.
- Estou bem, muito obrigado. E tu?
Desta vez quem sorri é o rapaz. Volta a cabeça para Camerino e diz:
Estás vendo? Ele quer discussão, mas a esta hora da manhã não topo provocações. - E, tornando a olhar para o pai, acrescenta: - Ando tresnoitado.
3O O ARQUIPÉLAGO

- Então vai dormir. Precisas refazer as forças. Porque ser muito custoso vocês convencerem o eleitorado, até mesmo comunista, a votar nesse raquítico candidato feito
nas coxas.
Sem dizer palavra, Eduardo volta as costas para o pai e en minha-se para a porta.
- Faz essa barba ! - grita-lhe Rodrigo. - Muda essa rou Não precisas levar tão a sério o teu papel de representante massas oprimidas...
Depois que o rapaz sai, Rodrigo olha para Camerino: - E essa? Eu com um filho comunista ! - Doutor, o senhor está conversando demais.
- Como se explica saírem dó mesmo pai, da mesma
três filhos machos tão diferentes um do outro? Muda de tom
- Mandaram chamar o Jango? - Não achei necessário.
- E Floriano, por que não me apareceu?
- Deve estar ainda na cama. D. Flora me disse que só dormiu ao clarear do dia.
Rodrigo parece hesitar antes de fazer a próxima pergunta. - Ele sabe... dessa minha história? Quem hesita agora - mas apenas por um segundo -
merino.
- Sabe. Tivemos uma longa conversa ontem à noite, baixo da figueira.
- Naturalmente está contra mim...
- Quem foi que lhe disse?
- Imagino. Apesar de se parecer fisicamente comigo o FI
riano em matéria de temperamento é mais Quadros que Cambará. - Pois está enganado. O Floriano não o censura. Co
preende a situação.
Entra agora uma das crias da casa, uma caboclinha de quin anos, de pernas finas, seios pontudos e olhos xucros. Traz u bandeja, que Camerino manda pôr em cima da
mesinha, lado do paciente.
- Está bem, Jacira - diz o médico. - Podes ir. A rapariga hesita.
- Como vai o doutor? - pergunta, sem olhar para o doent - Agora vai melhor.
Rodrigo detém a rapariga com pst" que a faz estremecer.
- Diga à Laurinda que ainda estou vivo. E que ela prepare uma feijoada completa, com caldo bem grosso, bastam toucinho, lingüiça, repolho e batata-doce. Ahl E um
assado costela bem gordo !
Depois, que a criada se vai, Camerino volta-se para o amig
REUNIDO DE FAMILIA - I 31

Um pouco de fantasia nunca fez mal a doente nenhum. pense nos quitutes que quiser, nas comidas mais gostosas, fortes e indigestas. Mas coma apenas em pensamento.
Rodrigo olha com repugnãoncia para o conteúdo da bandeja: uma xícara de chá com torradas e um copo com suco de ameixas.
- Só isso?
- Depois de quarenta e oito horas vou lhe dar licença de comer quase tudo ... menos gorduras e condimentos fortes, está claro.
Rodrigo apanha o copo e com uma careta de repugnãoncia bebe alguns goles de caldo de ameixa.
- Muito bem. Agora tome o chá e coma as torradas.
-- Por que não um cafezinho?
- Hoje não. Amanhã.
- Amanhã! Sempre amanhã! E quem me garante que para mim vai haver um amanhã?
O médico apanha a maleta.
- Preciso ir ao hospital ver um doente que o Carbone operou
- que está com uma febre muito suspeita. Bem. Pouco antes do meio-dia venho ver como vão as coisas por aqui.
Rodrigo segura-lhe o braço.
- Escuta, Dante, não sei se vais acreditar. Mas quero te dizer que não fui eu quem mandou buscar essa menina, palavra de honra. Ela veio de livre e espontânea vontade.
Camerino sacode a cabeça afirmativamente.
- Vejo que não estás acreditando...
- Estou, sim senhor.
- Não sou tão irresponsável que, no meu estado de saúde,
- morando num burgo como este, eu mandasse buscar a minha amante para a instalar logo naquela espelunca ...
- Eu sei.
- Mentira. Tu, o Floriano, todos os outros acham que deixei tudo combinado com ela antes de sair do Rio. Confessa !
- O senhor está enganado. Não pensei nada disso. Mas tome o chá.
A bandeja oscila num equilíbrio instável sobre os joelhos do paciente.
- Pois é. Ela veio porque quis, porque estava preocupada com a minha saúde ... porque sentia falta de mim.
Trinca uma torrada e começa a mastigá-la com uma fúria miudinha e gulosa de roedor.
- A menina me quer bem, Dante, e é isso que tem tornado essa coisa toda tão difícil. Se fosse uma dessas putinhas que andam atrás de dinheiro, o problema não seria
tão complicado. Não nego que tenho um rabicho por ela. Tenho, e forte. A Sônia é dife-
32 O ARQUIPALAGO

rente, uma moça de boa família... Era datilógrafa numa d autarquias...
- O senhor não me deve nenhuma explicação.
- Não devo mas quero dar. Além de meu médico és m amigo.
Rodrigo toma um gole de chá e apanha outra torrada.
- Esta droga tem gosto de papelão !
- Até logo - diz Camerino alguns segundos depois.
- Espera, homem. Vem cá. Me olha bem nos olhos. ..
Estou liquidado, não estou?
- Ora, doutor, não diga isso. - Não sabes mentir.
- Dou-lhe a minha palavra de honra...
- Pois, como diz Don Pepe, me cago na tua palavra honra. Podes ir!
Encalistrado, Dante Camerino faz meia-volta e se vai.


26 de novembro de 1945
Neco Rosa, proprietário da Barbearia Elite, ensaboa o rost
de seu velho amigo Rodrigo Cambará.
- Eu te disse, aquele negócio não ia acabar bem... - Cala a boca, Neco, o que passou, passou.
- Mas é que tua tia me botou a boca quando entrei.
conheceu pelos passos ou pelo cheiro, não sei ...
- No fundo ela te quer bem. Eu disse à velha que a cul
não foi tua.
- Não tive nem coragem de olhar D. Flora de frente.
- E tu pensas que eu tenho? - Rodrigo suspira. - Se e pudesse passar minha vida a limpo, Neco, palavra de honra. .
Fica a olhar para o teto, com um ar de devaneio. No fund não está muito convencido de que poderia levar uma vida diferente, se lhe fosse dado recomeçar. Ah! mas
o que daria agora para pod recuperar a estima e o respeito da mulher
Neco tira uma navalha de dentro de sua velha bolsa ense bada, e fica a passar a lâmina num assentador.
- Me dá um cigarro - pede Rodrigo.
O barbeiro leva a mão ao bolso, num gesto automático, mas de repente, lembrando-se, exclama
- Ah, essa é que não! O doutor proibiu ...
- Me dá um cigarro; animal! - insiste Rodrigo, tentando
enfiar os dedos no bolso do barbeiro.
Neco recua com a navalha numa das mãos e o -assentador na
outra, como para repelir uma agressão física.
- Não quero ser responsável pela tua morte. Sou teu amigo
REUNIAO DE FAMILIA - 1 33

Pois então me dá uma prova dessa amizade. Me degola, corno, me liquida duma vez. Acaba com este suplício. Mas afia bem essa navalha. Para um bandido como tu, a coisa
mais fácil do mundo é matar um homem. Me passa esse cigarro duma. vez 1
Neco hesita, olhando inquieto para os lados.
- Bom, vou te dar um cigarro, mas tens de me prometer que fumas só a metade. Feito?
_ Passa a chave na porta.
Neco obedece. Depois, aproximando-se de novo da cama, mete
um cigarro entre os lábios do amigo e acende-o.
- $s um sujeito custoso - murmura, sacudindo a cabeça.
E continua a passar a navalha no assentador.
Com a cabeça atirada para trás, contra um dos travesseiros,
Rodrigo sopra a fumaça para o ar, com delícia.
- Vamos duma vez com essa barba!
Neco faz a navalha cantar sua musiquinha familiar na face
do amigo.
- Podem até me fechar pra sempre as portas do Sobrado...
- queixa-se ele. - Vão acabar me culpando da tua morte.
Rodrigo fuma e sorri, os olhos cerrados.
- Onde se meteu o Chiru? - pergunta.
- Ele queria vir te ver hoje, mas o médico proibiu. Diz que
só podes começar a receber visitas de amanhã em diante, e assim
mesmo poucas e curtas.
- O Dante é um exagerado.
Por alguns instantes só se ouve no quarto o rascar da nava
lha no rosto de Rodrigo, e a respiração forte e sibilante do barbeiro. - Neco, vou te pedir um grande favor ...
O outro põe-se na defensiva.
- Se é alguma coisa que vai te prejudicar.. .
- Escuta. Quero que procures a Sônia hoje, logo que saíres daqui ...
- Sim...
. e contes a ela o que me aconteceu. Diz que estou bem agora, que não se aflija. E que mando perguntar se está precisando de alguma coisa. E que tenha o maior cuidado,
não se exponha muito.
- Está bem - murmura o Neco com gravidade.
- Naturalmente ela deve ir a um cineminha de vez em quando, mas que não puxe conversa com ninguém, porque todo o mundo sabe quem ela é e o que veio fazer. Pode haver
explorações. Tu sabes, tenho inimigos... Hoje mais que nunca.
Neco torna a ensaboar a cara dó amigo.
Queres que eu te escanhoe?
Claro, homem. Mas, ouviste o que te pedi?
34 O ARQUIPÉLAGO
- Ouvi. E se ela perguntar quando é que vai te ver ou vez, que é que eu digo?
Rodrigo solta um suspiro de impaciencia, que lhe sai c uma baforada de fumaça.
- Aí é que está o problema. Se essa menina tivesse fi no Rio, eu estava aqui com saudade dela mas sabia que não ha outro remédio senão agüentar. Mas pensar que ela
está em Sa Fé, a sete quadras do Sobrado, e não poder nem sequer ver varinha dela ... é duro.
- Agora cala a boca que eu quero te raspar o bigode.
Agora cala a boca. B o cúmulo ! Ele, Rodrigo Cambará, homem a quem senadores e ministros pediam favores, o amigo Getúlio Vargas aqui está ouvindo este "agora cala
a boca", p nunciado com a maior naturalidade por Neco Rosa, barbeiro, resteiro, chineiro e desordeiro. O mundo está mesmo de pa para o ar.
REUNIÃO DE FAMILIA - I 35
Terminado o serviço, Neco repõe os petrechos na bol fecha-a e senta-se ao lado da cama. Rodrigo passa a mão pe faces e pelo queixo.
- O mesmo Neco de sempre. O pior barbeiro do mundo. - A verdade é que vais, vens e acabas nas minhas garras. M
me dá esse toco de cigarro, que eu vou esconder.
Tira a bagana da boca do amigo, apaga-a com as pontas d
dedos amarelados de nicotina e mete-a no bolso.
- Vou te fazer outro pedido - diz Rodrigo em voz bai
- desses que um homem só faz a um amigo de confiança.
Neco vai acender outro cigarro, mas contém-se para não ag
raiar o enfermo.
- Que é?
Por um instante Rodrigo fica como quem não sabe por ora começar.
- Tu sabes como é este nosso pessoal... Vêem uma meni bonita sozinha num hotel e já imaginam que é mulher da vid e toca a dar em cima dela. Existem aqui uns rapazes
impossív como o Macedinho, o Teixeirinha e outros. Não podem enxerga mulher...
Neco sacode a cabeça, compreendendo aonde o outro q chegar.
- O que vou te pedir não é fácil, eu sei. Mas faze o qu puderes. Me dá uma olhadinha na Sônia de vez em quando. a única pessoa a quem posso fazer este pedido com
o espírit tranqüilo. Sei que não vais faltar com o respeito . à menina.
- Não sou santo, mas mulher de amigo pra mim é homem
- Acho que a solução é mandar a Sônia embora.
Também acho.
_ Se ao menos eu estivesse em condições de
quarto .
- Não contes comigo para outra visita como aquela.
me livre !
- Não te preocupes. Na próxima vez vou sozinho . , , se
é que vai haver uma próxima vez. Neco ergue-se.
Bom, vou cantar noutra freguesia.
- Quanto te devo?
- Ora vai amolar o boi!
No momento em que o amigo lhe estende a grande mão
ossuda, riscada de veias salientes dum azul esverdeado, ocorre a
Rodrigo uma idéia.
- Espera, acho melhor escrever um bilhetinho à Sônia. Neco
velho, tem paciência, me traz ali da cômoda papel e caneta ...
- barbeiro faz o que o amigo lhe pede. E resmunga:
- Era só o que me faltava! Virar alcoviteiro depois de
velho. . .
- fica esperando que Rodrigo escreva o bilhete.
- tardinha, ao sair para um passeio ocioso pela cidade. Floriano encontra Pepe Garcia na sala de visitas do Sobrado, sentado diante do Retrato.
Trata de pisar com cautela para não produzir o menor ruído, pois sabe o que terá de agüentar se o pintor lhe deitar as garras.
- uma história a um tempo comovente e grotesca. O artista aparece periodicamente no Sobrado e fica a contemplar durante horas a fio este quadro que todos, e ele
também, consideram a obra máxima de sua vida. O retrato de corpo inteiro de Rodrigo Cambará não só revela o artista no auge de seu poder criador como também em plena
posse de sua maturidade e de seu vigor física
O degrau range. Pepe volta a cabeça e, avistando Floriano, grita
- Vem cá, chico!
Floriano não tem outro remédio senão aproximar-se. Pousa o braço sobre os ombros do espanhol, que contínua sentado, e ficam ambos a mirar a tela.
- Agora me diga se esse que aí vês na força da juventude, da saúde e da beleza é o mesmo que está lá em cima...
Ora Pepe! - sorri Floriano. - Não sejas exagerado. Meu pai está conservadíssímo para um quase sessentão...
O pintor sacode a cabeça numa negativa.
sair deste Deus
36 O ARQUIPBLAGO

- Não, não e não! - Ergue os olhos para o amigo, feja-lhe o rosto com seu hálito de cachaça. - Don Pepe sa que diz. Esse Rodrigo do Retrato não existe mais!
Depois de trinta e cinco anos no Brasil, fala português c fluência, mas com um sotaque que por assim dizer lhe emb as palavras.
- Por que não sobes para conversar com o Velho? - Jamais!
- Faz quase um mês que ele chegou e ainda não o visita - Eu sei.
- Não és mais amigo dele?
- Amigo? Eu adoro teu pai. É exatamente por essa ra que não vou. Quero guardar dentro de mim a lembrança Outro. Desse que ali está na tela, por obra de meu gênio,
co
Aos setenta e um anos Pepe Garcia parece um Quixote capítulo final. Tem um rosto longo e emaciado, um par de ol escuros e ardentes, no fundo de órbitas ossudas:
os bigodes guias longas caem-lhe pelos cantos da boca, e a agudez do quei acentua-se na pera grisalha e mal cuidada. Veste uma velha roa de sarja cor de chumbo,
de gola ensebada: manchas de sopa molhos de almoços e jantares imemoriais deixaram-lhe nas lape desenhos indecifráveis. Seus pés longos e magros estão meti em alpargatas
de pano pardo.
- Bom, Pepe velho, tenhoo que sair ...
Como se não o tivesse ouvido, o outro murmura
- Eu devia amar-te também, porque te pareces com teu pap
Mas qual ! Não passas duma imitação barata do Rodrigo autê
tico que conheci ...
Floriano sai, com a impressão - que ao mesmo tempo diverte e enfada - de que o castelhano acaba de dizer uma verda
Atravessa a praça diagonalmente, em passadas lentas. Seis tarde. A luz do sol tem uma tonalidade de âmbar. O galo cata-vento da Matriz está imóvel na quietude morna
do ar. coreto, perto da pista circular de patinação, crianças brincam algazarra. Mocinhas que dão a impressão de que acabam de do banho, passeiam em bandos pelas
calçadas, algumas ato panhadas de rapazes. Em muitas das casas que dão para a pra senhoras gordas de ar plácido, debruçadas nas suas janelas, co templam a tarde
e a parada dos namorados. Tudo seria du doçura quase bucólica não fossem os alto-falantes da Rádio Anu ciadora, que despejam por suas gorjas de metal músicas estrídul
entremeadas de propaganda comercial e política. Quando a músi cessa, a voz do locutor, cheia de erres vibrantes, proclama alter demente a qualidade e os preços dos
artigos da Casa Sol, os mil
gres dum sabonete desodorante e a necessidade da volta de Getúlio Vargas.
Aos sons de um frevo frenético, Floriano encaminha-se para a rua principal. Sabe o que o espera neste passeio. Terá de parar mil vezes para abraçar conhecidos e
- o que é pior - pessoas que não conseguirá reconhecer. Sempre teve uma consciência muito viva de sua timidez e de sua preguiça de responder às perguntas que lhe
fazem, de mostrar-se simpático, atencioso, bom moço. Lembra-se de Ravengar, um herói de sua meninice, personagem de um romance-folhetim e de um filme seriado, inventor
de um manto que tinha a virtude de torná-lo invisível. Floriano lamenta não estar agora envolto na capa de Ravengar. Mas não! Está decidido a queimar, destruir para
sempre esse manto mágico, pois quer fazer-se visível como nunca, estar presente, participar... Vai ser duro, ah!, isso vai, mas está resolvido a levar a experiência
até o fim.
Avista Cuca Lopes e imediatamente seu espírito se transforma em teatro duma luta. Uma parte do seu eu lhe grita em pânico que se esconda. A outra quer arrastá-lo
na direção do mexeriqueiro municipal. E como esta última sente que vai perder a partida, lança mão dum recurso desesperado, criando o "caso consumado".
- Cuca! Como vai essa vida. homem?
O oficial de justiça precipita-se a seu encontro, de braços abertos.
- Menino, eu estava com uma vontade louca de te ver. Onde tens te metido?
Abraçam-se. Cuca tresanda a suor novo e antigo de mistura com o sarro das baganas que costuma guardar nos bolsos. É pequeno, roliço, rodopiante como uma piorra.
Gordurinhas meio indecentes acumulam-se-lhe no ventre e nas nádegas.
- Como vai o teu pai?
- Melhor, obrigado.
- l"u não imaginas - diz Cuca, cheirando a ponta dos dedos - todo o mundo está pesaroso. Que perda, se o Dr. Rodrigo morresse ! E o que digo sempre. Um amigaço e
tanto, o pai da pobreza, todo o mundo gosta dele. Eu que diga!
Floriano tenta despedir-se, seguir seu caminho, mas o outro o detém, segurando-o pela manga do casaco.
- Escuta aqui, Floriano, me disseram que teu pai trasantontem foi visto de noite no Hotel da Serra com o Neco Rosa. É verdade?
Não sei, não ando espiando o meu pai.
Ah! Logo vi que era mentira. Pois se o Rodrigo estava de resguardo por causa do incardo do mio ... infarto do miocár-
REUNIAO DE FAMILIA - I 37
38 O ARQUIPBLAGO
dio, digo, como é que ia já andar caminhando? E logo no Ho da Serra, de noite ... Só se foi algum amigo que chegou do digo ...
- Sinto muito, Cuca, mas não posso te esclarecer o assun Até logo.
Faz meia-volta e continua a andar.
REUNIAO DE FAMILIA - 1 39
O frevo terminou. O locutor dá os característicos da estaç Ouve-se um rascar de agulha em disco. e a seguir uma voz b empossada e solene: "Brasileiros! Patriotas
de Santa Fé! voltará! Venham todos ao comício queremista desta noite na Pr Ipiranga. Falarão vários oradores." Uma pausa dramática, depois: "Ele voltará!
A Rua do Comércio ! Floriano lembra-se dos tempos da ad lescência, e do titilante prazer com que, depois do banho tarde, todo enfatiotado e recendente a sabonete,
descia aque rua, rumo da outra praça, alvorotado à idéia de que em algu lugar ia encontrar a namorada (amores de estudante em férias ansioso pelo momento de passar
por ela e, a garganta apertada, orelhas em fogo, lançar-lhe um olhar comprido... Marina, Isau Rosália, Dalva.. , por onde andais?
Floriano lança olhares dissimulados para as fachadas de cert casas, como se temesse ser interpelado por elas. A arquitetura sua terra natal sempre o deixou intrigado.
Não é nada, n" significa nada. Certo, existem em Santa Fé algumas casas co o Sobrado e mais três ou quatro outras, que conservam algo d casarão senhoril português.
Sim, e ele sente uma simpatia especa - que nada tem a ver com arquitetura ou estética - por es meias-águas pobres de fachadas caiadas, cobertas de telha vã, co janelas
de caixilhos tortos, roídos pela intempérie e pelo cupi Não tolera, porém, os chamados palacetes com compoteiras sob as platibandas, esculturas em alto relevo nas
fachadas. Nestes úl mos dez anos surgiu na cidade a voga das casas cor de chumb cintilantes de mica. E um pretenso moderno, paródia ridícula d inovações arquitetônicas
de Le Corbusier, e que Roque Bandei classifica como "estilo de mictório".
O fato de o chão de Santa Fé ser de terra vermelha explica ar rosado e encardido das paredes, muros e até de certas pessoa Floriano lembra-se de sua irritação de
adolescente nos dias em q soprava o vento norte, com seu bafo quente, arrepiando-lhe epiderme, sacudindo as árvores, erguendo a poeira do chão, e dand ao ar uma
qualidade áspera de lixa.
Avista agora a Casa Sol, toda pintada dum azul de ani com suas numerosas portas e vitrinas. À sua frente acha-se reuni do, como sempre a esta hora, um grupo de pessoas
que ali fica
a trocar mexericos ou a discutir política e futebol. A Casa Sol é conhecida como um foco antigetulista. Ao passar por ela, na calçada oposta. Floriano não pode deixar
de envolver-se psicologicamente no manto de Ravengar. (Se eles me avistam e me chamam, estou frito ... ) Passa de rosto voltado, e tem a sorte de não ser visto.
Ali está agora a matriz da firma de José Kern. Esse teuto-brasileiro começou sua carreira no interior do Estado. como mascate: teve depois em Nova Pomerânia um pequeno
negócio que, com o passar do tempo, cresceu de tal maneira, que o homem acabou transferindo suas atividades comerciais para a sede do município. Este casarão - observa
Floriano - tem uma pesada arrogância germânica, temperada aqui e ali por ingenuidades nova-pomeranianas. Sempre que se refere a Kern, A Voz da Serra lhe chama "o
nosso magnata", pois é ele proprietário de várias fábricas - conservas, sabão, malas, artefatos de couro - e nestes últimos cinco anos tem andado metido em grandes
negócios de loteamento de terrenos e na construção de prédios de apartamentos. José Kern sempre teve ambições políticas: entre 1934 e 194O, foi ardoroso partidário
da suástica e do sigma. Agora, candidato a deputado pelo Partido de Representação Popular, mandou colar nas paredes e muros da cidade centenas de cartazes com seu
retrato e suas promessas eleitoreiras.
Floriano continua a caminhar. Duas quadras adiante lê numa placa oval de latão: Escritórios Centrais da Empresa Madeireira de Spielvogel & Filhos. Ao velho Spielvogel
o diário local chama "o rei da madeira". Os Kern e os Spielvogel, bem como os Kunz, os Schultz e muitas outras famílias de origem alemã, hoje em muito sólida situação
econômica e financeira, começaram paupérrimos a vida no Rio Grande abrindo picadas no mato, há mais de cem anos. Seus antepassados vieram do Vaterland entre 1833.
e 1848, estabelecendo-se no interior do município. 1
Um auto estaca junto do meio-fio da -calçada, e de dentro dele salta um homem alto e corpulento, que envolve Floriano num abraço sufocante.
- Santo Cristo ! Quase não te conheci !
Marco Lunardi, contemporâneo de Rodrigo, um ítalo-brasileiro de cara aberta e aliciante, pele cor de tijolo, olhos dum Verde-cinza. Suas manoplas seguram os ombros
de Floriano, sacudindo-os.
- E teu pai? Melhorou? Graças a Deus! Ainda não apareci lá porque o Dr. Camerino me disse que o Dr. Rodrigo não,pode ainda receber visitas. Mas penso nele o dia
inteiro. -Quando ele sarar, vou mandar rezar uma missa em ação de graças. Sabes duma coisa? Fiz uma promessa a Nossa Senhora da Conceição. Se teu Pai ficar bom,
vou distribuir mantimentos para a pobreza de
4O O ARQUIPÉLAGO

Santa Fé e dar dez mil cruzeiros para a igreja. Já avisei o P Josué.
Lunardi mira afetuosamente o filho do amigo.
- Estás cada vez mais parecido com o teu pai - diz sua voz apertada de vêneto, com esses levemente chiados. - T que sou devo ao Dr. Rodrigo.- Se não fosse ele, nem
sei o ia ser de mim. Os homens como teu pai estão acabando, tudo é interesse, só se pensa em ganhar dinheiro, futricar o ximo. uma porca miséria !
Floriano escuta-o, sorrindo, em silêncio.
- Precisas ir ver a minha firma. Tenho uma fábrica massas alimentícias, padaria, moinho de trigo, confeitaria ... ro que conheças a patroa, os filhos e os bacuris.
Tenho c netinhos.
Tira do bolso uma coleção de instantâneos de crianç mostra-os.
- Vê só quanto gringuinho. .
Floriano faz um esforço e diz:
- Muito lindos. Parabéns!
Quando Lunardi o deixa, depois de outro abraço apert ele fica a pensar nas histórias que ouviu a respeito de famï tradicionais de Santa Fé que, abastadas e influentes
há vinte trinta anos, foram decaindo, ao passo que imigrantes italia alemães. sírios e judeus prosperavam. Os Teixeiras perderam q toda a fortuna. Dos vastos campos
dos Amarais, pouca coisa resta em poder da família ...
E ali naquela janela - pensa Floriano, de novo quase pânico - está um símbolo vivo da decadência da nossa arisco cia rural. É Mariquinhas Matos, filha de estancieiro,
que foi "moça prendada" e considerada um dos melhores partidos da dade. Hoje, cinqüentona e solteira, vive solitária nesta casa q em ruínas, em meio de retratos
de antepassados, tendo guard numa arca a rica baixela de prata que nunca usa e, em velhos crínios, jóias de família que recusa vender, apesar de sofrer a curas financeiras.
Floriano pensa em mudar de calçada para evitar o encont Tarde demais ! A mulher, que o avistou, prepara para ele o fam sorriso que lhe valeu na mocidade o cognome
de Mona Lisa, e está com o braço estendido para fora da janela. Floriano apr o passo e aperta a mão magra, de pele pregueada e sarapintada manchas pardas.
- Bem-vindo! - exclama ela. - Bem-vindo seja o fi pródigo à casa paterna!
É ledora de novelas românticas, toca piano e adora Cho Um pescoço longo sustenta o crânio miúdo. Seu perfil adunco ave de rapina foi descrito em 192O como grego,
por um croni
REUNIAO DE FAMILIA - 1 41
local. Está como sempre exageradamente pintada, as pálpebras lambuzadas de bistre, uma rosa de ruge em cada face. Com os
cotovelos fincados da blusa parai
prende a g
esconder a pelanca frouxa do pescoço e ao mesmo tempo firmar a da papada.
- Como vai o papai?
- Melhor, muito obrigado.
Dois gatos - dos sete que o folclore local atribui à casa de Mariquinhas Matos - saltam quase ao mesmo tempo para o peitoril da janela, um negro e o outro fulvo,
e ficam ambos a ronronar e a esfregar-se nos braços da dona, com uma sensualidade fria
- asmática. O bafio de mofo que vem de dentro da casa, misturado com um cheiro de excremento de gato, chega às narinas de Floriano tamisado pela fragrância de Tricófero
de Barry que se evola dos ca
belos da Gioconda.
- Que é que tem achado de nossa cidade? - pergunta ela com sua voz abemolada.
Certas pessoas - reflete Floriano - para mostrarem que são educadas, erguem o dedo mínimo quando seguram as asas das xícaras de chá. Há um tom de voz que corresponde
exatamente a esse erguer do dedinho social. E foi com essa voz que Mariquinhas fez a pergunta.
- Parece que tem progredido muito - responde ele, achando
- diálogo ridículo, pois o Outro não participa dele, está afastado à beira da calçada, a observar a cena com olhos críticos e antipáticos como os dos gatos.
Floriano vislumbra nas paredes da sala velhos retratos avoengos, nas suas molduras douradas: a um canto um piano de cauda sobre cuja tampa se adivinham bibelôs,
guardanapos de croché e búzios. De vez em quando atravessam a penumbra desse interior vultos esquivos de outros gatos, os olhos a fuzilarem ... A isto está reduzida
a única descendente viva do Barão de São Mar. tinhol Contam-se dela as histórias mais doidas. Dizem que em certos dias da semana, Mariquinhas Matos, vestida de branco
da cabeça aos pés, freqüenta o único terreiro da Linha Branca de Umbanda que existe em Santa Fé e que, não raro, durante a sessão, baixa sobre ela o espírito dum
"caboclo" e - o rosto contorcido,
- corpo convulsionado - ela começa a balbuciar palavras da língua guarani, pede um copo de cachaça e um charuto, e se põe a beber
- a fumar como uma desesperada.
- Então - pergunta a Mona Lisa com um trejeito faceiro de boca. - Quem é a felizarda?
Floriano sabe o que ela quer dizer, mas pergunta:
Quem?
Ora, a namorada. . .
Ah, não sei ...
44 O ARQUIPÉLAGO

- Não se lembra mais da Marta? pergunta ela, abra do-o e beijando-o também nas faces.
Agora a Marta dos vinte anos volta à mente de Floriano fresca, bonita, com suas pernas apetitosas que ele tanto gosta de namorar. Santo Deus ! Como uma criatura
pode mudar l
Só agora Floriano presta atenção em Júlio Schnitzler. A 1 brança que guardava dele era a de um homem atlético, de porte mar - um dos melhores ginastas do Turnverein
local, onde era ca peão de halteres. Neste velho que está agora na sua frente calvo, emurchecido e meio encurvado - pouco resta do antigo Júl Só se salvaram os olhos,
que guardam a límpida inocência de an gamente.
- Toma alguma coisa? - convida o confeiteiro.
Floriano agradece. Não quer nada, está próxima a hora jantar. Tem de ir andando... Sai. As mulheres tornam a beijá-l A "pata" torna a grasnar, mas desta vez de mansinho,
já n tom nostálgico de despedida.
A rua está cheia dos sons embaladores duma valsa. Esmeralda Pinto, dona da língua mais temida da cidade, e
contra-se como sempre à sua janela, a pescar passeantes para prose
Floriano cai-lhe inadvertidamente na rede. - Então, não conhece mais os amigos? - D. Esmeralda!
Aperta-lhe a mão. Ela se inclina, dando-lhe uma batidinha
ombro. Está pintada com o mesmo exagero da Mona Lisa.
- Eu queria muito falar contigo.
Nem sequer pede notícias da gente do Sobrado.
- Escuta, menino, e essa história da amante do teu pai, hei Floriano conhece a força da interlocutora, mas não espera
que ela entrasse tão sofregamente no assunto.
- Que história? - desconversa.
Esmeralda leva o indicador ao olho direito para dar a ente
der que não dorme, que enxerga as coisas.
- Olha, esta aqui ninguém engana, ouviste? Podem dizer tu
de mim, que sou faladeira, edecetra, mas duma coisa ninguém
chama. IÈ de hipócrita. Porque não sou. - Claro que não.
- Pois então desembucha. Queres entrar? - Não, obrigado.
- Sei que o nome dela é Sônia, tem vinte e poucos anos e tra santontem`teu pai visitou ela no hotel... por sinal foi lá co aquele cafajeste do Neco Rosa, e ficou
no quarto da rapariga um duas ou três horas. Foi por isso que ele teve o novo ataque, não foi
- A senhora está muito bem informada.
REUNIAO DE FAMILIA - I 45

Pois é. Aqui desta janela controlo toda cidade. Comigo ninguém banca o santinho. Sei os podres de todo o mundo.
Floriano sorri amarelo.
_ Conta alguma coisa, rapaz., _ Que é que vou contar?
- Tua mãe sabe da história? - Não perguntei.
- Pois se não sabe é de boba. Em Santa Fé não se fala noutra
coisa. Até as pedras da rua sabem.
- Que é que a senhora quer que eu faça? Esmeralda lança-lhe um olhar enviesado.
- Floriano, tu tens outro por dentro. Te conheço muito bem.
Queres fingir que não sabes de nada, não? - Mostra-lhe o dedo
mínimo: - Morde aqui ...
- Bom, com licença ...
Esmeralda sorri, os dentes postiços aparecem, sua face se pre
gueia.
- Vais ver a rapariga? - Que rapariga?
- A amásia de teu pai, ué !
Ele se põe em movimento, sem responder.
- Aproveita, bobol O Velho está pagandol


Ao ler numa fachada um letreiro evocativo - A Lanterna de Diógenes - Floriano atravessa a rua. Era nesta livraria que, quando menino, uma vez por semana ele vinha
alvoroçado buscar o seu número de assinatura d"O Tico-Tico, ansioso por saber das novas aventuras de Chiquinho e Jagunço e da família de Zé Macaco e Faustina. Foi
também nesta pequena casa de duas portas e uma vitrina que ele comprou as novelas que lhe encantaram a meninice e a adolescência.
Entra. Olha em torno. Pouca coisa aqui mudou nestes últimos vinte e cinco anos. O mesmo balcão lustroso, as mesmas prateleiras sem vidros, cheias de livros, em sua
maioria brochuras. O mesmo cheiro seco de papel de jornal e de madeira de lápis recém-apontado. A máquina registradora Nacional (o freguês verá no mostrador a importância
de sua compra) parece também ser a mesma. Ao lado dela, sobre o balcão, algumas dezenas de folhas de papel de seda de várias cores. (Por que céus andarão as pandorgas
da infância?)
Só falta aqui o velho Gonzaga, o antigo proprietário, que passava os dias com o chapéu na cabeça, atrás do balcão, decifrando charadas ou escrevendo quadrinhas,
com um cigano num canto da boca e um pau de fósforo no outro. Morreu há uns dez anos, deixando a livraria para um filho que, em vez de cuidar do negócio, passa as
tardes no clube, jogando pife-pafe.
46 O ARQUIPÉLAGO

Floriano lembra-se de um dia assinalado de sua vida. Tinha n anos e a professora D. Revocata Assunção lhe dissera em pl aula: "Seu Floriano, agora que o senhor sabe
escrever, pode co prar um caderno de pauta simples." Finalmente! Aquele era u de seus grandes sonhos: escrever sobre linhas simples. como a pr fessora, como papai,
como os grandes! Munido de dinheiro, caminhou-se para A Lanterna de Diógenes, pisando duro, sentind se homem, orgulhoso de fazer aquela compra sozinho. Tudo pequena
livraria o encantava, a principiar pelo dono, que costuma brincar com ele, propondo-lhe charadas e adivinhações. "Deves um menino inteligente. Filho de tigre sai
pintado." Ele gostava ouvir aquilo. Era filho de tigre. Os Cambarás eram tigres. O no da livraria também lhe estimulava a fantasia. Papai lhe explica um dia que
Diógenes tinha sido um filósofo da Grécia antiga q andava pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa, e quando 1 perguntavam : "Que buscas?" ele respondia : "Um
homem." P o menino Floriano, porém, a palavra lanterna evocava a fantasm goria da lanterna mágica com seus filmes coloridos como a Dan dos Sete Véus e a Viagem à
Lua... Diógenes, portanto, era an de tudo um mágico.
Floriano olha agora, distraído, para as velhas prateleiras, quan ouve uma voz
- Que é que o senhor deseja?
Quem lhe faz a pergunta é uma mulherzinha pálida que aca
de sair de trás duma cortina de pano verde. Responde auto nata
mente:
- Um caderno de pauta simples. - Cinqüenta ou cem páginas? - Cem.
A empregada embrulha o caderno. Floriano paga, apanha pacote e sai, sorrindo. A cena lhe parece tão extraordinária que e não quer comentá-la nem consigo mesmo.
Volta para o Sobrado por uma rua menos movimentada.
Caminha alguns passos, de olhos baixos, absorto em seus pe lamentos. Quando ergue a cabeça, vê a pequena distância um bom em mangas de camisa, a tomar chimarrão
sentado numa cadeira calçada, à frente de sua casa. O Roque Bandeira ! É uma das pou pessoas de Santa Fé cuja companhia Floriano realmente preza. opinião popular
a respeito dele na cidade é unãonime: um boêmi um excêntrico, um doido. Três coisas o tornam notável ao olh da população: sua fealdade, sua grande erudição e seu
completo d prezo pela opinião pública. Floriano, que o conhece desde menin considera-o um homem inteligente e muito bem informado. S
opiniões cínicas sobre a vida e os homens o divertem. Seu humor sarcástico o fascina e ao mesmo tempo alarma.
Floriano acelera o passo.
- Bandido! - exclama. - Que é feito de ti? Há quase uma semana que não apareces lá em casa !
Com sua pachorra habitual, Bandeira ergue-se e estende a mão para o amigo, como se o tivesse visto na véspera.
- Pois aqui estou. .. - diz.
um homem de meia-idade, baixo e mal proporcionado. Sua cabeçorra, que tanto lembra um capacete de escafandro, parece não pertencer a este corpo de ombros estreitos
e pernas finas. Toda a gordura se lhe acumulou na cara e no ventre. Seus olhos cor de malva brilham, pícaros e meio exorbitados, protegidos por pálpebras arroxeadas,
e permanentemente empapuçados. Floriano sempre se impressionou com a espessura do pescoço do Bandeira ou, melhor, com a ausência de pescoço no amigo, já que a papada
lhe cai sobre os ombros e o peito. O homem a qualquer momento pode estourar ou morrer asfixiado.
Roque Bandeira não ignora que na cidade é conhecido como o Batráquio, o Cabeçudo, o Sapo-Boi. .. De todas as alcunhas que lhe puseram, uma há que lhe é grata ao
coração, e que ele aceita como uma espécie de título honorífico. Floriano tinha nove anos e testemunhou a cena em que o cognome nasceu. Foi em 192O, quando Bandeira
começava a freqüentar o Sobrado. Numa noite de inverno, à hora em que as crianças diziam "boa noite" às visitas, antes de subirem para os seus quartos, Bandeira
estendeu os braços para Jango e convidou: "Venha com o titio." Sem pestanejar Maria Valéria exclamou: "Vá com o Tio Bicho!" A frase pareceu escapar-lhe espontânea
da boca, como se a velha tivesse pensado em voz alta. Fez-se um silêncio de constrangimento. Rodrigo fechou a cara e lançou um olhar de censura para a ria. Roque
Bandeira, porém, desatou a rir: "Mas é um grande achado! - disse. - Faço questão de que daqui por diante estes meninos me chamem Tio Bicho!
- Que tens feito? - pergunta Floriano.
- Nada, como sempre.
Deve ser mentira. Tio Bicho passa o dia lendo, estudando, e escrevendo coisas que jamais mostra aos outros. Poliglota, está ao corrente do que se publica de importante
no mundo, em alemão, francês, italiano, espanhol e inglês. Gasta quase tudo que ganha - produto do arrendamento de um campo herdado do pai - com livros, revistas
de cultura e peixes vivos. Sua paixão é a Oceanografia: tudo quanto diga respeito à fauna, à flora, à vida e à história marítimas lhe desperta o maior interesse.
Costuma explicar que seu fascínio pelos peixes não é apenas científico, mas também poético. E diverte-o lembrar aos outros que ele talvez seja o único oceanógrafo
do mundo que não conhece nenhum oceano. De fato, nunca
REUNIAO DE FAMÍLIA - 1 47
48 O ARQUIPÉLAGO
viu o mar. Por quê? Ora, comodista, homem de hábitos detesta viajar, e mesmo nunca lhe sb dihi
oranero para isso.
à Oceanografia, contenta-se com o Riacho do Bugre Morto e lambaris.
- Como vai a tua antologia? - pergunta Floriano. - Marchando devagarinho.
Há anos que Bandeira vem preparando uma antologia d
$os sobre peixes, em cinco línguas
.
- Ainda ontem - contou descobi hi
, -r uma-kai ja
que conta a história dum peixe prateado que se apaixonou pela
Não preciso te dizer que é um caso de aml
or ma correspon Mas.. , queres entrar? Não repares qih
,ue a mna casa está
anarquia dos diabos. Tomas um mate? Ah ! Não me lembrava
não és homem de chimarrão .
Floriano tem uma idéia
- Vamos até o Sobrado olhar o pôr de sol da janela da á furtada!
Tio Bicho hesita por um momento.
- Bom, espera um minuto. Vou enfiar o paletó.
Entra. Vive sozinho nesta casa branca que mandou tons inspirado na fotografia duma residência árabe de Oran, que en trou num magazine francês Ail d
. sngeezaa fachada - cosi dizer - representa seu protesto mudo mas sólido contra o que chama de "barroco santa-fezense de que sãol b
exemposerrant
edifício da Prefeitura Municipal e "o palacete dos Prates.
Quando Bandeira torna a aparecer, de casaco e chapéu, Flori não consegue reprimir um sorriso
.
- Ls o único habitante de Santa Fé que ainda usa palheta. Ou "picareta", como se diz no Rio Grand


e.
Tio Bicho dá de ombros.
- Sou conservador.
Outra inverdade. Está sempre aberto às idéias novas, sem disposto a reexaminar as antigas Sua "esilidd"
.pecaae no morre são uns filósofos alemães modernos de que ninguém ainda ou falar em Santa Fé, talvez nem mesmo o Dr. Terêncio Prates, ou
bibliomaníaco.
- Como vai o morgado? - indaga Bandeira, quando am sobem a rua lado a lado.
- Não sabes da última?
pulmão Teve ontem um edema agudo .
- Esse edema só podia ser agudo. Teu pai é o homem extremos.
Bandeira caminha devagar, com cautela, como se tivesse equilibrar a pesada cabeça sobreb
os omros. Floriano lança
olhares de soslaio. O amigo tem na maneira de andar algo q lembra a imagem dum santo quando carregada emiã
procsso.
REUNIAO DE FAMILIA - I 49 ficho é atacado dum acesso de tosse bronquítica, que. o põe ver
com lágrimas nos olhos.
elho e Eu devia deixar o cigarro. É o que o Camerino vive me Izendo
ento exao em que chegam à porta do Sobrado, um
t
No mom empoeirado pára junto da calçada e Jango salta de utomóvel
Está em mangas de camisa, veste bombachas de riscado entro dele. e traz na cabeça um chapéu de abas largas, com
om botas de fole, role. Unia dois dias deCs destabraçaro
pergunta,depoi O
primeira oreno. A P Irmão e o amigo, é
__. E o Velho como vai?
Tem uma voz grave e meio pastosa, de tom autoritário.
- Não soubeste? Teve ontem uma crise muito séria - informa-lhe Floriano. - Agora está melhor.
Jango franze o cenho, entrecerra os olhos.
- Andou comendo alguma coisa que não devia?
An lhe como or gelatina. sorrindo. Jango olha de um para a rir, a papada treme
outro, sério e intrigado. ? - pergunta, olhando
- Por que não mandaram me chamar.
para o irmão, que se limita a encolher os ombros.
Jango entra em casa e galga as escadas, rumo do quarto do pai. Tio Bicho resolve fazer uma pausa e senta-se, antes de enfrentar os trinta degraus que levam à água-furtada.
O Dr. Camerino vem descendo agora, terminada a sua visita da tardinha ao enfêrmo.
- Vocês perderam um grande espetáculo - diz ele aos amigos. - O encontro de Don Pepe com o Dr. Rodrigo...
Tio Bicho passa o lenço pela carantonha suada. O médico, baixando a voz, conta:
- Encontrei o pintor aqui embaixo, contemplando sua obraprima. Quando me viu, perguntou se podia visitar o amigo... Respondi que, se ele prometesse portar-se bem
e não fazer drama, eu não me oporia à visita. Subimos juntos. Imaginem a cena. O Dr. Rodrigo na cama, exclamando "Pepe velho de guerra ! Entra, homem. Então abandonaste
o teu amigo dos bons tempos?" ...e o espanhol, trágico, parado à porta, com a mão no trinco, assim como quem não sabe se deve ou não entrar ... De repente os
beiços de Don Pepe começam a tremer, seus olhos se enchem de
lágrimas e ele se precipita para a cama, ajoelha-se, abraça o amigo,
planta-se a beijar-lhe a testa e acaba desatando numa choradeira
danada, com soluços e tudo. Eu nessa altura já estava arrepen
dido de ter consentido na visita, porque o Dr. Rodrigo não deve se
emocionar.
. .
Tio Bicho volta-se para Floriano:
REUNIAO DE FAMILIA - I 51
- Aí tens uma cena de romance. Camerino acende um cigarro e continua:
- Por fim o castelhano se acalmou e os dois ficaram rec dando coisas... Te lembras disto? Te lembras daquilo? E nosso jornal político? E aquela serenata em tal e
tal noite? fim levou Fulano? E Fulana? E que é que estás fazendo ag Pepito? Foi a conta. O espanhol fechou a cara e respondeu: "Pi cartazes para o cinema desse hi
jo de puta do Calgembrino, que paga uma miséria." E caiu em nova crise de pranto, "porque um miserável, traí a minha arte, não sou mais digno da obra está lá embaixo.
.. " Para encurtar o caso o Dr. Rodrigo peg uma pelega de quinhentos cruzeiros e quis metê-la no bolso Pepe. Pois olhem! O castelhano virou bicho. Ergueu-se com
dig dade e disse: "Me insultas, Rodrigo!" Não houve jeito de atei o dinheiro. Virou as costas e caminhou para a porta. O Dr. drigo gritou: "Vem cá, homem, não sejas
teimoso! Por dinheiro que eu te dê jamais chegarei a pagar aquele retrato!" não tinha terminado a frase e Don Pepe já estava na escada.
- Mas não aceitou mesmo o dinheiro? - pergunta Floria - É incrível. O pobre homem vive na miséria.
Os olhos do Roque Bandeira fixam-se no amigo.
- Toma nota, romancista. As pessoas não são assim simples como a gente imagina... ou deseja.
Camerino despede-se e sai. Floriano e Roque sobem par água-furtada.
Quando pequeno, Floriano costumava designar a água-furt pelo nome que seu pai e seu tio Toríbio lhe davam quando ta bém meninos: o Castelo. Mas, adolescente, num
período em andava a ler enlevado novelas românticas que"se passavam na P do século xix, decidiu chamar a esta parte do Sobrado "a M sarda". Estão aqui reunidos,
como num congresso de aposentad um velho divã, uma prateleira com brochuras desbeiçadas, velho gramofone de campânula, com uma coleção de discos anti uma pequena
mesa de vime e algumas cadeiras - coisas retiradas do serviço ativo da casa, nos andares inferiores.
Roque Bandeira está ofegante da subida e só agora, arre dido, Floriano compreende que não devia ter convidado o am para vir até aqui.
- Esqueces que sou mais velho que o século - diz Tio Bi - e que subir uma escada a pique como esta não é brincadé Da minha casa eu podia ver o mesmo espetáculo...
de graça.
Floriano sorri, desembrulhando o caderno que comprou pouco, e atirando-o em cima da mesinha.
._ Pois este cubículo, Roque, foi sempre uma espécie de céu para mim ... um refúgio, como havia sido antes para meu pai e tio Toríbio, quando rapazes.
Tio Bicho senta-se no divã e começa a abanar-se com a palheta - pois esta é a peça mais quente da casa - e a passar o lenço pelo rosto lavado de suor.
- Não - diz - há uma grande diferença entre o menino Floriano e os meninos Toríbio e Rodrigo. Uma diferença abismal, com o perdão da má palavra. Teu pai e teu tio
sempre foram homens de ação. Para eles o verdadeiro céu era o mundo real, palpável, que eles gozavam com os cinco sentidos, voluptuosamente. Talvez viessem até aqui
para lerem às escondidas novelas pornográficas ou para fazerem bandalheiras com alguma criadinha. Mas tu, tu te fechavas aqui para sonhar. Este era o teu mundo do
faz-deconta. Certo ou errado?
- Certíssimo. Este quartinho para mim já foi tudo ... O Nautilus do capitão Nemo... a mansarda dum pintor tísico em Paris ... a barraca dum chefe pele-vermelha,
a mansão dos Baskervilles onde muitas vezes esperei," apavorado, o aparecimento do mastim fantasma ...
- Aposto como estás esquecendo uma das funções mais importantes deste sótão.
Os olhos do Batráquio fitam o interlocutor com uma expressão pícara. Floriano hesita por alguns segundos, mas acaba capitulando:
- Tens razão. Era também o meu harém, o meu bordel imaginário. Aqui eu recebia a visita das mais belas estrelas de cinema da época ... Pearl White era a minha favorita.
Roque solta o seu lento riso gutural.
- Eu sou do tempo da Francesca Bertini. Foi o meu maioí amor. Tua geração não a conheceu, nem à Bela Hespéria ou-à" Pina Menichelli. Creio que quando começaste a
ir a cinema, as fitas italianas já haviam desaparecido do mercado... .
- Mas eu me lembro do Macisté !
- A tua geração perdeu grandes filmes como Cabiria e Quo Vadis?. Tu, miserável, pertences à era-ianque do cinema.
- Te lembras das fotografias de artistas de cinema de coxas à mostra que as revistas como-o Eu Sei Tudo e a Cena Muda publicavam? Marie Prevost... Renée Adorée...
Clara Bow... "as banhistas de Mack Sennett... " Amei todas elas nesse divã.
Pois nessa época eu já tinha mulheres de verdade. .. "
Ergue-se, segura com força as lapelas do casaco do amigo, e, cara a cara, pergunta, com uma" seriedade cômica
Agora confessa: alguma mulher" de carne e osso, sangue e, nervos te deu um prazer físico mais intenso que o que te proporcionaram essas figurinhas de revista? Fala
com sinceridade.
5O O ARQUIPÉLAGO
#52 O ARQUIPÉLAGO
REUNIAO DE FAMÍLIA - I 53
- Ora, Roque, estás insinuando um absurdo.
- Pois eu te juro que o artigo autêntico foi para mim decepção !
Torna a sentar-se.
- Bom, contigo deve ter sido diferente... - continua. Tens bom físico, encontraste fêmeas de verdade que te amaram pelo menos se entregaram a ti por desejo... Mas
olha para cara, para este corpo... Achas que alguma mulher de bom-g pode ir para a cama comigo por desejo? Não precisas respon Tens receio de ferir as pessoas. És
uma verdadeira Irmã Pa Mas não fiques aí com essa cara. Esta feiúra me tem trazido ta bem algumas vantagens. Por exemplo: impediu que alguma mu quisesse casar comigo.
Assim, pude conservar a minha liberdade
Floriano não ignora que Roque Bandeira costuma fazer mentários humorísticos sobre o próprio físico, e isso sem que lhe note na voz o menor tom de ressentimento ou
de aut miseração.
- Mas e esse famoso pôr de sol? - reclama Tio Bicho. O outro aproxima-se da janela e olha para o poente.
- Podes vir. O "astro rei", como diz o Pitombo, ent
em agonia.
Bandeira dá alguns passos e posta-se atrás de Floriano, que
- Parece que não vai ser dos melhores. Poucas nuvens.
- Não sou exigente, compadre.
O disco esbraseado do sol desce por trás de nuvens rosadas, forma de esguios zepelins de comprimento vário, com contor luminosos. A barra carmesim que começa no
ponto em que ce terra se encontram, degrada-se em rosa, ouro e malva para se tra formar num gelo esverdeado, que acaba por fundir-se na abób de água-marinha que
é o resto do céu.
- Olha só aquele verde. .. - murmura Floriano. - Não contrei es se torn em nenhum dos céus estrangeiros que vi minhas viagens. Me lembro dum pôr de sol fantástico
no Jar dos Deuses, no Colorado: os penhascos rosados, o vermelhão horizonte, a relva amarela ... tudo assim com um vago ar de cêndio ... Um azul inesquecível é o
do céu dos Andes. De em quando me voltam à lembrança os horizontes de Quito, aquele céu pálido e luminoso que cobre a meseta central do Méxi Queres um céu para a
noite? O das Antilhas. Mas céu como do Rio Grande, palavra, não vi outro. Repara bem naquela z verde... Parece um desses lagos vulcânicos, frio, transparente, sondável
...
Em presença de que outra pessoa - pensa Floriano - p ria ele entregar-se despreocupado a estes devaneios em voz alta? Bicho sempre teve sobre ele uma influência
catártica ...
- Olha só a estrelinha no fundo do lago - murmura Bandei
Como um peixe...
_ por que não? É quase um hai-kai. Te lembras do verso do Eugênio de Castro em que os peixes na piscina "têm relâmpagos de jóia"? Hoje em dia é de mau gosto citar
Engênio de Castro.
Retiro a citação.


A última luz do sol aprofunda-se o verde das coxilhas que cercam a cidade, e seus capões são agora manchas dum negro arro
xeado.
Com o olhar ainda no horizonte, Floriano pensa em Sílvia. Jango chegou. Mais uma presença perturbadora no Sobrado... Esta noite marido e mulher dormirão na mesma
cama. Jango tomará Sílvia nos braços, à sua maneira brusca e patronal, sem sequer tratar de saber das disposições dela. Crescerá sobre a criaturinha como um garanhão
sobre uma égua. Deve amar a esposa, sem dúvida alguma, mas por outro lado parece considerá-la como um objeto de uso pessoal. Talvez se deite sem barbear-se nem tomar
banho. Levará para a cama o cheiro do próprio suor misturado com o do último cavalo que montou ... É possível que seus toscos dedos que vão acariciar o corpo de
Sílvia recendam ainda
à creolina com que curaram a última bicheira. É também provável que esta noite ele possua a esposa com a esperança de deixar-lhe
no útero o germe dum machinho. Por todas estas coisas Floriano sente uma fria e repentina malquerença pelo irmão, mas censura-se por se ter deixado arrastar nessa
corrente de pensamentos mesquinhos. Terá ele coragem de confessar sentimentos como esse, se um dia vier a escrever algo de autobiográfico? E agora, como lhe vem
à mente uma das personagens de seu último romance, pergunta:
- Roque, te lembras da carta que me escreveste a respeito de meu último livro?
- Claro.
- Disseste que era "um romance aguado
- Isso faz uns três anos. Não esqueceste, hein?
- Confesso que a - coisa me irritou, embora eu estivesse e ainda esteja certo da validade de tua crítica ...
- Espera lá! Estás fazendo uma injustiça a mim e a ti mesmo. Eu reconheci qualidades no livro. Escrevi que ele tinha uma grande força poética, e se não me falha
a memória, disse também que o leitor que começasse a ler a tua história, iria até o fim...
Sempre com os olhos no horizonte, Floriano completa a frase da carta
- " .. apesar de convencido da sua falta de autenticidade", não foi isso?
#54 O ARQUIPFLAGO

Tio Bicho limita-se a soltar um grunhido. Floriano apo para o caderno de capa azul, sobre a mesa, e conta o que se pa n"A Lanterna de Diógenes.
- Parece que estou ouvindo minha professora dizer com voz de homem: "Seu Floriano, agora que o senhor sabe escr pode comprar um caderno de pauta simples." Pois.
Roque, vi e cinco anos depois dessa frase histórica, em que pese ao ofício escolhi. ainda não aprendi a escrever.
- Mas quem é que sabe mesmo escrever nesta época ap sala e neste país imaturo?
- Tu compreendes o que quero dizer.
Bandeira continua também com os olhos postos no sol, começa a desaparecer na linha do horizonte.
- Queres que te fale com franqueza? O que me desagr nos teus romances é ... vamos dizer. .. a posição de turista assumes. Entendes? O homem que ao visitar um país
se inter apenas pelos pontos pitorescos, evitando tudo quanto possa si ficar dificuldade... Não metes a mão no barro da vida.
Floriano tem a quase dolorosa consciência de que o ant está com a razão. Ele próprio já chegou à conclusão de que d tornar-se "residente" no mundo ou pelo menos,
na sua terra, e sua gente: erguer uma casa em solo nativo. Mas replica:
- Não estarás simplificando o problema por amor a metáfora?
- Talvez. Mas espera. Entras na história como um le prometes grandes coisas, o leitor mentalmente esfrega as mãos nu antecipação feliz... Mas lá pela metade do livro
o leão vira Beiro, a promessa não se cumpre, tudo se dilui numa vaga atro fera poética, nesse espírito que em inglês (perdoa a erudição má pronúncia) se chama u7ishful
thinking.. .
- Desgraçadamente estou inclinado a concordar contigo.
- Não concordes demais, senão será impossível continuar a discutir. Ninguém gosta de bater num homem deitado.
Floriano escuta. Tudo isto lhe é desagradável mas necessa Tio Bicho acende um cigarro, dá uma tragada e expele a fum pelo nariz, como costumava fazer há vinte anos
nos serões Sobrado, para divertir os meninos.
- Em suma - diz Floriano - meus romances são ai masturbatórios.
Deseja que o outro não concorde. Bandeira solta um cuspi
- Até certo ponto são mesmo.
Novas cores surgem no céu: pinceladas de roxo, cinza, par vermelho queimado... O lago verde agora adquire um tom turquesa. As nuvens se dissiparam. Ao cabo de um
curto silên pondo a mão pequena e gorda no ombro do amigo, Tio Bi torna a falar.
REUNIAO DE FAMILIA - I 55

presta bem atenção. Suponhamos que a vida é um touro que todos. temos de enfrentar. Como procederia, por exemplo, o teu avô Llcurgo Cambará, homem prático e despido
de fantasia? Montaria a cavalo e, com auxílio de um peão, simplesmente trataria de laçar o animal. Agora, qual é a atitude de seu neto Plonano Cambará? Tu saltas
para a frente do touro com uma capa vermelha e começas a provocá-lo. De vez em quando fincas no lombo do bicho umas farpas coloridas ... Mas quando o touro investe,
tu te atemorizas, foges, trepas na cerca e de lá continuas a manejar a capa, para darr aos outros e a ti mesmo a impressão de ainda estar na luta... E uma atitude
um tanto esquizofrênica, com grande conteúdo de fantasia Certo? Bom. Toma agora o teu rio Toríbio... Qual seria a atitude dele?
- Pegaria o touro a unha.
- Exatamente. Levaria a loucura e a fantasia até suas últimas
conseqüências 1
- Aonde queres chegar com tua parábola?
- O que quero dizer é o seguinte. Se num romancista predomina a atitude do velho Llcurgo. isto é, o senso comum. corremos o risco de ter histórias chatas como a
de certos autores ingleses cujas personagens passam o tempo tomando chá, jogando cricket ou Windo no tempo. Queres um exemplo? Galsworthy. Ora, tu sabes que eu seria
o último homem no mundo a negar a importância e a beleza do teu bailado de toureiro para qualquer tipo de arte.. . Há até uma certa literatura que não passa duma
série de jogos de capa e bandarilhas. Mas o que dá a um romance a sua grandeza não é nem o seu conteúdo de verdade cotidiana nem o seu tempero de fantasia, mas o
momento supremo em que o autor agarra o touro pelas aspas e derruba o bicho. Se queres um exemplo de romancista que primeiro faz verônicas audaciosas e depois agarra
o animal a unha, eu te citarei Dostoievsky. E se me vieres com a alegação de que o homem era um psicopata, eu te darei então Tolstoi. E se ainda achares que o velho
também não era lá muito bom da bola, te direi que um homem realmente são de espírito não tem necessidade de escrever romances. E se depois desta conversa me quiseres
mandar àquele lugar, estás no teu direito. Mas mantenho a minha opiniá_9 O que te falta como romancista, e cambem como homem, é" garrar o touro a unha .. .
Como se tivesse sentido de repente que havia levado longe danais a franqueza, Tio Bicho toca o amigo no braço, faz com a cabeçona um sinal na direção do horizonte
e, mudando de tom, diz:
Olha só o velho sol... Não parece ensangüentado e fendo de morte, prestes a tombar na arena ?
Franqueza dói, Roque, mas estou precisando mais que nunca duro tratamento de choque... Continua.
56 O ARQUIPÉLAGO
- Acho que agora quem deve falar és tu. O simples fat de teres puxado o assunto indica que o problema te preocupa que andas em busca duma solução.
- Isso! No fundo não foi por outra razão que aceitei a idé` de acompanhar a família nesta viagem. Cheguei à conclusão de q não podia continuar onde estava. .. ou
onde estou. - Sorri. Nem sei se devo dizer estava ou estou.
- Isso é lá contigo .. .
- Deves ter compreendido que pouco ou nada tenho a v com a minha gente e a minha terra. E essa situação,, que antes m parecia tão sem importância, nestes últimos
cinco anos me te preocupado. E ...
Mordendo o cigarro, a voz apertada, o Batráquio interrompe-o"
- Puseste o dedo no ponto nevrálgico da questão. És u homem sem raizes. Repara na pobreza da obra dos escritores exi lados. Não creio que um romancista como tu assim
desligado sua querêncía e de seu povo possa fazer obra de substância. Tu histórias se passam num vácuo. Tuas personagens psicologicament não têm passaporte. É muito
bonito dizer que tal ou tal tipo nã tem pátria porque é universal. Mas nenhuma personagem da lite rasura se torna universal sem primeiro ter pertencido especificamen
a alguma terra, a alguma cultura.
Cala-se. Ambos olham para o poente, de onde o sol acaba desaparecer.
- Perdoa, Floriano, se às vezes fico um pouco solene ou dogma tico. Não é do meu feitio. Mas o assunto leva a gente para es lado. Acho que deves dar o teu primeiro
passo na direção d "touro" reconciliando-te com o Rio Grande, com os Terras, Quadros, os Cambarás. Bem ou mal, foi aqui que nasceste, ciou estão as tuas vivências..
.
- É curioso, mas estás repetindo exatamente o que tenho dit a mim mesmo nestes últimos anos, principalmente nos que pas no estrangeiro...
Tio Bicho atira o, toco de cigarro em cima do telhado.
- Maeterlinck escreveu muita besteira, mas aquela história d pássaro azul, digam o que disserem, é um belo símbolo apesar d que possa ter de elementar. É uma idiotice
a gente sair pelo mund em busca do pássaro azul quando ele está mesmo no nosso quintal
Floriano volta-se para o amigo.
- Mas o curioso, Roque, é que quando estamos em cas vemos nosso pássaro azul apenas como uma-pobre galinha magr e arrepiada.
O Batráquio sorri.
- Aí é que está a coisa - diz, metendo a mão por dentro das calças e pondo-se a coçar distraidamente o ventre. - E tamw,
bém possível escrever grandes páginas sobre galinhas magras, arrepiadas e cinzentas. O importante é que o bichos sejam autêtí.ticos.
pe, ata o seu lento riso gutural. Depois ajunta:
~- Talvez o princípio da tua salvação (se me permites usar esta palavra) esteja nas galinhas do Sobrado ou do Angico.
Agora é noite nos campos, na cidade e na mansarda.
_. E se descêssemos? - pergunta Bandeira.
Floriano não responde nem se move. Quer continuar a conversa aqui na penumbra. Teme que não se apresente outra oportunidade para discutir o problema.
- Preciso também fazer as pazes com meu pai. Tu compreendes o que quero dizer... Chegar a um ajuste de contas, nos termos mais francos e leais... E principalmente
cordiais.
- Acho que tens razão.
- Sempre julguei o Velho pela tábua de valores morais dos Quadros, o que é um absurdo, pois intelectualmente não aceito essa tábua. Mas tu sabes, na casa dos vinte
a gente ainda acredita um pouco no mundo de homens perfeitos que nos prometia na escola a Seleta em Prosa e Verso.
Após uma pausa, Floriano prossegue:
- Agora me ocorre uma coisa curiosa. Sempre que estou escrevendo uma cena de romance. imagino a contragosto que minha mãe está a meu lado, lendo o que escrevo por
cima do meu ombro.. . lendo e reprovando, escandalizada.
- E te repreendendo! Essa censura interna, compadre, é pior que a do falecido DIP, talvez pior que a da Destapo. -Uma censura que vem de fora pode ser iludida, há
meios ... Mas a outra ...
- E é em parte por causa dessa censura que sempre escrevo cheio de temores, de inibições ... Porque fica feio ... ou porque "não se deve-. .. porque vou ferir tal
pessoa ... ou tal instituição. Como resultado de tudo isto, fiquei na superfície das criaturas e dos fatos, sem jamais tocar no nervo da vida. Sempre me movimentei
num mundo de meias verdades. Espero que não imagines que eu tinha consciência clara dessas coisas, que eu sabia que estavam acontecendo. Estou fazendo uma crítica
post morrem. Uma necropsia. O termo é exato, porque considero defuntos todos os livros que escrevi até agora.
- O essencial, rapaz, é que tu estás vivo. Mas se agüentas mais uma impertinência deste teu velho amigo, te direi, já que trouxeste tua mãe para a conversa, que
em teus romances noto, digamos, uma "atmosfera placentária".
- É extraordinário que digas isso, pois desde que cheguei tenho estado a me convencer a mim mesmo que se voltei a Santa Fé foi para "acabar de nascer". Se me perguntares
como é que se consegue tal coisa, te direi que estou aprendendo aos poucos ...
REUNIAO DE FAMÍLIA - I 57
#58 O ARQUIPGLAGO

- Acabarás fazendo isso por instinto, espontaneamente, co um pinto que quebra com o bico a casca do ovo que o cont O essencial é sentir necessidade de nascer. --
fiandeira faz u pausa. inclina a cabeça para um lado, e depois diz- - Mas exist milhões de criaturas que morrem na casca... ou que continua viver na casca, o que
me parece pior.. .
Passos na escada. A porta se abre e um vulto aparece. Jacira. Vem anunciar que n ¡tintar está servido.
- Jantas conosco, Roque?
Não, obrigado. Preciso voltar para a toca
Para dar comida aos peixinhos`
Seja! E uma razão tão boa como qualquer outra.
Descem lentamente a escada mal-alumiada por uma lámp elétrica nua. Roque Bandeira, agarrado ao corrimão, sopra f e geme, a palheta debaixo do braço, o suor a escorrer-lhe
pelo ro
- Diz a teu pai que, quando o Dance me der a luz verde, vou prosear com ele.
Floriano pensa, apreensivo, no que o espera à mesa do jant Terá de enfrentar a família inteira. Vão ser momentos cie co trangimento, de conversa difícil Talvez salve
a situação o "t gaejo social", a loquacidade de Marcos Sandoval, que estará lugar de costume, penteado, perfumado e metido numa roupa bra imaculada.
Que show estará agora no Cassino da Urca? E a Fulana? T já subido para Petrópolis? E o Sicrano? Terá voltado para N York? Bibi, que detesta Santa Fé, não fará o
menor esforço esconder a sua revolta ante o fato de ter sido obrigada a acompan a família nesta viagem precipitada e estúpida. Jango, homem poucas palavras, não
abrirá a boca senão para comer: não oc tatá sua antipatia pelo pelintra que está sentado à sua frente. não lhe dirigirá sequer o mais rápido olhar. O lugar de Eduar
como de costume, estará vazio. Sílvia evitará os olhos dele. F riano, que por sua vez tudo fará para não se perder na conte plação da cunhada. Flora estará sentada
a uma das extremida d.. mesa, e seu rosto terá uma expressão de resignada e meio co frangida melancolia. Maria Valéria, à outra cabeceira, dará orde às criadas,
os olhos parados e vazios de expressão; e, apesar catarata, enxergará certas coisas melhor que os outros.
E durante todo o jantar talvez ninguém se atreva a pronu ciar o nome de Rodrigo.
Quem guiou meus passos para dentro da Lanterna de Diógenes foi o Menino que ainda habita em mim.
A Força ^ por trás d o homem.
A Eminência Azul.
Foi ele quem pela minha boca pediu este caderno. Começo a
compreender, a insinuação do sutil ditador.
O universo do Menino era uma pirâmide de absolutos:
DEUS
no Céu
O Dr. Borges
no governo do Estado
No Sobrado Papai, Mamãe, Vovô e a Dinda
D. Revocata na Escola. - Laurinda na cozinha

Eddie Polo na nossa defesa contra os índios e os mexicanos
B o brioso Exército Nacional em caso de guerra com a Argentina
A sociologia do menino era cristalina:
Os ricos moravam nas ruas e praças principais Os remediados nas ruas transversais
Os pobres no Barro Preto, na Sibéria e no Purgatório Os negros conheciam seu lugar. As coisas tinham sido, eram e sempre seriam assim Porque essa era a vontade de
Deus.
õ manhãs da infância! Café com leite
pão
mel
mistério.
Amém!
6O O ARQUIPÊLAGO

A escola recendia a giz, verniz e alunos sem banho. Guria ciados escondiam baganas nos bolsos. No inverno as menini ficavam de pernas roxas. E a presença da Professora,
no seu t
em cima do estrado, aumentava o frio das manhãs.
As vezes a Mestra lia em voz alta seus versos favoritos:
Contínuos exercícios e o descanso Sobre grosseira cama,
A refeição frugal, concisa a frase, Assim se comportavam
Os meninos de Esparto: pois Licurgo, o legislador prudente,
Viu que a fama do país estava na militar grandeza:
E, querendo guerreiros, fez soldados os filhos da República.
Pedro Alvares Cabral tinha descoberto o Brasil por puro ac Mas agora estava tudo bem, e os livros ensinavam o orgulho ter brasileiro.
As folhas ásperas do livro davam arrepios no Menino. Mas ele gostava de encher com lápis de cor os retratos lineares de condes, viscondes, duques, barões, ministros,
generais, reis e vice-reis. Pintou de vermelho a cara de Filipe Camarão. Pôs uns bigodes de mandarim no Patriarca da nossa Independência.

Os heróis eram homens diferentes do comum dos mortais. não comiam nem bebiam não riam nem dormiam não tinham sexo nem tripas. Sustentavam-se de glórias medalhas
e clarinadas tinham nascido pra bustos estátuas eqüestres em bronze patronos de centros cívicos citações em discursos
- assuntos de cantoria.
CADERNO DE PAUTA SIMPLES 61

Estácio de Sã morto por uma frecha envenenada defendendo o Rio de Janeiro
- Zumbi dos Palmares preferindo a morte à escravidão Tíradentes na forca, impávido e de camisolão E mais o grito do !piranga
a Guerra do Paraguai etecétera e tal.
1
Nosso era também o mais belo Hino do mundo. E o auriv pendão. Que outra história haveria mais sublime que a do Br
Por mais esforço que fizesse (e esforço mesmo não fazia) o Menino não conseguia acreditar na improvável realidade daquelas figuras de papel, tinta e palavras.

Para ele mais vida tinham
- Negrinho do Pastoreio
- Barão de Münchhausen
- Herói de Quinze Anos Don Quixote de Ia Mancha Os Três Mosqueteiros
- Malazarte, o empulhador.
- Menino debatia-se em dúvida entre as muitas ciências seu mundo.
- Vigário afirmava a existência de Deus num universo arrumadinho, com Céu, Purgatório e Inferno, prêmios e castigos, e
uma contabilidade celestial: cada alma com sua conta-corrente -
Nosso era o caudaloso Amazonas
- fenômeno das pororocas
a Ilha de Marajó
a Cachoeira de Paulo Afonso a Baía de Guanabara
- couraçado Minas Gerais
a inteligência de Rui Barbosa
- as riquezas naturais.
Bartolomeu de Gusmão inventou o balão (Rimava e era verdade) Santos Dumont o aéroplano.
- a Europa mais uma vez se curvou ante o Brasil.
- como se tudo isso não bastasse nossos bosques tinham mais vida
- nossa vida em teu seio mais amores
- Pátria amada, idolatrada, salve! salve!
de
62 O ARQUIPÊLAGO
CADERNO DE PAUTA SIMPLES 63
Deve e Haver, boas e más ações - tudo sempre em dia, à es Balanço Final.
D. Revocata jurava (em nome de quem?) que Deus
existia. E desafiava o raio nos dias de tempestade.
O Cel. Borralho - corneteiro dos Voluntários da Pátria
certa vez lhe falou no Supremo Arquiteto do Universo. Consultado sobre o assunto, Tio Bicho disse sorrindo: Deus pode existir. Deus pode não existir. Quem vai deci
q:estão é você mesmo, quando crescer.
Mas para o Menino toda a sabedoria da vida concentrava-se duas mulheres: a Dinda e a Laurinda. Tinham a última pai em matéria de Teologia, Cosmogonia, Meteorologia,
Astron e outros "ias" e enigmas.
D. Revocata fazia doutos discursos para descrever o com o Sol, a Lua e as estrelas. A Dinda resumia o mapa ceie numa quadrinha.

Campo grande Gado miúdo Moça formosa Homem carrancudo.
Remédio para azia? Papai receitava bicarbonato. Mas cinda mandava o paciente repetir três vezes:
Santa Sofia tinha três fia uma cosia outra bordava
e a outra curava mal de azia.
Porque* a Dinda e a Laurinda eram mais sábias que o Ca de Bagdad, da Seleta em Prosa e Verso. Mais astuciosas q dervixe que inventou o xadrez. Suas máximas continham
verdades que as do Marquês do Maricá.

Dizia a Laurinda:
Não presta matar gato: atrasa a vida
Nem sapo: traz chuva
Quem cospe no fogo fica tísico
Borboleta preta dentro de casa: morte na família.
E a Dinda:

Boa casa, boa brasa
Quem tem rabo não se senta
Menino que brinca com fogo mija na cama
Criança que ri dormindo está conversando com os anjos.
Sentada ao pé do fogão, pitando um crioulo e comendo pinhão, Laurinda propunha adivinhações às crianças da casa.

Pergunta: Que é que antes de ser já era? Resposta: Deus.

São duas moças faceiras que nunca saem das janelas reparam em todo o mundo
- o mundo não fala delas.
o
Resposta: As meninas dos olhos.

Diga, diga se é capaz:
- Luís tem na frente mas a Raquel tem atrás as solteiras têm no meio
- as viúvas não têm mais.

Laurinda ria e dizia: , Não é o que tu está pensando, bandalho. B a letra L.
Mas entre todos os ditados da Dinda, Menino pensativo.
Cada qual enterra seu pai como pode.
um havia que deixava
ó noites da infância! quarto escuro fantasmas
sonhos mistério.
1
E m fins de outubro de 1922, ao voltar com Flora do Rio de Janeiro, aonde tinham ido ver a Exposição Nacional do Centenário, Rodrigo Cambará encontrou o pai num
estado de espírito que oscilava entre a irascibilidade e a depressão. O velho Licurgo estava apaixonadamente ferido, como um homem que tivesse sido enganado pela
mulher amada, com a qual vivera boa parte de sua vida, e na qual depositava a mais serena das confianças. Havia pouco o Dr. Borges de Medeiros pronunciara-se definitivamente
sobre a antiga questão que dividia em dois grupos os republicanos de Santa Fé, dando seu apoio irrestrito ao Cel. Ciríaco Madruga, intendente municipal e inimigo
pessoal de Licurgo Cambará.
Já na estação Rodrigo notara que algo havia de anormal. O pai abraçara-o com ar meio distraído, o cigarro apagado entre os dentes. Pigarreava com uma freqüência
nervosa e a pálpebra de um dos olhos de quando em quando tremia. Ao chegarem ao Sobrado, mal deu a Rodrigo tempo de abraçar a tia e beijar os filhos: levou-o para
o escritório. fechou a porta e, com voz apertada, contou-lhe toda a história.
- É o preço que estou pagando - concluiu - por ser um homem independente. O Dr. Borges ainda não aprendeu a diferençar um amigo de verdade dum capacho.
- Eu não lhe disse? O Presidente não é mais o mesmo homem. Ninguém pode ficar anos e anos fechado num palácio, como um faraó no seu túmulo, sem perder contato com
a sua terra e o seu povo. O homem vive cercado de aduladores que lhe escondem a realidade.. .
Licurgo olhava fixamente para a escarradeira esmaltada, ao Pé da escrivaninha.
Já que as coisas tomaram esse rumo, papai, vou lhe falar com toda a franqueza. Nunca morri de amores pelo Dr. Borges.. . Não nego que seja um homem direito, de mãos
limpas. Mas é auto-
66 O ARQUIPÉLAGO

ritário, egocêntrico e opiniático. Imagine o senhor, no dia em a Assembléia iniciou seus trabalhos, nós, os da bancada republica fomos incorporados visitar o homem
no Palácio. Recebeu-nos co um rei num trono, imperturbável, a cabeça erguida, o olhar f Deu-nos a pontinha dos dedos, disse o que esperava de nós e minutos depois
ficou assim com o ar de quem queria dizer: "B que é que estão esperando? A audiência está terminada." vamos e venhamos, isso não é maneira de receber correligionán
Um deputado não é um criado nem um moço de recados.
Licurgo cuspiu o cigarro na escarradeira, tirou do bolso e m troo ao filho a cópia do telegrama que passara ao Dr_ Borges Medeiros, comunicando-lhe que não só se
considerava afastado Partido como também iria votar no Dr. Assis Brasil e trabal pela sua candidatura no município de Santa Fé.
- Parece mentira - murmurou - mas vamos ter de vo outra vez com os maragatos.
- Não há de ser nada. Digam o que disserem, nosso ca didato é um republicano histórico.
- Sim, mas desse jeito o Partido vai se esfacelar, lucra são os federalistas.
Tirou duma gaveta da escrivaninha um cigarro de palha feito e acendeu-o. Aos sessenta e sete anos era um homem ain desempenado, de constituição robusta. Z inha a
cabeleira abunda com raros fios brancos, mas o bigode grisalho e os fundos sul no rosto tostado revelavam-lhe a idade. Nos olhos indiáticos ha uma permanente expressão
de preguiçosa melancolia, algo de mor e fosco. A voz, pobre de inflexões - pois Licurgo detestava tu quanto pudesse sugerir, ainda que de leve, artificialidade teatral
tinha um tom que lembrava batidas de martelo em madeira.
- É uma pena que o senhor tenha demorado tanto no R de Janeiro - disse ele, olhando obliquamente para o filho. Estamos nas portas das eleições, temos pouco mais
dum mês ainda não fizemos quase nada. O Madruga já se movimento anda ameaçando Deus e todo o mundo com seus capangas. É.. o senhor demorou demais.
- Eu sei, eu sei - replicou Rodrigo, contendo a impaciênct - Mas um mês basta pra gente agitar o município. A causa é b
- Se o senhor tivesse voltado umas duas semanas mais ced - insistiu Licurgo - teria podido falar com o Dr. Assis Brass Ele veio me visitar aqui no Sobrado.
- Sinto muito, mas não há de faltar ocasião para conhece o homem pessoalmente.
Segurou afetuosamente o braço do pai e disse-lhe que as criam ças estavam aflitas por verem os presentes que ele lhes trouxe do Rio. "Se o senhor me dá licença.
.. "
Licurgo sacudiu a cabeça numa lenta afirmativa e Rodrigo retirou-se. Antes, porém, de fechar a porta notou que faltava alguma coisa no escritório. Era o retrato
do Dr. Borges de Medeiros que por muitos anos ali estivera ao lado da imagem do Patriarca. No seu lugar via-se apenas um quadrilátero duma cor mais clara que a do
resto da parede.
2
Os filhos o esperavam na sala de jantar. Maria Valéria tinha nos braços Bibi, a mais moça de todos. O rostinho redondo, o nariz curto e meio arrebitado, dois dentinhos
miúdos e salientes, os olhinhos enviesados e ariscos - tudo isso dava à criança um ar de cãozinho pequinês. Junto da velha, agarrando-lhe as saias, Eduardo lançava
para o pai olhares furtivos, as faces e as orelhas afogueadas: e, para disfarçar o embaraço, batia com o calcanhar no soalho, como um potrilho a escarvar o chão.
Tinha quatro anos, era rijo e fornido de carnes, e desde que seu tio Toríbio o convencera de que ele era um touro, punha em constante perigo as compoteiras, vasos,
vidros e louças da casa, com suas corridas impetuosas: as mãos nas fontes, os indicadores enristados à guisa de aspas. Sempre que via Toríbio, fosse onde fosse,
investia contra ele, mugindo e soprando, e dava-lhe tremendas cabeçadas. Toríbio nunca se negava a seguir as regras do jogo: caía de costas, ficava estendido no
soalho, de braços abertos. enquanto o tourinho tripudiava sobre seu corpo, fazendo de conta que o furava a guampaços.
Ao lado de Eduardo, Jango, magro e esgalgado, estava a cavoucar o nariz com o indicador, numa fúria distraída. Sempre que lhe perguntavam que queria ser quando ficasse
grande, respondia: "Tropeiro, como o vô Babalo."
Referindo-se ao aspecto físico dos filhos, Rodrigo costumava dizer que - se Jango, o de rosto oblongo, lembrava uma figura de El Greco, e Bibi, Eduardo e Floriano
pareciam infantes saídos duma tela de Velásquez - Alicinha só podia ter sido . pintada por Fra Angelico.
A menina que ali estava, calada e séria ao lado da mãe, era mesmo duma beleza de anjo florentino. Seu rosto oval, de feições delicadas - os olhos um pouco tristes,
como os dos Terras - chegava a ter às vezes, sob certas luzes, uma translucidez de porcelana. Aos dez anos parecia uma moça em miniatura, tanto no físico como nos
gestos e na maneira de falar. "É uma princesa!dizia o pai. Flora, se não o acompanhava nesses exageros, também "ao o contrariava. Maria Valéria, entretanto, não
perdia a opor-
O DEPUTADO 67
68 O ARQUIPÉLAGO

tunidade de criticá-los: "Vocês dão tanto mimo pra essa me que ela vai acabar pensando mesmo que é filha do Imperad
Floriano, o mais velho dos irmãos, não se encontrava, c os outros, ao lado do pai. Deixara-se ficar a um canto da como se não fizesse parte da família. Era um menino
cal tímido, arredio. Quando nãoo estava na escola. passava a m parte das horas fechado na água-furtada, com seus livros e revi De todos os Cambarás era o único que
não gostava do An Enquanto tango procurava gozar a estância como podia - ba na sanga, leite morno, bebido na mangueira ao pé da vaca, ex sões aos capões para apanhar
sete-capotes, passeios a cavalo invernadas - Floriano ficava em casa e (dizia Flora) era. cortar o coração vê-lo sentado na soleira da porta a olhar tonho o pôr
do sol. Certas noites, principalmente quando vens acordava alarmado e saía a caminhar pelo corredor como um nãombulo, "com uma coisa no peito" - murmurava, depois
muito insistirem para que contasse o que sentia. "Vai ser poeta" dizia Rodrigo, com uma mistura de orgulho e piedade. Mas ríbio, sacudindo a cabeça, aconselhava
: "Se esse molenga fosse filho eu botava ele no lombo dum cavalo, soltava ele no ca Vocês estão mas é criando um sombra. Afinal, o Floriano já com onze anos, não
é nenhum nenê..."
Rodrigo contemplava a prole com um orgulho de patn Houve um momento em que seus olhos se voltaram para F
- mais uma vez ele teve a voluptuosa certeza de que a compan havia atingido a sua plenitude. Aqueles trinta e dois anos lavam-lhe muito bem. Perdera o ar de menina
para se fazer mu por completo. Até havia ponto, era uma fruta quase mad mas com partes ainda verdes e ácidas, dessas que. nos fazem ape os olhos quando as trincamos.
Sim, Flora era uma nêspera chegara à mais completa maturação. A hora de saboreá-la é a - pensou ele, sorrindo. Comê-la com casca e tudo. Deu al passos na direção
da esposa, abraçou-a e beijou-a na boca.
- Rodrigo! - repreendeu ela. E, num murmúrio: - O
as crianças .. .
- A esta altura dos acontecimentos acho que eles já d briram que somos casados - replicou ele em voz alta.
Floriano recebeu estas palavras como uma bofetada. Des
- olhar das figuras do pai e da mâe e, perturbado, ficou a ac ganhar os movimentos do pêndulo do relógio grande. tango so Alicinha, de olhos baixos, brincava
com a fímbria da saia. pôs-se a bufar, a escarvar o chão e de súbito rompeu numa co
- cravou as "aspas" nas pernas do pai, que o ergueu nos bra rindo e exclamando: "Meu tourito! Meu tourito brabol"
- Que venham esses presentes duma vez ! - exigiu M
Valéria- - As crianças estão aqui para isso e não para verem essa fica de cinema.
_. Traga os presentes, Laurinda - ordenou Rodrigo, pondo Eduardo no chão.
A mulata entrou com uma braçada de pacotes, que depositou sobre a mesa. Flora abriu a menor das caixas.
- O presentinho da Bibi !
Entrégou à filha um palhaço de macacão bicolor, com um prato de folha em cada mão. Quando lhe apertavam a barriga, o boneco soltava um guincho, seus braços se uniam
e os pratos se chocavam e tiniam.
Depois de alguma relutância, Bibi agarrou o presente. Rodrigo desembrulhou outro pacote. .
- Este é para o nosso capataz .. .
Era um cinturão com um par de pistolas de estanho, com cabos de madeira. Jango arrebatou o presente das mãos do pai, cingiu o cinturão e, de pistolas em punho. pôs-se
a andar ao redor da mesa, ao trote dum cavalo imaginário, dando tiros de espoleta.
Floriano pegou os presentes que a mâe íhe entregou. Dois livros: A Ilha do Tesouro e Cinco Semanas em Balão em edições ilustradas.
- Agora - disse Rodrigo - nosso tourito xucro vai ganhar... adivinhem quê?
- Urn facão ! - gritou Edu.
Era um tambor. O menino mostrou sua decepGão fechando a carranca, baixando a cabeça e olhando enviesado para o pai. Rodrigo rufava no tambor, cantarolando: "Marcha
soldado, cabeça de papel! Marcha soldado, direito pro quartell"
- Mas eu não sou soldado - protestou o menino.
- Que é que o filhinho é? - perguntou Flora, ajoelhando-se ao pé da criança e tomando-a nos braços.
- Um petiço zaino.
Flora pendurou o tambor ao pescoço de Edu, pelo cordão auriverde. e entregou-lhe as baquetas.
- Toque.
Ele fazia quc nãoo, sacudindo obstinadamente a cabeça. Maria Valéria olhava a cena com olhos críticos.
- Deixe o menino em paz - aconselhou. - Se vacê nãoo le der atenção ele acaba gostando do presente.
Rodrigo começou a desfazer o maior dos embrulhos.
Agora, respeitável público - disse - chegamos à parte mais importante de nosso programa: a entrega do presente da Sna- Alice Quadros Cambará, a menina mais linda
de Santa Fé!
Alicinha esperava, as mãos trançadas contra o peito, os olhos parados e ansiosos. E quando o pai tirou o presente da caixa, ou°iu-se um ahl geral de surpresa e admiração.
Era uma boneca
O DEPUTADO 69
7O O ARQUIPÉLAGO

que tinha exatamente a altura de Eduardo: cara redonda, faces como maçãs maduras, olhos muito azuis parecidos bolinhas de gude.. Estava vestida de tarlatana cor-de-rosa,
um chapéu verde na cabeça de cabelos cor de ruibarbo.
Alice parecia paralisada. Rodrigo teve a impressão de q filha empalidecera. Lágrimas brotaram-lhe nos olhos: escorres lhe pelas faces. Edu atirou o tambor e as baquetas
no chão. Ja meteu as pistolas no coldre e ambos se aproximaram da bon Eduardo mirava-a com um ar entre desconfiado e hostil. Ja acocorou-se ao pé dela, cheio de
admiração, apertou-lhe pn os tornozelos, os braços, depois passou-lhe um dedo cauteloso e t pelas faces e cabelos.
- Parece gente - murmurou.
- E fala - acrescentou Rodrigo, sem tirar os olhos da fi - Diz mamãe. Vejam.
Fez uma pressão nas costas da boneca, que soltou um vag Eduardo fechou os olhos, apertando as pálpebras. Jango so mostrando todos os dentes. Floriano lutava com
uma conf de sentimentos: admirava a boneca, armava já fantasias em to dela, mas achava que um rapaz da sua idade não podia mas interesse por um brinquedo de menina
sem correr o risco de pa um maricas. Por outro lado estava ferido de ciúme e desp Claro, gostara dos livros, mas por que o presente melhor e bonito era sempre para
Alicinha? Por que papai preferia Alici aos outros filhos? Pensando e sentindo essas coisas, o rapaz tinha-se distante do grupo, esforçando-se por parecer indifere
Por fim, aproveitando um momento em que quase todos esta de costas voltadas para ele, esgueirou-se para fora da_sala e su para a água-furtada.
- Vamos, Alicinha - disse Flora - o brinquedo é teu.
Alicinha abraçou a boneca e desatou num choro convulsi enquanto o pai, comovido, passava-lhe a mão pelos cabelos, cob lhe o rosto de beijos, murmurando palavras
de carinho e conso Eduardo agora batia desesperadamente no tambor. Jango saíra novos galopes pela casa, alvejando inimigos invisíveis. Bibi olha. muito intrigada
para seu palhaço de macacão azul e vermelha" cada vez que ihe apertava a barriga os pratos tiniam e ela fech os olhos, assustada.
- Que nome vais botar na boneca? - perguntou Rodri 3 filha.
- Aurora - respondeu Alicinha sem hesitar.
Marido e mulher se entreolharam, alarmados, como se am de repente tivessem sido bafejados pelo sobrenatural. Porque A tora era o nome que ia receber a irmã de Rodrigo
que nascera mo no inverno de 1895, em plena guerra civil, quando o Sobrado esta. sitiado pelos maragatos.
Aquela manhâ Rodrigo e Toríbio saíram juntos de casa logo após o café. O sueste de primavera soprava rijo sob um céu limpo e rutilo, produzindo nas folhas das árvores
da praça um movimento
de onda e um som de mar.
De longe os irmãos saudaram com um aceno de mão o José Pitombo, que lá estava na sua casa de pompas fúnebres, atrás dum balcão envidraçado, contra um fundo agourento
de negros ataúdes com enfeites cor de ouro e prata.
- Não deixa de ser "animador" - sorriu Rodrigo - ter assim tão perto de casa esse tipo de comércio .. .
- E a cara do Pitombo - ajuntou Toríbio - mais fúnebre que o resto.
- Se houvesse um jeito eu tirava o defunteiro daí. Não preciso ter todos os dias nas ventas esse lembrete da morte.
Ao passarem pela Padaria Estrela-d"Alva entraram para cumprimentar o Chico Pão que, como de costume, se queixou duma "pontada nas costas que responde no peito".
Será alguma umidade que peguei, doutor? - Não é nada, Chico, essas coisas assim como aparecem, desaparecem ... Decerto são gases.
Rodrigo ainda não conseguira descobrir se os cabelos do padeiro, cortados à escovinha, estavam brancos de idade ou de farinha de trigo. Seus olhos, permanentemente
injetados de sangue, enchiam-se de lágrimas toda a vez que sua casa recebia a visita dos "guris do Sobrado". Explicava que Rodrigo e Toríbio lhe davam saudade dos
bons tempos em que, meninos, todas as noites às dez horas, fizesse bom ou mau tempo, pulavam a cerca que separava o casarão da padaria e vinham buscar pão quente
para comerem com rapadura.
Estava o padeiro de tal maneira excitado pela visita, que não cessava de fazer perguntas. Como iam todos em casa? Rodrigo e Flora tinham andado no bondinho do Pão
de Açúcar? Era verdade que o Exército Nacional não ia deixar o Dr. Artur Bernardes tomar posse? Que cara tinha o Presidente de Portugal?
Rodrigo ia começar a contar o que vira e fizera no Rio de Janeiro quando Toríbio, puxando-o pelo braço, arrastou-o para fora da padaria. Chico Pão acompanhou-os
até a porta, fazendo seus habituais protestos de amizade e gratidão para com toda a família Cambará.
- Agora, safardana - disse Bio, enquanto caminhavam na direção da farmácia de Rodrigo - queres que me contes a parte secreta da tua viagem.
O DEPUTADï~ 71
3
#72 O ARQUIPÉLAGO

O outro fez alto.
- Que parte secreta?
- Ora, não te faças de bobo. Quantas? - Quantas quê?
- Hipócrita. Tu sabes o que eu quero dizer. Quantas lheres comeste no Rio?
Rodrigo deu um piparote na palheta, que lhe caiu sob nuca. Coçou a testa, sorriu e disse:
- Olha, menino, foi um negócio muito sério. Tu sabes, a Flora sempre a meu lado, não foi fácil.. .
- Quantas?
- Te preocupa a quantidade ou a qualidade? - As duas coisas.
- Bagualão !
Retomaram a marcha. Rodrigo contou que namorara morena no hotel em que se hospedara, e que um dia, pretexta uma visita ao Senado, deixara Flora com um casal amigo
e a um encontro marcado com a morocha no Alvear.
- A bruaquinha estava com fitas ... - disse. - No cípio quis dar a entender que nunca tinha feito aquilo. Pois Conheço bem a , minha freguesia. Tu sabes, no Rio
de Janei coisa é um pouco diferente. A gente tem de mandar flores, sentinhos, marcar encontros, dizer galanteios, fazer um cerco regra. Ah! Mas não tive dúvida:
agarrei a bichinha a unha.
- Onde? Como? Conta logo.
- O primeiro encontro não rendeu nada, ela disse que casada e o marido estava em Minas Gerais. Mas o namoro tinuou .. .
- Então ela era mesmo família?
- Espera. Uma noite nos recolhemos cedo ao hotel, F se preparou para dormir mas eu nãoo me despi. Fiquei por embromando, e quando ela se deitou eu disse: "Meu bem,
comprar uns cigarros e dar uma voltinha. Estou sem sono." e fui direito ao quarto da morena, que ficava no andar logo ab do nosso. Bati. Quem é? Sou eu. Eu quem?
Disse o n Ela entreabriu a porta, espiou ... Fui entrando sem pedir lice A diabinha começou a protestar, mas tapei-lhe a boca com um e, sem dizer mais nada, fui
empurrando a bicha pra cama .. .
- E depois?
- Na cama ela tirou a máscara. Fez o diabo, revelou-se
verdadeira profissional.
- Valeu a pena? - Ah ! Valeu. - Voltaste?
- Umas quatro ou cinco vezes. - Pagaste muito?
O DEPUTADO 73
Rodrigo pareceu hesitar.
_ Dei-lhe um colar de presente ... e paguei-lhe a conta do hotel.
Burro velho !
. A história do marido naturalmente era inventada. Ela estava "fazendo a praça no Rio de Janeiro. Mas tinha classe, isso tinha . .
Entraram na farmácia. Gabriel, o prático, veio ao encontro de Rodrigo e abraçou-o timidamente. Era um moço simplório, de origem italiana, e adorava o patrão. Agora
mesmo lançava-lhe olhares cheios de afetuosa admiração, examinando-o de alto a baixo.
- Alguma novidade, Gabriel?
- Nenhuma, doutor. Tudo bem.
Tinha uma voz fluida como pomada, e olhos caninos que refletiam uma bondade ingênua.
- E a Casa de Saúde?
- De vento em popa. Enquanto o senhor esteve fora, tivemos duas hérnias, uma cesariana e uma operação de rins. Tudo uma be
leza !
- O "açougue" está rendendo - murmurou Toríbio, folheando distraído um número do Almanaque de Ayer que encontrara em cima do balcão.
- O Dr. Carbone tem mão de ouro. P capaz de operar até no escuro.
Rodrigo levou o irmão para o consultório, fechou a porta, pendurou o chapéu no cabide e sentou-se atrás da escrivaninha.
- Amigo Bio, estou numa encruzilhada, não sei que rumo tomar.. .
Olhou em torno. Viu os instrumentos cirúrgicos, duros, polidos e frios dentro do armário de vidro; o divã coberto de oleado negro; o revérbero sobre cuja chama costumava
ferver náo só agulhas e seringas como também água para o cafezinho da tarde. U único quadro que pendia daquelas paredes caiadas, além duma oleogravura convencional,
era o clássico desenho em que um médico. vestido de branco como um cirurgião, ampara em seus braços uma mulher nua, que a Morte, representada por um esqueleto ajoelhado,
lhe quer arrebatar.
A nobre profissão ! Quantas mulheres nuas tive eu em cima da
quele divâ? E quantas a Morte me levou?
- Para te falar a verdade - disse em voz alta - estou começando a enjoar a clínica. Até o cheiro deste consultório me dá náusea . , ,
Quem sabe estás grávido?
~- Espera, homem, estou falando sério.
74
O ARQUIP1rLAGO

Toríbio tinha uma palha de milho entre os dentes, e com
faca picava fumo. parecendo mais interessado no preparo do cig do que nos problemas do irmão.
- Erraste a profissão - murmurou, sem descerrar os den
- Sem a menor dúvida ! O que me tem aliviado o tédio é deputação, os meses que todos os anos tenho de passar em P Alegre... Nossa Capital é ainda uma aldeia grande,
mas lá jã vive. Precisavas conhecer o Clube dos Caçadores.
Olhou para Toríbio que ali estaca na sua frente, em mangas camisa, bombachas de riscado, os pés nus metidos em chinelos.. chapéu de abas largas ainda na cabeça.
Um homem sem problem Passava a maior parte do tempo no Angico, campereando, fel Tinha suas chinas nas invernadas, de quando em quando ia à eo nia alemã ou à italiana
"pra variar de tipo", e quando a coisa tornava um pouco monótona na estância, em assunto de mul vinha para a cidade, metia-se em pensões e entregava-se a or homéricas
que às vezes duravam dias. Nessas ocasiões, Rodrigo tt de fazer o impossível para evitar que as histórias das farras de chegassem aos ouvidos do velho Licurgo.
- E que vais fazer agora? - perguntou Toríbio, despejanf no côncavo da palha as esquírolas de fumo que acabara de amact
Rodrigo ergueu-se, acendeu um cigarro e pôs-se a andar d lado para outro.
- Não sei. Essa viagem ao Rio de Janeiro me descentrou
pouco, me convenceu de que isto não é vida.
- Te candidata então a deputado federal. Rodrigo sacudiu a cabeça com veemëncia.
- Acho que a minha carreira política está encerrada...
rompimento do papai com o Dr. Borges me obriga a renunciar
deputação.
- E se o Dr. Assis Brasil for eleito?
- Não te iludas. A corrida nas umas está perdida para nós.
Toríbio bateu a pedra do isqueiro, prendeu fogo no pavio, ap ximou a chama da ponta do cigarro.
- Mas podemos tirar o Borjoca do governo a grito e a pel - disse, soltando fumaça de mistura com as palavras.
- Falas em revolução como duma brincadeira de crianças.
- Afinal de contas. , . que é que queres?
- Quero viajar, homem! Desde que cheguei formado n terra, lá vão doze anos, ando sonhando com uma viagem a Pa Mas sempre acontece alguma coisa e a viagem não sai.
Tu sabes, Velho foi sempre contra a idéia. Para ele, como para a Dinda, ao estrangeiro é uma coisa vagamente indecente, além de inú Quando consegui convencer o papai
de que uma viagem à Europa me fazer um grande bem, veio essa história da deputação, a cam nha, a eleição, a novidade do cargo, tu sabes, e eu fui_ ficando, . ,
O DEPUTADO 75
-Toríbio saboreava com delícia o seu cigarro.
_ E que é que te ataca agora, rapaz? Vaí a Paris e mata esse desejo-
_ É fácil dizer "vai a Paris". Se o Velho me repreendeu pot eu ter demorado demais no Rio, como é yue posso pensar numa viagem longa? E com a situação da pecuária,
essa maldita crise que aí está ... e mais o que teremos de gastar para fazer oposição ao Chimango, quem é que pode pensar em viagens?
Toríbio coçava agora distraído o dedão do oé.
_ E depois - ajuntou Rodrigo - está tudo numa confusão dos diabos. A situação do païs é crítica. Fala-se abertamente em revolução. Ninguém faz negócio esperando
"os acontecimentos". E essa coisa vai longe. Primeiro vão esperar para ver se o Bernardes toma ou não toma posse. Depois querem ver os resultados das eleições estaduais
e a posse do candidato eleito. E nessa dança vamos passar todo o ano que vem.
- Pois acho que já está na hora de rebentar uma boa revolução - murmurou Toríbio - pra sacudir este país de merda. Não se deve passar tanto tempo sem pelear. Não
brigamos desde 93.
Ergueu-se.
- Já pensaste que nós, tu, eu, os da nossa geração, ainda estamos virgens de guerra? - perguntou. - Não tivemos ainda o batismo de fogo. Se a situação continua,
vamos acabar uns calçasfrouxas sem serventia. Palavra de honra, acho que está na hora da
gente ir para a coxilha.
- Pode ser que tenhas razão.. Mas eu preferia que a ordem nãoo fosse perturbada.
-~ Mas se for?
- Se for, não há outro remédio senãoo brigar.
- Pois então vai azeitando a pistola e limpando a espada. Porque a revolução vem agora, antes da posse do Bernardes, ou depois das nossas eleições. Não há por onde
escapar.
Fez-se uma pausa em que ambos ficaram fumando e ouvindo os ruídos da farmácia e da rua: vozes, tinïdos de vidros, o som de água jorrando duma torneira, um pregãò
- "Olha a lenha bõa!" -o ploc-ploc das ferraduras dum cavalo nas pedras do calçamento da rua.
- Falaste com o Dr. Assis Brasil? - perguntou Rodrigo.
- Falei.
- Qual foi a tua impressão? Toríbio fez uma careta de dúvida:
- Pois olha ... O homem é simpático, limpinho, bem-edu
cado, instruídó e parece que bem intencionado. Mas, pra te falar
com franqueza. tem umas coisas que não me agradam .. .
- Por exemplo .. .
76 O ARQUIPBLAGO

- Uns fumos de aristocrata. E me parece um pouco vaid desses que nãoo perdem ocasião de mostrar o que sabem. Ficou Sobrado menos de uma hora e teve tempo de falar
em política, criticar o nosso sistema de criação e plantação no Angico e de dar lições de agricultura e pecuária ... Enfim, fez um sermão ninguém encomendou. Viu
o Floriano apontando um lápis, tr o canivete e o lápis das mãos do menino e disse, como um m escola: "Não é assim que se aponta um lápis. Preste atenção que vou
fazer." Contou depois que tinha inventado uma port especial, muito prática, que todo o estancieiro devia usar. Não lembro por que, falei em cachorro e o homem me
corrigiu, dize que eu devia dizer cão, pois cachorro é qualquer cria de leão onça, quando pequena. Imagina, eu dizendo cão!
Rodrigo sorriu.
- Estás exagerando. O homem é progressista, inteligent culto. Não negarás que nossa agricultura muito- deve aos seus e namentos. E depois, Bio, compara esse estadista
que correu prat mente o mundo inteiro, esse homem fino e civilizado. com aq múmia que está no Palácio do Governo em Porto Alegre, empa de positivismo.
- Mas já viste um gaúcho legítimo morar em castelo de pe como esses de romance, e falar inglês com a família na hora comida
Rodrigo encarou o irmão em silêncio e, ao cabo de alguns gundos, exclamou:
- Ora, vai te lixar 1
4
Naquele sábado Rodrigo voltou do consultório às cinco da t
e comunicou a Flora que havia convidado um grupo de amigos vir à noite ao Sobrado para comer, beber e prosear. Flora levou mãos a cabeça. Maria Valéria, que entreouvira
as palavras do brinho, perguntou:
- Comer o quê 7
- Ora, titia, uns croquetes, uns pastéis.
Mas que croquetes 7 Que pastéis 7 Você sempre nos avisa última hora.
- Não temos bebidas em casa - alegou Flora.
- São cinco horas. Mandem buscar no armazém o que fal
Subiu assobiando para o quarto e de lá para o banho da tar As mulheres puseram-se imediatamente em atividade, cesmungan contra a mania de Rodrigo (aquela nãoo era
a primeira vez n
O DEPUTADO 77
seria a última) de fazer convites para reuniões no Sobrado sem
antes consultá-las.
g quando ele já estava no quarto de banho, cantarolando árias
de ópera dentro do banheiro cheio de água tépida, esfregando os
braços e os ombros com vaidosa volúpia. a tia bateu à porta e gritou: ._ Quer ao menos me dizer quantas pessoas convidou? - Uns seis ou sete amigos, nada mais.
- Pois então vou preparar comida pra vinte.
Sabia que esses seis ou sete à última hora "davam cria", mul
tiplicando-se por três.
O velho Licurgo não gostou da idéia:
- Náo estamos em tempo de festa - resmungou. - A situa
ção do país está cada vez mais preta.
Fresco do banho, recendendo a água-de-colônia, Rodrigo
reagiu
- Não vejo motivo para a gente assumir uma atitude fúne
bre... E, depois, convidei o Juquinha Macedo e o Cel. Cacique.
Podemos aproveitar a ocasião para discutir o plano da nossa cam
panha eleitoral.
Licurgo cuspiu na escarradeira. Rodrigo jamais se habituara à
presença dáquelas "coisas" de louça, espalhadas pela casa. Achava
bárbaro e repugnante. aquele ostensivo clarear de peito e aquele con
tínuo cuspir que para muitos gaúchos era uma prova de hombri
dade.
- Discutir a campanha? - repetiu Licurgo. - Isso não é
coisa que se faça em festa.
- Mas não se trata de festa. É uma pequena reuniáo de ami
gos, quase todos gente de casa.


Durante a hora de jantar Licurgo manteve-se calado a maior parte do tempo, prestando uma atenção precária ao que Flora e Rodrigo contavam da viagem ao Rio. Terminada
a refeição, o Velho subiu para o quarto, onde permaneceu por alguns minutos. Depois desceu e, como era seu costume havia muitos anos, resmoneou: "Vou dar uma volta."
E saiu.
De uma das janelas do casarão, Rodrigo e Toríbio acompanharam o pai com o olhar e viram-no dobrar a esquina da Rua dos Farrapos e entrar na dos Voluntários da Pátria.
Entreolharam-se e sorriram. Aquilo acontecia todas as noites, desde que eles eram meninos. Licurgo Cambará ia visitar a amante, continuando fielmente uma ligação
que começara antes de seu casamento com Alice Terra. A mulher chamava-se Ismálía Caré e nos tempos de moça fora uma cabocla bonita, morena, de grandes olhos esverdeados.
Mesmo agora, já na casa dos cinqüenta, conservava um corpo esbelto, uma face quase sem rugas e aquela tez cor de canela com
78 O AROUIPIrLAGO

açúcar. Licurgo tivera com ela um único filho, que hoje es casado e já também pai de família.
- Rabicho como esse - murmurou Rodrigo - não con
outro.
- Pobre do Velho... - cochichou Toríbio. - Na i
dele o mais que pode fazer é prosear com a amásia .. .
- Olha, a gente nunca sabe. Tu conheces a força dos C
barás em matéria de virilidade.
Como se portaria o pai na casa da amante? Menos calçd casmurro do que no Sobrado? Sorriria alguma vez.? Teria com o filho e os netos bastardos ternuras que não demonstr
nunca para com os legítimos? Eram perguntas que Rodrigo de uma vez fizera a si mesmo, mas sem muita curiosidade, genuíno interesse.
Toríbio enfiou o casaco. Só então é que Rodrigo perce
que o irmão trajava a sua roupa domingueira de casimira azul
rinho, e - milagre ! - estava de Qravata. Aonde vais nessa estica, homem?
A um baile de mulatas no Purgatório. Estás falando sério?
Ué?
Queres botar um pouco de extrato no lenço? Não sejas besta.
- Pois então, bom proveito --- Rodrigo estava curioso. Que tipo de baile é esse?
- Aniversário da Sociedade Filhos da Aurora, de "moren Sou amigo íntimo do presidente.
Rodrigo segurou o irmão pelas lapelas do casaco.
- Cuidado, Bio, são mulatinhas de família. - Eu também sou de famíliá.
- Havia de ter graça que te metessem uma bala no corpq
morresses ridiculamente numa baiúca do Purgatório.
- Ainda não fabricaram essa bala.
O primeiro a chegar ao Sobrado aquela noite foi o promo público, Dr. Miguel Ruas, natural do Distrito Federal. Mui coisas o tornavam especialmente notado em Santa
Fé. Aos trin e seis anos era ainda solteiro - apesar de viver em bailarecos festas familiares sempre às voltas com as mais belas moças do lug Tocava piano muito
bem manicurava as unhas e era o úni homem na cidade que trajava rigorosamente de acordo com a m
Vestia naquela noite uma roupa cor de chumbo com listas claras. O casaco, exageradamente cinturado, de um botão só, era tão comprido que lhe ia até o meio das coxas
apertadas em calças que desciam, afuniladas, até os tornozelos e que, de tão justas às pernas, chegavam a parecer perneiras. Os sapatos bicolores de bicos agudos
tinham solas de borracha Neolin - o que dava ao promotor um caminhar leve de bailarino. Alto e magro, o Dr. Ruas -como observara Rodrigo - parecia ponto de admiração
que freqüentemente se transformava em ponto de interrogação, quando
- promotor se dobrava em curvaturas diante das damas, cujas mãos beijava ou, melhor, esfrolava com os lábios. Tinha o rosto fino e longo, duma palidez que o pó-de-arroz
acentuava. Sua voz, no entanto, era grave e máscula, coisa inesperada naquele ser de gestos e aspecto tão efeminados.
Ao recebê-lo no alto da escadinha do vestíbulo, Rodrigo não resistiu à tentação de perguntar: "Como vai o nosso almofadinha?"
O outro, um pouco desconcertado, murmurou:
- Ora, nãoo diga isso, Dr. Cambará.
Na sala inclinou-se diante de Flora - "Meus respeitos, madame!" - e beijou-lhe respeitoso as pontas dos dedos. Quis fazer
- mesmo com Maria Valéria. mas a velha retirou bruscamente a mão que o promotor tentava erguer aos lábios, rosnou um "boa noite" seco e ficou a olhar intrigada para
a cara do recém-chegado,
exclamando mentalmente: "Credo!"
Os sogros de Rodrigo entraram pouco depois, Aderbal Quadros, com o cigarrão de palha entre os dentes, na sua marcha de boi lerdo, seguido da mulher, D. Laurentina,
de olhos indiáticos
- cara angulosa. Flora levou-os até o andar superior, onde as crianças se preparavam para dormir.
Chiru Mena nãoo tardou a chegar, todo de preto, com muita brilhantina na juba loura, assim com o ar dum "cônsul alemão natural duma cidade hanseática", como lhe disse
Rodrigo, ao abraçá-lo.
- Ainda bem - folgou Chiru. - Às vezes me chamas de maitre-d"hôtel... ou de porteiro de cabaré.
- Por que nãoo trouxeste tua mulher, cretino?
- Ora, tu sabes, a Norata sempre com suas enxaquecas...
- os .. ,
Não terminou a frase: foi direito ao prato de pastéis que avistou em cima da mesa da sala de jantar.
Roque Bandeira e Arão Stein chegaram juntos. Estava o priateiro no princípio da casa dos trinta e o segundo no meio da dos vinte. Viviam ambos às voltas com livros,
jornais e revistas, preocupados com saber o que se fazia, pensava e escrevia no resto do pais e do mundo. Roque Bandeira era filho dum antigo tro
o, agora proprietário de uma fazendola de gado no terceiro
O DEPUTADO 79
5
8O O ARQUIPÉLAGO
distrito de Santa Fé. Detestava, entretanto, a vida do cam Fizera os preparatórios com certo brilho em Porto Alegre, e sava já o segundo ano de Engenharia quando,
sentindo um su enfaramento de tudo aquilo - da Capital,. da Escola, da M mática, dos colegas - decidira voltar para a querência e lev vida com que sempre sonhara:
livre de estudos formais, de ob ções a horas certas, dono, em suma, de seu tempo. O pai dava uma mesada. Bandeira nãoo precisava de multo dinheiro para, vi Rodrigo
franqueara-lhe a sua biblioteca. Que mais podia dese Na cidade era considerado "um filósofo", porque não se preocu com roupas nem com dinheiro: passava horas nos
cafés discuti política e literatura: era sempre visto com livros debaixo do br Por todas essas razões as melhores famílias do lugar o mira com uma desconfiança quase
irritada. Pareciam sentir a líber e o ócio do rapaz como um insulto.
Arão Stein era filho dum imigrante judeu russo, que chega Santa Fé em princípio do século, estabelecendo-se na Rua do Im com um ferro-velho. Era Abraão Steín um
homem corpule ruivo e melancólico, de fala engrolada e choro fácil. Costum contar tétricas histórias dos pogroms que presenciara na Rúss~ durante os quais vira parentes
e amigos estripados pelas lanç sabres dos cossacos. Sofria de reumatismo e Rodrigo, que se a dara do homem, tratara dele sem lhe cobrar vintém, fornecendo também
gratuitamente todos os remédios necessários. Quando f suas visitas de médico à casa do judeu - que gemia em cima¡ uma cama de ferro, em meio de molambos, enquanto
a es D. Sara, alva e gorda, fazia perguntas aflitas ao "dotór" Rodrigo gostava de conversar com o filho único do casal, o A que andava sempre com o nariz metido
em livros. Era um men Inteligente e sério, que tinha a paixão do saber. Terrível pergu dor, suas curiosidades no mais das vezes deixavam Rodrigo norteado. Por que
o mar é salgado? A Revolução Francesa um bem ou um mal para a Humanidade? Deus tem a forma mana? "Claro - respondeu Rodrigo dessa vez - o homem feito à imagem de
seu Criador ... " "Mas então, doutor. tem fígado, próstata, tripas? Deus come e urina?" Rodrigo teve outro remédio senão sorrir, procurando demonstrar uma perioridade
que na realidade não sentia. E um dia, num ass de entusiasmada generosidade, disse: "Seu Stein, fique trangíi Quem vai educar esse menino sou eu. De hoje em diante
doutudo: livros, cadernos, lápis, roupas... o que for preciso. Qua ele terminar o primário, vai fazer os preparatórios em Porto Al por minha conta." Os olhos de
Arão brilharam. Os do pai cheram-se de lágrimas. D. Sara beijou com lábios trêmulos mãos do doutor, e se foi a choramingar para o fundo da arrastando as pernas deformadas
pela elefantíase. (Maria Val
O DEPUTADO 81
costumava dromesaeaté o fimStDurante quatro anos ses ol aes~ en cumpriu a p
quanto Arão em Porto Alegre atormentava os padres do Ginásio
Anchieta com perguntas que se faziam cada vez mais complexas e tomavam uma coloração cada vez mais materialista - Rodrigo tivera de agüentar a choradeira do casal,
que não se conformava com a ausência do filho. E quando, em 1918, a gripe espanhola levou o velho Stein "para o seip de Abraão" - conforme a expressão usada pelo
redator de A Voz da Serra, encarregado da seção intitulada "Vida Necrológica" - Arão, que ia cursar o primeiro ano de Medicina, abandonou os estudos, sob os protestos
indignados de seu protetor, e voltou para Santa Fé, a fim de tomar conta da mâe e do ferro-velho.
- Foi uma burrada, rapaz - repreendeu-o Rodrigo. - Podias ter levado tua mâe contigo para Porto Alegre e continuado os estudos. Eu te garantia todas as despesas,
até o dia da formatura.
Arão sacudiu a cabeça.

- Não, doutor, isso seria demais. Eu nunca lhe poderia pagar .. .
- Mas quem é que falou em pagar? Quando eu disse ao teu pai que me encarregaria da tua educação, nãoo estava fazendo nenhuma transação comercial. Todo mundo sabe
que nãoo sou homem de negócios. Poderias ter terminado o curso com o Dante Camerino, cujos estudos também estou custeando, como sabes.
Arão Steín mantinha os olhos baixos, como um réu. Tinha na mão uma brochura: Crime e Castigo.
- E agora, que pretendes fazer? - perguntou Rodrigo, esforçando-se por falar sem rispidez. - Vais passar o resto da vü-ia atrás dum balcão de ferro-velho?
- Talvez seja esse o meu destino - murmurou o rapaz, com ama dignidade triste.
Era a imagem viva da desgraça. Rodrigo compreendeu que Stein nãoo podia passar sem a sua dose de drama, tão essencial à sua vida espiritual quanto o alimento ao corpo.
Talvez tivesse prazer em imaginar-se personagem de Dostoievski - o jovem estudante pobre que abandona seus ideais de cultura porque precisa ganhar o pão de cada
dia em uma sórdida loja de objetos usados.
- Poís fica sabendo - sentenciou Rodrigo - que nós é que fazemos o nosso destino.
Ele próprio nãoo sabia se estava ou nãoo de acordo com o que acabara de dizer. A coisa lhe viera assim de repente, e a idéia lhe parecia boa. Pôs a mão no ombro do
rapaz.
- Tu sabes, em caso de aperto, conta comigo, em qualquer tempo- A minha biblioteca está à tua disposição. Podes entrar no Sobrado à hora que entenderes e levar para
a tua casa os livros qne quiseres,
#82 O ARQUIPpLAGO
Arão ficou por um momento calado. Depois murmurou:
- Mas nós pertencemos a classes diferentes, Dr. Rodrig
- Deixa-te de bobagens ! Classes, ora essa ! Mínha b" era índia e foi agarrada a boleadeiras, no campo - inventou deliciando-se com a improvisação.
Passaram-se os anos e Arão Stein - a princípio com al relutância e sempre com acanhamento - passou a viver na o do Sobrado. Como D. Sara tomasse conta da loja, revelan
uma comerciante mais realista que ele, o rapaz -tinha vagares seus estudos e leituras. E agora sonhava com um projeto: Arar uma caixa de tipos e uma pequena máquina
impressora, e belecer-se com uma tipografia. (Sabia que Rodrigo tinha a essas coisas atiradas e esquecidas no porão do Sobrado .. . não tivera ainda coragem de fazer-lhe
nenhuma proposta.) Pre dia , manter a oficina imprimindo convites para enterro, ca de visita e programas de cinema. Mas seu verdadeiro objetivo publicar um semanário
de idéias e, de quando em quando, um fleto. Começaria com o Manifesto Comunista. Venderia o fol clandestinamente por um preço ínfimo, correspondente apenas" custo
do papel. O importante era pôr ao alcance do povo esse gra documento social. Para conseguir essa finalidade, economizav que podia. E era por causa dessa economia
que andava tão vestido, quase sempre com o cabelo crescido e a barba por fazer


Quando aquela noite entrou no Sobrado e foi direito a Valéria, esta o recebeu muito séria, com as palavras de costa "Aí vem o João Felpudo."
As "felpas" de Stein eram da cor da barba de milho. pele, de poros muito abertos e duma brancura de requeijão, es va-se sobre a face ossuda, de malares salientes
e feições ní A testa era alta e os olhos dum cinzento esverdeado. ("Se menino se cuidasse" - dissera uma vez Maria Valéria - até fazer figura bonita com as moças.")
Agora quem apertava a mão da velha. era Roque Bandeira
- Vacê está gordo que nem porco - disse ela.
Tio Bicho limitou-se a sorrir.
Flora mandou servir cerveja. O Dr. Ruas recusou com gesto polido. Preferia gasosa. Abstêmio I Não, explicou, moral era apenas hepática.
hem alto e grisalho, fortemente moreno, de lábios arroxeados, olhos um tanto exorbitados e porte desempenado de ginásta. Fa
lava ~ ual MariauValéria e Licurgo tinhamemuito poucaçou nenhucom q
rua paciência.
Rodrigo apertou efusivâmente a mão do recém-chegado. .

Por que nãoo trouxe a , senhora ?
- Ura, meu caro, a Margarida é escrava dos filhos. Eles nãoo dormem sem que" primeiro a mâe lhes`cante à berceuse de Jocelyn.

.- Ah! Mas ela precisa vir cantar aqui para nós umas árias de ópera, coronel.

A Sra. Barbalho era soprano dramático e, nãoo fazia muitos anos, cantara a Norma no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, num espetáculo de caridade.

- Não faltará ocasião - murmurou o militar, sorridente. E afastou-se para beijar a mão das damas.

A negrinha Leocádia, de avental branco ,e sapatos de tênis, circulava em passo de bailado entre os convidados, conduzindo uma bandeja com pratos de pastéis e croquetes.
Aderbal Quàdros soltava na cara do Dr. Ruas a fumaça do seu cigarrâò de cheiro ativo, que se misturava com á aura de Narcise ,Noir que envolvia o promotor. O sogró
de" Rodrigo examinava "o "àímofadinha" com uma insistência desconcertánte. .,

- Mas- comó é - perguntou - como `é que o senhor consegue enfiar ,essas çalçás? ... ~ .

- Ora, coroneh é muito simples. Calço os sapatos depòis.. .

- E, ainda que mal. pergunte, esse colarinho nãoo- le afoga?

A camisa d"e tricoline tricolor "do carioca tinhã um colarinho tão alto que lhe dificultava os movimentos de cabeça.

- O senhor está mangando comigo, Sr. Aderbãl, . .

A face do velho tropëiro estava impassível, mas seus olhinhos sorriam. E alguém mais naquele instante óbserváva Miguel Ruas com algum interesse. Era Arãb Steirl,
que mastigava _um croquete. Tocou com o cotovelo Roque Bandeira, que a seu lado empinava o segundo copo de cerveja.
- Que me dizes daquelé tipo?

O outro passou o lenço pelos lábios e olhou.

- O promotor? Um bom sujeito. A gente. primeiro precisa se acostumar com as roupas e o pó-de-arroz ... No fim acaba gostando dele. Não é tolo, tem boas leituras
.. .
- O que eu quero saber é se - é homem mesmo.

Roque Bandeira tornou a encher o copo.

Aí está uma pergunta gaúchà que eu jamais esperava ouvir aa boca dum marxista.

Arão Stein encolheu os ombros.
O DEPUTADO 83
6
O próximo convidado a chegar foi o Cel. Melquísdes balho, comandante da guarnição federal de Santa Fé. Era um
84 O ARQUIPpLAGO
- Pra mim o tipo não passa dum produto sórdido do sis capitalista. Um parasita.
- Questão de ponto de vista ... e de nomenclatura.
Naquele instante entrou no Sobrado Juquinha Macedo. pois da morte do Cel. Macedo, Juquinha, como filho mais ve se tornara chefe da numerosa família. Tinham os Macedos
m léguas de bom campo bem povoados, além de casas na tida apólices do Banco Pelotense. Eram todos federalistas e fam pelo espírito de clâ. Corria um ditado segundo
o qual "onde Macedo não morre Macedo".
Era Juquinha um quarentão alto e corpulento, de rica leira negra, sempre bem penteada e reluzente. que a Rodrigo brava a de certos cantores de tango da Boca, que
vira em sua úl viagem a Buenos Aires. Tinha o rosto graúdo e redondo, cur de sol e ventó, uns bons dentes de comedor de carne e uma ressonante de tom entre brincalhão
e autoritário. Justificava gestos, palavras e açôes e reputação, de que gozava entre am1 de ser um "gaúcho buenacho".
Tirou do bolso o lenço vermelho de maragato, agitou-o ar e exclamou r
- Viva o Dr. Assis Brasil ! E se tem algum chimango aí, que puxe a adaga, porque vamos brigar. - Voltou-se pa comandante da praça e, no mesmo tom disse: - Desculpe
a b cadeira, coronell
Apertaram-se as mãos. Alguém naquele momento pediu promotor que tocasse alguma coisa. O Dr. Ruas imediatam encaminhou-se para o piano que Rodrigo comprara para as
lí da Alicinha. De todos os lados vieram pedidos. Toque um sam Um chorinho! Não, um fox-trot! O promotor ergueu à ta do piano, estendeu sobre o teclado as mãos pálidas,
em um cujos dedos faiscava um rubi, e, com certa solenidade de tuoso, tirou alguns acordes. Rompeu, depois. a tocar O Pé" de com a bravura com que os .concertistas
geralmente tocam a-Polo Militar .de Chopin. Passou da marcha para um chorb e do ch para nm fox-trot. Maria Valéria, sentada a um canto da sala untar, murmurou ao
ouvido de D. Laurent"ina : "Depois esse moçó começa a tocar, nem _Deus , Padre faz ele parar ... "
Aráo Stein que, contra seu" costume, havia bebido já dois c de cerveja, olhava para o pianista com hostilidade. Com aq pelintra tocando de maneira tão desesperada,
era impossível c versar em paz.
Foi ao som do Smiling Through que o Cel. Cacique Fagua fez sua entrada no Sobrado, acompanhado de Quinota, a ú de suas cinco filhas que ainda permanecia solteira.
Subín le e penosamente os degraus que levavam do portal até o
O DEPUTADO 85 t.bulo, não tanto por causa da idade, pois não passara ainda dos
ementa, mas sim por causa do peso do corpo. Era gordo, baixo,
ventrudo, de pernas curtas e arqueadas. O rosto tostado e largo

era ampliado caricaturalmente por uma papada flácida que lhe tri

plicava o queixo e lhe dava o ar lustroso e sonolento de um Buda.

Roque Bandeira, curioso em assuntos de Antropologia, costu

mava dizer que o Cel. Cacique era a prova viva do parentesco entre
os índios brasileiros e as tribos asiaticas.
Quinota segurava o braço do pai. Era morena, relata, peituda, e nm buço cerrado sombreava-lhe o lábio superior.
- Ora viva ! - exclamou Rodrigo. - Pensei que não viessem mais.
Cacique Fagundes tirou o chapéu, fez um sinal na direção da filha
- A culpa é dessa bruaquinha que demorou pra se vestir. Só botando pó-de-arroz na cara levou um tempão.
- Ora, papai !
Rodrigo abraçou a rapariga com ar paternal, mas aproveitou a oportunidade para roçar-lhe o seio com a ponta dos dedos. E quando Flora levou Quinota para a sala,
ele ficou um instante com o pai da moça, que lhe cochichou:
- Preciso me aliviar dum peso .. .
Desafivelou o cinturão no qual trazia o revólver e entregou-o a Rodrigo.
- Acho que daqui por diante - murmurou - não se pode mais andar desarmado na rua. - Segurou a ponta do lenço que lhe envolvia o pescoço. - Chimango é coma touro:
não pode enxergar pano encarnado...
Soltou sua risada de garganta, um hê-hê-hê convulsivo e rachado, que mais parecia uma tosse bronquítica. E enquanto Rodrigo guardava o revólver no armário debaixo
da escada grande, o Cel. Fagundes acendeu um crioulo.
} - Que é que o promotor está tocando? - perguntou ele.
- Uma música moderna, o fox-trot. Em inglês quer dizer trote de raposa. ~ a última moda em assunto de dança. Vem da América do Norte.
Cacique focou os olhinhos pícaros nas costas do pianista, que ~ requebrava ao ritmo da melodia, e disse:
- Esse moço se remexe mais que biscoito em boca de velho.
E saiu rindo, com o cigarro entre os dentes, na direção do sogro de Rodrigo. Abraçaram-se e ficaram a conversar sobre o touro Polled angus que Cacique acabara de
receber da Escócia, e que ele insistia em chamar de Polango.
Maria Valéria puxou a saia de Leocádia, que passava, e gritou:
Pára de te requebrar, rapariga !
86 O ARQUIPÉLAGO

O promotor ergueu-se do piano. Ouviram-se algumas Miguel Ruas passou o lenço pelo rosto e apanhou um co limonada da bandeja que naquele instante a negrinha lhe sentava.
7
O Cel. Barbalho conversava a um canto com Stein e Ban Tinham naquele último quarto de hora - gritando para se fa ouvidos - discutido a Liga das Nações e os Princípios
de W" Roque Bandeira conseguira trazer a conversa para seu terreno. dava fascinado por assuntos de Oceanografia, a mais recente de paixões do espírito. Vocês já
pensaram no que o mar repre para a vida da terra? Sabem que no dia em que se esgotare alimentos na superfície do globo, os oceanos poderão nos for toda a comida
de que necessitamos?
- Imaginem esta cena - disse, mastigando um pastel. coisa aconteceu há alguns milhões, talvez bilhões de anos . . primeiro ser vivo saí do mar. aventura-se na terra.
Tem a f dum peixe. Depois as barbatanas através dos séculos se tra mam em pernas, as guelras em pulmões. ); o primeiro anf O primeiro passo rumo ao honro sapiens
... )r por isso que se olho para os peixes com um encanto misturado de veneração
Arão Steín, que escutava o amigo com visível impaciência. mando largos goles de cerveja, disse:
- Está bem, está bem. Tudo isso já foi estudado. S essas coisas é muito bom e bonito. Mas sejamos lógicos. A evol já se processou e nada podemos fazer agora para
modificar processo. Aqui estamos como um resultado disso, nós, os ma superiores, e o que importa ágora, na minha opinião, é modifi melhorar as condições do mundo
em que vivemos.
O coronel sorriu
- Que é que o meu amigo quer dizer com isso?
- Quero dizer que chegou a hora de destruir o sistema s vigente, responsável pelas guerras e pelas desigualdades e injus da sociedade humana e substituí-lo por outro
que seja capas eliminar as classes e promover o bem-estar geral.
- O senhor se refere ao maximalismo? - perguntou o rnih
- Exatamente ... se prefere usar esse termo.
O comandante da praça sorriu com superioridade.
- O senhor é muito moço. Não se iluda com novidades. novo regime russo não pode durar... Dou-lhe mais um a quando muito.
Stein recuou um passo, como se o outro tivesse tentado es feteá-lo.
O DEPUTADO 87

_ As forças mercenárias que a burguesia atirou contra a pátria do socialismo nada puderam, foram derrotadas! Os dados estão lançados e a derrocada do sistema capitalista
já começou.
O Cel. Barbalho delicadamente insinuou que era impossível compreender a História e a vida sem uma sólida base filosofica, c qUe para adquirir essa base um homem
precisava de pelo menos trinta anos de estudos. Que idade tinha o jovem amigo?
Os olhos de Stein relampaguearam.
- Saiba o senhor que um dos objetivos do marxismo é acabar com a atitude filosófica desinteressada, porque ela nada significa para a existência humana. Até agora
os filósofos nada mais fizeram que interpretar o mundo. O que o marxismo pretende é transformá-lo !
No meio do salão Chiru Mena bateu palmas e bradou:
- Atenção, damas e cavalheiros !
Fez-se o silêncio pedido e ele continuou:
- Agora o nosso amigo Dr. Ruas vai fazer com a Quinota Fagundes uma demonstração dessa dança moderna, o tal de foquestrote. Rodrigo, onde está aquele disco novo
que trouxeste do Rio de Janeiro?
O anfitrião abriu uma das gavetas do armário em forma de pirâmide sobre o qual estava o fonógrafo e tirou de dentro dela um disco, que colocou no prato. Enquanto
dava manivela no aparelho, explicou
- Este fox-trot é o último grito na América do Norte. Cha
ma-se Smiles.
- Que quer dizer isso em língua de cristão? - perguntou Catique Fagundes.
- Sorrisos.
Na cara do caboclo havia uma expressão de perplexidade.
- Ah!
Laurentina e Maria Valéria entreolharam-se. Para ambas estrangeiro era "bicho louco".
Ouviu-se primeiro um chiado forte, depois a música começou uma melodia sincopada, que à maioria dos_ convivas pareceu dissonante. O Dr. Ruas enlaçou a cintura de
Quinota, tomou-lhe da mão e saía a dançar.
- Mas isso é passo de urubu malandro ! - exclamou o velho Babalo, soltando a sua clara risada em a.
Quinota, embaraçada, olhava para o teto, procurando seguir os passos do promotor. Este pisava com a ponta dos pés. requebrando os quadris e os ombros. Tentou uma
nova figura: dois Passinhos para a esquerda, depois mais dois para a direita. Ouviram-se risos e aplausos.
Arão Stein murmurou ao ouvido de Roque Bandeira:
88 O ARQUIPrLAGO
- Foi pra acabar nisso que aquele bichinho arriscousair do mar?
Agora do gramofone vinha uma voz grave e melodiosa, tando um estribilho.
- Eta língua braba! - exclamou Juquinha Macedo.
Acendendo um novo crioulo, Aderbal Quadros sacudiu a beça e murmurou:
- A humanidade está mesmo perdida.
Depois daquela guerra bárbara que incendiara quase o m inteiro, só se podia esperar aquela música, aquela dança, aq roupas amaricadas do promotor público !
Cessou a música. O Dr. Ruas fez alto e curvou-se diante. par. Novos aplausos.
O DEPUTADO 89
8
Rodrigo levou para o escritório o comandante da praça, o s o Cel. Cacique e Juquinha Macedo. Fechou a porta e disse:
- Sentem-se, fiquem à vontade. Acho que chega de mú moderna Y de loucuras norte-americanas. Vocês sabem que sou França e da valsa.
Cacique repoltreou-se numa poltrona de couro, soltando suspiro de alívio. Desabotoou o colete, tirou as botinas de e tico, murmurando: "Não reparem, estou com os
cascos meio car chados."
O velho Babalo olhava com olho malicioso para o quadra esbranquiçado, na parede.
- Está muito bom aquele retrato do Borjoca... - iront Rodrigo explicou aos outros
- O papai retirou da parede a fotografia do seu ex-chefe . Juquinha Macedo fanfarroneou: - E nós vamos retirar o homem do Palácio do Governo. - Não cónte muito com
o resultado da eleição -
Aderbal, céptico. - Eles vão ganhar como sempre no bico da pe - Pois se ganharem a eleição na fraude - replicou Macedo
decidimos a coisa na coxilha a bala, com licença aqui do coro O comandante da praça esboçou um sorriso de neutrali
benevolente.
Rodrigo serviu conhaque. Babalo e Cacique recusaram, de rando que eram do leite.
Rodrigo tirou da gaveta da escrivaninha uma fotografia e, an de mostrá-la aos amigos, disse:
- Tenho aqui uma preciosidade. p um instantâneo que fica na nossa História. Algumas revistas e jornais já o reproduzira
tuas esta é uma cópia do original. Me custou nm dinheirão. Voo mandar emoldurar e pendurar na parede. Merece. Vejam...
Fez a fotografia andar a roda. Era o famoso flagrante dos 1 g heróis do Forte de Copacabana, na sua marcha para a morte.
A porta abriu-se e a cabeçorra de Chiru apontou.
_ p segredo ?
_ Não - respondeu Rodrigo. - Entra, homem, mas fecha essa porta.
Chiru Mena entrou e, vendo a fotografia, exclamou:
- Coisas como essa fazem a gente acreditar que nem tudo está perdido neste país.
Chamou Rodrigo a um canto do escritório e cóchichou:
- Tenho uma idéia pra gente ganhar muito dinheiro.
- Não me digas que ainda estás pensando no tesouro dos jesuítas .. .
- Qual nada ! O negócio é outro, e muito mais certo. Vamos comprar marcos alemães. Compramos na baixa, vendemos na alta e ganhamos uma fortuna.
- Quem é que te meteu essa idéia na cábeça?
- Li nos jornais.
- Pois no Rio de Janeiro já andam vendendo marcos em plena rua. Não acredito nisso.
Chiru descansou ambas as manoplas nos ombros do amigo.
- Tu entras com uma parte do capital e eu com a outra, e me encarrego da compra. Que dizes?
- Não contes comigo. Tu sabes, os negócios de gado andam malparados. O preço do boi baixou. O dinheiro anda curto.
- Mas Rodrigo, é coisa certa: tiro e queda. Tu conheces a força dos alemães. Digam o que disserem, são o povo mais inteligente e trabalhador do mundo.. A Alemanha
vai se reerguer e dentro de muito pouco tempo o marco estará mais cotado que a libra e o dólar.
Rodrigo sacudia a cabeça negativamente. Chiru recuos um passo, olhou-o bem nos olhos e disse:
- Vais te arrepender.
Com o cálice de conhaque na mão o Cel. Barbalho examinava os livros de Rodrigo, que se enfileiravam nas prateleiras de dois grandes armários com portas envidraçadas.
De quando em quando soltava uma exclamação em surdina. A obra completa de Eça de Queirós ... Balzac, sim senhor. Taine 1 Renan ! Nietzsche 1 Upa 1 Que biblioteca
!
Rodrigo aproximou-se dele, segurou-lhe o braço.
Sirva-se, é sua.
No meio da sala Chiru agora exaltava os revolucionáriAS de 5 de julho e atacava Epitácio Pessoa. Rodrigo voltou-se para o amigo e exclamou:
9O O ARQUIPÉLAGO
- Espera, Chiru ! Tu sabes que simpatizei com o movim revolucionário e que votei no Nilo Peçanha. Náo sou nenh epitacista, mas, vamos e venhamos, temos de reconhecer
que paraibano tem caracu. Sem querer ofender aqui o nosso amt
- Cel. Barbalho, o Dr. Epitácio manteve no Brasil o prestígio póder civil.
- Mas nãoo é só com caracu que se governa - interveio J quinha Macedo, metendo os grossos dedos entre as melenas. Faça um balanço na administração desse nortista
e me diga o q foi que ele fez.
Rodrigo deu dois passos à frente.
- E as obras contra as secas do Nordeste?
- Bolas! - bradou Chiru, tirando do bolso o lenço v melho e passando-o pela cara. - Governar não é fazer açu E depois, Rodrigo, o país gasta demais com essas secas.
Que é q
- Norte produz? Quase nada. É um peso morto. Devíamos co
- Brasil do Rio de Janeiro pra cima e entregar o Norte para cabeças chatas. Que se arranjem! Mas o melhor mesmo era fa do nosso Rio Grande um país à parte, porque
.. .
- Cala a boca, idiota ! - interrompeu-o Rodrigo. - Es dizendo uma heresia. Só unido é que o Brasil pode ser fort grande e glorioso. Que conheces tu do Norte para
falares de maneira ?
Por alguns instantes Chiru ficou a justificar seu ideal s ratista. Rodrigo, porém, discordava com veemênria. Contou que vira na Exposição do Centenário. Não compreendia
o creti do Chiru que o Brasil estava às portas da industrialização, e q uma vez industrializado precisaria antes de tudo de mercados t ternos, dum número cada vez
maior de consumidores? Cortar amarras que nos prendiam tão fraternal e. historicamente Norte seria jogar fora futuros mercados, isso para mencionar n razão utilitária,
pois as ideológicas eram muitas e óbvias. Quan pensava ele que o Brasil havia exportado no ano que se segui ao do fim da Guerra? Cento e trinta milhões de esterlinos,
cava)
- E pensas que todos os produtos exportados saíram do Grande do Sul? Sabes o que representa hoje São Paulo na vi econômica do país? E Minas Gerais? Ora, vai primeiro
estudar problemas para depois falares com alguma autoridade.
Chiru, porém, rião queria entregar-se. Voltou à carga.
- Sabes muito bem que o resto do Brasil não gosta de n O Cel. Barbalho interveio:
- Intrigas, Sr. Mena, intrigas...
- Quantos anos tem esta república de borra? - pergunt Chiru, abrindo os braços. - Trinta e três. Quantos Presídent gaúchos tivemos até hoje? Nenhum.
O DEPUTADO 91
__ A vida política do país é dominada pela camorra de São Paulo e Minas Gerais. Agora preferiram esse mineiro safado ao nosso grande Nilo Peçanha. p o fim do mundo.
Mas um consolo
eu Lenhc,: o Bernardes não toma posse.
Cacique Fagundes soltou a sua risadinha estertorosa.
_ _ i oma - disse. - Toma e governa até o fim.
- Poïs se tornar - replicou Chiru dramático - a honra
do ~ xéritu nacional está comprometida. Apelo aqui para o Cel.
Barbalho .. .
Q comandante da praça aproximou-se dele.
___ tv"áo apele. Não sou político, mas mílitar, e como mílitar
cumpro ordens superiores.
Chiru fez. um gesto de desalento.
- Mas o senhor acredita ou não acredita na autenticidade das cartas do Bernardes? - perguntou Juquinha Macedo.
O militar encolheu os ombros.
- Confesso que não tenho opinião no assunto.
- Pois eu - interveio Rodrigo - não acredito.
- Baseado em quê? - quis saber Chiru.
- Muito simples. Bernardes é mineiro, e como tal cauteloso e cheio de manhas. Um mineiro jamais escreveria coisas assim tão comprometedoras, principalmente em tempo
de campanha eleitoral.
- E que foi que ouviste falar no Rio?
Rodrigo confirmou a notícia que corria no país, de que o Presidente Epitácio Pessoa reunira no Catete a Ministro da Guerra e o da Marinha, o vice-presidente do Senado
e alguns políticos de Minas Gerais e São Paulo, para lhes manifestar sua apreensão quanto à gravidade da crise política nacional.
- Posso garantir a vocês que o Dr. Epitácio chegou a sugerir até a renúncia do Bernardes e a escolha dum terceiro nome, para evitar a guerra civil.
- Um absurdo - disse o comandante da praça. - Não acredito que o Dr. Bernardes aceite.. .
- -l-ambém sei que o Presidente disse ao Raul Soares, líder da política mineira, estas palavras textuais: "Estou convencido de que o Dr. Artur Bernardes não se agüentará
24 horas no Catete."
- Agüenta... - rosnou Cacique Fagundes, bocejando.
- A morte do Senador Pinheiro - disse Rodrigo - sob certos aspectos foi desastrosa para o país. A política nacional ficou sem um chefe, sem a sua figura central...
Juquinha Macedo interrompeu-o: .
- Qual ! A morte do Pinheiro foi a melhor coisa que podia ter acontecido a este Brasil desgraçado. A época do caciquismo político tem de acabar. Que é que estamos
fazendo aqui no Rio Grande senão tentando acabar com o nosso cacique guasca?
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O ARQUIPÉLAGO
- Respeitem ao menos o meu nome ! - exclamou o Cel. gundes.
Da sala de visitas vinham os sons do gramofone, de mi com exclamações e risadas.
O DEPUTADO
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9
Sempre enlaçando Quinota pela cintura, o promotor .agora recia deslizar pela sala como se patinasse sobre gelo. Fazia demonstração de one-step. A úma rabanada dos
dançarinos, ~a da Quinota esvoaçou e seus joelhos apareceram. Maria Va inclinou-se sobre Laurentina e murmurou:
- A senhora _ não acha que este mundo velho está m ficando louco?
A outra sacudiu lentamente a cabeça, concordando.
Sentados a um canto da sala, Stein e Bandeira bebiam e
tinuavam uma discussão crônica. Quando o primeiro termino
encher o copo de cerveja, o segundo observou:
- Devagar com o andor, Arão. Estás ficando bêbedo. - Tu também estás bebendo demais. Pensas que sou - É diference. Estou acostumado. Sou duro pra be
Posso enxugar dez garrafas e sair caminhando firme. Mas tu O outro fez uma careta e retomou o fio da discussão: - Está bem, tu dizes que Lenine não é eterno. Conco
Todos os homens são mortais; Lenine é homem, logo: Leni
mortal.
- Estou dizendo que estás bêbedo.
O judeu ergueu a mão:
- Espera. Lenine morre mas a revolução proletária conta Na Rússia Soviética não há mais personalísmos.
- Mas alguém tem de substituir Lenine.
- Trotsky, sem a menor dúvida ! E a maior cabeça da R loção, depois do Velho, naturalmente. E cá pra nós, que nin nos ouça, em muitas coisas acho Trotsky superior
a Lenine.
Tio Bicho bebia, imperturbável. Tornou a encher o copo, pachorra, com um cuidado tal, que parecia nm químico no laboratório a lidar com substâncias explosivas.
Fez-se um silêncio, ao cabo do qual Bandeira perguntou
- Tens lido álguma coisa sobre essa Semana de Arte derna em São Paulo?
- Naturalmente. Como pode um cidadão responsável d
de se interessar pelo que se passa na sua terra e no resto do moa - Não achas tudo isso uma baboseira inconseqüente? Arão Stein sacudiu a cabeça com veemência.
Não acho.
Rodrigo, que se aproximara deles naquele momento exato,
usou QUe q o paternal no ombro de Stein e quis saber: p° ue não achas?
Bandeira lhe disse de que se tratava.
Uma grandessíssima bobagem ! - exclamou Rodrigo. - Coisa de meninos irresponsáveis.
Arão continuava a sacudir a cabeça numa negativa obstinada. A música havia cessado. No meio da peça, o Dr. Ruas sorria à frente de Quinota, enxugava o rosto suado,
enquanto Chiru, que voltara à sala e procurava um novo disco, anunciava, como um ¡mponente mestre-de-cerimônias:
- Agora quem vai dançar com a Quinota sou eu. Mas uma valsa. Onde se viu um bagual dançar essas danças modernas?
Pôs o gramofone de novo a funcionar, e a melodia do Pavilhão das Rosas encheu a sala. Uma flauta chorava contra um fundo de
violões gemebundos.
- Que é que querem esses "modernistas" ? - perguntou Rodrigo. - Chamar_ a atenção sobre si mesmos, atirando pedras nas figuras mais respeitáveis da nossa literatura.
Dizem-se nacionalistas mas estêo encharcados de influências estrangeiras. Nenhum desses meninos insubordinados vale o dedo minguinho de homens como Coelho Neto,
que eles pretendem destruir.
Arão Stein tomou um largo sorvo de cerveja, ergueu-se, pegou com grande intimidade na lapela do casaco de Rodrigo, ante a divertida surpresa deste - que o sabia
tímido e respeitoso - e com voz arrastada, disse:
- Um momento, doutor, um momento. Essa revolução artística e literária não é apenas artística e literária, nãoo senhor.
Rodrigo escutava, sorrindo com benevolência. Nunca vira seu protegido assim tão desembaraçado e eloqüente. Parecia um deputado da oposição.
- O movimento é, no fundo, político.
- Ora!
- Attendez, mon cher docteur! O movimento modernista de - São Paulo é o` protesto brasileiro contra o sistema capitalista, é mais um ataque contra a burguesia, desta
~ vRz pelo flanco da arte e da literatura.
Voltou a cabeça para Bandeira e apontou para ele um dedo acusador
- Esse anarquista e burro, nãoo compreende, mas o senhor, Dr. Rodrigò, vai me entender, apesar de ser um esteio da aristocracia rural latifundiária com fortes cara
... cara esitou um instante mas finalmente conseguiu pronunciar a palavra - características feudais .. .
Com o indicador enristado bateu no peito de Rodrigo.
94 O ARQUIPrLAGO
- Seu coraçãò generoso, no fundo, bate pelo profeta pela fraternidade universal, mas o senhor está preso pelo há pela educação e por laços econômicos profundos ao
patn rural .. .
- Estás desviando o rumo da discussão, Stein - ob Bandeira. - Prova a tua tese, volta ao movimento modernis
- Cala a boca, dinamitador, cala a boca. Já me ex Quem é Coelho Neto? Um escritor da burguesia. Seus valorem telectuaís. morais e econômicos são os da classe dominante.
E sobre burgueses e para burgueses, jamais fez uma história proletários, fez? Pois é. Não fez. Sua mentalidade é burg seu estilo cheio de-flores de retórica, de
jóias, de ouro, é cara
ca-ra-que-te-ris-ti-ca-meu-te burguês.
- Para mim - sentenciou Rodrigo -tudo isso é bri deita. E se fosse coisa séria, eu a classificaria de paranóia.
Arão Stein pôs-se a reatar um poema de Mário de Andr
Eu insulto o hu~quês! O burguês-níquel
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo! O homem=curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano é semprè um cauteloso pouco a pouco.
Rodrigo interrompeu-o:
- Vocês querem que um leitor de Victor Hugo e Olavo como eu leve á sério essas maluquices? Sem dar-lhe ouvidos, Stein continuou:
Ai, filha, que te darei pelos teus""anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!! Mas nós morremos de fome.
Rodrigo olhou para Chiru, que valsava com Quinota, so e deu dois passos na direção dele. Stein, porém, segurou-lhe- manga do casaco.
- Un moment, docteur ... Meu pai era um homem r mas tinha a sabedoria do sofrimento. Ele costumava dizer. "Ar meu filho, nunca deixes nenhum trabalho pela metade."
Eu qu terminar a minha tese.
Ròdrigo sentou-se, lançando um olhar significativo para deita. Stein fez um sinal na direção da sala:
- Aproxime-se, mon colonel!
O comandante da praça franziu o sobrolho, como se não tiv a certeza de que era a ele que o rapaz se dirigia. Rodrigo acenoucora a cabeça:
- Venha ouvir uma pregação revolucionária.
O Cel. Barbalho aproximou-se e ficou de pé, muito perfilado, olhando com estranheza para o judeu. Rodrigo pô-lo ao corrente do que discutiam. O militar nem sequer
tinha ouvido falar na Semana de Arte Moderna.
. Sem a Guerra Européia - prosseguiu Stein, com um fogo frio nas pupilas - não teria sido possível o nascimento duma indústria no Brasil nem esse movimento renovador
da nossa literatura.
- O senhor, então - interrompeu-o o militar - é mesmo materialista, não?
_ Sou. E o senhor?
- Eu reconheço antes de tudo os valores espirituais.
- Poís se reconhece, errou a profissão. O Exército nãoo passa dum instrumento de opressão que o capitalismo usa contra as
massas !
O Cel. Barbalho ficou subitamente purpúreo. Olhou para Rodrigo como a perguntar se devia esbofetear o menino insolente ou apenas virar-lhe as costas.
- Que é isso, Arão? - repreendeu Rodrigo. - Náo sabes expor tuas idéias sem ofender as pessoas que não partiripam delas? Pede desculpas imediatamente ao coronel.
Não admito que um convidado meu seja desrespeitado na minha casa.
Arão Stein espalmou a mão sobre o peito e fez uma curvatura, numa paródia de retratação, murmurando:
- Excusez-mot, mon colonel. Não leve a mal o que lhe disse. Não tome a coisa pelo lado pessoal. Detesto o personalismo burguês. Acredito nas soluções coletivas.
Tio Bicho, que até então nada mais fizera sendo soltar seu risinho de garganta, observou:
- O que o nosso marxista quer dizer, coronel, é que nãoo quis insultar o senhor, que é uma pessoa, e sim o Exército, que -é uma coletividade.
Rodrigo lançou para Bandeira um olhar duro de reprovação.
- Vamos deixar estes "gênios" sozinhos, coronel - convidou ele.
Mas o militar sacudiu negativamente a cabeça, declarando que queria ficar e ouvir o que o moço tinha a dizer. Rodrigo ciciou-lhe ao ouvido:
- Não faça caso. O rapaz está meio tonto.
D rel. Barbalho sentou-se, cruzou as pernas e esperou. Arão Stein sorriu e, dessa vez sem ironia, estendeu a mão, que o militar apertou.
- Agora, senhores, escutem. Estou bêbedo, mas nãoo tão bêbedo que nãoo saiba que estou bêbedo, compreendem? Peço des~1Pas generalizadas. Mas o caso é líquido como
água. O Estado e uma máquina montada para manter o domínio duma classe sobre
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#96 O ARQUIPrLAGO

as outras. Quem disse isso foi um tal Vladmir Ulianov, conhecido como Lenine.
.. da Silva - terminou Bandeira, cerrando os olhos fingida solenidade.
- No princípio não havia governo - continuou Stei o homem primitivo levava uma vida rude e elementar, e pa breviver portava-se de maneira nãoo muito diferente da
dos an de presa. Com a divisão da sociedade em classes, nasceu o escravagista que mais tarde, com o desenvolvimento das f de exploração, se transformou em Estado
feudal, o que já f "progresso", pois o escravo, que não tinha nenhum direito e mesmo chegava a ser considerado uma pessoa humana, agor feudalismo trabalhava a terra
alheia, vivia de seus #rotos, em a parte do leão ficasse sempre com o senhor feudal ... A exp ção do homem pelo homem não só continuava como també aperfeiçoava.
Os servos não tinham nenhum direito política
Rodrigo e o coronel entreolhavam-se. O dono da casa e inquieto. O promotor tinha voltado ao piano e tocava agora rag-time, enquanto Chiru ensaiava passos, desa jeitado.
Flora a va dum lado para outro, servindo comidas e bebidas. Havia po minutos, lançara um olhar intrigado na direção de Stein. Sumi por alguns instantes e voltava
agora trazendo numa bandeja qu xícaras pequenas com café preto. Aproximou-se do grupo. Gr mulher ! - refletiu Rodrigo. Compreendera o estado em qu encontrava Stein
e vinha socorrê-lo. Teve a habilidade de pn dirigir-se ao militar.
f - Um cafézinho, coronel. Recém-passado.
Barbalho serviu-se. Rodrigo e Bandeira fizeram o mesmo
- E tu, Arão? - perguntou ela com ar casual.
Steín ergueu-se, curvou-se, murmurou madame, e pegou a úl xícara. Quando quis servir-se de açúcar, Flora voltou o rosto o ar mais natural deste mundo, e afastou-se.
Stein tomou tod café dum sorvo só e depois perguntou:
- Onde é que eu estava mesmo? - perguntou.
- No feudalismo - esclareceu Bandeira.
- Ahl O comércio se desenvolveu, e com ele o sistema troca de mercadorias. E qual foi o resultado desse progresso? nascimento da classe capitalista. Isso aconteceu
lá pelo fim da 1 Média. Sua Majestade o Ouro e Sua Majestade a Prata passa entào a governar o mundo.
Fez uma pausa curta, enfiou as mãos nos bolsos, e d prosseguiu:
- E nasceu com o capitalismo a idéia da igualdade. Não via mais escravos e senhores, nem servos e barões. Agora t eram iguais perante a lei, tinham os mesmos direitos
polític
mesma liberdade. Aha ! Direitos? Liberdade? Lorotas ! Potocas ! Continuava a nítida divisão de classes, e as leis eram feitas pelos representantes da burguesia de
acordo com os interesses da classe dominante. Sua finalidade principal era evitar que as massas tivessem acesso ao poder e aos meios de produção.
O coronel tinha ainda na mão a sua xícara. Olhou firme para Stein e disse:
_ O senhor deu pulos enormes por cima de épocas históricas inteiras.
Sem dar atenção ao que o militar dissera,. Stein continuou
. Foi então que Karl Marx entrou em cena com o sen
Das Kapital.
.- O livro mais citado e menos lido do mundo - atalhou Bandeira.
- Cala a boca ! Marx descobriu as contradições que solapavam a sociedade capitalista e concluiu que élas só podiam ser resolvidas pela socialização dos meios de
produção .. .
Rodrigo ergueu-se, impaciente:
- Mas que é que a Semana de Arte Moderna tem a ver com tudo isso ?
Arão Stein ficou por alguns segundos como que perdido e estonteado, num vácuo. Por fim fez um largo gesto, soltou um aah ! sonoro e contente de quem finalmente acha
o que procurava:
- Nós no Brasil repetimos todo esse processo histórico que acabo de resumir. No princípio era a lei da selva, o mais forte oprimia o mais fraco e o dilèma era comer
ou ser comido. Vejam o caso do Bispo Sardinha ... Com a vinda dos primeiros povoadores tivemos o regime escravagista. O índio e mais tarde o negro suaram e sofreram
nas plantações de cana-de-açúcar e nos engenhos do Norte. O ouro que se extraiu das Minas Gerais no século XVIII serviu de base para a criação da lavoura cafeeira
de São Paulo. Evoluímos do Estado escravagista para o feudal, embora a escravidão propriamente dita só tivesse sido abolida em 1888. Criou-se e fortaleceu-se a nossa
aristocracia rural. Quem eram os pró-homens do Império senão os representantes dos fazendeiros? As leis que votavam tinham por fim primordial defender os interesses
da classe Que eles representavam. O Império amparou o café. A República continuou a proteção mas começou a dar atenção ao comércio, à burguesia nacionah que aos
poucos se formava. Só agora, nestes últimos anos, é que, sem esquecer Sua Majestade o Café, nossos governos começam a interessar-se pela indústria. A Guerra Européia
abriu as portas duma nova era para nós: a industrial. Essa revolta de 5 de julho e mais a Semana de Arte Moderna são sintomas dessa mudança. Aqui é que eu queria
chegar. Outras revolaçOe3 virão, está claro, mas dentro ainda do espírito burguês: quar-
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zeladas, assaltos ao poder. Mas toda essa gente está sendo t mento da História. Nosso destino está traçado. A industrial criará um proletariado e esse proletariado
nos levará à rev social.
- Graças à estupidez da burguesia - acrescentou Tio
Stein sentou-se. pegou a garrafa e tornou a encher o co coronel remexeu-se na cadeira.
- Sua interpretação - disse ele - é demasiadamente s~ ta. O senhor esquece os imponderáveis da História.
- Que é que o senhor chama de "imponderáveis"? As v defiras causas dessa guerra mundial. monstruosa provocada pel teresses dos donos do petróleo, do ferro e do aço,
pelos fabris de armas e munições e pelos banqueiros internacionais?
- Já estás com as tuas novelas - interrompeu Rodrigo.
- Novelas? Novelesca, romântica é a sua interpretação guerra,,Dr. Rodrigo: o heroísmo dos aliados dum lado e a bar alemã do óutro... a resistência de Verdun, ils
ne passeront a Marselhesa e não sei mais quê. Eu encaro a guerra por outro 1 penso nos mortos, nos mutilados, nas cidades destruídas, na na fome, na loucura, na
flor da mocidade que foi sacrificada que os fruste$ e monopólios tivessem mais lucros. Faz quatro que a Guerra acabou e já se pode ver com clareza o seu resul Dum
lado. milhões de cruzes a mais nos cemitérios e nas valas muns, milhares de homens com os pulmges roídos pelos gases xiantes. outros milhares de loucos nos hospícios..
, e mul prostituídas. e órfãos, e viúvas... Do outro, os banqueiros que: gordaram com essa sangueira ... os novos ricos, os especuladore industriais que ganharam
dinheiro vendendo canhões e muna tanto para os alemães como para os aliados, porque o capitalist verdade não tem pátria. Acende uma vela a Deus e outra ao di
Stein tinha erguido a voz e agora gritava, enquanto o prom batia no piano com toda a força. Era de novo O Pé de Anjo. C rodopiava na sala, enlaçando afilha de Cacique
Fagundes.
Rodrigo deteve a m-ão de Steín que ia agarrar outra vez a rafa de cerveja.
- Bom, Arão, agora chega. Já bebeste demais. Sossega. - Pardos, monsieuc. Ainda não terminei. - Está bem, está bem. Depois conversaremos...
= Eu não estou bêbedo, doutor. Sei o que estou dizendo
que estou dizendo está certo.
- Muito bem, mas não vais beber mais porque eu não qu estás ouvindo?
O coronel retirou-se discretamente e foi conversar com FI Naquele instante Aderbal Quadros e a esposa fizeram suas d dídas e retiraram-se.
Roque Bandeira ergueu-se. Rodrigo voltou-se para ele e pediu:
Leva o Aráo direitinho pra casa. Como estôo tuas pernasl
- Firmes.
E a cabeça?
~- Lúcida.
Stein. que agora tinha caído em profunda depressão, murmurou:
- Lúcida nada ! Vocês todos têm uma cerração nos miolos. Não vëem a verdade. Pensam que vão resolver o problema da Humanidade votando no Assis Brasil. A coisa é
mais séria. Muito mais séria... Juro que él Juro!
-. Por São Lenine? - perguntou Roque Bandeira.
- Não sejas besta.
Roque tomou fraternalmente do braço do amigo e empurrou-o na direção da porta da rua, murmurando: "Que porre, mâe, Sánto Deus !"
Rodrigo aproximou-se do comandante da praça:
- Coronel, apresento-lhe as .minhas desculpas. Não quero que faça mau juízo do Stein. É um excelente menino, estudioso e sério.
- !n vivo veritas.
- A verdade é que nãoo disse nenhuma asneira. Dentro de suas convicções raciocinou com clareza. Repetiu tudo quanto. costuma dizer quando está sóbrio. A bebida sá
lhe deu mais ímpeto e eloqüência.
- Diga-me uma coisa, confidencialmente, Dr. Rodrigo. Esse moço será mesmo comunista .militante?
- Não creio. Por quê?
- Se é, arrisca-se muito falando dessa maneira. Ele nãoo devç ignorar que temos em pleno vigor desde o ano passado uma lei fgderal que proíbe a propaganda comunista
em território naéional.. .
- E o senhor sabe melhor que eu como são essas leis de repressão. Não conseguem reprimir nada e sim dar úma aurá romântica de coisa proibida às idéias que querem
combatér.
- Pode ser. Mas tome nóta do què lhe digo. Esse moço ainda vai se incomodar.. .
- Qual ! Ninguém leva esse "revolucionário de çafé" a sério: Comunismo no Brasil? Nem daqui a cem anos. Não creió em contos da carochinha.
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Pouco d ois ue o Cel. Barbalho se retirou, Licurgo chegou de volta ao Sobrado Foi direito ao escritório, onde Rodrigo discutia
#1OO
com o Cel. Cacique e o Juquinha Macedo um plano de cam eleitoral para ser levado a cabo durante os próximos trinta Pretendia mandar imprimir e distribuir em todo
o município tins de propaganda do candidato da Aliança Libertadora. com caravanas pelos distritos e colônias, a fazer discursos onde que houvesse mais de dois eleitores
para ouvi-lo. Pensava ta em publicar um jornal de emergência - quatro páginas ape para esclarecer a opinião pública e desfazer as mentiras e cal d"A Voz da Serra.
Licurgo pitava em silêncio, os olhos no chão. Quando Oterminou sua exposição e Juquinha Macedo pediu a opíniã senhor do Sobrado, este disse:
- Temos que fazer tudo isso, mas acho que vai ser um perdício de tempo e de dinheiro. Estou convencido que nin pode com a máquina do governo.
- Mas papai - avançou Rodrigo - temos a obrigação de acreditar no sistema democrárico. ~ o mínimo que podemos 1- E se os recursos legais nos falharem, só nos restará
a solução q senhor sabe.. .
- Por mim, eu começava a preparar a revolução desde hoj - disse Juquinha Macedo. - Teu irmão Toríbio é da m opinião.
- Qual nada ! - exclamou o Cel. Cacique. - Estoa m velho e escangalhado. Só brigo se tiver muita necessidade.
Rodrigo sentou-se na mesa e ficou olhando para os a Houve um curto silêncio.
- Quando vais reassumir teu cargo? - perguntou Macedo
- Aí está outro problema. Qual é a sua opinião neste ass papai
Licurgo nãoo hesitou
- A minha eu já lhe dei. O senhor tem que renunciar o q antes. Como é que um deputado republicano vai fazer propa política contra o candidato de seu partido? Não
é direito. amanhâ mesmo um telegrama ao Dr. Borges, pondo seu cargo mãos dele.
Na sala de visitas agora cantavam em coro. Era ama ca antibernardista que tivera grande voga no último carnaval. vozes, entre as quais predominava a do Chiru, retumbante
e finada, chegavam até o escritório:
Ai, seu 1f~lé! Ai, 16Ié, 16íé!
Lá no Palácio das tlguias, olé! Não hás de pôr o pé!
Rodrigo ficou por alguns instantes a escutar a marchinh súbito saltou para o chão e disse:
O DEPUTADO 1O1
t Sím, tenho de renunciar, mas vou fazer isso duma maneira que sirva a nossa causa.
Fez uma pausa dramática para dar a algum dos amigos a oportunidade de perguntar: "Como?" Três pares de olhos estavam pos
tos nele, mas nenhum dos homens falou.
~. Vou a Porto Alegre, reassumo o posto, inscrevo-me para falar. ataco o velho Borges e o borgismo num discurso arrasador, e, perante meus pares e a opinião pública,
renuncio ao meu ,mandato de deputado e declaro que vou lutar pela Aliança Libertadora.
A la fresca ! - exclamou Cacique, remexendo as nádegas na poltrona.
.¡ Isso! - aprovou Juquinha Macedo. - Isso mesmo!
O rosto de Licurgo permanecia impassível. E como os outros o interrogassem com o olhar, ele disse:
_- Por mim a coisa se fazia por telegrama, e já.
Rodrigo entesou o busto e, com a voz um tanto alterada, disse:
- Sinto muito, papai, mas discordo do senhor. Vou fazer exatamente o que acabo de dizer.
Licurgo soltou uma baforada de fumaça e murmurou, triste:
- Faça o que entender. O senhor é dono do seu nariz.
11
Rodrigo Cambará provou que era mesmo dono de seu nariz. Embarcou dois dias depois para Porto Alegre, reassumiu seu mandato na Assembléia e fez o discurso mais sensacional
e acidentado de sua vida de homem público. Como quisesse dar à sua oração não só a força destruidora como também esse elemento de surpresa chocante da bomba que
explode, teve o çuidado de não Contar ántes a ninguém, nem mesmo aos colegas da oposição, o que .pretendia fazér., Descobrira também uma maneira insuspeita de fazer
que estivessem presentes no grande momento alguns jornalistas seus amigos do Correio do Povo è da Última Hora, e que ele sabia capaze"s de tirar o máximo proveito
publicitário do escârídalo.
Sua voz vibrante, a que a comoção dos primeiros momentos dava um tom seco e foscó, encheu a, sala do plenário do velho edifício da Assembléia dos~Representantes.
Começou~o discurso fazendo um breve histórico do Partidq Republicano para exaltar a persona,, lidade do Dr. Júlio de Castilhos e ter a oportunidáde de referir-se
a ele como a "esse varão de Plutar`co, esse éstadista sem - par, cuja estatura intelectual e moral desce à medida em que o tempó lassa e muitos de seus correligionários
e discípulos se apequenam"e amesquinham". No fim da frase fez uma pausa e sentiu que a atmosfera aos poucos se carregava de eletricidade. Alguns dos colegas que
pare-
O ARQUIPLLAGO
1O2 O ARC}UIPELAGO

ciam escutá-lo com indiferença, mexeram-se nos seus lugares encararam com intensidade. Chico Flores - a quem Gaspar Banha, deputado da oposição, chamara com rara
felicidade de tapete" - sacudiu inquieto a juba. O próprio presidente da o Gen. Barreto Vianna, fitou no orador um olhar quase ala Naquela pausa de menos de meio
minuto Rodrigo pôde sena seu discurso começava a produzir os efeitos que desejava.
Continuou a oração - a voz agora com a tonalidade nato enumerando os serviços prestados por seu pai "desde a pn hora" ao partido de Júlio de Castilhos. Reportando-se
aos sombrios de 93, descreveu em cores dramáticas o cerco do So pelos federalistas.
"Tinha eu, Sr. Presidente e meus colegas, tinha eu época apenas nove anos de idade e, no meu espanto de criança podia compreender por que razão aqueles compatriotas
Bife de nós apenas na cor do lenço, cercavam nossa casa e atira contra nós. Mais tarde, homem feito, compreendi que não se tava duma luta de ódios pessoais, mas
dum embate de ide ideais. Criado e educado que fui, dentro dos princípios rep canos, sabia então como sei agora que; embora em campos op e rivais, politicamente
falando, republicanos e maragatos tt um sentimento em comum: o amor ao Rio Grande e ao Brasil, culto da democracia !"
Neste ponto um deputado da oposição soltou. um "Apoia Rodrigo prosseguiu:
"Fosse qual fosse a cor do lenço, éramos todos democr E nessa confortadora certeza viveram os homens da minha ger que se haviam alimentado no leite generoso das
idéias de Igual Liberdade e Humanidade! Em nome desses ideais maravilhosos, lhares de gaúchos valorosos, através dos tempos, sacrificaram bem-estar e o de suas famílias,
perderam seus bens e até suas. vt lutando, matando e morrendo em guerras muitas vezes fratricid
Nova pausa. Os olhos de Rodrigo dirigiram-se para Ge Vargas. O deputado por São Borja lá estava no seu lugar, c sempre vestido com apuro, as faces escanhoadas, o
bigode n com as pontas retorcidas para cima. Sua expressão era de im sibílidade. Parecia pouco interessado no que o orador dizia.
"Mas qual foi - continuou Rodrigo - o resultado de tos sacrifícios e renúncias, de tanto sangue generoso derramado,. tantas belas promessas e palavras?" - Neste
ponto inclinou o b fez avançar a cabeça, cerrou os punhos e, escandindo bem as síl para que não ficasse dúvida quanto.. ao que dizia, respond própria pergunta: -
"O resultado, senhores, foi esse espeta degradante que estamos hoje presenciando de um homem que. apega ao poder e quer fazer-se reeleger, custe o que custar, d
quem doer 1"
Da bancada oposicionista partiram gritos "Apoiado!", "Muito ~!". João Neves da Fontoura, deputado situacionista, ergueu-se ~ bradou: "V. Excia. está traindo seu
mandato, seu partido e seus correligionários!" - Começou o tumulto. Cruzaram-se apartes violentos. Das galerias agitadas vieram aplausos. O Presidente batia repetidamente
no tímpano e pedia ordem, ordem ! - e ameaçava mandar evacuar as galerias.
Rodrigo, perfilado, fazendo o possível para manter-se calmo. passava o lenço pelo rosto, sorrindo. E quando finalmente a ordem
foi restabelecida, continuou:
"O homem que nos governa há tantos anos, vive fechado no seu palácio, cercado de áulicos, cada vez mais distanciado do povo do Rio Grande e dos princípios do seu
Partido. Egocëntrico, vaidoso e prepotente, não suporta a franqueza e a crítica, e está sempre disposto a relegar ao ostracismo os seus amigos mais leais em favor
daqueles que estiverem dispostos a servir-lhe de capacho, a obedecer-lhe às ordens hem discuti-las."
Com voz engasgada Chico Flores gritou: "Sr. Presidente, isso é uma infâmia!"
Rodrigo aproveitou a deixa:
"Estou de acordo com o meu nobre .colega. Essa situação f realmente uma infâmia, e é contra essa infâmia que o Río Grande agora se levanta ! Que espécie de governante
, é esse que, para justificar seus ridículos pendores ditatoriais, invoca uma filosofia estranha à nossa gente e às nossas tradições?"
Com seu sorriso malicioso, Vasconcelos Pinto apartedu: "V. Excia. não pensava assim quando aceitou sua indicação para a cadeira que agora ocupa e dgslustrá !"
,
Sem dar atenção ao aparte, Rodrigo prosseguiu
"Essa filosofia diz basear-se na Ordem e ter por fim o Progresso. No entanto ela ,gera . a- desordem e o desmando"e ~az que o nosso Estado se arraste com passos
de tartaruga na "senda do progressò. Essa filosofia vive ~ proclamar seus fins humanitários mas o que tem feito entre nós é" acobertár o banditismo, encorajar a
arbitrariedade e premiar a, fraude! No Rio Grande do "Sul espan
a-se. matã-se e degola-se em nome de Augustò Comte!"
Risadas nas galerias. Protestos apaixonados de" vários deputados governistas. O Presidente chamou a atenção do orador para a sua linguagem virulenta e ameaçop cassar-lhe
a "palavra. "
"Cassar-me a palavra. Sr. Presidente? t m nome de quem? ~ Augusto Comte ou dé Clòtílde"de Vaux7"
Novas risadas e aplausos. Novo tumulto. A polícia interveio nas galerias e um jovem que trazia no bolso superior do casaco pm lenço vermelho, foi levado para fora
do edifício, aos trancos.
O DEPUTADO
1O4 O ARQUIP1rLAGO

Rodrigo apontou para o alto com um dedo acusador e exd "Os beleguins do ditador nãoo perdem tempo. Agres
a provar com atos o que estou afirmando nesta tribuna palavrasl"
Quando por fim a calma voltou ao plenário, Rodrigo ana a máquina eleitoral governista, e declarou que ela precisav desmantelada, destruída, a fim de que voltasse
a reinar no Grande a moral democrática e as eleições pudessem ser na real a expressão da vontade popular.
Lindolfo Collor aparteou, calmo:
- V. Excia. serviu essa máquina até o presente momen
Rodrigo mediu o auditório com o olhar e perorou:
"É por tudo isso, Sr. Presidente e meus colegas, que v hoje aqui renunciar publicamente ao meu mandato de dep pelo Partido Republicano Rio-Grandense e dizer, alto
e bom que vou sair por aquela porta, de viseira erguida, exonera qualquer compromisso para com essa agremiação política, sair um homem livre, senhor° de seu corpo
e de seu destino. E também declarar perante a opinião pública de meu Estado que colocar-me por inteiro, inteligência, fortuna, experiência, ent mo, a serviço da
causa democrática, neste momento tão glo mente encarnada na figura egrégia desse republicano histórico é o Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil ! Tenho dito."
Sentou-se, alagado de suor. Saldanha da Gama deixou banco e veio abraçá-lo, comovido. Das galerias partiram grit aplausos misturados com um princípio de vaia. A
polícia tev intervir novamente. O Presidente levou algum tempo para r belecer o silêncio, para que o próximo orador inscrito gudes meçar seu discurso.
Rodrigo saiu do plenário cercado de jornalistas. Ao ap mar-se da escada pareceu-lhe ouvir alguém murmurar: casaca". Parou, vermelho, olhou em torno e rosnou : "Quem
o canalha?" Os amigos, porém, o arrastaram para a sala do Disse um deles: "Não faça caso, doutor. É algum despeita Rodrigo deu, então, uma entrevista coletiva à
imprensa. TermirY esta, bebia ele seu cafezinho, quando Roque Callage, um jorna combativo da oposição e que vivia martelando o governo com artigos, aproximou-se
dele e, com o cigarrinho de palha apertado dentes, murmurou-lhe manso ao ouvido: "Sabe duma coisa en çada? Durante todo o seu discurso o senhor não pronunciou vez
sequer o nome do Dr. Borges de Medeiros." Rodrigo voI para ele o olhar perplexo. "Foi mesmo Y" E soltou uma risada. ~,
De volta a seu quarto no Grande Hotel, meteu-se num banho morno. Ensaboando distraidamente o peito e os braços, ficou a completar em voz alta o discurso da manhâ,
enamorado da própria voz. que a boa acústica do quarto de banho arredondava e amplificava. Dizia agora o que nãoo havia dito na Assembléia por causa do decoro do
mandato. Ao referir-se à gente que cercava Borges de Medeiros devia ter dito, além de áulicos, eunucos. "Eunucos - berrou - eunucos com suas vozes moralmente efeminadas
a dizerem amém a todas as palavras e ordens de seu senhor e mestre! Outra coisa não quer o soba positivista senãoo a submissão absoluta ! Não tem amigos, mas escravos
! Não quer conselheiros, mas capangas!" Repetiu muitas vezes a palavra capangas em vários tons de voz e de repente rompeu a cantar ém falsete uma ária de soprano
da Tosca.
Saiu do quarto de banho énrolado numa toalha felpuda c pôs-se a caminhar no quarto, dum lado para outro, empenhado num diálogo imaginário com Getúlio Vargas. De
todos os companheiros de bancada, era o que ele menos compreendia ... Um enigma. O Chico Flores era um caudilho de fronteira, como seu pitoresco irmão José Antônio,
intendente de Uruguaiana. O Lindolfo Collar, um intelectual com algo do Dr. Topsius da Relíquia ... mas não podia deixar de reconhecer que o "alemãozinho de São
Leopoldo" tinha talento, sabia coisas e usava-as com propriedade e bom português. O João Neves (cuja eloqüência Rodrigo invejàva cordialmente) era um intelectual
capaz de vibraçáo humanà. Mas Getúlio intrigava-o e às vezes chegava a irritá-lo. Baixote, sempre sereno, as faces barbeadas, o bigodinho muito bem .cuidado,. as
roupas limpas e bem passadas - tinha um ar assépticò e "neutro. Quanto a idéias e opiniões, era escorregadio como uma enguia. Quando todos os outros se agitavam
e comoviam, ele permanecia imperturbável. Na hora em que muitos de seus companheiros gritavam apaixonados, ele se conservava calado, com aquele diabo de sorriso
que não deixava de ter sua simpatia. Quando intervïnha nos debates, fazia-o de maneira inteligenté corajosa e com tanta habilidade que a oposição raramente o aparteava.
É a .verdade éra Sue ia fazendo sua carreira. Agora fora indicado pelo Partido para deputado federal na vaga que se abrira na Câmara com ~a morte de Rafael Cabeda.
Rodrigo tinha resolvido procurar João Neves para explicar a atitude que- tomara. Estava certo de que o companheiro ia compreender-lhe as razões. Mas era com Getúlio
que ele agora man~
O DEPUTADO 1O5
12
1O6 O ARQUIPrLAGO

tinha nina discussão imaginária. Estavam ambos na sala do da Assembléia, e Rodrigo contava ao colega quem era Laco druga. "Um bandido, um analfabeto, um primário."
Na sua o deputado de São Borja sorria, silencioso. "Tu vës, Ge quando o Chefe não sabe distinguir entre um correligionário e desinteressado como o meu pai, e um
sacripanta bandido e 1 o partido vai a gaita." Getúlio torcia as pontas dos bigodes; cara não exprimia emoção alguma. "Outra coisa, essa histó resolver pendengas
municipais impondo candidatos alheios à vi município é outro erro trágico." Mas qual ! O homenzinho se comprometia com uma opinião. Pois que fosse para o d" ~le
e os outros.
Estendeu-se na cama, acendeu um charuto e ficou atir baforadas de fumaça para o ar. Aquela hora o telégrafo dece havia espalhado por todo o Estado, por todo o país
a notíci seu discurso. Sorriu. Possivelmente pouco depois que ele termt de falar, um dos inúmeros sicofantas do Chimango fora lev notícia ao sátrapa, que com toda
a certeza a escutara impas de olhos frios, mal méxendo o gogó que se lhe escapava pela a fura do colarinho de pontas viradas.
Rodrigo olhava para as tábuas do, teto, mas o que realm tinha no espírito eram cenas de sua vida naqueles últimos anos. Terminava agora uma fase importante de sua
vida, tivera momentos alternados de exaltação, desânimo, alegria, teza, impaciência, serenidade ... Para principiar, nunca se se muito bem como deputado republicano.
O governista é semp hombre inalo da história, o vilão, ou, para usar a nomencha cinematográfica, o bandido da fita, ao passo que o herói, ó cinhó " é sempre o deputado
da oposição. Estava claro que Rodrigo Cambará, havia nascido para lutar na barricada op vista, e talvez viesse daí a naturalidade ou, melhor, a alegria que rompera
com o partido, passando para os arraiais da minoria Não sentira nunca o menor prazer em servir Borges de Med " criatura incapaz duma palavra de estímulo, dum gesto
de grat ou de simpatia humana. O homem portava-se como se já f própria estátua, e por sinal uma estátua de mármore frio e ma sem nenhum estremecimento épico.
Rodrigo desvencilhou-se da toalha, jogou-a ao chão e, pletamente nu, remexeu-se na cama, com o charuto preso aos dett A imagem de Getúlio Vargas surgiu-lhe de novo
nos pensamen Qnis espantá-la. Não pôde. Recomeçou a discussão procura arrancar do homenzinho uma palavra de compreensão. Inútill estava ele, sorridente e vago, cofiando
o bigode. Que teria o m iro nas veias l Sangue ou água 7 "Olha, Getúliô, tens muitas q dades que admiro, mas uma coisa te digo: água e azeite nãoo
O DEPUTADO 1O7
misturam nunca, e por isso jamais poderemos ser amigos. Não tenho sangue de barata, e para mim existem na vida coisas mais importantes que uma carreira política."
Outro motivo de exasperação para Rodrigo era o fato de jama;s ter encontrado Getúlio Vargas no Clube dos Caçadores. Essa austeridade num homem tão moço não lhe parecia
normal nem mesmo saudável.
A cinza do charuto caiu-lhe no peito, que ele limpou com a palma da mão. Mundo velho sem porteira ! - como dizia o Liroca. Hoje é um grande dia. Adeus. senhor deputado!
Pensou naqueles
anos de vida parlamentar. Lembrava-se com particular encanto da campanha da Reação Republicana, de seus discursos contra Artur Bernardes e a camorra paulista-mineira.
Lembrava-se de seu amarga desapontamento quando a nação inteira esperava a palavra de Borges de Medeiros, capaz de lançar as Forças democráticas do país numa revolução
regeneradora, e o Papa Verde soltara através dum editorial d"A Federação o seu gélido "Pela Ordem".
Ah ! Mas fosse como fosse Rodrigo Cambará ia deixar sua marca na vida social de Porto Alegre. Isso ia, sem a menor dúvida ! Os jornalistas o adoravam. Ele era um
assunto. Homem franco, detestava as meias palavras. Vinha disso o caráter sensacional de quase todas as suas entrevistas. Tinha também amigos e admiradores entre
os turfistas. Não faltava às corridas dà Protetora do Turf aos domingos e seu cavalo Minuano, cria do Angico, gatihara uma vez um páreo importante, chegando na frente
de animais de raça, estrangeiros. O cronista social da Máscara escolhera-o como "o deputado mais bem vestido". Aonde quer que fosse, tinha amigos ou conhecidos:
- na galeria do Café Colombo, onde tomava o chá das cinco e flertava com belas fêmeas, principiando ou continuando muita aventura que terminava na cama; na Alfaiataria
de Germano Petersen, onde se reuniam políticos e homens de negócio; à porta da Livraria do Globo, onde intelecpuais discreteavam, olhando a parada das belas mulheres
que ao entardecer faziam o footing."
Rodrigo ecgueu-se e começou a vestir-se com um vagar feminino. Tinha prometido almoçar com dois deputados da oposição para
acertarem os relógios" quanto à propaganda da candidatura de Assis Brasil. Curioso! Duma hora para outra estava na oposição, amigo dos maragatos. Isso lhe dava uma
sensação que era metade orgulho de estar contra o governo e metade a vaga impressão de ter feito uma travessura pela qual ia ser repreendido pelo pai. Era estranho:
nos últimos tempos não podia pensar no Dr. Borges de Medeiros sem associar sua imagem à do velho Licurgo, como se ambos fossem irmãos de sangue ou muito parecidos
de físico e
tetrzpe1amento. Se o Velho soubesse, ficaria furioso.
1O8 O ARQUIPrLAGO
13
Aquela noite, depois do jantar, decidiu ir ao Clube dos Ca res para uma despedida. Havia passado naquele cabaré morre inesquecíveis. Como de costume, apertou a mão
do porteiro. ` noite. Dr. Cambará. Parabéns pelo discurso." Rodrigo s entregando ao homem o chapéu e uma gorda gorjeta. O decerto havia lido sua oração nos jornais
da tarde. A Última a reproduzira na íntegra, sob cabeçalhos escandalosos.
Subiu a escada lentamente, com a reconfortadora sensação que "estava em casa". Aspirou com delícia o perfume de 1 de violetas que vinha da barbearia do clube, na
qual pene passando a mão pelas faces e dizendo: "Boa noite, Lelé, mr" uma passada rápida." Sentou-se na cadeira com um suspiro de quem antecipa momentos de abandono
hedonista. Por al segundos ficou a namorar-se no espelho, enquanto o barbei felicitava pelo discurso da manhâ.
- Não se fala noutra coisa na cidade. Para dizer a ver não li o jornal. Mas me contaram.
Rodrigo sorriu, cerrando os olhos. No salão de danças, onde vinha um rumor de passos ritmados e vozes, a orquestra t a Tehuana. Era agradável sentir no rosto a espuma
cremo fresca, com uma fragrância de limão. Pensou na clara de ovo ba que a Dinda punha em seus doces, e teve um súbito, absurdo d de comer montanha-russa. O barbeiro
falava torrencialmente. C tava mais uma vez que em futebol era do Sport Clube Internacío e em política do Partido Federalista.
- Comigo é só no colorado. E por falar em colorado senhor nãoo vai fazer uma fezinha na roleta hoje? Jogue no 1 doutor. A noite passada sonhei com esse número. Jogue,
qut tiro e queda.
O barbeiro calou-se, mas ficou resmungando a melodia me cana. Rodrigo passava mentalmente em revista as mulheres cabaré com quem poderia dormir naquela sua derradeira
noite Porto Alegre. A primeira que lhe veio à mente foi Gina Ca tenuto, a cançonetista italiana. Mas não! Era demasiadame exuberante, e seu humorismo andava sempre
beirando o sarcas Que se podia esperar duma mulher que, ao entrar no .palco cantar seus números, olhava em torno da sala e gritava: "Buona gonococchi!"? Concluiu
que poderia ser uma fêmea ótima pA seu irmão Toríbio, mas não para ele. E a argelina de olhos
ágata que contava histórias sórdidas e sombrias de Casbah, on fora violada por um árabe de pele oleosa, com olhos de assassine
O DEPUTADO 1O9
Era excessivamente ossuda e destituída de seios, isso para nãoo falar na voz lamurienta e na mania que tinha de fazer o amor com o quarto completamente às escuras.
Havia ainda Ninette, esbelta e loura, com seu ar de princesa nórdica, o seu perfil de medalha antiga. Qual ! Quem é que quer levar para a cama um camafeu ou uma
estatua? Não. Por mais que procurasse - e havia tantas! . sua escolha sempre caía em Zita, a jovem húngara que agora andava com um estancieiro de Alegrete. O "coronel"
estava ausente da cidade - por esse lado nãoo haveria problema, mas a menina tinha um "amiguinho" que era, nada mais, nada menos que um dos melhores companheiros
com que ele, Rodrigo, contava ali no clube .. .
- barbeüo continuava a falar. Narrava histórias de fregueses seus. Por aquela cadeira passava gente de toda a espécie. Aprendera a conhecer a procedência da clientela
pela roupa, pela maneira de falar, pelo tipo de corte de cabelo .. .
- Quando o bicho usa costeletas e está com uma boa camisa de seda, só pode ser da fronteira, de Livramento ou Uruguaiana.
- Mas eu uso costeletas e camisa de seda e sou de Santa Fé.
- Ah, mas o senhor vê, doutor, nãoo hai regra sem exceção, como diz o outro.
- Como é que você sabe que o freguês é serranó?
- Bom por uma certa poeirinha avermelhada que fica nos sapatos ... e às vezes até na pele .. .
- E o pessoal da zona colonial?
- barbeiro recuou um passo e, erguendo a navalha como se fosse degolar Rodrigo, exclamou:
- Esses conheço pelo suor ! Gringo tem um cheiro especial.
- Pois erraste a profissão, Lelé. Devias ser investigador da polícia.
- Deus me livre e guarde !
- barbeiro penteou o cliente. aparou-lhe as sobrancelhas e os cabelinhos das ventas, mas quando apanhou a pluma para em-~ poar-lhe o rosto, Rodrigo deteve-o com
um gesto:
- Não. Guarda isso para os teus frescos.
- outro desatou a rir. Rodrigo pôs-lhe na mão uma cédula de vinte mil-réis, deu-lhe uma batida no braço e saiu da barbearia na direção da sala de jogo, onde entrou.
Àquela hora havia pouca gente ao redor das mesas de roleta e bacará. O jogo forte começava em geral cerca das duas da madrugada. Curiosos caminhavam dum lado para
outro, num ambiente de grande familiaridade, mas numa espécie de surdina de velório ou igreja. Falavam aos cochichos e a única voz alta que se ouvia era a dos crupiês.
"Façam jogo!" Um cheiro de café recém-passado temperava agradavelmente o ar morno, que a fumaça dos cigarros e charutos azulava. "Feito!" O matraquear da roleta
11O O ARQUIPrLAGO

produzia uma espécie de cócega no peitó de Rodrigo: era um alegre, esportivo, carregado de emoções e expectativas. "Vin quatro. Preto!" Rodrigo comprou fichas, aproximou-se
da
e pô-las todas sobre o número 13. "Façam jogo!" O crupiê um castelhano magro e pálido, de barba cerrada - saudou Ro com um sorriso. "Feito!" A roleta movimentou-se,
a bola lançada. Tudo parecia um brinquedo de criança. Passou ra pela càbeça de Rodrigo a idéia de levar uma roleta em minia para os filhos ... Não. Seria um mau
exemplo. Seus olhos guiam a bola. Ele não via mas "sentia" as caras tensas ao da mesa. Sempre tivera um certo medo de apaixonar-se pelo ~ Era por isso que em geral
evitava as oportunidades de jogar. que diabo ! Aquela era uma noite especial .. .
A bola aninhou-se sob um número. Treze! Pretol gritou o crupiê. O palpite do barbeiro dera certo. Rod apanhou as fichas que a pá empurrava na sua direção e pôs delas
dentro da caixa dos empregados. O crupiê agradeceu com um sorriso. Rodrigo afastou-se da roleta. Pensou em ba o bacará. Ou seria melhor ir sentar-se no salão de
danças e alguma coisa?
Alguém tocou-lhe o braço. Voltou-se. Era o Dr. Antônio faro, médico multo respeitado na cidade pela sua probidade pr sional e pelo seu famoso olho clínico. Outra
particularida tornava notório: sua tremenda paixão pelo jogo. Havia n em que perdia ali na roleta e no bacará verdadeiras fortunas. Jo em silêncio, nãoo se lhe movia
um músculo de cara; passava o te fumando cigarro sobre cigarro. Contava-se a história duma fa noite em que o Dr. Alfaro ficara a jogar obstinadamente arredar o pé
da mesa de bacará. À meia-noite pediu um bïfe a ca e comeu-o ali mesmo, perto do pano verde, sem tirar os olhos cartas. .Alta madrugada, mandara chamar um barbeiro,
que sonolento escanhoar-lhe o rosto. E o jogo continuou sem in rupção até o clarear do dia. Às oito o Dr. Alfaro pediu um com leite e torradas. Às nove ergueu-se,
enfiou o chapéu na ca e, já com sol alto, saiu dos Caçadores diretamente para o consultó
Cinqüentão, alto e descarnado, os cabelos negros riscados prata aqui e ali - tinha um rosto ossudo e longo, dum mo terroso, e uma voz que lembrava o som do fagote.
- Homem! - exclamou Rodrigo. - Há quanto tempoF
O Dr. Alfaro meteu um cigarro na piteira de âmbar e acendeõ
- Pois aqui estou, meu caro, assinando o ponto, como pre. Ah ! Parabéns pelo discurso. Não sou político, você mas sempre me faz bem ao coração e ao fígado ler que
alguém uma bordoada no Papa Verde. - Fez uma pausa, expeliu fu pelo nariz, olhou Rodrigo de alto a baixo e depois perguntou: E agora, quais são os planos?
Ora, volto amanhã para Santa Fé, pelo noturno, e vou começar em seguida a campanha eleitoral em todo o município.
O Dr. Alfaro sacudiu lentamente a cabeça. Mas seus olhos estavam voltados para a mesa de bacará. Parecia perturbado.
_- Não vai jogar? - perguntou Rodrigo.
- Não sabia que abandonei definitivamente o jogo?
_ Não diga !
_ Poïs é. Faz três meses que tomei essa resolução e não pretendo voltar atrás.
- Mas por quê? Como foi o milagre?
- Você não`o pode calcular o quanto isso me custa.. .
O médico ergueu as mãos, com as palmas voltadas para cima. Estavam trêmulas e úmidas de suor. Rodrigo mirava-o, curioso, esperando a explicação.
- Quer saber por que deixei de jogar? - Tomou do braço do outro e levou-o para um canto deserto da sala. - A história é simples e ao mesmo tempo terrível na sua
simplicidade. Como todo o mundo sabe, tenho perdido horrores nesta casa. Uma noite deixei aqui, entre a roleta e o bacará, mais de vinte contos. Sim senhor, vinte
contos de réis! Saí alcatruzado, desmoralizado; com vergonha até de levantar os olhos para o céu. O dia tinha clareado. E quando cheguei em casa vi uma cena que
me . deixou abalado. Minha mulher de robe de chambre discutia na calçada com o verdureiro por causa de um tostão de diferença no preço da couve. Um tostão! E eu
tinha acabado de perder vinte contosl Não posso descrever o que senti. Foi como se minha alma tivesse caído numa latrina, como disse a personagem do Eça. A coisa
foi tão forte. que naquele instante prometi a mim mesmo nãoo jogar nunca mais. E cumpri a promessa.
- Mas por que continua vindo aqui?
O Dr. Alfaro encolheu os ombros.
- Não sei. Talvez a força do hábito. Ou então é o bêbedo regenerado que ainda gosta de sentir o cheirinho da cachaça. Pode ser também que eu queira valorizar o meu
gesto, tornando a coisa mais difícil. Uma espécie de bravata, compreende?
Rodrigo sacudiu lentamente a cabeça.
- Por que nãoo vem comigo até, o salão para tomar, alguma coisa ?
O Dr. Alfaro sacudiu negativamente a cabeça.
- Não, obrigado. Nunca entrei naquele salão. Fui jogador, teso sim, mas femeeiro nunca. Estou um pouco velho para começar. Mas vá, e que lhe faça bom proveito.
Apertaram-se as mãos. Os olhos do Dt. Alfaro se voltaram Para a mesa de bacará.
O DEPUTADO
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112 O ARQUIPrLAGO
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lq.
Como de costume, Rodrigo sentou-se à mesa que ficava do palco triangular, a um canto do salão. Pediu uma garrafa champanha e ficou a beber, a fumar e a olhar os
pares que da vam. A orquestra tocava um tango argentino, que espalhava ar uma melancolia arrabalera, permitindo àqueles homens - tudantes de cursos superiores, empregados
do comércio, caixei viajantes, gigolôs profissionais, visitantes do interior - exibi suas habilidades coreográficas. Muito agarrados aos pares - lheres que traziam
de fora ou que ali eram postas pela gere da casa, como engodo para a freguesia - eles se arrastavam ritmo da música, em passos lânguidos, tudo isso num contraste.
c o jeito safado e vagamente negróide que tomavam quando da vam maxixes.
Rodrigo ficava âs vezes absorto a observar os membros orquestra. Eram homens de ar aborrecido ou neutro, que de tocavam em confeitarias peças semi-sérias e insípidas
ou esfrega burocratïcamente os fundilhos das calças em alguma cadeira de partição pública.
As mesas se achavam colocadas à frente de bancos assentos de couro que corriam ao longo das paredes, onde peque espelhos multiplicavam as luzes e os vultos da sala.
Rodrigo ah alguns dos freqüentadores habituais do cabaré. Lá estav "Conde" (ninguém lhe, sabia o nome verdadeiro) sessentão e ca todo vestido de negro, o monóculo
éspecado no olho eeque o colarinho engomado e alto, uma pérola no pregador da grau sempre perfumado de Fleur d"Amour, fumando cigarros turcos. ponta duma longa piteira,
as mãos muito bem manicuradas, a esguia, as feições um tanto imprecisas, como que esculpidas sabonete. Havia nele um ar mórbido de fim de noite. fim de se fim de
raça, fim de tudo. Mas que tinha um aspecto digno, guém negava. Era fleumático como um inglês de novela. Pas quase toda a noite em silêncio, bebendo seu champanha
gela mordiscando torradinhas barradas de caviar, tendo sempre à mesa uma mulher bela e jovem - nunca a mesma ! - que tratava com uma polidez distante, mirando-a
de quando em qua com seus olhos vítreos. Alta madrugada, saía com a companh para - murmurava-se - inconfessáveis orgias sexuais.
Numa outra mesa um conhecido estancieiro de Dom Ped cocava com seus olhinhos lúbrïcos a branca polaca que sorria a lado, enquanto um rapaz encabelado e esguio, de
gestos irrequie lhe dizia algo ao ouvido. O òlhar de Rodrigo deteve-se no jov
$ra um dos tipos mais populares ali nos Caçadores. Rodrigo achava-o repulsivo e exatamente por isso nãoo podia tirar os olhos de sua figura. A pele do rosto magro
e escrofuloso tinha essa palidez lustrosa e transparente do rato recém-nascido. Coroava-lhe a testa olímpica. pintalgada de espinhas inflamadas, uma mecha de cabelos
dum negro fosco. Todos o conheciam pela sugestiva alcunha de -1-reponema Pálido. Costumava andar de mesa em mesa, à procura de quem lhe pagasse um bife com ovos
e uma cerveja. Não tinha emprego certo e dizia-se que era traficante de cocaína. Interesseiro e servil. adulava os estancieiros que .freqüentavam o cabaré, servindo-os
como menino de recados. E as mulheres, embora sè valessem às vezes de seus serviços de cáften e lhe dessem gratificações em dinheiro, repeliam-no como macho.
A orquestra deixou morrer o tango num gemidó sincopado de acordeão. atacando em seguida um one-step. O clima da sala mu
dou de repente.
Sentada à mesa dum homem taciturno e demasiadamente cônscio do colarinho alto que lhe dificultava os movïmentos de cabeça, Rodrigo avistou a "Oriental", uma uruguaia
da província de Canelones. Gorda e terna. quando ia para a cama com um "freguês" tinha o hábito de recitar-lhe poemas inteiros em espanhol. Gabava-se de saber de
cor todo F_l Cantaro Fresco, de Juana de Ibarbourou.
Um garçom abriu com estrondo uma garrafa de champanha junto da mesa dum velhote risonho e de cabelos pintados, que acariciava a mão. duma mulher de aspecto soberbo,
sentada a seu lado. Era a Bela Zoraida - pois assim ela própria se intitulava - famosa pelas jóias caras, que lhe adornavam o colo e os braços, engastadas em aço.
Trazia sempre ao redor do pescoço um cordão de ouro, do qual pendia um apito. Dizïa que era para chamar a polícia, caso fosse assaltada por ladrões.
Que fauna 1 - murmurou Rodrigo para si mesmo, tomando um gole de champanha. Avistou Zita, que se aproximava de sua mesa conduzida pelo "amiguinho". Ergueu-se, abriu
os braços e estreitou o rapaz contra o peito. Sentem-se! Sentem-sel Apertou com ambas as mãos a delicada mão da húngara. Era uma rapariga Pequena, bem-feita de corpo.
Teria pouco mais de vinte anos. Havia algo de felino em sua cara um tanto larga, de olhos verdes e enviesados ; a boca rasgada, , de lábios polpudos, era dum vermelho
úmido. Sombreava-lhe a voz um tom penugento e fosco, que Rodrigo achava excitante como um beijo na orelha.
- Que é que há de novo? - perguntou ele. quando viu os dois amigos acomodados à mesa.
O rapaz encolheu os ombros e fez uma careta pessimista.
- Tudo velho. Os "pecuários" de sempre.
#114 O ARpUIPELAGO
Era talvez a figura mais assídua e popular do cabaré. zino, duma brancura doentia de crupiê, tinha as pálpebras chutadas permanentemente debruadas de vermelho e
os olhos e ciados por uma expressão de tresnoitada canseira. Filho dum Lião duma cidade da fronteira com o Uruguai, viera para Alegre, havia três anos, para estudar
Medicina, mas continua marcar passo no primeiro ano. Passava noites inteiras no ca onde as mulheres o adoravam. Só ia dormir. sempre acompan quando o sol já estava.
alto. fls três da madrugada, depois q cabaré fechava as portas, levava a companheira da noite a c um bife nos restaurantes do Mercado i"úblico. Era campes maxixe,
valente como galo de briga e - toda a gente sabia próprio náo negava - apreciador do "pozinho branco", bem alguns daqueles moços que freqüentavam os Caçadores.
Um desafeto lhe pusera o cognome de Pudim de Cocaína, a princípio ele repe)ira, indignado, ("Pudim de Cocaína é a m - retrucara duma feita, já pronto para quebrar
a cara do insolen Mas como os amigas tivessem gostado da alcunha, acabou habit do-se a ela, e hoje os íntimos tinham o direito de chamar-lhe Pu e como tal era conhecido.
A afeição e a admiração que Rodrigo lhe votava, nascera dia em que vira o rapaz dar uma surra espetacular num su mais forte do que ele, ali em plena pista de danças,
ao som d valsa lenta. Tendo vindo depois a conhecer o Pudim ma perto, Rodrigo descobrira no rapaz muitas qualidades de coca Aquele boêmio noctívago, de ar permanentemente
entediado, aq tomador de cocaína irritadiço e provocador de brigas era no fu, urrí sentimentalão, amigo leal e generoso. Embora vivesse d mesada curta, nunca recusava
ajudar os yue tinham menos que
Rodrigo contemplava-o agora com um ar entre afetuoso e tico de tio.
- Precisas dar um jeito nessa tua vida. homem.
- Que jeito?
- Ora, se queres eu te componho esse corpo em poucos m
Te levo para a minha estância, te faço um tratamento de fortifi tes, te empurro uma boa dieta e em pouco tempo estás outro. - Pra quê?
Pudim olhava para a taça que o garçomnayuele momento ene de champanha. A máscara da comédia se the alternava no r com a da tragédia; a da inocência com a da devassidão.
Seus la de vez em quando se crispavam numa expressão de desdém. como se aquelas coisas todas - mulheres, bebidas, cocaína, da - não lhe dessem o menor prazer. Parecia
entregar-se a elas p matar o tempo, ao mesmo tempo que se matava. Rodrigo aaquilo um suicídio lento e estúpido.
O DEPUTADO 115
Zita olhava para o amigo e sorria. Era nova na cidade e no Brasil. Não sabia patavina de português mas falava com alguma
fluência um restandollheaumao ualidade Seutura]irar toda a musical doçura. emP q g
_. Já tomaste a tua dose hoje? - perguntou Rodrigo, enca~ndo Pudim.
- Não. O cafajeste do boticário nãoo me quis fiar. Estou quebrado. O velho me cortou a mesada. r um mundo infecto !
_- Podia te dar dinheiro. mas nãoo quero alimentar teu vício. rláo descansarei enquanto nãoo te fizer deixar a coca.
- Não perca o seu tempo.
- Sabes duma coisa engraçada? Nunca te vi à luz do sol!
Pudim acendeu um cigarro, aspirou a fumaça com força e a seguir com mais força ainda soltou-a pelas narinas. Bebeu um gole de champanha e resmungou:
- Está tudo podre.
Ergueu-se e segurou o pulso da companheira:
- Vamos dançar. Capisce? Danzare, mannagia! Esta "turca" nãoo há jeito de aprender o brasileiro.
Zita ergueu-se. Saíram a dançar, os corpos muito juntos. Era am maxixe. Rodrigo seguiu-os com o olhar. Pudim podia ganhar a vida como bailarino profissional. Dançava
tão bem como OCastrinho, uma das atraçôes dos Caçadores. Era ágil, elástico. tinha ritmo e pés de pluma. Mas todo o interesse de Rodrigo agora ee concentrava nas
nádegas da húngara.
Neste momento um homem sentou-se à sua mesa. Rodrigo franziu o cett~o, contrariado. Era o Cabralão, outro tipo popular na casa. Rábula metido a poeta, tinha fama
de grande orador. Dizia-se que poderia fazer uma fortuna como advogado, no crime, se -náo bebesse tanto. Vestia-se com desleixo, tinha uma cabeleira basta, dum ondulado
suspeito, uma cara trigueira picada de bexigas, uma beiçola caída, dum pardo avermelhado.
- Dr. Cambará - disse ele com voz meio arrastada e pastosa - vim aqui lhe pedir para assinar na minha lista .. .
- Que lista? - perguntou Rodrigo, já na defensiva, pois sabia que o rábula costumava lançar mão dos mais inesperados estratagemas para arrancar dinheiro aos amigos
e conhecidos.
- Para o monumento que nós, os treyüentadores desta casa, vamos mandar erigir ali na frente do portão central do cais do porto.
Falava com ar sério e confidencial.
- Mas que monumento?
Cabralão inclinou-se sobre a mesa. Seu hálito recendia a ~chaça.
- Uma estátua à Prostituta Européia. Que lhe parece?
Rodrigo não pôde evitar um sorriso.
116 O ARQUIPÉLAGO

- Qne história é essa?
- Vou escrever um artigo para explicar o sentido desse
nnmento. Mas posso ihe adiantar algumas das minhas idéiam
Pegou num gesto automático a taça da húngara, levou-a lábios e bebeu o champanha que restava nela.
- Vou mostrar, Dr. Cambará, meu ilustre deputado, elogiar, está entendendo? a grande função civilizadora que ram entre nós essas mulheres da vida que, depois da
Guerra E péia. vieram para Porto Alegre, importadas pelos nossos ca
- bordéis. - Inclinou-se mais na direção do interlocutor. apert com força a haste da taça. - Dr. Cambará, meu ilustre a pois é, essas damas estão mudando a nossa
vida, permitindo nossa cídade deixe de ser uma acanhada menina provinciana se transformar, está entendendo? numa mulher adulta e talvez a lera mas, que diabo!, mulher
em tódo o caso.
O maxixe cessou. Romperam aplausos entusiásticos. A orq tra repetiu o número. Os olhos de Rodrigo procuravam a hún Cabralão raspava com a unha longa e polida o rótulo
da ga Prosseguiu
- Graças a essas cortesâs, meu caro deputado, está oum graças a essas. competentes profissionais os nossos estancieiros aprendendo boas maneiras. Em vez de cerveja,
doutor, em ver cerveja já bebem champanha, Cointreau, Beneditino. Já c caviar e pâté de fole gras em vez do consagrado bife com ov batatinhas fritas. Já sabem segurar
o garfo e a faca e nãoo a ram mais guardanapos no pescoço, está entendendo? Os n cascas-grossas até já beijam as mãos das damas... Civilizarri meu caro parlamentar,
civilizam-se os guascas !
Muito a contragosto Rodrigo começava a interessar-se pelo
- Cabralão dizia. Havia uma grotesca verdade em suas pala
- rábula sorria, como que encantado pelas próprias idéias.
- Porto Alegre já tem a sua vida noturna - continuou.
- senhor me compreende, doutor? Eu nãoo exagero... exag Não exagero. Os fatos estão aí. Nossa cidade mudou da noite
- dia, é um dos grandes mercados do mundo, Dr. Cambará, tráfico de brancas. Essas horizontais nos chegam diretamente Paris, note bem, de Paris e de outras cidades
da Europa. Oa estive com uma que me recitou Verlaíne, calcule, Les Fleurs du 14~
- Isso é de Baudelaire.
- Bom. Não vem ao caso. Mas a verdade é que sabia v inteiros, e de simbolistas, meu caro deputado, de simbolistas ! essa francesa me contou que dormiu com o Apollinaire.
vamos e venhamos. Eu, o Cabralão, um bode da Rua da V" zinha, dormindo com uma francesa alvíssima que já amou grande vulto da literatura mundial, hein, que tal,
heín? Com
O DEPUTADO 117
essas deusas de leite e mel com as nossas chinas, as nossas mulatas analfabetas e sifilíticas. Que é que o senhor acha?
Acho que você está bêbedo.
O rábula fechou a cara e os olhos, em cujas comissuras brilhavam pontinhos duma secreção branca, e murmurou com certa dignidade
. Bêbedo, sim, mas lucidíssimo !
- Outro champanha e mais ma taça! - gritou Rodrigo para um garçom que passava.
Zita nãoo podia tornar a beber na taça que o mulato maculara.
Cabralão agora olhava em torno, como se visse aquela sala pela primeira vez.
- Veja este cabaré, meu caro doutor, este santuário, se me permite a expressão profana. - Sua voz se tornava cada vez mais arrastada. - Poderia existir o Clube dos
Caçadores sem essas abnegadas mulheres que a Europa nos manda, como missionárias cague... cate... catequizadoras? A flor da política gaúcha marca rendez-vous aqui
todas as noites. Não é por estar na sua presença, meu caro parlamentar, que eu digo isto. Deputados, intendentes, grandes causídicos reúnem-se fraternalmente neste
templo. Quer que eu lhe diga uma coisa? O centro político mais importante do Rio Grande nãoo é o Palácio do Governo, nem a Assembléia dos Representantes, nem as Secretarias
de Estado, mas o Clu-be dos
Ca-ça-dores !
Sublinhou a última sílaba de Caçadores com um soco na mesa. Uma das taças tombou.
- Pare com isso ! - gritou-lhe Rodrigo.
O garçom trouxe a nova taça e a garrafa de champanha que Rodrigo pedira.
- Está bem - disse o rábula. - Vou me retirar. Mas quero lhe dizer mais uma coisa, meu caro Dr. Cambará, sob palavra de honra. Se eu tivesse uma filha (espalmou
a mão sóbre o coração) que nãoo tenho, pois sou solteiro, eu nãoo entregaria a menina para as freiras do Colégio Sévigné, não senhor, está me entendendo? Eu mandava
a menina para esta casa. - Com o dedo em riste apontou para o soalho. - Sim, para os Caçadores, para receber aqui sua educação no convívio dessas abnegadas e distintas
senhoras, diante das quais me curvo respeitoso.
Rodrigo pensou em Alicinha, viu-a sentada à sua frente com a boneca nos braços, e teve ímpetos de atirar o conteúdo de sua taça na cara do mulato.
Cabralão ergueu-se. Era grande e espadaúdo, com um peito de Pomba que lhe dava um vago ar de polichinelo gigante. Baixou os olhos para Rodrigo e murmurou:
- Com quantó o meu caro doutor vai contribuir para a lista?
- Ora nãoo me amole. "
118 O ARQUIP~LAGO

- Qualquer quantia serve. Uns vinte pilas, digamos.
Rodrigo hesitou por breve instante, mas para se livrar do portuno tirou do bolso uma maçaroca de dinheiro, pescou dela nota de dez e lançou-a sobre a mesa.
- Tome. Não dou mais. Agora suma-se. Tenho convid
O rábula apanhou a cédula com a ponta dos dedos e met no bolso, sem a examinar. Pegou a taça e bebeu o que restava
- Mais uma coisa, doutor. Quero a sua opinião. Não que a Bela Zoraida seria o modelo ideal para o monumento?
a dignidade duma matrona romana, hein? Imagino o monum ali na frente do portão central do porto, olhando para a praça, Um dístico curto mas expressivo no pedestal
de mármore. coisa assim: "A marafona européia, a cidade agradecida." Que
- Está bem. Mas raspa !
Cabralão fez meia-volta e se foi.
15
A uma hora o cabaretier apareceu no palco para anunciar números da noite. Era um francês gordalhufo e louro, de rosada, olhos claros e um bigode de foca. Vestia
um trajo esc um pouco à boêmia, com uma gravata à Lavallière. Fazia ver lia muito e dizia-se amigo de figuras literárias da França. Co e por que viera parar ali
naquele cabaré ninguém sabia ao ce
Para começar, o francês postou-se no centro do palco de m nos bolsos, e começou a recitar em sua língua uma fábula.
Quando terminou a história, ouviram-se risadas e apla Os que não sabiam francês sorriam alvarmente, assim com um v ar de empulhados.
O cabaretier pediu un cri d"admiration, e um prolongado Oem uníssono encheu a sala. E o espetáculo começou. Enquan La Portem, com um vestido de lamê muito colado
ao corpo ca pígio, cantava com voz roufenha de devassa o Panuelito Bla Rodrigo olhava ternamente para Zita, enquanto Pudim em v baixa dizia horrores da cantora.
Por baixo da mesa Rodrigo p curava o pé da húngara. Encontrando-o, acariciou-o com o bi dos sapatos. A rapariga sorriu com malícia, lançando ao mes tempo um olhar
furtivo na direção do Pudim.
O cabaretier aproximou-se da mesa, pousou a mao no om de Rodrigo e perguntou baixinho:
- Ça va, món cher docteur? Rodrigo ergueu a cabeça e sorriu: - Ça va.
- Bien.
O DEPUTADO 119
- aúmero seguinte foi nm "sapateado, por- nm casal de bailari
nos guanos. Um prestidigitador quebrou o relógio dum "coronel",
à vista de todos, e minutos mais urde - Abracadabra ! - fê-lo
,parecer, intato,- dentro de uma cartola. Gina Carotengto encheu
a psa com sua voz de laZagna. E uma francesa magra, loura e
branca cantou cançonetas picantes.
Continuaram" depois as danças na pista. Rodrigo sentia o cham
panha subir-ihe à cabeça. Era o que ele chamava de "porre suavé ",
o suficiente para deixá-lo sentimental, num desejo de confraternizar.
com todo o mundo. O essencial era nãoo passar do ponto .. .
- Nunca ,me viu?: - perguntou Pudim, percebendo que o
amigo o encarava com insistência.
- Estou te vendo perto da mangueira do Angico, bebendo
am copo de leite ainda morninho dos úberes da vaca.
- rapaz fez uma careta de nojo.
- Prefïfo esse leite e essa vaca ... - murmurou olhando para
a gorda garrafa de Veuve Clicquot.
Zita sorria. O bico do sapato de Rodrigo subia-lhe pelo tor
nozelo, esfregava-lhe a perna.
- Pudim, ouve o que vou te dizer.
- cocainômano fitou no amigo Oolhar enfastiado.
- Diga.
- Quero te a judar .. .
- Então me pague uma prise.
- Quero fazer mais que isso: vou te salvar. a vida. - Que bobagem é essa, doutor?
- Quanto dinheiro precisas para pagar toas dívidas? - Muito.
- Diga quanto.
- Não faço a festa com menos de três contos. - Está bem. Escuta .. .
Inclinou-se sobre a mesa, segurou a lapela do casaco de Pudim,
esquecendo por alguns instantes as pernas da húngara.
- Vamos fazer uma aposta - propôs. - Um negócio de
homem pra homem, compreendes? Se eu perco, te passo três contos
em dinheiro, aqui mesmo, agora. Mas se tu perdes, terás de ir
comigo para Santa Fé, amanhã no noturno, sem discutir... Todas
as despesas por minha conta, é claro.
- outro hesitava.
- Por quanto tempo?
- Três- meses, nem um dia mais, nem um dia menos.
- que é que vamos jogár?
Roleta. . Preto ou vermelho.
- E que.é que o senhor ganha com isso?
- prazer de ajudar um amigo. Pudim pôs-se de pé e gritou:
12O O ARQUIPÉLAGO

- Meus caros paroquianos, o Dr. Rodrigo Cambará v salvar a vida. Cantemos todos o hino n.° 69.
Sua voz perdeu-se no meio da balbúrdia. Rodrigo pu pela ponta do casaco, fazendo-o sentar-se. Pudim caiu so cadeira como um peso morto. Tornou a beber um gole de
ponha. ,
- Vamos. Que é que tens a perder? Restauras a tua s recuperas o interesse pela vida .. .
- Três contos?
- Dinheiro batido.
Pudim animou-se.
- Está feito !
Apertaram-se longamente as mãos. Chamaram o cab para servir de testemunha e informaram-no das condições da a Quando os três se dirigiram para a sala de jogo, deixando
a h gora à mesa, o francês segurou o braço de Rodrigo e disse-lhe:
- lblonsieur, vous êtes fou, mais j"aime votre folie.
Pararam ao pé da roleta. Rodrigo olhou para Pudim.
- Escolha a cor.
- Vermelho.
- Está bem. Vale esta jogada?
O outro sacudiu a cabeça afirmativamente. Ouviu-se o ra da bola na bacia da roleta. O cabaretier sorria, olhando de para outro dos apostadores, que estavam ambos
graves e te como duelistas à luz cinzenta do amanhecer. O matraquear tesa Ouviu-se a voz do crupiê: 22, preto! Pudim encolheu os omb Rodrigo tomou-lhe do braço e
reconduziu-o à mesa.
- De agora em diante me pertences.
Ocorreu-lhe então uma idéia que o fez sorrir. Não sabia
verdadeiro nome do rapaz, apesar de toda a camaradagem de tan
noites de farra. "
- Ainda que mal pergunte, qual é mesmo o teu nome? - Rogério
- Mas vou continuar te chamando de Pudim. É mais au tico. Dentro de algum tempo serás o Pudim de Leite.
Rodrigo contou à rapariga, numa mistura de italiano, fra e mímica o resultado da aposta. Ela murmurou: "Mamma m lançando um olhar interrogativo para o "amiguinho".
- Preciso confessar que -estou sem um tostão - decla este último. - Acho que tenho direito a um adiantamento .. .
Rodrigo tirou do bolso duas cédulas de cem mil- réi"s e en gou-as ao amigo.
- Compra o que preciszres para a viagem. Que{o qpe ama estejas na estação dez minutos antes,_da saída do noturno. te esqueças que empenhaste tua palavra. Vida nova,
rapaz 1
pudim apanhou as notas, ergueu-se e encaminhou-se para a porta da rua.
16
A orquestra chorava um tango argentino. Rodrigo convidou a húngara para dançar. Fazia muito que não dançava, e a tontura não lhe ajudava as pernas. Limitou-se a
caminhar. sem muito ritmo, sentindo a maciez elástica dos seios da rapariga contra o peito, aspirando o perfume de seus cabelos e beijocando-lhe de quando em quando
a ponta da orelha. Pensava em alguma coisa para dizer-lhe, mas não lhe ocorria nada que prestasse. Sabia de italiano apenas o suficiente para apreciar operetas e
óperas. Veio-lhe à mente o soneto de Stecchetti que o Dr. Carbone costumava recitar. Repetiu-o ao ouvido da rapariga:

lo non voglio saper quel che si sia
Sotto la chioma al bacio mio donata E se nel bianco seu, ragazza mia,
Tu chiuda un cor di santà o di dannata.
Zita nada dizïa, limitava-se a escutar. soltando risadinhas. Deixava-se apertar, parecia estar gostando daquelas intimidades. Rodrigo saltou por cima dum quarteto
e dum terceto e recitou o terceto final, que sempre o estusiasmara:

lo non voglio saper quanto sei casta: Ci amammo veramente un"ora intera, Fummo felici quasi un giorno e basta.

Sim, bastava aquela noite. O resto nãoo importava. Nem o Pudim de Cocaína nem o Dr. Assis Brasil ou o Dr. Borges de Medeiros. Voltaram para a mesa e Rodrigo tornou
a beber. Agora só chamava a húngara de ragazza mia. Descobrira no som da palavra ragazza um forte conteúdo afrodisíaco.. Tornaram a dançar, dessa vez dm one-step.
Rodrigo excitava-se, sentindo ao mesmo tempo um vago constrangimento por estar ali, fazendo aquilo - ele. um homem maduro, pai de cinco filhos. Imaginou a Dínda
a observá-lo, à porta do salão... Sim, Flora também lá estava, com gibi nos braços ... A família inteira o contemplava ... E - Alicínha dançava agora com o Cabralão.
Era uma vergonha ! - Mas não largou a húngara. E quando voltaram para a mesa. lá estava Pudim, com uma cara de fantasma, um brilho desvairado nos olhos, as narinas
palpitantes. Rodrigo compreendeu o que se passara. Era
O DEPUTADO 121
122 O ARQUIPÉLAGO

preciso mesmo salvar o rapaz. Zita aproximou-se dele e passo ternamente as mãos pelos cabelos, o que deixou Rodrigo enciu
- Vou até a sala de jogo - disse. - Volto depois que "tiverem acabado esse idílio.
- Adeus, meu anjo da guarda! - exclamou Pudim, fa am gesto de despedida.
Em poucos minutos Rodrigo perdeu duzentos mil-réis roleta e trezentos no bacará. Afastou-se das mesas para tomar café. Avistou o í7r. Alfaro que, sozinho a um canto
da sala, fu placidamente.
- Como vai a coisa, doutor? - perguntou, acercando-~
O médico sacudiu lentamente a cabeça:
- Firme, firme... Mantendo a palavra.
Naquele instante vieram do salão de danças vozes alter
"Deixa disso!" "Apartai" - gritos de mulheres, ruídos de sos apressados, de cadeiras que tombam, de copos que se tiram. Rodrigo correu para lá com um mau pressentimento.
com o Pudim pensou. Não se enganava. O rapaz estava atr do no meio da pista com um sujeito de porte atlético, muito alto que ele. A cena era a um tempo grotesca
e terrível. Como macaco agarrado a um grosso tronco de árvore, Pudim enla com ambas as pernas a ilharga do inimigo e com as mãos ora golpeava os olhos, ora lhe arranhava
as faces, que" já sangra O homenzarrão, muito vermelho e soprando forte como um to limitava-se a apertar o outro contra o peitarraço, com os tira musculosos. Pudim
gemia, começava a perder a respiraçãó .. . drigo compreendeu que o gigante ia esmagar o tórax do ra matá-lo... E ninguém intervinha. Precipitou-se para a pis desferiu
com toda a força um soco no ouvido do gigante, o q perdendo o equilíbrio, largou Pudim que tombou no chão baque surdo. E quando, estonteado, o brutamontes olhava
torno, buscando o agressor inesperado., Pudim de novo saltou s ele, dessa vez pelas costas, e, cavalgando-o, envolveu-lhe com braços o pescoço taurino, procurando
estrangulá-lo com uma "~ vara". Rodrigo apanhou do chão uma garrafa vazia e de n investiu contra o grandalhão. Foi nesse momento que entra em cena três empregados
do cabaré, cuja função era exatamente a intervir em emergências como aquela. Fortes e espadaúdos, conhecidos como "leões de chácara". Um deles abraçou Rodn imobilizando-lhe
os braços - "Calma, doutor, deixe que nós encarregamos do anjinho" - enquanto os outros dois separav Pudim do adversário. Trepado numa cadeira, podre de bê Cabralão
pedia ordem. O cabarerier postou-se no meio da sala gritou: "Música!" A orquestra rompeu a tocar O Pé de An Batendo nas costas de um e outro, o francês pedia que
volta todos em paz para seus lugares. C"est la vie, mes atuis, c"est la
As mulheres, que haviam fugido ao~principar o pugilato, voltavam para o salão. Os "leões de chácara sem maiores dificuldades conduziram para fora do cabaré o atleta,
que de repente se fizera muito humilde e cordato: "Não sou de briga. Só luto por dinheiro. Sou um profissional. O menino me agrediu. Tenho testemunhas."
Rodrigo levou Pudim de volta para a mesa e conseguiu acalmálo. impedindo que ele corresse para fora, para continuar a briga em plena rua. Zita, toda trêmula e de
olhos úmidos, murmurava carino mio, carino mio, e acariciava com a ponta dos dedos o rosto
do amante.
Rodrigo queria saber como havia começado a história, mas Pudim, ainda ofegante, nada esclareceu. Limitava-se a beber e a murmu;:ar palavrões. O Treponema Pálido
acercou-se da mesa e, muito excitado, contou que a coisa começara quando o bagualáo quisera obrigar Zita a dançar com ele, "nas barbas do nosso Pudim"
- Quem é o tipo? - perguntou Rodrigo.
- Imagine, doutor, é um campeão de luta romana. Está se exibindo no Coliseu. Não ouviu falar? Apresenta-se com o nome de "Maciste Brasileiro". - Lançou para Pudim
um olhar de admi
ração. - Eta bichinho bom!
- Raspa, espiroqueta ! - gritou Rogério.
Continuou a beber e meia hora mais tarde estava caído sobre a mesa, ressonando.
Rodrigo chamou o garçom, pagou a despesa e a seguir pediu a dois dos "leões de chácara" que transportassem Pudim para o quarto de Zita, que ficava num segundo andar,
do outro lado da rua.
A operação foi fácil e rápida. A húngara mandou pôr o amigo sobre sua cama, tirou-lhe a gravata, desabotoou-lhe o colarinho, e depois embebeu um chumaço de algodão
em arnica e fez-lhe um curativo nos pontos equimosados do rosto.
Rodrigo gorjeteou generosamente os dois empregados do cabaré. E quando estes se retiraram, ele ficou a andar dum lado para outro no quarto. Estava excitado, sabia
que lhe ia ser difícil dormir aquela noite. Olhava fixamente para o decote da rapariga, e teve um súbito desejo de morder-lhe as costas.
Pudim roncava, de boca aberta. Agora, no sono, mais se lhe acentuavam os traços juvenis. A húngara ergueu-se e cónvidou. Rodrigo para sair do quarto. Na exígua sala
de visitas, havia úm sofá estofado de veludo verde, sobre o qual se afofavam almofades de seda amarela. Uma boneca de pano vestida à tüólesa jazia atirada sobre
uma poltrona.
Rodrigo debatia-se numa confusão de sentimentos. Era concebível que o deputado que aquela manhâ fizera um discurso tão serio e decisivo na Assembléia dos Representantes
pudesse estar agora ali, naquela casa, àquela hora e naquela companhia ?
O DEPUTADO 123
124 O ARQUIPÉLAGO
Santo Deus, quando é que vou criar juízo? Sentou-se na; acendeu um cigarro. A húngara, sempre de pé, mirava-o esperar qualquer coisa dele... Rodrigo fumava e refletia.
agarro essa menina e ela grita, tenho de fazer uma violência ser o diabo. Se nãoo agarro e vou me embora, corro o risco de a noite inteira em claro, irritado e desmoralizado.
Agarro Oagarro? Ecgueu os olhos.- Achou que a rapariga sorria jeito provocante. Ragazza mia - murmurou, deixando o ct no cinzeiro e erguendo-se. Ela continuava
imóvel. Rodrigo. çou-a, beijou-lhe os lábios e arrastou-a para o sofá.
Antes de deixar o quarto da húngara, uma hora mais escreveu um bilhete para o amigo:

Pudim velho de guerra:
Não te esqueças da aposta. Palavra é palavra. Especo-te na estação, à hora da saída do noturno. Um abraço do teu
No dia seguinte, porém, teve de embarcar sozinho, pois o não apareceu. No trem já em movimento, pôs-se a pensa Afinal de contas talvez tivesse sido melhor assim.
O rapaz s poderia trazer incômodos. Pensou no trabalho que ia ter nos ximos dias com a campanha eleitoral ; imaginou a cara que o e a tia iam fazer ao vê-1o entrar
no Sobrado cabresteando o P de Cocaína, com toda a sua devassidão estampada na cara pá Concluiú que Deus escrevia direito por linhas tortas.
ofensiva." Tirou do bolso um número d"A Voz da Serra. No alto da primeira página, em letras negras e graúdas, lia-se Chega Hoje o Traidor Vira-casaca. Rodrigo parou,
tentou ler o artigo que se seguia. mas não pôde. As letras se lhe embaralhavam diante dos olhos, um calor sufocante invadia-lhe o peito, subia-lhe à cabeça, estonteando-o.
"Cachorro" - rosnou com dentes cerrados. E dali por diante não prestou mais atenção ao que ihe diziam ou perguntavam. Só tinha um pensamento, um desejo: quebrar
a cara do Amintas, o quanto antes, o quanto antes.. .
- O Velho está no Angico -informou Toríbio ao entrarem no automóvel.
- Tanto melhor... - respondeu. Voltou-se para Neco e Chiru e disse, duro: - Vocês vão conosco no carro.
Fez um gesto de agradecimento para os amigos que o haviam seguido até o automóvel.
- Bento - disse ao chofer - toque ligèiro pela Rua do Comércio. Quando for para parar, eu te digo.
O Ford arrancou e se foi: meio aos trancos, sobre o calçamento irregular. Rodrigo estava silencioso e carrancudo, o suor a escorrer-lhe pelo rosto. Chiru contava
as novidades. O Madruga mandara espancar um comerciante do quarto distrito: o homem estava no hospital todo quebrado ... Os capangas do intendente andavam percorrendo
o interior do município distribuindo boletins de propaganda e ameaças. Haviam convencido os colonos de que, se votassem em Assis Brasil, teriam seus impostos municipais
e estaduais aumentados. Os gringos e os lambotes estavam amedrontados.
Rodrigo parecia não escutá-lo. Levava nas mãos crispadas o exemplar d"A Voz da Serra. Neco, que farejara barulho, apalpou o revólver que trazia à cintura e trocou
com Toríbio um olhar significativo. Só Chiru, que não cessava de falar, parecia nãoo ter compreendido a situação. E quando Rodrigo mandou parar o carro à frente da
redação do jornal de Amintas Camacho, na quadra fronteira à Praça Ipiranga, perguntou surpreendido:
- Ué? Por que paramos aqui?
Rodrigo rosnou:
- Vamos iniciar festivamente a nossa campanha, Chiru. Fi9llem aqui prontos para o que der e vier. Garantam a nossa retaguarda. Vamos, Bio!
Desceu do carro e entrou na redação. Toríbio seguiu-o, a dois passos de distância.
Havia apenas dois homens na sala da frente: um deles devia ser o revisor, o outro era Amintas Camacho. Estava sem casaco, de mangas arregaçadas, sentado a uma mesa,
a escrever. Ambos ergueram a cabeça quando os irmáos Cambará entraram. Amintas empalideceu, pôs-se de pé, fez menção de fugir. Mas antes que ele tivesse tempo de
dar dois passos, Rodrigo com as costas da mão
O DEPUTADO 125
R.
Teve na estação de Santa Fé uma recepção festiva. Ao sa do trem caiu nos braços dos amigos. Lá estavam, além do i do Neco, do Chiru, do velho Liroca e do Cel. Cacique,
todos" machos das famílias Macedo e Amaral, e um grande número outros federalistas. Rodrigo perdeu-se numa floresta de lenços melhos. "Grande discurso!" - diziam.
"Um gesto muito diga - e os abraços nãoo cessavam. "Atitude de homem!" - ru ergueu o chapéu e berrou: "Viva ao Dr. Assis Brasil!"
O Liroca tinha lágrimas nos olhos. Juquinha Macedo q saber qual havia sido a reação da bancada republicana ao "dí bomba".
Toríbio pegou do braço do irmão e empurrou-o na direç da saída, murmurando: "A pústula do Amintas já começou
126 O ARQUIPLLAGO

aplicou-lhe no rosto uma bofetada tão violenta, que o d" d"A Voz soltou um gemido e caiu de costas. Quando o compa quis socorrê-lo, Toríbio, de revólver em punho,
gritou:
- Não se meta !
O outro ficou como que petrificado, os olhos arregalad espanto, as mãos trêmulas. E Rodrigo, que saltara sobre Ami agora acavalado nele de novo o esbofeteava, à
medida em gritava: "Crápula! Sacripanta! Cafajeste! Pústula!" Cada vra valia uma tapona. E o jornalista, a cara lívida, respirava torosamente, gemendo "Meu Deus
! Socorro !" - mas com voz engasgada, quase inaudível. Sem sair de cima de Amin Rodrigo rasgou em vários pedaços a folha do jornal que traz artigo insultuoso, e
atochou-os na boca do escriba.
- Engole a tua bosta, comoduma figa!
Depois ergueu-se, limpou as joelheiras das calças, olhou torno e. numa fúria, fez tombar a mesa com um pontapé. O teiro caiu e uma longa mancha de tinta azul espraiou-se
no soa!
Amintas ergueu-se devagarinho, cuspinhando pedaços de que lhe saíam da boca manchados de vermelho. Uma baba guinolenta escorria-lhe pela comissura dos lábios.
Rodrigo mirou-o com desprezo e disse:
- Me mande a conta do dentïsta. Eu pago.
Fez meia-volta e se foi. Antes de sair, Toríbio soltou cusparada no soalho. Entraram ambos no automóvel, onde C I\"eco e Bento estavam todos com os revólveres na
mão. Na calç alguns curiosos haviam parado, sem saberem ao certo o que es acontecendo. A operação toda durara menos de cinco minutas.
Agora, a caminho do Sobrado, Rodrigo respirava, alivia e já sorria. Minutos depois estava nos braços de Flora, recebia primeiras "chifradas" de Eduardo, erguia Alicinha
e Bibí nos ços, beijava-lhes as faces e, entre um beijo e outro, pergunta "Onde está o Floriano?" - "E a Dinda?" - "E o Jango?"
.Toríbio contou às mulheres da casa o que se passara h pouco na redação d"A Voz da Serra. Flora ficou alarmada. M
Valéria olhou para o sobrinho e murmurou: "Começou a i
outra vez,"
~.. Rodrigo almoçou com uma pressa nervosa, contando o ef
que seu discurso produzira na Assembléia.
Naquele mesmo dia, à tardinha, chamou ao Sobrado Arão S
e fez-lhe uma proposta.
- Tenho lá embaixo no porão uma caixa de tipos co pleta e uma impressora. Se trabalhares todo este mês que v ccrnpondo e imprimindo um jornalzinho de quatro páginas,
depois ficar com toda essa tralha, de mão beijada. Está?
Stein pareceu hesitar.
- Propaganda da Aliança Libertadora?
Náo me digas que és borgista .. .
. Não, mas quero deixar bem claro que nãoo acredito também no Dr. Assis Brasil.
. E que tem isso?
- Pode parecer uma incoerência. Todo mundo conhece minhas idéias. Tanto o Dr. Borges como o Dr. Assis não passam de representantes da plutocracia do Rio Grande.
_-- Mas nãoo disseste ao Bio que querias comprar uma tipografia?
_- Disse. mas...
- Então. Achas o meu preço alto demais?
Stein encolheu os ombros. Rodrigo tomou-lhe do braço.
- Deixa de bobagem. A causa é boa. Terminada a campanha, mandas desinfetar os tipos e a máquina. para matar os micróbios capitalistas, e daí por diante põe a tipografia
a serviço de tuas idéias. Não te parece lógico?
- Está bem.
Apertaram-se as mãos. Na semana seguinte Stein começou a trabalhar e o primeiro ntímero d"O Libertador apareceu. Na primeira página trazia um artigo de fendo de
Rodrigo, atacando Oborgismo do ponto de vista ideológico. Na segunda, vinha uma biografia do Dr. Assis Brasil. O resto eram notícias políticas e avisos ao "eleitorado
livre do Rio Grande".
Comentava-se em Santa Fé que Amintas Camacho ia processar Rodrigo Cambará por agressão física e invasão de domicílio. Diziase também que Laco Madruga, quando agora
se referia aos assisistas locais, chama-lhes "os mazorqueiros".
Estava declarada a guerra entre a Intendência Municipal e o Sobrado.
18
Por aqueles dias entrou em júri um dos mais temidos capangas de Laco Madruga, que havia assassinado por- motivos fúteis um pobre homem, pai de cinco filhos. O bandido
era conhecido pela alcunha de Malacara, por causa do gilvaz esbranquiçado que lhe riscava a face esquerda. num contraste com a pele bronzeada. Madruga, que estava
empenhado em livrar o bandido da cadeia, pois precisava dele para a campanha eleitoral, havíà jw tomado todas as medidas para assegurar-lhe a absolvição. Peitara
todos os cidadãos que por sorteio iam constituir o júri, usando ora o suborno ora a ameaça, de acordo com o caráter de cada um. Conseguira intimidar o juiz de comarca,
que se encontrava em casa, de cama, com uma tremenda diarcéia. Interessados em que se fizesse justiça, Rodrigo e seus companheiros decidiram visitar o magistrado
Dara lhe dizerem que estavam dispostos a garantir-lhe a vida e a
O DEPUTADO 127
128 O ARQUIPrLAGO

integridade física, a fim de que ele se pudesse manifestar livrem de acordo com sua consciência e com a Lei. O homem. po recusou-se a recebê-los, alegando que nãoo
se metia em políti Corria também o boato de que o Dr. Miguel Ruas, o promot havia sido chamado à presença do intendente, que lhe dera ord expressa de nãoo "fazer
carga" contra o réu.
No dia do julgamento a sala do júri, no segundo andar edifício da Intendência, ficou atestada de gente. Os guardas m nicipais - nos seus uniformes de zuarte com
talabartes de cou preto, altos quPpes de oficial francês, espadagões e grandes pisto Nagant à cinta - montavam guarda à porta e lançavam olha sombrios para cada
indivíduo que entrava com o distintivo ma gato. O primeiro deles foi Liroca, que trazia no pescoço um le encarnado que a Rodrigo pareceu amplo como um lençol. O
vel entrou de braçó dado com Toríbio. Este sentia, como uma corre eléfríca, o tremor que sacudia o corpo do amigo.
- Que é isso, Liroca? Estás tremendo. Frio nãoo é, pois fazendo 38 à sombra.
- Acho que é malária - balbuciou o velho federalísta, s rindo. - Malária da braba, sem cura.
Aquilo sim, era coragem ! - refletiu Toríbio. José Lírio tre de medo mas ainda assim tinha ânimo para fazer pilhéria. O co era fraco, clamava por paz e segurança,
suas pernas amolecia mas a vontade do homenzinho ordenava: "Vamos, Liroca! Ho~ a cor desse lenço !" E o espírito vencia o corpo, arrastava a ca vil. E ele entrava
na intendência, subia as escadas, ia~ esfregar aqu pano vermelho no focinho dos "touros do Madruga.
Momentos mais tarde Licurgó entrou taciturno na sala do jú acompanhado de Rodrigo, Neco e Chiru. Foram os quatro sentar numa fila de cadeiras onde já se encontravam
alguns Macedos Amarais. Fazia um calor úmido e opressivo. Pelas janelas esta cacadas viam-se pedaços de um céu pesado de nuvens cor de ardósi Cuca Lopes andava dum
lado para outro, ágil como um esquil a cara reluzente de suor. No exercício de suas funções de ofi de justiça parecia um sacristão a acolitar uma missa. Havia no
um zunzum de conversas abafadas. O juiz de comarca tom o seu lugar. Estava com a cara cor de cidra, os olhos no fun das órbitas, como a se esconderem de medo.
Foi feito o sorteio dos jurados. À medida em que os nom iam sendo lidos, Rodrigó murmurava para o pai: "Estamos perfis dos." - "Vamos ter um júri inteiramente republicano."
- "C nalhas !"
Licurgo continuava calado, mordendo e babando o cigarro palha apagado.
Rodrigo olhou para o réu. O Malacara estava sentado no se banco, em mangas de camisa, bombachas de brim claro. Um lenç
branco encardido envolvia-lhe o pescoço. Tinha a melena lisa, dum preto fosco e sujo, cujo cheiro rançoso Rodrigo imaginou, franzindo o nariz. Os olhos do capanga
lembravam os dum bicho. porco? Cavalo? Não. Lagarto. Sim. o sicário tinha algo de reptil. Rodrigo penou no pobre homem que o bandido assassinara e teve ímpetos de
erguer-~e e ali mesmo espancar o Malacara. Havia poucos minutos. ao saírem de casa, tivera com o pai um rápido diálogo, . tenso e desagradável.
_ O senhor vai me prometer, sob palavra de honra, nãoo
provocar nenhum barulho na sala do júri.
- Ora, papai, o senhor sempre me trata como se eu fosse um desordeiro.
- Não é desordeiro mas é esquentado e afoito.
- Mas se nãoo mostramos a esses chimangos que nãoo temos medo e estamos dispostos a tudo, eles nos encilham e montam!
- )r, mas precisamos continuar vivos, j"ouviu? Vivos, pelo menos até o dia da eleição.
O Velho tinha razão. Se fossem trucidados dentro da Intendência, onde seriam minoria, não poderiam fazer a campanha
eleitoral nem votar.
- Prometa - repetiu o Velho. - Prometo.
- Então vamos - disse Licurgo, metendo o revólver no coldre
que trazia ao cinto.
O advogado de defesa, genro de Laco Madruga, formara-se
em Direito havia apenas um ano. Era um moço de ar tímido que
tinha o cacoete de, a intervalos, levar um dedo à ponta do nariz
para espantar moscas imaginárias.
Quando o promotor apareceu, Toríbio inclinou-se para Liroca
e cochichou:
- Parece uma garça.
Trajava o Dr. Miguel Ruas uma roupa de linho .branco minto justa ao corpo, camisa de seda creme e gravata negra de malha. Estava mais pálido que de costume.
- Que é que tu achas, Bio? - perguntou Liroca. - O promotor acusa ou não acusa?
- Acho que já deve estar todo borrado de medo. A coisa está perdida. Podiam até soltar o Malacara. Este júri vai ser uma
farsa.
José Lírio pregueou os lábios numa careta de dúvida. Seu narigão purpúreo, pontilhado de cravos negros, reluzia. Os bigodes de piaçava pareciam aquela manhã mais
tristes e caídos que nunca.
- Pois eu cá tenho um palpite que esse menino vai nos dar
uma surpresa .. .
- Deus te conserve a fé 1
O DEPUTADO
129
13O O ARQUIPLLAGO
De vez em quando se ouvia um pigarro, alguém limpe peito encatarroado. Rodrigo encolhia-se, vendo mentalmente cano escarrapachar-se no chão como uma mancha de pus.
Q era que aquela gente ia aprender bons modos?
Veio de longe o rolar da trovoada.
- O calor está ficando insuportável - murmurou Chirognendo-se e tirando o casaco.
Rodrigo voltou a cabeça para trás e disse:
- Cuidado. Ficaste com o teu "canhão" à mostra. Vão que é provocação .. .
Chiru, de novo sentado, murmurou
- Eles que tentem me desarmar ... Mostro a essa chiman quem é o filho do meu pai.
Licurgo voltou-se e lançou-lhe um olhar severo de censura: - Pare com essas fanfarronadas - ordenou, ríspido.
O outro ficou vermelho e, para disfarçar o embàraço, desf
tornou a fazer o nó~ do lenço.
O promotor subiu com um pulinho feminino para cima do trado, aproximou-se do juiz e segredou-lhe algo ao ouvido. O gistrado escutou-o, sacudindo a cabeça afirmativamente.
Naquele instante exato Laco Madruga fez sua entrada no reci cercado de seus capangas e ladeado pelo Amintas Camacho, que. segurava o braço. Havia na face do jornalista
uma mancha d vermelho arroxeado. "A minha marca" - refletiu Rodrigo, sa feito.
O Cel. Madruga nãoo tinha mudado muito naqueles últimos a durante os quais, como herdeiro do famigerado Titi Trindade, e cera a chefia do Partido Republicano local.
Era um homem meia altura. corpulento e obeso, de cara redonda e cheia, cabal basta e espessos bigodes que negrejavam acima dos beiços polpa dum vermelho que Rodrigo
achava indecente. Vestia uma fari de brim claro, muito mal cortada, e trazia como sempre sua gr bengala com castão de marfim. Cumprimentando com um sinal cabeça
os amigos e correligionários, sentou-se no lugar que lhe esta reservado na primeira fila, a pequena distância da mesa junto da q se haviam instalado os jurados.
Ali ficou, de pernas abertas, o vera tombado sobre as coxas entre as quais aninhara o bengalão. Volt a cabeça para trás e por alguns instantes ficou a olhar o público
co seus olhinhos desconfiados e ao mesmo tempo autoritários.
Rodrigo sentia agora uma sede desesperada. Pensava numa ce veja gelada, imaginava contra a face o contato frio do copo emb~k ciado, sentia na boca o gosto meio amargo
e picante da bebida e glu-glu-glu - o líquido frio a descer-lhe pela garganta, pelo esôfag caindo-lhe no estômago como um maná ... Ah ! Lambia os lábi sedentos,
revolvia-se na cadeira dura, sem encontrar posição c
moda. Via, num mal-estar, o suor escorrer pelo pescoço do homem que estava à sua frente, de colarinho empapado.
Nova trovoada fez matraquear as .vidraças da sala.
Laco Madruga puxou um pigarro agudíssimo. As sobrancelhas do promotor se ergueram, seus olhos fitaram, num misto de curiosidade e espanto. o intendente municipal.
O julgamento finalmente começou. E quando o juiz deu a palavra au promotor público. Miguel Ruas abotoou o casaco cintado, empertigou-se e começou afalar. Tinha uma
voz grave, de timbre metálico. que enchia a sala, cantante e persuasiva.
- meretíssimo juiz de comarca e os senhores jurados bem sabiam que a função do promotor nãoo é propriamente a de, como ultra inquisidor implacável, acusar sempre,
seja qual for o caso. Um homem pronunciado não é necessariamente um homem culpado. Quantas vezes na história da Justiça vira-se o promotor na posição de, para ser
fiel ao espírito da Lei e sincero consigo mesmo, pedir ou, pelo menos. insinuar a absolvição do réu?
- Estamos perdidos - murmurou Rodrigo. - O patife do Ruas está encagaçado. Não vai acusar.
Licurgo limitou-se a soltar um ronco de aquiescência. Laco Madruga escutava, cofiando o bigodão. O réu olhava para o promotor com a fixidez duma cobra que procura
hipnotizar um pinto.
Rodrigo foi de súbito tomado dum nojo de tudo aquilo, daquele ambiente que cheirava a suor humano, sarro de cigarro e sangue. Sim. Toda aquela gente, o Madruga,
seus capangas, os guardas municipais, todos tinham as mãos, as espadas. as faces sujas do sangue dos homens e mulheres que haviam matado, ferido, torturado... Todos
fediam a sangue! Não .havia mais salvaçáo. Teve gana de gritar, desejou sair para a rua, respirar o ar livre,, voltar para casa, meter-se num banho, beber algo muito
gelado e limpo .. . esquecer toda aquela miséria.
- promotor havia feito uma pausa. Mediu os jurados com o olhar e disse
- Entra hoje ém julgamento Severino Romeiro, acusado de crime de homicídio. Sei que o meu cáro colega, o ilustre advogado do réu, vai alegar legítima defesa ..
.
- genro de Madruga espantou á mosca invisível qae lhe pousara na ponta do nariz.
- Vai alegar - continuou o Dr. Ruas - que todos os depoimentos são unãotaimes em afirmai que Severino Romeiro matou Pedro Batista depois duma discussão durante a
qual a vítima puxou duma adaga com a intenção de assassiná-lo. Cinço depoimentos de pessoas .que a defesa considera idôneas afiFmam ~issQ. Se o caso é assim; senhores
ao conselho de sentença (e nesté ponto o promotor abriu os braços, como um crucificádo) , não temos nenhuma dificuldade: a questão é líquida e nada mais podemos
fazer senão mandar
O DEPUTADO 131
132 O ARQUIPBLAGO
o réu para casa, devolver esse cidadão be~temérito ao convívio d parentes e amigos .. .
- Canalha - resmungou Rodrigo. - Não me entra no Sobrado !
Madruga tornou a pigarrear. Sua bengala tombou com um do seco. Liroca teve um sobressalto. O juiz de comarca estrem soergueu-se na cadeira como para fugir. Os guardas
municipaúz çaram as cabeças, como cobras assanhadas.
O promotor apontou para o réu com o indicador retesado
- Tude estaria maravilhosamente claro, seria admiravel simples se todas essas coisas fossem verdadeiras. - Alteou a voz Mas nãoo são!
E o promotor transformou-se. Não era mais o dançador fpx-trots, o macio amiguinho das moças. Seu rosto ganhou tamente uma masculinidade antes insuspeitada, seus
traços como endureceram, a pele da face retesou-se sobre os maxilares; lábi narinas palpitaram: o olhar adquiriu um brilho de aço, e de boca. agora amarga, as palavras
saíam sibilantes e explosivas co balas:
- Não, senhores jurados! A coisa nãoo é assim como vai crevê-la o advogado de defesa! Na qualidade de promotor púb quero provar, primeiro, que não houve legítima
defesa. mas sim caso puro, simples e odioso de homicïdio frio e premeditado!
Laco Madruga estava na ponta da cadeira, ambas as mãos a das no castão da bengala, os olhos entrecerrados. uma expressão indignado espanto no rosto que aos poucos
se fazia da cor de la
A comoção era geral. A atmosfera da sala estava agora carreg duma eletricidade que não vinha apenas das nuvens de tempest
- Segundo - prosseguiu o Dr. Ruas - vou provar, qu vítima foi morta pelas costas, notem bem, pelas costas com três laços. Terceiro, que ela não tinha consigo nem
sequer um caniv pois era pessoa de hábitos morigerados e muito querida no meio que vivia. Quarto, que todos os cinco depoimentos que a defesa apresentar são falsos!
O juiz olhava perdidamente para Laco Madruga, afunda cada vez mais na cadeira, como se quisesse refugiar-se debaixo mesa.
O promotor agora se agitava numa espécie de dança até enC desconhecida daquela gente. Saltava dum lado para outro, erguia, braços, sacudia a cabeça. Disse que todo
o mundo sabia que o lacara era um assassino profissional, com várias mortes nas eos
- E se me perguntardes, senhores jurados, senhor juiz. m senhores, que testemunhas invoco, eu vos direi que invoco os u filhos e a mulher da vítima que presenciaram,
imobilizados espanto e pelo terror, a esse crime hediondo. Sim, meus senh
O DEPUTADO 133 provarei todas essas coisas e pedirei para esse assassino, para esse cri
minoso assalariado a pena máxima!
Na cara dos jurados havia uma expressão de medrosa surpresa. Alguns deles tinham os olhos baixos. Mas a fisionomia do réu continuava impassível, e seus olhos de
reptil continuavam a fitar o pro
motor público.
Um trovão fez estremecer as vidraças,
19
Era mais de meï~o-dia quando Licurgo, Rodrigo e Toríbio voltaram para o Sobrado. As mulheres os esperavam com uma pergunta ansiosa nos olhos. Rodrigo contou:
- O promotor fez uma acusação brilhante e corajosa. Foi a maior surpresa da minha vida. Pensei que o Ruas ia se acovardar.
- Mas o Malacara foi absolvido por unanimidade - adiantou Licurgo. - É uma vergonha!
Toríbio passou o lenko pelo pescoço.
- Quando o advogado dé defesa se saiu com aquelas mentïras, tive vontade de tuspir no olho dele.
Rodrigo, que abrira uma garrafa de cerveja, agora mamava nela a grandes sorvos.
- Não vá se engasgar - recomendou Maria Valéria.
Naquele instante o aguaceiro desabpu. Toríbio tirou a camisa e, descalço e de bombachas, saiu para o quintal e ali ficou de cara voltada para o alto, recebendo a
chuva em cheio na cara. Duma das janelas dos fundos da casa, Maria Valéria gritou:
- Venha para dentro, menino. A comida está servida.
Durante o almoço Flora mostrou-se apreensiva. Que iria acontecer agora ao promotor?
- Está marcado na paleta - disse Rodrigo. - Não deixamos o Rcas voltar sozinho para o hotel quando o júri terminou. Levamos o homem no meio duma verdadeira escolta.
Ele dizia: "Pelo amor de Deus, não se incomodem. Não vai me acontecer nada !"
- E tu achas que vai? - perguntou Flora.
- Acho.


Não se enganava. Na noite daquele mesmo dia, ao sair do cinema aonde tinha ido ver uma fita de Mary Miles Minter, sua atriz predileta, o Dr. Miguel Ruas foi espancado
por dois desconhecidos. Contava-se que a coisa tinha acontecido com uma rapidez de relâmpago. Dois homens nãoo identificados o haviam agarrado a uma esquina da Rua
do Comércio, arrastando-o para uma transversal onde a ílumi-
134
O ARQUIPÉLAGO
nação era precária. E os que passavam nas proximidades naq
momento ouviram gritos, gemidos e o ruído de golpes, seguidos silêncio. Encontraram o promotor caído na sarjeta, sem seno
com o rosto e a roupa cobertos de sangue.
Rodrigo e Toríbio levaram-no para o Sobrado onde o Dr. bone ihe fez os primeiros curativos. Tinha duas costelas quebr e um pé deslocado, além de equimoses generalizadas
por tod corpo, principalmente no rosto. Uma mancha arroxeada circund lhe o olho esquerdo, cuja pálpebra, bem como os lábios, havia charlo assustadoramente. Estava
irreconhecível. Ao vê-lo. Flora satou a Chorar. Levaram-no para o quarto de hóspedes. Rod mandou buscar as malas do promotor no hotel, dizendo: "Ele só daqui curado,
direito para a estação. Ou então fica dentro do Sobr .enquanto durar essa situação e só voltará para o hotel no dia que o Chimango sair do Palácio do Governo e nós
tirarmos o druga da Intendência a rabo de tatu."
Estava indignado, imaginava represálïas: armar os amig correligionários, correr à casa do sátrapa municipal e liquida história duma vez. Pensava também em gestos
românticos: desao intendente para um duelo, a pistola ou a espada, como ele sesse
Quando Miguel Ruas recuperou os sentidos e. pôde falar, drigo estava ao pé da cama.
- Quem foi? - perguntou o promotor. - Capangas do Madruga.
- ); grave?
- Grave, não, mas o Dr. Carbone diz que tens de ficar cama por umas três ou quatro semanas.
O promotor cerrou os olhos. Depois pediu um espelho, rou-se nele e, voltando-se para Rodrigo, disse algo que o dei estarrecido.
- Vou perder o réveillon do Comercial. Que pena! Ti mandado fazer um smoking especialmente para esse baile !
Sentado à mesa do consultório, Rodrigo amassou o jornal num gesto brusco, atirou-o ao chão, erguendo depois os olhos p o Dr. Carbone, que acabara de entrar.
- Algum infortúnio, carino? - perguntou o cirurgião. nha da sala de operações e trazia o avental branco todo mancha de sangue.
Rodrigo sacudiu a cabeça negativamente. O italiano ol para o número d"A Federação que estava a seus pés e sorriu, sa
rotomia.
Baixinho. franzino, barbudo e ensangüentado, parecia um gno
mo que acabara de carnear um gigante. Como quem recita um belo poema. começou a contar minúcias da operação que praticara havia poucos minutos. E a descrição foi
tão vívida e apaixonada. que Rodrigo teve a impressão de que as vísceras do operado rolavam visguentas pelo soalho. Por que o homenzinho não tirava o avental sujo
de sangue? Que mórbido prazer ,parecia sentir aquele carniceiro em ruminar a operação ! O pior era quando ele surgia com boiões cheios de álcool contendo apêndices
supurados, pedaços de estômagos e tripas, e até fetos. E era por causa de coisas assim que Rodrigo recusava os convites que os Carbone repetidamente lhe faziam para
jantares, pois sabia que aquelas mãos que abriam ventres humanos e remexiam vísceras eram as mesmas que preparavam o cabrito alia cacciatore e os fetuccini. O diabo
do gringo cozinhava com a mesma volúpia e habilidade com que operava.
Os olhos de Rodrigo estavam fitos no jornal, e ele já não escutava mais o palavrório do cirurgião. Pensava ainda com despeito e uma raívinha fina em que mais uma
vez A Federação silenciava sobre seu gesto de rebeldia na Assembléia. O Color era mesmo um sujeito implicante! Desde que pronunciara seu discurso contra Borges de
Medeiros, renunciando à deputação, Rodrigo esperava que o órgão oficial do Partido Republicano assestasse as baterias contra ele, dando-lhe a oportunidade, que tanto
desejava. para um debate público. Mas qual ! A Federeca limitara-se a transcrever parte de seu discurso, como era de praxe. Nada mais. Abstivera-se de fazer qualquer
comentário ao fato. como se a defecção pública e ruidosa dum deputado governista em plena campanha eleitoral nãoo tivesse a menor importância. Collor martelava todos
os dias o candidato da oposição, em editoriais cuja boa qualidade muito a contragosto Rodrigo tinha de reconhecer. Num deles chamara a Assis Brasil "candidato bifronte".
pois que tendo sido sempre presidencialista, agora o castelão de Pedras Altas se travestis vagamente de parlamentarista, para coonestar sua candidatura maragata
à presidência do Estado.

Carbone explicava agora ao amigo a razão por que sangue não lhe causava repugnãoncia. Achava que Rodrigo, como a grande maioria das pessoas, tinha medo às palavras.
Para vencer esse temor supersticioso, o melhor remédio era recitar todos os dias pela manhã - antes do café, se possível - as palavras ou frases mais tremendas,
como por exemplo "Morrerei hoje, serei enterrado amanhã, estarei putrefato depois d"amanhâ" ou "Quem me dera um bom tumor maligno no cérebro!" ou ainda: "Passarei
o resto de meus
O DEPUTADO 135
díndo a cabeça. Acendeu um cigarro, sentou-se e com a primeira baforada de fumaça soltou um longo suspiro sincopado. _ Ah ! Que manhífica, fortunatíssima operação
! Uma lapa
2O
136 O ARQUIPÉLAGO

dias paralítico, hemiplégico e cego de ambos os olhos." lhava, como um requinte, que o paciente em vez de recitar ca essas frases com a música de alguma ária de
ópera. Porque Carlo Carbone achava que o essencial era perder o medo z voc$ e frases que, na sua opinião, eram como que façanhudos c guarda dos fatos, das coisas
e das idéias. O diabo nãoo é tá como se pinta. A palavra tracoma talvez seja mais terrível tracoma propriamente dito. Há crïaturas que, sendo incapa pronunciar ou
escrever a palavra puta (tão natural em tant guas!) aceitam a existência da prostituição como coisa nat às vezes até se servem dela. Porque - tu sai, varino - o
qu portava era quebrar o encanto das palavras, enfrentar esses trinhos de nossa própria invenção, tratar de debilitá-los, tor os inofensivos. Uma vez transposto
o muro que a linguagem. entre nós e as coisas que representam, poderemos abraçar, a a vida, sem temor nem repugnãoncia.
Carbone fizera toda a Guerra como coronel-médico do Ex italiano. Muitas vezes tivera de operar dentro de casamatas intenso bombardeio, ou a céu aberto, a menos de
um quilô da linha de fogo. Tivera assim a oportunidade de analisar-se d do perigo, descobrindo, a duras penas, que lhe era mais fácil minar o medo e fazer cessar
o tremor das mãos quando enfre os fatos - o ribombo do canhão, o sibilar das balas, o es das granadas - sem o auxílio de palavras como perigo, sangue, mutilaçáo,
dor...
- Que côsa te sucede? - perguntou Carbone, pondo-se d num pulo, como um boneco de mola, ao perceber que o amigo prestava a menor atenção ao que ele dizia.
Rodrigo contou-lhe por que estava irritado e terminou estas palavras:
- O Collor está me cozinhando em água fria.
- Mas quê ! - animou-o o cirurgião, aproximando-se
outro e tocando-lhe o ombro. Rodrigo encolheu-se e gritou: - Náo te encostes em mim, Carbone. Estás com o av
imundo!
O cirurgião soltou sua risada empostada e musical em a aspir
- O horror ao sangüe ! Descendente de guerreiros e deg dores e com medo de sangüe !
Tirou o avental, fez com ele uma bola e, abrindo a porta consultório, atirou-o para o corredor. Rodrigo tamborilava mesa com o corta-papel. O italiano, que recendia
a desinfeta tornou a aproximar-se.
- Pensa varino, na grâ carta que te escreveu Assis B Isso é que vale.
- Sim - concordou Rodrigo. O grande homem lhe vera uma bela carta felicitando-o pelo "gesto de tão grande d
O DEPUTADO 137
sombro cívico"" e agradecendo-ihe pela solidariedade política. Mas
o que ele, Rodrigo, queria era que A Federaçáo fizesse um grande
ruído em torno do caso, atacando-o pessoalmente em editoriais,
para dar-lhe o ensejo de responder pela Última Hora ou na "Seção
Livre do Correio do Povo, com grande proveito para a causa da
oposição.
- Ah! - exclamou de repente. - Antes que me esqueça. Vou
mandar imprimir boletins de propaganda em italiano, para dis
tribuí-los em Garibaldina. Vamos, Carbone. Pega esse lápis. Eu
dito em português e tu traduzes a coisa para língua de gringo.
Aqui, usa o meu bloco de papel de receitas. Pronto?
- Prontíssimo.
- Ao bravo eleitorado de Garibaldina.
Carbone começou a escrever. Rodrigo continuou:
- Aproxima-se o dia decisivo ... Não. Espera .. .
O outro ergueu a cabeça. Seus olhinhos vivos como mercúrio
fitaram o amigo. Sob os bigodes castanhos, os lábios muito ver
melhos descobriam os dentes fortes e amarelados.
- É um desaforo. Afinal de contas, se estamos no Brasil,
por que havemos de imprimir esse boletim em italiano?
Carbone ergueu-se. - Bravo !
- Temos de ir lá numa caravana e fazer um comício com
discursos em português. E vamos também a Nova Pomerânia. V ai
ser duro. O pessoal da colônia está atemorizado,
Do corredor veio uma voz de mulher: - Carlo ! Carlo !
D. Santuzza, a esposa do cirurgião, irrompeu no consultório.
Foi uma perfeita entrada em cena de prima-dona operática. Rodrigo
sorriu, imaginando Carbone a atirar-se sobre ela, soltando um dó
de peito.
- Il malato srá male - disse ela, ofegante. Alta, corada, de
grandes seios, era um mulheraço.
- Ma che malato?
- Quel"lo che hai opecato feri. Il tedesco .. . Carbone deu uma palmada na própria testa.
- Accidenre! - exclamou. E precipitou-se para o corredor
acompanhado pela mulher.
Rodrigo apanhou o chapéu e saiu, rumo do Sobrado, pensando
em que era preciso começar os comícios nos distritos.
21

Naqueles dias o Comitê Pró-Assis Brasil de Santa Fé organizou várias caravanas de propaganda, que percorreram vários distritos
#138
do município. Em Garibaldina tiveram apenas oito pesa comício. Enquanto Rodrigo discursava, atacando em altos Borges de Medeiros e Laco Madruga - Toríbio, Chiru,
Neco dos Amarais e cinco dos Macedos machos montavam guar redor dele, com as mãos praticamente no cabo dos revólveres os capangas da situação rondavam o grupo, rosnando
prova
Em Nova Pomerânia, onde José Kern começava a ser figura de importância econômica e social. Rodrigo perdeu a paca quando o teuto-brasileiro lhe disse: "O senhor não
faz comício porque a gente não somos políticos. O que queremos é trab em paz."
- Alemão patife ! - berrou Rodrigo, segurando Ooutro lapelas do casaco, como se quisesse erguê-lo no ar. - Nós fa comício nesta merda de colônia à hora que quisermos,
com ou o teu consentimento, estás ouvindo, cagão?
Largou o outro com uma careta de nojo, dirigiu-se pa praça, subiu para o automóvél de tolda arriada que os troux dali começou a convocar os colonos em altos brados.
Quem t~ vergonha, quem fosse macho que viesse ouvi-lo ! Os castrado covardes que ficassem em casa debaixo das saias das mulheres. ou três colonos aproximaram-se,
tímidos. Alguns ficaram olha de longe, às esquinas ou debruçados nas janelas de suas casas. sujeito magro e louro acercou-se de Rodrigo e disse:
- O subdelegado mandou pedir para os senhores irem em imediatamente senão ele manda dissolver o comício a bala.
Rodrigo gritou:
- Pois que mande ! Que venha !
O único maragato que existia em Nova Pomerânia veio po
depois contar-lhes que alguns colonos possuíam fuzis Mauser estavam prontos para atirar, a uma ordem do subdelegado.
Toríbio queria começar logo o entrevero. Rodrigo consul os amigos. Juquinha Macedo opinou: -
- Se vocês querem ficar e agüentar o repuxo, eu fico. acho que é loucura. Estamos em minoria e em posição desvantaj Essa alemoada pode nos comer na bala facilmente..
.
De cara fechada Rodrigo sentou-se no automóvel com os c panheiros e deu sinal de partida. O Ford arrancou. Postado a u esquina, as pernas abertas e a cabeça erguida,
um "bombachud soltou uma risada e gritou:
- Já se afrouxaram os assisistas !
Toríbio saltou do carro, correu para o homem e derrubou tom um pontapé na boca do estômago. Depois voltou para o auC móvel, que afrouxara a marcha, e pulou para
dentro, dizendo:
- Toca essa gaita !
O DEPUTADO 139
Ficou de cabeça voltada para trás, rindo, vendo o grupo que aos poucos se formava em torno do 1-.omem que ele derrubara, e que se retorcia no chão, apertando o estômago
com ambas as mãos.
A medida em que sé aproximava o dia das "eleições, o nervosismo aumentava em Santa Fé. Na Intendência o entra-e-sai era interminável, e havia sempre cavalos encilhados
no seu pátio. Nas
horas mais inesperadas foguetes subiam ao ar e estouravam sobre a cidade alvoroçada. Curiosos corriam para a praça, e lá estava à frente do palacete municipal o
último telegrama pregado num quadro-negro. "Mentiras!" - exclamava Rodrigo. "Infâmias!"
Abandonara por completo o consultório, entregando a Casa. de Saúde aos Carbone e a farmácia ao Gabriel. Passava horas no porão do Sobrado com Arão Stein, tratando
de preparar novos números d"O Libertador ou imprimindo boletins que Toríbio, Neco, Chiru e outros correligionários saíam a distribuir pela cidade. Chiru andava exaltado,
e não havia dia em que não repetisse: "Parece o tempo da campanha civilista, hein, Rodrigo?"
O Cel. Barbalho não aparecia mais no Sobrado. Escrevera uma carta a Rodrigo dizendo que, em vista dos acontecimentos políticos. achava prudente recolher-se, pois
como militar tinha a obrigação de manter-se neutro. Mas Rodrigo, a quem a paixão política tornava intolerante, achava que naquela questão não havia lugar para a
neutralidade. Entre a ditadura e a democracia, entre a arbitrariedade e a Lei entre o banditismo e a justiça não podia haver vacilações: todo o homem de bem tinha
de tomar posição ao lado do assisismo. A farda não devia servir de desculpa. Afinal de contas, na questão contra Bernardes não havia o Exército tomado partido?
Cuca Lopes agora evitava Rodrigo, com medo de comprometer-se. (Votava sempre com o governo.) Cumprimentava o amigo de longe, com acenos frenéticos, mas não se aproximava
dele, temendo ser interpelado. Quando o avistava na rua dobrava esquinas, escafedia-se para dentro de lojas, quase em pânico. Um dia Marco Lunardi, vermelho e desconcertado,
abraçou Rodrigo, lançando para um lado e outro olhares assustados. "Me desculpe, Dr. Rodrigo, mas o senhor sabe. de coração estou com os assisistas, mas não posso
me manifestar senão o intendente me esculhamba o negócio, porca miséria !" Rodrigo assegurou ao amigo que compreendia a situação. Virou-lhe as costas e deixou-o
no meio da calçada, sem lhe apertar a mão.
Licurgo também se ia aos poucos apaixonando pela causa, mas à sua maneira reconcentrada e taciturna. Se Rodrigo se consumia numa labareda, o Velho ardia como uma
brasa coberta de cinza mas nem por isso menos viva. Rodrigo, entretanto, obser-
O ARQUIPPLAGO
14O O ARQUIPrLAGO
vava que o pai ainda sentia certo constrangimento por estar da dos maragatos naquela campanha. Afinal de contas habit a vê-los como inimigos.
Alguns dos veteranos da Revolução de 93 ainda guará profundos rancores partidários. Contavam-se histórias que da uma idéia dessa rivalidade, dessa malquerença mútua
entre r canos, e federalistas. Muitos maragatos, depois de sua derrota
1895. haviam emigrado para o Uruguai, para o Paraguai ou a Argentina, preferindo o exílio à vida na querência sob o dons do castilhismo. Uma das histórias maís curiosas
do folclore poJ de Santa Fé dizia. respeito a um federalista fanático que, ao v vencido da revolução, meteu-se em casa, e duranté quase anos não saiu à rua, "para
nãoo ver cara de pica-pau". Vivia sois sem criados nem amigos. Morreu presumivelmente dum col cardíaco, mas só muitos dias depois é que se descobriu o fato. vizinho,
alertado pelo mau cheiro que saía da casa do solit chamou o delegado de polícia, que arrombou a porta. Encontra o corpo do maragato sentado em uma cadeira de balanço,
já pti fato e coberto de moscas, a cabeça caída para um lado, a cuia de marrão e a chaleira a seus pés. Tinha, enrolado no pescoço, lenço encarnado .. .
Licurgo agora era obrigado a comparecer às reuniôes do Co do qual era presidente, e sentar-se à mesa com Alvarino Ama o chefe maragato que em 1895 cercara o Sobrado
com suas for e abrira fogo contra ele e os membros de sua família.
A princípio Licurgo recusou-se a apertar a mão do velho ad sário, e durante as sessões não lhe dirigia a palavra nem sequ olhar. Alvarino, ansioso por fazer as pazes
com o senhor do brado, procurava por todos os meios agradá-lo. Como com o co dos dias os ataques dos governistas, cada vez mais violentos e soais, envolvessem nos
mesmos insultos e calúnias tanto os Mac como os Cambarás e os Amarais, Licurgo - segundo obsety Rodrigo - ia achando cada vez menos penoso aceitar os maragat como
companheiros de luta. E como uma noite, na casa do quinha Macedo. Alvarino lhe estendesse a mão, ele a apertou ra damente, sem encarar o desafeto. Durante essa reunião
chega até a trocar, embora um pouco bisonhos, meia dúzia de pala
Mais tarde, a caminho da casa em companhia dos dois fil Licurgo quebrou o seu silêncio para dizer:
- Tive de apertar a mão daquele indivídúo. Afinal de coa estamos hoje do mesmo lado... Foi um sacrifício que fiz causa. Mas uma coisa vou pedir aos senhores. Não
me conv~ esse homem para entrar no Sobrado, porque isso eu não admito.
Fosse como fosse, já agora se podia ler e comentar em voz alta no Sobrado o António Chimango, o poema campestre com 4ue, sob o pseudônimo de Amaro Juvenal, Ramiro
Barcellos satirizara Borges de Medeiros.
Um dia. após o almoço, olhando para o retrato do Presidente do Estado que A Federação estampara em sua primeira página,
Rodrigo reatou
Veio ao mundo tão flaquito Tão esmirrado e chochinho Que ao finado seu padrinho Disse, espantada, a comadre: "Virgem do céu! Santo Padre! Isto é gente ou passarinho?"

Acho que é passarinho ! - disse Toríbio, soltando uma risada. Flora olhou apreensiva para o sogro e ficou surpreendida por vê-lo sorrir.
Licurgo costumava ler assiduamente A Federação, da qual era assinante desde o dia de seu aparecimento. Depois que rompeu com o Partido Republicano recusava-se até
a tocar no jornal com a ponta dos dedos. Era, porém, com espírito - rigorosamente críticõ e nãoo raro com impaciência que lia O Libertador, cujos editoriáis haviam
perdido o tom elevadó dos primeiros números para se .tornarem agora violentamente panfletários como os d"A Voz da Serra. Licurgo gostava, isso sim, das transcrições
que Rodrigo fazia no seu jornalzinho dos manifestos, discursos e artigos doutrinários de Assis Brasil.
- Esse homem sabe o que diz - comentava - é um estadista de verdade. Não ataca ninguém, tem idéias, critica a Constituição de 14 de julho, quer o voto secreto. Não
está contra as pessoas, mas contra os erros.
Rodrigo discordava. Na sua opínião os erros -não andavam no vácuo: corporificavam-se em pessoas que com eles contaminavam o povo. Era possível combater a 1Qpra sem
isolar os leprosos?
22
Eram quase sete horas da noite quando Arão Stein acabou de imprimir o último número d"O Libertador. Estava em mangas de camisa, com o rosto reluzente de suor e lambuzado
de tinta.
Roque Bandeira, que chegara havia pouco para visitar o amigo, caçoou
O DEPUTADO
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- Assalariado da burguesia !
Stcín fitou no recém-chegado os olhos verdes e disse: - Podes rir enquanto é tempó, porque um dia virá o
de contas.
Bandeira tirou o casaco, acendeu um cigarro e sentouporão era de terra batida e úmida e cheirava a mofo. Apenas lâmpada elétrica. nua e triste, pendia do teto. Junto
das corriam ratos furtivos.
- Vejo nisto tudo um símbolo. O Sobrado é a soa capitalista. E tu, o agente bolchevista, trabalhas no subsolo. pando os alicerces do sistema. Que tal a imagem?
- Faz a tua literatura: Roque, nãoo há nenhum mal Faz atua ironia se a coisa te diverte. Mas chegará a hora enA todo o mundo terá de falar sërio, tomar uma posição,
índ tu mesmo.
Tio Bicho soltou uma baforada de fumaça, ~ olhou em t e disse:
- Ouvi dizer que o homem q.ue construía esta casa, o ou coisa que o valha do velho Licurgo, uma vez matou um de negros a bordoadas e depois mandou enterrar o cadáver
aqui. ,
Olhou para o chão como se buscasse localizar a sepultar escravo.
- Acho melhor que me ajudes a dobrar estes jornais - Stein. - Mas cuidado, que a tinta ainda não secou.
Roque começou a trabalhar, lento, com o cigarro preso aós lá
- Em 95 - continuou ele - uma filha recém-nascíd~ velho Licurgo também foi enterrada aqui, dentro duma caíxa~ pessegada ... Como o Sobrado estava cercado pelos maragatos,
puderam levar o cadáver da criança para o cemitério .. .
- Está bem. Isso é história antiga.
Tio Bicho sorriu.
- Queres dizer que nós estamos fazendo a História m na, não?
Meio distraído, o outro replicou:
- E por que. não?
Depois duma pausa curta, Bandeira tornou a falar:
- Vais então herdar esta tipografia...
Stein fez com a cabeça um sinal afirmativo. Tinha já na
frente uma ,pilha de jornais dobrados. - Sem remorsos?
O judeu voltou o rosto para o amigo.
- Por que havia de ter remorsos?
- Ora, Rodrigo vai te dar de. presente as armas com
atacarás a classe a que ele pertence .. .
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144 O ARQUIPrLAGO
cisamos ter paciência. Não é apenas a Natureza que não dá sa Também a História, às vezes, anda devagar.
Roque acendeu novo cigarro e mirou o amigo com seus olhi cepttcos.
O Comitê havia decidido promover um grande comício em S Fé a 15 de novembro, dez dias antes da data das eleições. Iz
o último: devia ser o maior, o mais vibrante de todos. Assis
sil prometera tomar parte nele. Ficara decidido que a reunião na frente do Sobrado e que os oradores falariam da sacada do gundo andar.
A propaganda iniciou-se, intensa, através d"O Libertad
de boletins.
Na véspera do grande dia, Chiru Mena apareceu no Sob
com um boato.
- Dizem que a revolução vai rebentar em todo o pais madrugada. O Exército não vai deixar o Bernardes tomar p
Nossa guarnição federal está de prontidão rigorosa.
- Qual ! - disse Licurgo. - O homem toma posse e acontece nada.
- Mas é uma desmoralizaçâó ! - vociferou Chiru. Rodrigo apertou-lhe o braço.
- Escuta, idiota. Não compreendes que se a chimangada
bar nas eleições, como é de se esperar, e nós tivermos de fazer
revolução, é melhor que o Bernardes e não outro esteja na presidê Chiru não compreendia.
- Tu não sabes então, cretino, que ele e o Borges na gostam ?
- Ah!
- Pois então deixa de andar com boatos. Agarra aq boletins e vai fazer a distribuição. Desce pela Voluntários Pátria. O Bio e o Neco já seguiram pela Rua do Comércio.
R
A manhã seguinte reservava-lhes uma decepção. Assis B comunicou por telegrama ao Comitê que infelizmente nãoo p estar presente ao comício como esperava e desejava,
pois tinha c pFOmissos inadiáveis em outras cidades.
Rodrigo explodiu:
- Pois que vá pro inferno! Como é que esse pelintra tempo para ir a Cruz Alta e Passo Fundo? Será que acha Sa Fé menos importante que os outros municípios? Pois
farem
comício sem ele !
O DEPUTADO 145
Juquinha Macedo tratou de acalmá-lo:
- Não há de ser nada, companheiro ! - E, abraçando-o, acrescentou: - Cá pra nós, com o Assis ou sem o Assis quem vai Ser mesmo o trunfo do comício é o Dr. Rodrigo
Cambará. Deixa de modéstia. Quando abrires o tarro o Dr. Júlio de Castilhos vai estremecer na sepultura !
Licurgo. que entreouvira a última frase, resmungou:
- O senhor" podia deixar o Dr. Castilhos fora desse negócio. nãoo acha?
Miguel Ruas - que fora obrigado a deixar crescer a barba, pois ihe era doloroso passar a navalha nas faces feridas - continuava no seu quarto, estendido na cama,
lamentando nãoo poder tomar parte ativa no comício. Naqueles dias fora oficialmente notificado de sua transferência para a comarca de São Gabriel. Viu nisso Odedo
imundo de Laco Madruga. "Não vou !" - decidiu. E pediu demissão do cargo.


Boatos fervilhavam na cidade. Dizia-se que o intendente estava preparando seus capangas para dissolver o comício a bala.
- Que venham! - dizia Rodrigo. - Estamos prontos para tudo.
E estavam mesmo. Ao anoitecer distribuiu por toda, a casa homens armados de revólveres e Winchesters. Durante o comício ficariam dois em cada janela e quatro na
água-furtada. Destacou cinco companheiros para se esconderem em vários pontos da praça, a fim de darem o alarma, caso os bandidos de Madruga se aproximassem do Sobrado.
Uns vinte outros correligionários bem armados e municiados permaneceriam no quintal do Sobrado durante o comício, prontos a entrarem em ação, no caso de Laco Madruga
levar a cabo suas ameaças.
Ao ver tantos homens nos fundos da casa a tomarem mate e a churrasquearem fora de hora, alguns deitados sobre os arreios, outros trovando ao som de cordeonas, Maria
-Valéria suspirou e disse a Flora
- Um verdadeiro acampamento. Parece até que a revolução já começou.
- Credo, Dinda ! Que Deus nos livre e guarde !
2q.
Às oito e meia da noite a banda de música civil, a Euterpe Santa-fezense, entrou na praça ao som do dobrado O Bombardeio da Bahia, encaminhou-se para o Sobrado e
ficou a tocar aa frente
23
#146 O ARQUIPPLAGO

do casarão, onde já se havia reunido um bom número de
em sua quase totalidade do sexo masculino. Os sons da char enchiam festivamente o largo e o bombo ribombava, parodia tiros de canhão. A noite estava quente. Vinha
dos jasmineiros redondezas um ativo perfume que dava ao ar uma qualidade e densa de xarope. O grande portão de ferro do Sobrado es aberto, e através dele podia se
ver o movimento do quintal, 4 haviam acendido uma fogueira, a cujo clarão de quando em qua avultava a figura espectral do velho Sérgio, o "Lobisomem", estava encarregado
de soltar foguetes.
O dobrado cessou. A multidão aumentava. Do outro lado praça, as janelas da Intendência estavam iluminadas. Pito fechara toda a casa, para não se comprometer. Vultos
cama vam por entre as árvores. Besouros e mariposas esvoaçavamtorno dos grandes focos de luz que havia em cada ângulo da p na ponta de altos postes. Rodrigo consultou
o relógio. Aproxi va-se a hora ... Estava inquieto, ansioso por saber se Mad teria ou não o topete de dissolver o comício a bala.
A banda de música rompeu de novo a tocar: a Marcha Capitão Casulá. Rodrigo nãoo podia ouvi-la sem sentir um cala patriótico. Apertou o braço de Toríbio e murmurou:
- Estau que nem noívá na hora do casamento .. .
- Olha só a cara do pai da noiva - disse Toríbio mostrar com os olhos o velho Licurgo que, a um canto da sala, mastigi~ nervoso o seu cigarro.
Cerca -das nove horas era já considerável a multidão qüe Congregava na frente do Sobrado. Ouviram-se os primeiros viv A um sinal de Rodrigo o negro Sérgio começou
a soltar no qui os primeiros foguetes. Abriria o comício o filho mais velho Juquinha Macedo, recém-formado em Direito.
Rodrigo tomou-lhe o braço e conduziu-o até o andar supera O jovem advogado pigarreava, nervoso.
Quando ambos apareceram na sacadá, a multidão prorrom em aplausos e vivas. Rodrigo fez um sinal para o maestro banda : uma pancada de bombo pôs fim à música.
O orador primeiro mediu o público com o olhar, e d começou
"Meus concidadãos! Povo livre de Santa Fé!"
Bravos e vivas subiram da turba, como projéteis atirad contra o advogado que, com voz dramática, prosseguiu:
"Aqui estou para atender a um chamado de minha co ciência de gaúcho, e a um dever cívico de que nenhum homem honra poderá fugir. Aqui estou para colaborar convosco
n luta generosa em prol do Direito e da Justiça, contra a tirania e
opressão!"
Novos gritos interromperam o orador durante alguns segundos. Quando o silêncio se restabeleceu, e jovem Macedo entrou na enumeração dos "desmandos do borgismo".
Causou grande sensação a parte de seu discurso em que descreveu, com vigor realista, as violências e banditismos praticados nas ruas de Porto Alegre pelo famigerado
piquete de cavalaria da Brigada Militar, que tantas vezes fora atirado pelo Ditador contra o povo indefeso, como se "pata de cavalo, ponta de lança e fio de espada
pudessem fazer calar a voz da Justiça e da liberdade!"
Neste ponto ouviram-se vivas estentóreos, ergueram-se chapéus. lenços vermelhos tremularam no ar.
Ao lado do orador, Rodrigo, impaciente, caminhava dum lado para outro, nos estreitos limites da sacada. O suor escorria-lhe pelo rosto, pelo pescoço, pelo dorso,
empapando-lhe a camisa. Olhou
para a torre da Matriz e um súbito temor o assaltou. E se algum chimango safado entrasse agora na igreja e começasse a bater o sino para impedir que o orador fosse
ouvido? Não teria ocorrido ao Madruga esse recurso sujo? Não lhe seria difícil fazer um de seus. homens penetrar clandestinamente no campanário... Os olhos de Rodrigo
agora estavam fitos na Intendência. onde se notava um movimento desusado para a hora. Iriam os bandidos tentar mesmo alguma coisa contra o comício?
Quando o advogado terminou sua oração ("Às umas, pois, companheiros de ideal, para a vitória da nossa causa, que é a causa mesma do Rio Grande !") a música rornpeu
a tocar um galope e durante cinco minutos o largo se encheu de aclamações. Rodrigo abraçou o orador. Licurgo, a uma janela do primeiro andar, pitava o seu cigarro.
olhando a multidão com olho céptico. E Toríbio, que detestava discursos, naquele momento tomava uma cerveja gelada com os companheiros que estavam de guarda na água-furtada,
Maria Valéria e Flora achavam-se ainda na cozinha a preparar as comidas e os doces para a recepção que se seguiria ao comício.
Falaram a seguir dois oradores: um deles, neto de Alvarino Amaral, acadêmico de Medicina disse do que aquela campanha libertadora representava para os estudantes
livres do Rio Grande do Sul. O outro orador, um velho federalista de Santa Fé, invocou a figura de Gaspar Martins, e terminou o discurso com uma frase do Conselheiro:
"Idéias não são metais que se fundem!"
Urros e lenços vermelhos ergueram-se da multidão.
Chegou finalmente a vez de Rodrigo Cambará, que primeiro passeou os olhos pela praça ("Se o sino começa a tocar, m"estragam o espetáculo"), depois baixou-os para
o povo. Inflando Opeito, entesando o busto, agarrou a balaustrada com ambas as mãos; inclinou-se para a frente e, segundo uma expressão muito a gosto do Chiru,
"soltou o verbo".
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f
148 O ARQUIP~LAGO
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"Meus conterrâneos! Queridos e leais amigos! Aqui praça, há quase noventa anos, a voz dum Cambará ergueu-se tra a tirania, a injustiça, a ditadura e a opressão."
Alguém gritou: "Multo bem!" - e a multidão soltou um uníssono.
"E aqui nesta mesma praça - continuou o orador mesmo Cambará, que por uma coincidência feliz e honrosa mim. tinha também o prenome de Rodrigo, derramou o seu sa
e perdeu sua vida em holocausto à causa da Justiça e da honra,; então, como hgje, era a causa sagrada da liberdade)"
Novos vivas e aplausos. Licurgo voltou-se para Aderbal dros, que estava agora junto da janela, a seu lado, e murmu
- Por sinal o outro Rodrigo foi morto por gente d Amarais, lá naquela casa do outro lado da praça .. .
-" Mas nesse mesmo ataque - replicou Babalo - foi m também um Amaral...
Quando as aclamações cessaram, Rodrigo prosseguiu:
"Nos tempos heróicos de 35 era o governo federal que q espezinhar o Río Grande, lançando-o ao vilipêndio, forçandouma situação subalterna e indigna. Hoje quem nos
vilipendü achincalha é um coestaduano nosso que, esquecido de -seu pa de lutas e ideais, de sua fé de ofício de republicano histórico,. 9 impor sua reeleirão ilegal,
indecente e indesejável, arvorand em ditador dum Estado másculo e brioso como o nosso, que net tolerou tiranos. que nunca suportou injustiças, que jamais se cucu
diante de invasor!"
No momento exato em que o orador terminava de pronun a palavra invasor, interrompeu-se de repente a torrente elétri a cidade inteira ficou às escuras.
Partiram da multidão gritos que exprimiam surpresa, sust indignação. Algumas pessoas embarafustaram em fuga pelas t adjacentes. O pânico parecia iminente. Pressentindo-o,
Rod berrou
"Atenção, meus amigos! Atenção por favor! O ridíe intendente municipal está enganado conosco. Pensa que isto é comício de crianças e nãoo de homens, e quer assustar-nos
com escuridão. - E, num tom gaiato, exclamou: - Que siga o f dango no escuro mesmo, minha gente!"
Risadas e aplausos. Alguém bradou do meio da turba:
- A escuridão é um símbolo do borgismo.
"Apoiado! Muito bem! Viva o Dr. Assis Brasil) Abaixo Chimango!"
Rodrigo ergueu o braço para o céu, procurou a lua mas não encontrou ... Tinha já engatilhado um fracalhão em que chama a lua "Lanterna de Deus".
~"pi luz das estrelas - gritou - essa nenhum chimango pode
apagar. Porque a luz dos astros é a luz de Nosso Senhor e portanto
a luz da Justiça, que há de iluminar o caminho que nos conduzirá
à vitória nesta causa sublime e gloriosa!"
Dessa vez os gritos e aplausos foram ensurdecedores. Na águafurtada Toríbio e os companheiros estavam de armas em punho,
escrutando a praça e as ruas circunvizinhas.
De súbito subiu do pátio da Intendência um risco luminoso e sibilante: um clarão iluminou a praça. seguido dum estrondo que acordou ecos no largo. E atrás do primeiro
rojão veio outro, e outro e mais outro .. .
Rodrigo estava furioso. Canalhas! Por um momento pensou em juntar a sua gente e ir direito à toca do Madruga e dos seus sicários e arrasá-los a bala.
De súbito cessaram os estrondos. A multidão de novo prorrompeu em vivas. e quando de -novo se fez silêncio, Rodrigo continuou a oração:
" Aí tendes, correligionários e amigos, aí tendes um exemplo dos recursos mesquinhos e ridículos de que se servem aqueles que sabem estar a razão de nosso lado.
Se hoje nos querem assustar com a treva ou com o estrondo de foguetes. amanhâ na hora das eleições nos vão ameaçar a vida com seus bandidos assalariados, pois todos
os recursos são lícitos para a canalha borgista que sabe que seus dias estão contados!"
Fez uma pausa. pigarreou, olhou para as estrelas e depois, com voz firme e clara, prosseguiu:
"Iremos às umas, companheiros, mas iremos de olhos abertos, e não pensem os escravos de Antônio Augusto Borges de Medeiros que vamos iludidos. Conhecemos de sobra
as artimanhas do borgismo e os vícios do regime que nos infelicita) Sabemos que, haverá fraude e coação, que os mortos votarão no Cnimango, que os funcionários públicos
que derem o seu sufrágio aò ilustre Dr. Assis Brasil serão demitidos sumariamente. Sabemos também que haverá capangas armados para atemorizar o eleitorado. Não ignoramos
que, se tudo isso falhar. restará ainda o recurso supremo da ditadura : a "alquimia" na contagem dos votos! A eleição em último recurso será feita a bico de pena
e aprovada pela maiorta da Assembléia, que dará a vitória ao eterno e melancólico inquilino do Palácio do Go
verno!"
"Mas, haveis de perguntar, se sabemos de tudo isso, por que vamos às umas? Eu vos responderei, leais amigos, vos direi que vamos às umas porque acreditamos na
sã prática republicana, porque somos democratas verdadeiros, e queremos assim dar um teste
munho público de nossa fé cívica!"
Bateu com o punho cerrado na balaustrada.
15O O ARQUIPrLAGO

"Mas se tudo acontecer como prevemos, se formos mais vez esbulhados, ainda nos restará um recurso, embora dolo triste, um recurso para o qual só podem apelar os
homens de ráter e de coragem: o recurso das armas!"
Palmas frenéticas.
"Se falharmos nas umas, companheiros, nãoo falharemos coxilha! Tentaremos o caminho legal da eleição. Mas se nos n rem a justiça e a decência, responderemos com
a Revolução!"
De novo os rojões de Madruga atroaram no ar, desta vez numerosos e ensurdecedores. Parecia que Santa Fé estava sob bombardeio. Clarões iluminavam a praça como relâmpagos.
Ro correu para o fundo e gritou: "Bento! Diga pro Lobisomem recomece o foguetório!" Tornou a voltar para a sacada e berrou o maestro: "Música! Música!" A banda atacou
um galope.
Agora do quintal do sobrado subiam também foguetes. Tort alvorotado, começou a dar tiros para o ar. A multidão urrava. sacada Rodrigo agitava um lenço vermelho.
Flora e Maria Val tapavam os ouvidos com as mãos. Alicinha despertou assustá precipitou-se para fora do quarto, aos gritos. Eduardo e Bíbi r peram a chorar. Jango
continuava. a dormir serenamente. Co cabeça debaixo do cobertor, Floriano, o coração a bater acele estava em Port Arthur, sob o bombardeio dos vasos de guerra poneses
.. .
Fora, o pandemônio continuava.
Em uma daquelas tardes de meados de novembro o Sobrado teatro duma cena a que o Dr. Ruas, ao tomar mais tarde con mento dela, chamaria "tragédia passional".
A coisa começara com a visita habitual de Sílvia, afilhada Rodrigo e, no dizer de Maria Valéria, compinche de Alicinha. menina, que morava nas vizinhanças e era
filha duma viúva. po que ganhava a vida como modista, chegou ao Sobrado como de e fume por volta das quatro da tarde, para brincar com a amiga. uma menininha de
cinco anos, morena e Franzina, de olhos amend dos. Apesar de vir todos os dias ao casarão. nunca entrava sem p meiro bater. Como a batida de seus dedos frágeis fosse
quase i dível, às vezes a criaturinha ficava um tempão à porta, à espera que alguém a visse ou ouvisse e gritasse: "Entra, Silvinha!" subia então com alguma dificuldade
os altos degraus que levavam soleira da porta ao soalho do vestíbulo e, antes de mais nada, e trava na sala de visitas, plantava-se na frente do grande retrato padrinho
e ali ficava por alguns segundos, numa ,adoração séria
O DEPUTADO 151
muda- Quando nãoo .havia ninguém perto, aproximava-se de mansinho do quadro e depunha um beijo rápido na mão da figura.
Se Alicinha nãoo tinha terminado ainda seus exercícios de piano, Sílvia entrava na sala. pé ante pé, sentava-se numa cadeira e, com as mãos pousadas no regaço, ali
ficava em silêncio, mal ousando respirar, com os olhos postos na amíguinha. Ao dar pela presença de Sílvia, Alicinha - que a tratava com a superioridade duma menina
mais velha e mais rica - abandonava os exercícios monótonos do Método Czerny e, para mostrar como sabia tocar "música de verdade". atacava O Lago de Como ou o Carnaval
de Veneza: Lágrimas então brotavam nos olhos de Sílvia. que tinha uma admiração sem I1mÍtPS pela filha do padrinho. Tudo quanto ela possuía era o que podia haver
de melhor e mais belo no mundo: vestidos. sapatos, brinquedos ... O Sobrado era para ela o paraíso - a casa que tinha gramofone. automóvel e telefone. Outra maravilha
do Sobrado era a despensa onde D. Maria Valéria guardava seus doces e bolinhos em latas pintadas de azul.
Sílvia ficava sentada. imóvel e silenciosa, até que a outra, saltando do banco giratório do piano e alisando a saia. voltava-se para ela, e como uma senhora que
dá uma ordem à criada, dizia: "Vamos!"
Sílvia seguia a amiga como uma sombra,


Naquela tarde Sílvia entrou no Sobrado alvoroçada. Estava ansiosa por brincar com a boneca grande da amiga. Não lhe haviam dado ainda o privilégio de tomar Aurora
nos braços e niná-la. mas Alicinha havia prometido: "Se fores boazinha, eu te deixo pegar a minha filha."
Entraram no quarto e aproximaram-se do berço onde Aurora dormia, os olhos fechados, as longas pestanas muito curvas caídas sobre as faces rosadas. Sílvia contemplou
a boneca com amor.
- Está na hora da menina acordar - disse Alicinha.
A outra sacudiu a cabeça avidamente, e depois ciciou:
- Vamos brincar de comadre?
- Só nós duas ?
Sílvia tornou a sacudir afirmativamente a cabeça.
- Não tem graça - retrucou Alicinha. - Precisamos um doutor. E quem vai ser o pai?
- Chama o Edu. E o Jango.
- O Edu não.
- Por quê?
- Ele tem raiva da Aurora. Disse que vai matar ela. O Edu não quero.
Desde que a boneca entrara no Sobrado a vida dos filhos de Rodrigo e Flora havia mudado sensivelmente. Alicinha tornara-se mais
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#152 O ARQUIPBLAGO

mimosa e cheia de caprichos. Havia dias em que a menina, se o dizer de Maria Valéria, amanhecia com "o Bento Manoel vessado", fechava-se a chave no quarto, recusava-se
a comer e fi a conversar com a "filha", que lhe respondia com vagidos. J fingia não ter o menor interesse em Aurora, mas não perdia tumdade de tocar-lhe os cabelos,
apertar-lhe as pernas: mais de vez levantara a saia da boneca num gesto que deixara a irmâ dalizada. ("Dinda. olha os modos do Jango!").
Floriano tecia fantasias em torno da "personalidade" de Au Ela era Copélia: a boneca a que o mágico dera vida. Seus olho~,j nham qualquer coisa que puxava a gente
para dentro deles, azuis como aquela lagoa do Angico onde havia um sumidouro. mas ele, um menino que já estava na Seleta em Prosa e Verso podia deixar sequer que
os outros suspeitassem de seu fascínio boneca. E para poder observá-la sem despertar desconfianças, minava-a com ares de professor. Um dia, apontando para os o1
de Aurora, disse:
- Aquela parte redonda chama-se íris. A do meio é a pup~ Essa coisa branca é a esclerótica.
Eduardo, de longe, gritou:
- Mentira. Isso é o "zolho".
Flora observara já que, de todos os filhos, o que tinha o c4 portamento mais estranho com relação à boneca era Edu, que condia sua paixão por ela por trás duma cortina
de hostilidade. princípio queria saber por que Aurora falava. Tinha um sapo barriga? Ou um gramofonezinho? Mas em geral recusava olhas a boneca. Quando a punham
diante dele, tapava os olhos com máos, batia com o pé no chão, vermelho, e acabava fugindo.. U mamente resmungava ameaças: ia roubar a boneca para a degolar:
- Onde foi que esse menino aprendeu essa história de degola - estranhou Flora.
Maria Valéria esclareceu:
- Ora, o culpado é o Toríbio, que ensina às crianças essas baridades.
Alarmada ante a atitude de Edu, Alicinha recusava-se agora convidá-lo para tomar parte no brinquedo. Foi nessa conjunt que Zeca - filho da lavadeira do Sobrado -
apareceu à porta quarto, com o dedo na boca, perguntando:
- Posso brincar? ,
Alicinha hesitou. Zeca era íntimo de Edu, viviam pelos cant cochichando segredinhos.
- Pode - disse ela pór fim. - Mas não chegue muito pert da Aurora.
Zeca deu alguns passos à frente. Alicinha tirou dum armárí4 um velho chapéu-coco do pai
- Bota isto na cabeça. Tu vais ser o doutor.
teca obedeceu. A cartola escondeu-lhe quase metade da cara. Jango surgiu naquele momento no corredor, montado num cabo
de vassoura. seu "pingo de estimação".
. Queres brincar? - pezguntou a irmâ. - De quê?
De comadre e compadre.
Que é que eu vou ser?
O pai.
Está bem.
Apeou do cavalo, amarrou-o num frade imaginário e entrou no
quarto. Alicinha olhou para Sílvia.
- Bota um avental. Tu és a criada.
Os olhos da outra cintilaram e ela sacudiu a cabeça, assentindo.
O brinquedo começou. Alicinha sentou-se numa cadeira com -Aurora
nos braços. Encostou a palma da mão na testa da boneca:
- Meu Deus! - exclamou. - Está com febre. Sílvia, vai cor
rendo chamar o doutor.
- Sim senhora.
Zeca aproximou-se sôfrego. Alicinha, numa súbita fúria, gritou
- Vai-te embora, bobo! Tu estás no teu consultório. Espera que a minha criada te chame.
Zeca recuou, catacego. Sílvia acercou-se dele, deu-lhe o recado, pediu que se apressasse: era um caso muito sério. O "médico" deu três passos à frente. A cartola
dançou-lhe ao redor da cabeça.
- Que é que eu faço agora?
- Ora! Então não sabes? Toma o pulso da criança. bota um termômetro debaixo do bracínho dela, escreve uma receita. Faz o que o papai faz. Nunca ficaste doente?
Zeca aproximou-se da paciente, tomou-lhe do pulso e disse:
- Vai morrer.
Alicinha fingiu que chorava.
- Ai, doutor! Salve a minha filha!
Zeca sacudiu a cabeça, fazendo a cartola rodar.
- Vai morrer - repetiu.
Alicinha simulava soluços. Sílvia tinha os olhos realmente embaciados. Lágrimas autênticas começaram em breve a escorrer-lhe pelas faces. Jango, que até então testemunhava
a cena em silêncio, interveio
- Esse doutor é um borro. V ou matar ele e chamar outro.
Tirou da cintura o revólver, apontou para o peito do "médico" e fez fogo. Pêi! Zeca atirou-se no chão, de costas. A cartola rolou no soalho. Naquele momento Edu
apareceu à porta e espiou para dentro. Vendo-o, Zeca ergueu-se rápido e correu para o amigo. Saíram os dois para o fundo do corredor e ali ficaram por alguns Segundos
a conversar em voz baixa. Por fim Zeca tornou a aparecer, e de novo enfiando a cartola. disse:
O DEPUTADO
153
#154 O ARQUIPÉLAGO

- Com licença.
Alicinha ergueu os olhos:
- O senhor nãoo morreu?
- Não. Eu sou o outro médico. O Dr. Carbone.
- Onde estão as suas barbas? - perguntou Sílvia. - Cortei.
- Por quê?
- Faziam muita cócega.
- Que é que o senhor quer? - Examinar a doente. - Pode entrar.
Zeca inclinou-se sobre Aurora, segurou-a pela cintura e, gesto brusco, ergueu-a nó ar. Alicinha soltou um grito, mas que ela tivesse tempo de detê-lo, Zeca fez meia-volta,
aproxim de Edu, que o esperava à porta, e entregou-lhe a boneca.
- Jango! - gritou Alicinha.
O irmão precipitou-se para a porta, mas Zeca agarron~s pernas e os dois tombaram. enovelados, en4uanto Edu, c boneca nos braços, metia-se num dos quartos do fundo
da e fechava a porta com o trinco.
Sílvia e Alicinha tremiam. Desvencilhando-se de Zeca, J: correu para a porta do quarto onde o irmão se refugiara, e co a bater nela com os punhos fechados:
- Abre essa porta, bandido! Abre!
- Ele está degolando a minha filhai - exclamou Alicinha Mamãe! Dindinha! Socorro!
Leocádia apareceu, trazendo nos braços Bibi, também d em pranto. E a pretinha também se pôs a bater na porta. Sí o rosto còberto pelas mãos, chorava de mansinho.
Atraídos gritaria, Toríbio e Flora apareceram. tango, o único que se tinha calmo, contou-lhes o que se passava.
Toríbio sorriu, afastou os sobrinhos e bateu com fórça na
- Eduardol - gritou. Nenhuma resposta. - Eduardol Silêncio. Toríbio ajoelhou-se, encostou a boca na fechadura e dl
- Abre essa porta senãoo eu te capo.
Era a ameaça suprema. Os outros esperavam. Zecá olhava cena de longe, apreensivo. O silêncio continuava derítro do qua
Alicinha agora soluçava convulsivamente, mas de- olhos Flora tomou-a nós braços e disse ao cunhado:
- Temos que abrir essa porta, antes que ó menino estripe boneca. - ,
Toríbio deu três passos à retaguarda, atirou-se confira a meteu-lhe o ombro e abriu-a. Houve um momento de expectas Toríbio entrou e os outros ficaram no corredor,
espiando a
O DEPUTADO 155

Trepado em cima duma cômoda, a um canto do quarto, Eduardo tinha a boneca nos braços, apertada contra o peito. Fuzilou para o tio um olhar feroz.
__ Filho duma mâe! - repreendeu-o este, aproximando-se
devagarinho. - Me dê essa boneca!
Eduardo apertou mais Aurora contra o corpo. Parecia uma bugia agarrada à cria, ante a ameaça dum caçador. Tinha as faces e as orelhas afogueadas. Seu peito subia
e descia ao compasso duma respiração acelerada.
- Está degolada, titio? - choramingou Alicinha.
Toríbio tranqüilizou-a. Aurora estava intata. O problema era tírá-la das garras do facínora sem quebrá-la.
- Larga essa boneca! - ordenou, de cenho cerrado.
Como única resposta Edu soltou uma cusparada na direção do tio. Naquele instante Maria Valéria entrou em cena e, sem a menor hesitação, aproximou-se do menino e
arrebatou-lhe a boneca das mãos, entregando-a a Alicinha, que tomou a "filha" nos braços e desatou o pranto.
Maria Valéria segurou Eduardo e deu-lhe duas rijas palmadas nas nádegas. O menino apertou os lábios e não soltou um ai. Seus olhos, porém, encheram-se de lágrimas.
- Que paixa braba! - exclamou Toríbio.
Saíram todos do quarto. Flora levou a filha para baixo: ia dar-lhe um chá de folhas de laranjeira para acalmar-lhe os nervos. Sílvia seguia-as orgulhosa, pois a
amiga lhe confiara agora a boneca.
Jango puxou as bombachas do tio, apontou para Zeca, que ainda continuava no seu canto, de cartola na cabeça, e denunciou:
- Foi ele que roubou a boneca e entregou pro Edu.
Maria Valéria largou o criminoso e dirigiu-se pará Zeca:
- Alcagüete sem-vergonha ... - começou "ela.
Toríbio, porém; correu em socorro de Zeca e ergueu-o nos braços.
- Deixe o menino em paz.
Maria Valéria estacou,- pôs as mãos na Yin~ura e, em voz baüta para que Jango não a ouvisse, diste:
- Acho essa criança tão parecida com voEê que às vezes atë desconfio.. .
Toríbio soltou uma risada:
- Não se preocupe, titia. Antes de morrer vou deixar uma lista completa de todos os meus filhos naturais.
A velha fitou nele os olhos realistas e murmurou:
- É, mas nãoo confio muito na sua memória.
t 56 O ARQUIP~LAGO
O DEPUTADO
157
26
Contra a expectativa de Rodrigo e de seus companheiros, a ção se processou em Santa Fé sem maiores incidentes, bem em quase todo o Estado.
O grande dia - um sábado - amanhecer quente, lumf e sem vento. Como de costume. Licurgo acordou às cinco da m desceu para a cozinha. onde Laurinda o esperava com
o ma cevado. Sentou-se no mocho de assento de palha. junto a um janelas. apanhou a cuia e ficou a chupar na bomba, sílenci preocupado. Tentando puxar conversa, a
mulata fazia uma outra observação, a que o senhor do Sobrado respondia com monossílabo ou -um ronco. Às cinco e meia Maria Valéria erx na cozinha, disse um "bom
dia" seco, a que Licurgo mal respo e ali ficou também a tomar o chimarrão, mas sem olhar pa cunhado nem dirigir-lhe a palavra.
Rodrigo e Toríbio desceram por volta das sete e unira aos outros membros da família, à mesa do café. Estavam am excitados e palradores. Laurinda serviu café para
os homens casa, que pouco antes das oito se ergueram da mesa, puseranti; revólveres na cintura, sob o olhar alarmado de Flora, e pr ram-se para sair. Cada qual ia
fiscalizar uma mesa eleitoraY primeiro distrito. Para Maria Valéria e Flora isso equivalia para a guerra. Elas sabiam que não podia haver eleição, carr ou rinha
de galo sem briga e tiroteios.
Flora despediu-se de Rodrigo com os olhos úmidos. Os ho estavam já na calçada, à frente da casa, quando Maria ValériA debruçou numa das janelas e gritou para os
sobrinhos:
- Cuidado) Não se metam em brigas.
Toríbio piscou-lhe o olho e respondeu:
- Nós nunca nos metemos, Dinda. Os outros é que empurram.
Soltou uma risada, tomou do braço do irmão e ambos se ram no encalço do pai, que atravessava a praça na direção da tendência, a cabeça baixa, o passo lerdo e trágico,
como o de homem que caminha para a morte.
Durante todo aquele dia as mulheres do Sobrado viram ouviram passar os caminhc~es da Intendência, carregados de eleit Homens mal-encarados desfilavam pela rua a
cavalo, soltando vi ao Dr. Borges de Medeiros.
Flora acendeu uma vela no velho oratório, que ficava no fundo do corredor do segundo andar, e ali permaneceu por longo tempo, ajoelhada aos pés da imagem de Nossa
Senhora, a pedir-lhe que protegesse a vida do marido, do sogro e do cunliadd.
Como naquele dia de eleição as escolas estivessem fechadas, Alicinha brincava no quarto com sua boneca e Floriano. como de costume. estava metido com seus livros
e revistas na água-furtada. po pátio vinham as vozes de Jango, Edu e Zeca - pêi!-ra-tapêi!-pêi! - que brincavam de fita de cinema, os primeiros fazendo o papel de
cow boys e o último. de índio.
O Dr. Ruas fez funcionar o gramofone pouco depois das nove da manhã, e a casa se encheu das vozes de Caruso e Titta Ruffo, em vibrantes árias de ópera. Aquilo para
Maria Valéria era até um sacrilégio, pois de certo modo supersticioso ela equiparava dia de eleição a día de finados e Sexta-Feira da Paixão.
Na praça e nas ruas adjacentes o movimento de homens, a pé ou a cavalo, parecia cada vez maior. Alguns tomavam mate e churrasqueavam debaixo da figueira. Traziam
lenços brancos ao pescoço : eram pica-paus.
De instante a instante Maria Valéria olhava para o relógio grande da sala de jantar. Como o tempo custava a passar) Para afastar os maus pensamentos. usou dum velho
estratagema: resolveu fazer pessegada. Meteu-se na cozinha e começou a descascar pêssegos com a ajuda de Laurinda e Leocádia.
Ao meio-dia Bento levou comida em marmita para os homens do Sobrado, que não podiam abandonar seus postos às mesas que fiscalizavam. Quando o caboclo voltou, as
mulheres indagaram:
- Como vai a eleição?
Bento respondeu que graças a Deus tudo ia bem: não se tinha ainda notícia de nenhum barulho.
À tardinha, quando a última vela do oratório se achava reduzida a um toco, e a pessegada de Maria Valéria estava já pronta e metida em caixetas, os homens voltaram
para casa.
Estavam sombrios. Contaram que tudo indicava que a derrota de Assis Brasil na cidade tinha sido esmagadora. O eleitorado da oposição acovardara-se ante as ameaças
da capangada do Madruga. Houvera fraude, como se esperava. Os "fósforos" tinham andado ativos o dia inteiro. O mesmo eleitor votava mais de uma vez, em mesas diferentes:
havia caminhões da Intendência encarregados de transportá-los dum lugar para outro. Uma pouca vergonha)
- Na minha mesa votaram cinco defuntos - contou Toríbio. - Um guri de dezoito anos apareceu com o título dum homem de cinqüenta, já falecido. Dei-lhe uns gritos,
mas o mesário aceitou o voto. Lavrei um protesto.
Sentado a um canto, Licurgo fazia um cigarro, silencioso e soturno.
158 O ARQUIPÉLAGO
- Isso não foi surpresa para mim - resmungou ele, de ouvir o filho mais moço contar outras írregularidades. -~ tivemos na cidade um único mesário assisista.
- Mas não estamos derrotados! - exclamou Rodrig Não se esqueça que, para ser reeleito, o Dr. Borges precisa obt quartos da votação, e isso ele não consegue nem que
se pi verde.
- Não se iluda - retrucou o Velho, - Eles farão m isso a bico de pena.
Aquela noite chegou a notícia de que em Alegrete, dura eleição, houvera um tiroteio, provocado pelos borQistas, e d resultara a morte de um velho federalísta, cidadão
respeita benquisto na sua comunidade.
Chiru Mena e Neco Rosa apareceram no Sobrado para como se processara a eleição nas mesas em que haviam servido fiscais da oposíção. "Quase me atraquei a bala com
Q subdeleg - fanfarroneou Chiru. Mas Neco, acariciando o bigode, co "Pois na minha mesa tudo correu em paz. Um chimango quis com um título falso, se atrapalhou todo
na hora de escrever o e eu então gritei: `Vai pra escola, analfabeto!" O cabra se ass largou a pena e saiu da sala fedendo. A coisa foi tão bruta até o pessoal da
situação teve de rir. E a eleição continuou
novidade ... "
~ A uela noite a
q praça encheu-se de gente, de sons de cord
de conversas, cantigas e risadas. Licurgo pediu aos filhos que saíssem, pois temia que fossem provocados e assassinados. T atendeu ao pedido do Velho, mas de má
vontade. Passou a
a andar dum lado para. outro na casa, como um tigre enjaul Rodrigo mandou iluminar toda a casa e abrir as janelas. Co ajuda de Toríbio trouxe o Dr. Ruas para baixo,
nos braços, e" o ex-promotor público sentar-se ao piano e tocar com toda a f algumas músicas carnavalescas. Era preciso mostrar que a oposx estava de moral erguida.
Meteu-se no escritório. sentou-se à escrivaninha e ficou remexendo em papéis. Rodrigo acercou-se dele, passou-lhe o braço sobre ~ ombros mas notou pela rigidez daquele
corpo que nãoo se entregava ao abraço, que o Velho também nãoo estava satisfeito com ele.
. Não acha que devemos publicar mais um número d"O Libertador com o resultado das eleições? - perguntou, procurando dar à voz um tom de terna submissão filial.
_- Não acho coisa nenhuma. A eleição acabou. Acabe também com o jornal. ~ hora de cada qual cuidar da sua vida. Ainda que mal pergunte, quando é que vai reabrir
o consultório?
_-- A semana que vem, provavelmente mprovisou Ro
drigo, meio desconcertado.
- Pois já não é sem tempo.
Quando Rodrigo saiu do escritório, Toríbio, que o esperava no
vestíbulo, levou-o para baixo da escada grande e cochichou
- Estou com medo que a Dinda conte as nossas brigas ao
Velho.
- Eu pedi que não contasse . . - Ela prometeu? - Não.
- Então estamos fritos.
À hora do jantar, no meio dum silêncio cortado pelos pigarros
do dono da casa, soou nítida e seca a voz de Maria Valéria:
- Quase mataram o Toríbio.
Licurgo levantou vivamente a cabeça. A velha falara sem olhar
para nenhuma das cinco pessoas que se achavam à mesa: era como
se dirigisse a um conviva invisível. Sem olhar para a cunhada,
Licurgo perguntou
- Como foi isso?
Rodrigo procurou desconversar:
- Ora, papai, a Dinda não sabe de nada ... Foi uma bobagem. O Velho, porém, exigiu a história inteira e Toríbio nãoo teve
outro remédio senão contá-la. Andava caminhando, uma daque
las últimas noites, pelas ruelas escuras da Sibéria quando de repente
fora atacado .. .
- Atacado por quem ? - quis saber o pai. - Trës polícias...
- Mas le atacaram por quê? Toríbio encolheu os ombros.
- Sei lá! Decerto porque me viram de lenço colorado no
pescoço.
- Desde quando ò senhor virou maragato?
- Ora, o lenço nãoo tem a menor importância. - Pra mim tem.
- Está bem. Eu gosto da cor. E depois é uma maneira. da
gente mostrar que nãoo está do lado da chimangada.
O DEPUTADO
159
27
Depois de passar os últimos dias de novembro e a prim semana de dezembro no Angico, Licurgo voltou para a cid~ mal-humorado. E quando Toríbio lhe perguntou como
iam coisas lá pela estância, explodiu:
- Como hão de ir? Mal! Uma seca braba que vai prez ditar o engorde do gado, uma indiada vadia .. E, depois, o se agora parece que virou mocinho de cidade.
#16O O ARQUIPÉLAGO
O DEPUTADO
161
Licurgo partiu um pedaço de carne e levou-o à boca,
- Bom - murmurou - e depois?
- Os três caíram em cima de mim. de espadas desembai
das, gritando: "Vamos dar uma sumanta neste assisista." R
e arranquei o revólver...
- Lastimou alguém?
- Não cheguei a atirar.
Toríbio calou-se e ficou afazer uma bolinha com miolo de
Licurgo continuava a comer, de olhos baixos.
- Essa história não está bem eontada - resmoneou. Flora olhava fixamente para o marido, como a suplicar-lhe
ïnterviesse. Rodrigo atendeu ao apelo.
- Para resumir a história - disse - uma patrulha do
cito apareceu e os beleguins do Madruga fugiram. Está cláro agq - Não - respondeu bruscamente Licurgo, cruzando os ta
res sobre o prato.
Fez-se um silêncio difícil. que Maria Valéria quebrou com nova denúncia:
- O nosso doutor também andou brigando. - Dinda!
Rodrigo ergueu-se intempestivo, o rosto afogueado, e pôscaminhar carrancudo com as mãos nos bolsos, como um meu que procura tomar ares de homem.
- Fiquem todos sabendo que não sou nenhuma criança exclamou com voz apaixonada. - Tenho trinta e seis anos, pai de cinco filhos e responsável pelos meus atos e palavras.
Toríbio sorria ante o rompanee do irmão. Licurgo pigarre repetidamente, com um tremor nas pálpebras. Seus olhos esta postos na toalha branca. onde traçava sulcos
paralelos com a u do polegar.
Rodrigo aproximou-se dele e disse:
- Nós não queríamos lhe contar nada para não incomodáE verdade que o Toríbio só não foi assassinado graças à intervt ção de soldados do exército. E, quanto ao meu
caso, acho que p resumi-lo em poucas palavras. Anteontem à noite, quando entrei Comercial, um dos filhos do Cel. Prates, o Honorinho, me viu gritou na frente de
todo o mundo: "Ué, valentão, ainda não es na coxilha ?" Como única resposta apliquei-1"he uma tapona na ca Pronto. Foi o que aconteceu.
- Conte que o moço puxou o revólver - acrescentou M Valéria.
- Ora, Dinda! Puxou um revolverzinho de bobagem e apo tou pra mim. "Atira miserável!", gritei. E virei-lhe as costas.
Por alguns minutos Licurgo ficou em silêncio. Por fim, olhan para o filho, disse:
- Está bem. Agora termine de jantar.
r perdi a fome.
Maria Valéria preparou um prato, colocou-o sobre uma ban
deja. chamou Leocádia e disse:
r Leve a comida lá em cima pro Antônio Conselheiro.
A negrinha obedeceu. Licurgo olhou para Flora e perguntou .~ Afinal de contas, quando é que esse moço vai ter alta?
Rodrigo notara já a má vontade que o pai tinha para com o
hóspede:
_ O Dr. Carbone disse que dentro duma semana ele pode
já começar a caminhar direito.
E vai continuar morando aqui o resto da vida?
- Está claro que não, papai. Há muito que ele. quer voltar
para um hotel. Eu é que nãoo deixo. O Madruga é vingativo. A
vida do Ruas ainda está em perigo.
Mais tarde, quando tomavam café na salá de visitas, Licurgo
dirigiu-se aos filhos
- Vou fazer um pedido. Aos dois: Não é uma ordem. Afinal
de contas quem sou eu nesta casa pra dar ordens?
Os filhos esperavam.
- Quero que os dois sigam amanhâ mesmo pro Angico e
fiquem lá até que se "decida definitivamente essa história de eleição. Rodrigo nãoo se conteve:
- Mas é um absurdo! Vão dizer que fugimos.
Licurgo sacudiu a cabeça.
- Não confunda coragem com imprudência. E depois, se as
coisas se passarem como a gente espera, haverá muita ocasião de provar que não temos medo.
Voltou-se para Toríbio:
- E o senhor já devia-estar lá. Serviço no Angico não falta.
Ergueu-se, acendeu. um crioulo, pôs o chapéu na cabeça e saiu. Quando seus passos já soavam na calçada, Rodrigo olhou para o
irmão e murmurou:
- Todos os sorrisos e carinhos que ele nos nega, decerto vai
dar agora para a Ismália Caré .. .
Maria Valéria, que naquele momento surgira à porta, disse: - Não seja ciumento. meninol
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No dia seguinte Rodrigo chamou Arão Stein ao Sobrado, levou-o ao porão, fez um gesto generoso, qúe abrangia a caixa de tipos, a prensa e a máquina impressora, e
disse:
- Leva essa geringonça toda. É tua. O Libertador morreu. Não tenho ilusões: a Assembléia vai dar a vitória ao Borjoca. Sáo uns canalhas. Agora o remédio é resolver
a parada na coxilha. a bala.
#l62 O ARQUIPIrLAGO
Naquele mesmo dia Stein levou as máquinas. Vendo lado da impressora negra de tinta, em cima duma carroça p por um burro magro e triste. Maria Valéria murmurou p~
mesma: "Que irá fazer o João Felpudo com aquela almanja
No melo da tarde Rodrigo e Toríbio seguiram para a est`
no Ford. Flora e Maria Valéria permaneceram na cidade por dos exames finais de Alicinha e Floriano. C.icurgo também pois não achava direito deixar as mulheres sozinhas
no So~ com o "forasteiro".
O automóvel chegou ao Angico à tardinha. Avistando a da estância à luz cor de chá do último sol, Rodrigo sentiu um a no coração, como acontecia sempre que via tapera
ou cemt campestre. Era um casarão de um só piso. estreito e comprido um quartel. Quatro janelas, com vidraças de guilhotina e portas, enfileiravam-se na fachada
sem platibanda, completam destituída de qualquer. atavio, e de um branco sujo e triste d pulcro abandonado. A única nota alegre do conjunto era pelo verde veludoso
e vivo do limo que manchava as telhas coloni
Rodrigo parou na frente da casa, à sombra de um dos cina mos, e segurou o braço do irmão.
- Não achas esta casa parecida com o papai ? - pergun
O outro sacudiu negativamente a cabeça.
- Não. Ela sempre me pareceu uma mulher parada. aqui alto da coxilha, bombeando a estrada, esperandb alguém que nu chega.
Entraram.
- Mas não me digas que este interior não é um cetrato ps lógico do velho Lícurgo! - exclamou Rodrigo.
Nas paredes caiadas não se via um quadro sequer. Nas janel nenhuma cortina. Na sala de jantar, como suprema concessão Arte, mas assim mesmo por mediação do Comércio,
pendia da rede um calendário da Casa Sol, com um cromo desbotado: castelo medieval alemão a espelhar-se nas águas do Reno. C seu mapso sarcasmo, Toríbio lembrou
ao irmão que a casa náo de todo destituída de objetos de arte. Não havia na parede seu quarto de dormir umas velhas boleadeiras retovadas? E o cifixo histórico no
quarto da Dinda, com o seu Cristo de nariz ca comido? E a adaga enferrujada e sem bainha que pendia da pare dos "aposentos" do senhor do Angico?
Rodrigo olhava para os móveis. Eram escassos, rústicos e foi Cadeiras duras, com assento de palhinha ou madeira. Um ho rendo guarda-comida avoengo, sem estilo nem
dignidade. A m meio guenza, marcada de velhas cicatrizes. Umas cómodas e apara dores indescritíveis. com gavetas sempre emperradas - tudo co
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am ar gasto e vagamente seboso. Mas toda aquela falta de esttlo nãoo representaria afinal de contas... um estilo?
r Sou um ateniense! - exclamou. entre sério e trocista. - Não me sinto bem em Esparta.
O que tu és eu bem sei: um maricão!
Rodrigo ergueu-se rápido e saltou sobre o irmão. Ambos tombaram e rolaram no soalho. aos gritos e risadas. Em menos de dois minutos Toríbio dominou o outro e. montado
nele, prendeu-lhe fortemente as espáduas e os braços contra as tábuas, dizendo:
Conheceste o muque. papudo?
Sai de cima da minha barriga, animal! - pediu Rodrigo. arquejante. - Vais me matar esmagado!
Levantaram-se ambos e entraram num simulacro de luta de boxe que acabou por transformar-se num duelo a arma branca. em que os braços eram as espadas. Tiveram. porém,
de parar. porque a criadagem começava a aparecer.
A primeira pessoa que veio cumprimentá-los foi a cozinheira. a Maria Joana, uma cafuza meio idiota. Vieram depois algumas chinocas cor de charuto, crias do Angico.
E foram as perguntas de sempre: Como vão todos no Sobrado? E D. Flora? E D. Maria Valéria? E as crianças?
Quando Rodrigo de novo se viu a sós com o irmão, retomou o tema
- O mundo progride, mas o Angico fica para trás. atolado no passado. Na Argentina e no Uruguai existem estâncias confortáveis, com luz elétrica e água corrente.
Nós continuamos com o lampião de querosene, com a vela e com água da pipa. Eu só queria saber por que o Velho teima em não modernizar o Angico? Talvez considere
isso um sacrilégio... o mesmo que violar a sepultura do próprio pai.
- Não pensaste também que por sentimentalismo ele queira deixar as coisas na estância bem como eram no seu tempo de guri? A bem dizer foi aqui que ele passou a maior
parte da mocidade.. .
- Quem sabe ?
Toríbio enveredou para dentro de um dos quartos de dormir, onde havia duas camas de ferro, lado alado.
- Não fujas! - gritou-lhe Rodrigo, seguindo-o. - Escuta esta. Vou escrever um ensaio sobre o gaúcho e o seu horror ao conforto.
Como Ooutro nada dissesse, ocupado que estava com descalçar as botas, Rodrigo prosseguiu:
- Vou provar como para nossa gente (e não esqueças que o velho Licurgo é um típico gaúcho serrano) conforto e arte são coisas femininas, indignas dum homem. Vem
dessa superstição a nossa pobreza em matéria de pintura, escultura, literatura e até folclore.
#l64 O ARQUIPÉLAGO
- Desde que esta droga começou - disse Toribio mos brigando com os castelhanos, ou fazendo revoluções, tivemos tempo para ~ mais nada .. .
Atirou as botas no chão.
- Toma o caso do velho Babalo - continuou o outr Detesta travesseiros e colchões macios e suspira de saudade doa pos de moço, quando levava tropas para Concepción
do Pa e dormia ao relento. em cima dos arreios.. .
Toríbio estendeu-se na cama e ficou a remexer com certa. lúpia os dedos dos pés. olhando com o rabo dos olhos pa irmão, que dizia:
- Essa nossa vocação para o estoicismo e para a sobrie
vem de longe. Estive há poucos dias lendo inventários de cieiros gaúchos do princípio do século passado. Em matéria de veis, utensílios e vestuário eram duma pobreza
franciscana.
Toríbio olhava fixamente para a aranha que, em um dos ca do teto, tecia a sua teia. Como ele nada dissesse. Rodrigo pross
- Diante de tudo isso, é fácil compreender a má vontad eleitorado do Rio Grande para com o Dr. Assis Brasil. N gente nãoo o considera um gaúcho legítimo. O homem
é civili barbeia=se diariamente, anda limpo e bem vestido, mora com forto, tem livros, tem cultura, viaja, fala várias línguas...
Rodrigo deitou-se na outra cama e ficou a contemplar o
de céu que a janela emoldurava. Em breve estava perdido pensamentos. Arquitetava o ensaio... mas começava a temera coisa toda no fim redundasse numa caricatura do
próprio com a sua secura de palavras e gestos, seu horror a tudo qua, pudesse parecer luxo ou prodigalidade, sua falta de apreço por q quer expressão de beleza ou
fantasia.
Rodrigo sentia nas nádegas e no lombo a dureza do col de palha sob o qual havia um lastro de madeira. A cada mo mento de sua cabeça, o travesseiro crepitava e talos
da palha q o enchia arranhavam-lhe a face.
Pôs-se de pé e saiu do quarto para os fundos da casa, grita para o irmão:
- Vem ver o fim do dia, animall - Já vou.
Uma doce luz de âmbar tocava as árvores do pomar. Rodri sempre gostara do verde escuro e digno das laranjeiras e bergam Leiras. Era um entusiasta das frutas do Rio
Grande: laranjas, cegos, bergamotas e uvas. Eram sumarentas, gostosas, dur9~ veis - produtos duma região que contava com quatro estaç nítidas. Detestava as frutas
tropicais, duma doçura enjoativa e da fragrância de flor: mal terminava o processo de amadurecimento já entravam no de decomposição.
pe súbito. enternecido pela paisagem. e como para compensar o que havia pouco dissera a Toríbio sobre as deficiências do gaúcho, ficou a perguntar a si mesmo se
não seria lícito fazer um confronto
entre aquelas frutas sadias e o homem do Rio Grande. Não se poderia também - refletiu, estendendo Oolhar pelo campo em derredor - considerar o caráter, o temperamento
do rio-grandense do sul um produto natural daquela paisagem desafogada e sam limites? Poderia o gaúcho deixar de ser um cavaleiro e um cavalheiro? E um impetuoso?
E ttm guerreiro? E um generoso? E um bravo?
-. peste agora para falar sozinho?
Rodrigo voltou a cabeça. A pergunta partira de Toríbio. que apanhara um pêssego e trincava-o sonoramente com os "dentes fortes de comedor de churrasco. Rodrigo encolheu-se
e fechóu os olhos: o contato da casca penugenta da fruta nos dentes sempre lhe causara um arrepio semelhante ao que sentia quando abraçava mulheres vestidas de veludo.
O sol descia por trás da Coxilha do Coqueiro Torto. em cujo topo estava enterrado Fandango, o velho capataz do Angico que morrera centenário. Era a hora em que a
paz do céu descia sobre os campos, as águas paradas pareciam mais paradas, sons e cores se amorteciam numa surdina, as sombras começavam a tomar tonalidades de violeta.
Um esplêndido galo branco passeava como um paxá por entre as galinhas que ciscavam no chão de terra batida, dum vermelho queimado. que despedia uma tepidez lânguida,
como dum corpo humano cansado. Um guaipeca de pelo fulvo dormia jànto da porta da cozinha, de onde vinha um cheiro de carne assada.
Rodrigo estava inquieto. Que era? Talvez fosse a melancolia natural da hora e do lugar. Mas não! Havia mais alguma coisa. Sim, uma espécie de saudade absurda, sem
objeto certo, uma sensação de aperto no peito que parecia ser metade ternura, metade expectativa. A solidão sempre lhe causara angústia. Talvez morasse ainda no
fundo de seu espírito o menino que temia a noite e a escuridão.
Pensou no pai com má vontade. Se o Velho nãoo fosse tão cabeçudo, aquela estância podia ser um paraíso. Teria luz elétrica, um gramofone, boas poltronas e camas,
uns móveis simpáticos, quadros nas paredes. A imagem do pai se lhe desenhou na mente: a cara triste e tostada, o cigarro preso entre os dentes amarelados, a pálpebra
do olho esquerdo a tremer. Ahl Aqueles olhosl Tinham o poder de fazë-lo sentir-se culpado. Eram olhos críticos de Terra realistas, autoritários, intransigentes.
- Que porcarial - exclamou Rodrigo.
- Quê ?
- Tudo!
166 O ARQUIPpLAGO
Arrancou um pêssego dum galho, partiu-o com as mãos e curou comer a polpa sem que seus dentes tocassem a casca. ~ o galo estava fora da zona de sombra que se projetava
no c Sua crista escarlate e empinada tinha algo de fálico.
- Como vamos por aqui em matéria de mulher? - pergu Rodrigo em voz baixa.
- Mal.
Rodrigo ia pedir pormenores. mas teve de calar-se, pois P Vacariano. que havia pouco apeara do cavalo. na frente do gal aproximava-se deles.
Era um caboclo alto e espadaúdo. "homem de pouca fal muita confiança" - como o próprio Licurgo reconhecia. A de seu , rosto tinha algo que lembrava goiaba madura.
Os ol eram escuros e vivos, os cabelos negros e corridos. Uma cicat rosada atravessava-lhe uma das faces. da boca à orelha. Ti trinta e cinco anos de idade, era
natural da Vacaria onde ma um homem em legítima defesa. Depois de julgado e absolvi fora obrigado a mudar-se, para fugir aos filhos do assassinado," haviam jurado
vingança.
Diziam que era valente e ri io, capaz de ficar dias e dias comer nem beber, e que não tinha paciência com os que falav quando nada tinham a dizer. Não era fácil
para Rodrigo esto sua antipatia pelo capataz. Mais de uma vez procurara desco sem resultado. por que seu pai, homem de ordinário tão cautel exigente e desconfiado.
acolhêra com tanta facilidade na estão o fugi ivo de Vacaria, entregando-lhe um posto de tamanha ponsabilidade. A verdade era que havia quatro anos que P Vacariano
capatazeava o Angico sem jamais ter dado aos patr o menor motivo de queixa ou desconfiança.
O caboclo apertou rapidamente a mão dos dois irmãos, dizer palavra, e depois, com ambas as mãos na cintura, uma pec tesa e a outra dobrada, como um soldado em posição
de desta fez com sua voz monótona e seca um relato da situação do traba no Angico. Não se podia deixar de admirar a precisão e a eco mia verbal com que o capata2
se expressava. Não esperdíçou vra. E enquanto ele falava, Rodrigo analisou-o com olho frio antipático. Sempre tivera má vontade para com gaúcho que u chapéu de barbicacho,
como era o caso de Pedro Vacariano. Se pre interpretara o barbicacho como uma espécie de , bravata, provocação. Também não gostava do ar altivo do cabra, do jeito
de olhar os outros "de cima". Toríbio, no entanto,, pa dar-se bem com ele.
E agora era Bio quem falava, transmitindo ao capataz recado do velho Licurgo sobre a castração de um cavalo. P escutava, olhando obliquamente para Rodrigo, -que
pensava: tipo está me cozinhando. Não me agrada o jeito dele ... Dec
O DEPUTADO l67
está fazendo troça da minha indumentária: culote cáqui em vez de bombachas, perneiras em vez de botas. Cachorro!"
O sol estava quase sumido por trás da sepultura do velho Fandango e era uma luz de tons alaranjados que envolvia agora Pedro Vacariano. que ali estava de cabeça
erguida. mordendo o barbicacho. Sua figura recortava-se contra um fundo formado por um pessegueiro copado. carregado de frutos maduros. Parecia um quadro. Rodrigo
não pôde deixar de reconhecer que o capataz era um belo tipo de homem. Isso o deixou ainda mais irrrtado, como se ali no Angico só ele tivesse o direito de ser belo
e macho.
29
Ao entrar na sala de jantar mal-alumiada por um lampião de querosene, de cuja manga subia para o teto uma fumaça esfiapada e negra: ao contemplar a mesa tosca -
atoalha de algodão dum branco arrtarelento de açúcar mascavo, a louça grosseira. a farinheira rachada, as colheres de estanho, os garfos e facas de ferro com cabos
de madeira, e principalmente o prato fundo trincado pelo qual o velho Licurgo revelara sempre uma predileção inexplicavel - Rodrigo sentiu uma tristeza que só foi
compensada pela presença quente, suculenta e olorosa do assado de ovelha, que, Toríbio trinchava com uma alegre fúria de anfitrião.
- Senta, homem. Estou com uma fome canina.
Atirou um gordo naco de carne sobre o prato do irmão. Rodrigo cobriu-o de farinha, empunhou garfo e faca e começou a comer. Uma chinoca entrou com uma travessa cheia
dum arroz pastoso e. reluzente, do qual ele também se serviu. Maria Joana surgiu em pessoa com uma terrina cheia de galinha ao molho pardo, seguida por outra rapariga
que trazia um prato com batatas doces assadas e mogangos cobertos de açúcar queimado. Um festíml - .fantasiou Rodrigo, mastigando gulosamente, e já com as bochechas
salpicadas de farinha. Sim, um festim da Roma antiga. Ali à cabeceira da mesa, por trás da fumaça que subia do pratarraço de arroz - retaco, sanguíneo, de pescoço
taurino e olhinho sensual - Toríbio parecia um imperador romano.
Os irmãos comiam com uma sofreguidão infantil, trocando pratos, comunicando-se por melo de sinais ou então gritando de boca cheia: "Atira o sall" - "Pincha a farinheiral"
Houve um momento em que Toríbio fez um sinal na direção dos mogangos e rosnou: "Me passa aquela bostal" Rodrigo obedeceu, sorrindo. O imperador positivamente nãoo
tinha compostura. Dizia palavrões, levava a faca à boca, manchava a toalha de molho pardo: grãos de arroz perdiam-se na emaranhada cabelama de seus braços de esti-
#O ARQUIPÉLAGO
vadot. Ahl Se a Dinda estivesse presente, já teria gritado " os modos, Biol"
Maria Joana contemplava-os em silêncio, a um canto da na penumbra, com a cabeça inclinada para um lado, os b cruzados. Era uma mestiça de feições repelentes, e sua
cabeça quena, de lisos cabelos muito negros, a pele enrugada colada ossos dava a impressão desses crânios humanos encolhidos f pelos índios do Amazonas. O que, porém,
mais impressionava eram os olhos de esclerótica amarelada, com uma fixidez visg de olho de jacaré. Fala~-a pouco, resmungava muito. Nos di vento andava pela casa
com as" mãos na cabeça, a uivar, e ata sempre saindo porta fora e correndo, a esconder-se no bamli onde esperava que a tempestade passasse. Como era possível refletia
Rodrigo - que aquela criatura imbecilizadá, que parecia um animal do que um ser humano, fosse capaz de cozi com aquela maestria, com aquele requinte. O molho pardo
e divino. O arroz, no ponto exato. O assado? Nem era bom falar
- Maria Joana - disse ele, metendo a mão no b - Venha cá.
Deu-lhe uma moeda de dois mil-réis. A cafuza apanhou-a um gesto brusco e ao mesmo tempo arisco. Soltou uma n estrídula e, olhando para a moeda que mantinha afas~ada
do co na ponta dos dedos, como se ela fosse um bicho repugnante, grit
"Santa Bárbara, São Jerônímo!", deu uma rabanada e precipito para a cozinha, soltando urros não de alegria, mas de pavor, se a mais medonha das ventanias tivesse
começado a soprar s
as coxilhas.
- Pobre-diabo - murmurou Rodrigo, seguindo-a com o ol - Sífilis.
Depois do jantar Toríbio dirigiu-se para o galpão, como tomava fazer sempre àquela hora. Ia conversar com a peotnt contar e ouvir "causos". E era certo que o negro
Tiago tocaria deona e que o velho Zósimo, se estivesse de veia, cantaria cantigas que aprendera na Banda Oriental, nos tempos de piá.
Rodrigo pôs-se a caminhar na frente da casa, ao longo renque de cinamomos, assobiando baixinho o Loin du Bal, olha para as estrelas, escutando os grilos e as coro
jas, sentindo na
a brisa tépida da noite. A lua ainda não havia aparecido, mas se anunciava na luminiscência do horizonte. Vaga-lumes piscacavam no ar, que cheirava a campo.
Rodrigo acendeu um cigarro, agora mais que nunca cousa daquela sensação de desconforto e apreensão. Que seria ? Teve sensação de perigo iminente, como se das sombras
da noite inimigo estivesse prestes a lançar-se sobre ele. E, de súbito, lanço mesmo... Mas veio duma outra noite do passado. Um cadá ocupou-lhe por inteiro o campo
da memória: Toni Weber es
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dida no chão, o corpo hirto e gelado, a cara lívida, os olhos vidrad~, os lábios queimados de ácido .. .
Rodrigo estacou, abraçou o tronco duma árvore, e algo quente
~ e enovelado subiu-lhe no peito, lágrimas rebentaram-lhe nos olhos. (~ vida insensata! Ó vida absurda! ó vida bela e terrível! Havia sete anos Toni Weber se matara
por sua causa: era solteira e ele, um homem casado, lhe havia feito um filho ... E para afastar-se da morta, para evitar o perigo de trair-se, viera covardemente
para o Angico e, numa noite tétrica, andara a correr alucinado por aque les campos. com medo de enlouquecer .. .
Era estranho que agora ali se encontrasse de novo, como se nada houvesse acontecido. Ficara-lhe o vago horror daquele cadáver. daquela noite e do remorso ... Quanto
ao mais, era como se tudo nãoo passasse duma história triste, lida num romance gáase esquecido... Mas por quem chorava? Pela suicida? Ou por si mesmo?
Alguém cantava agora no galpão. Era uma toada campeira, triste como uma Ganhada deserta em tarde chuvosa de inverno.
3O
Pouco antes das nove horas, Toríbio voltou para casa e encon
trou Rodrigo ainda a caminhar sob o arvoredo.
- Queres ir camperear amanhã? - perguntou. - Naturalmente, homem.
- Pois então vai dormir, bichinho, porque saímos às cinco
da madrugada.
- Cinco I Não contes comigo. E cedo demais.
Meia hora mais tarde, quando Rodrigo foi para o quarto, encontrou o irmão estendido de borco numa das camas, completamente nu, e já a dormir profundamente. Parou
à porta, com uma vela acesa na mão, tomado pela estranha impressão de que não podia entrar, pois naquele compartimento não havia lugar para ele. A presença de Toríbio
parecia entulhar o quarto. Ali estava sobre o leito aquele homem retaco e musculoso. cabeludo como um gorila. O calor de seu corpo aumentava a temperatura ambiente.
Seu cheiro acre e seu próprio ressonar pareciam ocupar um espaço
físico.
Por alguns instantes Rodrigo ficou a contemplar o irmão, sorrindo. Depois. colocando o castiçal e o relógio sobre a mesinha que separava as camas, despiu-se, enfiou
as calças do pijama de seda e. de torso nu, deitou-se. Apanhou a brochura desbeiçada que viu no chão, e aproximou-a da chama da vela. Era um volume do Rocambole.
Toríbio era um leitor voraz de novelas de aventuras.
#17O O ARQUIPpLAGO
Rodrigo folheou o livro ao acaso, depois atirou-o no
com força, pois sabia que Bio tinha um sono de pedra.
Toríbio reboleou-se, ficou de ventre para o ar e come
roncar, produzindo um som de trombone. Rodrigo pensou e
dormir em outro quarto: havia tantos na casa! Mas ficou.
curioso o efeito que tinha sobre ele a presença do irmão. Dava
a mesma sensação de segurança que ele sentia quando punh
revólver na cintura e saía para a rua, mesmo sabendo que não
ter nenhuma oportunidade de usar a arma.
Compreendeu que não lhe ia ser fácil dormir. Não estava
bituado a deitar-se cedo. O remédio. enquanto permanecesse
Angico, seria acompanhar o irmão nas lidas campeiras. cansar
o corpo para ter sono àquela hora.
Revirou-se e ficou deitado de bruços. os olhos cerrados, o n
metido no travesseiro áspero. Ouvia com uma intensidade s
as batidas do próprio coração, como se a víscera estivesse a pul
dentro do colchão de palha e não dentro de seu peito. Coração
palha ... Talvez lhe fosse melhor ser insensível ... Havia o
parte de seu corpo que lhe daria menos trabalho se fosse iam
de palha. Mas qual! A natureza .não se enganava nunca: q se iludia ou errava eram os homens.
Tornou a mudar de posição, ficando agora deitado de co De olhos sempre fechados, procurava "ver" o fluxo do san quente e inquieto nas veias e artérias. Apalpou o
tórax, procurand relevo das costelas. Fez descer as mãos para a depressão do atido
(orgulhava-se de nãoo ser obeso) , ficou algum tempo a cavou com o indicador no botão do umbigo e depois. quando seus de tocaram o púbis, teve a súbita e perturbadora
consciência du vaga saudade masturbatória, que o deixou a um tempo indigna. consigo mesmo e sexualmente excitado. Uma onda de calor f migou-lhe no corpo inteiro,
como uma urticária. Arrancou calças do pijama e ficou tão nu quanto o irmão. Pronto! era ferível que tivesse o corpo recheado de palha, como um espantai Nãol Era
bom estar vivo. Sim, vivo estava, mas não se sentia fe Faltava-lhe alguma coisa. Que era? Talvez uma nova aven uma amante, uma viagem.. , talvez uma revolução -
qualq coisa, menos o marasmo, a mesmice, aquela triste paródia de vi à sombra do pai. Que tinha feito até agora senão colher. glorio municipais? Claro, chegara a
deputado estadual, mas que valor tín isso quando tantas bestas quadradas haviam conseguido o mesm Horrorizava-o a idéia de passar o resto da vida conformado com
mediocracia de Santa Fé. De certo modo misterioso ele sabia, pr sentia que um belo destino lhe estava reservado. Sentia-se c ânimo e inteligência para realizar grandes
coisas. Mas onde!"
mo? Quando?
Gostara do Rio de Janeiro. Ficara deslumbrado com o seu cenário natural. seu cosmopolitismo. suas possibilidades eróticas .. . Lá escava o mar. a Ópera, museus.
gente civilizada. lindas mulheres. A solução talvez estivesse numa deputação federal. Mas como ía conseguir isso se havia abandonado seu partido? Além do mais. a
maldita situação política tornava tudo incerto. imprevisível.
Toríbio ainda soprava seu trombone. Diabo feliz! Não tinha problemas. Atirava-se na cama, fechava os olhos e - bomba! -caía no sono. Por que mundos. entre que gente
seu espirito andaria agora gauderiando?
Rodrigo cruzou os braços sobre o peito. tornou a procurar
- sono... Em que remota Ganhada, no fundo de que invernada estaria esse boi preto e arisco?
Trinta e seis anos. Caminhava com botas de sete léguas para a casa dos quarenta. Viriam em breve os primeiros cabelos brancos, os primeiros achaques! Não! Não se
conformaria jamais com a velhice. O melhor seria morrer por volta dos cinqüenta, numa guerra. num duelo ... ou de um colapso cardíaco. Cair na rua fulminado... que
bela morte! Não daria trabalho à família. ninguém o veria minguar, apodrecer em cima de uma cama .. .
Soltou um suspiro de impaciência. procurou nova posição sobre a dureza do colchão. Um grilo entrou no quarto e começou a cricrilar: dueto de trombone e percussâc.
Preciso comprar um carro novo - pensou. - O Ford está um calhambeque .. .
- vulto do pai delineou-se contra o fundo. de suas pálpebras. Licurgo amassava a palha para fazer um cigarro. "Pelo que vejo
- senhor virou miliardário. Ainda que mal pergunte. não ouviu ainda falar na crise da pecuária? Não sabe que depois que terminou a Guerra Européia o preço do gado
só tem caído?"
- pai. Sempre o pai, a tratá-lo como se ele fosse. um menino. Barrava=lhe quase todos os projetos. Censurava-lhe quase todos os atos, nem sempre necessariamente
com palavras, mas com aquele seu olhar que valia por cem sermões.
Que vão todos para o diabo! Tenho de acabar com essa situação deprimente, proclamar minha independência. "Independência oti morte!" D. Pedro I em cima dum cavalo,
erguendo o chapéu de dois bicos... (Rodrigo teve na mente por um instante a apagada reprodução do quadro famoso, num remoto compêndio de História do Brasil do curso
primário. ) Sua independência dependia etn última análise da morte do velho Licurgo. Santo Deus! Ficou de tal modo alarmado que chegou a soerguer-se como um autômato
e pôs-se a olhar fixamente para o quadrilátero da janela. Quis evitar, mas não conseguiu, a idéia de que se o Velho morresse ele, Rodrigo Terra Cambará, tomaria
posse de sua própria vida, podem it a Paris, à C"hinchina, aonde quisesse, sem ter de dar explicações a
O DEPUTADO
171
172 O ARQUIPÉLAGO

ninguém ... Censurou-se a si mesmo (e neste momento
sendo o seu próprio pai) por se permitir tais pensamentos.
monstruoso. Amava. respeitava o Velho. A vida dele era-lhe
ciosa. Que Deus a cònservasse ainda por muitos anosl
Tornou a estender-se na cama. fechou os olhos. procura
fugir àquelas cogitações absurdas e perversas. Mas nãoo pôde
tar uma visão terrível: o pai morto dentro dum ataúde. um 1 roxo a cobrir-lhe o rosto. Senhores! Deve haver algum enga Ninguém morreu! Abram as janelas! Apaguem
as velas! Man tirar da sala essas coroas e flores! Deixem entrar o ar puro: Gol... ó Deus. perdoai-me por eu nãoo poder fugir a estes pe mentos. Zelai pela vida do
meu pai. pela vida de toda a mt família. Se alguém tiver de morrer, que seja eu. (Que Deus livrei) Mas o exorcismo não deu o resultado esperado. Po agora Rodrigo
via sua própria imagem refletida no espelho gra da sala. Estava de luto fechado. Tinha voltado da missa de timo dia.
Lágrimas começaram a escorrer-lhe pelas faces.
Olhou o relógio. Quase onze. Toríbio e o grilo continnav o seu concerto. Rodrigo procurava em vão e às cegas as portas sono. E se no dia seguinte alguém lhe perguntasse
em que momen exato as imagens da vigília se haviam dissipado para darem lug às do sono, ele não saberia responder.
Quando na manhã seguinte, alto o sol. Rodrigo saiu de
- a sensação de brusca beleza que lhe veio do céu e das coxilh foi de tal maneira intensa, que ele estacou, a respiração cortad como se tivesse recebido um golpe
de lança em pleno peito. Lfi~ grimas vieram-lhe aos olhos, e ele se quedou a perguntar a si mesm como era que não tinha percebido antes (ou percebera e esquecera%p
que vivia talve2 dentro duma das mais belas paisagens do mund
Existiam naturezas convulsas e vulcânicas como a dos And - refletiu, fungando como um menino prestes a chorar. Te desoladas e pardas como as da Mancha, por onde
andara o Qnixote,, Alguëm lhe falara um dia na seca, desmaiada beleza de certas zonal desérticas, viçadas de cactos que produziam as flores esquisitas. Semi pre
sentira algo de vagamente indecente na exuberância tropical:" a natureza que cerca o Rio de Janeiro dera-lhe a impressão duma" fêmea em permanente cio. Agora, este
quadro o encantava e enternecia pelo que tinha de singelo e límpido. Se o deserto lembrava
O DEPUTADO 173

a transparência da aquarela e o trópico sugeria o lustroso empastamento do óleo. as campinas do Rio Grande pareciam um quadro pintado a têmpera.
Meio ofegante. Rodrigo contemplava a amplidão iluminada. O desenho e as cores do quadro não podiam ser mais sumários e discretos: o contorno ondulado das coxilhas.
dum verde vivo que dava ao olhar a sensação que o cetim dá ao tato: caponetes dum verdegarrafa. azulados na distância. coroando as colinas ou perlongando as Ganhadas:
barrancas e estradas como talhos sangrentos abertos no corpó da terra. Por cima de tudo. a luz dourada da manhâ e o céu azul duma palidez parelha e rútila da esmalte
e duma inocência de pintura primitiva. A paisagem tinha a beleza plácida e enxuta de um poema acabado, a que se nãoo pode tirar nem acrescentar a menor palavra.
Rodrigo saiu a andar pelas campinas. respirando fundo e já fazendo belos planos. Ali estava a solução - disse para si mesmo, sem muita convicção. mas feliz por poder
petisar nessa possibilidade. Abandonaria a Medicina e a Política. passaria a viver largas temporadas no Angico, como um esquive inglês. perto da terra. alternando
a faina do campo com a do espírito. a música de bons discos com
- mugido dos bois. Podia até escrever um livro... Por que não? Talvez um ensaio sobre o Río Grande, no qual procurasse descobrir as raízes de suas lealdades castílhistas
e gasparistas. Ou entãó uma história máscula da Revolução de 93 Não. O melhor seria uma biografia de Pinheiro Machado. Ocorria-lhe até um título: O Caudilho Urbano.
Começaria com a visita do Senador ao Sobrado, em 191O...
Estava agora convencido de que a vasta e limpa solidáo do Angico era mil vezes preferível à atmosfera opressiva de Santa Fé,
- burgo podre dos Madrugas e Camachos. Já que nãoo podia viver numa grande metrópole, viveria na estância. Não podia ter Paris? Teria o Angico. Em vez de andar pelos
bulevares, burlequearia pelos potreiros ... Nunca fora homem de aceitar o meio-termo. O problema estava . resolvido! E para dar ênfase à resolução, desferiu um pontapé
numa macega. Diabo! Havia um sabor acre~e macho naquela vida telúrica. Afinal de contas era naquele chão que Terras
- Cambarás tinham sutas raízes.


Nos dias que se seguiram. Rodrigo entregou-se por inteiro às lidas do campo. com um Fervor de cristão novo, acompanhando em tudo o irmão, que ele observava com uma
inveja cordial, e que procurava imitar, mas sem muito resultado, pois precisava de considerável esforço para fazer mediocremente o que o outro fazia muito bem, e
com naturalidade.
31
#174
O ARQUIPPLAGO

Quando ambos eram meninos, Rodrigo orgulhava-se da f
e da coragem de Bio, assim como este mal escondia sua admiraG pelas qualidades intelectuais do irmão mais moço. Muita vez pátio da escola, à hora do recreio. Rodrigo
congregava os ami para exibir o "muque" do Bio e suas proezas de saltimbanco. T tíbio não se fazia rogar. Virava cambalhotas tão bem como
"borlantim" profissional. Não havia noite em que, antes de dor tem. ele não desse um espetáculo para o irmão. E comoRodri tosse a melhor das platéias, Toríbio
entusiasmava-se. Um dia. seu fervor circense, resolveu "fazer uma mágica" : comeu a meta duma vela de cera ante os olhos horrorizados do irmão. que sa que essa vela
havia sido roubada a uma sepultura do cemitério.
E agora, ali no Angico, Toríbio continuava na sua "semost ção". Mudara, porém, o repertório. Duma feita mandou o irm jogar para o ar, bem alto, uma lata de compota
vazia e. antes q esta caísse no chão, varou-a três vezes com balaços de revólver.
- Desafio o Assis Brasil a fazer o mesmo! - exclamou.
Um dia. durante o banho na sanga. mergulhou e ficou tan tempo sem aparecer à tona. que Rodrigo começou a inquietar-se. mergulhar também para ver que havia acontecido,
quando Tort emergiu do fundo do poço. lustroso e gordo como uma capivara.
- )s ou não é pulmão? - perguntou.
Uma manhã, na Invernada do Boi Osco, como quisessem la um forte tourito de sobreano, e como um dos peões já estivesse laço erguido. Toríbio gritou-lhe:
- Deixa esse bichinho pra mim!
Precipitou-se a todo galope e, em vez de usar o laço, jogoudo cavalo em cima do touro, agarrando-se-lhe primeiro ao pesc
- depois às aspas ... e assim enovelados homem e animal percor ram uns dez metros ... Por fim estacaram. Toríbio torceu a ca do touro até fazê-lo tombar por completo
no chão. A peona ria e soltava exclamações de entusiasmo. Quando Rodrigo se ac cou do irmão, este, ainda segurando as aspas do animal e aperta do-lhe a cabeça contra
o solo, ergueu a face lustrosa de suor, de
- de contentamento, e disse:
- Te desafio afazer o mesmo. - Ora vai tomar banhol
E durante três dias a lida foi dura e contínua em todas as in vernadas. Ao cabo desse tempo, Toríbio devolveu a capatazia da" estância ao Pedro Vacariano e passou
a entregar-se a freqüentes e misteriosas excursões aos capões das vizinhanças, de onde voltava trazendo grandes ramos de açoita-cavalo e guajuvira. Intrigado, Rodrigo
perguntou
- Que história é essa ?
- Estou preparando o meu arsenal. Tn te esqueces que estamos"..
O DEPUTADO 175
. E que vais fazer com esses paus?
_ Lanças. Quero organizar um piquete de cavalaria. ~ ainda a melhor arma para a nossa campanha. digam o que disserem.
- Estás completamente doido. Estamos em 1922 e náo 1835.
Toríbio nada disse. A judado por mais dois peões munidos de facões afiados. começou a dar àqueles paus a forma de lanças. E Rodrigo. que andava em lua-de-mel com
o Angico e os novos projetos de vida. tornou a pensar na iminência da revoluçáo. Só agora lhe ocorria fazer a si mesmo a pergunta crucial: "Com que armas vamos brigar?"
E enquanto o irmão e os peões falquejavam madeira e ajustavam à extremidade dos paus pedaços pontiagudos de ferro, folhas de velhas tesouras de tosquiar - ele pensava
em que o governo naturalmente lançaria contra os revolucionários a sua Brigada Militar, adestrada e aguerrida, com bons fuzis Mauser e até metralhadoras. E essa
idéia deixou-o perturbado, pois nãoo se harmonizava com seu estado de espírito no momento. Certa manhâ encontrou por acaso em uma gaveta um número atrasado de L"Tllustration,
que lhe deitou por terra os planos rurais e lhe despertou, mais agudo que nunca, o dese1o de visitar Paris. Seu nariz, saturado d9 cheiro de creolina.lsabão preto,
picumã e couro curtido, de-súbiço clamor, por perfumes franceses. E à hora da sesta, com a revista abertá sobre, o peito, imaginou que passeava em "Paris, em Saint-Germain-desPrés,

na Place de 1"aoile ... Tomou absinto num café de Montmartre e dormiu com várias mulheres que caçou nas ruas.
Decidiu então que tinha de ir a Paris, custasse o que custasse, Estava claro que Flora preferiria ficar em Santa Fé, por caiisa dos filhos. O velho Licurgo ia fazer
cara feia, mas acabaria por aceitar a idéia da viagem ... Estava decidido. Iria em princípios de março, passaria a primavera na cidade de seus sonhos.
No entanto ali estava o irmão a fabricar lanças de pau para seu piquete de cavalaria .. .
- Queres fazer uma aposta? - perguntou Toríbio. - Lá por fins de fevereiro, o mais tardar, estamos na coxilha tiroteando com a chimangada.
Rodrigo sacudiu a cabeça, numa afirmativa taciturna.
- Sim, e um de nós dois pode estar morto, enterrado e podre
numa dessas Ganhadas...
Toríbio encolheu os ombros.
- Pode ser que eu me engane, mas acho que ainda nãoo nasceu o filho da puta que vai me matar .. .
em véspera de guerra. "
No dia seguinte chegou um próprio de Santa Fé, trazendo a correspondência e um maço de jornais. Havia um bilhete de Flora, um recado lacônico de Licurgo e uma longa
carta de Dante Came.
176 O ARQUIPrLAGO

rino, lamentando que seu "amigo e protetor" não pudesse ir a Alegre para assistir à cerimônia de sua formatura.
- Temos o Dante já doutor! - disse Rodrigo, sorrind
- _Quem diria! - maravilhou-se Toríbio. - O engraxa Funilaria Vesúvio...
- Vou pôr o rapaz a trabalhar no meu consultório e na de Saúde, com o Carbone.
- Esse guri nasceu com o rabo pra lua!
Rodrigo atirou-se aos jornais. Continuava o debate em t do tribunal de honra que os procuradores de Assis Brasil ha proposto em carta a Borges de Medeiros, para
julgar a eleição. um editorial d"A Federação, que comentava essa carta, Lindolfo lor ironizava seus signatários, corrigindo-lhes o pórtuguês.
- Esse Dr. Topsius de São Leopoldo! - exclamou Rod" irritado. - Não perde oportunídade para mostrar que sabe mátical
Os jornais transcreviam também os debates da Assembléia.. deputado da oposição protestava contra o fato de a apuraçâó eleições estar sendo feita a portas fechadas,
sem a presença dum f sequer da facção assisísta.
- Está claro que assim podem fazer o que querem. Cacho )r a história de sempre.
Quando terminou de ler o último jornal, Rodrigo já não ol com olhos cépticos ou irônicos para as lánças de Toríbio. Estava vencido de que a revolução era mesmo a
única alternativa. A Co são de Poderes (e lá estava o Getulinho!) fazia a portas fecha a "alquimia" eleitoral.
- Se a revolução tem de sair mesmo - disse ele a Toríbio por que perder tempo neste fim de mundo?
Talvez o melhor fosse ír a Porto Alegre para confabular os líderes oposicionistas. Antes, porém, tinha de sondar os cor gionários em Santa Fé, saber com quantos
homens podiam con com que quantidade de armas e munições .. .
Toríbio e Pedro Vacaríano saíam pelas invernadas a visí agregados e posteiros. Para muitos daqueles homens, uma revolnç era a oportunídade de gauderiar, de cortar
aramado livremente. carnear com impunidade o gado alheio.
- Acho que só no Angico, contando a peonada, podemos crutar uns oitenta soldados - declarou Toríbio ao voltar da cursão. - Temos de contar também com gente que possa
vir cidade .. .
- Se en fosse tu, nãoo confiaria muito nesse caboclo. Isso homem de matar um companheiro pelas costas .. . - O Vacariano? Boto a minha mão no fogo por ele.
O DEPUTADO 177 32
Aquele ano os Cambarás tiveram um Natal festivo. como de costume. Flora armou no centro da sala de visitas um pinheiro nativo de Nova Pomerânia. duma forma cônica
quase perfeixa e dum. verde fosco e arinzentado. Pendurou-lhe nos galhos esferas de vidro verdes, azuis. sols`erinas, prateadas e douradas, bem como ajustou nele
pequenas velas de várias cores. Maria Valéria, como a própria Fada do Inverno, atirou chumaços de algodão sóbre a árvore, num simulacro de neve. E, como para tirar
à festa o "sotaque" alemão, colocou ao pé do pinheiro algumas figurinhas de presépio.
Rodrigo acendeu as velas. pouco depois do anoitecer, na presença da gente da casa e de alguns amigos. Havia dois ausentes: Toríbio, que nãoo acreditava "naquelas
besteiras". e Licurgo, que estava na casa da amante. O velho Aderbal e a mulher tinham vindo à tarde trazer seus presentes aos netos, e antes do cair da noite haviam
retornado ao Sutil.
Apagou-se a luz elétrica. Aproximava-se a hora misteriosa da chegada de Papai Noel. Edu agarrou-se às saias de Maria Valéria de um lado. e Zeca fez o mesmo de outro.
Jangó, pelas dúvidas, meteu-se num canto, em atitude defensiva, e ficou esperando... Sílvia olhava para a árvore iluminada com um grave espanto nos olhos de gueixa.
Alicinha, apertando Aurora contra o peito, aproximou-se da mâe, que tinha agora Bibi nos braços. Floriano contemplava a cena, sentado no primeiro degrau da escada
do vestíbulo. Sabia que quem viria disfarçado de Papai Noel seria, como todos os anos, o Schnitzler da confeitaria: mas gostava de fazer de conta que ainda acreditava
na lenda segundo a qual o Velho do Natal vinha do Pólo Norte, voando sobre campos, montanhas e cidades no seu trenó puxado por duas parelhas de renas. E agora, òlhando
para o pinheiro rutilante na sala sombria, o rapaz enfiava a cara por entre as grades do corrimão, esperandó o grande momento, com a sensação de ter mariposas vivas
no estômago.
- Atençãol - bradou o Chiru, olhando o relógio. - O Bichão vai chegar ... Não estão ouvindo o barulho da carruagem ?
Rodrigo deu corda ao gramofone e pô-lo a tocar a Marcha da Aída, intérpretada pela banda dos Funileiros Navais. Acorde heróicos encheram a casa. As mariposas, de
Floriane alvôrótara~n-se.
Ouviu-se"um ruído de passòs para as bándas da cbzinha, onde
Laurinda gritoú: "O Velhó chegou! Minha Nossal" E então
uma imponente figura surgiú à porfia da sala : urF Papai hioel todo
vestido de vermelho, com longas barbas -de algodão, um capuz na
cabeça, um ventre enorme, o saco de brinquedos às costas. Soltou
178 O ARQUIPÉLAGO
uma gargalhada estentórea e bonachona. Bibi rompeu a Edu fechou os olhos e agarrou-se com mais força à perna da Di Alicinha contemplava o recém-chegado com uma expressão
de f nos olhos adultos. Sílvia, de boca aberta, o beicinho trêmulo, a ximou-se de Rodrigo e abraçou-lhe as pernas.
Jango tapou os olhos com as mãos, mas ficou espíandp, "bicho" por entre os dedos. Zeca murmurava: "Não tenho dele ... nãoo tenho medo dele ... " Mas nãoo largava a
saia Maria Valéria. Gabriel, o.prático de farmácia, estava de pé a canto, olhando a cena com a boca semi-aberta, e algo de patet mente infantil nos olhos mansos.
Papai Noel deu alguns passos e pousou o saco no soalho, centro da sala. Seguiu-se a distribuição de brinquedos. ao som marcha e do berreiro desenfreado de Bibi.
Passado o primeira mento de medo, Edu deu dais pulos à frente, soltou uma cuspa na direção da barriga do Velho, e em seguida recuou, entrinc rando-se atrás da mâe.
- Todos os meninos se comportaram bem? - perguntou Weihnachrsmann com seu forte sotaque alemão.
Através das órbitas da máscara de papelão apareciam os ol claros do confeiteiro. O suor punha-lhe manchas escuras na roW
A música do gramofone cessou. Chíru mudou- o disco. agora uma valsa vienense. Papai Noel começou a dançar, mesmo tempo em que entregava os pacotes. Havia presentes
os grandes. Gravatas para Chíru e Gabriel. Uma cigarreira pal Neco Rosa. Uma camisa de seda para o Dr. Ruas, que manq java dum lado para outro, apoiado numa bengala.
Roque B deíra ganhou um Dicionário de Aulete. Para Steín havia volumoso pacote.
- Abra - disse Rodrigo ao judeu.
O rapaz obedeceu. Dentro da caixa enfileiravam-se os volu
da História Universal de César Cantà. - Ahl - fez Stein.
- Então, nãoo dizes nada?
- Muito obrigado, doutor.
- Assim com essa falta de entusiasmo? Se queres, devol esses livros e te compro outra coisa .. .
- Não senhor, está muito bem.
Ajoelhado ao pé da caixa, Arão Stein mirava as lomba dos volumes. E como Roque Bandeira se acocorasse ao lado d para mostrar-lhe o seu Aulete, o judeu murmurou:
- Imagina, o César Cantis! A História narrada do ponto vista safado e convencional da burguesia: a exaltação do capi lismo, a justificação das guerras, a glorificação
dos generais. imperialismo .. .
O DEPUTADO 179
Finge ao menos que estás contente. ingrato - rosnou o outro. com os olhos em Rodrigo. que naquele momento entregava
um presente à esposa.
Flora passou a filha mais moça para os braços de Maria Valéria e ahriu a pequeno pacote. Era um estojo de veludo roxo. dentro do qual fulgia um anel de brilhante.
- Gostas? - perguntou o marido, sabendo já o que ela ia dizer.
Como única resposta ela lhe enlaçou o pescoço e beijou-lhe a face.
- Agora - anunciou o anfítrião - o presente da madrinha.
Abriu um pacote. tirou de dentro dele um xale de lâ xadrez e entregou-o à Dinda. que o agarrou e disse. seca:
- Podia ter empregado melhor o seu dinheiro. Velha nãoo carece de presente.
Papai Noel continuava a valsar ao redor da sala, pesado como um urso. Já agora. entretidas com os brinquedos, as crianças lhe davam menos atenção. Mas Edu, vendo
aquele traseiro gordo e vermelho passar por perto. precipitou-se contra ele e desferiu-lhe uma cabeçada. Papai Noel desatou a rir e atirou-se no chão, fingindo que
tinha sido derrubado. Rodrigo aproximou-se do confeiteiro.
- Agora vai embora, Júlio - segredou-lhe - antes que comeces a perder o prestígio. A máscara está afrouxando .. .
Papai Noel fez as despedidas, com promessas de voltar no ano seguinte, e rosnando ameaças para os meninos e meninas que não se comportassem bem durante o ano.
Alguém acendeu a luz do lustre. As crianças foram levadas para o andar superior.
- Agora vamos comer e beber alguma coisa! - exclamou Rodrigo.
Ele próprio havia preparado um bowle, que começou a servir generosamente. Chiru quebrava nozes entre as manoplas. O Dr. Ruas sentou-se ao piano e atacou a valsa
Sobre as Ondas. Leocádia surgiu com um prato de croquetes quentes. Neco Rosa foi o primeiro a servir-se. Gabriel bebia em silêncio no seu canto. "
Por volta das nove horas entraram no Sobrado os Carbones. Ele vinha duma operação de emergência, um caso d2 ventre agudo, e estava eufórico. Ela, envolta numa aura
de água-de-colônia e alho, começou a distribuir abraços e beijos. Rodrigo entregou os presentes destinados ao casal.
- Auguril - exclamou o cirurgião, pondo-se na ponta dos pés para beijar a testa ao amigo. Santuzza puxou o anfitrião contra os seios e aplicou-lhe uma beijoca sonora
na boca.
O ARQUIPÉLAGO

Poucos minutos mais tarde Carlo Carbone estava ao la
Miguel Ruas, que ensaiava o acompanhamento duma outra ZURe! ta.
Rodrigo ficou por alguns instantes a mirar a própria im refletida numa das esferas de vidro. "Onde estará o senhor
de um mês?", perguntou a si mesmo, começando já a entra
"porre suave". "Em cima dum cavalo, na frente duma c revolucionária. em plena coxilha? Debaixo da terra, numa tura rústica perdida no meio do campo? Onde?"
Carbone soltou a voz de tenorino, doce, afinada e meio mula. Era o Torna a Sorrenro.
Chíru olhou para Neco e disse:
- Pelo que vejo, hoje nãoo vais poder tocar violão. O barbeiro deu de ombros.
- Pouco m"importa. Deixa que o gringo se divirta.
18O
O DEPUTADO
181
- Se
33
Stein explicava a Bandeíra por que razão era contra a 1 do Natal:
- É preciso preparar a infância para a sociedade socialista futuro. e isso se faz com realismo e não com quimeras. A hist de Papá Noel, além de importada, é uma
lenda burguesa, bas no sobrenatural. Está tudo dentro do esquema clerical-capitai r a velha petà do milagre... Um dos muitos truques que os do do poder empregam
para manter as massas narcotizadas e submi
Bandeíra foi até a mesa servir-se outra vez de bowle. Vol mastigando um pedaço de abacaxi.
- Esqueces outro aspecto da questão - disse. - Refiro ao interesse que tem o comércio de estimular este tipo de celebra tu sabes, o hábito, a quase- obrigação de
dar presentes. E a t essas, pouca gente se lembra do verdadeiro sentido desta da
o nascimento de Jesus.
- Outra lendal
- Pode ser. Mas cala a boca, que o Dr. Rodrigo vem viu
Finge de bem=educado, ao menos hoje, sim?
Rodrigp aproximou-se dos dois amigos.
- E vocês? Discutindo sempre? Já comeram alguma coisa
Que é que vais beber, Arão?
Afastou-se sem esperar as respostas a estas perguntas.
A morna brisa da noite entrava pelas janelas e sacudia as es feras e os enfeites do pinheiro, que crepitavam. As chamas
velinhàs oscilavam.
Rodrigo sentiu que lhe tocavam no braço.
Que tens? Estás tão sério...
Voltou-se. Era Flora. Achou-a linda. Como pudera traí-la
tantas vezes com outras mulheres?
. Não, meu bem. Não é nada.
Aproveitando o momento em que a maioria dos convivas se encontrava na sala de jantar, ao redor da mesa. Flora pousou por um breve instante a cabeça no ombro do marido,
num gesto que o enterneceu.
- Rodrigo, me fala com franqueza ... Essa revolução vai sair mesmo?
Ele lhe acarícïou os cabelos.
- Não penses nïsso, minha flor.
- E se sair .:. - Havia um tremor na voz dela. sair ... tu tens de ír ?
- Flora, meu bem, estamos na véspera do Natal. Não vamos falar em coisas tristes.
- Mas eu preciso saber, nãoo tenho dormido direito pensando nisso .. .
Carbone terminou a cançoneta num agudo um tanto falso, que mais pareceu um balido de ovelha. O Dr. Ruas bateu no piano com bravura o acorde Einal. Ouviram-se aplausos.
- Depois conversaremos - disse Rodrigo. - Vai atender os teus convidados. - Abraçou a mulher, beijou-lhe rapidamente os lábios e murmurou: - Haja o que houver, quero
que saibas que eu te amo, estás ouvindo? Te amo!
Ela se afastou, o rosto afogueado, os olhos brilhantes.
Carbone e o ex-promotor agora ensaiavam baixinho o Ideale, de Tosti.
- Mas suponhamos que saia a revolução ... - dizia Roque Bandeira a Stein, que folheava distraído um dos volumes do di
cionário.
O judeu sacudiu os ombros.
- Que briguem e se matem! Não tenho nada com isso. Acho que tu também nãoo tens.
- Por quê ?
- Se és o racionalista que imagino, não podes ir atrás dessas baboseiras de assisismo e borgismo.
Tio Bicho emborcou sua taça e depois ficou catando com o dedo os pedacinhos de abacaxi que haviam ficado no fundo dela.
- Ora, tu sabes como é difícil a neutralidade ... - murmurou. - E fica sabendo que brigar é menos uma questão de convicção ideológica que de temperamento ou oportunidade.
Como Rodrigo de novo se aproximasse, Stein acercou-se dele, dizendo
- Dr. Rodrigo, agora quero lhe dar o meu piesente de Natal.
182
O ARQUIPÉLAGO

Meteu a mão no bolso interno do casaco e tirou um fol entregando-o ao amigo.
- Que é isto?
- Faça o favor de ver o título .. .
Era um caderno comovedoramente mal-impresso em papel jornal ordinaríssimo. O título: Manifesto Comunista. - Ah! - fez Rodrigo.
- Já leu esse grande documento?
- Uma vez passei-lhe os olhos .. .
Era mentira. Mas que importância tinha o assunto?
- Ó Arão - disse, segurando o braço do rapaz - vou. pedir uma coisa. Tem cuidado quando distribuíres esta coisa. sabes que existe no país uma lei contra a propaganda
maximali
- Eu sei, doutor. Não se preocupe.
Rodrigo meteu o panfleto no bolso e dirigiu-se para o vestíb pois naquele momento batiam à porta. Era Júlio Schnitzler, voltava envergando sua roupa domingueira,
e desta vez em cd panhia de sua Frau e da filha. Como acontecia todos os anos véspera de Natal, vinham trazer de presente aos Cambarás um gra de bolo.
- Entrem! Subam! - exclamou Rodrigo, abraçando-os
Flora cortou o bolo e serviu os convidados. O Dr. Carbo atacou o Ideale. Santuzza, na opinião do Neco, já estava um pou "alegrete", pois desde que chegara não cessara
de empinar ta sobre taças de bowle.
Quando, minutos depois, o Dr. Dante Camerino entrou Sobrado, foi recebido com exclamações e palmas. O rapaz abra o anfitrião, e entregou-!he um presente.
- Ora, não devias te incomodar - disse Rodrigo, mete o pacote no bolso sem abri-lo. - Agora quero te entregar o presente.
Camerino abriu os braços:
- O meu presenté? Depois de tudo quanto o senhor fez mim? Me custeou os estudos, me deu livros, me mandou dinhei Santo Cristo! E ainda fala em presente?!
Dante estava engasgado, lágrimas brotavam-lhe nos olhos.
Rodrigo inclinou-se e apanhou o pequeno pacote que jazia pé da mangedoura, à sombra da figurinha de São José.
- Dr. Dante Camerino - disse, com fingida solenidade. Aceite esta pequena lembrança de seu velho amigo.. .
Ele próprio não pôde terminar a frase, porque a emoção 1 trancou a voz. Dante abriu o pacote com mãos aflitas. Era anel de formatura.
- Mamma mia! - exclamou ele. E atirou-se nos braços seu mecenas, e ficaram ambos abraçados, num equilíbrio precán enquanto o Dr. Carbone cantava com entusiasmo a
canção de TosU
O DEPUTADO 183
o eX-promotor fazia vibrar o piano com verdadeiros manotaços, Santuzza empinava mais um copo de bowle, Chiru Mena matava "chímangos" num combate imaginário e Neco
Rosa cocava com ólho lúbrico Marta, filha do confeiteiro...
Fungando, meio encabulado, Dante enfiou o anel no dedo e ergueu-o no ar. A esmeralda faiscou. E vieram os parabéns e os abraços dos outros, inclusive de Stein, que
foi empurrado por Bandeira. Maria Valéria limitou-se a tocar-lhe o ombro com as pontas .dos dedos. Mas Flora deu-lhe um abraço. maternal. Marta ficou enleada e mais
vermelha que de costume ao apertar a mão do recém-formado. Chiru começou um discurso, a taça na mão:
- Saúdo o nosso Hipócrito .. .
- Hipócrates, seu burro! - corrigiu-o Rodrigo. E afastando-o do caminho, disse: - Cala a boca, que agora os Schnitzlers vão nos cantar umas canções de Natal.
- Então manda esse gringo parar a cantoria.
Carbone, porém. chegara ao fim de sua canção e agora se reunia aos outros, seguido pelo Dr. Ruas. Rodrigo tornou a apagar a luz do lustre. Sentaram-se todos na sala
de jantar, enquanto os três Schnitzlers se postavam junto do pinheiro. Fez-se um silêncio, dentro do qual se ouviram. a capela, as vozes afinadas da família do confeiteiro.
Era uma velha canção de Natal:
Stille 1Vacht, heilige Nacht! Alles schlüft, einsam wacht.
As luzes coloridas da árvore refletiam-se nos cabelos de Marta. Rodrigo não tirava os olhos dela. Achava-a bem-feita de corpo, apetitosa, a cara redonda e corada
parecia uma fruta madura.
Que pena! - refletia ele. Se alguém não apanha essa maçã para comer agora, ela pode bichar.
Os peitos da alemãzinha arfavam. Frau Schnitzler tinha uma bela voz de contralto. Júlio era um tenor razoável. Marta, um tremelicado soprano ligeiro. Para pronunciar
certas palavras seus lábios carnudos e vermelhos tomavam a forma dum botão de rosa, o que deixava Rodrigo excitado. E ele bebia bowle gelado, copo sobre copo, para
refrescar-se, apaziguar aquele calor de entranhas que a filha do confeiteiro contribuía para aumentar com seus movimentos de seios arde boca.
Foi despertado de seu devaneio erótico pelos aplausos. O trio cantou a seguir o Adeste, fideles. As velas na árvore começavam a morrer.
Ó sede insaciável - exclamou Rodrigo interiormente. - Õ desejo sem fim!
Dante Camerino de instante a instante erguia a mão e contemplava o anel. E quando a última canção terminou e as luzes
#184 O ARQUIPÉLAGO
se acenderam, Maria Valéria estendeu um dedo acusador na d" do jovem médico.
- Cruzes! O Dante também!
Camerino ficou espantado sem saber a que a velha se ref - Que é. titia? - perguntou Rodrigo. Maria Valéria apontava para as pernas do rapaz.
- Olhe as calcinhas dele! Os sapatos bicudos! Credo! Dante ficou vermelho, como se de repente houvesse d
berto que estava nu.
Quase todos romperam a rir. Camerino estava vestido de ac com o rigor da moda: casaco comprido, muito cintado e justo corpo, calças estreitíssimas, e um colarinho
alto com uma grau que, de tão estreita, mais parecia um cordão de sapato.
- r o que se usa em Porto Alegre - balbuciou ele.
O ex-promotor sorriu
- Não faça caso. Isso só prova o seu bom-gosto.
Chiru murmurou para Neco sua opinião:
- Pode ser moda, digam o que disserem, mas um médi
um doutor, devia se dar mais o respeito.
Neco concordava, palitando a dentuça. Carbone insistia p
que Ruas voltasse ao piano. Sabia ele acompanhar o Santa L
Luntana? Cantarolou a música.
Santuzza estava escarrapachada no sofá, abanando-se com
leque. Parecia sufocada. Por precaução Flora apagou as velas árvore e subiu ao andar superior onde as crianças estavam fazen muito barulho.
- Mande todos pra cama! - recomendou Maria Valéria.
Rodrigo procurava Marta com o olhar. Onde estaria a raparíg Saiu da sala e encontrou-a sozinha no corredor, junto duma fanei no fundo da casa. O anfitrião sentia
uma tontura boa, que 1 dava uma grande cordialidade, um desejo de ser bom, amá carinhoso para com todo o mundo.
- Aaah! - fez ele numa longa exclamação, aproximando da filha do confeiteiro. - Que é que a menina está fazendo sozi aqui ?
E, com uma rapidez de relâmpago, um plano doido lhe pass
pela cabeça : arrastar a Marta para a despensa, fechar a porta
possuí-la, comê-la entre as latas de doce da Dinda.
Sem perder tempo, enlaçou-lhe a cintura.
- O titio não ganha um beijinho de Natal?
Marta encolheu-se, procurou esquivar-se, mas ele a puxou con
tra si -com a mão direita, enquanto com a esquerda fazia expio
rações aflitas nos seios da rapariga. Uma voz fê-lo estremecer. - Rgdrigol
Largou a presa. Marta afastou-se, quase a correr, ramo da cozinha. Rodrigo voltou-se e viu Maria Valéria, acusadora e terrível como o Arcanjo Gabriel, a anunciar
o Juízo Final.
. Eu estava conversando com a Marta, Dinda .. .
- Desde quando vacê conversa com as mãos? Não tem vergonha na cara? Na sua própria casa, e na noite de Natal!
Furioso, Rodrigo deu dois passos na direção da porta da cozinha. abriu-a, saiu para a noite e foi até o fundo do quintal, onde ficou sob as estrelas a ruminar a
sua fúria e o seu despeito.
34
Na manhâ seguinte Rodrigo acordou tarde. Eram quase onze horas quando terminou de barbear-se. Estava diante do espelho a examinar a língua, quando Flora lhe veio
dizer que um visitante o esperava na sala.
- Quem é ?
- O Dr. Terêncio Prates.
Rodrigo franziu a testa. Ué! Que quererá ele? Nunca me visitou... Lembrou-se da bofetada que dera no Honorinho no clube, havia algumas semanas, e çoncluiu: "Vem
me desafiar para um duelo em nome do irmão." Pois que seja! Desceu as escadas pisando duro e entrou na sala de cara fechada. O outro, porém. ergueu-se, risonho,
veio a seu encontro e abraçou-o, desejando-lhe um feliz Natal.
Era um homem de trinta e quatro anos, alto, trigueiro, enxuto de carnes. Tinha uma expressão altaneira que se revelava na cabeça sempre empinada, na expressão autoritária
dos olhos mosqueados, e nos gestos incisivos. Trajava sempre com apuro e aquela manhâ estava metido numa fatiota de linho branco. Prendia-lhe a gravata cor de vinho
um pregador com um pequeno rubi.
- Mas que surpresa agradável! - exclamou Rodrigo, agora com a fisionomia despejada. - Senta-te. Que é que tomas?
O outro sentou-se. Não tomava nada antes do almoço, muito obrigado. E um cigarro? Terêncio recusou: nãoo fumava. Ali estava uma das razões por. que Rodrigo jamais
tivera simpatia por aquele homem: o monstro não tinha vícios!
Mordeu a ponta dum charuto, prendeu-o entre os dentes e acendeu-o. O visitante pigarreou.
- Por mais estranho que pareça - começou ele - o que me traz aqui é uma missão .. .
Não me enganei - pensou Rodrigo. E já se imaginou a dizer: "Pois bem. Aceito o duelo. Escolho a pistola."
O DEPUTADO 185
186
O ARQUIPÉLAGO

- Pois é ... - continuou o outro. - Meu pai, Rodrig um grande admirador teu, um amigo mesmo .. .
- Sempre tive o maior respeito e estima pelo Cel. Joca Pra
- Ele sabe disso ... Pois o Velho ficou ao par do teu i dente com o Honorinho, no clube ... Soube mesmo que o m chegou a puxar o revólver .. .
- Ora...
- O Velho ficou tão preocupado com a história. que me carregou de vir até aqui para arranjar as coisas. Ele te pede nãoo guardes rancor pelo rapaz, e que dês o incidente
por encerra
- 1~Tas claro! De minha parte...
Terêncio cortou-lhe a palavra com um gesto impaciente:
- Espera. Ele sabe que o Honorinho te ofendeu ... mas tu o esbofeteaste na frente de várias pessoas. Enfim, ficam elas elas. - Sorriu, visivelmente embaraçado. -
O papai morreria desgosto se houvesse alguma coisa séria entre um Prates e um Ca bará. Ele sempre se orgulhou da amizade da gente do Sobrado
Rodrigo soltou uma baforada de fumaça.
- Pois podes assegurar ao Cel. Prates que da minha parte tudo esquecido. Digo-te mais: a primeira vez que encontrar o H norínho, estendo-lhe a mão, seja onde for.
Terêncio acariciou o rubi do pregador.
- O Velho também me pediu para te dizer que não quer essa históría de assisismo e borgismo altere a velha amizade en nossas famílias.
Rodrigo gostava do velho Prates, mas nunca simpatizara c
os filhos. Quanto a Terêncio, achava-o um tanto pedante e c
fumos de aristocrata. Tinha um orgulho exagerado das coisas
sabia, e nãoo perdia oportunidade para exibir cultura. - Por que não tomamos ao menos um cafezinho? Terêncio encolheu os ombros. - Está bem. Aceito.
Rodrigo gritou por Leocádia e, quando a negrinha apar pediu-lhe que preparasse um bom café. - Novinho, hein?
Terêncio olhava em torno da sala. Demorou o olhar" no R trato. Rodrigo .esperou um elogio à obra de Don Pepe, mas visitante não disse palavra. Seu olhar agora estava
focado no lho grande, ondé sua própria imagem se refletia.
Rodrigo, ansioso por mudar de assunto, perguntou:
- Que tens feito?
Arrependeu-se imediatamente da pergunta, pois o out;o sd
a falar com ,minúcias nos artigos que escrevia e nos" livros que !i no momento. Já tinha Rodrigo lido Durée et Simultanéité, Bergson? Não? Era o mais sensácional
vient de paraïtre em Pana E Le Père Humilié, de Claudél? Recebera este último livro a seroa
passada. juntamente com a nova obra de Jacques Maritain, Art et Scolasrique.
Rodrigo sentia-se vagamente humilhado. Nem sequer tinha ouvido falar naqueles livros.
- Tenho lido só Medicina, ultimamente - mentiu.
- h natural - disse Terêncio, lançando um rápido olhai para o espelho. - Estamos na era da especialização. Mas ... pot falar em Medicina, estive lendo um artigo
sobre a descoberta duma nova droga, a insulina .. .
- Ah! A insulina... - repetiu Rodrigo, desejando que o outro nãoo lhe pedisse pormenores sobre o assunto, pois ele ainda não o conhecia. Tinha visto um artigo a respeito
numa revista de Medicina, mas - como acontecia com tantas outras puhlicações - deixara-o de lado para ler depois".
Leocádia entrou com os cafezinhos e salvou a situação, pois Rodrigo aproveitou a oportunidade para fazer considerações sobre o problema do café, que o levou aos
males da monocultura à "camórra mineiro-paulista", a Artur Bernardes, ao estado de sítio e à situação geral do país ... Só se calou quando julgou que o assunto "insulina"
estava já a uma distância tranqüilizadora.
Ficaram ambos a bebericar café em pequenas xícaras cor-de-rosa com asas douradas.
- Ah! =- fez Terêncio, como quem de repente se lembra de alguma coísa. - Ia esquecendo de te contar que embarco o mês
que vem para Paris.
- Sim? - fez Rodrigo. E sentiu uma súbita, irritada inveja
do outro. - A passeio?
Terêncio sacudiu negativamente a cabeça.
- Não. Vou fazer um curso de Economia Política e de So-
ciologia na Sorbonne.
- Não diga! É magnífico!
Que bestai Mel em focinho de porco. Aposto como esse tipo
vai viver em museus e conferências, sem lembrar-se de que existe um
Moulin Rouge; um Folies-Bergère...
Terêncio tomou o último gole de café. .
- Ainda quero escrever o livro definitivo sobre o nosso Rio
Grande.
- És o homem indicado - declarou Rodrigo sem convicção.
- Tens tudo.
Terêncio ergueu a mão como para fazer o outro calar-se:
- Não tenho tudo. Falta-me alguma coisa. Minha sociologia
guarda ainda um ranço provinciano. Preciso de dois ou três anos
em Paris para arejar as idéias e entrar em contato com os grandes
pensadores europeus ... Adquirir vovós conhecimentos, novas
técnicas, processos ... tu sabes.
Pôs a xícara vazia em cima do consolo.
O DEPUTADO
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188 O , ARQUIPÉLAGO

- Estamos em vésperas de grandes acontecimentos - centou, cruzando as pernas. - Prensamos estar preparados.
- Infelizmente a situação se agrava. E se a Comissão Poderes reconhece a vitória do Dr. Borges de Medeiros, a u alternativa que resta para a oposição esbulhada é
a revolu~ão;.
O outro sorriu com um ar de superioridade que deixou Ro com a marca quente.
- Eu não me refiro ao Rio Grande. mas ao mundo.. .
Disse de seu entusiasmo pelo novo movimento que surgia Itália.
- Agora que Mussolini subiu ao poder, a idéia fascista tomar conta da Itália e talvez da Europa. - Achas?
- Sem a menor dúvida. Homens da envergadura de Ga D"Annunzio já abraçaram a causa. O fascismo. meu caro, e protesto da mocidade italiana contra o parlamentarismo
decr e contra o liberalismo indeciso e tolerante. A marcha dos fase sobre Roma foi, na minha opinião, um dos mais belos e auspici fatos históricos de nosso tempo!
- Bom, concordo que o movimento tenha a sua razão sua beleza .. .
- Ouve o que te digo - e ao pronunriar estas palavras, rêncio tinha um ar didática - O fascismo vai ser a grande f com que o Ocidente deterá a onda bolchevista.
Toma notas minhas palavras. A Igrejá terá no fascismo o seu mais forte defe
Rodrigo agora rapa com a ponta da colher o açúcar que fif no fundo da xícara.
- Esse movimento - continuou " Terêncio - representa meu ver a ressurreição das águias románas.
Rodrigo levou a colher à boca e lambeu-a.
- Outro cafezinho? .
Com um gesto que revelava sua impaciência poi ter sido üí rompido, o outro disse que não. E prosseguiu:"
- Mussolini é uma- nova encarnação de Júlio César.
- Vi o retrato do homem numa revista. lMe agradqu o mo) da cara, a queixada enérgica, o olhar dominadgr. Terêncio franziu a testa:
- -É preciso que alguém. venha pãr no lagar as coisas que última guerra" desarrumou. Precisamos restabelecer a órdeat, hierarquia. Anda por aí uma onda de coletivismo
absur!Cia e perig insuflada pela Revolução rusâa. Se o Ocidente não tomar cuida lá se vai águas abaixo a nossa cultura, lá se vão nossas instituiç nossa tábua de
valores morais...
E não se perderá muita coisal - pensou Rodrigo. Mas cndin afirmativamente a cabeça, como se concordasse com o ou
O DEPUTADO 189
Quando Terêncio saia. poucos minutos depois, Rodrigo acomPanhou-o até a calçada.
_- Diga ao velho que fique tranqüilo. O incidente está encerrado. E os Cambarás muito se honram com a amizade dos Prates.
Apertaram-se as mãos. Terêncio atravessou a rua e ganhou a calçada da praça. Rodrigo seguiu-o com os olhos. Esse animal vaí para Paris - pensou. - Não há justiça
no mundo.
Mordeu com raiva o charuto apagado.
35
Peia primeira vez naqueles últimos quinze anos. Rodrigo recusou-se a tomar parte no réveillon de 31 de dezembro, no Comercial. E quando Flora, surpreendida. ihe
perguntou o motivo dessa resolução, explicou:
- Não quero ver a cara de certos chimangos .. .
Manteve a decisão. Ruas, porém, mandou cortar a barba e escanhoar o rosto. À noite, meteu-se no smoking novo e atirou-se para o Comercial. O Dr. Carbone, enfarpelado
numa casaca antiqüíssima, que a Rodrigo lembrou as que se usavam no tempo da" Dama das Camélias, veio buscá-lo no seu Fiat. E quando, ainda manquejando, o ex-promotor
deixou o Sobrado e entrou no automóvel, onde se instalou ao lado de Santuzza, esplêndida num vestido negro de rendão, uma argrette na cabeça - Maria Valéria, que
estava à janela, murmurou: "Deus os fez e o diabo os juntou. "
Depois do jantar Licurgo saiu, como de costume, para a sua "volta". Maria Valéria recolheu-se cedo. E à meia-noite, quando o sino da Matriz badalava, e por toda
a cidade se ouviam gritos, risadas, espocar de foguetes e detonações de revólveres, Rodrigo fez saltar a rolha duma garrafa de champanha, encheu_ a taça de Flora
e a sua e propôs um brinde ao Ano Novo. Quando o marido a abraçou, Flora rompeu a chorar de mansinho, com a cabeça pousada no ombro dele, os lábios trêmulos, os
olhos inundados.
- Que é isso, minha flor? Não chores. Está tudo bem. Todos com saúde. Estamos reunidos. Não é o que importa?
Ela não respondia, mas agarrava-se a ele com força, como se não o quisesse perder.
Rodrigo conduziu-a para o sofá, fê-la sentar-se, deu-lhe uma das taças de champanha, apanhou a outra, ergueu-a no ar e disse:
- À nossa saúdel E à de toda a nossa famílial
A taça tremeu nas mãos de Flora, que se limitava a olhar para o marido, as lágrimas ainda a escorrerem-lhe pelas faces. Depois, como ele insistisse, ela bebem um
gole de champanha. Rodngo sentou-se ao lado da mulher, abraçou-a e perguntou:
19O O ARQUIPÉLAGO

- Agora conte ao seu marido que é que há?
- Uma bobagem minha. Já passou.
Depôs a taça em cima do consolo, enxugou os olhos, t
sorrir.
- Não aceito a explicação. Vamos, que é que há?
Ela o mirou com uma expressão de tristeza.
- Eu sei .que a revolução vai sair e tu estás metido.. .
A princípio ele não soube que resposta dar. Brincou c corrente do relógio, depois pegou no queixo da mulher, ap mou-se mais dela e beijou-lhe os lábios. longamente.
- Haja o que houver, meu bem - murmurou - só te uma coisa: que tenhas coragem e fé. E uma absoluta confiançat mim. Só farei o que for necessário.
- Mas essa revolução é mesmo necessária?
Rodrigo ergueu-se, encheu de novo a própria taça.
- Desgraçadamente a revolução é necessária e inevitável.
Voltou as costas para a mulher, olhou para o próprio ret tornou a levar a taça à boca e esvaziou-a.
- Mas por que tu, tu tens de ir?
- Porque já me comprometi em público. Tu te lembras meu discurso da sacada do Sobrado ... Um Cambará nunca f com a sua palavra. E depois, há outras razões poderósas
.. .
- Que é que ganhas com isso?
- Que é que eu ganho? - Ele se voltou, brusco, como tivessem. apunhalado pelas costas. - Meu amor, não se trata ganhar, de obter vantagens pessoais, mas de livrar
o nosso Grande dum ditador e de bandidos e ladroes como o Mad~ Estamos lutando por um mundo melhor para os nossos filhos
Tornou a olhar para o retrato. O outro Rodrigo, lá daq longínqua colina de 191O, parecia perguntar-lhe: "Até que estás sendo sincero? Até onde acreditas mesmo no
que dizes?
Ele franziu a testa e respondeu mentalmente: "Estou absolutamente sincero. Acredito em tudo." Tornou a encher a Ouviam-se ainda foguetes e tiros em ruas distantes,
mas o cessara de badalar.
Flora ergueu-se. Havia agora em seu rosto uma expr resignada.
- Está bem - disse ela. - Prometo não falar mais no asa
era algo de novo e excitante para. quebrar a monotonia da vida em Santa Fé. E ele. Rodrigo. ia finalmente tirar a prova dos nove de sua própria coragem. Sempre se
portara como homem em lutas s¡ngulares. Queria saber de uma vez por todas como se ia haver em combate. Que melhor campo de provas poderia existir do que uma revolução?
Esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro, em cima da mesinhade-cabeceira. estendeu-se na cama e cruzou os braços. Flora remexeu-se. As janelas do quarto estavam abertas
para a noite.
E depois, havia razões ideológicas - continuou a refletir. - A ditadura borgista era uma vergonha, um ultraje. Que iria o resto do país dizer da hombridade dum povo
que suporta um ditador positivista durante vinte e cinco anos? Seria que o famoso "centauro dos pampas" não passava dum matungo velho e acovardado? Era necessário
reformar a Carta de 14 de Julho, reintegrar
- Rio Grande no espírito da Constituição Nacional. Os males eleitorais só poderiam ser curados com a adoção do voto secreto, como queria Assis Brasil. Se essa não
é uma causa boa - disse ele para si mesmo - então não me chamo Rodrigo Terra Cambará
- o mundo está todo errado!
Fechou os olhos, mas sentiu que lhe ia ser difícil pegar no sono. Estava excitado. Àquela hora a festa do Comercial decerto havia atingido o auge. Rodrigo sorriu,
pensando nas bebedeiras, nas brigas, nos flertes, nos "adultérios brancos" que aquele baile costumava propiciar. Teve uma vaga saudade dos réveillons de seu tempo.
de solteiro.
Da rua subiu uma voe grave e afinada, cantando:
O DEPUTADO 191
Já de madrugada, fumando na cama sem poder dormir, e rindo na penumbra do quarto que Flora a seu lado também esta insone, Rodrigo pensava nas coisas que o povo ano
Lhes trazer. A idéia da revolução ora o deixava perturbado pelo qoa; campanha lhe ia oferecer de durezas e perigos, ora excitado soas oportunidades de aventura e
gestos heróicos. Fosse como f
Ontem ao luar
Nós dois numa conversação Tu me perguntaste
O que eca a dor duma paixão .. .

Rodrigo sentou-se na cama. Reconhecia a voz do Neco.. Como estava clara! O patife nãoo sabia fazer a barba, mas no canto e no violão era um mestre. Rodrigo acendeu
um novo cigarro.
- Estás ouvindo? - perguntou baixinho à mulher.
Ela respondeu que sim, e procurou-lhe a mão sob as cobertas,
- assim ficaram os dois a escutar, em silëncio. Neco atacou outra modinha
Acorda, Adalgisa
Que a noite tem brisa Vem vet o luar...

Rodrigo não res~~tiu, saltou da cama, e descalço, aproximou-se da janela. Lá embaixà, à beira da calçada, estava o Neco. de
#l92
violão em punho. Ao lado dele, sentado na calçada, em ma de camisa. Chiru tinha o rosto erguido para o céu. Ao ver Ro acenou-lhe com a mão.
- Feliz Ano Novo!
Rodrigo percebeu pela voz do amigo que ele já estava b" como um gambá.
Depois que os seresteiros se foram. rua em fora, ao som d valsa dolente. Rodrigo quedou-se ainda à janela, olhando as á res da praça. imóveis no ar cálido da noite
estrelada. Vinha padaria vizinha um cheiro morno e familiar de pão recém-sa do forno. Ó noites de antigamente! Era o tempo em que e Toríbio acreditavam em que nas
madrugadas de sexta-feira o n Sérgio, o acendedor de lampiões, virava lobisomem e saía a ca e a uivar pelas ruas. indo depois revolver sepulturas no cemité
Pensou em Salustiano, o inseparável amigo de Chiru, c panheiro de serenatas do Neco - pequenote. franzino, opiniá sempre com os beiços colados na sua flauta, tocando
suas fam valsas com trêmulos e variações. enquanto o Neco o acompan tirando graves gemidos do pinho. Agora Salustiano estava m como tantos outros amigos dos velhos
tempos. Em que lugar universo estaria ele agora a soprar na sua flauta? Rodrigo sor pensando no feio e desajeitado anjo que Salustiano seria, na orq tra celestial.-
Mas lágrimas ihe escorreram sobre o sorriso. Po lhe veio de súbito uma trêmula piedade de si mesmo, como tivesse sido vítima duma inominável igjustiça.
Santo Deus, que estará acontecendo comigo? Atirou for cigarro,. soltou um suspiro e voltou para a cama.
REUNIÃO DE FAMÍLIA - II
27 de novembro de 1945
eitado de costas, com as pernas dobradas, as mãos espalmadas
sobre o peito, Rodrigo dorme sua sesta no quarto escurecido. O zumbido regular e contínuo do ventilador está integrado no silêncio. Uma mosca pousa na testa do enfêrmo,
cuja rosto neste exato momento se contrai numa expressão de angústia. Seus lábios se movem, como se ele fosse falar. De súbito, como que galvanizado, o corpo inteiro
estremece, as pernas se esticam bruscamente e ele
desperta.
Sentiu que ia caindo do alto... dum edifício? duma montanha? dum avião?
O susto fez-lhe o coração disparar. Olha em torno e leva alguns segundos para se situar no espaço e no tempo. Depois, apreensivo, Eica atento às pulsações do sangue
no peito, nas têmporas, na nuca ... Segura o próprio pulso mas, de espírito conturbado, não consegue contar-lhe as batidas. Uma cócega na garganta obriga-o a pigarrear.
Quase. alarmado, fica a esperar e a temer a tosse. Aterroriza-o a idéia de ter outro edema e morrer afogado no próprio sangue. Por alguns segundos mal ousa respirar.
Mas a tosse não vem. Aos poucos o coração se acalma, a respiração se normaliza.
E essa queda no espaço... como foi? Tenta reconstituir o pesadelo. Só se lembra de que tinha fugido da cama e do quarto para ir ao encontro de Sônia. (Engrazado,
no sonho ela se chamava Tónia ... ) Surpreendeu-~se a caminhar como um sonãombulo em cima do telhado duma casa que se parecia vagamente com o Sobrado. Não. Era o
Sobrado. Sabia que a única maneira de escapar de seus carcereiros seria descer pela fachada, agarrando-se às suas saliências, como o Homem=Mosca ... E depois?
Franze a testa. Depois ... começou a descer, não mais do alto do Sobrado, mas da sotéia dum arranha-céu. (Leblon?) Não se lembra do resto ... Ah! Sim, estava agarrado
num mastro de bandeira e as forças lhe faltavam ... o mastro amolecia, vergava-se.
O ARQUIP~LAGO
194
e ele ia escorregando, escorregando. , . até que se precipitou ao paço .. .
O suor escorre-]he pelo rosto, empapa-lhe a camisa. O arde na pele. Há no ar algo de espesso e visguento. - Enfermeiro!
Um homenzarrão vestido de branco aparece à porta. Tem Bíbulas quadradas. pele oleosa e sardenta, cabelos cor de palha um canino de platina. Deixou há dois anos o
Exército, no de segundo sargento. (Expulso por pederasta - imagina Rod na sua má vontade para com o homem. ) E chama-se Erotildes animal! Desde que ele veio para
seu serviço. ~há dois dias. o d o detesta, como se a criatura fosse a culpada de toda esta situaç o edema, a prisão no leito. a ausência de Sônia, o calor, a lenty
das horas. a dieta e todas as outras restrições que Camerino lhe im
- Pronto, doutor!
- Me levante o busto.
Erotildes aciona a manivela da cama.
- Chega! Agora abra as janelas.
O enfermeiro obedece. O clarão da tarde invade o quarto. Brigo lança um olhar para o relógio que tem a seu -lado, sob mesinha-de-cabeceira. Três e vinte.
.
Uma mosca pousa na cabeça do enfêrmo, que lhe desfere a tapa, num gesto de braço que Camerino lhe proibiu termina mente de fazer. Mas lá está de novo o inseto importuno
a minhar sobre o lençol.
- Mate essa cadela.
Erotildes apanha um jornal, dobra-o e com ele esmaga a m num gólpe certeiro.
- Ao menos pra isso você presta.
- É que já fui artilheiro, doutor.
- Me mude a camisa e o lençol. Me passe no corpo a toalha molhada, água-de-colônia e talco .. .
Enquanto o enfermeiro faz todas estas coisas, com uma ciência um tanto brusca. Rodrigo contém a respiração para sentir o cheiro do ex-sargento: suor, alho e fumo
barato. De qu~t do em quando exclama: "Devagar!" - "Ponha talco." - "Larg esse negócio!" - "Chega."
- Agora vou buscar o seu chá.
- Espere. Primeiro lave as mãos.
Um cheiro fresco de alfazema espraia-se no ar. Rodrigo se te-se reconfortado, menos su jo, e até mais leve. Passa a palma mão pelo lençol. Sempre gostou do contato
do linho... A A sórdida roupa de cama do Hotel da Serra! Aspera, duma bratl cura duvidosa, sugerindo os mil caixeiros-viajantes que ali deixara a cinza de seus cigarros,
seu suor, seus escarros e coisas piores . .
Erotildes volta do quarto de banho, assobiando por entre dent
REUNI~iO DE FAMILIA - II 195

Pare de assobiarl Me traga o vidro de extrato que está al; dentro da primeira gaveta da cômoda,
O enfermeiro obedece.
- Agora pode ir.
Depois que o homem se vai, Rodrigo abre o frasco e leva-o às narinas. Fleuts de Rocaille, o perfume de Sônia. Agridoce, um pouco oleoso. tem algo de anjo e ao mesmo
tempo de demônio: num minuto pode ser inocente, no outro afrodisíaco.
Sempre com o frasco junto das narinas. Rodrigo cerra os olhos. Sônia lhe aparece na mente. Primeiro vestida de branco. como em certa noite no Cassino da Urca. depois
toda de verde, como naquele inesquecível fim de semana em Petrópolis... Agora está completamente nua em cima da cama, no apartamento que ele lhe montou num edifício
do Leblon. Vem-lhe uma nostalgia mole e piegas (que ele acha indigna de macho, mas nem por isso a afugenta) . uma saudade do "Ninho". Procura reconstituir mentalmente
suas alegres salas e quartos decorados em verde e rosa, com aqueles móveis modernos com os quais ele tanto implicou no princípio, mas que acabou por aceitar: umas
mesas que pareciam grandes rins laqueados. umas cadeiras que lembravam chapéus de anamita invertidos e nas quais, ao sentar-se, a gente afundava ridiculamente, ficando
com os pés no ar. E que dizer daqueles quadros monstruosos, sem pé nem cabeça? E as estatuetas vagamente obscenas nas suas sugestões fálicas e vaginais? Tudo muito
moderno. muito avant-garde - como dizia Sônia. Ele só sabia que aqueles objetos eram absurdamente caros:
Rodrigo esforça-se por imaginar Sônia no seu colorido, luminoso apartamento com janelas abertas para o mar, mas em seus pensamentos a rapariga recusa-se a abandonar
aquele repelente quarto do Hotel da Serra. E então a perigosa lembrança que ele estava procurando evitar, toma-lhe a mente de assalto, com a cumplicidade perversa
do perfume.
A cama de colchão duro rangia ao menor movimento. A poria do guarda-roupa .ordinário de pinho não fechava direito.. .
... abriu-se naquela hora dramática, e ele se viu refletido no seu espelho. Foi então que percebeu, assustado, a própria lividez. la morrer... fez menção de erguer-se
da cama... Mas Sônia puxoulhe a cabeça com ambas as mãos e chupou-lhe os lábios num beijo prolongado, ao mesmo tempo que gemia como uma gata em cio. E ele começou
sentir o coração aos pulos, queria e ao mesmo tempo não queria desvencilhar-se da rapariga... e acabou agarrado a ela como um moribundo se agarra à vida. E houve
um instante de intenso prazer e intensa angústia, um momento de transfiguração e pânico em que teve a impressão de que toda a seiva, todo o sangue, toda a vida que
tinha no corpo forravam convulsivamente para dentro dela. Passou-lhe rápido pela cabeça o -louco desejo de que
O ARQUIP1rLAGO
196 O ARQUIPÉLAGO

aquilo fosse o fim, porque só aquela espécie de morte podia tituér a morte em batalha ou duelo singular, pois era também de homem.
E depois, estendido ofegante ao lado dela, ouvindo o p descompassado do próprio coruç~ão e antevendo o horror que - para ele e para os outros - morrer naquele quarto,
naq camu, naquela posiFão, naquela nudez, sentiu mais que nunca b trágico. de sua paixão, a insensatez daquela visita, a suprema mt a que aquela criatura o havia
arrastado.
Sônia se pôs então a acaricíá-lo com uma ternura quase f~ que o constrangia, repugnava ate. já que seu desejo se aplnr Detestou-a quando ela lhe murmurou "Papaizinho"
aó ou Sèntiu-se ridículo. degradado e envelhecido como em nenhuma o hora de sua uida. E dáí por diante um único desejo o dome aflito e urgente: voltar vivo para
o Sobrado. Um homem querer intensamente a companhia da amante, mas o único decente que tem para morrer é ainda a sua própria casa, em du sua família, junto da mulher
legitima.
.Sônia continuava a murmurar-lhe coisas ao ouvido, com u uoz de menininha. Ele permaneceu caludo, pensando em Flora uma fria vergonha, lembrando-se do Neco que montava
guard porta do quarto, como um cão fiel.
Quanto tempo ficou naquele torpor, naquela ansiedade, luta com a dispnéia ? Meia hora ? Uma ? Lembra-se de haver dorm alguns minutos, com a cabeça aninhada entre
os seios da rapam Depois sentou-se na cama e vestiu-se aos poucos, lentamente, a dado por ela.
Rodrigo fecha o frasco e guarda-o na gaveta da mesinhacabeceira. Agora é preciso esquecer, esquecer tudo...
Mas como? Um médico seu amigo lhe disse certa vez no com uma franqueza brutal: "Tens o cérebro entre as pern Havia ocasiões em que ele se sentia inclinado a acreditar
m Pensava com o sexo. Agia de acordo com seus desejos libidin impulsivamente, sem medir conseqüências. Muitos dos erros q cometera (erros?) tinham tido sua origem
em ordens ímperi urgentes, emanadas daquela parte de seu curpo. Outro amigo ig mente franco lhe disse doutra feita: "Tens o sexo na cabeça, Era um modo diferente
de expressar a mesma idéia. Mas tale esta segunda frase fosse mais exata. Quantas vezes seu dex estava mais no cérebro do que no próprio sexo? A Dinda cos mava dizer:
"Esse menino tem o olho maior que o estômago."
A Dinda... Imagina-a ali à porta, os braços cruzados sobre peito magro, a murmurar: "Tudó isso foi castigo." Castigo? Es palavra não tem sentido para ele. Nos tempos
de moço, deu-se
REUNIAO DE FAMÍLIA - II 197

luxo de negar Deus, mas isso foi numa época em que o ateísmo era moda. como o chapéu-coco, o plastrão e o fraque. A experiência da vida. o instinto, um sexto sentido
- tudo lhe assegura que Deus existe. Só que o meu Deus - reflete Rodrigo. olhando para a torre da Matriz que a janela enquadra - não é o Deus das beatas. nem o do
Padre Josué. Meu Deus é macho, sabe as necessidades do sexo a que pertence e que, afinal de contas. foi inventado por Ele. 1` um Deus tolerante, compreensivo, generoso.
Em suma, um Deus Cam
bará e não Quadros!
Passa o resto da tarde mal-humorado. Cerca das quatro horas. Camerino aparece acompanhado de dois colegas. Rodrigo não escon~ de sua contrariedade ante o fato de
Dante não tê-lo . consultado antes de pedir esta conferência.
Submete-se de cara amarrada ao interrogatório e às auscultaçôes dos dois médicos. Um deles - fardado de major do Exército - tem uma cara rubicunda e bonachona, é
extrovertido e amável. O outro, um neto do finado Cacique Fagundes, é um rapaz reservado, formal e um nadinha pedante.
E quando os três doutores - que sumidades! - dão por terminado o exame e se retiram para confabular, Rodrigo fica sentado na cama, os braços cruzados. entregue a
pensamentos sombrios.
O que Dante quer é dividir sua responsabilidade, conseguir dois co-signatários para seu atestado de óbito... Vão chegar todos à mesma conclusão: estou no fim. Nlas
dizer "estou liquidado" para observar as reações do médico ou para provocar a simpatia dos parentes e amigos, é uma coisa: sentir mesmo que a Magra nos tocou no
ombro, é algo muito diferente.
Lembra-se de um dos primeiros casos sérios que teve logo depois de formado. Uma madrugada socorreu o juiz de comarca de Santa Fé que morria asfixiado em conseqüência
de um edema agudo de pulmão. Com uma sangria e uma ampola de morfina fez o homem ressuscitar. Depois saiu eufórico da casa do magistrado, sentindo-se bom, forte,
nobre, "necessário", pois salvara a vida dum homem. Menos de um mês mais tarde o doente teve uma recidiva e morreu.
Não devo alimentar ilusões. Vou morrer de insuficiência cardíaca. Que beleza! O tipo de morte feito sob medida para quem
como eu tem pavor à falta de ar .. .
Mas medo da Morte_ não tenho. O que me assusta é a idéia de
não continuar vivo. Não quero morrer.. Não posso morrer. Preciso
terminar a minha missão. Que missão? Ora, a de viver! Haverá outra
mais bela e mais legítima? Viver com todo o corpo, intensamente,
arder como uma sarça ... e um dia virar cinza que o vento leva.
t 98 O ARQUIPÉLAGO
Mas acabar depressa. Antes da senilidade. Antes da arterioscl cerebral.
Por enquanto é cedo. muito cedo. A quem vai servir a morte? A ninguém. Posso citar dezenas, centenas de pessoas q beneficiam com a minha vida.
E ... se estou perdido mesmo, por que me privam das c de que gosto? Vou mandar todos os médicos para o diabo. 1nc1 o Dr. Rodrígo Cambará. Daqui por diante farei
o que entendo. corpo é meu. E por falar em corpo, não sinto nenhuma dor. A piração está normal. Esta fraqueza e estas tonturas. se devem à di à imobilidade na cama,
aos barbitúricos. E por alguns instan num otimismo juvenil. Rodrigo se deixa levar por uma clara o de esperança. Mas os pensamentos sombrios não tardam a voltar.
De que me serve viver nesta invalidez. nesta prisão? Pensa Flora, em Sônia, na situaçao política do país, no estado de seus Bócios... Conclui que foi um erro ter
deixado precipitadamente Rio numa hora tão crítica. Seu cartório está em boas mãos. nã problema. Mas e o escritório? E os assuntos pendentes? E os pa trancados nos
ministérios? E as suas dívidas? E seus compromis para com o Banco do Brasil. que com a próxima mudança de verno pode .cair nas mãos da oposição? (Deus nos livrei)
Tudo nma mixórdia. uma imensa, gloriosa farsa em três a e uma apoteose. E que apoteose!
Pouco depois das cinco. Sílvia, recém-saída do banho. senta junto da cama para ler-lhe .uns versos - Não entendo esses teus poetas modernos - diz Rodrigo.
- Tenha paciência. padrinho. Ouça este. )r de Mário Qua fana, cria do Alegrete.
Começa a leitura. A atenção de Rodrígo, porém. não está coisas que a nora lê. Está nela. Ele a examina intensamente. Q pouco perplexo, como se pela primeira vez
estivesse descobrindo predicados femininos da afilhada. Fica surpreendido e perturba por notar que ela se parece um pouco com Sônia. Claro, a out é mais alta. tem
mais busto. as formas mais arredondadas. o co mais ... mais armado. Mas a parecença existe ... Talvez seja o t da pele, a voz .
- Escute este. lr do Drummond de Andrade. Chama-se T
reza no Céu
REUNIAO DE FAMfLIA - II l99

Essa menina anda diferente - reflete Rodrigo sem prestar atenção ao poema. Notei a mudança no dia em que cheguei. PareCe que amadureceu... Mas não é só isso. Alguma
coisa séria está se passando com ela. Meu olho nãoo me engana. Posso não conhecer
Medicina. mas mulher conheço.

Os anjos olham-no com reprovação, e plumas caem.

Esse olhar, esse respirar ... são duma mulher apaixonada mas não feliz.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor caem, são plumas.

Jango? Qual! Há muito que compreendi - cego nãoo sou - que esse casamento nãoo deu certo. Quem será então?

Outra pluma, o céu se desfaz,
tão manso, nenhum hagor denuncia o momento entre tudo e nuda, ou seja. a tristeza de Deus.

Umá suspeita passa-the pela cabeça: Floriano. Rodrigo sabe que, durante o tempo que passou nos Estados Unidos, o rapaz se correspondeu com a cunhada ... Têm ambos
muita coisa em comum. Sáo reservados. um pouco tristonhos, amam os livros. A eterna história das "almas gêmeas" ... Deus queira que me engane!
- Gostou? - pergunta Sílvia. fechando o volume.
- Gostei - mente ele. E, tomando da mão da nora e mudando de tom, diz: - Vou te fazer uma pergunta, Sílvia, mas quero que me respondas com a maiox sinceridade.
- Qual é?
- $s feliz, mas feliz mesmo?
Uma sombra passa pelo rosco da moça. A tristeza de seus olhos. se aprofunda.
- Claro, padrinho. Que pergunta.
Mas ele sente que Sílvia não está dizendo a verdade.


Pouco depois que ela sai {ó relógio grande lá embaixo começa
a bater as seis ) Flora aparece à porta do quarto e, sem entrar nem
encarar o marido. pergunta com voz incolor:
- Está tudo bem ? Rodrigo sorri.
- Muito bem, obrigado. Por que não entras?
No céu também há uma hora melancólica
Hora difícil, em que a deívida penetra as almas. Por que fiz o mundo? Deus se pergunta e se responde: Não set.
#2OO O ARQUIPÉLAGO

- Estou ocupada.
Faz meia-volta e se vai, deixando Rodrigo numa confusa sentimentos: revolta, culpa, arrependimento, vergonha, autoco ração e de novo revolta.
Como ficaria feliz se ela fizesse um gesto de perdão) Bas abafar o orgulho, esquecer as mágoas, os ressentimentos. coloca se numa posição de mulher superior... Sim.
ele reconhece suas tas. Tem sido um marido infiel, sempre viveu atrás de outras lheres. Mas - que diabo! - não é o único no mundo, e não o pior de todos. E afora
essas infidelídades (que em nada afetara Flora se ela continuasse a ignorá-las, se não houvesse sempre canalha para escrever-lhe uma carta anônima ou dar-lhe um
tele nema, disfarçando a voz) , afora essas aventuras sexuais, ele s~ tem certeza de que foi sempre um marido exemplar. "Estimo, adm e respeito a minha mulher -
murmura. - Nunca lhe faltou na
Remexe-se, procurando uma posição melhor na cama.
Um vulto entra no quarto. Maria Valéria toda de preto. Ma Valéria com chinelos de feltro, caminhando sem ruído. Maria léria que se aproxima do leito e fita nele
os olhos esbranquiçad mortos. Maria Valéria que ergue a mão de múmia e começa a pas~á de leve pelos seus cabelos, sem dizer palavra, sem mover um músc do rosto.
Rodrigo nãoo pode conter as lágrimas, que lhe inundam os ol e começam a escorrer-lhe pelas faces.
O anoitecer sopra para dentro do quarto seu bafo quente t gerado pela Fragrância dos jasmins e das madressilvas, de mist com odores acres de resinas e ramos queimados.
Vem lá de baixo cozinha. um cheiro familiar e aperitivo de carne assada e bat fritas. Nas árvores da praça os pardais chilreiam. A torre da Mat recorta-se sombria
contra o horizonte avermelhado. De quando quando uma voz humana vem da rua - risada ou grito - e som parece participar da qualidade lânguida da atmosfera, como de
"todos os seus aromas.
Esta é a pior hora do dia para um cristão ficar sozinho - flete Rodrigo. - Onde se meteu a gente desta casa? Por onde and o Floriano? E o Jango? E o Eduardo? E a
Bibi? E o patife $andoval ?
Erotildes entra com uma bandeja na qual fumega um pra Acende a luz.
- Temos hoje uma canjinha, doutor. E umas torradinhas: Estes diminutivos irritam Rodrigo. - Está bem. Mas não fale nunca em cima do prato. M
essa porcaria.
O enfermeiro coloca a bandeja sobre os joelhos do doente.
- Está na hora do remédio.
_ Pois que venha.
Erotildes apanha um frasco de cima da mesinha, abre-o, tira de dentro dele um comprimido e apresenta-o a Rodrigo na palma da mão.
- Eu já lhe disse que nunca me entregue o remédio assim.. Sei lá onde você andou metendo essa mão!
Tira do vidro um comprimido, mete-o na boca, com um gesto raivoso e a seguir bebe um gole da água que está no copo, junto do prato: morna. grossa, detestável.
O enfermeiro. perfilado, espera ordens.
- Pode ir embora. Não preciso mais nada.
Quando se vê de novo sozinho. Rodrigo põe-se a resmungar. "Não me deixam fumar. Me alimentam com caldinhós, mingauzinhos, canjinhas. Me proíbem de beber coisas geladas.
Não me deixam receber visitas. Acho que se eu morrer vai ser de tédio mais que de qualquer outra coisa."
Prova a canja. Insossa. Sem um pingo de tempero. Uma bosta)
E aqui está o Dr. Rodrigo Cambará doente, atirado em cima duma cama, reduzido a uma imobilidade exasperante. E esquecido) Completamente à margem da vida política.
Os amigos "nãoo the escrevem. Getúlio Vargas-não respondeu ainda à sua última carta.
~ A leitura dos jornais chegados de Porto Alegre pelo avião da manhã deixou-o excitado. Estão cheios de proclamações, polêmicas, verrinas, sátiras, descomposturas
- tudo em torno das próximas eleições. Carlos Lacerda malha com um vigor apaixonado Ocandidato de Prestes e o do P. S. D. Os comunistas arrasam o candidato da U.
D. N. e o do P. S. D. Tudo isso cheira a pólvora, a combate. É o cúmulo que ele, Rodrigo, nãoo esteja também em ação. )r a primeira vez que um Cambará assiste a uma
batalha deitado!
Engole com repugnãoncia mais uma colherada de canja. Lembra-se com saudade de sua vida no Rio de Janeiro, nayueles últimos quinze anos. Sempre teve a volúpia do jogo
da política, esse xadrez complicado e malicioso em que as peças são seres humanos. Sempre lhe fez bem à alma sentir-se admirado, prestigiado, requestado, indispensável...
Entre os repórteres do Rio e de São Paulo era conhecido pela sua franqueza, pelas suas tiradas. Dizia tudo quanto lhe dava na veneta. Quando os rapazes das jornais
queriam algo de sensacional, vinham logo procurá-lo. "Estamos mal de assunto, doutor. O senhor tem que nos ajudar." E ele ajudava. Ah! E como era bom também circular
livremente, como pessoa de casa, pelas salas e corredores do Catete, ter acesso fácil ao Homem, contar com a simpatia e o apoio de seus oficiais-de-gabinete, tutear
senadores e ministros. "Meu caro, só há um homem que pode resolver o seu caso. E o Cambará. Fale com ele."
REUNIÃO DE FAMILIA - II 2O1
2O2 O ARQUIPÉLAGO
Esta é uma grande hora nacional. É necessário, argente, fa que o queremismo deixe de ser um movimento puramente emoliu para se transformar numa idéia dinãomica: é
indi
finar todas essas lealdades getulistas num apgnsável agl
nacional. partido forte, ~ de âmbit
O homem para fazer isso sou eu. A esta hora devia estar prata pública, na barricada. No entanto tenho de me resignar ficar deitado, comendo esta canja sem sal. Fouti,
completamen
fouti e ainda por cima mal pago!
Põe-se a olhar desconsolado para a torre da igreja. Muita vezes, qua^do menino. ficou montado no peitoril da janela d ~gua-rumada procurando alvejar com as ora o
galo do cata-vento, ora o sino. Mas tinhas ais graça aáe ta no sino, fazê-lo gemer .. .
Qualquer dia por vingança o velho sino da Matriz estará do brando para anunciar a Santa Fé a morte do Dr. Rodrigo Terr Cambará.
Num misto de auto-sarcasmo e autopiedade imagina o própri funeral. Luto no Sobrado. A rua apinhada de gente. Decidem levar o caixão a pulso, até a metade do caminho.
Depois metem-n naquele repulsivo carro fúnebre do Pitombo, com figuras douradas em relevo nos quatro ângulos (uns anjós com cara "de tarados sexuais) e aqueles matungos
com plumas pretas nas cabeças. Trá= fego interrompido nas ruas por onde passa o corte o. interminável de automóveïs... Santa_ Fé em peso no enterro. O;
j Uma fileira,
comandante da guarniçào federal. O prefeito. O Juiz de Direito, enfim, todas essas personalidades que A Voz da Serra classifica como "pessoas gradas". O cafajeste
do Amintas também lá está, com uma fingida tristeza no rosto escrofuloso. Mas quem é a moça que vai sozinha ali naquele auto, com cara de forasteira, toda vestida
de preto e com óculos escuros? Então nào sabem? E a amante do Ur. Rodrigo. Verdade? Mas que jovem! pois é, podia ser filha dele. O patife tinha bem-gosto.
Agóra o cortejo está no cemitério à frente do mausoléu dos Cambarás. (Rodrigo remexe distraído a canja, com a colher.) O falecido pediu antes de morrer que náo deixassem
sua cara exposta à curiosidade pública. É por isso que nãoo abrem o caíxào. Fala o primeiro orador. Quem é? Pouco importa: Mas como diz bes-" leiras! Fala o segundo:
vomita também um amontoado de lugares-comuns. Nunca, ninguém, nem os filhos do morto, nem sua mulher, nem seus melhores amigos poderão fazer-lhe justiça. Porque
ninguém na verdade o conhece. Viram dele apenas uma superfície, um verniz externo. Ninguém chegou a compreendê-lo na sua inteireza, na sua profundeza. E depois que
o deixarem entaipado: no cemitério, a cidade continuará os seus mexericos, as suas male~
dicências, lembrando-se apenas daquilo que se convencionou chamar
de def viveu~oDesco hoc do e caluri ado Eoe quer ér pior ~ Mesmo dos como
elogios dos oradores serão insultos. Ah! como gostaria de fazer
um discurso ao pé do próprio cadáverl Não seria ama oração de provocar lágrimas, nãoo. ta contar verdades, lançá-las como pedradas na cara de todos aqueles hipócritas.
Porque, com a exceção dos que realmente o amavam - alguns parentes, poucos amigos - os outros lá estavam por obrigadôo social ou por puro prazer sádico. Eram uns
invejosos, uns despeitados. uns covardes, uns impotentes) Não podiam encontrar um homem autêntico que nãoo sentissem logo desejo de vê-lo destruído e humilhado. Era-lhes
insuportável o espetáculo dum macho que tem a coragem de agarrar a vida nos braços, ser o que é, dizer o que pensa, fazer o que deseja, comer o que lhe apetece.
Foram quase todos ao enceno para assistirem ao fim daquele monstro, para terem a certeza de que ele ia ficar para sempre encerrado no jazigo, a apodrecer ... Tiveste
a coragem de viver? Agora paga! E todos aqueles necrófilos, todos aqueles moluscos podiam voltar tranqüilos para suas casas, para suas vidinhas apagadas, para as
esposas que detestavam mas com as quais eram obrigados a viver e a dormir, para seus probleminhas sem beleza, para as dificuldades financeiras do fim do mês, para
a azeda rotina cotidiana, para seus odiozinhos, suas birrinhas, suas mesquinhas invejas, para seus achaques - em suma - para todas aquelas coisas pequenas e melancólicas
de seu mundinho de castrados)
Canalha! Só de pensar nestas coisas Rodrigo sente que tem a obrigadôo de não morrer.
28 de novembro
Camerino permite-lhe agora receber visitas. O desfile hoje começa cerca das dez da manhâ, quando seus sogros Aderbal e Laurentina entram no quarto acompanhados de
Flora. Flora? Que milagre) Bom. ela representa a sua comédia, para evitar que os pais venham a descobrir o verdadeiro estado de suas relações. com o marido.
- Visitas para você - diz ela sem mírá-lo. E senta-se a um canto do quarto. Rodrigo nãoo gosta do hábito que Flora adquiriu no convívio dos cariocas de tratá-lo por
você. Sempre achou o tu mais íntimo, mais carinhoso, além de mais gaúcho. Bom, seja como for, dadas as relações atuais entre ambos, você talvez seja o tratamento
mais adequado.
O velho Babalo abraça-o afetuosamente, mas Laurentina dá-lhe apenas a ponta dos dedos. (Saberá de alguma coisa?) Depois
REUNIAO DE FAMILIA - II
2O3
#2O4 O ARQUIP~LAGO

Aderbal senta-se ao pé da cama, tira a faca da bainha, um pe de fumo em rama do bolso, e começa a fazer um cigarro com t a pachorra. enquanto pergunta coisas sobre
a saúde do genro. drigo segue os movimentos do sogro, numa espécie de fascina¢ mal prestando atenção ao gtie ele diz. Vê o velho picar ~ o fu sem a menor pressa,
amaciá-lo no côncavo da mão esquerda c palma da direita. Depois vem a ceremônia também. lenta de al" a palha com a lâmina da faca. enrolar o cigarro. "Mas que mesmo
que teve? Ouvi dizer que desta vez nãoo foi o tal de farto ... " Rodrigo dá explicações vagas ... O sogro acende" cigarro, tira uma baforada que envolve o genro.
Rodrigo asei fumaça. Não é muito homem de cigarro de palha, mas neste mento até um cachimbo de barro de qualquer negra velha saberia bem.
- O Gen. Dutra está perdido - diz Babalo com sua escandida e quadrada. - É uma candidatura que nasceu morta
- Sim - replica Rodrigo - mas se o Dr. Getúlio o a o homem está eleito.
Babalo solta a sua risadinha.
- O Getúlio também .está liquidado! - exclama.
As narinas de Rodrigo palpitam, um fogo lhe incendeia o pet Vai dizer uma barbaridade, mas contém-se. E é com .uma Ea calma que se dirige ao sogro:
- Tome nota das minhas palavras. seu Aderbal. O Getú vai ser eleito não só senador, por uma maioria esmagadora, co também deputado. E por mais de um Estado!
Babalo torna a rir. E de novo uma baforada de fumaça volve o enfêrmo. Por que o velho não vai pitar fora do quart Será que quer me torturar? A vontadé de fumar como
que lhe a língua inchar na boca.
D. Laurentina, sentada em silêncio junto de Flora, cozinha na água morna de seu olhar de bugra. Faz-se uma longa pa em que deixa escapar um suspiro longo e sincopado.
Flora obste se em não filhar para o marido nem dirigir-lhe a palavra. E ag parece que o próprio Babalo começa a sentir que algo de err anda no ar.
Rodrigo muda de posição na cama. Está claro que os sog sabem de tudo. Quem não sabe? A cidade está cheia da hist" de Sônia. O Neco lhe contou que e o assunto da
atualidade. P se os velhos sabem, por que ficam aqui neste silëncio? Digam 1 que sou um devasso, desabafem e me deixem em paz!
O ar está azulado pela fumaça do cigarro do velho Babal que agora quer saber em que Rodrigo baseia o seu "palpite" eo relação à eleição de Getúlio Vargas.
REUNIAO DE FAMILIA - I1 2O5

- Não é palpite, seu Aderbal, é certeza. Só nãoo vê quem é
cego , . , ou antigetulista fanático.
A visita dura mais alguns minutos. Flora levanta-se. A mae
a imita. Aderbal Quadros torna a apertar a mão do genro: - Bueno, estimo as suas melhoras.


Retiram-se. A visita seguinte é a de José Lírio. pouco antes do meio-dia. Entra devagarinho, arrastando as pernas, amparado pelo enfermeiro, e olhando para Rodrigo
de viés, com seus olhos injetados e lacrimejantes. Traz numa das mãos a sua inseparável bengala, e na outra o chapéu de feltro negro. Um lenço vermelho sobressai-lhe
do bolso superior do casaco.
Abraça Rodrigo, comovido e silencioso, senta-se e fica a recordar cenas do passado com sua voz crepitante de asmáticõ, soltando de vez em quando fundos suspiros
que lhe sacodem o peito.
- Liroca velho de guerra! - exclama Rodrigo.
Aqui está uma visita que o alegra. José Lírio é um velho amigo fiel. Desde mocinho aumenta uma paixão irremediável por Mana Valéria, que jamais lhe correspondeu
à afeição: Para falár a verdade, a velha lhe recusa até mesmo a amizade.
- Esta vida dá muita volta - murmura o veterano, com ambas as mãos apoiadas no castão da bengala. - Parece mentira. rnas em 93, quando os federalístas cercavam o
Sobrado, .o velho Liroca, que naquele tempo era moço, estava do lado de fora. com os inimigos do teu pai. Veja só a ironia do Destino! Mas por esta luz que me alumeia,
nãoo tive nunca coragem de dar. um tiro contra esta casa!
- Eu sei Liroca, eu sei.
Todo o mundo sabe. Lireca nãoo deixa ninguém esquecer. Há cinqüenta anos que repete esta história. Rodrigo contempla o amigo com piedade, enquanto ele fala, rememorando
"causos" e pessoas. Mistura as datas. Conta a mesma. história três, quatro vezes no espaço de poucos minutos. Esclerose cerebral - pensa Rodrigo. - A ntes uma boa
morte!
Liroca solta outro suspiro sentido.
- Pobre do Cel. Licurgo! O que tem de ser está escrito, ninguém pode mudar. Só Deus. E eu acho que Deus anda meio esquecido deste mundo velho sem porteira.


Chiru Mena aparece depois da sesta: a calva reluzente, a roupa amarfanhada, a camisa encardida, a gravata pingada de sebo.
- Homem! - repreende-o Rodrigo. - Que decadência é essa?
- Ora, tu sabes, dês que tia Vanja morreu, perdi o gosto pela vida.
2O6 O ARQUIPÉLAGO
Senta-se e fica, distraído, a esgaravatar o nariz como um nino mal-educado.
- Náo sejas exageradol Tua tia morreu há mais de oito a O que tu és eu sei bem direitinho. Um relaxado. Não reages, deste o brio. Tirá esse dedo do nariz, porcalhão)
- Ora, cada qual sabe onde lhe aperta o sapato.. .
Rodrigo, a testa franzida, mira o amigo. Chiru jamais tra lhou em toda a sua vida. E um vadio. Viveu sempre à custa tia que o criou e que, ao morrer. lhe deixou
algumas casas na ,ci
- alguns contos de réis no banco.
- Quem te viu e quem te vê! Eras um tipão, chamava atençáo das mulheres, parecias um embaixador. Tuas roupas gravatas eram famosas, teus sapatos sempre andavam engraxa
- tuas calças nunca perdiam o friso.
Ao fazer estas enumerações, Rodrigo sente o exagero de s próprias palavras. Mas, que diabo) E preciso animar o amigo.
- Parecias um leão! Agora me entras aqui esculhambado d jeito. Como vai tua mulher? E teus filhos?
Chiru dá notícias tristes da família. Doenças, incômodos, dos rapazes vive amasiado com uma prostituta, o outro nãoo nos empregos .. .
- Te lembras. das nossas serenatas, miserável?
Chiru nãoo reage como Rodrigo esperava. .
- Até disso estou deixado - murmura ele. - Tu nem sa
como mudei nestes últimos anos. Estou velho. Como Rodrigo, está- beirando os sessenta. - E em matéria de política?
Chiru encolhe os ombros.
- Estou desiludido com esse negócio todo. Não vale a a gente se meter.
- Estás errado. Se os homens de bem nãoo se metem, os c:
fajestes tomam conta do governo.
O rosto de Chiru se contrai, seus olhos se apertam.
- Mas é que nem mais um homem de bem eu sou .. .
baixinho. E põe-se a chorar.
Rodrigo olha para o amigo, intrigado. Este nãoo é, positive mente, o Chiru folgazão e otimista que ele conheceu, com s mentiras pitorescas, seus ditos, suas piadas,
seu penacho.
- Que é isso, rapaz? Um homem não chora. Se tens algo problema, desabafa logo. E para isso que servem os amigos.
Fica a olhar com um misto de piedade e impaciência para outro que, o busto inclinado para a frente, o rosto coberto pei mãos envelhecidas, soluça convulsivamente.
- Precisas de dinheiro?
- Não.
- Então que é?
REUNIRO DE FAMILIA - II 2O7

Faz-se um silêncio. Chiru enxuga os olhos com nm lenço amassado e encardido e, erguendo-se de sábito, começa a andar dum lado para outro, falando sem olhar para
o amigo. Conta que "deu para beber", que náo passa sem a sua cachacinha, que tudo começou inocentemente com um aperitivo de vermute com gim, pouco antes do almoço,
mas que depois...
Rodrigo sorri.
- Ora, homem! A coisa nãoo é tão séria assim .. .
Chiru estaca, faz um gesto dramático e exclama:
- Mas é que tenho tentado deixar de beber e nãoo consigo)
Conta que ultimamente se tornou uma espécie de bobo municipal, pois quando se embriaga rompe a fazer discursos e a recitar poesias em plena rua. Aproximando-se do
amigo e pondo-lhe a mão no ombro, murmura:
- E uma vergonha o que vou dizer, mas é melhor que eu te conte, antes que outro venha te encher os ouvidos.. .
- rosto erguido para o amigo, Rodrigo espera. Chiru desvia Oolhar para a janela e diz:
- Um dia destes tomei um bruto porre e caí na sarjeta .. . imagina, na sarjeta! Não mereço mais entrar nesta casa nem apertar a tua mão...
Antes que Rodrigo possa dizer a menor palavra ou fazer qualquer gesto, Chiru sai do quarto e embarafusta pelo corredor. Seus passos soam pesados e rápidos na escada.
- enfermeiro entra no quarto para anunciar que se encontra lá embaixo, na sala de visitas, uma comissão de "queremistas" que desejam ver o doutor.
- Diga que subam.
Decerto vêm me pedir conselhos - reflete Rodrigo - sabem que sou íntimo do Getúlio. Devem ser uns meninos bem intencionados mas sem nenhuma experiência política.
E, possivelmente, semi-analfabetos. Mas... seja o que. Deus quiser!
- noite a Praça da Matriz transforma-se num pandemônio. Alto-falantes berram notícias do comício udenísta que ali se vai realizar dentro de pouco. Entre uma e outra
notícia irradiam-se marchas e dobrados marciais. Por volta das oito horas um mulato velho, ajudado por dois garotos descalços, começa a soltar foguetes ao pé do
coreto. O eco atrás da igreja duplica as explosões. A voz de aço, monstruosamente amplificada, pede: "Venham todos agora à Praça da Matriz tomar parte no comício
da Uniáo Democrática Nacional) Santa-fezenses, votemos todos no Brigadeiro da Vitória)" Aos poucos o grupo ao redor do coreto vai engrossando. As calçadas estão
já cheias de gente moça que faz a volta da praça coma nas tardes de retreta. As raparigas caminham nnm sentido e os
2O8 O ARQUIPÉLAGO

rapazes noutro. Soldados da polícia municipal tomam poli Quase todas as janelas das casas que cercam o largo estão ilumin e ocupadãs, como em dia de procissão ~íe
Corpus Christi. homens lidam com um microfone, dentro do coreto. Pelos cata da praça. negras velhas do Barro Preto e do Purgatório inst ram-se com suas quitandas
e vendem pastéis, doces e pipoca.
Faz um calor abafado e o céu está completamente coberto nuvens baixas. Para os lados do Angico de quando em qua relâmpagos clareiam o horizonte.
Debruçado à janela do quarto de Rodrigo, Jango descreve cena para o pai.
- Acho que já tem umas cento e poucas pessoas no centro. Parece que a banda de música vem vindo... A Prefeitura toda iluminada.
Minutos depois a banda do Regimento de Infantaria entra praça tocando um velho dobrado e seguida dum cortejo de mp ques: Rodrigo sente um calafrio, seus olhos brilham.
- Foi esse mesmo dobrado... - murmura ele para C rino, que neste momento lhe mede a pressão arterial.
- Hein? - faz o médico, sem tirar os olhos do manômet
- Sem a menor dúvida ... Foi em novembro de 22, po antes da eleição. A situação local andava ameaçando o eleitora Tivemos um comício aqui na praça e eu falei da
sacada do Sobra Ameacei a chimangada com a revolução, caso fôssemos esbulha nas umas. Que tempos, Dante! Só de me lembrar.. .
Camerino ergue os olhos para o paciente e sorri.
- Não se lembre demais, que a pressão pode subir.
- Como está agora?
O médico sorri.
- ótima, mas o senhor não deve se impressionar com negócio aí fora .. .
- Esses udenistas vão fazer comício na frente da minha por puro acinte. Os queremistas fizeram o seu na outra praça. Camerino encolhe os ombros.
- Seja como for, não leve a coisa a sério.
- Eu? Mas quem é que leva a U. D. N. a sério? Acho q nem o Brigadeiro .. .
Camerino repõe o esfigmômetro na bolsa.
- Está chegando muita gente - diz Jango, que continua janela. - E ainda falta uma meia hora para começar.
- São curiosos - explica Rodrigo com .desdém. - Ge que não vota.
O médico tira o casaco, passa o lenço pelo rosto.
- O senhor já pensou - pergunta - que os rapazes e m que hoje têm quinze anos não viram ainda nenhuma eleí neste país?
Rodrigo volta a cabeça vivamente.
- E que tem isso?
Camerino sorri.
- Bom. não vamos discutir.
- E por que não? Não quero ser tratado como um inválido, ou como uma sensitiva.
Sensitiva o senhor é - pensa o "médico. Mas nada diz.
Quando mais tarde Roque Bandeira entra no quarto, Rodrigo recebe-o com alegria.
- Puxa. homem! A gente pode morrer no fundo duma cama e tu, ingrato, nãoo dizes nem "água".
Tio Bicho aproxima-se lento do dono da casa, aperta-lhe a mão e murmura: "Água". Paciente e médico desatãm a rir, pois ambos sabem que, insaciável bebedor de cerveja,
Bandeira só bebe água no chimarrão.
- Senta, homem - convida Rodrigo. - Tira esse casaco. Todo o mundo está em mangas de camisa.
- Obrigado. Estou bem assim.
Deixa cair o corpo numa poltrona, e fica a abanar-se com o chapéu. O suor goteja-lhe do rosto. A camisa, completamente empapada, cola-se-lhe ao peito cabeludo.
- Não vais ao comício? - pergunta-lhe Rodrigo, irônico.
Tio Bicho fita nele os olhos claros e, com fingida solenidade, responde
- Todos conhecem de sobejo as minhas convicções políticas.: .
É anarquista - costuma dizer - mas não desses de romance de folhetim que atiram bombas debaixo das carruagens de gráo-duques e ministros. Don Pepe Garcia, que recusa
aceitar Bandeira como correligionário, um dia lhe bradou na cara: "És um teórico nauseabundo!" - ao que o outro replicou: "Nauseabundo? Não discuto o adjetivo. Mas
como poderia deixar de ser teórico?" E, fazendo mais um de seus paradoxos, acrescentou : "O que existe de melhor no anarquismo é que ele jamais poderá deixar de
ser uma teoria. Nisso está ã sua beleza e a sua invulnerabilidade."
Vem da praça um rumor de vozes cortado pelos gritos soltos dos pregões. Os foguetes espocam agora a intervalos mais curtos,
- a banda de música atroa o ar opressivo da noite com galopes e dobrados.
- Que é que vocês bebem? - indagou Rodrigo.
- Ora que perguntai - crocita o Batráquio.
- E tn, Camerino?
- ~7ma limonada.
- Pois então, homem, me faz um favor. Vai até o corredor
- diz à besta do enfermeiro que sirva as bebidas. - Olha significativamente para o médico e acrescenta: - Para mim, tragam arsênico ... fora do gelo.
REUNIAO DE FAMILIA - II 2O9
21O
Poucos minutos depois Eduardo entra no quarto do pai aco panhado dum homem de batina negra. Estão ambos tão caro cudos que Rodrigo não pode conter o riso.
- Aposto como andaram brigando outra vez!
O religioso abraça-o, visivelmente emocionado. Rodrigo a pode habituar-se à idéia de que o Zeca, filho natural de seu irm
Toríbio com uma lavadeira do Purgatório, se tenha transforma neste marista sério e intelectualizado. Quem diria? O Zeca, q
cresceu no Sobrado entre os braços quase maternais de Flora e
cuidados sem mimos mas assíduo"s e eficientes de Maria Valé
O Zeca, companheiro de brinquedos do Edu.
Dois anos antes de morrer. Toríbio teve o bom-senso de . le limar o filho. Mesmo num tempo em que apenas se "desconfiav da históriá, Toríbio revelava para com o
menino uma afeição e a orgulho de tio solteiro. Levava-o para o Angico, onde lhe ensinava andar a cavalo e camperear. "Ainda vai ser meu companheiro farra!" - dizia.
Chegou um dia a ensaiar com a criança um d` logo que repetiram mais tarde diante das mulheres do Sobrado.
- Que é que vais ser quando ficares grande? Jogador profissional.
Que mais?
Cafajeste.
Que mais?
Bandido.
Isso! Que mais? Ladrão de cavalo.
Ainda falta outra coisa .. . Chineiro.
Toríbio. soltou uma risadà. Maria Valéria botou-lhe a
- Não tem vergonha na cara? Ensinando essas marotet pro menino .. .
Toríbio custeou os estudos do filho, primeiro em Santa Fé mais tarde no Colégio Nossa Senhora do Rosário, em Porto Al Por volta dos dezessete anos, para grande surpresa
e desapon mento do pai, Zeca começou a revelar preocupações religiosas. tra a opinião de Toríbio e de Rodrigo, mas com o inteiro a de Maria Valéria, o rapaz entrou
para a Sociedade de Maria, o adotou o nome de Irmão Toríbio, embora no Sobrado todos p firam chamar-lhe Irmão Zeca.
Rodrigo tratou de fazer qae o sobrinho recebesse o lega que lhe tocava por morte do pai. Irmão Toríbio não guar para sí mesmo nem um vintém: empregou todo o dinheiro
construção de dois pavilhões para o Colégio Champagnat de Sart Fé, do qual é hoje professor de Português e Literatura Geral.
REUNIAO DE FAMILIA - II 211

. Sempre que vejo esses dois juntos - diz Tio Bicho, com am coPo de cerveja na mão e os lábios debruados de espuma -imagino um diálogo impossível entre um anjo
do Inferno e nm anjo do Céu.
Eduardo acende um cigarro e limita-se a lançar para o Cabeçudo um olhar neutro. Irmão Toríbio, porém, aproxima-se do "oceanógrafo" com o braço estendido e o indicador
enristado:
- Ias ficar admirado se soubesses quantos pontos de contato esses dois anjos têm .. .
Bandeira dá de ombros.
- Eu vivo dizendo que nãoo há nada mais parecido com a igreja Católica do que o Partido Comunista.
Rodrigo ergue a mão:
- Não vamos começar essa história agora. Deixem a política -internacional e a Metafísica para depois. O que interessa no momento é essa palhaçada aí na praça.
Jango, sempre junto da janela, anuncia:
- Vai começar a função. "
Cessam os foguetes e a música. Alguém experimenta o microfone, estalando os dedos e dizendo: "Um - dois - três - quatro - cinco - seis ... " Ouve-se, vindo de longe,
o rolar surdo dum trovão. As naFinas de Rodrigo fremem, seus olhos ganham um repentino fulgor.
- Tenho o palpite - diz - de que o Velho lá em cima é queremista ... Acho que vem aí uma tempestade que, como disse aquele empresário castelhano em pleno picadeiro,
me va Nevar el
circo ala grau puta.
Uma voz que a distorção torna quase ininteligível anuncia o primeiro orador da noite: um estudante de Direito que vai falar "em nome da mocidade democrática de Santa
Fé". Rodrigo conhece-o. É um dos netos de Jnquinha Macedo.
- Que é que esse sacaneta entende de democracia? - pergunta ele.
Eduardo e o Irmão Zeca encaminham-se também para uma das
duas janelas do quarto que dão para a praça. Roque permanece
sentado, a bebericar sua cerveja, com a garrafa ao pé da cadeira.
- Posso olhar também? - pergunta Rodrigo.
- Não senhor - responde o médico. - Fique onde está.
Limite-se a ouvir. E já acho que é demais .. .
A voz do orador espraia-se, grave e comovida, pelo largo.
Rodrigo não consegue ouvir o que ele diz. Aqui e ali pesca a
metade dama palavra ... validade ... cracia ... eixo Eduar ... omea.
Palmas e vivas interrompem a cada passo o discursador. Agora. Ro
drigo entende uma frase completa. ... ova aurora raia para o ... sil
depois da trena ...inze anos que foi a ditadura ...úlio Vargas!
O ARQUIPBLAGO
212
- O avô desse menino - diz com voz apertada de rancor foi dos que mais me incomodaram lá n~ Rio por ocasiãó do justamento econômico que o Aranha inventou. Me pediu
pra arraII jar uma audiência com o Getúlio, e quando foi recebido pelo Nome só faltou beijar-lhe a mão.
Uma trovoada mais forte, prolongada e próxima, engolfa completo as palavras do orador. Mas quando o ribombo cessa possível ouvir outra frase ... e agora o tcrano
do seu feudo de Sá Borja quer ainda influir nos destinos da nação que desgraçou e d pobre povo que vilipendiou! Um urro uníssono ergue-se da mu} tídão, acima de
cujas cabeças tremulam lenços brancos.
- Que grandessíssímos safardanas) - exclama Rodrigo co os dentes cerrados.
Há um momento em qne o jovem Macedo pronunria o no do candidato da União Democrática Nacional, e o público rpm a gritar cadenciadamente, como numa torcida de futebol:
Bri-gtt dei-ro! Bri-ga-dei-ro! Bri-ga-dei-ro! - Nova revoada de lenç brancos.
Tio Bicho ri o seu riso gutural, mais visível que audíveh pois lhe põe a tremer a papada e as bochechas. De instante a ins tante Jango volta a cabeça para observar
as reações do pai.
- Por que não gritas também? - pergunta Rodrigo, dirigia do-se a Dante Camerino. - É o teu candidato. Grita. Tens minha permissão.
A atroada. cessa. O orador contínua o seu discurso com red brado entusiasmo.
- Aproximem ao menos esta cama da janela! Ó Jango,, tocah essa manivela, quero ficar de busto mais erguido.
Camerino empurra a cama de rodas para perto da janela. R drigo ergue a cabeça e olha para fora.
- Cuidado. Não se excite - suplica o médico.
- Há mais público do que eu esperava - murmura o paciente. - E muitó mais do que eu desejava. Mas isso não sígnífiq nada. A metade dessa gente está aí por mera curiosidade.
Torna a recostar a cabeça no travesseiro, um pouco ofegante do esforço. Pensa em Sônia. Onde estará a menina a esta hora?! Talvez no cinema ... Ou sentada sozinha
no quarto do hote)~ fumando ou lendo, num aborrecimento mortal. Ocorre-lhe que não é impossível que ela tenha vindo ver o comício ... E por que não!":
Esta possibilidade põe-lhe um formigueiro no. corpo, uma ânsia no peito. É natural que ela aproveite a ocasião para aproximar-se do Sobrado sem ser notada ... Claríssimo)
E até plausível qne esteja agora na própria calçada do casarão .. .
Torna a erguer a cabeça, e desta vez segura com ambas as mãa. o peitoril da janela.
- Por favor, Dr. Rodrigo) - diz o médico. - Não faça isso)
_- Não sejas bobo, Dante. Estou bem. Por qne é que tu não te sentas, se estás cansado?
Continua a olhar para fora e, indiferente às palavras do orador, aos gritos do público, põe-se a procurar a amante ... E um jogo quase tão fascinante como uma caçada.
Aquela de verde, na frente da igreja? Não. Magra demais. E a de branco, junto do poste na calçada fronteira? Sônia tem um vestido branco de linho que lhe vai muito
bem com a pele trigueira. Mas nãoo) Trata-se duma mulher corpulenta, duma verdadeira amazona.
Uma dor fininha lhe risca transversalmente o peito, como um arranhão feito com" a ponta dum alfinete. Rodrigo torna a recostar-se, alarmado, e por alguns instantes
fica esperando e temendo a volta da agulhada, os olhos fechados, a respiração quase contida ... Deus queira que tenha sido só uma dor muscular ou gases.
Rompem palmas e vivas na praça, e a música toca um galope. O discurso terminou.
O segundo orador - candidato a deputado -- fala com mais clareza. Ataca Getúlio Vargas, o queremismo, o Estado Novo, culpa o ex-Presidente de ter corrompido e desfibrado
a Nação. Acusa-o de satrapismo, de nepotismo, de favoritismo e de cumplicidade com a "polícia cruel e degenerada de Felinto Müller" .. . "Sim, mas agora se abre
uma nova era de justiça e democracia para o nosso infeliz povo, que saberá eleger Presidente a figura impoluta do Brigadeiro Eduardo Gomes." De novo a multidão prorrompe
em gritos ritmados: Bri-ga-dei-ro! Bri-ga-dei-ro! - enquanto os
lenços brancos tremulam.
De olhos fechados Rodrigo murmura
- Conheço a bisca que está falando. ; o Amíntas Camacho. O nome dele rima com capacho. p o que ele é. Foi getulista até quando achou conveniente. Um vira-casaca
muito sujo e covarde! Se nãoo estivesse aqui doente e escangalhado eu subia naquele coreto e ia contar ao povo como um dia quebrei a cara desse sacripanta.
Jango estendeu a mão para fora
- Está começando a chover - diz.
Realmente, grossos pingos caem das nuvens. A multidão se agita num movimento de onda. Uma voz que nãoo é a do orador sai aflita dos alto-falantes: "Pedimos ao público
que não vá embora! Isto é apenas uma chuva rápida de verão!"
Mal, porém. termina de pronunciar a última palavra, o aguaceiro desaba com uma violência de dilúvio, e o povo começa a dispersar-se, buscando refúgio nos corredores
das casas e debaixo da figueira grande. Uns poucos precipitam-se para seus automóveis estacionados nos arredores. Os previdentes, que trouxeram.. guardachuvas, abrem-nos
e saem a caminhar em meio de gritos gaiatos e risadas. E a chuva bate com alegre fúria nas pedras das ruas e das calçadas, nos telhados. nas folhas das árvores,
nos lombos e noa
O ARQUIP~LAGO
REUNIAO DE FAMILIA - II 213
214 O ARQUIPÉLAGO
instrumentos dos músicos que continuam formados no redondel,
chuva toca tambor na coberta de zinco do coreto, onde os orad e os próceres udenistas se comprimem. Os alto-falantes estão ag
silenciosos.
- Ala frescal - exclama Jango. - Parece o estouro boiada.
Empurra a cama do pai. para o seu lugar habitual.
Rodrigo sorri. A dor não voltou e agora ele respira livremen O comício foi dispersado. A Natureza deu uma resposta simp mas categórica à baboseira dos oradores.
Jango e Eduardo descem as vidraças, pois a chuva começa entrar no quarto. Tio Bicho ergue os olhos para o Irmáo Zeu pergunta: ,
- Qual é a tua opinião? Podemos tomar esse aguaceiro co um pronunciamento político do Altíssimo?
Limpando a batina respingada, por alguns instantes o mart não diz palavra. ~ um jovem de estatura meã e porte atléti O rosto cor de.,marfim, de feições nítidas,
é animado pelos olhos tanhos nos quais uma vez que outra Rodrigo julga ver ressur Toríbío. Sua voz, de ordinário mansa, nãoo raro no ardor dn discussão revela o Cambará
que se esconde no fundo deste relig~ de plácida aparência.
- Olha, Bandeira - diz ele - se queres discutir esse blema a sério, estou à tua disposição, mas para brincadeiras n contes comigo.
Tio Bicho sacode lentamente a cabeça.
- Tanto para o católico como para o comunista - diz -o humor é um pecado mortal.
- Roque! - brada o dono da casa - se vocês começarem a discutir religião e comunismo, não dou mais bebida para ninguém. Jango, mande buscar mais três cervejas bem
geladinhas. Para mim; traga uma limonada, pois o Camerino quer me matar com essat`~ bebidinhas de fresco. E abram um pouco essas janelas ... o calor está ficando
insuportável.
O aguaceiro continua a cair com força. A praça está agora completamente deserta.
Quando, cerca das dez horas, Floriano entra no quarto do pai. encontra o mesmo grupo - menos Camerino, que saiu para visitar outro cliente, e Jango, que desceu para
o primeiro andar. O ar está saturado da fumaça dos cigarros. Todos fumam, inclusive o doente. Acham-se de tal modo entretidos a conversar, que parecem nãoo dar pela
entrada do filho mais velho de Rodrigo.
Comentam-se ditadores e governos de força. Há pouco, Eduardo e Irmão Zeca se ~ engalfinharam numa discussão em torno da
personalidade de Franco. O primeiro acha-o tão desprezível quanto Hitler e Mussolini. O mansta tentou provar que o caudilho espanhol "é um pouco diferente". Agora,
mais calmos, discutem os motivos por que os povos se deïxam levar tão facilmente pelos governos de força.
Fala Tio Bicho:
- Dizem os entendidos que essa necessidade que as massas têm de submeter-se a um homem forte não passa duma saudade da autoridade paterna, que vem da infância.
- Boba~¿ens - intervém Rodrigo. - A explicação é outra.
Sem tomar conhecimento da interrupção. Bandeira prossegue:
- No Brasil tivemos no século passado Pedro II, a imagem viva do pai, com suas barbas patriarcais, sua proverbial bondade ou "bananice", como querem outros. Na Rússia
o czar era também chamado de paizínho. Hoje o Papai dos soviéticos e dos comunistas do resto do mundo é Stalin. Uns pais são mais severos e autoritários que outros.
Nós temos o nosso Getulinho, Pai dos Pobres .. .
Rodrigo lança-lhe um olhar hostil.
- E por que não? Me digam se houve em toda a História do Brasil governante que se interessasse mais que ele pelo bem-estar do povo? Me dá o fogo. Floriano.
O filho hesita por uma fração de segundo, mas acaba riscando um fósforo e aproximando-o do novo cigarro que o pai tem entre os lábios.
- Não me ponhas esses olhos de Quadros, rapaz(
- O senhor sabe que nãoo deve fumar.. .
- Sei. E daí? Apaga esse fósforo. Agora me dá um copo de cerveja. Agua cria sapo na barriga, como dizia com muita razão teu tio Toríbio.
- O senhor nãoo deve beber nada gelado.
- Venha duma vez essa cerveja(
Não há outro remédio senão dar-lhe a bebida - reflete Floriano. Rodrigo empina o copo e, quase sem tomar fôlego, bebe metade de seu conteúdo.
- Agora não vão sair daqui correndo para contar ao Dante que fumei e bebi cerveja gelada.
Tio Bicho olha o relógio.
- Acho que vou andando - diz. - O Dr. Rodrigo precisa descansar.
- Qual descansar, qual nada! A prosa está boa. Eduardo, grita lá pra baixo que aos mandem cinco cafezinhos. Floriano, pega ali na cômoda um lenço limpo, molha em
água-de-colônia e me traz.. .
Floriano faz o que o pai lhe pede. Rodrigo passa o lenço pelas faces, pela testa, pelo pescoço, num gesto quase voluptuoso. De novo Sônia lhe volta ao pensamento.
Pobre menina( Sozinha nesta noite de chuva, naquele horrível quarto de hotel.. .
REUNIAO DE FAMILIA - II 215
#216 O ARQUIPÉLAGO
REUNIAO DE FAMILIA - II 217
- Vamos, Florianol - diz ele, para evitar que a conversa ra. - Solta essa língua. Como é que explicas a necessidade q povo tem de governos fortes?
- Bom - começa o filho - eu acho que para a maioria pessoas a liberdade, com a responsabilidade que envolve, é um far excessivamente pesado. Daí a necessidade que
tem o homem com de refugiar-se no seio dum grupo humano ou colocar-se sob a tu dum chefe autoritário que, se lhe tira certas liberdades civis, lhe em troca a sensação
de segurança e proteção de que ele tanto prect
Roque Bandeira ergue a mão gorda, com o indicador enrista na direção de Floriano:
- Tu falaste em "refugiar-se no grupo". Essa, me parece, ~ tendência mais perigosa do homem moderno, com ditadores ou eles. Se por um lado a "democracia de massa",
de que os Esta Unidos constituem o exemple mais evidente, oferece ao homem cilidades, confortos e garantias como nãoo existiram em nenhu outra civilização da História
do mundo. por outro prende-o imp cavelmente ao grupo, à comunidade, ameaçando sua identidade i dividual.
- Exatamente - confirma Floriano. - Foi nos Estad Unidos que se inventou o oitavo pecado mortal : o de desóbedecer código- do grupo, o de não pensar. sentir ou agir
de acordo com padrões estabelecidos pela comunidadè, o de nãoo aceitar a estandar zação das idéias, das hábitos, da arte, da literatura, dos gestos soda dos bens
de consumo... O inconformado passa a ser um margina um elemento subversivo, uma ameaça à ordem social. E o curioso isso acontecer num país onde existe um culto quase
religioso
free entetprise.
- Mas na Rússia. será muito diferente? - pergunta Irma Zeca.
- Não - responde Floriano. - Se Babbitt relega ao ostra cismo o nonconformist e olha para ele com uma mistura de des prezo, desconfiança e vago temor, já o Comissário
soviético ac mais prático, mais seguro e mais simples despachar o dissidente par a Sibéria, para um campo de trabalhos forçados, ou para o out mundo, sumariamente
.. .
- Nem me vou dar ao trabalho de refutar essa tua ficção ridí cuia - intervém Eduardo. - Vamos ao que importa. Como que vocês querem que se resolva o problema? Como
se pode pensar em termos individualistas num mundo cuja população cresce expio-~~ sívamente? A solução americana estaria certa se tendesse, como a da Rússia soviética,
para uma igualdade de oportunidades para todos, para o nivelamento econômico, para a aboliçâó definitiva das classes sociais. Ora, é sabido que nos Estados Unidos
essa aparente democracia econômica, essa falsa coletivização não passa dum estrata
gema da indústria e do comerao para venderem mais. Como a economia ianque não é estatal, a produção se torna cada vez mais caótica e competitiva. Vocês vão ver...
Agora que terminou a Guerra e as fábricas americanas cessaram de receber grandes encomendas de armas e munições, milhôes de operários vão ficar sem trabalho. Então
o remédio será criar e alimentar o medo de uma nova guerra, a fim de que se justifique novo aceleramento da produção bélica.. . $ a propaganda já começou .. .
- Seja como for - interrompe-o Tio Bicho - a tendência coletivista me assusta. Porque tudo quanto a humanidade. conquistou até agora de melhor e mais alto foi obra
isolada de indivíduos que muitas vezes tiveram de arriscar a liberdade e até mesmo a vida para afirmarem suas idéias, contra o Estado, a Igreja ou a opinião pública.
; ou não é?
- Para mim - diz Floriano - o problema se resume assim: Como pôr ao alcance da maioria os benefícios da ciência e da técnica em termos de conforto, saúde, educação
e oportunidades sem, nesse processo, anular o indivíduo? Confesso que não tenho no bolso a solução.
Rodrigo está já arrependido de haver provocado esta discussão acadêmica. E para desviar a conversa para um assunto mais de seu gosto, provoca o filho mais moço:
- Põe a mão na consciência, Edu, e fala com sinceridade. Vais votar no candidato comunista por convícção ou por obediência às ordens de teus patrões de Moscou?
O rapaz responde com outra pergunta:
- E o senhor ... vai escolher um candidato próprio ou vai votar em quem o Dr. Getúlio mandar?
-. Cira, o meu caso é diferente do teu. Se meu amigo me "pedir" para votar, por exemplo, no Gen. Dutra e eu nãoo atender- ao seu "pedidó ", nada me acontecerá. Mas
se tu deixares de cumprir uma ordem do Partido, corres o risco de ser expulso.. Se estivesses na Rússia, serias liquidado fisicamente. Que tal, Zeca, tenho on não
tenho razão?
O marista encolhe os ombros.
- O Edu e eu já tivemos a nossa dose diária de brigas. Por hoje basta.. .
Rodrigo encara a filho mais velho:
- E tu? Não te pergunto em quem vais votar porque és um homem sem compromissos. Nem esquerda nem direita nem centro. Sempre au-dessus de la mêlée, não? Uma posição
muito cômoda.
Floriano sente quatro pares de olhos postos nele.
- L curioso - diz, esforçando-se por falar com naturalidade
que tanto o meu pai, homem do Estado Novo, como o meu innãoo, marxista e comunista militante, pensem da mesma maneira com relação à minha atitude diante dos problemas
políticos e sociais.
#218
Para um comunista, a pessoa qne "nãoo se define" é agaela qne aio nãoo entrou para o P. C. Para meu pai, homem de paixões, as coe políticas e sociais são pretas ou
brancas. Temos de escolher a n bandeira e matar ou morrer por ela. Só um intelectual decaden (acha ele) pode perder-se nos matizes, nos meios-tons. Certo errado,
o importante para o macho é comprometer-se, participar luta. Ora, eu chamo a isso "raciocínio glandular"1
Rodrigo solta uma risada.
- Até que enfim falas! - exclama ele. - Dizes o que pena sais da tua toca e vens discutir com os outros à luz do sol. Contin Estou gostando.
Meio desconcertado, Floriano olha para Tio Bicho, qne está na sua poltrona sacudido pelo seu riso lento de garganta, com uma luz de malícia nos olhos. Irmão Zeca,
porém, lança-1 ama mirada encora jadora. Eduardo, calado no seu canto, dá-lhe impressão dum jovem tigre que afia as ganas, esperando a h oportuna de saltar sobre
a presa.
Floriano enfia as mãos nos bolsos das calças. Chegou a h de dizer umas coisas que nestes últimos dias vem pensando.. wIas a sensação de que se ergueu para fazer
uma conferência, deixaum pouco perturbado. Sempre teve horror a parecer pedante a doutoral.
- Aqui estou - começa ele - diante de quatro amigos, ne nhum dos quais parece aceitar ou compreender minha posição. Zeca me quer fazer crer no seu Deus barbudo que
distribui prêmi e castigos e a cujos preceitos (que não sei como foram dados a c nhecer ao homem) devemos obedecer. Por outro lado, o Edu assegura que a única maneira
lógica e decente da gente participar luta social é sentando praça no seu Partido. Em suma, quer que troque o que ele chama de Torre de Marfim pela Torre de F do
P. C. Meu pai acha que a panacéia para todos os nossos males é volta do Dr. Getúlio ao poder, isto é: o Estado paternalista. E ali nosso Bandeira, com quem tenho
algumas afinidades intelectuais, considera um toureiro tímido, desses incapazes de enfrentar o too no momento de la verdad .. .
Cala-se. Os outros esperam que ele continue. Rodrigo bebe u gole de cerveja, depois de dar uma tragada gostosa no cigarro. como a pausa se prolonga, diz
- Vamos! E depois?
- Uma das coisas que mais me preocupam - diz Floriano é descobrir quais são as minhas obrigações como escritor e especificamente como romancista. Claro, a primeira
é a de escrev bem. Isso é elementar. Acho que estou aprendendo aos poucos. Ca livro é urim exercício. Vocês devem conhecer aqueles versos de Jo Donne que Hemingway
popularizou recentemente, usando-os co epígrafe de nm de seus romances. L mais on menos assim : Nenh
REUNIKO DE FAMILIA - II 219
homem é uma ilha, mas um pedaço do Continente... a morte de qualquer homem me diminui, porque eu estou envolvido na Humanidade... etc.... etc.
Tio Bicho cerra os olhos e, parodiando o ar inspirado dos dedamadores de salão. murmura eruditamente:
"And therefore rever send to know for whom bell tolls; it tolls for thee."
- Estive pensando ... - continuou Floriano. - Nenhum homem é uma ilha... O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha. e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade
de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda a angústia de existir.
Irmão Zeca olha para o soalho, pensativo, talvez sem saber ainda se está ou não de acordo com as idéias do amigo.
- Cada homem - prossegue este último - é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua Flora e sua história particulares.
- E a sua erosão - completa Tio Bicho.
- Exatamente. E a comumcação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais
semafórícos, mensagens trancadas escritas num código cuja chave ninguém possui.
Cala-se. Conseguirá ele agora estabelecer comumcação com estas quatro ilhas de clima e hábitos tão diferentes dos seus?
- Tenho a impressão - continua - de que as ilhas do arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente, ao qual anseiam por se unirem. Muitos
pensam resolver o problema da solidão e da separação da maneira que há pouco se mencionou, isto é, aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele,
mesmo com o sacrifício da própria personalidade. E se o grupo tem o caráter agressivo e imperialista, lá estão as suas ilhas a se prepararem, a se armarem para a
guerra, a fim de conquistarem outros arquipélagós. Porque dominar e destruir também é uma maneira de integração, de comunhão, pois aão é esse o espírito da antropofagia
ritual?
Edn salta
- Toda essa conversa não passa duma cortina de fumaça atrás da qual procuras esconder a tua falta de vocação polífica, a- tua ín-" capacidade para a" vida gregária
... -
- Por mais absurdo que paíeça T diz Rodrigo - desta vez estou de acordo com o camarada Eduardo.
Floriano sofri. Os apartes, longe de o irritarem, o estimulam. pois tiram à sua exposiçao o caráter antipático e egocêntrico de monólogo. Prossegue
- Para o Eduardo o Continente é o Estado Socialista, ou a simples consciência de estar lotando pela salvação do proletariado mundial. Para outros, como para o Zeca,
a Terra Firme, o Grande
O ARQUIPrLAGO
22O O ARQUIPÉLAGO

Continente é Deus, e a única ponte que nos pode levar a Ble é a gião ou, mais especificamente. a Igreja Católica Apostólica Ro Há ainda pessoas que satisfazem em
parte essa necessidade de gração simplesmente associando-se a um clube, a uma instit ama seita .. .
Bandeira aparteis
- Por exemplo, o Rotary Club ou a Linha Branca de banda.
- O que importa para cada ilha - prossegue Floriano vencer a solidão, o estado de alienadão, o tédio ou o medo gtnr" isolamento ihe provoca.
Faz uma pausa, dá alguns passos no quarto, com a vaga confiança de que se está tornando aborrecido. Mas continua:
- Estou chegando à conclusão de que nm dos principais ovos do romancista é o de criar, na medida de suas possibilida meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago
... tons pontes ... inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que é artista, e nãoo um propagandista político, um profeta religioso nm mero amanuense .. .
Eduardo solta uma risada sarcástica de mau ator.
- Ahl E tu achas que estás realizando teu objetivo? - Absolutamente nãoo acho.
- E nãoo te parece que teu projeto é um tanto pretensióso
- Não mais que o de vocês comunistas quando esperam c seguir a abolição completa do Estado através do nivelamento classes .. .
Rodrigo faz nm gesto de impaciência
- Tudo isso é multo vago, muito livresco, Floriano - ele. - Sou am homem simples e inculto - acrescenta, com modéstia. - Por que nãoo trazes tuas teorias para um
te mais concreto... Para o Rio Grande, por exemplo? Como vis problema das nossas "ilhas" ?
- Sai dessa! - exclama Tio Bicho.
Floriano volta-se para o pai.
- Que tem sido nossa vida política nestes últimos cingiien on sessenta anos senãoo uma série de danças tribais ao redor de d defuntos ilustres? Refiro-me a Júlio
de Castilhos e Gaspar tias. Sempre foi motivo de orgulho para um gaúcho que se p sacrificar-se, matar ou morrer pelo seu chefe político, pelo seu tido, pela cor
de seu lenço.
Faz uma pausa, olha em torno e admira-se de que os ont - principalmente o pai - o escutem sem protestos.
- Todos esses correligionários, amigos, peões, capang criados, todos esses "crentes" que formavam a massa do eleitora em tempo de eleição e engrossavam os exércitos
em tempo de lenço, seguindo quase fanaticamente seus chefes, todos esses Nome
itEUNIAO DE FAMfLIA - II 221

fosse qual fosse a cor de seus lenços, viveram na minha opinião alienados. Aceitaram irracionalmente a autoridade de Castilhos. de Gaspar Martins, do Senador Pinheiro,
de Borges de Medeiros e outros como viriam mais tarde aceitar a de Getúlio Vargas. Mais que isso: seguiram também os coronéis, os chefetes locais, com a mesma devoção
.. .
Tío Bicho interrompe-o:
- Conta-se que em 93 o Gen. Firmino de Paula nm dia formou a sua força e gritou para os soldados: "Eu sou escravo do Dr. Júlio de Castilhos e vocês sâó meus escravos!"
- Uma ilnstração perfeita - diz Floríano. - As pobres ilhas abandonadas procuravam integrar-se na terra firme do Contínente. Ora, nesse processo de integrar-se e
render-se elas deixavam de ser
- centro de seu próprio mundo, entregavam sua liberdade, seu destino a algo on a alguém mais forte que elas... Por exemplo:
- Chefe político on o corpo místico do Partido.
Roque Bandeira ergue-se, lento, e diz:
- Uma atitude nitidamente masoquista.
Encaminha-se para o quarto de banho, onde se fecha.
Irmão Zeca olha, silencioso, para a ponta das botinas pretas de elástico. Rodrigo sacode a cabeça numa negativa vigorosa.
- Acabas " de dizer a maior besteira da tua vida, meu filho. Esqueces que essa gente tinha ideais, convicções políticas definidas.
- Ora, papai, poucos, muito poucos podiam dar-se esse luxo. Vamos tomar um exemplo de casa: o Bento, cria do Angico. Quando viajava para fora do município e lhe
perguntavam quem era, ~ ó caboclo respondia com orgulho: "Sou gente do Cel. Licúrgo." Um outro gaúcho, querendo certa vez explicar o motivo por que seguia cegamente
Flores da Cunha, prontificando-se a arriscar a vida por ele, disse: "L que eu fui dado ao General, de pequeno."
- Queres que te diga uma coisa? - interrompeu-o Rodrigo. - Pois en descubro uma grande beleza nessa atitúde, nessas lealdades desinteressadas. Me passa essa garrafa
de cerveja antes qúe
- Roque beba o resto. - Enche seu copo e bebe um sorvo lárgó. - O teu argnménto tem outra falha." Estás esquecendo on dando pouca importância ao código de honra
do gaúcho, do qual nunca,
em circnnstâricia alguma, ele abdicou. "
Floriano coça a cabeça com um ar de aluno surpreendido em erro.
- Dou a mão à palmatória. Reconheço que meu exemplo está incompleto. Havia uma coisa que esses alienados jamais entregavam ao chefe ou ao partido. Era a sua, dignidade
de macho, justiça se faça. - Olha para Eduardo. - Agora, os correligionários do Edu entregam tudo: a pessoa física e moral, a liberdade, a vida e até a morte.
#222 O ARQUIPfiLAGO

Bandeira, que neste instante volta do quarto de banho. para o marista e diz:
- É o que acontece também com os padres.
- Essa é que não! - exclama Zeca. - A Igreja nunca ti a dignidade ou a liberdade de ninguém. Pelo contrário, sempre mais uma coisa e outra.
Eduardo aproxima-se da janela, mal reprimindo um Rodrigo está surpreendido ante a pouca disposição combativa rapaz, de ordinário tão agressivo.
- Mas me deixem terminar - pede Floriano. - Há ou maneira do homem identificar-se com o mundo que o cerca. É meio do domínio, da submissão dos outros à aua vontade.
Ble torna partes de si mesmo. lr uma atitude sádica. Foi o que certo ponto fez Pinheiro Machado que era famoso pela mau como usava seus amigos e correligionários.
Parece-me que o Borges de Medeiros encontrou uma compensação para a sua soh física e psicológica através dum casamento místico com o povo Rio Grande, no qual ele
era o elemento masculïno dominadwr autoritário. E seu amigo Getúlio, papai, (outro solitário) ide ficou-se com o Brasïl.
- Não digas asneirasl - vocifera Rodrigo. - Conheço Getúlio melhor que todos vocês. Tuas teorias são a negação. vida e a negação da História. Sempre haverá comandantes
e mandados. Que seria de nós se não fossem homens da têm dum Pinto Bandeira, dum Cerro Largo, dum Bento Gonça} dum Osório? Estaríamos todos agora falando castelhano
e o B seria menor. r melhor calares a boca e não ficares aí tentando a o que nossa gente tem de mais nobre e valoroso.
Floriano faz um gesto de desamparo.
- Aí está. L difícil dialogar com os chamados "homens convicções firmes". Bles têm a coragem de matar ou morrer soas idéias. O que nãoo têm é coragem de reexaminar,
revisar idéias.
Irmão Zeca pergunta:
- Aonde queres chegar com tuas teorias, Floriano?
- Em primeiro lugar quero deixar claro que nãoo me enqua rm nenhuma dessas posições. Em segundo, .acho que tanto o ho que domina arbitrariamente como o que se deixa
dominar per a integridade. Um entrega sua liberdade. Outro mata a líber alheia em benefício da própria.
- Então? - rosna Bandeira. - Em que ficamos?
- Ele fica como sempre na famosa "terceira posiçáó " iroaiza Eduardo.
- Exatamente - replica Floriano. - Na terceira posa E admito que exista também uma quarta, uma quinta,
REUNIAO DE FAMILIA - II 223
sexta... Por que nãoo? Não tenho muita paciência com os donos das verdades absolutas.
Sílvia entra, trazendo numa bandeja cinco pequenas xícaras, de café. Rodrígo faz-lhe um sinale ela se aproxima.
- Ah! Aqui está a minha nora e afilhada com .seu famigerado cafezinho.
- O senhor não devia ... - murmura ela. - O doutor lhe proibiu.
- Pois o doutor que vá .. .
Engole o resto da frase e apanha uma das xícaras. Sílvia sorri e sai a distribuir o café. Quando ela se aproxima de Floriano, Rodrigo fica atento a qualquer mudança
na expressão fisionômica do filho que possa confirmar suas suspeitas. Sílvia mantém os olhos baixos. Sim, o rapaz parece perturbado. Sua . mão não está lá muito
firme, a xícara que ele segura treme sobre o pires.
Quando Sílvia se retira, Tio Bicho segue-a com o olhar e murmura
- Sujeito de sorte, ésse Jango.
Com uma gulodice de menino, Rodrigo lambe o açúcar que ficou no fundo da xícara.
- Então, romancista? - provoca ele. - Já terminaste "o teu folhetim
- Bom, a solução para as "ilhas" é unirem-se umas às outras, mas sem perderem a dignidade e a identidade como indivíduos.
Edu interrompe-o:
- Pergunta a esses pobres-diabos do Barro Preto e do Purgatório que andam descalços e molambentos, que sofrem frio e fome, pergunta a esses miseráveis carcomidos
de sífilis ou de tuberculose se eles sabem o que é identidade, dignidade ou mesmo liberdade .. .
Floriano replica:
- Está bem, Edu, teu argumento está certo, mas não invalida o que vou dizer ... Para abolir o seu sentimento de solidão, de alienação, de falta de segurança, na
minha opinião o homem não necessita entregar sua liberdade, sua vontade e seu futuro ao Estado Totalitário ou a um ditador paternalista, nem dissolver-se, anularse
no grupo, escravizando-se aos seus tabus e às suas máquinas. Reconheço que o problema é em grande parte de natureza econômica. Se disseres que numa sociedade de
economia sâ os homens terão mais oportunidades de serem melhores, eu responderei que pode haver (e há) prosperidade sem bondade, progresso material sem humanidade.
Cala-se por nm instante, para escolher as palavras finais, já um pouco encabulado por estar falando tanto, e talvez num tom de pastor protestante.
- Em suma - conclui - devemos procurar .solução para nossos problemas existenciais no plano das relações humanas e nãoo
#224 O ARQUIP~LAGO
apenas no das relações de produção industrial. O que imporgt conseguir uma solidariedade fraternal entre os homens nãoo só âmbito familiar e nacional como também
no internacional. isso me parece indispensável que cada pessoa se capacite da sua portância como indivíduo e também da sua responsabilidade com a própria existência.
- Peço licença para resumir teu pensamento - diz Irm ríbio. - A solução é o amor. O que vemos no mundo de não é apenas uma crise econômica, mas principalmente uma
de amor.
- De acordo, Zeca. Confesso que tive vergonha de proa ciar a palavra amor, como se fosse um nome feio.
- Pois devemos sair e escrever a piche nas paredes e m esse nome feio! - exclama o marista. - Até nas fachadas igrejas... por que nãoo? Conheço padres, bispos, arcebispos
e deais incapazes de verdadeiro amor. Sim, precisamos escrever toda a parte: amor! amor! amor!
- Não se esqueçam das paredes das latrinas - alvitra T _Bicho, com seu olho cínico - já que esse é o lugar clássico nomes feios .. .
- L engraçado vocês falarem em amor no ano em que t nou a maior carnificina da História - diz Eduardo - e em já se fala abertamente na Terceira Guerra.
- Seja como for - insiste Irmão Toríbio - o amor ai é a única solução. É o remédio que Deus vem oferecendo aos hom há milênios. Vocês dão as voltas retóricas mais
incríveis para barem caindo na nossa seara.
- Claro - diz Floriano, olhando para Eduardo - o am nãoo é positivamente a nota tônica deste nosso sistema capital" competitivo e frio, desta nossa civilização mercantil
em que o ht é mais importante do que vidas humanas.
- Estás usando a linguagem do teu irmão bolchevista .. . observa Rodrigo.
- Atiramos contra o mesmo alvo - explica Floriano. - qne de posições separadas e com frechas de cores diferentes. Eduardo apressa=se a dizer
- O Floriano atira com sua pistolinha literária que esgut água-de-colônia.
O outro sorri
- Para um comunista, tua piada nãoo está nada má .. . falando sério, me parece que a solução estará numa sociedade reaÏ~ mente baseada no princípio de que náo há
nada mais impoïtaa que a criatura humana, a sua dignidade e o seu bem-estar.
- O famoso neo-humanismo - murmura Eduardo com desdenhoso. - Como é que vocês esperam chegar a essa socieda
REUNIAO DE FAMILIA - II 225
perfeita? Rezando e esperando um milagre? Deixando as coisas como estão?
- Já estamos outra vez metidos em filosofanças! - exclama Rodrigo. - Não acham que por hoje basta? São quase onze horas. Será que vocês esperam salvar a humanidade
ainda esta noite?
Os dois irmãos se calam. Mas o pai torna a falar:
- De mais a mais, o que queres é um absurdo, Floriano. O mal deste país tem sido a falta de heróis. de condutores em quem
o acredite Pela primeira vez na nossa História encontramos um líder na figura de Getúlio Vargas e o resultado aí está, o "queremísmo", esse movimento de massa que
galvaniza de norte a sul. esta nação de cépticos. Como é possível eliminar a autoridade, como pareces desejar?
- Eu me refiro à autoridade icracio~nal - replica Floriano - a que não se baseia na competência mas se impõe pela força e se mantém pela propaganda, pela intimidação
das massas por meio da polícia ou pela exploração dos "medos sociais" : o de ficar sem proteção, de ser destruído por inimigos externos/ ou internos, o de nãoo ter
o que comer, nem o que vestir, nem onde morar. O senhor, papai, sabe disso tão bem como eu. E é um erro, imaginar que á intimidação é a única arma dos que exercem
a autoridade arbitrária. Essa autoridade pode emanar também do chamado "ditador , benévolo", que por meio de seu departamento de propaganda trata de fazer que seu
povo o aceite, respeite, admire e ame como a um pai, o Provedor, o Benfeitor.
- O ditador - diz Bandeira com voz sonolenta - apresenta-se como uma figura dotada de qualidades mágicas.
- Querem um exemplo de autoridade irracional? - pergunta Floriano. - O Partido. O Eduardo que diga se ele pode discutir uma ordem de seu partido.
Eduardo limita-se a bocejar, como um carnívoro saciado.
- Outro exemplo - acrescenta Tio Bicho - é a Igreja.
- Vou mencionar outro tipo de autoridade irracional - torna Floriano, olhando para o pai. - A família.
- Não me venhas com asneiras - rebate Rodrigo.
1?-lhe agradável a idéia de que, apesar da vida que sempre levou, considera a família uma instituição sagrada.
Irmáo Zeca agora caminha dum lado para outro, apalpando o crucifixo que traz pendurado ao pescoço. Bandeira segue-o com olho divertido.
Floriano prossegue:
- Reconheço que a família é necessária e pode exercer ama benéfica autoridade racional. Seria um monstro se nãoo reconhecesse isso. Mas no fundo é a vida familiar
que nos prepara para aceitar os ditadores que, em última análise, nãoo passam mesmo duma projeção de nossos pais. E o tipo de educação que recebemos em casa
T
e
226 O ARQUIPÉLAGO
quando meninos é responsável por esse sentimento de cales carregamos pelo resto da vida.
- Vai dormir, rapaz! - exclama Rodrigo. E que será que ele hoje está me agredindo tanto?
Floriano põe-se a rir.
- Estôo vendo este exemplo de autoridade irracional T
pai, como último argumento, me manda dormir.
Irmão Toríbio faz alto na frente de Floriano e pergunta: - Será que entre o teu psicologismo e o historicismo
economismo do Eduardo mão haverá lugar para um ponto de T
logia, de Ontologia, de ... de ... de .. .
Enquanto o marista procura a outra palavra, Roque, placa
olho para Floriano, sugere:
- Biologia?
Eduardo, que continua junto da janela, atira fora o toco cigarro que tem entre os dentes e olha para o Irmão:
- Suponhamos que esse mundo que idealizas seja realm o melhor dos mundos ... Torno a te perguntar que é que tu co homem e escritor estás fazendo para que ele se
torne uma realida Esperas que ele caia do céu? Nossa amarga .experiência tem e nado que do céu só podem cair bombas. E daqui por diante bom atômicas!
- Outra coisa - intromete-se Rodrigo - tu ofereces solnçáo para intelectuais como tu. Esqueces as massas, que estão mentalmente capacitadas nem sequer á compreender
que e um problema nesses termos. - Muda de tom. - Õ Edua vai ali no quarto de banho e me despeja um pouco de sal de fra em meio copo dágua ... Estou com nm princípio
de azia.
Roque Bandeira torna a consultar o relógio. O marista 1 a mão à boca para esconder um bocejo. Faz-se nm silêncio.
Eduardo volta ao quarto trazendo um copo de água efervescer
- )r engraçadíssima a atitude burguesa - diz ele entregam o copo ao pai, mas com os olhos postos em Floriano. - Vocês acha que podem resolver os problemas sociais
no plano filosófico e raso se embriagam com frases. O que nos interessa a nós, ma ias, sáo fatos, números, necessidades humanas. A Filosofia em mesma mão passa dum
refúgio. r um castelo de palavras, maneira de viver isolada da História e do mundo.
Fala com certo nervosismo e algumas hesitações, numa espéciR de "gagueira eloqüente" que lhe vem do excesso de argumentos r não da pobreza deles.
- O marxismo - continua - é um método de análise d~ realidade e ao mesmo tempo um método de ação sobre essa mesma,.
realidade. De filosofias o mundo está cheio e farto. O que importa é examinar a História com objetividade e participar dela ativamente.
- Pois se a coisa é assim - interrompe-o Bandeira - precisas dar umas lições de marxismo ao teu chefe, o Prestes. Na minha opinião esse homenzinho é o mais teórico
dos filósofos. Sua maneira de ver a realidade brasileira é verdadeiramente... surrealista. Se bem entendo. ele acha e proclama que o Brasil não está ainda preparado
nem material nem psicologicamente para a revolução socialista. Segundo ele, o que a classe operária tem de fazer agora (e para isso conta com a colaboração do que
chama "bur~ guesia progressista") é liquidar os últimos vestígios do feudalismo em nossa terra e tratar de desenvolver, notem bem, fomentar o capitalismo até uma
etapa que o torne maduro para o socialismo. Ora, isso me lembra a história do cirurgião da roça que, procurado por um paciente que sofria de dispepsia, lhe disse:
"Olha, velhote, para esse teu mal não sei de nenhum remédio. Mas se voltares pra casa e tratares de arranjar uma úlcera gástrica, eu resolvo o teu problema te cortando
um pedaço do estômago ou o estômago
inteiro."
Rodrigo solta uma risada.
- Estás errado! - reage Eduardo, encarando o velho amigo. - Se tivesses lido direito 1~Iarx e Engels terias aprendido que existem dois tipos de socialismo. Um deles
é utópico e inoperante como esse que o Floriano prega. Baseia-se na absurda moral cristã. O outro,. o verdadeiro, tem caráter rientíficó e decorre dum exame positivo
das relações econômiças. O verdadeiro socialismò é uma ordem necessária que se origina dum certo grau de imaturidade det sistema capitalista. Mas essa transformação
não se faz por si ïnesma (como imagina o Floriano) ,- mas exige a intervenção dos homens ou, melhor, das classes oprimidas. E por isso que o socialismo não pode
deixar de ser o resultado da luta de classes. .
Irmão Zeca tenta interrompê-lo, mas Eduardo o detém-com am gesto e contínua:
- Há uma coisa que o Zeca e tu, Floriano, parecem esquece. Como disse Marx, mão é a consciência dós homéns que determina o seu ser, mas é" o seu ser social que determina
a sua consciência. Como é possível mudar o que p homem é` sem primeiro destraii o sistema social que assim o~ fez?
De novo Irmão Toríbio tenta ïnterrompê-lo, mas Eduardo
náo se cala.
- O sistema social com que o Floriano sonha deve ter tomo centro o homem, não é mesmo? Vocês querem que antes de mais nada se respeite a pessoa humana, nãoò? Acho
-que é "hora de botai as cartas na mésa e esclarecer o assunto. Até que ponto vocês os liberais, os democratas, os católicos, os conservadores, etc" .. . etc...
, respeitam mesmo a pessoa humana? Permitindo que três
REUNIAO DE FAMILIA - II 227
228 O ARQUIP~LAGO

quartas partes da população do mundo viva num plano mais ant que humano? Queimando café e trigo, por uma questão de p quando há fome nos cinco continentes da teíra?
Deixando que tinue a exploração do homem pelo homem, a usura;- a prosa çâò... enfim, todos esses cancros da ordem capitalista?
Olha em torno, num desafio. Os olhos do pai. começa velar-se de sôno. Roque parece ter caído numa modorra qua torna incapaz de qualquer réação. É. agora, no meio
do qua numa atitude de comício, Eduardo continua seu ataque:
- Para nãoo nos perdermós em abstrações, vamos tomai. caso do Brasil. Vocês enchem a boca com palavras como Jus. Fraternidade, Liberdade, Igualdade e Humanidade.
Afirmam, nada disso existe na Rússia soviética, apesar de nunca a terem tado. Mas sejamos honestos. Oito anos de Estado Novo, a Câm e o Senado fechados, os direitos
civis suprimidos, as cadeias a cotadas de presos políticos sem processo, a imprensa amordaçada. é essa a idéia que vocês têm de Justiça e Liberdade? Será hufii dade
entregara mulher de Prestes, grávida, aos carrascos da Gest que a mataram num campo de concentração? E que me "dizem polícia carioca queimando com a chama de um
maçarico o á dum preso político? Ou enlouquecendo o Harry Bergei çom torturas mais bárbaras, para obrigá-lo a confessar suá participa num complot que nãoo passava
dum produto da imaginaçâ"o m bida de Góis Monteiro? Isso é fraternidade? Que dizer tátz; dos parasitas que fizeram negociatas em torno do .Banco ~dQ Br das autarquias
e dos ministérios? E da nossa sórdida burguesia durante a guerra se empanturrou de lucpos extraordinãrios, m tendo Ooperariado num salário de miséria? Isso é justiça
sod Issò é respeitar a dignidade da pessoa humana? Ora, nãoo me fa rirl
Encara Irmão Toríbio:
- Que fizeram vocês .os católicos durante esse período? Fiai giram por Covardia ou conveniência que nãoo-sabíam das atrrxida da polícia, da miséria dò povo, das patifarias
da gente do govern da corrupçáo da alta burguesia. Cortejáram o Ditador para obter dele favorés para a Santa Madre Igreja. Sim, e "também denart` ciaram "cristãmente""
os comunistas à- polícia.
Volta-se para Florianó:
- E vócês, beletristas? Poucos foram -os -que protestaram Muitos ~se . fartarám, mamándo nas tetas. gordas dó D. ~ I. "P. a maioria se omitiu, permanecendo num silêncio
apático e covarde numa contemplação que no fundo era nma forma de cumplicidad com a situação.
Floriano está absorto num silêrcio refléxivo. Há moita verdade no que, o irmâó diz. Mas gostaria de~ perguntai-lhe se oe processos .. de IbIoscou são o - seu ideal
de Justiça. Se "os expurga
REUNIAO DE FAMfLIA - II 229
físicos sãa a melhor forma de fraternidade. Se o massacre dos kulaks que na Rússia se rebelaram contra a coletivização das terras será um símbolo de humanidade e
justiça social. Mas nada diz. .Porque não acha que se deva justificar uma brutálídade com outra. pe resto, conhece bem o irmão. Se por um lado a paixão política
ihe dá o ímpeto, a coragem de dizer "sinceramente o que pensa e sente, por outro o deixa quase cego a tudo quanto saia fora de seu esquema marxista.
Quanto á Rodrigo, faz já alguns minutos que nãoo escuta o que se diz a seu redor. Tem estado a pensar alternadamente em Sônia e na morte. Uma fita de fogo sobe-lhe
desagradavelmente do estômago à garganta. (Por que tomei cerveja, se sei que nãoo me faz bem?) Esforça-se por arrotar e livrar-se dos gases que lhe inflam o estômago,
comprimindo-lhe o coração.


Neste momento a porta do quarto se abre e Dante Camerino aparece. Floríano olha para ò pai e sorri. Rodrigo dá-lhe a impressão dum menino apanhado, em flagrante
numa travessura. O médico olhar em torno, de cenho franzido. Depois encara o paciente e diz
- Sabe q"ue horas são? Quase meia-noite: O senhor já devia estar dormindó.
Tio Biclio ergue-sè, apanha o chapéu e começa as despedidas. O marista. pousa a mãó no ombro ,de Rodriigo e murmura:
- Não se, esqueça do que.. lhe pedi a. semana passadã :.. Lembra-se ?
O enfêrmo sacode a cabeça afirmativamente.
- Vòcês sabém? - diz ,em voz álta. - O Zeca quer que eu me confesse e tdme a comunhão... Ó Dante, será mesmo que estou ."em artigo de morte"", como süziam ós dãssicos?
Não se esqueçam que vocês quase me mataram de susto Ooutro dia, quando fizeram o Padre Josúé entrar neste quárto todo paramentadó, para me dar a extrema únção ...
~
,
- A idéia nãoo foi minha - desculpa-se Camerino. ,
- Foi minha - confessa Irmão Toríbio. ~ E acrescenta: -
Não me arrependo. "
Rodrigo segura a ,manga da batina do marista.
- Sou religioso à minha maneira, ~ Zeca. Considero-me cató
lico, acredito em Deus, mas não soú homem de missa nem de rezas
e muito menos de confissões .. .
- O "Dr. Rodrigo - diz Róque~ Bandeira -como tantos
outros brasileiros, é católico do umbigo para cima. O senhor do Sobrado solta ~ uma risada e diz: - Eu cá me entendo com o Chefão lá em cima.
23O O ARQUIPÉLAGO
Quando se vê a sós com o doente, Camerino posta-se na dele e, depois duma pausa, pergunta:
- Quantos cigarros fumou?
- Quem foi que te disse que eu fumei?
- Vejo cinza na sua camisa e no lençol... E o senhor cheirando a sarro de cigarro. Desculpe o sherlockismo, mas seu hálito deduzo também que andou bebendo. Que foi?
Cerv
O enfermeiro agora está à porta, de braços cruzados. Rod lança-lhe um olhar enviesado e murmura para Camerino:
- O Frankenstein chegou .. .
O médico sorri:
- Vamos ver como está a pressão depois desse entrevem. Abre a bolsa.
Floriano decide acompanhar Irmão Toríbio e Roque Band até suas casas. Ble próprio está maravilhado ante a necessidade companhia humana e de comunicação que tem sentido
nestes & mos dias. O caramujo abandonou a concha e move-se entre outros bichos, convive com eles, e está admirado não só de tinuar vivo e incólume como também de
sentir-se à vontade a carapaça protetora. "
Eduardo despede-se no vestíbulo: precisa dormir, pois tem sair amanhã muito cedo para Nova Pomerânia, a serviço do Pari
- Que apóstolo! - exclama Tio Bicho, depois que o ra se vai. - Devia usar vestes sacerdotais: uma batina vermelha em vez do crucifixo, a foice e o martelo.
Saem para a noite fresca e úmida. No céu, agora complet mente limpo e dum azul quase negro, estrelas lucilam. Nas cal das e no pavimento irregular das ruas ficaram
pequenas poças dág
Junto do redondel de cimento, no centro da praça, os amigos fazem alto diante duma coluna de mármore sobre á q dentro de poucos dias será colocado o busto do Cabo
La6ro .Ca A Voz da Serra vem publicando uma biografia seriãda desse jov santa-fezense, soldado da F. E. B., que teve morte de herói na Itál Seu corpo jaz enterrado
no cemitério de Pistóia, e agora sua ci natal vai prestar-lhe esta homenagem. Ainda ontem - IembnFloriano - Rodrigo chamou=o para lhe contar que Havia ,recebi um
convite para comparecer ao ato de inauguração do busto.
- Quero que me representes na solenidade - pedia ele.
L bom que saibas que o Laurito Caré era nosso parente. tacho q não ignoras que teú avô Licurgo tinha uma amante, um caso an go que vinha dos tempos de rapaz. Teve
um filho com ela,., e o Caré vem a ser neto de teu avô e portanto meu sobrinho e te primo .. .
REUNIXO DE FAMILIA - II 231

Agora, olhando para a base do monumento, Floriano diz aos dois amigos:
- Quem podia prever que um dia um obscuro membro do clã marginal dos Caré viesse a ter seu busto nesta praça, a menos de cem metros da estátua do Cel. Ricardo Amaral,
fundador de Santa Fé e flor muito fina do patriciado rural do Rio Grande? .. .
Irmão Zeca aponta para o. outro busto que se ergue no lado oposto do redondel:
- E na frente da imagem de D. Revocata Assunção, sua professora .. .
- Flor da cultura serrana - acrescenta Tio Bicho.
- Segundo a história (ou a lenda) de Santa Fé - conta Floriano, quando retomam a marcha - há muitos, muitos anos um Caré roubou um cavalo dum Amaral. Para castigas
o ladrão, o estancieiro mandou seus peões costurarem o pobre homem dentro dum couro de vaca molhado e deixarem-no depois sob o olho do sol. O couro secou, encolheu
e o Caré" morreu asfixiado e esmagado.
- Mas os tempos mudaram - observa Irmão Toríbio. - ~ possível e até provável que amanhâ um Caré venha a ser prefeito
municipal ou deputado .. .
Tio Bicho pára um instante para acender um cigarro e, depois da primeira tragada, diz:.
- Segando esse inocente simpático que é Mr. Henry Wallace, estamos na "era do homem comum". Vocês, socialistas ou socializantes, democratas ou populistas vão ver,
com o tempo, que o chamado "homem comum" não é melhor nem pigr,que o "insomum". São todos umas porcarias, feitos do mesmo barro.
- Não, sejas pessimista! - exclama Irmão Zeca.


À esquina da Rua do Comércio encontram Bibi e o marido, qne voltam duma tentativa frustrada de descobrir "vida noturna" em Santa Fé. Enquanto Sandoval conversa com
Tio Bicho e o
marista, Bibi chama o irmão à parte.
- Como vai o Velho? - pergunta.
- Acho que bem. Só que esta noite abusou : fumou, bebeu, agitou-se. Nós fomos em parte culpados.
Bibi baixa a voz:
- Vimos a mulher no cinema. - Que mulher? - Ora, tu sabes.
- Como foi que a identificaste?
- O Sandoval me mostrou. E depois, filho, a gente vê logo.
Estava com um vestido vermelho escandaloso, de óculos escuros.
pintada dum jeito que se via logo que ela não é daqui .. . - Qne achaste da rapariga?
232 O ARQUIPÉLAGO

- Prostitutinha da Lapa.
Floriano sorri. Bibi está enciumada.
Sandoval aproxima-se de Floriano e segura-lhe afetuosam
o braço
- Vi hoje umas belas gravatas na Casa Sol - diz. - Com
duas, uma pra mim e outra pra ti. Acho que vais gostar.
- Ah! - faz o outro, contrafeito. - Muito obrigado. O casal retoma o caminho do Sobrado. Os três amigos c
çam a descer a rua princípal.
- Um produto do Estado Novo - diz Floriano após alg
segundos - ou, melhor, do neocapitalismo. - Quem? - pergunta o marista. - O Sandoval.
Tio Bicho, que parece pisar em ovos, tal a indecisão e ale
de seus passos, apóia-se no braço de Floriano e sussurra - Não vais negar que o rapaz é simpático. - Não nego.
- Mas por que - pergunta o marista - o achas tão r sentativo do neocapitalismo?
- Ora, o Sandoval tem nitidamente o que se convencio chamar de "caráter de mercado". Me digam, qual é o obje principal do homem numa sociedade cada vez mais furiosame
competitiva como a nossa?
- Obter sucesso - responde Tio Bicho. à beira dum ac de tosse. - Galgar posições, ganhar dinheiro para comprar o essas bugigangas e engenhocas que dão conforto,
prazer e presa" social.
- Pois bem - continua Floriano - na luta para obter coisas, um homem como o Sandoval procura ser aceito, agra e a maneira mais fácil de conseguir isso é "dançar
de acordo com par", conformar-se com as regras que regem" a sociedade em que v Para ele é importante pertencer a clubes grã-finos, ter seu no na coluna social dos
jornais e sua fotografia nessas revistas elegs tes impressas em papel couché, produtos da ilusória prospen que a Guerra nos trouxe. Nosso herói tem de ser visto
em co panhia (e se possível em tom de intimidade) de pessoas impor tes ao mundo do comércio. da indústria, das finanças e da poliu Ou mesmo de aristocratas arruinados,
contanto que "tenham carta
Roque Bandeira, que respira penosamente, puxa-lhe do bra
- Pelo amor de Deus, mais devagar! Não vamos tirar o da forca. Mas continua o teu "retrato".
- Em suma, o homem está no mercado. Quem me com Quem me aluga? Quem dá mais?
- Não estarás exagerando? - pergunta o marista.
REUNIAO DE FAMILIA - II 233

- Talvez o Floriano esteja carregando nos traços caricaturais - opina Tio Bicho. - Mas isso não invalida a parecença do retrato.
. Qnem pode negar que é simpático. gentil. persuasivo? Sabe impor-se aos outros por meio da lisonja e duma série de pequenas cortesias e atenções ... Flores para
madame no dia de seu aniversário. porque o marido é um homem importante que no fraturo lhe poderá vir a ser útil... Telefonemas para o figurão. a propósito de tudo
e a propósito de nada: o que importa é agradá-lo. ncensar-lhe a vaidade... Se está com um padre. o nosso. herói" puxa o assunto religião e ninguéfi é mais católico
que ele: Se ;conversa. hoje com um torcedor do Flamengo. declara-se logo "doente" pelo rubro-negro: como amanhã. com outro interlocutor. poderá apresentar-se como
fanático do Botafogo. do América ou do Vasco... Na presença dum getulista~. ninguém será mais queremísta que ele. Agora me digam. quem pode recusar um artigo assim
com tantas qualidades sedutoras?
- Esqúeces que o Sandoval é uma criatura de Deus - inter-, rompe-o o marista. - Tem uma alma imortál.
- Eu.esqueço? - exclama Floriano. - Quem esquece é ,ele! Afinal de contas se torno .o Sandoval como exémplo é porque o tenho observado de pérto. Bem ou mal. o rapaz
.entrou na família. convive conosco .." .
Vai acrescentar: "dorme com a minha irmã" ,- mas contém-së.
Os três amigós dão alguns passos- em silêncio .n~ rua deserta.
- Mas achas que elq sabe que se porta como uma mercadoria? - pergunta Irmão Toríbio.
- Claro que nãoo. lr um _produto do meio. em que se ci~íou. Nesta nossa civilização ,de "coisas"; esse. espírito mercantil passou a ser um imperativo de sobrevivência.


Floriano e Irmão Zeca deixam Tio Bicho à porta de sua casa
- continuam a andar na direção do Ginásio Champagnat. onde o marista vive. O ar está embalsamado pela fragrância das magnólias que vem dum jardim das redondezas.
Caminham calados até o portão do colégio; junco do qual fazem alto. Irmão Toríbio apalpa o crucifixo nervosamente. Fica um instante de cabeça baixa, sempre em silëncio,
e depois diz:
- É engraçado ... Estou há dias para te falar num assunto . .
- não sei como começar.
Sílvia - pensa o outro num susto. - O Zeca deve ter des confiado de alguma coisa .. .
- É sobre o meu pai .. .
- Ahl - faz Floriano, aliviado.
234 O ARQUIPI?LAGO
- Creio que o conheceste bem. Pelo menos, melhor que ea. Faz uma pausa. E depois: - Que espécie de homem era ele?
- Não acho -fácil definir tio Toríbio ... As criaturas rentemente simples são às vezes as. mais difí~ois de derifrar. O te posso dizer é que eu gostava muito dele
... Só lamento n lhe ter dito isso claramente.
O marista sacode a cabeça. Das folhas do jacarandá de do qual se encontram, de quando em quando pingam gotas da que. a chuva ali deixou. Floriano sente uma delas
bater-lhe, na testa.
- As vezes ouço histórias sobre ele ... Episódios, aned as suas aventuras com mulheres, tu compreendes, essas coisas superfície ... Junto esses fragmentos e tento
formar o retrato lógico de meu pai. Mas qual! Não consigo. Creio que me fa1 os pedaços principais. E os que eu tenho nãoo se casam com outros .. .
- Teu pai era um homem autêntico, Zeca, dos poucos tenho conhecido na vida. Eu te diria que ele foi uma mistura Pantagruel, Pedro Malazarte e D"Artagnan. O que dava
mais vista era a sua parte pantagruélica e malazarteana .. .
- As vezes penso que ele foi um Cruzado sem cansa.
Floriano encolhe os ombros, indeciso.
- Não sei ... O que te posso afirmar é que tio Tó_ nunca teve paciência com _os demagogos, os hipócritas e os fai moralistas. Potiticamente, era um `idealista à
sua maneira, embo fizeêse empenho em provar o contrário, alegando que se metia revoluções simplesmente porque gostava de pelear. ~lão há dúvt que era um homem de
ação e de grandes apetites. E completam. sem inibiçõésl J
- Rezo todas as noites pela- sua alína - murmúra Zeca: sorrindo cóm ternura, recorda: - Eu me lembro do "dias em q lhe contei que queria ser marista. Primeiro ficou
perplexo, d furioso. Quis me tirar a idéia dá cabeça. I,embio-me cla~amen das palavras dele: "Será que tu és bem homem? Voou mandai doutor te exauri"nar. Onde ~e
viu úm Cambará padre?" "
- Tu compreendes, para um gaúcho como teú pai, entrar pa uma ordem religiosa é uma espécie de- autocastràção-... Já dev ter observado que para os Cambárás nãoo há
nada- mais desmo
liiüitãZ yse ISSO.
- Claro que compreendo. E nãoo penses que sou muito dift rente de meu pai em matéria de temperamento. Quando me gnento (e isso acontece com moita freqüência) me vêm
à pon da língua os piores palavrôes, e preciso fazer um esforço dana para não largá-los.. ,
Floriano sorri.
REUNIXO DE FAMILIA - iI 235

- Mas isso faz mal, Zeca. Falo de cadeira. Esses palavríies
que recalcamos acabam nos sujando por dentro. Te digo mais:
eles causam menos mal jogados na cara do próximo do que repri
midos dentro de nós.
- Eu sei disso ... e como!
Faz-se um novo silêncio, ao cabo do qual Floriano diz:
- Teu pai tinha aspectos curiosos. Era. por exemplo. louco
por novelas de capa e espada. Quando se agarrava com uma delas.
passava a noite em claro, lendo .. .
- E esses livros ... se perderam ?
- Creio que alguns deles ainda existem lá pelo Sobrado, ou
na casa da estância. Por quê? ,
- Eu gostaria de ficar com uns. dois ou três .. . - Está bem. Vou procurá-los amanhâ mesmo.
Ficam ambos calados por alguns instantes. Floriano sente que
Irmão Zeca nãoo lhe fez ainda a pergunta essencial. Ele pigarreia.
apalpa o crucifixo. Por fim, torna a falar:
- Tu estavas com o papai ... quando ele morreu, nãoo?
- Sim. Tio Toríbio expirou por assim dizer nos meus bra
ços .. .
Novas hesitação da parte do marista.
- Ele... ele disse alguma coisa na hora da morte?
- Bom, tu sabes ... Estava enfraquecido pela brutal perda
de sangue, eu mal podia perceber o que ele dizia.. .
- Mas... podes repetir esse pouco que ouviste?
Zeca espera que o pai tenha pronunciado o nome de Deus na
hora derradeira - reflete Floriano, comovido. E uma bela ficção
lhe ocorre. Sem olhar para o amigo, inventa:
- Só pude ouvir claramente uma palavra : o teu nome. Depois dum novo silêncio, com um leve tremor na voz emba
ciada, o marista pergunta:
- Entáo ele pronuncïou o .meu nomé? Estás certo de que
ouviste direito? _
- Certíssimo - diz Floriano, empolgado com a própria
mentira.
A sombra da árvore não lhe permite ver clarameme as feições dó
outro, mas ele sente uma espécie de resplendor na face do amigo. - Então, afinal " de contas, meu pai gostava de mim .. .
- Mas nãoo descobriste ainda, hómem, que lá no Sobrado
todos gostamos dé ti ?
Despedem-se em silêncio com um longo aperto de mão.
CADERNO DE PAUTA SIMPLES
Bandeira tem razão. E necessário agarrar o touro a unha. Enfrentar sem medo e com a alegria possível "el momento de la verdad". Esta talvez seja a última oportunidade.
Ou pelo menos a melhor.

Penso num novo romance. Solução - quién sabe! - para muitos dos problemas deste desenraizado. Tentativa de compreensão das ilhas do arquipélago a que pertenço ou,
ántes, devia pertencer. Abertura de meus portos espirituais ao comércio das outras ilhas.
Já tardam os navios que trazem o meu Dom João V 1.
A façanha do Menino: deixar as muletas das linhas paralelas dos cadernos de pauta dupla para caminhar como um audaz equilibrista sobre o fio das linhas simples.
Proezo que exijo do, adulto: enfrentar o papel completamente sem linhas, saltar pura o vácuo branco e nele criar ou recriar um mundo.
Folheando ontem ao acaso uma velha. Bíblia, meu olhar caiu sobre este primeiro versículo do Capítulo IV do Gênesis:
"E conheceu Adão a Eva, sua mulher. e ela concebeu e
pariu a Caim, e disse: Alcancei do Senhor um varão."
Por alguma razão profunda, "conhecer" é sinônimo de fornicar, penetrar, amar. Escrever sobre minha terra e minha gente - haverá melhor maneira de conhecê-las?
Conhecê-las para amá-las. Mas amá-las mesmo que nãoo consiga compreendê-las.
"Porque em verdade vos digo que fora do amor não há salvação."
Eis uma frase que eu jamais teria a coragem de escrever num romance, atribuindo-a a mim mesmo. Ou a um sósia espiritual.
Mas quem foi que nos incutiu este pudor dos sehrimentos? D. Revocata? O velho Licurgo, legislador prudente? Os meninos de Esparto? Ou Maria Valéria, a fada de aço
e gelo?
238 O ARQUIP8LAGO
Um dia destes tive a curiosidade de rever o quarto que pect
a minha irmã morta. Pedia chave à Dinda e entrei. Um ato masoquismo. Ou de penitência, o que vem a dar no mesmo.
Tudo lá dentro está exatamente como no dia em que levar Alicinha do Sobrado paro o jazigo perpétuo da família, isso mais de vinte anos. Papai não permitiu que ninguém
mais oco esse quarto. nem gire se dessem as roupas e os ob.¡etos de uso soai da menino a quem quer que fosse. Transformou a pego alcova numa espécie de mórhido museu.
O tempo devé ter cau rizado as feridas do Dr. Rodrigo, mas ele continua a exigir seja mantido o santuário.
Não toquei em nada lá dentro. Só olhei, lembrei e proc (com medíocre sucesso) sentir-me com treze anos. Nada me co ueu mais que uns sapatinhos da menina, outrora
brancos, que fico ram .esquecidos a um canto e ainda lá estão, como dois gatin mumificados. A boneca continua em cima da cama. Seu vestid rosado desbotou, como a
cabeleira. 1Nas seus olhos" de vidro ainda do mesmo. azul que perturbava o lblenino. E que o Hom iria encontrar treze anos .mais tarde nos olhos duma estrangeire
Saí do quarto carregado de lembranças e remorsos. Remor
Quem reinava no Sóbrado? Alicinha,~ anjo rosado de cabelos anelados. Montada na perna do pai brincava de cavalinho meu tordílho, opa! opa! sabes quem tens na garupa?
A flor mais bela da terra.
O lI~/enino enciumado
ia curtir seu despeito no torreão do Castelo. Um dia lá das ameias olhando as torres da igreja viu um enterro saindo ao dobrar grave do sino.
No branco caixão pequenino que pálida infanta dormia? As carpideiras sussurram Alicinha pobrezinha Alicinha Cambará.
E havia o Enigma. O quebra-cabeças essencial. O diabólico jogo de armar. O lblenino juntava"os pedaços do puzzle, procurando formar com eles "o quadro completo.

Viu um dia no A"giro tio Toríbio castrar um cavalo. Na hora
do sangue quis fechar os olhos mas o fascínio foi mais forte que
o medo.
Terminada a operação o tio voltou-se para ele, empunhando
a faca ensangüentada:
Agora vamos capar o Floriano!
O Menino encolheu-se, protegendo com ambas as mãos a
preciosidade.
Laurinda soltou uma risada:
Não façam isso! Sem essa coisa como é que ele vai fazer filhos
quando ficar homem?
Os piás da estância davam ao Menino lições de sexo, chamando
sua atenção para a coreografia amorosa dos animais.
Garanhões empinavam-se sobre éguas.
Touros agrediam vacas com suas rubras espadas incandescentes. Era ruidoso o amor dos gatos gemebundos.
CADERNO DE PAUTA SIMPLES 239
Fechado o triste casarão toda a família de luto olhos inchados de pranto papai gritando no quarto Deus me roubou a princesa!
Debaixo da tersa fria segundo contava Laurinda a cabeleira dos morros continuava a cresce.
Deus me perdoe e livre de pensar coisas malvadas!
Queria esquecer, nãoo podia os cabelos da menina crescendo na sepultura. De noite o sono não veio nenhuma reza ajudou entrou no quarto do irmâ beijou-lhe os cabelos
de uiva voltou pra cama e dormiu.
#24O O ARQUIPÉLAGO

Câea aflitos resfolgavam, a língua de fora, em prolong engates.
Rútilos galos dançavam um breve minueto antes do vôo er
- havia também os porcos, as cabras, os insetos.. .
- Menino estudava ao vivo sua História Natural.
- o que mais o encantava era o amor aéreo das libélulas, seus grandes olhos de jóia: o macho enlaçava a fêmea e assim u realizavam o ato da fecundação num vôo que
era um- bailado descente.
Um dia o Menino descobriu por acaso (teria sido mesmo ac como a coisa se passava entre o homem e a mulher. (Um pe uma chinoca, dentro do bambual, na hora da sesta.
) Era comdt amor das libélulas. Só que nãoo voavam. Mas era também c o dos cachorros. E isso o assustou.
CADERNO DF PALJ~"A SIMPLES 241

E os cabelos do pur e da filha crescaam na sepultura.
Deitou-se, dormiu, sonhou era grande, usava cartola cheirava a galo, fumava era o Pai e dormia no grande leüo conjugal.
Poc esse tempo ele elaborava a "sua mitologia particular.

Pai era Sol. Mâe era Lua. Pai era ouro. Mãe era prata. Pai era fogo. Mãe era água. Pai era vento. Mãe era terra.
em
Mas a frase terrível que um piá lhe soprou no ouvido, par cacos esse universo metafórico.
Odiou o pai, chorou a mãe
- do torreão do Castelo
viu outro enterro na igfeja desta vez um caixão grande preto com alças de ouro levado por homens sérios crepe negro no Sobrado bandeiras a meio pau
- sino de novo dobrando.

Deus me perdoe e livre de pensar coisas malvadas!

Não quero que meu pat morra nem a filha que ele adora. Tarde demais! Ambos foram pro reino da Moura Torta. Meu tordilha, upa! upa! sabes quem tens na garupa? Um
cavaleiro que busca no negro campo da morte sua princesinha perdida.
Rele:o o que acabo de escrever. Inaproveitável! O romance que estou projetando nãoo pode, não deve ser autobiográfico. Usar a terceira pessoa, isso sim. Evitar o
cilada que a saudade nos arma, fazendo-nos cair no perigoso alçapão da enfãncia. A educação sexual (ou falta de... ) do Menino não terá sido diferente da de muitos
milhares ou milhões de outros meninos através do espaço e do tempo. Por que então repetir coisas sahidas?
Fica decidido que este material não será aproveitado no romance.
Mas não estarei mais uma vez fugindo ao touro, depois de provocá-lo com elaborados passes de capa?
Aqui vai uma história que me parece importante. Na minha vida, quero dizer.
Eu teria uns dez anos. O mës? Agosto. Fazia frio e uma cerração envolvia a cidade. Saí de manhã cedo rumo da escola, com a mochila de livros às costas e um gosto
de mel no boca.
Comecei a assobiar, sinal de que arquitetava faz-de-contas. Não estava mais em Santa Fé, mas em pleno nevoeiro de Londres. Meu nome era Phtneas Fogg e eu ia a caminho
do Reform Club, onde apostaria com meus amigos que era capaz de fazer a volta ao mundo em apenas oitenta dias.
Na Rua Voluntártos da Pátria me aproximei curioso dum ajuntamento de gente. E vi estendido no barro o primeiro degolado de toda a minha vida. O cadáver tinha uma
rigidez que antes eu só vira em cachòrros mortos. Sua boca estava aberta, mas havia outra boca mais horrenda escancarada no pescoço, e os lábios dessa segunda boca
estavam enegrecidos de sangue coagulado. Sangue havia também nas roupas do degolado e na lama da rua. Recuei, nauseado, recostei-me numa parede, e o meu mel se transformou
em fel. Voltei estonteado para casa e me refugiei no Castelo. Levei um pito por ter gazeado a aula. Mas não contei a ninguém (nem naquele dia nem nunca) o que tinha
visto.
#2~2 O ARQUIP~LAGO
- mundo horrível dos grandes que chegavam a sangue de boi a sangue de homem a suor de cavalo a sarro de cigarro de palha.
- homens brutais que coçavam os testículos ó gaúchos bombachudos ó capanoas melenudos com bioodes de fumo em rama barbicacho nos dentes
pistola e facão na cinta esporas nas horas escarro na voz a la fresca!
a la putcha! já te corto! já te sangro! já te capo!
á mundo de histórias negras! Ontem estriparam um vivente lá pras bandas do Barro Preto.
- soldado fez mal pra donzela
- a coitada tomou liso!. Caiu geada a noite inteiro um mendigo morreu de frio
- os seus pobres olhos vidrados espelharam o gelo do céu.
Por tudo isso o Menino entrava no barco de Iara
com o nome Nemrod na proa saía Aros Sete Mares ia ver seu bom amigo
- monarca de Sião.
E via o sol de Bangkok luzir nas cúpulas douro. Ou -então fechava os olhos
- contra o escuro das pálpebras linhar o seu calidoscópio geórrsetrias deslumbrantes jóias, florões e astros vagq-lumes, óorbolètas dragões e arvoras boreais.
CADERNO DE PAUTA SIMPLES 243
Ou então abra a janela
do torreão do Castelo esperando a Grande Visita. Pearl White, a brava Elaine a heroína dos seriados
a mais bela mulher do mundo o maior de seus amores vinha loura: alva e muda deitar-se no seu divã. Mas ai! os chineses sinistros dos Mistérios ~de Nova York surgiam
com seus filtros seus venenos e punhais Salta, Eláine, pra garupa do meu pingo alazão vou levar-te pra palácio do monarca de Sião.

Nada do que acabo de escrever presta. São meras bandarilhas com papéis coloridos que atiro a medo e de longe contra o lombo
do touro.
Erno"frei há dias no fundo duma gaveto uma fotografia de J. F de Assis Brasil com uma dedicatória autógrafo para meu avó Licurgo. Fiquei entretido a reconstituir
o retratinhó menta! que o Menino tinha dessa figura. e formado das coisas que a respeito dela ouvia ou lia. Mais ou menos assim:

Estadista, diplomara, poliglota, literato político, aristocrata estancieiro, inventor só quer o voto secreto a justiça e a liberdade. Senhor dum belo Castelo e de
muita pontaria escreve seu nome a bala até com os pingos nos ü
Coisaa inesquecíveis de 1923: a minha noite de insórna e medo, quando umte e dois cadáveres de rovolucronários morrós no assalto à cidade estavam sendo velados
no porão do Sobrado. Os negros
#244 O ARQUIPÉLAGO
da casa e mais os da vizinhança rezaram de madrugada um ter puxado pela Laurinda. No meu espírito as vozes soturnas de1 ram a noite mais noite e os mortos mais mortos.
Outras lembranças de 23: a notícia de que a peste bubSn" campeava na cidade. E a nossa guerra de extermínio aos rat Deve ser por isso que até hoje não posso dissociar
a palavra r da idéia de peste. E de trigo roxo. E das mãos da Dinda, p semeavam a morte no porão.
L E N C O E N C A R N A D O
1
Janeiro de 1923 entrou quente e seco. Maria Valéria e Flora andavam alarmadas: os jornais noticiavam casos de bubônica em várias localidades do Estado. E quando
A Voz da Serra, sob cabe~alhos sensacionais. anunciou a descoberta de um doente suspeito no Purgatório e de outro no Barro Preto, as mulheres do Sobrado iniciaram
uma campanha meio histérica contra os ratos. Foí Maria Valéria quem deu o brado de guerra: defumou toda a casa, espalhou trigó roxo e pó de mosquito no porão e doutrinou
as crianças: "Onde enxergarem um rato, matem. Mas não encostem nem um dedo nele!" E nos dias que se seguiram não se faiou em outra coisa no casarão, mesmo à hora
das refeições. Contavam-se casos de penteados: a coisa começava com uma íngua no sovaco ou nas virilhas. tudo isso com febre alta, tonturas, dores de cabeça lancinantes,
vômitos: depois começavam a rebentar os bubões.. .
As crianças escutavam essas histórias, de olhos arregalados. Os comentários chegarám a tal - extremo de realismo, que Rodrigo explodiu:
- Por amor de Deus, titia! Pare com isso, não assuste as críanças.
Mas as crianças já estavam suficientemente assustadas. Um dia, ao avistarem um camundongo, Alicinha e Sílvia tiveram uma crise de nervos e puseram-se ambas a soltar
gritos estridentes e a tremer da cabeça aos pés. Nesse mesmo dia, Jango, Zeca e Edu saíram armados de cacetes e bodoques, a dar caça aos ratos do porão. Foi um verdadeiro
massacre.


Rodrigo entregava aos poucos sua clínica particular a Dante Camerino. Agora só atendia - e com muito pouco entusiasmo - um que outro cliente antigo. Dividia seu
tempo entre um ócio quase inteligente e suas apreensões e expectativas ante a situação política.
#246 O ARQUIPÉLAGO

Costumava dizer que, quanto à peste, só o preocupava o Ratão sitivista.
Uma tarde o Cnca Lopes apareceu esbaforido na farmácia contou:
- Credo. menino! Sabem da última? Descobriram mais casos de bubônica na Sibérial
Rodrigo enfureceu-se:
- Há mais de um mês os deputados da oposicão pediram Assembléia que votasse uma verba especial de mil contos para conll bater a bubónica, mas até hoje nada ficou
resolvido. No entant essa mesma Assembléia aprovou o emprego de mil- contos na def da ordem no Estado. - Abriu os braços. ante o olhar entre espan fado e admirativo
de Gabriel. - Defesa contra quem? Bsses chi mangos estão vendo fantasmas!
Naquele mesmo dia, porém, Chiru veio ao Sobrado para con que tropas revolurionárias sob o comando do Gen. Menna Barret ameaçavam a cidade de Passo Fundo.
- Não digal - exclamou Rodrigo. E consultou o pai com n olhar cheio de sugestões belicosas.
Licurgo cuspiu na escarradeira, tirou uma tragada do seu crioukt e, com os olhos entrecerrados, disse:
- Se isso é verdade, nossos companheiros se precipitaram. U revolução não se faz assim desse jeito. É preciso organizar tn direito para a gente poder ir até o fim.
$ indispensável que haja ~ vantes ao mesmo tempo em todo o Estado.
No dia seguinte Rodrigo reuniu na casa de Juquinha Macedo os principais chefes assisistas de Santa Fé para discutir com eles à? situação. Todos achavam que a revolução
era inevitável, quest$ de dias ou talvez de horas. Rodrigo cruzou os braços:
- Mas e nós ?
- A minha opinião - disse o dono da casa - é que devem nos preparar e entrar na dança o mais cedo possível.
Alvarino Amaral sacudiu a cabeça lentamente. concordando.
- Recebi hoje uma çarta do Artur Caetano - contou - dit zendo que ele vai telegrafar ao Dr. Artur Bernardes comunicou o início da revolução.
Cacique Fagundes apalpou instintivamente o cabo do revólver" Rodrigo sentiu-se picado pelo despeito. Por que Artur Caetano:
aão havia escrito também a ele, Rodrigo, ou ao velho Licurgo? Po~~
que os deixava no escuro? A coisa assim começava mal.. . Olhou para o pai
- Qual é a sua opinião? - perguntou.
Licurgo olhava para o bico das botinas reiúnas.
- Eu acho -,disse - que não devemos nos precipitar.
Aquela noite Rodrigo sonhou que estava num combate, fazia frente a um pelotão da Brigada Militar armado de metralhadoras, enquanto ele tinha na mão apenas a pistolinha
de espoleta de cano flácido. Apertava aflito no gatilho mas a arma negava fogo. Na sua impotência ele gritava: "Venham, covardes!" As balas zuniam ao redor da sua
cabeça. De repente ele era São. Jorge, montado num cavalo branco, com uma lança de guajuvira em punho. la matar o dragão que ameaçava devorar uma princesa que gritava,
gaitava ... ,
Foi despertado por um grito. Flora acordou também num sobressalto: "~ a Alicinhal" Levantaram-se ambos, correram para o quarto da filha, acenderam a luz e a encontraram
de pé, na cama, com uma expressão de pavor no rosto pálido, os olhos exorbitados. o corpinho todo trêmulo.
- Minha queridal - exclamou Flora, abraçando a menina e erguendo-a nos braços. - Que foi? Que foi?
Quando pôde falar, a menina contou que tinha visto um ratão enorme a um canto do quarto - um negro ratão de olhos de fogo que tinha vindo para levá-la para o cemitério.
Flora ergueu os olhos para o marido e murmurou:
- Teve um pesadelo.
Rodrigo franziu o sobrolho, lembrando-se de seu próprio sonho. Era curioso como ambos se completavam. O dragão que ele ia matar era o ratão do pesadelo da filha
... a princesinha. Fosse cómo fosse, ele e Flora haviam chegado atempo de livrá-la do perigo. Enternecido, pôs-se a acariciar os cabelos da criança, que ainda soluçava.
Depois tomou-a nos braços e levou-a para sua própria cama, colocando-a entre ele e Flora.
LENCO ENCARNADO 247

- Mas, papai - replicou Rodrigo - companheiros nossos já estão em armas, nãoo podemos deixá-los sozinhos. Tive notícia hoje de que o Gen. Firmino de Paula está organizando
em Santa Bárbara um Corpo Provisório de mil e quinhentos homens para marchar contra as forças do Gen. Menna Barreto.
Licurgo sacudia a cabeça, obstinado.
- Se querem a minha opinião, é essa. Devemos nos preparar mas só entrar na revolução quando a coisa estiver madura.
- Madura? ,- repetiu Rodrigo. mal contendo a impaciência. - Está caindo de podre!
Licurgo ergueu o olhar para o filho.
- O senhor se esquece - disse - que a Assembléia ainda nãoo se manifestou sobre o resultado das eleições. O direito é esperar. A gente nunca sabe.
._ Rodrigo fez um gesto de desalento e sentou-se, caindo num mutismo ressentido. Os outros se retiraram pouco depois, sem chegarem a nenhum resultado positivo.
248 O ARQUIPÉLAGO
- Não apaguem a luz - choramingou Alicinha.
- Está bem, minha princesa - disse ele, beijando-lhe a test
Pouco depois a criaturinha adormeceu com os braços ao redor d
seu pescoço.
No dia seguinte Rodrigo e Flora foram despertados por Edu que entrou no quarto, no seu macacão azul, contando uma proeza. - Matei dez ratos.
Rodrigo soergueu-se, fez o filho sentar-se na cama e, ainda co os olhos pesados de sono, perguntou: - Como?
- Com o meu canhão.
- Onde estão os ratos mortos?
Por um instante Edu não respondeu. Uma sombra passou-lh pelos grandes olhos castanhos.
- O gato comeu.
- Que gato?
Não havia nenhum gato ou cachorro no Sobrado. pois Man Valéria não suportava animais domésticos.
- O gato grande, mais grande que um cavalo. Estava na minha cama, me olhando .. .
Flora e Rodrigo entreolharam-se. Edu também tivera seu p
sadelo.
Toríbio continuava no Angico. Rodrigo escreveu-lhe um bilhe pondo-o ao corrente dos últimos acontecimentos. Terminou cosa estas palavras: "Acho que agora devemos
começar os preparatiuc a sério. Tenho pensado muito no teu plano. Ontem visitei a se do Tiro de Guerra, onde contei 1OO fuzis Mauser corn as respecti"uas baionetas
e várias caixas com pentes de balas. Podemos dar amo batida lá, uma noite, e "requisitar" esse material. Estou pensande~ também em ir a Porto Alegre me avistar com
os próceres assisistas e discutir com eles a possibilidade de criar uma coluna revolucionária em Santa Fé."
Nesse mesmo dia Stein apareceu no Sobrado com a notícia drh que tropas francesas e belgas tinham invadido o Ruhr.
- Que me importa ? - vociferou Rodrigo. - Estamos com a nossa revolução praticamente iniciada e tu me vens com o Ruhr! Que é que tens na cabeça, rapaz? Miolos ou
trampa?
Coma Stein ficasse vermelho e desconcertado. Rodrigo arrepen deu-se de imediato da sua agressividade.
- Me desculpa, mas é que ando danado com a situação. Contou-lhe os últimos acontecimentos. Revolucionários e legá-~ listas haviam já tido um encontro armado na divisa
de Passo Fundes
LENDO ENCARNADO 249

com Guaporé. Esperava-se para qualquer momento o levante de Leonel Rocha e sua gente na Palmeira. Outros chefes assisistas reuniam forças na fronteira.~"No entanto
os oposicionistas de Santa Fé não faziam nada, estavam de braços cruzados. Não era mesmo para deixar um Cristão desesperado?
Stein, porém, não parecia muito impressionado pelas notícias. Repetiu a Rodrigo o que havia dito a Roque Bandeira aquela manhã. Não olhava os acontecimentos políticos
dum ângulo apenas nacional e muito menos estadual. Distinguia entre as revoluções com erre minúsculo e a grande Revolução com erre maiúsculo. O comunismo era a Revolução
Universal. A invasão do Ruhr não passava de mais um arreganho dos capitalistas, dos trastes e dos cartéis, que estavam assim cavando a própria ruína e preparando
o caminho para a sociedade socialista do futuro.
Rodrigo d¢ novo perdeu a paciênria. Segurou os õmbros do rapaz com ambas as mãos e sacudiu-o, num simulacró de violência.
- Está bem! - exclamou. - Mas esta revoluçãozinha estadual, queiras ou nãoo queiras, vai saltar na tua tara. E não poderás ficar indiferente.


Nos dias que se seguiram., as notícias que chegavam de várias partes do Estado eram de tal natureza. que Rodrigo não se pôde mais conter: embarcou para Porto Alegre.
Voltou para Santa Fé exatamente no dia em que a Comissão de Constituição e Poderes da Assembléïa proclamava o resultado de seus trabalhos de apuração, dando a Borges
de Medeiros a maioria de votos necessária à sua reeleição..
E quando entrou no Sobrado, moído de cansaço e sujo ainda da poeira da viagem - foguetes explodiam na praça, por cima da cúpula da lntendência. Madruga. decerta
festejava a vitória de seu partido. Pessoas corriam de todos os lados para o palácio municipal. a fim de lerem as notícias.
- Um banho! - gritou Rodrigo depois de dar um beijo rápido na face de Flora. - Antes de maïs nada. um banho! Estou sujo por fora e par dentro. Que miséria! Que subserviência!
Só a revolução pode salvar o Rïo Grande duma completa degringolada moral!
Correu para o ehuveiró.
À noite reuniu em casa os companheiros de campanha e contoulhes o que tinha visto e ouvido na semana que passara em Porto Alegre.
- O que lhes vou contar - disse, de pé no meio do escritório, passeando Oolhar em torno - não são boatos. mas verdades, dolorosas, vergonhosas verdades.
2
25O O ARQUIPÉLAGO

O Cel. Carique sacudiu a cabeça lentamente. Licurgo pitava sem encarar o filho. Juquinha Macedo, o olhar focado no amigo. procurava um pedaço de fumo em rama nos
bolsos do casaco.
- Prestem bem atenção - Rodrigo fez uma pausa teatral,. respirou fundo e depois continuou : - Faz já algum tempo qu a Comissão de Poderes chegou à conclusão de que
o Dr. Borget de Medeiros não tinha obtïdo os três quartos da votação total. que precisava para ser reeleito ... O difícil era dar a notíria ao Ditador. Os três membros
da comissão um dia encheram-se de coragem e, com o Dr. Getúlio Vargas à frente, foram ao Palário do Governo para contar a triste história ao Chefe. - De novo Rodrigo
se calou, cruzou os braços. olhou em torno. - E sabem que foi que aconteceu? Escutem e tremam. Quando a trinca entrou na sala, de cara fechada. o Dr. Medeiros veio
sorridente ao encontro deles e, antes que os seus moços tivessem tempo de dizer "Bom dia, Excelência", adiantou-se: "Já sei! Vieram me felicitar pela minha reeleição."
Tableau! Os deputados se entreolharam. st acovardaram e viram que não havia outro remédio senãoo representar também a farsa. Voltaram para a Assembléia com o rabo
entre as pernas. fecharam-se a sete chaves e trataram de fazer a alquimia de costume para nãoo decepcionar o sátrapa.
- Mas isso é uma barbaridade! - exclamou o Cel. Cacique. com sua voz de china velha.
Licurgo continuava silencioso, os olhos no chão, o cigarro agora apagado entre os dentes graúdos e amarelentos.
- Mas como foi que eles arranjaram essa tramóia? - indagou Juquinha Macedo.
- Muito simples - respondeu Rodrigo. - Violaram as atas recebidas dos municípios, falsificaram outras de acordo com ~ interesses de seu candidato. anularam as eleições
em mesas onde o Dr. Assis Brasil venceu ... Contaram a favor do Borjpca ~os votos de defuntos e ausentes, em suma, fizeram conta de chegar. Para resumir: roubaram
seis mil e trezentos e tantos votos ao nosso candidato!
Sentou-se pesadamente numa poltrona e ficou a olhar para o retrato do Dr. Júlio de Castilhos, com "uma expressão de censura e rancor, como se o Patriarca fosse o
responsável direto por toda aquela vergonheira.
- E que fizeram os representantes do Dr. Assis Brasil? -~ perguntou Juquinha Macedo.
- Ora! A comissão não permitiu a entrada deles na sala onde se fazia a apuração, sob o pretexto cretino de que o regimento da Assembléia é omisso a esse respèito.
Vejam só a safadeza. Toda. o mundo sabe que há uma disposição na lei eleitoral ~ que admiti a intervenção de fiscais de qualquer candidato, tateto nas mesar eleitorais
como nas apurações gerais. "
LENÇO ENCARNADO 251
Licurgo pigarreou forte e depois disse:
- Eu náo esperava que o Ur. Getúlio se prestasse a essa in
dignidade.
Rodrigo desferiu uma palmada na guarda da poltrona.
- Ora o Dr. Getúliol O que ele quer é fazer a sua carreira política na maciota. Vai ser agora deputado federal.
Houve uma longa pausa na conversa. O ar se azulava da fumaça dos cigarrôes de palha dos três chefes políticos.
- $om - disse o Cel. Cacique, quebrando o silêncio - a revolução está na rua. Agora eu queria saber que é que vamos fazer .. .
Juquinha Macedo voltou-se para Licurgo, como para lhe pedir um pronunciamento. Rodrígo aproximou-se da janela, ergueu a vidraça e ficou um instante a olhar para
o edifício da Intendência. lá do outro lado da praça. Foi dali que ouviu a voz cautelosa do pai.
- Não estou contra a revoluçáo, muito pelo contrário. O que nãoo me agrada é a precipitaçáo. Não sou homem de ir hoje para a coxilha e amanhâ emigrar para o Uruguai
on pedir garantias de vida ao Exército nacional. Se eu entrar nessa briga é para ir até o fim.
Por alguns instantes ninguém disse nada. Rodrigo voltou-se. com gana de sacudir o pai e fazê-lo compreender a realidade.
- Nós todos queremos ir até o fim, coronel - disse J~gnínha Macedo. - Fu me comprometo a reunir uns duzentos caboclos aguerridos em quinze dias. Se o Cel. Amaral
estivesse aqui, garanto como ele dizia que tem perto de duzentos e cinqüenta homens esperando suas ordens.
O Cel. Cacique sorria.
- Pois eu, companheiros, acho que não levo mais que uns vinte e cinco. Mas são vinte e cinco garantidos, índios de pêlo duro, gente buenacha que briga dez dias sem
beber água.
Rodrigo sentou-se, mais animado. E exagerou:
- O Bio afirma que conseguimos uns cem homens no Angico e arredores.
Licurgo atirou o toco de cigarro na escarradeira.
- E o armamento? - perguntou, como para lançar um jato de água fria no entusiasmo do filho.
- Cada qual briga com o que tèm - observoa o Cel. Cariqne. - A minha indiada peleis até de facão.
Notando que o pai nãoo havia gostado da bravata, Rodrigo interveio
- Escutem - disse em voz baixa. - Vou confiar-lhes um
plano que en e o Toríbio temos para conseguir fuzis Mauser com
baionetas e muníçïies ... de graça. Mas é preciso que ninguém
saiba disso. Confio na mais absoluta discrição de meus amigos . .
252 O ARQUIPÉLAGO

Licurgo mirava o filho com olho céptico.
- Quando chegar a hora oportuna, assaltamos a sede do T de Guerra .. .
Rodrigo olhou para os interlocutores para ver o efeito de
estratagema e notou que este havia sido recebido com indiferen
Juquinha Macedo remexeu-se na cadeira.
- O amigo não leu o jornal de hoje? - perguntou. - Não. Por quê?
- O comandante da guarnição federal mandou tirar tod os ferrolhos das Mausers do Tiro .. . Rodrigo pôs-se de pé. brusco.
- Cachorros! - exclamou. - Lá se foi o nosso aras
O Cel. Cacique desatou a rir de ,mansinho. E naquele ex instante ouviu-se um silvo, seguido dum estrondo. E veio outra mais outra detonação. As vidraças do . Sobrado
tremeram. Rodri correu para a janela.
- O Madruga está se fogueteando de novo - inform - Deve ser mais algum telegrama mentiroso que chegou. Vou o que é.
Apanhou o revólver que estava na gaveta da escrivaninha
meteu-o no bolso. Quando ia sair, o pai o deteve.
- Não admito que o senhor saia.
- Mas papai! Só quero ver o que diz esse telegrama .. . O velho encarou-o, carrancudo.
- Então o senhor não compreende que eles estão esperand um pretexto pra nos liquidar? Se o senhor vai até" lá eles começa. com dichotes, o senhor se esquenta, retruca,
eles le ofendem e senhor puxa o revólver e os bandidos le matam e depois alega que foram provocados. Então não está vendo?
Juquinha Macedo segurou no braço de Rodrigo e murmurou-
- Seu pai tem razão.
Rodrigo sentou-se, desalentado, e nãoo pôde conter seu despes - Que bostal - exclamou.
Era a primeira vez em toda a sua vida que soltava um palavra na presença do pai.
Em fins de janeiro Flora foi com os filhos para o Angico, eml çompanhia do sogro, o qual, depois de grande relutância, concor dou em levar também o Dr. Rnas. para
cuja palidez o Dr. Carbone recomendara os ares e o sol do campo. Maria Valéria ficou na cidad visto como não queria abandonar Rodrigo nem o Sobrado. Prose guindo
na sua guerra sem quartel aos ratos, metia-se no porâq~
LENÇO ENCARNADO 253
vasculhava frestas, cantos e buracos, deixando por toda a parte o seu sinistro rasto de trigo roxo. Semeava também por todas as peças pó de mosquito para matar as
pulgas transmissoras da peste. E nos jornais, que vinham cheios de notícias alarmantes sobre movimentos de tropas no Estado, ela se interessava apenas pelas que
se referiam a novos casos de bubônica.
Quando uma tardinha Rodrigo voltou para casa, a velha, que nãoo havia posto olhos nele desde manhã, perguntou:
- Ué? Por onde andou?
- Por aí. E a senhora como passou o dia?
- Matando ratos .. .
- Pois eu ando também na minha campanha contra a ratazana borgísta. Infelizmente pra esses bichos é preciso mais que trigo roxo e pó de mosquito. Armas, muitas armas
e munição é o que necessitamos.
- Então a coisa sai mesmo?
- Se sai? Já saiu! Não viu os jornais? O Chimango tomou posse hoje. Houve outro levante, em Carazinho. O Dr. Artur Caetano telegrafou ao Presidente da República
comunicando-lhe a deflagração do movimento revolucionário.
Atirou o casaco em cima duma cadeira, afrouxou o colarinho. gritou para Leocádia que lhe trouxesse uma limonada gelada.
- E vacês vão se meter?
- Já estamos metidos.
Maria Valéria nada disse. Pouco depois mandou. servir o jantar. Rodrigo comeu num silêncio sombrio. Ela o mirava de quando em quando com o rabo dos olhos, também
calada.
- Estou preocupado com Flora - murmurou ele, brincando com uma bolota de miolo de pão. - Anda nervosa, com crises de choro .. .
- Não é pra menos .. .
- Mas ela tem de compreender, Dinda!
- Compreender o quê?
- Que a vida é assim mesmo.
- Assim como?
- De tempos em tempos os homens vão para a guerra e as mulheres não têm outro remédio senão esperar com paciência. A senhora sabe disso melhor que eu.
- Mas por que tem de ser assim?
- Porque é uma lei da vida.
- Foram os homens que fizeram essa lei. Não nos consultaram. Eu pelo menos não fui ouvida nem cheirada.
- Quando nasci essa lei já existia. Não me culpe.
As janelas da sala de jantar estavam escancaradas e por elas entrava uma luz alaranjada. que envolvia a cabeça da velha. Tinha um rosto longo e descarnado,. de pômulos
levemente salientes, a pele
3
25~ O ARQUIP?LAGO

dum moreno terroso e meio ressequido. O curioso era que 3a v essa cabeça dava a impressão de ter apenas duas dimensões. Rod brincava com a absurda mas divertida
idéia de que a tia tinha "pintada" por Modiglíani, o artista que agora tanto furor ca em Paris. Maria Valéria parecia mesmo uma pintura, ali imóv cabeceira da mesa.
Havia em seu rosto uma expressão de serena irresistível energia, difícil de localizar. Estaria nos olhos escu graúdos, levemente exorbitados? Ou no nariz agressivamente
ag
- comprido? Não. Devia estar no desenho decidido da bòca rasg
- pouco afeita ao sorriso. E também na voz seca e autoritária. dispensava o auxílio de gestos.
Desde menino ele se habituara a ver em sua madrinha um s" bolo das coisas indestrutíveis e indispensáveis. Ela era a Ves de Preto. A que nunca ad.~ece. A que tem
boas mãos para doces, bolos e queijos. A que continua de pé, ativa e útil, qna
- a doença derruba os outros membros da família. E pensando n coisas Rodrigo esqueceu por alguns segundos suas preocupaçoea sorriu com ternura para a velha. Mas
o sorriso e a ternura d rum apenas alguns segundos. De novo ele foi tomado pela agitaç que o dominara o dïa inteiro.
- Pare de sacudir a perna! - ordenou Maria Valéria. Vacê está com o bicho-carpinteiro no corpo. Que foi que houv
- Ora! Estamos em fine de ,janeiro e ainda não fomos pa a coxilha. O Cel. Amaral e o Macedinho estão reunindo gente suas estâncias. Mas o papai continua remanchando..
.
- Seu pai sabe o que faz.
- Na minha opinião ele não passa dum teimoso.
- Não diga isso, menino!
- 8 que nãoo" tenha mais cara pra andar na rua. Todo mundo me olha atravessado. Faz três semanas que nãoo te coragem de entrar no clube. Estou vendo a hora em que
vão atirar na cara a pecha de covarde. Devíamos estar já na campara de armas na mão. t~ uma vergonha, uma traição aos companhei O Madruga já começou a organizar
o seu corpo provisório. Viv fazendo exercícios aí na praça, nas minhas ventas. me provoan Não agüento mais!
Calaram-se durante o tempo em que Leocádia esteve na retirando os pratos. Quando a negrinha voltou para a cozin Maria Valéria perguntou:
- Por que é que nãoo vai pro Angico com os outros? Rodrigo hesitou um instante antes de revelar a razão por q ficara na cidade.
- Tenho uma missão muito importante a cumprir aqui disse em voz baixa, olhando para os lados. - Estos compras todo o armamento que posso. O Veiga da Casa Sol simpatiza
a nossa- cansa mas morre de medo do Madruga. Foi ~nm caro
LENÇO ENCARNADO 255

convencer esse covarde a me vender as armas que tem na loja: cinco
Winchesters, três espingardas de caça, duas espadas, uns facões e
trinta caixas de balas. O homem estava pálido de medo quando
fizemos a transação.
Inclinando-se na direção da tia e baixan~ío ainda mais a voz,
acrescentou :
- Hoje de noite vou de automóvel com o Neco e o Bento
buscar esse armamento.
Maria Valéria não pareceu muito impressi~nada pela revelação. - Tome cuidado - disse ela em tom natural. - Podem
le armar uma cilada.
Rodrigo contemplava o rosto impassível da tia. As chora
deiras de Flora por um lado o impacientávam um pouco mas por
outro o lisonjeavam muito. Era bom a gente sentir-se alvo de
cuidados, querido. necessário. Mas a atitude indiferente da tia
começava a exasperá-lo. A idéia de que ele sempre fora "o mimoso
da Dinda" .lhe era agradável, embora os mimos daquela mulher
áspera e prática jamais se revelassem em palavras ou gestos.
- E a senhora? - perguntou ele. - Tem muito medo da
revolução?
A velha encolheu os ombros ossudos. - Que é que ela pode me fazer? Era uma resposta egoísta.
- Mas nãoo tem medo do que possa acontecer... a ,mim. ao
Bio, ao papai?
- Que é que adianta ter medo? Vacês vão porque querem,
porque acham que devem ir. E o futuro a Deus pertence.
Rodrigo amassou o guardanapo na mão nervosa.
- Palavra de honra. Dinda, cada vez compreendo menos a
senhora!
Ela voltou a cabeça para um lado e gritou: - Leocádia. traga a ambrosia!
Rodrigo comeu a sobremesa, apressado e desatento. Ergueu-se,
mastigando freneticamente um palito, acendeu um cigarro e por
alguns instantes ficou a caminhar na sala de visitas, dum lado para
outro, parando de instante a instante na frente do próprio retrato.
4
Por volta das" oito horas Dante Camerino e Carlo Carbone entraram no Sobrado, com ar um tanto solene, convidaram Rodrigo a ir com eles para o escritório e, uma vez
lá dentro. fecharam a porta.
- Que segredo é esse?
#l56
O ARQUIPvLAGO

Os recém-chegados entr¢olharam-se.
- Nós viemos nos apreaatar... - disse Camerino, um pouco desajeitadamente.
- Pra q uem ? Pra quë?
- Sabemos que estáo organizando uma coluna revolucionária
e queremos nos incorporar, como médicos .. .
Carbone permanecia ern silêncio, mas a cada frase de Came
rino ele sacudia afirmativarne¢te a cabeça dè gnomo. Rodrigo olhou de um para outro e depois disse:
- Agradeço Ooferecimento, mas não o aceito. Dante. não te metas nessa encrenca .. .
- Mas doutor, aonde osenhor for eu também quero ir.. .
- Está bem. está bem. Mas fica na cidade, mal estás começando atua vida profissional Deixa essa coisa de revolução para quem já está metido até os gargomilos, como
eu.
Voltou-se para Carbon¢ que estava já perfilado como um soldado.
- Dr. Carbone, o senhor nem cidadão brasileiro é ... Por
que vai comprar briga?
O italiano levou a máo ao peito num gesto operático.
- Corroo - murmurou com doçura musical - a pátria dum médico é a humanidade, E, depois, nãoo dímenticar o caso de Giuseppe Garibaldi!
Rodrigo não pôde reprimiram sorriso. Abraçou o homenzinho e fê-lo sentar-se.
- Senta-te tu também, Dante. Agóra me escutem os dois. Não pensem que sou ingrato, qse não compreendo o gesto de vocês. Longe disso! Compreendo e agradeço do fundo
do coração. Mas prestem atenção ao que vou dizer. Já temos dois médicos na nossa coluna. L certo, certíssimo que vamos ter de instalar uma cruz vermelha revolucionária
em Santa Fé, e nesse caso vocês seriam as pessoas indicadas para dirigi-la.
Carbone cofiava a barba castanha. Dante parecia comovido. Rodrigo segurou-lhe o braço, paternalmente.
- E depois, cá para nós,que ninguém mais nos ouça, não vai ficar nenhum homem no Sobrado e eu tenho um favor especíal e pedir a vocês dois, meus queridos amigos
.. .
Neste ponto sua voz convoque se quebrou e ele quase desatou o pranto.
- Quero que na minha aosência vocês protejam as mulheres e as crianças desta casa.
Neste ponto quem já tinha os olhos cintilantes de lágrimas era o italiano, que jurava per lutifadonna que, se necessário, sacrificaria a própraa vida para d¢f¢nder
as damas do Sobrado e o~
bambini.
Alguns minutos mais tarde Neco e Chiru entraram no casarão com ar de conspiradores.
- Estamos sendo seguidos - murmurou Chiru, meio ofegante.
- Por quem?
- Por um capanga do Madruga.
- Patife!
- Entramos na Pensão Veneza e o bicho entrou também. Nos sentamos e pedimos uma cerveja, vieram umas mulheres pra nossa mesa e o bandido não tirava os olhos de cima
de nós. Eu quis me levantar e perguntar "Nunca me viu. moço?", mas o Neco achou melhor não puxar briga. Saímos e viemos pra cá, e o canalha nos seguiu. Decerto está
ainda lá fora .. .
Rodrigo aproximou-se da janela e viu o vulto dum homem. debaixo duma árvore: de quando em quando se acendia a brasa do cigarro. Viu e ouviu algo mais: uma banda
de música rompeu a tocar um dobrado na frente da Intendência, cujas janelas estavam festivamente iluminadas. Em seguida foguetes começaram a atroar os ares.
- O cachorro do Madruga está festejando a posse do Chimango - rosnou Neco. - Me dá alguma coisa forte para beber.
Rodrigo deu-lhe um cálice de parati. Chiru, que suava abundantemente, tirou o casaco e pediu uma garrafa de cerveja. levou-a avidamente à boca e ficou a mamar no
gargalo. com uma fúria de terneiro faminto:
Chamando Rodrigo para um canto, Neco murmurou:
- E o negócio das armas ?
Rodrigo olhou o relógio.
- Saímos às nove. Faltam quarenta minutos. Esse barulho
na frente da Intendência é providencial. O que temos de fazer agora é despistar o bandido que. está seguindo vocês .. .
Chiru aproximou-se, perguntando:
- Qual é o plano?
- O Veiga hoje ao anoitecer passou todo o armamento para
a casa do vizinho, que é um companheiro nosso - explicou Ro
drigo. - O vizinho deve ter levado todo o material para um
galpão. nos fundos da casa. É lá que vamos buscar o armamento.
no Ford.
- Não é arriscado? - perguntou Chiru.
Rodrigo deu de ombros.
- Daqui por diante, cada passo que dermos será um risco
cada vez maior. Portanto, o melhor é a gente não pensar nisso.
Do cálice de Neco Rosa evolava-se a fragrância das Lágrimas
de Santo Antônio.
Rodrigo resolveu tomar também um trago. Depois disse:
- Para despistar a "sombra" de vocês, que está ali na praça.
Chiru, tu sais daqui naturalmente com o Carbone e o Dante.
LENÇO ENCARNADO
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256 O ARQUIPIrLAGO

Os recém-chegados entreolharam-se.
- Nós viemos nos apresentar... - disse Camerino, um pouco desajeitadamente.
- Pra q uem ? Pra q uê ?
- Sabemos que estão organizando uma coluna revolucionária
e queremos nos incorporar, como médicos .. .
Carbone permanecia em silêncio, mas a cada frase de Came
rino ele sacudia afirmativamente a cabeça dè gnomo. Rodrigo olhou de um para outro e depois disse:
- Agradeço Ooferecimento, mas não o aceito. Dante, não te metas nessa encrenca .. .
- Mas doutor. aonde o senhor for eu também quero ir .. .
- Está bem, está bem. Mas fica na cidade, mal estás começando atua -vida profissional. Deixa essa coisa de revolução para quem já está metido até os gargomílos,
como eu.
Voltou-se para Carbone, que estava já perfilado como um soldado.
- Dr. Carbone, o senhor nem cidadão brasileiro é ... Por
que vai comprar briga?
O italiano levou a mão ao peito num gesto operático.
- Carino - murmurou com doçura musical - a pátria dum médico é a humanidade. E. depois, não dimenticar o caso de Giuseppe Garibaldi!
Rodrigo não pôde reprimir um sorriso. Abraçou o homenzinho e fê-lo sentar-se.
- Senta-te tu também, Dante. Agora me escutem os dois. Não pensem que sou ingrato, que não compreendo o gesto de vocês. Longe disso! Compreendo e agradeço do fundo
do coração. Mas prestem atenção ao que vou dizer. Já temos dois médicos na nossa coluna. É certo, certíssimo que vamos ter de instalar uma cruz vermelha revolucionária
em Santa Fé, e nesse caso vocês seriam as pessoas indicadas para dirigi-la.
Carbone cofiava a barba castanha. Dante parecia comovido. Rodrigo segurou-lhe o braço, paternalmente.
- E depois, cá para nós, que ninguém mais nos ouça, não `vai ficar nenhum homem no Sobrado e eu tenho um favor especial e pedir a vocês dois. meus queridos amigos
.. .
Neste ponto sua voz como que se quebrou e ele quase desatou o pranto.
- Quero que na minha ausência vocês protejam as mulheres e as crianças desta casa.
Neste ponto quem já tinha os olhos cintilantes de lágrimas era o italiano, que jurava per la Madorna que, se necessário, sacrificaria a própria vida para defender
as damas do Sobrado e o;
bambini.
Alguns minutos mais tarde Neco e Chiru entraram no casarão com ar de conspiradores.
- Estamos sendo seguidos - murmurou Chiru, meio ofegante.
- Por quem?
- Por um capanga do Madruga.
- Patife!
- Entramos na Pensão Veneza e o bicho entrou também. Nos sentamos e pedimos uma cerveja, vieram umas mulheres pra nossa mesa e o bandido não tirava os olhos de cima
de nós. Eu quis me levantar e perguntar "Nunca me viu. moço?", mas o Neco achou melhor não puxar briga. Saímos e viemos pra cá, e o canalha nos seguiu. Decerto está
ainda lá fora .. .
Rodrigo aproximou-se da janela e viu o vulto dum homem. debaixo duma árvore: de quando em quando se ácendia a brasa do cigarro. Viu e ouviu algo mais: uma banda
de música rompeu a tocar um dobrado na frente da Intendência. cujas janelas estavam festivamente iluminadas. Em seguida foguetes começaram a atroar os ares.
- O cachorro do Madruga está festejando a posse do Chimango -rosnou Neco. - Me dá alguma coisa forte para beber.
Rodrigo deu-lhe um cálice de parati. Chiru, que suava abundantemente, tirou o casaco e pediu uma garrafa de cerveja, levou-a avidamente à boca e Eicou a mamar no
gargalo. com uma fúria de terneiro faminto:
Chamando Rodrigo para um canto, Neco murmurou:
- E o negócio das armas?
Rodrigo olhou o relógio.
- Saímos às nove. Faltam quarenta minutos. Esse barulho na frente da Intendência é providencial. O que temos de fazer agora é despistar o bandido que. está seguindo
vocês.. .
Chiru aproximou-se, perguntando:
- Qual é o plano?
- O Veiga hoje ao anoitecer passou todo o armamento para
a casa do vizinho, que é um companheiro nosso - explicou Ro
drigo. - O vizinho deve ter levado todo o material para um
galpão. nos fundos da casa. É lá que vamos buscar o armamento.
no Ford.
- Não é arriscado? - perguntou Chiru.
Rodrigo deu de ombros.
- Daqui por diante, cada passo que dermos será um risco
cada vez maior. Portanto, o melhor é a gente não pensar nisso.
Do cálice de Neco Rosa evolava-se a fragrância das Lágrimas
de Santo Antônio.
Rodrigo resolveu tomar também um trago. Depois disse:
- Para despistar a "sombra" de vocês, que está ali na praça.
Chiru, tu sais daqui naturalmente com o Carbone e o Dante.
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158 O ARQUIPrLAGO

atravessas a praça como quem vai olhar a festa do Madruga .. , fitas tira esse lenço do pescoço, senão eles te lincham. Estás compreendendo? Ora, o capanga te enxerga,,
te segue e nós aproveitantos a oportunidade e saímos pelos fundos. O Bento está com o auto pronto no quintal. Capisce?
Às nove menos dez, abraçou a tia.
- Eu já volto. Dinda! - disse. pondo o revólver na cintura. - Vá com Deus e a Virgem - disse a velha.
Neco seguiu o amigo. Carbone, Camerino e Chiru desceram
para a rua.
Maria Valéria ficou parada onde estava. no centro da sala. os braços cruzados sobre o peito.
A operação foi levada a cabo com sucesso, e naquela mesma noité Bento conduziu as armas para o Angico. No dia seguinte Rodrigo abriu avidamente os ,jornais dé Porto
Alegre chegados n trem do meio-dia. O Correio do Povo trazia notícias do levante de Passo Fundo e Palmeira. Rodrigo abriu A Federação e foi direita ao editorial.
Poucos minutos depois amassava o jornal, num acesso de cólera, precipitava-se para a cozinha e, sc~b o olhar neutro de Laurinda, atochava-o na boca do fogão aceso.
Hipócritas! Far sahtes! O Rio Grande estava convulsionado, dois mil revolucionários cercavam Passo Fundo, Leonel Rocha márchava sobre Pal meira, levantavam-se assísistas
em armas em vários setores do Es lado e, lá estava o Dr. Topsius com seus pedantes editoriais, tentando tapar o sol com uma peneira, fingindo que nada daquilo estava
acontecendo ou, se estava, não tinha a menor importância! Por que era então que o governo estadual organizava os seus Corpos Provisórios? Por qúe usava o maneador
para recrutar seus "volun. tár¡os"? Ali no município de Santa Fé o pânico já começara: Claro, além dos republicanos convictos, havia muito vagabunda que se alistava
espontaneamente para poder comer carne e receber-. urr) soldozinho. A maioria, porém, fugia espavorida. Alguns se refúgiavam nos quartéis da guarnição federal. E,
por falar em guarnição federal, por que era que o Cel. Barbalho não punha" firt~ àquele abuso? Era um fraco. Encastelava-se dentro do círculo de giz de sua famosa
neutralidade - que não podia durar - e Permitia que o Madruga ficasse senhor da cidade, invadindo domicílios para pegar e espancar os insubmissos. Contava-se que
nos distritos os recrutas eram laçados como animais e trazidos em ~niinhões para a sede do município, de pés e mãos amarrados. A praça da Matriz agora estava insuportável,
porque os "provi-
LENCO ENCARNADO 259

sórios" passavam o dia a fazer exercícios militares. O ar se enchia do som marcial de cornetas, do rufar de tamboies, e dos berros dos instrutores. Rodrigo não podia
olhar, sem sentir engulhos. para os soldados borgistas, principalmente para os oficiais do Corpo Provísórío de Santa Fé. Estes últimos andavam metidos nos seus uniformes
de zuarte, com chapéus de abas largas e planas. Rodrigo vira Amintas Camacho "fantasiado" de capitão, com talabarte de couro preto, uma pistola Nagant dum lado da
cinta e um espadagão do outro. Tivera ímpetos de precipitar-se em cima dele e encher-lhe a cara de bofetadas. A maioria dos soldados, porém. oferecia um aspecto
ridículo, com seus uniformes mal cortados. E quase todos andavam descalços, motivo por que esses corpos começaram a ser conhecidos como "os pés-no-chão".
Uma tarde Rodrigo encontrou. sentado melancolicamente num dos bancos da praça, todo apertado num fardamento de "provisório". o Adauto, um caboclo que havia anos
fora peão do Angico. Ao ver o antigo patrão, o cabra ergueu-se, perfilou-se e fez uiva continência. Era um homenzarrão altó e espadaúdo, de cara larga e quadrada,
marcada de bexigas. Tinha, porém, uma voz macia e era "lingüinha". Rodrigo mirou-o de alto a baixo. O uniforme que o Adauto vestia havia sido evidentemente feito
para um homem de menor estatura. O casaco mal podia ser abotoado, era curtíssimo e deixava meio palmo de barriga à mostra.. Suas pernas, musculosas, negras de pêlos,
mal entravam na parte inferior dó culote, que ele usava sem perneiras. E seus pés pardos, fortes e nodosos como raízes, espalhavam-se na calçadá.
- Adauto! - exclamou Rodrigo nnm tom de censura. - Que negócio é esse? Como é que um maragato como você virou chimango?
O caboclo piscou, embaraçado, baixou a mão e começou a brincar com a ponta do dólmá-
- Pôs é, doutor - disse, ceceando. - São dessas cosas...
- Por que não fugiste? Podias te refugiar no Angico.. .
Adauto sorriu deprecativamente, mostrando os dentes miúdos e limosos.
- Me pegaram de sorpresa .. .
- Tamanho homem!
O caboclo soltou um suspiro fundo e sentido, que lhe sacudiu os ombros. Baixou o olhar para o uniforme e murmurou:"
- Puxa la vestementa triste!
Rodrigo não pôde deixar de sorrir. Meneou a cabeça e continuou seu caminho. Se os soldados do Madruga forem todos da força. do Adauto - refletiu - o governo está
frito.
Naquele mësmo dia embarcou para o Angico e o que lá viu lhe confortou o coração. Havia por todos ós lados uma verdadeira atividade guerreira. Muitos homens estavam
já reunidos na estân-
5

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestação do pensamento humano..
26O O ARQUIPÉLAGO

cia, outros chegavam diariamente, sozinhos ou aos grupos, e póë ali ficavam a azeitar seus revólveres e espingardas, a afiar s adagas e espadas, a comparar e discutir
armas e cavalos uns c os outros, numa alegre camaradagem que Rodrigo achou auspici
Notou por toda a parte, entre aqueles homens, um ar de al gris, como se estivessem reunidos para uma festa. Observou, por" " que o pai andava num estado de espírito
em que a tristeza alternava com a irritação.
- Que é que ele tem? - perguntou um dia ao irmão, quan estavam ambos sentados debaixo dum. pessegueiro.
Toríbio sorriu
- Não sabes então? Toda essa gente a carnear nossas re a montar nos nossos cavalos ...
Rodrigo sacudiu a cabeça lentamente. Sabia que o pai era homem sóbrio, dotado dum senso de economia que não raro toca as fronteiras da sovinice.
- Eu compreendo, deve ser duro pra ele. Mas acontece q a revolução é assim mesmo ...
Toríbio tinha na boca um caroço de pêssego, que passa duma bochecha para outra, chupando os fiapos de polpa que r tavam nele.
- Mas quem te disse que o Velho quer ir para a revoluç3 junto com os maragatos?
- Tu achas...
- Está claro, homem. Outra coisa. A Ismália Caré está Angico, no rancho dela. O papai deve andar louco de medo q algum desses caboclos lhe falte com o respeito.
- Tenho tentado entrar no assunto revolução com- o Velh mas ele foge ... Nem me olha direito.
Licurgo Cambará andava mesmo arredio de tudo e de tod Com seus familiares falava apenas o necessário. Quanto aos outr era como se não existissem.
Maria Valéria, que viera também para o Angico, examina com seu olho crítico os revolucionários,` aos quais chamava "gaf nhotos pois achava que a coisa estava tomando
caráter,de prag Não havia dia em que não chegasse um novo magote deles. E co vinham loucos de fome! Carneava-se uma rês dia sim, dia nã E a erva-mate que existia
no Angico tinha já acabado.
Uma tarde apareceu um voluntário montado num petiço man Era um homenzinho da Soledade, magro, murcho e pálido, com úm flamante lenço vermelho ao pescoço. Ao vê-to
Ma Valéria murmurou para Flora
- Credol Que cristão minguadol Parece abobrinha verde q a geada matou ...
LENÇO ENCARNADO 261

Flora nada disse, nem ao menos sorriu. Como podia ter sequer am momento de paz ou alegria em meio de todos aqueles preparativos de guerra? Inquietava-se dee ver
as crianças ali tão perto daqueles homens que não escolhiam assunto, palavras ou gestos. Um dia estremeceu ao interceptar o olhar lúbrico que um caboclo malencarado
lançou para Alicinha. Desse momento em diante redobrou a vigilância sobre os filhos. Estes, entretanto, pareciam felizes no meio daquela balbúrdia. Jango e Edu ostentavam
seus lenços colorados, andavam de bombachas, com pistolas na cintura e passavam as horas "brincando de revolução". Alicinha contava já com toda uma corte de admiradoras
entre as chinoquinhas de sua idade, filhas de posteiros e agregados, que a miravam com olhos de apaixonada admiração, considerando o maior dos privilégios tocar
a fímbria de seu vestido ou simplesmente "bombear" a. boneca que sabia falar. Quanto a Floriano, saía em seus passeios solitários pelo campo, vagamente assustado
ante -a gente façanhuda que a cada passo encontrava. Uma tarde em que fora a um dos capões para olhar os bugios e fazer de conta que andava caçando numa floresta
africana (era o Herói de Quinze Anos, de Júlio Verne) viu algo ,que o deixou estarrecido. Um dos revolucionários estava deitado em cima duma mulher na qual ele reconheceu
-uma das chinocas do . Angico. Ficou a observar a cena escondido atrás duma áfvore, o coração a bater descompassado, a respiração ofegante. Uma parte de seu ser
queria fugir, mas a outra, a mais forte, pregava-o ao chão," queria ver tudo até o fim. -O homem. de bombachas arriadas, resfolgava como um animal e o que Floriano
podia ver de seu posto de observação era principalmente as suas nádegas nuas e peludas, que subiam e desciam num ritmo cada vez mais acelerado. "Se ele me descobre,"
me dá -um tíro." Deitou a correr na direção da casa da estância.
6
Todos os dias ao anoitecer, quando as criadas começavam a acender as velas e os lampiões e saíam a andar pela casa como fantasmas silenciosos - Flora sentia um aperto
no coração, uma tristeza sem nome que quase a levava ao pranto. Nessas horas encove trava algum consolo orando de joelhos ao pé do velho crucifixo, no quarto da
Dinda.
Uma noite em que, ao terminar a prece, fazia o sinal da cruz, Maria Valéria entrou no quarto e, apontando para a imagem de nariz carcomido, disse:
- Esse aí entende de guerra. Já viu muitas. No tempo da do Paraguai muita vez rezei pela vida dos meus. Mas antes de mim velha Bibiana rezou pelos seus familiares
que estavam na Guerra
262 O ARQUIPÉLAGO

dos Farrapos e em outras. E antes dela, a velha Ana Terra pedia, pela vida dos seus homens que brigaram com os castelhanos muitas campanhas. É... Esse aí entende
mesmo de guerras.
Flora ergueu-se. Maria Valéria continuava a olhar para % imagem. Depois de alguns instantes, disse, plácida:
- Havia de ter graça se Jesus Cristo fosse também chimango.. .
No dia seguinte houve um alvoroço festivo na estância quando Toríbío fez a primeira carga simulada com seu piquete de cava lana, para o qual havia escolhido trinta
homens dos melhores, gente de sua confiança. Eram em geral uns caboclos melenudo, musculosos, de ar decidido, e excelentes cavaleiros.
Formando seu piquete numa linha singela, nos campos do lado ocidental da casa da estância, Toríbío atirou-o a todo o galope contra o inimigo imaginário - o bambual
do fundo do quintal. Os cavalarianos cravaram suas lanças nas taquaras, e remataram a carga a golpes de espada. Todos, inclusive Toríbío, usavam lenço vermelho no
pescoço. Ao ver aquelas rútilas cores maragatas drapejando ao vento e ao sol da manhã, Licurgo cerrou os olhos. engoliu em seco, cuspiu fora o cigarro, montou a
cavalo e tocou para o fim da Invernada do Boi Osco, onde ficava o rancho de Ismália Caré.
Neco e Chiru, que haviam permanecido na cidade e só viriam para o Angico na "hora da onça beber água", mandavam a Rodrigo chasques com recados, dando-lhe conta do
movimento das tropas do Madruga. Rodrigo mantinha-se também em comunicação com os outros chefes revolucionários do município, e próprios andavam de estância para
estância, levando cartas que tinham ordem de destruir se fossem surpreendidos no caminho por inimigos. Um dia Rodrigo foi até o Retiro, o feudo dos Amarais, e voltou
de lá animado. O Cel. Alvarino tinha reunido mais de duzentos homens. Visitou depois a estância do Juquinha Macedo, que tinha cento e oitenta revolucionários já
prontos, "esperando o grito". Ficou combinado que a reunião final de tropas se faria no Angico. por causa de sua posição estratégica.
Mas quando? Quando? Quando? - perguntava Rodrigo a si mesmo ao voltar para casa, sacolejando no Ford ao lado do Bento, e recebendo na cara suada a poeira da estrada.
O pai procedia como se jamais fosse entrar em ação. E o pior de tudo era que se recusava até a discutir o assunto.
Na última semana de fevereiro chegou ao Angico a notícia de
que o Gen. Firmino de Paula se movimentava com seus "provisórios"
para atacar a coluna de Menna Barreto e libertar Passo Fundo. - É a nossa hora de entrar! - exclamou Rodrigo, excitado. Trouxe um mapa do Rio Grande e estendeu-o
sobre uma mesa. - Veja, papai. Seguimos por aqui e atacamos a gente do
Firmino pela retaguarda. Mandamos outra parte de nossa coluna
por ali, está compreendendo? ... Indo pelo campo dos Amarais e dos Macedos, é quase certo de que ninguém nos ataca. Em menos de dois dias estamos em cima da chimangada.
- O senhor esquece - disse Licurgo, depois de uma curta pausa - que não temos armamento nem munição suficiente, e a força do Firmino está bem armada e municiada.
Além disso, não se sabe ainda com quantos homens podemos contar. Não temos organização, não temos nada.
Rodrigo tornou a enrolar o mapa, furioso, e saiu para o sol. Na frente da casa viu um espetáculo que o deixou ainda mais irritado. O Dr. Miguel Ruas - que tinha
decidido incorporar-se à coluna revolucionária - estava de bombachas, botas e chapéu de abas largas, montado num zaino que ele fazia galopar dum lado para outro.
Empunhava uma espada desembainhada com a qual dava pranchaços e pontaços em inimigos imaginários.
- Esse almofadinha pensa que guerra é baile. .. - resmungou Rodrigo.
Tomando chimarrão junto da janela, Maria Valéria observava com olho risonho mas a cara séria as evoluções do ex-promotor. Jango e Edu brincavam sob os cinamomos
com ossos de reses. Alicinha contava às suas "ancilas" (este era o nome que a velha dava às suas amiguinhas) maravilhas da vida em Santa Fé, descrevia-lhes os seus
vestidos, sapatos e brinquedos que tinham ficado no Sobrado.


Alguns dias depois, um próprio vindo da estância dos Amarais trouxe a notícia de que Firmino de Paula libertara Passo Fundo do cerco e depois lançara suas tropas
contra a coluna de Leonel Rocha, livrando também do sítio a vila da Palmeira.
- Estão vendo? - exclamou Licurgo. - p o que eu digo sempre. Não se preparam, se precipitam e o resultado é esse: derrotas por todos os lados.
Estavam à mesa do almoço. Empurrou com impaciência o prato que tinha à sua frente.
- Não contem comigo para palhaçadas ...
- Mas o senhor esquece - replicou Rodrigo - que nossa palavra está empenhada e que, haja o que houver, não podemos abandonar nossos companheiros ...
Como não podia dizer ao pai tudo quanto queria, levantou-se, saiu de casa, montou a cavalo e atirou-se a todo o galope pelo campo, sem destino, gritando ao vento
todos os palavrões que sabia
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264 O ARQUIPÉLAGO
Fevereiro arrastava-se. Os jornais que chegavam ao Angic traziam notícias de outros combates entre revolucionários e legalistas. Artur Caetano encontrava-se no Rio,
onde dava à imprens entrevistas em que declarava dispor de quatro mil homens armados para derrubar o Tirano. Estava claro - comentou Toríbio - que o homem queria
era dar ao Governo Federal um pretexto par intervir no Rio Grande do Sul.
- Impossível! - exclamou Rodrigo dando uma tapa no jornal. - O Bernardas não pode intervir porque não sabe ainda se conta com o apoio do Exército.
Toríbio opinou:
- O melhor é a gente não esperar nada desse mineiro e us fazendo por aqui o que pode.
Durante a primeira reunião que os quatro chefes revoluciona rios tiveram no Angico, foi com muita dificuldade que Rodrig conseguiu evitar um atrito sério entre Alvarino
Amaral e o velh Licurgo. O primeiro queria lançar-se à luta imediatamente; o se gundo procrastinava. O Cel. Cacique "estava por tudo". O Ma cedinho não fazia questão
de data, contanto que "entrassem n baile". O que Rodrigo não pôde evitar foi que o Cel. Amaral se levantasse ao fim da reunião. dizendo:
- Cel. Licurgo, me desculpe, mas eu e minha gente vam hoje mesmo nos incorporar às forças do Leonel Rocha. Não pos esperar mais. Qualquer dia o madruga invade os
meus campos me ataca. A fruta está caindo de madura.
Ninguém tentou dissuadi-lo da idéia. Conheciam o home Alvarino fez as suas despedidas. Os outros o abraçaram. Licurg deu-lhe apenas as pontas dos dedos.
Rodrigo acompanhou o estancieiro até a porta.
- É o diabo, coronel - murmurou ele, coçando a cabeça. Não fomos ainda pra coxilha e já estamos nos dividindo, n separando ...
O outro estendeu a mão, que Rodrigo apertou demoradament - Adeus, coronel! Seja feliz. Acredite que sinto muito.. O olhar de Alvarino Amáral perdeu-se, vago, nos
horizont
do Angico.
- Seu pai é um homem opiniático, mas isso não é razão todos se sujeitarem às opiniões dele. Também lamento o que aco teceu. Fiz o que pude pra evitar o rompimento,
mas está visto q o Cel. Licurgo não gosta de mim ...
Rodrigo não soube o que dizer. Depois que o outro parti lamentou:
LENÇO ENCARNADO 265

- Lá se vão duzentos homens bem armados e municiados. Toríbio, que se acercara do irmão, disse:
- E por culpa do teu pai. E a nossa primeira derrota.
Naquela noite, ao redor da mesa do jantar, Cacique trouxe a conversa habilmente para o "assunto". Juquinha compreendeu a manobra e tratou de apoiar o correligionário.
Queriam que Licurgo revelasse o que pretendia fazer. O tempo passava e já agora corriam todos o risco de serem atacados de surpresa pelas forças do Madruga. Era
impossível que o intendente de Santa Fé não estivesse já informado daqueles movimentos de tropas no interior do município.
Licurgo olhou fixamente para o prato, sobre o qual havia cru
zado os talheres e disse:
- Os senhores podem trazer suas forças imediatamente. Acho que chegou a hora.
Rodrigo e Toríbio entreolharam-se, espantados. Cacique e Juquinha" trocaram também um olhar de perplexidade. Como se explicava aquela súbita mudança? Finalmente
todos compreenderam ... Licurgo não só desejara como também provocara a defecção de Alvarino Amaral. Suas feridas de pica-pau ainda estavam abertas e sangravam.
Daquele momento em diante ninguém mais encontrou assunto ali à mesa. Houve um mal-estar geral. Os homens baixaram a cabeça e terminaram de comer num silêncio que
de minuto para
minuto se fazia mais pesado.
Dias depois chegavam ao Angico as forças de Juquinha Macedo: duzentos e vinte homens ao todo, muito bem montados e razoavelmente armados. Traziam carroças com sacos
de sal, açúcar e farinha de mandioca, e algumas dezenas de reses de corte. Todos os Macedos machos estavam na tropa, com postos militares que variavam de acordo
com a idade de cada um.
Horas depois surgiram no alto da Coxilha do Coqueiro Torto os soldados de Cacique Fagundes. Ao chegarem à frente da casa da estância, onde os outros companheiros
os esperavam com gritos e vivas, o Cel Cacique, ainda em cima do cavalo, com um lenço vermelho sobre o pala de seda cor de areia, a cara gorda e tostada a reluzir
ao sol da tarde, gritou alegremente para Rodrigo:
- Se lembra dos meus vinte e cinco "caboclos? Pois deram cria ... Trago cento e vinte. Todos machos de verdade. Podem examinar...
Soltou uma risada. Licurgo mirava-o com olhos hostis.
- O velho Cacique - murmurou Toríbio ao ouvido do irmão - continua o unha-de-fome de sempre. Não trouxe nenhuma de suas reses para carnear. Olha só a cara feia do
papai. .
266 O ARQUIPÉLAGO
8
Aquela noite os chefes reuniram-se numa das salas da cam onde discutiram a organização da Coluna. Rodrigo tinha j3 plano elaborado no papel. Quando se tratou de
decidir quem se o comandante supremo, hesitou. Juquinha Macedo, porém, adiar too-se:
- Na minha opinião deve ser, por muitos motivos, o Ce) Licurgo.
Houve um murmúrio de aprovação geral e todos os olha convergiram para o senhor do Angico, que pigarreou e deu usti chupão no crioulo apagado.
- Se os senhores acham. .. - murmurou. - Não me nego.
Ficou estabelecido que Juquinha Macedo teria o posto de tenente-coronel. Rodrigo seria o major-secretário e Toríbio, também com o posto de major, comandaria a vanguarda
da força que todos estavam de acordo - se chamaria Coluna Revolucionária d Santa Fé. Distribuíram-se ou confirmaram-se outros postos ente os homens de confiança
do Cel. Cacique, dos Macedos e dos Cambarás. O Dr. Ruas, que tomava nota de tudo quanto se dizia e resolvia, ao terminar a reunião redigiu uma ata, que os presentes
assinaram.
- E agora que a Coluna está militarmente estruturada - disse Rodrigo - temos um ponto importante a discutir: o plano d campanha. Devo dizer que não acredito em intervenção
federall pelo menos por enquanto. Temos pela frente alguns meses, talvez um ano de revolução...
Com o beiço inferior esticado, o ar sonolento, o Cel. Cacique sacudia a cabeça, assentindo. Rodrigo olhava em torno, como a pedir sugestões. Um dos Macedos mais
jovens, que todo tempo da reunião ficara a acariciar os copos da espada, sugeriu:
- O Gen. Portinho acaba de invadir o Estado pelo norte Por que não nos incorporamos às tropas dele?
Licurgo Cambará foi rápido na réplica:
- Na minha opinião devemos agir por conta própria. Devemos ser uma coluna ligeira e independente.
Mentalmente Rodrigo completou a frase do velho: "Não recebo ordens de maragato, seja ele quem for."
Os olhares voltaram-se para Juquinha Macedo e Cacique Fagundes. Disse o primeiro,
- O nosso comandante tem razão.
O segundo hesitou por um instante, mas depois declarou:
- Afinal de contas, temos que entreter o Madruga pra ela não ir reforçar os provisórios do Firmino de Paula. . ".
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Sentado à mesa, Rodrigo pôs-se a escrever a lápis num pedaço de papel. Ao cabo de alguns instantes levantou-se e disse:
- Precisamos passar um telegrama ao Presidente da República anunciando o nosso levante.
- Não carece - retrucou Licurgo.
- Ora, papai, pense no efeito moral.
- Não vamos ganhar esta revolução com efeitos morais. Não acredito em intervenção nem agora nem nunca. Não me iludo. Entro nesta luta esperando o pior. Acho que
todos devem fazer o mesmo.
Rodrigo sentiu um fogo no peito, mas tratou de manter a boca fechada. Meteu o papel no bolso. Estava decidido a desobedecer ao pai. Quando Bento fosse levar as mulheres
e as crianças para Santa Fé, ele pediria ao caboclo que entregasse o despacho ao Gabriel, que se encarregaria de leva-lo ao telégrafo.
Na manhã do dia seguinte formaram à frente da casa todas as forças que se achavam no Angico. E Rodrigo, montado num gateado de crinas longas e ar faceiro, fez-lhes
um discurso, dando-lhes conta do que ficara resolvido na reunião da noite anterior e exortando todos os companheiros à luta. Perorou assim
"Só temos um pensamento: a honra e a felicidade do Rio Grande. Só temos um objetivo: a vitória!"
Quando terminou de falar, ergueram-se no ar gritos, lenços, lanças, espingardas, chapéus, espadas. Havia uma orgulhosa alegria na cara de todos aqueles homens, menos
na de um. Montado no seu cavalo, um lenço branco no pescoço, Licurgo Cambará olhava taciturno para seus comandados. Rodrigo notou que o Velho estava mais encurvado
que de costume. Toríbio, por sua vez, observou que, enquanto o irmão falava, o pai mantivera os olhos baixos. Agora que os soldados davam vivas ao Dr. Assis Brasil
e à Aliança Libertadora e a ele próprio - sua boca se apertava, retesaram-se os músculos da face, como se aquilo tudo lhe doesse fisicamente.
Quando os revolucionários se dispersaram, dirigindo-se para os diversos locais onde se preparava o churrasco do almoço, a oficialidade de novo se reuniu para combinar
o primeiro movimento. Rodrigo antecipou-se
- Devemos obrigar o Madruga a vir nos atacar. Assim podemos escolher o terreno para o combate. Cancha não nos falta.
Cacique Fagundes encolheu os ombros.
- Vocês resolvam. Estou por tudo.
- Podemos dividir nossa coluna estrategicamente - prosseguiu Rodrigo. - Mandaremos patrulhas para estabelecer contato com os chimangos de Santa Fé e atraí-los para
onde nos convém.
Licurgo escutava em silêncio. Quando o filho fez uma pausa, ele perguntou:
- E depois?
268 O ARQUIPÉLAGO

Rodrigo fez um gesto de dúvida.
- Numa guerra desse tipo, não se pode fazer nenhum plan, a prazo longo. Temos de confiar na improvisação e na mobilidaã de nossa gente... E sabem que mais? É até
possível que um dia, possamos atacar e tomar Santa Fé, o que seria dum efeito mora tremendo.
- Essa idéia me agrada - confessou o mais velho dos Maced Licurgo soltou um fundo suspiro. - Veremos - disse.
O Dr. Miguel Ruas, a quem havia sido conferido o posto capitão, manifestou seu receio de que acabassem cercados por todo# os lados ali no Angico.
Rodrigo apontou para o mapa que estava sobre a mesa.
- Não vejo possibilidade. Teremos sentinelas, patrulhas etn" todos os pontos cardeais. O Firmino está ocupado com o Leone Rocha. A invasão do Portinho obrigará a
chimangada a desviar forças para Cima da Serra. Madruga não terá outro remédio senão dar-nos combate. Vamos deixar o homem louco com nossos movimentos!
Miguel Ruas sacudiu a cabeça lentamente. Depois saiu d sala, ainda claudicando um pouco. Licurgo acompanhou-o com os olhos mas nada disse. O Cel. Cacique, porém,
não se conteve
- Tomara que eu me engane, mas acho que esse mgço não vai agüentar o repuxo. . .
Ao entardecer daquele mesmo dia. Neco Rosa, e Chiru Mena chegaram ao Angico a cavalo. Contaram com ar dramático que a situação nos últimos dias se lhes tornara insuportável
em Santas Fé, onde viviam vigiados. Tinham conseguido sair à noite, às escondidas, tomando os caminhos mais estapafúrdios, para despistar algum possível perseguidor.
- Pois chegaram na hora - disse-lhes Rodrigo - dentro de três dias saímos para a coxilha.
- Quantos homens tem o Madruga? - indagou Toríbio. - Uns oitocentos e tantos - respondeu o Neco. - Tens certeza?
- É o que diz A Voz. E pelo movimento de gente que vi. parece que é verdade ...
- A metade desses mercenários na hora do combate larga as armas e mete o pé no mundo...
- Quanta gente temos?" - quis saber Chiru.
- Uns quatrocentos e oitenta homens - informou Toríbio.
- E o armamento?
- Não é lá pra que se diga...
- É o diabo - murmurou o Neco, apreensivo. - Os provisórios do Madruga estão armados de fuzis Mauser.
- Agora não é mais tempo da gente se lamentar - interveio Rodrigo, dando uma palmada nas costas do amigo. - É tocar pra frente! Ah! Antes que me esqueça ... Vocês
dois são capitães.
O rosto de Chiru iluminou-se. Saiu dali e foi pedir a Flora que lhe fizesse umas divisas. Naquele mesmo dia ajustou no chapéu um fita branca com estes dizeres: "Pelear
é o Meu Prazer."
Na manhã seguinte, por volta das dez horas. Rodrigo e Toríbio presenciaram um espetáculo portentoso. Um vulto apareceu no horizonte. Era um cavaleiro solitário,
e tudo indicava que se dirigia para a casa da estância. Quem seria? Quando o desconhecido apontou no alto da Coxilha do Coqueiro Torto e parou um instante junto
da sepultura do velho Fandango, foi possível divisar-lhe o lenço encarnado que trazia enrolado no pescoço. E quando a misteriosa personagem começou a subir a colina
em cujo topo se encontrava a casa, Rodrigo identificou-a.
- Liroca velho de guerra! - exclamou.
Foi um alvoroço ali à sombra dos cinamomos, onde muitos homens estavam agora reunidos. Ouviam-se gritos, vivas e risadas.
Ao tranquilo de seu zaino-perneira, lá vinha o velho José Lírio. Parecia - achou Rodrigo - uma versão guasca de Don Quixote, mas dum- Quixote que tivesse também
um pouco de Sancho Pança. Liroca era um cavaleiro andante e ao mesmo tempo o seu próprio escudeiro. Tinha como o fidalgo da Mancha os bigodes caídos e um olhar entre
desvairado e triste. Não lhe cobria o corpo franzino uma armadura de aço, mas o pala de seda. Seu elmo era um velho chapéu de feltro negro, de abas murchas. Em vez
de lança, trazia a velha Comblain com que -pelejara em 93.
José Lírio apeou e caiu nos braços dos companheiros. Quando se viu finalmente na frente de Rodrigo, disse compenetrado:
- Vim me apresentar. Não valho grau cosa, mas uns tirinhos. ainda posso dar.
Rodrigo abraçou-o, comovido.
Estava resolvido que Flora, a Dinda e as crianças deviam voltar imediatamente para a cidade, pois no Sobrado ficariam todos mais seguros que no Angico. Esperava
Rodrigo que o "cafajeste do Madruga" respeitasse as famílias dos revolucionários, não por nobreza, mas por temor à guarnição federal. Ameaçou:
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27O O ARQUIPÉLAGO
- Se ele tocar num fio de cabelo de minha mulher ou de qualquer de meus filhos, palavra de honra, quando entrarmos em Santa Fé enforco aquele porco num galho da
figueira da praça!
À medida em que a hora da despedida se aproximava, Rodrigo ia ficando cada vez mais inquieto. Às oito da noite, na véspera da partida da família, sentou-se numa
cadeira de balanço na sala, que um lampião a querosene alumiava tristemente, e pôs Alicinha sobre os joelhos.
- O papai agora tem de fazer uma viagem muito comprida - disse com doçura.
- Tu vais pra revolução, eu sei.
- E sabes o que é revolução? - Sei. É guerra.
Por alguns instantes ficaram ambos calados, ao embalo da cadeira. Os olhos de Rodrigo enchiam-se de lágrimas, sua garganta se contraía num espasmo. Só agora compreendia
como ia ser duro separar-se daquela criaturínha. A beleza da filha enternecia-o. Sua fragilidade causava-lhe apreensões, e a idéia de que agora a família ia ficar
sem homem em casa, desprotegida no burgo do bandido Madruga, deixava-o já com remorsos de se haver metido naquela revolução.
Alicinha segurava-lhe a orelha, num hábito muito seu, quando estava prestes a adormecer. E seus olhos escuros e límpidos. tocados duma expressão que parecia ser
de sono e ao mesmo tempo de medo de dormir, focavam-se no pai, como a lhe pedirem uma explicação de tudo aquilo que se passava ao redor dela havia tantos dias...
Só agora é que Rodrigo compreendia que a paixão política lhe havia embotado de tal modo a sensibilidade, que ele sujeitara aquela criança pura e delicada a um quase
convívio diário com aqueles homens - bons, bravos, mas grosseiros - que cheiravam mal, escarravam no chão e viviam coçando os órgãos genitais. Que estúpido! Que
inconsciente! Que irresponsável!
Apertou a filha contra o peito, beijou-lhe os cabelos, as faces
- finalmente os olhos, que o sono aos poucos empanava.
- Quem é a princesa do papai?
- Eu.
Não havia mais nada a dizer. Rodrigo limitou-se a ninar a filha àquele balanço de berço, e quando verificou que ela dormia, levou-a para o quarto e deitou-a na cama,
tendo o cuidado de colocar a boneca a seu lado.
Saiu na ponta dos pés, encaminhando-se para o quarto dos outros filhos. Inclinou-se sobre Edu, Jango e Bibi, que dormiam,
- depositou um beijo na testa de cada um deles. Percebendo que Floriano estava ainda acordado, sentou-se na beira da cama do menino.
LENÇO ENCARNADO 271

Sobre a mesinha-de-cabeceira o ponto luminoso da lamparina parecia uma minúscula estrela amarela. Rodrigo segurou a mão de Floriano
- Meu filho, tu sabes que teu pai tem de ir para a revolução ...
O rapaz sacudiu a cabeça: sabia.
- Um dia, quando fores grande, compreenderás melhor tudo isso ...
Floriano repetiu o gesto.
- Já estás quase um homem. Quero que obedeças à Dinda
- à mamãe, e que ajudes a cuidar de teus irmãos.
Na penumbra não chegou a perceber as lágrimas que escorriam pelo rosto do menino. Mas sentiu-lhes o gosto quando lhe beijou a face, e isso o deixou também a ponto
de chorar. Quando, poucos minutos depois, entrou no próprio quarto de dormir, pensou na noite miserável que ele e Flora iam passar. Ficou longo tempo abraçado à
mulher. A angústia lhe anestesiava o sexo. Como podia, desejar fisicamente uma criatura que não cessava de chorar?
Teve aquela noite um sono agitado, povoado de imagens aflitivas, obsessivas como as dos sonhos de febre. Estava numa interminável marcha, com uma coluna de homens
a cavalo, carregando um defunto, que ora estava dentro dum esquife, sobre um dos cavalos. E o cadáver caía, e tinham de levantá-lo, e ele tornava a cair... e houve
um momento em que andaram a puxar o caixão com cordas, e depois o próprio defunto se ergueu, e lívido, de olhos vidrados, pôs-se a andar, acompanhando a coluna,
e o vento batia nele e espalhava no ar um cheiro de podridão misturado com o de fenol... E a marcha continuava, não tinha fim, e o cadáver inchava, tornava-se mais
pesado, tombava, e de novo o erguiam,
- outra vez caía, e agora seus pedaços - orelhas, pés, mãos, nacos de carne - iam ficando pelo caminho, presos aos craguatás, às barbas-de-bode e também agarrados
por mãos que brotavam da terra e que ele, Rodrigo, obscuramente sabia que eram mãos de outros defuntos ...
1O
Acordou com uma batida na porta.
- Está na hora.
Era a voz de Maria Valéria. Rodrigo e Flora levantaram-se
- vestiram-se. em silêncio. E ele achou que até o ruído da água na
bacia do lavatório de ferro, quando Flora lavava o rosto, rinha
um sonido estranho. E mais estranho ainda lhe pareceu o ato de
escovar os dentes, o gosto do dentifrício. Nos outros quartos Ma
272 O ARQUIPÉLAGO

ria Valéria acordava as crianças, ajudava-as a se vestirem. E o s de sua voz seca e autoritária, àquela hora da madrugada. iam era algo que parecia pertencer a uma
nova espécie de pesadelo.
Tomaram café em silêncio, à luz das velas, na sala de jan De quando em quando Flora fitava no marido os olhos trist tresnoitados, cercados de olheiras arroxeadas.
Lágrimas escorria lhe pelas faces, pingavam na toalha. Mas ela nada dizia. Bebeu u pouco de café com leite mas não tocou no pão. Maria Valéria ate dia as crianças.
"Não se lambuze de mel, Edu. Limpe os dedos guardanapo. Isso! Alicinha, a senhora não está comendo nada. La gue essa boneca. Tire o dedo do nariz, Jango!"
Era extraordinário - refletia Rodrigo - como nem vaque hora excepcional a velha perdia o contato com a realidade cotidia Sabia que, houvesse o que houvesse, a vida
tinha de continuar a disciplina doméstica não devia ser relaxada.
Rodrigo também não sentia fome. Limitou-se a tomar um ca, preto. À luz gris do raiar do dia, todas aquelas caras lhe parecia doentias. Lá fora cantavam os galos.
Pela janela ele viu a bar avermelhada do nascente, sublinhando a palidez do céu.
- Acho bom a gente ir saindo - disse Maria Valéria. E c meçou a dar ordens às chinocas. - Levem esse pacotes pro autora vel. Não se esqueçam da cesta. Cuidado, meninas!
Rodrigo admirava a tia pela sua presença de espírito e pelo senso prático, mas ao mesmo tempo exasperava-se com tudo aquil Quando ficou a sós com Flora, tomou-a
nos braços. O rosto deM estava branco e frio, como que eterizado. Encostou a cabeça no pet do marido e pôs-se a chorar, o corpo sacudido pelos soluços. Rodrigo ncaricíava-lhe
os cabelos, passava-lhe as mãos pelas costas, doce mente, mas não encontrava nada para dizer.
Minutos depois, quando todos estavam dentro do Ford, cujo~ motor trepidava, Rodrigo meteu a cabeça dentro do carro, beijou face de Maria Valéria e murmurou:
- Fico descansado, sabendo que a senhora está com eles.
A velha estendeu a mão longa e enrugada e fez uma carícia rá ilida nas faces do sobrinho.
- Não se preocupe. Vá com Deus. E se cuide!
Rodrigo deu instruções pormenorizadas ao Bento. Por fí disse:
- Esconda o automóvel no lugar combinado e volte a cavalo:. Mas venha depressa, que vamos sair a campo amanhã ou depois.
Rodrigo pegou a mão de Flora e levou-a aos lábios. Naqu momento Alicinha foi tomada duma crise de nervos e começou gritar
- Vem, papai! Vem com a gente! Eu quero o meu paíl vai morrer na guerral Ele vai morrerl
LENÇO ENCARNADO 273
Flora tentava consolá-la, mas a menina chorava, estendia braços para o pai. "Ele vai morrer!"
Rodrigo recuou, emocionado, voltou as costas e exclamou:
- Toca, Bento! Por amor de Deus, vá embora!
O carro arrancou. Por algum tempo Rodrigo ouviu ainda os gritos" da filha. Ficou onde estava, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, a respiras^ egular, um vácuo
gelado na boca do estômago. Assaltou-o
família ele - .
s, as mulheres do Sobrado
relógio de pêndulo, que
a„ zs guerras e revoluções.
humano. Era como a
~ ~ ~~ " ter vivido e sofrido,
9 canto a sacudir a
vel.
aproximou-se do -do
- e*+" sempre um pouco contra
s ,idro do mostrador quadrado.
velha Bibiana fazer aquilo!
Quedou-se distraída _onversar" com a imagem meio apagada que em sua memória dava corda naquele mesmo relógio. Nem viu quando Flora entrou na sala de jantar.
- Falando sozinha, Dinda?
- Conversando com os meus mortos ...
A velha fechou a tampa do mostrador, voltou-se e encarou sobrinha.
- Pelo que vejo, vacê passou outra noite em claro.
Flora baixou a cabeça, seus lábios tremeram. Contou que Rodrigo lhe aparecera morto no sonho da noite: seu corpo apodrecia abandonado no meio do campo, e ela se
vira, desesperada, tentando espantar com uma vassoura os urubus que esvoaçavam em torno do cadáver...
os
emento de que nunca mais tornaria a ver a Animal! Só agora compreendia que para ndo mais importante que Flora e os filhos.
ao estúpida, com um bando de homens
,te uns dois ou três minutos. Depois, \arecido atrás dum capão. Galos canta de sol começava a aparecer no ho

vente para casa.
Agoi prestavam no passado Sua presença dum velho mE muito sabia, m cabeça dum lado
Naquela mani.
no do Tempo" pai ciada por ver sua fa Quantas vezes no pass
a
274 O ARQUIPÉLAGO

- Sonhos não querem dizer nada, menina. Uma noite deste sonhei que tinha vinte anos. Amanheci com os mesmos sessenta e três na cacunda.
Depois de pequena pausa, acrescenta:
- Não se preocupe. Não somos as primeiras nem vamos ser., as últimas. Antes de nós outras mulheres também esperaram e pas saram trabalho. Não pense muito. Não fique
nunca com as má desocupadas. E não olhe demais para o relógio nem para a folhinha Tempo é como criança, quanto mais a gente dá atenção pra ele, ma* ele se mostra
...
Flora limitou-se a sacudir a cabeça tristemente.
- Pois eu - declarou Maria Valéria - eu vou fazer um doou, de coco.
Encaminhou-se para a cozinha. Flora ficou a olhar fixamente para o mostrador do relógio, como que hipnotizada. E o ruído metálico e regular do mecanismo, acompanhado
do movimento da pêndulo, deu-lhe uma desoladora sensação de eternidade.
D. Laurentina vinha agora com mais freqüência ao Sobrado visitar a filha e os netos. Ela e Maria Valéria entendiam-se muito bem, tinham uma admiração e uma estima
mútuas: em muitos respeitos até se pareciam. Não raro ficavam sentadas uma na frente da outra por longo tempo, numa espécie de duelo seco, mas cordial, de silêncio.
Aderbal preocupava-se com a saúde da filha, que começava a emagrecer. Era um despropósito - achava - um cristão viver assim como a Flora, comendo e -lormindo pouco,
com o pensamento só
coisas ruins. Procu iímá-la:
nha filha! Essa sua tristeza pode até è seu pai está lhe dizendo. As coisas i. Qualquer dia Rodrigo está aí de
LENÇO ENCARNADO 275
Havia já quase três semanas que em Santa Fé nada se sabia d positivo sobre o paradeiro da coluna comandada pelo Cel. Licurgo;, Cambará. O Correio do Povo trazia
notícias das operações das forças de Filipe Portinho na zona de Cima da Serra, das atividades dos guerrilheiros de Leonel Rocha, no município da Palmeira: do le
vante de Zeca Neto, que ocupara Canguçu, Camaquã e Encruzilhada. Divulgava também que Estácio Azambuja. organizara a 3." Divisão do Exército Libertador, com gente
de Bagé, São Gabriel. Dora Pedrito e Caçapava. Quanto à Coluna Revolucionária de Santa Fé, nem uma palavra.
O velho Aderbal Quadros trouxe um dia ao Sobrado a notícia do levante, em Vacacaí, de Honório Lemes, o qual, após haver constituído a Divisão do Oeste. havia ocupado
Rosário e Quaraí.
- As autoridades municipais e estaduais de Alegrete - explicou o velho, picando fumo para um crioulo - fugiram para Uruguaiana. O Estado está todo conflagrado. Acho
que o governo do Borjoca tem os seus dias contados.
O ritmo lento e tranqüilo de sua voz destoava das coisas urgen tes que contava. Anunciou mais que havia sido instalada no Rio de Janeiro a Junta Suprema Revolucionária,
que contava na sua diretoria com homens de prol. Em São Paulo estudantes gaúchos haviam fundado o "Centro Acadêmico Pró-Libertação do Rio Grande do Sul". A revolução
assisista empolgava o Brasil!
Maria Valéria escutou-o impassível. Quanto a Flora, aquelas notícias, longe de alegrá-la, deixavam-na ainda mais preocupadapois eram um sinal de que a revolução
se espalhava, crescia, complicava-se, ameaçando durar anos e anos ...
-ores! Canalhas! - exclamou Dante Camerino depois que leu em voz alta essa notícia. no Sobrado.
- Vacê nem devia trazer essa imundícia pra dentro de casa - repreendeu-o Maria Valéria, apontando para o jornal que o médico tinha na mão.


Um dia, surpreendendo Santuzza Carbone com Bibi nos braços, a beijar por entre lágrimas o rosto da criança. Flora teve uma crise de nervos.
em
Ninguém
ser de mau - boas r,
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draças m m
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boca, e fi m 4 ~°
próprio sa a~~m
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O último
dizia: "A fami, dada pelo conhec didos armados de ferru fadas. anda ce nicípio, carneando gt cio, desrespeitando r, bandoleiros assisistas r, ção da vanguarda da
col, baluarte do borgísmo n ainda essa comédia?
das vezes limitava-se a olhar fi3nha expressão de pena nos seus desatando o pranto.
\~a praça. as mulheres e as vi
levava as mãos ao pescoço.
`essaltado lhe escapasse pela
\s a pulsação alvorotada do
~ava na direção da Inten
os poucos uma pequena
,,te o Madruga mandava
-. na.
A Voz da Serra -

1e Santa Fé, coman

","ará, com seus ban

\ `adas, espadas en

\r do nosso mu

casas de comér

"i nd efesos. Os

.vpre à aproxima

..to Cel. Laco Madruga.

Quanto tempo durará
- Mentirosos! Calun
276 O ARQUIPLLAGO

- O Rodrigo morreu e vocês não querem me dizer! - exclamou. - Eu sei! Eu sei! O Rodrigo morreu!
Rompeu num choro convulsivo. O Dr. Carbone fez o possível para acalma-la, assegurando-lhe, dando-lhe sua parola Xonore, jurando por Deus e todos os santos que tudo
estava bem. E como tudo isso não desse o menor resultado, conseguiu levar Flora para a cama, onde lhe aplicou uma injeção sedativa que a fez dormir por algumas horas.
E nos dias que se seguiram, o italiano tratou de alegrar aquela família como podia. Quando visitava o Sobrado. trazia brinque-, dos ou caramelos para r bambini,
contava-lhes histórias, fazia mágicas. Uma noite, como quisesse dançar um cake-walk com Santuzza, encaminhou-se para o gramofone, para pô-lo a funcionar." Maria
Valéria, porém, barrou-lhe o caminho. Não! Tocar música naquela casa quando seus homens estavam na guerra, correndo perigo de vida, passando durezas e privações?
Nunca! "Sossegue o pito, doutor! Aqui ninguém carece de palhaço."
Arão Stein e Roque Bandeira também apareciam no Sobrado com certa freqüência. Ficavam geralmente no seu canto, em suas intermináveis discussões. Flora começava a
irritar-se ante a atitude crítica do judeu para com os revolucionários.
Uma noite, como Aderbal Quadros elogiasse Assis Brasil e os objetivos ideológicos da revolução, Stein, à sua maneira meio tímida. mas obstinada e segura, disse:
- O senhor me desculpe, seu Babalo, ideológico nesse movimento armado ...
Tio Bicho puxou-lhe a ponta do casaco, sussurrando:
- Pára com isso, homem!
Stein, porém, não lhe deu ouvidos.
- Os objetivos dessa revolução são mais economicos e sectariamente políticos do que ideológicos. É uma revolução de plutocratas.
Maria Valéria franziu o cenho ao ouvir esta última palavra. que lhe soou como um nome feio.
- Todo o mundo sabe que o Estado anda às voltas com uma nova crise pecuária - continuou o judeu. - O preço do boi vem baixando desde a Guerra Européia. Esses estancieiros
de lenço encarnado no pescoço se meteram na luta porque para eles é mais bonito sair da enrascada pela porta "gloriosa" da revolução do que por meio da falência
ou da concordata.
Aderbal Quadros limitou-se a sacudir a cabeça e a sorrir. Flora fez com o olhar um apelo a Maria Valéria, que exclamou:
- Cale a boca, João Felpudo!
E o assunto terminou.
12
Era uma tarde chuvosa de princípios de abril e Flora, tristonha, pensava no marido que àquela hora decerto andava ao relento, no temporal, molhado até os ossos,
coitado! De instante a instante erguia os olhos do bastidor e fitava-os em Maria Valéria, que estava sentada na sua frente, silenciosa, de braços cruzados. Que pensamentos
estariam passando pela cabeça da velha? Flora continuou a bordar. Impelida pelo vento, a chuva tocava sua música mole e miúda nos v," as janelas. Uma luz
fria e cinzenta
as vozes e os ruídos dos passos das y yar superior.
\ ela. .. - disse de repente Maria
_
tada .
D:
traçou a não se 1
- I
3-.
voz incol, m m~
nunciar o 4
m- Era oé~
enérgica, de °
ficou sozinha á
Depois viu o ° da rua, na frei. Mas agüentou 95 quando os n lá em cima no q falando sozinha, c e esperando qualqu Mas parece que a i quarto um ano dep, três
noites ...
- Dinda, pelo amor mudar de assunto.
- Eu sei, vacê não quer ouvir todas estas histórias porque tem medo. Prefere se iludir. Mas uma mulher nesta terra tem de estar preparada para o pior. Os homens
não têm juízo, vivem nessas folias de guerras. Que é que a gente vai fazer senão ter paciência, esperar, cuidar da casa, dos filhos ... Os homens depen
entristecia a ca-crianças.
V
mesma cadeira
içando ...
,úcar queimado. Maria Valéria
os. (Era o velho, pois ainda lhe dera pelo Natal.) rgo... - disse com uma
jamais tê-la ouvido pro

sseguiu Maria Valéria -

b Guerra dos Farrapos,

i bexiga pra ninguém.

t baleado ali no meio

apangas dos Amarais.

Vstava viva ainda em.

Passou todo o sítio

ira, se balançando,

alançando sempre,

yue, decerto a morte.
onde estou sen
uecido dela. Só entrou no -na Bibiana agonizou três dias e
1
de
Deus! - suplicou
Flora. - Vamos
278 O ARQUIPÉLAGO
dera de nós. Como dizia a velha Bíbiana, quem decide as gu
não são eles, somos nós. Um dia eles voltam e tudo vai dependam do que encontrarem. Não se esqueça. Nós também estamos guerra. E ninguém passa por uma guerra em
branca nuvem. Não se iluda. O pior ainda nem começou.
Lágrimas escorriam pelas faces de Flora e ela não pensava seque em enxugá-las.
- Se eu lhe digo estas coisas não é por malvadeza. Quero qw vacê se prepare para agüentar. D. Bíbiana contava que houve tempos na vida dela que parecia que tudo
vinha abaixo, o mun ia acabar. Mas não acabou. A prova é que estamos aqui.
Flora continuava a bordar. Depois dum curto silêncio, per guntou:
- Será que está chovendo assim em todo o município?
- Não se preocupe. Nossa gente deve ter barracas, ou então;
está dentro do mato. E depois, chuva nunca matou ninguém.
Seu marido não é de sal. Nem de açúcar. - Mas é horrível essa falta de notícias! A velha deu de ombros.
- Eu às vezes até penso que é melhor assim...
Maria Valéria olhava para o pêndulo do relógio. E, como se não

estivesse falando com ninguém, murmurou:
- Tia Bíbiana contava que a avó dela, a velha Ana Terra

um dia matou um bugre...
Flora ergueu os olhos do bastidor e franziu a testa. - Matou?
- Sim senhora. Com um tiro nos bofes. - Mas por que, Dinda?
- Ora, foi pouco depois que fundaram Santa Fé. Isto aqui vivia infestado de índios. Um dia a velha Ana chegou em casa e viu um deles perto da cama do filho, o Pedro,
que veio a ser pai da tia Bíbiana ...
Flora perdia-se um pouco naquele emaranhado de antepassados dos Terras e dos Cambarás.
- Pois a velha não teve dúvida. Pegou num arcabuz, espin
garda
ou coisa que o valha. e fez fogo. O bugre caiu ali mesmo,

botando sangue pela boca ...
Fez-se uma pausa. Maria Valéria balouçava-se na sua cadeira, sorrindo para seus pensamentos.
- Dinda, a senhora era capaz de matar uma pessoa? - Pois depende. . .
Flora tornou a baixar os olhos.
- Eu não era. Preferia morrer.
- Bem como seu pai. Quem saí aos seus não degenera. Minutos depois, quando o assunto parecia já esquecido, a velha

perguntou
LENÇO ENCARNADO 279

- Se vacê visse um provisório matando um de seus filhos? - Dinda. que horror!
- Não carece ficar nervosa. Estou só imaginando. E um faz
de-conta. Afinal a gente tem de estar preparada pra tudo...
- Espero que Deus nunca me ponha nessa situação.
- Hai miles e miles de coisas que eu pedi a Deus que nunca
me acontecessem. Mas Ele não me atendeu. . .
Deus deve saber o que faz.
- Pois se vacê pensa assim. menina, não deve então se preo
cupar. Está tudo direito.
No silêncio que depois se fez. só se
relógio e o tamborilar da chuva nas vidraças.
- Estou com frio - murmurou Flora, encolhendo-se toda. - Quer que eu mande trazer um braseiro? - Não. r \m chá quente.
pu fazer.
\ a velha com um gesto, mas esta se levan
,C\ ra a cozinha. Flora ergueu-se também e
g wisítao, com a esquisïta sensação de que
P a uma entrevista secreta. Ficou a con
"; f p com os olhos enevoados de lágrimas,
a fi cadeira com ambas as mãos. A idéia
~~ sse estar morto ou gravemente ferido

~, ~o que onda de calor pareceu irrad g , reconfortando-a, aquecendo-a. Flora a~ 3m~~ m ~a-se agora de certas peculiaridades do .%% %% rd %tom
da voz, aquele vezo de ajeitar
de m gravata. Ah! Quantas vezes ele a tis aventuras amorosas de Rodrigo a qu, estória de Toni Weber, por causa do se "s m 4e fora difícil fingir que
nada sabia) de seu refúgio no Angico (a
pobre i (a -tt ie inteira a comentar) quando ele entr, x= el, desfigurado, os olhos tresnoitados rr era ampará-lo, abafar seu amor-prc ~ ó de
braços abertos, sem fazer perguntas, p py ou sentira o marido revolver-se na então falar em delírio num sono inqui, áe pesadelos. E o pior é que por ver que Rot
sozinho a culpa daquele suicídio, ela também se senti . aipada. Um dia percebeu que, num desejo desesperado de desabafo, o marido estivera a pique de lhe confessar
tudo... Ela pedira então a Deus que tal não permitisse. Doutra feita concluíra que para Rodrigo talvez fosse melhor tirar do peito aquela coisa, aquela ânsia ...
E nessa incerteza vivera, semanas,
ouviu o tique-taque do
#28O O ARQUIPÉLAGO

meses... A Dinda tinha razão quando dizia que a melhor pomada para curar as feridas da alma é o tempo. "Tão boa que nem cheiro tem. Não se compra em botica. Não
custa nada." O tempo curara as feridas de Rodrigo, e ele voltara a ser exatamente o que fora antes de conhecer Toni Weber. Menos de um ano depois da morte da rapariga,
já andava atrás de outras mulheres. Ficava alvorotado quando alguma moça bonita entrava no Sobrado, fosse quem fosse. Cercava-a de cuidados, de galanteios, inventava
todos os pretextos para tocá-la. Procurava mostrar-lhe o que sabia, o que tinha, o que era. Portava-se, em suma, como um adolescente, com todos os apetites visíveis
à flor da pele. Até sua respiração ficava diferente quando ele via mulher bonita! E Rodrigo fazia todas aquelas coisas com um ar de impunidade, como se todos os
que o cercavam não estivessem vendo aquilo, por cegos, ingênuos ou tolos.
Flora contemplava agora o Retrato, sacudindo a cabeça lentamente, como uma mãe diante do filho travesso e relapso. Rodrigo pouco mudara naqueles últimos doze anos.
Estava agora um pouquinho mais corpulento, e seu rosto, que até os trinta anos guardara algo de juvenil e quase feminino, se fizera mais másculo.
Flora sorriu. Vieram-lhe à mente as palavras duma velha parenta, na véspera de seu casamento, ao experimentar-lhe o vestido de noiva. "O Dr. Rodrigo é um homem bonito
demais. Tenho pena de ti, menina." Flora recordou as pequenas e as grandes vaidades do marido. Para uma esposa eram as pequenas as que se faziam mais evidentes.
O tempo que levava para escolher uma gravata e depois dar-lhe o nó diante do espelho! O exagero com que se perfumava! A preocupação com o friso das calças! Tinha
no guarda-roupa simplesmente quinze fatiotas em bom estado, e dez pares de sapatos. As gravatas eram incontáveis ... E como gostava de impressionar bem os outros.
de ser querido, respeitado, admirado! Sabia agradar as pessoas dizendo-lhes exatamente o que elas queriam ouvir.
Flora recuou um passo e ficou a comparar a moda masculina do tempo em que aquele retrato fora pintado com as roupas de 1922. Veio-lhe à mente a figura do ex-promotor,
primeiro nos seus trajos de "almofadinha", depois, vestido à gaúcha, como o vira no Angico, em cima dum cavalo - capitão das forças revolucionárias. A imagem de
Miguel Ruas se transformou na de Rodrigo, que ela visualizou barbudo, triste e encolhido debaixo do poncho, sob a chuva, em meio do escampado. De novo sentiu um
frio nos ossos, e um estremecimento lhe sacudiu o corpo.
Uma voz
- O seu chá.
Flora corou, como se tivesse sido surpreendida num ato vergonhoso. Maria Valéria aproximou-se e entregou-lhe a xícara fumegante.
LENÇO ENCARNADO 281
13
O estado de espírito de Rodrigo melhorou consideravelmente depois que as chuvas cessaram e de novo ele viu o outono. Abril entrou e os dias tinham agora a doçura
e a maciez dum fruto maduro. Em certas tardes, o sol era como um favo a derramar o mel de sua luz sobre a campanha.
Fazia mais de um mês que andavam naquelas marchas e contramarchas pelo interior do município, cortando aramados, cruzando invernadas alheias, carneando o gado que
encontravam atacando e ocupando povoados e colônias, onde a resistência era pequena ou nula. Não haviam tido baixas naqueles rápidos tiroteios com patrulhas ~~ Vis.
Tinham tentado inúmeras vezes atrair para a de Laco Madruga, quase toda constituída
D O peixe não mordia a isca. E como não
~, Licurgo Cambará e seus homens conti.E~ rmtnáveis dividida a coluna em três gru
,rão de lanceiros de Toríbio, que fazia a f ,1e ordinário a doïs de fundo, numa longa ~" nos capões, onde podiam acender fogo
inimigo. Os mais graduados tinham
mia ao relento, sobre os arreios.
fitava com a tristeza cada vez mais negra
prrindo, ao irmão que seu piquete de
115 para a História como "Os Trinta de
d3 1 que entravam nos povoados, a galope
m o cuidado de verificar se havia
inimi
m -
ó g eriam alvo fácil. Quando o resto da cc m m ava ja ocupada e Toríbio geralmente er. s Uão da principal casa de comércio, do aa m irias entre os soldados, e gritando
"C r+~ lheiros. Grande baratilhol" Licur" go g $ W kho em que tudo se processasse da man admitia que seus homens se apossasse er sem deixar"ao proprietário uma requi
ou por algum outrò oficial-.
C x confirmado no posto, de major, em ge ^~- _odrigo, mergulhado em longos silêncio ue suspiros ou pigatros.. Mas de vez em quando _ aiguma coisa que, por mais seria
que, fosse, fazia o amigo sorrir e murmurar: "Este Lirocal" Rodrigo ficou surpreendido quando o velho amigo lhe confessou que não levava consigo mais de vinte balas.
Ali estava um assunto no qual nem gostava de "pensar ... Quando fazia um inventário mental das armas e
#282 O ARQUIPÉLAGO

munições com que seus companheiros contavam, sentia calafrios. Dos quatrocentos e oitenta e cinco homens da Coluna, talvez apense, uns duzentos e poucos estivessem
razoavelmente armados com fuzis calibrados e de longo alcance. Os restantes tinham apenas revólveres dos tipos mais diversos, facões, espadas, chuços de cerejeira
ou guajuvira, e uma variedade de outras armas que lembravam um museu: espingardas de caça de dois canos, velhas Comblaina. Mannlichers, e fuzis austríacos e belgas
em péssimo estado de con. servação. Havia poucos dias juntara-se à Coluna um voluntário que trouxera na mão apenas uma arma de salão. no bolso uma caixa com quinze
balinhas e no cinto uma faca de picar fumo. Mas quem lhe visse a postura marcial. o fero orgulho que lhe incendiava, o rosto, a maneira como empunhava a Flobert
- teria a impressão de que o homenzinho ameaçava o inimigo com uma metralhadora.
Rodrigo divertira-se com algumas das "adesões" que a Coluna tivera depois de deixar o Angico. Uma tarde o piquete de Toríbio fez alto ao avistar ao longe um cavaleiro
que conduzia seu pingo a galope, levantando poeira na estrada. Quem é? Quem não é? Quando o desconhecido se aproximou, viram que trazia um lenço vermelho no pescoço.
Era um velho de cara angulosa, barba toda branca e olhos lacrimejantes. Aproximou-se. sempre a galope. do piquete e, a uns dois metros do comandante, sofreou bruscamente
o animal, fazendo-o estacar. Tocou a aba do chapéu com o indicador, e disse:
- Ainda que mal pergunte, patrícios, pr"onde é que vassuncês se atiram?
- Pra revolução - respondeu Toríbio, pronto.
O desconhecido quebrou com uma tapa a aba do sombreiro e exclamou
- Pois é atrás dessa fruta que eu ando! E incorporou-se à" Coluna.
Dias depois, ao passarem por um miserável rancho de barro e teto de palha, à beira da estrada, saiu de dentro dele um caboclo esfarrapado e descalço, de cara terrosa
e chupada. trazendo a tiracolo. com um barbante à guisa de bandoleira, uma espingarda de caçar passarinho. Envolvia-lhe o pescoço um lenço dum vermelho sujo. (Mais
tarde o homem explicou que como não tinha em casa lenço colorado, mergulhara um trapo em sangue de boi.) Aproximou-se de Rodrigo e, de olhos baixos, murmurou:
Pois é, se me deixarem, eu queria também ir pra rebolução. Rodrigo consultou o pai com o olhar. Licurgo sacudiu a cabeça afirmativamente.
- Pois venha. Cavalo não nos falta. O que não temos é arreio.
- Não carece. Munto em pêlo mesmo. - Como é a sua graça?
- João.
Despediu-se da mulher molambenta, com cara e cor de opilada, que ali estava à frente do rancho, com um filho nos braços e outro na barriga. Foi uma cena rápida.
Apertaram-se as mãos em silêncio e tocaram-se mutuamente os ombros, com as pontas dos dedos. Depois o homem passou a mão de leve pela cabeça do filho. Tanto a face
da mulher como a do marido estavam vazias de expressào.
Deram ao homem um cavalo tobiano e crinudo. Horas mais tarde, quando a Coluna descia um coxilhão, o novo voluntário achou que devia dar uma "satisfação" ao companheiro
que cavalgava ao seu lado:
- Não vê que sou maragato ...
Calou-se. O outro pareceu não interessar-se pela informação. Era um preto corpulento. Só a carapinha amarelenta _lhe denunciava a idade. Tinha lutado em 93 nas forças
de Gumercindo Saraiva e trazia na cintura uma Nagant que - segundo contava - tirara das mãos dum soldado da polícia, em Cruz Alta.
- Meu finado pai já era fed ralista - continuou João. Cuspiu O11- - , euou a passarinheira às costas. -
p Conselheiro.
!r com um pigarro. Chamava-se ,~ Í de valente e dizia-se que já
ria incorporado à Coluna para
r ido. Estava muito velho para

nde haviam requisitado víveres

i kistentes, só um voluntário se

n teuto-brasileiro ruivo e espi

mostrava com freqüência, pois

"inha o aspecto e o caminhar

Í. O que mais deliciava Ro

de seu aspecto nórdico e de

gaúcho legítimo, "neto de

lo metido nas largas bom

rbicacho, botas de sanfona

rçiva-se por imitar o lin

"Puxa fiapo!" Os com

" Jacozinho Puxa Tiapo".

perguntou-lhe Cantídio.
LENÇO ENCARNADO 283
para um lado
Acho o"^
Canis andai brigar "esses $
eas pc t3
~ mmm~
apresent
gado, cc - era hom dum joã Brigo era seu sotaq Farroupill bachas de com grand guajar gaú, panheiros 1,
- Tu,
Muito sk - Quen
Rodrigo,
por
k
9 m„ i

. -9en
e m.
Mas houve _-.,.entes feios. No terceiro dia de marcha dois corar.-.useiros se haviam "estranhado" e atracado num
rara poronco nos tendos. ¡liou uma risada.
284 O ARQUIPÉLAGO
duelo a facão, e a muito custo Toríbio conseguira apartá-los, antes que se sangrassem mutuamente.
Num vilarejo, um dos revolucionários, Pompeu das Dores, sujeito retaco e mal-encarado, violara uma rapariga de doze anos. Pertencia ao grupo comandado por Juquinha
Macedo, que pediu ao comandante da Coluna a punição imediata e severa do criminoso. Consultado, o Cel. Cacique fora de opinião que deviam fuzilar o bandido sumariamente,
para escarmento do resto da tropa. Macedo, porém, estava indeciso quanto " ao tipo de punição que devia aplicar em Pompeu das Dores. Mas o Cel. Licurgo declarou
categórico que era contra a pena de morte, por mais feio que fosse o crime. Rodrigo, que tivera ocasião de ver o estado em que ficara a pobre menina, não podia olhar
para o estuprados sem ter gana de meter-lhe uma bala entre aqueles olhos de sáurio.
Estavam acampados à beira dum capão e tinham amarrado Pompeu a uma árvore. Cantídio dos Anjos rondava-o, mirando-o de esguelha e resmungando:
- Se fosse em 93, canalha, tu já estava degolado. E era eu quem ia fazer o serviço.
Foi, porém, Toríbio quem resolveu o problema. Aproveitando a hora em que o pai dormia a sesta dentro do mato, ordenou: - Desamarrem esse bandido. Eu me encarrego
dele.
E dentro dum círculo formado pelos companheiros, com seus próprios punhos deu uma sova tremenda em Pompeu das Dores, deixando-o por alguns instantes estendido por
terra, a cara inchada e roxa, a deitar sangue pela boca, por entre os dentes quebrados. Depois mandou que seus homens tirassem toda a roupa e as botas do caboclo
e, quando o viu completamente nu, aplicou-lhe um pontapé nas nádegas e gritou:
- Toca, miseravel! Vai-te embora!
Pompeu das Dores saiu a correr pelo campo. Nenhum dos homens que assistiam à cena sequer sorriu.
Mais tarde Toríbio disse ao irmão:
- Pra violentar uma menina como aquela, só mesmo um degenerado. - E. sorrindo, acrescentou: - Tu sabes que não sou santo, mas nesse assunto de mulher não forço ninguém.
Comigo é só no voluntariado ...
Freqüentemente Rodrigo procurava marchar ao lado do paü, observando-o com o rabo dos olhos. Agora que tinha a barba crer cída e quase completamente branca, Licurgo
parecia muito mais velho do que era. Andava encurvado, falava pouco como sempre, e mais de unta vez perguntara ao filho com voz magoada:
- Que estará havendo lá pelo Angico?
LENÇO ENCARNADO 285

Rodrigo sentia que o Velho recalcava outra pergunta: "Como estará a Ismália?"
Tratava de animar o pai. mas ele mesmo não acreditava muito nas próprias palavras. Era possível e até provável que Laco Madruga já tivesse mandado ocupar a estância
de seu inimigo pessoal e político. Imaginara então as depredações que os "provisórios" deviam estar fazendo: o aramado cortado, as cercas derrubadas, a casa emporcalhada,
a cavalhada e o gado arrebanhados, as roças devastadas... Tinha sido uma estupidez abandonar o Angico! - reconhecia ele agora. O melhor teria sido esperar o inimigo
ali em terreno que conheciam. Lembrava-se de que fora essa a sua primeira idéia. O próprio Licurgo, porém, se opusera ao plano, pois queria evitar que se derramasse
sangue e se cometessem violências naqueles campos que tanto amava. Talvez tivesse a- secreta esperança de que o inimigo também os respeitasse.
Rodrigo começava a afligir-se por causa da falta de comunicação de sua coluna com as outras divisões do Exército Libertador. Estavam completamente desligados do
resto dos revolucionários. Nas localidades que ocupavam não havia telégrafo. Numa delas encontraram um homem que lhes ;n~ormara ter "ouvido falar" de levantes em
BaQÓ ~" Imaquã e Alegrete. Achava que a "c * o em todo o Estado.
. Rodrigo vivia assombrado por .,C\ olhos de Alicinha quando se des)" I M voz fina e dolorida voltava-lhe P ç vai morrer!" À noite, antes de
,om exclusão do resto da família.
legam ora lhe davam uma sensa
p que jamais tornasse a ver Alio do Sobrado? E imaginando in
,de precipitar-se sobre Santa hé,
"Peto,, com fúria, tomar a cidade,
ps...
Iro
G i
Alér cirurgiãs que cone que ele j março, es: pois algui xado as v a coluna n
una dois outros médicos: um

atinha uma pequena farmácia,

uelos, nas costas dum burro,

pis dos aguaceiros de fim de

mande freguesia entre a tropa,

haviam tomado chuva e dei

Iam apanhado resfriados. E

_ ~vases, pigarros, escarros, gemi-
286 O ARQUIPÊLAGO
dos. E o médico andara a distribuir comprimidos de aspirina entre a tropa. E quando uma tarde encontraram um sítio no caminho e viram no pomar alguns pés de limoeiros
carregados, Toríbio e seus homens o atacaram e, sob o olhar assustado do dono da chácara, colheram todos os limões que puderam. Depois, contando escrupulosamente
os frutos que haviam juntado em vários ponchos, pediu que o Dr. Miguel Ruas redigisse uma "requisição". Ditou: "Vale seiscentos e setenta e quatro limões." Assinou
o -documentoe entregou-o ao dono do sítio, que ficou a olhar para o papel com cara desanimada.
O médico recomendou aos gripados que chupassem limão. E
lá se foram dezenas deles, barbudos ee melenudos, campo em fora, mamando nas frutas verdes e fazendo caretas.
Mas a verdade é -que na sua maioria - conforme Rodrigo muito cedo descobriu -- os soldados da coluna que adoeciam procuravam de preferência Cantídio dos Anjos,
cuja fama de curandeiro era conhecida de todos. Opreto receitava chás de ervas e, quando lhe perguntavam onde estava a sua botica, fazia um gesto largo mostrando
o campo. Ali estavam os remédios que Deus Nosso Senhor dera de graça aos homens. Não havia nada melhor no mundo para curar azia ou úlcera do que chá de "rancorosa".
Na falta dela, carqueja também servia: era boa tomada no mate. Se alguém se queixava do fígado, Cantídio lhe receitava chá de samambaía de talo roxo, ou então fel-da-terra,
amargo como fel de homem. Erva-tostão, como sabugueirinho-do-campo, era também bom "pro figo". "E pras orina?" - "Ah! Raiz de ortiga-braba." Para afinar o sangue
nada melhor que a douradinha-do-campo. E, com autoridade, acrescentava: "Tem muito iodo." Um companheiro queixou-se um dia de dor nos rins e Cantídio dos Anjos,
sem tirar os olhos da estrada, murmurou como um oráculo: "Chá de cipó-cabeludo." O problema era encontrar todas essas ervas nos lugares por onde passavam e no momento
exato em que precisavam delas.
Cantídio era também um grande conhecedor de árvores, pelas
quais parecia ter uma afeição particular. Quando acampavam à beira dum capão, costumava olhar para os troncos e ir dando a cada planta o seu nome.
- Aquela ali é açoita-cavalo, dá uma madeira muito dura. que nem raio racha. A outra, a torrinha, estão vendo? é cabriúva. Não resiste à umidade, uma porquera. A
outra, à direita, a baixinha, é um cambará. Tem lenho amarelo e macio, muito cheiroso. Dura tanto como a guajuvira. Mas, uma coisa les digo, árvore linda mesmo é
o alecrim, que não tem aqui, é raro. Conhecem? Tem o cerne quase tão colorado como este meu lenço, e dá uma flor amarela.
LENÇO ENCARNADO 287

E por causa de todas essas conversas e habilidades o Cantídio se foi transformando aos poucos numa das figuras mais populares da Coluna. Toríbio afeiçoou-se de tal
modo ao negro, que o convidou para fazer parte de seu piquete de cavalaria.
- Qual, seu Bio! Estou meio velho pra lanceiro.
- Não diga isso, Cantídio. Não troco você por muito moço de vinte.
- Pois eu me trocava - sorriu o veterano, mostrando os dentes. - Só que não encontro ninguém que queira fazer o negócio.
E quando Toríbio fez menção de afastar-se. Cantídio deteve-o com um gesto.
- Que estou velho, isso estou, porque quem diz é o calendário. Mas se o senhor quer arriscar, o negro não se despede do convite ...
Quando, naquele mesmo dia, acamparam numa Ganhada, à beira dum lajeado, Toríbio estendido sobre os arreios, as mãos trançadas sob a nuca, repetiu a Rodrigo a conversa
que tivera com Cantídio.
- Vou dar um trabalho danado aos historiadores ro.. Não vão nunca descobrir por que os "Trinta de eram trinta e um ...
Rodrigo não respondeu. Estava de pé, junto de sua barraca. olhando para a estrela vespertina que brilhava no vidro azulado do céu. Nn -1- a-- -"" ~ derredor ele
divisava os vultos
~epitavam fogos. Andava no ar
l Bento, seu fiel ordenança, lhe

rosto. Nos primeiros dias da b menos duas vezes por semana. I o costume e concluíra que o I De vez em quando mirava-se uriosa impressão de "ser outra
cultivava o hábito do banho Ando encontrava sanga, rio ou
Quase sempre depois desses vestir as roupas sujas e suadas. çia no estômago, e amanhecia kando podia comer um assado ás na maioria das vezes tinha carregavam e que
ele já não de que estava podre. Antes, Ias imagens desta jamais lhe I No entanto aqueles homens n o peito, escarravam para o !não raro batia na cara do kquele era
o sórdido reverso
do futuToríbio"
das
sei
o
prepar, ss
Ro
campar Depois, melhor num es pessoa" diário t lagoa. . banhos Sentia a fregüent de carne de conte podia cc sempre vinham fediam" lado e, companh
chei t
a
P
O
288 O ARQUIPÉLAGO

da dourada medalha da guerra. Só uma coisa poderia fazê-lo esquecer todas aquelas misérias: um bom combate. Se não entrassem em ação aquele mês, tudo não passaria
então duma ridícula. indigna passeata.
Aproximou-se do lugar onde o arroz fervia numa panela de ferro. A luz do fogo o Dr. Ruas, deitado de bruços, escrevia num caderno escolar. Rodrigo desconfiava que
o ex-promotor mantinha um diário de campanha.
Era uma noite sem lua. Dentro do capão os pitos acesos dos revolucionários estavam num apaga-acende que levou Líroca a compará-los com "filhotes de boítatá". .
Bento entregou a seu patrão um prato de folha onde fumegava uma ração de arroz com guisado de charque. Rodrigo começou a comer com certa repugnãoncia.
Aproximou-se um vulto no qual ele reconheceu Liroca.
- Está na mesa, major! - convidou.
- Estou sem fome - disse o velho, sentando-se no chão
perto do fogo. As chamas iluminavam-lhe o rosto triste. - Mas
aceito uma colherada de arroz ...
Bento serviu-o. Dois homens vieram sentar-se junto de Rodrigo: Chiru e Neco. Por alguns instantes ficaram todos a comer em silêncio. O Liroca soltou um suspiro e
murmurou:
- Mundo velho sem porteira!
Neco voltou-se para ele e indagou:
- Que é que há, maior?
- Nada. Por que havia de haver?
- Rodrigo - perguntou Chiru - quando é que a gente vai pelear? Estamos ficando enferrujados, eu e a minha carabina Rodrigo encolheu os ombros.
- Pra falar a verdade já não sei quem é que anda evitando combate, se os chimangos ou se nós.
- Napoleão dizia que o movimento é a vitória ilosofou Liroca, que lera, relera e treslera Os Grandes Capitães do
História.
- Sim - replicou Rodrigo - mas movimento tático ou estratégico, e não movimento permanente de fuga. . .
Vultos caminhavam à beira do capão. Fazia frio e os homens estavam enrolados nos seus ponchos.
Agora se ouvia mais forte o cricrilar dos grilos. De repente uma ave frechou o ar num vôo rápido. Morcego? Urutau? Coruja?
- Deve ser chimango - disse sorrindo Toríbio, que se juntara ao grupo.
Rodrigo ergueu-se, insatisfeito com o que comera, e se encaminhou para a barraca do pai. Jamais se deitava sem primeiro ir ver como estava o Velho. Encontrou-o ainda
de pé, sozinho. a pitar um crioulo. Ao ouvir ruído de passos, voltou-se:
- Ah! - murmurou. - 8 o senhor...
- Como está se sentindo?
Licurgo pigarreou, soltou uma baforada de fumaça e depois
disse:
- Bem. Não se preocupe.
Rodrigo teve pena do pai. Aquelas barbas brancas, aquele
súbito envelhecimento o traziam impressionado.
- Às vezes sinto remorsos de ter metido o senhor nesta his
tória ...
O velho ergueu a cabeça vivamente. - Que história?
- A revolução. O senhor não queria vir...
- Quem foi que lhe disse? Ninguém me leva pra onde não
quero. Vim porque achei que devia.
- Se é assim. .. ,
- 12 assim. Está acabado. Não toque mais nesse assunto. Em seguida. como que arrependido de seu tom rude. perguntou
tom voz menos áspera:
- E o senhor vai bem? - Muito bem.
- Pois estimo. Cuide-se. É preciso sair vivo desta empreitada.
voltar pra casa. tratar da sua família e da sua vida.
Seu cigarro se havia anaQado. Licurgo bateu a "pedra do isquei
ro, prend a chama da ponta do cigarro
i ente a fumaça e depois sol
e tornou tou-a pel
Rodr do. .. Qi estaria a levantes"" alguma 1( Lemes? )
Revol Doíam-lh de cidade fortavelm cabeça. C o Neco e fez nítida fundem."
Aqui sobre arrei mo na & deiros. Pi São Paul( hora deter
a, deitou-se e ficou pensan.
ï -ar aquela revolução? Que es do Estado onde houvera reunir muita gente, tomar em seria esse tal de Honório
vinha a intervenção federal? rando uma posição cômoda
se desabituara, na sua vida
Sentia nos ossos. descon~uxou o poncho e cobriu a conversava ali por perto com ko em que a voz do velho se ;Idéias ... ão metais que se

, sujo, barbudo, dormindo lorento... Viu-se a si mesnarra contra Borges de Me, e devia estar no Rio ou em
trevïstas, limpinho, àquela i f o macio. entre lençóis bran-
29O O ARQUIPÉLAGO
cos, num quarto do melhor hotel da cidade. Outras imagens lhe passaram pela mente: o Madruga de uniforme de zuarte... O Pudim atracado com o Maciste Brasileiro na
pista de danças dos Caçado
res; ... De novo pensou na família, em Flora e de novo "viu"" olhos de Alicinha cheios de pavor. .. "Ele vai morrer!" Ficou um
instante a ouvir os grilos. Lembrou-se de que, quando menino, ele descobria um certo parentesco entre os grilos e as estrelas. Não. O que ele imaginava era que se
as estrelas fossem bichos e cantassem, sua voz teria um som raspante, de vidro. como o cricrilar dos grilos. Bobagens!
Aquela noite sonhou que, na sua indumentária de revolucionário, andava a caminhar por uma rua de Paris, constrangedoramente consciente de seu aspecto exótico e do
fato de que não tomava banho havia uma semana. Os que passavam por ele miravam-no com estranheza, franziam ou tapavam o nariz. E o pior era -que ele. Grano de Cambaras,
tinha um nariz imenso e era por isso que sentia mais forte o próprio fedor. A rua" parisiense era ao mesmo tempo, inexplicavelmente, um corredor de campanha, entre
dois aramados. Decidiu entrar numa loja para comprar um frasco de Chantecler para se perfumar. Sentiu que não poderia pronunciar uma só palavra, pois tinha esquecido
todo o francês que sabia, só
se lembrava que ura abbé pieira d"appétit a traversé Paris saras souper.
Sua língua era de charque e pesava como chumbo. Aproximou-se do balcão. mas já não estava numa loja da Rue de ta Paix e sim na casa do Pompílio Fúnebres Pitomboe
que preparava um pequeno caixão branco para um anjo. Quis perguntar para quem era o esquife, mas o medo da resposta lhe trancou a voz na garganta. Pítombo, sem olhar
para ele, compreendeu a pergunta e explicou: "Mas não lhe (leram a notícia? É para a finada Alice, sua mãe." Então ele compreendeu que estava órfão e começou a chorar.
.
Maria Valéria sempre lamentara que os homens não tivessem juízo suficiente para resolverem suas questões - as políticas e as outras - sem duelos ou guerras. No entanto
não podia ver Aderbal Quadros sem se perguntar a si mesma por que não estava ele também na coxilha, de armas na mão, ao lado do genro e dos amigos. Seria por causa
da idade? Não podia ser, porque primo Licurgo era mais velho que o pai de Flora. Por que era, então? Ela mesma acabava se dando a resposta: "O velho é de paz, não
gosta de briga." E declarava-se satisfeita, embora tornasse a se fazer a mesma pergunta na próxima vez que encontrava Babalo
LENÇO ENCARNADO 291

Muita gente em Santa Fé fazia a mesma pergunta mas nem todos encontravam a resposta esclarecedora. Na Todinha de chimarrão que continuava a reunir-se todos os dias
à porta da Casa Sol, um dia alguém puxou o assunto.
- E que me dizem do velho Babalo? Votou que o Chimango caia mas não vai pra revolução. um covarde!
- Veiga saltou do seu canto, de cuia em punho:
- Alto lá! - exclamou. - Covarde? Você não conhece o Babalo como eu. Se conhecesse não dizia isso. Em 93 ele não brigou, é verdade, mas houve um combate brabo na
frente da casa dele, e numa certa hora o Babalo espiou pela janela e viu um homem caído na rua, sangrando mas ainda vivo. Pois sabem o que fez? Abriu a porta, saiu,
e no meio do tiroteio, entre dois fogos, o dos pica-paus e o dos maragatos, as balas passando zunindo por ele, o velho levantou o ferido, botou o homem nas costas,
voltou pra casa e salvou-lhe a vida. E tudo isso naquele seu tranquilo de petiço macera. Você acha então que um homem desses pode ser considerado covarde?
A verdade era que muitos sabiam de "causos" que Aderbal Quadros não só tinha coragem física presença de espírito e uma pachorra imperturbável.
- Conhecem a história
E lá vinha - " tropas, Á
cumprirr, por ali c
Um Gutierre2 de Corri(
- de ban de seu pa ver Baba,
- L
Babai tinha mal de adaga
Babai(
- M
- case
- Pe. bícacho. T
- bolicheir
- boli para perto
- To
que provavam como também
15
do velho Babalo com o correntino?
tempo em que ainda fazia
venda, acercou-se do balcão.
o e os fregueses que estavam lu um rolo de fumo. 1-encarado, um tal de Pancho
caninha. Argentino, natural
I Fasil. Tinha fama de valente ~endo procurado pela polícia a menos de dez mortes. Ao ~m o cotovelo e disse:

h o outro. Pancho Gutierre2 l de ferraria, e estava armado

b chapéu e respondeu pão bebo.

lamou, mordiscando o ~~ do rebenque e gritou i
~stelhano empurrou fechada, ordenou:
barpara
o copo
#Z92 O ARQUIPÉLAGO
LENÇO ENCARNADO 293
Babalo não perdeu a calma.
- Gracias, mas já disse que não bebo.
O correntino recuou dois passos e puxou a adaga. O dono da venda correu para o fundo da casa. Os, outros homens foram se retirando. Só dois ficaram a um canto, neutros,
mas vigilantes.
- Defendase! - bradou o castelhano. - No peleo con hombre desarmado!
A todas estas, brandia a adaga na frente do nariz do outro. Aderbal pediu-lhe que tivesse calma, pois não pagava a pena brigar por tão pouco. Virou-lhe as costas,
pegou o rolo de fumo e ia sair quando o Pancho Gutierrez. gritou
- Covarde! Sinvergüenza! Hijoeputa!
Babalo sentiu esta última palavra como uma chicotada na cara. Estacou, vermelho, agarrou o copo e, num gesto rápido, atirou a cachaça na cara do castelhano, e enquanto
este esfregava os olhob, zonzo, arrancou-lhe a adaga da mão e, antes que ele tivesse tempo de tirar o revólver, aplicou-lhe com tal violência um soco no queixo.
que o correntino caiu de costas, bateu com a nuca no chão e perdeu os sentidos.
- Vá embora ò quanto antes! - disse-lhe um dos homens senão o castelhano le mata quando acordar.
Aderbal, -porém, já se encontrava ajoelhado ao pé do outro, tentando reanimá-lo. Estava desconcertado, infeliz, envergonhado de si mesmo.
- Será que lastimei mesmo o moço? Que barbaridade) Sou um bagual!
Os outros insistiam para que ele fugisse o quanto antes.
- Vassuncê não sabe com quem se meteu. Esse correntino é capaz de le beber o sangue!
- E se ele está morto? - perguntou ainda Aderbal.
- Qual morto) Não vê que o homem está respirando? Vá embora, se tem amor à pele.
Babalo retirou-se, com relutância, lentamente. Parou à porta da venda, voltou-se, soltou um suspiro e murmurou:
- As cosas que um homem é obrigado a fazer na vida) Os senhores me desculpem. Não tive a intenção. E não façim maio juízo de mim. Não foi nenhuma implicância da
minha parte. É que não bebo mesmo.
Montou a cavalo e se foi.
O espírito pícaro de Aderbal Quadros era também muito conhecido em Santa Fé,. Atribuía-se-lhe, entre outros casos, o seguinte diálogo. Estava o velho picando fumo,
a conversar com dois moços, quando um destes lhe perguntou:
- Qual é a sua opinião sobre a barba-de-bode?
Babalo entrecerrou os olhos, hesitou um instante. e depois disse:
- A barba-de-bode é flor de pasto, porque nunca morre nem em tempo de seca, e assim o gado tem sempre o que comer. Campo com barba-de-bode é campo mui valorizado
...
Os rapazes se entreolharam espantados sem saber se o velho falava sério ou não. Aderbal piscou o olho para um tropeiro que os entreouvia. A conversa mudou de rumo
mas de novo voltou para assuntos campeiros. Um dos moços perguntou:
- Seu Babalo, que me diz dos campos do Cel. Teixeira?
O velho, sem pestanejar, respondeu: - Não prestam. Pura barba-de-bode!
Disse isso e retirou-se apressado, como quem bra de que tem algo de urgente a fazer.
Rodrigo já havia observado que, depois de soltar uma piada ou contar o desfecho duma anedota, o sogro se afastava dos interlocutores, sob risadas, como um ator que
saí de cena. Sim, Aderbal Quadros tinha o senso dramático, embora nunca houvesse entrado num teatro em toda a sua vida.
Caminhava gingando, como - se tivesse uma perna mais curta que a outra. Um dia alguém perguntou a D. Laurentina: "Por que é que seu marido rengueia assim? Algum
defeito na perna?" Ela sacudiu a cabeça e respondeu: "Qual! É pura faceirice do velho."
Depois Babalo per sucessão de nos arredor sia onde planta
e tinha alg rg
D. Laurenti
de gente na t moças e sen. ~_ os nomes de
Com rel lucro uma o dinheiro. U incurável oti. sua inabaláve em suma, a a a encontrar à rava a víolên
Vinha du isso nos seus sob palavra, em grande pa:
de repente se lem
i
r
1
84
M- Ao
~is rico da Região Serrana.
i e seus bens de raiz numa
vintém. Arrendava agora
~seís hectares - o Sutil -
Is, criava galinhas e porcas,
Era lá que, no dizer de stancieiro". Punha nome ~`lores levavam o nome de ~vores eram batizadas com ande.
Quadros sempre achara o to ou nenhum valor ao rdera a fortuna fora seu 1 de habilidade comercial,
do homem. Recusava-se,
Estava sempre disposto diam a lei. Só não tole
oa era documento, e por tara dinheiro sem juros, nado. Isso contribuíra
#294 O ARQUIPÉLAGO
Aderbal rinha uma grande veneração, um comovido respeito (que raramente ou nunca se traduzia em palavras, fórmulas ou preceitos) por todas as expressões de vida.
Detestava a brutalidade e tudo quanto significasse destruição e morte. Jamais caçara e não permitia que se caçasse em suas terras. Acolhia no Sutil todos os cachorros
sem dono que lhe apareciam ou que ele recolhia nas ruas de Santa Fé. Curava-lhes a sarna, encanava-lhes as pernas quebradas, pensava-lhes as feridas - conforme fosse
o caso - e í.mediatamente adotava o animal. Os que lhe conheciam todas essas "esquisitices", diziam: "Deve ser alguma doença."
Católico por tradição, . Babalo jamais ia a missa e não levava padre muito a sério. Só entrava em igreja para assistir a missa de sétimo dia, encomendação de defunto,
casamento ou batizado. Acreditava na existência de Deus, isso sim, achava que o Velho devia ser "uma pessoa de bons sentimentos e bem intencionado mas que às vezes
por distração, excesso de preocupações ou qualquer outro motivo, descuidava-se da terra e dos homens, permitindo que aqui embaixo acontecessem injustiças e barbaridades.
Tinha horror às máquinas, que considerava a desgraça do mundo. Achava o aeroplano "uma indecência" e esperava que essa engenhoca jamais viesse sujar os céus de Santa
Fé, pois já bastava o automóvel, que fazia barulho, empestava o ar, é assustava pessoas: e bichos.
Contava-se que nos tempos de tropeiro costumava dormir dentro dos muros dos cemitérios campestres, por serem esses lugares mais seguros e em geral abrigados dos
ventos.
- E se um dia le aparecesse algum fantasma, seu Babalo - perguntou-lhe alguém - que era que o senhor fazia?
- Ora - respondeu o velho - eu olhava pra ele e perguntava: "Que é que vassuncê ganha com isso, meu patrício?" O fantasma não achava resposta, encabulava ... e desaparecia.
16
Naquela tarde de fins de abril, Aderbal Quadros atravessava a Praça da Matriz, rumo do Sobrado, para a sua costumeira visita semanal. Vendo uma aglomeração na frente
da Intendência, pensou."Lá está o Madruga com suas potocas." A dar crédito às notícias que o intendente mandava afixar no seu quadro-negro, os revolucionários andavam
de derrota em derrota e a revolução não duraria nem mais um mês.
Parou para bater o isqueiro e acender o grosso cigarro de palha que tinha entre os dentes. Ficou chupando o crioulo, soltando baforadas, pensando ... Tinha de reconhecer
que apesar de algo
LENÇO ENCARNADO 295
mas vitórias animadoras e de algumas localidades ocupadas, o Exército Libertador tivera aquele mês alguns reveses feios. Havia tentado, mas sem sucesso, apoderar-se
de Uruguaiana. As forças legalistas tinham retomado Alegrete. O Gen. Honório Lemes e o Dr. Gaspar Saldanha se haviam desentendido e isso entre correligionários,
em tempo de revolução, era mau, muito mau. A todas essas o diabo da intervenção federal não vinha. O que vinha mesmo era o inverno, que já se anunciava num ventinho
picante.
Babalo cuspiu sobre a grama dum canteiro e retomou caminho. Um cachorro correu para ele e começou a fazer-lhe festas. "Eles me conhecem. .. " - pensou o velho com
um sereno contentamento. Acocorou-se, acariciou a cabeça do animal, alisou-lhe o pêlo do lombo e depois continuou a andar na direção do Sobrado. Deu uns dez passos,
olhou para trás e sorriu. O vira-lata o seguia, como ele esperava.
Quando entrou no redondel da praça, viu uma cena que o fez estacar, chocado. Dois soldados do corpo provisório local, ambos com a espada desembainhada, perseguiam
um homem que corria a pouca distância deles. Babalo apertou os olhos e reconheceu o perseguido. Era Arão Steín. Tinha perdido o chapéu, seus cabelos fulvos lampejavam
ao sol. Aderbal ficou por um momento sem saber o que fazer. Viu o rapaz tropeçar e cair de borco, com a cara no chão. Num segundo os "provisórios" estavam em cima
dele e o to - lhe aplicava com força um espa, ipitou-se rengueando na direção dos 1 B á aí, p ergueu a espada para um novo golpe, o n ambas as mãos e manteve-o
O91 Ei
no ar, a ; IÊm m m a tava : "Parem com esta barl m~ J o baridade" a gs judeu do chão e prendeu-lhe ambos a m do-o. Stein arquejava, lívido. Dum do um filete de sangue.
"Bandidos! - € $ `- Mercenários!" Babalo reconheceu n m Q O i segurava, um antigo peão de sua estâi m
1 - exclamou ele, escandindo bem as $ a 3 agato, veterano de 93. Que bicho te ro k botaram essa roupa infame no corpo I ° é de vergonha.
OO1 z m = aço.
- á m d al - murmurou.
Stein g

- ( T ~ra o Corpo Provisório, seu Aderbal. ._ R z queixo, pingava-lhe no peito, manchan M- de cabelo caía-lhe sobre os olhos. - te - á , w testo!
n ~+r.
P?
#296 O ARQUIPÊLAGO

- Larguem o rapaz - ordenou Aderbal.
- Estamos cumprindo ordens - explicou o sargento, ainda sem coragem para enfrentar o ex-patrão.
- Ordens de quem?
Naquele instante um tenente do Corpo Provisório, que se aproximara do grupo, inflou o peito e falou grosso: Ordens minhas!
Babalo voltou a cabeça e mirou o outro de alto a baixo. O rapaz teria uns vinte e poucos anos, era alto e magro, e estava enfarpelado num uniforme cortado a capricho,
com talabarte novo: suas botas de cano alto reluziam. Uma grande espada lhe pendia do lado esquerdo do cinturão, ao passo que no direito uma Parabellum escure java,
ameaçadora.
Um grupo de curiosos estava agora reunido em torno daquelas cinco figuras. Aderbal compreendeu logo que o tenentezinho estava. representando para o público. O vira-lata,
a todas essas, continuavaa a andar, saltitante, ao redor do ex-tropeiro.
- Como vais, Tidinho? - perguntou este último. Conhecia o tenente desde que ele nascera. - Como vai a tua mãe? Como é que ela te deixa andar fantasiado desse jeito?
Ouviram-se risinhos em torno.
- Meu nome é Arístides - corrigiu o outro, de cenho franzido. E acrescentou, autoritário: - Fui eu que dei ordens para agarrar esse judeu.
Babalo sorriu, pegou o cigarro apagado que havia posto atrás da orelha, bateu o isqueiro, acendeu o crioulo e só depois de tirar a primeira baforada é que, encarando
de novo o oficial, disse com toda a calma:
- Não sei se te lembras, menino, que há mais ou menos uns
dás mil anos os soldados dum tal de Pilatos agarraram um homem
pra maltratar. Esse homem era também um judeu, tu sabias? O tenentezinho deu um passo à frente: - Levem esse sujeito pra Intendência!
Os olhos de Stein fitaram-se em Aderbal Quadros, que disse: - Se levarem ele, têm de me levar a mim também.
- O senhor está me criando dificuldades - murmurou o
tenente, já não muito seguro de si mesmo.
- E o senhor - retrucou Aderbal - está desrespeitando a
Constituição! Vou falar com o comandante da Guarnição Federal. Pela expressão dos olhos do tenente, via-se que ele estava inde
císo. Aproximou-se de Stein, ainda numa tentativa de manter sua
autoridade e exclamou
- Vamosl
Babalo tocou no braço do soldado que prendia Arão Stein - Largue o outro, menino!
LENÇO ENCARNADO 297

Estas palavras foram ditas num tom de tão enérgica autoridade paternal, que o "provisório" obedeceu imediatamente. Aderbal tomou do braço de Stein, olhou para o
tenente e disse:
- Sabes duma coisa? Quando tu eras pequeninho te peguei no colo, muita roupa me molhaste. Não me venhas agora com ares de herói, que não te recebo.
Disse isso e se foi, conduzindo Stein na direção da calçada, sob o riso dos espectadores. O vira-lata os seguia sacudindo o rabo. O sargento continuava de olhos
no chão. O soldado parecia muito desmoralizado.
- Um momento! - gritou o oficial, levando a mão à espada.
Babalo voltou-se e, com o cigarro colado ao lábio inferior, disse, calmo:
- Cuidado, Tudinho, tu ainda vais te machucar com essa arma.
- tenente ficou, vermelho, olhou em torno e, numa satisfação àquelas testemunhas todas, exclamou:
- Ah! Mas isto não vai ficar assim!
Saiu, pisando duro, na direção da Intendência, seguido pelo soldado. O sargento ficou onde estava, meio encalistrado. Depois, como um conhecido se aproximasse dele,
justificou-se:
- Não vê que fui peão do seu Babalo. Flor de homem! Mesmo que um pai. Como é que eu ia desacatar ele? Nem que me matassem.
- enfiou
Aderbal tou às mulher fez o judeu
- Que é
-Caíe um espadaço
Fizeram-n,
a pele branca arroxeado, qu, preparasse um mento, sacudü
- Pobre
- em segu aproveitando ,
Poucos mi na companhia com cuidado o
- Nada
- judeu 1 das mulheres.
~ da na bainha.
ein no Sobrado e conr. Flora, toda trêmula,
Os bandidos me deram
casaco e a camisa. Sobre desenhava-se um vergão fitou para Laurinda que se para examinar o feri
sua pena numa frase:

lia tesoura de tosquiar e. plenas do rapaz.
~no entrou no Sobrado
meiro examinou Stein
i
io o susto.
or estar seminu diante (sorriso)u para o doutor e disse:
#298 O ARQUIPÊLAGO

- Não fiquei assustado, mas indignado. É diferente.
- Está bem - disse Camerino. - Vamos aplicar umas com
pressas de água vegetomineral nas costas. Faça uns bochechos
de água oxigenada e amanhã vá ao dentista.
Stein ergueu os olhos para Roque e perguntou-lhe em tom
fúnebre
- Não quiseram te pegar também?
- Quiseram - sorriu o outro. - Chegaram a me levar à Intendência. Declarei que sou míope e tenho os pés chatos. A primeira declaração é falsa: a segunda, verdadeira.
Me soltaram sem fazer exame médico. Viram logo que eu ia dar um mau soldado.
Leocádia trouxe o café, que Stein bebeu tremulamente, em lentos goles que pareciam descer-lhe com dificuldade pela garganta.
Dance Camerino transmitiu às mulheres as notícias que tivera aquele dia da Coluna Revolucionária de Santa Fé.
- Reuniram-se provisoriamente às forças de Leonel Rocha, entraram juntos no município de Cruz Alta e tomaram NeuWürttemberg. Depois se separaram e a nossa gente
marchou para lugar ignorado. . .
E como lesse uma interrogação ansiosa nos olhos de Flora, acrescentou
- Não se preocupe. O Dr. Rodrigo, o Cel. Licurgo, o Toríbio e os outros amigos estão todos bem. A Coluna não teve ainda nenhuma baixa.
Aderbal Quadros subiu para ver as crianças. Levava-lhes como de costume caramelos e cigarrinhos de chocolate. No quarto" onde os netos brincavam, ajoelhou-se para
fazer a distribuição. Quando se viu cercado por Jango, Edu, Sílvia e Bibi, pensou satisfeito: "Os meus cachorrinhos." Zeca, como um vira-lata sem dono, aproximou-se,
na esperança de receber também sua ração.
17
Naquele mesmo dia a Coluna comandada por Licurgo Cambará reentrava no município de Santa Fé. Rodrigo pensava nas horas que haviam passado em Neu-Württemberg. colônia
alemã pertencente ao feudo político do Gen. Firmino de Paula. Tivera lá a oportunidade de tomar um banho, comer boa comida, dormir em cama limpa, e ter mulher...
Havia passado mais de um mês numa castidade forçada que era apenas do corpo, nunca do espírito. . Pensava constantemente em mulher, como um adolescente. Ruminava
passadas aventuras e prazeres.
LENÇO ENCARNADO 299

Agora aqui estavam de novo nos campos de Santa Fé, sob um sol dourado, sem saberem exatamente para onde iam. Em NeuWürttemberg haviam tido oportunidade de requisitar
armas e munição de boca e de guerra. Toríbio encantara-se numa colona de ancas calipigicas e levara-a para o quarto de seu hotel, meio a força, desmentindo pelo
menos em parte os seus princípios de que para o ato do amor só aceitava "voluntárias". Passara cinco horas com ela na cama e depois, sempre acompanhado da viçosa
companheira, fora para um café encharcar-se de cerveja. O Dr. Miguel Ruas conseguira organizar um grande baile puxado a gaita e no qual, ainda arrastando uma perna,
brilhara dançando valsas, polcas, mazurcas e chótis. Tivera um rival sério em Chiru, que as moças pareciam preferir, pois com sua basta cabeleira e sua flamante
barba loura, grandalhão e exuberante, parecia um Viking extraviado no tempo e no espaço. Pedro Vacariano também atraíra a atenção das moças do lugar, o que deixara
Rodrigo um tanto irritado, pois sua má vontade e desconfiança para com o caboclo continuavam.


E agora, de novo em marcha, Rodrigo recordava todas essas coisas. Liroca, encolhido sob o poncho; cavalgava a seu lado.
-= Você fez uma conquista bonita - disse ele após um silêncio.
Rodrigo
- Eu? a
_ s
- Ahl
Sim, e11 berg. E ag à casa de do mais ir roso clã. meio de livros, mt antiga, of tarde, ao família, i diletos e a musica
da sua p,
que se a4 as junta: estava n mundo. ceados à
longo
orada" em Neu-Württem-.

~necido ... Fora convidado

quase oitenta anos, viúva

gar, matriarca dum nume

~adeira, de tipo bávaro, no

genros, noras e netos, e

com uma graça de castelã

"bolos e Apfelstrudel, e mais

o. Mostrou-lhe a Bíblia da

~ou-lhe de seus autores pre

othe, "para o senhorr sentirr

quando a velhinha se ergueu

,a um pequeno órgão de fole

entou-se junto dele, estralou

m trecho de Bach. Rodrigo

de ter entrado num outro

egro, os cabelos brancos pen

ado. os móveis, os bibelôs, os
#3OO O ARQUIPÉLAGO

quadros, a louça daquela casa, o cheiro de madeira envernizada que andava no ar - tudo lhe evocava uma Alemanha que ele apenas conhecia através da literatura e de
gravuras de revista.
Ao despedir-se de Frau Wolf, no alpendre, beijou-lhe a mão. E, para mais uma surpresa sua, as únicas palavras de despedida da velha dama foram uns versos de Alfred
de Musset, que ele conhecia dos tempos de academia:
Beau chevalier qui partez pour Ia guerre, Qu"allez-vous faire Si loin d"íci?
Voyez-vous pas que ia nuit est profonde, Et que le monde West que souci?
Desceu a escada com lágrimas nos olhos.
Depois dessa comovedora visita - continuava Rodrigo a pensar - fora em companhia do pai encontrar-se com o Gen. Leonel Rocha, na casa onde este se hospedava. O chefe
maragato recebeu Licurgo com uma simplicidade afável:
- Pois já tinha ouvido falar no senhor... - disse, ao apertar a mão do chefe da Coluna Revolucionária de Santa Fé.
Licurgo cumprimentou-o friamente. E depois, ao ouvir os elogios pessoais que o outro lhe fazia, remexeu-se na cadeira, num visível mal-estar.
O comandante federalista transmitiu ao companheiro as notícias que tinha das operações em outros setores do Estado. O Gen. Honórío Lemes andava "fazendo estrepolias
lá pras bandas do Alegrete". Era vivo e valente, conhecia o terreno como ninguém, e quando a coisa apertava ele se enfurnava no Cerro do Caverá, onde o inimigo não
ousava atacá-lo.
- O que tem atrapalhado o homem - continuou Leonel Rocha - é a falta de munição. O resto ele tem. Ainda há pouco manteve cercada a tropa do Cel. Claudino, mas não
atacou por falta de munição. É uma lástimal
- E o senhor dum modo geral considera a situação boa para nós, general? - perguntou Rodrigo, já que o pai se mantinha calado.
- Pois, amigo, sou um homem rude mas com alguma experiência de revolução. Briguei em 93, tenho andado sempre envolvido com esses pica-paus. Acho que o negócio até
que vai bem... Não ouviram a última? O Gen. Portinho tomou Erechim e deu uma sumanta nos provisórios em Quatro Irmãos. Me informaram que as forças do governo perderam
mais de cinqüenta homens...
LENÇO ENCARNADO 3O1

Havia ainda outras boas notícias. Os assisistas tinham tomado Dom Pedrito, e Zeca Neto por algumas horas ocupara a vila de São Jerônimo, "nas barbas do Borjoca".
Contou também que o caudilho uruguaio Nepomuceno Saraiva havia invadido o Estado, com um grupo de compatriotas, tendo se juntado às forças de Flores da Cunha.
Neste ponto a face do velho guerrilheiro ensombreceu, e foi com voz velada que ele disse:
- É uma barbaridade. Aceitarem o auxílio de mercenários estrangeiros, para ajudarem a matar nossos irmãosl
- Mas o senhor se esquece - replicou Licurgo - que em 93 os federalistas pediram o auxílio do bandido Gumercindo, tio desse mesmo Nepomuceno que agora está ajudando
os borgistas...
Nesse instante Rodrigo gelou. A coisa estava.. ficando feia. . . Juquinha Macedo, que comparecera também à conferência, interveio providencialmente:
- A revolução de 93 acabou, companheiros, são águas passadas. - E desconversou: - Me diga uma coisa, general, o senhor acha muito arriscado atacar Santa Fé agora?
O caudilho de Palmeira olhou pensativamente para a ponta do cigarro e depois respondeu:
- Bueno, pode ser meio cedo, mas impossível não é. Ouvi ruim, agora vai ficar des)ediu quinhentos homens ra...
nítida e imutável. Era
Coluna de Santa Fé às Pará jamais se submeteria
dizer que a rir- An Marl-- aUrn rio
faltada, pois para guarnec
De toda impossível a tropas de L~ ao comando
Pensande quem escara Württember~ parte da Col do Corpo P cavalos e en Balas zuniar cruz, derriba construíra na atirando corr estava alvoro Liroca, agaci debaixo
do F ouvir o rilha
rigo sorria. Desde a pes,e aproximarem de Neu
V i umo, meio arredio. Uma

"Pesa por uma patrulha

1 os obrigara a apear dos

"de pedra dum cemitério.

cheio na ponta duma

o que um joão-de-barro

gigo brigava com alegria,
primeiro combate e ele a fosse maior, mais séria.
a sepultura rasa, tremia ta força que era possível i detonações.
3O2 O ARQUIPÉLAGO

- Que é isso, Liroca? - perguntou Rodrigo em dado mo
mento, sem olhar para o amigo, e atirando sempre.
- É a maleita - respondeu o velho, com voz trêmula.
- Te deita, então. É só uma patrulha. E o esquadrão do
Bío vem aí.
Voltou-se para seus comandados e gritou: - Cessar fogo!
Corriam -agora o perigo de alvejar os próprios companheiros. Ouvia-se o tropel da cavalaria de Toríbio: o chão vibrava como um tambor. O cemitério ficava no alto
duma coxilha, e ali detrás da cerca de pedra, Rodrigo assistiu a um espetáculo que lhe fez bem ao peito. Hip! Hip! Hip! - gritavam os cavalarianos. Atiravam-se de
lanças enristadas em cima da patrulha legalista, que de repente cessou fogo e precipitou-se, declive abaixo, largando as armas. O tenente que a comandava foi o primeiro
a fugir. Ficaram apenas dois soldados de joelho em terra, atirando ainda. Um deles não tardou a cair. O outro conseguiu derrubar com um tiro um dos cavalos, que
projetou longe o cavaleiro. Mas o negro Cantídio, que vinha na frente do piquete, espetou o atirador na sua lança. Já os cavaleiros restantes alcançavam os outros
soldados, que caíam sob o golpe das espadas e lanças. Toríbio fez questão de agarrar o tenente. Laçou-o quando ele ia cruzando uma sanga e trouxe-o a cabresto, coxilha
acima. A encosta estava juncada de feridos e mortos. O lanceiro revolucionário que caíra do cavalo tinha quebrado o braço. O animal estava morto. Tiraram-lhe os
arreios e deixaram-no no campo. Não havia tempo para enterrá-lo.
Os urubus que tenham bom proveito! gritou alguém.
E a coluna retomou a marcha na direção de Neu-Württemberg, levando os prisioneiros. Tinham agora mais vinte Mausers e trezentos e cinqüenta tiros.
LENÇO ENCARNADO 3O3

num campo de craguatás. Era uma noite fria e límpida. A luz da lua cheia, os pendões das ervas-brancas pareciam cobertos de neve.
- Sempre considerei o velho Liroca um homem de valor - disse Toríbio, mordiscando um talo de grama. Depois duma pausa acrescentou : - Te garanto que o perigo me
dá ,uma espécie de gozo, como dormir com uma mulher bonita. Quero dizer: quase...
Rodrigo já não lhe prestava mais atenção. Olhava para as estrelas e pensava na filha. Como seria bom tê-la agora nos braços, beijar-lhe os cabelos, niná-la ...
- Estou com uma saudade danada - Da Flora, dos meus filhos, da minha casa ...
- Por isso é bom não ter família. Quando um homem pensa

na mulher ou nos bacuris começa a se cuidar e acaba ficando um

Sempre achei que solteiro briga
murmurou ele. -
medroso, não se arriscando melhor que casado.
- Bobagem. E do que brigar.
- Pode ser ... em duelos e guerras, estar preparado.
- Qual! Estás prazer de pelear.
- Pode ser. dizer que não ...
Rodrigo ficol,
- Confesso me senti feliz.
forco.. .
- A vida muitos filhos d, ou para Paris, beijam as mão: a bombacha po uns bundinhas, Grande.. Com] Naquele tempo não andava u pra coxilha p!
Rodrigo o
- Bom gente se hum mento nesta
- Inocei tem havido.
- Briga trata de noas,
nunca.
depois,
Bio, há no mundo coisas melhores
não discuto. Mas o homem sempre tem andado desde o princípio do mundo. A gente tem de

inventando essa filosofia para justificar teu
Mas tu mesmo gostas de brigar, não vais me
pensativo por um instante.
^-~ daquele tiroteiozínho sujeira, este descon
De quando em quando Rodrigo olhava de soslaio para Liroca. Como era possível compreender aquele homem? Tinha pavor de tiro e no entanto insistira em vir para a coxilha.
Sua covardia era notória, vinha de 93. Tinha agora idade suficiente para ficar em casa sem desdouro. Mas recusava-se a isso. Parecia fascinado pelo lenço encarnado
e tudo quanto ele significava. Para ele, decerto, ser maragato era algo de mágico. Se não tivesse vindo, viveria envergonhado, sem paz de consciência. "Não sei como
esse velho coração agüenta todas as emoções de guerra" - refletiu Rodrigo. Tornou a olhar para o velho, dessa vez com admiração, porque de repente lhe veio uma dúvida.
Afinal de contas não seria José Lírio o mais verdadeiramenté corajoso de todos eles?
Quando acamparam aquela noite, Rodrigo discutiu o assunta com Toríbio. Estavam ambos deitados lado a lado, sobre os pelegos.
está acontecendo com o Alegre, para o Rio, am uns almofadinhas. uando voltam trocam
es e frescuras ... São
Isso é ruim pro Rio
a mixe com a de 93.
e, morria mais gente,
gatos e pica-paus iam
enos que em 93. mas ziada ...
vel. Mesmo quando se e eu nunca poderia fazer
#3O4 O ARQUIPÊLAGO

parte do teu esquadrão de lanceiros. Matar um homem com uma bala, de longe, é uma coisa. Matar de perto, varar o peito de alguém com a lança ou a espada, sentir
quando o ferro entra na carne, ver o sangue, ahl isso deve ser pavoroso.
- Não sou nenhum bandido, meu prazer está na ação, no movimento e não em matar. Mas uma coisa a gente não deve esquecer: se não matamos o inimigo, ele nos mata.
- Sabes do melhor? Vamos dormir.
ÍNDICE
REUNIÃO DE FAMÍLIA - I 1
CADERNO DE PAUTA SIMPLES 59
O DEPUTADO 65
REUNIÃO DE FM "I i A - II 193
CADERNO DE Pi 237 Ej r
LENÇO ENCAR m 245 ga~
á3~n m e
m9
4"
Fó~
d~O
P z

 

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