Quando alguém adoece gravemente, a sua família se torna a parte mais
fragilizada em todo o processo. A razão disso é que, além dos problemas
emocionais e financeiros que ocorrerão, cada um se sentirá entre três
fogos: a vontade de ajudar, geralmente sem saber como; o questionamento
interior que se estabelece, independentemente da vontade individual: "e
se fosse eu, o enfermo?"; e um sentimento de culpa: "o que foi que eu
fiz para isso estar acontecendo?" ou "o que deixei de fazer para que tal
acontecesse?"
Não acreditamos em fórmulas mágicas para resolver tais problemas.
Contudo, algumas informações podem ser de muita utilidade.
Inicialmente é fundamental que todos se descubram extremamente
importantes para uma possível recuperação do enfermo. Mas saibam também
que necessitam de ajuda para suportar aquele evento e saber exatamente
como agir.
Diante de uma doença grave e até possivelmente incurável, não existem
sentimentos adequados ou inadequados. São, tão somente, sentimentos. Não
existem registros reguladores de suas qualidades ou intensidade.
Contudo, é fundamental que se procure descobrir meios para expressar
tais sentimentos sem se ferir, ou ferir os outros. Física ou
emocionalmente. E cabe a cada um buscar entender que as expressões do
outro - enfermo ou familiar - não significam uma agressão a quem quer
que seja, mas a pura expressão que cada um consegue ter, de seus
próprios sentimentos: medo, angústia, insegurança. Afinal, em situações
de graves crises, quase sempre repetimos o modo de expressar nossas
emoções no dia-a-dia. Nosso trabalho deverá ser, o mais cuidadoso
possível, de não conservar mágoas ou rancores por atos ou palavras do
outro. Afinal também nós poderemos, sem perceber, estar ferindo-o com
nossas reações. Tentar assimilar essas situações, mesmo com insatisfação
momentânea, mas sem arquivar ressentimentos, é o caminho ideal.
Recalcar emoções e sentimentos, engolindo os sapos que eles representam,
não é sinal de coragem ou boa educação. Trata-se apenas de um controle
artificial e extremamente danoso à saúde pessoal e à saúde de nossos
relacionamentos. Todo sapo engolido representará uma cobrança futura que
deteriorará mais ainda a situação. E, para a própria pessoa, será uma
emoção sem expressão que sempre acabará por gerar depressão e
sofrimento.
O curioso é que, se reprimimos um sentimento que julgamos inadequado,
ele será transferido do consciente superficial para o profundo e ali se
tornará mais forte e incontrolável. Quando aceitamos um sentimento - que
nos vem sem pedir licença - e procuramos expressá-lo da forma mais
adequada possível, logo nos livramos dele.
Por querer ajudar, quase sempre sufocamos a expressão dos sentimentos
alheios, dizendo: "Não chore!", "Seja forte!" ou "Fique calmo!" E nada é
pior para um relacionamento do que se sentir tolhido no direito de
sermos nós mesmos.
Por isso, ao assistirmos alguém, devemos perguntar o que ela deseja de
nós, sem querer impor aquilo que achamos que é bom para ela. Afinal, o
que achamos ser o melhor pode ser, para o outro, o pior que lhe possa
acontecer!
Para evitar erros é prudente, além de perguntar o que a outra pessoa
quer, repetir o que entendemos ter sido dito por ela. E confirmar se é
exatamente isso o que ela quer. Mas nunca se deixar surpreender por
respostas às vezes agressivas. Se a outra pessoa está num momento de
profunda raiva contra o problema que está vivendo, pode se tornar
agressiva. A questão é que a agressividade não é contra quem a quer
ajudar, mas contra a própria situação. Contudo, como é difícil
compreender isso! Quase sempre levamos para o lado pessoal e haja mágoas
e rancores para serem arquivados, e extravasados tempos depois!...
Se formos solicitados a fazer algo inadequado ou impossível, podemos
dizer: "Eu quero ajudar mas isso não é possível. Não haverá outra coisa
que eu possa fazer por você?" Essa resposta conserva a comunicação em
aberto e dá ao outro uma oportunidade para reavaliar a sua solicitação.
Outro ponto fundamental é não tentar mudar os sentimentos da pessoa, nem
tentar corrigi-la na sua forma de expressá-los. Isso a fará sentir pior
ainda, achando-se culpada por estar tendo atitudes inadequadas. O mais
correto será ouví-la sem se sentir na obrigação de "salvá-la". Um
familiar, por mais preparado que seja, jamais será um bom "terapeuta"
para um seu parente pois sempre irá transmitir uma postura de "não
aceitação" que será extremamente danosa para o relacionamento entre
ambos.
Outros erros a serem detectados: descobrir se andamos falando mais do
que escutando e, especialmente, concluindo as frases do outro antes que
ele as termine, pela impaciência de ouvi-las até o final. Ou ainda,
ficar fingindo que se escuta, apenas esperando a oportunidade para
contestar tudo aquilo que foi dito pelo outro. Em outras palavras, dando
a ele a corda, para com ela mesma o enforcar.
Talvez essa seja uma ótima oportunidade para se exercitar a difícil arte
do silêncio. Ficar em respeitoso silêncio diante do outro, pronto a
escutá-lo quando ele quiser falar, pode ser a melhor ajuda a ser dada.
Especialmente se, ao silêncio, associarmos um toque gentil, um dar as
mãos, um abraçar afetuoso.
Muitas vezes, numa família tem-se a idéia de que todos, por uma questão
de amor e lealdade, devem ter as mesmas posições e as mesmas reações
diante de uma determinada situação. E quando isso não acontece, é comum
alguém se ressentir e fazer julgamentos, imaginando um possível
afastamento, ou uma perda de amor entre eles. A mulher imagina que o
marido já não lhe ama - ou vice-versa - e os pais já não se sentem
queridos pelos filhos - e vice-versa. Esse será o momento mais
apropriado para se entender que cada um tem reações diferentes a um
mesmo estimulo e que todas as diferenças devem ser aceitas e
respeitadas. Sob pena de tais desamores acontecerem. Esse é o desafio:
tentar aceitar as diferenças!
Finalmente é preciso que se auto avalie para descobrir se não está
exercendo o papel de "salvador" numa determinada situação. O sentimento
de culpa, freqüentemente nos transforma em desastrosos "salvadores". Que
quase sempre tentam transformar o outro num bebê, e num bebê incapaz,
querendo fazer tudo o que ele necessita, mesmo aquela pessoa estando
totalmente capaz para fazer todas as coisas por si só. Tal comportamento
é altamente prejudicial pois pode levar o enfermo a descobrir, naquela
doença, uma série de vantagens, inclusive a da super-atenção que passa a
receber, a qual não tinha nos tempos de saúde. Então, por que reagir à
doença e procurar a cura? Para perder aquelas "vantagens"?
Quase sempre o "salvador" é um "destruidor" de pessoas! Ele pode parecer
carinhoso, competente, afetuoso. Mas na realidade ele está incapacitando
o outro, física e psicologicamente.
O importante é procurar sempre incentivar e recompensar a saúde e nunca
a doença. Esse é o papel fundamental da família. Na doença e
especialmente na saúde. Pois, afinal, se refletirmos um pouco
descobriremos que tudo o que foi dito acima se aplica também ao
relacionamento diário entre as pessoas, mesmo as que se sentem sadias.
Será através da correção de nossa forma de interagir que conseguiremos
conservar a saúde. Física, psicológica e social.
Quase sempre, em nosso relacionamento interpessoal, mais especificamente
com as pessoas mais próximas de nós, tendemos a nos comportar como
"salvadores". Ditamos normas, dizemos o que devem vestir, o que devem
comer, o que devem fazer. Para muitos isso é uma forma de manifestação
do amor e da atenção que temos para com o outro. E por isso mesmo nos
ressentimos quando, recusando nossas colocações, agem de maneira
diversa. Não nos ocorre, e esse é o problema, que a outra pessoa está
fazendo o que melhor lhe apraz, mesmo que não seja aquilo que julgamos
ser o melhor para ela.
Não se pode negar que esse comportamento possa ser movido por um
sentimento afetivo. Contudo ele é mais satisfatório para quem o faz do
que para quem o recebe. Afinal, dizer como devem ser as coisas deixa, no
interior de qualquer pessoa, uma sensação de saber e de poder. Essa
sensação torna-se tão gratificante ao nosso ego que nos impede de
enxergar a realidade: ao invés de estarmos ajudando ao outro, estamos
apenas nos satisfazendo a nós mesmos.
Quando o outro tem uma personalidade forte, irá recusar as determinações
- que são chamadas por quem dá, de "sugestões amorosas" - causando
profundo desgosto no "salvador". Esses desgostos, acumulados ao longo do
tempo, podem minar gravemente um relacionamento e até causar doenças
naquela pessoa cujas determinações não são seguidas sistematicamente. A
qual irá se sentir desvalorizada e mal-amada porque o outro não faz tudo
e exatamente como ela acha ser bom.
Caso o outro não tenha essa personalidade forte, acabará por seguir
sempre aquelas determinações, porém com uma crescente insatisfação
dentro de si. E, da mesma forma, chegará um momento em que o
relacionamento poderá ser afetado ou aquela pessoa irá se tornar
deprimida, deprimindo também o seu sistema imunitário e se fragilizando
a ponto de ser dominada por doença grave e até mortal.
Por tudo isso, é fundamental que cada pessoa faça uma revisão de seu
comportamento interpessoal, buscando sanar os vícios dessa relação, para
o seu próprio bem, para o bem de seus parceiros, para o bem de seus
relacionamentos.
Evaldo A. D'Assumpção
Cirurgião Plástico e Biotanatologista
Renata Coutinho
"Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera;
esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora."
(Rabindranath Tagore)
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